5.4.05

Ecologia Social

Por Murray Bookchin
Porquê Ecologia Social?

É hoje impossível considerar pouco importantes, marginais ou "burgueses" os problemas ecológicos.

O aumento da temperatura do planeta em virtude do teor crescente de anidrido carbónico na atmosfera, a descoberta de enormes buracos na camada de ozono - atribuíveis ao uso exagerado de clorofluorcarbonetos - que permitem a passagem das radiações ultravioletas, a poluição maciça dos oceanos, do ar, da água potável e dos alimentos, a extensa desflorestação causada pelas chuvas ácidas e pelo abate incontrolado, a disseminação de material radioactivo ao longo de toda a cadeia alimentar... tudo isto conferiu à ecologia uma importância que não tinha no passado.
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A sociedade actual está a causar danos ao planeta a níveis que superam a sua capacidade de auto-depuração. Avizinhamo-nos do momento em que a Terra não terá condições de manter a espécie humana nem as complexas formas de vida não humana, que se desenvolveram ao longo de milhões de anos de evolução orgânica.
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Face a este cenário catastrófico há o risco, a julgar pelas tendências em curso na América do Norte e nalguns países da Europa ocidental, de se tentar curar os sintomas em vez das causas e de pessoas ecologicamente empenhadas procurarem soluções cosméticas em vez de respostas duradouras. O crescimento dos movimentos "verdes" um pouco por todo o mundo - inclusive no Terceiro Mundo - testemunha a existência de novo impulso para combater correctamente o desastre ecológico.
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Mas torna-se cada vez mais evidente que se necessita de bastante mais que de um "impulso". Por importante que seja deter a construção de centrais nucleares, de auto-estradas, de grandes aglomerações urbanas ou reduzir a utilização de produtos químicos na agricultura e na indústria alimentar, é necessário darmo-nos conta que as forças que conduzem a sociedade para a destruição planetária têm as suas raízes na economia mercantil do "cresce ou morres", num modo de produção que tem de expandir-se enquanto sistema concorrencial.
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O que está em causa não é a simples questão de "moralidade", de "psicologia" ou de "cobiça". Neste mundo competitivo em que cada um se acha reduzido a ser comprador ou vendedor e em que cada empresa se deve expandir para sobreviver, o crescimento limitado é inevitável. Adquiriu a inexorabilidade duma lei física, funcionando independentemente de intenções individuais, de propensões psicológicas ou de considerações éticas.
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A Hecatombe de Quarenta Milhões de Bisontes
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Atribuir toda a culpa dos nossos problemas ecológicos à tecnologia ou à "mentalidade tecnológica" e ao crescimento demográfico (para citar dois dos argumentos que mais frequentemente emergem) é como castigar a porta que nos trancou ou o cimento em que caímos e nos machucamos. A tecnologia - mesmo a má como os reactores nucleares - amplifica problemas existentes, não os cria.
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O crescimento populacional é um problema relativo, se efectivamente o é. Não é possível dizer com segurança quantas pessoas poderiam viver decentemente no planeta sem produzir transtornos ecológicos. Os Estados Unidos, na última metade do século XIX, chacinaram quarenta milhões de bisontes, exterminaram espécies como o pombo-correio, cujos bandos obscureciam o céu, destruíram vastas áreas de floresta original e entregaram à erosão terras cultiváveis com a superfície comparável à de um grande país europeu... e todos estes danos foram levados a cabo com uma população de menos de cem milhões de habitantes e uma tecnologia atrasada, pelos padrões actuais.
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Em suma, havia outros factores em jogo além da tecnologia e da pressão demográfica quando este drama se desenrolou. A praga que afligiu o continente americano era mais devastadora que uma praga de gafanhotos. Era uma ordem social que se deve chamar sem cerimónias pelo nome que tinha e tem: capitalismo, na sua versão privada a Ocidente e na sua forma burocrática a Oriente. Eufemismos como "sociedade tecnológica" ou "sociedade industrial", termos muito difundidos na literatura ecológica contemporânea, tendem a mascarar com expressões metafóricas a brutal realidade duma economia baseada na competição e não nas necessidades dos seres humanos e da vida não humana. Assim a tecnologia e a indústria são representadas como os protagonistas perversos deste drama, em vez do mercado e da ilimitada acumulação de capital, sistema de "crescimento" que por fim devorará toda a biosfera se para tanto se lhe consentir sobrevivência suficiente.
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Sem Hierarquia e Sem Classes
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Aos enormes problemas criados por esta ordem social devem juntar-se os criados por uma mentalidade que começou a desenvolver-se muito antes do nascimento do capitalismo e que este absorveu completamente. Refiro-me à mentalidade estruturada em torno de hierarquia e do domínio, em que o domínio do homem sobre o homem originou o conceito do domínio sobre a natureza como destino e necessidade da humanidade. É reconfortante que se haja insinuado no pensamento ecológico a ideia de que esta concepção do destino humano é perniciosa. Contudo, não se compreendeu claramente como surgiu, persiste e como pode ser eliminada esta concepção. E se se quer achar remédio para o cataclismo ecológico, deve procurar-se a origem da hierarquia e do domínio.
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O fato da hierarquia sob todas as formas -domínio do jovem pelo velho, da mulher pelo homem, do homem pelo homem na forma de subordinação de classe, de casta, de etnia ou de qualquer outra estratificação da sociedade - não haver sido identificada como tendo âmbito mais amplo que o mero domínio de classe, tem sido uma das carências cruciais do pensamento radical. Nenhuma libertação será completa, nenhuma tentativa de criar harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza poderá ter êxito se não forem erradicadas todas as hierarquias e não apenas a de classe, todas as formas de domínio e não apenas a exploração económica.
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Estas ideias constituem o núcleo essencial da minha concepção de ecologia social e do meu livro "A Ecologia da Liberdade". Sublinho cuidadosamente o uso que faço do termo "social", quando me ocupo de questões ecológicas, para introduzir outro conceito fundamental: nenhum dos principais problemas ecológicos que hoje defrontamos se pode resolver sem profunda mutação social.
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Esta é uma ideia cujas implicações não foram ainda plenamente assimiladas pelo movimento ecológico. Levada às suas conclusões lógicas significa que se não pode transformar a sociedade presente aos poucos, com pequenas alterações. Quando muito estas pequenas mudanças são entraves que apenas reduzem a velocidade louca a que se está a destruir a biosfera.
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Devemos certamente ganhar o máximo tempo possível nesta corrida contra o biocídio e fazer todo o possível para a deter. O biocídio prosseguirá, a menos que as pessoas se convençam da necessidade duma mudança radical e da de se organizarem para esse efeito. Deve aceitar-se a substituição da sociedade capitalista actual pelo que denomino "sociedade ecológica", isto é, por uma sociedade que implique as mutações sociais indispensáveis para eliminar os abusos ecológicos.
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É imprescindível reflectir e debater profundamente sobre a natureza de tal "sociedade ecológica". Algumas conclusões são quase óbvias. Uma sociedade ecológica deve ser não-hierárquica e sem classes, deve eliminar mesmo o conceito de domínio da natureza. A este propósito têm de se retomar os fundamentos do eco-anarquismo de Kropotkin e dos grandes ideais iluministas da razão, liberdade e força emancipadora da instrução, defendidos por Malatesta e Berneri. Melhor, os ideais humanistas que guiaram os pensadores anarquistas do passado devem ser recuperados na globalidade e transformados num humanismo ecológico que incarne nova racionalidade, nova ciência e nova tecnologia.
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O motivo pelo qual sublinhei os ideais iluministas libertários não é redutível aos meus gostos e predilecções ideológicas. Trata-se realmente de ideais que não podem dispensar atenta consideração de qualquer indivíduo empenhado ecologicamente. Oferecem-se, hoje em todo o mundo, alternativas inquietantes ao movimento ecológico. Por um lado vai-se difundindo, sobretudo na América do Norte, mas também na Europa, uma espécie de doença espiritual, uma atitude contra iluminista que, em nome do "regresso à natureza", evoca racionalismos atávicos, misticismos e religiosidade de índole "pagã". Culto de "divindades femininas", "tradições paleolíticas" (ou "neolíticas", consoante os gostos), rituais "ecológicos" (espécie de ecologia vudu da administração Reagan) vão tomando forma deste e do outro lado do Atlântico em nome duma nova "espiritualidade".
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Este revivalismo do primitivismo não é fenómeno inócuo: frequentemente está imbuído de um neo-malthusianismo pérfido que se propõe, no essencial, deixar morrer de fome os pobres, vítimas principais da carestia do Terceiro Mundo, com a finalidade de "reduzir a população". A Natureza, diz-se, deve ser deixada livre para "seguir o seu curso". A fome e a carestia não são causadas, diz-se, pelos negócios agrários, pelo saque levado a cabo pelas grandes empresas, pelas rivalidades imperialistas, pelas guerras civis nacionalistas, mas têm a sua origem na superpopulação. Deste modo o problema económico é completamente esvaziado de conteúdo social e reduzido à interacção mítica das forças naturais, frequentemente com forte carga racista de pendor fascizante.
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Por outro lado, está em construção o mito tecnocrático segundo o qual a ciência e a engenharia resolveriam todos os males ecológicos. Como nas utopias de H. G. Wells procura-se fazer acreditar na necessidade duma nova elite para planificar a solução da crise ecológica. Fantasias deste tipo estão implícitas na concepção da terra como "astronave" (segundo a grotesca metáfora de Buckiminister Fuller), que pode ser manipulada pela engenharia genética, nuclear electrónica e política (para dar um nome altissonante à burocracia). Fala-se da necessidade de maior centralização do Estado, desembocando na formação de "mega-Estados", em paralelo arrepiante com as empresas multinacionais. E como a mitologia se tornou popular entre os eco-místicos, promotores dum primitivismo em versão ecológica, o sistema tecnoburocrático logrou grande popularidade entre os "eco-tecnocratas", criadores dum futurismo em versão ecológica.
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Nos dois casos o ideal libertário do iluminismo - valorização da liberdade, da instrução, da autonomia individual - são negados pela pretensão de nos impedir a quatro patas para um "passado" obscuro, mistificado e sinistro, ou de nos catapultar como míssil para um "futuro" radioso, igualmente mistificante e sinistro.
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O Que É a Natureza
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A ecologia social, tal como a concebo, não é mensagem primitivista tecnocrática. Tenta definir o lugar da humanidade "na" natureza - posição singular, extraordinária - sem cair num mundo de cavernícolas anti-tecnológicos, nem levantar vôo do planeta com fantasiosas astronaves e estações orbitais de ficção científica. A Humanidade faz parte da Natureza, embora difira profundamente da vida não humana pela sua capacidade de pensar conceitualmente e de comunicar simbólicamente.
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A Natureza, por sua vez, não é simplesmente cena panorâmica a olhar passivamente através da janela, é a evolução na sua totalidade, tal como o indivíduo é a sua própria biografia e não a simples edição de dados numéricos que exprimem o seu peso, altura, talvez "inteligência" e assim por diante. Os seres humanos não são unicamente uma entre muitas formas de vida, forma especializada para ocupar um dos muitos nichos ecológicos no mundo natural. São seres que, pelo menos potencialmente, podem tornar auto-consciente e, por conseguinte, auto-dirigida a evolução biótica. Com isto não quero dizer que a Humanidade chegue a ter conhecimento suficiente da complexidade do mundo natural para poder ser o timoneiro da sua evolução, dirigindo-a à sua vontade.
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As minhas reflexões sobre a espontaneidade sugerem prudência nas intervenções sobre o mundo natural, (sustentam que se requer) grande cautela nas modificações a empreender. Mas, como disse em "Pensar Ecologicamente", o que verdadeiramente nos faz únicos é podermos intervir na natureza com um grau de auto-consciência e flexibilidade desconhecido nas outras espécies. Que a intervenção seja criadora ou destrutiva é problema que devemos enfrentar em toda a reflexão sobre a nossa interacção com a natureza. Se as potencialidades humanas de auto-direcção consciente da natureza são enormes devemos contudo recordar que somos hoje ainda menos que humanos.
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A nossa espécie é uma espécie dividida - dividida antagonisticamente por idade, carácter, classe, rendimento, etnia, etc. - e não uma espécie unida. Falar de "Humanidade" em termos zoológicos, como fazem actualmente tantos ecologistas - inclusivamente tratar as pessoas como espécie e não como seres sociais que vivem em complexas criações institucionais - é ingenuamente absurdo. Uma Humanidade iluminada, reunida para se dar conta das suas plenas potencialidades numa sociedade ecologicamente harmoniosa, é apenas uma esperança e não apenas uma realidade, um "dever ser" e não um "ser".
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Enquanto não tivermos criado uma sociedade ecológica, a capacidade de nos matarmos uns aos outros e de devastar o planeta fará de nós - como efectivamente faz - uma espécie menos evoluída do que as outras. Não conseguir ver que atingir a humanidade plena é problema social que depende de mutações institucionais e culturais fundamentais é reduzir a ecologia radical à zoologia e tornar quimérica qualquer tentativa de realizar uma sociedade ecológica.
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Vínculos Comunitários
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Como é possível conseguir as transformações sociais de grande alcance que preconizo? Não creio que possam vir do aparelho de Estado, quer dizer, num sistema parlamentar de substituição dum partido por outro (por altamente inspirado que este último possa parecer durante o seu período heróico de formação). A minha experiência com o movimento verde alemão demonstrou-me (partindo do princípio que teria necessidade dessa demonstração) que o parlamentarismo é moralmente nocivo no melhor dos casos e totalmente corrupto na pior das hipóteses. A representação dos verdes no Bundestag confirmou, nestes últimos tempos, os meus piores temores: a sua maioria "realista" é favorável à participação da Alemanha Ocidental na NATO e apoia uma forma de "eco-capitalismo" (contradição nos termos) incompatível com qualquer abordagem ecológica radical.
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Além disso o parlamentarismo mina invariavelmente a participação popular na política, no significado que há muitos séculos lhe é atribuído. Para os antigos atenienses política significava a gestão da polis, isto é, da cidade, directamente pelos cidadãos reunidos em assembleia e não através de burocratas ou de representantes eleitos.
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É verdade que somente os homens eram cidadãos e que, além das mulheres, estrangeiros e escravos eram igualmente excluídos. É ainda verdade que os cidadãos ricos dispunham de recursos materiais e gozavam de privilégios recusados aos cidadãos pobres. Mas é também verdade que a antiga cidade mediterrânea não havia ainda alcançado, há dois mil e tantos anos, o seu pleno desenvolvimento, a "sua verdade" como diria Hegel. A liberdade do cidadão participar na vida política não dependia da tecnologia mas do trabalho: dos escravos, das mulheres e do seu próprio.
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Aristóteles não via qualquer dificuldade em admitir que quando os teares tecessem sozinhos os gregos não necessitariam de escravos, nem - acrescento eu - de explorar o trabalho alheio para dispor de tempo livre para si mesmos. Hoje as máquinas fazem o que Aristóteles dizia e muito mais. Podemos finalmente fruir o tempo livre necessário para nos desenvolvermos e participar amplamente na vida pública sem precisarmos de pôr em perigo o mundo natural nem explorar o trabalho alheio.
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A ecologia radical não pode ser indiferente ás relações sociais e económicas. O delicado equilíbrio entre o uso da tecnologia com fins libertadores e o seu uso com fins destrutivos para o planeta é matéria de apreciação social, mas tal apreciação é grandemente ofuscada quando ecologias sui generis denunciam a tecnologia como mal irrecuperável ou a exaltam como virtude indiscutível. Curiosamente, místicos e tecnocratas têm uma importante característica em comum: nem uns nem outros examinam a fundo os problemas nem seguem a lógica para além das premissas mais elementares e simplistas.
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Uma nova política deveria, quanto a mim, implicar a criação duma esfera pública "de base" extremamente participativa, a nível da cidade, do campo, das aldeias e bairros. O capitalismo provocou a destruição tanto dos vínculos comunitários como do mundo natural. Em ambos os casos encontramo-nos face a simplificação das relações humanas e não humanas, à sua redução a formas interactivas e comunitárias elementares. Mas onde existam ainda laços comunitários e onde - mesmo nas grandes cidades - possam nascer interesses comuns, esses devem ser cultivados e desenvolvidos.
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Estudei este tipo de política comunal (repito: entendo política no sentido helénico, não no seu significado actual que denomino "estatalidade") no meu livro "O Progresso da Urbanização e o Declínio da Cidadania". Por difícil que pareça, na Europa (e em menor grau, creio, nos Estados Unidos) acredito na possibilidade duma confederação de municípios livres como contra-poder de base à centralização crescente do poder por parte do Estado-nação. Quero fazer notar que, neste campo, a política ecológica é em muitos casos não apenas possível mas também coerente com a ecologia concebida como estudo da comunidade, quer humana quer não humana. Uma sociedade ecológica pressupõe formas participativas de base, comunitárias, que tal política se propõe realizar no futuro. A ecologia não é nada se não se ocupar do modo como interactuam as formas de vida para construir e se desenvolverem como comunidades (...).

A Fome no Mundo



Todos os dias, no Planeta, cerca de 100.000 pessoas morrem de fome e das consequências imediatas da fome. 826 milhões de pessoas estão, hoje em dia, crónica e gravemente subalimentadas; 34 milhões delas vivem nos países economicamente desenvolvidos do Norte;o maior número, 515 milhões, vive na Ásia, onde representa 24 % da população total. Mas se considerarmos a proporção das vítimas, é a África Subariana que paga o tributo mais pesado: 186 milhões de seres humanos vivem aí permanentemente mal alimentados, ou seja, 34% da população total da região.A maior parte deles sofre daquilo a que a FAO chama «fome extrema», situando-se em média a ração diária nas 300 calorias abaixo do regime de sobrevivência em condições suportáveis. Os países mais gravemente atingidos pela fome estão situados na África Subsariana (18 países), nas Caraíbas (Haiti) e na Ásia /Afeganistão, Bangladesh, Coreia do Norte e Mongólia.
Todos os 7 segundos, na Terra, uma criança abaixo dos 10 anos morre de fome.
Uma criança com carência de alimentos adequados em quantidade suficiente, desde o nascimento até aos 5 anos, sofrerá as sequelas do facto para o resto da vida. Por meio de terapias delicadas praticadas sob vigilância médica, consegue-se fazer recuperar uma existência normal a um adulto que tenha estado temporariamente subalimentado. Mas a uma criança de menos de 5 anos, é impossível. Privadas de alimentação, as células cerebrais sofreram danos irreparáveis. Reégis Debray chama a setas crianças «os crucificados à nascença».
A fome e a má nutrição crónica constituem uma maldição hereditária: todos os anos, dezenas de milhões gravemente subalimentados dão à luz dezenas de crianças irremediavelmente atingidas. Todas essas mães subalimentadas, e que, no entanto, dão à luz, lembram as mulheres malditas de Samuel Beckett, que «parem a cavalo num túmulo…»
A destruição de milhões de seres humanos pela fome efectua-se numa espécie de normalidade gelada, todos os dias, e num planeta a transbordar de riquezas.
No estádio alcançado pelos meios de produção agrícolas, a Terra poderia alimentar normalmente 12 milhões de seres humanos, ou seja, fornecer a cada indivíduo uma ração equivalente a 2.700 calorias por dia. Ora nós somos pouco mais do que uns 6 mil milhões de indivíduos sobre a Terra, e todos os anos 826 milhões sofrem de subalimentação crónica e mutilante.
A equação é simples: quem tem dinheiro, come e vive. Quem não tem, sofre, torna-se inválido e morre.
A fome persistente e a subalimentação crónica são criadas pela mão do homem. São devidas à ordem assassina do mundo. Todo aquele que morre de fome é vítima de uma assassínio.

Sobre estes biliões de pessoas, os senhores do capital globalizado exercem um direito de vida e de morte. Por meio das suas estratégias de investimento, das suas especulações monetárias, das alianças políticas que efectuam, decidem todos os dias quem tem direito a viver neste planeta e quem está condenado a morrer.
As suas armas são as fusões forçadas, as ofertas públicas de compra hostis, o estabelecimento de oligopólios, a destruição do adversário por meio do dumping ou das campanhas de calúnias ad hominem. O assassínio é mais raro, mas os senhores não hesitam em recorrer a ele, se necessário.
Mas assim que o sistema no seu todo, ou num dos seus segmentos essenciais, é ameaçado ou simplesmente contestado (…) os oligarcas e os seus mercenários constituem um bloco coeso. Movidos por uma vontade de poder, uma cupidez e uma embriaguez de comando sem limites, defendem então com unhas e dentes a privatização do mundo. Esta confere-lhes extravagantes privilégios, um sem -número de prebendas e de fortunas pessoais astronómicas. (…)
Walter Hollenweg, teólogo famoso da Universidade de Zurique, resume perfeitamente a situação: « A cupidez obsessiva e sem limites dos nossos ricos, aliada à corrupção praticada pelas elites dos países ditos em vias de desenvolvimento, constitui uma gigantesca conspiração criminosa…No mundo inteiro e todos os dias se reproduz o massacre dos inocentes de Belém».

A 25 de Junho de 1793, na Convenção de Paris,o padre Jacques Roux leu o seu Manifesto dos Enraivecidos. Nele se pedia que fosse efectuada uma revolução económica e social contra o comércio e a propriedade privada quando estes «consistem em fazer morrer de miséria e de inanidade os seus semelhantes».

Franz Kafka escreveu esta frase enigmática: «Longe, longe de ti desenrola-se a história mundial da tua alma.»

Eu sou o Outro, o Outro sou Eu. Ele é o espelho que permite ao Eu reconhecer-se. A sua destruição destrói a humanidade em mim. O sofrimento dele, mesmo que não me atinja, faz-me sofrer.

O predador é a figura central do mercado capitalista globalizado, a avidez é o seu motor. Ele acumula o dinheiro, destrói o Estado, devasta a natureza e os seres humanos, e apodrece pela corrupção os agentes de cujos serviços se assegura no seio dos povos que domina. Ele fomenta no Planeta paraísos fiscais reservados ao seu próprio uso. Mercenários devotados e eficazes servem a ordem dos predadores

(retirado de «Os Novos senhores do mundo e os seus opositores» de Jean Ziegler, ed. Terramar,2003, com tradução de Magda Bigotte de Figueiredo a partir das Éditions Fayard de 2002)

Pedido de socorro



O dia anunciava-se esplêndido. Era um 3 de Agosto, às 6,15 h. NO Aeroporto de Bruxelas-Zaventen, um Sol vermelho subia no céu. O Boeing 747 da Sabena aterrou à hora. Enquanto os passageiros, com os olhos ainda cheios de sono, desciam as escadas para entrar no autocarro, um controlador de fato-macaco branco deu a volta ao aparelho.Da caixa esquerda do trem de aterragem saíam três dedos de uma mão, agarrados à divisória. O controlador aproximou-se mais. No trem de aterragem, descobriu dois corpos de adolescentes, negros e frágeis, encolhidos, as feições paralisadas pelo medo. Eram os corpos de Fodé Touré Keita e de Alacine Keita, dois guineenses de 15 e 14 anos, vestidos com uns simples calções, umas sandálias e uma camisa de manga curta.
A caixa principal do trem de aterragem de um Boeing 747 contém dezasseis rodas grandes. O compartimento é vasto, com dois metros de altura. A caixa só é aberta a partir da cabina de pilotagem. Mas quando o avião está na pista, qualquer pessoas – desde que consiga esgueirar-se por entre o pessoal da manutenção – pode trepar para dentro da caixa.
À velocidade de cruzeiro, um Boeing 747 voa a cerca de 11.000 metros e, a essa altitude, a temperatura exterior é de -50º.
Os dois adolescentes terão provavelmente subido para a caixa do trem de aterragem na escala de Conacri.
No bolso da camisa de Fodé, o controlador encontrou uma folha cuidadosamente dobrada, com uma caligrafia incipiente:
«Portanto se virem que nos sacrificamos e arriscamos a vida, é porque sofremos de mais em África e precisamos de vocês para lutar contra a pobreza e para pôr fim à guerra em África. Porém, nós queremos estudar e pedimos que nos ajudem a estudar para sermos como vocês, em África…
Finalmente, pedimos imensa desculpa por termos ousado descrever esta carta a pessoas como os senhores, pessoas tão importantes por quem temos muito respeito. E não se esqueçam de que é a vocês que devemos queixamo-nos da fraqueza da nossa força em África.»

(retirado de «Os Novos senhores do mundo e os seus opositores» de Jean Ziegler, ed. Terramar,2003, com tradução de Magda Bigotte de Figueiredo a partir das Éditions Fayard de 2002)

Tratado de Ateologia, de Michel Onfray ( citações)



O filósofo francês Michel Onfray acabou de publicar um novo livro - «Traité d’Athéologie», ed. Grasset, 2005- de onde retiramos algumas citações:



«porque Deus não morreu nem é perecível – contrariamente ao que dizem Nietzsche e Hine. Nem morto nem perecível ele é, porque não é mortal. Um ficção não morre, nem uma ilusão se trespassa, nem muito menos se vai refutar um conto infantil»

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«Deus releva do bestiário mitológico, como milhares de outras criaturas repertoriadas nos dicionários com inúmeras entradas, desde Démeter até Dionísios»

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«O silêncio de Deus convida à conversa da treta dos seus ministros que usam e abusam do epíteto: quem quer que não creia em Deus, torna-se logo um ateu. No pior dos homens, no imoralista, no detestado, no imundo e na incarnação do mal.
Difícil por isso dizer-se ateu…Quando se diz tal, é sempre na perspectiva insultuosa de uma autoridade preocupada em banir, e em marginalizar e condenar»

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«(o primeiro verdadeiro ateu:) Agrada-se que esta genealogia filosófica proceda de um padre: Meslier, santo, herói e mártir da causa ateia…»


(…)

«o ensino da religião reintroduz o coelho na cartola: o que os padres não podem fazer abertamente, podem agora fazê-lo docemente, ao ensinar as fábulas do Antigo e Novo Testamento, as do Corão e dos Hadiths, sob pretexto de permitir os alunos aceder mais facilmente a Marc Chagall, à Divina Comédia e à Capela Sistina ou à música de Ziryab…»

(…)

«ensinar o ateísmo supõe uma arqueologia do sentimento religioso: o medo, a incapacidade de olhar a morte, a impossível consciência da incompletude e da finitude nos homens, a função e o motor que é a angústia existencial. A religião, esta criação ficcional, exige uma desmontagem em boa forma dos placebos ontológicos – como em filosofia se fala da bruxaria e da loucura para produzir uma definição da razão»

(…)

« A época parece ateia, mas somente aos olhos dos cristãos e dos crentes. De facto, ela é niilista.
Os padroeiros de ontem e da véspera têm todo o interesse em fazer passar o pior e a negatividade contemporânea por um produto do ateísmo»

(…)

«Três milénios testemunham dos primeiros textos até hoje: a afirmação de um Deus único, violento, invejoso, quezilento, intolerante, belicoso, que gerou mais ódio, sangue, mortos, brutalidade do que paz…»

(…)

«Que eu saiba nem os Papas, s Princípes, os Reis, os Califas, os Emires brilharam tanto na virtude como Moisés, Paulo, Mahomé brilharam na mortícinio, na venda de tabaco ou nas razzias»

(…)

«os teístas realizam inimagináveis contorções para justificar o mal à superfície do planeta, não deixando nunca de afirmar a existência de Deus a quem nada escapa. Os deístas são um pouco menos cegos, já os ateus parecem já bem mais lúcidos»

(…)

«A missa dominical nunca primou como momento de reflexão, de análise, de cultura e de saber difundido e trocado, e quanto ao catecismo, muito menos. O mesmo se passa nas outras religiões monoteístas. Quer nas orações junto do Muro das lamentações ou nas Cinco Ocasiões diárias dos muçulmanos ora-se, pratica-se as invocações, exerce-se a memória, mas nunca a inteligência»

(…)

«trata-se daqui para diante de conseguir aquilo que Deleuze chama de ateísmo tranquilo, a saber, um cuidado não tanto na negação estática ou de combate a Deus, mas num método dinâmico que desemboque numa proposição positiva destinada a construir após o combate»

(…)

« a superação deste ateísmo cristão – não muito ateu e ainda bastante cristão para meu gosto –permite encarar sem redundância de assim o nomear, um autêntico ateísmo ateu…Este quase que pleonasmo serve para significar uma negação de Deus em conjunto a uma negação de uma parte dos valores que daí resultam, mas ainda(…) para colocar a moral e a política noutras bases que não sejam niilistas, mas pós-cristãs»

(…)

«desconstruir os monoteísmos, desmistificar o judaico-cristianismo – mas também o Islão – para depois desmontar a teocracia , eis as três tarefas inaugurais da ateologia.
Trabalhar em seguida para uma nova ética e criar as condições de uma verdadeira moral pós-cristã, onde o corpo deixe de ser uma punição, a terra um vale de lágrimas, a vida uma catástrofe, o prazer um pecado, as mulheres uma maldição, a inteligência uma presunção, e a vontade uma danação»

(…)

«não se mata um sonho, nem se assassina um subterfúgio. Serão antes estes que nos matam, pois Deus empurra para a morte tudo o que lhe resiste. Em primeiro lugar a razão, depois a inteligência e o espírito crítico»


Citações retiradas do livro de Michel Onfray, «Traité d'athéologie, physique de la métaphysique» (Grasset)

4.4.05

Sartre esteve na Faculdade de Letras do Porto faz hoje 30 anos



Jean-Paul Sartre, escritor, filósofo e activista político francês, acompanhado de Simone Beauvoir, sua mulher e conhecida feminista, visitaram ambos Portugal há 30 anos, a convite do Instituto Francês do Porto, e no dia 4 de Abril de 1975 realizou-se um encontro no Salão Nobre da Faculdade de Letras do Porto, no edifício onde actualmente está instalado o Instituto de Ciências Bio-Médicas Abel Salazar, apinhado de estudantes e professores para ouvirem Sartre, que era olhado com uma aura de intelectual «engagé» que apoiara os estudantes na revolta de Maio de 68.
Com a sala a abarrotar de gente foram lançadas as primeiras perguntas ao casal que, sentados no palco atrás de uma simples mesa, acabaram por confessar que estavam ali mais para fazer perguntas do que propriamente dar respostas que todos os presentes aguardavam. E, uma após outra, todas as perguntas esbarravam com o laconismo interrogativo do pensador existencialista francês.
Quem ali esteve presente não se esquece do ambiente sôfrego de todo o imenso auditório e da fragilidade daquelas duas figuras postadas à sua frente. Sartre com uma inseparável pilha de jornais debaixo do braço, e Simone de Beauvoir com um lenço a realçar a postura elegante que a caracterizava.
A visita de Sartre e Beauvoir a Portugal durou poucos dias e foi passada a fazer contactos com alguns protagonistas daquilo que se chamou o processo revolucionário português desencadeado a partir da Revolução dos Cravos a 25 de Abril de 1974.
À despedida, e em jeito de balanço da sua estadia, Sartre não escondeu a sua alegria e surpresa com o que vira, ao declarar peremptório:
«Portugal alargou o campo do possível»

Os ecossistemas em risco: o esgotamento da natureza ameaça o progresso



Mais de 1.300 cientistas originários de 95 países elaboraram a pedido da ONU um relatório sobre a situação actual dos ecossistemas planetários. Das suas conclusões retira-se um sinal de alarme para o bem estar e o desenvolvimento. O homem tem conseguido alimentar-se melhor graças à agricultura, à piscicultura. Mas as consequências do crescimento económico vão traduzir-se no desaparecimento das espécies, na redução dos insectos polinizadores ou na água doce. E os países pobres serão os principais afectados. Pior ainda: se estes países seguirem o modelo dos países mais ricos, a biosfera será largamente afectada. O custo económico deste atentado à natureza é imprevisível.

Pela 1ª vez, 1.300 investigadores científicos fizeram um ponto da situação dos ecossistemas do nosso planeta. O aumento da produção agrícola reduziu a fome, mas, em contrapartida, a intensidade da acção humana tem degradado significativamente o ambiente. O que significa, simplesmente, que a prazo o bem estar do homem vai deteriorar-se.

«Políticos despertai»! Este é, em termos muito diplomáticos, a mensagem enviada por mais de 1.300 cientistas reunidos a convite da ONU para estudarem e analisarem o actual estado dos ecossistemas da Terra.. No relatório sobre «Avaliação dos ecossistemas para o Milénio», publicado na passada 4ª feira em Tóquio, New Delhi, Cairo, Nairobi, Paris, Washington e Brasília, os seus autores traçaram um panorama muito pessimista do impacte das actividades humanas sobre o ambiente natural. O grupo de cientistas, reunido sob a égide da Universidade das Nações Unidas ( com base em Tóquio) e o Banco Mundial alertam que, caso esta degradação prosseguir, fica em causa o bem estar do homem e os objectivos do Milénio - que tinham sido fixados em 2000, visando reduzir a fome, a pobreza e a doença até 2015 - não poderão ser atingidos. A publicação deste relatório coincide com a fixação dos temas e prioridades do G8, que se reunirá na Grã-Bretanha em Julho próximo, por Tony Blair: a mudança climática e o subdesenvolvimento de África.
Trata-se do estudo mais completo realizado até hoje acerca do estado do nosso planeta. No seu cerne está a constatação de que a acção humana exerce um grande pressão sobre as funções naturais do planeta , pelo que a capacidade dos ecossistemas para responder às necessidades das futuras gerações não pode estar garantida.
Normalmente fala-se do esgotamento dos recursos energéticos mas esquece-se a destruição dos ecossistemas.

Chama-se ecossistema a um conjunto de organismos (plantas, animais, micro-organismos) que agem por interacção, sendo os homens partes integrantes dos ecossistemas. A floresta tropical, os oceanos, a savana são exemplos de ecossistemas, o conjunto dos quais formam a biosfera que é a parte viva do planeta.
A originalidade do estudo é que não se debruça propriamente sobre o ambiente enquanto tal, mas sim em torno dos serviços prestados pelos ecossistemas., tais como a alimentação, a água, o tratamento de doenças, a regulação e equilíbrio dos climas. Ora segundo o relatório cerca de 60 % dos ecossistemas que permitem a vida na Terra estão degradados, degradação essa que se acentuou mais nos últimos 50 anos do que em toda a história da Humanidade, e que se agravará ainda mais nas próximas décadas.
Tal se deve às transformações ambientais que se têm verificado: por exemplo, de 1945 para cá converteram-se mais terras à agricultura que durante os séculos XVIII e XIX.; outro dado ilustrativo é o relativo ao carbono, pois 60% do crescimento da concentração do gás carbónico na atmosfera desde 1750 dá-se só a partir de 1959.
A avaliação feita não é totalmente negativa, uma vez que se registou melhorias significativas no bem estar do homem e no desenvolvimento económico, o que permitiu um aumento da produção agrícola superior ao da população mundial, e uma multiplicação por seis da economia mundial.
Também a proporção de pessoas que sofrem de mal nutrição foi reduzida, assim como melhorou a saúde humana.
O maior problema reside no facto da degradação dos ecossistemas, a continuar, poder impedir a realização dos objectivos do Milénio. Alerta-se ainda para o facto dos países e as populações mais pobres serem as mais atingidas com essa degradação. Além disso, esta tendência contribui para o aumento das desigualdades na medida em que são as populações pobres que estão mais dependentes dos serviços prestados pelos ecossistemas.
Um aspecto preocupante, assinalado pelos investigadores, é a probabilidade acrescida de «mudanças não lineares», o que significa que a partir de certo limiar de degradação, um mudança brusca se pode dar no ecossistema que o enfraquece ou até pode torná-lo incapaz de funcionar normalmente. Um exemplo disto poderá ser a pesca, cujos stocks deixarão de ser aproveitáveis, pura e simplesmente.
Toda esta evolução é agravada com o aquecimento da Terra ( que poderá levar, por exemplo, a transformar a região do Amazonas em savana) e que tornará difícil senão mesmo impossível o restabelecimento dos equilíbrios perdidos.
A conclusão é que a crise dos ecossistemas não é menos grave que a do clima.

(tradução de uma parte do texto sob o título «L’épuisement de la nature menace le progrès» publicado no Le Monde 1 de Abril de 2005)

Era Nuclear ( algumas datas)

16/7/1945
Primeiro ensaio nuclear nos Estados Unidos.
Em Agosto são lançadas as duas bombas nucleares em Hiroshima e em Nagasaki.

1949
Primeiro ensaio nuclear da ex-URSS (Rússia)

1952
Primeiro ensaio nuclear britânico

1958
Um Conferência Internacional realiza-se com vista a estudar a possibilidade de controlar e aprovar uma interdição dos ensaios.
Realizam-se em Outubro reuniões tripartidas de especialistas dos USA, da URSS, e do Reino Unido

1959
O Tratado sobre a Antártida consagra este continente como região desnucluearizada, e fica aberto à adesão dos países

1960
Primeiro ensaio nuclear francês

1963
Os USA, o Reino Unido e a URSS assinam um tratadode interdição parcial dos testes que proíbe a sua realização na atmosfera, no espaço e na água.

1964
Primeiro ensaio nuclear chinês

1/7/1968
Tratado de não-proliferação das armas nucleares (TNP) fica à disposição dos Estados interessados a ratificá-lo. Nesse Tratado os Estados possuidores de armas nucleares ficam obrigados a não transmitir nem armas nem componente a outros Estados que as não possuem. Por sua vez, estes últimos obrigam-se a não adquiri-las.

1990
Últimos ensaios soviéticos e britânicos

1992
Último ensaio americano

1993
A Conferência do desarmamento cria um Comité especial para a interdição completa dos ensaios.

1996
Últimos ensaios chinês e francês

24/9/1996
O Tratado de Interdição de ensaios nucleares (TICE) fica aberto à adesão dos Estados

6/4/1996
França adera ao TICE

Maio de 1998
A índia e o Paquistão realizam ensaios nucleares, antes de anunciar uma moratória sobre os testes

Março de 2005
Até esta data 175 Estados assinaram o TICE

O Futebol S.A. !!!


Falar de «desporto» hoje em dia em Portugal é falar forçosamente de futebol S.A. De facto, o futebol, que era uma modalidade desportiva de origem operária que se popularizara nos subúrbios ingleses pouco depois da revolução industrial na Ingleterra do século XIX , tornou-se nos nossos dias um dos mais rentáveis negócios de entretenimento e espectáculo, só comprável à indústria do cinema de Hollywod.
Os ídolos do futebol cotejam os ídolos cinema e ambos fazem parte, sem dúvida, da moderna iconografia dos tempos que correm.
São ídolos feitos por determinados jornais e canais de televisão que os levam até à fama e enchem o imaginário são adulados não só por multidões de jovens como mulheres e homens adultos que não perdem nenhum pormenor das suas vidas . O mitos constroem-se à base de um formidável aparelho mitómano que não hesita em alimentar o espectáculo do «pão e circo», tal como faziam os antigos imperadores romanos relativamente às massas ululantes que enchiam a antiga capital do império, Roma.
A receita é simples: Faz-se uma lavagem ao cérebro durante toda a semana através de jornais ditos desportivos, de rádios festivais e comerciais, além de doses maciças de programas supostamente desportivos nos canais de televisão com maiores audiências. Agita-se tudo isto, muito bem. Deixa-se cozer em lume brando até domingo e está pronto a sair em ponto de rebuçado.
Para tapar um pouco as aparências as empresas de espectáculos futebol S.A. usam ainda o nome de clubes, falam de associados e alimentam claques de adeptos. Tudo isso não retira, no entanto, o carácter profundamente empresarial do negócio que penetrou em todos os domínios deste espectáculo de massas.
Mas não é só o dinheiro que está por detrás do futebol S.A. Com efeito, se observarmos as multidões que enchem os estádios de futebol encontramos pessoas excitadas, que não param de gesticular e agredir verbal, e quantas vezes, fisicamente quem não lhes agrada, num claro gesto de descompressão catártico. Algumas situações fazem lembrar antigas cerimónias de imolação sacrificial tal é o fanatismo e a transe vivido pelos protagonistas. A bílis libertada servem para enfrentar nova semana de trabalhos e stress.
Há quem diga que isto é futebol e desporto. Eu, pelo contrário, prefiro chamar de futebol S.A. a todo esse show business…

Debate com Daniel Colson sobre filosofia anarquista


Começa-se a entender melhor, nestes princípios do século XXI a força e a originalidade e, sobretudo, a coerência do projecto libertário que não se deve limitar aos contornos que o anarquismo adquiriu a partir do século XIX mas cujo lastro histórico é muito mais extenso. A esta renovação do pensamento libertário não é certamente estranha as novas condições sócio-cultrais das actuais sociedades pós-industriais que certos autores associam ao chamado pós-modernismo. É neste enquadramento que se insere o livro de Daniel Colson, «Os três ensaios da filosofia anarquista».
O anarquismo afirma-se hoje como uma alternativa às insuficiências do pensamento dominante: desde o pensador marroquino Abdallah Laroui até Hanna Arendt, e passando por toda a tradição revolucionária europeia, Colson mostra-nos a originalidade e as potencialidades da concepção libertária nos três ensaios que reuniu no seu último livro.
Daniel Colson vai buscar à história arabo-muçulmana, à concepção de Arendt sobre as «falhas da história» e aos acontecimentos revolucionários de 1848 e da Comuna de Paris referenciais para expor a sua leitura anarquista.
O primeiro ensaio é uma reflexão sobre o pensamento marroquino contemporâneo Abdallah Laroui que, nos comentários que faz da obra de Ibn Khaldûn (1332-1406), evoca a dificuldade do pensamento árabe a abrir-se sobre a racionalidade histórica ao mesmo tempo exterior e anterior. A finalidade de se encontrar no outro e de encontrar o outro em si mesmo gera uma dupla tensão que se traduz num cimento associativo essencialmente positivo e que se opõe frontalmente a qualquer integrismo. A liberdade do outro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade, é, pelo contrário, a sua condição necessária. Colson mostra assim uma relação de fundo entre o pensamento anarquista e a teologia do Islão na medida em que não se pode falar do passado a não ser a partir do presente.
O segundo ensaio é consagrado a Hanna Arendt e à relação que esta estabelece entre história e ficção nas «falhas da história» e nas «brechas do pensamento».É justamente neste interstício que nasce o «era uma vez» da narrativa.
No terceiro ensaio o autor mostra como os acontecimentos revolucionários de 1848 e da Comuna de Paris puderam esgotar a sua força histórica e que toda a tentativa de repetição não pode levar senão ao enfraquecimento das suas potencialidades e do seu significado.

No pensamento libertário moderno, anarquia e realidade são sinónimos segundo Colson.



Para o debate desta problemática realizou-se uma conferência-debate no passado dia 2 de Abril no CIRA emMarselha cujo conferencista foi o próprio autor daquele livro, Daniel Colson, professor de sociologia na Universidade de Saint-Etienne, e autor de «Trois essais de philosophie: islam, histoire, monadologie.” Lignes-Manifestes, 2004. 384p. 23 euros.

C.I.R.A. (centro internacional de investigações sobre anarquismo), Rue Saint-Dominique, 3 13001 Marsella (esquina com Place des Capucines) Tel-fax: 04 91 56 24 17
Correio
cira.marsella@free.fr
Website:
http://cira.marseille.free.fr/

Consultar:
http://raforum.apinc.org/article.php3?id_article=2040
http://www.ainfos.ca/fr/ainfos05137.html

O embaixador norte-americano nomeado para a ONU é contestado por 60 embaixadores americanos



Segundo notícias vinda a público e transmitidas pela imprensa oficial, 60 embaixadores norte-americanos subscreveram um texto a contestar a nomeação de John Bolton como embaixador dos Estados Unidos na ONU., pois segundo se diz «as suas actividades e opiniões levam a pensar não se tratar da pessoas mais indicada».
Recorde-se que Bolton é um falcão republicano que já mostrou ser contrário às operações de manutenção da paz levadas a cabo pelas Nações Unidas.

3.4.05

Squa(r)t da Rue de Rivoli, 59, em Paris, vai ser renovado e reaberto



Tornado já num símbolo habitual para os que costumam passar em frente do nº 59 da Rue de Rivoli, em Paris, o squat ali existente vai fechar para sofrer obras de remodelação e, mais tarde, abrir novamente as suas portas à população em geral.
Recorde-se que este squat – mais conhecido por «squart» - é o emblema do colectivo de artistas conhecido por «Chez Robert-Electron libré» que ocupou aquele espaço - propriedade do município parisiense – há 5 anos atrás. Este squat tem constituído um exemplo de uma conseguida ocupação ilegal e um oásis de liberdade artística. O trio que tomou a iniciativa, KGB ( das iniciais dos seus membros, Kalex, Gaspard e Bruno) decidiu em 1999 ocupar o edifício abandonado e em ruínas e transformá-lo em espaço de criação artística anti-elitista e permitir o acesso da população à criação e fruição artística.
O local acabou, entretanto, por ganhar fama mundial e tinha cerca de 40.000 visitantes por ano, tornando-se um dos centros de arte contemporânea mais conhecidos e visitados da capital francesa.

Solidariedade internacional com a jornalista austríaca Sandra Bakutz


A jornalista austríaca e activista pelos direitos humanos Sandra Bakutz foi no passado dia 10 de Fevereiro presa pelas autoridades turcas no aeroporto de Istambul. Após mais de um mês de prisão arbitrária, o tribunal decidiu-se pela concessão de liberdade preventiva no dia 30 de Março a Sandra Bakutz fixando a data do seu julgamento para o próximo dia 1 de Junho.
A acusação que lhe é imputada – pertencer a uma organização política turca ilegal, o DHKP, Partido-Frente revolucionário de libertação do povo – não foi sustentada por nenhuma prova material.
Sandra Bakutz é jornalista da rádio austríaca Orange 94.0 e do semanário alemão Junge Welt.

Steve Kurtz, acusado de bioterrorismo, recebe apoios da comunidade artística internacional



Steve Kurtz, fundador do Critcal Art Ensemble (CAE) e professor de arte na Universidade de Buffalo, assim como Robert Ferrell, professor de genética da Universidade de Pittsburg, são acusados pela polícia norte-americana de bioterrorismo e de fraude postal.

Face à acusação ridícula de que é alvo, não tem faltado apoios a solidariedade dos mais variados quadrantes, em especial, da comunidade de artistas de todo o mundo que têm expressado o seu apoio e oferecido ajudas monetárias a fim de custear as despesas da defesa.

Recorde-se que em Maio de 2004 Kurtz foi incriminado ( com outros membros do CAE) de bioterrorismo devido ao material documental, que foi encontrado na sua posse, e que pertencia aos seus projectos «GenTerra» e «Free Range Grains» e que estavam relaconados com a investigação biotecnológica.

O Júri do tribunal retirou algumas das acusações mas manteve a de fraude postal, que é punido com 20 anos de prisão. É acusado de comprar bactérias (inofensivas) por 256 dólares para os seus projectos!!!

Desde a década de 1990 que Steve Kurtz é conhecido pelo seu trabalho artístico com implicações sociais e políticas através de trabalhos e projectos que combinam investigação, crítica social, perfomance e novas tecnologias

http://caedefensefund.org
www.critical-art.net

Le déserteur (O Desertor)


Le Déserteur
Poema de Boris Vian
Música e voz de Serge Reggiani

Monsieur le Président,
je vous fais une lettre,
que vous lirez peut-être,
si vous avez le temps.

Je viens de recevoir
mes papiers militaires
pour partir à la guerre
avant mercredi soir.

Monsieur le Président
je ne veux pas le faire,
je ne suis pas sur terre
pour tuer de pauvres gens.

C'est pas pour vous fâcher,
il faut que je vous dise,
ma décision est prise,
je m'en vais déserter.

Depuis que je suis né,
j'ai vu mourir mon père,
j'ai vu partir mes frères,
et pleurer mes enfants.

Ma mère a tant souffert,
qu'elle est dedans sa tombe, e
t se moque des bombes,
et se moque des vers.

Quand j'étais prisonnier
on m'a volé ma femme,
on m'a volé mon âme,
et tout mon cher passé.

Demain de bon matin,
je fermerai ma porte
au nez des années mortes
j'irai sur les chemins.

Je mendierai ma vie,
sur les routes de France,
de Bretagne en Provence,
et je crierai aux gens:
refusez d'obéir, refusez de la faire,
n'allez pas à la guerre,
refusez de partir.

S'il faut donner son sang,
allez donner le vôtre,
vous êtes bon apôtre,
monsieur le Président.

Si vous me poursuivez
prévenez vos gendarmes
que je n'aurai pas d'armes
et qu'ils pourront tirer.

------------------------------------

Tradução para português:


Senhor presidente,
escrevo-lhe uma carta,
que talvez vá ler,
se tiver tempo.

Acabei de receber
os meus papéis militares
para partir para a guerra
antes de 4a-feira à noite.

Senhor presidente
não o quero fazer,
eu não estou na terra
para matar pobre gente.

Não é para o aborrecer,
é preciso que lho diga,
mas a minha decisão está tomada,
vou desertar.

Desde que nasci,
vi morrer o meu pai,
vi partir os meus irmãos,
e chorar os meus filhos.


A minha mãe sofreu tanto,
que está na sepultura,
e faz pouco das bombas,
e faz pouco dos versos.

Quando estive prisioneiro
roubaram-me a minha mulher,
roubaram-me a minha alma,
e todo o meu querido passado.

Amanhã de manhã cedo,
fecharei a porta
no nariz dos anos mortos
irei pelos caminhos.

Mendigarei a minha vida,
nas estradas de frança,
da bretanha à provença,
e gritarei às gentes:
recusem-se a obedecer, r
ecusem-se a fazê-la, n
ão vão à guerra,
recusem-se a partir.

Se é preciso dar o sangue,
vá dar o seu,
sois um bom apóstolo,
senhor presidente.


Se me perseguir
previna os seus guardas
que eu não terei armas
e que eles poderão atirar.

Permacultura

O pensamento de Permacultura foi inicialmente concebido por Bill Mollison como um sistema de agricultura ecologicamente sustentável, utilizado em diversos países.
Mollison fundou o Instituto de Pesquisas de Permacultura, na Austália, que desenvolve várias experiências inovadoras voltadas para a restauração e o uso sustentável da terra através da educação ambiental.

Apesar do conceito de Permacultura ter surgido basicamente na agricultura ecológica, ele acabou por ser extrapolado para uma série variada de outras áreas, como o desenho, a composição paisagística, o projecto de casas ecológicas e de estruturas arquitectónicas, o uso eficiente da água através da reciclagem e armazenamento de água da chuva, o uso de depósitos com tecnologia de compostagem, a reciclagem de nutrientes em solos filtrantes, e mais recentemente, o design.

Permacultura quer dizer cultura permanente que aproveita as facilidades e os produtos da natureza sem causar-lhe dano.

A Permacultura trabalha com 4 princípios básicos que funcionam como um processo cíclico: o 1º princípio constitui a observação da natureza; o 2º está no pensamento sobre a observação realizada; o 3º representa a adaptação das técnicas e o desenho de esquemas permaculturais permanentes; o 4º constitui o fazer na prática o que foi pensado. Chega-se então ao ponto inicial de observação para rematar o ciclo.

O conceito de Permacultura está informalmente por toda a parte.

Desde a revolução industrial, a agricultura tradicional tem abusado da monocultura extensiva de espécies únicas. Ora esta prática tem contribuído em muito para o esgotamento dos nutrientes dos solos e a degradação da microbiologia, além de introduzir elementos químicos artificiais no sistema agrícola dentro dos ecossistemas circundantes.


A agricultura permacultural procura desenvolver tecnologias de baixo impacte ambiental através de processos que favoreçam a natureza.

Mas há outras áreas em que se aplicam os princípios da Permacultura:
- gestão participativa
- eco-restauração
- composição paisagística
- utilização de materiais reciclados ou usados para vários fins
- incorporação dos conceitos de moradia ecológica e o desenho das eco-aldeias
- reciclagem de nutrientes no solo através da compostagem e re.uso de água domésticas
- recuperação de áreas degradada
- etc

Permadesign

Permadesign pode ser definido como o desenho de produto funcional, ecologicamente correcto em termos materiais usados e para a função a ser desempenhada, dentro de uma concepção de uso permanente e que seja esteticamente concebido.
Trata-se de um design de objectos que está preocupado com valores ecológicos desde a sua concepção, forma de fabrico, função e materiais empregados, reciclados ou não, e que vem a constituir um novo rumo na indústria artesanal.
Esta nova escola de design constitui um paradigma novo em franca expansão.

As matérias-primas utilizadas dentro deste conceito podem ser variadas, tais como: o papel reciclado, a borracha e os plásticos descartados e reaproveitados, os meais de ferros-velhos, os ladrilhos de demolições para compor mosaicos, os vidros reciclados para fabricar vasos de flores e objectos de decoração, as telas de plástico usadas na construção civil como assento de cadeiras, o papelão, as casacas de árvores, as pedras e as fibras, entre muitos outros materiais que podem ser utilizados para dar largas à criatividade de cada designer.


O permadesign contrapõe-se ao desenho industrial que é o responsável pelos produtos usados na sociedade de consumo, e que tem um impacte negativo no meio ambiente.

William Morris

Em "News from Nowhere, or an Epoch of Rest" (1891), William Morris narra o seu sonho de uma sociedade melhor, transposta para o séc. XXI, e do papel da arte na edificação da mesma. Assim, nessa sua utopia, os habitantes de Londres recuperaram o gosto pela arte e pela beleza, as pessoas são bonitas, saudáveis, alegremente vestidas, e o simples facto de viver na beleza fez redescobrir o prazer e a alegria da criação; a recompensa do trabalho reside, precisamente, na possibilidade de criar. Os mecanismos disciplinares são inexistentes. A abolição da propriedade privada, da escravidão das mulheres e da tirania familiar instaurou uma sociedade de iguais. Portanto, sem código civil nem criminal. E também sem política. A diferença de opiniões já faz parte, como fazia antes, do «jogo dos mestres da política». A maioria procura convencer as minorias. A Inglaterra é agora um jardim. Desapareceram os «distritos industriais», a maquinaria e a grande indústria já não estragam as paisagens. As aldeias, outrora anexos de distritos industriais, foram reabilitadas, e porque os citadinos foram para lá viver, da supressão da diferença entre a cidade e o campo nasceu uma cultura vivificada pelo intercâmbio entre o espírito urbano e a tradição camponesa. As rivalidades entre nações desapareceram. Nem por isso as raças e os países deixaram de conservar as suas características próprias, porque todos estão «empenhados na mesma empresa». Leitor assíduo de Fourier, subscreveu a crítica deste à civilização e ao feudalismo comercial, enquanto que os textos de Marx lhe inspiraram uma análise do feiticismo da mercadoria, uma crítica da alienação e da divisão do trabalho, e uma pintura da sociedade comunista prometida, em que o indivíduo gozará de uma autêntica alegria de viver e reencontrará não uma natureza selvagem, mas uma natureza que ele transformará em jardim. Morris tem atrás de si um combate de artista contra os malefícios da industrialização e os «empecilhos da civilização». Para ele, a vida civilizada não passa de um ersatz, um sucedâneo em comparação com o que devia ser a vida na terra. O seu desejo de produzir coisas belas levou-o a denunciar a pobreza da cultura na sociedade vitoriana, traduzida, sobretudo, nas «pretensas distracções públicas», que tornam os «momentos de descontracção dos citadinos vazios de sentido». Morris é o herdeiro de uma tradição de crítica social que estigmatizou a fé na máquina, uma tradição inaugurada por Thomas Carlyle e que prosseguiu com John Ruskin e Mathew Arnold. Morris foi o primeiro a praticar esta contestação da degenerescência industrial, como arquitecto do grupo pré-rafaelita e fundador de uma empresa de decoração cujos trabalhos anunciam o "modern style", e, posteriormente, a partir das artes tipográficas, lançando uma casa editora; torna-se, ainda, militante activo na Socialist League, a ala esquerda do socialismo inglês. Não se cansa de dizer que «a causa da arte é a causa do povo». O seu percurso estético e político torna a sua obra duplamente premonitória: por um lado, associa o humanismo romântico à causa da classe operária e anula o fosso entre visão poética e prática política, sendo um dos primeiros críticos de um materialismo restritivo que levou ao empobrecimento da sensibilidade e à anulação do imaginário; por outro lado, pela forma como problematiza os efeitos do capitalismo industrial sobre a civilização e a cultura modernas, Morris anuncia debates que, três décadas depois, irão abrir-se em torno da crise da universalidade que se confunde com a crise dos valores universais de que a alta cultura se orgulha. Com ele esboçam-se os contornos de um imaginário contestatário da produção cultural de massa, antes de esta receber tal nome e se desenvolver. E, principalmente, antes de se vislumbrar a pretensão desta cultura mediada pelo mercado e pela técnica, de reger com mão de ferro o relacionamento social universal.

2.4.05

Eco-feminismos



O termo eco-feminismo foi proposto pela francesa Françoise d’Eaubonne que assim chamou a atenção para a contribuição que o movimento feminista poderia trazer para as lutas ecologistas.
Tal como se podem encontrar vários feminismos, também assim será possível identificar outros tantos eco-feminismos.

Comum ente todos os eco-feminismo é a tese segundo a qual existe um paralelismo e uma mesma lógica entre a relação de dominação dos homens sobre a natureza e a relação de dominação masculina sobre a mulher no contexto das nossas sociedades patriarcais. Ou seja: a caracterização da natureza como objecto não é substancialmente diferente da consideração da mulher como objecto.
As causas para a dominação da mulher e da exploração da natureza são pois de carácter eminentemente histórico-social, das estruturas de poder e de dominação que se institucionalizam em modelos sociais de comportamento e padrões culturais dominantes.
Daí que o eco-feminismo adopte uma perspectiva anti-hierárquica, contra a violência e o militarismo. A resistência feminista e ecologista são dois aspectos da mesma luta para as eco-feministas.

Podemos identificar , entre outras, quatro correntes no eco-feminismo:

a)o eco-feminismo de carácter cultural, próprio do feminismo radical dos anos 70 e 80, que valoriza os aspectos vivenciais e pessoais, sem negar no entanto a problemática sócio-político das questões ambientais. Esta corrente preconiza a procura de novas relações espirituais

b) o eco-feminismo social que se preocupa mais com as questões sociais e as transformações das estruturas sociais e políticas para a natureza e a mulher assumirem outro lugar que não de simples objecto de uso e exploração

c) o eco-feminismo pluralista e contextutalista que defende teses ligadas ao relativismo ético, ao pluralismo e diversidade cultural, e que rejeita as dualidades da cultura ocidental ( homem-natureza, corpo-espírito, razão-emoção, civilizado-primitivo,mental-manual, macho-fêmea). Esta corrente crítica qualquer «masculinização» da mulher o que a levaria a tomar o papel de dominação protagonizado até agora pelo homem.

d) o anarco-feminismo que mobiliza as críticas feministas ao poder patriarcal como as ideias libertárias de crítica aos vários poderes ilegítimos e às estruturas de poder verticais, preconizando formas de organização social de carácter horizontal.

Abel Salazar

pelo professor Nuno Grande


Abel Salazar foi, porventura, a personalidade mais plurifacetada da cultura portuguesa. De facto, na investigação científica como na pintura, na escultura como na gravura, no cinzelado como na literatura, se exprime um espírito original, imaginativo e rigoroso, como não há paralelo na história cultural portuguesa.

Verdadeiro homem da Renascença, associou uma sensibilidade apurada e um sentido crítico arguto a uma necessidade imperiosa de busca de novas referências, que deram a dimensão da obra gigantesca que nos legou.

Não é possível relacionar essa obra com qualquer escola científica, artística, filosófica ou ideológica, porque Abel Salazar não cabia em chavetas sistematizantes, dizendo de si próprio que poderia ser classificado como anarquista científico.

Inovador em todas as manifestações de um espírito inquieto, foi-o também como pedagogo, o que acabou por se tornar uma característica utilizada pelo Conselho Escolar para o afastar do convívio com os alunos e com a Faculdade.
Foi acusado de estar mentalmente perturbado, pois punha alunos a dar aulas teóricas, facto cujo ineditismo para a época revela a preocupação de estimular os mais dotados para a docência. Procurava despertar e orientar o inconformismo natural dos jovens, ensinando-os a pôr questões e a equacionar processos de procura de resposta a essas questões.

Por isso criticava o "urso", aluno que estudava apenas para obter boas classificações numa postura passiva em face do saber oficial.

Abel Salazar manteve o laboratório aberto durante o dia e a noite, de modo a que os alunos pudessem ter acesso, se o quisessem, a todos os meios de aprendizagem, não tendo cedido às pressões dos que pretendiam ser esta atitude perigosa para o património da Faculdade. Assim distinguia os alunos com maior capacidade para programar os tempos de trabalho. A esses estimulava a auto-aprendizagem e a participação em programas de pesquisa laboratorial. A avaliação dessa aprendizagem incluía não só a valorização dos conhecimentos adquiridos, como também a capacidade de observação, o método descritivo, o sentido analógico e a capacidade interpretativa. Estas características não vinham nos livros ou nas "sebentas" mas permitiram distinguir alguns dos que mais tarde foram seus colaboradores e seguidores. Não fora a injustiça e a prepotência que o impediram de continuar a exercer a docência e estavam criadas as condições para se ter constituído uma verdadeira Escola de Histologistas no Porto.

Abel Salazar foi também um excepcional divulgador, escrevendo nos jornais, de grande e pequena tiragem, artigos de divulgação do conhecimento científico e de opinião cívica que são testemunho das qualidades pedagógicas deste professor que paradigmatiza o verdadeiro Mestre.
Recordá-lo nos cinquenta anos da sua morte é um acto salutar para a sociedade portuguesa, cada vez mais carente de referências dignificantes. (* Director do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar)

(Artigo do Prof. Nuno Grande, publicado em 29 de Dezembro de 1996 no jornal Publico)

50 anos (1954-2004) de rock ou a entrada fulgurante da música negra na cultura pop(ular) ocidental

Em 1954 Elvis Presley grava "That's all right mama" nos Sun Studios em Memphis, que ficou conhecida por ser uma música de um rapaz branco que cantava como se fosse um negro. Anteriormente havia outros discos e grupos que tocavam o rock'n roll mas eram todos eles músicos negros.

Em 1955 é editado "Maybelline is released" de Chuck Berry que pela primeira vez se refere explicitamente a duas das constantes do rock'n roll americano: as miúdas e os carros, destapando um filão onde irão inspirar-se figuras e grupos como Beach Boys, Beatles, Rolling Stones, Bruce Springsteen.

Em 1958 Elvis Presley sai do serviço militar com feições já acentuadamente masculinas, e a sua música, apesar de já ter soar um pouco fora-de-moda, é aproveitada pela indústria musical. Pela primeira vez um rocker rebelde vira entertainer.

Em 1961 dá-se o concerto ao vivo de James Brown que constituirá uma acto histórico da dinâmica do r'n'b, uma vez que a influência de Brown nunca deixará de ser notada na musica popular urbana, a começar pelo impacte que teve nos grupos Mod dos anos sessenta.

Em 1964 nasce a Beatlemania. Em 28 de Agosto desse mesmo ano os Beatles encontram-se com Bob Dylan no Hotel Delmonico em New York. Este oferece-lhes um charro e os outros quatro reconhecem que nunca tinham experimentado.

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Em Outubro de 2003, pela primeira vez, desde há 50 anos, a lista dos top 10 da oficialíssima Billboard americana só inclui músicos negros. A supremacia da música rap e da R & B é total.. É a música preferida dos adolescentes americanos , brancos e negros.

Sebastião Alba

Sebastião Alba foi um poeta marginal, sem-tecto, que vivia nas ruas da cidade de Braga, depois de ter passado grande parte da sua vida em África.
Vivia e escrevia poesia, palavras afiadas contra a civilização do ruído, do automóvel e da miséria.
Morreu atropelado por uma dessas máquinas volantes que andam atrás do tempo (!!!), por falta...de tempo! Sebastião Alba vivia à margem da civilização. Não queria emprego, não queria status, não queria TV, não queria dinheiro. E por isso mesmo era mais lúcido que muitos de nós... É que ele era capaz de ver o mundo de outra perspectiva.
O 4º livro de poesia e de aforismos de Sebastião Alba com o título singelo de "Albas" mostra-nos como a poesia pode ganhar vida.

1.4.05

Um mentiu sobre a guerra, o outro sobre sexo!

Clinton mentiu sobre assuntos de sexo.
Bush mentiu sobre assuntos da guerra.

Clinton foi julgado e quase expulso da Presidência. Ao Bush nada lhe acontece.

Não é estranho?

Clinton foi julgado e quase expulso da Presidência por ter mentido sobre assuntos de sexo.

E Bush não mentiu sobre assuntos da guerra? E nada lhe acontece!!!
Não é estranho?

E Blair? Agora já não são apenas mentiras?
Agora já se matam os cientistas "traidores" que ousam dizer as verdades à população e ao mundo.
Já para não falar dos assassínios encomendados que matam as princesas "dissidentes"?

Afinal quem são os mentirosos e criminosos?

Será que O USA e a Grã-Bretanha estão a ser governados por uma mafia de criminosos "eleitos" democraticamente?
(Hitler também foi eleito)

Queremos mentiras novas!


Queremos mentiras novas!
Porque as velhas já estão gastas!
A mentira sobre as armas de destruição maciça do Iraque?
Já toda a gente a denunciou (menos os tolos e atrasados mentais)
A mentira sobre a crise económica?
Então não foram os Bancos Portugueses que tiveram em 2004 um grande aumento dos seus lucros?
A mentira sobre os benefícios do Capital?
O Capital é sede do lucro e da rapina, não do desenvolvimento humano. (bem diz a sabedoria antiga que mais fácil é passar um camelo pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus!)
A mentira sobre a competência dos ministros?
Quantos ministros já não saíram dos governo por acusação de cometerem ilegalidades?
Até o António Vitorino, acusado de não declarar impostos, subiu ao cargo de Comissário da União Europeia!
A mentira sobre o Estado como pessoa de bem?
Então os meninos da Casa Pia não estavam entregues à responsabilidade do próprio Estado?
E há alguém que acredita no bom nome do Estado?
A mentira sobre a Igreja como Casa de Deus? Como?
Só realmente se Deus fosse o Diabo......
A mentira sobre a democracia ou o tal poder do povo!
Pusessem os escravos a votar e veríamos se o seu senhor não os obrigaria a votar nele próprio...Ora o mesmo acontece aos assalariados.
Queremos mentiras novas!
Estamos fartos das antigas...

A Televisão, os Fast-Thinkers e as ideias feitas (por P.Bourdieu)



(…) Penso, com efeito, que a televisão ( …) faz correr um perigo muito grande às diferentes esferas da produção cultural, arte, literatura, ciência, filosofia, direito (…) e faz correr um não menor risco à vida política e á democracia.
(…)
O discurso articulado, que foi pouco a pouco excluído dos estúdios de televisão(…) continua, com efeito, a ser uma das formas mais seguras de resistência à manipulação e da afirmação da liberdade de pensamento.
(…)
O acesso à televisão tem por contrapartida uma censura formidável, uma perda de autonomia ligada, entre outras coisas, ao facto de o tema ser imposto, de as condições de comunicação serem impostas (…) em última instância, poderá dizer-se que é a coacção económica que pesa sobre a televisão. Dito isto, não podemos contentar-nos com dizer que aquilo que se passa na televisão é determinado pelas pessoas que a possuem, pelos anunciantes que pagam a publicidade, pelo Estado que paga subsídios(…) É importante sabermos que a NBC é propriedade da General Electric,…que a CBS é propriedade da Westinghouse, que a ABC é propriedade da Disney, que a TF1 é propriedade da Bouygues…

A televisão é um formidável instrumento de conservação da ordem simbólica (…), quanto melhor compreendemos como funciona melhor compreendemos também que as pessoas que nele participam são tão manipuladas como manipuladoras. Muitas vezes, os que manipulam fazem-no tanto melhor quanto mais manipulados são e quanto mais inconscientes estão desse facto…
(…)
A televisão tem uma espécie de monopólio de facto sobre a formação dos cérebros de uma parte muito importante da população
(…)
E, quem conta um conto acrescenta um ponto, a televisão, que pretende ser um instrumento de registo, torna-se instrumento de criação de realidade. Encaminhamo-nos cada vez mais para universos em que o mundo social é descrito-prescrito pela televisão, em que esta se transforma no árbitro do acesso à existência social e política
(…)
Uma das paradas das lutas políticas, à escala das trocas quotidianas ou à escala global, é a capacidade de impor um princípio de visão do mundo, uns óculos que façam com que as pessoas vejam o mundo segundo certas divisões (os jovens e os velhos, os estrangeiros e os Franceses)…
(…)
As escolhas que se operam na televisão são de certo modo escolhas sem sujeito(…) o facto dos jornalistas que, de resto, têm muitas propriedades comuns, de condição, mas também de formação e de origem, se lerem uns aos outros, se verem uns aos outros, se encontrarem constantemente uns com os outros em debates onde aparecem sempre os mesmos, tem o efeito de encerramento e, não devemos hesitar em dizê-lo, de censura tão eficazes – mais eficazes até porque o seu princípio é mais invisível – como os de uma burocracia central, uma intervenção política expressa.
(…)
Se nos perguntarmos, pergunta que poderá parecer um tanto ingénua, como são informadas as pessoas que estão encarregadas de nos informar, veremos que, de um modo geral, são informadas por outros informadores…
(…)
Não podemos representar o meio como se fosse homogéneo: há a arraia-miúda, jovens, subversivos, gente que parte a louça, lutando desesperadamente por introduzir pequenas diferenças na imensa sopa homogénea imposta pelo círculo (vicioso) da informação que circula de maneira circular entre as pessoas que têm em comum – não o devemos esquecer –a mesma submissão às coacções dos níveis de audiência, enquanto os quadros não passam, pelo seu lado, do braço dos mesmos níveis de audiências. (…) Há actualmente uma «mentalidade de níveis de audiência» (…), hoje, cada vez mais, o mercado é reconhecido como instância legítima de legitimação.
(…)
Um dos problemas maiores que a televisão põe é a questão das relações entre o pensamento e a rapidez? A televisão, dando a palavra a pensadores que se considera pensarem a velocidade acelerada, não se condenará a nunca ter mais do que fast-thinkers, pensadores que pensam mais depressa do que a sua própria sombra? (…) A resposta é que pensam por «ideias feitas». As «ideias feitas» de que fala Flaubert são ideias aceites por toda a gente, banais, conformes, comuns, mas são também ideias que, quando as recebemos, já as tínhamos recebido, de tal maneira que o problema da recuperação não chega a pôr-se (…) Quando emitimos uma «ideia feita» é como se não faltasse fazer nada; o problema está resolvido. A comunicação é instantânea, porque, em certo sentido, não existe. Ou é apenas aparente. A troca e lugares-comuns é uma comunicação sem outro conteúdo para lá do próprio facto da comunicação. Os lugares-comuns que desempenham um papel enorme na conversação quotidiana têm a virtude de toda a gente os poder aceitar e aceitar imediatamente: pela sua banalidade, são comuns ao emissor e ao receptor. No pólo oposto, o pensamento é, por definição, subversivo: tem de começar por desmontar as «ideias feitas» e tem de passar em seguida a demonstrar. Quando Descartes fala de demonstração, fala de longos encadeamentos de razões. É uma coisa que leva tempo, é necessário desenrolar um série de proposições encadeadas (…) Se a televisão privilegia um certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimentos culturais predigeridos, prepensados, não é só porque ( e isso também faz parte da submissão à urgência) tem a sua agenda de contactos que é, de resto, sempre a mesma …
(…)
Há, em primeiro lugar, os debates verdadeiramente falsos, que reconhecemos imediatamente pelo que são (…vemos logo que são compadres(…) Há também debates aparentemente verdadeiros, falsamente verdadeiros…


Excertos do livro de « Sur la television» de Pierre Bourdieu
(tradução portuguesa na editora Celta, com tradução de Miguel Serras Pereira)

Duas concepções opostas sobre a Natureza


Concepção dominante = é necessário dominar a natureza
Concepção ecológica = é necessário viver em harmonia com a natureza


Concepção dominante = modelo de desenvolvimento baseado no crescimento económico/material a fim de satisfazer o crescimento da população
Concepção ecológica = modelo económico baseado na satisfação das necessidades materiais simples da população e que se ligam ao objectivo da sua autorealização


Concepção dominante = crença que os recursos são inesgotáveis
Concepção ecológica = noção de que os bens são finitos


Concepção dominante = Progresso e soluções de carácter exclusivamente tecnológico
Concepção ecológica = Tecnologia adequada, e conhecimento científico não-dominante


Concepção dominante = Consumismo
Concepção ecológica = Produzir o suficiente, reciclar

As novas tendências do desespero



Tal como a diatribe é mais literária que o panegírico, assim também o desespero é uma fonte inesgotável de inspiração para o texto que não seja uma simples prosa de escriba mais ou menos inspirado. Acontece que o tempo passa e marca como um ferrete o desespero humano. Ignorá-lo é render-se ao platonismo essencialista dos cultores da metafísica em busca de uma mais que duvidosa quinta-essência. Do outro lado encontramos os determinismos de matizes várias que tudo tentam reduzir a equações causais e estatísticas sem valorar em devida conta o vitalismo que (des)organiza toda a matéria e alimenta o complexo de processos por que passa a vida errante dos elementos.
O desespero é irredutível e insolúvel. Em escalas diferentes, é certo, mas sempre presente no infra como no sobre-humano, na história como na actualidade, em mim tanto como no outro. O que distingue o homem das outras espécies é, segundo Edgar Morin, a consciência da morte, que alimenta, aliás, os seus medos e fantasmas, e dos quais procura esconjurar por múltiplas maneiras (Arte, Religião, etc). Poder-se-á dizer que historicamente a Humanidade atravessou diferentes formas de medo: do pânico (que exigia o correspondente heroísmo), num primeiro momento, evoluiu para a ansiedade e a angústia ( face à redescoberta da solidão humana após a morte de Deus) até desaguar na inquietação actual face às forças tecnológicas que o próprio homem pôs em marcha, não obstante toda a programação e integração dos riscos. No fundo, o medo não procede da vida instintiva e animal, mas é antes um produto do imaginário, uma ideia da morte que cada cultura e cada indivíduo transporta em si mesmo.
No mundo antigo era impossível escapar ao desespero de origem teológica. O quotidiano estava saturado do elemento divino. O próprio imaginário não prescindia também dessa copiosa fonte. As sociedades organizavam-se em função do transcendental e os seus membros viviam os seus desesperos em função dessa misteriosa força que detinha esse estranho poder de dar como retirar a vida. O poder opressivo do deus castigador lançava definitivamente o desespero para os braços escatalógicos da religião. O taoísmo representou talvez uma das poucas excepções a essa tendência, e a Tragédia clássica uma das suas mais belas ilustrações.
A civilização medieval mais não fez que reforçar o desespero humano ao submergir o homem no mundo insondável da Cidade de Deus. . O Carpe Diem rabelaisiano era precisamente uma tentativa de fugir a esse apocalipse dantesco. E não tardou muito a que se tenha acrescentado uma nota de crueldade desumana à herança antiga ao entregar a tutela das penas divinas à Instituição clerical que não hesitou em montar, ao seu serviço, toda uma fria parafernália inquisitorial. As heresias assim como as utopias milenaristas e literárias eram assomos de um desespero incontido que pagavam caro a sua recusa.
O individualismo romântico mudou radicalmente o sentido faustico da existência humana. Esta passou a traduzir-se numa multiplicidade de possibilidades, numa liberdade imanente que escondia uma real angústia face ao vazio. O desespero traduzia este desencantamento do mundo e a consciência de estarmos condenados à solidão. As várias cores e matizes em que se expôs não alteram em nada aquele registo.
A lucidez do pessimismo reaccionário de Schopenhauer ( que exerceu tanta influência em autores tão variados, desde Strindberg, até Beckett, passando por Wagner, Thomas Mann, Kafka, Pirandello, Borges) leva-o a confessar que « a vida oscila, como um pêndulo de relógio, entre o sofrimento e o aborrecimento» e não hesita mesmo a escrever que « a vida de cada um de nós, no seu conjunto, é uma verdadeira tragédia». Baudelaire fala, por sua vez, de “une désespérance voisine de l’anéantissement”, e os filósofos da suspeita ( Marx, Nietsche, Freud) mais não fazem que corroborar a profundeza da dúvida e da incerteza. E d aí em diante há que não nos iludirmos: quanto mais vemos, mais cegos ficamos.
Montherlant ao dar-se conta que estava em vias de cegar, suicida-se («Je deviens aveigle, je me tue»), e com ele uma longa lista de suicidados literários impregna a modernidade social, quais epígonos da morte e do sofrimento desesperado de que é feita a barbárie civilizacional. Mas o caso de Pavese é ainda mais flagrante: a ascenção do fascismo italiano bloqueia totalmente a existência e faz da morte o seu projecto de vida. Primo Levi nunca mais recuperou da sua experiência concentracionária. E Mishima prefere já- e sintomaticamente - a morte como espectáculo.
Apesar das fenomenologias, das hermenêuticas, das retóricas, das teorias de comunicação, a verdade é que um tal paradoxo da cegueira num mundo mediatizado não mais largou a contemporaneidade massificada em que passamos a viver. Acontece que neste planeta de símios a hipersocialização a que a massa está submetida gera contraditoriamente cada vez mais exclusão social! O desespero ganha outros cambiantes. A atomização é acompanhada por um controle social em larga escala, panóptico. A unidimensionalidade de Marcuse e a aldeia global de McLuhan são porventura hoje as metáforas-mundo mais fortes. Baudrillard refere-se a um universo em que há cada vez mais informação e menos significado. E não faltam tentativas para explicar o desespero do homem actual a cargos de ensaístas cotados na bolsa inflacionada da academia . Submergida por uma enxurrada de sinais exteriores e de simbolismos imagéticos , que não domina nem consegue inteiramente decifrar , a vontade humana desespera.
Escritores tão diversos como William S. Burroughs, Don Delillo, Norman Mailer, Pynchon, etc – só para citar os que nasceram nas entranhas do Império Americano - não se cansam de povoar as suas obras de personagens assustadas com o modo como as grandes organizações – não identificáveis, mas com poderes extraordinários e objectivos inconfessáveis - estariam a controlar as suas vidas, influenciando as suas acções e construindo os seus desejos. A teoria da conspiração, tão poderosa na não menos poderosa América do século XX e XXI, e que tem servido de álibi para todos os acontecimentos da vida americana, representa bem o estranho ambiente de desespero em que o massificado homem comum vive no mundo pós-industrial das sociedades do capitalismo avançado. Justamente por as teorias de conspiração não poderem ser confirmadas é que a. paranóia conspirativa cumpre integralmente a sua função. E a sua proliferação e aceitação é tanto mais convincente quanto coincide justamente com o quase, ou mesmo total, desaparecimento dos grandes esquemas explicativos que, apesar de se digladiarem, orientavam até agora a História
. A teoria da conspiração, a paranóia e a ansiedade colectiva das massas ganham hoje novos desenvolvimentos com as chamadas tecnociências, o terrorismo, o fundamentalismo, as nanotecnologias, as mudanças climáticas, a bomba demográfica e o esgotamento de recursos, tudo isto numa Natureza repasteurizada e urbanizada. As actuais sociedades do risco e a multiplicação dos seus riscos ( riscos alimentares, tecnológicos,e profissionais,...) - expressão tão cara aos sociólogos de serviço que desempenham hoje impecavelmente o histriónico papel de Pangloss - obrigam à introdução de princípios como o da precaução e gestão controlada dos riscos, sem, no entanto, minorar nem eliminar a consciência colectiva do medo iminente. Ao mesmo tempo ensaia-se a fabricação do sobre-humano, através da engenharia genética e respectiva parentela, e que levou o filósofo alemão Peter Sloterdijk, num texto polémico, a falar a este propósito da «ganadaria genética» dos humanos, o anarquista primitivista John Zerzan a lançar violentas críticas ao american way of life que se pretende globalizar, e o lobby psy a comprazer-se ( e, já agora, a enriquecer) com toda este mal-estar, a que não falta até um catálogo de apocalipses possíveis, produto de rendosos estudos de futurologia prospectiva.
A literatura não faltou à chamada e a ficção científica acaba por aproveitar o filão. O movimento cyberpunk, ilustra abundantemente alguns dos aspectos inquietantes dos desenvolvimentos tecnológicos e esboça os traços dos futuros cyberbodys.
Mas parece-nos ser noutro lado que o desespero ainda se aloja e se refugia. É no indíviduo cerceado, televigiado, manipulado, perdido , representado na figura emblemático do homem sem qualidades. Naquele indivíduo que – cúmulo irreal da história - para ser aceite socialmente, aceita passivamente ser excluído do mundo dos vivos. Metaforicamente, bem entendido.

Autor – AAS

Texto publicado no nº 1 da revista a Voz de Deus, editada pelas Edições Mortas