28.3.05

A Sociedade contra o Estado ( P. Clastres)

A Sociedade contra o Estado é uma obra fundamental cujo autor é Pierre Clastres, fundador da antropologia política e um dos maiores antropólogos de todos os tempos .

A sociedade contra o Estado, colectânea de onze artigos publicados por Pierre Clastres entre 1962 e 1974, é um dos mais importantes trabalhos de antropologia política já divulgados. Lançada em 1974, traz o sabor de sua época reflectindo uma reviravolta nas ciências humanas, propiciada na década anterior por autores franceses como Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault e Gilles Deleuze.

Como estes, Clastres agarra-se ao projecto de uma forte crítica da Razão ocidental - no seu caso, uma crítica da Razão política, então aferrada em noções de dominação e subordinação. No entanto, Clastres morreu prematuramente (aos 43 anos), não podendo continuar, como queria e poderia ter feito, o seu projecto original de constituição de uma antropologia política geral.

A tese que atravessa os textos da colectânea, fortemente alinhavados a despeito dos anos que os separam, é retumbante: a sociedade civil pode prescindir da figura do Estado, e isso pode ser verificado - empiricamente - na experiência de boa parte dos povos indígenas da América do Sul. Com efeito, o argumento lançado aguçou o interesse de antropólogos, filósofos e cientistas políticos. Se, por um lado, Clastres escrevia para especialistas em povos não-ocidentais, tocando num problema bastante delicado para eles - até que ponto essas sociedades podem ser ditas igualitárias? -, por outro, ele (re)abria uma séria discussão, própria da filosofia política, sobre a natureza do poder político.


Um chefe sem poder


A figura que serviria de inspiração a Clastres é a do chefe indígena (figura certamente genérica), autoridade que não detém poder algum, prisioneiro do grupo. Mesmo dotado de privilégios como a poliginia (casamento com mais de uma mulher), esse chefe está submetido a uma série de obrigações que pressupõem certas habilidades, dentre as quais, as mais importantes são a generosidade e o dom da oratória.

O chefe indígena é, em suma, aquele que pode dar e sabe falar. Essa sua fala reúne os homens ao seu redor sem, no entanto, mostrar-se eficaz para cooptá-los. Em suma, é uma fala vazia, pois não tem poder de mando, mantém o chefe numa posição de poder que é de fato aparente. O argumento de Pierre Clastres vai mais longe. Não se trata simplesmente de afirmar que o chefe indígena não detém o poder, pois, para o autor, a sociedade indígena (ou "primitiva", como ele prefere chamar de modo algo antiquado e que hoje poderia soar como "antropologicamente incorrecto") não é estranha ao poder. O chefe não detém o poder porque é impedido pela própria sociedade, essa sim a detentora de um certo poder, que não consegue, no entanto, constituir-se como esfera política separada - ou seja, como Estado. O poder ali permanece difuso.

Essa tese fora formulada por Clastres quando ele tinha apenas 28 anos e divulgada num artigo intitulado "Troca e poder: filosofia da chefia ameríndia" - segundo capítulo da presente colectânea. Nessa época, ele ainda era um estudante de filosofia e preparava-se para iniciar suas pesquisas de campo em sociedades indígenas sul-americanas, como os Guayaki, Guarani e Chulupi - todos do Chaco Paraguaio -, os Yanomami da Venezuela e os migrantes Guaranis mbyá das redondezas da cidade de São Paulo.

Questionando o marxismo e estruturalismo


As experiências de campo foram certamente responsáveis pela sofisticação de seu pensamento, no entanto, a ideia central havia sido lançada já no texto de 1962, publicado originalmente na revista L´Homme, que tinha como director Claude Lévi-Strauss. A propósito, "Troca e poder" - seguido, sobretudo, de "Independência e exogamia" (Cap. 3) - é um diálogo aberto com a obra deste autor e, com efeito, um momento decisivo de ruptura com o estruturalismo. Ao tomar o poder como foco, Clastres afasta-se de campos como a mitologia e o parentesco, então consagrados pela análise estrutural. A Clastres não interessa a dedução de princípios cognitivos universais que tornam possível a existência de qualquer sociedade, mas sim a verificação de como determinadas sociedades - no caso, as indígenas - respondem de maneiras diferentes a problemas de facto gerais, como a possibilidade de vigência de um poder político separado, o Estado. Vale lembrar que, nesse ponto, Clastres também aposta em questionar o marxismo, visto que, ao contrário do que este pensam, ele não vê a formação do Estado como função do desenvolvimento de uma desigualdade económica. A realidade, para ele, é justamente a inversa: são as relações de poder que definem as classes e, portanto, a divisão da sociedade em pobres e ricos.


Contra o Estado e a favor da sociedade


Sob esse aspecto, as sociedades indígenas deixam de ser tomadas, como de costume em abordagens evolucionistas, como passado ou infância das sociedades modernas, cuja organização política seria mais complexa e, logo, "superior". Se as últimas optaram por viver sob o jugo de um Estado, as primeiras recusaram-no em nome da liberdade. É então que chegamos à conclusão do último texto, "A sociedade contra o Estado" (Cap. 11), que dá nome à colectânea. Ou seja, as sociedades indígenas não são simplesmente sociedades "sem" Estado - esta seria a tese de um filósofo como Lapierre, criticada em "Copérnico e os selvagens" (Cap. 1) -, são, sim, "contra" o Estado na medida em que reconhecem a possibilidade de emergência de um poder político, que está, segundo a definição da filosofia política clássica, atrelado ao exercício da coerção, da violência.

A violência que se encontra nas sociedades indígenas não é monopolizada por um Estado, mas controlada pela própria sociedade. Em "Da tortura nas sociedades primitivas" (Cap. 10), Clastres salienta os rituais de iniciação - fortemente marcados por intervenções no corpo, como perfuração de lábios e orelhas, escarificações, reclusões etc. - como mecanismos de inscrição da lei (e memória) social nos indivíduos.


Promessas proféticas


Em "Do Um sem o Múltiplo" (Cap. 9), Clastres encontra no pensamento dos Guarani a identificação do Mal com a figura do Um - e esse Um coincide justamente com centralização política, com o Estado. No entanto, devido a factores incertos como o crescimento demográfico - tema discutido em "Elementos de demografia ameríndia" (Cap. 4) -, os Guaranis vêem-se não raro às voltas com a emergência do Estado e isso pode ser compreendido pelo aparecimento de líderes religiosos, os chamados profetas. Os profetas, como os chefes, falam. Mas a sua fala não é um mero dever - o capítulo 7 ("Dever da palavra") trata desse aspecto -, tão pouco é vazia. É uma fala que anuncia o fim dos tempos e incita à busca da Terra sem Mal, onde a mortalidade poderia ser, enfim, encontrada - este é, com efeito, o tema do capítulo 8 ("Profetas da Selva").

O profetismo ocupa, em A sociedade contra o Estado, um lugar intrigante. Referido inicialmente como uma revolta, ele pode ser também o germe de uma organização estatal entre os ameríndios. Com isso, Clastres reflecte sobre a situação dos povos tupi-guarani antes da Conquista.

As eventuais organizações em confederações, como aquela constituída pelos Tamoios no século XVI, não seriam um produto do contacto com os europeus, mas antes um processo constituído pelos próprios ameríndios. Mais uma vez, a questão não reside na ausência do Estado, mas na sua presença, mesmo entre os nativos, em forma latente. O que os distingue de nós, ocidentais, é a capacidade que eles apresentam de contornar, sempre que possível, o poder. Ao contrário de nós, eles riem do poder e de seu perigo - essa é a revelação de "De que riem os índios"? (Cap. 6).

Os índios e nós

Em A sociedade contra o Estado, Clastres viaja longe para reflectir, de facto, sobre a situação do Ocidente. NUma outra colectânea, «Arqueologia da violência: pesquisas em antropologia política», ele rememorará o filósofo do século XVII Etienne de La Boétie, que vê a razão da subordinação do homem como um acto de vontade. As sociedades ameríndias, para Clastres, são aquelas que recusam a subordinação - por isso, controlam o seu chefe, que não impõe leis nem executa sanções. Isso não reflecte nem significa sociedades desorganizadas, fragmentadas, como muito se pensou. Pelo contrário, revela um alto nível de organização a tal ponto de tornar inviável o aparecimento de um Estado. Essa escolha pela liberdade é o que Clastres quer sublinhar nas paisagens que percorreu e, assim, formular uma lição para o Ocidente, em que a dominação encontra-se por toda parte.

Em tempos como os que vivemos nos dias de hoje, marcados por guerras entre Estados e pelo desejo de expansão e dominação de verdadeiros impérios, a leitura de A sociedade contra o Estado parece, no mínimo, reconfortante. Diante de uma batalha pelo poder político (e, por conseguinte, económico) que tem custado inúmeras vidas, nada como imaginar um lugar onde este possa ser vivamente combatido pela sociedade.


Sobre o autor


Pierre Clastres nasceu em Paris em 1934. Foi director de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS, Paris) e membro do Laboratoire d´Anthropologie Sociale do Collège de France. Realizou pesquisas de campo na América do Sul entre os índios Guayaki, Guarani e Yanomami. Publicou Crónica dos índios Guayaki [1972], A sociedade contra o Estado [1974], e A fala sagrada - mitos e cantos sagrados dos índios Guarani [1974]. A sua morte prematura, num acidente de carro em 1977, interrompeu a conclusão de textos que mais tarde seriam reunidos no livro Arqueologia da violência - ensaios de antropologia política [1980].

Os conhecimentos tradicionais




Os conhecimentos tradicionais, ou conhecimentos autóctones (Indigenous Knowledge) são utilizados há milénios pelos povos indígenas e comunidades locais, e sempre constituíram a pedra angular da sua existência no que diz respeito à alimentação e à saúde. Os cientistas ocidentais começaram a interessar-se recentemente por esses conhecimentos indígenas, pelo facto deles representarem uma fonte potencial de novos medicamentos, sobretudo desde que os preços das patentes aumentaram muito no mercado. A aceleração dos fenómenos de biopirataria é reveladora da atitude hipócrita dos pesquisadores ocidentais em relação aos conhecimentos tradicionais: explorar a fundo esses conhecimentos e patentear todo tipo de substâncias deles oriundas (curcuma, ayahuasca, neem etc.), ao mesmo tempo que recusam reconhecer seu valor económico, bem como os seus detentores originais.
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Apesar do reconhecimento gradual de que se beneficiam os conhecimentos tradicionais enquanto verdadeiros saberes, as leis ocidentais sobre a propriedade intelectual classificam-nos como pertencendo ao "domínio público", portanto de livre acesso a todos. Além disto, em certos casos, os conhecimentos indígenas foram patenteados e protegidos pelos direitos de propriedade intelectual, tornando assim impossível qualquer indemnização aos seus reais inventores ou proprietários.
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Do mesmo modo, a utilização e o aperfeiçoamento constante das variedades são essenciais em muitos sistemas agrícolas. Em muitos países, o mercado de sementes depende essencialmente de um sistema local e descentralizado de produção de sementes, que opera a partir do princípio de difusão da melhor semente disponível numa comunidade, enquanto os fazendeiros locais asseguram-se de que a comunidade agrícola possui o material necessário para a sementeira. O seu conhecimento das variedades de plantas e de suas características específicas foi fundamental para o desenvolvimento de novas variedades, bem como para a segurança agrícola mundial.
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O reconhecimento da importância dos saberes tradicionais ganha espaço no debate intelectual e político mundial. Assim, uma lei da OMPI-UNESCO sobre o Folclore foi adoptada em 1981; depois, em 1992, a Convenção sobre a Diversidade Biológica tratou dessa questão. Em 2000, um Comité inter-governamental sobre a propriedade intelectual relativa aos recursos genéticos, aos saberes tradicionais e ao folclore foi criada pela OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual).
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Desvio dos saberes tradicionais
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Um grande número de patentes foram outorgadas para recursos e saberes genéticos obtidos de países em desenvolvimento, sem o consentimento dos detentores desses saberes e recursos. Muitos produtos oriundos de matérias biológicas e de saberes desenvolvidos e utilizados por comunidades locais e indígenas (tais como a árvore neem, o kava, o barbasco, o endod e o curcuma, entre outros) foram objecto de uma importante pesquisa visando a obtenção de eventuais Direitos de Propriedade Intelectual sobre esses produtos considerados como "brutos", sem aperfeiçoamento (cf., por exemplo, a patente americana n° 5.304.718 sobre o quinoa, concedida a pesquisadores da Universidade do Estado do Colorado; ou ainda a patente americana sobre as plantas, de n° 5.751, sobre o ayahuasca, uma planta medicinal sagrada da Amazónia.
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Muitas dessas patentes foram revogadas pelas autoridades nacionais competentes. Assim, o Conselho de Pesquisa Científica e Industrial (CRSI) da Índia pediu uma revisão da patente americana n° 5.401.5041 a respeito das propriedades curativas do curcuma. O Escritório das Patentes e das Marcas Registradas dos Estados-Unidos (USPTO) revogou essa patente, constatando que não havia a novidade exigida; a inovação vem sendo utilizada na Índia há muitos séculos. No início do ano 2000, a patente concedida à empresa W.R. Grace e ao Ministério da Agricultura americano para o neem (patente EPO n° 436257) foi igualmente revogada pelo Escritório Europeu das Patentes (EPO), pois o seu uso já estava repertoriado na Índia. O uso mais importante da árvore neem é como um biopesticida. Neste sentido, o neem contém mais de 60 componentes úteis, que incluem igualmente o azadirachtin A (aza A), amplamente conhecido. De acordo com o grupo Grace, esse componente era destruído no tratamento tradicional da planta. Isto é totalmente falso. De facto, as substâncias sofreram uma degradação, mas isto não se aparenta com uma perda, já que os fazendeiros só utilizam essas substâncias quando isto é necessário. O problema da estabilização só surgiu quando surgiu a questão do empacotamento e do armazenamento por longos períodos, com finalidades comerciais. O pedido de patente, de 1992, foi apresentado por Grace com o argumento de que o tratamento pretensamente inventado por esta empresa permitia uma extracção adicional de produtos solúveis na água, o que representaria uma alternativa mais do que um substituto ao tratamento indiano actual dado ao neem. Por outras palavras, as técnicas de Grace são supostamente mais novas e avançadas do que as técnicas indianas. Entretanto, essa “novidade” existe principalmente devido à ignorância ocidental. Um pedido de revisão para a patente sobre os tipos e grãos de arroz Basmati (US Patent n° 5.663.484) concedido pela USPTO, também foi formulado pelo CSIR e Rice Tech, o que fez com que 15 das 20 pretensões do solicitante fossem retiradas.
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As convenções e tratados internacionais que tratam dos saberes tradicionais são caracterizadas pelo fato de não serem obrigatórios. Cada cláusula que trata da repartição dos benefícios é contestada e rejeitada. A convenção n° 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que trata amplamente dos padrões legais para os direitos indígenas, não protege os direitos de propriedade intelectual dos povos indígenas. Apesar da Declaração dos direitos dos povos indígenas reconhecer os direitos e aspirações desses povos, ela não passa de um documento sem efeito obrigatório, não podendo ser legalmente imposto. No tratado internacional sobre os recursos Genéticos das Plantas, as nações desenvolvidas conseguiram bloquear um reconhecimento internacional dos Direitos dos Fazendeiros. Eles contestam igualmente qualquer noção de retribuição para a utilização de germoplasma tradicional no âmbito de um acordo de divisão dos benefícios. A Convenção sobre a Diversidade Biológica, que tentou defender os interesses dos Povos Indígenas, foi contrariada nesse projecto pela recusa americana em ratificá-la e em aceitar as suas condições.
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Proteger os conhecimentos tradicionais no interesse das comunidades implicadas requer, portanto, uma acção ao mesmo tempo a nível nacional, e sob forma de leis protectoras, e a nível internacional, por meio de acordos que condenem a bio-pirataria e reconheçam que conceder patentes para o que é propriedade de comunidades locais, é contrário à ética.

27.3.05

Mensagem para o Dia Mundial do Teatro de 2005

Mensagem para o Dia Mundial do Teatro de 2005,
da autoria de Ariane Mnouchkine



SOCORRO!

Teatro, vem em meu socorro!




Durmo. Acorda-me
Estou perdido na escuridão, guia-me, ao menos para uma vela
Sou preguiçosa, deixa-me envergonhada
Estou fatigada, levanta-me
Estou indiferente, sacode-me
Continuo indiferente, parte-me a cara
Tenho medo, dá-me coragem
Sou ignorante, educa-me
Sou monstruosa, humaniza-me
Sou pretensioso, faz-me morrer de riso
Sou cínica, desmonta o meu jogo
Sou estúpida, transforma-me
Sou má, pune-me
Sou dominadora e cruel, combate-me
Sou pedante, faz troça de mim
Sou ordinária, eleva-me
Sou muda, desfaz-me este nó
Já não sonho, chama-me cobarde ou imbecil
Esqueci-me, lança sobre mim a Memória
Sinto-me velha e seca, faz saltar a Infância
Sou pesado, dá-me a Música
Estou triste, vai buscar a Alegria
Sou surda, com fragor faz gritar o Sofrimento
Estou agitado, faz crescer a Sabedoria
Sou fraca, acende a Amizade
Sou cega, convoca todas as Luzes
Estou refém da Fealdade, faz irromper a Beleza vencedora
Fui recrutado pelo Ódio, dá todas as forças ao Amor.

Autor da Mensagem: Ariane Mnouchkine

Consultar:
http://www.iti-worldwide.org

Bread and Puppet Theatre (1962-1985)



Entre o chamado novo teatro americano, o Bread and Puppet Theatre é conhecido pelo carácter radical das suas técnicas, pela recusa do profissionalismo, assim como pela vontade de se inserirem na realidade quotidiana, tal como pela «pobreza» dos recursos técnicos que utiliza.
Bem se pode dizer que o Bread and Puppet Theatre pratica um teatro total na medida em que utiliza e combina todos os recursos do espectáculo e das artes: actores, marionetas, máscaras, pantomina, récita, música, dança, pintura, escultura, jogos de luzes, etc,etc. tudo isso numa dramaturgia unitária.

O Bread and Puppet Theatre foi fundado por Peter Schumann, escultor alemão que, de 1958 a 1960, dirigiu o grupo de Nova Dança de Munique. Instala-se, entretanto, nos Estados Unidos, e dá o seu primeiro espectáculo – uma «Dança dos Mortos» - na Judson Memorial Church de Nova Iorque, em 1961. Em seguida, monta um espectáculo ao ar livre sobre uma greve. A partir de então, e um pouco por toda a parte quer nos Estados Unidos quer na Europa, o Bread and Puppet Theatre dá espectáculos, em locais improvisados, e no decurso de manifestações.

O nome do Bread and Pupet Theatre, bem como o cerimonial simbólico, com que iniciavam os seus espectáculos ( distribuição de pão aos espectadores da primeira fila) revestia um significado. «Tentamos persuadi-los», nas palavras de Peter Schumann, «de que o teatro é tão indispensável ao homem como o pão».O espectáculo, nunca realista, deve levar os espectadores a tomares consciência do problema. Mas o método não é o do Brecht. «é necessário impressioná-los, sem cair em detalhes, sem ter a preocupação de fazer compreender os diversos aspectos da questão, sem procurar saber qual será a sua reacção, cumprindo sempre uma missão de alerta e de comunhão».

Os actores não eram profissionais. Eles próprios fabricam as suas máscaras e arranjam os seus acessórios e até os instrumentos de música com objectos encontrados nos caixotes de lixo.
Utilizavam também marionetas gigantes e marionetas vivas

Este tipo de teatro, parco de palavras, e repleto de gestos simbólicos, destina-se tanto a multidões em movimento como ao auditórios atentos.
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Mais informações em inglês:

Description and Brief History of the Bread and Puppet Theatre

In 1962, one year after its founder moved to New York City from West Germany. Until 1971, Bread and Puppet resided in New York City, working in Coney Island and the East Village. In June 1970 part of Bread and Puppet moved to Plainfield, Vermont, as a theater-in-residence at Goddard College. Here the group held the first annual "Domestic Resurrection Circus," a two-day festival "celebrating the beauties and lamenting the sorrows of our existence in scores of mask, music and puppet performances".
Bread and Puppet has given workshops in sculpture, mime, dance, story-making, puppet building and operation, music and instrument making at Goddard College (1971-1974) and in Glover, in the Northeast Kingdom of Vermont where the group has converted an old barn into a museum, displaying hundreds of masks and puppets. In 1974 Bread and Puppet moved to Glover where it has remained ever since.
Since its beginnings, Bread and Puppet Theater has been a small, self-managed, non-commercial theater. Despite the lack of financial and material funding, Bread and Puppet continues to thrive, always committed to increasing people's awareness of pertinent social and political issues. Often depicted are the victims of injustice, plagued by war, hunger and social oppression. During the sixties, Bread and Puppet frequently participated in demonstrations against American involvement in Vietnam, using over-life size puppets and masked performers. Although Schumann expressly says that the shows are not political, the subjects of his plays are very thought-provoking, demanding that the audience question their moral responsibilities. Underlying all the performances, however, is a note of hope and optimism.
Bread and Puppet derives from ancient folk traditions: medieval morality plays, Punch and Judy, Sicilian and Balinese puppetry, and Japanese Bunraku. Classical art and the bible have also influenced Schumann, as well as current events. Having studied art, sculpture and music in Germany, Schumann has fused these elements into the creation of a unique puppet theater. Puppetry is the essence of this theater, preferring action to dialogue; the puppets display life in simple, ritualistic terms rather than trying to explain it or teach about it. Peter Schumann believes that "puppetry and all the arts are for the Gods, are wild, are raw material, are bread and sourdough....are for life and death, births, weddings, exaltation and sorrow, not for professionals and specialists of culture."
Believing that theater is a basic necessity like bread, Bread and Puppet has brought its theater out into the streets to those who may otherwise not go to the theater. Larger than life size puppets often on stilts, wear huge masks with expressive faces, singing, dancing and playing music. Participation in these plays varies from two to over one hundred actors, including children. Out in the city streets and the fields of Vermont and unimpeded by theater walls, the audience becomes more engaged in the performances and relates with the characters themselves.
Bread and Puppet is recognized throughout the world and has won distinction at international theater festivals in Italy, Poland and Yugoslavia.

Consultar:

O efeito de distanciação no teatro de Brecht


O teatro, cujas origens antigas são de ordem religiosa, desenvolveu-se com vista a reforçar a comunhão com o público e à identificação do espectador com o herói, ao longo da peça ou da acção representada. Numa tal situação os espectadores tendem a ser passivos, e a abandonarem-se às impressões e aos sentimentos, cedem àquilo que se poderia chamar de um efeito hipnótico. Para se obter esse resultado, a acção deve ser-lhes apresentada como continuamente presente e real. Para isso os cenários, a iluminação e o desempenho dos actores criam um ilusão tão completa quanto possível. Os actores deverão até perder a sua identidade para encarnarem a personagem.

Ora Bertold Brecht opõe a esse teatro aristotélico um «teatro épico». Epopeia e drama opõem-se como narração e acção. O teatro épico de Brecht recusa a ilusão e a atitude passiva que ela provoca no espectador. Para isso, a partir do período entre as duas guerras, no Scliffbauerdamm-Theater de Berlim, utilizou o Verfremdungseffekt ( efeito V), expressão que se pode traduzir por «efeito de distanciação». Com efeito, a sua finalidade é afastar a familiaridade, onde possa haver qualquer identificação do espectador com as personagens, e qualquer atitude passiva, para suscitar uma atitude desperta e crítica, capaz de fazer apreender a lição social que a peça comporta.

A acção tem sempre algo de insólito. Nunca nos surge como realmente presente. Distancia-se à maneira de uma narração. Será sempre «historiada». Não decorre num tempo homogéneo com o real, e será interrompida por cantos e comentários, ruptura que será sublinhada pela representação dos actores. Será representada de tal forma que seja evidente que os actores conhecem as diferentes fases e o desenlace. Cartazes e projecções no início de cada cena reunirão o seu conteúdo para evitar o efeito surpresa.

É evidente que é do desempenho do actor que depende essencialmente o efeito de distanciação. Pois ele tem de mostrar a sua personagem, e não de a viver, procedendo a uma demonstração.

Este efeito de distanciação não é completamente novo. Diderot já vira a necessidade do bom actor se ver a si mesmo enquanto representava. E o coro da tragédia antiga quebrava a ilusão da acção para incitar os espectadores a uma reflexão crítica. Outros expedientes para criar a distanciação será a versificação, o convencional, e a passagem do trágico ao cómico. Mas é Brecht que enfatiza esse efeito de distanciação emprestando-lhe uma eficácia pedagógica.

Breve Panorama do Teatro Contemporâneo

Na Viragem do século XIX para o XX

Realismo - Na segunda metade do século XIX, o melodrama burguês rompe com o idealismo romântico e dá preferência a histórias contemporâneas, com problemas reais de personagens comuns. A partir de 1870, por influência do naturalismo, que vê o homem como fruto das pressões biológicas e sociais, os dramaturgos mostram personagens condicionados pela hereditariedade e pelo meio.

Anton Tchekhov (1860-1904) - Filho de um comerciante, parte em 1879 para Moscovo com uma bolsa de estudos para Medicina. Paralelamente, escreve muito. Os seus contos mostram o quotidiano do povo russo e estão entre as obras-primas do género. Entre as suas peças destacam-se «A gaivota» e «O jardim das cerejeiras». É um inovador do diálogo dramático e retrata o declínio da burguesia russa.

Espaço cénico realista - Busca-se uma nova concepção arquitectónica para os teatros, que permita boas condições visuais e acústicas para todo o público. O director e o encenador adquirem nova dimensão. André Antoine busca uma encenação próxima da vida, do natural, usando cenários de um realismo extremo. Na Rússia, o encenador Konstantin Stanislavski cria um novo método de interpretação.

Konstantin Stanislavski (1863-193 - Pseudónimo de Konstantin Sergueievitch Alekseiev. Nasceu em Moscovo. Criado no meio artístico, cursa durante um tempo a escola teatral. Passa a dirigir espectáculos e, com Nemorovitch-Dantchenko, cria o Teatro de Arte de Moscovo, pioneiro na montagem de Tchekhov. Cria um método de interpretação em que o actor deve «viver» o personagem, incorporando de forma consciente a sua psicologia. O seu livro «A preparação do actor» é divulgado em todo o mundo e o seu método é usado em escolas como o Actor’s Studio, fundado nos EUA.


No Século XX


Expressionismo - Surge na Alemanha, entre a I e a II Guerras Mundiais. Advoga a explosão descontrolada da subjectividade e explora estados psicológicos mórbidos, sugerindo-os através de cenários distorcidos.

Peças de autores expressionistas - «A caixa de Pandora», de Frank Wedekind, «Os burgueses de Calais», de Georg Kaiser, «Os destruidores de máquinas», de Ernst Toller, «RUR», do checo Karel Capek, e «O dia do julgamento», do americano Elmer Rice, exibem também preocupação social, mostrando o homem em luta contra a mecanização desumanizadora da sociedade industrial, estudam os conflitos de geração e condenam o militarismo.

Futurismo - Forte durante os anos 20. Na Itália glorifica a violência, a energia e a industrialização. Na antiga URSS propõe a destruição de todos os valores antigos e a utilização do teatro como um meio de agitação e propaganda.

Autores futuristas - Os italianos, liderados por Filippo Tommaso Marinetti («O monoplano do papa»), evoluem para o fascismo, enquanto os russos, tendo à frente Vladimir Maiakovski («O percevejo» e «Mistério bufo»), usam o teatro para difundir o comunismo.


Construtivismo - Movimento artístico originário da Rússia pré-revo-lucionária, iniciado pelo escultor e arquitecto Vladimir Tatlin, e cujos objectivos foram enunciados em 1920 por dois escultores, os irmãos Naum Gabo e António Pevsner, no «Manifesto Realista». Nascido de escultores e para a escultura, o Construtivismo iria afectar profundamente todas as artes plásticas, ao procurar esbater as barreiras que separam a pintura da escultura, e levando ambas para os domínios da arquitectura. Intimamente relacionado com a pintura cubista, e com a arquitectura funcionalista, o Construtivismo adoptou fervorosamente os materiais que a ciência e a tecnologia iam colocando à disposição dos artistas.


Teatro estilizado - Uma corrente que busca colocar o irreal no palco, abandonando o apego excessivo à psicologia e ao realismo. Meyerhold é o encenador que leva mais longe essas propostas, lançando os fundamentos do que chama de «teatro estilizado».


Vsevolod Emilievich Meyerhold (1874-1940) - Nascido na Rússia, trabalha inicialmente como actor e começa como director teatral em 1905, indicado por Stanislavski. Dirige os teatros da Revolução e Meyerhold, encenando várias peças de Maiakovski. Utiliza o cinema como recurso teatral. Em algumas de suas montagens, o espectador pode ir ao palco, os actores circulam na plateia. Para Meyerhold, o actor deve utilizar o seu físico na interpretação, não ficando escravo do texto. Preso pela polícia estalinista após uma conferência teatral, em 1939, morre num campo de trabalhos forçados, provavelmente executado.


Surrealismo - Na França dos anos 20 e 30, os surrealistas contestam os valores estabelecidos. Apontam como seu precursor Alfred Jarry que, no fim do século XIX, criou as farsas ligadas ao personagem absurdo do Rei Ubu. Antonin Artaud é o principal teórico desse movimento.

Antonin Artaud (1896-194 - Actor, poeta e director teatral nascido em Marselha, França, Artaud formula o conceito de «teatro da crueldade» como aquele que procura libertar as forças inconscientes da plateia. O seu livro «O teatro e seu duplo» exerceu enorme influência até aos dias actuais. Passou os últimos dez anos da sua vida internado em diversos hospitais psiquiátricos e morreu em Paris.

Teatro Épico - Tomando como ponto de partida o trabalho de Piscator, que lutava por um teatro educativo e de propaganda, o alemão Bertolt Brecht propõe um teatro politizado, com o objectivo de modificar a sociedade.


Autores épicos - Os principais seguidores de Brecht são os suíços Friedrich Dürrenmatt “A visita da velha senhora” e Max Frisch “Andorra”, e os alemães Peter Weiss (ex.:“Marat/Sade”) e Rolf Hochhuth (ex.:“O vigário”).
Na Itália, Luigi Pirandello («Seis personagens à procura de um autor») antecipa a angústia existencial de Jean-Paul Sartre («Entre quatro paredes») e Albert Camus («Calígula»).



Bertolt Brecht (1898-1956) - Dramaturgo e poeta alemão. Serve na I Guerra Mundial como enfermeiro, interrompendo para isso os seus estudos de medicina. Começa a carreira teatral em Munique, mudando em seguida para Berlim. Durante a II Guerra exila-se na Europa e nos EUA. Acusado de actividade antiamericana durante o macarthismo, volta à Alemanha e funda, em Berlim Oriental, o teatro Berliner Ensemble. Em «O círculo de giz caucasiano», «Galileu Galilei» ou «As espingardas da senhora Carrar», substitui o realismo psicológico por textos didácticos, comprometidos com uma ideologia de esquerda. Afirmando que, em vez de hipnotizar o espectador, o teatro deve despertá-lo para uma reflexão crítica, utiliza processos de «distanciamento», que rompem a ilusão, lembrando ao público que aquilo é apenas teatro e não a vida real.


Teatro Americano - Na década de 20 adquire pela primeira vez características próprias, marcado pela reflexão social e psicológica, e começa a ser reconhecido em todo o mundo. O seu criador é Eugene O'Neill, influenciado por Pirandello.

Autores americanos - Além de Eugene O'Neill, destacam-se Tennessee Williams, Clifford Oddets (“A vida impressa em dólar” ) , que retrata a Depressão, Thornton Wilder ( “Nossa cidade”) e Arthur Miller com textos de crítica social; e Edward Albee que, em “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, fala do relacionamento íntimo entre os indivíduos.

Teatro do Absurdo - A destruição de valores e crenças, após a II Guerra Mundial, produz um teatro anti-realista, que encara a linguagem como obstáculo entre os homens, condenados à solidão.

Autores do teatro do absurdo - Destacam-se o irlandês Samuel Beckett; o romeno naturalizado francês, Eugène Ionesco; o inglês, Harold Pinter. O francês Jean Genet (“O balcão”) escolhe assuntos "malditos", como a homossexualidade. “Tango”, do polaco Slawomir Mrózek, e “Cemitério de automóveis” e “O arquitecto e o imperador da Assíria”, do espanhol Fernando Arrabal, também marcam o período.

Tendências Actuais


Em anos mais recentes, alguns dramaturgos ainda se destacam, mas o eixo criador desloca-se para os grupos teatrais. As experiências dos grupos fundados nas décadas de 70 a 90 têm em comum a eliminação da divisão tradicional entre o palco e a plateia; além da substituição do texto de um autor único por uma criação colectiva e da participação do espectador na elaboração do espectáculo. A figura do director torna-se mais decisiva do que a do autor. O polaco Jerzy Grotowski é um dos maiores nomes do teatro experimental.


Jerzy Grotowski (1933-1999) - Nasceu em Rzeszów, Polónia. O seu trabalho como director, professor e téorico de teatro tem grande impacto no teatro experimental a partir da década de 60. De 1965 a 1984 dirige o teatro-laboratório de Wróclaw, onde propõe a criação de um «teatro pobre», sem acessórios, baseado apenas na relação actor/espectador. Em 1982 passa a morar nos EUA e depois em Itália, onde vive e trabalha no Centro de Pesquisa e Experimentação Teatral de Pontedera. Morre em 1999.

Grupos teatrais - Destacam-se o Living Theatre, de Julian Beck e Judith Malina; o Open Theatre, de Joseph Chaikin; o Teatro Campesino, de Luís Miguel Valdez; o Bread and Puppet, de Peter Schumann; o Odin Teatret, de Eugenio Barba; o Centro Internacional de Pesquisa Teatral, de Peter Brook; o Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine; o Grand Magic Circus, de Jérôme Savary; o Squat, de Budapeste; o Mabou Mines e o Performance Group, dos EUA; e as companhias dos americanos Bob Wilson, Richard Foreman, Richard Schechner e Meredith Monk; dos italianos Carmelo Bene, Giuliano Vassilicò e Memè Perlini; do falecido polaco Tadeusz Kantor e a do britânico Stuart Sherman.

Peter Brook (1925- ) - Nasce em Londres e estuda em Westminster, Greshams e Oxford. Como diretor teatral, nos anos 60, inova em montagens de Shakespeare como “Rei Lear” e em “Marat/Sade”. Em 1970 transfere-se para Paris fundando o Centro Internacional de Pesquisa Teatral. Centra o seu trabalho na valorização do actor. Trabalha com pessoas de diversas nacionalidades para que as diferenças culturais e físicas enriqueçam o resultado final. Uma de suas montagens mais conhecidas, “Mahabharata”, é adaptada de um clássico indiano.


Autores actuais - Os autores mais representativos do final do século XX são os alemães Peter Handke («Viagem pelo lago Constança»), Rainer Werner Fassbinder («Lola»), também director de cinema, Heiner Müller («Hamlet-Machine») e Botho Strauss («Grande e Pequeno»); o americano Sam Sheppard («Loucos de Amor»), o italiano Dario Fo («Morte acidental de um anarquista») ou o chileno Ariel Dorfman («A morte e a donzela»).

Teatralismo - Na década de 90, musicais como «Les misérables», dirigido por Trevor Nunn e John Caird ou «Miss Saigon», dirigido por Nicholas Hytner, ilustram a tendência para o chamado «teatralismo», que privilegia a exploração dos recursos específicos da linguagem de palco - encenações elaboradas, estilizadas, ricas em efeitos especiais e ilusões teatrais.


Retirado de:
http://www.anta.pt/html/modules.php?op=modload&name=Forums&file=viewtopic&topic=157&forum=15

Palavras brechtianas


Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis

Bertold Brecht

26.3.05

Os exterminadores do planeta


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Os especialistas do meio ambiente, que se reproduzem como coelhos, dedicam-se a embrulhar a ecologia em papel de celofane. A saúde do planeta está feita num asco, mas a linguagem oficial dominante é ocultar as responsabilidades ao proclamar: «Somos todos responsáveis»!!!

Toda a humanidade paga pelas consequências da ruína da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da delapidação dos bens que a natureza oferece. Mas as estatísticas revelam que são 25% da humanidade que comete os 75% dos crimes contra a natureza. E se compararmos o norte e o sul, cada habitante do norte consume 14 vezes mais papel e 13 vezes mais ferro e acero. Cada norte-americano lança para o ar, em média, 22 vezes mais carbono que um indiano e 13 vezes mais que um brasileiro.
Chama-se suicídio universal ao assassinato que quotidianamente os membros mais prósperos do género humano, que vivem nos países ricos, executam, ou aqueles que, nos países pobres, imitam o seu estilo de vida: são aqueles países e aquelas classes sociais que definem a sua identidade com base na ostentação e no desperdício.
A difusão massiva deste modelos de consumo, se tal fosse possível, exigiria 10 planetas como o nosso para que os países pobres pudessem consumir tanto como os países ricos.

As empresas com mais sucesso são também as mais eficazes contra o nosso planeta. Os gigantes do petróleo, os aprendizes de feiticeiro da energia nuclear, a biotecnologia e as grandes empresas que fabricam armas, acero, alumínio, automóveis, pesticidas, plásticos e mio outros produtos sabem bem derramar lágrimas de crocodilo pela natureza. Mas estas empresas são as que mais dinheiro ganham com a ruína do planeta. São também as que mais dinheiro gastam: na publicidade, que converte a contaminação em filantropia, e nas ajudas aos políticos que decidem sobre o futuro do mundo.

Cinco anos depois da Eco-92, cimeira mundial convocada pela ONU para tratar dos problemas ambientais, outra cimeira se realizou com os mesmos propósitos. Mas, entretanto, o planeta já tinha sido desfolhado da sua pele vegetal a um tal ritmo que as florestas tropicais destruídas equivaleriam a duas Itálias e meia, e as terras férteis que se tornaram áridas teriam a extensão da Alemanha. Além disso, durante esse quinquénio extinguiram-se 250 mil espécies de animais e plantas, a atmosfera estava mais que nunca intoxicada, mil trezentos milhões de pessoas não tinham casa nem comida, e 25 mil morriam em cada dia por beberem água que os venenos químicos ou os despejos industriais tinham contaminado.

Quem mais sofre com tudo isto são, como é costume, os pobres, quer as pobres gentes quer os mais países mais pobres do planeta, que são condenados a expiar os pecados alheios.

O economista Lawrence Summers, doutorado em Harvard e elevado às mais altas hierarquias do Banco Mundial, propunha, num documento para uso interno da instituição, que por descuido foi tornado público, a migração da indústrias sujas e dos desperdícios tóxicos para os países menos desenvolvidos por razões de lógica económica que tinha a ver com as vantagens comparativas desses países. Por palavras mais claras as tais vantagens seriam três: os salários raquíticos, os grandes espaços que significariam que havia ainda muito por contaminar e a escassa incidência do cancro sobre as populações pobres, que tinham o hábito de morrer precocemente por outras causas. A divulgação deste documento provocou algum alarido: estas coisas fazem-se, mas não se dizem. Mas Summers, afinal, tinha apenas cometido a imprudência de expressar no papel aquilo que o mundo já há muito tempo vinha fazendo: transformar o sul numa lixeira do norte.

Há 16 séculos que São Ambrósio, padre e doutro da Igreja, proibiu a usura entre os cristão mas autorizara a mesma contra os bárbaros. Nos nossos dias acontece o mesmo com a contaminação mais assassina. O que está mal no norte, está bem no sul; o que no norte está proibido, é bem-vindo no sul. Pelo sul estende-se o reino da impunidade.

Nos finais de 1984 na cidade indiana de Bhopal, a fábrica de pesticidas da empresa química Union Carbide sofreu um grave acidente no qual foram libertados 40 toneladas de gás mortal. O gás estendeu-se por toda a região e matou 6.600 pessoas e provocou doenças a mais de 70.000, muitas das quais morreram pouco depois. Acontece que a Union Carbide não seguia na índia as normas de segurança a que seria obrigada se estivesse nos Estados Unidos.

Union Carbide e Dow Chemical vendem, na América Latina, numerosos produtos proibidos no seu país de origem, e o mesmo ocorre nos outros gigantes da indústria química mundial. Na Guatemala,por exemplo, as avionetas fumigam as plantações de algodão com pesticidas cuja venda está proibida nos Estados Unidos, e esses venenos infiltram-se nos alimentos, desde o mel até aos peixes até chegar à boca dos bebés. De resto, já em 1974, uma investigação do Instituto de Nutrição da América Central tinha comprovado que, em muitos casos, o leite das mães guatemaltecas estava contaminado 200 vezes mais que o limite aceitável.

A impunidade da empresa Bayer vem dos tempos em formava parte do consórcio IG Farben e usava a mão de obra gratuita dos prisioneiros de Auschwitz. Muitos anos depois, nos princípios do ano de 1994, um militante ecologista do Uruguai tornou-se accionista da Bayer por um dia. Graças à solidariedade dos seus companheiros alemães, ele pôde fazer ouvir a sua voz na Assembleia de accionistas do segundo maior produtor mundial de pesticidas. Numa reunião pródiga em cervejas, salsichas com mostarda e aspirinas à discrição, Jorge Barreiro perguntou porque é que a empresa vendia no Uruguai 20 agrotóxicos que não estavam autorizados na Alemanha por terem sido considerados «extremamente perigosos» e outros cinco classificados como «altamente perigosos». Aconteceu, então, mais uma vez, o que era previsível. Com efeito, cada vez que alguém interpela os executivos da Bayer sobre a vendas aos países do Sul de venenos proibidos aos do Norte, a resposta é sempre a mesma: que a empresa não viola as leis dos países onde operam, o que é formalmente correcto, e que os produtos são inofensivos. O que fica sempre por explicar é o enigma de saber porque é que esses bálsamos químicos não podem ser desfrutados nos países do Norte…



Em Taiwan um terço do arroz não se pode comer, porque está envenenado mercúrio, arsénico ou cádmio; na Coreia do Sul só se pode beber água de alguns poucos rios; e na China não peixes em metade dos rios.

Em suma: o século XX terminou a pintar naturezas mortas

Biopirataria

Sem dó nem piedade andam os biopiratas, por esse mundo fora, a fazer das suas...Aproximam-se, arrancam as sementes, patenteiam-nas e convertem-nas em êxito comercial.

Quatrocentos povos indígenas da região amazónica acabaram de denunciar, recentemente, a empresa International Plant Medicine Corporation que se tinha apoderado de uma planta sagrada da região, a ayahuasca, o equivalente à hóstia para os cristãos. A empresa tinha patenteado a ayahuasca no Departamento de Marcas e Patentes dos Estados Unidos e começado a produzir com ela mediamentos para doenças psiquiátricas e cardiovasculares. A ayahuasca é, desde então, propriedade privada!!!


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Quem são os pobres...



Pobres são os que não têm tempo para perder tempo
Pobres são os que não têm silêncio, nem podem comprá-lo
Pobres são os que têm pernas mas que se esqueceram de caminhar, como as asas das galinhas que se esqueceram de voar
Pobres são os que comem lixo e pagam por isso como se fosse comida
Pobres são os que têm direito a respirar merda, como se fosse ar, sem pagar nada por ela
Pobres são os que não têm outra liberdade que não a de escolher um dos canais de televisão
Pobres são os que vivem dramas passionais com as máquinas
Pobres são os que são sempre muitos e que estão sempre sozinhos
Pobres são os que não sabem que são pobres.


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Endivido-me, logo existo!



Há uns atrás, o homem que não devia nada a ninguém era um exemplo de virtude e honestidade. Hoje, é um extraterrestre. Sim, porque hoje quem não tem dívidas, não existe. Endivido-me, logo existo.

A difusão massiva do crédito transforma a cultura do quotidiano: as aparências tornam-se no núcleo da personalidade, o artifício torna-se um autêntico modo de vida, e a utopia tem 48 meses de prazo para ser paga.


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

O racismo das lixeiras industriais nos USA


Nos Estados Unidos o mapa ecológico é também o mapa racial.
As fábricas mais poluidoras e as lixeiras mais perigosas estão localizadas nas bolsas de pobreza onde vivem os negros, os índios e a populaçãolatino-americana.
A comunidade negra de Kennedy Heighs, em Huston, Texas, habita terras arruinadas por resíduos de petróleo da Gulf Oil.
Os habitantes de Covent são quase todos negros. Trata-se de uma povoação do Louisiana onde existem 4 das fábricas mais sujas e poluidoras do país.
Também eram, na sua esmagadora maioria, negros, aqueles que foram parar à urgência do hospital quando, em 1993, a General Chemical, deixou libertar chuva ácida no norte da cidade de Richmond, na baía da Califórnia.
Um relatório da United Church of Christ, publicado em 1987, já advertia que era a população negra e os latinos que viviam perto dos aterros tóxicos.
Para não destoar as lixeira nucleares também se situam nas reservas indígenas, em troco de dinheiro e promessas de empregos.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro


O suplício de tântalo atormenta os pobres. Condenados à sede e à fome, estão também condenados a contemplar os manjares que a publicidade lhes oferece. Mas quando aproximam a boca e estendem o braço, essas maravilhas logo desaparecem. E se algum se precipita, lançando-se ao assalto, acabam em ir parar à prisão ou ao cemitério.
São manjares de plásticos, sonhos de plástico. E de plástico é o paraíso que a televisão lhes promete todos os dias, mas só a poucos permite o acesso. Nesta civilização onde as coisas importam cada vez mais, e as pessoas cada vez menos, os fins foram sequestrados pelos meios: são as coisas que te compram, é o automóvel que te manipula, o computador que te programa, e a televisão que te observa.


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

Uma anedota sobre o consumismo


Despista-se um automóvel à saída de Moscovo num dia cinzento e chuvoso. O condutor sai do carro a berrar:
- Oh, o meu Mercedes…o meu Mercedes
Alguém que vai a passar diz-lhe:
- Tenha calma. Não se preocupe com o carro. Não vê que perdeu o braço.
O homem virando-se então para o lado, começa a chorar convulsivamente ao mesmo tempo que se lamenta em voz baixa:
- Oh, o meu Rolex…o meu Rolex!


( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

A linguagem dos poetas do neo-realismo capitalista



Todos conhecemos o naturalismo e o realismo na pintura e na literatura do século XIX. Também poucos desconhecem o neo-realismo socialista em meados do século XX graças a escritores bem conhecidos.
Chegou a altura de tomarmos contacto com a linguagem dos poetas do neo-realismo capitalista através de um pedaço da sua prosa:
«…a assinatura do tratado de livre comércio maximizou as oportunidades de utilização dos recursos oferecidos pelas vantagens comparativas…»

( excerto do livro de Eduardo Galeano, «Pernas para o ar, o mundo visto de pernas para o ar», existe tradução portuguesa na Editora Caminho)

25.3.05

A Filosofia contra o Cristianismo



Na Antiguidade o filósofo vivia como filósofo. A prova da sua essência era a sua existência. Graças as seus hábitos alimentares, à vasta guedelha ou ao cabelo rapado, ao bordão, à tigela, ao manto de linho branco ou aos andrajos, qualquer sabia que estava perante um filósofo estóico ou cínico. Nesse tempo, filósofo designava o indivíduo que punha em prática uma teoria, teoria essa graças à qual ele visava atingir a sabedoria.

O cristianismo oficial irá modificar a definição de filósofo – e ainda hoje vivemos parcialmente sob o regime cristão. O cristianismo chama filósofo à personagem que põe a sua inteligência, saber, retórica e trabalho ao serviço do poder vigente, forgando para uso dos poderosos um arsenal de conceitos que permita a legitimação política da sua acção. Durante o regime cristão, a filosofia funcionou como disciplina incestuosa e segundo uma lógica de gabinetes. Os filósofos esforçavam-se através de esforçadas dissertações sobre o sexo dos anjos, sobre o seu número bem como a sua disposição nos tronos no Paraíso, sobre a excelência da guerra santa e justa, sobre os fundamentos ontológicos da transubstanciação (=conversão da hóstia em Corpo de Cristo!!!!) e outras empolgantes questões de um corpo eclesiástico que continua a fascinar alguns filósofos contemporâneos amadores de sofismarias e retóricas absconsas.

Ainda hoje operam na filosofia estas duas tradições: uma linhagem existencial, e uma linhagem de gabinete.
Os primeiros pensam com vista a uma salvação individual, visando uma vida transfigurada, para além da vida mutilada da maior parte das pessoas. São filósofos 24 horas por dia e procuram fazer coincidir os seus pensamentos com as suas acções.
Os segundos reflectem para outrem, e não aplicam forçosamente as suas conclusões; possuem ainda grandes habilidades para dar lições ao mundo inteiro.


(Excertos de um texto de Michel Onfray publicado no Le Monde Diplomatique de Novembro de 2004)

A Rainha Vitória foi a maior traficante de drogas!


A Rainha Vitória da Inglaterra deu o nome a uma época, a era vitoriana, que está associada ao puritanismo moral e ao culto dos valores tradicionalistas.

Acontece que a mesma Rainha Vitória foi a maior traficante de drogas do século XIX. Com efeito, sob o seu reinado, o ópio converteu-se na mercadoria mais valiosa de todo o comércio imperial. O cultivo e a produção desenvolveu-se na Índia por iniciativa e sob o controle dos ingleses. A droga entrava na China e calculam-se que existiriam 12 milhões de drogados chineses quando, em 1839, o Imperador Chinês, face aos efeitos devastadores daquela droga junto da população do seu país, resolveu proibir o comércio e o uso do ópio.

A Rainha Vitória, quando tomou conhecimento daquela resolução, apressou-se logo a qualificá-la como um imperdoável ataque e violação à liberdade comercial e, de imediato, enviou a Esquadra Inglesa para as costas da China e o seu Exército invadir aquele país, dando início à chamada guerra do ópio entre os chineses ( que queriam proibir) e os ingleses ( que defendiam a sua livre comercialização).
Em 1860 a cidade de Pequim cai às mãos das tropas invasoras da Inglaterra e logo os ingleses restabeleceram o livre comércio do ópio e deram vivas à sua Majestade a Rainha!!!!

Alterconsumidores versus Hiperconsumidores

Os Hiperconsumidores são grandes consumidores de produtos tecnológicos,jogos de azar e capitalização do dinheiro. Gostam do desporto-espectáculo na TV ou nos jornais, frequentam os parques de divertimento, e compram nas catedrais do consumo em que se transformaram os centros comerciais e os hipermercados. Adoram a publicidade. Nas revistas procuram tudo o que ajuda a melhorar a aparência física especialmente as rubricas sobre a maquilhagem, a beleza e a moda. Os hiperconsumidores são superconsumidores do fast food (comida rápida), das pastilhas elásticas e dos gelados.
.
Os Alterconsumidores não gostam da publicidade. Estão prontos a gastar mais tempo e mais dinheiro para encontrar produtos que respeitem o ambiente além de preferirem produtos reciclados. Rejeitando a ideia que o automóvel lhes dá algum status social eles utilizam-no sómente como meio instrumental de deslocação de um local para outro. Lêem normalmente a imprensa de qualidade e são visitantes dos museus. Passam menos tempo à frente de um aparelho de televisão. Os alterconsumidores privilegiam geralmente os paladares e os gostos intensos e autênticos
(adaptação de um texto publicado no Le monde de 15/7/04)

24.3.05

Centenário de Júlio Verne, um escritor sem deus nem amo



No dia 24 de Março de 1905 morria, aos 77 anos, um dos mais populares escritores da língua francesa, Jules Verne (1828-1905). Considerado como um escritor de livros para a infância, o seu valor está longe de ser devidamente avaliado. Em todos os seus escritos, a sociedade prevista por este visionário é uma sociedade anarquista, ao que não é certamente estranho o convívio que manteve com o seu amigo Piotr Kropotkin.
Para compreender a obra de Verne é indispensável situá-la em relação a três correntes ideológicas do século XIX francês: a solidariedade com as nacionalidades, a fé saintsimoniana na expansão económica e a crítica social anarquista levada até à negação mais radical.

Esta última influência levou Jules Verne para a crítica social e o individualismo libertário. Talvez seja a mais secreta das características de Jules Verne. Para a descobrir, teríamos de nos contentarmos com episódios e personagens aparentemente secundárias, ou até mesmo com deduções, se não acontecesse o caso de, no final da sua vida, Jules Verne não tivesse dado livre curso às suas simpatias anarquistas, e o lema «sem deus nem amo» viesse a ecoar com toda a sua energia no seu livro póstumo «Os náufragos de Jonathan», que se destaca pois para conhecermos o seu pensamento político

Nas suas Viagens Extraordinárias, que marcam a sua obra literária e se tornaram famosas , arremete contra o ouro, considerado como instrumento fictício de poder e riqueza. Com efeito, o ouro representa sempre um valor convencional muito relativo. Numa das cenas inolvidáveis, um dos seus personagens, o Doutor Ferguson que viajava num engenho construído por ele próprio, e que se abastecera de sacos de ouro para a viajem, decide lança-los pela borda fora à medida que a viajem prossegue e se torna necessário aligeirar o aeróstato.

O único caso em que o ouro ganha outra conotação que não seja negativa é o episódio doa galeões da Baía de Vigo encontrados por Nemo graças ao seu Nautilus e que lhe dará recursos ilimitados. Não obstante, o ouro está ao serviço de um homem que rompera com a sociedade e que considera necessário a ajuda aos oprimidos. Por isso mesmo, Nemo não hesita em enviar uma quantidade importante aos insurrectos candiotas por intermédio de um emissário.

É certo que, nas suas narrativas, não é feita uma análise profunda das forças económicas nem das desigualdades sociais. Praticamente não é feita alguma referência à produção e à exploração do trabalho pelo capital, que, no entanto, é coisa bem conhecida à época.

Em contrapartida Jules Verne ataca o direito de propriedade. As atribuições dos terrenos aos mineiros, a fragilidades das bases das minas, os erros cometidos na exploração dão-lhe os argumentos para criticar o carácter convencional e revocável da propriedade da terra.

A crítica social é vigorosa ainda que não seja manifestamente anarquista. Já o desacordo com a autoridade estatal, a distribuição de terras e a existência de fronteiras mostram-nos um registo claramente de teor anarquista. Jules Verne rejeita liminarmente o carácter frágil, litigioso das fronteiras e soberanias territoriais. Cenas há que mostram todo o seu ridículo, como daquela vez em que o tratado de cessão do Alaska aos Estados Unidos, e consequente transferência de soberania da Rússia para os EUA, coincide com a apresentação de um proscrito russo na fronteira e o seu receio de cair nas mãos da polícia czarista.
Relativamente à temática do nacionalismo, alguns laivos de patriotismo não influenciam ,no entanto, o sentido geral da sua obra. A comunidade social criada pelo capitão Nemo é a expressão clara da vontade de ultrapassar as nacionalidades. A tripulação do Nautilus fala de uma linguagem artificial e incompreensível e só quando está prestes a morrer um dos embarcadiços, apanhado por um polvo gigante, é que grita por socorro em francês.

Os juízes são vistos como pretensiosos e burocratas: todo o acusado é, para eles, um culpado. Os policías são antipáticos e cínicos. O erro judicial, tema caro à literatura anarquista da época, é o símbolo do conflito da sociedade e do indivíduo, assim como do carácter inseguro da justiça institucional.

A posição de Verne acerca da criminalidade é algo ambígua. As bandas de foragidos e de piratas, que intervêm amiúde nos seus relatos, são descritas com traços negativos, mas visto mais de perto surpreendemo-nos com uma secreta estima do autor pelo vigor humano destes fora de lei.

À sociedade estabelecida, com o seu rol de obrigações e formalismo, os anarquistas opõem os «meios livres», pequenas comunidades voluntariamente criadas e fundadas na solidariedade e no apoio mútuo segundo a tradição proudhoniana. Tais comunidades encontram-se frequentemente em «Os Mundos conhecidos e desconhecidos» e resultam, fortuitamente, de catástrofes ou de aventuras: os colonos da «Ilha Misteriosa», quando o seu engenho cai por força de uma tempestade; a guarnição do Forte-Esperança, enviada pela Companhia da Baía de Hudson para criar um estabelecimento subpolar e que se instala numa plataforma de gelo, coberta de terra, e que continuamente anda à deriva; Hetteras e os seus companheiros, passando o Inverno perto do Pólo dentro do seu abrigo de gelo; a colónia do capitão Savardac, levada pelo cometa Gália; os náufragos da Segunda pátria, algo inspirados pelo célebre Robinson suíço; os pupilos da pensão Chairman, abandonados numa ilha do Estreito de Magalhães durante dois anos devido ao naufrágio do seu «brick», à deriva ( em « Dois anos de férias»); a tripulação do Nautilus.

Todas estas colectividades nascidas da aventura caracterizam-se pela sua natural harmonia: os conflitos nacionais não existem, ou acabam por se esfumar; cada qual desenvolve as suas qualidades humanas, concretizando simultaneamente escolas de iniciativa pessoal e de solidariedade. Diferenciam-se, no entanto, dos «meios livres» anarquistas por uma diferença fundamental: é que as colectividades de Verne são dirigidas por um chefe, um organizador da actividade económica e da vida social. Esse chefe é geralmente um oficial ( o capitão Savardac, o tenente Hobson den En), ou por um técnico e um sábio ( Nemo, Robur, o engenheiro Cyrus Smith). Também os jovens da pensão Chairman sentem a necessidade de eleger um chefe por sufrágio universal.

Quando Verne exalta a revolta do indivíduo FACE à sociedade, situa-se já muito próxima da perspectiva anarquista. Nas Vinte Mil Léguas Submarinas a bandeira de Nemo é negra, e o Pólo Sul no mapa está livre de qualquer possessão estatal. Esta aparição da bandeira negra e da pirataria é uma constante no universo verneriano. Os camponeses canadianos arvoram-na também quando se revoltam contra os ingleses («Família sem nome») com gritos determinados: «Fora os tiranos; o povo desperta…União dos povos, terror dos grandes…Antes uma luta sangrenta que a opressão pelo poder corrupto». Nesse relato aparece uma bandeira com uma caveira e dois ossos em cruz, com o nome dos governadores detestados, Dalhouise e Craig. Já a bandeira do engenheiro Robur é negra com um sol amarelo, mas a que o pirata Sacratif iça, quando atacava os navios gregos na luta contra os turcos (em «O Arquipélago em chamas») também é uma bandeira negra, desta vez com um S; e é também a bandeira negra que levam os piratas quando sitiam os colonas da Ilha Misteriosa. Ou seja, a bandeira negra aparece na obra de Verne com uma ambiguidade muito significativa, tanto como um emblema de pessoas desprezíveis como nas mãos de heróis positivos.

As Vinte mil Léguas Submarinas é a obra de Verne mais reveladora das suas simpatias libertárias, pelo menos antes da publicação póstuma de «Os Náufragos de Jonathan», sendo oportuno recordar aqui a lenda segundo a qual Louise Michel seria a verdadeira autora da novela, cujo argumento teria vendido por cem francos num dia de fome. Esta lenda, contada desta forma, é obviamente falsa. O manuscrito da obra foi remetido a Hetzel em Dezembro de 1868, isto é, muito antes da data da suposta cedência a Jules Verne. Além disso é praticamente impossível que Louise Michel tenha imaginado o nome de Nautilus ao recordar-se das conchas chamadas «nautilus» que ela encontrara nas praia da Nova Zelândia aquando da sua deportação.

O estudo dos arquivos de Verne talvez revelem que, desde o fim do Império, o autor relacionou-se com a inteligentsia antiautoritária de Paris, como a amizade que manteve com os irmãos Reclús e o seu grupo, e como o seu amigo Nadar, que evoluirá mais tarde para o anarquismo.

Os Náufragos de Jonathan, obra póstuma editada em 1909, foi redigida nos últimos tempos de vida, em data incerta. E não há nenhuma razão para suspeitar da sua autenticidade como fez um erudito italiano da Sociedade Jules VerneNa verdade esta obra, de um vigor excepcional, reincide coerente e explicitamente nas temáticas anarquistas que tinham sido veladamente introduzidas nos volumes das Viagens Extraordinárias. Ninguém, que não Verne, teria sido capaz de operar esse reagrupamento temático. Pode igualmente notar-se que nos Náufragos de Jonathan, tal como em «Filhos do Capitão Grant» e na «Ilha Misteriosa», Verne elabora um plano ternário, mais amplo e mais dramático, enquanto todas as demais produções apenas têm uma ou duas partes, o que significa que se trata de uma obra importante aos olhos do seu autor, já que se sabe que Verne não confiava ao acaso em matéria de composição literária.

Na ilha do Estreito de Magalhães, a ilha Hoste, vive um proscrito, Kaw Djer. Este anarquista abandonou o mundo civilizados, e não conhece outro principio social que não seja a liberdade de cada individuo. Face à civilização, ele prefere a vida primitiva dos habitantes do país. Um navio americano, o Jonathan, naufraga nessas longínquas paragens; os seus passageiros são emigrantes que uma companhia colonial recrutou na Califórnia para os enviar para África. Toda essa gente desembarca em grande confusão e desordem, e Kaw Djer vê-se obrigado, a contragosto, a dirigir, mandar e organizar a vida social dos recém chegados. Graças à carga que o navio transportava, os náufragos preparam-se para ali passar o Inverno. O governo chileno – do qual a ilha depende desde assinatura de uma tratado com a Argentina – concorda em conceder a independência à ilha Hoste desde que os colonos aceitem o compromisso de explorá-la. Daí resultará o nascimento de um povo, e uma experiência de uma sociedade nova. Emerge então uma cidade – Libéria – mas a experiência não é feliz. Políticos socialistas e comunistas criam clientelas particulares incapazes de se organizarem em colectividade.

A fome aparece no Inverno seguinte, e formam-se duas bandas que se envolvem Numa guerra civil entre o grupo do socialista Beauval ( que conseguira ser eleito governador) e o grupo do comunista Dorick.
Pela segunda vez Kaw Djer aceita a função de dirigente cujo princípio o incomoda. Restabelece a ordem, reorganiza a agricultura e o comércio, e derrota uma invasão dos patagónicos, mas assiste impotente à chagada em massa de aventureiros dos 5 continentes, atraídos à ilha pelo ouro, quando são descobertas algumas pepitas.

A desordem reinstala-se e Kaw Djer vê-se obrigado a disparar contra os mineiros em revolta, contando-se mais de mil mortos, e dando o pretexto ao Chile para revogar a concessão de independência da ilha. Kaw Djer abdica, refugiando-se na ilha de Hornos para se entregar a uma vida solitária.

Diversas problemáticas anarquizantes, presentes em toda a obra de Verne, voltam a ganhar relevo nesta novela: o ouro, a propriedade, as fronteiras territoriais e as soberanias estatais. O carácter fictício do ouro como fundamento do valor económico é tanto mais manifesto quanto se trata de uma sociedade nova, logo, livre de todas as convenções. Por outro lado, o direito de propriedade é posto em dúvida. Assim como o problema da apropriação estatal dos territórios do planeta, o carácter fictício e convencional das fronteiras e das soberanias voltam à ribalta com uma acuidade particular.

No início da novela é dito explicitamente que La Magallania é uma terra livre de qualquer poder estatal, tal como o Pólo Sul quando Nemo nele instala a bandeira negra. É sob esta condição que a ilha atrai Kaw Djer que nela decide ficar.

Jules Verne aborda igualmente em «Os Náufragos de Jonathan» o carácter irrisório das declarações de guerra e as formalidades diplomáticas nelas envolvidas. O mundo dos náufragos é um microcosmos que revela ( para Verne) toda a experiência histórica das sociedades humanas.

A dado passo do relato uma jovem quer casar-se contra a vontade do seu pai. Estala então uma crise entre o governador ( o socialista Beauval) e o grupo de amigos de Kaw Djer. Como a tensão aumenta os kaw-djeristas derrubam a ponte de madeira que separa as suas casas da zona ocupada pelos adversários.

O interessa maior da novela radica no facto do autor expor as suas ideias anarquistas por intermédio do protagonista Kaw Djer. Facto tanto mais interessante quanto é certo que Verne tenha quebrado o seu mutismo em matéria política que guardara ao longo da sua obra, para manifestar explicitamente as suas simpatias para com o anarquismo.

Kaw Djer é o único personagem em toda a obra de Verne que desenvolve sistematicamente e de forma coerente uma filosofia política, e tal não se deve a um deslize relativamente ao que então fora seguido por Verne. Todos os comentadores vão neste sentido. Ao longo do relato podemos encontrar toda a predisposição de Kaw Djer para a anarquia. Trata-se do culto da liberdade e da independência. Claramente se vê em Kaw Djer «uma alma feroz, indomável, intransigente, refractária a todas as leis».

Jules Verne toma o cuidado de, em seguida, distinguir dois tipos de anarquistas: uns «corroídos pela inveja e pelo ódio, prontos para a violência e a morte»; outros, «os verdadeiros poetas que sonham com uma humanidade quimérica na qual o mal tenha sido afastado». Escusado dizer que Kaw Djer pertence ao grupo «dos sonhadores e não ao dos profissionais da violência».

O núcleo essencial da novela reside na confrontação trágica entre as concepções anarquistas de Kaw Djer e a sociedade em vias de organização na ilha Hoste após o naufrágio. A novela não relata uma simples aventura juvenil, mas um drama moral com uma intensidade especial.

Kaw Djer vê, com efeito, as teorias rebatidas, ou pelo menos, defraudadas por causa do comportamento dos náufragos: o apego à propriedade, o egoísmo, a aceitação da autoridade alheia, o desprezo pelo interesse geral, e não faltará até a guerra civil para agitar aquele microcosmos. Curiosamente, as convicções anarquistas do protagonista não saíram enfraquecidas, antes pelo contrário, vêem-se reforçadas no balanço final dos episódios relatados .

Em resumo, o anarquismo que Jules Verne nutriu algum interesse e simpatia é o dos anos 1880-1830, antes dos atentados sangrentos ( dos quais as «Viagens Extraordinárias» não fazem qualquer menção). É também anterior ao reencontro entre o anarquismo intelectual e o movimento operário, isto é, o anarcosindicalismo. Por esse facto é que o proletariado da grande indústria está praticamente quase ausente na obra do grande escritor e visionário

Autor: Jean Chesneaux ( tradução e reprodução parcial do seu artigo Drapeau noir)


Alguns livros essenciais:
Cinco semanas num globo (1863)
Viagem ao centro da Terra (1864)
Da Terra à lua (1865)
Aventuras do capitão Hetteras (1866)
Os filhos do capitão Grant ( 1867)
Vinte mil léguas submarinas (1879)
A volta ao mundo em 80 dias ( 1872)
A ilha misteriosa (1874)
Miguel Strogoff (1876)
Os Náufragos de Jonathan ( editado postumamente)


Links:
www.jules-verne.net
www.nantes.fr/mairie/services/responsabilites/dgc/julesverne
www.fredericviron.com/verne/modules/news




A religião do automóvel e a liturgia do divino motor





Ao deus das quatro rodas acontece o mesmo que aos outros deuses: nascem ao serviço das pessoas, quais mágicos conjuros contra o medo e a solidão, mas terminam invariavelmente colocando as pessoas ao seu serviço. A religião do automóvel, com o seu Vaticano nos Estados Unidos, põem o mundo em rodas .

A imagem do Paraíso é simples: cada norte-americano tem um automóvel e uma arma de fogo. Efectivamente, nos Estados Unidos concentra-se o maior número de automóveis assim como o mayor arsenal de armas, que constituem os dois negócios chave da economia nacional.

Em cada 6 dólares que gasta o cidadão médio norte-americano, um é consagrado ao automóvel; e de cada seis horas de vida, o mesmo cidadão reserva um hora para viajar de carro, ou então a trabalhar para o pagar; e de cada 6 empregos existentes no «paraíso», um está directa ou indirectamente relacionado com a violência e as suas indústrias.

Curiosamente quanta mais gente os automóveis e as armas assassinam, mais o Produto Interno Bruto cresce.
Como bem escreve o investigador alemão Winfried Wolf, no nosso tempo, as forças produtivas converteram-se em forças destrutivasSão talismãs contra o desamparo ou convites ao crime? A venda de automóveis é simétrica com a venda de armas, e bem se pode dizer que ambas fazem parte de um todo. Os acidentes de trânsito matam e ferem mais americanos que todos os soldados norte-americanos mortos e feridos na guerra do Vietname, e a licença de conduzir é o único documento necessário para que qualquer cidadão possa comprar uma metralhadoras com ela alvejar a vizinhança A licença de condução serve, além disso, para pagamento de cheques, para a sua cobrança, assinar contratos e realizar vários trâmites.

Nos Estados Unidos a licença de conduzir faz as vezes de um documento de identidade. Bem se pode dizer que os automóveis outorgam a identidade às pessoas.

Diz-me que carro tens e dir-te-ei quem és e quanto vales. Esta civilização que adora os automóveis tem pânico à velhice; o automóvel, promessa da eterna juventude, é realmente o único «corpo» que se pode trocar.
A este corpo de quatro rodas se consagra, além do mais, grande parte de publicidade da televisão, a maior parte das horas de conversa e a maior parte do espaço citadino. O automóvel dispõe de restaurantes, onde se alimenta de nafta e óleo, ao seu serviço estão um sem número de farmácias onde compra remédios, e não lhe faltam hospitais onde lhe fazem revisões, o diagnosticam e o curam, sem falar dos seus dormitórios, onde dorme, e dos cemitérios onde acaba por morrer.

Os automóveis prometem liberdade às pessoas, e não é por acaso que às auto-estradas se lhes chama «freeways», não obstante agem como se autênticas jaulas se tratassem.

O tempode trabalho humano vai-se reduzindo pouco a pouco, mas em troca cada ano aumenta o tempo necessário para ir e vir do trabalho, furando por entre o trânsito caótico. Acaba-se por viver dentro dos automóveis, e já não nos conseguimos soltar. Drive-in by shootting : sem sair do automóvel já se pode apertar o gatilho e disparar, como agora é moda em Los Angeles. Drive-thru teller, drive in restaurant, drive-in movies: sem saiir do automóvel já se pode levantar dinheiro, comer hamburgers e ver filmes. A última novidade é a possibilidade de se casar sem sair do automóvel: é o drive-marriage. No Nevada, o automóvel entra por debaixo de arcos repletos de flores de plástico, por uma janela aparecem as testemunhas, e por outra o padre, que abençoa e declara solenemente como marido e mulher os felizes passageiros. No fim da trajecto encontra-se uma funcionária que lhes entrega o documento sob o nome de Love donation.

O automóvel, corpo renovável, tem sempre mais directos que o corpo humano, condenado à decrepitude. Os Estados Unidos fizeram nos últimos anos uma guerra santa contra o tabaco. Não há publicidade ao tabaco que não tenha advertências contra os malefícios para a saúde pública. Todavia, em nenhuma publicidade aos automóveis se adverte que muito mais monóxido de carbono emitem os carros para a atmosfera.

Ou seja, as pessoas não podem fumar, mas os automóveis podem.

(Tradução e reprodução parcial de um texto de Eduardo Galeano.)

Estados Unidos Manipulam informações



Os Estados Unidos manipulou informações em 1991 para justificar e legitimar a guerra

Em 10 de Outubro de 1990, dois meses depois da invasão iraquiana do Kuwait, uma adolescente kuwaitina de 15 anos, simplesmente identificada como Nayirah, apareceu na Câmara dos Representantes para denunciar os horrores praticados pelas tropas iraquianas na sua ocupação do solo do Kuwait. Com lágrimas nos olhos descreveu então com os soldados tinham entrado no hospital em que trabalhava, entrada feita à força e empunhando armas, e como logo de seguida retiraram 300 bebés das incubadoras onde se encontravam, e os lançaram ao chão. A guerra começou três meses depois desta história ser conhecida.
A história das incubadoras foi então amplamente utilizada por Bush-pai para convencer a opinião pública americana, inicialmente muito recalcitrante à guerra. Só depois do fim da Guerra do Golfo é qu se soube da verdade: Nayiraf era afinal filha do embaixador do Kuwait nos estados Unidos, Saud Nasir al Sabah, e o seu testemunho, claramente falsificado, tinha sido cuidadosamente preparado por uma das maiores empresas internacionais de relações públicas, a Hill and Knowlton
Em 1991, numa reportagem da televisão canadiana, que recebeu um prémio Emmy, Dee Alsop, director da empresa de sondagens Wirthlin Group, que trabalhou com Hill and Knowlton na campanha para vender o produto «guerra», acabou por confessar que naquela ocasião os propósitos da sua equipa eram o de “identificar quais as mensagens que mais podiam comover os americanos”, tendo descoberto que o tema mais sensível era certamente “o facto de considerar Sadam como um louco capaz de cometer atrocidades contra o seu próprio povo”. O mesmo argumento que curiosamente Bush-filho não se cansa de repetir nos dias que correm...


Notícia publicada no El País de 1/2/2003

Cadernos Periféricos


Desfrutar a natureza – mas de carro, de jipe ou de mota: expressão lúdica do humano reduzido à condição de deficiente motor, sem pernas, sem energia própria, dependente de próteses mecânicas para tudo. E ainda por cima chamar a essas coisas «aventura»!!!


Duvido que algum de nós saiba orientar-se pelas estrelas e os solstícios. O nosso sentido da ordem natural embotou-se, tendo-se tornado pouco fiável. A esfera dos nossos instintos reduziu-se, tal como se reduziu a nossa capacidade de conceber a realidade...No entanto, e apesar disso, creio ser possível formularmos uma ideia ética da terra – uma noção daquilo que ela é e do que deverá ser nas nossas vidas quotidianas. E creio sobretudo que isso é absolutamente necessário.


( alguns excertos retirados do nº 5 da revista “Cadernos Periféricos”)



Saíu o nº 5 da Revista “Cadernos Periféricos” com sede e origem em Marvão.
Os interessados na sua consulta podem contactar para o endereço Rua Francisco Alberto Tavares, 13 – 7330-329 Porto da Espada Marvão, Portugal.
Do corpo redactorial fazem parte Carlos Baptista, Júlio Henriques e Vasco Câmara Pestana, entre outros colaboradores.

No sumário do nº 5 podemos encontrar para além de poesia e relatos de literatura oral, textos sobre Educação Ambiental, as sociedades massificadas e factos/acontecimentos que são notícias e motivos para uma reflexão partilhada

23.3.05

Erich Fromm ( autor, entre outros, do livro «Ter ou Ser»)

Nascido em 1900, em Frankfurt, Alemanha, Erich Fromm estudou Psicologia e Sociologia em Heidelberg, Frankfurt e Munich. Doutorou-se em Filosofia em Munich e recebeu sólida formação psicanalítica no Instituto Psicanalítico de Berlim. A partir de 1933, ano da ascensão de Hitler ao poder, passa a exercer o cargo de professor nos EUA, em Chicago, e, posteriormente, a exercer a clínica em Nova York. Foi professor em várias universidades, inclusive no México. Os seus livros passaram a tratar de questões humanistas que atraíram a atenção de profissionais de vários campos, como Sociologia, Filosofia e Teologia. De certa forma, muitas de suas ideias foram contemporâneas das abordagens de Carl Rogers (pedagogia anti-autoritária)
Escreveu várias obras, entre as quais se destaca “Ter ou Ser”, e “Psicanálise da Sociedade Contemporânea”
Fromm sempre se mostrou profundamente impressionado pelo que ele via como uma poda da liberdade humana, pelo modo como as pessoas se submetiam, inconscientemente, a desempenhar papeis mecânicos dentro da sociedade capitalista.
O tema central da obra de Fromm é profundamente humanista, ou eco-ético-humanista: o homem sente-se desamparado, porque se separou ou deixou de desenvolver suas qualidades, potencialidades mais propriamente humanas e deixou, por isso mesmo, de ter contacto com as mesmas potencialidades e natureza das demais pessoas. Esta situação de alienação social é uma característica trágica e que se encontra apenas entre os seres humanos, especialmente quando as condições materiais criam uma hierarquia de dominação.
Num de seus livros mais famosos, Medo da Liberdade, Fromm propõe a tese de que o homem, paralelamente à liberdade material que tem conquistado através da história, tem-se isolado cada vez mais de seus semelhantes, na busca por espaço e sucesso material. E, paradoxalmente, a mesma liberdade material torna-se uma condição que assusta, e do qual tende a escapar, refugiando-se em situações de posse e de poder, ou de submissão passiva às autoridades e/ou de conformação à sociedade, o que lhe daria a ilusão de "TER" algo, ou de "PERTENCER" a algo que lhe permita sentir-se menos só. Como opção mais saudável, haveria o reconhecimento da riqueza do "outro" e da importância da cooperação e da solidariedade, num espírito de fraternidade onde o bem-estar social deveria ter a primazia, garantindo o bem-estar individual. Neste caso, a criatividade e as potencialidades humanas seriam usadas para sedimentar a liberdade co-responsável dentro de uma sociedade equilibrada. Caso contrário, o homem construiria um novo tipo de servidão, aliás, bem conforme às ideias do neoliberalismo e da globalização, extremamente selvagem na sua ganância de lucro e anulação do homem, enquanto indivíduo criativo.
Como base nisto, Fromm aponta o fato de que somos, ao mesmo tempo, animais e humanos, com necessidades fisiológicas importantes e imprescindíveis que precisam ser satisfeitas, assim como temos consciência, razão e compaixão, que precisam de ser exercitadas. Assim, no reconhecimento do humano dentro e ao lado das necessidades básicas, levaria a sociedade madura a perceber que a solução de seus conflitos está no reconhecimento de que as nossas necessidades todas, inclusive as humanas, exigem a participação de todas as demais pessoas.

Toda a guerra tem o inconveniente de precisar de um inimigo e, se possível, ter mais que um...

Toda a guerra tem o inconveniente de precisar de um inimigo e, se possível, ter mais que um...
Sem a provocação, ameaça ou agressão de um ou mais inimigos a guerra torna-se pouco convincente. Pior que isso, a oferta de armas pode encontrar um gravíssimo problema pela frente: a contracção da procura de armamento.
Torna-se pois imperioso fabricar um inimigo. E saber alimentar o ódio ao inimigo.
Se forem seguidas estas regras, as máquinas registadoras do comércio de armamento logo começaram a debitar dividendos...

Resistir aos microfascismos

O fascismo de capacete e botas altas fez época.
O poder está em toda a parte, tendo o microfascismo substituído o totalitarismo fascista.
Ora como combater este microfascismo? Através de microresistências.
Construir individualidades esclarecidas, fortes, serenas, poderosas, decididas, voluntárias, que se sintam bem consigo mesmas, é a condição para estarmos bem com os outros.

Contra a República de Platão (fechada, totalitária, hierarquizada, racial) propomos um Jardim de Epicuro (aberto, livre, igualitário, amistoso, cosmopolita) já não confinado a um espaço arquitectural, mas nómada, móvel, irradiando a partir de si num «devir revolucionário dos indivíduos»

(Excertos de um texto de Michel Onfray publicado no Le Monde Diplomatique de Novembro de 2004)