29.3.05

O acidente nuclear de Three Mile Island foi há 26 anos




A unidade 2 da central nuclear da Ilha de Three Mile situada a 16 km da cidade de Harrisburg ( com uma população de 70.000 habitantes) na Pensilvânia, sofreu uma grave acidente em 28 de Março de 1979.
Uma pequena fuga no gerador de vapor desencadeou o mais grave acidente na histórias das centrais nucleares norte-americanas, e o segundo mais grave na história da energia nuclear. As causas foram atribuídas ao projecto de desenho daquelas instalações.

A perda de refrigerante ocasionou um aumento da temperatura do núcleo que acabou por fundir-se provocando o derrame de material radioactivo e a formação de uma perigosa bolha de hidrogénio que ameaçava a todo o momento explodir e lançar pelos ares toneladas de material radioactivo. Para evitar a explosão foi decidido libertar uma quantidade indeterminada de gás radioactivo que afectou toda a região.

As consequências do acidente sobre a saúde da população são ainda hoje objecto de discussão e polémica, tanto mais que se tornou difícil avaliar as doses de radioactividade a que as populações estiveram expostas. As acções de emergência fotam claramente insuficientes pois acabaram por se traduzir na evacuação de mulheres grávidas e de crianças num raio de 8 milhas à volta do local do acidente somente dois dias depois dos factos!!! Foi, entretanto, detectado um aumento de más formações congénitas e de cancros nos anos seguintes.

O acidente de Harrisburg representou o declínio da energia nuclear em todo o mundo. Por um lado, aquele acidente demonstrou que as centrais nucleares eram inseguras, o que aumentou a oposição social às instalações nucleares de produção de energia, e, por outro lado, os custos pelas medidas de segurança adoptadas desde então tornaram pouco lucrativas as empresas proprietárias das centrais nucleares.

Infelizmente as lições a retirar do acidente de Harrisburg não foram suficientes para impedir o maior acidente nuclear da história em Tchernobil, na Ucrânia, em 1986.

«The Day after» é o nome de um filme, entretanto, realizado, inspirado naqueles acontecimentos, e que sensibilizou ainda mais para os perigos da energia nuclear.


NUCLEAR?
NÃO, OBRIGADO

O 40º aniversário do primeiro Teach-in



Realizou-se uma reunião geral entre os estudantes, elementos da faculdade e da comunidade educativa na passada quinta-feira ( 24 de Março) em Angell Hall na Universidade de Michigan em comemoração do primeiro teach-in que teve lugar em 1965 naquele local.

Estudantes, elementos da faculdade e da comunidade educativa , e os presentes do primeiro teach-in comemoraram o 40º Aniversário do Teach-in realizando um encontro cujo objectivo foi a Análise do Império americano no mesmo local em que realizou o primeiro teach-in, no Angell Hall da Universidade de Michigan, Ann Arbor. Vários foram também os convidados a assistir. O teach-in incluiu uma intervenção introdutória por Al DeFreece, Rich Feldman, e Tom Hayden.
Realizou-se a seguir seminários e workshops sobre os seguintes tópicos:
-- A hegemonia Económica americana e a globalização
--A Guerra no Iraque; O 11 de Setembro; A Guerra do Terror,
-- Os Media
--Raça e Racismo como uma Justificação do Império
--As mulheres e o Império
-- As Corporações e a Cultura de Massas
--O Conflito palestino: Porque é que é incómodo discutir isto?
--O Ambiente e as Transformações Globais
--O Futuro de Activismo

Nestes Seminários e workshops participaram vários membros da comunidade escolar e da faculdade e coordenados por um moderador. O evento também incluiu uma parte para as artes e música, comida livre, mesas-redondas sobre a vida estudantil e da comunidade e a construção de uma parede com pontos que mostravam a conexão entre os vários pontos do Império Americano. O teach-in culminou com um convívio à meia-noite
Curisamente a administração universitária negou-se a apoiar este Teach-in comemorativo cedendo gratuitamente as instalações, o que, no entanto, aconteceu em 1965 nas comemorações do 30º aniversário do Teach-in em 1965. Eles justificaram-se dizendo que as circunstâncias mudaram mas não explicaram a sua recusa de apoio

Mais informações:
www.teachin2005.org

Edições recentes ( a ler)

«A Praia sob a calçada, Maio 68 e a Geração de 60», por Fernando Pereira Marques, edições Âncora

«História do Ateísmo», por Georges Minois, ed. Teorema

«Dimensões Culturais da Globalização», por Arjun Appadurai, ed. Teorema

«Globalização, Transnacionalismo e novos fluxos migratórios, dos trabalhadores convidados às migrações globais», por Stephen Castles, ed. Fim do Século

«Ecologia profunda», por Bill Devall, por George Sessions, edições Sempre-em-pé

«Construir a Esperança, pessoas e povos desafiam a globalização», por John Feffer, edições Sempre-em-pé

«Na Terra dos Sonhos«, antologia de letras de Jorge Palma, edições Quasi

«Uma visita a Portugal em 1866», por Hans Christian Andersen, edições Galivro

Ulisses ( personagem principal da Odisseia, de Homero)




Ulisses nasceu numa ilha situada no Adriático, diante da costa noroeste da Grécia. A ilha chama-se Ítaca, e eleva-se, escarpada, montanhosa e árida, no meio do mar. O seu pai era Laertes e a sua mãe Anticleia. Os textos não nos falam da sua infância, mas sabe-se que, durante a sua juventude, fez várias viagens ao continente.
Passada a adolescência recebe do velho Laertes o trono de Ítaca. Na sua qualidade de rei quis casar-se . Pensou em obter a mão de Helena, a futura mulher de Menelau e causa da guerra de Tróia, mas Helena era muito bonita e não faltavam pretendentes. Começou então a imaginar outros planos. Aconselhou Tíndaro, o pai de Helena, a exigir dos pretendentes que aceitassem a escolha, qualquer que ela fosse, do futuro esposo, e ajudassem a manter unido o casal.
A guerra de Tróia durará dez anos e dizimará, com pesadas baixas, ambas as partes: os gregos e os troianos. Ulisses tanto será um guerreiro como desempenhará missão delicada do diplomata. Será Ulisses que será enviado por Agamémnon a convencer Aquiles a tomar parte na luta, quando este, ofendido pela atitude do chefe de todos os gregos, que lhe roubara Briseida, se decidira a não combater ao lado dos seus compatriotas. Será também Ulisses que comandará o grupo de guerreiros que, escondido no ventre bojudo de um gigantesco cavalo de madeira, penetrará na cidadela de Príamo. Destruída esta, e acabada a razão de ser da guerra, Ulisses tem a mesma vontade que todos os restantes chefes gregos: regressar à sua terra natal.
Depois de algumas dificuldades, consegue finalmente fazer-se ao mar, onde vai começar a grande série de aventuras em que, sem querer, se verá envolvido.
Já vivera algumas peripécias aventurosas quando chega a uma ilha arborizada e fértil, onde se viam cabras selvagens a pastar. Aportou a terra, encalhou todas as embarcações, menos uma com a qual foi explorar a costa de uma ilha que se postava à sua frente. Viviam nesta os cruéis e monstros Ciclopes, assim chamados por terem, na testa, um único olho redondo. Estes monstros canibais que outrora tinham sido ferreiros dos deuses, dedicavam-se agora à pastorícia de enormes rebanhos. Depois de algumas marchas de reconhecimento, Ulisses, sem o saber, entrou numa enorme caverna, onde vivia Polifemo, o Ciclope. Aí se instalaram os gregos, que acenderam um forte fogo, e nele assaram alguns cordeiros que encontraram na caverna. Ao petisco juntaram o queijo que também tinham encontrado na caverna e começaram o festim. Já pela tarde, entrou Polifemo com o seu rebanho e pôs na entrada uma enorme pedra de proporções gigantescas, que só a sua força ciclópica podia erguer. Sem ter visto os estrangeiros, começou a ordenhar as ovelhas até ao momento em que se lhe depararam Ulisses e os companheiros . Espantado, perguntou o monstro o que faziam e donde vinham, ao que Ulisses respondeu com um pequeno discurso de apresentação, sem dizer, contudo, o principal. A resposta de Polifemo foi agarrar dois dos marinheiros pelos pés, levantá-los ao ar, batê-los contra a parede e devorá-los ainda palpitantes.
Depois de jantar, Polifemo deitou-se a dormir. Ulisses, por seu lado, bem queria tirar a desforra do Ciclope, mas não se atrevia a matá-lo, porque só este seria capaz de levantar a pedra que fechava a entrada. Veio a manhã, Polifemo levantou-se e comeu mais dois marinheiros gregos ao pequeno almoço. Saiu finalmente com o rebanho, depois de, cuidadosamente, ter fechado a caverna. Mas esta tinha sido fechada, já Ulisses pensava na maneira de se livrar de Polifemo. Preparou então um tronco verde de oliveira, cuja ponta endureceu ao lume. Com ele pensava Ulisses cegar o monstro. Ao chegar a noite, voltou Polifemo que comeu logo mais dois dos gregos. Ulisses então ofereceu-lhe uma tijela de vinho, daquele mesmo vinho que Máron lhe tinha dado em Ísmaro dos Cícones.O gigante bebeu, gostou e pediu mais, até que, desconhecendo totalmente os perigos daquela bebida, caiu num sono profundo. Mas antes de adormecer e encantado com o vinho perguntou a Ulisses como se chamava. Respondeu-lhe Ulisses: « O meu nome é Ninguém». Polifemo diz-lhe então, como que prometendo um favor:«Pois bem, Ninguém, meu amigo, serás tu o último a ser comido.»
Logo que o Ciclope adormecer, Ulisses e os companheiros que restavam pegaram no tronco já preparado e puderam a sua ponta ao lume da lareira, de modo a que ficasse incandescente. Quando a ponta já brilhava na escuridão da caverna, aproximaram-se do gigante e meteram-lhe a terrível arma no único olho da testa. Polifemo, ao sentir-se cego e, sobretudo, ao sentir a dor cruciante, deu um tal grito que fez acorrer, dos vales vizinhos, os ciclopes que ali viviam. Mas quando estes, chegando à porta da caverna, lhe perguntaram o que se passava, Polifemo respondia-lhes que «a culpa era de Ninguém». Assim os ciclopes, pensando que Polifemo estava doente e delirante, retiraram-se.
Polifemo, todavia, dirige-se tacteando para a porta e retirou a pedra, pois esperava que Ulisses, contente com a fácil vitória, tentasse agora fugir e lhe viesse cair às mãos. Mas Ulisses, ardiloso, sabia esperar: atou os companheiros aos ventres das grandes ovelhas do gigante e ele próprio prendeu-se, como pôde, ao ventre de um enorme carneiro. Já vinha a manhã e Polifemo, cansado de esperar pelos estrangeiros, que não vinham, levou o rebanho a pastar e com ele os marinheiros e Ulisses. Assim que este conseguiu desprender os companheiros, todos fugiram para o navio que estava encalhado na praia, e partiram, remando vigorosamente. Ulisses, ao ver que o perigo estava lá ao longe, lançou uma grande gargalhada, gritando a Polifemo que ele tinha tido junto de si não o «Ninguém», mas «Ulisses de Ítaca». O monstro, em resposta, lançou pelo ar uma pedra de proporções ciclópicas, que por pouco não afundou o navio de Ulisses, e pediu, ao mesmo tempo, a seu pai, Posídon, o deus do mar, que castigasse Ulisses. Posídon ouviu a prece do filho e tudo fará para perder o herói.
Ulisses, agora, irá buscar o resto da sua frota à ilha vizinha. Por fim, põe-se Ulisses ao mar novamente e a vingança de Posídon não se fez esperar. Depois de ter aportado à ilha de Eolo, guardador dos ventos, e depois de ter sido bem recebido por este, vai Ulisses a caminho da Ítaca. Eolo tinha-lhe dado, como presente, um odre cheio de ventos, dos quais Ulisses faria uso quando quisesse. Já se viam os telhados de Ítaca e o fumo das chaminés, quando Ulisses caiu exausto de sono e de fadiga. Um dos companheiros abriu então o odre, julgando encontrar nele o vinho. Soltam-se os ventos e logo terrível tempestade vem assolar a região de Ítaca e lançar para muito longe o barco de Ulisses. Depois de várias peripécias, chega Ulisses, perseguido pela ira de Posídon, ao reino dos Lestrigões na Sicília, ou, segundo outros, em Fórmias, no Sul de Itália. Não sabendo a que terra tinha chegado, mandou Ulisses encalhar as embarcações sobre a praia e enviou ao interior, em reconhecimento, alguns homens. Quando os Lestrigões, porém, os viram, vieram em hordas sobre as falésias onde os barcos de Ulisses estavam encalhados e do alto delas destruíam os navios com grandes pedras. Depois, desceram à praia e massacraram as tripulações, que devoraram. Só Ulisses logrou escapar com alguns camaradas e um só barco, após ter cortado a amarra com a sua espada.
Mais alguns dias de mar e eis que chegou Ulisses à ilha da Aurora, governada por Circe, a feiticeira. Era esta experimentada em todo o género de encanto e desconfiada, por natureza, do género humano. Transformou em porcos os 22 homens de Ulisses e foi preciso que este se munisse de um amuleto do deus Hermes para obrigar Circe a restituir aos companheiros a forma humana. Entretanto, apaixonou-se este por Ulisses, que não resistiu à sua beleza e vivei com ela alguns anos, até que, fatigado de estar na mesma ilha, pediu à própria feiticeira que o deixasse fugir. Consentiu esta na vontade de Ulisses, mas primeiramente exigiu dele a promessa de ir ao inferno. Para aí se dirigiu, pois o herói, seguindo, conforme indicou a feiticeira, o vento norte e as correntes do oceano até chegar à entrada do Aqueronte, que é o rio principal do Hades, do inferno. Depois de alguns sacrifícios aos deuses, entrou Ulisses no próprio Hades e percorreu o reino das sombras, no meio das quais encontrou velhos companheiros que tinham morrido na guerra, como Aquiles, e outros que tinham sido assassinados no regresso à pátria, como Agamémnon. Cumprida esta missão, voltou Ulisses à ilha de Circe e daí partiu novamente , depois de ter ouvido os conselhos da deusa, que o pôs de sobreaviso quanto às Sereias, por cuja ilha ele iria passar. Deste modo, quando Ulisses se fez ao mar e sentiu que se aproximava da ilha das Sereias, não se esqueceu das recomendações de Circe. Efectivamente, as Sereias, seres híbridos, formados de busto de mulher e corpo de peixe, cantavam de tal modo que fascinavam os mareantes, que, esquecendo tudo, iam em sua busca, acabando por se precipitar nos escolhos que se erguiam na costa daquela ilha. Por isso, Ulisses, quando as entendeu, ao longe, mandou que os seus homens tapassem os ouvidos com cera e que o prendessem ao mastro do navio de modo a que, no meio do encantamento, não levasse o barco contra os escolhos. Assim escapou Ulisses do cantar das Sereias e seguidamente escapará também dos dois monstros do estreito de Messina, Cila e Caríbdis.
Após ter abordado à Sicília, e devido a um sacrilégio, destrói-lhe Zeus o navio e a tripulação. Ulisses a custo chega à ilha Ogígia, onde viverá sete anos, acompanhado pela ninfa Calipso, a cujos encantos só logrará escapar quando Zeus, o pai dos deuses, lhe permita que construa uma jangada e se ponha, outra vez, a caminho de Ítaca.
Mas Posídon sabia tudo o que se passava no mar, e também soube que Ulisses se metera novamente a caminho. Encolerizado com tanta audácia, levantou uma tal tempestade que Ulisses andou dias e noites balançando pelas vagas, perdeu a jangada, e fo lançado, completamente exausto, e já sem quaisquer meios, à praia da ilha dos Feaces.
Estava Ulisses dormindo profundamente, quando se aproximam doze raparigas, que acompanhavam Nausícaa, a filha do rei Alcínoo, senhor da ilha. Tinham acabado de lavar a roupa, num ribeiro próximo, e agora divertiam-se a jogar à bola. Nausícaa, porém, afastou-se das companheiras e, ao chegar à praia, encontrou Ulisses, que acordou sobressaltado e nu. Cobriu-se com um ramo denso de oliveira, e, vendo que a jovem o tratava como amigo, seguiu-a em direcção do palácio real. Aí o receberam Alcínoo e Arete, sua mulher, que deram um festim em sua honra. Ulisses, perante tão grande generosidade, deu-se a conhecer e contou grande parte das suas aventuras.Bem teriam querido os reis casar Nausícaa com Ulisses, mas este declinou a oferta, pedindo tão-somente que lhe dessem um navio que o transportasse a Ítaca. Foi-lhe concedido o navio e Ulisses chegou finalmente à ilha, que ficava perto. Contudo, já tantos anos tinham passado que Ulisses nem sequer conhecia a ilha onde tinha chegado. De facto, depois de tanto tempo, todos os habitantes de Ítaca, súbditos de Ulisses, o julgavam morto. Todos menos Penélope e Telémaco, que ainda tinham alguma esperança.
Na verdade, muitos acontecimentos se tinham dado na ausência de Ulisses. Como este fosse julgado morto, muitos jovens príncipes, insolentes e brutais, apresentaram-se no palácio real, como pretendentes à mão de Penélope e, bem entendido, ao trono da ilha. Entretanto, esvaziavam os celeiros e dizimavam os gados, passando o tempo de espera em contínuos banquetes. E isto porque Penélope os obrigava a esperar, prometendo que no dia em que terminasse a mortalha para Laertes ( que ainda vivia), nesse mesmo dia, se faria a boda com o pretendente escolhido. Mas, com um ardil de mulher, a parte da mortalha que tecia durante o dia, desfazia de noite. E assim se manteve durante três anos. Nesta altura, porém, já os pretendentes estavam a perder paciência e tinham decidido matar Telémaco, quando este voltasse de Esparta, aonde tinha ido saber notícias de Ulisses.
Eis o ambiente que Ulisses sentiu, quando, depois de desembarcar, se dirigiu a casa do seu antigo porqueiro Eumeu. Sem se dar a conhecer, mas contando histórias ligadas a Ulisses, o herói ouviu de Eumeu tudo o que se passava. Entretanto, chegou Telémaco à casa do porqueiro, depois de ter conseguido escapar à morte preparada pelos pretendentes. Telémaco, todavia, não conheceu o homem que estava diante dele. Como poderia conhecer ele o pai, que, ainda Telémaco criança, partiu para Tróia e nunca mais voltara? É Ulisses que finalmente se dá a conhecer ao filho, nada dizendo, contudo, a Eumeu. Telémaco põe o pai ao corrente do perigo que os ameaçava e Ulisses decide partir imediatamente para o palácio, disfarçado de mendigo. Ao chegar ao palácio real, o primeiro ser que encontra é o seu velho cão Argos, que imediatamente o reconhece e logo morre de velhice e emoção. A fidelidade do cão comove-o, mas Ulisses tem muito a fazer e com Eumeu penetra no palácio, ou, mais precisamente, na sala de banquete, onde Telémaco, fingindo não o conhecer, recebe o pai, que está envolto de andrajos de mendigo. Todos os pretendentes estavam reunidos na sala e logo um deles o mais poderoso, Alcínoo de Ítaca, trata mal o mendigo que Telémaco recebera. Ulisses não se mostra ofendido, mas Penélope, sabendo do caso, manda chamar aquele que pensa ser um simples mendigo. Este, porém, faz os preparativos para aniquilar os pretendentes e manda Telémaco que retire todas as armas que estão penduradas na sala. Só então se dirige aos aposentos de Penélope, que, naturalmente, o não reconhecera ,muito embora o heróis lhe conte que Ulisses em breve voltará. É Euricleia, a ama de Ulisses, que o reconhece quando, ao lavar-lhe os pés, vê a cicatriz que outrora Ulisses tinha feito na caça ao javali. Mas Ulisses não a deixa comunicar o reconhecimento.
No dia seguinte, dá Penélope um grande banquete, durante o qual prometera decidir qual dos pretendentes escolherá para marido. Escolhido só poderá ser oque for capaz de dobrar o arco de Ulisses e meter uma seta entre doze anéis formados pelos orifícios de doze machados alinhados a seguir. Quando chega o momento nenhum dos pretendentes consegue dobrar o formidável arco de Ulisses, até que este, apoderando-se da arma, envia a seta por entre os doze anéis. Há grande espanto e grande fúria entre os pretendentes, mas, quando, Ulisses se vê em perigo, começa por matar Alcínoo, que para ele avançava. E assim Mata, auxiliado por Telémaco, todos os pretendentes, que, sem armas, foram completamente aniquilados. Agora já se pode dar a conhecer a Penélope, à qual, para maior segurança, faz minuciosa descrição do leito nupcial, que por ele mesmo fora mandado construir. No dia seguinte vai visitar Laertes, seu pai, que vivia no campo. Mas entretanto rebenta uma revolução contra Ulisses acusado de ter morto os mais importantes chefes de Ítaca. Atena, a deusa protectora de Ulisses, tomará parte dos acontecimentos e acalmará a multidão, disfarçada na figura de Mentor. Desta maneira tem Ulisses de novo o trono de Ítaca e a paz reinará para governar a ilha.
Quanto ao fim de Ulisses, muitas são as versões e uma delas até dizia que o herói teria sido morto pelo filho que tivera de Circe, num combate havido na própria Ítaca. Porém, Homero, nada nos diz.
Com símbolo grego Ulisses representa o homem hábil nas ocasiões difíceis e adaptável às mais variadas circunstâncias. Simboliza o homem que, perante um destino, nunca desanima, e tudo faz para vencer as dificuldades e que, perante o perigo mais grave, nunca volta a cara.

28.3.05

Mary Wollstonecraft (1739-1797) e a primeira Reivindicação dos Direitos da Mulher



Mary Wollstonecraft nasce em Spitalfieds, subúrbios de Londres, no ano de 1739, no seio de uma abastada família de empresários, mas cuja riqueza não estava destinada para a instrução das raparigas. Por isso mesmo, Mary só muito tarde aprendeu a ler numa escola de dia, já quando tinha 14 anos. A sua educação foi completada com a ajuda de uma casal idoso, os Care, que a puseram em contacto com Shakespeare, Milton e Pope. No fundo, Mary foi uma autodidacta.

De 1777 a 1783 viveu com dificuldades económicas, partilhando os seus problemas com a sua amiga de sempre, Fanny Blood e a sua irmã Elisa, que havia decidido separar-se do marido trazendo consigo a filha. As 3 mulheres decidiram viver juntas e começaram a realizar trabalhos artesanais. Mary tentou também abrir uma escola mas não conseguiu.

Ao transferir-se para Newington Hill, perto de Londres, Mary conheceu Richard Price (1723-1791), um intelectual não conformista. Price era teólogo e filósofo de orientação unitarista, logo, um deísta seguidor de Franklin, Jefferson e Condorcet. Conheceu a obra de Locke e de Rouseeau, e leu ainda A Nova Eloísa.
Em 1785 fez uma viagem a Lisboa onde assistiu à morte por problema de parto da sua amiga Fanny. Atenta observadora da difícil condição feminina, publicou em 1787 o seu primeiro escrito com a preciosa ajuda do editor anticonformista Samuel Johnson, « Pensamentos sobre a educação das raparigas». Um texto que revelava, apesar de Mary ser programaticamente anglicana, a influência que recebera de Locke e de Rousseau, para além da dos unitaristas. No livro recolhiam-se ideias tanto de «Emilie» como dos «Pensamentos a respeito da educação», especialmente as relacionados com as raparigas, e se sublinhava a dificuldade de inserção social das jovens, mesmo sendo estas instruídas.

Depois de uma breve estância na Irlanda como professora, regressou a Londres em 1781 e começa a frequentar o ambiente intelectual da livraria de Johnson.

Conheceu o pintor pré-romântico Henry Fussli (1714-1825), Tom Paine , Coleridge, Wordsworth, William Godwin, e o pintor e gravador William Blake, que veio a ilustrar um livro de fábulas para crianças de Wollstonecraft, «Histórias originais»(1788). Muitos dos participantes deste ambiente intelectual sentiram-se inspirados e inflamados com os acontecimentos revolucionários de Paris, e a própria Mary escreveu em 1790 a «Reivindicação dos direitos dos homens» em que tomava posição a favor de Richard Price , que estivera ligado à revolução de 1688 e à de 1789 contra o conservador Edmund Burke (1729-1797).

No seu livro, Wollstonecraft criticava a iníqua divisão da riqueza típica da sociedade inglesa do seu tempo: o domínio que penalizava as raparigas bem assim a condição coactiva do matrimónio, definido por ela, como uma «prostituição legal» No plano político, reivindicava o direito do povo a eleger os governantes e os reis, segundo aliás uma tese de Price. Em 1792 publicou então a sua obra mais importante, «Reivindicação dos direitos da mulher»

No mesmo ano Mary Wollstonecraft parte para França com o objectivo de escrever uma história da revolução para o seu editor. Assiste, entre o temor e a angústia, à decapitação da Luís XVI.. Entre as forças políticas francesas sentia uma inclinação para os girondinos que combatiam por uma mudança regida pela razão e não tanto pelo sangue das massas.

Desta experiência surge o primeiro volume da «Visão histórica e moral da origem e evolução da Revolução Francesa» (1794), uma obra em impera uma visão oficial e na qual não marcas da presença feminina no movimento revolucionário.

À vida intelectual de Mary se somou entretanto (1793) as incertas e dolorosas vicissitudes da relação com um homem de negócios americano que conheceu em França durante o período do Terror, e que mais tarde a abandonaria em Le Havre com uma filha nos braços, relação que terá estado na origem em duas tentativas de suicídio em 1795.

As leis repressivas de 1794-1798 de William Pit contra os radicais e os filojacobinos ameaçaram Mary Wollstonecraft e o seu círculo de amigos intelectuais.

Em 1796 inicia uma relação como filósofo radical William Godwin, com o qual se decidiu casar-se,enquanto esperava um filho seu. Em Agosto de 1797 nasce a pequena Mary Godwin, mas quinze dias depois Mary Wollstonecraft morre por septicemia.

Mary Godwin, mais conhecida por Mary Godwin Shelley (1797-1851), a filha de Mary Wollstonecraft, foi também um mulher de engenho e uma escritora de créditos firmados. Mary Godwin Shelley casa-se com o poeta Percy Bisshe Shelley (1792-1822).Maru Shelley escreve a sua obra mais famosa, «Frankenstein».


A Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792)

Em 1791, Thomas Paine, livre pensador angloamericano, que tinha regressado à Inglaterra em 1787, publica «OS Direitos do Homem», facto que constituiu motivo bastante para ser desterrados e obrigado a emigrar para França. No ano seguinte, Mary Wollstonecraft publica a sua «A Reivindicação dos Direitos da Mulher». Trata-se de um livro que se inscreve na literatura político-filosófica do período revolucionário, entre a declração da Independência americana e a Declaração dos direitos do cidadão, na França.

Mary Wollstonecraft pretendia inserir as reivindicações sobre a liberdade e igualdade social e política das mulheres dentro do contexto mais geral dos Direitos do Homem. Ou seja, para Wollstonecraft o ideal da emancipação feminina e a igualdade entre homens e mulheres não era visto como um valor em si mesmo, mas estava antes inserido nos princípios do direito natural moderno, como uma espécie de suplemento ao programa iluminista.

Para Wollstonecraft as mulheres devem sair da sua jaula de ouro, desse limbo formal de «feminilidade» que é a outra cara da marginalização e da submissão. A mulher deve adquirir, segundo ela, o ideal da razão, ou seja: não mais «amantes sedutoras» mas sim «mulheres afectuosas e mães racionais».

As mulheres deveriam implicar-se plenamente no projecto ilustrado e reformador: educação, direitos políticos, responsabilidade pessoal, igualdade económica, racionalidade e virtude, liberdade e felicidade. Estas são os ideais de Wollstonecraft que chaga a propor, provocatoriamente, uma castidade feminina desmistificadora das relações ambíguas com o homem. Frequentemente faz referência a Francis Bacon que, encarna para ela, o poder libertador da razão filosófica. Mas não menos frequentemente polemiza com Rousseau, de quem aceita a agudeza das análises de «Emilie» e do «Contrato Social», mas cujas conclusões rejeita.

Os vícios das mulheres do seu tempo são vivamente censurados por Wollstonecraft. O intelecto e a virtude são inseparáveis, e não poderá haver verdadeira moralidade ( e verdadeira religiosidade) se, porventura o intelecto é débil e está mal aproveitado: à mulher exige-se um intelecto firme, e é sobre ele que poderá fundar a sua própria moralidade e felicidade. A superstição é coisa totalmente contrária à razoabilidade da religião cristã. A frivolidade e o sentimentalismo são induzidos às raparigas pela literatura novelesca. O apego afectivo mórbido ao marido resulta da sua subordinação intelectual. A incapacidade de educar bem os filhos é possível tanto nas mulheres como nos homens. A ignorância, no seu sentido mais enfático, tem a raiz na inferioridade e na instabilidade psíquica das mulheres. Esta é a lista dos males que as mulheres padecem, especialmente as burguesas, que tinham alguma possibilidade de se ilustrarem, na óptica de Mary Wollstonecraft.

A mentalidade feminina fora relegada pela tirania masculina para o limbo da fatuidade ao que as mulheres, em geral, acabaram por se adaptar. E as mulheres que, hoje, reclamam direitos, devem saber que a estes correspondem deveres, assim como a rebelião contra a dominação masculina se deve realizar em nome dos valores universais.

O interesse pedagógico de Wollstonecraft reside na sua visão geral da evolução do mundo feminino com base na ideia do progresso intelectual e moral. A educação feminina deve ser, pois, renovada e igual à do homem, de acordo com os princípios da razão.

Nesse sentido, Rousseau entra em contradição quando postula o regresso ao «estado da natureza». O Ser sábio, que criou os homens, deu-lhes a luz da razão para que a Virtude ocupe o lugar do vício.
O Intelecto, a Virtude e a Liberdade são as 3 caras da razão iluminada que Mary Wollstonecraft tomou como os princípios do seu pensamento.

O seu objectivo é a criação de uma «nova civilização» em que humanidade seja virtuosa e feliz. A via de acesso é aberta pela Razão , uma razão que é reforçada pela fé: «firmemente persuadida de que não existe o mal no mundo fora do desígnio divino, construo a minha fé sobre a perfeição de Deus». É a religião da Razão.

A Sociedade contra o Estado ( P. Clastres)

A Sociedade contra o Estado é uma obra fundamental cujo autor é Pierre Clastres, fundador da antropologia política e um dos maiores antropólogos de todos os tempos .

A sociedade contra o Estado, colectânea de onze artigos publicados por Pierre Clastres entre 1962 e 1974, é um dos mais importantes trabalhos de antropologia política já divulgados. Lançada em 1974, traz o sabor de sua época reflectindo uma reviravolta nas ciências humanas, propiciada na década anterior por autores franceses como Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault e Gilles Deleuze.

Como estes, Clastres agarra-se ao projecto de uma forte crítica da Razão ocidental - no seu caso, uma crítica da Razão política, então aferrada em noções de dominação e subordinação. No entanto, Clastres morreu prematuramente (aos 43 anos), não podendo continuar, como queria e poderia ter feito, o seu projecto original de constituição de uma antropologia política geral.

A tese que atravessa os textos da colectânea, fortemente alinhavados a despeito dos anos que os separam, é retumbante: a sociedade civil pode prescindir da figura do Estado, e isso pode ser verificado - empiricamente - na experiência de boa parte dos povos indígenas da América do Sul. Com efeito, o argumento lançado aguçou o interesse de antropólogos, filósofos e cientistas políticos. Se, por um lado, Clastres escrevia para especialistas em povos não-ocidentais, tocando num problema bastante delicado para eles - até que ponto essas sociedades podem ser ditas igualitárias? -, por outro, ele (re)abria uma séria discussão, própria da filosofia política, sobre a natureza do poder político.


Um chefe sem poder


A figura que serviria de inspiração a Clastres é a do chefe indígena (figura certamente genérica), autoridade que não detém poder algum, prisioneiro do grupo. Mesmo dotado de privilégios como a poliginia (casamento com mais de uma mulher), esse chefe está submetido a uma série de obrigações que pressupõem certas habilidades, dentre as quais, as mais importantes são a generosidade e o dom da oratória.

O chefe indígena é, em suma, aquele que pode dar e sabe falar. Essa sua fala reúne os homens ao seu redor sem, no entanto, mostrar-se eficaz para cooptá-los. Em suma, é uma fala vazia, pois não tem poder de mando, mantém o chefe numa posição de poder que é de fato aparente. O argumento de Pierre Clastres vai mais longe. Não se trata simplesmente de afirmar que o chefe indígena não detém o poder, pois, para o autor, a sociedade indígena (ou "primitiva", como ele prefere chamar de modo algo antiquado e que hoje poderia soar como "antropologicamente incorrecto") não é estranha ao poder. O chefe não detém o poder porque é impedido pela própria sociedade, essa sim a detentora de um certo poder, que não consegue, no entanto, constituir-se como esfera política separada - ou seja, como Estado. O poder ali permanece difuso.

Essa tese fora formulada por Clastres quando ele tinha apenas 28 anos e divulgada num artigo intitulado "Troca e poder: filosofia da chefia ameríndia" - segundo capítulo da presente colectânea. Nessa época, ele ainda era um estudante de filosofia e preparava-se para iniciar suas pesquisas de campo em sociedades indígenas sul-americanas, como os Guayaki, Guarani e Chulupi - todos do Chaco Paraguaio -, os Yanomami da Venezuela e os migrantes Guaranis mbyá das redondezas da cidade de São Paulo.

Questionando o marxismo e estruturalismo


As experiências de campo foram certamente responsáveis pela sofisticação de seu pensamento, no entanto, a ideia central havia sido lançada já no texto de 1962, publicado originalmente na revista L´Homme, que tinha como director Claude Lévi-Strauss. A propósito, "Troca e poder" - seguido, sobretudo, de "Independência e exogamia" (Cap. 3) - é um diálogo aberto com a obra deste autor e, com efeito, um momento decisivo de ruptura com o estruturalismo. Ao tomar o poder como foco, Clastres afasta-se de campos como a mitologia e o parentesco, então consagrados pela análise estrutural. A Clastres não interessa a dedução de princípios cognitivos universais que tornam possível a existência de qualquer sociedade, mas sim a verificação de como determinadas sociedades - no caso, as indígenas - respondem de maneiras diferentes a problemas de facto gerais, como a possibilidade de vigência de um poder político separado, o Estado. Vale lembrar que, nesse ponto, Clastres também aposta em questionar o marxismo, visto que, ao contrário do que este pensam, ele não vê a formação do Estado como função do desenvolvimento de uma desigualdade económica. A realidade, para ele, é justamente a inversa: são as relações de poder que definem as classes e, portanto, a divisão da sociedade em pobres e ricos.


Contra o Estado e a favor da sociedade


Sob esse aspecto, as sociedades indígenas deixam de ser tomadas, como de costume em abordagens evolucionistas, como passado ou infância das sociedades modernas, cuja organização política seria mais complexa e, logo, "superior". Se as últimas optaram por viver sob o jugo de um Estado, as primeiras recusaram-no em nome da liberdade. É então que chegamos à conclusão do último texto, "A sociedade contra o Estado" (Cap. 11), que dá nome à colectânea. Ou seja, as sociedades indígenas não são simplesmente sociedades "sem" Estado - esta seria a tese de um filósofo como Lapierre, criticada em "Copérnico e os selvagens" (Cap. 1) -, são, sim, "contra" o Estado na medida em que reconhecem a possibilidade de emergência de um poder político, que está, segundo a definição da filosofia política clássica, atrelado ao exercício da coerção, da violência.

A violência que se encontra nas sociedades indígenas não é monopolizada por um Estado, mas controlada pela própria sociedade. Em "Da tortura nas sociedades primitivas" (Cap. 10), Clastres salienta os rituais de iniciação - fortemente marcados por intervenções no corpo, como perfuração de lábios e orelhas, escarificações, reclusões etc. - como mecanismos de inscrição da lei (e memória) social nos indivíduos.


Promessas proféticas


Em "Do Um sem o Múltiplo" (Cap. 9), Clastres encontra no pensamento dos Guarani a identificação do Mal com a figura do Um - e esse Um coincide justamente com centralização política, com o Estado. No entanto, devido a factores incertos como o crescimento demográfico - tema discutido em "Elementos de demografia ameríndia" (Cap. 4) -, os Guaranis vêem-se não raro às voltas com a emergência do Estado e isso pode ser compreendido pelo aparecimento de líderes religiosos, os chamados profetas. Os profetas, como os chefes, falam. Mas a sua fala não é um mero dever - o capítulo 7 ("Dever da palavra") trata desse aspecto -, tão pouco é vazia. É uma fala que anuncia o fim dos tempos e incita à busca da Terra sem Mal, onde a mortalidade poderia ser, enfim, encontrada - este é, com efeito, o tema do capítulo 8 ("Profetas da Selva").

O profetismo ocupa, em A sociedade contra o Estado, um lugar intrigante. Referido inicialmente como uma revolta, ele pode ser também o germe de uma organização estatal entre os ameríndios. Com isso, Clastres reflecte sobre a situação dos povos tupi-guarani antes da Conquista.

As eventuais organizações em confederações, como aquela constituída pelos Tamoios no século XVI, não seriam um produto do contacto com os europeus, mas antes um processo constituído pelos próprios ameríndios. Mais uma vez, a questão não reside na ausência do Estado, mas na sua presença, mesmo entre os nativos, em forma latente. O que os distingue de nós, ocidentais, é a capacidade que eles apresentam de contornar, sempre que possível, o poder. Ao contrário de nós, eles riem do poder e de seu perigo - essa é a revelação de "De que riem os índios"? (Cap. 6).

Os índios e nós

Em A sociedade contra o Estado, Clastres viaja longe para reflectir, de facto, sobre a situação do Ocidente. NUma outra colectânea, «Arqueologia da violência: pesquisas em antropologia política», ele rememorará o filósofo do século XVII Etienne de La Boétie, que vê a razão da subordinação do homem como um acto de vontade. As sociedades ameríndias, para Clastres, são aquelas que recusam a subordinação - por isso, controlam o seu chefe, que não impõe leis nem executa sanções. Isso não reflecte nem significa sociedades desorganizadas, fragmentadas, como muito se pensou. Pelo contrário, revela um alto nível de organização a tal ponto de tornar inviável o aparecimento de um Estado. Essa escolha pela liberdade é o que Clastres quer sublinhar nas paisagens que percorreu e, assim, formular uma lição para o Ocidente, em que a dominação encontra-se por toda parte.

Em tempos como os que vivemos nos dias de hoje, marcados por guerras entre Estados e pelo desejo de expansão e dominação de verdadeiros impérios, a leitura de A sociedade contra o Estado parece, no mínimo, reconfortante. Diante de uma batalha pelo poder político (e, por conseguinte, económico) que tem custado inúmeras vidas, nada como imaginar um lugar onde este possa ser vivamente combatido pela sociedade.


Sobre o autor


Pierre Clastres nasceu em Paris em 1934. Foi director de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS, Paris) e membro do Laboratoire d´Anthropologie Sociale do Collège de France. Realizou pesquisas de campo na América do Sul entre os índios Guayaki, Guarani e Yanomami. Publicou Crónica dos índios Guayaki [1972], A sociedade contra o Estado [1974], e A fala sagrada - mitos e cantos sagrados dos índios Guarani [1974]. A sua morte prematura, num acidente de carro em 1977, interrompeu a conclusão de textos que mais tarde seriam reunidos no livro Arqueologia da violência - ensaios de antropologia política [1980].

Os conhecimentos tradicionais




Os conhecimentos tradicionais, ou conhecimentos autóctones (Indigenous Knowledge) são utilizados há milénios pelos povos indígenas e comunidades locais, e sempre constituíram a pedra angular da sua existência no que diz respeito à alimentação e à saúde. Os cientistas ocidentais começaram a interessar-se recentemente por esses conhecimentos indígenas, pelo facto deles representarem uma fonte potencial de novos medicamentos, sobretudo desde que os preços das patentes aumentaram muito no mercado. A aceleração dos fenómenos de biopirataria é reveladora da atitude hipócrita dos pesquisadores ocidentais em relação aos conhecimentos tradicionais: explorar a fundo esses conhecimentos e patentear todo tipo de substâncias deles oriundas (curcuma, ayahuasca, neem etc.), ao mesmo tempo que recusam reconhecer seu valor económico, bem como os seus detentores originais.
.
Apesar do reconhecimento gradual de que se beneficiam os conhecimentos tradicionais enquanto verdadeiros saberes, as leis ocidentais sobre a propriedade intelectual classificam-nos como pertencendo ao "domínio público", portanto de livre acesso a todos. Além disto, em certos casos, os conhecimentos indígenas foram patenteados e protegidos pelos direitos de propriedade intelectual, tornando assim impossível qualquer indemnização aos seus reais inventores ou proprietários.
.
Do mesmo modo, a utilização e o aperfeiçoamento constante das variedades são essenciais em muitos sistemas agrícolas. Em muitos países, o mercado de sementes depende essencialmente de um sistema local e descentralizado de produção de sementes, que opera a partir do princípio de difusão da melhor semente disponível numa comunidade, enquanto os fazendeiros locais asseguram-se de que a comunidade agrícola possui o material necessário para a sementeira. O seu conhecimento das variedades de plantas e de suas características específicas foi fundamental para o desenvolvimento de novas variedades, bem como para a segurança agrícola mundial.
.
O reconhecimento da importância dos saberes tradicionais ganha espaço no debate intelectual e político mundial. Assim, uma lei da OMPI-UNESCO sobre o Folclore foi adoptada em 1981; depois, em 1992, a Convenção sobre a Diversidade Biológica tratou dessa questão. Em 2000, um Comité inter-governamental sobre a propriedade intelectual relativa aos recursos genéticos, aos saberes tradicionais e ao folclore foi criada pela OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual).
.
Desvio dos saberes tradicionais
.
Um grande número de patentes foram outorgadas para recursos e saberes genéticos obtidos de países em desenvolvimento, sem o consentimento dos detentores desses saberes e recursos. Muitos produtos oriundos de matérias biológicas e de saberes desenvolvidos e utilizados por comunidades locais e indígenas (tais como a árvore neem, o kava, o barbasco, o endod e o curcuma, entre outros) foram objecto de uma importante pesquisa visando a obtenção de eventuais Direitos de Propriedade Intelectual sobre esses produtos considerados como "brutos", sem aperfeiçoamento (cf., por exemplo, a patente americana n° 5.304.718 sobre o quinoa, concedida a pesquisadores da Universidade do Estado do Colorado; ou ainda a patente americana sobre as plantas, de n° 5.751, sobre o ayahuasca, uma planta medicinal sagrada da Amazónia.
.
Muitas dessas patentes foram revogadas pelas autoridades nacionais competentes. Assim, o Conselho de Pesquisa Científica e Industrial (CRSI) da Índia pediu uma revisão da patente americana n° 5.401.5041 a respeito das propriedades curativas do curcuma. O Escritório das Patentes e das Marcas Registradas dos Estados-Unidos (USPTO) revogou essa patente, constatando que não havia a novidade exigida; a inovação vem sendo utilizada na Índia há muitos séculos. No início do ano 2000, a patente concedida à empresa W.R. Grace e ao Ministério da Agricultura americano para o neem (patente EPO n° 436257) foi igualmente revogada pelo Escritório Europeu das Patentes (EPO), pois o seu uso já estava repertoriado na Índia. O uso mais importante da árvore neem é como um biopesticida. Neste sentido, o neem contém mais de 60 componentes úteis, que incluem igualmente o azadirachtin A (aza A), amplamente conhecido. De acordo com o grupo Grace, esse componente era destruído no tratamento tradicional da planta. Isto é totalmente falso. De facto, as substâncias sofreram uma degradação, mas isto não se aparenta com uma perda, já que os fazendeiros só utilizam essas substâncias quando isto é necessário. O problema da estabilização só surgiu quando surgiu a questão do empacotamento e do armazenamento por longos períodos, com finalidades comerciais. O pedido de patente, de 1992, foi apresentado por Grace com o argumento de que o tratamento pretensamente inventado por esta empresa permitia uma extracção adicional de produtos solúveis na água, o que representaria uma alternativa mais do que um substituto ao tratamento indiano actual dado ao neem. Por outras palavras, as técnicas de Grace são supostamente mais novas e avançadas do que as técnicas indianas. Entretanto, essa “novidade” existe principalmente devido à ignorância ocidental. Um pedido de revisão para a patente sobre os tipos e grãos de arroz Basmati (US Patent n° 5.663.484) concedido pela USPTO, também foi formulado pelo CSIR e Rice Tech, o que fez com que 15 das 20 pretensões do solicitante fossem retiradas.
.
As convenções e tratados internacionais que tratam dos saberes tradicionais são caracterizadas pelo fato de não serem obrigatórios. Cada cláusula que trata da repartição dos benefícios é contestada e rejeitada. A convenção n° 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que trata amplamente dos padrões legais para os direitos indígenas, não protege os direitos de propriedade intelectual dos povos indígenas. Apesar da Declaração dos direitos dos povos indígenas reconhecer os direitos e aspirações desses povos, ela não passa de um documento sem efeito obrigatório, não podendo ser legalmente imposto. No tratado internacional sobre os recursos Genéticos das Plantas, as nações desenvolvidas conseguiram bloquear um reconhecimento internacional dos Direitos dos Fazendeiros. Eles contestam igualmente qualquer noção de retribuição para a utilização de germoplasma tradicional no âmbito de um acordo de divisão dos benefícios. A Convenção sobre a Diversidade Biológica, que tentou defender os interesses dos Povos Indígenas, foi contrariada nesse projecto pela recusa americana em ratificá-la e em aceitar as suas condições.
.
Proteger os conhecimentos tradicionais no interesse das comunidades implicadas requer, portanto, uma acção ao mesmo tempo a nível nacional, e sob forma de leis protectoras, e a nível internacional, por meio de acordos que condenem a bio-pirataria e reconheçam que conceder patentes para o que é propriedade de comunidades locais, é contrário à ética.

27.3.05

Mensagem para o Dia Mundial do Teatro de 2005

Mensagem para o Dia Mundial do Teatro de 2005,
da autoria de Ariane Mnouchkine



SOCORRO!

Teatro, vem em meu socorro!




Durmo. Acorda-me
Estou perdido na escuridão, guia-me, ao menos para uma vela
Sou preguiçosa, deixa-me envergonhada
Estou fatigada, levanta-me
Estou indiferente, sacode-me
Continuo indiferente, parte-me a cara
Tenho medo, dá-me coragem
Sou ignorante, educa-me
Sou monstruosa, humaniza-me
Sou pretensioso, faz-me morrer de riso
Sou cínica, desmonta o meu jogo
Sou estúpida, transforma-me
Sou má, pune-me
Sou dominadora e cruel, combate-me
Sou pedante, faz troça de mim
Sou ordinária, eleva-me
Sou muda, desfaz-me este nó
Já não sonho, chama-me cobarde ou imbecil
Esqueci-me, lança sobre mim a Memória
Sinto-me velha e seca, faz saltar a Infância
Sou pesado, dá-me a Música
Estou triste, vai buscar a Alegria
Sou surda, com fragor faz gritar o Sofrimento
Estou agitado, faz crescer a Sabedoria
Sou fraca, acende a Amizade
Sou cega, convoca todas as Luzes
Estou refém da Fealdade, faz irromper a Beleza vencedora
Fui recrutado pelo Ódio, dá todas as forças ao Amor.

Autor da Mensagem: Ariane Mnouchkine

Consultar:
http://www.iti-worldwide.org

Bread and Puppet Theatre (1962-1985)



Entre o chamado novo teatro americano, o Bread and Puppet Theatre é conhecido pelo carácter radical das suas técnicas, pela recusa do profissionalismo, assim como pela vontade de se inserirem na realidade quotidiana, tal como pela «pobreza» dos recursos técnicos que utiliza.
Bem se pode dizer que o Bread and Puppet Theatre pratica um teatro total na medida em que utiliza e combina todos os recursos do espectáculo e das artes: actores, marionetas, máscaras, pantomina, récita, música, dança, pintura, escultura, jogos de luzes, etc,etc. tudo isso numa dramaturgia unitária.

O Bread and Puppet Theatre foi fundado por Peter Schumann, escultor alemão que, de 1958 a 1960, dirigiu o grupo de Nova Dança de Munique. Instala-se, entretanto, nos Estados Unidos, e dá o seu primeiro espectáculo – uma «Dança dos Mortos» - na Judson Memorial Church de Nova Iorque, em 1961. Em seguida, monta um espectáculo ao ar livre sobre uma greve. A partir de então, e um pouco por toda a parte quer nos Estados Unidos quer na Europa, o Bread and Puppet Theatre dá espectáculos, em locais improvisados, e no decurso de manifestações.

O nome do Bread and Pupet Theatre, bem como o cerimonial simbólico, com que iniciavam os seus espectáculos ( distribuição de pão aos espectadores da primeira fila) revestia um significado. «Tentamos persuadi-los», nas palavras de Peter Schumann, «de que o teatro é tão indispensável ao homem como o pão».O espectáculo, nunca realista, deve levar os espectadores a tomares consciência do problema. Mas o método não é o do Brecht. «é necessário impressioná-los, sem cair em detalhes, sem ter a preocupação de fazer compreender os diversos aspectos da questão, sem procurar saber qual será a sua reacção, cumprindo sempre uma missão de alerta e de comunhão».

Os actores não eram profissionais. Eles próprios fabricam as suas máscaras e arranjam os seus acessórios e até os instrumentos de música com objectos encontrados nos caixotes de lixo.
Utilizavam também marionetas gigantes e marionetas vivas

Este tipo de teatro, parco de palavras, e repleto de gestos simbólicos, destina-se tanto a multidões em movimento como ao auditórios atentos.
.
Mais informações em inglês:

Description and Brief History of the Bread and Puppet Theatre

In 1962, one year after its founder moved to New York City from West Germany. Until 1971, Bread and Puppet resided in New York City, working in Coney Island and the East Village. In June 1970 part of Bread and Puppet moved to Plainfield, Vermont, as a theater-in-residence at Goddard College. Here the group held the first annual "Domestic Resurrection Circus," a two-day festival "celebrating the beauties and lamenting the sorrows of our existence in scores of mask, music and puppet performances".
Bread and Puppet has given workshops in sculpture, mime, dance, story-making, puppet building and operation, music and instrument making at Goddard College (1971-1974) and in Glover, in the Northeast Kingdom of Vermont where the group has converted an old barn into a museum, displaying hundreds of masks and puppets. In 1974 Bread and Puppet moved to Glover where it has remained ever since.
Since its beginnings, Bread and Puppet Theater has been a small, self-managed, non-commercial theater. Despite the lack of financial and material funding, Bread and Puppet continues to thrive, always committed to increasing people's awareness of pertinent social and political issues. Often depicted are the victims of injustice, plagued by war, hunger and social oppression. During the sixties, Bread and Puppet frequently participated in demonstrations against American involvement in Vietnam, using over-life size puppets and masked performers. Although Schumann expressly says that the shows are not political, the subjects of his plays are very thought-provoking, demanding that the audience question their moral responsibilities. Underlying all the performances, however, is a note of hope and optimism.
Bread and Puppet derives from ancient folk traditions: medieval morality plays, Punch and Judy, Sicilian and Balinese puppetry, and Japanese Bunraku. Classical art and the bible have also influenced Schumann, as well as current events. Having studied art, sculpture and music in Germany, Schumann has fused these elements into the creation of a unique puppet theater. Puppetry is the essence of this theater, preferring action to dialogue; the puppets display life in simple, ritualistic terms rather than trying to explain it or teach about it. Peter Schumann believes that "puppetry and all the arts are for the Gods, are wild, are raw material, are bread and sourdough....are for life and death, births, weddings, exaltation and sorrow, not for professionals and specialists of culture."
Believing that theater is a basic necessity like bread, Bread and Puppet has brought its theater out into the streets to those who may otherwise not go to the theater. Larger than life size puppets often on stilts, wear huge masks with expressive faces, singing, dancing and playing music. Participation in these plays varies from two to over one hundred actors, including children. Out in the city streets and the fields of Vermont and unimpeded by theater walls, the audience becomes more engaged in the performances and relates with the characters themselves.
Bread and Puppet is recognized throughout the world and has won distinction at international theater festivals in Italy, Poland and Yugoslavia.

Consultar:

O efeito de distanciação no teatro de Brecht


O teatro, cujas origens antigas são de ordem religiosa, desenvolveu-se com vista a reforçar a comunhão com o público e à identificação do espectador com o herói, ao longo da peça ou da acção representada. Numa tal situação os espectadores tendem a ser passivos, e a abandonarem-se às impressões e aos sentimentos, cedem àquilo que se poderia chamar de um efeito hipnótico. Para se obter esse resultado, a acção deve ser-lhes apresentada como continuamente presente e real. Para isso os cenários, a iluminação e o desempenho dos actores criam um ilusão tão completa quanto possível. Os actores deverão até perder a sua identidade para encarnarem a personagem.

Ora Bertold Brecht opõe a esse teatro aristotélico um «teatro épico». Epopeia e drama opõem-se como narração e acção. O teatro épico de Brecht recusa a ilusão e a atitude passiva que ela provoca no espectador. Para isso, a partir do período entre as duas guerras, no Scliffbauerdamm-Theater de Berlim, utilizou o Verfremdungseffekt ( efeito V), expressão que se pode traduzir por «efeito de distanciação». Com efeito, a sua finalidade é afastar a familiaridade, onde possa haver qualquer identificação do espectador com as personagens, e qualquer atitude passiva, para suscitar uma atitude desperta e crítica, capaz de fazer apreender a lição social que a peça comporta.

A acção tem sempre algo de insólito. Nunca nos surge como realmente presente. Distancia-se à maneira de uma narração. Será sempre «historiada». Não decorre num tempo homogéneo com o real, e será interrompida por cantos e comentários, ruptura que será sublinhada pela representação dos actores. Será representada de tal forma que seja evidente que os actores conhecem as diferentes fases e o desenlace. Cartazes e projecções no início de cada cena reunirão o seu conteúdo para evitar o efeito surpresa.

É evidente que é do desempenho do actor que depende essencialmente o efeito de distanciação. Pois ele tem de mostrar a sua personagem, e não de a viver, procedendo a uma demonstração.

Este efeito de distanciação não é completamente novo. Diderot já vira a necessidade do bom actor se ver a si mesmo enquanto representava. E o coro da tragédia antiga quebrava a ilusão da acção para incitar os espectadores a uma reflexão crítica. Outros expedientes para criar a distanciação será a versificação, o convencional, e a passagem do trágico ao cómico. Mas é Brecht que enfatiza esse efeito de distanciação emprestando-lhe uma eficácia pedagógica.

Breve Panorama do Teatro Contemporâneo

Na Viragem do século XIX para o XX

Realismo - Na segunda metade do século XIX, o melodrama burguês rompe com o idealismo romântico e dá preferência a histórias contemporâneas, com problemas reais de personagens comuns. A partir de 1870, por influência do naturalismo, que vê o homem como fruto das pressões biológicas e sociais, os dramaturgos mostram personagens condicionados pela hereditariedade e pelo meio.

Anton Tchekhov (1860-1904) - Filho de um comerciante, parte em 1879 para Moscovo com uma bolsa de estudos para Medicina. Paralelamente, escreve muito. Os seus contos mostram o quotidiano do povo russo e estão entre as obras-primas do género. Entre as suas peças destacam-se «A gaivota» e «O jardim das cerejeiras». É um inovador do diálogo dramático e retrata o declínio da burguesia russa.

Espaço cénico realista - Busca-se uma nova concepção arquitectónica para os teatros, que permita boas condições visuais e acústicas para todo o público. O director e o encenador adquirem nova dimensão. André Antoine busca uma encenação próxima da vida, do natural, usando cenários de um realismo extremo. Na Rússia, o encenador Konstantin Stanislavski cria um novo método de interpretação.

Konstantin Stanislavski (1863-193 - Pseudónimo de Konstantin Sergueievitch Alekseiev. Nasceu em Moscovo. Criado no meio artístico, cursa durante um tempo a escola teatral. Passa a dirigir espectáculos e, com Nemorovitch-Dantchenko, cria o Teatro de Arte de Moscovo, pioneiro na montagem de Tchekhov. Cria um método de interpretação em que o actor deve «viver» o personagem, incorporando de forma consciente a sua psicologia. O seu livro «A preparação do actor» é divulgado em todo o mundo e o seu método é usado em escolas como o Actor’s Studio, fundado nos EUA.


No Século XX


Expressionismo - Surge na Alemanha, entre a I e a II Guerras Mundiais. Advoga a explosão descontrolada da subjectividade e explora estados psicológicos mórbidos, sugerindo-os através de cenários distorcidos.

Peças de autores expressionistas - «A caixa de Pandora», de Frank Wedekind, «Os burgueses de Calais», de Georg Kaiser, «Os destruidores de máquinas», de Ernst Toller, «RUR», do checo Karel Capek, e «O dia do julgamento», do americano Elmer Rice, exibem também preocupação social, mostrando o homem em luta contra a mecanização desumanizadora da sociedade industrial, estudam os conflitos de geração e condenam o militarismo.

Futurismo - Forte durante os anos 20. Na Itália glorifica a violência, a energia e a industrialização. Na antiga URSS propõe a destruição de todos os valores antigos e a utilização do teatro como um meio de agitação e propaganda.

Autores futuristas - Os italianos, liderados por Filippo Tommaso Marinetti («O monoplano do papa»), evoluem para o fascismo, enquanto os russos, tendo à frente Vladimir Maiakovski («O percevejo» e «Mistério bufo»), usam o teatro para difundir o comunismo.


Construtivismo - Movimento artístico originário da Rússia pré-revo-lucionária, iniciado pelo escultor e arquitecto Vladimir Tatlin, e cujos objectivos foram enunciados em 1920 por dois escultores, os irmãos Naum Gabo e António Pevsner, no «Manifesto Realista». Nascido de escultores e para a escultura, o Construtivismo iria afectar profundamente todas as artes plásticas, ao procurar esbater as barreiras que separam a pintura da escultura, e levando ambas para os domínios da arquitectura. Intimamente relacionado com a pintura cubista, e com a arquitectura funcionalista, o Construtivismo adoptou fervorosamente os materiais que a ciência e a tecnologia iam colocando à disposição dos artistas.


Teatro estilizado - Uma corrente que busca colocar o irreal no palco, abandonando o apego excessivo à psicologia e ao realismo. Meyerhold é o encenador que leva mais longe essas propostas, lançando os fundamentos do que chama de «teatro estilizado».


Vsevolod Emilievich Meyerhold (1874-1940) - Nascido na Rússia, trabalha inicialmente como actor e começa como director teatral em 1905, indicado por Stanislavski. Dirige os teatros da Revolução e Meyerhold, encenando várias peças de Maiakovski. Utiliza o cinema como recurso teatral. Em algumas de suas montagens, o espectador pode ir ao palco, os actores circulam na plateia. Para Meyerhold, o actor deve utilizar o seu físico na interpretação, não ficando escravo do texto. Preso pela polícia estalinista após uma conferência teatral, em 1939, morre num campo de trabalhos forçados, provavelmente executado.


Surrealismo - Na França dos anos 20 e 30, os surrealistas contestam os valores estabelecidos. Apontam como seu precursor Alfred Jarry que, no fim do século XIX, criou as farsas ligadas ao personagem absurdo do Rei Ubu. Antonin Artaud é o principal teórico desse movimento.

Antonin Artaud (1896-194 - Actor, poeta e director teatral nascido em Marselha, França, Artaud formula o conceito de «teatro da crueldade» como aquele que procura libertar as forças inconscientes da plateia. O seu livro «O teatro e seu duplo» exerceu enorme influência até aos dias actuais. Passou os últimos dez anos da sua vida internado em diversos hospitais psiquiátricos e morreu em Paris.

Teatro Épico - Tomando como ponto de partida o trabalho de Piscator, que lutava por um teatro educativo e de propaganda, o alemão Bertolt Brecht propõe um teatro politizado, com o objectivo de modificar a sociedade.


Autores épicos - Os principais seguidores de Brecht são os suíços Friedrich Dürrenmatt “A visita da velha senhora” e Max Frisch “Andorra”, e os alemães Peter Weiss (ex.:“Marat/Sade”) e Rolf Hochhuth (ex.:“O vigário”).
Na Itália, Luigi Pirandello («Seis personagens à procura de um autor») antecipa a angústia existencial de Jean-Paul Sartre («Entre quatro paredes») e Albert Camus («Calígula»).



Bertolt Brecht (1898-1956) - Dramaturgo e poeta alemão. Serve na I Guerra Mundial como enfermeiro, interrompendo para isso os seus estudos de medicina. Começa a carreira teatral em Munique, mudando em seguida para Berlim. Durante a II Guerra exila-se na Europa e nos EUA. Acusado de actividade antiamericana durante o macarthismo, volta à Alemanha e funda, em Berlim Oriental, o teatro Berliner Ensemble. Em «O círculo de giz caucasiano», «Galileu Galilei» ou «As espingardas da senhora Carrar», substitui o realismo psicológico por textos didácticos, comprometidos com uma ideologia de esquerda. Afirmando que, em vez de hipnotizar o espectador, o teatro deve despertá-lo para uma reflexão crítica, utiliza processos de «distanciamento», que rompem a ilusão, lembrando ao público que aquilo é apenas teatro e não a vida real.


Teatro Americano - Na década de 20 adquire pela primeira vez características próprias, marcado pela reflexão social e psicológica, e começa a ser reconhecido em todo o mundo. O seu criador é Eugene O'Neill, influenciado por Pirandello.

Autores americanos - Além de Eugene O'Neill, destacam-se Tennessee Williams, Clifford Oddets (“A vida impressa em dólar” ) , que retrata a Depressão, Thornton Wilder ( “Nossa cidade”) e Arthur Miller com textos de crítica social; e Edward Albee que, em “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, fala do relacionamento íntimo entre os indivíduos.

Teatro do Absurdo - A destruição de valores e crenças, após a II Guerra Mundial, produz um teatro anti-realista, que encara a linguagem como obstáculo entre os homens, condenados à solidão.

Autores do teatro do absurdo - Destacam-se o irlandês Samuel Beckett; o romeno naturalizado francês, Eugène Ionesco; o inglês, Harold Pinter. O francês Jean Genet (“O balcão”) escolhe assuntos "malditos", como a homossexualidade. “Tango”, do polaco Slawomir Mrózek, e “Cemitério de automóveis” e “O arquitecto e o imperador da Assíria”, do espanhol Fernando Arrabal, também marcam o período.

Tendências Actuais


Em anos mais recentes, alguns dramaturgos ainda se destacam, mas o eixo criador desloca-se para os grupos teatrais. As experiências dos grupos fundados nas décadas de 70 a 90 têm em comum a eliminação da divisão tradicional entre o palco e a plateia; além da substituição do texto de um autor único por uma criação colectiva e da participação do espectador na elaboração do espectáculo. A figura do director torna-se mais decisiva do que a do autor. O polaco Jerzy Grotowski é um dos maiores nomes do teatro experimental.


Jerzy Grotowski (1933-1999) - Nasceu em Rzeszów, Polónia. O seu trabalho como director, professor e téorico de teatro tem grande impacto no teatro experimental a partir da década de 60. De 1965 a 1984 dirige o teatro-laboratório de Wróclaw, onde propõe a criação de um «teatro pobre», sem acessórios, baseado apenas na relação actor/espectador. Em 1982 passa a morar nos EUA e depois em Itália, onde vive e trabalha no Centro de Pesquisa e Experimentação Teatral de Pontedera. Morre em 1999.

Grupos teatrais - Destacam-se o Living Theatre, de Julian Beck e Judith Malina; o Open Theatre, de Joseph Chaikin; o Teatro Campesino, de Luís Miguel Valdez; o Bread and Puppet, de Peter Schumann; o Odin Teatret, de Eugenio Barba; o Centro Internacional de Pesquisa Teatral, de Peter Brook; o Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine; o Grand Magic Circus, de Jérôme Savary; o Squat, de Budapeste; o Mabou Mines e o Performance Group, dos EUA; e as companhias dos americanos Bob Wilson, Richard Foreman, Richard Schechner e Meredith Monk; dos italianos Carmelo Bene, Giuliano Vassilicò e Memè Perlini; do falecido polaco Tadeusz Kantor e a do britânico Stuart Sherman.

Peter Brook (1925- ) - Nasce em Londres e estuda em Westminster, Greshams e Oxford. Como diretor teatral, nos anos 60, inova em montagens de Shakespeare como “Rei Lear” e em “Marat/Sade”. Em 1970 transfere-se para Paris fundando o Centro Internacional de Pesquisa Teatral. Centra o seu trabalho na valorização do actor. Trabalha com pessoas de diversas nacionalidades para que as diferenças culturais e físicas enriqueçam o resultado final. Uma de suas montagens mais conhecidas, “Mahabharata”, é adaptada de um clássico indiano.


Autores actuais - Os autores mais representativos do final do século XX são os alemães Peter Handke («Viagem pelo lago Constança»), Rainer Werner Fassbinder («Lola»), também director de cinema, Heiner Müller («Hamlet-Machine») e Botho Strauss («Grande e Pequeno»); o americano Sam Sheppard («Loucos de Amor»), o italiano Dario Fo («Morte acidental de um anarquista») ou o chileno Ariel Dorfman («A morte e a donzela»).

Teatralismo - Na década de 90, musicais como «Les misérables», dirigido por Trevor Nunn e John Caird ou «Miss Saigon», dirigido por Nicholas Hytner, ilustram a tendência para o chamado «teatralismo», que privilegia a exploração dos recursos específicos da linguagem de palco - encenações elaboradas, estilizadas, ricas em efeitos especiais e ilusões teatrais.


Retirado de:
http://www.anta.pt/html/modules.php?op=modload&name=Forums&file=viewtopic&topic=157&forum=15

Palavras brechtianas


Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis

Bertold Brecht

26.3.05

Os exterminadores do planeta


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Os especialistas do meio ambiente, que se reproduzem como coelhos, dedicam-se a embrulhar a ecologia em papel de celofane. A saúde do planeta está feita num asco, mas a linguagem oficial dominante é ocultar as responsabilidades ao proclamar: «Somos todos responsáveis»!!!

Toda a humanidade paga pelas consequências da ruína da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da delapidação dos bens que a natureza oferece. Mas as estatísticas revelam que são 25% da humanidade que comete os 75% dos crimes contra a natureza. E se compararmos o norte e o sul, cada habitante do norte consume 14 vezes mais papel e 13 vezes mais ferro e acero. Cada norte-americano lança para o ar, em média, 22 vezes mais carbono que um indiano e 13 vezes mais que um brasileiro.
Chama-se suicídio universal ao assassinato que quotidianamente os membros mais prósperos do género humano, que vivem nos países ricos, executam, ou aqueles que, nos países pobres, imitam o seu estilo de vida: são aqueles países e aquelas classes sociais que definem a sua identidade com base na ostentação e no desperdício.
A difusão massiva deste modelos de consumo, se tal fosse possível, exigiria 10 planetas como o nosso para que os países pobres pudessem consumir tanto como os países ricos.

As empresas com mais sucesso são também as mais eficazes contra o nosso planeta. Os gigantes do petróleo, os aprendizes de feiticeiro da energia nuclear, a biotecnologia e as grandes empresas que fabricam armas, acero, alumínio, automóveis, pesticidas, plásticos e mio outros produtos sabem bem derramar lágrimas de crocodilo pela natureza. Mas estas empresas são as que mais dinheiro ganham com a ruína do planeta. São também as que mais dinheiro gastam: na publicidade, que converte a contaminação em filantropia, e nas ajudas aos políticos que decidem sobre o futuro do mundo.

Cinco anos depois da Eco-92, cimeira mundial convocada pela ONU para tratar dos problemas ambientais, outra cimeira se realizou com os mesmos propósitos. Mas, entretanto, o planeta já tinha sido desfolhado da sua pele vegetal a um tal ritmo que as florestas tropicais destruídas equivaleriam a duas Itálias e meia, e as terras férteis que se tornaram áridas teriam a extensão da Alemanha. Além disso, durante esse quinquénio extinguiram-se 250 mil espécies de animais e plantas, a atmosfera estava mais que nunca intoxicada, mil trezentos milhões de pessoas não tinham casa nem comida, e 25 mil morriam em cada dia por beberem água que os venenos químicos ou os despejos industriais tinham contaminado.

Quem mais sofre com tudo isto são, como é costume, os pobres, quer as pobres gentes quer os mais países mais pobres do planeta, que são condenados a expiar os pecados alheios.

O economista Lawrence Summers, doutorado em Harvard e elevado às mais altas hierarquias do Banco Mundial, propunha, num documento para uso interno da instituição, que por descuido foi tornado público, a migração da indústrias sujas e dos desperdícios tóxicos para os países menos desenvolvidos por razões de lógica económica que tinha a ver com as vantagens comparativas desses países. Por palavras mais claras as tais vantagens seriam três: os salários raquíticos, os grandes espaços que significariam que havia ainda muito por contaminar e a escassa incidência do cancro sobre as populações pobres, que tinham o hábito de morrer precocemente por outras causas. A divulgação deste documento provocou algum alarido: estas coisas fazem-se, mas não se dizem. Mas Summers, afinal, tinha apenas cometido a imprudência de expressar no papel aquilo que o mundo já há muito tempo vinha fazendo: transformar o sul numa lixeira do norte.

Há 16 séculos que São Ambrósio, padre e doutro da Igreja, proibiu a usura entre os cristão mas autorizara a mesma contra os bárbaros. Nos nossos dias acontece o mesmo com a contaminação mais assassina. O que está mal no norte, está bem no sul; o que no norte está proibido, é bem-vindo no sul. Pelo sul estende-se o reino da impunidade.

Nos finais de 1984 na cidade indiana de Bhopal, a fábrica de pesticidas da empresa química Union Carbide sofreu um grave acidente no qual foram libertados 40 toneladas de gás mortal. O gás estendeu-se por toda a região e matou 6.600 pessoas e provocou doenças a mais de 70.000, muitas das quais morreram pouco depois. Acontece que a Union Carbide não seguia na índia as normas de segurança a que seria obrigada se estivesse nos Estados Unidos.

Union Carbide e Dow Chemical vendem, na América Latina, numerosos produtos proibidos no seu país de origem, e o mesmo ocorre nos outros gigantes da indústria química mundial. Na Guatemala,por exemplo, as avionetas fumigam as plantações de algodão com pesticidas cuja venda está proibida nos Estados Unidos, e esses venenos infiltram-se nos alimentos, desde o mel até aos peixes até chegar à boca dos bebés. De resto, já em 1974, uma investigação do Instituto de Nutrição da América Central tinha comprovado que, em muitos casos, o leite das mães guatemaltecas estava contaminado 200 vezes mais que o limite aceitável.

A impunidade da empresa Bayer vem dos tempos em formava parte do consórcio IG Farben e usava a mão de obra gratuita dos prisioneiros de Auschwitz. Muitos anos depois, nos princípios do ano de 1994, um militante ecologista do Uruguai tornou-se accionista da Bayer por um dia. Graças à solidariedade dos seus companheiros alemães, ele pôde fazer ouvir a sua voz na Assembleia de accionistas do segundo maior produtor mundial de pesticidas. Numa reunião pródiga em cervejas, salsichas com mostarda e aspirinas à discrição, Jorge Barreiro perguntou porque é que a empresa vendia no Uruguai 20 agrotóxicos que não estavam autorizados na Alemanha por terem sido considerados «extremamente perigosos» e outros cinco classificados como «altamente perigosos». Aconteceu, então, mais uma vez, o que era previsível. Com efeito, cada vez que alguém interpela os executivos da Bayer sobre a vendas aos países do Sul de venenos proibidos aos do Norte, a resposta é sempre a mesma: que a empresa não viola as leis dos países onde operam, o que é formalmente correcto, e que os produtos são inofensivos. O que fica sempre por explicar é o enigma de saber porque é que esses bálsamos químicos não podem ser desfrutados nos países do Norte…



Em Taiwan um terço do arroz não se pode comer, porque está envenenado mercúrio, arsénico ou cádmio; na Coreia do Sul só se pode beber água de alguns poucos rios; e na China não peixes em metade dos rios.

Em suma: o século XX terminou a pintar naturezas mortas

Biopirataria

Sem dó nem piedade andam os biopiratas, por esse mundo fora, a fazer das suas...Aproximam-se, arrancam as sementes, patenteiam-nas e convertem-nas em êxito comercial.

Quatrocentos povos indígenas da região amazónica acabaram de denunciar, recentemente, a empresa International Plant Medicine Corporation que se tinha apoderado de uma planta sagrada da região, a ayahuasca, o equivalente à hóstia para os cristãos. A empresa tinha patenteado a ayahuasca no Departamento de Marcas e Patentes dos Estados Unidos e começado a produzir com ela mediamentos para doenças psiquiátricas e cardiovasculares. A ayahuasca é, desde então, propriedade privada!!!


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Quem são os pobres...



Pobres são os que não têm tempo para perder tempo
Pobres são os que não têm silêncio, nem podem comprá-lo
Pobres são os que têm pernas mas que se esqueceram de caminhar, como as asas das galinhas que se esqueceram de voar
Pobres são os que comem lixo e pagam por isso como se fosse comida
Pobres são os que têm direito a respirar merda, como se fosse ar, sem pagar nada por ela
Pobres são os que não têm outra liberdade que não a de escolher um dos canais de televisão
Pobres são os que vivem dramas passionais com as máquinas
Pobres são os que são sempre muitos e que estão sempre sozinhos
Pobres são os que não sabem que são pobres.


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Endivido-me, logo existo!



Há uns atrás, o homem que não devia nada a ninguém era um exemplo de virtude e honestidade. Hoje, é um extraterrestre. Sim, porque hoje quem não tem dívidas, não existe. Endivido-me, logo existo.

A difusão massiva do crédito transforma a cultura do quotidiano: as aparências tornam-se no núcleo da personalidade, o artifício torna-se um autêntico modo de vida, e a utopia tem 48 meses de prazo para ser paga.


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

O racismo das lixeiras industriais nos USA


Nos Estados Unidos o mapa ecológico é também o mapa racial.
As fábricas mais poluidoras e as lixeiras mais perigosas estão localizadas nas bolsas de pobreza onde vivem os negros, os índios e a populaçãolatino-americana.
A comunidade negra de Kennedy Heighs, em Huston, Texas, habita terras arruinadas por resíduos de petróleo da Gulf Oil.
Os habitantes de Covent são quase todos negros. Trata-se de uma povoação do Louisiana onde existem 4 das fábricas mais sujas e poluidoras do país.
Também eram, na sua esmagadora maioria, negros, aqueles que foram parar à urgência do hospital quando, em 1993, a General Chemical, deixou libertar chuva ácida no norte da cidade de Richmond, na baía da Califórnia.
Um relatório da United Church of Christ, publicado em 1987, já advertia que era a população negra e os latinos que viviam perto dos aterros tóxicos.
Para não destoar as lixeira nucleares também se situam nas reservas indígenas, em troco de dinheiro e promessas de empregos.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro


O suplício de tântalo atormenta os pobres. Condenados à sede e à fome, estão também condenados a contemplar os manjares que a publicidade lhes oferece. Mas quando aproximam a boca e estendem o braço, essas maravilhas logo desaparecem. E se algum se precipita, lançando-se ao assalto, acabam em ir parar à prisão ou ao cemitério.
São manjares de plásticos, sonhos de plástico. E de plástico é o paraíso que a televisão lhes promete todos os dias, mas só a poucos permite o acesso. Nesta civilização onde as coisas importam cada vez mais, e as pessoas cada vez menos, os fins foram sequestrados pelos meios: são as coisas que te compram, é o automóvel que te manipula, o computador que te programa, e a televisão que te observa.


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Uma anedota sobre o consumismo


Despista-se um automóvel à saída de Moscovo num dia cinzento e chuvoso. O condutor sai do carro a berrar:
- Oh, o meu Mercedes…o meu Mercedes
Alguém que vai a passar diz-lhe:
- Tenha calma. Não se preocupe com o carro. Não vê que perdeu o braço.
O homem virando-se então para o lado, começa a chorar convulsivamente ao mesmo tempo que se lamenta em voz baixa:
- Oh, o meu Rolex…o meu Rolex!


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

A linguagem dos poetas do neo-realismo capitalista



Todos conhecemos o naturalismo e o realismo na pintura e na literatura do século XIX. Também poucos desconhecem o neo-realismo socialista em meados do século XX graças a escritores bem conhecidos.
Chegou a altura de tomarmos contacto com a linguagem dos poetas do neo-realismo capitalista através de um pedaço da sua prosa:
«…a assinatura do tratado de livre comércio maximizou as oportunidades de utilização dos recursos oferecidos pelas vantagens comparativas…»

( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

25.3.05

A Filosofia contra o Cristianismo



Na Antiguidade o filósofo vivia como filósofo. A prova da sua essência era a sua existência. Graças as seus hábitos alimentares, à vasta guedelha ou ao cabelo rapado, ao bordão, à tigela, ao manto de linho branco ou aos andrajos, qualquer sabia que estava perante um filósofo estóico ou cínico. Nesse tempo, filósofo designava o indivíduo que punha em prática uma teoria, teoria essa graças à qual ele visava atingir a sabedoria.

O cristianismo oficial irá modificar a definição de filósofo – e ainda hoje vivemos parcialmente sob o regime cristão. O cristianismo chama filósofo à personagem que põe a sua inteligência, saber, retórica e trabalho ao serviço do poder vigente, forgando para uso dos poderosos um arsenal de conceitos que permita a legitimação política da sua acção. Durante o regime cristão, a filosofia funcionou como disciplina incestuosa e segundo uma lógica de gabinetes. Os filósofos esforçavam-se através de esforçadas dissertações sobre o sexo dos anjos, sobre o seu número bem como a sua disposição nos tronos no Paraíso, sobre a excelência da guerra santa e justa, sobre os fundamentos ontológicos da transubstanciação (=conversão da hóstia em Corpo de Cristo!!!!) e outras empolgantes questões de um corpo eclesiástico que continua a fascinar alguns filósofos contemporâneos amadores de sofismarias e retóricas absconsas.

Ainda hoje operam na filosofia estas duas tradições: uma linhagem existencial, e uma linhagem de gabinete.
Os primeiros pensam com vista a uma salvação individual, visando uma vida transfigurada, para além da vida mutilada da maior parte das pessoas. São filósofos 24 horas por dia e procuram fazer coincidir os seus pensamentos com as suas acções.
Os segundos reflectem para outrem, e não aplicam forçosamente as suas conclusões; possuem ainda grandes habilidades para dar lições ao mundo inteiro.


(Excertos de um texto de Michel Onfray publicado no Le Monde Diplomatique de Novembro de 2004)

A Rainha Vitória foi a maior traficante de drogas!


A Rainha Vitória da Inglaterra deu o nome a uma época, a era vitoriana, que está associada ao puritanismo moral e ao culto dos valores tradicionalistas.

Acontece que a mesma Rainha Vitória foi a maior traficante de drogas do século XIX. Com efeito, sob o seu reinado, o ópio converteu-se na mercadoria mais valiosa de todo o comércio imperial. O cultivo e a produção desenvolveu-se na Índia por iniciativa e sob o controle dos ingleses. A droga entrava na China e calculam-se que existiriam 12 milhões de drogados chineses quando, em 1839, o Imperador Chinês, face aos efeitos devastadores daquela droga junto da população do seu país, resolveu proibir o comércio e o uso do ópio.

A Rainha Vitória, quando tomou conhecimento daquela resolução, apressou-se logo a qualificá-la como um imperdoável ataque e violação à liberdade comercial e, de imediato, enviou a Esquadra Inglesa para as costas da China e o seu Exército invadir aquele país, dando início à chamada guerra do ópio entre os chineses ( que queriam proibir) e os ingleses ( que defendiam a sua livre comercialização).
Em 1860 a cidade de Pequim cai às mãos das tropas invasoras da Inglaterra e logo os ingleses restabeleceram o livre comércio do ópio e deram vivas à sua Majestade a Rainha!!!!

Alterconsumidores versus Hiperconsumidores

Os Hiperconsumidores são grandes consumidores de produtos tecnológicos,jogos de azar e capitalização do dinheiro. Gostam do desporto-espectáculo na TV ou nos jornais, frequentam os parques de divertimento, e compram nas catedrais do consumo em que se transformaram os centros comerciais e os hipermercados. Adoram a publicidade. Nas revistas procuram tudo o que ajuda a melhorar a aparência física especialmente as rubricas sobre a maquilhagem, a beleza e a moda. Os hiperconsumidores são superconsumidores do fast food (comida rápida), das pastilhas elásticas e dos gelados.
.
Os Alterconsumidores não gostam da publicidade. Estão prontos a gastar mais tempo e mais dinheiro para encontrar produtos que respeitem o ambiente além de preferirem produtos reciclados. Rejeitando a ideia que o automóvel lhes dá algum status social eles utilizam-no sómente como meio instrumental de deslocação de um local para outro. Lêem normalmente a imprensa de qualidade e são visitantes dos museus. Passam menos tempo à frente de um aparelho de televisão. Os alterconsumidores privilegiam geralmente os paladares e os gostos intensos e autênticos
(adaptação de um texto publicado no Le monde de 15/7/04)