26.5.05

Mais um lay-off na Rohde



A multinacional de calçado alemã Rohde, sedeada em Santa Maria da Feira, anunciou a aplicação do lay-off a 900 trabalhadores entre Junho e Agosto. O Sindicato do sector já denunciou a situação por entender que não há falta de encomendas nem de trabalho, mas sim uma decisão da empresa em deslocalizar as encomendas para outros países.
Recorde-se que durante a situação de lay-off, caberá à Segurança Social suportar 70% do salário dos trabalhadores, que tendo uma forte redução do seu horário de trabalho, recém apenas o salário mínimo.

Os Portugueses são conservadores


Um estudo elaborado por um instituto francês traça um retrato dos portugueses, revelando a sua mentalidade conservadora quer quanto à imigração, ao papel das mulheres, e bem assim como sobre o aborto.

Só 49% dos português apoiam o rendimento mínimo ( contra os 63% dos europeus). Em contrapartida, 86% dos portugueses são favoráveis à prestação de cuidados de saúde gratuitos ( mais que os 85% dos europeus que têm a mesma opinião).
60% dos português acreditam nas virtualidades da livre concorrência ( contra 73% dos europeus), mas já 65% não aceitam qualquer alteração na legislação relativa aos despedimentos e contratação laboral.

51% dos português acham a homossexualidade como uma forma aceitável de vida (contra 64% dos europeus)
59% dos portugueses opõem-se à pena de morte ( ao passo que 60% dos europeus têm a mesma opinião)

General iraquiano colaboracionista foi morto


O general iraquiano que dirigia as operações contra os resistentes à ocupação norte-americana foi morto a tiro nas ruas de Bagdad, anunciaram as agências de informação internacionais

15.5.05

Dia Internacional da Objecção de Consciência ( 15 de Maio)



Um direito fundamental! O direito a invocar a nossa consciência contra a lei!


Recusar o serviço militar, por exemplo, é um direito da nossa consciência.

O Direito à objecção de consciência - direito que é inerente a qualquer pessoa - vem a consistir no respeito pelos ditames da sua própria consciência, pelos princípios filosóficos, morais ou religiosos que o indivíduo escolhe para si mesmo, de tal forma que ao invocá-los mais não faz que afirmar e exprimir a soberania e a dignidade da pessoa humana. A sua simples invocação pode traduzir-se naturalmente na recusa à prática de certos actos ou actividades que possam contrariar de qualquer forma aqueles princípios. O direito à Objecção de Consciência inspira-se directamente na Declaração Universal dos Direitos do Homem, nomeadamente, quando aí se diz que "toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, e de consciência", encontrando-se ainda consagrado na Lei Fundamental do Estado Português e na legislação ordinária ( Lei da Objecção da Consciência: Lei nº 7/92 de 12 de Novembro).

O direito à objecção de consciência pode ter várias concretizações, mas aquela que é mais conhecida porque mais vulgar é a da objecção (recusa) à prestação do serviço militar, ou seja, abster-se a contribuir para a prática de actos de guerra e de violência - ou para o seu treino e preparação, o que vem dar ao mesmo - por motivo de imperativos da sua consciência, e dos valores que nela vivem.

O direito à objecção de consciência encontra-se já consagrada na legislação portuguesa, assim como em alguns países com regime democrático. Mas o reconhecimento legal deste direito nem sempre foi fácil, nem ainda hoje o seu exercício é aceite por alguns países e instituições (recorde-se os casos dos Objectores de Consciência em Israel que se recusam a alistar-se, ou a serem enviados para os territórios palestinianos ocupados pelo Exército israelita).

Este facto deve-se a razões obscuras, senão mesmo por falta de conhecimento sobre o assunto, quando não por simples abuso de poder do Estado ( que tudo pensa poder sacrificar em prol dos seus interesses), mormente do seu aparelho de guerra, que é o Exército, quando este sente o seu funcionamento regular prejudicado por coisas tão "mesquinhas e insignificantes" (!!!) como são as consciências humanas.

A situação hoje é muito melhor que no passado pois a evolução histórica tem sido marcada pela necessidade do respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos indivíduos, respeito esse cada vez mais enraizado na consciência jurídica dos indivíduos se bem que nem sempre aplicado pelo próprio Estado.

Mas muito ainda há a fazer neste campo até que se possa dizer que não mais existem consciências censuradas ou violentadas pela "ideia da violência". Por outro lado, nem a actual Lei é perfeita, nem a sua divulgação tem sido feita de maneira ao seu conhecimento generalizado pela população. Daí que se imponha todo um trabalho redobrado de divulgação e esclarecimento sobre a temática da Objecção da Consciência, os seus fundamentos e pertinência, como ainda sobre os concretos direitos e a forma de os exercer por parte de todos os interessados.

Múltiplas questões se poderão colocar e o seu debate e estudo virão certamente ajudar a uma cada vez maior sensibilização e afirmação dos indivíduos face ao poder do Estado, mostrando a tudo e a todos - se necessário fosse - que acima da razão de Estado encontra-se a consciência moral de cada indivíduo.

Construção de uma auto-estrada na Irlanda é um crime contra a Humanidade



Plans to build a motorway close to one of Ireland's most historic sites have been attacked by campaigners as "a crime against humanity".

The Hill of Tara and its ancient burial site in County Meath is Ireland's equivalent of the Valley of the Dead in Egypt, campaigners have said.


Environmentalists and historians have called for the proposed M3 motorway to be stopped.

The proposed route will take the motorway through the Tara-Skryne valley.

'Historical significance'

The road will be largely along the current Enniskillen to Dublin road, north-west of the capital.
Tara, known as Temair in Gaeilge, was once the ancient seat of power in Ireland - 142 kings are said to have reigned there in prehistoric and historic times.
In ancient Irish religion and mythology Temair was the sacred place of dwelling for the gods, and was the entrance to the otherworld.
Dr Muireann Ni Bhrolchain, lecturer in Celtic Studies at the National University of Ireland Maynooth, said that Tara was a monument of massive importance.
She said: "The historical significance of Tara is that it is 6,000 years old.
"It has been inhabited by the kings of Ireland, as far as we know, and by the most important inhabitants of Ireland for that period of time.
"The king of Tara would have been considered the most important king of Ireland up until the 11th or 12th century."
Archaeologists say the nine-mile stretch of motorway will mean the excavation of at least 28 sites and monuments in the road's corridor.
They expect many more sites will be affected, with 48 archaeological zones within 500 metres of the road corridor and about one site every 300 metres along the road itself.


Vincent Salafia from Save the Tara-Skryne Valley campaign has vowed to make a legal challenge against the motorway.
He said: "This is a crime against humanity

The Hill of Tara is our most important national monument. Even the name worldwide evokes the spirit and soul of Ireland.

"It is not just the motorway we are objecting to. Everything that comes with the motorway will turn this area into an industrial area."
The planning appeals board (An Bord Pleanála) took archaeological objections into account when it gave its permission for the project
The National Roads Authority said the motorway was needed because it can currently take up to two hours to travel the 25 miles between Navan and Dublin.


Environmental effect

Michael Egan from the NRA said that the road would be twice as far from the hill as the current Dublin to Navan road.
He said it would be 1.5 miles from the top of the hill to the motorway.
"The board gave its approval to proceed with the construction of the road on the basis that it concluded that the road would not have significant environmental effect and would not impact on the hill of Tara," he said.
Work on the motorway is due to start in 2005 and finish three years later.

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Petição contra o projecto de construção desta auto-estrada na Irlanda
extraído de:
http://www.petitiononline.com/hilltara/petition.html


To: Prime Minister of Ireland, Mr …


Dear Prime Minister,

I object the planned routing of the M3 motorway through the Tara-Skryne valley, and the resulting despoilment this will cause to Ireland’s oldest and most revered national monument.

The archaeological importance of this area is beyond question. After seven years surveying the Hill of Tara and its 80km² hinterland as director of the government funded Discovery Programme, Conor Newman said: “Tara is one of the most important and famous archaeological complexes in the world.… all of our researches point to the valley between Tara and Skryne as an area of paramount importance throughout the history of Tara.”
More recently, 12 eminent Irish historians and archaeologists in letters to the Irish Independent and The Examiner wrote: “The Hill of Tara constitutes the heart and Soul of Ireland. Its very name invokes the spirit and mystique of our people and is instantly recognisable worldwide. The plan approved recently by An Bord Pleanála for the M3 motorway to dissect the Tara-Skryne valley, Ireland's premier national monument, spells out a massive national and international tragedy that must be averted.”
Can anyone doubt the profound cultural importance of Tara and its unique landscape? A landscape honoured and revered by millions throughout the world today and countless generations of Irish people gone before us. Nowhere else in Ireland is there a landscape that can claim the Tuatha de Danann, Celtic Gods and Goddesses, St. Patrick, Daniel O’Connell, Thomas Moore, heroes and High Kings from Fionn MacCumhail to Brian Boru, an archaeological complex of temples, tombs, enclosures and henges spanning five millennia, and a continuous place at the centre of Irish spiritual, cultural, political and literary history, as part of it’s fabric.
Yet it is through the very heart of this landscape, that Meath County Council, the NRA and the Irish Government wish to build a motorway, which will impact at least 141 known sites. According to Dr Conor Newman, this is just “the tip of the iceberg”.
Roads, of course, are necessary to relieving the nightmare of traffic congestion. However, in the absence of any plans to improve the Navan Road/M50 roundabout, the M3 project will not relieve congestion, it will merely move it from one place to another; plugging the worst bottleneck between Navan and Dublin even tighter. Spending €680m on an ineffectual motorway that will ruin Tara forever, cannot be described as progress; rather it constitutes wanton vandalism on a grand scale.
The National Roads Authority has released an estimate of €20m to excavate the route of the M3. I believe this figure could be closer to €100m, since there are more than likely so many monuments yet to be discovered, due to a low-grade geophysical survey carried out during the EIS. I strongly object to this amount of Irish taxpayers money being used to dig up our prize national monument, and other national monuments all around the country, especially in light of the recent High Court finding that heritage protection regulations enacted by your Government are unconstitutional.
And so I am moved to ask you three questions:
1). The M3 plans include the construction of a 34 acre floodlit intersection (Blundelstown) a mere 1,090 meters from the Hill of Tara’s core zone (as defined by OPW); what has, or will, your Office do to preserve the national monument of Tara from this permanent defacement?
2). Why are the people of Ireland being asked to pay €1.3 billion (via toll charges and taxes) for a project estimated at €64, but which cannot demonstrably relieve congestion, will lead to more violations of the Kyoto agreement, and will damage our national heritage irretrievably?
3). What will your Office do to urge re-consideration of the currently approved route for the M3, and/or to engage in a process of generating alternative effective solutions to the very real problem of traffic congestion in the area, such as reopening the Dublin to Navan railroad?

I look forward to your reply, and in the meantime urge you, in your capacity as Taoiseach to oppose the imminent despoilment of Tara by the M3 motorway, and to do all you can in working for the reversal of this disastrous decision.

Sincerely,

Saneamento político na Yale University


David Graeber, antropólogo anarquista e professor universitário na prestigiada Yale University foi alvo de um saneamento político. As explicações oficiais dadas para tal afastamento referem-se ao facto de Graeber ter defendido os estudantes. Todavia, tais razões não convencem ninguém…


Ironically enough, as if he was testing his own hypothesis, internationally respected anarchist anthropol, David Graeber, was fired from Yale University a few days ago. Of course, that wasn't the official explanation. The official one reads that "his contract wasn't renewed" because of his lack of "collegiality". If you would allow me to translate this: the "lack of collegiality" that David had showed was when he was trying to defend his graduate students who were graduate union organizers.
from:
Support Graeber
by Andrej Grubacic
Znet

Os Provos e a contra-cultura



A revolta Provo foi o primeiro episódio em que os jovens, como grupo social independente, tentaram influenciar o território da política. Fizeram-no de modo absolutamente original, sem propor ideologias, mas um novo e generoso estilo de vida anti-autoritário e ecológico. Ao contrário da atitude beat de afastamento para fora da sociedade, os Provos holandeses ( o movimento nasce e desenvolve-se em Amesterdão) empenharam-se descaradamente em permanecerem dentro da sociedade, para provocarem nela um curto-circuito.

Para os mais distraídos, aqueles para os quais a palavra Provo nada significa, é bom lembrar que a contra-cultura teve o seu local de eleição, não na Califórnia, mas na Amesterdão do início dos anos sessenta, por intermédio dos Provos, que tiveram apenas na imaginação a sua única arma.
Com efeito, e diferentemente do slogan de Maio de 68 que queria levar a imaginação ao poder, os Provos utilizaram a imaginação contra o poder.

Jogo, magia e anarquia foram centrais nas acções dos provos (abreviação de provocador): um grupo de divertidos agitadores que se reuniam para celebrar ritos colectivos contra o fetiche da sociedade consumista. Foi ali que surgiram as primeiras campanhas antipublicidade e antiautomóvel. Ali surgiu aquilo que passamos a chamar de contracultura e se desenvolveu a ideia que a subversão resultava melhor se estivesse misturada com o humor e a irrisão.
Os Provos fizeram de Amesterdão a Meca dos jovens dos anos 60 e 70. O exemplo dos Provos inspirou os diversos movimentos de contestação jovem dos anos 60, inclusive os hippies norte-americanos e os estudantes do Maio de francês de 68.

A «provolução» talvez tenha sido o primeiro exemplo de uma rebelião sem nenhuma causa aparente. A Holanda no início dos anos de 1960 podia considerar-se uma ilha de bem-estar e tranquilidade. Isto é, «não existia nenhum motivo comcreto para protestar contra a ordem constituída», segundo as palavras de um historiador do movimento Provo. Decerto que não existia nenhum motivo, a não ser, naturalmente, a …própria existência da ordem constituída.

Reproduz-se o manifesto programático do jornal dos Provos, lançado em 1965:

PROVO é uma folha mensal para anarquistas, provos, beatnicks, noctâmbulos, amoladores, malandros, simples simoníacos estilistas, magos, pacifistas, comedores de batatinhas fritas, charlatães, filósofos, portadores de germes, moços de estribarias reais, exibicionistas, vegetarianos, assistentes do assistente, gente que se coça e sifilíticos, polícia secreta e toda a ralé deste tipo.
PROVO é alguma coisa contra o capitalismo, o comunismo, o fascismo, a burocracia, o militarismo, o profissionalismo, o dogmatismo e o autoritarismo.
PROVO deve escolher entre uma resistência desesperada e uma extinção submissa.
PROVO incita à resistência onde quer que seja possível
PROVO tem consciência de que no final perderá, mas não pode deixar escapar a ocasião de cumprir ao menos pela quinquagésima e sincera tentativa de provocar a sociedade.
PROVO considera a anarquia como uma fonte de inspiração para a resistência
PROVO quer devolver vida à anarquia e dá-la a conhecer aos jovens
PROVO É UMA IMAGEM


E, mais tarde, quando se dissolveram, na sua declaração podia ler-se:

«Não podemos convencer as massas, e nem é isso que nos interessa. O que poderemos, realmente, esperar desse bando de apáticos…? É mais fácil o sol surgir no Oeste do que eclodir uma revolução nos Países Baixos.
Somos Provo…, mas, então, porquê? Não é certamente para nos entediarmos. Nem fazemos provocações por falta de paz. Porquê, então? Porque este mundo está cheio e atolado de exércitos, Estados, polícias, espiões, cavalos de batalha, muros de vergonha, bases de mísseis, rampas de lançamento, quartéis, mortos de fome, histeria religiosa, burocracia e campos de extermínio…Nós não somos tão ingénuos a ponto de acreditar que possamos transformar este mundo, num piscar de olhos, num lugar ideal(…) Posto isto sempre diremos: nunca transfiram para outros o vosso poder.»


( excertos de «Provos, Amsterdãoe o nascimento da Contra-Cultura» de Matteo Guarnaccia, segundo a tradução brasileira do colectivo Baderna, editado pela editora Conrad)

12.5.05

A super dívida dos Estados Unidos



Os Estados Unidos tornaram-se no maior devedor de sempre na história. As importações americanas ultrapassaram no ano passado as exportações com um montante record de 666 mil milhões de dólares, alargando a dívida externa americana para mais de 3.000 biliões de dólares. Pela primeira vez na história o país mais poderoso é também o maior devedor mundial. E os números de 2005 só mostram que a situação vai piorar.
Este rápido crescimento da dívida americana provoca um claro mal estar em todo o mundo. Pelo simples motivo que ela poderá levar a uma súbita e vertiginosa queda do dólar, ao disparar das taxas de juro, e à desestabilização dos mercados financeiros, originando mesmo um grave recessão mundial. Mas o que faz a Administração Bush? Nada. Quando se lhes pergunta porque nada fazem, a resposta invariável é que não há motivo para tal com base em 3 argumentos.
Em 1º lugar porque os défices externos devem ser interpretados como um sinal de força e não de fraqueza da economia americana. Para John Taylor, número dois do tesouro, o Ministério das Finanças americano, «os estrangeiros querem investir nos EUA. É isso que revelam os nossos défices». Isso é verdade. Durante o boom da bolsa dos anos Clinton, os investidores procuravam os Estados Unidos em busca do lucro fácil. Mas agora já não é o caso. A maior parte dos défices americanos é financiada pelos bancos centrais, em especial, os asiáticos.
Seguindo este raciocínio, as autoridades financeiras apresentam um segundo argumento. O Japão, a China e os países do Sudeste asiático financiam os nossos défices porque, para apoiar o crescimento nas suas economias, eles exportam para o mercado mais rico do mundo, o norte-americano. Não fazem pois qualquer favor. Agem simplesmente em função dos seus interesses. As estatísticas sugerem, porém, que há um limite para tanta boa vontade dos asiáticos. É que os dólares acumulam-se em grande velocidade nos bancos centrais desses países – cerca de 850 mil milhões de dólares no Japão, mais de 600 mil milhões na China, 250 mil milhões em Taiwan, 200 mil milhões na Coreia do Sul…Ou seja, os países asiáticos estão desejosos de manter as suas exportações para os Estados Unidos, mas o seu apetite por dólares não é infinito.
Apresenta-se então um 3º argumento. Os bancos centrais asiáticos financiam os défices norte-americanos, não porque o querem, mas porque o devem fazer. É que se não quisessem mais dólares, a moeda americana sofreria uma fortíssima depreciação que se traduziria em perdas maciças para as suas reservas e provocaria uma baixa de competitividade das suas exportações. Será que estão prontos a causar tanto dano a si próprios? A administração Bush confia que não.
Na verdade, os países asiáticos no seu conjunto não tem grande interesse no desencadear de um tal processo. Mas de forma pontual e individualizada, cada qual pode estar inclinado a vender os seus dólares o mais rapidamente possível empurrando as perdas para os outros…Até quando poderemos pois esperar a complacência deles? É que uma descida d dólar pode dar-se a qualquer momento. E Bush continua a nada fazer.



(tradução de um artigo de Benjamin J. Cohen, professor de economia política internacional na Universidade da Califórnia, Santa Barbara, e publicado na Revista «Alternatives Economiques» nº 236, Avril 2005)

11.5.05

Foucault: o filósofo que escrevia caixas inteiras de ferramentas


As ideias de Michel Foucault nunca repousam sobre a superfície das coisas. Elas são, para alguns, as proteínas da filosofia contemporânea. A lucidez das análises e a capacidade para operacionalizar e reinventar o seu pensamento, com o propósito de colocar o seu discurso num nível mais profundo, continua a cativar milhares de pessoas que procuram na sua obra as ferramentas para tornar mais compreensível a nossa realidade.

Em 1975 numa entrevista Foucault dizia: " Todos os meus livros são pequenas caixas de ferramentas. Se alguém quiser abri-las, usar uma frase ou uma analise como um detonador ou então uma pinça para provocar um curto-circuito, desqualificar e romper com sistemas de poder, inclusivamente aqueles de onde saem os meus livros, tanto melhor."

Era também conhecido por ser o filósofo que queria fechar as escolas e abrir as portas das prisões.

O principal contributo de Foucault foi dar consistência teórica a um pensamento que precisava do caos. Sem se considerar anarquista, Foucault é o filósofo da anarquia, isto é, da vida.

O seu grande esforço foi pensar a política sem centrá-la no Estado. A política, para ele, trata da vida, do governo da vida.

the irrisistable rise of global anticapitalism




Saiu há já alguns meses atrás um pequeno livro que constitui um valioso inventário das lutas anticapitalistas dos últimos anos. Tem o significativo título - «the irrisistable rise of global anticapitalism» - e foi realizado e editado pelo colectivo « We are everywhere» . É um livro
que se recomenda vivamente, pois não duvidamos que constituirá uma fonte da história contemporânea, em particular da luta anticapitalista.

Consultar:
http://www.weareeverywhere.org/
Os editores deste colectivo:
Katharine Ainger, a writer, activist and co-editor of the New Internationalist magazine. She believes that releasing all the untold stories in the world might transform it. Half British and half Indian, she grew up between Asia and Europe, and over the years has periodically returned to work with and learn from Asian social movements. She has written for all sorts of outlets from serious broadsheets, to disreputable radical publications. She currently lives on an island in the middle of the Thames.
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Graeme Chesters, a writer and educator based at Edge Hill College in the northwest of England. He is a co-founder of the Shifting Ground co-operative and is involved in a number of activist and academic networks, some of which curiously and sometimes fruitfully overlap. Presently researching and writing on issues as diverse as global complexity, civil society, and participatory democracy, his biggest challenge is figuring out how to juggle parenthood with paid employment and still remain on the streets. He continues to derive inspiration from the everyday acts of solidarity and defiance that sometimes go unnoticed amidst the more spectacular moments of contention, although he enjoys participating in either. He lives on the edge of the Lake District with Gwyneth and their two children Dylan and Joel.
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Tony Credland, a London-based activist and designer involved with Reclaim the Streets, Indymedia, and the Cactus Network. John Jordan, who spends his time trying to find a space where the imagination of art and the social engagement of politics can be brought together. For 10 years he was a co-director of Platform, an art and social science group, and also worked on a social art project about men and pornography. Since 1994 he has worked in the direct action movements, principally with Reclaim the Streets (1995-2001). He has written and lectured extensively about the anticapitalist movement and was a senior lecturer in fine art at Sheffield Hallam University (1994-2003). He lives in London and mixes his time between trying to creatively overthrow capitalism and looking after his son Jack. He has recently fallen in love with the popular rebellion in Argentina and is involved in numerous projects to spread news and inspiration of the events unfolding there.

Andrew Stern, an activist and documentary photographer who has been involved in the anticapitalist movement in various capacities since a friend dragged him off to his first anarchist gathering some years ago. He can be found working on various photography projects in different parts of the world, including helping to organize a caravan of Indymedia activists to travel throughout South America soon after the economic collapse and popular uprising in Argentina. He is equally comfortable on the front lines of actions with camera in hand or not, and many times will leave his camera at home to play with creative forms of direct action in the streets. Like other members of the collective, the fusion of art and politics is a primary goal in anything he does, along with collecting and sharing stories that are not normally told. His work has been shown in galleries throughout the world and can be found on various Indymedia web sites as well as in the many different publications he works with.
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Jennifer Whitney, who is currently engaged in several balancing acts - reconciling her desire to bring thousands of people together in the streets for inspiring mass actions with her commitment to longer-term struggles of the local and everyday variety; merging her creativity and imagination through writing, dance, and music with her more technical and less sexy skills; and fulfilling her passion for travel , languages, cross-cultural skill-sharing and adventure, as well as her love of gardening, community-building, and other things requiring deep roots. She is a health care worker, and organizes clinics and street medic teams for direct actions. When she's at home in the Pacific Northwest, she can be found working with the Black Cross Health Collective in Portland, or drumming with the Infernal Noise Brigade. She derives much inspiration from Latin America, where rebellion has penetrated many corners of society and erupts into the streets with increasing frequency, and she hopes to continue disseminating those stories of people shaping history.
CONTACT To contact the editorial collective e-mail: info@weareeverywhere.org

10.5.05

Detectados os primeiros sinais de desaceleração da corrente do Golfo




Detectados os primeiros sinais de desaceleração da corrente do Golfo, o que poderia ter como consequência uma forte queda das temperaturas médias nas ilhas britânicas e no noroeste europeu.

Reproduz-se a notícia com data de 9/5/05:

Londres - Los expertos han detectado los primeros signos de una desaceleración de la corriente del Golfo que podría tener como consecuencia una fuerte caída de las temperaturas medias de las Islas Británicas y el noroeste de Europa. Uno de los "motores" que impulsan esa poderosa corriente, el descenso hasta el fondo marino de columnas de agua gélida en el mar de Groenlandia, se ha debilitado hasta el punto de que tiene actualmente menos de un cuarto de su fuerza anterior.
Este debilitamiento, debido al parecer al calentamiento del planeta, podría originar a lo largo de los próximos años fuertes cambios en esa importante corriente y paradójicamente enfriar las temperaturas en buena parte de Europa. Peter Wadhams, profesor de física de los océanos en la universidad de Cambridge (Inglaterra), utilizó submarinos de la Marina Real británica para hacer mediciones bajo la capa de hielo ártico en el mar de Groenlandia.
"Hasta fecha reciente, era normal encontrar una especie de chimeneas gigantes por las que columnas gigantes de agua densa y muy fría descendían hasta el fondo marino a una profundidad de tres mil metros", explica el científico, citado por el dominical "The Sunday Times". "Conforme esas masas de agua gélida bajaban al fondo, eran reemplazadas por otras de agua más caliente procedentes del sur, lo que provocaba una circulación continua. Si ese mecanismo se desacelera, llegará menos calor a Europa", agrega.
Ese cambio, predicho por los científicos, pero sólo ahora demostrado experimentalmente, podría tener un fuerte impacto sobre Gran Bretaña, que está a la misma latitud que Siberia y cuyo clima sería mucho más frío sin el efecto atenuante de la corriente del Golfo. Esta transporta 27.000 veces más calor a las costas británicas del que pueden generar todas las fuentes de energía del Reino Unido y eleva las temperaturas medias en entre cinco y ocho grados centígrados.
Waldham y sus colegas predicen que el debilitamiento de la corriente del Golfo puede acarrear otros fenómenos catastróficos como la fusión completa en verano de la capa de hielo ártico de aquí al año 2020 y como muy tarde con seguridad antes del 2080. Ello sería desastroso para la fauna silvestre, y muchas especies como el oso polar se expondrían a la extinción. Viajando en submarino y con ayuda del sonar, el experto británico ha descubierto que la capa de hielo polar ha perdido un 46 por ciento de su espesor en los últimos veinte años.
Waldham se fijó sobre todo en una capa de hielo, bautizada con el nombre de Odden, que solía formarse en el mar de Greoenlandia cada invierno para perder espesor en verano. El crecimiento de esa capa hace que se formen año tras año las columnas de agua gélida: cuando se congela el agua de la superficie, el cristal de hielo expulsa la sal al agua circundante.
Esta se vuelve más pesada que las capas inferiores, lo que provoca un movimiento descendente. Sin embargo, la capa de Odden ha ido desapareciendo: la última vez que se presentó en su plenitud fue en 1997. "En el pasado veíamos cada año entre nueve y diez columnas gigantescas bajo la capa de Odden, pero en nuestra última travesía sólo descubrimos dos y eran tan débiles que el agua descendente no conseguía llegar al fondo marino", explica el científico, que presentó recientemente sus descubrimientos en Viena

http://noticias24horas.buenosdiasplaneta.org/

«Uma criança que morra de fome, é uma criança assassinada» (Jean Ziegler)


Cada sete segundos morre de fome uma criança menor de 10 anos. Para Jean Ziegler, o conhecido autor suíço e especialista da FAO para questões da fome mundial , quando uma criança morre de fome, significa que é assassinada.
No ano passado o número de pessoas que passam fome no mundo aumentou para 840 milhões de seres humanos, não obstante o aumento da produção agrícola mundial registado.
Aquele autor assegura ainda que o planeta poderia alimentar suficientemente, isto é, com um mínimo de 2.700 calorias, cerca de 12.000 milhões de pessoas, muito mais dos actuais 6.200 milhões seres humanos.Paradoxalmente, são as populações rurais, que produzem os alimentos, aquelas que são as mais afectadas com a fome

Marcha dos sem-terra em direcção a Brasília





Marcha Nacional pela Reforma Agráriade Goiânia a Brasília (de 1 a 17 de maio de 2005)
organizado pelo Movimento dos trabalhadores rurais sem terra ( Brasil)


Uma caminhada pela Reforma Agrária

Ao longo da história do Brasil sempre houve lutas pela terra e pela Reforma Agrária. Na actual realidade brasileira, que revela um alto grau de concentração de renda e de terra, onde o latifúndio continua ceifando vidas sem necessidade, a Reforma Agrária não é apenas necessária, mas um imperativo ético.

É uma das formas mais baratas e rápidas de gerar empregos e de produzir alimentos mais baratos para a população, impedindo que grande número de famílias sejam obrigadas a acampar às margens das rodovias. Com a Reforma Agrária e o fim da impunidade, acreditamos ser possível reduzir drasticamente a violência no campo e o número de mortes causados pela ganância do latifúndio.

Diante dessa situação, o MST, os Movimentos da Via Campesina e outras forças sociais, realizarão uma Mobilização Nacional, a partir de maio de 2005. Uma caminhada para dialogar com a sociedade sobre a necessidade da Reforma Agrária no desenvolvimento do país, para chamar atenção da sociedade e do governo de que a Reforma Agrária ainda é o caminho mais rápido, menos custoso e mais justo para garantir trabalho, alimento, renda, escola para os filhos e futuro digno para milhões de brasileiros e brasileiras que vivem na pobreza no meio rural. É também a forma mais barata de evitar que o êxodo rural seja engrossado, aumentando ainda mais os problemas sociais nas cidades.

Para realizarmos a Mobilização, que custará o sacrifício de milhares de homens, mulheres e crianças, precisamos de sua solidariedade.
Contribua com o que puder e como puder. Algumas entidades amigas abriram uma conta especial para essa astividade e se comprometem a publicar o balanço de todos os recursos que forem arrecadados pela internet e por outros meios.

A conta está em nome de Associação Grito dos Excluídos Continental/Marcha.
Deposite qualquer valor, no Banco Itaú - Agência 0644 - Conta 54.328-2 - São Paulo - SP .
Pode enviar sua mensagem para o correio electrônico:
gritoexcluidos@uol.com.br
Se precisar de algum recibo formal para seu controle ou entidade poderemos enviar pelo correio.

Rebel Girl ( extracto da canção de Joe Hill)

That’s the Rebel Hill, that’s the Rebel Girl
To the working class she’s a precious pearl
She brings courage, pride and joy
To the fighting Rebel Boy
We’ve had girls before, but we need some more
In the Industrial Workers of the world
For it’s great to fight for freedom
With a Rebel Girl

9.5.05

Videovigilância nos autocarros



Cada autocarro dos serviços públicos de transporte dos STCP têm 3 câmaras de vídeo. O interior começa a ser filmado logo que o motor é ligado e só se desliga 10 minutos depois do autocarro ser desligado.. Em caso de incidente o motorista acciona um alarme, com ligação directa ao Centro de Controle,instalado no 10º andar da torre das Antas onde está a sede da empresa. As gravações são guardadas 30 dias. Caso não se justifique, as cassettes são apagadas. As imagens podem, entretanto, ser recolhidas pela polícia que as poderá usar como meio de prova.
Esclarecimento suplementar: a entrada de funcionamento deste sistema careceu de autorização prévia da Comissão Nacional de protecção dos dados.

Fonte: JN de 9/5/2005

Portugal produz 29 milhões de toneladas anuais de resíduos industriais

Portugal produz 29 milhões de toneladas anuais de resíduos industriais, dos quais 254 mil são resíduos perigosos.
Segundo a Estratégia Nacional de desenvolvimento sustentável aprovada pelas entidades governamentais, até 2010 Portugal deverá gerar menos 12,1% do peso de resíduos industriais e menos 20,7% de resíduos industriais perigosos.
Será suficiente, pergunta-se?

Morte de cão tem um bónus de 2% na nota do exame no Reino Unido



Os candidatos ao diploma dos colégios ingleses, ou nível A, correspondente ao final do ensino secundário, terão direito a 2% de bónus se lhes tiver morrido o cão, gato ou peixe no dia da prova. Se tiver sido no dia anterior, ganham 1%.
As novas regras estabelecidas pelo Conselho de Exames prevêm ainda que uma alergia vale 2%,uma enxaqueca 1%, uma crise de asma, ter partido uma perna ou sido testemunha de uma drama valerá 3%. Já a morte de um familiar merecerá um 4% de bónus na nota do exame.
Espantoso, não é?

Mais uma denúncia contra a futura A24 em construção



A construção da A24 que ligará Vila Real a Chaves foi objecto de nova denúncia, desta vez por motivo do seu traçado ir afectar áreas integradas no Sítio da Rede Natura 2000 entre Alvão-Marão.

Estão a destruir o Cabedelo ( Gaia) para construir molhe$$




Segundo notícias vindas a público a construção de molhes na zona do Cabedelo, em Vila Nova de Gaia, na foz do rio Douro, e defronte da Cidade do Porto, está a causar danos irreversíveis nesta zona, que é um parque natural que devia ser salvaguardado face aos apetites imobiliários da construção civil.

Caretos



Realizou-se em Podence, Macedo de Cavaleiros, neste fim de semana o I Encontro dos Caretos, uma manifestação tradicional de cultura popular. Estiveram presente 5 grupos de caretos: os de Podence e Lagoa ( do concelho de Macedo de Cvaleiros), Ousilhão ( de Vinhais) e os de Salsas e Varge ( concelho de Bragança).
Recorde-se que em Podence existe já a Casa do Careto que visa preservar a história desta tradição popular que consiste num ritualde formação de mascarados por altura das Festas dos Rapazes em Trás-os Montes

8.5.05

Mondovino (filme de Jonathan Nossiter)


Mondovino é um filme-documentário de Jonathan Nossiter que tem granjeado muitas opiniões favoráveis um pouco por todo o lado, tendo já recebido alguns prémios em certames internacionais.
Refere-se ao impacte da globalização capitalista sobre o mundo vinícola e denuncia a artificialização dos vinhos, que os transforma numa espécie de fast-food, em prejuízo da produção local e dos pequenos produtores.
Encontra-se actualmente em cartaz em várias salas de cinema.

A Alemanha quer ver-se livre das bombas atómicas dos Estados Unidos



Segundo o JN o governo alemão anunciou que vai abordar com a NATO a questão da retirada das armas nucleares norte-americanas que estão estacionadas na Alemanha.
Ramstein, na Renânia Palatinato, é o local onde se supõem estarem estacionadas 130 bombas atómicas em bunkers subterrâneos. As restantes 20 estarão numa base aérea da Bundeswehr ( forças armadas alemãs) no mesmo Land.
As Organizações Não-Governamentais «Médicos Internacionais Contra a Guerra Atómica» e a « Natural Resources Defence Counsil»(NRDC) não têm dúvidas ao afirmarem que só no território alemão encontram-se estacionadas 150 bombas atómicas com um potencial destruidor seis vezes superior ao da bomba de Hiroshima.
A NRDC escreve no seu relatório que ainda há na Europa 480 bombas atómicas norte-americanas: 20 na Holanda, 20 na Bélgica, 110 na Grã-Bretanha, 90 na Itália e 20 na Turquia.

Fonte: JN

Musicoterapia



Ries Broos, holandês de 66 anos, radicado desde 2001 no Algarve, na Serra de Monchique é terapeuta de som. Considera que o canto gregoriano é «uma medicina para a alama, calma a mente e eleva o espírito». Na sua formação incluem-se estudos realizados com professores xamânicos da Europa e Estados Unidos, em 1987, e o aprofundamento de estudos em medicina tradicional chinesa.
Além da voz, utiliza sinos tibetanos, paus de chuva, flauta transversal, xilofones, tambores indianos e africanos que transformam cada sessão numa experiência terapêutica e espiritual. Utiliza também os vasos tibetanos na terapia de sons.
Ries afirma que o nosso corpo é constituído essencialmente por água e é com imensa facilidade que as ondas de som se propagam. Uma massagem de sons ajuda a curar doenças e a reestruturar áreas magoadas.

Fonte: JN

População de Vila Verde da Raia contra as Obras do IP3



Os trabalhos de construção da futura auto-estrada IP3 que estão a decorrer entre Vila Real e a fronteira com Espanha, em Vila Verde da Raia, estão a destruir as paisagens naturais e o património natural a favor do todo poderoso automóvel.
Não bastando com tais prejuízos, as obras estão a prejudicar gravemente as populações rurais. A população de Vila Verde de Raia manifestaram-se contra o desenho e a construção de um gigantesco viaduto que lhes corta os acessos aos seus terrenos agrícolas.

Fonte: JN

Duque de Ávila, censor de Eça e Antero, tinha medo da I Internacional



António José de Ávila, conde e marquês de Ávila, e por fim, duque de Ávila e Bolama (1807-1881) ficou conhecido na história por ter proibido as Conferências Democráticas do Casino, durante as quais a Geração de 70 (Antero de Quental ,Eça de Queiroz, e outros) queriam discutir Portugal e o mundo.
Várias vezes ministro e primeiro-ministro, Ávila era um homem de direitta, um oportunista pragmático que estava assustado com as movimentações em Portugal da I Internacional de Marx e Bakunine.
Saiu agora um livro sobre esse personagem, pela mão do historiador José Miguel Sardica, «Duque de Ávila e Bolama, biografia» nas edições Dom Quixote.


A general-chefe da prisão de Abu Ghraib condenada por roubo num supermercado militar

Janis Karpinski, a mulher general do exército norte-americano, responsável pelas prisões no Iraque, e máxima autoridade na prisão de Abu Ghraib onde foram cometidas torturas sobre presos iraquianos, foi despromovida e na sua folha militar encontra-se registada um roubo de cosméticos que teria cometido num supermercado militar quando era ainda Coronel.

Fonte: El País

7.5.05

A profanação do sagrado como arte de viver



Giorgio Agamben acabou de publicar um novo livro, Profanazioni, que já se encontra traduzido para inglês e francês.
Reproduz-se alguns excertos de um breve texto publicado no Liberation de 16 de Abril de autoria de Jean-Baptiste Marongiu:


Acerca do terrível poder desumanizante do sagrado, Agamben escreveu uma trilogia - Homo Sacer –, mas é toda a sua filosofia que parece visar a profanação do sagrado.

Sacer, sagrado, significa em latim aquilo que está separado, reservado, subtraído ao uso comum, por oposição, profano é alguém que tenha saído dessa reserva, e regressado à comunidade humana. Não se trata apenas de uma operação mental, é ainda necessário um gesto. Profanar significa tocar no sagrado para o libertar. Libertações desejáveis e necessárias nestes tempos de sacralização de tudo e mais alguma coisa, Agamben não elabora propriamente um catálogo, mas aponta antes alguns exemplos.

O volume recolhe alguns textos posteriores e outros que precederam a redacção dos seus últimos livros. O trabalho filosófico realiza-se na sua intimidade na medida em que nos apercebemos de suturas e desligações conceptuais, o que permite ao autor expor o seu método, procedendo sempre por uma abordagem simultaneamente estética e política da vida e do pensamento, reunificados por um estilo em que a ética e a escrita se alimentam uma à outra.

O que é mais sagrado que o «eu» de Descartes? Ora nestas Profanações Aganbem lança-se justamente sobre este sujeito individual que se quer soberano, que passa grande parte do tempo a compor em si algo bem mais forte: o impessoal, o obscuro, o pré-individual.

O último Foucault já tinha previsto que simultaneamente se pode re-ligar o cuidado de si e a exigência de nos separarmos.

Foucault serve de resto como pano de fundo de toda a pesquisa sobre biopolítica, que ele iniciou e que Agamben retoma e desenvolve. Mas nos textos está também presente Elsa Morante ( de quem o filósofo esteve próximo durante a sua juventude, vivida em Roma, por ser esta a cidade onde nasceu em 1942) e da sua concepção da literatura como paródia de vida. Força de dessacralização, logo de profanação, a paródia está na obra quanto menos se espera…

(…) a consagração do fetiche da mercadoria interdita todo o uso que não esteja já nela
incorporado, o que a torna «improfanável».
Por isso mesmo é que «a profanação do improfanável» é a tarefa política da geração que vem…

Habitantes de Diego Garcia, expulsos pelos americanos, regressam à sua terra para a… visitar!!!



Os antigos habitantes do atol Diego Garcia, situado no Oceano Índico a 2.150 km das Ilhas Maurícias, que foram expulsos nos anos 60 da ilha pelos norte-americanos a fim de ser ali construída uma enorme base militar do Exército dos Estados Unidos ( uma das maiores do mundo, e que desde então é tutelada pelos USA e pela Grã-Bretanha) foram autorizados a regressar à sua ilha natal no próximo Outono, mas apenas para a … visitar!

Lisette Talate ne sait plus vraiment son âge. Plus de 60 ans, à en juger par ce visage émacié, cette silhouette fragile sous une petite robe élimée. Elle se souvient bien, en revanche, de cette année 1971 qui a fait basculer sa vie. Lisette habitait alors à Diego Garcia avec ses cinq enfants. "Un jour, un homme est venu nous annoncer que Diego avait été vendu, et qu'il fallait partir" , souffle-t-elle en créole, les yeux à la dérive.
Trente-quatre ans plus tard, Lisette Talate et 99 autres Chagossiens se préparent enfin à revoir pour la première fois l'archipel dont ils ont été chassés entre 1967 et 1973. Après plusieurs faux départs et quelques promesses oubliées, les autorités britanniques ont finalement décidé, le 4 mai à Port Louis, qu'un bateau les y conduira le 25 octobre.
Lisette se dit heureuse à l'idée de se recueillir, après tant d'années, sur la tombe de son frère, mais elle ajoute : "J'aurai aussi du chagrin, parce que nous devrons ensuite rentrer à Maurice." Les Etats-Unis et la Grande-Bretagne, qui contrôlent les Chagos, refusent en effet que les anciens habitants retournent y vivre. Il faut dire que Diego Garcia abrite l'une de leurs plus grandes bases militaires.



Fonte: Le Monde de 5/5/2005

Refugiados climáticos


Os 600 habitantes da aldeia de Shishmaref, no Alaska, estão condenados a abandonarem a sua terra e exilarem-se. Na realidade, por força das tempestades cada vez maiores e mais violentas que aquela povoação litoral do Alaska tem sofrido nos últimos anos, os seus habitantes vêem-se na contingência de abandonarem a aldeia e as suas casas, procurando um local mais seguro face às investidas do mar e das intempéries.

Fonte: Geo

Por um feminismo subversivo



Feminismos há muitos. Para todos os gostos … Até há feministas que tiram fama e proveito para seduzir e irema para a cama!!!
Mas Judith Butler, uma autora norte-americana, professora na Universidade da Califórnia, Berkeley, escreveu em 1990 um livro, «Gender Trouble» que desmontava as posturas das teorias feministas, em especial a noção de género que o feminismo utilizara. A obra de Butler está na origem do que se costuma designar por Queer Theory, e segundo a qual a identidade sexual não é fixa e estática, mas flutuante. «Homem» e «mulher» não seriam senão representações socialmente construídas, que urge desconstruir e desestabilizar. Um dos exemplos fornecidos é o da Maria-rapaz ( tomboysm) que revela a masculinidade feminina. Daí que se defenda a produção de novas taxonomias sexuais que subverta os modelos dominantes de género.
E o seu objectivo é "(...) not by subverting masculine power or taking up a position against masculine power but by turning a blind eye to conventional masculinities and refusing to engage.".
Ou seja: a masculinidade não é propriedade exclusiva do macho; há uma masculinidade feminina.

A tese de Judith Butler é que "o género é uma cópia sem original" e que as sexualidades e géneros dominantes estão ferreamente delimitados, colocando-se numa dependência simbólica do que lhes é diferente.
Butler recorre ao processualismo para abordar as sexualidades e duvida quer dos essencialismos de género quer da noção de «passagem» de um sexo para outro.
Para ela são inúmeros os lugares identitários que emergem das relações entre a sexualidade, o género e o corpo.

Guerrilheiros antifranquistas em Trás-os-Montes ( novo livro de Bento da Cruz)



Vai ser lançado um novo livro de Bento da Cruz com o título «Guerrilheiros antifranquistas em Trás-os Montes», com edição da Âncora editores.

O livro trata da guerrilha antifranquista que se organizou nalgumas regiões do Estado espanhol logo após o fim da Guerra Civil espanhola (1936-39), em particular, a que se desenvolveu nas regiões transfronteiriças com Portugal, na zona raiana de Chaves e Montalegre.
Expondo um vasto repositório de elementos e dados, e recolhendo textos dispersos sobre a matéria que se publicou por várias revistas e jornais, Bento da Cruz realiza um notável trabalho para dar a conhecer mais uma faceta da luta antifascista dos combatentes antifranquistas.
Recorde-se que a actividade dos guerrilheiros antifranquistas se prolongou durante décadas, quase até à década de 1960.
O livro encontra-se à venda nas boas livrarias Abster-se de o procurar nos supermercados e megalivrarias.

Pequeno manifesto dos comunistas sem classe e sem partido (por Elsa Morante)




A conhecida escritora italiana Elsa Morante escreveu em 1970 um breve manifesto contra o monstro que percorria o mundo: a falsa revolução. Assumindo-se radicalmente contra toda a tentação do poder, e animada por uma visceral desconfiança face a todos os totalitarismos, Elsa Morante opõe o seu Tao ao que ela chamava por Mao.
Interpela e contesta a divisa muito conhecida segundo a qual os fins justificam os meios ( que, não por acaso, foi utilizado por Mussolini)e que é o símbolo da falsidade da revolução. Para ela a verdade está na sua inversão: são os meios que mostram e abrem caminho aos fins.
O pequeno manifesto só foi publicado em 1988, três anos após a sua morte, ainda que tenha sido escrito em 1970. Nela a escritora confronta-se com os mais conhecidos lugares-comuns da revolução propugnada pelos comunistas.


Casada com Aberto Morávia, Elsa manteve-se na clandestinidade com o marido, contra a ocupação nazi da Itália nos anos de 1943 e seguintes, durante os anos da II Grande Guerra Mundial. Acabou por se separar em 1962, tendo escrito algumas obras importantes ( La Storia, de 1974), algumas delas destinadas aos leitores jovens. Morre em 25 de Novembro de 1985
Trata-se de um pequeno volume que se recomenda. Infelizmente não se encontra traduzido para português.

Annan quer que USA e Rússia acelerem desarmamento nuclear

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, afirmou nesta segunda-feira que Estados não-nucleares – como o Irão – devem resistir à tentação nuclear, enquanto os Estados Unidos e a Rússia devem reduzir os seus arsenais.

A declaração foi feita no discurso de abertura de uma reunião com representantes de mais de 180 países em Nova York para rever o Tratado de Não-Proliferação (TNP) Nuclear – um pacto firmado há 35 anos e que hoje se encontra "num dilema", segundo o chefe da agência nuclear da ONU, Mohamed el-Baradei.
Durante o encontro, vários países devem pedir mais esforços daqueles que já possuem armas nucleares para que se livrem delas, enquanto Washington e os seus aliados devem procurar falar tão-só nos casos da Coréia do Norte e do Irão.

O secretário-geral da ONU propôs que os Estados Unidos e a Rússia "se comprometam – irreversivelmente – em fazer mais cortes nos seus arsenais, de maneira que eles sejam limitados a centenas e não a milhares".
De acordo com o Tratado de Moscovo, assinado em 2002, Washington e Moscou devem destruir entre 1.700 e 2.200 ogivas até 2012.


Durante a manhã cerca de cem manifestantes pacifistas japoneses fizeram um protesto em frente à sede da ONU. Eles integram a maior delegação nacional de representantes da sociedade civil presentes à reunião sobre o TNP.
"Viemos directos do Japão para falar ao mundo dos horrores da bomba H", disse o engenheiro Terumi Tanaka, um sobrevivente de Nagasaki e secretário-geral da ONG Confederação Japonesa das Vítimas da Bomba Atómica.
Além de representantes diplomáticos, a agenda da reunião inclui também discursos de sobreviventes como Tanaka das bombas atómicas lançadas pelos Estados Unidos em 1945 em Hisroshima e Nagasaki.
"A nossa mensagem é muito simples: nunca mais Hiroshima e Nagasaki. O mundo precisa de nos ouvir antes que seja tarde", concluiu Tanaka


Fonte: BBC

Bertrand Russel

As influencias anarquistas do pensamento de Bertrand Russel

Bertrand Russel foi um dos maiores filósofos e matemáticos do século XX, desenvolvendo uma obra e um activismo ímpar ao longo do século em que viveu.

Bertrand Russel simpatizou ao longo de toda a sua vida com o anarquismo, muito embora tenha abraçado a ideia de um Estado Mundial para acabar com as guerras entre as nações. Com a idade de 23 anos, o jovem aristocrata é descrito na sua biografia como alguém com tendências anarquistas.

Russel conhecia o sentido e o significado do anarquismo quando escreve em 1918, pouco antes de ser preso por ter denunciado a legitimidade da I Grande Guerra Mundial, o livro "Roads to Freedom: socialism, anarchism, and syndicalism", onde inclui uma citação de Lao-Tzu:

Production without possession
Action without sel-assertion
Development withou domination


Num fundamentado texto da sua autoria, Russel define o anarquismo como a teoria que se opõe a toda a espécie de governo que resulte de uma imposição à força. A liberdade é o supremo bem do credo anarquista, devendo a liberdade ser entendida como a via mais directa para a abolição de todo o controle forçado sobre os indivíduos pela comunidade. Russel defende que o anarquismo deve ser o ideal último para o qual a sociedade deve continuamente aproximar-se. Aliás, o próprio Russel defende que o anarquismo esta particularmente ajustado em áreas tão diversas como a arte, a ciência, as relações humanas e alegria o gozo de viver.

No entanto, ele confessa que por enquanto, e nos tempos mais próximos, será muito difícil que este sonho se venha a realizar-se. Numa sua obra de juventude "Principles of Social Reconstruction" (1916), ele admite que o Estado e a propriedade são as duas mais poderosas instituições no mundo moderno. Porém, ao mesmo tempo que tenta demonstrar quanto dispensáveis são muitos dos poderes estatais, também aceita a utilidade de outros a fim de evitar a substituição da lei pela força nas relações humanas. "A anarquia primitiva, que antecedeu a lei, era muito pior que a lei", escreve Russel. O Estado teria também, segundo ele, um papel positivo a desempenhar na educação obrigatória, na saúde e na administração da justiça económica.

Apesar das fortes críticas de Bakukine e de Kropotkine contra o Estado, Russel admite que alguma coerção da comunidade deva subsistir sob a forma de lei, assim como o Estado é uma instituição necessária para a realização de certas e limitadas tarefas. Sem o Estado o forte poderia oprimir o fraco. Defendia, de todas as ideologias então referenciadas, o socialismo corporativista (guild socialism), se bem que sempre recordando que "o livre crescimento do indivíduo deva ser o fim supremo de todo o sistema político". Num dos números do jornal anarquista Freedom (fundado por Kropotkine) o livro "Roads to Freedom" de Bertrand Russel é vivamente recomendado, observando que os trabalhos do autor contêm propostas construtivas para o anarquismo.


Russel visitou a Russia no Verão de 1920 onde se encontrou com anarquistas como Emma Godman e Alexander Berkman que lhe apresentaram a cidade de Moscovo e vários leaders bolchevistas. O livro que reúne as suas impressões dessa viagem, "The Practice and Theory of Bolchevism" (1920), inclui já várias observações críticas à situação numa altura em que qualquer crítica à ditadura bolchevista era vista, pela esquerda, como uma traição . Dois anos depois, quando Emma Goldman procurou refúgio político na Grã- Bretanha, foi Russel que fez as necessárias diligências junto do Home Office, garantindo que aquela se comprometia a não desenvolver qualquer forma de anarquismo violento no país. No jantar de boas-vindas em Oxford, a única pessoa a aplaudir os violentos ataques feitos por Goldman ao governo soviético foi Russel. A reportagem do Freedom sobre o acontecimento terminava assim: "Mr. Russel, o filósofo mais acutilante da Inglaterra, proferiu então um discurso onde demonstrava as suas mais firmes convicções anarquistas."


Apesar de tudo, Russel manteve sempre alguma distância para com os anarquistas. Recusou, por exemplo, ajudar Emma Goldman a constituir um comité de ajuda aos prisioneiros políticos russos com o argumento que não via uma alternativa melhor ao governo soviético e que não resultasse ainda em maior crueldade. Escreve então a Goldman o seguinte: "Não vejo a abolição de todos os governos como algo que tenha possibilidade de se realizar nas nossas vidas ou mesmo durante o século XX". Mesmo assim, e depois de constatar a inutilidade da sua tomada de posição, acabou de censurar o tratamento dado pelo governo bolchevista aos seus prisioneiros políticos. E quando Sacco e Vanzetti foram executados, Bertrand Russel não teve dúvidas em afirmar que tinham sido injustamente condenados por motivo das suas opiniões políticas.


As atitudes e as suas afirmações libertárias, bem como toda a sua relutância em seguir à risca as posturas anarquistas resultam da sua singular concepção da humanidade e do universo, e do facto de estar consciente da "falácia naturalística" a que Kropotkine e outros anarquistas não escapavam ao defenderem argumentos baseados na supremacia das leis da natureza, que deviam ser seguidas, mas que na perspectiva de Russel mais não nos levaria que não sermos escravos da própria natureza. Tal não o impedia contudo em reconhecer que "se a Natureza deva ser o nosso modelo, então os anarquistas teriam o melhor dos argumentos. Com efeito, o universo físico está ordenado não porque tenha um governo central mas simplesmente porque todos os seres tudo fazem para assim ser"

Como ateísta e atomista, Russel tem uma sombria concepção da humanidade não obstante as suas esperanças de um mundo melhor. Ele considera que o homem é o resultado de uma "conjugação acidental de átomos" destinada a extinguir-se com a morte do sistema solar. Mas apesar da efémera e acidental posição do ser humano no universo tal não significa que o homem não possa lutar para a melhoria de todos. Só a crença do mais profundo desespero pode construir um mundo melhor.

Como humanista, Russel preocupa-se em lutar pela expansão da liberdade e felicidade humanas. Coisa que não é fácil.

Nos anos 50 e 60 Russel envolve-se mais uma vez com grupos de anarquistas no Comité dos Cem no âmbito da Campanha pelo Desarmamento Nuclear. O velho filósofo bate-se então pela acção directa não-violenta e pela desobediência civil em larga escala

Nos textos de Bertrand Russel perpassa uma forte brisa libertária como se pode ser no seguinte excerto:


"Thought is subversive and revolutionary, destructive and terrible. Thought is merciless to privilege, established institutions and comfortable habits. Thought is anarchic and lawless, indifferent to authority, careless of the well-tried wisdom of the ages".


Henri Laborit, um cientista libertário



Um cientista libertário entre a biologia e a psicologia

O encontro de Henri Laborit e os anarquistas foi um choque. O companheiro que realizou com ele cinco emissões na Rádio Libertaire fala de uma descoberta reciproca como se aquelas emissões tivessem revelado ( no sentido fotográfico) tudo o que impregnava a sua vida. Tanto mais que Laborit descobriu na obra de Kropotkine “Ajuda Mútua” muitas ideias que contrariavam o neo-darwinismo, também rejeitado por ele: ideias essas que tinham sido expostas num livro seu: “L’inhibition de l’action”. Dizia que “era mais anarquista que os anarquistas” na medida em que o conhecimento que tinha do funcionamento humano (conhecimento tanto dos limites como dos preconceitos, e dos juízos de valor que tecem a vida psíquica) tornavam-no até de certo modo mais «livre». Uma tal lucidez levava-o, por exemplo, a recusar a competitividade e a preferir a autogestão para lutar contra as dominações presentes no jogo social.
O estilo de homem que ele foi, mas também a sua maneira de trabalhar, de investigar ( e descobrir) ilustram bem as ideias que desenvolve, por exemplo, em “La nouvelles grille”, e que constituíram uma das suas maiores preocupações: permitir o desabrochamento da inventividade em oposição aos dogmas, contestando os sistemas fechados, e suscitar a criatividade de cada um( uma clara ideia anarquista). Na verdade, em vez de se acantonar e isolar-se na sua técnica de cirurgião da marinha, ele também se debruça sobre os acidentes ligados aos choques operatórios assim como sobre o sofrimento dos homens.
Descobriu o importante efeito de certas moléculas ( a cloropromazina). Com isto permitiu um passo em frente à medicina ( nos estudos sobre o stress e a inibição, sobre a hibernação artificial, sobre os fundamentos agressologia,etc) e ainda de uma revolução da psiquiatria ( em matéria dos neurolépticos). Pode-se, no entanto, lamentar que tenha ficado preso a uma noção demasiadamente restrita da linguagem, o que o fez rejeitar a psicanálise, levando a que os “psys” negligenciem o seu trabalho sobre a inibição. Há aí todo um vasto campo para explorar relativo aos fenómenos psicossomáticos e em apurar melhor a função da linguagem.
O filme de Resnais “Mon oncle d’Amérique”, retoma as suas ideias, para defender que é preciso “desibinir a inibição do acto” para prevenir o stress e as reacções que podem pôr a vida em perigo. Claro está que os ratos não são homens pois não falam nem sequer a noção de acto tem neles o mesmo sentido.
Os seus pares não lhe perdoaram a sua reiterada marginalidade nem de ter saído dos circuitos oficiais do pensamento ( um cirurgião opera, não faz biologia nem psiquiatria; um biólogo não pratica a reflexão sobre a sociedade, o poder, a liberdade, a autogestão). Eles nem sequer se deslocaram a Estocolmo, diz-se, para que não lhe fosse atribuído o prémio Nobel... Como se vê a interdição de pensar é uma das coisas melhor distribuídas neste mundo. Porque será que tão facilmente lhe obedecemos?
Mais que traçar as grandes etapas da sua vida gostaria de referir a duas questões do seu pensamento que interpelam o anarquismo.
Qualquer ideia – defende ele – que não seja universal, válida para toda a humanidade, seria uma ideia nula, que se mostraria incapaz de fazer progredir as coisas. Ideias deste género mais não fazem que gerar hierarquias, dominações , guerras. Ora uma ideia destas não poderia ser melhor para retratar a nossa época.
Uma outra ideia, que precisa de ser discutida ( e que ele aborda em “L’Eloge de la fuite, um dos seus livros preferidos), é a que defende que não serve para nada bater-se contra o poder e as suas engrenagens, contra esta sociedade do dinheiro, contra as pessoas manipuladas...Melhor valerá, integrarmo-nos, pelo menos na aparência, privilegiando a criação, a invenção, que não podem surgir senão das margens, e cuidando do vínculo social.
Este último ponto mereceria sem dúvida uma discussão: uma sociedade anarquista não deveria ser organizada na precariedade, nos rebordos de uma fecunda vacilação capaz de levar cada um a inventar a vida em todos os seus aspectos? É que a criatividade, ao contrário do funcionamento, implica um sujeito ( oposto ao funcionário), um desejo singular. E este é, penso, profundamente revolucionário, profundamente anarquista. Inclui necessariamente o outro na sua diferença. Um mundo unificado seria um mundo morto.
Henri Laborit era um homem alegre, um sonhador lúcido, suficientemente descentrado para poder rir-se dele próprio, tanto quanto lhe permitia o amor próprio...Não conseguia compreender como o mundo era um imenso terreiro de predação e destruição em que se vive da morte dos outros ( e isto desde os vírus até aos homens). Ora nada mais »natural» que a liberdade, a justiça que nunca serão definitivas, mas sempre em reconstrução, qualquer que seja a sociedade. Nesse sentido pode-se perguntar se a anarquia não seria uma criação humana por excelência na medida em que ela requer um ética do sujeito?
Apaixonado pelo seu trabalho, mostrava-se infatigável, gostando de passar dias e noites inteiras no seu barco, entre o céu e o abismo, naquela margem entre sono e acordado propícia à criatividade. No fundo, era um poeta da sua vida...
Nascido em Novembro de 1914 em Hanói, Vietname, cirurgião da marinha, depois investigador no Hospital Boucicaut em Paris ( recorde-se que o seu laboratório funcionava graças aos rendimentos resultantes das descobertas da sua equipa sobre moléculas). Entre as suas descobertas contam-se: a Cloropromazina (Largactyl), o principal dos neurolépticos; a Minaprina ( Cantor); antidepressivo; o GammaOH, anestesiante com aplicações várias...

Philipe Garnier

(Tradução de um texto publicado no Le Monde Libertaire de 1/6/1995)

Alguns dos livros de Henri Laborit:
-“L’homme et la ville” (1971)
-“La nouvelle grille, Eloge de la fuite” (1974)
-“L’inhibition de l’action” (1979)
-“La Colombe assassiné” (1983)
-“Dieu ne joue pas aux dés” (1987)
-“La vie antérieure (1989)
-“L’esprit du grenier (1992)

6.5.05

Os filósofos cínicos foram os primeiros dissidentes libertários



Durante o Império de Alexandre, o Grande a cultura e a civilização da antiga Grécia propagaram-se um pouco por todo o lado. Após a sua morte o Império que construiu divide-se em fracções antagónicas e profundos conflitos políticos.
Aparecem então 4 novas escolas ( ou correntes) de filosofia: os cínicos, os cépticos, os epicuristas e os estóicos. Todas elas se preocupam com a forma como um homem civilizado tem que viver num mundo inseguro, instável e perigoso.
Os primeiros a aparecerem foram os cínicos, que hoje seriam considerados os dissidentes libertários, os desertores do sistema social vigente.
Um dos nomes dos filósofos cínicos foi Antístenes que abandona a cidade e decide seguir uma vida básica e simples. Começou então a vestir-se como um operário, a viver por entre os pobres e proclamou que não queria governo, nem propriedade privada, nem casamento, nem uma religião estabelecida.
Antístenes teve um discípulo que se tornou célebre, de nome Diógenes (404-323 a.C.). , Diógenes escarnecia agressivamente de todas as convenções e chocava deliberadamente as pessoas quer por andar nu ou por vestir andrajos, quer por viver num túmulo, quer ainda por cometer actos flagrantes de indecência pública.
Diógenes vivia como um cão, e é por esta razão que lhe alcunharam de cínico ( da palavra grega Kynikos, que significa «como um cão». Note-se que a palavra cínico tem hoje um significado diferente do original

Diógenes não era, pois, um cínico no sentido actual da palavra. Bem pelo contrário, possuía uma crença positiva na virtude. A sua convicção básica era que a diferença entre valores verdadeiros e valores falsos era a única distinção que era importante. Todas as outras distinções ( as convenções sociais, assim como a distinção entre o que é meu e o que é teu, entre o nu e o despido, entre o cru e o cozido) eram, segundo ele, um perfeito disparate.
Diógenes desprezava igualmente a distinção entre Gregos e Estrangeiros, por isso quando lhe perguntavam qual era o seu país, respondia: «Eu sou um cidadão do mundo», e ao dizer inventou a única palavra grega que exprimia o seu pensamento – o cosmopolitismo.

Existem muitas histórias acerca de Diógenes. Uma das mais famosas é quando Alexandre, o Grande, preocupado com a sua pobreza, foi visitá-lo no seu buraco imundo e ficou parado à entrada. Vira-se para Diógenes e pergunta-lhe se podia fazer algo por ele, ao que o filósofo responder:«Sim, desviai-vos! Estais a tapar-me o Sol!».

A ovelha ranhosa




Havia uma terra onde eram todos ladrões.
À noite todos os habitantes saíam, com gazuas e lanternas, e iam a casa de um vizinho. Tornavam a casa de madrugada, carregados, e davam com a casa assaltada.
E assim todos viviam em concórdia e sem dano, porque um roubava o outro, e este um outro ainda e assim por diante, até que se chegava a um último que roubava o primeiro. O comércio naquela terra só se praticava sob a forma de vigarice tanto por parte de quem vendia como por parte de quem comprava. O governo era um bando de criminosos agindo contra os súbditos, e os súbditos por sua vez só se preocupavam em defraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem preocupações, e não havia nem ricos nem pobres.
Ora, não se sabe como, aconteceu que na terra se veio instalar um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa a fumar e a ler romances.
Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não entravam.
Este facto durou pouco tempo: depois tiveram de fazer-lhe compreender que se ele queria viver sem fazer nada, isso não era razão para não deixar fazer aos outros. Cada noite que ele passava em casa, era uma família que não comia no dia seguinte.
A razões destas o homem honesto não podia opor-se. Começou também a sair à noite, mas não ia roubar.Não havia nada a fazer: era mesmo honesto. Ia até à ponte e ficava a ver a água passar por baixo. Tornava a casa, e encontrava-a roubada.
Em menos de uma semana o homem honesto viu-se sem tostão, sem comer, e com a casa vazia.Mas até aqui nada de mal, porque era culpa dele; o problema é que deste seu modo de vida nascia toda uma trapalhada. Porque ele deixava roubar tudo e entretanto não roubava nada a ninguém; assim havia sempre alguém que ao chegar a casa de madrugada a encontrava intacta: a casa que ele deveria ter roubado. O facto é que ao fim de uns tempos os que não eram roubados ficaram mais ricos que os outros e já não queriam ir roubar. E por outro lado, os que vinham roubar a casa do homem honesto davam com ela sempre vazia; e assim iam ficando pobres.
Entretanto, os que ficaram ricos ganharam também o hábito de irem à noite à ponte, ver a água passar por baixo. Isto aumentou a confusão, porque houve muitos outros que ficaram ricos e muitos outros que ficaram pobres.
Ora os ricos viram que, indo à noite à ponte, ao fim de uns tempos ficariam pobres. E pensaram: - Vamos pagar aos pobres para que vão roubar por nossa conta. – Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários e as percentagens: naturalmente continuavam sempre a ser ladrões, e tentavam enganar-se uns aos outros. Mas como sempre sucede, os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Havia ricos tão ricos que já não precisavam de roubar e de mandar roubar para continuarem a ser ricos. Mas se deixassem de roubar ficariam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para que defendessem as suas coisas dos outros pobres, e assim instituíam a polícia, e construíram as prisões.
Deste modo, logo poucos anos após o acontecimento do homem honesto, já não se falava de roubar nem de ser roubado mas só de ricos ou de pobres; no entanto continuavam a ser todos ladrões.
Honesto só houve esse tal, que morreu de repente, de fome.



Italo Calvino

(Texto inserido no livro «A Memória do Mundo», de Italo Calvino, editado em 1995 pela Teorema, segundo a tradução para português de José Colaço Barreiro, a partir do original «Prima che tu dica “Pronto”»)

Italo Calvino ( Cuba, 1923 – Siena, 1985) estudou em San Remo, tendo pertencido à Resistência contra o fascismo e a ocupação nazi. Aderiu ao Partido Comunista para o abandonar em 1957, após a insurreição húngara.


Outros livros: Os Nossos Antepassados ( uma trilogia do qual fazem parte O Visconde cortado ao meio, O Barão Trepador, O Cavaleiro Inexistente), Palomar, Sob o Sol Jaguar, Seis Propostas para o próximo Milénio, As Cidades Invisíveis, Cosmicómicas, Marcovaldo, Porquê ler os clássicos.

5.5.05

A Ética da Terra



A Ética da Terra é uma das várias perspectivas da ética ambiental que opera uma inversão entre o sujeito ético tradicional e o horizonte ético onde têm lugar as nossas acções. A compreensão do ser humano passa a ser perspectivada em função da Natureza enquanto totalidade de que ele faz parte. A Ética da Terra é uma ética ambiental não antropocêntrica que, contrariamente ao antropocentrismo ambientalista não fundamenta a responsabilidade ambiental nos interesses humanos.
Na ética ambiental antropocêntrica, o ambiente é considerado como uma vasta arena de recursos, cruciais para a sobrevivência da humanidade e respeitá-lo é, antes de mais, respeitar o Homem.
Do ponto de vista da Ética da Terra, a ética ambientalista antropocêntrica traduz uma visão utilitarista e prudencial da relação do Homem com a Natureza.
Diferentemente, a Ética da Terra é uma perspectiva não antropocêntrica que confere á Natureza a dimensão ética que lhe garante consideração moral e respeito.
Deste modo o imperativo segundo esta perspectiva passa a ser: só é bom aquilo que contribuir para preservar o equilíbrio integridade e a beleza da comunidade biótica.
A Ética da Terra alarga a esfera de consideração moral aos animais, ás plantas, aos solos, às águas, ao ar, e aumenta a nossa responsabilidade, na medida em que nos torna responsáveis, não apenas pela preservação dos recursos, mas também a sobrevivência (actual e futura) dos seres humanos.
Assim, a preservação de todas as formas de vida, dos recursos, equilíbrio e belezas naturais, deve ser garantida, independentemente da sua importância e utilidade para a vida humana, já que são um bem em si mesmo.

Ex-ministro Portas recebe medalha americana por méritos alheios!!!



O ex-ministro da Defesa Paulo Portas recebeu das mãos do Departamento da Defesa do governo norte-americano a medalha dos serviços públicos distintos.
A causa para tal atribuição pessoal se deve à participação da GNR no Iraque ao lado das forças ocupantes norte-americanas, segundo o relatório público apresentado pelo governo dos USA.
Acontece que a GNR é uma força de ordem pública que não pertence à orgânica do Ministério da Defesa mas sim ao Ministério da Administração Interna, cujo titular não foi tido nem achado para tal rendida homenagem do governo imperial de Washington…

Produção suspensa em destilaria poluidora



A empresa Solusa, destilaria de aguardente vínica, situada em Torres Vedras, tem a laboração suspensa por ser fonte de emissões atmosféricas que contaminava o ar da cidade de Torres Vedras pondo em causa o bem estar da população e a qualidade do ar. O que originara protestos vários da população atingida. Por isso, as entidades estatais de fiscalização mandaram suspender a laboração.

Bobby Sands morreu há 24 anos



O militante do IRA, Bobby Sands, morreu em 5 de Maio de 1981, faz hoje 24 anos, após ter passado 66 dias em greve de fome, na cadeia de Maze contra a política dgo governo colonialista britânico de Thachter e as condições de detenção impostas aos presos.

Cadaval é concelho livre de transgénicos


A Assembleia Municipal do Cadaval adoptou uma deliberação que prevê a interdição dos chamados OGMs (organismos geneticamente modificados) nas plantações agrícolas do concelho, declarando-o como zona livre de transgénicos.

Mais uma deslocalização anunciada



Segundo a imprensa de hoje a multinacional norte-americana Molex Automotive, fábrica de componentes para a indústria automóvel, anunciou o encerramento das suas instalações situadas em Santo Tirso para o início do próximo ano de 2006 e a sua deslocalização para a Eslováquia, lançando assim 150 trabalhadores para o desemprego

IBM anuncia despedimentos de 10 a 13 mil trabalhadores


O grupo informático norte-americano IBM acaba de anunciar a supressão de 10 a 13 mil postos de trabalho na Europa. Actualmente esta corporação emprega 329 mil pessoas em todo o mundo.

Ciclo mulheres-palhaço no Chapitô



O ciclo «mulheres-palhaço» no Chapitô, organizado por Teresa Riçou, inicia-se hoje com a apresentação da Suiça Gardi Hutter, artista mímica.
O Chapitô é um espaço de artes circenses, localizado na costa do Castelo, na cidade de Lisboa

4.5.05

Falecimento do co-fundador da greenpeace

O jornalista canadiano Bob Hunter, co-fundador da organização ecologista internacional Greenpeace, morreu hoje aos 63 anos, vítima de doença prolongada.

Hunter era colunista de um jornal em 1971 quando ele e um grupo de 11 activistas de Vancouver decidiram viajar num velho barco de pesca, ao qual chamaram “The Greenpeace”, para Amchitka (Alasca), local onde os Estados Unidos estavam a realizar testes nucleares.

A embarcação foi detida pelas autoridades norte-americanas mesmo antes de chegar a Amchitka mas a tentativa de deter os testes ganhou ampla atenção dos media, gerando protestos no Canadá e Estados Unidos e que levou 5 meses depois ao cancelamento dos ensaios necleares nas ilhas Aleutianas, no Alasca

Hunter tornou-se o primeiro presidente da Greenpeace. “Talvez mais do que ninguém, Hunter inventou a Greenpeace”, declarou hoje a organização em comunicado.
O seu conhecimento dos media e o sentido de humor foram cruciais para a sobrevivência inicial da organização, considerou Patrick Moore, outro co-fundador.


Hunter também foi o autor do nome The Rainbow Warrior que baptizou o navio da organização, e é também um conceito trazido da mitologia dos índios, que acham que um dia as raças do mundo vão-se unir como um guerreiro arco-íris para defender a Terra.

Os perigos dos transgénicos

No http://ondas2.blogs.sapo.pt/ do passado dia 3 de Maio de 2005 aparece uma lista sucinta dos perigos que representam os transgénicos, texto elaborado por Kurt Cobb, do Resource Insights, e que está traduzida para português.
A ler. Para que conste.

Resistir à publicidade


No http://bioterra.blogspot.com/ do passado dia 29/4/ 2005 apareceu um texto do primeiro jornalista ecologista português, Afonso Cautela, escrito há mais de 30 anos intitulado " Resistir à publicidade".
Imperdível. A ler, pois.

A Memória do Elefante(Porto, 1971-1974): uma publicação de contra-cultura


A Memória do Elefante publicou-se no Porto a partir de 1971 . De periodicidade mensal, mas bastante irregular,caracterizou-se por uma abordagem transgressora e frequentemente polémica de temas culturais da altura. Publicou diversas entrevistas e textos de análise sobre o movimento da nova canção portuguesa. Foram publicados 13 números.

Os seus principais responsáveis eram João Afonso, Joaquim Lobo, Pedro Nunes e Mário Jorge Morais.
(Existiu também o suplemento "O ELEFANTE" )


Tratava-se de um jornal de Música Popular, Jazz, Rádio, com origem na cidade do Porto, que saiu entre 1971 e 1974, com direcção de Joaquim Lobo, Editor Jorge de Morais, Relações Públicas João Afonso Almeida, Supervisão de Pedro Nunes, colaboração de António José Fonseca, Mário Gonçalves, Octávio da Fonseca e Silva, Jorge Lima Barreto, Pedro Proença, António Barredo Oliveira, Renato Silva, ...
Do editorial de um dos seus números retiramos o seguinte excerto:

"A Memória do Elefante tem sido e continua a ser por enquanto, um trabalho quase só de amadores não remunerados cuja acção procura concretizar um ideal de crítica. Estamos alheios aos jogos de interesses que orientam, subrepticiamente ou não, muitos representantes da nossa informação profissional (orgulhosamente). Os nossos redactores não têm obrigação de, como último recurso de incapacidade, encher umas quantas folhas de papel com as futilidades mais incríveis da vida mundana de personalidades pseudo-importantes do nosso putrefacto meio artístico, precisamente as personalidades «progressistas» (ah! ah!) que conduzem à recuperação da contra-cultura. A Memória do Elefante não é de, nem para escatófagos (...)"
[A Memória do Elefante, nº 11, Janeiro de 1974]

Fazer a Festa (6 a 15 de Maio), Festival de Teatro

De 6 a 15 de Maio vai-se realizar a 24ª edição do "FAZER A FESTA - Festival Internacional de Teatro", a decorrer nos jardins do Palácio de Cristal, numa organização do TEATRO ART' IMAGEM.

A PROGRAMAÇÃO é bastante diversificada e encontra-se no site http://www.teatroartimagem.org.

Para portadores de cartão estudante ou jovem, o preço do bilhete é de três euros!

Testemunho dos jovens de Hiroshima (II)



Testemunho de Kiyoko Tanaka, rapariga, estava na 3ª classe em 1945


Foi no dia 6 de Agosto de 1945 que caiu a inesquecível bomba atómica. Mesmo agora tremo quando pensão naquele tempo. Não fui evacuada com a minha classe e por essa razão estudava numa secção descentralizada da escola próxima. Nesse dia, saí para brincar com as minhas amigas do bairro. Quando surgiu o clarão eu estava debaixo da casa onde brincávamos. « Se ficar aqui assim, sem nada fazer, não sei o que acontecerá!» Enquanto pensava isto notei que, em certo ponto, havia uma fenda. De rastos, fui até lá, e deslocando algumas tábuas para o ado consegui escapar-me. Uma vez no exterior vi, para meu espanto, que não fora só esta casa onde brincava mas todas as casas onde a vista alcançava tinham desabado e estavam a arder. Quando vi isto preparei-me para chorar mas pensei: «Chorar não modificará as coisas», e decidi ir para casa. Quando por fim cheguei a casa, a Mãe tinha posto o bebé de um ano no cimo de uma pilha de trouxas e trazia furiosamente as coisas para a rua. O bebé estava inconsciente, talvez devido à surpresa.
A mãe ficou contente quando me viu:
«Vem, afastemo-nos daqui. Queimar-nos-emos até morrer se continuar a fazer isto durante muito tempo»
E pondo as trouxas às costas e o bebé nos braços, partiu acompanhada por mim.
Vimos uma pessoa com uma grande lasca de madeira espetada num olho – suponho que talvez ele não conseguisse ver – e errava por ali, como um cego. Sem saber exactamente aonde íamos, seguimos todos os outros que fugiam.
No caminho para a colina de Hiji vimos pessoas saltar para dentro de tanques de água porque as suas queimaduras as atormentavam.
Outros estavam sentados na berma da estrada, dizendo a toda a gente que passava:«Por favor, deite-me água em cima», ou, « Dê-me água, por favor». Algumas delas bebiam aágua suja da beira da estrada.
Enquanto subíamos a colia de Hiji vimos uma grande árvore que ardia a partir-se ao meio. Quando chegamos ao cimo da colina e olhámos para baixo notámos que as cercanias eram todas um mar de chamas. E no cimo da colina, aqui e ali, pessoas queimadas e feridas estavam estendidas no chão, gemendo, ou mexiam-se agitadas, em redor.
Depois disto, descemos para Danbara. Danbara não ardia, mas praticamente todas as casas tinham desabado, e a única que ainda se encontrava de pé estava quase toda desconjuntada. Na soleira da porta viam-se sandálias, e algumas pessoas que passavam puseram-nas nos pés e continuavam o seu caminho.
Um pouco mais além um homem gritava através de um megafone; dizia que todos os que estivessem feridos se deviam dirigir para Ninoxima. Decidimos partir para ali e metemo-nos num barco, no rio.
Diante da mãe estava sentada uma jovem com a minha idade. Todo o seu corpo estava cobertto de queimaduras e feridas, e sangrava.
Parecia ter muitas dores e chamava sem cessar a mãe. Esta virou-se de súbito para a minha mãe e disse: «Senhora, a sua filha está aqui?»
A mãe respondeu afirmativamente e ela deu-lhe alguma coisa para as mãos.
Era uma lancheira com o almoço que a mãe preparaa e lhe dera naquela manhã quando a jovem partira para a escola.
«Não queres comê-lo, tu?», perguntou a minha mãe à jovem.
«Vou morrer. Dê-o à sua filha.»
Aceitei. Começamos a descer o rio quando o barco chegou ao mar a pequena soltou o último suspiro e morreu.
Senti-me terrivelmente triste por ela. A mãe e eu chorámos juntas.
Quando chegámos dirigimo-nos imediatamente para o posto médico. Encontrámo-lo cheio de pessoas queimadas e feridas. Entre elas havia algumas que tinham enlouquecido devido às dores e corriam em redor dos doentes.
Como ficaria feliz se todas estas pessoas não tivessem sido queimadas nem feridas e fossem vivas agora, e também se aquela criança do barco não tivesse sido queimada e sobreviesse.



Texto escrito em 1951, por Koyko Tanaka

Reproduzido do livro « Testemunho dos Jovens de Hiroxima», ed. Portugália, 1965, tradução portuguesa do original «Children of the A-Bomb, the testamento f the boys and girls of Hiroshima»