17.6.07

Como fazer uma escola ecológica


Para quando uma verdadeira formação ecológica dos estudantes nas escolas portuguesas, que ponha em causa o actual modelo de desenvolvimento insustentável da economia virado para a maximização do lucro e com sacrifício dos bens ambientais e dos valores humanistas de solidariedade e cooperação?

A edição do mês de Junho do Le Monde de l’Éducation contém um dossier sobre a escola ecológica, ou mais propriamente sobre como fazer dos estabelecimentos de ensino verdadeiras escolas ecológicas. Desde os projectos pedagógicas às cantinas bio, passando pelos materiais utilizados nos edifícios e pelas fontes próprias de energias alternativas da própria escola a serem aproveitadas, o dossier constitui um bom repositório de ideias e sugestões de carácter ecológico com vista à formação de futuros eco-cidadãos.


Inclui ainda uma entrevista com Roger Guesnerie, professor no Collège de France, que não hesita, a propósito dos riscos das alterações climáticas, em afirmar que «o clima é o arquétipo de um bem colectivo mundial», cuja defesa caberá, obviamente, a toda a Humanidade.
Do conteúdo da edição deste mês da revista fazem parte outros interessantes artigos, nomeadamente um sobre as escolas criadas pelo Movimento dos Sem-Terra no Brasil, escolas a pensar na especificidade do mundo rural onde vivem os jovens e que, a pensar nisso, desenvolveram os seus próprios currículos inspirados nas pedagogias activas e nos princípios humanistas da solidariedade, da transformação social, da abertura ao mundo, da cooperação e da emancipação dos indivíduos.

Outro texto fala do professores de direita, tradicionalmente muito minoritários no meio docente, mas que por circunstâncias várias têm vindo a aumentar, tentando o articulista fazer um retrato geral da personalidade daqueles professores que, ao arrepio de toda a tradição da escola republicana, votam em candidatos de direita !


Consular:

http://www.lemonde.fr/mde/index.html

NOTA: a partir de hoje passo a colaborar com o
blogue A Sinistra Ministra, onde colocarei também os posts relacionados com a temática da educação.

«People have the power» por Patti Smith


People Have the Power

I was dreaming in my dreaming
of an aspect bright and fair
and my sleeping it was broken
but my dream it lingered near
in the form of shining valleys
where the pure air recognized
and my senses newly opened
I awakened to the cry
that the people / have the power
to redeem / the work of fools
upon the meek / the graces shower
it’s decreed / the people rule

The people have the power
The people have the power
The people have the power
The people have the power

Vengeful aspects became suspect
and bending low as if to hear
and the armies ceased advancing
because the people had their ear
and the shepherds and the soldiers
lay beneath the stars
exchanging visions
and laying arms
to waste / in the dust
in the form of / shining valleys
where the pure air / recognized
and my senses / newly opened
I awakened / to the cry

Refrain

Where there were deserts
I saw fountains
like cream the waters rise
and we strolled there together
with none to laugh or criticize
and the leopard
and the lamb
lay together truly bound
I was hoping in my hoping
to recall what I had found
I was dreaming in my dreaming
god knows / a purer view
as I surrender to my sleeping
I commit my dream to you

Refrain

The power to dream / to rule
to wrestle the world from fools
it’s decreed the people rule
it’s decreed the people rule
LISTEN
I believe everything we dream
can come to pass through our union
we can turn the world around
we can turn the earth’s revolution
we have the power
People have the power ...





16.6.07

Ulisses de James Joyce


Há livros assim. A partir deles, da sua chegada, nada do que havia sido se mantém, nada do que acontece depois poderá permanecer indemne à angústia da influência.

Joyce é um ponto nodal da literatura de sempre. Com Shakespeare, o inventor do humano, e com Baudelaire, o mittelpunkt da literatura moderna, Joyce habita uma cidade inexpugnável à qual é necessário aceder.

Com o texto joyceano, de nome Ulisses, o escritor irlandês instaurou a guerra das palavras provando que, através da sua digladiação deifica e do seu carácter redentor, pôde escrever o mundo e ocupar um espaço antes sitiado. A edificação de um marco como este é a verificação de uma força hercúlea que a todos atinge e transforma, reganhando um locus que afecta em catadupa escritores de todas as épocas, repulsando uns para as margens e convocando outros para o centro.
Qualquer texto se transfigura na cidade que a leitura quer habitar. O leitor toca o criador e a criação. Todos se agitam. O leitor-intérprete, num frémito sem sono, derruba a muralha e funde-se no dentro-fora do texto do autor-intérprete. Assim se mostra o criador, sem se dar. Aí começa a empresa do leitor, insónia activa pela vida do texto dentro de si. Joyce afirmará algo de semelhante a propósito dos seus livros, escritos a pensar no «leitor ideal que deverá possuir a insónia ideal».

James Augustine Joyce nasceu a 2 de Fevereiro de 1882, em Rathgar, nos subúrbios de Dublin. Seis anos volvidos, ingressa no Colégio dos Jesuítas de Clongowes. Pouco tempo depois, na mesma altura em que, por razões económicas foi obrigado a mudar-se para uma escola mais barata e protestante, descobrem-se-lhe os primeiros tentames literários. Em 1893, inscreveu-se, gratuitamente, no Colégio Jesuíta de Belvedere sendo, em 1898, admitido na University College, instituição católica da universidade de Dublin. Fascinado por Ibsen, publicou aos 18 anos um artigo dedicado ao escritor norueguês com quem, aliás, entabulará correspondência. Em 1902 viaja até Londres e Paris, iniciando, no ano seguinte, o também cultuado Gente de Dublin. Em 1904, publica diversas composições poéticas em revistas e viaja com Nora Barnacle por Zurique e Pola. Em 1905 dá início à sua carreira docente na Berlitz School de Pola, de onde transitou para a homónima da Trieste, surgindo-lhe, enquanto trabalhava uns meses em Roma, as primeiras ideias para o Retrato de Artista quando Jovem e o Ulisses. No ano de 1907, publica Música de Câmara, saindo a lume, volvido quase lustro e meio, Gente de Dublin (1914). Em 1916 deu-se à estampa Retrato de Artista e, em 1918, Exílios. Instala-se em Paris em 1920. O espírito odisseico do escritor irlandês em breve chegaria ao fim dessa incomparável viagem iniciada, ainda seminalmente, no já longínquo ano de 1906 e com data de arrancada por 1914. Joyce conclui Ulisses em 1921, publicando-o na não despicienda data de 2 de Fevereiro de 1922. Afinal, nesse monumento perene estava a sua vida. O tempo vai poendo. Joyce regressa à poesia com Pomes Penyeach (1927) e com Collected Poems (1936). A par dessa incursão lírica, vai publicando fragmentos da sua «work in progress» Finnegans Wake que verá a luz do dia no dealbar da Segunda Grande Guerra . Dois anos depois, em 1941, com inconclusos 62 anos de idade, Joyce abandonou o corpo e subiu ao Olimpo.

Joyce era um obcecado por datas , comemorações e coincidências. Todos os anos, a cada 16 de Junho que passava, colocava a si próprio a mesma questão: «será que alguém se lembrará deste dia?». Ao que parece, a efeméride irá ser comemorada por mais 300 anos, pelo menos, os mesmos que Joyce gostaria que durassem todos os enigmas de Ulisses e Finnegans Wake.
Mas o que acontece a 16 de Junho para que James Joyce seja recordado para sempre? Destacamos o "Bloomsday", o dia em que se desenrola a história de Leopold Bloom, de Stephen Dedalus e de Molly Bloom, os personagens principais do livro que foi criado para destruir todos os livros, o livro que todos querem ler mas não conseguem, o livro impossível de ser compreendido - Ulisses. Claro que também havia um motivo pessoal para Joyce escolher essa data. Por baixo da arquitectura detalhista, do rigor quase maníaco, do virtuosismo estilístico, da ambição do projecto, Ulisses é, na verdade, uma carta de amor a Nora Barnacle. E como bom irlandês, temperou o seu amor com um pouco de traição, muita cerveja espumosa e, principalmente, muita audácia pela única coisa que dava sentido à sua própria trajectória pessoal tumultuada: a literatura. Data indefectível na mitologia joyceana, o dia 16 de Junho de 1904 é, na vida real-real, o dia em que Nora Barnacle, a mulher que viria a acompanhar Joyce para todo o sempre, fez do jovem Augustine, de 22 anos, «um homem de verdade», segundo o testemunho das suas cartas intensamente melodramáticas, algo estranho para alguém que possuía uma visão do mundo bem grotesca e bem ao gosto dos irlandeses, carregada de humor esdrúxulo e de um profundo carinho pelo ser humano. Mas, ser melodramático também fazia parte da personalidade complicada de Joyce, quase no limite da esquizofrenia, e que conseguiu ficar una graças à palavra que o guiava nos subterrâneos da psique universal. Assim, ao escrever o grande romance sobre a totalidade da vida nada mais natural que situar os seus três personagens - Ulisses, Telémaco e Penélope da era moderna - em busca de uma razão para viver, senão no dia em que o seu criador encontrou a sua própria razão para viver. O antigo herói grego é agora transformado num homem comum e as lutas épicas passam a pequenos desafios diários. Joyce acreditava que era dever do artista representar todos as situações da vida o mais honestamente possível, em especial, aquelas que não eram discutidas em público, tais como o comportamento sexual, funções do corpo e controvérsias religiosas. Em Ulisses, 24 horas são comprimidas em 1000 páginas de monólogos interiores, blasfémias, momentos sublimes ("epifanias"), reflexões sobre a morte, bêbados, poetas, jornalistas, prostitutas diabólicas, ateus santos, passado, presente e futuro tornando-se uma grande síntese na mente de um escritor que conseguiu retratar a sua cidade natal com tamanha exactidão, que ela poderia ser novamente reconstruída através dos seus livros, caso fosse consumida num incêndio.
Ulisses, 1906 - 1914 - 1922. A ideia, a palavra de Trieste e o seu corpo. No real-ficcional o dia 16 de Junho ficaria gravado no Ulisses, associando-se-lhe, para todo o sempre, o "Bloomsday" e o "doomsday", libação celebrativa do valor da refundação linguística operada pelo escritor irlandês.

Joyce escrevia devagar e meticulosamente. Modificava passos e adicionava novo material aos rascunhos à medida que os ia revendo. Onde quer que fosse, levava consigo pequenos livros de apontamentos para anotar, de imediato, uma palavra ou uma frase que tivesse chamado a sua atenção ou de que gostasse. A enorme quantidade de detalhes que adicionou às suas histórias é uma das razões pelas quais elas são tão desafiantes e satisfatórias de ler.
Acusado por muitos de ser um herege por causa da sua recusa em viver de acordo com os preceitos da Igreja Católica, na qual foi educado, a sua aparente heresia constituía, na verdade, um murro na fachada obsoleta das instituições, a única forma de rebelião possível numa Irlanda aprisionada culturalmente e politicamente pela bota inglesa, um país traumatizado pela traição de Charles Parnell, pelas guerrilhas de Michael Collins e por um tal de Renascimento Cultural Irlandês que nunca interessou às ambições do jovem Joyce. Orgulhoso da sua nacionalidade e desejando ver o país independente, era céptico, contudo, em relação ao modo como os movimentos políticos normalmente acabam por limitar as liberdades individuais. Vestindo as "asas" de Dédalo, o grande artífice-arquitecto grego, Joyce voará alto por sobre todas as restrições castradoras que impõem um enclausuramento no pesadelo que é a história da Irlanda. Defendendo a paixão individual como o poder motivador para tudo, arte e filosofia incluídas, e adoptando o credo «non servian» por forma a alcançar uma liberdade incondicional, transformar-se-á num potencial autor de uma epopeia nacional irlandesa. Na doutrina cristã, o único ser "não-criado" é Deus. Na perspectiva teológica de Joyce, é a consciência rácica que ainda urge criar e será ele o seu profeta, ou talvez o seu redentor. Assim como Cristo na cruz simboliza a humanidade, Joyce surgirá, à sua imagem e semelhança, como baluarte de uma identidade nacional una. Será, no fundo, através da sua escrita e da literatura enquanto missão, que irá oferecer a sua própria alma, em sacrifício, à Irlanda e «forjar a consciência incriada da minha raça» (Retrato de Artista).

É justo que Ulisses, a história de um dia na vida de Dublin de há cem anos atrás, seja celebrado em todo o mundo, no dia 16 de Junho, o Bloomsday - talvez a única festividade internacional dedicada a uma obra de arte. Através das personagens e lugares que descreveu, Joyce mostrou a Dublin de 1904 ao mundo; e pelas suas inovações literárias mostrou que a Irlanda, apesar da sua imagem tradicional, é um caso exemplar do mundo moderno.

A influência anarquista no pensamento político de Joyce


Um texto em língua francesa da autoria de Romain Henry sobre as referências anarquistas no pensamento político de James Joyce, um tema apaixonante e objecto de intermináveis debates.

Consultar o sumário do texto, a aguardar publicação, e o seu conteúdo no site indicado no fim.


La pensée politique de James Joyce est un sujet d'études passionnant qui a donné lieu à de nombreuses publications en langue anglaise. Le problème pour le lecteur français demeure cependant l'inaccessibilité de ces sources, quand bien même il parlerait suffisamment bien l'anglais pour en comprendre les enjeux. En effet, les livres les plus sérieux sur ce sujet ont été l'objet de faibles tirages, souvent chers, et ils sont maintenant épuisés.
A ce manque fondamental s'ajoute celui de l'inexistence de critiques joyciennes en traduction et la rareté des sources francophones disponibles.
Il y avait donc un vide bibliographique évident, que j'ai tenté en partie de combler, par des recherches en France, à l'Université d'Ulster à Coleraine (où je suis resté une année) et à la National Library de Kildare Street à Dublin.
Ce texte, écrit à mon retour, est mon mémoire de fin d'études a l'IEP d'Aix-en-Provence et il a été présenté au jury en mars 1999.
Mon directeur de recherche, M. Patrick Hutchinson, l'a ensuite soumis a un éditeur, qui l'a accepté. J'ai donc eu la chance, a 21 ans, de signer un premier contrat de publication et le livre devait sortir en octobre 2000.
Cependant, les difficultés rencontrés par l'éditeur (Sulliver) n'ont pas permis la concrétisation de ce projet.
Dans ces conditions, j'ai pensé qu'il était important néanmoins que ce texte rencontre le public nombreux qui s'intéresse à l'auteur irlandais.
Je mets donc ce texte gratuitement à la disposition des internautes en format pdf (Il faut avoir un version récente d'Adobe Acrobat Reader pour le lire).
Il va sans dire qu'aucun droit d'auteur n'est demandé, mais j'aimerais si possible être cité quand on fera usage de mon texte.
D'ailleurs, celui-ci est conservé par l'université d'Aix-Marseille III depuis 1999 et ma propriété intellectuelle est donc garantie contre toute utilisation abusive.
Bonne lecture !

Romain Henry
Lire 'la pensée politique de James Joyce'




Résumé


Introduction Joyce un écrivain politique ?
Chapitre 1 Une incompréhension durable
Chapitre 2 Les déterminations socio-économiques de la pensée joycienne
Chapitre 3 L'anarchisme de Joyce et ses conséquences
Chapitre 4 Cinq positionnements philosophiques
Chapitre 5 Le statut ambigu de la femme
Chapitre 6 Réflexions sur le choix des héros
Conclusion Le projet personnel d'une Irlande moderne
Annexes
Eléments biographiques, bibliographiques et index nominum



Consultar:
http://perso.club-internet.fr/mehenry/joyce/memoire.htm

Hoje acontece mais um Bloomsday




Bloomsday é o dia em que se recorda a vida e a obra do escritor irlandês James Joyce. Todos os anos no dia 16 de Junho organizam-se múltiplos eventos, especialmente em Dublin ( mas não só) , como leituras públicas, perfomances, pequenos-almoços, passeios, conferências, visitas e lançamentos de livros, para divulgar o escritor que é considerado por muitos o maior expoente dos tempos modernos.


O cosmopolitismo crítico de Joyce contra o nacionalismo dos conservadores e tradicionalistas


O dia 16 de Junho de 1904 é simbolicamente o dia em que decorre a Odisseia modernista do dia-a-dia de Leopold Bloom, um ordinário e anónimo cidadão da civilização urbana e industrial do século XX.
É desse dia e dessa banal odisseia modernista que fala a obra maior da literatura mundial do século XX que é o Ulisses de James Joyce.
Curiosamente é nesse dia que Joyce encontra Nora , sua futura mulher, num mal afamado bar da sua Dublin natal, cidade que ele não perde oportunidade de lançar o seu fel ao longo de toda a sua vida.
O casal Joyce tornou-se num mito dos tempos modernos, e Joyce é justamente considerado o maior escritor da modernidade.
Ao atingir os 103 anos a odisseia literária da banalidade civilizacional da nossa época costuma ser devidamente recordada um pouco por todo o mundo, em especial na cidade de Dublin que serve de cenário ao enredo das misérias do homem moderno.

Iniciativas ao longo desta semana no Centro Joyce (em Dublin)
www.jamesjoyce.ie/detail.asp?ID=81

Programa para este ano (2007)
www.jamesjoyce.ie/docs/BLOOMSDAY_IN_DUBLIN_2007.pdf

Para mais informações sobre o Bloomsday e a vida e obra de Joyce:
www.jamesjoyce.ie/


Outros websistes a consultar:

The James Joyce Bibliography Online
www.jjoycebiblio.org/

James Joyce Society, New York:

James Joyce Annual

15.6.07

Filme em cartaz no cinema Águia D'Ouro

O filme actualmente em cartaz no cinema Águia D'Ouro, condiz plenamente com o estado de total abandono em que se encontra o velho edifício em ruínas... mas também a acção cultural na cidade do Porto, muito especialmene a que diz respeito à autarquia portuense:

«NOITE NA TERRA »

O filme que se segue:

«E tudo o Rio levou!»

(nota: clicar em cima da fotografia para melhor apreciar os pormenores do filme em cartaz)

Súplica de uma criança aos seus educadores (Jacques Salomé)

Aprendei em nós o entusiasmo
Ensinai-nos o espanto da descoberta,
Não deis apenas as vossas respostas
Sonhai com as nossas questões
E sobretudo acolhei as nossas interrogações.
Chamai-nos a respeitar a vida,
A trocar, partilhar e dialogar.
Ensinai-nos as possibilidades de pôr em comum
Não nos dêem só o vosso saber.
Nunca esqueceis a nossa fome de ser
Aceitai as nossas contradições e hesitações.
Deixai-nos crescer
Aprendei o que há de melhor em nós
Ensinai-nos a olhar, a explorar, a tocar o indizível
Não nos dêem só o vosso saber
Despertai em nós o gosto do envolvimento activo
Aceitai a nossa criativadade para construir o futuro
Peçam-nos para enriquecer a vida
Aprendei a reencontrar o mundo
Ensinai-nos a compreender o mundo para lá das aparências
Não nos tragam somente a coerência e pedaços de verdades
Mas despertai em nós gozo da procura de sentidos
Aceitai as nossas errâncias e inabilidades
Chamai-nos para entrar numa vida mais ardente

Há uma vital urgência em tudo isso

No original:


Supplique d’un enfant à ses enseignants.

Apprenez-nous l'enthousiasme.
Enseignez-nous l'étonnement de découvrir.
N'apportez pas seulement vos réponses.
Réveillez nos questions.
Accueillez surtout nos interrogations.
Appelez nous à respecter la vie.
Apprenez-nous à échanger, à partager, à dialoguer.
Enseignez-nous les possibles de la mise en commun.
N'apportez pas seulement votre savoir.
Réveillez notre faim d'être.
Accueillez nos contradictions et nos tâtonnements.
Appelez nous à grandir à la vie.
Apprenez-nous le meilleur de nous-mêmes.
Enseignez-nous à regarder, à explorer, à toucher l'indicible.
N'apportez pas seulement votre savoir faire.
Réveillez en nous le goût de l'engagement.
Accueillez notre créativité pour baliser un devenir.
Appelez nous à enrichir la vie.
Apprenez-nous la rencontre avec le monde.
Enseignez nous à entendre au-delà des apparences.
N'apportez pas seulement de la cohérence et des bribes de vérités,
éveillez en nous la quête du sens.
Accueillez nos errances et nos maladresses.
Appelez-nous à entrer dans une vie plus ardente.

Il y a une urgence vitale.

Jacques Salomé "car nous venons tous du pays de notre enfance."

Ver:
http://www.j-salome.com/01-info/accueil.php

O Sr Rogério, que tocava acordeão nas ruas dos Porto, deixou-nos mais sós

Só agora soube do seu recente falecimento. Mas o Sr Rogério era uma presença diária nas ruas do Porto. Todos os dias lá estava ele na esquina da Rua José Falcão com a Ricardo Jorge a tocar música com o seu acordeão e a dar vida ao ambiente cinzento da cidade. Acompanhou-me ao longo de muitos anos pois cresci ali perto e, quando saía de casa, não poucas vezes cruzava-me com ele e a sua presença animava aquele recanto de ruas.
Apesar de tarde, um bem haja ao humanismo que deu mostras e que me marcou ao longo dos anos.

Os novos dez mandamentos

por Jurandir Freire Costa - Psicanalista, professor do Instituto de Medicina Social da UERJ, em texto publicado no caderno Mais da Folha de São de S.Paulo de 26 Dez. de 1999

1. Amarás o universo, a natureza e a vida sobre todas as coisas.
(Francisco de Assis)

2. Amarás a ti mesmo com o esquecimento e o mundo com a lembrança. (Buda, Hannah Arendt)

3. Darás sempre início ao novo, pois os humanos, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para recomeçar. (Agostinho de Hipona, Hannah Arendt)

4. Não forjarás ideais contrários à vida e à alegria de viver.
(Séneca, Lucrécio, Nietzsche)

5. Não te torturarás com o passado e com o futuro para não sofreres em vão. (Buda, Séneca, Nietzsche)

6. Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente. (Séneca)

7. Não dirás que tua vida é ou foi frustrada; vida alguma jamais se frustra. (Séneca, Nietzsche, Henry James)

8. Não obedecerás sem pensar no que te leva a obedecer.
(Hannah Arendt, Winnicott)

9. Não dirás que tua verdade é a única, e sim aquela em que mais acreditas. (William James)

10. Não eternizarás esse decálogo. (todas as vítimas da intolerância)



Agora comparem este novos mandamentos com os velhos mandamentos bíblicos e vejam qual dos dois decálogos é o melhor.


Recorde-se que os «Dez Mandamentos» é o nome dado aos 10 mandamentos ou ordens que, segundo a Bíblia, teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. As tábuas de pedra originais foram quebradas, de modo que foram feitas cópia. Encontramos primeiramente os Dez Mandamentos em Êxodo 20:2-17. É repetido novamente em Deuteronómio 5:6-21, usando palavras similares.
Decálogo significa dez palavras (Ex 34,28). Estas palavras resumem a Lei, dada por Deus ao povo de Israel, no contexto da Aliança, por meio de Moisés. Este, ao apresentar os mandamentos do amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traça, para o povo eleito e para cada um em particular, o caminho duma vida liberta da escravidão do pecado.




Os Dez Mandamentos para o catecismo católico ( A Igreja reconhece ao Decálogo uma importância e um significado basilares. Os cristãos estão obrigados a observá-lo) :
1. Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas.
2. Não invocar o Seu santo nome em vão.
3. Guardar os domingos e festas.
4. Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
5. Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo).
6. Não pecar contra a castidade (em palavras ou em obras).
7. Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
8. Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo)
9. Não desejar a mulher do próximo.
10. Não cobiçar as coisas alheias.





Entrevista com Jurandir Freire Costa retirada
daqui


A violência é resultado da desigualdade
(Para o psicanalista a responsabilidade é dos poderosos )

É devastadora a análise que o psicanalista Jurandir Freire Costa faz da elite brasileira em seu décimo livro, O vestígio e a aura, recém-lançado pela editora Garamond. Sobre os ombros dos poderosos pesa, no seu entender, a responsabilidade pelas principais mazelas sociais que atormentam o País, em especial a altíssima criminalidade. Não seria apenas a cruel concentração de renda que gera o crime, como se repete à exaustão, mas também a adoção de um comportamento em que “sociabilidade e moralidade se tornaram adversárias”. Jurandir, 60 anos, não usa meias-palavras. “Destravamos o freio de uma engrenagem alucinada, que tripudia sobre séculos de ideais democráticos e humanitários, só porque alguns decidiram fazer de seus prazeres o umbigo do mundo”, escreve. Essa subordinação à moral do entretenimento levou a elite a descartar valores tradicionais, a cultivar a obsessão com o corpo, a consumir drogas sem limites.
A crise moral fez com que a autoridade fosse substituída pela celebridade. Nas telas de tevê ou nas colunas sociais desfilam personagens que são vistos com inveja, mas não com respeito, já que muitas vezes são considerados venais, levianos e corruptos. Nem a autoridade dos pais se manteve, já que estes se recusam a ser vistos como portadores de tradições. Querem ser juvenis a todo custo e ocupar o mesmo espaço dos filhos, que acabam por perder referências fundamentais.
Um dos principais pensadores brasileiros da atualidade, Jurandir diz que sua crítica não tem nada a ver com as idéias moralistas de quem quer o retorno a um passado repressor. Defende a busca do prazer, desde que isso não represente a ruptura do compromisso social. Mas afirma que a crise moral pode ser superada. “Quando fazemos a boa pergunta acabamos encontrando a solução.”

ISTOÉ – A alta criminalidade é o maior sintoma da crise moral que o sr. trata
em seu livro?
Jurandir Freire Costa – Sem dúvida, sobretudo nas grandes cidades. A violência é resultado da desigualdade. Mas não existe fator pessoal nem social que tenha causa única. Desigualdade e concentração de renda sempre existiram neste país. Só posso entender que está ocorrendo algo de ordem moral que faz com que as pessoas não se submetam mais, não se organizem politicamente em
torno de utopias, não pensem em encontrar outra saída a não ser a violência.
E quem dá as regras da insubordinação violenta são as próprias elites. Isso choca. É diferente dos tempos da aristocracia, quando a plebe jogava pedras contra o poder, e do operariado do século XIX, começo do XX, que tinha as idéias socialistas e ia contra o molde de vida dos privilegiados.


ISTOÉ – É o consumo de drogas que faz a elite ficar “de joelhos” diante dos miseráveis, como o sr. escreve?
Jurandir – É uma relação que vira a cultura de cabeça para baixo. Antes, quem tinha autoridade e poder não pedia a outro um meio que o tornasse feliz, como acontece agora. É uma ruptura completa. Os líderes políticos, espirituais, científicos eram fontes autônomas de satisfação. Eles detinham a chave do que as pessoas queriam. Não se pode inverter essa relação e achar que a cultura ficará em ordem. Quem sabe que monopoliza sua felicidade dá as cartas e não o respeita. Chega ao ponto de não respeitar a vida. Nos assaltos em que as pessoas são mortas, nota-se que a vida do outro é irrelevante. Que valor aquela pessoa tem para quem está com a arma na mão, a não ser o dinheiro? Nenhum. É vista como integrante de uma elite que não se respeita, que diz o tempo todo que depende daquele miserável. É encarada como alguém que vive da superexploração dos miseráveis. Essa distorção não começou com o miserável que porta a arma, mas sim com a elite que deu a norma da destruição. Não há um grupo para orientar a sociedade, buscar uma trégua. O grupo dos miseráveis e o grupo da elite querem a mesma coisa. Os dois buscam ser irresponsáveis diante da vida, gozar o quanto puderem. Não têm compromisso com os filhos e ironizam todo tipo de preocupação com o outro. Não existe guerra civil, mas acordo de matança mútua.


ISTOÉ – A elite não tem mais autoridade?
Jurandir – Poder sem autoridade é uma coisa nova na nossa cultura. Quem está embaixo não respeita mais quem está em cima e não é somente pelo consumo de drogas. Antes, a autoridade vinha de pessoas ou instituições com poder político, econômico ou social que se conduziam de forma a merecer o respeito e a admiração. Hoje, quem está no topo do poder não tem mais a admiração moral. Acredita-se que essas pessoas estão lá porque são levianas, venais, em alguns casos corruptas. É a fratura entre a base da ascensão social e a base de valores. Essas figuras inspiram ao mesmo tempo inveja e desprezo. Inveja pelas posses materiais e pelo poder social. Desprezo porque todos sabem que aquelas pessoas não têm mérito. Para chegar até lá, sobem de qualquer jeito. A cultura do espetáculo pede a exposição: aparecer independentemente do talento, do esforço e da disciplina.


ISTOÉ – O que a cultura do bem-estar, do culto ao corpo, tem a ver com essa situação?
Jurandir – Para o grupo formador de opinião, mudou o ideal de felicidade, que hoje é o bem-estar corporal, o prazer físico. Além desse ideal de felicidade sensorial, há uma idéia da vida como entretenimento. Ou seja, a pessoa deixa de pensar nas consequências morais do que faz. Quem compra droga simplesmente desliga o botão que avisa qual será a consequência disso. Parece que tudo é uma brincadeira. Multidões de pessoas que deveriam ter responsabilidade agem dessa forma. Na moral do espetáculo, o outro é sempre o responsável pelas mazelas e não eu. Eu estou corrompendo, sou venal, sou leviano, mas o que eu faço não tem nenhuma consequência. O que o vizinho faz com certeza terá. É uma posição típica dessa falta de compromisso.


ISTOÉ – A busca do prazer não é um direito inalienável?
Jurandir – Prazer não é incompatível com compromisso social. Ninguém aceita a visão moralista de condenação do prazer. Com razão. Mas o prazer da droga, que as pessoas estão se matando para ter, é pífio. O prazer físico torna a pessoa dependente do aqui e do agora porque o corpo só é estimulado por algo presente. Cria-se uma servidão diante do objeto que contrasta com o desejo de autonomia. É um prazer ilusório. Quem diz que é bom é a moral do espetáculo. O viciado em cocaína, por exemplo, passa a não sentir prazer com mais nada. Vive da angústia da próxima dose. Já o usuário social, ao colaborar com o comércio ilegal de drogas e com a marginalidade urbana, paga um preço muito caro: está se restringindo. Não pode andar com liberdade. Nem seu filho. Tem de gastar mais com mecanismos que segurem sua vida ou sua propriedade. Passa a viver numa sociedade sitiada, situação que o dinheiro dele financia.


ISTOÉ – A descriminalização das drogas resolveria esse problema?
Jurandir – Ela pode acarretar dois tipos de consequências. Primeiro, as pessoas começariam a usar socialmente e só alguns se tornariam adictos, como acontece com o álcool. Na segunda possibilidade, devemos levar em conta que a sociedade em que vivemos tende a consumir tudo de forma compulsiva. Nesse caso, correríamos o risco de uma catástrofe, como aconteceu com o consumo de ópio na China. É uma grande discussão e deve ser levada à frente.


ISTOÉ – Como a mídia colabora para a crise moral?
Jurandir – Um dos mecanismos é o tom de isenção com que tudo isso é apresentado. De um lado faz a campanha antidrogas e de outro apresenta um artista que faz propaganda de drogas. Tudo é igual. Há também o mecanismo de informação, que é servida às enxurradas. Isso prejudica o tempo de formação de convicção que a cultura do livro permitia. A mídia vive de moda e é importante que você não tenha convicção para que seja possível mudar a moda de hoje para amanhã. Sobretudo na cabeça das crianças e dos adolescentes. É desalentador. Se troco todos os dias de valor, não posso ter responsabilidade.


ISTOÉ – A psicanálise, principalmente nos anos 70, teve também responsabilidade nisso, ao incentivar uma certa irresponsabilidade? Costumava-se dizer: não se culpe. A religião já lhe culpou tanto...
Jurandir – Com certeza. Foi um componente a mais a maneira como ela foi apresentada culturalmente, como foi apropriada. Parecia que era somente incentivar a pessoa a encontrar o próprio desejo e o próprio prazer. Um pouco de “irresponsabilização”, a pretexto de que as pessoas já tinham sido muito culpadas. Isso é tudo uma tolice. Não tem nada a ver com o que Freud pensava. Ele nunca imaginou a vida como uma Disneylândia. As noções fundamentais dele são as que dizem que nada existe de mais importante do que a responsabilidade do sujeito para consigo e para com o outro.

ISTOÉ – Qual seria a conduta desejáveldas instituições e das pessoas que detêm a autoridade?
Jurandir – Primeiro, deve haver respeito ao sofrimento e à vida do outro. Isso é básico. Segundo, com os preceitos do iluminismo, que são justiça e decência. E, depois, o direito à felicidade de cada um. Além disso, é preciso retomar a discussão da educação no nível da família e das escolas. A quantidade de pessoas apresentadas como tendo sucesso é mínima. Não vai caber todo mundo. Então, a vida dela sempre aparecerá como algo miserável, sem glamour. Se antes as pessoas almejavam ser íntegras, solidárias, honestas como foram seus pais, hoje isso parece não ter mais valor. Dizia-se que não se pode fazer qualquer coisa para subir na vida. Hoje, as pessoas fazem qualquer coisa para subir na vida e ainda são apontadas como exemplo.

ISTOÉ – O sr. detecta a “juvenilização” dos pais, que passam a disputar o mesmo espaço dos filhos.
Jurandir – Os pais se converteram a essa idéia de felicidade sensorial. Achamque viverão bem com a receita de juvenilidade, boa forma e puerilidade mental.
Os próprios filhos se sentem constrangidos. Não digo que o pai deva dar a sua vida pelo filho, só que tem de integrar o filho à sua vida. Ou então não seja pai ou mãe. Se as pessoas não puderem se responsabilizar pelas novas gerações, a gente vai jogar esse mundo na lata de lixo. Se a pessoa não se dispõe a cuidar, então não tenha filhos. Isso acontece porque o pai tem vergonha de ser velho, não quer ser um ancestral.


ISTOÉ – Há esperança para quem continua a cultivar valores como
solidariedade e honestidade?
Jurandir – Esses têm um valor fundamental. São a bússola. O navio pode se desgovernar aqui e ali, mas enquanto você tem isso há esperança de seguir o bom caminho. Essas pessoas não podem ser silenciadas nem podemos desacreditar da importância delas. Quando elas são silenciadas, sabemos o horror que é. Quando elas desacreditam, decretam o fim da cultura. No espaço cultural houve isso. Roma acabou em um dia. Há figuras públicas que mantêm esses valores. Há também o pai que batalha e tem coragem de se impor ao filho, para que depois o filho agradeça. Essa resistência cotidiana me agrada muito mais. É preciso que essas pessoas saibam que fazem diferença quando realizam bem o seu trabalho, que a sua honestidade é um valor, que essa crença constrói um país. Não podemos deixar que se desesperem e digam que nada adianta. Do outro lado há o deboche, o cinismo. Mas no final o resultado dessa resistência vale a pena. Basta pensar que japoneses, alemães, italianos e outros europeus carregaram pedra depois da Segunda Guerra Mundial e estão aí de novo. Se eles fizeram aquilo, a gente também pode fazer. Por que não?

R de Rivoli

O Rivoli-teatro municipal do Porto está transformado em casa de espectáculos!!!

Manifestação contra a política cultural de Rui Rio e a entrega do Rivoli-teatro municipal aos interesses comerciais reuniu muita gente.


(Nota pessoal: a beleza natural das jovens manifestantes contrastava com o kitsch e o evidente mau gosto exibido pelas convidadas de serviço do La Féria. Até nisso a manifestação foi uma vitória da população do Porto. )


Ontem a concentração silenciosa convocada para a estreia do espectáculo revivalista do empresário La Féria no Rivoli (ex-teatro municipal do Porto) conseguiu reunir muitos manifestantes que acabaram por cercar todo o aparato «à Hollywood-de-trazer-por-casa» que foi montado para o efeito à entrada da nova casa de espectáculos.
Os manifestantes exibiam um R impresso numa folha branca em memória ao Rivoli – teatro municipal, adquirido e totalmente reconstruído com dinheiros públicos e que, durante mais de uma década, realizou uma notável obra de divulgação cultural permitindo que os grupos e colectivos da cidade apresentassem as suas produções nas suas instalações como ainda trazendo de fora uma variada gama de artistas e produções artísticas sempre com uma boa receptividade e retorno financeiro.
A presença numerosa dos manifestantes permitiu o cerco completo à volta do gradeamento instalado na Praça D.João I e constituiu um cenário alternativo, mais recomendável e vistoso, que o triste e ridículo espectáculo em que se transformou a chegada e a recepção dos presumidos «vips» à estreia da velhinha e bolorenta ópera-pop «Jesus Cristo Superstar». O aparato montado metia dó, tal era o artificialismo bacoco que misturava batuques com um ritualizado meneio de ancas a que um casal não se cansava de se entregar no alto de dois andaimes. Um tenda de plástico transparente era a antecâmara por onde se tinha de passar para entrar no átrio do edifício, não sem antes a patrocinadora do espectáculo, uma conhecida marca de cerveja, se exibir a fim de mostrar o seu alto contributo para mais este acto «kultural». Mas pior ainda foi a chegada dos convidados. Aquilo parecia mais uma brigada do reumático. De todos os lados da praça, surgiam senhoras a coxear ( as jovens e as menos jovens pouco ou nada se distinguiam, tal era a sua semelhança), com notória dificuldade em locomover-se nas alturas dos seus sapatos, enquanto jovens imberbes mascarados de cavalheiros faziam o possível por se passarem por ambiciosos executivos do BPI e, outros, por versões recicladas do Conselheiro Acácio.
A acção de contestação, comparada com aquele refugado, foi excelente. De emoção contida, de número muito significativo de presenças, da qualidade de manifestantes ( sobretudo, da beleza da raparigas), em tudo a contestação de rua ficou a ganhar.
Rui Rio e o La Féria, de costas voltadas para a cidade e a sua população mais activa, ficarão definitivamente condenados ao papel de vendilhões do património urbano, aqueles que pretenderam esbulhar a cidade do seu teatro municipal e transformá-lo em casa de espectáculos.


Fotografia retirada de http://artimanha-artimanha.blogspot.com/

14.6.07

Alemães usaram aviões de caça Tornado para fotografar acampamento de manifestantes anti-G8 !!!


O Governo da muita «civilizada» Alemanha já não tem vergonha em colocar-se fora-da-lei e ir contra a sua própria Constituição ao autorizar um raid aéreo e usar aviões militares como os caças de combate Tornado para tirarem fotografias sobre os acampamentos dos manifestantes anti-G8

Esta notícia está a gerar polémica na Alemanha porque uma operação deste género é ilegal e – pior ainda - anti-constitucional

Notícia completa( retirada
daqui ):


A utilização de «caças» da força aérea alemã para fotografar um acampamento dos manifestantes contra a Cimeira do G-8, na semana passada, em Heiligendamm, já admitida pelo Ministério da Defesa, está a gerar celeuma na Alemanha.

Os Verdes foram os primeiros a criticar a operação dos «caças» Tornado, que consideram inconstitucional, e ontem foi a vez de um porta-voz do SPD afirmar que se tratou de “uma provocação”. Para este social-democrata, a decisão de enviar os Tornado, os aviões de combate mais modernos de que a Alemanha dispõe, para fazer o reconhecimento do acampamento onde estavam milhares de activistas antiglobalização, em Reddelich, foi legal, “mas politicamente muito pouco inteligente e insensível”.
O mesmo deputado avisou o ministro da defesa, o democrata-cristão Franz-Josef Jung, para “não irritar o SPD”, aumentando assim as tensões na coligação chefiada por Angela Merkel, depois de o líder social-democrata Kurt Beck ter criticado abertamente os resultados da Cimeira do G-8, em que a chanceler teve papel predominante.
Wiefelspuetz afirmou que o reconhecimento do local onde estavam os manifestantes também podia ter sido feito com helicópetros, acusando Jung, que ordenou a operação, de “falta de instinto político”.
O Ministério da Defesa confirmou na segunda-feira os voos de dois “caças” Tornado sobre a região em torno de Heiligendamm, onde estava a decorrer a Cimeira dos líderes políticos da Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia, rodeada por forte dispositivo de segurança.
Os Tornado estão a ser utilizados, por exemplo, no Afeganistão, para fornecer posições de grupos de rebeldes talibãs às tropas aliadas norte-americanas e britânicas da Operação Liberdade Duradoura.
Os “caças” sobrevoaram o acampamento anti G-8 em Reddelich a 150 metros de altura, para tirar vários fotos.
O deputado ambientalista Hans-Christian Stroebele já tinha considerado o “raid” aéreo anti-constitucional e pediu esclarecimentos ao governo, depois de ter sido informado do incidente por manifestantes que acamparam em Reddelich.
Testemunhas ocupares disseram à imprensa alemã que os Tornado sobrevoaram na terça-feira passada, na véspera de começar a Cimeira, o acampamento em Reddeelich, a baixa altura, fazendo estremecer as estruturas ali erguidas.
Quatro dias antes da Cimeira, registaram-se duros confrontos entre cerca de dois mil manifestantes anarco-libertários e a polícia, que provocaram quase mil feridos, após uma manifestação, em Rostock, de mais de 30 mil pessoas contra a reunião dos líderes mundiais. Nos dias seguintes, milhares de pessoas conseguiram bloquear alguns acessos a Heiligendamm, mas quase tudo decorreu de forma pacífica, embora se tenham registado mais alguns incidentes entre manifestantes e as forças da ordem.

Rivoli: mantém-se para hoje(dia 14) o protesto silencioso sob a forma de sit-in

Hoje estreia o Jesus Cristo Super Estar do La Féria no Rivoli (teatro ex-municipal) do Porto

CONTRA VENTOS E MARÉS, CHUVISCOS OU AGUACEIROS, FESTA VIP,etc

MANTÉM-SE O PROTESTO SILENCIOSO.

APARECE NA PRAÇA D. JOÃO 1º ÀS 20h15
DEBAIXO DAS ARCADAS DO PALÁCIO ATLÂNTICO,

TRAZ AMIGOS, VIZINHOS, E TODOS OS QUE NÃO SE CONFORMAM COM A ACTUAL GESTÃO DA CIDADE,

TRAZ UM GUARDA-CHUVA,
TRAZ A TUA FORÇA SOLIDÁRIA,

O NOSSO SILÊNCIO DE CORPO PRESENTE É MAIS FORTE QUE A FESTA DA PREPOTÊNCIA POLÍTICA

CONTAMOS CONTIGO

Crew Hassan, cooperativa cultural ( em Lisboa)

http://www.crewhassan.org/

A Crew Hassan é uma cooperativa cultural sem fins lucrativos, criada em 2004, inicialmente sem espaço fixo, mas a partir de Maio de 2006 com instalações próprias na baixa de Lisboa ( na Rua das Portas de Sto Antão 159-1º). Desenvolve diversas actividades na área cultural e social. Tem agora um website onde divulga as suas iniciativas colocando o seu espaço ao dispor dos colectivos que desejam concretizar as suas acções.
É também um bar e um óptimo ponto de encontro para activistas sociais e culturais.

Crew Hassan

Horários: Todos os dias: 14h-24h
Do It Yourself
No primeiro sábado de cada mês, há uma feira dedicada a produtos reciclados ou transformados, está aberta a quem queira participar, tendo como única condição que os artigos postos à venda tenham sido feitos à mão.

13.6.07

Para quando um exame de aferição da Língua Portuguesa à DREN ?

Transcrição da crónica de Manuel António Pina sob o título «Pensamento Único» publicada hoje no Jornal de Notícias


O Ministério da Educação tornou-se na vanguarda do regime de pensamento único entre nós. A ministra ainda não chegou ao ponto de dogmatizar a sua infalibilidade, mas não hesita em mostrar que não gosta de ser contrariada com opiniões diversas das suas. Diálogo, no ME, só assentindo com a cabeça.

Daí que a Associação dos Professores de Matemática se tenha, como diz o assessor de Imprensa de Maria de Lurdes Rodrigues, naturalmente "auto-excluído" da Comissão de Acompanhamento do Plano da Matemática quando sobre ele manifestou opinião diferente da da ministra. Porque uma questão tão simples como a do insucesso escolar na Matemática tem apenas uma solução, a da ministra.

O que acontece na DREN é só uma metástase do mesmo tumor autocrático. As notícias sobre o modo como a directora regional gere o seu quintalório são, por isso, uma "campanha sem precedentes". Não é a gestão de Margarida Moreira que não tem precedentes, são as notícias sobre ela. Mas o comunicado da DREN sobre a matéria é notável não só pela sua particular concepção da liberdade de imprensa mas também pelo não menos particular Português em vigor na DREN. Não são só erros grosseiros de concordância, é a própria expressão.
Para quando um exame de aferição de Língua Portuguesa na DREN?

Abstenção nas eleições é alta entre os eleitores bem informados de Lisboa

Fonte: jornal Público

Lisboa é uma cidade onde a abstenção nas eleições autárquicas se tornou uma tradição, mas cuja população tem um nível de instrução superior três vezes maior do que o resto do país. "É um eleitorado sofisticado, com formação e informação, o que explica em parte o elevado nível de abstenção", defende o sociólogo Villaverde Cabral.

Os últimos dados do recenseamento eleitoral (2006) mostram que há 525 mil pessoas inscritas para votar na capital, onde no próximo dia 15 de Julho será escolhido o próximo presidente da câmara. Mas quem são estes eleitores?
"A ideia de que Lisboa é uma cidade envelhecida não corresponde à verdade. A população da capital não será mais envelhecida do que a do resto do país. Os dados de um inquérito que realizei em 2004 mostram que 80 por cento dos eleitores da cidade de Lisboa terão menos de 60 anos, explica o também historiador. "Mas tem menos jovens e crianças do que os bairros da periferia."

Numa radiografia social feita aos habitantes da capital, há 35 por cento da população que pertence à classe média, média alta. "Neste grupo incluem-se licenciados, quadros médios e técnicos", explica. "Outros 30 por cento inserem-se no que classificamos como classe média baixa e muito poucos, apenas 15 por cento, serão trabalhadores manuais, uma percentagem claramente inferior à do resto do país", adianta.

Mas há dados que surpreendem: na capital, 44 por cento dos eleitores têm um nível de ensino superior. "Este dado é muito significativo, porque é o triplo do verificado no conjunto do país e o dobro daquele que se verifica na periferia", especifica.
Apesar do grau de instrução, o eleitorado lisboeta não tem tradição de afluência às urnas, pelo menos quando se trata de autárquicas. A abstenção nas quatro últimas eleições foi sempre superior a 45 por cento, tendo atingido os 51,7 por cento em 1997 e os 47,5 por cento em 2005, explica o politólogo Pedro Magalhães. "Tradicionalmente, a votação nas legislativas é superior, mas os níveis de abstenção têm vindo a aumentar, aproximando-se da média registada nas autárquicas", diz o investigador.

A instrução do eleitorado é uma das explicações desta abstenção, defende Villaverde Cabral . "A população lisboeta é mais sofisticada e informada do que a média do país. Discute mais política, é mais crítica e tem uma maior identificação com o sistema democrático. Esta informação, ao contrário de provocar uma grande adesão aos partidos, gera antes um comportamento mais crítico, que se traduzirá também em abstenção", adianta.
Outra parte do fenómeno prende-se com a população idosa da cidade, que não sairá de casa para votar, mas que é um grupo da população que tem sido privilegiado ao longo da pré-campanha pelos candidatos ao lugar deixado vago por Carmona Rodrigues.

A expectativa sobre o comportamento da população numas eleições intercalares em plena época de férias não gera optimismos na corrida às urnas, onde o número recorde de candidatos, 12, não gerará um aumento da mobilização. "O facto de as eleições se realizarem em Julho, o que nunca aconteceu recentemente, terá certamente consequências negativas na afluência às urnas", assume Pedro Magalhães. O politólogo também não acredita que a proliferação de candidatos dê à população mais um motivo para exercer o voto. "Não há nenhum dado que indique que o aumento do número de candidatos se traduza num aumento da participação eleitoral", afirma. "Nas últimas autárquicas, os 24 concelhos com candidatos independentes que nas eleições anteriores não tinham registado estas candidaturas não tiveram um aumento da participação eleitoral."

Mais optimista, Villaverde Cabral admite que poderá haver surpresas: "O elevado número de candidatos poderá originar uma taxa de participação superior àquela que ocorreria num outro 15 de Julho." "As autárquicas são eleições mais voláteis, onde o eleitorado reage consoante o que está em jogo. A crise na Câmara de Lisboa é grande e isso envolve, mobiliza", concluiu.
Villaverde Cabral diz que os lisboetas são em Portugal os que mais discutem política e são também os mais críticos

Lista das ilegalidades e irregularidades do concurso para professor titular



«Transcreve-se abaixo excerto de comunicado da fenprof, que indica as principais irregularidades do concurso para professor titular. As discriminações e aberrações são inúmeras, resultando daí atropelos e frustração profunda em muitos professores, assim como um sentimento difuso de arbítrio.

«A alteração de regras no final do concurso, por exemplo, fez com que muitos docentes fossem impossibilitados de concorrer e agora já não possam fazê-lo, mesmo que, hoje, o ME faça uma interpretação da lei igual à que a FENPROF sempre fez (como é o caso das faltas por doença, para efeitos de assiduidade, até 30 dias).

- Penalização pelas faltas por conta do período de férias;

- Impossibilidade de docentes que se encontram no 7.º Escalão e que deveriam já estar no 8.º, de concorrer (seja porque progrediam dentro de 60 dias, seja porque deviam ter o tempo bonificado por mestrado ou doutoramento e que continuam a aguardar o despacho de deferimento);

- Impossibilidade dos docentes do 9.º escalão, que deviam estar no 10º, porque progrediam dentro de 60 dias, de concorrer;

- Docentes que faltam, num ano, mais do que um período lectivo por motivo de licença de maternidade e que não pontuam no ponto 3.3.

- Penalização pelas faltas para assistência a familiares maiores de 10 anos (até 15 dias); v Penalização dos docentes requisitados no ensino superior (apesar de se encontrarem em actividade lectiva);

- Impossibilidade de concorrer por parte dos professores de técnicas especiais;

- Desempenho de cargos - Na página da Direcção Geral de Recursos Humanos de Educação é dito que nas "situações de exercício de cargos, no mesmo ano, em períodos inferiores a dois períodos lectivos", pontua-se "no que for mais favorável", o que eventualmente poderá contrariar o disposto no Decreto-Lei 200/2007.

- Penalização pelas faltas por motivo de doença, até 30 dias;

- Penalização dos docentes que exercem actividade de dirigentes sindicais, autarcas, deputados, etc.;

- Penalização de docentes que faltam, num ano, mais do que um período lectivo, por motivo de doença prolongada;

- Penalização de docentes que concorrem a titulares na escola em que estão destacados e que, ocupando vaga, poderão originar horários-zero para professores que já se encontram no quadro dessa escola.

- Penalização de docentes destacados em funções técnico-pedagógicas em instituições sob tutela de outros ministérios;

- Penalização de docentes do grupo de Educação Especial dos Agrupamentos Horizontais, para os quais não houve abertura de vagas;

- Penalização de docentes Coordenadores do Desporto Escolar, por não ser considerado na lista de funções susceptíveis de pontuação.

Ciclo de Cinema sobre o Iraque

iniciativa da secção portuguesa do TRIBUNAL para o IRAQUE
COM VÁRIAS COLABORAÇÕES INDIVIDUAIS E O APOIO DA ASSOCIAÇÃO ABRIL

Local: ASSOCIAÇÃO ABRIL (situada nas instalações da Casa do Brasil)
RUA S. PEDRO DE ALCÂNTARA, 63-1º, DTº.

6ª FEIRA, 15 DE JUNHO, DAS 18,45 ÀS 21 HORAS
"FALUJA, O MASSACRE OCULTO"
Realizado pela cadeia de televisão italiana RAINews. Mostrando provas do massacre e do uso pelos norte-americanos de armas proíbidas, o documentário suscitou, quando foi emitido, desmentidos indignados das autoridades norte-americanas e britânicas, mas diante dos argumentos avançados e de mais entretanto surgidos, uma e outra não tiveram outro remédio senão remeter-se ao silêncio.
EM Português - 22' - ESTE FILME CONTÉM CENAS VIOLENTAS

"TESTEMUNHOS DE FALUJA"
Legendado EM Castelhano - 28'


6ª FEIRA, 22 DE JUNHO, DAS 18,45 ÀS 21 HORAS
"QUATRO HORAS EM CHATILA"
Realizado por Carlos Lapeña, que parte de um texto de Jean Genet para narrar o massacre nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila.
EM Castelhano - 23'

"IRAQUE, HISTÓRIA DE MULHERES"
Documentário de Zeena Amhed e Amal Fadhed (2006)
Testemunho de mulheres de al-Quaime, uma das zonas mais castigadas pela ocupação estadunidense, e das mulheres de Baçora, onde enfrentam as imposições das mílicias colaboracionistas.
EM Castelhano - 48'


6ª. FEIRA - 29 DE JUNHO, DAS 18,45 ÀS 21 HORAS
"JOSÉ COUSOL, CRIME DE GUERRA"
Realizado por Alberto Arévalo Ferrera, da Tele 5. Documentário em homenagem a José Cousol, repórter de imagem da TV espanhola, assassinado em 8 de Abril de 2004, em Bagdad, por forças militares dos EUA.
EM Castelhano - 55'

"MUERTOS DE SEGUNDA"
Realizado por Gran Wyoming. Depoimentos da mãe e irmãos de José Couso, exigindo investigação e justiça.
EM Castelhano - 4'


6ª FEIRA - 6 DE JULHO, DAS 18,45 ÀS 21 HORAS
"OBJECTIVO IRAQUE"
Realizado em 2006 por Rashid Radwan, este documentário traz-nos o testemunho de homens e mulheres que passaram pela cadeia de Abu Ghraib, de um grupo de adolescentes iraquianos, estudantes da escola de Al Amal, em Bagdad ou de clientes de banhos públicos da capital iraquiana. Através dele tomamos conhecimento do outro lado da chamada guerra ao terrorismo e também de homens e mulheres membros de grupos armados que contam as suas experiências, revelam porque pagaram em armas e porque recusam o estatuto de terroristas.
Legendado EM Castelhano, 54'

EM CADA SESSÃO - Terá lugar uma conversa sobre os filmes exibidos

12.6.07

Rivoli: concentração silenciosa na praça D.João I (Porto) e no Largo de Camões (Lisboa) no dia 14 às 20h.30

Vamos sentar-nos em silêncio em Lisboa e no Porto em nome de um serviço público para a Cultura e de teatros municipais abertos e plurais e lembrando tudo o que vai ficar de fora e impossibilitado de circular com a ocupação de um espaço público como o teatro municipal Rivoli (construído e equipado com dinheiros públicos) por uma única proposta comercial.

O acto de protesto do dia 14 de Junho será silencioso.

Em jeito de happening minimal.
Contamos com a presença de 500 pessoas (mas quantas mais melhor...), partindo do princípio de que cada um será capaz de mobilizar pelo menos 10 participantes conscientes.
As pessoas sentar-se-ão, a partir das 20h30 em ponto, nas lajes brancas que revestem a parte central da praça D. João I, de cabeça virada para o Rivoli e aí permanecerão mudas e quedas até os nossos «directores de cena» - Joclécio Azevedo, Inês Maia, Catarina Falcão, Pedro Carvalho, Igor Gandra - darem ordem de desmobilizar, o que acontecerá pelas 21h30, hora a que o espectáculo deverá ter começado dentro do teatro. Telemóveis desligados, obviamente. Trata-se de sublinhar pela postura dos presentes o carácter simbólico do protesto.

Ninguém, nem mesmo as «personagens mais mediatizadas» pelo caso Rivoli prestará declarações durante o protesto silencioso. As pessoas sentadas que venham porventura a ser interpeladas por agentes da comunicação social deverão responder que se trata de um protesto silencioso e remeter os jornalistas para os três porta-vozes escolhidos durante a reunião de 7/6, a saber: Lino Miguel Teixeira, José Luís Ferreira e Helena Guimarães. Após a desmobilização, cada um poderá, claro está, agir consoante lhe aprouver, neste preciso aspecto.

Está ser preparado um pequeno panfleto, cujo conteúdo foi debatido em reunião, em que se explicam as razões do protesto. Resumidamente: responder ao silêncio cínico da CMP com o silêncio do nosso descontentamento.

É indispensável, nesta altura, que cada participante tente mobilizar pessoalmente o maior número possível de cidadãos, transmitindo às pessoas convidadas a juntar-se a nós estas indicações básicas: trata-se dum acto «performativo» destituído de espectacularidade mas que se pretende carregado de intensidade simbólica.

http://www.mruim.blogspot.com/

Morreu Richard Rorty , o filósofo da ironia e da contingência


“A esperança está na imaginação do terceiro mundo” (R. Rorty)


«Rorty foi um crítico ferocíssimo das verdades absolutas e exteriores ao discurso, dedicou a vida a um desporto muito saudável: detonar toda e qualquer metafísica.»


Rorty é considerado um dos pensadores mais importantes da filosofia contemporânea. Nasceu em 1931 em Nova Iorque numa família com simpatias pelo trotskismo ( o pai era um militante trotskista) e faleceu aos 75 anos no passado dia 8 de Junho em Palo Alto, Califórnia. Era um filósofo irónico e provocador que investia contra as certezas e as verdades absolutas. Os seus livros «A filosofia e o espelho da natureza» (Philosophy and the Mirror of Nature” ) e «Contingência, Ironia e Solidariedade» são as suas obras mais marcantes e nelas são plasmadas as teses do neo-pragmatismo norte-americano, também designado por pós-empirista.


Muito criticado quer pela direita quer pela esquerda, quiseram-no fazer dele um teórico do liberalismo. Mas a verdade é que Rorty era um activista ferrenho contra os chefes, as oligarquias e as grandes empresas, e não escondia a sua simpatia pela esquerda libertária que enfrenta o poder estabelecido. Contra a velha esquerda e nova esquerda Rorty era igual a ele mesmo ao defender uma «Nova Velha Esquerda» . Nos últimos anos, o anti-filósofo surpreendeu os críticos quando começou a intervir cada vez mais em política. Assim, num ensaio de 1997 apelou às universidades para regressarem a uma política de esquerda e "que, no essencial, visava impedir que os ricos desvalorizem o resto da população."

As suas principais influências derivam, por um lado, da tradição pragmática norte-americana ( Dewey, mas também William James, Peirce ) , por outro lado , do pós-nietscheanismo de um Wittgenstein e Heidegger, e recebe ainda, finalmente, as influências dos filósofos que desenvolveram as críticas ao essencialismo e ao representacionalismo como são os casos de Quine, Sellars e Davidson.


Professor de Filosofía nla Universidade de Princeton até 1983 acabou por renunciar à sua cátedra ao escolher ser professor de Humanidades na Universidade de Virginia, opção essa a que não foi alheia o seu anti-essencialismo e antifundamentalismo , e por meio dos quais Rorty ataca a filosofia como busca privilegiada das cauas primeiras, preferindo antes relacioná-la com a poesia, a arte e a crítica literária, com isso pretendendo dizer que se deve abandonar toda a pretensão ao conhecimento do Ser, da Verdade ou do Absoluto. Na sequência desta linha ele desmonta os pressupostos e as bases do conhecimento enquanto representação. Considera por isso ilegítima a pretensão da filosofia em arrogar-se em tribunal da cultura e da ciência, pelo que o filósofo não se encontra num pedestal nem em qualquer posição privilegiada. O filósofo irónico prefere a literatura e a poesia mais do que a redoma em que querem encerrar a filosofia. E via nisso não só o resgate da filosofia como um importante reforço da democracia.


(“He rescued philosophy from its analytic constraints” and returned it “to core concerns of how we as a people, a country and humanity live in a political community.”)


Para ele a verdade nunca é exterior, separada das nossas crenças. Ela é imanente à pragmática de cada um, ou seja, na teoria epistemológica dele, o conhecimento advinha de uma prática social, isto é, de algo convencional, intrínseco ao discurso, acabando consequentemente por rejeitar o conceito de objetividade

O conceito de verdade como representação é então substituido pelo acordo não forçado dentro de uma dade comunidade endagante, algo que confere protagonismo ao ser humano face à tirania dos factos e que permite a revisão contínua da «verdade» - em nome da qual se construiram tantos crimes – e que permite comprender afinal em que medida os vários ramos do saber não pasma de construções sociais. No fundo, a verdade é aquilo que os membros das comunidades de indagação decidem que seja.

Rorty é visto como o inimigo número 1 daquele personagem que ostenta a “carteira profissional” do filósofo , o filósofo engravatado numa cátedra académico e guardião das filosofias tradicionais. Aos olhos desse tipo de filósofo, o projecto de Rorty é anti-filosófico, uma tentativa destruir a filosofia. Tal personagem, o filósofo profissional, sente-se ofendido, pois Rorty considera um desejo pueril de infância e juventude querer reunir verdade e justiça numa visão unitária, num essencialismo totalitário como pretendem as várias variantes do platonismo



Num texto autobiográfico «Trotsky and the Wild Orchids», ele escreve:
“At 12, I knew that the point of being human was to spend one’s life fighting social injustice,” ( aos 12 anos soube que o importante na vida humana era lutar contra a injustiça social)

Pode-se ler uma entrevista com Rorty intitulada Against Bosses, Against Oligarchies em:
www.prickly-paradigm.com/paradigm3.pdf




O seu obituário publicado no New York Times:


Richard Rorty, whose inventive work on philosophy, politics, literary theory and more made him one of the world’s most influential contemporary thinkers, died Friday in Palo Alto, Calif. He was 75.
The cause was complications from pancreatic cancer, said his wife, Mary Varney Rorty.
Raised in a home where “The Case for Leon Trotsky” was viewed with the same reverence as the Bible might be elsewhere, Mr. Rorty pondered the nature of reality as well as its everyday struggles. “At 12, I knew that the point of being human was to spend one’s life fighting social injustice,” he wrote in an autobiographical sketch.
Russell A. Berman, the chairman of the Department of Comparative Literature at Stanford University, who worked with Mr. Rorty for more than a decade, said, “He rescued philosophy from its analytic constraints” and returned it “to core concerns of how we as a people, a country and humanity live in a political community.”
Mr. Rorty’s enormous body of work, which ranged from academic tomes to magazine and newspaper articles, provoked fervent praise, hostility and confusion. But no matter what even his severest critics thought of it, they could not ignore it. When his 1979 book “Philosophy and the Mirror of Nature” came out, it upended conventional views about the very purpose and goals of philosophy. The widespread notion that the philosopher’s primary duty was to figure out what we can and cannot know was poppycock, Mr. Rorty argued. Human beings should focus on what they do to cope with daily life and not on what they discover by theorizing.
To accomplish this, he relied primarily on the only authentic American philosophy, pragmatism, which was developed by John Dewey, Charles Peirce, William James and others more than 100 years ago. “There is no basis for deciding what counts as knowledge and truth other than what one’s peers will let one get away with in the open exchange of claims, counterclaims and reasons,” Mr. Rorty wrote. In other words, “truth is not out there,” separate from our own beliefs and language. And those beliefs and words evolved, just as opposable thumbs evolved, to help human beings “cope with the environment” and “enable them to enjoy more pleasure and less pain.”
Mr. Rorty drew on the works of Freud, Nietzsche, Heidegger, Wittgenstein, Quine and others. Although he argued that “no area of culture, and no period of history gets reality more right than any other,” he did maintain that a liberal democratic society was by far the best because it was the only one that permits competing beliefs to exist while also creating a public community.
His views were attacked by critics on the left and the right. The failure to recognize science’s particular powers to depict reality, Daniel Dennett wrote, shows “flatfooted ignorance of the proven methods of scientific truth-seeking and their power.”
Simon Blackburn, a philosopher at Cambridge University, has written of Mr. Rorty’s “extraordinary gift for ducking and weaving and laying smoke.”
Mr. Rorty was engaged with and amused by his critics. In a 1992 autobiographical essay, “Trotsky and the Wild Orchids,” he wrote that he was considered to be one of the “smirking intellectuals whose writings are weakening the moral fiber of the young”; “cynical and nihilistic”; “complacent”; and “irresponsible.”
Yet he confounded critics as well, by speaking up for patriotism, an academic canon and the idea that one can make meaningful moral judgments.
His reason for writing the 1992 essay, he said, was to show how he came by his particular views. Richard McKay Rorty was born in 1931 to James and Winifred Rorty, anti-Stalinist lefties who let their home in Flatbrookville, N.J., a small town on the Delaware river, be used as a hideout for wayward Trotskyites. He describes himself as having “weird, snobbish, incommunicable interests” that as a boy led him to send congratulations to the newly named Dalai Lama, a “fellow 8-year-old who had made good.”
Later, orchids became another obsession, and his love of the outdoors continued throughout his life. An avid birder for the last 30 years, Mr. Rorty liked to “head over to open spaces and walk around,” his wife Mary said yesterday from their home in Palo Alto. His last bird sighting was of a condor at the Grand Canyon in February. In addition to his wife, Mr. Rorty is survived by three children and two grandchildren.
When he was 15, Mr. Rorty wrote, he “escaped from the bullies who regularly beat me up on the playground of my high school” to attend the Hutchins School at the University of Chicago, a place A. J. Liebling described as the “biggest collection of juvenile neurotics since the Children’s Crusade.”
In his early career, at Wellesley and Princeton, he worked on analytic philosophy, smack in the mainstream. As for the surrounding 1960s counterculture, he said in a 2003 interview, “I smoked a little pot and let my hair grow long,” but “I soon decided that the radical students who wanted to trash the university were people with whom I would never have much sympathy.”
By the 1970s, it became clear that he did not have much sympathy for analytic philosophy either, not to mention the entire Cartesian philosophical tradition that held there was a world independent of thought.
Later frustrated by the narrowness of philosophy departments, he became a professor of humanities at the University of Virginia in 1982, before joining the comparative literature department at Stanford in 1998.
Over time, he became increasingly occupied by politics. In “Achieving Our Country” in 1998, he despaired that the genuine social-democratic left that helped shape the politics of the Democratic Party from 1910 through 1965 had collapsed. In an interview, he said that since the ’60s, the left “has done a lot for the rights of blacks, women and gays, but it never attempted to develop a political position that might find the support of an electoral majority.”
In recent years, Mr. Rorty fiercely criticized the Bush administration, the religious right, Congressional Democrats and anti-American intellectuals. Though deeply pessimistic about the dangers of nuclear confrontation and the gap between rich nations and poor, Mr. Rorty retained something of Dewey’s hopefulness about America. It is important, he said in 2003, to take pride “in the heritage of figures like Jefferson, Lincoln, Wilson, Roosevelt, Martin Luther King, and so on,” he said, and “to use this pride as a means of generating sympathy” for a country’s political aims



Texto publicado em
The Independent sobre o falecimento de Rorty



Richard McKay Rorty, philosopher: born New York 4 October 1931; Professor of Philosophy, Princeton University 1970-81, Stuart Professor of Philosophy 1981-82; Professor of Humanities , University of Virginia 1982-96; Professor of Comparative Literature, Stanford University 1998-2005 (Emeritus); married 1954 Amélie Oksenberg (one son; marriage dissolved 1972), 1972 Mary Varney (one son, one daughter); died Palo Alto, California 8 June 2007.
Richard Rorty was perhaps the most eminent of his generation of American philosophers, certainly the best known worldwide, his work much translated, his name casually invoked well outside academic and philosophic circles, an invitation once reaching him from Bill Clinton's White House to come and tell the President what to think about contemporary ethics.
His enormous fame rested first on his vigorous and comprehensive breaking up of the view that the human sciences may be practised on the same terms as the natural sciences. But he went well beyond this to establish the "anti-foundational" argument that political and moral theory cannot be built on so-called objective grounds, but only on the compelling claims of human sympathy and solidarity. In doing so he rejuvenated the great tradition of American pragmatism and restored John Dewey, his intellectual hero, to a central position in the philosophic Pantheon.
Richard Rorty was born in New York in 1931 to parents prominent in the strong American leftist movement of the Depression. His father edited the controversial socialist journal New Masses; by the age of five the young Richard was an experienced protest marcher and throughout his boyhood a familiar of the leaders of working-class politics. Refusing Marxism, as one would expect, for its dogmatism and insupportable claims to being an objective science, he none the less kept up his lifelong allegiance to the egalitarian and socially equitable politics he learned from his parents.
In 1945, when only 15, he enrolled at Hutchins College, Chicago and, coming under the influence of the famous conservative Leo Strauss, set himself the task of holding reality and social justice in a single anti-Straussian vision. After military service, during which he worked with great intellectual profit on early computers, he then, after completing his BA and MA and marrying between times the formidable philosopher Amélie Oksenberg, registered in 1954 for a PhD at Yale.
His first full academic appointment was at Wellesley in 1958, his second at Princeton in 1961, but after beginning his career by publishing at a cracking rate, he stalled for a while in deep depression when his wife left home in 1971.
The fallow period yielded rich fruit. Between 1971 and 1979 he remarried and worked at what would become his best known book, Philosophy and the Mirror of Nature. This classic of philosophic literature starts out from the canonical essayists of sceptical scientism - Donald Davidson, Wilfrid Sellars, W.V. Quine - in order to establish the impossibility of traditional theories of hard knowledge. These taught that epistemology will one day devise a system of concepts and symbols so perfectly lucid that it will mirror reality with absolute exactness.
Rorty's critique proved this to be an illusion. His preferred philosophic heroes were John Dewey, Ludwig Wittgenstein, Martin Heidegger, Jacques Derrida: American pragmatist, subversive analyst of the uses of language, metaphysician of being, mischievous deconstructor of all stable meanings. Armed with these heretics, he argued in a sequel, Contingency, Irony, Solidarity (1988), for a passage from the theory of knowledge to the theory of interpretation, and for a philosophy preoccupied less with truth than with "edification", or right feeling.
The two books caused a mighty upheaval in philosophy departments, as well they might. Some complained, with justification, that Rorty had substituted the relaxed reading of literature for the exacting discipline of philosophic thought. Others objected strongly to his dandy figure, the "liberal ironist", who presides over the second book and is not really distinguishable from Rorty himself: certainly a liberal (nowadays, it is shameful to report, a term of abuse in Washington, DC), and an ironist because unpersuaded by claims about ethical objectivity and "final vocabularies", preferring instead the uncertain, necessary instruments of human hopefulness and the powerful, homely sentiment of solidarity. In both guises, it should be added, friendship itself remained for him the key human value and moral bearing.
He carried this domesticated criticism with great pungency against those left-sympathising practitioners of grand theory who had, he thought, lost in abstraction a keen enough sense of human misery and injustice. In his splendid collections, Truth and Progress (1998) and Philosophy and Social Hope (1999), he routs alike dead old Stalinists and new totalitarians of theory in the name of a practical programme of social welfare. Utterly impatient with the notion, distorted from the work of Michel Foucault, that the symbolic wounds of language and identity are more atrocious than lousy pay, dangerous work and filthy housing, in tireless essays, journalism and conference addresses, he called his fellow-leftists back to traditional class politics and the repair of poverty.
He was a wonderful interlocutor and a thrilling teacher: vivid, disarmingly sympathetic with disagreement, dauntingly quick with a rebuttal, entirely without condescension, funny, relaxed and domestic in the best American way.
During the almost 30 years since he published Philosophy and the Mirror of Nature at Princeton in 1980, he moved first as Professor of the Humanities to the University of Virginia, on whose exquisite colonial campus he retained an office as well as widespread and loyal affection, and then as Professor of Comparative Literature to Stanford.
It is certainly the case that the philosophers objected to exactly these non-philosophic appellations. Professors of literature have no business writing extra-murally about Plato. But Rorty moved gracefully and confidently from literature to politics to epistemology. Indeed it was the point of his life's work as a free man to do just that. Consequently, over those same years, in a headlong series of essays, he kept up his revision and restatement of American pragmatism (Consequences of Pragmatism, 1982) and, in Emerson's words, its "domestication of culture", together with his fierce opposition to the conventions of a so-called absolute truth and objectivity, and his blithe acceptance of the dangers of relativism (Objectivity, Relativism, Truth, 1991).
His styles of thought, of prose and of his life match one another happily in a blend of easy colloquialism, trenchant summary of difficult arguments, cheerful plainness of idiom, an elegant turn of phrase, each quality held firmly in place by his rugged and rueful integrity. Ardently patriotic about the great achievements of American liberalism, perhaps his most accessible book, the one which won him an invitation to Clinton's White House, is Achieving our Country: leftist thought in 20th-century America (1998).