7.5.05

Henri Laborit, um cientista libertário



Um cientista libertário entre a biologia e a psicologia

O encontro de Henri Laborit e os anarquistas foi um choque. O companheiro que realizou com ele cinco emissões na Rádio Libertaire fala de uma descoberta reciproca como se aquelas emissões tivessem revelado ( no sentido fotográfico) tudo o que impregnava a sua vida. Tanto mais que Laborit descobriu na obra de Kropotkine “Ajuda Mútua” muitas ideias que contrariavam o neo-darwinismo, também rejeitado por ele: ideias essas que tinham sido expostas num livro seu: “L’inhibition de l’action”. Dizia que “era mais anarquista que os anarquistas” na medida em que o conhecimento que tinha do funcionamento humano (conhecimento tanto dos limites como dos preconceitos, e dos juízos de valor que tecem a vida psíquica) tornavam-no até de certo modo mais «livre». Uma tal lucidez levava-o, por exemplo, a recusar a competitividade e a preferir a autogestão para lutar contra as dominações presentes no jogo social.
O estilo de homem que ele foi, mas também a sua maneira de trabalhar, de investigar ( e descobrir) ilustram bem as ideias que desenvolve, por exemplo, em “La nouvelles grille”, e que constituíram uma das suas maiores preocupações: permitir o desabrochamento da inventividade em oposição aos dogmas, contestando os sistemas fechados, e suscitar a criatividade de cada um( uma clara ideia anarquista). Na verdade, em vez de se acantonar e isolar-se na sua técnica de cirurgião da marinha, ele também se debruça sobre os acidentes ligados aos choques operatórios assim como sobre o sofrimento dos homens.
Descobriu o importante efeito de certas moléculas ( a cloropromazina). Com isto permitiu um passo em frente à medicina ( nos estudos sobre o stress e a inibição, sobre a hibernação artificial, sobre os fundamentos agressologia,etc) e ainda de uma revolução da psiquiatria ( em matéria dos neurolépticos). Pode-se, no entanto, lamentar que tenha ficado preso a uma noção demasiadamente restrita da linguagem, o que o fez rejeitar a psicanálise, levando a que os “psys” negligenciem o seu trabalho sobre a inibição. Há aí todo um vasto campo para explorar relativo aos fenómenos psicossomáticos e em apurar melhor a função da linguagem.
O filme de Resnais “Mon oncle d’Amérique”, retoma as suas ideias, para defender que é preciso “desibinir a inibição do acto” para prevenir o stress e as reacções que podem pôr a vida em perigo. Claro está que os ratos não são homens pois não falam nem sequer a noção de acto tem neles o mesmo sentido.
Os seus pares não lhe perdoaram a sua reiterada marginalidade nem de ter saído dos circuitos oficiais do pensamento ( um cirurgião opera, não faz biologia nem psiquiatria; um biólogo não pratica a reflexão sobre a sociedade, o poder, a liberdade, a autogestão). Eles nem sequer se deslocaram a Estocolmo, diz-se, para que não lhe fosse atribuído o prémio Nobel... Como se vê a interdição de pensar é uma das coisas melhor distribuídas neste mundo. Porque será que tão facilmente lhe obedecemos?
Mais que traçar as grandes etapas da sua vida gostaria de referir a duas questões do seu pensamento que interpelam o anarquismo.
Qualquer ideia – defende ele – que não seja universal, válida para toda a humanidade, seria uma ideia nula, que se mostraria incapaz de fazer progredir as coisas. Ideias deste género mais não fazem que gerar hierarquias, dominações , guerras. Ora uma ideia destas não poderia ser melhor para retratar a nossa época.
Uma outra ideia, que precisa de ser discutida ( e que ele aborda em “L’Eloge de la fuite, um dos seus livros preferidos), é a que defende que não serve para nada bater-se contra o poder e as suas engrenagens, contra esta sociedade do dinheiro, contra as pessoas manipuladas...Melhor valerá, integrarmo-nos, pelo menos na aparência, privilegiando a criação, a invenção, que não podem surgir senão das margens, e cuidando do vínculo social.
Este último ponto mereceria sem dúvida uma discussão: uma sociedade anarquista não deveria ser organizada na precariedade, nos rebordos de uma fecunda vacilação capaz de levar cada um a inventar a vida em todos os seus aspectos? É que a criatividade, ao contrário do funcionamento, implica um sujeito ( oposto ao funcionário), um desejo singular. E este é, penso, profundamente revolucionário, profundamente anarquista. Inclui necessariamente o outro na sua diferença. Um mundo unificado seria um mundo morto.
Henri Laborit era um homem alegre, um sonhador lúcido, suficientemente descentrado para poder rir-se dele próprio, tanto quanto lhe permitia o amor próprio...Não conseguia compreender como o mundo era um imenso terreiro de predação e destruição em que se vive da morte dos outros ( e isto desde os vírus até aos homens). Ora nada mais »natural» que a liberdade, a justiça que nunca serão definitivas, mas sempre em reconstrução, qualquer que seja a sociedade. Nesse sentido pode-se perguntar se a anarquia não seria uma criação humana por excelência na medida em que ela requer um ética do sujeito?
Apaixonado pelo seu trabalho, mostrava-se infatigável, gostando de passar dias e noites inteiras no seu barco, entre o céu e o abismo, naquela margem entre sono e acordado propícia à criatividade. No fundo, era um poeta da sua vida...
Nascido em Novembro de 1914 em Hanói, Vietname, cirurgião da marinha, depois investigador no Hospital Boucicaut em Paris ( recorde-se que o seu laboratório funcionava graças aos rendimentos resultantes das descobertas da sua equipa sobre moléculas). Entre as suas descobertas contam-se: a Cloropromazina (Largactyl), o principal dos neurolépticos; a Minaprina ( Cantor); antidepressivo; o GammaOH, anestesiante com aplicações várias...

Philipe Garnier

(Tradução de um texto publicado no Le Monde Libertaire de 1/6/1995)

Alguns dos livros de Henri Laborit:
-“L’homme et la ville” (1971)
-“La nouvelle grille, Eloge de la fuite” (1974)
-“L’inhibition de l’action” (1979)
-“La Colombe assassiné” (1983)
-“Dieu ne joue pas aux dés” (1987)
-“La vie antérieure (1989)
-“L’esprit du grenier (1992)

6.5.05

Os filósofos cínicos foram os primeiros dissidentes libertários



Durante o Império de Alexandre, o Grande a cultura e a civilização da antiga Grécia propagaram-se um pouco por todo o lado. Após a sua morte o Império que construiu divide-se em fracções antagónicas e profundos conflitos políticos.
Aparecem então 4 novas escolas ( ou correntes) de filosofia: os cínicos, os cépticos, os epicuristas e os estóicos. Todas elas se preocupam com a forma como um homem civilizado tem que viver num mundo inseguro, instável e perigoso.
Os primeiros a aparecerem foram os cínicos, que hoje seriam considerados os dissidentes libertários, os desertores do sistema social vigente.
Um dos nomes dos filósofos cínicos foi Antístenes que abandona a cidade e decide seguir uma vida básica e simples. Começou então a vestir-se como um operário, a viver por entre os pobres e proclamou que não queria governo, nem propriedade privada, nem casamento, nem uma religião estabelecida.
Antístenes teve um discípulo que se tornou célebre, de nome Diógenes (404-323 a.C.). , Diógenes escarnecia agressivamente de todas as convenções e chocava deliberadamente as pessoas quer por andar nu ou por vestir andrajos, quer por viver num túmulo, quer ainda por cometer actos flagrantes de indecência pública.
Diógenes vivia como um cão, e é por esta razão que lhe alcunharam de cínico ( da palavra grega Kynikos, que significa «como um cão». Note-se que a palavra cínico tem hoje um significado diferente do original

Diógenes não era, pois, um cínico no sentido actual da palavra. Bem pelo contrário, possuía uma crença positiva na virtude. A sua convicção básica era que a diferença entre valores verdadeiros e valores falsos era a única distinção que era importante. Todas as outras distinções ( as convenções sociais, assim como a distinção entre o que é meu e o que é teu, entre o nu e o despido, entre o cru e o cozido) eram, segundo ele, um perfeito disparate.
Diógenes desprezava igualmente a distinção entre Gregos e Estrangeiros, por isso quando lhe perguntavam qual era o seu país, respondia: «Eu sou um cidadão do mundo», e ao dizer inventou a única palavra grega que exprimia o seu pensamento – o cosmopolitismo.

Existem muitas histórias acerca de Diógenes. Uma das mais famosas é quando Alexandre, o Grande, preocupado com a sua pobreza, foi visitá-lo no seu buraco imundo e ficou parado à entrada. Vira-se para Diógenes e pergunta-lhe se podia fazer algo por ele, ao que o filósofo responder:«Sim, desviai-vos! Estais a tapar-me o Sol!».

A ovelha ranhosa




Havia uma terra onde eram todos ladrões.
À noite todos os habitantes saíam, com gazuas e lanternas, e iam a casa de um vizinho. Tornavam a casa de madrugada, carregados, e davam com a casa assaltada.
E assim todos viviam em concórdia e sem dano, porque um roubava o outro, e este um outro ainda e assim por diante, até que se chegava a um último que roubava o primeiro. O comércio naquela terra só se praticava sob a forma de vigarice tanto por parte de quem vendia como por parte de quem comprava. O governo era um bando de criminosos agindo contra os súbditos, e os súbditos por sua vez só se preocupavam em defraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem preocupações, e não havia nem ricos nem pobres.
Ora, não se sabe como, aconteceu que na terra se veio instalar um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa a fumar e a ler romances.
Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não entravam.
Este facto durou pouco tempo: depois tiveram de fazer-lhe compreender que se ele queria viver sem fazer nada, isso não era razão para não deixar fazer aos outros. Cada noite que ele passava em casa, era uma família que não comia no dia seguinte.
A razões destas o homem honesto não podia opor-se. Começou também a sair à noite, mas não ia roubar.Não havia nada a fazer: era mesmo honesto. Ia até à ponte e ficava a ver a água passar por baixo. Tornava a casa, e encontrava-a roubada.
Em menos de uma semana o homem honesto viu-se sem tostão, sem comer, e com a casa vazia.Mas até aqui nada de mal, porque era culpa dele; o problema é que deste seu modo de vida nascia toda uma trapalhada. Porque ele deixava roubar tudo e entretanto não roubava nada a ninguém; assim havia sempre alguém que ao chegar a casa de madrugada a encontrava intacta: a casa que ele deveria ter roubado. O facto é que ao fim de uns tempos os que não eram roubados ficaram mais ricos que os outros e já não queriam ir roubar. E por outro lado, os que vinham roubar a casa do homem honesto davam com ela sempre vazia; e assim iam ficando pobres.
Entretanto, os que ficaram ricos ganharam também o hábito de irem à noite à ponte, ver a água passar por baixo. Isto aumentou a confusão, porque houve muitos outros que ficaram ricos e muitos outros que ficaram pobres.
Ora os ricos viram que, indo à noite à ponte, ao fim de uns tempos ficariam pobres. E pensaram: - Vamos pagar aos pobres para que vão roubar por nossa conta. – Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários e as percentagens: naturalmente continuavam sempre a ser ladrões, e tentavam enganar-se uns aos outros. Mas como sempre sucede, os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Havia ricos tão ricos que já não precisavam de roubar e de mandar roubar para continuarem a ser ricos. Mas se deixassem de roubar ficariam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para que defendessem as suas coisas dos outros pobres, e assim instituíam a polícia, e construíram as prisões.
Deste modo, logo poucos anos após o acontecimento do homem honesto, já não se falava de roubar nem de ser roubado mas só de ricos ou de pobres; no entanto continuavam a ser todos ladrões.
Honesto só houve esse tal, que morreu de repente, de fome.



Italo Calvino

(Texto inserido no livro «A Memória do Mundo», de Italo Calvino, editado em 1995 pela Teorema, segundo a tradução para português de José Colaço Barreiro, a partir do original «Prima che tu dica “Pronto”»)

Italo Calvino ( Cuba, 1923 – Siena, 1985) estudou em San Remo, tendo pertencido à Resistência contra o fascismo e a ocupação nazi. Aderiu ao Partido Comunista para o abandonar em 1957, após a insurreição húngara.


Outros livros: Os Nossos Antepassados ( uma trilogia do qual fazem parte O Visconde cortado ao meio, O Barão Trepador, O Cavaleiro Inexistente), Palomar, Sob o Sol Jaguar, Seis Propostas para o próximo Milénio, As Cidades Invisíveis, Cosmicómicas, Marcovaldo, Porquê ler os clássicos.

5.5.05

A Ética da Terra



A Ética da Terra é uma das várias perspectivas da ética ambiental que opera uma inversão entre o sujeito ético tradicional e o horizonte ético onde têm lugar as nossas acções. A compreensão do ser humano passa a ser perspectivada em função da Natureza enquanto totalidade de que ele faz parte. A Ética da Terra é uma ética ambiental não antropocêntrica que, contrariamente ao antropocentrismo ambientalista não fundamenta a responsabilidade ambiental nos interesses humanos.
Na ética ambiental antropocêntrica, o ambiente é considerado como uma vasta arena de recursos, cruciais para a sobrevivência da humanidade e respeitá-lo é, antes de mais, respeitar o Homem.
Do ponto de vista da Ética da Terra, a ética ambientalista antropocêntrica traduz uma visão utilitarista e prudencial da relação do Homem com a Natureza.
Diferentemente, a Ética da Terra é uma perspectiva não antropocêntrica que confere á Natureza a dimensão ética que lhe garante consideração moral e respeito.
Deste modo o imperativo segundo esta perspectiva passa a ser: só é bom aquilo que contribuir para preservar o equilíbrio integridade e a beleza da comunidade biótica.
A Ética da Terra alarga a esfera de consideração moral aos animais, ás plantas, aos solos, às águas, ao ar, e aumenta a nossa responsabilidade, na medida em que nos torna responsáveis, não apenas pela preservação dos recursos, mas também a sobrevivência (actual e futura) dos seres humanos.
Assim, a preservação de todas as formas de vida, dos recursos, equilíbrio e belezas naturais, deve ser garantida, independentemente da sua importância e utilidade para a vida humana, já que são um bem em si mesmo.

Ex-ministro Portas recebe medalha americana por méritos alheios!!!



O ex-ministro da Defesa Paulo Portas recebeu das mãos do Departamento da Defesa do governo norte-americano a medalha dos serviços públicos distintos.
A causa para tal atribuição pessoal se deve à participação da GNR no Iraque ao lado das forças ocupantes norte-americanas, segundo o relatório público apresentado pelo governo dos USA.
Acontece que a GNR é uma força de ordem pública que não pertence à orgânica do Ministério da Defesa mas sim ao Ministério da Administração Interna, cujo titular não foi tido nem achado para tal rendida homenagem do governo imperial de Washington…

Produção suspensa em destilaria poluidora



A empresa Solusa, destilaria de aguardente vínica, situada em Torres Vedras, tem a laboração suspensa por ser fonte de emissões atmosféricas que contaminava o ar da cidade de Torres Vedras pondo em causa o bem estar da população e a qualidade do ar. O que originara protestos vários da população atingida. Por isso, as entidades estatais de fiscalização mandaram suspender a laboração.

Bobby Sands morreu há 24 anos



O militante do IRA, Bobby Sands, morreu em 5 de Maio de 1981, faz hoje 24 anos, após ter passado 66 dias em greve de fome, na cadeia de Maze contra a política dgo governo colonialista britânico de Thachter e as condições de detenção impostas aos presos.

Cadaval é concelho livre de transgénicos


A Assembleia Municipal do Cadaval adoptou uma deliberação que prevê a interdição dos chamados OGMs (organismos geneticamente modificados) nas plantações agrícolas do concelho, declarando-o como zona livre de transgénicos.

Mais uma deslocalização anunciada



Segundo a imprensa de hoje a multinacional norte-americana Molex Automotive, fábrica de componentes para a indústria automóvel, anunciou o encerramento das suas instalações situadas em Santo Tirso para o início do próximo ano de 2006 e a sua deslocalização para a Eslováquia, lançando assim 150 trabalhadores para o desemprego

IBM anuncia despedimentos de 10 a 13 mil trabalhadores


O grupo informático norte-americano IBM acaba de anunciar a supressão de 10 a 13 mil postos de trabalho na Europa. Actualmente esta corporação emprega 329 mil pessoas em todo o mundo.

Ciclo mulheres-palhaço no Chapitô



O ciclo «mulheres-palhaço» no Chapitô, organizado por Teresa Riçou, inicia-se hoje com a apresentação da Suiça Gardi Hutter, artista mímica.
O Chapitô é um espaço de artes circenses, localizado na costa do Castelo, na cidade de Lisboa

4.5.05

Falecimento do co-fundador da greenpeace

O jornalista canadiano Bob Hunter, co-fundador da organização ecologista internacional Greenpeace, morreu hoje aos 63 anos, vítima de doença prolongada.

Hunter era colunista de um jornal em 1971 quando ele e um grupo de 11 activistas de Vancouver decidiram viajar num velho barco de pesca, ao qual chamaram “The Greenpeace”, para Amchitka (Alasca), local onde os Estados Unidos estavam a realizar testes nucleares.

A embarcação foi detida pelas autoridades norte-americanas mesmo antes de chegar a Amchitka mas a tentativa de deter os testes ganhou ampla atenção dos media, gerando protestos no Canadá e Estados Unidos e que levou 5 meses depois ao cancelamento dos ensaios necleares nas ilhas Aleutianas, no Alasca

Hunter tornou-se o primeiro presidente da Greenpeace. “Talvez mais do que ninguém, Hunter inventou a Greenpeace”, declarou hoje a organização em comunicado.
O seu conhecimento dos media e o sentido de humor foram cruciais para a sobrevivência inicial da organização, considerou Patrick Moore, outro co-fundador.


Hunter também foi o autor do nome The Rainbow Warrior que baptizou o navio da organização, e é também um conceito trazido da mitologia dos índios, que acham que um dia as raças do mundo vão-se unir como um guerreiro arco-íris para defender a Terra.

Os perigos dos transgénicos

No http://ondas2.blogs.sapo.pt/ do passado dia 3 de Maio de 2005 aparece uma lista sucinta dos perigos que representam os transgénicos, texto elaborado por Kurt Cobb, do Resource Insights, e que está traduzida para português.
A ler. Para que conste.

Resistir à publicidade


No http://bioterra.blogspot.com/ do passado dia 29/4/ 2005 apareceu um texto do primeiro jornalista ecologista português, Afonso Cautela, escrito há mais de 30 anos intitulado " Resistir à publicidade".
Imperdível. A ler, pois.

A Memória do Elefante(Porto, 1971-1974): uma publicação de contra-cultura


A Memória do Elefante publicou-se no Porto a partir de 1971 . De periodicidade mensal, mas bastante irregular,caracterizou-se por uma abordagem transgressora e frequentemente polémica de temas culturais da altura. Publicou diversas entrevistas e textos de análise sobre o movimento da nova canção portuguesa. Foram publicados 13 números.

Os seus principais responsáveis eram João Afonso, Joaquim Lobo, Pedro Nunes e Mário Jorge Morais.
(Existiu também o suplemento "O ELEFANTE" )


Tratava-se de um jornal de Música Popular, Jazz, Rádio, com origem na cidade do Porto, que saiu entre 1971 e 1974, com direcção de Joaquim Lobo, Editor Jorge de Morais, Relações Públicas João Afonso Almeida, Supervisão de Pedro Nunes, colaboração de António José Fonseca, Mário Gonçalves, Octávio da Fonseca e Silva, Jorge Lima Barreto, Pedro Proença, António Barredo Oliveira, Renato Silva, ...
Do editorial de um dos seus números retiramos o seguinte excerto:

"A Memória do Elefante tem sido e continua a ser por enquanto, um trabalho quase só de amadores não remunerados cuja acção procura concretizar um ideal de crítica. Estamos alheios aos jogos de interesses que orientam, subrepticiamente ou não, muitos representantes da nossa informação profissional (orgulhosamente). Os nossos redactores não têm obrigação de, como último recurso de incapacidade, encher umas quantas folhas de papel com as futilidades mais incríveis da vida mundana de personalidades pseudo-importantes do nosso putrefacto meio artístico, precisamente as personalidades «progressistas» (ah! ah!) que conduzem à recuperação da contra-cultura. A Memória do Elefante não é de, nem para escatófagos (...)"
[A Memória do Elefante, nº 11, Janeiro de 1974]

Fazer a Festa (6 a 15 de Maio), Festival de Teatro

De 6 a 15 de Maio vai-se realizar a 24ª edição do "FAZER A FESTA - Festival Internacional de Teatro", a decorrer nos jardins do Palácio de Cristal, numa organização do TEATRO ART' IMAGEM.

A PROGRAMAÇÃO é bastante diversificada e encontra-se no site http://www.teatroartimagem.org.

Para portadores de cartão estudante ou jovem, o preço do bilhete é de três euros!

Testemunho dos jovens de Hiroshima (II)



Testemunho de Kiyoko Tanaka, rapariga, estava na 3ª classe em 1945


Foi no dia 6 de Agosto de 1945 que caiu a inesquecível bomba atómica. Mesmo agora tremo quando pensão naquele tempo. Não fui evacuada com a minha classe e por essa razão estudava numa secção descentralizada da escola próxima. Nesse dia, saí para brincar com as minhas amigas do bairro. Quando surgiu o clarão eu estava debaixo da casa onde brincávamos. « Se ficar aqui assim, sem nada fazer, não sei o que acontecerá!» Enquanto pensava isto notei que, em certo ponto, havia uma fenda. De rastos, fui até lá, e deslocando algumas tábuas para o ado consegui escapar-me. Uma vez no exterior vi, para meu espanto, que não fora só esta casa onde brincava mas todas as casas onde a vista alcançava tinham desabado e estavam a arder. Quando vi isto preparei-me para chorar mas pensei: «Chorar não modificará as coisas», e decidi ir para casa. Quando por fim cheguei a casa, a Mãe tinha posto o bebé de um ano no cimo de uma pilha de trouxas e trazia furiosamente as coisas para a rua. O bebé estava inconsciente, talvez devido à surpresa.
A mãe ficou contente quando me viu:
«Vem, afastemo-nos daqui. Queimar-nos-emos até morrer se continuar a fazer isto durante muito tempo»
E pondo as trouxas às costas e o bebé nos braços, partiu acompanhada por mim.
Vimos uma pessoa com uma grande lasca de madeira espetada num olho – suponho que talvez ele não conseguisse ver – e errava por ali, como um cego. Sem saber exactamente aonde íamos, seguimos todos os outros que fugiam.
No caminho para a colina de Hiji vimos pessoas saltar para dentro de tanques de água porque as suas queimaduras as atormentavam.
Outros estavam sentados na berma da estrada, dizendo a toda a gente que passava:«Por favor, deite-me água em cima», ou, « Dê-me água, por favor». Algumas delas bebiam aágua suja da beira da estrada.
Enquanto subíamos a colia de Hiji vimos uma grande árvore que ardia a partir-se ao meio. Quando chegamos ao cimo da colina e olhámos para baixo notámos que as cercanias eram todas um mar de chamas. E no cimo da colina, aqui e ali, pessoas queimadas e feridas estavam estendidas no chão, gemendo, ou mexiam-se agitadas, em redor.
Depois disto, descemos para Danbara. Danbara não ardia, mas praticamente todas as casas tinham desabado, e a única que ainda se encontrava de pé estava quase toda desconjuntada. Na soleira da porta viam-se sandálias, e algumas pessoas que passavam puseram-nas nos pés e continuavam o seu caminho.
Um pouco mais além um homem gritava através de um megafone; dizia que todos os que estivessem feridos se deviam dirigir para Ninoxima. Decidimos partir para ali e metemo-nos num barco, no rio.
Diante da mãe estava sentada uma jovem com a minha idade. Todo o seu corpo estava cobertto de queimaduras e feridas, e sangrava.
Parecia ter muitas dores e chamava sem cessar a mãe. Esta virou-se de súbito para a minha mãe e disse: «Senhora, a sua filha está aqui?»
A mãe respondeu afirmativamente e ela deu-lhe alguma coisa para as mãos.
Era uma lancheira com o almoço que a mãe preparaa e lhe dera naquela manhã quando a jovem partira para a escola.
«Não queres comê-lo, tu?», perguntou a minha mãe à jovem.
«Vou morrer. Dê-o à sua filha.»
Aceitei. Começamos a descer o rio quando o barco chegou ao mar a pequena soltou o último suspiro e morreu.
Senti-me terrivelmente triste por ela. A mãe e eu chorámos juntas.
Quando chegámos dirigimo-nos imediatamente para o posto médico. Encontrámo-lo cheio de pessoas queimadas e feridas. Entre elas havia algumas que tinham enlouquecido devido às dores e corriam em redor dos doentes.
Como ficaria feliz se todas estas pessoas não tivessem sido queimadas nem feridas e fossem vivas agora, e também se aquela criança do barco não tivesse sido queimada e sobreviesse.



Texto escrito em 1951, por Koyko Tanaka

Reproduzido do livro « Testemunho dos Jovens de Hiroxima», ed. Portugália, 1965, tradução portuguesa do original «Children of the A-Bomb, the testamento f the boys and girls of Hiroshima»

3.5.05

Ameaças ao Habeas Corpus no Reino Unido!



O que George W. Bush não conseguiu impor nos Estados Unidos, isto é, a possibilidade para o governo de tomar, no quadro da luta antiterrorista, medidas que coloquem em causa o direito dos cidadãos a dispor de si mesmos, Tony Blair conseguiu-o no Reino Unido.
A nova lei, The Prevention of Terrrorism Bill, votada no passado 11 de Março, modifica o Terrorism Act 2001,o qual autorizava a detenção ilimitada de estrangeiros, sem provas e sem julgamento. Depois disto, o primeiro-ministro inglês resolveu estender aos indivíduos com nacionalidade britânica toda uma série de procedimentos de excepção que colocam em causa as liberdades individuais de todos os britânicos.
A nova lei permite ao ministro do Interior adoptar medidas de controle que podem ir até às prisões domiciliárias de alguém, quando «haja razões fundadas de suspeita que um indivíduo esteja ou tivesse estado implicado numa acção ligada ao terrorismo». Dá também poderes ao Ministro para interditar o uso de um telemóvel, limitar o acesso à Net, impedir os contactos com certas pessoas, obrigar a estar em casa a certas horas, autorizar a polícia e os serviços especiais a ter acesso a qualquer hora a um domicilio. Prevê ainda a possibilidade de limitar o acesso de alguém a um emprego ou uma actividade ocupacional.
Tais disposições poderão ser tomadas quando o ministro do Interior considerar que o indivíduo apresenta um perigo para a segurança nacional, ainda que os elementos recolhidos não permitam ainda levá-lo perante um tribunal. O próprio ministro do Interior declarou que tais medidas de controle poderão ser tomadas na «base de uma opinião fundada, fornecida pelos serviços de segurança, e que haja uma suspeição razoável que certo indivíduo esteja ou tenha estado ligado ao terrorismo».
Assim, o que justificará a decisão de colocar uma pessoa sob controle não serão elementos objectivos, mas a suspeita que recai sobre ela, ou a intenção que lhe é atribuída. A actividade terrorista é definida como «a preparação ou acções com vista à prática de actos terroristas», mas também pelo facto «de ajudar ou assistir indivíduos que se saiba ou que se pense estarem implicados em actividades relacionadas com o terrorismo» ou « encorajar a realização ou a preparação de tais actos» ou ainda favorecer aquele «que tenha a intenção de o fazer».
Como se vê a lei não se refere a actos definidos, mas pune a ajuda a pessoas que sejam simplesmente suspeitos de acções ou de intenções ligadas ao terrorismo. Esta noção é indeterminada e subjectiva. O seu âmbito de aplicação é muito largo, quase ilimitado e totalmente incontrolável. O que é uma actividade ligada ao terrorismo? Será, por exemplo, alojar pessoas que mais tarde sejam suspeitas de participar ou de ter a intenção de participar em acções terroristas e que são designadas como terroristas, ou de fazer parte de um comité de apoio a prisioneiros políticos?
A reacção da Câmara dos Lordes foi algo embaraçante para o governo inglês. Rejeitou, à partida, o projecto de lei considerando-o como um atentado às liberdades. Mas acabou por o aceitar após trinta horas de debates e após ter sido introduzida uma alteração mediante a qual as medidas de controle teriam de ser tomadas com o aval de um tribunal. A Câmara Alta conseguiu ainda que seja introduzida uma cláusula (sunset clause) de revisão ao fim de um ano, pelo que a lei será de novo sujeita à discussão daqui a um ano, em Julho de 2006. Os trabalhos de uma comissão independente, encarregada de acompanhar a aplicação da lei, deverão servir de base aos futuros trabalhos parlamentares.
Mesmo se a decisão de colocar alguém sob controle caiba ao ministro do Interior de acordo com um tribunal, garantia judiciária obtida por pressão da Câmara dos Lordes, um tal processualismo nada tem a ver o procedimento judicial clássico que garante os direitos da defesa. Ora, ali a defesa não tem acesso ao dossier que contém os dados recolhidos pelo que não nenhuma possibilidade de contestar aqueles elementos.
Os únicos a terem acesso a esses dados são o juiz e os «advogados especiais» designados pelo Ministro do Interior. Este últimos ficam encarregados de transmitir o pontode vista da defesa, sem fornecer a esta os elementos de «prova» recolhidos e sem lhe dar possibilidade de exercer o contraditório. A decisão é tomada sem que haja qualquer pessoa incriminada. As medidas poderão ser adoptadas com base em informações fornecidas por um serviço de informações, que pode ser exterior ao Reino Unido.
Aquando das discussões na Câmara dos Lordes, o governo inglês tinha aceite que a acusação não poderia usar de elementos obtidos com o recurso à tortura. Todavia, o governo parece não ter desistido de utilizar tais informações recolhidos por via daqueles métodos. O jornal The Independent do passado 11 de Março referia-se a declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros dizendo que, apesar da « tortura ser completamente inaceitável, o país não pode ignorar as informações obtidas por este método pelos americanos, sobretudo se a vida de 3.000 pessoas estiver em jogo».
The Prevention of Terrorism Bill 2005 surge após um acórdão emitid em 16 de Dezembro de 2004 pelo Tribunal de Apelação da Câmara dos Lordes. A mais alta instância judiciária britânica considerava ilegal e contrária à Convenção Europeia dos direitos do homem a detenção ilimitada, sem inculpação, de estrangeiros suspeitos de actividades terroristas. Considerava também como discriminatória a distinção entre estrangeiros e nacionais.
O acórdão não tinha poder vinculativo. O governo podia não segui-lo. Acontece que este acabou por considerar ser esta a melhor altura para legitimar a generalização de disposições de excepção ao conjunto da população. The Prevention of Terrorism ACt 2005 apresentava-se assim como um texto não-descriminatório pois se refere indistintamente aos estrangeiros como aos nacionais.
Esta lei acaba com um sistema duplo de organização jurídica: Estado de Direito para os cidadãos nacionais e pura violência sobre os estrangeiros. A supressão do Habeas Corpus generaliza-se pois para toda a população. Entramos num estado de excepção generalizado.
Graças ao acórdão do Tribunal de Apelação da Câmara dos Lordes emerge claramente a oposição entre uma definição clássica do estado de excepção, defendida por aquele Tribunal, uma decisão limitada no tempo e objectivamente definida, e aquela noção defendida pelo governo inglês que pretende instalar uma suspensão indefinida e incontrolável das garantias constitucionais. O acórdão afirma que a incarceração, ilimitada e sem julgamento, que é autorizada pelo Terrorism Act 2001, está em contradição com o Artigo 5º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem que garante a liberdades das pessoas.
O Tribunal de Apelação acrescenta ainda que as derrogações previstas ao Artigo 5º, que estão circunscritas às situações de guerra ou de urgência que coloquem em perigo a vida da nação, não são aplicáveis à presente situação. Para aquele Tribunal o Estado de Excepção está limitado no tempo. Visa enfrentar um perigo iminente ou a circunstâncias excepcionais que devem estar objectivamente determinadas.
O Tribunal de Apelação opões à argumentação aduzida pelo Ministro da Justiça para o qual uma situação de urgência não é necessariamente temporária e pode prolongar-se por muitos anos. Ao poder excetivo caberia proteger a população pelo que não lhe caberia respeitar a «imposição de limites temporais artificiais» aos procedimentos de excepção.
Exigindo e acabando por introduzir uma cláusula de revisão ao Prevention Security Act 2005, fazendo com que a lei tenha de ser avaliada daqui a um ano, a Câmara dos Lordes mantêm a lei dentro do quadro formal de um estado de excepção, uma vez que estas de medidas poderão ser derrogadas s naquela data. Por seu lado, o governo, que não queria fixar qualquer limite temporal já que a luta anti-terroirista é concebida como uma guerra de longo prazo contra um inimigo multiforme, não desiste da sua tese.
Dúvidas não restam que esta lei confere ao Ministro do Interior os poderes de um magistrado. Uma pessoa é designado como terrorista não por via de um julgamento, mas através de um certificado assinado por um representante do poder executivo, o qual não é obrigado a justificar em nenhum momento a sua decisão que recai sobre simples suspeitos. Nem sequer serão necessários dados objectivos para servir de base à decisão, uma vez que tais dados se manterão em segredo. Bastará que a autoridade administrativa diga que os possui e que tal declaração seja corroborada por um tribunal. Ora que garantia de controle judicial poderá haver quando não há possibilidades para a defesa fazer valer os seus direitos, incluindo o de saber por quem é acusado? Que independência do poder judicial poderá haver quando num processo de decisão não existam meios para verificar as informações que lhe são fornecidas nem os meios de prova?
Esta lei representa, sem dúvida, mais um passo no desmantelamento de um regime que se baseou na separação dos poderes e na garantia das liberdades individuais.


Texto de Jean-Claude Paye, sociólogo francês, e publicado na edição de 14 de Abril do jornal Le Monde.

2.5.05

Castros na região transfronteiriça


Existe uma séria de Castros e sítios arqueológicos nas regiões fronteiriças do Norte de Portuga e Espanha situados nas províncias de Ávila e Salamanca e concelhos de Miranda do Douro e Mogadouro.

Para pretender visitar estas preciosidades pode começar por aceder ao site
www.castroseverracos.com

Boas descobertas.
E não se esqueça: defenda o Património Natural e Histórico


1.5.05

1º de Maio - Dia Mundial dos Trabalhadores

"A história do Primeiro de Maio mostra, portanto, que se trata de um dia de luto e de luta, mas não só pela redução da jornada de trabalho, mais também pela conquista de todas as outras reivindicações de quem produz a riqueza da sociedade." - Perseu Abramo

O Dia Mundial do Trabalho foi criado em 1889, por um Congresso Socialista realizado em Paris. A data foi escolhida em homenagem à greve geral, que aconteceu em 1º de maio de 1886, em Chicago, o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época. Milhares de trabalhadores foram às ruas para protestar contra as condições de trabalho desumanas a que eram submetidos e exigir a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Naquele dia, manifestações, passeatas, piquetes e discursos movimentaram a cidade. Mas a repressão ao movimento foi dura: houve prisões, feridos e até mesmo mortos nos confrontos entre os operários e a polícia.
Em memória dos mártires de Chicago, das reivindicações operárias que nesta cidade se desenvolveram em 1886 e por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores pelos seus direitos, servindo de exemplo para o mundo todo, o dia 1º de maio foi instituído como o Dia Mundial do Trabalho.
Chicago, maio de 1886



O retrocesso vivido nestes primórdios do século XXI remete-nos directamente aos piores momentos dos primórdios do Modo de Produção Capitalista, quando ainda eram comuns práticas ainda mais selvagens. Não apenas se buscava a extracção da mais-valia, através de baixos salários, mas até mesmo a saúde física e mental dos trabalhadores estava comprometida por jornadas que se estendiam até 17 horas diárias, prática comum nas indústrias da Europa e dos Estados Unidos no final do século XVIII e durante o século XIX. Férias, descanso semanal e aposentadoria não existiam. Para se protegerem em momentos difíceis, os trabalhadores inventavam vários tipos de organização - como as caixas de auxílio mútuo, precursoras dos primeiros sindicatos.

Com as primeiras organizações, surgiram também as campanhas e mobilizações reivindicando maiores salários e redução da jornada de trabalho. Greves, nem sempre pacíficas, explodiam por todo o mundo industrializado. Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos, também era um dos grandes centros sindicais. Duas importantes organizações lideravam os trabalhadores e dirigiam as manifestações em todo o país: a AFL (Federação Americana de Trabalho) e a Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho). As organizações, sindicatos e associações que surgiam eram formadas principalmente por trabalhadores de tendências políticas socialistas, anarquistas e social-democratas. Em 1886, Chicago foi palco de uma intensa greve operária. À época, Chicago não era apenas o centro da máfia e do crime organizado era também o centro do anarquismo na América do Norte, com importantes jornais operários como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab.

Como já se tornou praxe, os jornais patronais chamavam os líderes operários de cafajestes, preguiçosos e canalhas que buscavam criar desordens. Uma passeata pacífica, composta de trabalhadores, desempregados e familiares silenciou momentaneamente tais críticas, embora com resultados trágicos no pequeno prazo. No alto dos edifícios e nas esquinas estava posicionada a repressão policial. A manifestação terminou com um ardente comício. No dia 3, a greve continuava em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a policia disparou contra um grupo de operários, matando seis, deixando 50 feridos e centenas presos, Spies convocou os trabalhadores para uma concentração na tarde do dia 4. O ambiente era de revolta apesar dos líderes pedirem calma.

Os oradores revezavam-se; Spies, Parsons e Sam Fieldem, pediram a união e a continuidade do movimento. No final da manifestação um grupo de 180 policiais atacou os manifestantes, espancando-os e pisoteando-os. Uma bomba estourou no meio dos guardas, uns 60 foram feridos e vários morreram. Reforços chegaram e começaram a atirar em todas as direcções. Centenas de pessoas de todas as idades morreram.

A repressão foi aumentando num crescendo sem fim: decretou-se "Estado de Sítio" e proibição de sair às ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas, criminosos e gângsters pagos pelos patrões invadiram casas de trabalhadores, espancando-os e destruindo seus pertences.

A justiça burguesa levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou dia 21 de junho e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas. A sentença foi lida dia 9 de outubro, no qual Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte na forca; Fieldem e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.

Spies fez a sua última defesa:

"Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário - este movimento de milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção - se esta é sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não poderão apagá-lo!"

Parsons também fez um discurso:

"Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão". Fez um relato da acção dos trabalhadores, desmascarando a farsa dos patrões com minúcias e falou de seus ideais:

"A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objectivo do socialismo".

No dia 11 de novembro, Spies, Engel, Fischer e Parsons foram levados para o pátio da prisão e executados. Lingg não estava entre eles, pois suicidou-se. Seis anos depois, o governo de Illinois, pressionado pelas ondas de protesto contra a iniquidade do processo, anulou a sentença e libertou os três sobreviventes.

Em 1888 quando a AFL realizou o seu congresso, surgiu a proposta para realizar nova greve geral em 1º de maio de 1890, a fim de se estender a jornada de 8 horas às zonas que ainda não haviam conquistado.

No centenário do início da Revolução Francesa, em 14 de julho de 1889, reuniu-se em Paris um congresso operário marxista. Os delegados representavam três milhões de trabalhadores. Esse congresso marca a fundação da Segunda Internacional. Nele K. Marx expulsou os anarquistas, cortou o braço esquerdo do movimento operário num momento em que a concordância entre todos os socialistas, comunistas e anarquistas residia na meta: alcançar uma sociedade sem classes, sem exploração, justa, fraterna e feliz. Os meios a empregar-se para atingir aquele objectivo constituíam os principais pontos de discordância: Marx, com toda a sua genialidade incontestável, levou adiante a tese de que somente através de uma "Ditadura do Proletariado" se poderia ter os meios necessários à abolição da sociedade de classes, da exploração do homem pelo homem. Mikhail Bakunin, radical libertário, contrapondo-se a Marx, criou a nova máxima: "Não se chega à Luz através das Trevas." Segundo o Anarquista russo, deve-se buscar uma sociedade feliz, sem classes, sem exploração e sem "ditadura" intermediária de espécie alguma! A tendência maioritária do Congresso ficou com Marx e os Anarquistas foram, vale repetir, expulsos. Muitos têm apontado nesta ruptura de 1890 os motivos do fracasso do socialismo dito "real": enfatizou-se mais do que o necessário a questão da "ditadura" e o "proletariado" acabou esquecido. A própria China de hoje é disso exemplo: uma pequenina casta de empresários lidera ditatorialmente uma nação equalizada à força aproximando perigosamente do neoliberalismo...


Fechando este parêntese que já vai longo, voltemos à reunião do Congresso Operário de 1890: na hora da votar as resoluções, o belga Raymond Lavigne encaminhou uma proposta de organizar uma grande manifestação internacional, ao mesmo tempo, com data fixa, em todas os países e cidades pela redução da jornada de trabalho para 8 horas e aplicação de outras resoluções do Congresso Internacional. Como nos Estados Unidos já havia sido marcada para o dia 1º de maio de 1890 uma manifestação similar, manteve-se o dia para todos os países. No segundo Congresso da Segunda Internacional em Bruxelas, de 16 a 23 de setembro de 1891, foi feito um balanço do movimento de 1890 e no final desse encontro foi aprovada a resolução histórica: tornar o 1º de maio como "um dia de festa dos trabalhadores de todos os países, durante o qual os trabalhadores devem manifestar os objectivos comuns de suas reivindicações, bem como sua solidariedade".

Como vemos, a greve de 1º de Maio de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos, não foi um facto histórico isolado na luta dos trabalhadores, ela representou o desenrolar de um longo processo de luta em várias partes do mundo que, já no século XIX, acumulavam várias experiências no campo do enfrentamento entre o capital (trabalho morto apropriado por poucos) versus trabalho (seres humanos vivos, que amam, desejam, constroem e sonham!). O incipiente movimento operário que nascera com a revolução industrial, começava a apontar para a importância da internacionalização da luta dos trabalhadores. O próprio massacre ao movimento grevista de Chicago não foi o primeiro, mas passou a simbolizar a luta pela igualdade, pelo fim da exploração e das injustiças.


Poesia de Joaquim Moreira da Silva


O que é ser anarquista
(excertos)



Ser anarquista é ser bom
É sentir no coração
A dor da miséria alheia
Prò bem estar sempre disposto
A ter na frente do rosto
As grades duma cadeia


Pregar a Fraternidade
Liberdade e igualdade
Sacrossanta trilogia
E sempre constantemente
Cara a cara e frente a frente
Dar combate à burguesia


É proclamar a igualdade
Entre toda a Humanidade
A liberdade e o amor
Preparar a Revolução
Para a emancipação
Do povo trabalhador


Ter espírito cultivado
Forte e desempoeirado
De todos os preconceitos
Querer na Humanidade
A mais perfeita igualdade
Nos deveres e nos direitos


Arrasar toda a fronteira
E depois da Terra inteira
Fazer um frondoso horto
Onde toda a Humanidade
Possa gozar à vontade
Um relativo conforto


Combater sem piedade
Os dois monstros de maldade
Que são Igreja e Estado
Nesse combate a valer
Nada lhes reconhecer
De absoluto ou sagrado


Querer por pátria o mundo inteiro
A abolição do dinheiro
Para não haver quezília
Abolir a lei tirana
E com toda a raça humana
Formar uma só família


Anarquista é ser cristão
É de Cristo ser irmão
Em ideias e acções
Como ele correu outrora
É correr também agora
Do templo os vendilhões


É pregar o comunismo
Verdadeiro socialismo
Onde não há dono algum
A fábrica e a oficina
A bouça o campo e a mina
Ser de todos em comum


Ser generoso e sublime
Nunca praticar um crime
Nunca manchar a Razão
Quem for assim altruísta
É um verdadeiro anarquista
De alma vida e coração

(continua)

Poesia de Joaquim Moreira da Silva , incluída na “Antologia Poética”, edição da CM de Vila do Conde (1987), com prefácio de Arnaldo Saraiva

O Operário em construção

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo de religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia ...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
Garrafa, prato, facão
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção.
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
ele não cresceu em vão.
Pois além do que sabia
Exercer a profissão
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macação de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
"Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
-Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Como o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fracturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


Vinícius de Moraes


30.4.05

Há 30 anos que os norte-americanos foram varridos de Saigão após uma pesada derrota militar



Os helicópteros norte-americanos abarrotados de gente a levantar do telhado da embaixada americana em Saigão, no Vietname a 30 de Abril de 1975 é a imagem mais forte da pesada derrota que os Estados Unidos sofreram no Vietname, e que correu mundo por via do cinema e da Tv, fazendo já parte da antologia visual da história contemporânea.

Eram quase 8 horas da manhã de uma quarta-feira, 30 de Abril de 1975. Um helicóptero gigante elevava-se lentamente por cima da embaixada americana. Com ele iam os últimos soldados norte-americanos e os vietnamitas colaboracionistas que tinham conseguido entrar no aparelho entre os muitos que forçaram o gradeamento do recinto da embaixada americana e entraram de rompante com o intuito evidente de fugir face ao avanço vitorioso da guerrilha comunista (vietcong) e das tropas norte-vietnamitas.

Os Estados Unidos deixavam para trás 58.202 mortos desde o início da guerra que se iniciara em 1961 com a chegada dos «conselheiros» norte-americanos a que se seguiu a invasão maciça das suas tropas. Uma guerra que foi uma autêntica carnificina: calcula-se que cerca de 1,1 milhões de militares norte-vietnamitas, 230 mil militares sul-vietnamitas e 4 milhões de civis tenham sido mortos como consequência da invasão, ocupação e sucessivos bombardeamento que o exérctio norte-americano sujeitou o Vietname durante os anos de 1962-1975.

A derrota do exército norte-americano representou também a derrota do exército mais bem equipado do mundo face à resistência e guerrilha dos vietnamitas, em particular dos comunistas, que possuíam equipamento rudimentar

Pequena cronologia:
1859 – França inicia a colonização da Indochina

1940 – Japão assume o controle da Indochina

1959 – A França é derrotada na batalha de Dien Bien Phu. O Vietname divide-se em Norte e Sul do paralelo 17

1959 – Infiltrações no Vietname do Sul

1962 – Os EUA instalam 12.000 «conselheiros» militares no Sul do Vietname

1963 – É deposto o presidente do Vietname do Sul num golpe apoiado pelos norte-americanos

1964 – Os EUS iniciam os bombardeamento ao Norte

1965 – Marines americanos desembarcam em força no Vietname

1967 – o número de tropas norte-americanas atinge os 500 mil militares.

1968 – Ofensiva do Tet. Guerrilha e tropas do norte atacam as posições americanas

1969 – O presidente norte-americano inicia a retirada de tropas.

1975 – Campanha Ho Chi Ming: as cidades do Sul caem umas atrás de outras até as forças comunistas tomarem Saigão, capital do Vietname do Sul, e expulsarem os norte-americanos em fuga.

29.4.05

A Insuficiência das Ruas



Texto de reflexão para activistas pouco teóricos
Originalmente publicado no “Libera”, boletim do Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres


Libera, boletim informativo do Círculo de estudos libertários Ideal Peres – texto publicado no nº 112, Maio-Junho/2002
www.celip.cjb.net

As tradições revolucionárias sempre contaram ,para a sua fixação na memória social, com imagens de eventos, insurreições e levantamentos de rua. Dispomos desses fragmentos, devidamente acompanhados por propostas políticas, e que ajudam na formação de uma identidade ou “etnia ideológica” onde cabem não apenas os fenómenos com maior visibilidade mas também as propostas mais consequentes.
Após o Maio de 68 e, especialmente, com a ruína e queda do triste espectáculo circense-inquisitorial de má memória da antiga URSS, nos inícios dos anos 90, as esquerdas caíram numa aparente letargia. A tais factos se aplicou, para além de uma transitória farsa nipo-americana anunciando o fim da história, uma roupagem intelectual que se convencionou chamar pós-moderna.
O prefixo “pós” deste rótulo identitário sugeria a superação de uma realidade “moderna” e a sua substituição por uma nova fase de relativismo revestida de presságios de uma liberdade radical e de cidadania global. Esta evolução não tardou em revelar as duas faces bastante familiares ao mundo que acabava de ser exumado por força dos “novos tempos”.
Se, por uma lado, o pós-moderno, na sua acepção virulentamente liberal, lançava as necessidades das pessoas para o arbítrio do mercado e reforçava aquela particular relação global baseada na ética do lucro e das lógicas competitivas do mundo dos negócios; por outro, uma vertente de “esquerda”, ancorada em valores éticos diametralmente opostos aos liberais, buscava, também no relativismo, um modelo explicativo para a “nova” realidade.
Nesta última vertente de pensamento, influenciada também pelo espírito do tempo, podemos encontrar uma variada gama de teorias que, em maior ou menor intensidade, nutriram-se do património político forjado pelos anarquistas nas décadas anteriores ao fenómeno pós-moderno. Uma grande amálgama uniu, pelo menos tacticamente, situacionistas, pós-estruturalistas e libertários profundamente desconfiados das agremiações partidárias. A bandeira do anti-autoritarismo, tão coerentemente empunhada pelos bakuninistas, durante a Primeira Internacional, pareceu fornecer um ponto de consenso mínimo aos insubmissos “náufragos da modernidade”.
Partindo do pressuposto que a pós-modernidade, no seu sentido mais restrito, é má conselheira da revolução, torna-se necessário toda uma profunda discussão em torno dos problemas contemporâneos que afectam o anarquismo. Na verdade, os anarquistas carecem de fóruns onde se proceda a uma exaustiva discussão teórica em que possam amparar as suas atitudes públicas e as suas opções privadas.
As manifestações de rua, em que se destaca Seattle, deram ao anarquismo uma visibilidade incomum nos últimos anos. As vagas de jovens trajando de negro empunhando as emblemáticas bandeiras vermelhas e negras não deixam dúvidas acerca da participação significativa do pensamento libertário nas manifestações antiglobalização.
Acontece que, apesar de algumas tentativas em sentido contrário, os orgãos de comunicação social burgueses têm tido uma grande sucesso quando descrevem toda essa recente história do anarquismo, mais até do que os próprios protagonistas. Estimulados pelas imagens e pelos apelos sensacionalistas desses media, muitos jovens engrossam as passeatas antiglobalização motivados mais pela adrenalina, na busca inconsciente de um “ritual de passagem” (da adolescência - Nota do Tradutor), do que propriamente por uma atitude reflectida. Procedendo dessa forma, bem se pode dizer que, como num fenómeno de retroalimentação, uma boa parte desses activistas que engrossam as manifestações são, na verdade, recrutados pelos media burgueses e não pelo espírito libertário que deveria determinar o movimento.
Uma tal situação, caso não seja encarada com seriedade e muita reflexão, pode vir a transformar um movimento vigoroso em mais uma peça publicitária com fôlego e prazo de validade limitado. O abandono de uma atitude consequente e a sua substituição por um hedonismo pragmático servirá para a emergência de novos comportamentos e novas estéticas mas não para a construção de uma sociedade realmente diferente. O crescimento numérico das manifestações só será acompanhado do seu correspondente qualitativo se houver muito trabalho e organização. Caso contrário, estaremos a reforçar o estereótipo, disseminado principalmente pelo marxismo ( e pela ideologia dominante – Nota do tradutor), segundo o qual o anarquismo é coisa vaga e intuitiva.

28.4.05

70 propostas de actividades para substituir a TV

70 propostas de actividades para substituir a TV

- aprender a tocar um instrumento musical
-ir a concertos
-visitar uma biblioteca pública
-ouvir rádio
-escrever um texto (poesia ou narrativa, pouco importa)
-pintar uma quadro
- aprender a entender as árvores e flores
- plantar alguma coisa
- nadar
-ler um livro
- ler um livro a outra pessoa
-planear um passeio à serra ou à praia
-observar as aves, e aprender a reconhecê-las.
-oferecer alguma coisa
-fazer uma visita
-escrever uma carta
-aprender a fazer pão
-aprender a fazer compotas
-preparar licores caseiros
-gozar de um momento de silêncio
-entrar num grupo coral e cantar em conjunto
-arrumar o armário e levar a roupa desnecessária a quem a precisar
-começar a escrever um diário
- ir a um museu
- jogar as cartas
-visitar uma livraria
-construir um objecto artesanal
-observar o céu à noite
-saber ou tomar contacto com uma cultura ou civilização diferente
-tirar fotografias
-organizar as fotos
-assistir a um peça de teatro
-emtrar para um grupo de teatro
-fazer exercícios físicos
-repara ou deslocar algum móvel
-ler poesia e memorizar os versos que mais gosta
-dançar
-Assistir ao pôr de sol
-ir ai cinema
-reunirmo-nos e conviver com amigos/as
-organizar uma tertúlia
-tratar dos vasos de casa
- recolher plantar medicinais
- aprende os atributos das plantas medicinais
-ouvir música
- participar nalguma colectividade da zona ou bairro
-empenhar-se em acções ecologistas ou dos vários movimentos sociais
-preparar algum dossier temático
-aprender um idioma
-aprender a fazer sabão
- cozinhar
-fazer um inventário dos gastos e despesas supérfluas
-frequentar lojas de comércio justo
-visitar exposições
-construir uma pequena farmácia com remédios caseiros
-praticar sexo
-fazer ou retocar a tua própria roupa
-ler a imprensa
-desfrutar a vida sem fazer nada
-organiza uma dieta equilibrada
-passear
-organiza a tua bilbioteca
- troca livros e músicas com amigos/as
-estudar as matérias que te interessem
-praticar um desporto de equipa
-ver como se pode poupar energia na tua casa
-participar na defesa dos direitos humanos e sociais
-visitar uma cinemateca
-assistir a um colóquio ou debate
……

…e tudo o que te dê na real gana…

Uma semana sem TV (25/4 a 2/5)



A semana sem TV ( 25/4 a 2/5) lançada nos Estados Unidos pela conhecida revista Adbuster pretende fomentar uma reflexão crítica sobre o papel que a Tv desempenha hoje em dia nas nossas sociedades industrializadas, levando á reavaliação da sua exagerada importância no quotidiano e roubando tempo e energia que poderiam ser utilizadas noutras áreas e de forma mais construtiva.
Instrumento político, cultural, comercial, a televisão é um claro meio de controle social.

Estudos do John Watson Institute, no Colorado, afirmam que a Tv deve ser classificada como mais uma droga adictiva. Segundo o mesmo estudo o consumo de Tv preenche os requisitos que definem uma adicção:

- Utilização como sedativo
-visão indiscriminada
-sensação de perda de controle durante a visão
-sentir-se mal consigo mesmo por ter excedido no seu consumo
-incapacidade de deixar de olhar
-sentir-se débil quando não se está a olhar a Tv

A publicidade é a verdadeira justificação para a Tv. É ela que a financia e justifica todo o tipo de programas em busca de maior audiência. Aliás, a Tv já consegue fazer notícias como se fossem anúncios…

O consumo de televisão, com programação de baixíssima qualidade, reduz a actividade de pensamento e da imaginação. Incita, além do mais, a um tipo de consumo social ambientalmente insustentável ao recorrer sistemática e insidiosamente à manipulação dos desejos humanos.


Alguns dados:

- estudos feitos mostram que os pais falam com os seus filhos cerca de 40 minutos semanais, enquanto estes dedicam 1.680 minutos por semana a ver televisão, o que tem por consequência que 54% das crianças preferem a TV ainda que esta não os alimenta nem os defende.

- calcula-se que os jovens norte-americanos passem 900 horas na escola, durante os seus estudos secundários, ao passo que gastam 1.500 horas em frente do aparelho de TV.

- estima-se que o nº de assassinatos que uma criança viu quando termina a 4ª classe é de 8.000. Mas quando perfizer 18 anos já terá assistido a cerca de 200.000 actos de violência homicida.

- tendo em conta o tempo médio de vida de uma pessoa , calcula-se que a Tv ocupe entre 12 e 15 anos do tempo de um indivíduo nos países industrializados

- Segundo um inquérito feito junto dos jovens espanhóis entre 15 a 29 anos, o aparelho de Tv é o terceiro objecto mais importante das suas vidas depois da casa e do carro.

- Portugal e Espanha são os países europeus que mais tempo passam frente à TV, aproximando-se das 4 horas/dia dos norte-americanos.
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fonte: ecologistas en accion

Agentes secretos belgas passam a estar desarmados por razões de segurança



Ao contrário de James Bond, agente secreto com licença para matar, os agentes secretos do Estado belga estão impedidos de uso e porte de arma segundo uma decisão do governo que acabou de ser anunciada. O motivo para uma atitude tão inesperada como esta reside no facto de no passado 12 de Março, nas instalações dos Serviços de Informações belgas, um dos agentes de informação ter ameaçado atirar contra um dos seus colegas. Segundo explicações dadas a conduta do agente deve-se ao facto deste possuir uma personalidade instável...
Ou seja, não regulava lá muito bem da cabeça.

Fonte:
www.lalibre.be/

O exército é o refúgio dos falhados ou a vida ordinária da torturadora Lynndie


Lynndie Rana England, a soldado-torturadora norte-americana que se vê nalgumas fotografias a torturar e humilhar prisioneiros iraquianos, é natural de uma aldeia perdida da Virginia Ocidental e alistou-se como reservista no exército estadual norte-americano depois de abandonar os estudos na escola secundária da sua localidade.
Nascida em 1982, Lynndie é o modelo da rapariga provinciana que, sem perspectivas, decidem entrar no exército para ter um objectivo: obedecer e humilhar os outros, quando não mesmo matar!!!

Jesus era terrorista para os invasores romanos e para os judeus da época. Por isso o crucificaram!




A figura histórica de Jesus é um bom exemplo de como a história é apropriada pelo poder secular ( político) e religioso ( Igreja) de forma a esvaziá-la de todo e qualquer conteúdo subversivo.

Na verdade, a figura histórica de um homem chamado Jesus que, apesar de ser judeu, traiu os seus ( os Judeus) e apelava à resistência pacífica contra os invasores romanos e denunciava fortemente o conluio e a corrupção das elites judaicas e romanas lançou aquela sociedade em polvorosa.

A sua acção directa em expulsar os vendilhões que negociavam dentro do próprio templo constituiu um acto de terrorismo e de insubordinação face ao poder religioso dos Sumo-sacerdotes que não podia ser ignorado nem podia ser deixado impune pelo aparelho da justiça religiosa.

O crime de blasfémia – um dos crimes mais graves para a época - de que o acusaram constituiu o corolário lógico da reacção do poder político e religioso.

Ao crime de blasfémia correspondia a pena capital e a tortura máxima da crucificação.


Pudesse este exemplo iluminar as mentes cristãs belicistas assim como as mentes dos militares-cruzados da Coligação anglo-americana e de todos os Rambos que pululam hoje por esse mundo fora.

Infelizmente, a esperança é pouca.

A força da droga da TV - e das contínuas lavagens ao cérebro - é ainda muito forte e torna os telespectadores pouco mais que papagaios do poder militar-económico-político.
Deles não será com certeza o Reino dos Céus.



27.4.05

Activistas ecologistas que barraram as portas da Vicaíma foram absolvidos



Os activistas da Greenpeace e da Quercos que barraram os portões de entrada da empresa de importação de madeiras Vicaíma, em protesto contra o abate ilegal de árvores da Amazónia e a sua utilização pela empresa de Vale de Cambra acabam de ser absolvidos pelo Tribunal judicial deste concelho.

Fonte: JN

Movimento anti-TV tem arma secreta



Uma associação contra a existência de aparelhos de TV em lugares públicos acabou de apresentar na Grã-Bretanha uma tele comando que é capaz de desligar tais aparelhos num raio d 17 metros. A associação «White Dot» (ponto branco) pôs à venda o telecomando com o nome de «TV-B-Gone» ( «Tv desaparece»), um invento do californiano Michel Altman.
fonte: JN

Doenças do cérebro nos portugueses


Um em cada 3 portugueses sofre de distúrbios mentais, seja do foro psiquiátrico ou neurológico. No estudo internacional agora divulgado sobre a matéria, Portugal ocupa o 12º lugar na lista de 28 países analisados, tendo 2,9 milhões de pessoas afectadas.

O neo-liberalismo europeu dá o dito pelo não dito e vira proteccionismo têxtil


A União Europeia prepara-se para invocar a cláusula de salvaguarda a fim de proteger a sua indústria têxtil face às importações maciças dos têxteis chineses desde o passado dia 1 de Janeiro, data a partir do qual o comércio internacional com a China foi liberalizado.
Esta é bem uma ilustração dos efeitos desastrosos do liberalismo e da desregulamentação económica do actual capitalismo desorganizado. Para que se saiba...

Funcionária morre em empresa do grupo Jerónimo Martins na Polónia



Uma funcionária de uma grande superfície, pertencente ao grupo económico português Jerónimo Martins, instalada na Polónia faleceu quando entrava no seu turno de trabalho.
Os delegados sindicais acusam a empresa de impôr horários de trabalho extremamente duros e de más condições de trabalho aos seus trabalhadores, e que estarão na origem da morte daquela funcionária.

Mostra da Oralidade em Paredes de Coura a 29 e 30 de Abril


Nos próximos dias 29 e 30 de Abril vai realizar-se uma Mostra da Oralidade Galaico-Portugues em Paredes de Coura que incluirá exposições, documentários, contos e lendas, cantares e todo um conjunto de manifestações da tradição oral popular.

«Eu, a Puta de Rembrandt»

Neste romance tudo é verdadeiro, nada é inventado, nem os processos, nem as receitas, nem os cheiros, nem o armário, nem o espelho... Nem as obras, nem a bondade”, afirma a sua autora, Sylvie Matton, que procurou, acima de tudo, a verdade para a redacção deste romance.
Baseada no destino injusto e atormentado de Hendricke Stoffels, mas também na beleza da sua pessoa, a autora constrói um romance simultaneamente belo e triste.

Rembrandt retratou e amou duas mulheres: Saskia, com quem casou, e Hendricke Stoffels, que viria a ser a mãe de Cornelia, mas que não chegou a desposar.

Esta situação de mancebia, na Holanda puritana da época, lançou a pior das acusações sobre uma jovem culpada, somente, de amar e admirar o homem que a imortalizará através da pintura.

“Eu, a Puta de Rembrandt” é uma obra cativante, escrita numa linguagem viva e expressiva, que transporta o leitor para uma atmosfera pejada de sentimentalismo e dor.

O progresso na perspectiva anarquista

Tudo é um (Abrãao) – nas sociedades da Antiguidade

Tudo é pecado (Jesus) – durante o Império Romano

Tudo é económico (Marx) – no século XIX

Tudo é sexual (Freud) – na passagem do século XIX para o século XX

Tudo é relativo (Einstein) – no século XX





26.4.05

O triste aniversário do acidente nuclear de tchernobyl

No dia 26 de Abril de 1986, aconteceu na central nuclear de Tchernobil o pior acidente nuclear em tempos de paz.
Uma explosão seguida de incêndio num reactor provocou uma perigosa contaminação cujas consequências são sentidas ainda hoje.

Tchernobil é uma cidade no centro da Ucrânia, onde foi construída uma central nuclear em meados dos anos 70, a 110 KM da capital, Kiev. O primeiro reactor foi activado em 1977, pela União Soviética. Nos anos seguintes, foram activados mais três.

Em 1985, um grave acidente nuclear num dos reactores diminuiu a potência da central em 25%.
A 26 abril de 1986, duas fortes explosões destruíram o reactor central, originando uma brecha no núcleo de mil toneladas. Seguiram-se outras explosões, provocadas pela libertação de vapor, espalhando uma gigantesca nuvem de radiação que contaminou 75% da Europa, da Irlanda do Norte à Grécia.

Nas imediações de Tchernobil, 31 bombeiros ou trabalhadores morreram naquele dia e 135 mil pessoas foram evacuadas.
A União Soviética tentou ocultar as proporções do acidente. Antes mesmo de Moscovo admitir a catástrofe oficialmente, a Suécia e a Finlândia já alertavam para o aumento da radiação.

Catástrofe aumentou cepticismo e contestação antinuclear

No sul da Alemanha, por exemplo, naquele dia, as medições no solo apontaram até 45 mil bequeréis de contaminação por césio 137 (o valor normal é 300 bequeréis). Apesar dos indícios evidentes de perigo, as fontes oficiais, como a Agência Internacional de Energia Atómica e o Fórum Nuclear Alemão, tentaram minimizar as consequências. Em todo o mundo, cresceu a polémica e a contestação em torno do uso e dos perigos da energia nuclear.

Após o acidente, milhares de soldados construíram uma protecção de aço e cimento, denominada sarcófago, para proteger o reactor destruído.
Em 1991, um incêndio de grandes proporções levou ao encerramento das actividades de outro dos reactores. A Agência Internacional de Energia Atómica inspeccionou a central em Março de 1994 e encontrou várias deficiências de segurança nos dois reactores ainda em funcionamento.
O sarcófago que sela o que resta do reactor explodido estava ruindo.

Em 1995, foi elaborado um protocolo de acordo entre a Ucrânia e as sete nações mais industrializadas para o encerramento das actividades da central nuclear de Tchernobil, em troca de assistência económica.

Ucrânia aposta na energia nuclear

Com o seu fecho, a Ucrânia teria um déficit de 5% na produção de electricidade. O governo de Kiev só cedeu à pressão das nações ricas em troca de uma ajuda de US$ 2,3 milhões do Grupo dos Sete para a construção de dois novos reactores, o financiamento de programas sociais e o reforço da segurança das outras quatro centrais nucleares ucranianas.

As estimativas no final do século passado indicavam que cerca de três milhões de pessoas, entre as quais um milhão de crianças, ainda sofrem de doenças congénitas provocadas pelas radiações.

O processo de desmantelamento da central nuclear pode levar pelo menos 40 anos, pois é necessário esperar que a radioactividade diminua naturalmente. Tentativas para tornar a terra em volta de Tchernobil novamente segura para a agricultura incluem a raspagem de até quatro centímetros da superfície do solo. Em Dezembro de 2000, a central nuclear de Tchernobil encerrou oficialmente suas actividades.

O que preocupa é o mau estado de conservação do sarcófago, a estrutura que cobre as ruínas do reactor avariado em 1986. Ele está com rachaduras, ameaça ruir e há o risco de vazamento de cerca de 160 toneladas de combustível activo do núcleo do reactor.

Fonte: Deutschewelle

Radioactividade de Tchernobyl ainda contamina alimentos alemães

Passados 16 anos do acidente nuclear de Tchernobil, um nível elevado de radioactividade ainda é constatado em diversos alimentos silvestres e carnes de caça na Alemanha.
O Departamento Federal de Protecção contra Radioactividade (BfS) analisou diversos tipos de fungos comestíveis, de amoras silvestres e de carnes de caça, deparando com uma elevada contaminação restante, em especial de césio-137.
A região mais contaminada é a do sul da Alemanha, sobretudo a Floresta Bávara. O BfS chamou a atenção para a proibição em vigor de comercialização de alimentos que apresentem uma contaminação de césio-137 superior a 600 bequeréis por quilo. Os alimentos examinados apresentaram valores até cem vezes superiores a isto.


Fonte: Deutschewelle

Perderam-se 12.000 peças arqueológicas com a guerra do Iraque.

O governo de Saddam Hussein desintegrou-se e as forças de invasão e ocupação lideradas pelos Estados Unidos desencadearam um crime contra a história.

Contrabandistas profissionais ligados à máfia internacional de antiguidades conseguiram violar algumas das portas trancadas das salas de armazenamento do Museu de Bagdad.
Saquearam artefactos de valor incalculável, como a colecção inteira de selos cilíndricos do museu e um grande número de esculturas assírias de marfim.
Mais de 15 mil objectos foram levados. Vários deles foram contrabandeados para fora do Iraque e oferecidos no mercado.


Até agora, 3 mil foram recuperados em Bagdad, alguns devolvidos por cidadãos comuns, outros pela polícia. Além disso, mais de 1,6 mil objectos foram confiscados nos países vizinhos, cerca de 300 na Itália e mais de 600 nos Estados Unidos.
A maioria das peças roubadas não foi encontrada, mas alguns coleccionadores privados no Oriente Médio e na Europa admitiram possuir objectos com as iniciais IM (número de inventário do Museu do Iraque).
Sítios arqueológicos destruídos


Um número crescente de websites também oferece artefactos da Mesopotâmia - com até 7 mil anos - para venda.
Certamente que há objectos falsos apregoados na internet, mas a mera existência deste mercado estimulou o saque de sítios arqueológicos no sul do Iraque.



O quadro é horrendo. Mais de 150 sítios sumérios que datam do milênio 4 a.C. – tais como Umma, Umm al-Akkareb, Larsa e Tello – foram destruídos, transformados em crateras cheias de fragmentos de cerâmica e tijolos quebrados.

Se fosse, escavados de maneira apropriada, estes sítios - que, estima-se, cobrem 20 Km quadrados - poderiam ajudar a entender o desenvolvimento da raça humana.
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"Um selo cilíndrico ou uma tábua cuneiforme rendem menos de US$ 50 no local para o saqueador", explica o arqueólogo responsável pelo distrito de Nasiriya, Abdul Amir Hamadani.


"É um desastre o que todos estamos a assistir, mas que pouco podemos fazer para evitar."

Botas pesadas

As próprias forças de coligação de ocupantes danificaram sítios arqueológicos ao usá-los como bases militares.

A antiga Babilónia sofreu danos irreversíveis, apesar de ser uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Um relatório alarmante do administrador do departamento de Oriente Próximo do Museu Britânico, John Curtis, conta como áreas no meio de um sítio arqueológico sofreram terraplanagem para que se criasse uma área para helicópteros e estacionamento de veículos pesados.


"Eles causaram danos substanciais no Portão Ishtar, um dos monumentos mais famosos da antiguidade", escreveu Curtis.

"Veículos militares dos Estados Unidos esmagaram pavimentos de tijolos de 2,6 mil anos, fragmentos arqueológicos foram espalhados pelo sítio, mais de 12 trincheiras foram cavadas sobre depósitos da antiguidade e projectos militares de deslocamento de terra contaminaram o sítio para futuras gerações de cientistas."

"Soma-se a isso todo o dano causado a nove das figuras moldadas de tijolos de dragões no Portão de Ishtar por pessoas que tentaram remover os tijolos da parede."

Quanto mais tempo o Iraque ficar em estado de guerra, mais o berço da civilização estará ameaçado.

Fonte: BBC news (autora: Joanne Farchakh Bajjaly é uma arqueóloga independente e jornalista que cobre o Oriente Médio. Ela estuda o patrimônio histórico iraquiana há sete anos.)

25.4.05

As lágrimas de alegria do 25 de Abril




Hoje em que faz anos o 25 de Abril é preciso retomar o combate de sempre: ajudar a fazer a história dos mais fracos e dos mais explorados.
Porque o 25 de Abril não foi só o golpe militar que derrubou o regime salazarista do corporativismo fascista e que permitiu a descolonização e o regresso a casa dos militares empenhados nas três guerras coloniais.
O 25 de Abril foi também o momento histórico em que os homens e mulheres do triste e ledo Portugal começaram a abrir a boca, a chamar as coisas pelos nomes e a pedir justiça e dignidade para a sua vida.
O processo revolucionário que se lhe seguiu mostrou bem como é possível as pessoas tomarem o seu destino em mãos e lançarem-se em construir uma sociedade mais participativa e justa.
Qualquer que tenha sido o desfecho desse processo, a data do 25 de Abril ficará sempre associada à queda de um regime desacreditado, à libertação dos presos políticos, e à restauração das liberdades públicas que dão dignidade a um ser humano.
Aos jovens de então o 25 de Abril será muito mais que isso. Representa um marco da sua juventude e dos seus projectos existenciais, e uma brisa fresca da liberdade. Que só muito dificilmente se esquecerão. Sobretudo nos tempos malditos do regresso à ordem e à mentira institucionalizada.
Por isso é imperioso continuar aquele combate.

Muito poucos ainda o sabem, mas já faltou mais para o próximo 25 de Abril…