7.3.05

Os movimentos anti-Publicidade

O movimento social de crítica e contestação à publicidade nasceu em França nos inícios dos anos 90 pela mão de Yvan Gradis (um activista social de sensibilidade libertária e fundador de «Publiphobe»), de François Brune (escritor, autor de «Bonheur conforme» de 1981, e recentemente do livro «De l’ideologie aujourd’hui» nas edições Parangon), e de outras pessoas, entre as quais o filósofo René Macaire, provenientes de outros movimentos sociais que vão desde a não-violência até aos de reflexão cristã.
Em torno da Associação «Resistência à agressão publicitária» (RAP) um crescente número de pessoas vieram a denunciar quer os atentados físicos às pessoas ou à sua esfera privada ( os prospectos, os placards publicitários, as intrusões telefónicas, as interrupções radiofónicas e televisivas,…) quer as práticas manipulatórias ( a ideologia consumista, a publicidade enganosa, as incitações ao desperdício e ao endividamento…), quer ainda o conteúdo antisocial e maldoso de certas mensagens ( sexismo, violência, individualismo, comportamento perigoso…), e sobretudo, o crescente poder dos publicitários no conjunto da publicidade ( nos desportos, nos media, na educação, na cultura, enfim, na política…)


Mais ao menos ao mesmo tempo nascia no Canadá «Media Foundation», uma associação anglófona, que veio rapidamente a conquistar fama mundial, tornando-se de seguida uma associação internacional, e que edita a revista «Adbusters». Criada por um antigo publicitário, decidido a denunciar os abusos da sua antiga actividade, utiliza os próprios meios publicitários para melhor denunciar e criticar a publicidade. È responsável por variadíssimos «desvios» ás mensagens publicitária originais, que se tornaram famosas entretanto, e que visam denunciar contestar a alienação dos espíritos e a desnaturalização do ambiente que resultam das sucessivas campanhas publicitárias que inundam as nossas sociedades. Esta associação canadiana é também responsável pelas campanhas anuais como o do «dia sem compras» e da «semana sem TV».

Em 1999 é fundada a revista e a Associação Casseurs de Pub por iniciativa de um antigo publicitário francês, e que edita «a revista de ecologia mental» com o mesmo nome, que se tornou também conhecida por uma série de iniciativas como a «o início das aulas sem marcas» ou o lançamento de uma petição para a supressão dos Grandes Prémios de Fórmula 1. Recentemente esta associação lançou um novo jornal com o título e subtítulo «O Decrescimento, o jornal da alegria de viver».

Outra associação é a Paysages de France, criada em 1992, que luta contra toda a forma de poluição visual.

Consultar:
www.adbuster.org
www.antipub.net
http://paysagesdefrance.free.fr



Palavriacto

Palavriacto é um grupo de teatro vocacionado para a recuperação e desenvolvimento da literatura oral ( e a antiga literatura de cordel), bem assim para o conto de histórias. Realizam happenings e teatro de rua, além de produzirem e editarem as suas próprias histórias e peças.
Trabalham também para escolas. Realizam animação de rua e espectáculos em espaços teatrais, bares e cafés culturais.
Revelam uma invulgar criatividade cénica.
O grupo tem realizado espectáculos em todo o país.


Contacto:
palavriacto@net.novis.pt

Place des Resistances, uma aldeia autogerida na Bretanha de 27/4 a 1 de Maio

Está prevista a realização de uma aldeia em autogestão na Bretanha, mais concretamente em Gruellau ( entre Nantes e Rennes) para os dias 27 de Abril a 1 de Maio de 2005.
Porque a utopia, a criação e a realização de projectos emancipadores, é permanente, encaramos esta aldeia – diz-se no anúncio-apresentação - como um momento de experimentações sociais e o encontro entre os actores e as actrizes da mais variadas associações e colectivos.
Instalar-se em Gruellau não é anódino e inconsequente. Neste local desenvolve-se há anos parcerias de solidariedade internacional para com a Nicarágua.
A ideia é viver em conjunto, encontrarmo-nos, formarmo-nos, obter informações e criar laços e redes para continuar a lutar fora dos circuitos habituais.
Praça das Resistência não é, pois, uma festa política nem um festival, mas antes um local de vida.

Para mais informações consultar:
www.passerelleco.info
http://www.passerelleco.info/article.php3?id_article=399&recherche=place+des+resistences

Bush exporta Deus

Investigadores do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) de Washington estão convencidos da importância do «factor Deus. Segundo eles o fervor religioso, actualmente muito em voga nos Estados Unidos, é parte integrante de numerosos programas de ajuda norte-americana aos países africanos, o que constitui um factor da maior importância para os tornar mais eficazes, comparativamente àquelas ajudas que primam pela laicidade, como são na grande maioria dos casos, os programas implementados pelos países europeus.
Fonte: Nouvel Observateur

Como estancar o terrorismo

«Everyone’s worried about stopping terrorism. Well, there’s a really easy way: stop participating in it»

N. Chomsky

Conferência-debate de João Bernardo

Está marcada para o dia 10 de Março a realização de uma Conferência-Debate na Faculdade de Letras do Porto, às 17 horas, por João Bernardo (autor de vários livros sobre economia, filosofia e teoria política) e subordinada a tema «Estado e Lutas Sociais».
Recorde-se que a última obra de João Bernardo é «Nos Labirintos do Fascismo», edição da Afrontamento (2004) em que o autor faz um inventário histórico-geográfico completo das características e do grupos fascistas desde o seu aparecimento nos alvores do século XX até aos nossos dias.
João Bernardo destacou-se igualmente, nos anos de 1974 e 1975, na defesa das teses do conselhismo operário em Portugal.

Será que o nome do próximo Papa é João XXIV ?

Uma intrigante pergunta paira sobre os nossos espíritos inquietos face à doença imparável do actual Sumo Pontífice: será que o seu sucessor se chamará João 24?

6.3.05

O escândalo das despesas militares no mundo!

Esqueça as doenças, a fome e a pobreza. Se se pretender encontrar os valores mais eminentes da humanidade por intermédio do volume dos recursos financeiros que são mobilizados no mundo contemporâneo esses objectivos são, sem dúvida, os que se encontram ligados à defesa e ao armamento!!!
Na realidade, o mundo gasta rios de dinheiro em armas, navios e aviões de guerra. O Instituto Internacional de pesquisas sobre a Paz de Estocolmo estima que em 2002 a despesa militar foi de 794 biliões de dólares, mais de 6% em termos reais do que em 2001. Ou seja, 128 dólares por cada habitante da Terra. Por outras palavras: em cada hora de cada dia o mundo gasta mais de 90 milhões em despesas militares.

O país que mais gasta são os Estados Unidos. No ano fiscal de 2003, o orçamento militar norte-americano previa uma despesa de 396,1 biliões de dólares. Para o ano de 2004 a despesa orçamentada era de 399,1 biliões de dólares, mas em Novembro de 2003, o Presidente Bush autorizou o maior aumento jamais concedido para o departamento da defesa da Administração norte-americana, aumentando a despesa prevista para 401 biliões de dólares!

Terá isto algum sentido? Façamos algumas comparações.
O Center for Defense Information (CDI), um think tank militar, dedica-se a analisar as despesas militares. Segundos as suas estimativas os Estados Unidos gastam mais 6% que a Rússia, o segundo país que mais investe em gastos militares. Conclui-se ainda que os Estados Unidos gastam mais que o volume total das despesas militares dos 20 países que se seguem atrás da Rússia. Se considerarmos todos os membros da NATO, mais a Austrália, o Japão, a Coreia do Sul, as despesas militares totais dos Estados Unidos e dos seus aliados ultrapassam o total que o resto do mundo canaliza para o armamento, isto é, representam cerca de dois terços da despesa militar mundial. Relativamente ao que se passa com os chamados 7 «estados-canalhas» (assim chamados pelos americanos), o orçamento militar norte-americano é simplesmente incomparável. Com efeito, a despesa militar norte-americana gasta mais de 33 vezes a soma dos orçamentos de países como Cuba, Irão, Iraque, Líbia, Coreia do Norte, Sudão e Síria.

Face a estes dados não admira que muitos considerem que existe actualmente uma única superpotência. E não há dúvidas que as forças armadas norte-americanas estão bem abastecidas e com equipamento inigualável.

Em 1985, no apogeu da Guerra Fria, o mundo gastou 1,2 triliões de dólares em gastos militares. Estes gastos vieram lentamente a descer ao longo das décadas de 80 e 90, mas a partir do 11 de Setembro a tendência inflectiu. E como a guerra global contra o terrorismo parece não ter ainda terminado,a acreditar nas notícias diárias dos jornais e canais de TV, tudo indica que a despesa militar irá continuar a aumentar. Com efeito, a Administração norte-americana conta gastar 2,7 triliões de dólares em despesas militares nos próximos 6 anos!!!

Qual é o destino das despesas militares nos Estado Unidos? O Center for Arms Control and Non-Proliferation faz uma descrição geral: 98,6 biliões de dólares para pagamento de pessoal (incluindo suplementos); 117 biliões é destinado a operações e manutenção; e 135 biliões é aplicado em investigação e produção de armamento e material militar, o que abrange a criação e pesquisa de novas armas. Christopher Hellman do CDI (Center for Defense Information) realça o facto dos custos militares na guerra do Afeganistão e Iraque não estarem incluídos no orçamento do Departamento de defesa, nem a maior parte dele é sequer orçamentado na rubrica da Segurança Interna.
Num momento em que a economia norte-americana defronta-se com enormes défices orçamentais há quem defenda que o orçamento da defesa deveria ser melhor gerido. Quando Bush assinou o National Defense Authorization Act for Fiscal Year 2004, declarou no momento: « A lei que hoje assinei…permitirá preparar os nossos militares para todos os desafios que tiverem pela frente. Tudo faremos para manter forte a nossa nação, manter a paz, e manter o povo americano em segurança». Ao mesmo tempo o Senador John McCain confessava que os militares estavam ainda a tentar «sacar dinheiro aos contribuintes» e que «a relação incestuosa entre o Pentágono, as empresas particulares contratantes e os legisladores só poderia augurar maus resultados». O Senador McCain recordou ainda que 9,1 biliões de dólares tinham sido gastos nos programas de defesa de mísseis que não se encontravam ainda operacionais. Um analista acabou por concordar que os militares ainda pensavam em termos de Guerra Fria:«A maior parte dos fundos destina-se aos tradicionais programas e não à sua substituição por outros novos».
O CDI acabou de confirmar que os Estados Unidos não tinham necessidade de desenvolver novos sistemas de armas – pela simples razão que nenhum outro Estado estava a desenvolver, ou tinha sequer condições, para desenvolver armas tão sofisticadas como essas. Curiosamente, o Pentágono autorizou aos fabricantes das novíssimas tecnologias a sua imediata venda a países estrangeiros logo que tal material saísse da linha de produção. Esta exportação de armamento high-tech lança os Estados Unidos para aquilo que parece ser efectivamente uma corrida aos armamentos consigo mesmo! O Council for a Livable World faz notar que a exportação de equipamento militar topo de gama enfraquece o poder militar dos EUA, para além de levar «os políticos, os militares e a industria militar a pressionar os altos responsáveis políticos a aumentar mais o investimento em material sofisticado de forma a superar aquele que foi vendido ao estrangeiro».
Esta falsa corrida armamentista estimula os Estados mais pequenos a investir em equipamento militar high.tech que eles mal podem pagar. O relatório conjunto da Amnistia Internacional e da Oxfam International «Shattered Lives» revela que aproximadamene metade dos países com um elevado orçamento militar possuem baixos indicadores de desenvolvimento humano. Angola e a Eritreia gastam, por exemplo, mais de 20% do seu Orçamento em despesas militares. Por vezes um tal investimento acaba por se revelar um puro desperdício de dinheiro. Tanzânia gastou, por exemplo, 40 milhões de dólares em2001 num sistema de controle misto civil-militar do seu tráfego aéreo, cujo preço se veio a mostrar inflacionado, para além do sistema se ter revelado inapropriado para os efeitos pretendidos!

Uma vez que as despesas militares têm tendência para aumentar, poderemos ver como tal facto se repercute no aumento do poder e importância do Exército norte-americano e no seu crescente peso na balança do poder.
No fim de 2003 a situação no Iraque era frágil com os grupos insurgentes lançando contínuos ataques. Estas tácticas sugerem um novo tipo de guerra – aquilo que os especialistas designam por «ameaças assimétricas». Mais que duas poderosas forças armadas em confronto cara-a-cara, as guerras do futuro travar-se-ão entre pequenos mas organizados grupos e grandes Estados, cujas fraquezas serão identificadas por aqueles e impiedosamente atacadas.

Resta ver se as novas tecnologias que os militares norte-americanos procuram desenvolver serão usadas contra possíveis agressores numa das tais guerras assimétricas. O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (International Institute of Strategic Studies, IISS) sublinha o facto das operações de contra terrorismo terem vindo a decrescer desde que a Al-Qaeda se viu privada das suas bases que possuía no Afeganistão. Desde estão, os grupos terroristas dispersaram-se por vários países pelo que deixou de haver os tradicionais alvos para ataques militares. O IISS adverte que «o verdadeiro desafio das forças militares norte-americanas não está na questão de saber se a aquisição de novos e avançadas sistemas de armas lhes permitirá reforçar o seu poder, mas antes saber em que medida conseguem mudar a cultura e o modo como pensam as suas operações»

Alguns argumentam que se o Exército norte-americano exige mais dinheiros para ser investido na pesquisa e criação de novo armamento, tal não deve ser à custa do contribuinte americano, mas simplesmente por via da redução das despesas destinadas à presença de tropas em países estrangeiros, e não realizando mais intervenções militares estrangeiras. O crescimento imparável da primeira e única superpotência pode ter graves consequências para o controle do armamento. Os outros Estados procurarão desenvolver o seu poder militar sem estarem dependentes dos Estados Unidos para salvaguardarem-se de qualquer instabilidade regional. Sempre foi assim: quanto maior for a arma, mais alto se faz ouvir a sua voz. E as armas que estão a produzirem-se graças aos 401 biliões de dólares autorizados por Bush devem ser bem grandes.

Se o mundo continuar a fazer das despesas militares a sua maior prioridade, o dinheiro terá que vir de algum lado.. Muitas pessoas e grupos verão a sua saúde, educação e ambiente a serem preteridos., ao mesmo tempo que as nações mais pobres continuarão a seguir o mesmo caminho das que lhe servem de referenciam, e que são as escolhas dos Estados mais poderosos, com tudo o que isso significa de prejuízo para o desenvolvimento das suas populações. Não é difícil saber o que fazer com 794 biliões de dólares. Calcula-se que bastaria 15 biliões de dólares por ano para proporcionar os cuidados de saúde primários a toda a população mundial, 2 biliões de dólares para os programas sustentáveis de agricultura de forma a resolver o problema da fome, e cerca de 5 biliões para assegurar a educação básica para todos.

Não é difícil conceber um mundo onde o desenvolvimento e bem-estar sejam mais prioritários que o desenvolvimento de novas armas cujo único propósito é intimidar, mutilar e matar. Para tanto basta repensar os preconceitos sobre a necessidade de armas para garantir a segurança e qual será a melhor maneira de combater o inimigo que pretenda atacar. Cada vez mais os militares são contestados pelos seus críticos que não se intimidam com os seus arsenais, e que são vistos cada vez mais como uma afronta. Resolvendo algumas das causas que originam a sua cólera estar-se-á certamente a construir a maior e a melhor arma pacífica.



(tradução do texto «In 2003,the US spent $396 billion on its military. This is 33 times the combined military spending of the seven “rogue states”», in «50 facts that should change the world», by Jessica Williams, Icon Books,2004)


Visitas aos parques naturais e ao património da humanidade em Espanha

Quem estiver interessado em escapar-se das desumanas e insustentáveis cidades, ao ruído, stress e à concorrência infernal do mundo do capitalismo urbano, poderá preparar as suas escapadas nos parques naturais espanhóis ou no património histórico dos nuestros hermanos começando por visitar os sites:
www.parquesnaturales.com
www.patrimonio-humanidad.com

5.3.05

Um novo colectivo artístico de intervenção urbana

Surgiu na cidade do Porto um novo colectivo de intervenção urbana com o nome « Sindicato do Crime» e que tem como prioridade da sua acção o «questionamento das verdades ditas inquestionáveis».
A sua intervenção é feita habitualmente por intermédio do vídeo, da instalação, da literatura, da música e da perfomance. Por isso «filiados»no Sindicato encontram-se escritores, artistas, djs, videastas entre os quais Jo King, A. Nómino, Bóris Fortuna, Hanoi, e Não Tenho Nome.
O novo projecto do Sindicato do Crime é inaugurado amanhã no bar Labirinto, na cidade do Porto, e desenrolar-se-á ao longo do mês de Março. Tem como título «Junk-Buy me» e assume-se como um projecto multimédia «em que cabem todos os excessos cometidos pela propaganda, demasiado óbvia, na sua tentativa subliminar». Desde imagens em regime non-stop a incisivas palavras de ordem, o espaço remete o espectador para a violência do real, «mesmo quando encoberta pela pretensa benevolência dos seus princípios». Este projecto poderá incomodar as sensibilidades mais agudas assim como os detentores dos «sintomas agudos de fé».
Semanalmente – a 5, 12,18 e 25 de Março, às 23 horas e às 2 horas da madrugada – irá decorrer uma perfomance protagonizada por um indivíduo entregue às suas consumições interiores. O homem planeia a mais árdua das missões: descobrir o ser a quem entregar o significado da existência.
O colectivo, apesar de recente, já realizou o evento «Who’s the mthfckr?» em Novembro passado que incluiu perfomances de A da Silva O e Pedro Piaf e a exibição das curtas-metragens «O mural da ética» e «Die, cabrón» de Paulo Moreira e Sérgio Almeida.
(notícia retirada do Jornal de Notícias de 4de Março de 2005)

Para que conste

«Nós, ONGs do mundo inteiro, redes nacionais e internacionais e movimentos sociais (...) entendemos (...) que a salvação do Planeta e dos seus povos, de hoje e de amanhã, requer a elaboração de um novo projecto de civilização, fundado numa ética que determine e fundamente limites, prudência, respeito da diversidade, solidariedade, justiça e liberdade. Sublinhamos enfaticamente a impossibilidade de um desenvolvimento sustentável dissociado da luta, partilhada com os mais carenciados e excluídos, contra a pobreza e contra o processo de depauperização»

in Declaração do Rio de Janeiro
(Conferência das Nações Unidas para o meio ambiente e desenvolvimento realizada no Rio de janeiro em 1992)

Jack Kerouac e a revolta beatnick


“On the road” o livro mais conhecido de Kerouac representa a transição entre duas épocas: o período cinzento dos anos 50 e o sopro da ventania da década de 60.O livro fez escola na América: partir ao acaso, ao encontro das aventuras da estrada, fugir ao remanso sufocante da casa, da família, dos bens materiais, do conformismo, escapar à domesticação, mas também ao ghetto, à célula comunista, à prisão mental, e partir à procura da sabedoria e da verdade. Na origem do movimento beatnick encontrámos um pequeno grupo de jovens escritores que frequentavam a boémia de Greenwich Village novaiorquina em 1943. Dele faziam parte Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, Clellon Holmes, Carl Solomon, Lawrence Ferlinghetti, Barbara Guest, Denise Levertov, Frank O’Hara, John Ashbery, Keneth Patchen,...

A geração beat é uma expressão que engloba hipsters e beatnicks. De comum têm o jazz, a marijuana e a percepção da sociedade como uma prisão. Mas têm também diferenças. O hipster é o proletário avesso ao trabalho, lança-senos estupefacientes para melhor gozar a vida. É limpo, activo e faustiano. O beatnick vem da classe média, e não trabalha, atitude que desafia o conformismo dos pais. É desalinhado, contemplativo, místico e poético. O beatnick é mais sentimental que sexual, mais cerebral que corporal.
Uma caracterização como esta peca por falta de realismo. É que estas duas figuras - o hipster e o beatnick - misturam-se e confluem em doses diferentes em cada indivíduo em concreto. Houve hipsters que deram em beatnicks (os beatsters ), e beatnicks que evoluíram para hipsters (os hipnicks).


Kerouac distingue em “ The origins of the Beat Generation” dois estilos diferentes: « o “cool” é o tipo lacónico e barbudo, sentado à frente de uma cerveja, a falar em voz baixa, e rodeado de miúdas vestidas de preto que não abrem a boca; o “hot” é um tipo louco, inocente, de coração aberto e olhos brilhantes, conversador bebido, a saltar de bar em bar.» E continua: «Em 1948 os tipos “hot” andavam de carro de um lado para o outro, no estilo on the road, à procura de jazz frenético e estridente, executado por Willis Jackson ou Lucky Thompson, enquanto os tipos “cool” permaneciam imóveis num silêncio mortal face aos excelentes grupos de Lennie Tristano e Miles Davis» E conclui: « Claro está que a maioria dos artistas da geração beat eram tipos “hot”.

As primeiras manifestações literárias beat aparecem por volta de 1948-49 em S. Francisco pela mão de Kenneth Patchen, Kerouac, Ginsberg, Ferlinghetti e Gregory Corso. A poesia de gabinete dava lugar à poesia pulsional dos seus frenéticos e impulsivos fabricantes. Um outro grupo, de Nova Iorque, mais intelectualizado e moderado, aparece a dar réplica ao de S. Francisco. A ele pertencem Denise, O’Hara, Ashbery e Guest. De todos, Kerouac é o que ganhará mais destaque graças ao seu livro “On the Road”, e na poesia, Ginsberg é o poeta mais citado.

Jack Kerouac ficou também conhecido pela defesa da técnica de escrita designada por “ escrita automática”, algo parecido com a improvisação jazzística, ao utilizar espaços em branco a separa as frases em vez da tradicional pontuação, tal qual acontece no jazz entre dois compassos. Esse estilo ao retratar ritmos disjuntivos e sensações difusas, acaba por ser significativamente muito expressivo, e recorda a action painting de Pollock, e a energia orgástica de um Reich.

Há quem compare a geração beat americana, e o seu espírito inconformista, aos angry young man ingleses, e aos existencialistas franceses pós-45. A angústia e a revolta a todos agitou, promovendo uma sensibilidade específica e um estado de espírito singular.

Os autores beat alimentam-se de Rimbaud, Céline, Whitman, Ezra Pound, Hermann Melville, William Blake, e William Carlos Williams, todos considerados como poetas malditos. Recuperam o budismo zen, incorporam a sua lógica, a afirmação do não-sentido, da não-ordem, o fluxo e a imprevisibilidade das coisas na contra-cultura, que propõem, em alternativa ao império da mercadoria.
Outro dado incontonável deste movimento são as drogas. Estas são vistas como sinónimo de expansão da mente e do corpo, como desprogramadoras do quotidiano produtivista e do american way of life. Burroughs, por exemplo, explora muito este filão no seu livro “Naked Lunch”, e abre caminho às teorias de um Timothy Leary sobre os psicotropos e alucinógeneos.


A geração beat representou uma recusa ao caminho que a civilização americana: de um pequeno cenáculo de poetas e escritores boémios, a sensibilidade beat alastrou à sociedade no seu conjunto, deixa de ser uma experiência individual e converte-se numa linguagem colectiva, numa Contra-Cultura. Advém daí a enorme influência que os beat exerceram sobre a música e a arte dos anos 60, entre os grupos as tribos urbanas e o underground subsequente. Bastará apenas recordar a sua influência sobre músicos como Cage e Phil Glass, artistas como Warhol, e vocalistas como Janis Joplin e Bob Dylan. O estudo desta década não pode ser feito sem se mencionar o lastro deixado pela geração Beat, quiça a fonte de onde brotou muito do que se viu ( e ouviu) nos sixties.

A constelação Beat é multifacetada e os seus elementos tiveram destinos diferentes. Uns morreram alcoolizados (Kerouac), outros exilaram-se ( Burroughs e Bowles ), outros ainda mantêm-se no activo ( Ginsberg). E desencantem-se os que pensam a Beat como fenómeno do passado. Hoje, em plena vaga grunge, assiste-se a um renovado interesse pelo beat. Os seus livros, textos e poemas são de novo lidos e recitados nas caves novaiorquinas, e até os próprios estilistas se inspiram no look beatnik.

Nos últimos anos a América foi varrida por uma autêntica Kerouacmania, a propósito dos 25 anos da morte de Kerouac. Este foi içado a ídolo e vendido ao mundo como típico gadget norte-americano. Inclusivamente, o escritor já foi convertido no pai putativo do “street jazz”, uma mistura de saxe, contrabaixo e rap. E aproveitando todo este movimento, Ginsberg confessou, não há muito tempo, que os anos 90 lhe recordavam a década de 60, tal como os anos 80 se inspiraram nos anos 50.
Mas atrás das mercadoria e da caixa registadora, esconde-se a história eral e o homem concreto. E a verdade é que não têm faltado biografias e edições sobre Kerouac. Nelas se vê que foi um escritor prolixo, caseiro, a viver com a sua mãe. Fez longas viagens pela América, viveu durante algum tempo a boémia citadina, e até se inscreveu a dada altura como guarda florestal a fim de gozar de alguma êxtase contemplativa.


De origem canadiana, mais própriamente do Quebéc, Kerouac revê-se como um forasteiro, alguém com desejo de vaguear pela América profunda. Morreu a 21 de Outubro de 1969, alcoolizado, sózinho e convertido ao patriotismo balofo do americano médio ( na realidade, veio a apoiar a intervenção americana na guerra do Vietname ).

No livro “On the Road”, os dois personagens Dean Moriarty e Sal separam-se, com este a prenunciar o destino trágico de Dean. O escritor, personificação viva de Sal, nutria uma especial admiração por Dean, mas este era o oposto deste. Curiosamente , no entanto, soube identificar-se com ele na autodestruição e morte. Resta-nos agora o Kerouac, figura de proa da Contra-Cultura.


A Pulga, a minha querida livraria

Abriu recentemente na cidade do Porto a livraria vocacionada para literatura marginal “A Pulga, a Minha querida livraria», situada no Parque Itália, Rua Júlio Dinis, 752, 1º - loja 70.

Mais informações:
www.edicões-mortas.com

4.3.05

OGMs, nocivos para consumo interno nos USA, foram despachados para a Guatemala!

Trata-se de um assunto altamente embaraçoso para o governo americano, segundo informa a conhecida revista nova-iorquina Village Voice. O milho transgénico norte-americano de nome Starlink que não cumoria com as condições exigidas para ser comercializado no mercado interno norte-americana acabou estranhamente por ser encontrado nos stocks do Programa alimentar mundial (PAM) das Nações Unidas que estava destinado a seguir para a Guatemala. Imediatamente os activistas dos países latino-americanos acusaram os Estados Unidos de empurrar os produtos alimentares para os pobres da Guatemala, segundo a mesma revista.
O Starlink é um produto da sociedade Aventis CropScience. As sementes desta variedade de milho transgénico estão programadas para gerar os seus próprios pesticidas. Só que o único problema desta «pequena maravilha tecnocientífica» é que o Starlink é altamente prejudicial para a saúde humana. Provoca reacções alérgicas e crises de asma. Por essa razão é que, no mercado interno norte-americano, o referido OGM só se destina a animais e ao fabrico de etanol. O que nem sempre aconteceu, informa Village Voice: há 5 anos atrás, os hipermercados foram obrigados a retirar alguns produtos à venda por se terem encontrado vestígios do Starlink em mais de 300 produtos diferentes feitos à base deste cereal transgénico, o que provocaou prejuízos de vários milhões de dólares à Aventis CropScience.
Village voice informa também que não é a primeira vez que os Estados Unidos empurram para os países subdesenvolvidos produtos alimentares considerados impróprios para o seu mercado interno. Já em 2002 o tinham feito, mas dessa vez o destino desses bens no âmbito do PAM tinha sido para a Bolívia !!!

50 pequenas cidades do Estado de Vermont referendaram a favor da retirada das tropas americanas do Iraque

No âmbito de uma campanha contra a guerra e a ocupação do Iraque, pouco mais de 50 pequenas cidades do Estado norte-americano referendaram a favor da saída das tropas americanas daquele país, assim como por uma investigação sobre o uso e o envolvimento abusivo da Guarda Nacional de Vermont na guerra do Iraque às ordens do governo federal.
Os activistas anti-guerra esperam estender esta iniciativa a outros Estados. Recorde-se que em Novembro passado os eleitores de San Francisco já se tinham votado uma proposta no mesmo sentido e que visa exigir a retirada logo que possível das tropas norte-americanas do território iraquiano.



http://www.thenation.com/thebeat/index.mhtml?bid=1&pid=2234

http://www.mfso.org/

Que força é essa?

Autor, música e voz: Sérgio Godinho

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carrejar pedras, desperdiçar
Muita força pr’a pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pr’a pouco dinheiro

Que força é essa
Que força é essa
Que trazes nos braços
Que só te serve para obedecer
Que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
Que força é essa amigo
Que te põe de bem com outros
E de mal contigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compreendes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a crescer-te nos dedos
Não me digas que não me compreendes

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carrejar pedras, desperdiçar
Muita força pr’a pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pr’a pouco dinheiro





Louis Lecoin - Figura maior do pacifismo


Breve biografia de Louis Lecoin

Nascido no Cher, de uma família muito pobre, e de pais analfabetos, operário, jardineiro, empregado de construção civil, corrector de imprensa e, finalmente, jornalista, Louis Lecoin foi com toda a certeza uma das mais belas e impresssivas figuras da anarquia e do pacifismo da nossa época mais recente. Este homem combativo e generoso passou doze longos anos nas prisões francesas. Teve então ocasião de conhecê-las quase a todas: Dépôt, Santé, Clairvaux, Cherche-Midi, Poissy, Bicêtre, Albertville, e até vários campos de internamento. Em Monge, na região de Auvergne, no ano de 1918, até foi encarregado de partir pedra. Passou por todas as jurisdições : criminal, administrativa, militar, sem que jamais a sua consciência de homem livre e refractário se vergasse face ao poder. Em toda a sua vida nunca ele deixou de lutar contra a guerra e o espírito militar.
Quando jovem recruta, em Outubro de 1910, o seu Regimento foi enviado para reprimir a greve dos ferroviários. Lecoin recusa-se então a marchar contra os grevistas, o que lhe vale a sua primeira condenação. Seis meses de prisão. Desmobilizado em 1912, chega a Paris onde entra em contacto com os meios libertários. Torna-se secretário da Federação comunista anarquista desenvolvendo uma intensa actividade. Acusado de preparar a sabotagem da mobilização para a guerra, de incitação ao roubo, assassínio, pilhagem e associação de malfeitores ( esta última acusação será mais tarde retirada), não passou muito tempo para Lecoin ser preso e condenado a cinco anos de reclusão. À sua saída de prisão, a guerra ainda não terminara. Lecoin recusa-se por duas vezes o seu alistamento no exército. O que lhe valeu nova condenação. Pouco mais tarde, ele demonstrará toda a sua coragem e determinação por alturas de dois casos que tiveram grande impacte em França e no mundo.
Três anarquistas espanhóis, militantes da CNT; Ascaso, Durutti e Jover, tinham deixado Espanha para se refugiarem na Argentina. Daí tinham regressado a Paris com a intenção de prepararem um atentado contra o rei de Espanha Afonso XIII que acabara de anunciar uma visita oficial a França. Presos e inculpados por posse de armas proibidas, aqueles que em Espanha eram conhecidos pelos três mosqueteiros, arriscavam agora serem extraditados para o seu país, ao mesmo tempo que a Argentina também os reclamava acusando-os de assassinato. O ministro da justiça francês aprontava-se para os repatriar . Lecoin constituiu então em sua defesa um Comité do direito de asilo . Entretanto, a Liga dos direitos do homem foi também alertada. Édouard Herriot, encarregado do caso, conseguiu a prorrogação da extradição. “A justiça francesa derrotada por uma bando de ladrões” titulavam alguns jornais argentinos. Para evitar uma interpelação ao Parlamento, o governo Poincaré preferiu então libertar os três anarquistas espanhóis.
O outro grande combate conduzido por Lecoin - o movimento a favor de Sacco e Vanzetti – não conheceu infelizmente o mesmo desfecho: apesar de ter movido o céu e a terra, os dois italianos acabaram por ser executados em 23 de Agosto de 1927. Lecoin não podia deixar de passar esse momento para exprimir a sua mais profunda reprovação face ao acontecido.
Quinze dias depois da execução, A Legião Americana que reunia os antigos combatentes americanos da guerra de 14-18, realizava o seu primeiro congresso em Paris, no Trocadero. Lecoin decidiu fazer qualquer coisa a fim de despertar a opinião pública. Escutemo-lo a contar a sua intervenção:
“Era grande o meu desejo de denunciar esse falso ambiente de concórdia , de romper essa harmonia superficial, de lembrar aos congressistas o assassínio cometido no seu próprio país sem que eles tivessem feito coisa alguma.
Foi necessário enganar a vigilância dos polícias que me seguiam à perna já há algum tempo atrás e me espiavam durante a noite. Decidi sair antes do nascer do sol, saltando pela janela e enfiei-me numa rua paralela à minha.
Para entrar dentro da sala dos congressos tive de recorrer a alguns estratagemas. Cortei o bigode, coloquei uns óculos, cobri-me de condecorações e municiei-me com um convite oficial. A polícia observava a entrada. Oficiais da polícia fizeram-me uma saudação militar quando passei pela sua frente em direcção à sala principal.
Sem nada ter preparado encontrava-me no meio dos delegados do Massachusetts, província americana onde tinham morrido Sacco e Vanzetti. Mandei para trás das costas a ideia que a qualquer momento estes gorilas exercitarão a sua força muscular sobre as minhas costas.
O congresso vai começar. O presidente da Legião Americana prepara-se para falar...O silêncio é total...É então que eu me levanto e por três vezes grito com voz sonante: Viva Sacco e Vanzetti.
Estupor e incredulidade na tribuna oficial. Na sala, simplesmente curiosidade. Junto de mim os presentes não vacilam. Acabaram por me prender”

O prefeito da polícia local fica embaraçado. Como tratar com um recalcitrante desta espécie? Na expectativa do que decidirão sobre si, Lecoin é enviado para a Santé, onde irá fazer companhia a Doriot, Marty e Duclos. O juiz designado decide-se a acusá-lo por porte ilegal de uniforme e de condecorações. Mas Lecoin acaba por ser acusado de...apologia de homicídio! Porém, a pressão da opinião pública e a enormidade e ridículo duma tal acusação levou à libertação de Lecoin uma semana mais tarde.
Por ocasião da Guerra civil em Espanha, Lecoin formou o Comité pela Espanha Livre, mais tarde designado po Solidariedade Internacional antifascista (SAI). Em 1939, aquando da declaração de guerra, Lecoin com 51 anos já não podia ser mobilizável. Os seus amigos, em conjunto com ele, decidiram então preparar uma acção. Redigiram um panfleto, assinaram-no e imprimiram-no clandestinamente antes de distribuir os 100.000 exemplares pela população. Mais de trinta pessoas convidadas tinham aposto a sua assinatura No manifesto “Paix immédiate” entre os quais se contavam Alain, Marcel Déat, Henri Poulaille, Marceau Pivert, Henri Jeanson, Jean Giono. Infelizmente, alguns que assinaram o documento irão mais tarde dessolidarizarem-se com Lecoin de forma indigna.
Preso e encarcerado, Lecoin correu o risco de ser passado pelas armas tal era o desejo de èdouard Daladier. Com a derrota de 1940 os prisioneiros foram evacuados para diferentes campos e Lecoin deportado para a Argélia. Graciado pouco depois regressou a Paris a 3 de setembro de 1941.
Em 1948 aparece o primeiro número de Défense de l’Homme, revista que Lecoin decidiu criar. EM dezembro do mesmo ano, Lecoin publica aí um artigo intitulado “Amnistia para os nossos, amnistia para os deles, amnistia para todos”. Condenando os saneamentos selvagens do período pós-Libertação, assim como as perseguições que teimavam em continuar, o velho anarquista reivindica a libertação de todos os prisioneiros, inclusivamente os acusados de colaboracionismo. “ Jamais, dizia ele, me posso lançar sobre um homem ferido, sobre um homem dobrado por terra - se assim não fosse sentir-me-ia odioso”. O seu respeito pela vida e pela liberdade dos homens não tinha sentido único.
Contudo, o empreendimento mais extraordinário que este homem conseguia levar por diante, num esforço heróico, foi sem dúvida o Ter conseguido obter a elaboração e promulgação do estatuto de objectores de consciência.
Desamparado pela morte súbita da sua companheira, conhece o desespero. Por isso, e talvez “para se salvar a si mesmo” como confessou, Lecoin decide lançar-se numa campanha para o fim do encarceramento dos objectores de consciência. A defesa dos objectores começa no início de 1957. Mas a lei só será promulgada em 23 de Dezembro de 1963 após algumas peripécias dramáticas.
Quando o caso foi despoletado encontravam-se encarcerados 90 objecores. Os mais numerosos pertenciam às testemunhas de Jéhovah. Mas contavam-se entre eles dois ateus, dois católicos e dois protestantes. O alsaciano Edmond Scaguéné era o mais antigo com um total de nove anos de prisão.
Lecoin vendeu todos os seus bens para reunir o dinheiro necessário à fundação de um jornal. Recebeu uma ajuda financeira de alguns amigos, e alguns pintores ( entre os quais estavam Vlaminck, Bernard Buffet, Van Dongen, Atlan, Lorjou, Grau Sala, Kischka) presentearam-no com um quadro que ele leiloou. O semanário Liberté pode assim vir à luz do dia em 31 de Janeiro de 1958. O Comité de solidariedade aos objectores de consciência era composto das seguintes pessoas: André Breton, Ch.-Aug. Bontemps, Bernard Buffet, Albert Camus, Jean Cocteau, Jean Giono, Lanza del Vasto, Henri Monier, l’abbé Pierre, Paul Rassinier, o pastor Oser, Robert Treno. E como secretário geral: Louis Lecoin. Tendo como secretário adjunto, Pierre Martin. Todos os deputados receberam gratuitamente o Liberté, e uma maioria favorável ao estatuto legal dos objectores começou a esboçar-se no Parlamento.
Em 15 de setembro de 1958, o ministro do exército, antecipando uma eventual aprovação do estatuto, decide a libertação dos objectores que tenham cumprido cinco anos de prisão efectiva, dispensando-os do cumprimento do serviço militar. Nove objectores saíram em liberdade. Mas o assunto não estava ainda encerrado.
Louis Lecoin, Alexandre Croix e Albert Camus lançaram-se ao trabalho de elaborar um projecto de estatuto a fim de o apresentar ao governo. O projecto elaborado citava um texto de 1793, no qual o Comité de saúde pública – apesar de não ser fácil qualificar propriamente os Convencionais de pacifistas - reconhecia o direito à não-violência dos anabaptistas.
Contudo, a conjuntura política da época (guerra da Argélia, mal estar no exército) e uma surda oposição de certos políticos faziam emperrar as coisas. Cansado de falsas expectativas e de contínuos bloqueios, Louis Lecoin, com a idade de 74 anos, inicia uma greve de fome em 1 de Junho de 1962 depois de ter endereçado uma carta ao presidente da república.
Durante 22 dias o velho libertário recusar-se-á a alimentar-se enquanto não tivesse a certeza da entrega por parte do governo de um projecto de lei sobre os objectores. O seu estado de saúde degradou-se de tal forma que os seus amigos temeram pela sua vida e o próprio De Gaulle terá confiado aos seus próximos que não desejava ver morrer Lecoin.
Finalmente, no dia 23 de Junho, o pacifista, no limiar do estado de coma, é avisado que o governo vais entregar um projecto de lei, ansiosamente aguardado desde há 5 anos. O pequeno homem acabara de vencer o peso do poder e do militarismo. A História registará que um estatuto de objector de consciência foi estabelecido em pleno consulado do general De Gaulle. “Há generais muito particulares”, cantou o amigo Brassens.
Seguramente que o estatuto dos objectores, depois do crivo dos parlamentares, não correspondia aos desejos de Lecoin e dos pacifistas. As emendas introduzidas diminuiram consideravelmente o alcance inicial do projecto. Não obstante a vitória de Pirro, o certo é que de ora em diante o princípio era admitido, deixando-se de considerar os objectores como delinquentes.
Em 1964 formou-se um comité a fim de preparar uma sua candidatura ao Prémio Nobel da Paz, mas o velho anarquista decide retirar a proposta para não concorrer com o outro candidato, Martin Luther King. Lecoin não deixou de morrer a lutar. Um ano antes da sua morte, e como secretário do Comité para a Extinção das Guerras, ele dirigiu um telegrama de protesto ao Geberal Franco, por ocasião do processo de Burgos.
Excerto de Histoire de l’Anarchisme, de Jean Préposiet

3.3.05

Economia participativa e a gratuitidade

Campanhas pela gratuitidade dos transportes publicos, campanhas contra os cortes de electricidade por falta de pagamento da factura de electricidade, acções contra as taxas autárquicas de alojamento, ocupações de casas desabitadas, batalhas pelo acesso dos países mais pobres aos medicamentos que as respectivas populações mais carecem. Todas estas manifestações vieram reconduzir para o debate público o conceito de gratuitidade, tornado hoje um dos mais importantes cavalos de batalha dos movimentos anticapitalistas.

Sinal destes tempos foi o aparecimento em 1995 na editora Desclée de Brouwer do livro “Elogio da gratuitidade” do filósofo Jean-Louis Sagot Duvauroux, cuja obra está hoje livre de direitos de autor, razão pela qual pode ser encontrada gratuitamente na Internet.

O conceito de gratuitidade é importante para os anticapitalistas porque permite operar a ligação daquela com a propriedade e simultaneamente separar rendimento e trabalho. E não é por acaso que em Itália os “Invisíveis” (os antecessores dos Tute Bianche) tinham já multiplicado acções simbólicas neste campo - quer nos comboios e transportes públicos quer no Scala gratuito, em que o famoso templo de ópera abriu as suas portas numa noite de espectáculo aos desempregados e trabalhadores precários - defendendo então um rendimento socializado em que uma parte seria sob a forma monetária ( salário de existência) e a outra tomaria a forma de um acesso gratuito ao alojamento, à saúde, aos transportes, à electricidade, ao telefone, à formação permanente, à cultura e ao entretenimento.

Outra linha de investigação é realizada na América do Norte por iniciativa de uma equipe próxima de Noam Chomsky: Robin Hahnel, professor de economia da American University de Washington, em conjunto com Michael Albert, conhecido activista libertário, elaboraram um modelo económico a que chamaram Participatory Economics, ou também conhecido Parecon (Economia Participativa ou Ecopar) cujos propósitos, marcadamente influenciados pelo pensamento libertário, são extremamente ambiciosos “O Ecopar propõe um modelo económico em que são banidos quer o mercado quer a planificação central, bem como a hierarquia do trabalho e o lucro” esclarece Normam Baillargeon, professor na Universidade do Québec em Montreal que redigiu em 1999 um longo artigo sobre aquele modelo, na revista Agone.

Para Robin Hahnel e M. Albert o mercado está longe de ser uma “instituição socialmente neutra e eficiente”. Muito pelo contrário, dizem eles, a instituição mercado corrói a solidariedade, valoriza a competição, e não permite avaliar os custos e os benefícios sociais das escolhas individuais, além de pressupor a hierarquia no trabalho e a distribuição de forma muito imperfeita dos recursos disponíveis.

O Modelo Ecopar baseia-se na apropriação pública dos meios de produção, e num processo de planificação descentralizado e participativo protagonizado por conselhos de produtores e de consumidores.

(tradução de um texto publicado na edição do Le Monde de 21/01/2003)

Aquilo que eles chamam «progresso»…!!!

Envenenada está a Terra que nos desterra
Em que o ar foi substituído pelo desaire
A chuva, pela chuva ácida
Os parques são agora chamados de parkings
E as sociedades são esquecidas a favor das sociedades anónimas
As empresas substituem as nações
Os consumidores falam mais alto que os cidadãos
As aglomerações escondem as cidades
E já não há pessoas, mas públicos.
A realidade é trocada pela publicidade
E as visões foram há muito ocupadas pelas televisões
E no êxtase deste estranho «progresso» civilizacional
Para elogiar uma flor passou a ser costume dizer-se: «parece de plástico»...!!!


Os povos indígenas são os guardiães de Gaia

Costuma-se distinguir entre povos indígenas e povos tecnológicos.

Os povos tecnológicos possuem o conceito de propriedade privada como valor básico e nela incluem recursos, terras, mercadorias, etc.. A produção de bens é destinada para o mercado e venda, e não para o consumo pessoal. Registam-se produção de excedentes. A motivação principal e o lucro. Elaboram-se técnicas especiais para criar artificialmente as «necessidades»: são as técnicas de vendas e a publicidade. Torna-se imperativo o crescimento económico e maior produção que obriga ao uso crescente de recursos e à expansão de mercados.. Instala-se o sistema monetário que faz da moeda um valor abstracto. Existe ainda a concorrência e a competição para obter e conquistar lucros cada vez maiores. A remuneração salarial é feita segundo o trabalho. O horário de trabalho médio é de 8-12 horas. A Natureza é vista como um«recurso»

Os povos indígenas desconhecem a propriedade privada de recursos como a terra, a água, os minerais ou a vida vegetal. Desconhecem ainda a ideia da venda de terrenos ou da herança patrimonial. A produção limita-se aos bens necessários. Os objectivos da produção visam a subsistência e não existe a motivação para obter o lucro, nem se regista grande produção de excedentes. A economia é estável: não existe a noção de crescimento económico. O sistema de trocas baseia-se em valores concretos. A produção é colectiva e cooperativa. O horário de trabalho médio é de 3-5 horas. A Natureza é encarada como um «ser», e os indivíduos humanos fazem parte integrante da Natureza

Na Europa, mais propriamente na Escandinávia e na Rússia, vivem mais de um milhão de indígenas. O exemplo mais conhecido é povo saami (85.000 pessoas) que habitam em áreas da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Mas a maioria dos indígenas encontram-se nos outros continentes. Existem variadas ONGs que estudam e defendem os povos indígenas. De entre as mais conhecidas destaca-se a Survival Internacional
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