25.10.06

Todo o ser humano tem direito à preguiça

Declaração universal dos direitos do ser humano
( segundo a formulação de Raoul Vaneigem)


Artigo 21º
Todo o ser humano tem direito à preguiça

1. Durante séculos, o direito à preguiça foi apenas uma organização do tempo de trabalho, concedendo aos escravos o descanso necessário a uma rendibilidade acrescida. Trata-se agora de o arrancar ao princípio da exploração para o restituir ao princípio da fruição, criativa ou não. Que a preguiça se baste a ela própria e não se possa confundir com as tréguas que a fadiga concede ao corpo para restaurar a sua força produtiva.

2. A verdadeira preguiça concede ao prazer de nada fazer a graça de se aceitar sem culpa, resignação, esquecimento de si mesmo ou impotência. Da mesma maneira que o repouso e o jogo proporcionam à criança a lenta maturação em que ela se torna naquilo que é e quer ser, queremos que a letargia dos sentidos e da razão, ao contrário de gerar monstros, seja o tempo em que a vida se emprenha a si mesma.

3. A arte da preguiça consiste em afiná-la a fim de que, conciliando-se com as outras paixões, ela escape a uma proliferação que, ao disseminá-la por todo o lado, a tornaria odiosa e a destruiria. Não há nada pior do que a lassidão do ânimo. O privilégio da preguiça refinada é o de impedir a preguiça do desejo.

Comentário – Existe uma preguiça mortífera. Remete para o trabalho, serve-lhe de escape, usa o corpo e a consciência para produzir, como ele, o vazio do ser. Uma preguiça que, pronta a fazer a economia de um gesto, vai obrigar em breve a efectuar dez. Uma preguiça que se poupa ao trabalho de uma reflexão, põe-se a pensar de forma enviesada e cai na servidão e na moleza para ser apanhada na armadilha do poder. A preguiça é o triunfo da independência, e não uma cilada da sujeição

Raoul Vaneigem, in Declaração universal dos direitos do ser humano

João Santiago, sapateiro libertário


Comecei com 11 anos no ofício de sapateiro, ao pé de mestres competentes aqui de Setúbal, com os quais acompanhei até aos 21 anos. Trabalhavam em pequenas oficinas. Aos 21 anos libertei-me daquela situação e comecei a trabalhar por conta própria. Muitas coisas aprendi com eles e outras tive de aprender sozinho. Até hoje.
Depois tive na tropa e, quando sai, não havia trabalho na profissão. Entretanto já era casado…tive que ir à procura de outras coisas, mas sem gostar do que me aparecia. Assim que tive oportunidade de voltar novamente para isto, nem hesitei.. Porque os outros empregos implicavam trabalhar com muita gente ao mesmo tempo. Não sei se foi por me ter habituado a lidar com pouca gente. De início, achei aliciante. Gostei! Depois apanhei aquele período a seguir ao 25 de Abril… e foi uma situação muito complexa. Meti-me naquilo a sério, com entusiasmo. E as pessoas com quem trabalhava não sentiam as coisas da mesma maneira. Comecei a ter problemas e tive de fugir. Voltei ao meu primeiro ofício.
Claro que nessa fase aprendi muito. Aprendi a conhecer melhor as pessoas. Tinha um sonho, um sonho com o qual sempre sonhei: acreditava que, um dia, aquele sistema político haveria de cair. E a partir daí haveria um despertar nas pessoas para coisas que até aí não tinham. Foi extremamente decepcionante para mim ver que as pessoas não eram capazes de acompanhar, de fazer a leitura disso e de se lançarem na aventura de reconstruir. Portanto, fiquei desiludido. Não só pelo facto de as pessoas não terem feito o que eu sonhava, também pelo de se terem virado contra os que sonhavam assim…contra quem queria fazer as coisas. E isso atingiu o ponto de agressão, da perseguição e de outras coisas do género. Não suportei e vim-me embora.
Os sonhos que tinha vinham-me de um passado. Tive a felicidade de conhecer gente muito interessante. Coisas que são pouco conhecidas e que deviam sê-lo. Conheci analfabetos, pessoas que não sabiam ler, muito pobres, que viviam do seu trabalho e ganhavam muito pouco mas, do pouco que ganhavam, tiravam dinheiro, quotizavam-se, para comprar livros. Tinham uma noção do que lhes faziam falta. E depois havia de aparecer alguém que lesse os livros para eles ouvirem. Era pequenito, na altura, tinha para aí 7,8, ou 9 anos, já sabia ler. Esses adultos teriam já 30 e tal ou 40, talvez mais, vinham de uma escola anarco-sindicalista riquíssima – isso hoje é pouco conhecida… Então eu lia para eles os livros que eles compravam e lia outras coisas que arranjavam clandestinamente. Ainda hoje não sei como é que conseguiam arranjá-las. Nomeadamente Batalhas, o jornal A Batalha que na época saia clandestinamente. A leitura de um texto que poderia ter durado uns minutos, prendia-me ali horas. Porque eles ouviam a leitura e mandavam-me parar para comentar. Aí é que estava daqueles momentos. Foi a minha escola. A seguir comecei a entusiasmar-me pelos livros, a ler muito. Ainda hoje leio. Já menos, porque a vida não deixa. Tive a felicidade de conhecer esses e outros amigos através do pensamento. Leitura, contacto, conversação foram a minha escola. Há coisas mais importantes que o trabalho. Para mim, o mais importante é conversar e pensar. A minha formação foi e ainda hoje é isso.
Na época havia folhetos, uns livrinhos pequenitos, de gente ligada ao anarco-sindicalismo e ao anarquismo, às ideias libertárias…Havia folhetos do Errico Malatesta, do Pedro Kropotkin, de outros assim. Eles gostavam muito de ouvir essas leituras. Não sei onde arranjavam as publicações. A verdade é que as tinham. E, coisa curiosa, guardavam os livros junto do peito…Também se lia muito romance. Certos autores, estavam muito em voga: o Emílio Zola, o Vítor Hugo. Um português, o Ferreira de Castro, de quem eles gostavam muito. Conheci indivíduos desses que até iam a Lisboa para se encontrarem com o Ferreira de Castro num café…agora não me ocorre o nome do café. Era rapazinho na altura. Depois conheci outras pessoas, já mais «entradas» no movimento. Cheguei a ter reuniões com elas. Aceitaram receber-me o que, na época, era muito perigoso. Nessas reuniões, perspectivaram o relançamento do anarquismo em Portugal.
Apesar do meu gosto pela leitura, nunca me aproximei de instituições oficiais, como sejam as bibliotecas. Contactei com associações que tinham a sua biblioteca, mas foi mais uma decepção. Moro num bairro de uma cooperativa de habitação. Entrei para a cooperativa com um entusiasmo extraordinário. E depois vi no que aquilo se tornou. O mundo de hoje é para os vigaristas. A cooperativa caiu nas mãos dessa gente quesó vê dinheiro.Na cooperativa estavam previstas iniciativas para juntar amigos e familiares. Portanto, a dada altura, formei uma biblioteca quase sozinho. Mas surgiu o velho problema. Aceitei formar a biblioteca conquanto não houvesse lá muito material político partidário. Estávamos num período quente…Por causa disso, os políticos que lá estavam caíram-me todos em cima e foi o fim. Não tenho outras experiências de encontro com a leitura em lugares públicos ou associativos. Noutros tempos, a leitura fazia-se em casa das pessoas. Umas vezes numa, outras noutra, para não dar muito nas vistas de ser sempre no mesmo sítio. O que contava mais era o convívio.
Agora sou quase solitário, estou quase sozinho. Os meus amigos morreram todos e entretanto, infelizmente, não encontrei ninguém que preenchesse esse vazio. Enfim, sou conversador, gosto de conversar com toda a gente…mas aquilo que me interessa de facto parece interessar poucas pessoas. Alguns não dão grande atenção àquilo que eu digo, outros não me compreendem. Outros até nem gostam de me ouvir.
Esse mundo onde aprendi a ler, pensar e conversar morreu. Aliás a conversação é uma coisas que quase já não existe. Mesmo em família. Enfim, a verdade é que tive a sorte e a felicidade de conhecer aquela gente especial no ler e no viver.


Reprodução da entrevista realizada para o vídeo «Aprender Viver e Trabalhar» (ICE/Abril em Maio), 1997, e publicada no nº1 do jornal PREC

Ciclo Grandes Livros de Poesia


Já se iniciou o ciclo de sessões dedicadas aos grandes livros de poesia a decorrer na Fundação Eugénio de Andrade, Rua Passeio Alegre, 584, Porto, sempre às 18.30

O acesso é totalmente livre


Calendário

21 de Outubro
Cântico dos Cânticos – por José Tolentino Mendonça

28 de Outubro
Odisseia – por Frederico Lourenço

11 de Novembro
Eneida – por Maria Helena da Rocha Pereira

25 de Novembro
Divina Comédia – por Vasco Graça Moura

16 de Dezembro
Os Lusíadas – por Vítor Manuel Aguiar e Silva

6 de Janeiro de 2007
Fausto ( de Goethe) - por João Barrento

13 de Janeiro
Folhas de Relva, de Walt Whitman – por Maria Irene Ramalho

20 de Janeiro
As Flores do Mal, de Baudelaire – Fernando Pinto do Amaral

27 de Janeiro
Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke – por Nuno Júdice

3 de Fevereiro
A Terra Devastada, de T.S. Eliot – por Gualter Cunha

10 de Fevereiro
Mensagem – por Fernando Guimarães

17 de Fevereiro
Romancero Gitano, de Federico Garcia Lorca – por Pilar Nicolás Martínez

24 de Fevereiro
Vinte poemas e uma canção desesperada, de Pablo Neruda - por Albano Martins

3 de Março
A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade – por Arnaldo Saraiva

10 de Março
As Mãos e os Frutos, de Eugénio de Andrade – Rui Lage




Os Grandes Livros de Poesia
(do texto de apresentação)

São estes, mas podiam ser outros, até dos mesmos autores – ou de outros, com nomes tão sonantes como Horácio, Petrarca, Villon, Góngora, Sharkespeare, Holderlin, Kavafis, Ruben Darío, Camilo Pessanha, Ezra Pound, César Vallejo, Huidoro, João Cabral de Melo Neto, Szymborska…E não esquecemos grandes livros ou grandes nomes da poesia médio-oriental e oriental, de que trataremos noutro ciclo: poemas védicos, Mahabharata, Lao Tsu, Li Po, Omar Khayyam, Bashô, Pushkin…

23.10.06

O nº 1 do jornal PREC (Pensa, Rosna, Estica, Corta) vai ser apresentado no próximo dia 27 no Porto


Ver: http://www.jornalprec.com/


O Jornal PREC já foi apresentado em Lisboa. Agora é a vez de ser lançado no Porto no próximo dia 27 (sexta-feira), às 22h, nos Maus Hábitos (R. Passos Manuel, 178, 4º - frente ao Coliseu)
Nota: no mês de Novembro estão previstas outras iniciativas( ver no cartaz abaixo reproduzido ou no site)

Sacamos a notícia da sua apresentação do excelente blogue Fuga para a Vitória (http://fugaparaavitoria.blogspot.com/ )

"Acaba de sair o nº1 do PREC - Pensa Rosna Estica Corta, publicado na sequência do PREC – Põe Rapa Empurra Cai (número zero)
No Sábado 21 de Outubro às 18h o número será apresentado Lisboa, na Ouvê (Rua do Século, nº 78).
A sessão conta com leituras críticas feitas por leitores atentos mas não veneradores (entre os quais Acácio Barradas, Cristina Ponte e Pedro Caldeira Rodrigues) e com uma leitura encenada do «glossário de ideias fortes e fracas» Da Abrangência ao Zunzum que nasceu do ciclo Em Novembro é de Abril e Maio que me lembro, organizado pelo PREC – Põe Rapa Empurra Cai, em Novembro e Dezembro de 2005.
O número do PREC que vai ser apresentado (32pp + um suplemento «Vive quem vive» de 8pp e uma capa de 4pp) tem como tema central «o trabalho e a preguiça».Os textos são de Absinte Abramovici, Alberto Pimenta, António Preto, Armando Silva Carvalho, Cesar de Vicente Hernando, Diana Dionísio, Filomena Marona Beja, Francisco Martins Rodrigues, Gabriela Dias, Irene Flunser Pimentel, Jean-Pierre Garnier, João Bernardo, João Pacheco, João Rodrigues, Jorge Silva Melo, Lira Keil Amaral, Luiz Rosas, Mamadou Ba, Manuel Lisboa, Manuela Torres, Miguel Castro Caldas, Miguel Perez, Pedro Rodrigues, Pitum Keil Amaral, Regina Guimarães, Renato Roque, Rui Canário, Saguenail, Vitor Silva Tavares.Inclui depoimentos orais e entrevistas com Artur da Fonseca, Gianfranco Azzali (Micio), Giuseppe Morandi, Jagjit Rai Mehta, Jerónimo Franco, Manuel Graça (Juba), Peter Kammerer.As ilustrações são de Bárbara Assis Pacheco, João Alves, Sofia Lomba, Tiago Cutileiro.Contém textos antológicos de Alexandre O’Neill, André Breton, Bertolt Brecht, João César Monteiro, Gabriel o Pensador, George Orwell, Georges Bataille, Irmãos Pleskianov, Juvenal Antunes, Raoul Vaneigem, etc.Tem ainda uma página de «passatempos» e uma página de «notícias da nossa terra» e um folhetim

À apresentação em Lisboa seguir-se-ão outras:
- No Porto, na sexta-feira 27 de Outubro, às 22h, nos Maus Hábitos (R. Passos Manuel, 178, 4º - frente ao Coliseu
)- Em Coimbra, na quarta-feira 6 de Dezembro, às 18h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente
- Em Viseu, na quinta-feira 14 de Dezembro, às 21h 30 no Lugar Presente- Companhia Paulo Ribeiro (R. Cândido dos Reis, 1).

PREC Pensa Rosna Estica Corta"
Que se pode esperar mais para um fim-de-semana preenchido?

PS: só aditar que há nova dose, e das fortes, lá mais adiante: em Novembro e Dezembro, virá o ciclo «O trabalho dá preguiça. A preguiça dá trabalho» (em Lisboa, Porto e Tondela). Venha de lá essa preguiceira toda, em Outubro, Abril, Maio ou Agosto, em qualquer altura, em qualquer lugar.



Exposição no Porto de Cartazes do Maio de 68



Encontra-se patente, até 30 de Dezembro, na Galeria Sargadelos (R. Mouzinho da Silveira, 294), a exposição de Cartazes do Maio de 68. Apresentam-se 35 cartazes originais, elaborados em litografia e serigrafia. Eles são o testemunho de dois meses de explosão de vida e de criatividade, em que a problematização levantou, ela mesma, paralelos metafóricos, pondo a nú os alicerces do edifício social. A discussão, generalizada e permanente, incidiu sobre as mais variadas questões: o poder, a democracia, o capital, o trabalho, a educação, os costumes, a moral, a publicidade, os nacionalismos anacrónicos, temas em que está organizada esta mostra.

Nem mesmo os cartazes escaparam ao debate: "Desobedecer primeiro: só depois escrever nos muros (Lei de 10 de Maio de 1968)." É muito fácil cairmos na mistificação do passado e, por isso, é bom lembrar que foram igualmente dois meses de greve geral, de fábricas ocupadas e economia paralisada, em que participaram, espontaneamente, 10 milhoes de franceses, 1/5 da população (segundo censo de 1967).

A exposição na Galeria Sargadelos surge no ano em que se comemoram os 50 anos da rebelião dos estudantes na Hungria contra os tanques soviéticos (23 de Outubro de 1956), um ano após os acontecimentos nos subúrbios de Paris e na semana em que se realiza a Festa do Cinema Francês (Porto, 24-29 de Outubro). Ela acontece também num clima de instabilidade social, quer no nosso país, com o descontentamento no meio docente e estudantil contra a política educativa do governo, o desemprego, decorrente da deslocalizaçao e do fecho de empresas, quer a nível internacional, nomeadamente em França, com a lei do 1º contrato de trabalho, ou o problema da integração dos imigrantes que procuram, na Europa, emprego e uma vida melhor.

Os trabalhos são provenientes da Galeria La Caja Negra Ediciones (Madrid).

Galeria Sargadelos

R. Mouzinho da Silveira, 294

Telef. 22 2011666

Horário de Funcionamento:

Segunda- Sexta: 10h00-12h30/ 14h30-19h30; Sábado: 10h00-15h00

Blog da Galeria Sargadelos:

http://www.galeriasargadelosporto.blogspot.com/

Blog da Galeria La Caja Negra (Madrid):

http://www.lacajanegra.com/

20.10.06

Declaração dos ocupantes do Rivoli-teatro municipal, após o seu desalojamento


«Estamos cá fora. Mas ainda estamos lá dentro, ou seja, dentro da luta»


Às 6 horas da manhã de ontem os ocupantes do Rivoli-teatro municipal do Porto foram desalojados por uma força musculada da polícia, cujo aparato poderia fazer temer o pior. Depois de identificados, os ocupantes saíram em liberdade. Ao fim da tarde de ontem realizou-se a manifestação de apoio que tinha sido convocada para o efeito, e durante a qual os ocupantes fizeram um breve balanço da sua luta através de uma declaração que passamos a reproduzir:


O grupo de ocupantes do Rivoli, ao cabo de 79 horas de permanência no do teatro municipal, declara o seguinte:

-os ecos de apoio e incitação à resistência que recebemos, vindos um pouco de toda a parte, prova à saciedade que a nossa razão, a despeito da escalada das tentativas de silenciamento, foi ouvida, e que as nossas reivindicações, não obstante as sucessivas tentativas de calúnia e adulteração, encontraram um acolhimento muito expressivo por parte da população.

- a forma de luta que adoptámos, rotulada de ilegal, injuriada por todos quantos a qualificaram de agressiva, mostrou ser plenamente legítima, num contexto em que as camadas mais próximas dos problemas da criação artística não dispõem de armas de combate sócio-laboral, sendo que, de resto, partilham esse handicap com um grande número de trabalhadores do terciário, «independentes» por obra e graça da precarização dominante no mercado do emprego.

- incansavelmente repetimos as nossas reivindicações, que concebemos como um patamar mínimo para a manutenção do serviço público, a saber: a garantia de uma gestão do Rivoli não regida por critérios de pura rentabilidade; o acesso ao Rivoli garantido a todos os núcleos de criação artística em todas as artes; a garantia da existência de um serviço de formação continuada de públicos.

- julgamos ter sabido argumentar contra a pretensa certeza de que o Rivoli está apenas sob a alçada da Câmara Municipal, contrapondo a esse infeliz refrão que se trata de um equipamento demasiado relevante, polivalente e bem equipado para ser propriedade de um executivo camarário, por muito que ele disponha de maioria absoluta. Acresce que uma funesta vitória dos desígnios de Rui Rio poderá encorajar outros autarcas a imitar este exercício de demissão do poder camarário perante as responsabilidades de financiamento de cada teatro municipal. O Rivoli tem uma envergadura que lhe confere um grau de interesse não somente local, mas também nacional e europeu. O Presidente da C.M.P. tem, a todo o momento, demonstrado carecer de sensibilidade e conhecimento no que toca às questões culturais e à função social da cultura, e não possuir capacidade de escuta dos interlocutores que acerca destas questões o interpelam. Esta postura tem como consequência um divórcio criadores-governantes-população, fosso que urge colmatar. A vocação anti-despesista de Rui Rio mais não faz do que encobrir uma incompetência para gerir o Rivoli e, logicamente, a cidade. De resto, a inquietante falta de rosto dos nossos opositores – Culturporto e C.M.P. -, a par de uma actuação a todos os títulos pidesca, constituem elas próprias matéria de reflexão, num estado que se diz «democrático» e « de direito».

- os ocupantes do Pequeno Auditório saíram à força do seu posto de combate com uma queixa-crime em cima, sem que nunca tivessem merecido a menor explicação por parte dos poderes instituídos, os quais se limitaram a mandar recados através dos funcionários do Rivoli, transformados em «vigilantes» das ameaçadoras personagens bloqueadas no piso -0


- Fazemos questão de frisar que, embora a abundante cobertura mediática nos tenha transformado em face visível da luta, nunca foi nossa intenção assumir protagonismo neste combate contra a voragem das privatizações que atingiu, desta vez, o Rivoli. Entendemos que toda a comunidade deve ocupar esse espaço de protagonismo numa luta que a todos diz respeito. Consideramos, por outro lado, que o nosso pequeno grupo de cidadãos indignados mostrou, com a ajuda incansável dos «ocupantes de fora» que a imaginação, investida na invenção de novas formas de luta, é porventura mais eficiente em termos de tomada de consciência do que as negociações de corredor dos profissionais da política.


- Cabe-nos fazer um balanço destas 79 horas de ocupação, balanço esse que comporta pontos francamente positivos e aspectos menos exaltantes. Se podemos afirmar que o objectivo de chamar a atenção da opinião pública para o problema da alienação do espaço público prestado pelo teatro municipal nos parece ter sido plenamente atingido, tanto ao nível da mobilização da comunidade como no plano da divulgação pela comunicação social (extremamente generosa, se bem que crescentemente focalizada no nosso suposto reality-show), não seria pertinente obliterar, ao nível do nosso segundo objectivo – o da chamada de atenção das autoridades para o escândalo deste processo precipitado, e dito «irreversível», de «reconversão» do Rivoli, coerente que ele se revela com uma pretensa ordem «natural» das coisas numa sociedade de mercado – o nosso papel ainda não terminou. Pese embora a ausência de resultados conclusivos do nosso protesto nesse plano, abrimos ainda assim caminho a mediações e encontros que, esperamos, conduzirão, a bem de todos, a uma reavaliação das decisões tomadas muito ao de leve pela C.M.P.

Sentimo-nos no dever de participar na luta que doravante se alarga a todos que, como nós, desejam remar contra a corrente, tentando por todos os meios potenciá-la.

Como noutra parte e hora já dissemos: não falemos da vitória, falemos antes da aprendizagem da luta e pela luta, bem como da sua necessária invenção, à medida que vão surgindo novos lutadores, dados e pistas.

O grupo de ocupantes de pequenos auditório do Rivoli teatro municipal

19.10.06

Manif de apoio aos ocupantes do Rivoli no Porto (Pr.D.João I) e em Lisboa (S.Luíz) no dia 19 às 20 h.



QUEM SE SENTIR SOLIDÁRIO COM A OCUPAÇÃO PACÍFICA NO RIVOLI É CONVIDADA/DO PARA UMA GRANDE MANIFESTAÇÃO DE APOIO NA PRAÇA D.JOÃO I ÀS 20H00 DE 5 ª FEIRA(DIA 19 DE OUTUBRO).


Em Lisboa também está convocada uma manifestação de solidariedade em frente ao S. Luíz para as 20 h. do dia 19


92 HORAS FECHADOS

O TEATRO É DENTRO E FORA DE PORTAS.
A CIDADANIA É A TODO O MOMENTO.

A LUTA DE UNS É A LUTA DE TODOS!


O Grupo de Ocupantes do Rivoli Teatro Municipal



Últimas notícias:
A Câmara cortou a água e proíbe entrega de alimentos aos ocupantes do Rivoli 18.
Os ocupantes do Teatro Rivoli estão sem água e sem comida por decisão da Câmara do Porto. O edifício possui um gradeamento e portas em vidro que tinham sido mandadas fechar pela Câmara Municipal do Porto, mas as pessoas no exterior entregavam alimentos aos seguranças do Rivoli, que, depois, os distribuíam aos ocupantes. A autarquia portuense, presidida pelo social-democrata Rui Rio, proibiu os seguranças de receberem alimentos destinados aos ocupantes do Rivoli.
Prevê-se que amanhã os ocupantes sejam visitados por um médio a fim de avaliar as condições de saúde em que se encontram

«A maior catástrofe que a cidade do porto alguma vez sofreu, e que lhe causou prejuízos incalculáveis, foi quando o rio chegou à Câmara»

Lançamento do livro «Formação da mentalidade submissa» com a presença do autor (20 de Out. às 21.30, no Porto;21 de Out. às 18h em Lisboa)


Vicente Romano apresentará o seu livro A Formação da Mentalidade Submissa no foyer do Auditório da Biblioteca Almeida Garrett, na cidade do Porto, às 21:30h do dia 20 de Outubro (sexta), juntamente com o jornalista Rui Pereira.


Também em Lisboa, agora com o Rui e Isabel do Carmo, o livro será debatido na Livraria Letra Livre, pelas 18h do dia 21 de Outubro (sábado).


Excerto de prefácio de Rui Pereira:

«Toda esta obra, com frequência profundamente original, disseca os processos comunicacionais a partir da sociologia, da educação, das representações e funções sociais, da interculturalidade, entrando inclusivamente na relação entre o fazer comunicacional contemporâneo e os usos do tempo e do espaço humanos. Defensor de uma necessariamente nova “ecologia e ética da comunicação”, a obra de Vicente Romano é um paradigma da junção entre valor científico e mérito transformador profundamente revolucionário. Quando a academia falha a este, que deveria ser o seu chamamento natural, que a ele acudam pensadores da envergadura do professor Vicente Romano, cuja obra de divulgação, “A Formação da Mentalidade Submissa”, que a Deriva edita agora em Portugal, contando já com dezenas de milhares de leitores e editada em diversos países do mundo, é não apenas a primeira a ver a luz do dia em língua portuguesa, como uma síntese modelar, de todo o seu notável trabalho.»
Rui Pereira, do Prefácio

18.10.06

Adere à Rivólição!






São precisos voluntários para acompanharem do lado de fora do Rivoli a vigília!


É preciso expressar solidariedade para com os ocupantes do Rivoli!

RIVOLIVRE!

O RIVOLI é nosso...O RIVOLI é de todos
...

Aparece...

Adere à RIVÓLIÇÃO!



Ultimas informações sobre a ocupação:


Fecharam a porta de acesso ao camarim com chuveiro.Mais ninguém toma banho.
Fecharam as portas de vidro da entrada lateral que nos permitia o contacto como exterior.A partir deste momento não entra comida (ou qualquer outra coisa).Desligaram a corrente das tomadas.




Desta vez, para variar, quem está fora não racha lenha




Amigo OCUPANTE de fora

Tu que sorris tão-só e passas, desaparecendo noutra multidão
Tu que ficaste a casa a tomar conta das horas que passam
Tu que te quedas a falar como se o mundo parasse à nossa porta
Tu que trazes a família a passear e todos aproveitam para um banho de luta
Tu que passas maçãs pelas grades e de paraíso nos alimentas
Tu que ainda não nos percebeste mas queres a todo o custo perceber
Tu que bebeste à nossa saúde e assim nos embriagaste à distância
Tu que tinhas a barriga maior que os olhos e a ofereceste para nos carregar
Tu a quem o trabalho humilha e nos deste tuas poucas horas de ócio
Tu que trouxeste a bandeira no bolso e a trocaste por duas horas de troca
Tu que nem tanto ao mar nem tanto à terra e agora somente tempestade
Tu que vento semeias e vento colhes para que o ar se respire
Tu que saíste aperaltada e voltaste desfeita como que acabada de nascer
Tu que vieste ao engano e voltaste mais verdadeiro
u que trouxeste as tuas sobras de esperança e eram um banquete
Tu que quiseste a noite branca e de manhã choravas por mais
Tu que em vale de lençóis nos concedeste vidas nunca vividas
Tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu
Ocupa a rua como nós ocupámos este nosso teatro
Pinta a manta e a macaca pinta a negro pinta o sete pinta-te a ti e aos outros
Canta para o mal espantar para acordar animar embalar protestar discordar
Toca o sino e a trompete toca tambor clarinete toca a caixa e troca o mundo
Dança a roda dança a salsa dança o tango dança a valsa baila gira salta pula
Faz figas e faz de conta faz a sério ou a brincar faz mais para o mundo mudar
Troca tintas troca passos troca cartas troca abraços troca cromos e heróis

E, pelo meio, vem até trocar umas ideias, impressões, sensações connosco

Até já, até sempre


O Grupo de Ocupantes do Rivoli Teatro Municipal


http://noteatrorivoli.blogspot.com/

17.10.06

Rivoli está ocupado. Precisam-se urgentemente de voluntários para fazer vigília no exterior




URGENTE: é preciso gente junto do Rivoli.

É preciso voluntários para a vigília desta noite junto do Rivoli.


Desde ontem que actores e público ocupam o Rivoli, no Porto, protestando contra a entrega a privados do teatro municipal da cidade.

É preciso voluntários para acompanharem do lado de fora do Rivoli a vigília desta noite.

Solidariedade para com os ocupantes do Rivoli


RIVOLIVRE


O RIVOLI é nosso

Solidariza-te

Aparece
.
RIVÓLIÇÃO

Cerca de 200 manifestantes solidarizam-se com os 40 barricados que se encontram dentro do Rivoli, teatro municipal da cidade do Porto.
Recorde-se que cerca de 40 pessoas estão há mais de 20 horas no interior do Teatro Rivoli, no Porto. Recusam-se a abandonar o edifício em protesto contra a decisão da Câmara Municipal de concessionar a gestão do teatro a empresas privadas.
Ao longo da tarde, cerca de 200 pessoas juntaram-se ao protesto, concentrando-se em frente do edifício.
Quarenta pessoas, entre actores, encenadores e público da Companhia Teatro Plástico decidiram ficar na sala do Rivoli após o fim da apresentação da peça "Curto Circuito", por volta da meia-noite de domingo.
Cerca de 200 pessoas concentraram-se a partir das 18h00 de hoje frente ao Rivoli, no Porto, em solidariedade com os actores e espectadores da Companhia de Teatro Plástico que há cerca de 20 horas ocupam o edifício.
O presidente da Plateia - Associação de Artes Cénicas, Alda Silva, o actor António Capelo e os políticos Jorge Machado (PCP) e José de Castro (BE) foram algumas das pessoas que compareceram na manifestação, convocada pelo movimento "Pelo Porto - Juntos no Rivoli".
A decisão de privatizar a gestão do Rivoli foi tomada no dia 25 de Julho passado pela maioria PSD/CDS-PP na Câmara Municipal do Porto. "A receita do Rivoli cobre seis por cento da despesa", justificou o presidente da autarquia, Rui Rio, afirmando que a câmara canaliza 7.500 euros por dia para o teatro. Cinco empresas concorreram à gestão do Rivoli e até ao final de Outubro será conhecido o nome daquela que vai gerir o teatro.


A manifestação iniciou-se depois da exibição da peça «Curto-Circuito», da companhia Teatro Plástico, no pequeno auditório, entre espectadores e artistas, num protesto convocado pela companhia.
A autora da Peça, Regina Guimarães, que também se juntou ao protesto, explicou à Lusa que o objectivo, além de protestar contra a intenção da Câmara liderada por Rui Rio (PSD), é também evitar que o cenário se repita em outras zonas de Portugal.
«Se não fizermos isto, outras autarquias acabarão por fazer o mesmo com equipamentos similares», disse.

Entre os espectadores circulava hoje um documento com críticas ao presidente da Câmara, por defender «uma ideia de um teatro regido por critérios de rentabilidade», atitude que os autores do manifesto consideram «assaz curiosa para quem esbanja dinheiros públicos em corridas de automóveis».
O texto refere-se à reedição, no ano passado, do Grande Prémio do Porto, no Circuito da Boavista, um evento que não se realizava desde os anos 60.
O documento pede garantias de que «o teatro não seja gerido e programado em função da maior ou menor rentabilidade», de que «os núcleos de produção da cidade do Porto, em todos os domínios da criação, tenham acesso e lugar no seu teatro municipal» e de que «a direcção do teatro pugnará pela formação contínua do público».



16.10.06

Os 70 anos da abertura do campo de concentração do Tarrafal


O campo de Concentração do Tarrafal


A 23 de Abril de 1936 era oficialmente criado, por lei do regime de Salazar, a Colónia Penal do Tarrafal, vulgo campo de concentração do Tarrafal, situada no lugar de Chão Bom, em Tarrafal de Santiago, Cabo Verde.
Destinava-se a presos políticos e a 18 de Outubro desse ano, partia de Lisboa a primeira leva de presos constituída, maioritariamente, por sublevados da armada, que se amotinaram no Tejo e tentaram zarpar para Espanha em apoio dos republicanos que defrontavam o levantamento armado fascista de Francisco Franco. Com estes marinheiros, cujo levantamento fora derrotado, vinham também insurrectos do 18 de Janeiro de 1934 – uma greve geral contra a fascização dos sindicatos, que teve expressão máxima na Marinha Grande, ocupada pelos sindicalistas que aí constituíram um soviete.

A CPT funcionou até 31 de Janeiro de 1953, data em que saiu do Tarrafal o último preso.

Pelo “campo da morte lenta” passaram presos de várias correntes políticas – comunistas, anarco-sindicalistas, sindicalistas-revolucionários, republicanos democratas (como o jornalista Cândido de Oliveira), mas também espanhóis derrotados na Guerra Civil, que se tinham internado em Portugal (na grande maioria, foram presos e entregues a Franco, como o grande poeta Miguel Hernández, e geralmente fuzilados), e também dois alemães anti-nazis. 32 prisioneiros portugueses - entre os quais o secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves, e o principal líder sindicalista-revolucionário, Mário Castelhano – morreram no campo de Chão Bom.

O campo foi reactivado nos anos 60, durante a guerra colonial, para receber presos oriundos das colónias onde se travavam guerras de libertação nacional contra o colonialismo português.

(Texto retirado
daqui)



Colóquio «Salazarismo, Tarrafal, Guerra civil de Espanha – História e Memória 70 anos depois»

A propósito do 70º aniversário da abertura do campo de concentração do Tarrafal, uma das mais célebres e terríveis prisões do fascismo português, assim como acerca da guerra civil em Espanha vai-se realizar sucessivamente em Lisboa ( 27 e 29 de Outubro) e no Porto ( 3 e 4 de Novembro) um colóquio internacional destinado a fazer o ponto da situação sobre a investigação histórica acerca desses acontecimentos.



Data: 27 e 28 de Outubro no Insituto de História Contemporânea da FCSH, em Lisboa
3 e 4 de Novembro na Fac. de Letras do Porto

Informações: Instituto de História Contemporânea, Fac de Letras do Porto

Contacto:
dh@letras.up.pt

Participação mediante inscrição e pagamento de 20 e. para estudante e 40e para os restantes

.


Coordenação: Fernando Rosas e Manuel Loff

Programas:

1º dia

Estado Novo, democracia e memória – por Fernando Rosas

Fora o invasor! Guerra civil e nacionalismo(s) em Espanha – por Xosé Manoel Nunes Seixas (Un. de Santiago)

Pide e repressão – por Irene Pimentel


Relações lusoespanholas – Hipólito de la Torre (UNED, Madrid)

Las discórdias republicanas y la perdida de la guerra – por Joseph Sabchez Cervelló (URV, Tarragona)

Aspectos dos colonialismos do primeiro salazarismo: culturas obrigatórias – por Maciel Santos

Documentários e noticiários de actualidades em Portugal nos anos 30 e 40 – Ricardo Braga

2º dia


Franquismo en el tiempo de los franquismos – por Carme Molinero (UAB, Barcelona)

Salazarismo, entre fascismo, reaccionarismo e modernidade – Manuel Loff

Estado Novo, violência e Igreja Católica (1926-1945) – João Paulo Avelãs Nunes


Paralelamente decorrerá um ciclo de cinema documental do período salazarista

Info:

http://www.mentalfactory.com/ihc/index.php?ID=929

http://sigarra.up.pt/up/noticias_geral.ver_noticia?P_NR=3029

Lançamento do nº 8 da revista Nada



Informação:
http://www.nada.com.pt/

Sumário desta edição:

As artes tecnológicas III:
Exercícios piedosos para o espectador
JORGE LEANDRO ROSA

Da Arquitectura Flutuante
à Produção do Extraterrestre
Entrevista a MARCOS NOVAK por João Urbano,
Tania López Winkler e Giorgio Alberti

A quarta Era da Ficção Interactiva
NICK MONTFORT

Meno e a Internet: entre a memória e o arquivo
HOWARD CAYGILL

Mundo em segunda mão, espaço público e ridículo
Entrevista a DANIEL INNERARITY
por João Urbano e Pedro Amaro Costa

Transe maquínico-ou: o que pode uma máquina?
PEDRO PEIXOTO FERREIRA

Blindspot
HERWIG TURK, PAULO PEREIRA E GÜNTER STÖGER

Espaço para uma arquitectura sem projecto
PEDRO BANDEIRA

O sentimento do épico em Blueberry
JAIME FREIRE

Superconsumidor, um romance pós-moderno
HUGO LIU

Farmoquílias
JOÃO URBANO

Carbono
JOÃO OLIVEIRA



contacto
mail@nada.com.pt,
ou 962560227

15.10.06

O professor aborrecido em 7 lições, ou como emburrecermo-nos…


(excertos do discurso de John Taylor Gatto aquando da sua nomeação como «New York State Teacher of the Year» de 1991, segundo a tradução portuguesa do livro editado em 2003 pela Porto Editora com o título «Emburrecendo-nos cada vez mais»)


Ensinar significa coisas diferentes em lugares diferentes, mas sete lições são ensinadas universalmente desde Harlem a Hollywood Hills. Estas sete lições constituem um currículo nacional que é pago de muitas formas, mais do que as que consegue imaginar, por isso, não perde nada em saber como é.

(…)

A 1ª lição que eu ensino é a confusão. Tudo o que ensino está fora de contexto. Ensino o não relacionável de tudo. Eu ensino desconexões. Ensino demasiado: a órbita dos planetas, a lei dos grandes números, escravidão, adjectivos, desenho arquitectónico, dança, ginásio, canto coral, assembleias, convidados-surpresa, exercícios de salvamento, linguagens de computador, as noites de pais, dias de trabalho de equipa, programas desactualizados, reuniões de orientação com pessoas que os meus alunos podem não voltar a ver, testes padronizados, segregação etária ao contrário do que se passa no mundo externo…O que é que estas coisas têm a ver entre si?
Até mesmo nas melhores escolas, um exame pormenorizado do currículo e suas sequências revelarão uma falta de coerência, um grande número de contradições internas. Felizmente as crianças não têm palavras para definir o pânico e a fúria que sentem face às violações constantes da ordem natural e sequencial que lhes são impingidas como educação de qualidade. (..) É lançada a confusão nas crianças por muitos adultos estranhos, cada qual trabalhando por si, praticamente não se relacionando com os outros colegas, simulando a maior parte deles, um saber que não possuem.
(…) Eu ensino o não relacionável de tudo, uma fragmentação infinita, o oposto da coesão; o que faço está mais relacionado com a programação de televisão do que com a elaboração de um esquema ordenado. Num mundo onde a residência é só um fantasma, porque ambos os pais trabalham, ou por causa de muitas mudanças ou muitas trocas de emprego e muita ambição, ou porque qualquer outra coisa deixou toda a gente muita confusa para manter uma relação familiar estável, ensino os alunos a aceitar a confusão como o seu destino. Essa é a primeira lição que eu ensino.



A 2ª lição que eu ensino é a posição certa. Ensino que os alunos têm de ficar na turma a que pertencem. Não sei quem é que toma essa decisão, mas isso também não é o meu trabalho. As crianças são numeradas para que se alguma escapar possa ser devolvida à turma certa. Ao longo dos anos, a variedade de modos como as crianças são numeradas pelas escolas aumentou dramaticamente, até que se chegou ao ponto de ser difícil ver claramente os seres humanos debaixo do peso dos números que eles transportam. Numerar crianças é uma grande e vantajosa taerefa, no entanto, aquilo que esta estratégia pretende realizar engana. Nem sei como é que os pais, sem nenhuma discussão, permitem que isto seja feito aos seus filhos.
Em todo caos, isso não é o meu trabalho. O meu trabalho é manter as crianças nas salas de aula juntamente com outras crianças que têm também têm um número como elas. Ou, pelo menos, ajudá-las a suportar isto de bom grado. Se fizer bem o meu trabalhi, as crianças nem sequer se imaginam noutro lugar qualquer, porque ter-lhes-ei mostrado como invejar e temer as melhores turmas e como desprezar as turmas mais fracas. Debaixo desta disciplina eficiente, a turma autopolicia-se para que tudo funcione como está estipulado. Isso é a verdadeira lição de qualquer competição por equipas como é a escola. Aprendemos a conhecer o nosso lugar.
Apesar de as normas gerais das turmas estipularem que noventa e nove por cento das crianças estão na sua turma para ficar, ainda assim esforço-me explicitamnete em exortar as crianças para níveis mais altos de sucesso, sugerindo uma eventual transferência de uma turma mais elementars como recompensa. Lembro-lhes com frequência o dia em que um empregador os contratará com base em pontuações e resultados, embora a minha própria experiência diga que os empregadres são completamente indiferentes a tais coisas. Nunca minto completamente, mas apercibe-me de verdade e ensino são, no fundo, incompatíveis.


A 3ª lição que eu ensino é a indiferença. Ensino as crianças a não se preocuparem muito com nada, embora elas queiram demonstrar que o fazem. O modo como o faço é muito subtil. Faço-o, exigindo que estejam totalmente envolvidas nas minhas aulas, prendendo-lhes a atenção, competindo vigorasamente entre si para me agradar. É animador quando elas fazem isso; impressiona qualquer um, até mesmo a mim. Quando estou no meu melhor, planifico as aulas muito cuidadosamente, de modo a produzir estas manifestações de entusiasmo. Mas quando a campainha toca, ínsito que deixem tudo o que estávamos a fazer e prossigam depressa para o posto de trabalho seguinte. Elas ligam-se e desligam-se como um interruptor de luz. Nunca se consegue acabar nada de importante na minha turma, nem em qualquer outra turma que eu conheça. Os alunos nunca têm uma experiência completa, excepto no plano das recompensas.
Na verdade, a lição das campainhas é a de que nenhum trabalho vale a pena ser concluído, por isso, por que motivo nos havemos de preocupar muito com qualquer coisa?


A 4ª lição que eu ensino é a dependência emocional. Através de elogios e reprimendas, sorrisos e caretas, prémios, honras e humilhações, eu ensino as crianças a renderem a sua vontade à predestinada cadeia de comando. Podem ser concedidos ou recusados direitos por alguém com autoridade, sem direito a apelo, porque os direitos não existem dentro de uma escola – nem mesmo o direito de opinião, como declarou o Supremo Tribunal – a menos que as autoridades escolares o permitam. Como professor, eu intervenho em muitas decisões pessoais, permitindo aquelas que considero legítimas e iniciando um processo disciplinar para os comportamentos que ameacem o meu controlo. As crianças e os adolescentes estão constantemente a tentar afirmar a sua individualidade, mas a individualidade é uma contradição para as teorias sobre as turmas, uma maldição para todos os sistemas de classificação.


A 5ª lição que eu ensino é a dependência intelectual. Os bons alunos esperam que um professor lhes diga o que fazer. Eis a lição mais importante de todas: temos de esperar que outras pessoas, melhor preparadas do que nós, dêem significado às nossas vidas. O expert é que toma todas as decisões importantes; só eu, professor, posso determinar p que as minhas crianças têm de estudar, ou melhor, só as pessoas que me pagam podem tomar essas decisões, que eu depois confirmo. Se me dizem que a evolução é um facto e não uma teoria, eu transmito isso como me foi ordenado, castigando aqueles que resistem a aceitar o modo como é suposto pensarem. Este poder de controlo sobre o que as crianças pensarão permite-nos separar muito facilmente os alunos com sucesso dos alunos com insucesso.
As crianças bem sucedidas aprendem a pensar como lhes mando com um mínimo de resistência e a dose certa de entusiasmo. Das inúmeras coisas interessantes que há para estudar, eu decido quais as poucas que temos tempo para estudar, embora, na verdade, isto seja decidido pelos meus superiores sem rosto. As escolhas são deles – porque deveria eu discutir? A curiosidade não é importante para o meu trabalho, só a conformidade.
Os maus alunos contestam isto, evidentemente, embora lhes faltem os conceitos para saber p que é que estão a contestar, lutando por poderem decidir por eles próprios o que eu aprenderão e quando o aprenderão. (…)
As boas pessoas esperam que um especialista lhes diga o que fazer. Não é exagero dizer que toda a nossa economia depende do facto de esta lição ser bem aprendida. (…)
Não se precipite a votar numa reforma radical da escola, se quiser continuar a receber um salário no final do mês. Nós construímos um modo de vida que depende de as pessoas fazerem o que lhes é dito, porque não sabem dizer a si mesmas o que fazer. Esta é uma das maiores lições que eu ensino.


A 6ª lição que eu ensino é o condicionamento da auto-estima
. O nosso mundo não sobreviria por muito tempo a uma invasão de pessoas confiantes, por isso ensino que o auto-respeito de uma criança deveria depender da opinião de um especialista. As minhas crianças são constantemente avaliadas e julgadas.
(…) Embora algumas pessoas pudessem ficar surpreendidas com o pouco tempo ou reflexão que estes registos requerem, o peso cumulativo destes documentos aparentemente objectivos estabelece um perfil que condiciona as crianças a tomar certas decisões pessoais e outras decisões sobre o seu futuro, baseadas no julgamento casual de estranhos.


A 7ª lição que eu ensino é que ninguém se pode esconder. Ensino aos alunos que eles estão sempre sob vigilância, que cada um deles está a ser constantemente vigiados por mim e pelos meus colegas. Não têm nenhum espaço privado; não têm nenhum tempo privado.
(…) O significado da vigilância constante e da negação de privacidade consiste em não se poder confiar em ninguém, e que a privacidade não é legítima. A vigilância é um antigo imperativo (…) as crianças devem ser observadas de perto, se quisermos manter uma sociedade sob apertado controlo central. As crianças seguirão um tambor privado, se não as conseguirmos colocar numa banda de marcha uniformizada.




Sobre o autor do discurso reproduzido acima - John Taylor Gatto – pelo próprio:
(…)

Em termos teóricos e metafóricos, a ideia que comecei a explorar foi a seguinte: o ensino não é como a arte de pintar, onde, pela adição de material a uma superfície, uma imagem é sinteticamente produzida, mas sim como a arte de esculpir, onde, pela subtracção de material, é possível fazer emergir uma imagem já contida na pedra. É uma distinção crucial.
Por outras palavras, renunciei à ideia de que era um expert cujo trabalho era encher as pequenas cabeças com a minha especialidade e comecei a explorar o modo como poderia remover os obstáculos que impediam que o talento inerente das crianças se revelasse. Já não me sentia confortável em definir o meu trabalho como transmissão de saber a uma esforçada audiência de sala de aula. Embora eu continue até hoje nesses testes inúteis por causa da natureza do ensino institucional, sempre que me foi possível, quebrei com a pedagogia tradicional e reconduzi as crianças dos seus caminhos desviados para as suas próprias verdades privadas.
A sociologia das escolas públicas evoluiu de tal modo que uma premissa como a minha, ao difundir-se, põe em perigo toda a instituição. Prisioneiro de regras, qualquer professor que faça uma descoberta como a minha é, na pior das hipóteses, uma dificuldade para a ordem hierárquica (que desenvolveu defesas automáticas para isolar tais bacilos e, desse modo, neutralizá-los ou destruí-los); mas, uma vez livre destes constrangimentos, esta ideia poderia pôr em perigo as suposições centrais que permitem à escola institucional sustentar-se, tal como a falsa suposição de que é difícil aprender a ler, ou que as crianças resistem à aprendizagem e a muitas mais coisas. De facto, a própria estabilidade da nossa economia é ameaçada por qualquer forma de educação que possa mudar a natureza do produto humano que as escolas agora mostram: a economia sob a qual as crianças actualmente esperam viver e servir não sobreviveria a uma geração de jovens educados, por exemplo, para pensar criticamente.

(…)
(Excertos retirados do livro «Dumbing us down», em tradução portuguesa, «Emburrecendo-nos cada vez mais, o currículo oculto da escolaridade obrigatória» de John Taylor Gatto, edição da Porto Editora, 2003)
Para saber mais:

http://www.spinninglobe.net/dumbing.htm

http://www.johntaylorgatto.com/bookstore/dumbingdown.htm

http://www.infoshop.org/inews/article.php?story=2006gatto


No one in America today is better qualified to report on the true condition of our government education system than John Taylor Gatto, the now-famous educator who spent 26 years teaching in six different schools in New York City and quit because he could no longer take part in a system that destroys lives by destroying minds

In 1990 the New York “Senate named Mr. Gatto New York City Teacher of the Year. The speech he gave at that occasion, “The Psychopathic School,” amounted to a devastating indictment of public education (reprinted in BEL, May 1991, under the title “Why Schools Don’t Educate”).
In 1991 Mr. Gatto was named New York State Teacher of the Year, at which occasion he gave a speech, “The Seven-Lesson Schoolteacher,” so insightful of the wrong-headedness of public education that it will probably become a classic in educational literature

These two remarkable speeches, plus several others, including one entitled “We Need Less School, Not More,” were published in book form last year. And what a powerful book it is, only 104 pages long, readable in one or two sittings. With Outcome-Based Education being imposed on schools across America, we will get much more school, not less, and the content of that schooling will produce far more confusion than we already have

4 de Novembro vai ser o Dia Mundial de Acção Contra as Alterações Climáticas

legenda da figura - pegunta de um automobilista: porque é que o clima está a ficar tão estranho?


O próximo dia 4 de Novembro foi a data estabelecida pelas Organizações Não Governamentais para que todos se mobilizem a favor da nosso planeta.
Para a fixação dessa data não foi estranho o facto de dois dias depois se realizar em Nairobi (capital do Quénia) entre 6 e 17 de Novembro a Conferência Internacional sobre o Clima promovida pelas Nações Unidas.


Daí que várias organizações não governamentais tenham lançado o apelo para que no dia 4 de Novembro sejam realizadas múltiplas acções um pouco por todo o mundo para exigir medidas eficazes de luta contra as alterações climáticas, assim como manifestar as preocupações de todos os cidadãos relativamente ao aquecimento global. Poder-se-ão desenvolver as mais variadas acções, desde debates, exposições, manifestações, teatro de rua, animação com crianças, acções directas não-violentas, interpelações de políticos, etc, etc.

A Conferência de Nairobi será um momento importante para avaliar em que ponto se encontram as negociações internacionais relativas ao segundo período de aplicação do Protocolo de Quioto que começará em 2012.

As mensagens que deverão ser transmitidas reconduzem-se fundamentalmente a 3 pontos:

- é de extrema urgência que os políticos cheguem a acordo sobre um compromisso acerca do período pós-2012, uma vez que qualquer atraso pode resultar em tornar praticamente impossível a estabilização do clima

- os países industrializados devem implicar-se mais na aplicação de objectivos ambiciosos relativos à redução das suas emissões de gazes com efeito de estufa.

- esses países devem, além disso, ajudar os países em desenvolvimento a adaptar-se às consequências e efeitos já visíveis das alterações climáticas.



Precisamos , quanto antes, de pôr em causa o nosso modo de vida energívoro !


Consultar:


http://www.rac-f.org/rubrique.php3?id_rubrique=210

http://www.stopclimatechaos.org/66.asp

http://www.cooltheplanet.net/

http://www.globalclimatecampaign.org/



É preciso pôr em causa o nosso modo de vida energívoro !

14.10.06

Anarquismo na vida e obra de Eugene O'Neill



Texto de Pietro Ferrua, in Verve, nº 7, pg 226-243


Um estudo sistemático das atividades anarquistas do grande dramaturgo ainda não foi empreendido, que eu saiba [
1], porém existem muitos ensaios sobre ele e os dados colhidos permitem estabelecer uma trajetória se não completa pelo menos suficiente.

A mais pormenorizada das biografias interessantes para o nosso assunto é sem dúvida a do casal Gelb [2] , que chega quase a mil páginas, mas tem também duas obras de Sheaffer também oferecem uma grande quantidade de informação. Descobre-se assim que um dos primeiros contatos que O’Neill teve com anarquistas data de 1907, quando conheceu Benjamin Tucker e começou a freqüentar a livraria dele em Nova Iorque: The Unique Bookshop situada na Sexta Avenida. Eugene não tinha ainda vinte anos enquanto o pensador e escritor anarquista alcançara já os cinqüenta, com mais de trinta anos de experiências como propagandista, redator de periódicos, autor de ensaios. Foi através do Tucker que O’Neill travou conhecimento com a obra de Bacunin e Kropotkin, Proudhon e Tolstoi, Stirner e Nietzsche. Definiu-se então "anarquista filosófico" uma etiqueta pouco usada em outros países, mas que se tornou comum nos Estados Unidos e que eqüivale – ainda hoje – a "anarquista não-violento". Distinção necessária pois a opinião pública tende a misturar anarquismo e terrorismo. Para bem da verdade cabe reconhecer que naquela época a associação com Czolgosz (que tinha matado um Presidente) e Berkman (que atirara contra um capitalista inflexível e cruel contra operários grevistas) era comum. Quem apresentou O’Neill ao Tucker foi Paul Holliday, outro anarquista, irmão de Polly Holliday, gerente de um café boêmio no Greenwich Village, companheira de vida de outro militante ativo muito conhecido, Hippolyte Havel. O Paul foi um grande amigo de O’Neill até sua trágica morte poucos anos depois. Outro grande amigo anarquista (e futuro personagem de sua obra) foi Terry Carlin (verdadeiro nome Terence O’Carolan) que tinha a qualidade adicional de ser de origem irlandesa, como O’Neill. Companheiro de bebedeira o escritor nunca o renegou quando ficou famoso e passou a mandar-lhe cheques mensais para que nunca lhe faltasse a bebida. Os Gelb escrevem "O Carlin teve uma influência maior na filosofia de O’Neill do que qualquer outra pessoa". Não devemos estranhar isso, pois o Carlin foi admirado por escritores importantes como Jack London e Theodore Dreiser. Mais uma amizade importante – e que durou até o fim da vida- foi a com Saxe Commins (verdadeiro nome Cominsky) dentista que se tornou autor teatral, e sobrinho de Emma Goldman. A ele O’Neill se dirigiu para que lhe procurasse documentação sobre algumas personagens anarquistas em suas peças. Em gratidão pela hospitalidade recebida dele e de toda a família e por ter-lhe cuidado dos dentes de graça, O’Neill sugeriu sua contratação pela Random House, onde se tornou seu editor pessoal. O Saxe foi também quem manteve contatos indiretos entre O’Neill com as duas primeiras esposas e os filhos que dela teve. Qunado fugiu para a França onde vivia incógnito com Carlotta, que tornou-se sua terceira mulher, um dos poucos que sempre sabia onde ele se encontrava foi justamente o Commins. Aliás, O’Neill não era o único que o estimava pois tornou-se também amigo de Albert Einstein, que conheceu quando ambos ensinavam em Princeton.

Hippolyte Havel, anarquista europeu que veio aos Estados Unidos junto com Emma Goldman, que o conheceu em Londres, foi também admirado por Dreiser, inspirou o John Cage e deu vida a um dos personagens da peça The Iceman Cometh. O’Neill conservou algumas fotografias dele , uma das quais os reúne nos ensaios de uma peça para o Provincetown Theater.

A galeria de personagens anarquistas ao redor de O’Neill é muito rica e compreende ainda outro escritor da época: Hutchins Hapggod. Autor de An Anarchist Woman ele tinha se aposentado no Cape Cod e colaborara estreitamente com John Reed, Louise Bryant e outros nas encenações do Provincetown Theater.

Entre as mulheres pelas quais O’Neill talvez se apaixonou, emerge a figura de Dorothy Day, que mais tarde se converteu ao catolicismo sem abandonar o anarquismo e tornou-se co-fundadora do movimento Catholic Worker (uma derivação comunitária da filosofia personalista de Emmanuel Mounier), que ainda hoje existe e tantas páginas gloriosas acrescenta aos anais da luta contra a segregação racial, as guerras, o serviço miltar, o pagam,ento dos impostos ao Estado, etc…

Christine Ell, amante passageira do O’Neill, foi outra anarquista inspirada por Emma Goldman, e também tornar-se-á personagem teatral do autor. Não há muitos vestígios de encontros entre Emma Goldman e Eugene O’Neill, mas sabe-se que ele lia Mother Earth (na qual revista publicou um dos primeiros poemas antimilitaristas), frequentava as palestras do Ferrer Center, foi grande amigo de Lena Cominsky irmã da Emma) e de Stella Ballantine (sobrinha de Emma), de Mary Eleanor Fitzgerald (secretária do Provincetown Theater depois de ter trabalhado na redação de Mother Earth ). De Emma Goldman se sabe que conhecia as primeiras peças do O’Neill e fez palestras sobre elas. Apesar dos poucos contatos pessoais Emma foi uma grande fonte de inspiração, como veremos logo, em duas das peças que comentaremos.

Outro anarquista muito conhecido que ele pouco frequentou mas cuja personalidade, pensamento e ação inspiraram o O’Neill, que, anos depois, o declara numa carta, é o Alexander Berkman, Em data 29 de janeiro de 1927, numa carta de Hamilton, Bermuda, O’Neill escreve ao Berkman:"It is a long time since that night at Romany Marie but I am quite sure that you do not remember me better than I do you. I have a very clear picture of you in my mind to this day. I had had a very deep admiration for you for years and that meeting was sort of an unexpected fulfillment. As for my fame…and your infame, I would be willing to exchange a great deal of mine for a bit of yours. It is not so hard to write what one feels as truth. It is damned hard to live it."*

["Passou muito tempo desde aquela noite em Romany Marie mas estou muito certo de que você não se lembra de mim melhor do que eu de você. Tenho uma imagem nuito clara de você na minha mente desde então. Eu já tinha uma muito profunda admiração por você desde vários anos e aquele encontro foi um acontecimento inesperado. Em quanto á minha fama…e sua infámia, gostaria de trocar muita da minha por um pouco da sua. Não é tão difícil escrever o que se considera ser a verdade. Mas é muito difícil vive-la."

Essa admiração desenfreada por um homem então muito mais conhecido como homem de ação do que como teórico do anarquismo nos leva a notar que O’Neill não teve como amigos só inteletuais e artistas, anarquistas "filosóficos"mas frequentou também militantes sindicais. Um destes foi James Joseph Martin (dito Slim Martin), marinheiro e operário especializado, que era militante da IWW e a quem O’Neill pediu que o levasse a reuniões sindicalistas. O resultado foram pelo menos duas peças (The Personal Equation e The Hairy Ape) acabadas, publicadas e produzidas, e algumas outras só começadas e abandonadas por várias razões. Também tornou-se propagandista ativo quando passou anos navegando na marinha comercial.

Ser rodeado de amigos anarquistas, ter lido livros de autores anarquistas, assinar obras de conteúdo anarquista talvez não seja suficiente para traçar um retrato completo de uma pessoa. Foi o comportamento dele na vida pública e particular condizente com a ética anarquista? As lembranças dos que o freqüentaram durante a juventude dão a imagem de um bébado inveterado. Como tal é representado pelo menos em dois filmes nos quais ele tem um papel: Reds de Warren Beatty e Entertaining Angels de Michael Ray Rhodes. No primeiro ele é o amante de Louise Bryant e no segundo um amigo de Dorothy Day. Esta última, companheira de bebedeira antes de se tornar apóstola social e religiosa explica assim o vício do O’Neill: "Eu tinha a impressão que ele considerava beber como um ensaio para a morte. Bebia o uísque puro, de um só gole, não para ficar bêbado mas para ver se agüentava". Muitos anarquistas do século XIX consideravam o alcoolismo como uma das piores pragas sociais, como as drogas no século XX . A doutrina, a esse respeito, não é fixa e varia de país para outro e de uma geração a outra. Pode se deplorar a dependência de Eugene do alcool mas não usa-la como um argumento em contra dele (ele mesmo se deu conta que a bebida o destruia e acabou se tornando sóbrio) tomando em consideração que o pai e o irmão mais velho eram alcoólicos, em quanto a mãe tinha se tornado morfinómana desde o nascimento dele.

Mais repreensível, talvez, tenha sido seu comportamento de marido e de pai.Casou com a primeira mulher e sumiu logo depois deixando-a grávida. A Kathleen pediu e obteve o divórcio tres anos mais tarde. Foi só ao atingir a idade de doze anos que o filho conheceu o pai. Sua atitude para com a família não melhorou com o segundo casamento (núpcias de amor com bastante anos de convivência) do qual ele fugiu de repente, sem nenhuma explicação, ignorando os filhos durante anos. Foi assim que Oona casou com Charlie Chaplin, que tinha tres vezes a idade dela, mas representava justamente uma figura paterna que substituia o pae que ela nunca tinha tido.

Como conclusão provisória digamos que O’Neill praticou a solidariedade do anarquismo social fora de casa mas na família praticou mais o comportamento individualista á maneira de Nietzsche, seu autor de cabeceira. Nestas alturas cabe formular a pergunta: como é que O’Neill via a si mesmo?

Numa carta de 1939 a Bernard Cerf o dramaturgo escreve: "Diga ao Saxe que estou me reconvertendo a um anarquismo de aço". Isto foi nas vésperas da Segunda Guerra mundial, durante a qual ele compõe The Iceman Cometh que parecia ser um adeus ao anarquismo, mas não foi o caso, como vamos ver. Também disse:

"Time was when I was an active socialist, and, then, after that, a philosophical anarchist" [3]. Na última conferência de imprensa que ele deu em 1946 (isto é no fim de sua carreira quando já era famoso no mundo inteiro devido ás suas peças e ao Prêmio Nobel e poucos anos antes de morrer declara "sempre ter sido um anarquista filosófico"

A obra confirmará tudo isso.

O anarquismo na obra do autor

Traços do pensamento e da conduta anarquistas se encontram em vários personagens de muitas peças de O’Neill. Nalgumas delas os anarquistas são personagens centrais (que ás vezes se identificam com o autor e outras são baseados em pessoas existentes) ou assunto da obra. É de estranhar que – como já aconteceu com a vida- o seu teatro de cunho anarquista não tenha interessado os historiadores do anarquismo americano. Quem mais o cita - como era de se esperar – é o Paul Avrich que, em pelo menos duas de suas obras [4] o apresenta como frequentador do Centro Ferrer de Nova Iorque, colaborador ocasional de Mother Earth, amigo de vários companheiros, etc… confirmando tudo o que foi dito pelos Gelb e pelo Sheaffer, e acrescentando alguns pormenores. É bem provável que o Avrich volte a falar do assunto no próximo livro dele, dedicado ao Alexandre Berkman, que foi um dos "ídolos" e também o tradutor russo do O’Neill.

Na maior parte das peças O’Neill se fantasia de personagem expressando idéias antimilitaristas, anticapitalistas, pro-sindicalistas ou abertamente anarquistas. Junto a ele uma galeria numerosa de companheiros por ele conhecidos. admirados de longe ou de convivência direta.

Limitar-me-ei a examinar quatro das peças de mais importância para as idéias anarquistas.
A primeira das com forte conteúdo anarquistas é The Personal Equation, de 1915, há, como sempre no teatro de O’Neill, elementos autobiográficos combinados como elementos imaginários.

Entre os primeiros está Tom que pode ser o autor como fôra na realidade (devemos lembrar que ele navegou profisionalmente e ocupou empregos humildes nas estivas ) ou como ele teria desejado ser. Na peça há também conflitos entre pai e filho bastante parecidos aos que ele vivia com o próprio genitor, conhecido actor teatral. A crítica discorda sobre se o Hartman da peça corresponde a Sadakichi Hartman (que realmente existiu) ou não seria um psudónimo para Hippolyte Havel, o anarquista tcheco que aparecerá como Hugo Kalman na peça posterior The Iceman Cometh. Olga Tarnoff, o papel femenino mais importante, foi inspirado por Emma Goldman. Esta peça é inteiramente dedicada ao anarquismoe contém toda a problemática contemporanea: os desentendimentos entre as várias facções da esquerda (os socialistas confiando no processo eleitoral e os anarquistas na ação direta), a denúncia da exploração capitalista, o direito de greve, a oposição dos revolucionários á Primeira Guerra mundial que já tinha estourado na Europa e na qual a América está a ponto de participar, a dramática alternativa entre meios violentos e não-violentos de libertação social, a união livre ou o casamento, e assim por diante. Apesar disso não se trata de teatro de pura propaganda, mas de uma peça em quatro atos na qual são criadas situações dramáticas de alta tensão e credibilidade.
A primeira cena tem como fundo a sede de um sindicato da IWW onde as conversas se desenrolam no nível públiso (planos de greve) e no nível individual (a Olga que ama o Tom mas rejeita a idéia do casamento e da maternidade). O Tom, bastante parecido com O’Neill, acabou de perder o emprego por ter feito propaganda "subversiva"no lugar de trabalho. O segundo ato situa-se na casa de Thomas Perkins, mecánico de navíos, viuvo e pai do Tom. A empregada do Perkins o informa das más freqüentações políticas e sentimentais do filho. Na discussão que sobreveem entre pai e filho, este admite viver maritalmente com Olga porém sem estar casados. O Perkins desaprova. Eles discordam também sobre o uso da força nas reivindicações sociais e políticas. A posição do pai é que o Tom deveria não só abandonar Olga com a qual ele vive no pecado, mas também pedir desculpas aos dono da companhia por estar assistindo a reuniões anarcosindicalistas.

O terceiro ato acontece em Liverpool, em parte a bordo do navio S.Francisco – onde se encontram Thomas Perkins de serviço ás máquinas, o filho (escondido sob o nome de Tom Donovan) que se encarregaria de dinamitar os motores do navio se a reunião sindical que está tendo lugar não decreta a greve), e a Olga, fantasiada de homem, como se fizesse parte da tripulação. Os sindicalistas burocráticos, corrompidos pelos patrões, se declaram contra a greve e os anarquistas resolvem então passar á sabotagem. O companheiro que devia fornecer a dinamita, porém, foi preso e os grevistas terão que encontrar outra solução para impedir ao navio de zarpar. O Tom decide imobilizar os motores mas, para isto, tem que enfrentar o próprio pai. Nesse encontro terível, cada um procura proteger o outro, mas, ao mesmo tempo, desempenhar tarefas contrárias. O pai sem querer, atira contra o filho.

O ato seguinte advém num hospital. O pai, bem como a namorada, querem tomar conta do Tom, reduzido a uma existência vegetativa. Ele não pode se expressar, parece não reconhecer ninguém, e só repete frases como um papagaio. A Olga e o Perkins, depois de brigarem, chegam a um compromisso: ambos amam ele e tomarão conta do Tom e da criança que a Olga traz na barriga.

A peça conclui com o Tom, que mentalmente voltou á infância, repetindo o slogan: "Viva a Revolução!"

A moral resumida pela Olga (-Emma Goldman) é : "…lutamos e caímos frente ao poder da Sociedade, mas a revolução continua sobre nossos cadáveres. Vai adiante mesmo se talvez não o vejamos. Nós somos a ponte. O nosso sacrifício não é inútil. Nos é suficiente saber que estamos fazendo a nossa pequena parte e que as nossas pequenas vidas e pequenas mortes , apesar de tudo valem algo".

A segunda peça que examinarei é de 1922 e intitula-se The Hairy Ape. [5]. Está ambientada novamente, em meios anarcosindicalistas mas, desta vez, tem tons de comédia.Os dois protagonistas principais são membros da classe peoletária que se queixam de sua condição social.Fazem parte da tripulação de um navio e falam a giria dos marinheiros. Apesar da falta de cultura que revelam no decorrer dos acontecimentos, não lhes falta o sentido da dignidade humana. Além de serem explorados pelos donos do navio e apesar de sujos devido ao trabalho que exercem na barriga do navio, ao redor das máquinas e no meio do carvão, eles gostariam de ser considerados seres humanos e não animais, "macacos peludos" (nome da peça mas também insulto de visitantes ocasionais, como a filha do patrão). Feridos em sua honra, Yank, o mais primitivo, o mais violento mas, talvez, também o mais sensível deles, reclama vingança. Isto poderia se efetivar numa visita aos bairros elegantes e uma provocação na saída da missa do domingo, contra a mesma Mildred Douglas, filha do armador, que tão severa se mostrou com ele durante a visita ao navio. No bairro nobre da cidade, cheia de lojas de luxo onde se vendem jóias e casacos de pele cujo preço é assombroso, o Long e o Yank observam que uma família de trabalhadores ou de gente pobre e desempregada poderia viver um ano com o que os ricaços gastam comprando um desses objetos. A irritação do Yank cresce e o leva á inevitável agressão de classe. Acaba sendo preso, pois o lugar dele não é na frente das casas dos poderosos mas num calabouço. Durante sua prisão alguém lhe lê um artigo de jornal sobre os Wobblies. Assim são chamados os membros do sindicato Industrial Workers of the World. O recorte reproduz o discurso de um senador antirevolucionário que denuncia o anarcosindicalismo como sendo a maior chaga da nação. O Yank se sente atraído por esse movimento e decide aderir a ele. Na próxima folga ele visita a sede dos portuários da IWW. Bate na porta e os companheiros estranham este comportamento pois a particularidade deles é de deixarem a porta sempre aberta: é só empurrar e entrar. Pede admissão que é aceita logo sem nenhuma formalidade e pagando só uma moéda. O secretário sugere que ele leve um pacote de folhetos revolucionários mas o adverte ser prudente pois essa propaganda é considerada ilegal pelas autoridades. Mas não é propaganda que ele quer fazer senão ação direta, que ele associa a violência contra a propriedade. Os Wobblies começam a desconfiar desse desconhecido que aparece de repente e propõe dinamitar os estaleiros ou os navios de Mr. Douglas. Isso cheira a provocação. Assim o imobilizam e põem para fora.

Rejeitado por todos ele acaba se refugiando no jardim zoológico onde, depois de ter um diálogo incomunicável com um gorila, acaba entrando na gaiola dele, deixando livre o animal perplexo. Agora sim que pode ser considerado um verdadeiro "macaco peludo".
A linguagem é dura, a alegoria é pesada mas a moral da comédia é em favor de uma visão individualista.

A mais importante das peças, porém, é The Iceman Cometh que ele começa a escrever em 8 de junho de 1939 e finaliza em 26 de novembro do mesmo ano. Relê o texto, faz algumas mudanças e assina a versão final em 3 de janeiro de 1940. O assunto da peça é a validade ou não das teorias anarquistas. Para ilustrar o assunto ele se pauta em documentos e pede ao amigo de juventude Saxe Commins [6] que trabalha na editora Random House (empregp obtido por "imposição"de O’Neill) para lhe mandar a velha literatura anarquista. Recebe assim cópia de velhos periodicos dirigidos por Hippolyte Havel (anarquista tcheco escolhido como personagem da peça com o nome de Hugo Kalmar) e obras do Bacunin e do Kropotkin. Outro personagem anarquista é Larry Slade, inspirado por Terry Carlin (Terence O’Carolan) que foi outro amigo de juventude que o autor ajudou até o fim da vida. O terceiro, mas não último, anarquista seria Don Parritt, que se apresenta como tal. Na realidade, é um traidor que veio da Califórnia para Nova Iorque, sob o pretexto de estar envolvido num atentado mas que trabalha para a polícia, procurando provas para ajudar a prender os culpados do atentado contra o Los Angeles Time fato que, históricamente aconteceu.

O enredo leva o Don ao encontro do Larry por este ter sido o único que, quando era criança, sempre o tratou com carinho e o escutou como se fosse um adulto. O Larry, para o Don, é uma figura paterna e, talvez, seu verdadeiro pai ( foi amante de sua mãe). Mas o Don é torturado e mente mas acaba admitindo que traiu, para salvar a mãe, diz ele no começo. A mãe, Rosa (inspirada em parte por Gertire Vose e em parte por Emma Goldman) está presa. O filho acaba confessando que a denunciou por ciúme, pois ela o traia com as próprias idéias que colocava acima de seus deveres de mãe. No fim, revela ao Larry ter traído por dinheiro. Angustiado ele medita o suicídio, ao qual o Larry, sem compaixão, o empurra.

Devemos lembrar que na vida real, na época em que O’Neill frequentava a boêmia do Greenwich Village, ele tentara o suicídio num local muito parecido com o Hell Hole [7]. As discussões sobre anarquismo na peça são estéreis e negativas, mas deve-se considerar que os tempos em que este drama foi concebido que assiste a uma dupla derrota: a do sonho anarquista na Espanha de 1939 e o início da Segunda Guerra mundial. Contudo o anarquismo não é o único assunto da peça. Em primeiro lugar, numa polémica com o comunista Mike Gold (que lhe foi apresentado por Dorothy Day) que queria que ele escrevesse obras mais engajadas, O’Neill declarou:"quando um autor escreve propaganda ele cessa de ser artista e torna-se um político". Além disso, O’Neill sempre insistiu sobre os diversos níveis de escritura. Há quem considere que o elemento religioso, representado por Hickey, é fundamental na peça. De fato existe um breve estudo de Robert C Lee que toma em consideração os dois aspectos: "Evangelism and Anarchism in The Iceman Cometh". [8.

O’Neill foi criado católico e, apesar de ter renunciado á fé (deixou no textamento que não queria padres no enterro) escreveu muitas peças sobre personagens e assuntos religiosos. Há uma interpretação do Iceman… come se fosse uma "Última Céia" tendo doze personagens na mesa incluindo a um Judas. Discordo desta interpretação pois os personagens, se incluirmos as tres prostitutas e os dois policiais superam o número de doze. mas sobretudo por outra razão, que seria a presença de duas personagens excepcionais e positivas, que não fazem justamente parte da elenco da distribuição e que ninguém – que eu saiba – percebeu como sendo centrais no enredo. Uma seria a Evelyn, mártir de tipo cristão, a mulher que o Hickey mata, por ser tão boa, tão compreensiva, tão paciente, tão generosa, tão amorosa, que entende tudo e aceita tudo, e que o marido sente a necessidade de matar, para preserva-la, para não decepciona-la, para não machuca-la moralmente.

Outra é uma mártir laica, Rosa Parritt a mãe traída do Don. Ela encontra-se presa por idealismo, paga pelos erros dos outros, mantém viva a chama do ideal. É uma figura empolgante, a ser reverenciada e imitada.

O verdadeiro anarquismo, em suma , não é dos tres bébedos, um parasita, um preguiçoso e um traidor mas nessa bela figura de mulher. O Iceman Cometh soa pessimista só depois de uma leitura superficial. Pense-se aos "pipe dreams", isto é, aos "castelos no ar" (as utopias, os sonhos irrealizáveis) aos quais se alude amiúde. O próprio autor, numa entrevista declarou: "Bem, o que eu posso dizer é que se trata de uma peça sobre castelos no ar. A filosofia subjacente é que sempre resta ainda um sonho, um sonho final, qualquer seja o nível baixo ao qual se cai, no fim da garrafa, eu sei, pois eu mesmo vi…". O’Neill estava satisfeito com esta peça e disse: "é uma das melhores coisas que jamás fiz. De alguma maneira talvez a melhor".

Outros devem ter concordado com ele pois existem duas versões cinematográficas, uma de Sydney Lumet e outra de John Frankenheimer. Aliás temos duas provas contundentes de que o pessimismoi aparente de O’Neill não marcou o fim do anarquismo dele. A primeira é a entrevista já mencionada, que terá lugar anos depois de ter escrito a peça e poucos anos antes de sua morte, na qual ele reitera suas convicções anarquistas. A segunda está no fato que logo depois de ter concluído The Iceman Cometh ele dá início a outra obra de tema anarquista, e desta vez uma comédia, mostrando que nem abandonou as convicções ideológicas da juventude, e não aderiu ao pessimismo dos personagens da peça anterior.

A última obra que mencionarei nunca foi concluída, mudou de título mas é a que revela o profundo conhecimento que O’Neill tinha do anarquismo internacional, de seus pensadores bem como de seus militantes. É dedicada ao Errico Malatesta, agitador anarquista italiano mundialmente conhecido. Teria sido uma comédia mas com um fundo ético e político. Não só cronológicamente, mas também filosoficamente é uma continuação do Iceman Cometh . Não foi nunca encenada nem terminada, mas todo o trabalho de pesquisa, as anotações do autor e as cenas já compostas foram publicados postumamente. Dedicou mais de um ano a esta comédia e revisou constantemente o texto. O título inicial era The Visit of Malatesta passou a ser Malatesta seeks Surcease. [9]O nome escolhido para o personagem principal era "Cesare", depois mudado em "Enrico", se bem que na Itália, onde ele nasceu, a forma preferida é a de "Errico". A colocação temporal inicial era de 1912, mas a data foi adiantada para 1923 para poder justificar a fuga do Malatesta da ditadura fascista iniciada em 1922. Malatesta, na realidade, não pode visitar seus amigos americanos até a morte (em 1935) por se encontrar sob vigilância policial especial em Roma, por ordem expressa do Mussolini. O Malatesta porém esteve nos Estados Unidos mas em 1899. Há quem diga que O’Neill poderia tê-lo escutado naquela época, mas não há provas disso ter acontecido. Aliás O’Neill teria tido 11 anos.
A função do Malatesta e da peça mesma é de representar a ESPERANÇA que talvez tivesse sido sacudida pelo pessimismo aparente do Iceman Cometh. Outro intuito dele é lutar contra o alcoolismo que freia as energias revolucionárias dos militantes mas que também alimenta a cobiça daqueles companheiros italo-americanos da comédia que negligenciam o ideal para ganhar dinheiro imitando assim os capitalistas. O do alcoolismo é um problema que afligiu não só o movimnento, mas o próprio O’Neill, vítima desse fenómeno, como o foram o irmão maior e o pai, bem como muitos dos boêmios, anarquistas ou não, que ele frequentou na vida real. Aliás não há peça dele na qual não apareça algum bébedo.

Na "Visita do Malatesta", a mulher do Daniello chama-se Rosa, como já se chamava Rosa a mão presa do Don Parritt da peça anterior. Pouco importa saber se o nome "Rosa" se refere a Emma Goldman ou não. Um dito da época nos ambientes anarco-sindicalistas é uma das reivindicações que vai além das melhoras económicas: "Queremos pão, mas rosas também". A "Rosa"torna-se metáfora do amor, da solidariedade, do engajamento, da chama da revolução. No rascunho se prevê que o Malatesta acabará casando com uma das filhas do Daniello, Francina, que se gaba de ter se tornado "a rosa da paixão pela revolução".

Não me atrevo a atribuir ao O’Neill uma conclusão da peça, mas tudo leva a crer que seria uma confirmação do "sonho anarquista".

Por razões de saúde O’Neill abandona este projeto e vários outros previstos no seu jornal pessoal. Uma tremedeira constante, mal diagnosticada pelos médicos e nunca curada o acompanhará até o fim e , nos últimos dez anos ele viverá uma existência solitária, separando-se temporáriamente até da própria mulher (a terceira, a que mais amou) nunca renegando, porém, seus ideais anarquistas.

Pietro Ferrua


[
1] Cheguei a esta conclusão depois de consultar a bibliografia de "First Search"que contém informação sobre todos os livros existentes nas bibliotecas e também as teses de doutoramento.
[
2] Arthur and Barbara Gelb, ed. O’Neill (New York, Harper and Row, 1974, in-8°, 990p.)
[
3] Louis Sheaffer: O’Neill. Son and Artist (Boston e Toronto, Little-Brown & Co., 1973, in-8°, 750p.) e O’Neill. Son and Playright ( mesmo editor, 1968, in-8°, 543p.);
[
4] Gelb, op.cit., p.286 (tradução deste autor)
[
5] Ibid., p.387
[
6] Interview do Sunday Times de 1946
[
7] O Hell Hole da peça é uma combinação de tres locais realmente existentes no Greenwich Villagee que O’Neill e outros boêmios frequentavam durante od dois primeiros decênios do sécilo XX
[
8] Paul Avrich, Anarchist Voices (An Oral History of Anarchism in America), Princeton, University Press, 1995 e posteriormente em The Modern School Movement (Anarchism and Education in the United States), Princeton, University Press, 1980
[
9] "Notes for The Visit of Malatesta"in Eugene O’Neill. The Unfinished Plays, edited and annotated by Virginia Floyd, New York, Continuum, 1988, in-8°,xxviii-213pp.); a mesma é também autora do precioso ensaio Eugene O’Neill at Work: Newly Released Ideas for Plays (New York, Ungar, 1981, in-8°, xxxix-407pp.).