5.4.05

Tratado de Ateologia, de Michel Onfray ( citações)



O filósofo francês Michel Onfray acabou de publicar um novo livro - «Traité d’Athéologie», ed. Grasset, 2005- de onde retiramos algumas citações:



«porque Deus não morreu nem é perecível – contrariamente ao que dizem Nietzsche e Hine. Nem morto nem perecível ele é, porque não é mortal. Um ficção não morre, nem uma ilusão se trespassa, nem muito menos se vai refutar um conto infantil»

(…)

«Deus releva do bestiário mitológico, como milhares de outras criaturas repertoriadas nos dicionários com inúmeras entradas, desde Démeter até Dionísios»

(…)

«O silêncio de Deus convida à conversa da treta dos seus ministros que usam e abusam do epíteto: quem quer que não creia em Deus, torna-se logo um ateu. No pior dos homens, no imoralista, no detestado, no imundo e na incarnação do mal.
Difícil por isso dizer-se ateu…Quando se diz tal, é sempre na perspectiva insultuosa de uma autoridade preocupada em banir, e em marginalizar e condenar»

(…)

«(o primeiro verdadeiro ateu:) Agrada-se que esta genealogia filosófica proceda de um padre: Meslier, santo, herói e mártir da causa ateia…»


(…)

«o ensino da religião reintroduz o coelho na cartola: o que os padres não podem fazer abertamente, podem agora fazê-lo docemente, ao ensinar as fábulas do Antigo e Novo Testamento, as do Corão e dos Hadiths, sob pretexto de permitir os alunos aceder mais facilmente a Marc Chagall, à Divina Comédia e à Capela Sistina ou à música de Ziryab…»

(…)

«ensinar o ateísmo supõe uma arqueologia do sentimento religioso: o medo, a incapacidade de olhar a morte, a impossível consciência da incompletude e da finitude nos homens, a função e o motor que é a angústia existencial. A religião, esta criação ficcional, exige uma desmontagem em boa forma dos placebos ontológicos – como em filosofia se fala da bruxaria e da loucura para produzir uma definição da razão»

(…)

« A época parece ateia, mas somente aos olhos dos cristãos e dos crentes. De facto, ela é niilista.
Os padroeiros de ontem e da véspera têm todo o interesse em fazer passar o pior e a negatividade contemporânea por um produto do ateísmo»

(…)

«Três milénios testemunham dos primeiros textos até hoje: a afirmação de um Deus único, violento, invejoso, quezilento, intolerante, belicoso, que gerou mais ódio, sangue, mortos, brutalidade do que paz…»

(…)

«Que eu saiba nem os Papas, s Princípes, os Reis, os Califas, os Emires brilharam tanto na virtude como Moisés, Paulo, Mahomé brilharam na mortícinio, na venda de tabaco ou nas razzias»

(…)

«os teístas realizam inimagináveis contorções para justificar o mal à superfície do planeta, não deixando nunca de afirmar a existência de Deus a quem nada escapa. Os deístas são um pouco menos cegos, já os ateus parecem já bem mais lúcidos»

(…)

«A missa dominical nunca primou como momento de reflexão, de análise, de cultura e de saber difundido e trocado, e quanto ao catecismo, muito menos. O mesmo se passa nas outras religiões monoteístas. Quer nas orações junto do Muro das lamentações ou nas Cinco Ocasiões diárias dos muçulmanos ora-se, pratica-se as invocações, exerce-se a memória, mas nunca a inteligência»

(…)

«trata-se daqui para diante de conseguir aquilo que Deleuze chama de ateísmo tranquilo, a saber, um cuidado não tanto na negação estática ou de combate a Deus, mas num método dinâmico que desemboque numa proposição positiva destinada a construir após o combate»

(…)

« a superação deste ateísmo cristão – não muito ateu e ainda bastante cristão para meu gosto –permite encarar sem redundância de assim o nomear, um autêntico ateísmo ateu…Este quase que pleonasmo serve para significar uma negação de Deus em conjunto a uma negação de uma parte dos valores que daí resultam, mas ainda(…) para colocar a moral e a política noutras bases que não sejam niilistas, mas pós-cristãs»

(…)

«desconstruir os monoteísmos, desmistificar o judaico-cristianismo – mas também o Islão – para depois desmontar a teocracia , eis as três tarefas inaugurais da ateologia.
Trabalhar em seguida para uma nova ética e criar as condições de uma verdadeira moral pós-cristã, onde o corpo deixe de ser uma punição, a terra um vale de lágrimas, a vida uma catástrofe, o prazer um pecado, as mulheres uma maldição, a inteligência uma presunção, e a vontade uma danação»

(…)

«não se mata um sonho, nem se assassina um subterfúgio. Serão antes estes que nos matam, pois Deus empurra para a morte tudo o que lhe resiste. Em primeiro lugar a razão, depois a inteligência e o espírito crítico»


Citações retiradas do livro de Michel Onfray, «Traité d'athéologie, physique de la métaphysique» (Grasset)

4.4.05

Sartre esteve na Faculdade de Letras do Porto faz hoje 30 anos



Jean-Paul Sartre, escritor, filósofo e activista político francês, acompanhado de Simone Beauvoir, sua mulher e conhecida feminista, visitaram ambos Portugal há 30 anos, a convite do Instituto Francês do Porto, e no dia 4 de Abril de 1975 realizou-se um encontro no Salão Nobre da Faculdade de Letras do Porto, no edifício onde actualmente está instalado o Instituto de Ciências Bio-Médicas Abel Salazar, apinhado de estudantes e professores para ouvirem Sartre, que era olhado com uma aura de intelectual «engagé» que apoiara os estudantes na revolta de Maio de 68.
Com a sala a abarrotar de gente foram lançadas as primeiras perguntas ao casal que, sentados no palco atrás de uma simples mesa, acabaram por confessar que estavam ali mais para fazer perguntas do que propriamente dar respostas que todos os presentes aguardavam. E, uma após outra, todas as perguntas esbarravam com o laconismo interrogativo do pensador existencialista francês.
Quem ali esteve presente não se esquece do ambiente sôfrego de todo o imenso auditório e da fragilidade daquelas duas figuras postadas à sua frente. Sartre com uma inseparável pilha de jornais debaixo do braço, e Simone de Beauvoir com um lenço a realçar a postura elegante que a caracterizava.
A visita de Sartre e Beauvoir a Portugal durou poucos dias e foi passada a fazer contactos com alguns protagonistas daquilo que se chamou o processo revolucionário português desencadeado a partir da Revolução dos Cravos a 25 de Abril de 1974.
À despedida, e em jeito de balanço da sua estadia, Sartre não escondeu a sua alegria e surpresa com o que vira, ao declarar peremptório:
«Portugal alargou o campo do possível»

Os ecossistemas em risco: o esgotamento da natureza ameaça o progresso



Mais de 1.300 cientistas originários de 95 países elaboraram a pedido da ONU um relatório sobre a situação actual dos ecossistemas planetários. Das suas conclusões retira-se um sinal de alarme para o bem estar e o desenvolvimento. O homem tem conseguido alimentar-se melhor graças à agricultura, à piscicultura. Mas as consequências do crescimento económico vão traduzir-se no desaparecimento das espécies, na redução dos insectos polinizadores ou na água doce. E os países pobres serão os principais afectados. Pior ainda: se estes países seguirem o modelo dos países mais ricos, a biosfera será largamente afectada. O custo económico deste atentado à natureza é imprevisível.

Pela 1ª vez, 1.300 investigadores científicos fizeram um ponto da situação dos ecossistemas do nosso planeta. O aumento da produção agrícola reduziu a fome, mas, em contrapartida, a intensidade da acção humana tem degradado significativamente o ambiente. O que significa, simplesmente, que a prazo o bem estar do homem vai deteriorar-se.

«Políticos despertai»! Este é, em termos muito diplomáticos, a mensagem enviada por mais de 1.300 cientistas reunidos a convite da ONU para estudarem e analisarem o actual estado dos ecossistemas da Terra.. No relatório sobre «Avaliação dos ecossistemas para o Milénio», publicado na passada 4ª feira em Tóquio, New Delhi, Cairo, Nairobi, Paris, Washington e Brasília, os seus autores traçaram um panorama muito pessimista do impacte das actividades humanas sobre o ambiente natural. O grupo de cientistas, reunido sob a égide da Universidade das Nações Unidas ( com base em Tóquio) e o Banco Mundial alertam que, caso esta degradação prosseguir, fica em causa o bem estar do homem e os objectivos do Milénio - que tinham sido fixados em 2000, visando reduzir a fome, a pobreza e a doença até 2015 - não poderão ser atingidos. A publicação deste relatório coincide com a fixação dos temas e prioridades do G8, que se reunirá na Grã-Bretanha em Julho próximo, por Tony Blair: a mudança climática e o subdesenvolvimento de África.
Trata-se do estudo mais completo realizado até hoje acerca do estado do nosso planeta. No seu cerne está a constatação de que a acção humana exerce um grande pressão sobre as funções naturais do planeta , pelo que a capacidade dos ecossistemas para responder às necessidades das futuras gerações não pode estar garantida.
Normalmente fala-se do esgotamento dos recursos energéticos mas esquece-se a destruição dos ecossistemas.

Chama-se ecossistema a um conjunto de organismos (plantas, animais, micro-organismos) que agem por interacção, sendo os homens partes integrantes dos ecossistemas. A floresta tropical, os oceanos, a savana são exemplos de ecossistemas, o conjunto dos quais formam a biosfera que é a parte viva do planeta.
A originalidade do estudo é que não se debruça propriamente sobre o ambiente enquanto tal, mas sim em torno dos serviços prestados pelos ecossistemas., tais como a alimentação, a água, o tratamento de doenças, a regulação e equilíbrio dos climas. Ora segundo o relatório cerca de 60 % dos ecossistemas que permitem a vida na Terra estão degradados, degradação essa que se acentuou mais nos últimos 50 anos do que em toda a história da Humanidade, e que se agravará ainda mais nas próximas décadas.
Tal se deve às transformações ambientais que se têm verificado: por exemplo, de 1945 para cá converteram-se mais terras à agricultura que durante os séculos XVIII e XIX.; outro dado ilustrativo é o relativo ao carbono, pois 60% do crescimento da concentração do gás carbónico na atmosfera desde 1750 dá-se só a partir de 1959.
A avaliação feita não é totalmente negativa, uma vez que se registou melhorias significativas no bem estar do homem e no desenvolvimento económico, o que permitiu um aumento da produção agrícola superior ao da população mundial, e uma multiplicação por seis da economia mundial.
Também a proporção de pessoas que sofrem de mal nutrição foi reduzida, assim como melhorou a saúde humana.
O maior problema reside no facto da degradação dos ecossistemas, a continuar, poder impedir a realização dos objectivos do Milénio. Alerta-se ainda para o facto dos países e as populações mais pobres serem as mais atingidas com essa degradação. Além disso, esta tendência contribui para o aumento das desigualdades na medida em que são as populações pobres que estão mais dependentes dos serviços prestados pelos ecossistemas.
Um aspecto preocupante, assinalado pelos investigadores, é a probabilidade acrescida de «mudanças não lineares», o que significa que a partir de certo limiar de degradação, um mudança brusca se pode dar no ecossistema que o enfraquece ou até pode torná-lo incapaz de funcionar normalmente. Um exemplo disto poderá ser a pesca, cujos stocks deixarão de ser aproveitáveis, pura e simplesmente.
Toda esta evolução é agravada com o aquecimento da Terra ( que poderá levar, por exemplo, a transformar a região do Amazonas em savana) e que tornará difícil senão mesmo impossível o restabelecimento dos equilíbrios perdidos.
A conclusão é que a crise dos ecossistemas não é menos grave que a do clima.

(tradução de uma parte do texto sob o título «L’épuisement de la nature menace le progrès» publicado no Le Monde 1 de Abril de 2005)

Era Nuclear ( algumas datas)

16/7/1945
Primeiro ensaio nuclear nos Estados Unidos.
Em Agosto são lançadas as duas bombas nucleares em Hiroshima e em Nagasaki.

1949
Primeiro ensaio nuclear da ex-URSS (Rússia)

1952
Primeiro ensaio nuclear britânico

1958
Um Conferência Internacional realiza-se com vista a estudar a possibilidade de controlar e aprovar uma interdição dos ensaios.
Realizam-se em Outubro reuniões tripartidas de especialistas dos USA, da URSS, e do Reino Unido

1959
O Tratado sobre a Antártida consagra este continente como região desnucluearizada, e fica aberto à adesão dos países

1960
Primeiro ensaio nuclear francês

1963
Os USA, o Reino Unido e a URSS assinam um tratadode interdição parcial dos testes que proíbe a sua realização na atmosfera, no espaço e na água.

1964
Primeiro ensaio nuclear chinês

1/7/1968
Tratado de não-proliferação das armas nucleares (TNP) fica à disposição dos Estados interessados a ratificá-lo. Nesse Tratado os Estados possuidores de armas nucleares ficam obrigados a não transmitir nem armas nem componente a outros Estados que as não possuem. Por sua vez, estes últimos obrigam-se a não adquiri-las.

1990
Últimos ensaios soviéticos e britânicos

1992
Último ensaio americano

1993
A Conferência do desarmamento cria um Comité especial para a interdição completa dos ensaios.

1996
Últimos ensaios chinês e francês

24/9/1996
O Tratado de Interdição de ensaios nucleares (TICE) fica aberto à adesão dos Estados

6/4/1996
França adera ao TICE

Maio de 1998
A índia e o Paquistão realizam ensaios nucleares, antes de anunciar uma moratória sobre os testes

Março de 2005
Até esta data 175 Estados assinaram o TICE

O Futebol S.A. !!!


Falar de «desporto» hoje em dia em Portugal é falar forçosamente de futebol S.A. De facto, o futebol, que era uma modalidade desportiva de origem operária que se popularizara nos subúrbios ingleses pouco depois da revolução industrial na Ingleterra do século XIX , tornou-se nos nossos dias um dos mais rentáveis negócios de entretenimento e espectáculo, só comprável à indústria do cinema de Hollywod.
Os ídolos do futebol cotejam os ídolos cinema e ambos fazem parte, sem dúvida, da moderna iconografia dos tempos que correm.
São ídolos feitos por determinados jornais e canais de televisão que os levam até à fama e enchem o imaginário são adulados não só por multidões de jovens como mulheres e homens adultos que não perdem nenhum pormenor das suas vidas . O mitos constroem-se à base de um formidável aparelho mitómano que não hesita em alimentar o espectáculo do «pão e circo», tal como faziam os antigos imperadores romanos relativamente às massas ululantes que enchiam a antiga capital do império, Roma.
A receita é simples: Faz-se uma lavagem ao cérebro durante toda a semana através de jornais ditos desportivos, de rádios festivais e comerciais, além de doses maciças de programas supostamente desportivos nos canais de televisão com maiores audiências. Agita-se tudo isto, muito bem. Deixa-se cozer em lume brando até domingo e está pronto a sair em ponto de rebuçado.
Para tapar um pouco as aparências as empresas de espectáculos futebol S.A. usam ainda o nome de clubes, falam de associados e alimentam claques de adeptos. Tudo isso não retira, no entanto, o carácter profundamente empresarial do negócio que penetrou em todos os domínios deste espectáculo de massas.
Mas não é só o dinheiro que está por detrás do futebol S.A. Com efeito, se observarmos as multidões que enchem os estádios de futebol encontramos pessoas excitadas, que não param de gesticular e agredir verbal, e quantas vezes, fisicamente quem não lhes agrada, num claro gesto de descompressão catártico. Algumas situações fazem lembrar antigas cerimónias de imolação sacrificial tal é o fanatismo e a transe vivido pelos protagonistas. A bílis libertada servem para enfrentar nova semana de trabalhos e stress.
Há quem diga que isto é futebol e desporto. Eu, pelo contrário, prefiro chamar de futebol S.A. a todo esse show business…

Debate com Daniel Colson sobre filosofia anarquista


Começa-se a entender melhor, nestes princípios do século XXI a força e a originalidade e, sobretudo, a coerência do projecto libertário que não se deve limitar aos contornos que o anarquismo adquiriu a partir do século XIX mas cujo lastro histórico é muito mais extenso. A esta renovação do pensamento libertário não é certamente estranha as novas condições sócio-cultrais das actuais sociedades pós-industriais que certos autores associam ao chamado pós-modernismo. É neste enquadramento que se insere o livro de Daniel Colson, «Os três ensaios da filosofia anarquista».
O anarquismo afirma-se hoje como uma alternativa às insuficiências do pensamento dominante: desde o pensador marroquino Abdallah Laroui até Hanna Arendt, e passando por toda a tradição revolucionária europeia, Colson mostra-nos a originalidade e as potencialidades da concepção libertária nos três ensaios que reuniu no seu último livro.
Daniel Colson vai buscar à história arabo-muçulmana, à concepção de Arendt sobre as «falhas da história» e aos acontecimentos revolucionários de 1848 e da Comuna de Paris referenciais para expor a sua leitura anarquista.
O primeiro ensaio é uma reflexão sobre o pensamento marroquino contemporâneo Abdallah Laroui que, nos comentários que faz da obra de Ibn Khaldûn (1332-1406), evoca a dificuldade do pensamento árabe a abrir-se sobre a racionalidade histórica ao mesmo tempo exterior e anterior. A finalidade de se encontrar no outro e de encontrar o outro em si mesmo gera uma dupla tensão que se traduz num cimento associativo essencialmente positivo e que se opõe frontalmente a qualquer integrismo. A liberdade do outro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade, é, pelo contrário, a sua condição necessária. Colson mostra assim uma relação de fundo entre o pensamento anarquista e a teologia do Islão na medida em que não se pode falar do passado a não ser a partir do presente.
O segundo ensaio é consagrado a Hanna Arendt e à relação que esta estabelece entre história e ficção nas «falhas da história» e nas «brechas do pensamento».É justamente neste interstício que nasce o «era uma vez» da narrativa.
No terceiro ensaio o autor mostra como os acontecimentos revolucionários de 1848 e da Comuna de Paris puderam esgotar a sua força histórica e que toda a tentativa de repetição não pode levar senão ao enfraquecimento das suas potencialidades e do seu significado.

No pensamento libertário moderno, anarquia e realidade são sinónimos segundo Colson.



Para o debate desta problemática realizou-se uma conferência-debate no passado dia 2 de Abril no CIRA emMarselha cujo conferencista foi o próprio autor daquele livro, Daniel Colson, professor de sociologia na Universidade de Saint-Etienne, e autor de «Trois essais de philosophie: islam, histoire, monadologie.” Lignes-Manifestes, 2004. 384p. 23 euros.

C.I.R.A. (centro internacional de investigações sobre anarquismo), Rue Saint-Dominique, 3 13001 Marsella (esquina com Place des Capucines) Tel-fax: 04 91 56 24 17
Correio
cira.marsella@free.fr
Website:
http://cira.marseille.free.fr/

Consultar:
http://raforum.apinc.org/article.php3?id_article=2040
http://www.ainfos.ca/fr/ainfos05137.html

O embaixador norte-americano nomeado para a ONU é contestado por 60 embaixadores americanos



Segundo notícias vinda a público e transmitidas pela imprensa oficial, 60 embaixadores norte-americanos subscreveram um texto a contestar a nomeação de John Bolton como embaixador dos Estados Unidos na ONU., pois segundo se diz «as suas actividades e opiniões levam a pensar não se tratar da pessoas mais indicada».
Recorde-se que Bolton é um falcão republicano que já mostrou ser contrário às operações de manutenção da paz levadas a cabo pelas Nações Unidas.

3.4.05

Squa(r)t da Rue de Rivoli, 59, em Paris, vai ser renovado e reaberto



Tornado já num símbolo habitual para os que costumam passar em frente do nº 59 da Rue de Rivoli, em Paris, o squat ali existente vai fechar para sofrer obras de remodelação e, mais tarde, abrir novamente as suas portas à população em geral.
Recorde-se que este squat – mais conhecido por «squart» - é o emblema do colectivo de artistas conhecido por «Chez Robert-Electron libré» que ocupou aquele espaço - propriedade do município parisiense – há 5 anos atrás. Este squat tem constituído um exemplo de uma conseguida ocupação ilegal e um oásis de liberdade artística. O trio que tomou a iniciativa, KGB ( das iniciais dos seus membros, Kalex, Gaspard e Bruno) decidiu em 1999 ocupar o edifício abandonado e em ruínas e transformá-lo em espaço de criação artística anti-elitista e permitir o acesso da população à criação e fruição artística.
O local acabou, entretanto, por ganhar fama mundial e tinha cerca de 40.000 visitantes por ano, tornando-se um dos centros de arte contemporânea mais conhecidos e visitados da capital francesa.

Solidariedade internacional com a jornalista austríaca Sandra Bakutz


A jornalista austríaca e activista pelos direitos humanos Sandra Bakutz foi no passado dia 10 de Fevereiro presa pelas autoridades turcas no aeroporto de Istambul. Após mais de um mês de prisão arbitrária, o tribunal decidiu-se pela concessão de liberdade preventiva no dia 30 de Março a Sandra Bakutz fixando a data do seu julgamento para o próximo dia 1 de Junho.
A acusação que lhe é imputada – pertencer a uma organização política turca ilegal, o DHKP, Partido-Frente revolucionário de libertação do povo – não foi sustentada por nenhuma prova material.
Sandra Bakutz é jornalista da rádio austríaca Orange 94.0 e do semanário alemão Junge Welt.

Steve Kurtz, acusado de bioterrorismo, recebe apoios da comunidade artística internacional



Steve Kurtz, fundador do Critcal Art Ensemble (CAE) e professor de arte na Universidade de Buffalo, assim como Robert Ferrell, professor de genética da Universidade de Pittsburg, são acusados pela polícia norte-americana de bioterrorismo e de fraude postal.

Face à acusação ridícula de que é alvo, não tem faltado apoios a solidariedade dos mais variados quadrantes, em especial, da comunidade de artistas de todo o mundo que têm expressado o seu apoio e oferecido ajudas monetárias a fim de custear as despesas da defesa.

Recorde-se que em Maio de 2004 Kurtz foi incriminado ( com outros membros do CAE) de bioterrorismo devido ao material documental, que foi encontrado na sua posse, e que pertencia aos seus projectos «GenTerra» e «Free Range Grains» e que estavam relaconados com a investigação biotecnológica.

O Júri do tribunal retirou algumas das acusações mas manteve a de fraude postal, que é punido com 20 anos de prisão. É acusado de comprar bactérias (inofensivas) por 256 dólares para os seus projectos!!!

Desde a década de 1990 que Steve Kurtz é conhecido pelo seu trabalho artístico com implicações sociais e políticas através de trabalhos e projectos que combinam investigação, crítica social, perfomance e novas tecnologias

http://caedefensefund.org
www.critical-art.net

Le déserteur (O Desertor)


Le Déserteur
Poema de Boris Vian
Música e voz de Serge Reggiani

Monsieur le Président,
je vous fais une lettre,
que vous lirez peut-être,
si vous avez le temps.

Je viens de recevoir
mes papiers militaires
pour partir à la guerre
avant mercredi soir.

Monsieur le Président
je ne veux pas le faire,
je ne suis pas sur terre
pour tuer de pauvres gens.

C'est pas pour vous fâcher,
il faut que je vous dise,
ma décision est prise,
je m'en vais déserter.

Depuis que je suis né,
j'ai vu mourir mon père,
j'ai vu partir mes frères,
et pleurer mes enfants.

Ma mère a tant souffert,
qu'elle est dedans sa tombe, e
t se moque des bombes,
et se moque des vers.

Quand j'étais prisonnier
on m'a volé ma femme,
on m'a volé mon âme,
et tout mon cher passé.

Demain de bon matin,
je fermerai ma porte
au nez des années mortes
j'irai sur les chemins.

Je mendierai ma vie,
sur les routes de France,
de Bretagne en Provence,
et je crierai aux gens:
refusez d'obéir, refusez de la faire,
n'allez pas à la guerre,
refusez de partir.

S'il faut donner son sang,
allez donner le vôtre,
vous êtes bon apôtre,
monsieur le Président.

Si vous me poursuivez
prévenez vos gendarmes
que je n'aurai pas d'armes
et qu'ils pourront tirer.

------------------------------------

Tradução para português:


Senhor presidente,
escrevo-lhe uma carta,
que talvez vá ler,
se tiver tempo.

Acabei de receber
os meus papéis militares
para partir para a guerra
antes de 4a-feira à noite.

Senhor presidente
não o quero fazer,
eu não estou na terra
para matar pobre gente.

Não é para o aborrecer,
é preciso que lho diga,
mas a minha decisão está tomada,
vou desertar.

Desde que nasci,
vi morrer o meu pai,
vi partir os meus irmãos,
e chorar os meus filhos.


A minha mãe sofreu tanto,
que está na sepultura,
e faz pouco das bombas,
e faz pouco dos versos.

Quando estive prisioneiro
roubaram-me a minha mulher,
roubaram-me a minha alma,
e todo o meu querido passado.

Amanhã de manhã cedo,
fecharei a porta
no nariz dos anos mortos
irei pelos caminhos.

Mendigarei a minha vida,
nas estradas de frança,
da bretanha à provença,
e gritarei às gentes:
recusem-se a obedecer, r
ecusem-se a fazê-la, n
ão vão à guerra,
recusem-se a partir.

Se é preciso dar o sangue,
vá dar o seu,
sois um bom apóstolo,
senhor presidente.


Se me perseguir
previna os seus guardas
que eu não terei armas
e que eles poderão atirar.

Permacultura

O pensamento de Permacultura foi inicialmente concebido por Bill Mollison como um sistema de agricultura ecologicamente sustentável, utilizado em diversos países.
Mollison fundou o Instituto de Pesquisas de Permacultura, na Austália, que desenvolve várias experiências inovadoras voltadas para a restauração e o uso sustentável da terra através da educação ambiental.

Apesar do conceito de Permacultura ter surgido basicamente na agricultura ecológica, ele acabou por ser extrapolado para uma série variada de outras áreas, como o desenho, a composição paisagística, o projecto de casas ecológicas e de estruturas arquitectónicas, o uso eficiente da água através da reciclagem e armazenamento de água da chuva, o uso de depósitos com tecnologia de compostagem, a reciclagem de nutrientes em solos filtrantes, e mais recentemente, o design.

Permacultura quer dizer cultura permanente que aproveita as facilidades e os produtos da natureza sem causar-lhe dano.

A Permacultura trabalha com 4 princípios básicos que funcionam como um processo cíclico: o 1º princípio constitui a observação da natureza; o 2º está no pensamento sobre a observação realizada; o 3º representa a adaptação das técnicas e o desenho de esquemas permaculturais permanentes; o 4º constitui o fazer na prática o que foi pensado. Chega-se então ao ponto inicial de observação para rematar o ciclo.

O conceito de Permacultura está informalmente por toda a parte.

Desde a revolução industrial, a agricultura tradicional tem abusado da monocultura extensiva de espécies únicas. Ora esta prática tem contribuído em muito para o esgotamento dos nutrientes dos solos e a degradação da microbiologia, além de introduzir elementos químicos artificiais no sistema agrícola dentro dos ecossistemas circundantes.


A agricultura permacultural procura desenvolver tecnologias de baixo impacte ambiental através de processos que favoreçam a natureza.

Mas há outras áreas em que se aplicam os princípios da Permacultura:
- gestão participativa
- eco-restauração
- composição paisagística
- utilização de materiais reciclados ou usados para vários fins
- incorporação dos conceitos de moradia ecológica e o desenho das eco-aldeias
- reciclagem de nutrientes no solo através da compostagem e re.uso de água domésticas
- recuperação de áreas degradada
- etc

Permadesign

Permadesign pode ser definido como o desenho de produto funcional, ecologicamente correcto em termos materiais usados e para a função a ser desempenhada, dentro de uma concepção de uso permanente e que seja esteticamente concebido.
Trata-se de um design de objectos que está preocupado com valores ecológicos desde a sua concepção, forma de fabrico, função e materiais empregados, reciclados ou não, e que vem a constituir um novo rumo na indústria artesanal.
Esta nova escola de design constitui um paradigma novo em franca expansão.

As matérias-primas utilizadas dentro deste conceito podem ser variadas, tais como: o papel reciclado, a borracha e os plásticos descartados e reaproveitados, os meais de ferros-velhos, os ladrilhos de demolições para compor mosaicos, os vidros reciclados para fabricar vasos de flores e objectos de decoração, as telas de plástico usadas na construção civil como assento de cadeiras, o papelão, as casacas de árvores, as pedras e as fibras, entre muitos outros materiais que podem ser utilizados para dar largas à criatividade de cada designer.


O permadesign contrapõe-se ao desenho industrial que é o responsável pelos produtos usados na sociedade de consumo, e que tem um impacte negativo no meio ambiente.

William Morris

Em "News from Nowhere, or an Epoch of Rest" (1891), William Morris narra o seu sonho de uma sociedade melhor, transposta para o séc. XXI, e do papel da arte na edificação da mesma. Assim, nessa sua utopia, os habitantes de Londres recuperaram o gosto pela arte e pela beleza, as pessoas são bonitas, saudáveis, alegremente vestidas, e o simples facto de viver na beleza fez redescobrir o prazer e a alegria da criação; a recompensa do trabalho reside, precisamente, na possibilidade de criar. Os mecanismos disciplinares são inexistentes. A abolição da propriedade privada, da escravidão das mulheres e da tirania familiar instaurou uma sociedade de iguais. Portanto, sem código civil nem criminal. E também sem política. A diferença de opiniões já faz parte, como fazia antes, do «jogo dos mestres da política». A maioria procura convencer as minorias. A Inglaterra é agora um jardim. Desapareceram os «distritos industriais», a maquinaria e a grande indústria já não estragam as paisagens. As aldeias, outrora anexos de distritos industriais, foram reabilitadas, e porque os citadinos foram para lá viver, da supressão da diferença entre a cidade e o campo nasceu uma cultura vivificada pelo intercâmbio entre o espírito urbano e a tradição camponesa. As rivalidades entre nações desapareceram. Nem por isso as raças e os países deixaram de conservar as suas características próprias, porque todos estão «empenhados na mesma empresa». Leitor assíduo de Fourier, subscreveu a crítica deste à civilização e ao feudalismo comercial, enquanto que os textos de Marx lhe inspiraram uma análise do feiticismo da mercadoria, uma crítica da alienação e da divisão do trabalho, e uma pintura da sociedade comunista prometida, em que o indivíduo gozará de uma autêntica alegria de viver e reencontrará não uma natureza selvagem, mas uma natureza que ele transformará em jardim. Morris tem atrás de si um combate de artista contra os malefícios da industrialização e os «empecilhos da civilização». Para ele, a vida civilizada não passa de um ersatz, um sucedâneo em comparação com o que devia ser a vida na terra. O seu desejo de produzir coisas belas levou-o a denunciar a pobreza da cultura na sociedade vitoriana, traduzida, sobretudo, nas «pretensas distracções públicas», que tornam os «momentos de descontracção dos citadinos vazios de sentido». Morris é o herdeiro de uma tradição de crítica social que estigmatizou a fé na máquina, uma tradição inaugurada por Thomas Carlyle e que prosseguiu com John Ruskin e Mathew Arnold. Morris foi o primeiro a praticar esta contestação da degenerescência industrial, como arquitecto do grupo pré-rafaelita e fundador de uma empresa de decoração cujos trabalhos anunciam o "modern style", e, posteriormente, a partir das artes tipográficas, lançando uma casa editora; torna-se, ainda, militante activo na Socialist League, a ala esquerda do socialismo inglês. Não se cansa de dizer que «a causa da arte é a causa do povo». O seu percurso estético e político torna a sua obra duplamente premonitória: por um lado, associa o humanismo romântico à causa da classe operária e anula o fosso entre visão poética e prática política, sendo um dos primeiros críticos de um materialismo restritivo que levou ao empobrecimento da sensibilidade e à anulação do imaginário; por outro lado, pela forma como problematiza os efeitos do capitalismo industrial sobre a civilização e a cultura modernas, Morris anuncia debates que, três décadas depois, irão abrir-se em torno da crise da universalidade que se confunde com a crise dos valores universais de que a alta cultura se orgulha. Com ele esboçam-se os contornos de um imaginário contestatário da produção cultural de massa, antes de esta receber tal nome e se desenvolver. E, principalmente, antes de se vislumbrar a pretensão desta cultura mediada pelo mercado e pela técnica, de reger com mão de ferro o relacionamento social universal.

2.4.05

Eco-feminismos



O termo eco-feminismo foi proposto pela francesa Françoise d’Eaubonne que assim chamou a atenção para a contribuição que o movimento feminista poderia trazer para as lutas ecologistas.
Tal como se podem encontrar vários feminismos, também assim será possível identificar outros tantos eco-feminismos.

Comum ente todos os eco-feminismo é a tese segundo a qual existe um paralelismo e uma mesma lógica entre a relação de dominação dos homens sobre a natureza e a relação de dominação masculina sobre a mulher no contexto das nossas sociedades patriarcais. Ou seja: a caracterização da natureza como objecto não é substancialmente diferente da consideração da mulher como objecto.
As causas para a dominação da mulher e da exploração da natureza são pois de carácter eminentemente histórico-social, das estruturas de poder e de dominação que se institucionalizam em modelos sociais de comportamento e padrões culturais dominantes.
Daí que o eco-feminismo adopte uma perspectiva anti-hierárquica, contra a violência e o militarismo. A resistência feminista e ecologista são dois aspectos da mesma luta para as eco-feministas.

Podemos identificar , entre outras, quatro correntes no eco-feminismo:

a)o eco-feminismo de carácter cultural, próprio do feminismo radical dos anos 70 e 80, que valoriza os aspectos vivenciais e pessoais, sem negar no entanto a problemática sócio-político das questões ambientais. Esta corrente preconiza a procura de novas relações espirituais

b) o eco-feminismo social que se preocupa mais com as questões sociais e as transformações das estruturas sociais e políticas para a natureza e a mulher assumirem outro lugar que não de simples objecto de uso e exploração

c) o eco-feminismo pluralista e contextutalista que defende teses ligadas ao relativismo ético, ao pluralismo e diversidade cultural, e que rejeita as dualidades da cultura ocidental ( homem-natureza, corpo-espírito, razão-emoção, civilizado-primitivo,mental-manual, macho-fêmea). Esta corrente crítica qualquer «masculinização» da mulher o que a levaria a tomar o papel de dominação protagonizado até agora pelo homem.

d) o anarco-feminismo que mobiliza as críticas feministas ao poder patriarcal como as ideias libertárias de crítica aos vários poderes ilegítimos e às estruturas de poder verticais, preconizando formas de organização social de carácter horizontal.

Abel Salazar

pelo professor Nuno Grande


Abel Salazar foi, porventura, a personalidade mais plurifacetada da cultura portuguesa. De facto, na investigação científica como na pintura, na escultura como na gravura, no cinzelado como na literatura, se exprime um espírito original, imaginativo e rigoroso, como não há paralelo na história cultural portuguesa.

Verdadeiro homem da Renascença, associou uma sensibilidade apurada e um sentido crítico arguto a uma necessidade imperiosa de busca de novas referências, que deram a dimensão da obra gigantesca que nos legou.

Não é possível relacionar essa obra com qualquer escola científica, artística, filosófica ou ideológica, porque Abel Salazar não cabia em chavetas sistematizantes, dizendo de si próprio que poderia ser classificado como anarquista científico.

Inovador em todas as manifestações de um espírito inquieto, foi-o também como pedagogo, o que acabou por se tornar uma característica utilizada pelo Conselho Escolar para o afastar do convívio com os alunos e com a Faculdade.
Foi acusado de estar mentalmente perturbado, pois punha alunos a dar aulas teóricas, facto cujo ineditismo para a época revela a preocupação de estimular os mais dotados para a docência. Procurava despertar e orientar o inconformismo natural dos jovens, ensinando-os a pôr questões e a equacionar processos de procura de resposta a essas questões.

Por isso criticava o "urso", aluno que estudava apenas para obter boas classificações numa postura passiva em face do saber oficial.

Abel Salazar manteve o laboratório aberto durante o dia e a noite, de modo a que os alunos pudessem ter acesso, se o quisessem, a todos os meios de aprendizagem, não tendo cedido às pressões dos que pretendiam ser esta atitude perigosa para o património da Faculdade. Assim distinguia os alunos com maior capacidade para programar os tempos de trabalho. A esses estimulava a auto-aprendizagem e a participação em programas de pesquisa laboratorial. A avaliação dessa aprendizagem incluía não só a valorização dos conhecimentos adquiridos, como também a capacidade de observação, o método descritivo, o sentido analógico e a capacidade interpretativa. Estas características não vinham nos livros ou nas "sebentas" mas permitiram distinguir alguns dos que mais tarde foram seus colaboradores e seguidores. Não fora a injustiça e a prepotência que o impediram de continuar a exercer a docência e estavam criadas as condições para se ter constituído uma verdadeira Escola de Histologistas no Porto.

Abel Salazar foi também um excepcional divulgador, escrevendo nos jornais, de grande e pequena tiragem, artigos de divulgação do conhecimento científico e de opinião cívica que são testemunho das qualidades pedagógicas deste professor que paradigmatiza o verdadeiro Mestre.
Recordá-lo nos cinquenta anos da sua morte é um acto salutar para a sociedade portuguesa, cada vez mais carente de referências dignificantes. (* Director do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar)

(Artigo do Prof. Nuno Grande, publicado em 29 de Dezembro de 1996 no jornal Publico)

50 anos (1954-2004) de rock ou a entrada fulgurante da música negra na cultura pop(ular) ocidental

Em 1954 Elvis Presley grava "That's all right mama" nos Sun Studios em Memphis, que ficou conhecida por ser uma música de um rapaz branco que cantava como se fosse um negro. Anteriormente havia outros discos e grupos que tocavam o rock'n roll mas eram todos eles músicos negros.

Em 1955 é editado "Maybelline is released" de Chuck Berry que pela primeira vez se refere explicitamente a duas das constantes do rock'n roll americano: as miúdas e os carros, destapando um filão onde irão inspirar-se figuras e grupos como Beach Boys, Beatles, Rolling Stones, Bruce Springsteen.

Em 1958 Elvis Presley sai do serviço militar com feições já acentuadamente masculinas, e a sua música, apesar de já ter soar um pouco fora-de-moda, é aproveitada pela indústria musical. Pela primeira vez um rocker rebelde vira entertainer.

Em 1961 dá-se o concerto ao vivo de James Brown que constituirá uma acto histórico da dinâmica do r'n'b, uma vez que a influência de Brown nunca deixará de ser notada na musica popular urbana, a começar pelo impacte que teve nos grupos Mod dos anos sessenta.

Em 1964 nasce a Beatlemania. Em 28 de Agosto desse mesmo ano os Beatles encontram-se com Bob Dylan no Hotel Delmonico em New York. Este oferece-lhes um charro e os outros quatro reconhecem que nunca tinham experimentado.

......

......

......

Em Outubro de 2003, pela primeira vez, desde há 50 anos, a lista dos top 10 da oficialíssima Billboard americana só inclui músicos negros. A supremacia da música rap e da R & B é total.. É a música preferida dos adolescentes americanos , brancos e negros.

Sebastião Alba

Sebastião Alba foi um poeta marginal, sem-tecto, que vivia nas ruas da cidade de Braga, depois de ter passado grande parte da sua vida em África.
Vivia e escrevia poesia, palavras afiadas contra a civilização do ruído, do automóvel e da miséria.
Morreu atropelado por uma dessas máquinas volantes que andam atrás do tempo (!!!), por falta...de tempo! Sebastião Alba vivia à margem da civilização. Não queria emprego, não queria status, não queria TV, não queria dinheiro. E por isso mesmo era mais lúcido que muitos de nós... É que ele era capaz de ver o mundo de outra perspectiva.
O 4º livro de poesia e de aforismos de Sebastião Alba com o título singelo de "Albas" mostra-nos como a poesia pode ganhar vida.

1.4.05

Um mentiu sobre a guerra, o outro sobre sexo!

Clinton mentiu sobre assuntos de sexo.
Bush mentiu sobre assuntos da guerra.

Clinton foi julgado e quase expulso da Presidência. Ao Bush nada lhe acontece.

Não é estranho?

Clinton foi julgado e quase expulso da Presidência por ter mentido sobre assuntos de sexo.

E Bush não mentiu sobre assuntos da guerra? E nada lhe acontece!!!
Não é estranho?

E Blair? Agora já não são apenas mentiras?
Agora já se matam os cientistas "traidores" que ousam dizer as verdades à população e ao mundo.
Já para não falar dos assassínios encomendados que matam as princesas "dissidentes"?

Afinal quem são os mentirosos e criminosos?

Será que O USA e a Grã-Bretanha estão a ser governados por uma mafia de criminosos "eleitos" democraticamente?
(Hitler também foi eleito)

Queremos mentiras novas!


Queremos mentiras novas!
Porque as velhas já estão gastas!
A mentira sobre as armas de destruição maciça do Iraque?
Já toda a gente a denunciou (menos os tolos e atrasados mentais)
A mentira sobre a crise económica?
Então não foram os Bancos Portugueses que tiveram em 2004 um grande aumento dos seus lucros?
A mentira sobre os benefícios do Capital?
O Capital é sede do lucro e da rapina, não do desenvolvimento humano. (bem diz a sabedoria antiga que mais fácil é passar um camelo pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus!)
A mentira sobre a competência dos ministros?
Quantos ministros já não saíram dos governo por acusação de cometerem ilegalidades?
Até o António Vitorino, acusado de não declarar impostos, subiu ao cargo de Comissário da União Europeia!
A mentira sobre o Estado como pessoa de bem?
Então os meninos da Casa Pia não estavam entregues à responsabilidade do próprio Estado?
E há alguém que acredita no bom nome do Estado?
A mentira sobre a Igreja como Casa de Deus? Como?
Só realmente se Deus fosse o Diabo......
A mentira sobre a democracia ou o tal poder do povo!
Pusessem os escravos a votar e veríamos se o seu senhor não os obrigaria a votar nele próprio...Ora o mesmo acontece aos assalariados.
Queremos mentiras novas!
Estamos fartos das antigas...

A Televisão, os Fast-Thinkers e as ideias feitas (por P.Bourdieu)



(…) Penso, com efeito, que a televisão ( …) faz correr um perigo muito grande às diferentes esferas da produção cultural, arte, literatura, ciência, filosofia, direito (…) e faz correr um não menor risco à vida política e á democracia.
(…)
O discurso articulado, que foi pouco a pouco excluído dos estúdios de televisão(…) continua, com efeito, a ser uma das formas mais seguras de resistência à manipulação e da afirmação da liberdade de pensamento.
(…)
O acesso à televisão tem por contrapartida uma censura formidável, uma perda de autonomia ligada, entre outras coisas, ao facto de o tema ser imposto, de as condições de comunicação serem impostas (…) em última instância, poderá dizer-se que é a coacção económica que pesa sobre a televisão. Dito isto, não podemos contentar-nos com dizer que aquilo que se passa na televisão é determinado pelas pessoas que a possuem, pelos anunciantes que pagam a publicidade, pelo Estado que paga subsídios(…) É importante sabermos que a NBC é propriedade da General Electric,…que a CBS é propriedade da Westinghouse, que a ABC é propriedade da Disney, que a TF1 é propriedade da Bouygues…

A televisão é um formidável instrumento de conservação da ordem simbólica (…), quanto melhor compreendemos como funciona melhor compreendemos também que as pessoas que nele participam são tão manipuladas como manipuladoras. Muitas vezes, os que manipulam fazem-no tanto melhor quanto mais manipulados são e quanto mais inconscientes estão desse facto…
(…)
A televisão tem uma espécie de monopólio de facto sobre a formação dos cérebros de uma parte muito importante da população
(…)
E, quem conta um conto acrescenta um ponto, a televisão, que pretende ser um instrumento de registo, torna-se instrumento de criação de realidade. Encaminhamo-nos cada vez mais para universos em que o mundo social é descrito-prescrito pela televisão, em que esta se transforma no árbitro do acesso à existência social e política
(…)
Uma das paradas das lutas políticas, à escala das trocas quotidianas ou à escala global, é a capacidade de impor um princípio de visão do mundo, uns óculos que façam com que as pessoas vejam o mundo segundo certas divisões (os jovens e os velhos, os estrangeiros e os Franceses)…
(…)
As escolhas que se operam na televisão são de certo modo escolhas sem sujeito(…) o facto dos jornalistas que, de resto, têm muitas propriedades comuns, de condição, mas também de formação e de origem, se lerem uns aos outros, se verem uns aos outros, se encontrarem constantemente uns com os outros em debates onde aparecem sempre os mesmos, tem o efeito de encerramento e, não devemos hesitar em dizê-lo, de censura tão eficazes – mais eficazes até porque o seu princípio é mais invisível – como os de uma burocracia central, uma intervenção política expressa.
(…)
Se nos perguntarmos, pergunta que poderá parecer um tanto ingénua, como são informadas as pessoas que estão encarregadas de nos informar, veremos que, de um modo geral, são informadas por outros informadores…
(…)
Não podemos representar o meio como se fosse homogéneo: há a arraia-miúda, jovens, subversivos, gente que parte a louça, lutando desesperadamente por introduzir pequenas diferenças na imensa sopa homogénea imposta pelo círculo (vicioso) da informação que circula de maneira circular entre as pessoas que têm em comum – não o devemos esquecer –a mesma submissão às coacções dos níveis de audiência, enquanto os quadros não passam, pelo seu lado, do braço dos mesmos níveis de audiências. (…) Há actualmente uma «mentalidade de níveis de audiência» (…), hoje, cada vez mais, o mercado é reconhecido como instância legítima de legitimação.
(…)
Um dos problemas maiores que a televisão põe é a questão das relações entre o pensamento e a rapidez? A televisão, dando a palavra a pensadores que se considera pensarem a velocidade acelerada, não se condenará a nunca ter mais do que fast-thinkers, pensadores que pensam mais depressa do que a sua própria sombra? (…) A resposta é que pensam por «ideias feitas». As «ideias feitas» de que fala Flaubert são ideias aceites por toda a gente, banais, conformes, comuns, mas são também ideias que, quando as recebemos, já as tínhamos recebido, de tal maneira que o problema da recuperação não chega a pôr-se (…) Quando emitimos uma «ideia feita» é como se não faltasse fazer nada; o problema está resolvido. A comunicação é instantânea, porque, em certo sentido, não existe. Ou é apenas aparente. A troca e lugares-comuns é uma comunicação sem outro conteúdo para lá do próprio facto da comunicação. Os lugares-comuns que desempenham um papel enorme na conversação quotidiana têm a virtude de toda a gente os poder aceitar e aceitar imediatamente: pela sua banalidade, são comuns ao emissor e ao receptor. No pólo oposto, o pensamento é, por definição, subversivo: tem de começar por desmontar as «ideias feitas» e tem de passar em seguida a demonstrar. Quando Descartes fala de demonstração, fala de longos encadeamentos de razões. É uma coisa que leva tempo, é necessário desenrolar um série de proposições encadeadas (…) Se a televisão privilegia um certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimentos culturais predigeridos, prepensados, não é só porque ( e isso também faz parte da submissão à urgência) tem a sua agenda de contactos que é, de resto, sempre a mesma …
(…)
Há, em primeiro lugar, os debates verdadeiramente falsos, que reconhecemos imediatamente pelo que são (…vemos logo que são compadres(…) Há também debates aparentemente verdadeiros, falsamente verdadeiros…


Excertos do livro de « Sur la television» de Pierre Bourdieu
(tradução portuguesa na editora Celta, com tradução de Miguel Serras Pereira)

Duas concepções opostas sobre a Natureza


Concepção dominante = é necessário dominar a natureza
Concepção ecológica = é necessário viver em harmonia com a natureza


Concepção dominante = modelo de desenvolvimento baseado no crescimento económico/material a fim de satisfazer o crescimento da população
Concepção ecológica = modelo económico baseado na satisfação das necessidades materiais simples da população e que se ligam ao objectivo da sua autorealização


Concepção dominante = crença que os recursos são inesgotáveis
Concepção ecológica = noção de que os bens são finitos


Concepção dominante = Progresso e soluções de carácter exclusivamente tecnológico
Concepção ecológica = Tecnologia adequada, e conhecimento científico não-dominante


Concepção dominante = Consumismo
Concepção ecológica = Produzir o suficiente, reciclar

As novas tendências do desespero



Tal como a diatribe é mais literária que o panegírico, assim também o desespero é uma fonte inesgotável de inspiração para o texto que não seja uma simples prosa de escriba mais ou menos inspirado. Acontece que o tempo passa e marca como um ferrete o desespero humano. Ignorá-lo é render-se ao platonismo essencialista dos cultores da metafísica em busca de uma mais que duvidosa quinta-essência. Do outro lado encontramos os determinismos de matizes várias que tudo tentam reduzir a equações causais e estatísticas sem valorar em devida conta o vitalismo que (des)organiza toda a matéria e alimenta o complexo de processos por que passa a vida errante dos elementos.
O desespero é irredutível e insolúvel. Em escalas diferentes, é certo, mas sempre presente no infra como no sobre-humano, na história como na actualidade, em mim tanto como no outro. O que distingue o homem das outras espécies é, segundo Edgar Morin, a consciência da morte, que alimenta, aliás, os seus medos e fantasmas, e dos quais procura esconjurar por múltiplas maneiras (Arte, Religião, etc). Poder-se-á dizer que historicamente a Humanidade atravessou diferentes formas de medo: do pânico (que exigia o correspondente heroísmo), num primeiro momento, evoluiu para a ansiedade e a angústia ( face à redescoberta da solidão humana após a morte de Deus) até desaguar na inquietação actual face às forças tecnológicas que o próprio homem pôs em marcha, não obstante toda a programação e integração dos riscos. No fundo, o medo não procede da vida instintiva e animal, mas é antes um produto do imaginário, uma ideia da morte que cada cultura e cada indivíduo transporta em si mesmo.
No mundo antigo era impossível escapar ao desespero de origem teológica. O quotidiano estava saturado do elemento divino. O próprio imaginário não prescindia também dessa copiosa fonte. As sociedades organizavam-se em função do transcendental e os seus membros viviam os seus desesperos em função dessa misteriosa força que detinha esse estranho poder de dar como retirar a vida. O poder opressivo do deus castigador lançava definitivamente o desespero para os braços escatalógicos da religião. O taoísmo representou talvez uma das poucas excepções a essa tendência, e a Tragédia clássica uma das suas mais belas ilustrações.
A civilização medieval mais não fez que reforçar o desespero humano ao submergir o homem no mundo insondável da Cidade de Deus. . O Carpe Diem rabelaisiano era precisamente uma tentativa de fugir a esse apocalipse dantesco. E não tardou muito a que se tenha acrescentado uma nota de crueldade desumana à herança antiga ao entregar a tutela das penas divinas à Instituição clerical que não hesitou em montar, ao seu serviço, toda uma fria parafernália inquisitorial. As heresias assim como as utopias milenaristas e literárias eram assomos de um desespero incontido que pagavam caro a sua recusa.
O individualismo romântico mudou radicalmente o sentido faustico da existência humana. Esta passou a traduzir-se numa multiplicidade de possibilidades, numa liberdade imanente que escondia uma real angústia face ao vazio. O desespero traduzia este desencantamento do mundo e a consciência de estarmos condenados à solidão. As várias cores e matizes em que se expôs não alteram em nada aquele registo.
A lucidez do pessimismo reaccionário de Schopenhauer ( que exerceu tanta influência em autores tão variados, desde Strindberg, até Beckett, passando por Wagner, Thomas Mann, Kafka, Pirandello, Borges) leva-o a confessar que « a vida oscila, como um pêndulo de relógio, entre o sofrimento e o aborrecimento» e não hesita mesmo a escrever que « a vida de cada um de nós, no seu conjunto, é uma verdadeira tragédia». Baudelaire fala, por sua vez, de “une désespérance voisine de l’anéantissement”, e os filósofos da suspeita ( Marx, Nietsche, Freud) mais não fazem que corroborar a profundeza da dúvida e da incerteza. E d aí em diante há que não nos iludirmos: quanto mais vemos, mais cegos ficamos.
Montherlant ao dar-se conta que estava em vias de cegar, suicida-se («Je deviens aveigle, je me tue»), e com ele uma longa lista de suicidados literários impregna a modernidade social, quais epígonos da morte e do sofrimento desesperado de que é feita a barbárie civilizacional. Mas o caso de Pavese é ainda mais flagrante: a ascenção do fascismo italiano bloqueia totalmente a existência e faz da morte o seu projecto de vida. Primo Levi nunca mais recuperou da sua experiência concentracionária. E Mishima prefere já- e sintomaticamente - a morte como espectáculo.
Apesar das fenomenologias, das hermenêuticas, das retóricas, das teorias de comunicação, a verdade é que um tal paradoxo da cegueira num mundo mediatizado não mais largou a contemporaneidade massificada em que passamos a viver. Acontece que neste planeta de símios a hipersocialização a que a massa está submetida gera contraditoriamente cada vez mais exclusão social! O desespero ganha outros cambiantes. A atomização é acompanhada por um controle social em larga escala, panóptico. A unidimensionalidade de Marcuse e a aldeia global de McLuhan são porventura hoje as metáforas-mundo mais fortes. Baudrillard refere-se a um universo em que há cada vez mais informação e menos significado. E não faltam tentativas para explicar o desespero do homem actual a cargos de ensaístas cotados na bolsa inflacionada da academia . Submergida por uma enxurrada de sinais exteriores e de simbolismos imagéticos , que não domina nem consegue inteiramente decifrar , a vontade humana desespera.
Escritores tão diversos como William S. Burroughs, Don Delillo, Norman Mailer, Pynchon, etc – só para citar os que nasceram nas entranhas do Império Americano - não se cansam de povoar as suas obras de personagens assustadas com o modo como as grandes organizações – não identificáveis, mas com poderes extraordinários e objectivos inconfessáveis - estariam a controlar as suas vidas, influenciando as suas acções e construindo os seus desejos. A teoria da conspiração, tão poderosa na não menos poderosa América do século XX e XXI, e que tem servido de álibi para todos os acontecimentos da vida americana, representa bem o estranho ambiente de desespero em que o massificado homem comum vive no mundo pós-industrial das sociedades do capitalismo avançado. Justamente por as teorias de conspiração não poderem ser confirmadas é que a. paranóia conspirativa cumpre integralmente a sua função. E a sua proliferação e aceitação é tanto mais convincente quanto coincide justamente com o quase, ou mesmo total, desaparecimento dos grandes esquemas explicativos que, apesar de se digladiarem, orientavam até agora a História
. A teoria da conspiração, a paranóia e a ansiedade colectiva das massas ganham hoje novos desenvolvimentos com as chamadas tecnociências, o terrorismo, o fundamentalismo, as nanotecnologias, as mudanças climáticas, a bomba demográfica e o esgotamento de recursos, tudo isto numa Natureza repasteurizada e urbanizada. As actuais sociedades do risco e a multiplicação dos seus riscos ( riscos alimentares, tecnológicos,e profissionais,...) - expressão tão cara aos sociólogos de serviço que desempenham hoje impecavelmente o histriónico papel de Pangloss - obrigam à introdução de princípios como o da precaução e gestão controlada dos riscos, sem, no entanto, minorar nem eliminar a consciência colectiva do medo iminente. Ao mesmo tempo ensaia-se a fabricação do sobre-humano, através da engenharia genética e respectiva parentela, e que levou o filósofo alemão Peter Sloterdijk, num texto polémico, a falar a este propósito da «ganadaria genética» dos humanos, o anarquista primitivista John Zerzan a lançar violentas críticas ao american way of life que se pretende globalizar, e o lobby psy a comprazer-se ( e, já agora, a enriquecer) com toda este mal-estar, a que não falta até um catálogo de apocalipses possíveis, produto de rendosos estudos de futurologia prospectiva.
A literatura não faltou à chamada e a ficção científica acaba por aproveitar o filão. O movimento cyberpunk, ilustra abundantemente alguns dos aspectos inquietantes dos desenvolvimentos tecnológicos e esboça os traços dos futuros cyberbodys.
Mas parece-nos ser noutro lado que o desespero ainda se aloja e se refugia. É no indíviduo cerceado, televigiado, manipulado, perdido , representado na figura emblemático do homem sem qualidades. Naquele indivíduo que – cúmulo irreal da história - para ser aceite socialmente, aceita passivamente ser excluído do mundo dos vivos. Metaforicamente, bem entendido.

Autor – AAS

Texto publicado no nº 1 da revista a Voz de Deus, editada pelas Edições Mortas

31.3.05

Semana Sem Televisão (31 de Março a 12 de Abril)



A Semana Sem Televisão é uma semana internacional que se desenrola em vários países desde há una anos para cá. Registam-se já adesões nos Estados Unidos, no Canadá, na Suiça, na Bélgica, na França. Por enquanto. É que o movimento não pára de crescer.
Trata-se sobretudo de uma acção educativa a convidar para uma pausa e um intervalo no consumo diário e compulsivo de programas televisionados de forma à tomada de consciência da necessidade de sermos mais exigentes quando ligamos a TV, assim como da necessidade de consumir menos e melhores programas.

Outras iniciativas levam também a efeito uma semana anti-TV com objectivos mais radicais pondo em causa a própria TV enquanto meio de comunicação.

Segundo estimativas gerais, no nosso país, cada família vê televisão durante mais de 4h.30 em média por dia em Portugal. Há que experimentar viver de outra maneira, e para começar nada melhor que uma Semana Sem TV

Esta semana de privação voluntária do pequeno ecrã é simultaneamente uma experiência e um pretexto. Permitir-nos-á a todos, jovens e menos jovens, solitários ou em família, fazer o ponto da situação acerca do nosso consumo individual ( a quantidade e a qualidade do que passa na TV, quais são os programas escolhidos, quais são os programas que merecem os nossos ódios de estimação, etc). Além disso, a Semana pode e deve servir para re-inventarmos actividades alternativas à TV, quer elas sejam conviviais, lúdicas, reivindicativas, culturais ou desportivas. Tudo depende da nossa imaginação


Outra iniciativa internacional é a Semana das 100 televisões

Na realidade existe também televisão fora das televisões a que estamos habituados. São muitas vezes as televisões associativas, canais alternativos, e de amadores que propõem produções e conteúdos audiovisuais extremamente interessantes, mas infelizmente pouco conhecidos e que, não poucas vezes, envolvem comunidades locais na montagem e emissão desses programas alternativos. Ora será um boa altura para descobrirmos outras formas de fazer e ver televisão.

Ecologistas da Greenpeace e da Quercos denunciam empresas portuguesas pelo uso ilegal de madeira exótica


Activistas da Greenpeace e da Quercos bloquearam na terça-feira ( 29 de Março) de manhã cedo a entrada da empresa Vicaima, em Vale de Cambra, para denunciarem o uso de madeiras exóticas resultantes do abate ilegal de árvores da Amazónia brasileira e que tinham sido descarregadas nos últimos dias no porto de Leixões. Outras empresas do mesmo ramo, objecto das mesmas acusações, foram a Sonae Indústria, a Ovar madeiras, a Madeicentro e a Madeiporto.

Duas horas de lucidez com N. Chomsky




Duas horas de lucidez com Noam Chomsky é um livro editado pela editorial Inquérito (Lisboa, Março de 2002) e que reúne duas entrevistas dadas em Novembro de 1999 por aquele conhecido pensador e activista, e cuja contracapa aqui se reproduz:

«Perante a superficialidade dos media, a sucessão de comunicados pretensamente neutros e informações não sustentadas uma voz resiste, solitária e irredutível: a de Noam Chomsky. Aos 74 anos é um esteio da contra-cultura. Desde a guerra do Vietname que este pensador radical denuncia o sistema que organiza o mundo em prol das oligarquias financeiras.
Nestas conversas, paradoxais e cáusticas, N. Chomsky expõe-nos os mecanismos da sociedade de consumo, a economia invisível, os verdadeiros centros de poder e o processo de elaboração de um consentimento mudo com as injustiças mais gritantes.
Por detrás da aparente imparcialidade dos meios de comunicação escondem-se pressupostos insustentáveis quando confrontados com as suas contradições.»

Capital económico, linguístico e cultural



Pierre Bourdieu, conhecido sociólogo francês, falecido há poucos anos atrás, e com uma vasta obra no domínio das ciências sociais, mostra como o domínio dos códigos culturais assegura uma posição dominante das elites, que vão acumulando não só capital económico, mas ainda capital linguístico e cultural.
A escola reproduz a ordem social e as relações de dominação na medida em privilegia os princípios e os valores ( a primazia da língua escrita relativamente à dimensão oral; certos aspectos cognitivos em detrimento de outros, etc) que são caros, e que coincidem no fundamental, aos valores da classe dominante.

Portuguesa organiza Sindicato inglês das trabalhadoras sexuais


Segundo notícias aparecidas na imprensa oficial a portuguesa Ana Lopes, de 28 anos, e natural do Porto, com o Curso de Antropologia tirado na University of East London é a mentora e principal activista do único sindicato inglês de trabalhadoras (-es) sexuais, a International Union for Sex Workers (IUSW), criado em Março de 2000 e que até hoje já tem uma considerável adesão de membros filiados, para além do próprio sindicato se ter tornado uma secção da Britain’s Geberal Union, a terceira maior organização sindical do reino Unido (GMB – General Municipal Boilermakers).
Ana Lopes depois de não ter entrado no curso de Filosofia na Faculdade de Letras do Porto rumou para Londres onde se inscreveu e terminou uma licenciatura em Antropologia em 1996, mediante uma tese baseada na metodologia da Action Research . Segundo o seu professor orientador da sua tese, a “Ana é a única estudantes desta universidade que alguma vez fez uma Action Research” .
A própria Ana Lopes é uma sex worker desde há 4 anos quando começou a ter um part-time como operadora de chamadas eróticas numa pequena empresa em Londres. Recentemente foi convidada pela pintora Paula Rego, radicada em Londres, para servir de modelo para os seus desenhos. Neste momento Ana Lopes prepara o seu doutoramento sobre grupos marginais.


Uma Exposição de Arte sob o tema do Mal



Em Turim, mais concretamente no Palacete de caça de Stugnini, perto daquela cidade italiana, está a decorrer uma exposição temática com 180 obras de arte, realizadas desde o século XV até hoje, dedicadas ao tema do Mal e que se propõe fazer uma retrospectiva sobre o tema em termos de artes plásticas.
No acervo reunido inclui-se uma Medusa ( de Peter Paul Rubens de 1617), o «Enterro de Santa Luzia» e «Criança mordida por um lagarto» ( ambos de Caravaggio), assim como peças de Rubens, Goya, Munch, Warhol e Picasso.
Outros quadros presentes são «Retrato de um desconhecido» de Antonello da Messina ( secXV), «Tra me e me» de Margherita Manzelli (1995).
As peças mais significativas do século XX são a escultura «Prisão» de Adolfo Wildt; os rostos disformes de Francis Bacon, a «Cadeira Eléctrica» de Andy Warhol.
A exposição termina com a obra de Maurizio Cattelan, « Crianças Enforcadas», que o autor montara num árvores em plena rua de Milão e que merecera há uns meses atrás a reprovação da população local e tentativas para a sua retirada.

China aumenta o seu orçamento militar em 12,6%


O governos chinês acabou de anunciar um de 12,6% no orçamento militar e, segundo os entendidos, o processo de modernização do exército chinês converterá a China na primeira potência militar da Ásia. Recorde-se que Pequim já subira o seu orçamento da defesa em 11,6% em 2004, 9,6% em 2003, 2 em 17,6% em 2002.
Os potenciais fornecedores de armamento não deixarão de se rejubilar; à cabeça dos quais, como é fácil de adivinhar, se encontram os países europeus e os próprios Estados Unidos.

30.3.05

A dívida ecológica


A dívida ecológica é a dívida acumulada pelos países do Norte em relação aos países do Sul por duas razões: em primeiro, pelas exportações de matéria –primas a preços muito baixos dos países originários para os países altamente industrializados, preços que não incluem os danos ambientais produzidos pela extracção e processamento, nem pela contaminação que tais explorações provocaram ( e continuam a provocar); em segundo, pela ocupação gratuita e barata do espaço ambiental ( a atmosfera, aágua e a terra) resultante dos depósitos dos resíduos produzidos pelos países do Norte.

A dívida ecológica começa com o colonialismo e ainda prossegue sob as mais diversas formas. O conceito de dívida ecológica baseia-se na ideia de justiça ambiental:se todos os habitantes do planeta têm direito à mesma quantidade de recursos e à mesma porção de espaço ambiental, os que usam mais recursos ou ocupam mais espaço têm uma dívida em relação ao demais.


Dívida do Carbono

Os cientistas estão de acordo sobre o facto de que a acumulação dos gazes gerados pelos uso dos combustíveis fósseis provocam um aquecimento do planeta, com consequências potencialmente desastrosas, como a subida do nível do mar, o derretimento dos glaciares, o aumento das áreas desérticas, a diminuição dos rendimentos agrícolas, a extinção das espécies animais e vegetais e o incremento de fenómenos meteorológicos violentos.
Estes efeitos recaem sobre todos os habitantes doplaneta. Mas os países do Sul são os mais afectados: em primeiro, porque são as regiões mais sujeitas a furacões, inundações e à desertificação; em segundo, porque os países pobres dispõem de menos recursos para se defenderes; e em terceiros, porque têm uma economia que se baseia em larga medida no sector primário, que será sempre o mais prejudicado.
Por outro lado, as causas do efeito estifa encontram-se principalmente no grande consumo dos combustíveis fósseis por parte dos países ricos. Por consequência, os países do Norte, cujo desenvolvimento económico e bem estar se baseia no uso intensivo das fontes energéticas responsáveis pela emissão de gazes com efeito de estufa, são devedores em relação aos países do Sul. Essa parte da dívida chama-se Dívida do Carbono.
O cálculo da dívida ecológica está sujeita a várias abordagens. Em 1º lugar porque não não consenso entre os cientistas acerca da quantidade de gazes de efeito estufa antropogénicos que seja aceitável, pela complexidade dos fenómenos atmosféricos envolvidos. Não se sabe em quanto será o aumento da temperatura terrestre em consequência do aumento da concentração dos gazes com efeito de estufa. Em 2º lugar o aumento da temperatura sobre a terra terá consequências muito imprevisíveis uma vez que as inter relações entre os diversos componentes dos ecossistemas podem amplificar os efeitos. Por último, como ainda não existe um mercado de carbono há que usar um preço fictício para estimar o valor monetário da Dívida do Carbono, valor que é pois discutível.
De qualquer forma têm sido feitos esforços para calcular a Dívida do Crabono, o que é útil para se ter uma ideia, ainda que aproximada, do seu montante e para se poder compará-la com o montante da dívida externa. Por exemplo, John Dillon, coordenador da Coligação Ecuménica para a Justiça Económica (ECEJ), em «Ecological Debt: South Tells North Time topay up», parte das recomendações do Grupo Intergovernamental sobre a Mudança Climática, que afirma que as emissões dos gazes com efeito de estufa terão de ser reduzidos em 60% em relação ao nível de 1990. Isto quer dizer que as emissões não poderão superar os 2,8 biliões de toneladas anuais de CO2 ( 0,4 toneladas per capita) e os países industrializados, que representam 20% da população mundial, terão direito a emitir apenas 0,56 biliões de toneladas. Ora como hoje emitem 3,5 biliões, a sua Dívida de carbono será a diferença entre esses dois números, isto é, 2,94 biliões de toneladas.
O valor sa Dívida de Carbono obtêm-se multiplicando esse número pelo preço de uma tonelada de CO2. Como ainda não existe ainda um mercado – e, além disso, o preço por tonelada de CO2, nos países que assinaram o Protocolo de Kioto dependerá da procura, e que depende da redução necessária – é necessário, por enquanto, fazer uma estimativa desse preço. A ECEJ utiliza 3 preços: 10 dólares por tonelada ( umpreço sugerido por alguns meios durante as negociações de Kioto), 12,5 dólares ( quantidade que o governo inglês supostamente pedirá para a quantidade de emissões que conseguirá reduzir, para além do objectivo a que se tinha proposto dos 8%), e 20 dólares ( o preço que o governo da Costa Rica, num projecto piloto de venda de bonos de aborção obtidos mediante a plantação de árvores). Usando esses preços, a Dívida do Carbono dos países do G7 é, respectivamente, de 15,5 , 19,3 , ou 30,9 biliões de dólares. Para se ter uma ideia da magnitude destas quantias, basta dizer que a dívida externa dos países pobres em 2001 somava a quantia de 2,3 biliões de dólares, segundo o Banco Mundia. Da comparação parece evidente que os países do Sul já pagaram há muito a sua dívida externa…
Pode-se ainda dizer que a lógica do conceito da Dívida Ecológica é diferente da que está na base do protocolo de Kioto. De facto, este Protocolo atribui quotas de redução das emissões partindo do nível das emissões de 1990: quem mais contaminasse em 1990 terá mais direito a contaminar no futuro. Pelo contrário, o conceito da Dívida ecológica implica que todos os habitantes da Terra tenham o direito à mesma quantidade de emissões, independentemente do local onde tenham nascido, assim como se segue a regra de que quem mais contamina é maior devedor em relação à humanidade.


Biopirataria


Outra parcela da Dívida Ecológica resulta da apropriação intelectual e da utilização do conhecimento ancestral relacionado com as sementes, o uso de plantas medicinais e outros conhecimentos sobre os quais se baseiam a biotecnologia e a indústria agrícola moderna. É o que se chama a biopirataria.
As características das distintas espécies de plantas e animais domésticos são o produto de uma história milenar de interacção entre elas, com o meio físico e com os seres humanos. As comunidades seleccionaram durante milhares de anos espécies para usá-las como alimento e para efeitos medicianis, e graças a essa interacção modificaram as caracterísitcas das espécies naturais, criando variedades diferentes com propriedades que só alguns grupos de pessoas conhecem. Este conhecimento é precioso para as empresas farmacêuticas, as empresas biotecnológicas e agrícolas, que os utilizam para obter enormes lucros, apesar de nada pagarem às populações locais que lhes propiciaram esses conhecimentos, e que são os verdadeiros proprietários desses conhecimentos.
Um exemplo de bipirataria produziu-se com a Nem – e que foi denunciado pela eco-feminista indiana Vandana Shiva. Esta árvore é usada há milhares de anos na Índia para obter produtos agroalimentares, farmacêuticos e cosméticos. Mas os produtos da Nem e o conhecimento sobre muitas das suas propriedades foram patenteados por certos investigadores e por algumas multinacionais dos países do Norte que obtiveram com isso enormes lucros que, no entanto, não aproveitam às populações indianas.

Tráfico de Resíduos

O sistema industrial produz uma grande quantidade de resíduos, com diferentes graus de toxicidade. Tratar desses resíduos torna-se dispendioso, e tais custos variam conforme as exigências normativas do países. Por essa razão, as empresas dos países do Norte acham rentável exportar tais resíduos tóxicos para os países onde a legislação ambiental é menos severa e, graças a essa menor severidade, desfazer-se desses resíduos.
Um exemplo é o transporte de resíduos eléctricos e electrónicos. Nos últimos anos, cerca de 80% dos aparelhos eléctricos e electrónicos recolhidos nos Estados Unidos para serem reciclados foram exportados para China, Índia e Paquistão, onde são tratdos sob condições altamente prejudiciais para a saúde humana através da incineração ao ar livre, criação de piscinas de ácidos, despejos incontrolados nas áreas rurais… Segundo um estudo da Agência de Protecção Ambiental norte-americana é 10 vezes mais económicos enviar um monitor para a Ásia do que ser reciclado nos Estados Unidos.

O Passivo Ambiental


O termo passivo deriva da linguagem económica. Na contabilidade de uma empresa o passivo é o conjunto de dívidas e ónus que reduzem o activo. Usado em termos ambientais, o termo refere-se ao conjunto de danos ambientais não compensados que as empresas transferem para a colectividade devido a incidentes ou devido ao seu normal funcionamento.
Quando uma empresa causa um dano à colectividade, a responsabilidade moral é clara, mas a sua responsabilidade jurídica depende do sistema legislativo.Frequentemente o contexto permissivo dos países do Sul levam as empresas a não considerar como custos – ou então, considerá-los como muito baixos - os danos ambientais que produzem, para alem de não se verem incentivadas a reduzi-los. Por isso é urgente a criação de uma legislação internacional sobre responsabilidade ambiental. A responsabilização constituiria um forte incentivo à redução dos danos ambientais, pois originaria uma internalização dos custos e dos riscos ambientais que provocarem, para além de ter como consequência a aceitação do princípio de que os recursos ambientais não são bens livres e gratuitos, mas têm um custo.

Quantificar a Dívida Ecológica?

Não se pode dar um valor monetário à Dívida Ecológica no seu conjunto. De facto, há dificuldades que se ligam a um grande número de danos ambientais produzidos desde a época do colonialismo até aos nossos dias que faz ser impossível o seu cálculo total.
Da mesma maneira, a complexidade das relações entre ecossistemas e a sociedade humana faz que seja difícil determinar com exactidão as consequências de uma dano ambiental. As interacções entre os elementos de dois sistemas podem amplificar em muito uma perturbação no equilíbrio inicial e levar a mudanças irreversíveis e imprevisíveis. A contaminação transmite-se e acumula-se ao longo da cadeia trófica e os factores que aumentam o risco são muitos, e às vezes interactuam entre eles, tendo efeitos a longo prazo. Por isso é que é muito difícil isolar o efeito de cada elemento contaminante e estabelecer uma relação linear de causa-efeito.
Por último, a avaliação monetária pode dar conta só de uma parte das perdas associadas com a Dívida Ecológica, mas ignora muitos outros aspectos dessas perdas. Por exemplo, os economistas usam vários métodos para estimar o valor económico de uma vida humana, usando por exemplo o custo-oportunidade de trabalho perdido ou o preço dos seguros de vida. Estes valores reflectem só uma parte das perdas associadas a uma morte, enquanto que muitos outros aspectos não podem ser expressos em termos monetários. Mais a mais, estas estimativas são sempre discutíveis. Porque dependem do rendimento.
Por todas estas razões é que não é possível compensar senão uma pequena parte da Dívida Ecológica. Em muitos casos as populações prejudicadas por uma empresas recusam discutir a quantia da indemnização. No entanto, ao nível empresarial e institucional é mais eficaz usar uma linguagem quantitativa e monetária. Por exemplo, comparar a Dívida Ecológica, expressa em valores monetários, com a dívida externa, pode ser muito útil para demonstrar como esta última já há muito que foi paga, e que são os países do Norte que devem aos do Sul, e não ao contrário. Por outro lado, a avaliação monetária dos danos ambientais é útil num contexto judicial: a compensação económica do dano pode ser a única maneira de que as vitimas serem ressarcidas, para além de constituir um poderoso acicate para as empresas tomarem precauções e reduzir os riscos de acidentes.
A quantificação monetária não é a única maneira de avaliar a Dívida Ecológica: podem-se ainda usar métodos de quantificação física. Alguns dos possíveis indicadores são os que se obtêm da análise dos fluxos de materiais, uma metodologia que consiste em somar todas as toneladas de matéria que entram e saem de um sistema económico. Acontece que um fluxo de materiais não é um indicador directo de contaminação ( um gramo de mercúrio contamina mais que uma tonelada de ferro), mas pode dar uma ideia da dimensão física de uma economia. Usando esta metodologia, podemos observar que, enquanto de um ponto de vista monetário, as importações europeias são aproximadamente iguais às exportações, em termos de peso a Europa importa aproximadamente quatro vezes mais do que aquilo que importa.
Isto quer dizer que as exportações europeias são muito mais caras que as importações, ou seja, que os ingressos obtidos pela venda de bens exportados pode ser utilizado para comprara quatro toneladas de bens importados. Por isso é que os países do Sul se vêm incentivados a vender uma quantidade crescente de bens primários, como combustíveis fósseis, metais, minerais, etc, que produzem muita contaminação e pouca riqueza, ao passo que os países do Norte se especializam em produtos mais elaborados, mais caros e menos contaminantes.
Concluindo, a Dívida Ecológica é um instrumento conceitual sintético e eficaz para tratar das relações injustas Norte-Sul, e um meio adequado para obter o reconhecimento do desequilíbrio no uso dos recursos naturais e na contaminação produzida, a prevenção, isto é, uma série de políticas ambientais e económicas que impeçam a produção de novas dívidas, assim como a reparação –monetária e política – e a compensação, na medida do possível, da dívida já criada e, finalmente, a abolição da dívida externa.

Autora do texto: Daniela Russi, elemento do Observatório da Dívida Ecológica

Texto retirado da revista «Ecologista» nº 42, Invierno 2004/2005, editada pelos Ecologistas en Acción

Heterodoxias versus dogmas


O melhor das igrejas é não pararem de fazer heterodoxos (Ernst Bloch)

Notícia de mais uma condenação inquisitorial da igreja católica, seguida de uma brevíssima história de alguns heréticos

A Congregação para a Doutrina da Fé condenou mais um teólogo, Juan José Tamayo Acosta, depois de já o ter feito recentemente com outros dois: Hans Kung, e Leonardo Boff.

O recém-condenado agradece a atenção de que foi alvo pela dita Congregação e confessa que nunca lhe passara pela cabeça que as altas instâncias eclesiais dessem tanta importância aos seus estudos e investigações, e acrescenta: " quantos colegas meus não gostariam de ser objecto de apreciação por parte de Roma, mas a verdade é que não conseguem. E eu, que sou um teólogo livre por opção e convicção desde os meus anos de juventude, eu que não pertenço ao clero, nem dependo de nenhum bispo, nem sequer ensino em qualquer santuário da dogmática católica, eu simples teólogo é que me foram escolher para ser estudado e avaliado pelas mais altas instâncias eclesiais do Vaticano"

Com ele contam-se muitos outros teólogos malditos: desde logo, Jesus de Nazaré, judeu, crítico da sua religião (o judaísmo), criador de um cisma que levou à fundação de um novo movimento: o cristianismo.; Arrio (256-336) que para salvar o monoteísmo cristão defendeu sem sucesso que Jesus não podia ser Deus( acabou por ser condenado em 325 no Concílio de Nicea, convocado pelo Imperador Constantino no seu palácio de Verão); Nestorio, patriarca de Constantinopla, que tentou mostrar que Maria não podia ser mãe de Deus mas simplesmente de Jesus, o que lhe valeu imediatamente uma condenação e expulsão da Igreja, tendo morrido exilado no deserto do Egipto; Prisciliano(350-384), bispo de Ávila, levava uma vida ascética de grande rigor o que lhe valeu a acusação de conduta imoral e de magia, tendo tido o privilégio de ter sido o primeiro herético a ser aplicada a pena de morte; foi também considerado subversiva a obra de Joaquin de Fiore, eremita de Calabria, visionário apocalíptico que anunciara a utopia da Era do Espírito.

Não faltaram também mulheres acusadas de heresia como foi o caso de Guillerma de Boehemia (morta em 1281), venerada pelos seus próximos, o que, no entanto, não impediu de ser acusada, condenada, e como, entretanto, falecera, o seu cadáver teve de ser desenterrado para poder ser queimado publicamente. Juan Hus (1369-1415), reitor da Universidade de Praga, pessoa religiosa e de moral intocável, teve a ousadia de criticar com dureza o clero e os bispos ricos a quem questionou a sua piedade superficial, defendendo uma Igreja desligada do poder temporal. Chamado ao Concílio de Constanza com uma promessa de imunidade, foi-lhe esta retirada mal chegou ao local da reunião. Condenado por heresia foi entregue às mãos do Imperador Segismundo que o torturou até à morte por inalação de fumos venenosos.

Lutero (1483-1546) critica a Igreja que vendia a salvação a preço de ouro, tendo lançado o movimento conhecido por Reforma Protestante. Um Papa logo excomungou-o, mas passados quase 5 séculos depois, outro Papa (João Paulo II) pediu-lhe perdão pela condenação.

O cientista Giordano Bruno (1544-1600), preso pela Inquisição foi queimado vivo na fogueira. Galileo Galilei teve de comparecer junto do Tribunal da Santa Inquisição e sua teoria científica foi considerada herética. O Místico Juan de la Cruz (1542-1491) foi perseguido, preso e caluniado. Não obstante, foi canonizado em 1726, tendo sido considerado doutor da Igreja em 1926.

Outros teólogos mais modernistas não tiveram melhor sorte. Um deles, Alfred Loisy (1857-1940) teve esta frase lapidar: "Jesus predicava um Reino, e afinal apareceu-nos a Igreja"

(texto baseado num texto e informação publicada no El País de 11 de janeiro de 2003)