18.11.06
Festival de Teatro Associativo
de 4 de Novembro de 2006 a 27 de Janeiro de 2007 no Porto
Calendário da programação
Todos os espectáculos às 21,45HORAS,
no auditório da Companhia Teatral de Ramalde
Rua de Requesende, 1949
04 de Novembro - Teatro Fonseca Moreira - Felgueiras
"MULHER SEM PECADO"
18 de Novembro - SENTIDOS - Grupo de Teatro – Porto
"QUEM SOMOS: UM GRÃO DE AREIA NO SAPATO?"
25 de Novembro - ARAUTOS -Grupo D'arte e Cultura - Esmoriz
"AS JÓIAS DE SANGUE"
02 de Dezembro - TEAGUS - Teatro Amador de Gulpilhares"
AS MULHERES DE ATENAS"
16 de Dezembro - Escola Dramática e Musical Valboense
"DESPERTA E CANTA "
06 de Janeiro - CORIFEU - Grupo Teatro de Vila do Conde
"A RUA"
13 de Janeiro - CORIFEU - Grupo de Teatro de Vila do Conde
"CARTA A UMA FILHA"
20 de Janeiro - A Capoeira – Companhia de Teatro de Barcelos
"FARSA DE INÊS PEREIRA"
27 de Janeiro - Companhia Teatral de Ramalde - Porto
" A PÁTRIA DAS CAMÉLIAS"-segundo O Porto Profundo(excepcionalmente, a estreia ocorrerá no Auditório da Paróquia da Freguesia de Ramalde)
Encerramento
28 de Janeiro -16 horas- Atribuição dos "PRÉMIO TALMA" Entrega das Placas Associativas aos Grupos participantes
Colóquio - Exílio e Exilados Políticos (1926-1974)

Encontro- Colóquio Exílio e Exilados Políticos (1926-1974)
24 e 25 de Novembro
Casa das Artes
A entrada é livre, sendo apenas necessário a inscrição prévia até 22 de Nov.
Programa
24 Novembro Sexta
09h30 -ABERTURA. Intervenções do Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Arq. Armindo Costa, e do Consultor Científico do Museu Bernardino Machado, Prof. Doutor Norberto Ferreira da Cunha
10h00 - O REVIRALHISMO E A LIGA DE PARIS.Prof. Doutor Fernando Rosas (Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa)
10h30 - BERNARDINO MACHADO, OPOSICIONISTA À DITADURA MILITAR E AO SALAZARISMO (1926-1944). Prof. Doutor Norberto Cunha (Universidade do Minho)
11h00 -Debate
11h30 - OS BUDAS E A OPOSIÇÃO À DITADURA MILITAR E AO ESTADO NOVO - CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS NO REVIRALHISMO DOS ANOS 30.Mestre António José Queirós (Investigador do Centro de Estudos da População Economia e Sociedade da Universidade do Porto)
12h00 - OS EXILADOS PORTUGUESES NO BRASIL. Prof.ª Doutora Heloísa Paulo (Universidade Salgado de Oliveira, de Niterói, Brasil)
12h30 - Debate
15h00 - OS EXILADOS PORTUGUESES NA SUÍÇA: REFLEXÕES EM VOLTA DE UMA EXPERIÊNCIA VIVIDA (1963-1974). Prof. Doutor Eurico Figueiredo (Universidade do Porto)
15h30 - A FRENTE PATRIÓTICA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (1962-1974). Prof.ª Doutora Susana Martins (Doutoranda da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)
16h00 - Debate
16h30 - O EXÍLIO SOCIALISTA ORGANIZADO: DA ACÇÃO SOCIALISTA AO PARTIDO SOCIALISTA (1964-1974). Prof. Doutor António Reis (Universidade Nova de Lisboa)
17h00 - EXILADOS DISCRETOS. Prof. Doutor António Ventura (Universidade de Lisboa)
17h30 - EXÍLIO E MEMÓRIA. Prof. Doutor Acílio Estanqueiro Rocha (Universidade do Minho)
18h00 - Debate
25 Novembro I Sábado
09h30 -JAIME CORTESÃO: UM HISTORIADOR NO EXÍLIO. Mestre Elisa Neves Travess(Universidade de Lisboa)
10h00 -ALEXANDRE PINHEIRO TORRES: AS ILHAS E O DESTERRO. Doutor Fernando Guimarães (Poeta e Ensaísta)
10h30 -Debate
11h00 - OS EXÍLIOS DOS ARTISTAS PLÁSTICOS: ARTE E EXÍLIO EM PORTUGAL. Prof. Doutor António Pedro Pita (Universidade de Coimbra) e Prof. Doutor Bernardo Pinto de Almeida (Universidade do Porto)
11h30 -RUY LUÍS GOMES: UM CIENTISTA NO EXÍLIO. Prof.ª Doutora Natália Bebiano Providência (Universidade de Coimbra)
12h00 - Debate.
12h30 - Conclusões e encerramento.
17.11.06
As «malditas palmeiras»

As lógicas dos impérios têm muito em comum e será, pois, oportuno relembrar o que se passou quando um governador imperial britânico, Sir Stamford Raffles, visitou uma das ilhas da Indonésia, no final do século XIX. Aqui as populações viviam autonomamente, graças a uma vida frugal e às palmeiras espontâneas locais que lhes forneciam tudo aquilo de que necessitavam.
Afirmou então o Governador: «Mas estas pessoas são ingovernáveis!».
Queria ele dizer que eram ingovernáveis porque não havia nada que o poder lhes pudesse dar e que elas quisessem ou precisassem.
Perante isso, é evidente que o governo sob a chefia do dito Governador foi forçado a deitar abaixo as «malditas palmeiras» a fim de tornar as populações locais dependentes e, por conseguinte, governáveis.
As ideologias das missões, da colonização e do «desenvolvimento»
Antes da colonização, a ideologia da missão dividia os seres humanos em cristão e pagãos, tendo os primeiros o «dever» de levar a «fé» aos pagãos.
A ideologia da colonização, surgida no século XVIII dividia os seres humanos em civilizados e selvagens, competindo aos civilizados a tarefa de levar a «civilização» aos «selvagens».
A partir da II Grande Guerra Mundial começa-se a falar e a fazer-se a distinção entre desenvolvimento e subdesenvolvimento: os seres humanos são então divididos em ricos e pobres, cabendo aos ricos ajudar os «pobres» de forma a estes se tornarem «ricos». Esta ideologia do «desenvolvimento» aparece nos Estados Unidos e visa substituir a ideologia da colonização, já que os próprios Estados Unidos tinham sido colónias pelo que dificilmente poderiam aceitar a ideologia da colonização.
Hoje em dia em plena época do capitalismo financeiro e da globalização capitalista o termo subdesenvolvidos toma um tom pejorativo e passa-se a estabelecer diferenças na base do maior ou menor grau de industrialização, aparecendo então a distinção entre 1) países industrializados; 2) Novos países industrializados; 3) Países em Desenvolvimento.
O colonialismo destruiu sociedades e culturas inteiras (genocídio e etnocídio)

O colonialismo assenta fundamentalmente na imposição de um modelo económico-cultural a outras sociedades e culturas que provocou a desintegração, senão mesmo o desaparecimento, das economias e culturas autóctones, forçando essas populações a inserirem-se na chamada economia-mundo.
Com efeito, antes desses povos serem colonizados havia neles uma economia de subsistência e um certo grau de progresso como o demonstram historicamente algumas sociedades que atingiram um elevado grau de evolução.
Na verdade, os povos colonizadores não eram mais ricos nem mais civilizados do que os povos colonizados, antes da expansão das sociedades europeias através das cruzadas e da colonização, ao contrário do que muitas vezes se pretende fazer crer.
A imposição aos povos de valores, modos de vida e comportamentos a que eram alheios trouxe como consequência a destruição de muitas sociedades no plano económico e cultural e a perda e inferiorização das suas identidades próprias. Em não poucos casos chegou-se mesmo ao ponto da eliminação física de povos e sociedades (genocídio e etnocídio).
Para ilustrar tudo isso leia-se este texto com data de 1971 de autoria de Aimé Cesaire:
«É a minha vez de propor uma equação: colonização-coisificação
Já ouço a trovoada. Falam-me de trovoada, de «realizações», de doenças curadas, e de níveis de vida elevados acima de si próprios.
Eu falo de sociedade esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificências artísticas enfraquecidas, de possibilidades extraordinárias suprimidas.
Atiram-me à cabeça com factos, estatísticas, quilómetros de estradas, canais e caminhos-de-ferro.
Eu falo de milhares de homens sacrificados no Congo.
Falo dos que, à mesma hora em que escrevo, escavam à mão o porto de Abidjan. Falo dos milhões de homens arrancados aos seus deuses, hábitos, vidas, à vida, à dança e à sabedoria.
Enchem-me os olhos com toneladas de algodão ou de cacau exportadas, com hectares de plantações de olivais ou de vinha.
Eu falo de economias naturais e de economias harmoniosas e viáveis que, apesar de serem desorganizadas, estavam à medida do homem indígena, e que foram destruídas juntamente com as suas culturas alimentares, falo de subalimentação crónica, de desenvolvimento agrícola orientado para benefício exclusivo das metrópoles, de saque de produtos e de matérias-primas.»
Canção burguesa ( de Raul de Carvalho)
Da vida burguesa...
Sete horas em ponto
O jantar na mesa;
Café bem quentinho,
Conversa tranquila,
E um lençol de linho
Esperando o seu dono
Para um belo sono...
Que bom não ter sonhos,
Dormir sossegado!
Já estou acordado,
Já salto da cama,
- Maria, Maria,
Traga os chinelos,
Traga o meu pijama...
A alma lavada,
O corpo limpinho.
- Bom dia vizinha!
- Bom dia vizinho!
Consolo e delícia
Da vida burguesa...
Se isto continua,
Morro, com certeza!
( de Raul de Carvalho, 1920-1984)
Raul de Carvalho foi um poeta irreverente, marcado pela influência de algum surrealismo, tendo colaborado em revistas como a àrvore, Seara Nova e Cadernos de poesia.
"Quem somos? Um grão de areia no sapato" pelo Teatro dos Sentidos (dia 17, às 21.30, na Junta de Massarelos, Porto)
O texto é de Vera Cunha com um poema de Tiago Magalhães
Encenação: Vera Cunha
Elenco: Graziela Sousa, Isabel Pinto Morais, José Stuart Torrie, Miguel Peixoto, Sérgio P
Sinopse:
Na brevidade de um momento, cinco personagens dão a conhecer a sua identidade.
Num universo, inicialmente, camuflado: Júlia, Pedro, Tiago, Matilde e Lucas conversam acerca daquilo que, à partida, não havia para conversar. Desvendam-se experiências de vida, partilham-se sentimentos, exteriorizam-se emoções, afinal e quiçá, desnecessárias... Uma performance em que o desenvolvimento dramaturgico é, propositadamente, linear e onde se dispensam clímaxes. Em conformidade com a nota introdutória: "Um texto superficial, monótono, pouco significativo... como, também, a vida consegue ser." "Quem somos?", serve de mote para uma encenação que, se pretende, fulcral para a compreensão dos significados implícitos na incapacidade humana e presentes ao longo de toda a acção.Porque, Júlia, Pedro, Tiago, Matilde e Lucas são apenas uma ilustração do que cada um de nós talvez seja, tenha sido ou possa ainda vir a ser... nada mais, nada menos que um grão de areia no sapato….
IR AO TEATRO É UM PRAZER
15.11.06
Advogados processam Donald Rumsfeld por «crimes de guerra»

Activistas alemães e norte-americanos dos Direitos Humanos juntam forças para levar Rumsfeld a Tribunal.
Advogados processam Donald Rumsfeld por «crimes de guerra»
Um colectivo internacional de advogados apresentou hoje na Alemanha uma queixa contra o antigo secretário da Defesa norte-americano Donald Rumsfeld por ter justificado o uso da tortura contra prisioneiros de guerra no Iraque e em Guantanamo.
A queixa, um documento de 220 páginas, foi entregue à procuradora-geral da Alemanha, Monika Harms, em Karlsruhe (oeste), disse Hannes Honecker, dirigente da União dos Advogados Republicanos, uma das associações subscritoras do documento.
A queixa foi apresentada pelo Centro para os Direitos Constitucionais em nome de 11 antigos detidos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, e de Mohamed Al-Qahtani, um detido na base norte-americana de Guantanamo.
Além de Rumsfeld a queixa visa cinco juristas da administração Bush, entre os quais o ministro da Justiça (Attorney General), Alberto Gonzalez, na sua qualidade de antigo conselheiro da Casa Branca.
Em causa estão os argumentos jurídicos que estes juristas invocaram para justificar a diversificação das técnicas de interrogatório aos prisioneiros.
Donald Rumsfeld, que é considerado por diversas associações de advogados e de direitos humanos como «um dos arquitectos do programa norte-americano de tortura», ficou exposto à possibilidade de um processo judicial quando se demitiu no passado 8 de Novembro, deixando de poder invocar imunidade.
Nessa altura, várias organizações de defesa dos direitos humanos tinham anunciado a intenção de apresentar uma queixa por tortura contra Rumsfeld e outros, perante um tribunal alemão, em nome do princípio de jurisdição universal, que permitiu, nomeadamente, que o ex-ditador chileno Augusto Pinochet fosse processado em Espanha.
Radio Libertaire festeja 25 anos de emissão para todo o mundo

11.11.06
Os narizes das classes dirigentes


«Suas Excelências estão contemplando ou estão simplesmente dormindo? Seria talvez tempo de sairmos desta dúvida, apoderando-nos dos narizes das classes dirigentes, e sacudindo-lhes por algum tempo com o respeito vigoroso, profundo e tenaz que todos os narizes altamente colocados devem merecer à crítica e à opinião das massas»
Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão,
Cruel dilema: serão os narizes verdadeiros ou de cera? No museu das Tristes Figuras há muito que os escultores aguardam impacientes, perante a quantidade de narizes ( e de cera) que se lhes anuncia. Há-os de todos os feitios: a classe dirigente é fértil em figuras, quase todas tristes. Sinais do fado ( o nosso, não o deles…). Narizes há que convergem, outros que divergem, outros que se mantêm orgulhosamente sós. O narigal, mercê do método de Hondt, apresenta ao olhar dos observadores, tipos e tamanhos de pencas variegadas. Nem a reforma agrária, já na sua versão corrigida, consegue colectivizar tais apêndices: eles são uma reserva preciosa como argumento eleitoral.
Sem o seu nariz identificador, que seria dos líderes partidários, dos ministros, secretários de Estado e demais políticos que fazem a delícia e a alegria dos Portugueses e das Portuguesas.
Senhores dos seus narizes, mas indiferentes aos odores que perfumam de norte a sul este jardim plantado, passeiam-se impávidos e serenos por entre os lenços dos seus concidadãos nasalmente menos resistentes. Nem um oceano de desodorizantes chagaria para proteger a capital de certas pestilências. Apetece-nos neste momento citar Cambronne!
Ou as massas abanam os narizes ou os narizes abanam-se sobre as massas.
Há opiniões controversas, críticas perversas: mas quem tem mais nariz sensível, que não seja de cera, arrisca-se à asfixia, se quer a todo o custo ignorar os maus cheiros. Também nós fizemos um inquérito, coisa tão em voga na jovem democracia, e concluímos que a hipersensibilidade é pecha do cidadão comum, a que escapam os políticos. E por que escapam?
A resposta é fácil: Tapam os narizes ( ou as orelhas, ou os olhos, etc, o que vem a dar no mesmo)! No fundo é tudo uma questão de tapume. Isto é: a política do tapa aqui, tapa acolá. Mas os buracos sucedem-se e a produção nacional bruta de tapume não atinge os objectivos do plano, que pelo menos neste aspecto é ambicioso.
No outro dia, um cidadão respeitável torcia cepticamente o nariz a um discurso pré-eleitoral ( os discursos políticos em Portugal são sempre pré-eleitorais). É que o nariz do orador ameaçava romper o pequeno ecrã e esparramar-se sobre os telespectadores. Já intimidade da vida privada não está a salvo das narigadas! Nasaladamente, as promessas ritmadas e repetidas penetram pelos tímpanos mais virgens: nada há que lhes resista.
Os narizes tornaram-se eróticos, à medida que a cera funde.
Desesperado, o cidadão desligou o interruptor, mas a imagem do nariz não lhe deu tréguas. No dia seguinte, foi ao psicanalista e constatou estupefacto que o consultório estava cheio de narizes! Deu maia volta e foi postar frente do televisor, arengando às massas: o nariz crescera-lhe assustadoramente.
Moralidade: se não começarmos a sacudir os narizes às nossas classes dirigentes, ficaremos todos de nariz à banda.
( texto publicado no Suplemento «Das Artes e Letras» de 6 de Novembro de 2006 do jornal «O Primeiro de Janeiro»)
Editorial do jornal anarca «A Merda»
Na verdade, essa publicação constitui, talvez, nos últimos cinquenta anos a referência anarca que mais eco teve junto da população em geral, subsistindo ainda hoje na memória e no subconsciente de muita gente que viveu naquela época ( o jornal teve quatro números).
Reproduzimos o editorial do seu primeiro número que rapidamente se esgotou, tal foi a procura e o êxito que encontrou nos anos eufóricos, vividos em Portugal em 1974 e 1975.

O editorial do jornal anarca «A Merda»
No mundo de hoje, as pessoas apaixonam-se pela merda duma bandeira, porque têm o sexo na cabeça;
Sentem a emoção a invadir-lhes o corpo quando cantam a merda do hino (à boa maneira hitleriana);
Põem na merda da palavra nação um acento rácico mal disfarçado;
Criam-se merdas como as pides para reforçar a defesa da merda do Estado e a sua consequente merda doutrinária;
Fazem coincidir a merda do Estado com a merda da nação;
Criam-se partidos de merda para agrupar os carneiros de merda;
Preparam-se eleições de merda para eleger as merdas dos governantes;
Prestam-se homenagens a merdas que se distinguiram pelos seus serviços de merda;
Fazem com que o povo se orgulhe pelo passado de merda e festejam-se os heróis de merda, da merda da nossa história;
Fazem-se leis de merda para obstar a que se derrube a merda do sistema;
Há toda uma merda de papéis a invadir as ruas, os bairros e as nossas casas para que as leis de merda sejam cumpridas;
Agora até se servem da merda sonora da rádio e da merda televisiva;
Mas como muitos procuram fugir à merda das leis, mandam os merdas dos polícias ( autoridades da merda das democracias da merda, tanto de leste como da merda do oeste);
E como os merdas dos polícias não chegassem para chatear a malta, é preciso a merda do exército com a hierarquia de merda;
Os senhores de merda, bem situados na merda desta sociedade, vêm com a merda dos discursos exaltar a sua moral de merda;
Os merdas dos burocratas, os cívicos de merda e toda a classe dos merdas exploradores são os que melhor se sentem na merda da sociedade e são os mais zelosos defensores da merda;
Nesta sociedade de merda, as pessoas já se não dão conta da merda em que estão;
E o homem?
O homem está em vias de extinção devido à repressão exercida pela merda do Estado e pelos seus lacaios de merda que são quem possibilita a merda das igrejas civis e religiosas que escravizam o homem;
O homem és tu, leitor.
Deves começar já hoje a guerra contra a poluição.
Mas atenção!
É preciso começar por tirar a merda da tua própria cabeça.
9.11.06
Edição portuguesa do Le Monde Diplomatique volta aos quiosques

O jornal mensal Le Monde Diplomatique, de origem francesa e publicado há já algumas décadas, tem vindo a ter edições em vários países e em várias línguas, incluindo mesmo o esperanto (edição digital).
Em Portugal o Le Monde Diplomatique começou por ser publicado e traduzido em português nos anos de 1980 pela mão de Snu Abecassis, através da sua editora, a D. Quixote. Interrompida a sua publicação pouco tempo depois, o jornal passou a ser lido apenas na sua edição original ( em francês). Só há 7 anos atrás é que a editora Campo das Letras, formada há pouco tempo, começou novamente a editar em português o jornal que, entretanto, ganhara prestígio e se multiplicara por várias edições em diversas línguas. No início de 2006 a Campo das Letras decide suspender a sua publicação, restando aos leitores portugueses que não dominam a língua francesa, recorrer à leitura de textos da edição brasileira no respectivo website.
Entretanto, os trabalhadores ( tradutores e outros) que garantiam a edição do Le Monde Diplomatique decidiram constituir nos últimos meses uma cooperativa («Outro Modo») a fim de relançar mais uma vez a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, que volta a estar nas bancas dos jornais a partir deste mês de Novembro de 2006.
Face ao panorama paupérrimo da imprensa portuguesa, ao seu controlo pelos grandes grupos económicos, e a todas as dificuldades de sobrevivência no mercado de órgãos independentes do poder económico e político, a existência em português do Le Monde Diplomatique constitui uma brecha no discurso neo-liberal dominante. Por isso não hesitamos em saudar e apoiar o reaparecimento do Le Monde Diplomatique, em edição portuguesa. O que não significa que partilhamos muitos dos pontos de vista que aí são defendidos. Tal não deve, no entanto, impedir a sua leitura atenta, e o seu uso como ferramenta para o debate e estudo dos problemas contemporâneos do mundo actual.
Pelo que não podemos deixar de apoiar e manifestar a nossa satisfação pelo relançamento da edição portuguesa, e a solidariedade aos seus trabalhadores que decidiram manter e defender o título, e tornar possível aos leitores portugueses o acesso a uma das publicações de qualidade que mais se tem batido a nível internacional contra o neoliberalismo e a globalização capitalista.
Nessa medida, e independentemente de divergências de perspectivas teóricas que nos possam separar, o Pimenta Negra saúda e apoia a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique.
Edição portuguesa:
http://pt.mondediplo.com/
Edição brasileira:
http://diplo.uol.com.br/
Edição francesa ( original)
http://www.monde-diplomatique.fr/
Edição espanhola:
http://www.monde-diplomatique.es/
Edição no Chile:
http://www.lemondediplomatique.cl/
Nota Importante:
O website francês do Le Monde Diplomatique costuma editar artigos com alguma regularidade sobre a actualidade. Consultar:
http://www.monde-diplomatique.fr/carnet/
O mesmo website disponibiliza ainda uma valiosa Agenda e uma interessante recensão de imprensa ( com um notável lista de remissões para revistas e jornais):
http://www.monde-diplomatique.fr/revues/
http://www.monde-diplomatique.fr/agenda/
Para além de tudo isso, cada edição inclui normalmente a referência e por vezes recensões críticas a livros editados ( em Portugal, na edição portuguesa; e em França, na edição francesa).
No último número do Le Monde Diplomatique ( de Novembro de 2006) aparece, por exemplo, a referência a um livro acabado de aparecer em França com os Contos (« Les Contes») escritos por Mumia Abu-Jamal ( jornalista e activista negro, actualmente preso nos USA, e condenado à morte) , assim como o livro, editado em 2005 pela edições L’Echappée, de Alexander Berkman, «Qu’est-ce que l’anarchisme?». Reproduzimos o comentário a este último livro:
«Qu’est-ce que l’anarchisme?», de Alexander Berkman, editions L’Echappée, Paris, 2005.
Anarquista russo exilado nos Estados Unidos em 1888, Alexander Berkman (1870-1936) foi expulso da Rússia em 1919, juntamente com Emma Goldman pela sua participação nas lutas sociais. Ambos partiram em 1921, desencantados e amargurados. Berkman escreveu o Mito Bolchevique para explicar como a ditadura tinha destruído a liberdade e a revolução. No livro, que agora sai à estampa, reúnem-se dois textos de 1929, traduzidos pela primeira vez para o francês, onde sintetiza pela primeira vez um pensamento comunista libertário, tendo em consideração os acontecimentos do seu tempo ( fracasso da revolução russa e das insurreições europeias) e dirigindo-se a um operário americanos médio através de uma linguagem simples e límpida. A primeira parte analisa os males que não mudaram (trabalho assalariado, governo, funcionamento do sistema, guerra, desemprego, religião) e as falsas soluções para eles ( Igrejas, Partidos políticos, sindicatos, socialismo reformista e o bolchevismo). A segunda parte define o anarquismo como «a concepção mais racional e mais prática de uma vida social livre e harmoniosa», e a terceira parte explica finalmente a necessidade da revolução social para pôr termo à autoridade dos senhores que dirigem as nossas vidas.
( autor deste comentário do jornal em edição francesa: Charles Jacquier)
Greve Geral na Administração Pública a 9 e 10 de Novembro

A apresentação do Orçamento do Estado para 2007 e as declarações do Ministro de Estado e das Finanças sobre o tema dão ainda mais razão à realização e a uma massiva participação dos trabalhadores na greve geral da Administração Pública de 9 e 10 de Novembro.
O Governo não pode continuar a atacar impunemente as condições de vida e de trabalho e a dignidade dos trabalhadores, para favorecer os grandes grupos económico-financeiros!
A degradação das condições de vida e de trabalho daqueles que produzem a riqueza deste país não pode continuar!
Os trabalhadores exigem uma política diferente para o país!
É mentirosa a afirmação de que “os sacrifícios são para todos “, pois Portugal é o país da União Europeia com o maior fosso entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres e este fosso tem vindo a aumentar nos últimos anos. É a própria UE a reconhecer este facto.
E, em paralelo, possuímos algumas das maiores fortunas a nível europeu…
Os trabalhadores e a população em geral sentem na pele o continuado aumento do preço de bens essenciais, muito superior às taxas de inflação, na água, no pão, nos combustíveis, nos transportes e na generalidade dos bens de primeira necessidade. Está a ser agora anunciado o aumento de 16% dezasseis por cento, na electricidade.
Entretanto, o capital financeiro paga cerca de metade da percentagem do IRC que pagam as micro, pequenas e médias empresas e as percentagens de lucros dos Bancos são cada vez maiores – em 2005, segundo o Banco de Portugal, aumentaram 71,5% e ultrapassaram os 2,2 mil milhões de euros. Na situação actual de crise e empobrecimento da maioria da população, esta situação assume um carácter de autêntica obscenidade.
Para que isto assim seja, o Governo PS/Sócrates tem que tirar poder de compra aos trabalhadores e aos reformados, tem de acabar com direitos sociais, degradar a Segurança Social e os Serviços Públicos e entregar as partes rentáveis ao grande capital, tal como exigiu a irmandade do Compromisso do Beato, em propostas que a CGTP não hesitou em classificar de terroristas.
Isto não pode continuar!
Na Administração Pública, estamos a ser confrontados com o maior ataque aos direitos dos trabalhadores que se verificou desde o 25 de Abril, mesmo a direitos que constituíam valores civilizacionais indiscutíveis, como o direito ao trabalho – aliás, constitucionalmente garantido.
O Governo de Sócrates não tem pejo em apresentar uma proposta de tabela que retiraria a todos os trabalhadores, em 2007, entre 3,7% e 0,7% do seu poder de compra. Isto depois de, desde 2000, terem perdido uma média de 10%.
Nas reuniões já realizadas, o Governo apresentou uma proposta de aumento salarial de 1,5% que é efectivamente de 1%, já que pretende descontar 0,5% mais para a ADSE .
É a primeira vez, desde 1977, que o Orçamento de Estado regista uma diminuição nas despesas com o pessoal (0,9%) em 2 anos consecutivos.
Os objectivos nefastos do Governo manifestam-se em todas as áreas da Administração Pública:
. Na Educação, com a privatização de segmentos do sistema e o ataque ao Estatuto das Carreiras dos Professores e Educadores e do Pessoal não Docente;
. Na Saúde, tentando concretizar a máxima “quem quer saúde paga-a”, com o cortejo de mazelas sociais que daí resultará;
. Na Justiça, com um ataque aos Tribunais e às independência das Magistraturas e dificultando, quando não impossibilitando, a acesso à justiça aos mais desfavorecidos;
. Nas Forças de Segurança, com a degradação das condições de trabalho e de intervenção no terreno;
. Nas Autarquias Locais, com a limitação ou a retirada de autonomia do poder local democrático.
E as propostas apresentadas aos Sindicatos pelo Governo pretendem:
. Degradar as pensões de aposentação, o que também se propõe fazer no regime geral de segurança social;
. Acabar com o vínculo de emprego público de todos os trabalhadores;
. Implementar o despedimento sem justa causa;
. Acabar com o regime de carreiras;
. Aumentar o horário de trabalho, alterar o regime de faltas (com a exigência de justificações em duplicado) e diminuir o período de férias.
Os Trabalhadores da Administração Pública não vão baixar os braços. Vão continuar a lutaram a lutar, com determinação e entusiasmo
EM DEFESA DOS DIREITOS SOCIAIS !
POR CARREIRAS E SALÁRIOS DIGNOS !
CONTRA A PRECARIEDADE, O DESEMPREGO E OS DESPEDIMENTOS !
CONTRA A DESTRUIÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E AS PRIVATIZAÇÕES !
POR UMA NOVA POLÍTICA.
E contra o simulacro de negociações que o Governo pratica com os Sindicatos da Administração Pública, através de uma Greve Geral de dois dias, nos dias 9 e 10 de Novembro.
Só a luta e a unidade dos trabalhadores da Administração Pública poderão contrariar ou minorar os efeitos desastrosos para os trabalhadores e para as camadas mais desfavorecidas dos portugueses das medidas que o Governo PS/Sócrates quer implementar.
Dia 9 e 10 de Novembro vamos mostrar que os trabalhadores não estão dispostos a aturar mais tempo as patifarias deste Governo.
Quem trabalha, tem direito a ser tratado com dignidade!
A Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública
8.11.06
Dia Mundial contra a Shell ( 10 de Nov ) - sessão promovida pelo GAIA na Casa Viva ( no Porto ), às 21 horas.


A 10 de Novembro de 2006, no espaço CASA VIVA
(Praça do Marquês de Pombal, 167, Porto)
será relembrado o assassinato do activista ambiental Ken Saro-Wiwa
e a problemática das alterações climáticas no
Dia Mundial Contra a Shell
Ken Saro-Wiwa assumiu funções de presidente do Movimento para a Sobrevivência do Povo Ogoni (MOSOP), uma das etnias que vivem no delta no rio Níger: Wiwa lutou pela defesa dos direitos dos 550 mil habitantes da região.
Um projecto de extracção de petróleo da Shell, implantado no país em 1958, destruiu os meios de sobrevivência deste povo indígena.
Saro-Wiwa juntou 300 mil pessoas numa marcha de protesto, exigindo à Shell o pagamento de indemnizações e a reparação dos danos ambientais causados. No ano seguinte, o líder do movimento é preso, junto com outros dirigentes, acusados da morte de quatro líderes Ogoni. A Amnistia Internacional considera Saro-Wiwa, defensor da não-violência, um “prisioneiro de consciência”. Um tribunal militar condena Saro-Wiwa por homicídio. Governos e organizações de todo o mundo acusam o tribunal de fraude, apelam à libertação do líder e ecologista e tentam levar a Shell a intervir. Sem êxito.
A 10 de Novembro, Saro-Wiwa e os oito dirigentes do movimento são enforcados.
Olhando do espaço, conseguimos distinguir na Terra miríades de pontos luminosos na superfície. Uns são facilmente preceptiveis como sendo cidades. Porém, uma parte substancial são impressões digitais de crimes. Não são mais do que queimadas realizadas nas zonas florestais do planeta.
Cada ponto luminoso, das centenas que podem ser avistados diariamente, corresponde à pira funerária de milhares de árvores, em queimadas megalómanas, patrocinadas por empresas petrolíferas como a Shell.
A destruição das florestas naturais e a libertação de grandes quantidades de dióxido de carbono pelos automóveis e máquinas afins que utilizamos, têm vindo a intensificar a concentração deste gás na atmosfera.
Como consequência, temos vindo a assistir por todo o planeta ao chamado aquecimento global: um aumento da temperatura média superficial global que se têm registado nos últimos 150 anos.
Embora a Shell alegue estar a reduzir as suas emissões de dióxido de carbono (o principal causador das alterações climáticas), a quantidade de dióxido de carbono produzida pelo petróleo da Shell excede a produzida pelo Brasil.
A Shell pretende aumentar a sua produção de petróleo para além dos 100 milhões de barris por dia nos próximos 10 a 15 anos.
Simultaneamente, procura aumentar a dependência mundial do gás natural, que também contribui para o aquecimento global.
Como membro do American Petroleum Institute, a Shell continua a fazer um lobby feroz contra as medidas para mitigar as alterações climáticas, incluindo o Protocolo de Quioto.
Assim, por um mundo melhor,
em colaboração com o Espaço CASA VIVA,
o GAIA apresenta:
o filme,
A Herança – “O Mundo dos Nossos Filhos”
21:00
A Hora do Chá: Um Momento de Meditação por um Mundo Melhor e por aqueles que lutam para que esse mundo “aconteça”;
22:00
Documentário sobre as Alterações Climáticas;
23:00
Tertúlia dinâmica sobre as Alterações Climáticas e a Procura de Soluções para o problema;
00:00
Música, Actividades Interactivas e Convívio.
Cantos de Maldoror, de Isidore Ducasse ( breves citações)

Que a tua graça multiplique por dez as minhas forças naturais
In Cantos de Maldoror, de Isidore Ducasse
Quando estiveres na cama e ouvires o uivar dos cães no campo, esconde-te debaixo dos cobertores, não te rias do que eles fazem; eles têm sede insaciável de infinito, como tu, como eu, como os restantes humanos, de rosto pálido e comprido
In Cantos de Maldoror, de Isidore Ducassé
http://www.maldoror.org/Programme_Barcelone.rtf
Ver ainda:
http://www.maldoror.org/
http://library.nothingness.org/articles/SI/fr/display/72
Chico Science, os «Nação Zumbi» e a Mangue beat

Francisco de Assis França, mais conhecido pela alcunha de Chico Science (13/3/1966- 2/2/1997) foi um cantor e compositor do Recife (Pernambuco, Brasil), e um dos principais colaboradores do movimento Manguebeat em meados da década de 90.
Mangue – Em rápidas palavras, foi um movimento que surgiu no Recife (Pernambuco, Brasil) nos primeiros anos da década de noventa. Trabalhando em cooperativa, dois grupos desconhecidos, Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, juntaram-se a alguns jornalistas, designers e desempregados, para tentar criar uma cena artística capaz de quebrar o marasmo que dominava a vida local. O termo é inspirado nos manguezais, a vegetação que dominava boa parte da área sob a qual foi construído o Recife. A ideia era gerar uma cena tão rica e diversificada quanto esse ecossistema, de modo a abranger toda a complexidade embutida potencialmente na vida de uma cidade grande.
A empreitada foi um sucesso: em poucos anos, centenas de bandas estavam actuando em bares, casas nocturnas e garagens, e a agitação havia se espalhado para o cinema, as artes plásticas e a moda. Recife, desde então, passou a ser conhecida como a “Manguetown”.
Chico Science
Líder da banda Nação Zumbi e principal expoente do movimento mangue beat de Pernambuco, teve sua carreira precocemente abortada por um acidente de carro. Chico Science participava de grupos de dança e hip hop em Pernambuco no início dos anos 80. No final da década integrou algumas bandas de música como Orla Orbe e Loustal, inspiradas na música soul, no funk e no hip hop.
Monólogo ao Pé do Ouvido (Chico Science)
Modernizar o passado
Os grandes marcos do mangue beat
Há alguns anos, em Recife (PE), Fred Rodrigues Montenegro encantava-se com Jorge Ben e a sua mistura de samba, rhythm'n'blues e baião. Ainda adolescente, foi convidado para tocar guitarra. O seu primeiro grupo, ainda no início dos anos 80, chamava-se Trapaça. Influências de bandas paulistas provocaram o surgimento de uma segunda banda, os Serviço Sujo, em cuja formação Fred tinha o cognome de "Rato". Em 1984, dos restos das bandas punks, surge o mundo livre S/A e seu cognome definitivo: Zero Quatro. Enquanto isso, na mesma cidade... Francisco de Assis França era daqueles músicos que não estudaram em conservatórios, mas que ouviam de tudo. Frequentava festas funk e os seus ídolos eram James Brown, Grandmaster Flash e Kurtis Blown. Nos anos 90, Francisco, ou melhor, Chico Science, descobriu o Lamento Negro, um grupo de samba-reggae. Impressionado com o som, chamou dois colegas do Loustal, o seu anterior grupo de hip hop e funk, para formar, o Chico Science e Lamento Negro no início de 1991. Aí, começa a história...
No início da década de 90, Zero Quatro, Chico Science e amigos em comum - entre eles futuros integrantes da Nação Zumbi - encontravam-se com regularidade. Foi este convívio que deu origem ao movimento que ficou conhecido como mangue beat. Em 1994 foram lançados os discos Da Lama ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi, e Samba Esquema Noise, do MLS/A .
O famoso manifesto dos "Caranguejos com cérebro" foi escrito por Zero Quatro. Segundo o jornalista e escritor Renato L, o texto era, na verdade, um release, um "book do mangue" para acompanhar os shows. Quando chegou à imprensa, passou a ser considerado um manifesto. Talvez eles não imaginassem que aquele texto, utópico, iria mudar a cara da música pernambucana e elevar o estado nordestino a um dos mais criativos e efervescentes da cultura brasileira. Passada mais de uma década, o mangue beat continua influenciando as novas gerações com seu som e sua ideologia. Ao fim de 10 anos foi organizada uma exposição com acervo de Chico Science, que morreu em Fevereiro de 1997 num acidente de carro. Passada a morte do vocalista, os Nação Zumbi pararm por um tempo e só voltaram depois com Jorge Du Peixe na voz. Saiu um livro e um cd por essa altura.
MANIFESTO CARANGUEJOS COM CÉREBRO
Mangue --- O conceito
Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem dos alagadiços costeiros.
Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas os mangues são tidos como os símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.
A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada, é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex) cidade "maurícia" passou a crescer desordenadamente as custas do aterramento indiscriminado e da destruição dos seus manguezais.
Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de "progresso", que elevou a cidade ao posto de "metrópole" do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.
Bastaram pequenas mudanças nos "ventos" da história para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem no início dos anos 60. Nos últimos trinta anos a síndrome da estagnação, aliada à permanência do mito da "metrópole", só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.
O Recife detém hoje o maior índice de desemprego do país. Mais da metade dos seus habitantes moram em favelas e alagados. Segundo um instituto de estudos populacionais de Washington, é hoje a quarta pior cidade do mundo para se viver.
Em meados de 1991 começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo é engendrar um "circuito energético", capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo, uma antena parabólica enfiada na lama.
Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em: quadrinhos, tv interativa, anti-psiquiatra, Bezerra da Silva, Hip Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não-virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência.
Contra a vídeovigilância e a sociedade de controle


«Para sua segurança, este local encontra-se equiapdo com câmaras vídeo», «Local vigiado por sistema de vídeo», «Sorria, está a ser filmado» - anúncios/avisos do género multiplicam-se hoje por toda a parte: «shoppings», aeroportos, estradas, edifícios, fábricas, escolas, estádios, ao mesmo tempo que uma câmara oculta de TV pode estar em qualquer lugar à espreita…Um imenso «bufo» electrónico, ao serviço de uma difusa e inverificável autoridade, segue cada um dos nossos passos, cada um dos nossos gestos, cada um (como na vigilância informática na Net) dos nossos pensamentos e desejos, sem, ao contrário dos seus congéneres humanos, qualquer escrutínio moral ou jurídico, antes suportado num discurso securitário que é o paroxismo do panopticismo benthaminano feito ideologia. Agora são as auto-estradas que, a partir do próximo ano serão equipadas com 510 câmaras capazes de registas todos os «comportamentos fora do padrão». A Brisa terá ainda acesso aos dados da DGV e Direcção-Geral de Registos e Notariado. Como no panóptico de Bentham, o guarda invisível nem precisa já de estar lá. Basta sabermos que somos observados para nos transformarmos nós mesmos em guardas da nossa conformidade ao «padrão» e ao que o «big brother» espera de nós.
5.11.06
Luta contra as mudanças climáticas


Imprensa ecologista em Portugal: dois exemplos históricos
Coincide também com uma época importante na história ( meados e fins dos anos 70) da nossa sociedade portuguesa, para além de ter marcado (pela positiva) a evolução existencial de alguma gente, da qual me incluo.

O jornal Terra Mágica, que aparece algum tempo depois e de que saíram alguns números, representa uma época de alguma reanimação ecologista em Portugal. A sua publicação pretendia relançar a temática e o movimento ecologista na nossa sociedade.
Memória histórica: anarquistas entram no governo republicano há 70 anos (4 de Nov. de 1936)
No dia 4 de Novembro de 1936, faz hoje 70 anos, quatro dirigentes da CNT entraram no governo da República em guerra e que era presidido pelo socialista Francisco Largo Caballeo. Tratava-se de um «facto transcendente» como afirmava nesse mesmo dia o jornal Solidaridad Obrera, o principal órgão de expressão da CNT, porque os anarquistas nunca haviam confiado nos poderes da acção governativa e porque era a primeira vez que isso ocorria na história mundial.Anarquistas no Governo de uma nação era realmente um facto transcendental e irrepetível.
Poucos homens ilustres do anarquismo espanhol se negaram a dar esse passo e as resistências da «base», dessa base sindical que era suposto ser revolucionário e fazer frente aos dirigentes reformistas foram também mínimas. O Verão, sangrento ainda que mítico verão revolucionário de 1936 já havia passado. Anarquistas radicais e sindicalistas moderados, que se tinham enfrentado e separado nos primeiros anos republicanos, estavam agora juntos, esforçando-se por obter os apoios necessários para pôr em marcha as suas novas convicções políticas. Tratava-se de não deixar os mecanismos do poder político e armado nas mãos das restantes organizações políticas, uma vez que foi claro que o que estava a acontecer em Espanha era uma guerra e não uma festa revolucionária.
O Comité Nacional da CNT elegeu os quatro nomes para essa missão: FedericaMontseney, Juan Garcia Oliver, Joan Peiró e Juan López. Nesses quatro dirigentes estavam representados de forma equilibrada os dois principais sectores que haviam pugnado pela supremacia no anarco-sindicalismo durante os anos republicanos: os sindicalistas e a FAI. Joan Peró e JUan lópez, ministros da Idústria e do Comércio, eram as figuras indiscutíveis daqueles sindicatos de oposição que tinham sido expulsos da CNT e, 1933 e que haviam voltado mais tarde, pouco antes da sublevação militar. Juan Garcia Oliver, novo ministro da Justiça, era o símbolo do «homem de acção», da «ginástica revolucionária», da estratégia insurreccional contra a República, que havia ascendido como a espuma a partir das jornadas revolucionárias de Julho em Barcelona. De Federica Montseney, ministra da saúde, a fama vinha de ser da família onde nascera – era filha de Federico Urales e Soledad Gustavo – e que se havia empenhado na República para atacar desde um anarquismo mais intrasigente todos os traidores reformistas. Ela ia ser, além disso, a primeira mulher a desempenhar o cargo de ministro na história do país.
Da passagem da CNT pelo Governo ficaram poucos vestígios. Entraram em Novembro de 1936 e abandonaram em Maio de 1937. Pouco puderam fazer em sete meses. Recorda-se muito mais o que significou a participação dos quatro anarquistas num Governo do que a sua actividade legislativa. Como a revolução e a guerra foram perdidas, nunca eles puderam expor a sua dignidade como ministros na história. E como não podia ser, semelhante acto de ruptura para com a tradição anti-política trouxeram-lhes as maiores desgraças. Para memória colectiva do movimento libertário, derrotado, e no exílio, aquela traição e aquele erro só podia trazer consequências funestas. Toda a literatura anarquista posterior, quando aborda o assunto, deixa de lado a análise, para descarregar um chuva de censuras e críticas por demais conhecidas. De um lado, fica a revolução, vigorosa e soberana; do outro, a sua destruição, feita realidade pela ofensiva que desde o poder se lançou contras as milícias, os comités revolucionários, as colectivizações, as três solenes manifestações pela mudança revolucionária.
Se menospreza assim, nesse ajuste de contas com o passado, o que de necessário e de positivo houve naquele momento extraordinário. Necessário, porque a revolução e a guerra, que os anarquistas não haviam provocado, obrigaram a articular uma solução que, evidentemente, devia afastar-se das doutrinas e das atitudes com que historicamente se identificavam. Positivo, porque essa defesa da responsabilidade e da disciplina, que converteu justamente a participação no Governo num dos seus símbolos, melhorou a situação na retaguarda, evitou ainda mais derramamentos inúteis de sangue, e contribuiu a mitigar a resistência que a outra estratégia disponível, a maximalista e a do confronto radical com as instituições republicanas, havia alimentado.
Evidentemente que uma análise deste tipo que separa o historiador do juízo de autenticidade sobre a pureza doutrinal daqueles protagonistas leva a considerar outras facetas esquecidas. Como aquela que se refere ao facto de ter sido um «anarquista de acção» como Garcia Oliver quem consolidou os tribunais populares ou que criou os campos de trabalho, substituindo os tiros na nuca para os presos fascistas. Ou que um sindicalista de toda uma vida como Juan Peiró se encarregara das intervenções nas industrias de guerra. Ou que uma mulher subisse às cúspide do poder politico, um espaço negado tradicionalmente às mulheres e que Franco voltaria a negar durante décadas, e desde aí empreendesse uma política sanitária de medicina preventiva, de controle das doenças venéreas, uma das pragas da época, e da reforma eugenésica do aborto que, apesar de não ter passado das intenções, fez avançar alguns debates ainda presentes das sociedades actuais.
Acabada a guerra, as prisões, as execuções e o exílio meteram o anarquismo num túnel de que é difícil sair. Na memória dos anarquistas, na literatura e no cinema a figura que acabou por sobressair foi Buenaventura Durrutti, com todo o seu passado novelesco e façanhas de herói, ficando na obscuridade outras figuras como Juan Peiró que dedicou a sua vida a fabricar bombas, a organizar sindicatos e a ajustar o anarquismo com o relógio da história. Denunciou ante de todos, e por escrito, em Agosto de 1936, a violência revolucionária de destruição dos opositores. Quando, depois dos acontecimentos de Maio de 1937, Manuel Azaña encarregou Juan Negrín da formação de um novo governo sem CNT, Peiró acusa os comunistas de term provocado a crise e denunciou a repressão contra o POUM. Com a ocupação da Catalunha pelo exército franquistas , foge para França, onde foi detido pela Gestapo em Novembro de
1940 tendo sido entregue às autoridades franquistas que não demoraram em executá-lo em 24 de Julho de 1941.
O anarquismo arrastou atrás da sua bandeira vermelha e negra vastos e diversos sectores populares.Lançou raízes em sítios tão díspares como a Catalunha industrial, onde até à Guerra Civil, nunca entrara o socialismo organizado, e na Andaluzia camponesa. Muitos dos seus militantes participaram durante décadas numa frenética actividade cultural e educativa. Nesse trajecto a violência sempre esteve presente. A sua lenda de honradez, sacrifício e combate foi cultivadas durante décadas. Os seus inimigos, à direita e à esquerda, sempre se referiram à tendência dos anarquistas em lançar bombas e a empunhar um revólver. São, sem dúvida, imagens exageradas das quais os historiadores não escaparam e que até as tem alimentado. Uma prova mais das múltiplas facetas daquilo que se chama hoje por memória histórica.
Julián Casanova, texto publicado no El País de 4 de Novembro.
Polónia 1944
3.11.06
Sobre o caso IKEA em Paços Ferreira - comunicado da Convergir
A impostura democrática ( entrevista com José Saramago)
O livro «Ensaio sobre a lucidez» de José Saramago acabou de ser traduzido para a língua francesa com o título « La Lucidité », numa edição da Seuil.
Le Nouvel Observateur – O seu romance «Ensaio sobre a lucidez» é uma dura crítica aos nossos governos. O que é que o irrita no sistema actual?
José Saramago – As democracias ocidentais não são senão as fachadas políticas do poder económico. Uma fachada com cores, bandeiras, discursos intermináveis sobre a democracia. Vivemos uma época em que podemos discutir tudo. Com uma excepção: a democracia. Ele está aí, é um dado adquirido. Não tocar, como se diz nos museus. Ora é necessário lançar um grande debate mundial, antes que seja tarde, sobre a democracia.
N.Obs. – Em que é que as democracias não são democráticas, segundo você?
José Saramago - Durante muito tempo, falava-se de pleno emprego. Estava nos programas de todos os partidos. Hoje, isso acabou. Vivemos numa espécie de anestesia social generalizada. Quando se chega aos 40 anos, e vos é dito, que não há nada para você, o que é que isso significa? Para onde vais o dinheiro? Passou-se do ideal, dessa utopia do pleno emprego ao emprego precário? Quem decidiu esta mudança brutal nas relações das pessoas com o direito ao trabalho? Um governo? O governo francês, italiano, português? Não, claro que não. Foi antes o poder económico. Eu sei que esta expressão pode parecer arcaica. E, todavia, é o poder económico que controla o mundo. Mas ninguém se lembra do momento em que se passou do ideal do pleno emprego a este dado tornado obrigatório que é o emprego precário. Trata-se de um êxito completo da arte do esconde-esconde.
N.Obs. – Você pede para se votar em branco?
J. Saramago – Não, eu não faço essa porpaganda. O que eu digo é que se pode escolher votar por um partido, ficar em casa, anular o seu boletim ou votar em branco. A abstenção é a solução mais fácil, mas pouco significativa. Ao passo que as pessoas que se esforçam por votar podem, através do voto branco, exprimir de uma forma muito clara o seu descontentamento. E mostrar o seu descontentamento em votar sem que realmente nada mude. 20% de votos brancos já daria para as pessoas reflectirem. Você sabe, até porque nunca fiz segredo disso, que sou comunista. Houve quem me censurasse, como se eu fosse inimigo da democracia. Tal é um absurdo. Até pelo contrário. Sou um comunista que diz: salvemos a democracia. Porque o que temos, àquilo que chamamos de democracia, não é senão um simulacro.. Nos gabinetes do poder ri-se dos pobres. Divertem-se à nossa custa. É tempo de fazer qualquer coisa.
N.O. – O comunismo não mudou lá as coisas…
J. Saramago – O comunismo? Isso nunca existiu. Não se sabe o que é. Há ideais, princípios. Mas esses princípios foram desnaturados, quando começaram a ser aplicados. Pode-se dizer que o comunismo é isto ou aquilo, mas a verdade é que não se sabe nada. Na União Soviética o comunismo não foi outra coisa senão um capitalismo de Estado. E a China segue a mesma via, com a cumplicidade das potências ocidentais., que aplaudem e não se cansam de dizer bravo. É lamentável.
N.O. –Na sua opinião essa abertura económica não poderá levar a China para a democracia?
J. Saramago – Abertura? Mas as democracias são governadas por poderes que não são democráticos. O Fundo Monetário Internacional é uma instituição democrática? Não. A Organização Mundial do Comércio? Não. E são ambos que decidem os nossos destinos, a nossa felicidade. Não existe democracia, apenas uma aparência democrática. Quanto aos media, eles são propriedade de grandes empresas, de bancos. Vivemos num simulacro. Se queremos a verdadeira democracia, temos que a inventar.
N.O.- Parece que você anuncia no seu romance uma viragem das democracias para o autoritarismo?
J. Saramago – Posso enganar-me talvez. Mas acho que vamos viver uma nova era de democracias mais autoritárias.
N.O – Você tem 84 anos. É célebre em todo o mundo. O que é que o leva a lutar por um mundo melhor?
J. Saramago – Milhões e milhões de pessoas têm o mesmo discurso que eu, se pudessem. Tão simples como isso. Se se puder dizer o que achamos o que é verdade, então não nos devemos calar. Trata-se de uma possibilidade extraordinária poder exprimir-me pela escrita. Poderia ficar na minha casa , com o meu prémio Nobel, cultivar o meu jardim, metafórico ou real. Mas não posso. Sou um simples cidadão que fala. Mas falar não é suficiente. Já se falou muito. Acho que é tempo de ladrar. De ladrar como os cães, tal como escrevo na epígrafe do meu livro. Com a minha fraca voz é aquilo que eu faço.
2.11.06
Apelo contra os liquidatários do vinho e da diversidade das vinhas
Eles querem transformar os nossos vinhos numa bebida industrial e estandardizada
Querem impor às vinhas e aos seus cultivadores o seu «modelo do produtivismo»
As aldeias, os terrenos, as paisagens, a história, as mulheres e os homens da vinha, os saberes acumulados, o saboroso vinho popular, as mil e uma cepas existentes no país, e as cinco mil variedades de vinho que existirão em todo o mundo, deverá toda essa riqueza desaparecer para ser substituída pela uniformidade e capacidade de reprodução?
A Confederação Camponesa (França) lança um apelo para uma grande campanha de mobilização geral para a rejeição da uniformização e estandardização dos vinhos e dos sabores.
Será que também nós iremos aceitar que toda a riqueza das cepas de vinho desapareça em proveito de uma insípida e uniforme bebida?
Ler o apelo:
1.11.06
A tropa é para os estúpidos
Piada anti-militarista ou como a tropa é para os estúpidos
John Kerry, senador democrata e ex-candidato presidencial dos Estados Unidos contou ontem em público uma piada anti-militarista.
Numa reunião com estudantes liceais na Califórnia Kerry, e a propósito do valor e da importância da educação para o futuro dos jovens, aconselhou-os a estudarem muito e a terem boas notas, sob pena de se assim não o fizerem irem parar ao Exército e serem enviados para o Iraque.
Textualmente foram estas as palavras de Kerry: «Se vocês estudarem muito, se fizerem os deveres e se esforçarem para serem espertos, vocês hão-de ter sucesso. Senão fizerem isso, vão acabar por irem para o Iraque.».
Bush e os seus apaniguados não demoraram a classificar os chistes de Kerry como um insulto ao Exército e às tropas norte-americanas, exigindo-lhe desculpas públicas.
Mas, John Kerry, que combateu na Guerra do Vietname, ao contrário de Bush, não se desfez e um pouco mais tarde numa conferência de imprensa, declarou:
«Quem deve pedir desculpa às nossas tropas é Bush e o vice-presidente Dick Cheney que enganaram a América e que lançaram o país numa guerra
Etelvina ( letra e voz de Sérgio Godinho)
Etelvina com seis meses já se tinha de pé
foi deixada num cinema depois da matinée
com um recado na lapela que dizia assim:
"Quem tomar conta de mim
quem tomar conta de mim
saiba que fui vacinada
saiba que sou malcriada"
Etelvina com dezasseis anos já conhecia
todos os reformatórios da terra onde vivia
entregaram-na a uma velha que ralhava assim:
"Ai menina sem juízo
nem mereces um sorriso
vais acabar num bueiro
sem futuro nem dinheiro"
Eu durmo sozinha à noite
vou dormir à beira rio à noite à noite
acocorada com o frio à noite à noite
Etelvina era da rua como outros são do campo
sua cama era um caixote sem paredes nem tampo
sua janela uma ponte que dizia assim:
"Dentro das minhas cidades
já não sei quem é ladrão
se um que anda fora das grades
se outro que está na prisão"
Etelvina só gostava era de andar pela cidade
a semear desacatos e a colher tempestade
a meter com os ricaços a dizer assim:
"Você que passa de carro
ferre aqui a ver se eu deixo
venha cá que eu já o agarro
dou-lhe um pontapé no queixo"
Eu durmo sozinha à noite ...
Etelvina já cansada de viver sem ninguém
a não ser de vez em quando amores de vai e vem
pôs um anúncio no jornal que dizia assim:
"Mulher desembaraçada
quer viver com alma irmã
de quem não seja criada
de quem não seja mamã"
Etelvina já sabia que não ia encontrar
nem um príncipe encantado nem um lobo do mar
só alguém com quem pudesse dizer assim:
"O amor já não é cego
abre os olhinhos à gente
faz lutar com mais apego
a quem quer vida diferente"
O seu homem encontrou-o à noite
a dormir à beira rio à noite à noite
acocorado com o frio à noite à noite
(Etelvina, letra e voz de Sérgio Godinho)
Grandes Portugueses(as) (1)
31.10.06
Dar vida ao mundo rural
No interior do país, onde falta passar a carruagem da regionalização e a desertificação continua a notar-se, há quem contrarie o isolamento que os “muros” da interioridade teimam em impor.
John Mcadam, 53, americano de nascimento e, principalmente “revolucionário rural” - diz-nos o próprio num português fluente e matizado com um ligeiro sotaque inglês -, chegou há já 22 anos à aldeia de Mezio, rodeada pela serra de Montemuro, no concelho de Castro Daire. E, desde então, é um dos dinamizadores da vida local.
Começou por ser um projecto de desenvolvimento para aldeias montanhosas que trouxe este americano para cá, porém, as suas raízes aprofundaram-se na terra de Mezio com a iniciativa, juntamente com mais dois sócios, de criação de uma empresa local de plantas aromáticas e medicinais.
A hortelã comum, pimenta ou aquática, alecrim, alfazema, rosmaninho, carqueja, sabugueiro, perpétua-roxa e maravilhas são uma breve amostra da diversidade das plantas medicinais e aromáticas que podemos ver, tocar e cheirar na estufa localizada no ponto mais alto desta aldeia – Eira Velha, assim se chama a esse lugar.
Depois de se ver como se procede à reprodução das plantas na estufa, por meio do enraizamento de estacas e sementes, o conhecimento do cultivo é enriquecido com a visita aos 950 metros do campo de plantação, onde a vista é presenteada com um cocktail de cores, desde o roxo ao amarelo e com o verde sempre como pano de fundo, que pontilham a paisagem. É um itinerário que permite conhecer de perto as diferentes fases de trabalho precedentes à compra de um saco de chá.
Por detrás das estufas e dos campos de cultivo das plantas, está “uma combinação muito fértil de ideias com pessoas muito diferentes.”
De facto John Mcadam, formado em Psicologia, conta com uma vasta experiência de trabalho em projectos de desenvolvimento local desde os Estados Unidos da América, com as tribos de índios no Arizona, até à Índia. E, em 1984, parou em Portugal, onde desenvolveu durante 10 anos o Projecto de Desenvolvimento Integrado de Montemuro, no âmbito do Instituto de Assuntos Culturais, associação internacional de apoio a zonas montanhosas, com sede em Bruxelas. Os restantes sócios são dois irmãos, filhos da terra, Delfim, 40, e Joaquim Morgado, 41, respectivamente, um doutorado em Filosofia e o outro é engenheiro agrónomo.
Colocar uma aldeia nos itinerários da investigação e formação em agricultura biológica é um feito que estes três habitantes de Mezio já conseguiram com o seu projecto, iniciado em 1995, de produção, embalamento e venda de plantas medicinais e aromáticas. Para isso contribuíram “os vários projectos agro para fazer campos de experimentação e demonstração para experimentar as plantas silvestres que estão em vias de extinção e tentar adaptá-las para a agricultura. Estes projectos contaram com a parceria do Banco Português do GermoPlasma Vegetal, em Braga, do Ministério da Agricultura da Beira Litoral, em Coimbra e da Universidade do Minho”, explica Mcadam.
Por outro lado, também orientam visitas guiadas de grupos académicos ou pessoas individuais. Nesse sentido, “tanto as universidades como o Ministério da Agricultura, organizam cursos de dois ou três meses e encaminham visitas de estudo para aqui. E, também, recebemos estagiários”, acrescenta Mcadam.
Um saber antigo
O uso das plantas no tratamento e prevenção de doenças é um conhecimento muito antigo que tem acompanhado o Homem de geração em geração.
Esse facto pode ser comprovado no museu da Associação Etnográfica e Social de Montemuro - desenvolve uma cooperativa de artesãos e um restaurante de cozinha típica, cujo prato principal é o famoso “arroz de feijão com salpicão cozido”-, onde estiveram “desde o início expostas as plantas, porque as pessoas não iam ao médico. Conforme os sintomas que sentiam, assim se medicavam com ervas existentes na localidade”, esclarece Dolores Jesus, 77, professora reformada com 36 anos de ensino básico, presidente e fundadora da Associação Etnográfica de Montemuro que assinalou este ano outros 25 de actividade “na recolha, preservação e divulgação da cultura popular desta região.”
Por mera coincidência ou não, esta empresa nasceu num lugar que é considerado o centro de produção de plantas medicinais para o país. Sublinha Mcadam: “Nós não sabíamos, mas quando começámos havia jeiras de carqueja, porque a fonte desta planta para o país inteiro é aqui, em Montemuro.”
A procura crescente de plantas medicinais e produtos com certificação biológica é já um dado adquirido tanto no mercado nacional como internacional. “Cada vez mais pessoas procuram este tipo de produtos ou para a saúde ou para o gosto dos sabores. Vimos através dos meus contactos profissionais que era uma pequena onda que parecia que ia crescer. E nós quisemos captar essa onda e parece que apostámos bem”, verifica Mcadam.
Desafios a vencer
Se, por um lado, a falta de água e as ameaças dos incêndios no Verão são dificuldades inerentes ao contexto geográfico, já no que toca às exigências da certificação biológica o que está em causa é o cumprimento de uma série de requisitos qua garantam a qualidade ecológica do produto final.
Desde a plantação até ao embalamento, uma das fases de permeio é a esterilização que segundo a explicação de Mcadam é conseguida por meio “do sistema de refrigeração que congela as plantas depois de estarem secas.” E compara que “outras empresas que não são certificadas podem usar processos químicos como herbicidas, por exemplo, ou esterilizações por radiações.”
A estes desafios, acrescenta-se o de não deixar morrer a aldeia. Desafio este que parece estar a ser ganho, pois, “as pessoas estão a construir casas e a criar famílias aqui”, segundo observa Mcadam.
E olhando para trás até consegue ver diferenças na economia e organização social locais: “Quando cheguei, há 20 anos atrás, era uma economia de subsistência, a maioria das famílias trabalhava na agricultura. E, agora, Mezio mudou para ser um subúrbio no meio rural. As mulheres e os filhos vivem aqui e o homem trabalha fora e vai e vem todos os dias ou cada semana ou mês, às vezes seis meses. É muito variado: alguns trabalham em Porto, Lisboa ou Suíça e têm a família e a casa aqui. Por isso, eu chamo subúrbio em meio rural.”
Nuno Gaspar, 21, morador em Mezio, estudante de Engenharia Informática, em Viseu, é um dos 521 habitantes de Mezio e reconhece que “todas estas iniciativas de criação de empresas, especialmente das que trabalham na base de aldeia são importantes, porque desenvolvem e demonstram a terra e o que se pode fazer nela.”
Conciliar o desenvolvimento com a preservação do património natural e cultural é tanto possível como desejável. Mcadam comprova, baseando-se nos seus 22 anos de vivência rurais: “Uma parte mudou muito, mas a outra parte, mais interior, não mudou nada. Na parte cultural, eles têm as mesmas crenças, os mesmos valores sociais e culturais que tinham as pessoas quando vim para cá. Acho muito interessante ver como é que eles podem modernizar, mas com o centro não deteriorado com hábitos novos. É interessante!”
Texto de autoria de Fátima Santos, a quem agradecemos de o ter cedido para ser publicado e divulgado aqui.


