7.11.05

Breve Cronologia do Anarquismo


1563
Morre Etienne de la Boétie, autor do Discurso sobre a Servidão Voluntária, um livro clássico do pensamento libertário, em que analisa o conformismo do povo e aponta a desobediência como um instrumento de mudança social e de luta contra os poderosos.

1789
Revolução Francesa, um momento decisivo de derrocada da velha ordem feudal e clerical na Europa. Na Revolução participaram grupos populares radicais que defendiam posições próximas do pensamento libertário. A Revolução Francesa mereceu estudos de anarquistas como Piotr Kropotkin e Daniel Guerin e foi vista pelos movimentos libertários como precursora das revoluções sociais do século XIX e XX.

1792
Mary Wollstonecraft, companheira de William Godwin , precursora libertária e feminista, publica Reividicação dos Direitos da Mulher.

1793
William Godwin, pensador inglês, precursor do anarquismo, publica o livro Investigação Acerca da Justiça Política.

1837
Morre o socialista utópico Charles Fourrier.

1840
Pierre Joseph Proudhon emprega pela primeira vez, no seu livro O Que é a
Propriedade?, a palavra anarquia no sentido de sociedade autogovernada.

1842
Marx e Bakúnin começam a colaborar na revista Anais Alemães de Arnolde Ruge. Neste ano Marx elogia os "trabalhos penetrantes de Proudhon".

1844
Marx conhece Proudhon, então já um famoso pensador socialista, em Paris. Nesse mesmo ano morre em França a revolucionária socialista, de origem peruana, Flora Tristán, avó do pintor Paul Gauguin.

1845
Nesse ano o pensador anarquista individualista Max Stirner, escreve O Único e a sua Propriedade.
Nos Estados Unidos o libertário Josiah Barren funda a colônia Utopia.

1846
Proudhon escreve a Filosofia da Miséria. Marx e Proudhon trocam correspondência. Na última carta o anarquista francês, depois de criticar todo o dogmatismo, adverte Marx: "não nos tornemos os chefes de uma nova intolerância". É o sinal da irreconciliação entre os dois pensadores.

1847
Marx publica A Miséria da Filosofia tentando refutar a obra de Proudhon.
Constituem-se na Colômbia as sociedades democráticas, influenciadas pelo pensamento de Proudhon.

1848
Kar Marx e Friederich Engels publicam o Manifesto Comunista.. Agitações revolucionárias em vários países da Europa, a mais importante das quais foi a chamada Revolução de 1848 em França.

1849
David Thoreau publica o clássico libertário americano Desobediência Civil.
Bakúnin é preso, após ter participado em várias rebeliões, só vindo a escapar em 1861 da Sibéria.

1852
Primeira viagem aos Estados Unidos de Victor Considérant, discípulo de Fourier, para criar um falanstério.

1856
Morre precocemente Max Stirner.

1861
. Bakúnin foge para o ocidente, indo viver na Inglaterra e posteriormente na Suiça.

1862
Operários franceses e ingleses reunem-se em Londres durante a Exposição Internacional e decidem constituir uma organização internacional, que viria a ser fundada oficialmente em 1864, a AIT.

1863
Proudhon publica um de seus principais livros O Príncipio Federativo.

1864
É criada em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e Bakúnin funda Aliança Internacional da Democracia Socialista.

1865
Morre Proudhon, considerado o primeiro anarquista moderno. Conferência de Londres da AIT.

1867
Marx publica o primeiro volume do Capital.
Congresso de Lausanne da AIT.

1868
Bakúnin ingressa na AIT e os núcleos de partidários da Aliança Socialista passam a ser seções da Primeira Internacional.
As idéias internacionalistas chegam a Portugal e Espanha através do companheiro de Bakúnin, o italiano Giuseppe Fanelli.
O socialista espanhol partidário de Proudhon, Pi y Margall publica o livro Las Nacionalidades.

1869
É fundada a União Cooperativa Inglesa.
Congresso de Basileia da AIT.

1870
É formado o Gran Círculo de Obreros de México, de orientação proudhoniana.
Em Barcelona é criada a Federação Regional Espanhola, aderente à AIT.
Morre o pensador russo Aleksandr Herzen, um federalista amigo de Bakúnin e um dos mais influentes intelectuais russos do século XIX.

1871
Os trabalhadores de Paris declaram a Comuna, mas as tropas do governo invadem Paris em Maio desencadeando um massacre.
Bakúnin publica um dos seus principais livros Deus e Estado
. Os internacionalistas espanhóis Anselmo Lorenzo, Morago e Mora refugiam-se em Lisboa e fazem contatos para criar uma seção portuguesa da AIT.
O poeta português Antero de Quental, partidário da AIT, publica o folheto O Que é a Internacional?
Conferência da AIT em Londres.

1872
O Congresso de Haia da AIT, expulsa os anarquistas por proposta de Marx e transfere a sede a internacional para Nova York.
Este foi o último congresso da AIT, a partir daí dissolveu-se a Primeira Internacional. Os anti-autoritários reúnem-se em Saint Imier na tentativa de preservar a internacional.

Em Portugal , em Fevereiro, sai o jornal O Pensamento Social ligado aos internacionalistas.
No México são editados os jornais El Obrero Internacional e La Comuna.

1873
O médico Eduardo Maia, membro da seção portuguesa da AIT e um dos primeiros anarquistas do país, publica A Internacional, sua História, sua Organização e seus Fins.

1874
É publicada em Portugal a tradução Do Princípio da Federação de Proudhon. O anarquista francês era lido há vários anos em francês pelos intelectuais e trabalhadores socialistas.

1875
Constitui-se no Uruguai a Federación Regional de la República Oriental del Uruguay, mais tarde transformada em Federación Obrera Regional Uruguaya.
Reúne-se no México o Congreso General Obrero.

1876
Morre na Suiça o agitador e pensador anarquista russo Mikhail Bakúnin.
No México as ideias socialistas são discutidas no Primeiro Congresso Operário.
A ala marxista da AIT declara oficialmente, em Filadélfia, o fim da Primeira Internacional.
É publicado no México o livro de Prouhdon Idea General de la Revolución en el Siglo XIX.
Desencadeiam-se várias greves operárias com participação de trabalhadores anarquistas.

1877
Sublevações camponesas, de inspiração socialista e libertária, no México, nos Planes de la Barranca e Sierra Gorda. Levante de Benevento.
Um grupo de anarquistas, entre os quais Carlo Cafiero e Errico Malatesta precorrem aldeias do sul de Itália, queimam os arquivos, distribuem armas e apelam aos camponeses para declarar o comunismo libertário.

1878
Quatro anarquistas são enforcados em Chicago em conseqüência das manifestações pelas 8 horas de trabalho. Este acontecimento iria passar a marcar as comemorações do 1. de maio.
No México é fundado o primeiro Partido Comunista Mexicano, de idéias anarquistas. Em Montevideu começa a publicar-se o jornal El Internacional.

1879
Aparecem na Rússia vários grupos revolucionários de tendência populista e anarquista, que se dedicam a desencadear a acção direta contra o czarismo.
Começa a publicar-se na Suiça o jornal anarquista Le Revolté, sob direção de Kropótkin.
Publica-se em Cuba o jornal anarquista El Obrero.

1880
Engels publica Socialismo Utópico e Socialismo Científico.
Chega aos Estados Unidos o militante anarquista alemão Johann Most.

1882
Anarquistas celebram em Montevideo o aniversário da Comuna de Paris.

1883
É criada na Suiça a Emancipação do Trabalho, primeira organização marxista russa. Morre Karl Marx. É fundado em Buenos Aires o Circulo Comunista Anarquista.

1884
Reclus visita a Colômbia para pesquisar para a sua Nova Geografia Universal, tendo proposto ao governo a criação de uma comunidade agrícola, a que chamou República Idílica, em Sierra Nevada de Santa Marta.

1885
Malatesta chega à Argentina onde residirá por cinco anos.

1886
Começa a publicar-se em Londres o jornal Freedom, por um grupo anarquista reunido em torno de Kropótkin.
Reúne-se em Habana o Congreso Obrero Local. Em Buenos Aires, o militante anarquista Mattei edita El Socialista.

1887
É publicado o primeiro livro de Krópotkin em Portugal, A Anarchia na Evolução Socialista. Formam-se os grupos anarco-comunistas do Porto e de Lisboa. Trabalhadores anarquistas fundam, em Buenos Aires, o Circulo Socialista Internacional. Em Habana começa a se publicar o jornal anarquista El Productor.

1888
É fundada em França a organização Bolsas do Trabalho, de tendência libertária.
Kropótkin publica um dos seus mais famosos, e traduzidos, livros, A Conquista do Pão.

1889
É fundada em Paris a Segunda Internacional.
Em Santos, Silvério Fontes cria o Centro Socialista, um dos primeiros grupos dedicados à divulgação das idéias socialistas no Brasil.

1890
Generalizam-se as manifestações e comemorações do Primeiro de Maio na Europa. Embarcam para o Brasil o primeiro grupo de anarquistas que vai fundar a Colônia Cecília no Paraná.
Oscar Wilde edita A Alma do Homem sob o Socialismo, um livro de inspiração libertária.
No Chile greve promovida por trabalhadores anarquistas termina com uma violenta repressão. Em Buenos Aires começa a se publicar um dos primeiros jornais anarquistas El Perseguido. Em Nova York, o militante anarquista Pedro Esteve, começa a publicar El Despertar um dos mais duradouros jornais anarquistas, em língua castelhana, dos Estados Unidos.

1891
É fundada na Argentina a Federación Obrera Argentina (FOA). Que depois de um período de estagnação volta a ser reorganizada em 1901, sob uma linha anarco-sindicalista.

1892
É publicado, por emigrantes italianos, Gli Schiavi Bianchi, um dos primeiros jornais anarquistas brasileiros.
Ravachol, o mais famoso dos anarquistas partidário da ação direta, é guilhotinado em França.
Morre Carlos Cafiero um dos militantes socialistas que contribuiu para o desenvolvimento do anarquismo em Itália.
No Chile é criado o primeiro centro de estudos sociais anarquista.

1893
Giovanni Rossi, médico veterinário e anarquista idealizador da Colônia Cecília publica na Itália , Cecilia, Uma Comunidade Anarquista Experimental.
É criada na Holanda a National Arbeids Sekretariat (NAS), sindicalista revolucionária, onde teve um papel importante o anarquista Christian Cornelissen.
Chega a Cuba o tipógrafo catalão Pedro Esteve, que seria um dos principais militantes anarquistas do país. Nesse mesmo ano os trabalhadores cubanos fundam a Sociedad General de Trabajadores. Levantamento de trabalhadores em Bogotá, com influência anarquista. No Chile é publicado El Oprimido, considerado o primeiro jornal anarquista do país.

1895
É fundada a Confederação Geral do Trabalho (CGT) francesa que viria a inspirar o anarco-sindicalismo em todo o mundo. A Carta de Amiens, aprovada em 1906, é o documento que define as linhas do sindicalismo revolucionário libertário.


1896
No Congresso de Londres os anarquistas são expulsos da Internacional Socialista.
Em Portugal é publicado o importante estudo de Silva Mendes, O Socialismo Libertário ou Anarquismo.
Morre William Morris importante militante socialista inglês.
Reúne-se em Lima o Primero Congreso Obrero. No Chile é criado o Centro Social Obrero reunindo os principais militantes anarquistas que publicam também o jornal El Grito del Pueblo.
1897
É fundado em Buenos Aires La Protesta Humana, o mais importante jornal anarquista latino-americano.

1898
Realiza-se no Brasil, no Rio Grande Sul, o primeiro congresso que reúne organizações operárias a nível estadual. Chega a Buenos Aires, o advogado italiano e intelectual anarquista Pietro Gori.

1899
Na Colômbia Jacinto Albarracín, anarquista indígena, perseguido funda na floresta uma comuna libertária.

1900
É publicado no Rio de Janeiro o livro Estados Unidos do Brasil, o capítulo da Geografia Universal de Elisée Reclus, referente ao Brasil. O anarquista mexicano Ricardo Flores Magón funda o jornal La Regeneración.

1901
Morre Fernand Pelloutier operário e anarquista francês criador das Bolsas de Trabalho e idealizador do sindicalismo revolucionário, que influenciou o anarco-sindiclaismo à escala mundial.
É fundada na Argentina a Federación Obrera Argentina (FOA) e os trabalhadores de Rosário declaram greve geral.
Chega a São Paulo o advogado e militante anarquista português Neno Vasco.

1902
É editado o livro Apoio Mútuo de Kropótkin, uma crítica do darwinismo social e a defesa do princípio da cooperação como fundamento da evolução das sociedades.
A FOA declara greve geral na Argentina. No Chile, a greve dos tipógrafos marca o desenvolvimento do sindicalismo revolucionário no país

1903
O escritor e militante anarquista Fábio Luz publica o primeiro romance brasileiro de inspiração libertária, O Ideólogo.
Foma-se na Argentina a Unión General de Trabajadores (UGT), reformista, mas onde virá a surgir mais tarde uma tendência próxima do sindicalismo revolucionário. No Chile foi criada na capital uma comunidade anarco-comunista, tendo sido criado, pouco depois, no interior uma comunidade influenciada pelas idéias de Tolstoi. Em Valparaíso, em abril, os trabalhadores portuários influenciados pelo sindicalismo revolucionário desencadeiam uma greve, que acaba se generalizando, em maio, em fortes conflitos de rua na cidade, obrigando o governo a enviar tropas para a cidade. Calcula-se que morreram mais de cem trabalhadores e houve milhares de feridos e presos.

1904
No Quarto Congresso Sindical Argentino é criada a Federação Operária Regional Argentina (FORA) a mais importante e combativa organização anarco-sindicalista da América Latina.
Realiza-se em Amsterdam o Congresso Antimilitarista organizado pelo anarquista e pacifista Ferdinand Nieuwenhuis.

1905
Desencadeia-se a revolução russa que derruba o czarismo autocrático, iniciando uma abertura liberal.
Nos Estados Unidos foi criada a Industrial Workers of the World (IWW) a mais importante organização sindicalista revolucionário americana, que influenciou a criação de organizações semelhantes no Chile, Nova Zelândia e Austrália.
Morre Élisée Reclus destacado geógrafo e militante anarquista.
É criada a Federación Obrera de la Regional Uruguaya (FORU) de linha anarco-sindicalista, herdeira da linha libertária dos internacionalistas do século XIX.
Morre em França, Louise Michel, famosa militante anarquista que participou da Comuna de Paris.
No Chile realiza-se a Primera Convención Nacional de las Mancomunales, considerado o primeiro congresso operário.

1906
Primeiro Congresso Operário Brasileiro, aprova uma linha de actuação anarco-sindicalista e cria a Confederação Operária Brasileira (COB). Greve de mineiros no México deixa centenas de mortos. O agitador anarquista colombiano Biófilo Panclasta chega a Buenos Aires. No Chile foi criada a Federación de Trabajadores de Chile (FTCH), considerada a primeira federação operária sindicalista revolucionária.

1907
Congresso Anarquista Internacional em Amsterdam de que participou o colombiano Biófilo Panclasta representando os trabalhadores argentinos.
No Brasil desencadeiam-se lutas pelas 8 horas de trabalho.
Congresso dos anarquistas alemães reúne-se clandestinamente.

1908
Começa a se publicar, no Rio de Janeiro, A Voz do Trabalhador, órgão da Confederação Operária Brasileira, principal jornal anarco-sindicalista do Brasil. É fundada na Bolivia a Federación Obrera Local (FOL), que será recriada em 1926, após ter desaparecido por vários anos.
É fundada pelo operário Hilário Marques a revista Sementeira, a mais importante publicação anarquista portuguesa.
Morre em Paris o agitador anarquista individualista Albert Libertad.
Revoltas camponesas no México com o apoio de anarquistas.

1909
Semana Trágica de Barcelona. Greve revolucionária agita Barcelona, provocando uma repressão feroz.
O educador anarquista Francisco Ferrer Guardia é fuzilado acusado de ser responsável pela agitação revolucionária, mesmo que na época dos acontecimentos estivesse em Londres. Manifestações de indignação por todo o mundo contra o governo espanhol. Começa, em Portugal, o Congresso Operário Nacional , que encerra em 1910.

1910
Morre o famoso escritor russo e defensor de um cristianismo igualitário, com afinidades anarquistas, Liev Tólstoi, que influenciou grupos anarco-cristãos em vários países, principalmente na Holanda e Estados Unidos.
Em Barcelona foi fundada a Confederação Nacional do Trabalho (CNT), anarco-sindicalista.
Revolução Republicana em Portugal com participação de trabalhadores e militantes anarquistas.
Revolução Mexicana, com participação de camponeses e intelectuais libertários influenciados pelas idéias do militante anarquista Flores Magón.
Os trabalhadores suecos criam a Sveriges Arbetares Central (SAC) de tendência sindicalista revolucionária

1911
Primeiro Congresso Anarquista português e fundação Federação Anarquista da Região Sul.
São enforcados no Japão os anarquistas Denjiro Kotuku e sua companheira Yugetsu Sugo Kanno.
Greve geral no Peru promovida pelos anarco-sindicalistas. São editados os livros de Rafael Barrett, anarquista espanhol que atuou no Paraguai, El Dolor Paraguayo e Cuentos Breves.
O activo militante e jornalista anarquista Neno Vasco parte para Portugal, onde continuará sua militância.
Chega a Buenos Aires, José de Brito, que se tornará um activo militante anarquista na Argentina e, posteriormente em Portugal.
No Panamá começa a publicar-se El Unico, Publicação Individualista, um dos raros jornais anarquistas individualistas da América Latina.

1912
Constitui-se em Portugal a Federação Anarquista da Região Norte.
Tranbalhadores anarco-sindicalistas bolivianos criam a Federación Obrera Internacional (FOI). Morre Voltairine de Clayre, agitadora anarquista americana.
É criada em Itália a União Sindical Italiana (USI), anarco-sindicalista.
Morre em tiroteio com a polícia Jules Bonnot, ilegalista e anarquista francês.
No Chile é editado o jornal La Batalla, um dos mais importantes periódicos anarquistas do país.

1913
Segundo Congresso Operário Brasileiro mantém a linha sindicalista revolucionária.
Em Portugal formam-se as Juventudes Sindicalistas. Em Lisboa edita-se o importante jornal anarquista Terra Livre, dirigido pelo luso-brasileiro Pinto Quartim.
Criação da Unión Obrera de Colombia.

1914
Começa a Primeira Guerra Mundial dividindo o movimento socialista (inclusive os anarquistas) sobre a posição a tomar.
Começa a se publicar, no Rio de Janeiro, A Vida, a principal revista anarquista do começo do século. Reúne-se em São Paulo a Conferência Libertária. Semana Vermelha em Itália, onda de greves e agitações, desencadeada pela USI, paralisa o país.

1915
Tentativa de formar uma confederação anarco-sindicalista no México, resulta infrutífera pela violenta repressão desencadeada no ano seguinte. Congresso Internacional da Paz, realiza-se no Rio de Janeiro, com representações de vários estados brasileiros e delegados da Argentina.
Realiza-se em Ferrol (Espanha) o Congresso Mundial Contra a Guerra, com delegados de vários países.
Realiza-se no Rio de Janeiro o Congresso Anarquista Sul-americano, reunindo delegados do Brasil, Argentina e Uruguai.

1916
Morre James Guillaume o mais conhecido militante anarquista suiço, miliante da AIT e fundador da Federação do Jura, que seria o centro difusor do anarquismo do século XIX. Esta Federação recebeu e apoiou militantes anarquistas de todo o mundo.
Realiza-se no México um Congreso Obrero Nacional que cria a Federación del Trabajo de la Región Mexicana, anarco-sindicalista.
O revolucionário anarquista mexicano FloresMagón é condenado, nos Estados Unidos, a 20 anos de prisão.

1917
Explode a Revolução Soviética. O Partido Social Democrata Russo, de Lenin, desencadeia acções militares que lhe dão o poder.
Inicia-se a publicação de A Plebe, o mais importante jornal anarquista brasileiro. No Chile é criada a IWW, organização sindicalista revolucionária.

1918
Inicia-se no Rio de Janeiro a greve geral revolucionária que ficou conhecida por Insurreição Anarquista do Rio de Janeiro.
Publica-se, no Porto, A Comuna, um dos mais destacados títulos da imprensa anarquista.
No Brasil os anarquistas criam os Comitês Populares contra a Carestia de Vida. Chega à Argentina Diego Abad Santillán um dos mais importantes militantes e intelectual anarquista do nosso século, autor de uma vasta obra que inclui livros sobre o anarquismo e sindicalismo na Argentina.

1919
O anarquista português Manuel Ribeiro funda a Federação Maximalista Portuguesa, a primeira organização a defender o leninismo no país e que viria a dar origem ao Partido Comunista.
No mesmo ano no Brasil é fundado o chamado Partido Comunista do Rio de Janeiro, que mistura anarquismo e maximalismo.
Em Portugal, em Coimbra, no Segundo Congresso Operário Nacional, foi fundada a Confederação Geral do Trabalho (CGT), anarco-sindicalista e inicia-se a publicação do jornal A Batalha, o mais importante jornal anarco-sindicalista português.
Semana Trágica em Buenos Aires, greve geral violentamente reprimida, com centenas de mortos. É criada no Chile a IWW, central sindical de afinidade anarco-sindicalista.
É morto após a derrota da Revolução Alemã, o pensador anarquista Gustav Landauer. É fundada a organização anarco-sindicalista alemã Freie Arbeiter Union (FAU).
É criada em Moscou, a Internacional Comunista, conhecida por Terceira Internacional.

1920
Realizam-se, em Portugal, inúmeras greves, incluindo duas greves gerais. Morre precocemente em Portugal, Neno Vasco, um dos mais importantes militantes anarquistas de Portugal e do Brasil.
Realiza-se o Terceiro Congresso Operário Brasileiro.
Kropótkin escreve várias cartas a Lenin criticando a evolução autoritária da Revolução Russa.
É fundado em Milão o diário anarquista Umanità Nuova.
No Chile começa a publicar-se Claridad, a mais importante revista ácrata. Neste último país, durante a vaga repressiva deste ano, morreu na prisão o poeta libertário Gómez Rojas.

1921
Morre na Rússia o pensador anarquista Piotr Krópotkin, depois de um longo exílio na Europa. O seu funeral foi a última grande manifestação livre dos anarquistas russos.
Violenta repressão, na União Soviética, contra o soviete de Kronstadt e contra o movimento maknovista, abre caminho à violência autoritário do Partido Comunista.
É criado em Moscou a Internacional Sindical Vermelha (PROFINTERN) tendo por objetivo ampliar a influência dos partidos comunistas sob o movimento operário.
As tropas argentinas massacram os trabalhadores anarco-sindicalistas da Patagônia.

1922
Morre o importante escritor Lima Barreto autor de livros como Triste Fim de Policarpo Quaresma, colaborador da imprensa operária e simpatizante anarquista.
Terceiro Congresso Operário Nacional em Portugal reafirma o sindicalismo revolucionário.
Fundação do Partido Comunista do Brasil, aderente à Terceira Internacional, entre os fundadores estão vários ex-anarquistas.
Marcha sobre Roma dos fascistas italianos, lev a Mussolini ao poder, desencadeando a repressão sobre o movimento operário e socialista.
Em Salvador é fundada a Unión Obrera Salvadoreña, de tendência anarco-sindicalista e em Cuba a Federación Obrera de la Habana (FOH).
Nos Estados Unidos morre, de forma suspeita, na prisão o anarquista mexicano Flores Magón.
No Chile é fundada uma nova organização anarco-sindicalista, Federación Obrera Regional de Chile (que desaparece em 1927) e vai coexistir com a IWW também sindicalista revolucionária.

1923
É publicado um dos mais importantes livros anarquistas em língua portuguesa, A Concepção Anarquista de Sindicalismo, de Neno Vasco. Em Portugal greve geral de solidariedade com os mineiros. Realiza-se em Alenquer (Portugal) uma Conferência Anarquista que decide a criação da União Anarquista Portuguesa (UAP).
No México é fundada a Alianza Local Mexicana Anarquista (ALMA). No Peru anarco-sindicalistas criam a Federación Regional de Obreros Indios. O anarquista Kurt Wilckens mata na Argentina o coronel Varela, que comandou o massacre da Patagônia.

1924
Manifestações em vários países, incluindo Portugal e Brasil de solidariedade com os anarquistas Sacco e Vanzetti.
Criação, em Bogotá, do Grupo Sindicalista Antorcha Libertária, no ano seguinte seria criada a Federación Obrera del Litoral Atlântico (FOLA), anarco-sindicalista. É fundado por anarco-sindicalistas, no Panamá, o Sindicato General de Trabajadores. O anarquista colombiano Biófilo Panclasta participa de lutas operárias em São Paulo o que leva à sua prisão de deportação para o campo de concentração da Clevelândia, de onde veio a fugir. Chega à Argentina o militante anarquista francês Pierre Piller (Gaston Leval). No Chile a adoção do Código Trabalhista e de uma política de integração dos sindicatos no Estado, dá um rude golpe no sindicalismo autônomo.

1925
É fundada em Cuba a Confederación Nacional Obrera de Cuba, anarco-sindicalista. Realiza-se na Colômbia o Segundo Congresso Operário que decide criar a Confederación Obrera Nacional.

1926
Golpe Militar em Portugal abre o caminho à ditadura fascista, visando responder ao crescimento das lutas operárias.
Chega ao México o escritor e militante anarquista de origem polaca Ret Marut, que passou a assinar seus livros como Bruno Traven. Formação do primeiro grupo anarquista da Guatemala.

1927
Em Valência foi fundada a Federação Anarquista Ibérica (FAI) reunindo as organizações anarquistas das várias nacionalidades da península ibérica. Junto com a CNT, seriam as organizações que tiveram o papel decisivo na Revolução Espanhola de 1936.
São mortos nos Estados Unidos Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti, trabalhadores anarquistas italianos, num processo judicial fraudulento, que provocou a indignação do movimento operário internacional.
Greve na Colômbia marca o momento mais alto do sindicalismo revolucionário no país.

1930
Golpe militar no Brasil prepara o caminho para a ditadura de Getúlio Vargas. Golpe militar do general Uriburu impõe uma ditadura a que seguirá uma outra de Perón, que destruirá o sindicalismo autônoma na Argentina.

1931
É fundada no Chile a Federación General de Trabajadores (CGT) anarco-sindicalista,
, com uma estrutura semelhante à FORA argentina.
Morre o anarquista francês Emile Pouget que, junto com Fernand Pelloutier, desenvolveu as idéias centrais do sindicalismo revolucionário.
Greves em Cuba promovidas pelos anarco-sindicalistas duram vários meses.

1932
Morre em Itália, sob liberdade vigiada, Errico Malatesta, o principal agitador e pensador anarquista italiano, que actuou em vários países, inclusive na Argentina.

1933
Os nazistas chegam ao poder na Alemanha desencadeando uma onda de repressão sobre as organizações operárias e socialistas.
Morre o poeta alemão John Henry Mackay, grande divulgador do pensamento de Stirner.

1934
A CGT portuguesa, anarco-sindicalista, desencadeia uma greve geral revolucionária em 18 de janeiro. A repressão que se seguiu, destruiu o sindicalismo revolucionário e institui o sindicalismo corporativista fascista.
Começa-se a publicar em França por iniciativa de Sebastian Faure a Enciclopédia Anarquista.
Diego Abad Santillán parte para Espanha onde teria um papel importante no contexto revolucionário.

1935
Morre em Paris o anarquista ucraniano, Nestor Mackhno, que teve de se refugiar no ocidente após ser perseguido pelo governo russo.
Morre, no Uruguai, o militante anarquista italiano Luigi Fabbri, companheiro de Malatesta que desenvolveu intensa atividade na Europa e no Uruguai.
Os anarquistas cubanos participam da luta contra a ditadura de Batista. É fundada clandestinamente na Argentina a Federación Anarco-Comunista Argentina (FACA)

1936
Como resposta ao golpe fascista do general Francisco Franco, os trabalhadores, sindicalistas e anarquistas assaltam os quartéis desencadeando um processo revolucionário libertário que teve de se confrontar com os fascistas de Franco, apoiados por Hitler, Mussoluni e Salazar e, internamente, com os estalinistas.
O revolucionário Victor Serge, ex-anarquista, que se tornou militante do Partido Comunista da União Soviética, consegue exilar-se no ocidente, após um movimento internacional de solidariedade, vindo a denunciar os crimes do estalinismo.
É morto a tiro, em condições nunca esclarecidas, Buenaventura Durruti, o mais famoso revolucionário anarquista do nosso século.

1937
Realizam-se vários atentados em Portugal contra objectivos ligados aos fascistas espanhóis e alguns militantes anarquistas executam um atentado contra o ditador Salazar, que consegue escapar com vida.
Militantes operários, incluindo anarquistas e comunistas são deportados para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde.
É implantada no Brasil a ditadura de Getúlio Vargas, adotando uma constituição de tipo fascista, passando a desencadear a sistemática repressão contra o movimento operário e particularmente sobre os anarquistas.
É morto por estalinistas em Espanha o militante anarquista italiano Camilo Berneri.
É criada em Portugal a Federação Anarquista da Região Portuguesa (FARP).

1939
As tropas de Franco derrotam as forças anti-fascistas, seguindo-se uma violenta repressão e o exílio de centenas de milhares de operários e anarquistas, que se refugiam em França, vindo alguns mais tarde para a América Latina. Franco e Salazar estabelecem o Pacto Ibérico, fundamentalmente destinado a articular a repressão contra, o movimento operário.
Começa a Segunda Guerra Mundial desencadeando-se a expansão nazi-fascista.
Morre em Monte Carlo, Benjamin Tucker um dos mais destacados pensadores libertários americanos.

1940
Morre Emma Goldman militante anarquista de origem russa, que teve uma importância central no anarquismo dos EUA. Expulsa em 1919 para a Rússia teve de deixar o país pelas suas críticas à evolução autoritária da Revolução Soviética. Foi uma das primeiras vozes a levantar-se contra o autoritarismo comunista


(continua...)

Um outro mundo é possível ... sem as Instituições Financeiras Internacionais


Até a década de 50 os países eram apenas isso: países. Durante a presidência dos Estados Unidos de Harry Truman, os países foram classificados em “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, dependendo de se estavam perto ou longe do modelo dos EUA. Desde a época o adjectivo negativo “subdesenvolvido” tem sido substituído pelo adjectivo mais positivo de “em desenvolvimento”. O facto de que a maioria dos países “em desenvolvimento” estão agora em pior situação social, económica e ambiental do que estavam quando eram classificados como tais não é nem sequer assunto de muito debate.

O que é importante –para os países “desenvolvidos”- é manter a ilusão de que os países “em desenvolvimento” PODEM efectivamente desenvolver-se e ser similares ao modelo ocidental. Esse é precisamente um dos objectivos das Instituições Financeiras Internacionais (IFIs): manter viva a ilusão. O seu objectivo é logicamente outro: garantir que os recursos dos países “em desenvolvimento” continuem fluindo para as nações “desenvolvidas” e economicamente ricas que continuem ainda mais ricas no processo, enquanto os países “em desenvolvimento” continuem mais pobres. Lamentavelmente as IFIs têm tido sucesso até agora.

As duas IFIs mais conhecidas são logicamente o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, mas elas são assistidas na mesma tarefa pelos Bancos de Desenvolvimento Africano, Asiático e Interamericano, bem como pelo Banco Europeu de Investimento e uma série de Agências de Crédito às Exportações do Norte.

O financiamento de todas essas instituições –que supostamente têm o fim de assistir no “desenvolvimento” dos países - tem resultado num amplo empobrecimento e destruição ambiental, enquanto ao mesmo tempo aumenta a dívida externa nos países do sul com a resultante dependência dos governos nessas mesmas instituições. Essa situação de dependência é então usada pelas IFIs para impôr condições favoráveis –que claramente afectam a soberania dos países - para o investimento e a apropriação de recursos pelo norte.

No caso das florestas, os rastos das IFIs estão presentes –directa ou indirectamente - na maioria dos processos que levam ao desmatamento. Tomemos o caso da região amazónica. O desmatamento foi em primeiro lugar possível pelos empréstimos das IFIs para a construção de rodovias na floresta. Isso fez possível o corte de madeira com fins industriais, a criação de gado, a agricultura em grande escala, a mineração, as barragens e a exploração de petróleo, resultando em destruição florestal extensiva e violações aos direitos humanos. A maioria dessas actividades também foram possíveis através dos empréstimos das IFIs. Apesar do despojamento de recursos, os países da região amazónica endividaram-se e as condições das IFIs forçaram-nos a aumentar a exploração de recursos para exportação com o fim de pagar a dívida externa. Ao mesmo tempo, incluíram-se imposições adicionais nos programas de ajuste estrutural que abriram ainda mais as riquezas dos países para as corporações do norte. Um padrão similar pode ser facilmente identificado na África e na Ásia tropical.

Inclusive agora, quando os ministros de finanças das sete nações mais ricas do mundo prometeram recentemente cancelar as dívidas dos países mais pobres perante o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, eles estão perseguindo os mesmos objectivos que antigamente. Isso fica claro no parágrafo 2 da declaração dos ministros de finanças, que diz que para poder ser liberados da dívida, os países em desenvolvimento devem “...estimular o desenvolvimento do sector privado” e eliminar “impedimentos ao investimento privado, tanto nacional como estrangeiro”. Isso significa abrir as portas ainda mais às corporações transnacionais bem como privatizar tudo o que possa ser privatizado, incluindo as necessidades básicas das pessoas –como água, atenção da saúde, segurança social, educação, bens de propriedade do estado de qualquer tipo e até a atmosfera (através do comércio de carbono relacionado com a mudança climática).

É claro que o que as pessoas e o meio ambiente necessitam é exactamente o contrário: entre outras coisas, estimular o desenvolvimento comunitário, estabelecer impedimentos claros ao investimento privado destruidor, garantir o livre acesso das pessoas à água, à atenção da saúde, à segurança social, à educação. Enquanto empurram na direcção oposta, resulta claro que as IFIs não fazem parte da solução aos problemas do mundo, mas são um dos actores principais no seu incremento. São ferramentas utilizadas pelos poderosos em actividades socialmente e ambientalmente destruidoras.

Portanto, um outro mundo é possível sem essas instituições.

Texto do:
Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais – Amigos da Terra Internacional

1.11.05

470 físicos contra a política militar norte-americana


Mais de 470 físicos norte-americanos, 7 dos quais laureados com o prémio Nobel, acabaram de assinar uma petição a mostrarem-se contra o projecto do Departamento da Defesa dos Estados Unidos que visa autorizar o recurso às armas nucleares contra os países não nuclearizados.
Esta alteração é vista como um preparativo para uma possível e futuro ataque ao Irão com armas nucleares.
Recorde-se que nos anos 1960 foi consagrada nos Estados Unidos a doutrina política segundo a qual o emprego da bomba atómica só se pode dar em resposta ao ataque de uma potência nuclear. Ora segundo reza o texto que pretende visar a nova orientação da doutrina militar dos Estados Unidos, o Exército dos Estados Unidos poderá desencadear uma ataque nuclear « a fim de favorecer o fim de um conflito armado, para garantir o sucesso de operações militares norte-americanas e internacionais, para prevenir toda a tentativa de emprego de armas de destruição maciça da parte do adversário ou para responder a uma ataque com armas de destruição maciça».
Segundo os signatários desta petição contra esta nova doutrina militar o governo norte-americano pretender ampliar as possibilidades de uso das armas nucleares, convencionais, químicas e biológicas, o que significa também a intenção governamental dos Estados Unidos de enterrar o tratado de não proliferação de armas nucleares.

Fonte:
http://www.infoscience.fr/breves/breves.php3?niv=1&Ref=1793

Anti-arte e a sua recuperação pelo mercado



As primeiras vanguardas, tais como o fauvismo, o expressionismo ou o cubismo, apesar de veicularem propostas revolucionárias, não conseguiram superar as categorias convencionais com que a Academia tradicionalmente divide e classifica as artes: pintura, poesia e escultura. Aqueles artistas vanguardistas do princípio do século XX não só continuaram a pintar quadros e esculpindo formas como ainda continuaram aferrados à ideia de estilo que caracterizou os seus respectivos movimentos.
Fugindo aos horrores da guerra, um grupo de poetas e artistas vanguardistas refugiaram-se, entretanto, em Zurique e concluíram então que a racionalidade do pensamento bem assim como o refinamento das artes não serviram para travar o massacre da guerra pelo que, em consequências, vieram a optar por uma arte irracional e provocadora. É assim que surge por volta de 1916 o dadaísmo, um movimento artístico que renega a pintura de cavalete, a poesia discursiva e a estatuária representativa para, em alternativa, proporem umas obras híbridas, nas quais o quotidiano e o fantástico se dão as mãos aos misturarem objectos, palavras, cores, sons, volumes e movimentos numa mesma obra, sem atender a regras. Mas ainda foram mais longe quando qualificaram os seus próprios actos e criações como de antiarte e, coerentemente, alguns deles renunciaram ao conceito de autoria sobre a qual repousava a visão romântica de arte.

Os ready made de Marcel Duchamp, os poemas optofonéticos de Raoul Hausmann, os «merz» de Kurt Schwitters, os collages de Max Ernst, as películas rítmicas de Hans Richter, os relevos biomórficos de Jan Arp , os mecanismos de Francis Picabia, as proclamações políticas de Johannes Baader, as «raiografias» de Man Ray, a música para mobilar de Eric Satie, as denuncias antimilitaristas de George Groszy e as fotomontagens de Hannah Hoch são ainda hoje fontes inesgotáveis de sugestões para a criação.
A enorme variedade de fenómenos artísticos que originaram as vanguardas entre 1905 e 1914, ano em os grupos dadaístas se dissolveram, constituiu o caldo de cultura de praticamente todas as tendências e comportamentos artísticos do século XX. De resto, o enorme potencial criativo que deram mostram ainda é fonte e génese de muitas correntes e atitudes, quando sobre o seu acervo e influência se aplicam os novos meios e tecnologias.
Assim, por exemplo, as propostas dadaístas não influenciaram apenas o surrealismo mas marcaram ainda o dripping de Jackson Pollock, a aleatoriedade sonora de John Cage, os objectos pop de Claes Oldenburg, as apropriações de Jeff Koons, a técnica de amontoamentos de Robert Rauschenberg e de Arman, os happenings do grupo Fluxus e as derivas da Internacional Situacionista, bem como a poesia fonética de Erns Jandel, que constituem algumas das amostras da grande herança artística que o dadaísmo deixou.
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Infelizmente a irreverência subversiva do dadaísmo tem vindo a perder-se senão mesmo a desaparecer. O humor, a paródia, a irracionalidade e o absurdo que tinham sido as armas contra a situação opressiva da época são hoje, desgraçadamente, meros recursos compositivos utilizados, sem qualquer sentido crítico, pelos artistas nas suas obras convertidas em meras banalidades.
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Perante a provocação e a surpresa de que se revestiam as criações dadaístas, muitas das actuais obras contemporâneas não deixam de gerar a quem as vê uma sensação de fastio, de já visto e de indiferença. Os antigos recursos subversivos dos dadaístas converteram-se nas mãos dos artistas do actual mercado em meros elementos decorativos que não param de lhes encher as carteiras

Uma outra cidade é possível



Uma cidade justa é aquela em que a justiça, a alimentação, a habitação, a educação, a saúde e a esperança estejam distribuída de maneira justa

Uma cidade bela é aquela em que a arte, a arquitectura e a paisagem estimulem a imaginação e o espírito

Uma cidade criativa é aquela em que o pensamento livre e o experimentalismo mobilizem o potencial criativo dos seus cidadãos e permitam uma resposta rápida às mudanças.

Uma cidade ecológica é aquela que minimize o seu impacte ecológico, aquela em que a paisagem e a parte construída estejam em equilíbrio, e em que os edifícios e as infraestruturas sejam seguros além de se mostrarem eficientes no uso dos recursos.

Uma cidade de fácil contacto e mobilidade, na qual se troque informação entre as pessoas como por via electrónica

Uma cidade compacta e policêntrica que proteja o campo, para que o principal sejam as comunidades e a sua integração nos bairros e que se maximize a proximidade.

Uma cidade diversa em que uma ampla gama de actividades se desenvolvam, criem animação, inspiração e fomentem uma intensa vida pública

Autor: H. Girard

A linguagem do poder descodificada


Quando eles dizem segurança, querem falar de repressão

Quando eles falam de modernização, querem dizer desorganização e desmantelamento social

Quando eles falam de reestruturação, estão a confessar o seu objectivo de desempregar alguém.

Quando eles se referem a uma redução de custos, querem referir-se a uma repartição de prejuízos.

Quando eles mencionam a confiança das famílias querem referir-se ao poder de compra

Quando eles escrevem operações cirúrgicas, deve-se entender por bombardeamentos massivos

Quando eles falam de Planos Sociais, referem-se a despedimentos colectivos

Quando eles falam de danos colaterais, referem-se a bombardeamentos a populações civis

Quando eles falam de abertura do capital, querem referir-se a uma privatização

Quando falam de comunicação, querem referir-se a propaganda.

Quando falam de flexibilidade, querem referir-se a trabalho precário.

Quando falam de recursos humanos, estão a pensar nos trabalhadores

Ver:
http://www.legrandsoir.info/article.php3?id_article=29

(continua…)

Catástrofe ecológica no Reno em 1 de Novembro de 1896

(o pior acidente ecológico na Europa depois de Tchernobil)

No dia 1 de Novembro de 1986, a água usada para combater um grande incêndio na fábrica Sandoz, na Suíça, empurrou produtos altamente tóxicos para o rio, matando por envenenamento todos os seres vivos no Alto Reno.

O incêndio que começou na noite de 1 de Novembro de 1986, na fábrica da Sandoz, em Basileia (Suíça), abalou a confiança da população europeia na indústria química. Em poucos minutos, os seis mil metros quadrados do depósito 956 foram consumidos pelas chamas. Mais de mil toneladas de insecticidas, substâncias à base de ureia e mercúrio transformaram-se em nuvens tóxicas incandescentes. Tambores de produtos químicos explodiram no ar como se fossem granadas.

O cenário era tão assustador que as autoridades de segurança pública, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, deram alarme geral na região de Basileia. Os moradores da vizinhança foram obrigados a fechar as janelas e permanecer dentro de casa. Quatrocentas mil pessoas estavam em perigo. Directamente ao lado do prédio em chamas, havia um depósito de sódio e fosfórico (cloreto de carbonila) - gás tóxico, utilizado como arma mortífera na Primeira Guerra Mundial.

Protestos da população

Milhares de suíços reagiram com manifestações contra a indústria química, responsável por 50% dos empregos em Basileia. Embora não houvesse mortos e feridos entre os seres humanos, a vítima fatal do acidente foi a natureza. A água usada para apagar o incêndio dissolveu e arrastou para o Reno 30 toneladas de produtos químicos, principalmente agrotóxicos venenosos.
Nos dias seguintes, morreram todos os seres vivos do rio, que abastece 20 milhões pessoas - de Basilaia a Rotterdam (Holanda) - com água potável. Entre Basileia e Karlsruhe (na Alemanha) foram encontradas mais de 150 mil enguias mortas. O rio ficou ecologicamente morto após a maior catástrofe já ocorrida no Alto Reno, e que é considerada a pior catástrofe ecológica depois do acidente com o reactor nuclear de Tchernobil.

A CNT faz hoje 95 anos


A CNT, central anarco-sindicalista espanhola, faz hoje 90 anos de existência. Foi no ano de 2010 que no dia 30 de Outubro e 1 de Novembro que se celebrou o Congresso fundacional da CNT, realizado no Salão das Belas Artes de Barcelona e no qual foi eleito José Negre como seu secretário-geral.

Recorde-se que no Estado espanhol já tinham sido constituídas várias organizações anarco-sindicalistas desde a criação em Londres em 1864 da Associação Internacional de Trabalhadores (AIT), a chamada I Internacional.
Com efeito, em 1870 aparece a Federación Regional Española (1870-1881); em 1881 é criada a Federación de Trabajadores de la Regional Española (1881-1888); de 1889 a 1896, surge o Pacto de Unión y Solidaridad de la Región Española; de 1900 a 1906, é a vez da Federación Regional de Sociedades de Resistencia de la Regional Española; em 1907, a Unión Local de Sociedades Obreras de Barcelona; de 1907 a 1910 existiu a Federación Solidaridad Obrera, primeiro a nível local (Barcelona), e depois regional (Cataluña); e é a partir daqui e a pedido de outras organizações operárias do Estado espanhol que foi convocado o Congresso de fundação da CNT, que se realizou em 30 Outubro e 1 de Novembro de 1910.

30.10.05

As 10 pessoas mais pobres do mundo


Em exclusividade mundial e em estreita colaboração com a revista Fortune, CNN e a Rockfeller Fondation, o website Pimenta Negra sente-se no dever moral de partilhar com os seus leitores o Ranking mundial das 10 pessoas mais pobres do planeta:


!º lugar – A. Boudadi ( da Etiópia) – possui uma fortuna calculada em 0.,00091 dólares

2º - K.Tiba ( do Burundi) – com um fortuna calculada em 0,00095 dólares

3º - G. Condami ( Rep. Dem. Do Congo) – com 0,000103dólares

4º - M. Banané ( da Serra Leoa) – com 0,00146 dólares

5º - O. Isal ( da Eritreia) – com 0,00150 dólares

6º - F. Abdullah ( do Tadjiquistão) – com 0,00169 dólares

7º - R. Paédé – da Guiné-Bissau) – com 0,00183 dólares

8º - H. Honoré ( do Malawi) – com 0,00184 dólares

9º - T. Abdoula ( de Moçambique) – com 0,00202 dólares

10º - I. Sagha ( do Níger) – com 0,00210 dólares


Nota de esclarecimento:
Como é óbvio na base desta lista encontra-se o PIB per capita. Para melhor análise comparativa poderemos adiantar que, segundo valores do ano de 2003, o PIB por habitante no Luxemburgo é de 45.778 dólares, o da Noruega é de 42.222 dólares , o da Suíça é de 36.828 dólares e o dos Estados Unidos é de 36.731 dólares por habitante. Ou seja: cerca de 260 a 500 vezes superiores aos habitantes mais pobres do planeta.
Os habitantes dos países do Norte capitalista ganham em média por dia 200 vezes mais que os 100 milhões de residentes dos países pobres.

Nota final:
Cada um pode achar tudo isso normal. E acomodar-se.
Mas para quem estas realidades perturbam e são inaceitáveis urge fazer algo no sentido de tornar o mundo mais humano, solidário e justo.
E - porque não ? - começar por…

Viver na simplicidade, para que outros possam... simplesmente viver.

Competitividade (para um glossário anti-neoliberal) (1)


Competitividade – novo/velho jogo económico que consiste em utilizar os trabalhadores como peões com vista ao desmantelamento social, e a esmagar os operários às mãos dos accionistas em proveito dos dividendos destes.
Neste jogo o jackpot é alcançado quando se convence o operário que o accionista é ele próprio.


Cliente – termo de origem latina que significava «aquele que obedece». Exemplos: um cliente de uma grande superfície, da TAP, de uma farmácia, …,etc. Todos parecem-se com o protótipo do cliente em geral para quem a publicidade faz passar a ideia que é para ele que uma empresa trabalha!!!


Insegurança – sentimento difuso e confuso , que surge da crença dos homens que nasceram para ficar toda a vida debaixo das saias da mãe.

(continua)

Nota: as definições foram retiradas da net

2 minutos de silêncio


(dois minutos de silêncio no próximo dia 11 de Novembro)

Nós conhecemos a guerra, a tirania, e a balbúrdia verbal. Assistimos à luta do vizinho contra o outro vizinho, à tribo contra a outra tribo, à nação contra outra nação, e um credo contra outro credo. Nós temos vindo também a assistir à crescente tensão mundial. Vemos que, ainda por cima, deitam petróleo para cima de todo esse ódio. E vemos como a paz custa vencer.
Estamos perante um conflito nebuloso cujo fim não está à vista. Dizem-nos que há uma parte e uma outra em cada lado da barricada. Dizem-nos que o nosso modo de vida está em perigo e que é forçoso que vençamos a todo o custo. Mas, como os caixões se multiplicam, não podemos deixar de lamentar as nossas próprias perdas.
Mas o horror de guerra infinita traz consigo uma oportunidade para uma resistência verdadeiramente global.
E assim criaremos um lado novo - o lado que quer entender, o lado que procura as raízes da nossa luta, o lado que triunfará por cima de todo esse conflito.
Nós inventaremos um ritual para transcender esse jogo duplo em que querem transformar as mortes deles nas nossas mortes, e as nossas nas mortes deles. Desafiaremos todos para fazerem o mesmo.
Dois minutos é tudo aquilo que nós precisamos para este ritual global de reconciliação. No próximo dia 11 de Novembro ficaremos em silêncio durante dois minutos em honra de todas as vítimas inocentes - em Londres, no Afeganistão, em Nova Iorque, no Iraque, na Tchechenia, em Madrid. Dois minutos de silêncio, de recordação, de reflexão, a fim de considerar as escolhas que nós fizemos e o caminho que nós devemos trilhar no futuro.

Nota: iniciativa lançada pelo colectivo que edita a conhecida revista canadiana Adbuster

29.10.05

A Amazónia está a sofrer uma das suas maiores secas


A selva amazónica está a secar. As chuvas deste ano foram as mais baixas dos últimos 35 anos. Como consequência da falta de precipitações já existem rios e lagos secos e os prejuízos na agricultura elevam-se a muitos milhões de euros. Muitas povoações encontram-se isoladas porque a sua única via de comunicação são os barcos que circulam através do emaranhado fluvial que se estende por todo o território da selva amazónica.
Em Julho passado caíram 30,8 litros por metro quadrado em média, quando o normal para esse período são 87,5 litros. Em Agosto passado a chuva foi de 66% dos valores normais.
Greenpeace denuncia a situação grave que se vive e que acresce ao problema da desflorestação que tem ameaçado a selva amazónica.
O rio Amazonas perdeu dois metros de altura no último ano, apesar de ter ainda 17 metros de altura. Mas o problema é que muitos dos afluentes e lagos secaram literalmente. Do lago Curulai, no Estado brasileiro do Pará, por exemplo, só sobra um fina camada de água sobre a qual uma vaca pode caminhar.
A falta de água traduz, sem dúvida, uma catástrofe ambiental. O governo brasileiros já mobilizou o Exército para distribuir água, alimentos e medicinas às populações isoladas do interior da selva, que se calcula serem em número de 40.000. Os habitantes da cidade de Manaquiri estão praticamente isolados sendo necessário o seu abastecimento via helicóptero.
Alem disso, a seca tem contribuído para o aumento vertiginoso os incêndios.
Em suma: os ecossistemas valiosíssimos estão em vias de se perder, com incalculáveis perdas, com as populações a viver momentos dramáticos.

A revolução do quotidiano


Transformar o mundo e reivindicar a vida é a palavra de ordem efectiva dos movimentos insurreccionais... a revolução faz-se todos os dias, apesar dos especialistas em revolução e em oposição a eles: uma revolução sem nome, como aquilo que pertence à experiência vivida. Ela prepara, na clandestinidade do quotidiano dos gestos e dos sonhos, a sua coerência explosiva"

(excerto do livro "A arte de viver para as novas gerações", de Raoul Vaneigem)

Poema do amor


Este é o poema do amor.
O poema que o poeta propositadamente
escreveu só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.
Este é o poema do amor.

António Gedeão

27.10.05

Contrato tácito das pessoas que dormem…


O mundo em que vivemos assenta num contrato tácito entre os conformistas amorfos e cujo conteúdo é o seguinte:

1) Aceito a competição como base do nosso sistema social e económico, mesmo se tenho consciência que o seu funcionamento gera frustração e cólera por entre a esmagadora maioria dos perdedores.

2) Aceito ser humilhado ou explorado na condição de também eu humilhar e explorar quem quer que se encontre abaixo de mim na hierarquia social

3) Aceito a exclusão social dos marginais, desadaptados e dos fracos em geral, uma vez que a integração social tem que ter limites

4) Aceito remunerar os bancos a fim destes investirem o meu salário conforme as suas conveniências, mesmo sem receber qualquer dividendo pelos seus gigantescos lucros. Aceito igualmente que os bancos me exijam uma comissão elevada para me emprestarem dinheiro que não é outro senão o dos seus clientes.

5) Aceito que permanentemente sejam congeladas e sejam lançadas fora toneladas de alimentos a fim que os preços não baixem, o que é preferível a dá-los às pessoas necessitadas e que permitiriam salvar algumas centenas de milhar de pessoas da fome, cada ano que passa.

6) Aceito que seja expressamente proibido pôr fim aos seus dias, mas que seja perfeitamente tolerável que se vá morrendo aos poucos ao inalar-se ou ingerir-se substâncias tóxicas autorizadas pelos Estados.

7) Aceito que se faça a guerra para fazer reinar a paz. Aceito que em nome da paz a primeira despesa pública dos Estados seja para o orçamento do exército. Aceito igualmente que os conflitos sejam criados artificialmente a fim de garantir o escoamento dos stocks de armas e de fazer girar a economia mundial.

8) Aceito a hegemonia do petróleo sobre a nossa economia, muito embora se trate de uma economia de elevado custo e geradora de poluição, pelo que estou de acordo em travar ( e mesmo impedir) qualquer substituição, mesmo se se vier a descobrir um qualquer meio gratuito e ilimitado de produzir energia, o que seria uma grande perda e prejuízo elevado para o nosso sistema económico.

9) Aceito que se condene a morte do próximo, salvo se o Estado decretar que se trata de um inimigo, caso esse em que devemos então encorajar a que seja morto.

10) Aceito que se divida a opinião pública criando partidos de direita e partidos de esquerda, que passarão o seu tempo a combater-se entre si, dando a impressão de fazer avançar o sistema. Aceito, além disso, todas as divisões possíveis e imagináveis, visto que elas me permitirão canalizar a minha cólera para os tais inimigos referenciados, e cujo retrato será agitado perante os meus olhos.

11) Aceito que o poder de moldar e formatar a opinião pública, outrora entregue às religiões, esteja hoje nas mãos dos negociantes, não eleitos democraticamente e que são totalmente livres de controlar os Estados, já que estou plenamente convencido do bom uso que não deixarão de fazer daquele poder sobre a opinião pública.

12) Aceito a ideia que a felicidade se resume ao conforto, amor ao sexo, e à liberdade de satisfazer todos os desejos, pois é isso que a publicidade não se cansa de me transmitir. Quanto mais infeliz, mais eu hei-de consumir, e ao desempenhar com competência este meu papel, estou a contribuir para o bom funcionamento da nossa economia.

13) Aceito que o valor de uma pessoa seja medido em função da sua conta bancária, assim como a sua utilidade social esteja dependente da sua produtividade, e não tanto da suas qualidade, pelo que será excluído o sistema quem não se mostre suficientemente produtivo.

14) Aceito voluntariamente que sejam prodigamente pagos os jogadores de futebol e os actores e actrizes, e a um nível muito inferior os professores e médicos, profissionais encarregados da educação e da saúde das futuras gerações.

15) Aceito que sejam lançados para os lares, especialmente destinados para esse fim, as pessoas de idade, cuja experiência poderia ser útil, uma vez que sendo nós a civilização mais evoluída do planeta ( e, sem dúvida, do universo) sabemos bem que a experiência não se partilha nem se transmite.

16) Aceito que todos os dias sejam apresentadas as notícias mais terríficas e mais negativas do mundo a fim que possa apreciar até que ponto é normal e possa dar-me por satisfeito a sorte que tenho em viver numa sociedade ocidental, tanto mais que incutir o medo nos nossos espíritos só pode ser benéfico para todos nós.

17) Aceito que os industriais, os militares e os políticos se reúnam regularmente para tomar decisões, sem nos consultar, sobre o futuro da vida e do planeta.

18) Aceito consumir carne bovina tratada com hormonas sem que eu esteja informado sobre o assunto. Aceito que a cultura dos transgénicos se expanda por todos os sítios do mundo, permitindo às transnacionais do sector agro-alimentar patentear as sementes, recolher dividendos e colocar sob o seu jugo toda a agricultura mundial.

19) Aceito que os grandes bancos internacionais emprestem dinheiro aos países desejosos de adquirir armamento, escolher aqueles que farão a guerra e os que a não farão. Estou plenamente consciente que mais vale financiar as duas partes beligerantes a fim de estar seguro que o conflito possa durar o mais tempo possível, de modo a ser possível pilhar os seus recursos caso não possam reembolsar os empréstimos recebidos.

20) Aceito que as empresas multinacionais se abstenham de aplicar os progressos .sociais do ocidente nos países desfavorecidos. Considerando que é uma verdadeira beleza vê-los a trabalhar, prefiro que seja permitido o trabalho de crianças em condições infra-humanas e precárias e que, em nome dos direitos do homem e do cidadão, não haja o direito de ingerência nesses assuntos.

21) Aceito que os políticos possam ter uma duvidosa honestidade e, por vezes, sejam corruptos, perante as fortes pressões de que eles são alvos, desde que para a maioria dos cidadãos a regra seja a tolerância zero.

22) Aceito que os laboratórios farmacêuticos e os industriais do sector agro-alimentar vendam aos países subdesenvolvidos produtos fora do prazo ou com componentes cancerígenas, e que estejam interditas no ocidente.

23) Aceito que o resto do mundo não-ocidental possam pensar diferentemente de nós, sob a condição de não virem para cá exprimir as suas crenças, e ainda menos tentar explicar a nossa História com as suas noções filosóficas primitivas.

24) Aceito a ideia que não existe senão duas possibilidades na natureza, a saber: caçar ou ser caçado. E se somos dotados de uma consciência e de linguagem, não é com certeza para saber escapar a esta dualidade, mas sim para justificar porque é que agimos assim.

25) Aceito considerar o nosso passado como uma sucessão ininterrupta de conflitos, conspirações políticas e de vontade para obter hegemonias, mas eu sei que hoje tudo isso já não existe porque estamos no apogeu na evolução humana, e que as únicas regras que regem o nosso mundo são a busca da felicidade e da liberdade de todos os povos, tal como ouvimos dizer constantemente nos discursos políticos.

26) Aceito sem discutir e considero como verdades todas as teorias propostas para explicar o mistério das nossas origens. Além disso, aceito que a natureza tenha demorado milhões de anos para criar um ser humano, para o qual o único passatempo é a destruição da sua própria espécie daqui a alguns instantes.

27) Aceito que a procura do lucro seja o fim último da Humanidade, e que a acumulação das riquezas seja realização efectiva da vida humana.

28) Aceito a destruição das florestas, a quase destruição da fauna marítima dos rios e eoceanos. Aceito o aumento da poluição industrial e a dispersão de venenos químicos e de elementos radioactivos na natureza. Aceito a utilização de todas as espécies de aditivos químicos na minha alimentação, porque estou convencido que, se aí são introduzidos, é porque são úteis e desprovidos de risco.

29) Aceito a guerra económica que alastra pelo planeta, mesmo se sinto que ela nos conduz para uma catástrofe sem precedentes.

30) Aceito esta situação e admito que não posso fazer absolutamente nada para a mudar ou melhorar.

31) Aceito ser tratado como besta, pois feitas as contas, penso que não valo mais que isso.

32) Aceito não levantar qualquer questão, de fechar os olhos a tudo isso e em não me opor a nada, uma vez que estou demasiado ocupado com a minha vida e já tenho preocupações que me cheguem. Aceito mesmo defender até à morte este contrato se mo pedirem.

33) Aceito pois, consciente e voluntariamente, este meu triste destino contratual que me colocaram à frente dos olhos e que vou assinar, apesar de tal me impedir de ver a realidade das coisas.


Nota final:
Caso estejas contra e recusas subscrever este contrato, podes em alternativa começar por utilizar os recursos que a amizade e o amor, a fraternidade e a responsabilidade partilhada, te oferecem e passar a reflectir, a conceber, a ousar e a tecer uma teia não-venenosa, mas saudável, para manter vivo o nosso planeta e garantir à Humanidade o direito a viver com justiça e liberdade.
Todo o atraso é demais.

(Texto retirado da net e de autoria dos Amigos da Terra.)

26.10.05

A mundialização do amor maternal (ou a transferência dos cuidados maternais do Sul para os países do Norte)


As mulheres do Sul são as novas amas dos países do Norte. Quando emigram, deixando para trás maridos e filhos, é geralmente para cuidarem da progenitura das famílias abastadas dos países do Norte.
Através delas regista-se uma deslocalização de tipo novo entre o Sul e o Norte: uma transferência de cuidados e de atenção, enfim, de amor maternal do Sul para os países do Norte.
No fundo, é a velha extracção (importação) de recursos do países pobres para os países ricos, mas desta vez a transferência recai sobre um recurso especial: o amor maternal



Carlos e Princela Bautista não sabem, mas estas duas crianças de uma pequena aldeia das Filipinas, e que vivem longe dos seus pais emigrantes, são as beneficiárias de uma declaração internacional: o artigo 6º da Declaração das Nações Unidas dos Direitos da Criança consagra que qualquer criança «tem necessidade de amor e compreensão», que «deve tanto quanto possível crescer sob a salvaguarda e a responsabilidade dos seus pais», assim como «as crianças com pouca idade não devem , salvo circunstancias excepcionais, ser separadas da sua mãe». Estes desejos, por agora, não passam de votos piedosos que estão longe de proteger as crianças expostas ao fenómeno da globalização.
A família Bautista não ficou, na realidade, preservada dos custos humanos da globalização. No seu quarto de dormir, nas traseiras da casa do seu empregador, em Washington DC, Rowena Bautista, a mãe, conserva 4 fotografias em cima da mesinha de cabeceira: duas fotografias dos seus filhos naturais, nas Filipinas, e outras duas fotos com as crianças que esteve a cuidar até há bem pouco tempo nos Estados Unidos. As fotografias dos seus filhos tem 5 anos. As outras duas mostram, conforme ela confidenciou a um jornalista do Wall Street Journal, tudo o que lhe faltou. Já dois Natais que ela não vai a casa. Na última vez, o seu filho, hoje com 8 anos, mal se aproximou dela, quando a interpelou: «porque é que vieste?»
Filha de professora e de um engenheiro, Rowena fez estudos de engenharia durante 3 anos, abandonou-os para ir para o estrangeiro à procura de trabalho e de aventura. Alguns anos mais tarde, por altura de uma viagem, apaixonou-se por um operário africano de construção civil do qual teve 2 filhos. Não encontrando trabalho nas Filipinas, o pai dos seus filhos teve de ir trabalhar para a Coreia do Sul e, desde então, nunca mais apareceu.

Uma Transplantação de afectos

Rowena teve de voltar a partir para os países ricos, juntando-se á massa crescente das mães dos países pobres que trabalham durante períodos longos no estrangeiro por não poderem garantir a subsistência mensal nos seus próprios países. Ela deixou os seus filhos entregues à avó, contratou alguém para ajudar à lide da casa e meteu-se num avião em direcção a Washington DC. Arranjou um trabalho de ama com o mesmo salário que um médico nas Filipinas. Tal como Rowena, 40% das 792.000 pessoas que trabalham na economia doméstica nos Estados Unidos são estrangeiras. E tal como Rowena, 70% dos emigrantes das Filipinas são mulheres.
«O meu bebé» - é assim que Rowena chama à pequena Noa, a criança norte-americana de que ela cuida. Uma das primeira palavras pronunciadas por Noa foi «Ena«, diminutivo de Rowena. Noa, inclusivamente, começou a tagarelar a língua que Rowena falava nas Filipinas. Rowena acorda Noa às 7 horas da manhã, leva-a ao centro de recreio, está com ela no baloiço, e adormece-a na sua sesta. Rowena confessa: «Dou a Noa o que não posso dar aos meus filhos». Em troca, a criança norte-americana dá a Rowena o que ela não recebe em casa. Rowena não hesita: «ela dá-me a impressão de ser uma mãe».
Os filhos de Rowena vivem numa casa com 4 quartos junto de outros familiares, dos quais 8 são crianças que têm também algumas das suas mães no estrangeiro. A figura central na vida destas crianças – a quem eles chamam «mamã» - é na realidade é avó. Esta última trabalha como professora com um horário inacreditavelmente longo – das 7 horas da manhã às 9 horas da noite. Rowena não fala do seu pai, o avô das crianças. Nas Filipinas os homens não se envolvem na educação das crianças.
A vida de Rowena reflecte uma tendência mundial de uma enorme amplitude: a importação de cuidados e de amor dos países pobres para os países ricos. Desde há algum tempo, profissionais altamente qualificados deixam os seus países de origem, países pobres do Sul, com os seus hospitais mal equipados, escolas semi-abandonadas, e a crónica falta de perspectivas profissionais, em direcção aos países ricos, que lhes oferecem possibilidades de trabalho mais interessantes e melhor remuneradas. Enquanto as nações ricas se tornam cada vez mais ricas e as nações pobres cada vez mais pobres, este fluxo de capacidades e de competências de sentido único não cessa de aumentar o fosso entre uns e outros. A esta fuga de cérebros ( brain drain) acresce actualmente uma tendência paralela, menos visível pás carregada de consequências. As mulheres, que cuidam das crianças, idosos e doentes nos seus países pobres, deslocam-se para tomar conta das crianças, idosos e doentes dos países ricos, quer como empregadas domésticas, quer como amas ou ajudantes. Trata-se do que se chama a fuga dos cuidados maternais ( em inglês, care drain).
Quaisquer que sejam as medidas adoptadas por estas mães em relação aos seus filhos, a maior parte delas ressente-se dolorosamente da separação, acusando uma culpabilidade e remorsos contra si próprias. Numa entrevista, Vicky Diaz, uma professora diplomada, que deixou os seus 5 filhos nas Filipinas confessa: «A única coisa que posso fazer é dar todo o meu amor à criança de que tomo conta, na falta dos meus filhos». Esta realidade que está a tomar proporções desmedidas bem pode ser encarada como uma verdadeira operação mundial de transplantação de afectos.
Os filhos, numerosos, sofrem tanto como as suas mães. Estima-se, por exemplo, que 30% das crianças filipinas – qualquer coisa como 8 milhões – vivem em famílias em que, pelo menos, um dos pais partiu para o estrangeiro. Encontramos crianças na mesma situação em África, na Índia, no Sri Lanka, na América Latina e na ex-União Soviética. Como é que reagem? Não muito bem, segundo uma investigação do Centro de migrações de Manila, conduzida junto a mais de 700 crianças. Comparadas aos seus colegas de escola, os filhos dos trabalhadores emigrantes sofrem mais doenças, mostram-se mais coléricos, confusos e apáticos, além de que os seus resultados escolares se mostram particularmente fracos.
Outros estudos sobre esta população revelam um aumento de delinquência e de suicídios infantis. Quando se pergunta as estas crianças se gostavam de deixar, uma vez adultos, os seus filhos para emigrarem, a resposta é quase sempre negativa.
Se compararmos as carências afectivas de que sofrem estas crianças com a profusão de amor de que beneficiam as crianças dos países ricos, não é difícil de experimentar algum sentimento de injustiça. Na sua pesquisa sobre mulheres de cor, empregadas como domésticas, Sau-Ling Wong declara que o tempo e a energia que estas trabalhadoras despendem para os seus empregadores é à custa dos seus próprios filhos. Mas não é só o tempo e a energia que aqui estão em causa: é também o amor. Neste sentido, podemos falar de amor como um recurso desigualmente distribuído – um recurso que se retira de um lugar em proveito de outro.
Pode-se bem entender como os pais dos países ricos ficam felizes quando as amas re-direccionam o seu amor da maneira como desejam. Aliás, o amor das amas dos países do Sul para com os seus filhos é percepcionado por alguns empregadores como um produto natural da «cultura do terceiro-mundo», que seria muito mais rica no plano afectivo, e caracterizada por laços familiares mais calorosos, uma vida comunitária intensa e toda uma tradição de entrega maternal. Ao contratarem uma ama dos países do Sul, muitos empregadores esperam implicitamente estar a importar a «cultura indígena» de um país pobre, a fim de cobrir as falhas em matéria de cuidados e de afectos que sofre o seu próprio país rico.
Quando indagada pelas razões por que a relação das mães anglo-saxónicas com os seus filhos é tão diferente do das mulheres nas Filipinas, a directora de uma creche coloca a seguinte hipótese: «As mulheres das Filipinas crescem num meio mais descontraído e mais afectuoso. Elas não são tão ricas como nós, mas não são tão apressadas por falta de tempo, não são tão materialistas e ansiosas. Têm uma cultura mais de amor, e orientada sobre a família.» Uma mãe, advogada norte-americana, tem uma opinião similar: « Cármen adora muito simplesmente o meu filho. Ela não se inquieta se ele sabe ou não o alfabeto, ou se está numa boa escola. Ela tem prazer, muito simplesmente, em estar com ele. E, de facto, com os pais tão ansiosos e sobre-ocupados como nós, é isso que o Tomás precisa. Eu amo muito o meu filho. Mas as coisas são aquilo que são. Cármen faz-lhe mais bem do que eu.»

Uma alquimia cultural especial

As amas filipinas entrevistadas na Califórnia falam de uma outra maneira acerca do amor que elas dão às crianças que estão sob o seu encargo. Para elas, esse amor não é um produto de importação proveniente de oásis rurais; ele desenvolve-se em parte sobre os ombros da ideologia norte-americana do laço afectivo mãe-criança. E é reforçado pela profunda solidão destas mulheres assim como pela nostalgia que elas sentem dos seus próprios filhos. Se o amor é um recurso precioso, ele não provém simplesmente dos países pobres e é reimplantado nos países ricos; ele deve antes a sua existência a uma alquimia cultura especial que se produz no país de onde ele é importado.
Para Maria Gutierrez, que se ocupa de uma bebé de 8 meses de dois país intensamente envolvidos na sua vida profissional ( ela como advogada e ele como médico), é a solidão e as longas horas de trabalho que alimentam o seu amor pelo filho dos seus empregadores. «Gosto muito da Anne, mais que aos meus próprios filhos. Sim, é estranho – eu sei. Mas passo muito tempo com ela. Pagam-me. Fico só. Trabalho dez horas por dia, com um dia apenas de descanso. Não conheço ninguém aqui por perto. Esta criança dá-me então aquilo que me falta.»
Ela mesma predispõe-se a dar maior atenção à filha dos seus empregadores que aos seus rebentos. «Sou mais paciente, mais tranquila. Dou a prioridade à criança. Quanto aos meus filhos, trato-os como a minha mãe me tratou(…) A minha mãe cresceu numa família de camponeses. Tinha uma vida difícil. Não era calorosa comigo. Não me tocava nem me dizia que me amava. Ela não tinha consciência do que devia fazer. Perdeu dois bebes antes de eu nascer. Pensei que ela tinha medo de me amar quando era pequena, porque podia vir a morrer também. Mais tarde, fez-me trabalhar, ainda era eu pequena, para cuidar das minhas quatro irmãs e irmãos. Não tive tempo para brincar.»
O destino fez com que uma vizinha de idade mais avançada tomasse conta dela, a alimentasse e a tratasse quando estava doente. No fundo, é como se tivesse sido adoptada informalmente – uma prática corrente nas Filipinas, quer nos campos quer nas cidades nas décadas de 60 e 70.
De certo modo, Maria viveu uma infância pré-moderna, marcada por uma mortalidade infantil elevada, trabalho infantil e ausência de sentimentalismo, que estava inscrita numa cultura que enfatizava o envolvimento familiar e o apoio comunitário. O que recorda a situação da França do século XV, tal como nos é descrita na obra de Philippe Ariès (L’Enfant et la Vie familial sous l’Ancien Regime), em que não havia lugar à romantização da criança nem à ideologia burguesa da maternidade intensiva. O envolvimento contava muito mais que os sentimentos.

Os «cuidados maternais», a nova ordem do mundo

O envolvimento da Maria para com os seus próprios filhos, com 12 e 13 nos, quando partiu para o estrangeiro, traz a marca desse envolvimento. Qualquer que seja a sua cólera e a sua tristeza, Maria manda-lhes dinheiro e fala-lhes. O envolvimento está bem presente, mas ela ainda deve fazer um trabalho emocional para exprimir os seus sentimentos. Quando telefona para casa – conta, Maria - «eu digo à minha filha “gosto muito de ti”. Inicialmente isso soava a falso. Mas depois tornou-se natural. E agora ela responde da mesma maneira. É um pouco estranho mas eu aprendi dizer isso, desde que vim viver para os Estados Unidos.»
A história de Maria releva de um paradoxo. Por um lado, o mundo rico extrai amor do mundo pobre. Mas o que é extraído é em parte produto ou produzido aqui: os tempos livres, o dinheiro, a ideologia da relação pais-filhos, a solidão das mães emigrantes e a intensa nostalgia que sentem pelos seus filhos. No caso de Maria, a sua infância pré-moderna nas Filipinas, a ideologia pós-moderna do amor maternal e da infância que reina nos Estados Unidos, assim como a solidão do emigrante acabam por se aliar a fim de moldar o amor que ela prodigaliza à filha dos seus empregadores. Uma tal amor é também um produto da disponibilidade das amas, que estão livres dos constrangimentos temporais e da ansiedade relativa à escolarização das crianças e jovens, coisa que os pais, nos países ricos, sentem. É aí, onde não chega qualquer vestígio da protecção social, onde não se espera nenhum apoio de uma estrutura estatal, nem comunitária nem conjugal, é aí que as crianças e os pais não podem viver sem a presença da figura de uma mãe do Sul. O amor de Maria, enquanto ama dos filhos dos outros, não é atingido pelos efeitos destabilizadores do novo capitalismo norte-americano.
Se isso é verdade – que o amor maternal das mulheres do Sul é, pelo menos, um produto criado pelas condições em ele é dado – poder-se-á porventura dizer que o amor de Maria por uma criança de um país rico é extraído das crianças de um país pobre? Sim, porque a sua presença quotidiana foi roubada e com ela a expressão quotidiana do seu amor. É certo que é a própria ama que opera essa transferência. Mas se os seus próprios filhos sofrem com a sua falta, ela sofre com eles. E este sofrimento constitui o peso que ela carrega, lançado pela globalização.
Estranhamente, nos países ricos o sofrimento dos emigrantes e dos seus filhos é raramente visível pelos beneficiários. A mãe de Noa atende à relação que se estabelece entre a sua filha e Rowena. A mãe de Anne concentra-se na relação desta com Maria. Mas elas não conseguem ver mais longe.
A noção de extracção de recurso do Sul para enriquecer os países do Norte não é coisa nova. Remonta à época dos imperialismo e isso na sai forma mais literal: a extracção de ouro, de marfim e outras matérias-primas dos países pobres. Ora é esta forma de imperialismo abertamente coercitivo e androcentrado que persiste hoje, e onde as mulheres continuam a desempenhar uma função central. Hoje, quando o amor e o «care» se tornam o «novo ouro», as mulheres continuam a desempenhar um importante papel na história. Nestes dois casos referidos, quer pela morte quer pela deslocalização, são as crianças dos países pobres que arcam com o prejuízo.
Por isso, bem se pode dizer que a migração não representa uma fardo para o homem branco, mas antes pelo contrário, graças a uma série de laços invisíveis, ela é um fardo para a criança de cor.

(tradução para português do texto de Arlie Russel Hochschild, originalmente sob título de «Love and gold», editado no volume «Global Woman:Nannies, maids and sex workers in the new economy», sob a direcção de Arlie R. Hochschild e Barbara Ehrenreich)

(existe tradução francesa, com o título «Le nouvel or du monde:la mondialisation de l’amour maternel» na revista «Nouvelles Questions Féministes, vol. XXIII, nj 3, 2004 - ver o site
http://www2.unil.ch/liege/nqf/ - e que foi retomado na revista Sciences Humaines nº 161, juin 2005)


Nota: Nos Estados Unidos o «care» ( cuidados maternais) representa um sector em plena expansão, traduzindo-se em 20% de todos os empregos segundo a economista Nancy Folbre.

Numerosas mulheres emigrantes têm filhos. A idade média das mulheres emigrantes nos Estados Unidos é de 29 anos, a maior parte delas vem das Filipinas e do Sri Lanka

Os estudos de género (gender studies)



Os gender studies apareceram nos anos 70 nos Estados Unidos e transformaram profundamente o estudo das relações homens/mulheres. Hoje em dia os estudos sobre o género multiplicaram-se e revisitam o conjunto das ciências sociais e humanas.

O conceito de «Género» apareceu nos Estados Unidos durante os anos 70 em torno de uma reflexão à volta do sexo e da utilização desta variável na pesquisa nas ciências sociais. O movimento feminista, que tinha tido obtido algum impacte após a revolução sexual, procurava fazer ouvir a sua voz nas instituições de pesquisa. Tratava-se de reconhecer um empenhamento que se assumia cada vez mais como uma reflexão renovada sobre o mundo.
Foi o psicólogo Robert Stoller que popularizou em 1968 uma noção já utilizada pelos seus colegas americanos desde os anos de 1950 para compreender a separação em certos pacientes entre corpo e identidade. Daí a ideia que não existe uma real correspondência entre género ( masculino/feminino) e o sexo ( homem/mulher). Foi em 1972 que, apoiando-se na articulação entre a natureza e a cultura desenvolvida pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, a socióloga Anne Oakley reenviou o sexo para o domínio biológico e o género para a dimensão cultural. Os universitários americanos recusam a aproximação frequentemente realizada entre mulheres e natureza (principalmente feita por causa das suas faculdades reprodutivas) enquanto os homens estariam do lado da cultura. Um artigo publicado em 1974 pela antropóloga Sherry Ortner teve um forte impacte ao tornar os termos particularmente explícitos: « A mulher é para o homem o que a natureza é para a cultura». Em antropologia foi Margaret Mead que se dedicou a uma primeira reflexão sobre os papéis sexuais nos anos 1930. O estudo dos papéis desempenhados pelos indivíduos segundo os sexos e os caracteres propriamente femininos e masculinos permite distinguir a aprendizagem daquilo que é dado pela natureza.

Sexo feminino = um «macho menor» !!!

Uma vez operada a distinção entre género e sexo, os investigadores voltaram-se a concentrar nas relações homem/mulher. A historiadora Joan W. Scott incitou a ver mais longe a simples oposição entre os sexos. Esta deverá ser considerada «problemática» e constituir, enquanto tal, um objecto de pesquisa. Se o masculino e feminino se opõem de modo problemático é porque existe entre eles relações de poder em que um domina sobre o outro. Mas se o género é pensado como uma construção social, tal não se verifica com o sexo, encarado como um dado natural e, mais provavelmente, como algo «impensado». Foi o historiador Thomas Laqueur que demonstrou o carácter historicamente construído do sexo e a sua articulação com o género. Na obra « A Fábrica do Sexo» (1992) ele mostra a coexistência ( e a predominância do primeiro sobre o segundo) dois sistemas biológicos. Assim, durante muito tempo, o corpo era visto como unisexo e o sexo feminino era como um «macho menor» , quando no século XIX passamos para um sistema fundado na diferença biológica dos sexos.
Logo que o sexo se tornou cultural tal como o género, a sexualidade torna-se aos olhos dos investigadores o objecto de uma nova reflexão. A influência do filósofo francês Michel Foucault ( especialmente na década de 1980 durante a qual as suas obras foram traduzidas nos Estados Unidos) foi primordial. O género foi articulado com o poder e a sua transformação em discurso foi relacionada com a análise da sexualidade e das suas normas.
O final dos anos de 1980 dá-se um início de institucionalização. Emprestado ao vocabulário psicológico e médico pela sociologia, o termo é utilizado noutras disciplinas como a história. Antes que o género se tenha transformado numa ferramenta de análise, a história das mulheres limitava-se a fazer aflorar as narrativas até então invisíveis. Só depois é que deixa a mostrar as mulheres de uma maneira essencialista, isto é, com características próprias e imutáveis tais como as qualidades emotivas, por exemplo. A análise do género reconduz as especificidades pretensamente femininas à luz de um dado momento e uma determinada sociedade. Foi assim que os estudos de género perimitram reconhecer o carácter socialmente construído dos dados históricos sobre as mulheres como dos homens. Se o género torna visível o sexo feminino, tal implica que o homem deixe de ser neutral e geral para passar a ser visto como um indivíduo sexuado.A partir daqui foi possível desenvolver-se uma história dos homens e das masculinidades, sobretudo graças à revista americana Men and Masculinities dirigida por Michael Kimmel.
As questões à volta do género, da mesma maneira que a sua variação para a sexualidade desde os meados dos anos 80, contribui para dividir as feministas em dois grupos. As mais radicais empenham-se a mostrar o carácter opressivo da hierarquia dos sexos em termos de sexualidade a favor do homem, visto na sua globalidade como um macho dominante.

Gays, lésbicas, queers

Outro grupo, como as americanas Rubin Gayle e Judith Butler, mostram que a relação entre os sexos não implica somente uma hierarquia entre os géneros mais também uma injunção normativa. Em 1984 R. Gayle alarga a reflexão teórica às sexualidades que escapam à norma como o sadomasoquismo e a pornografia. Judith Butler, em 1990, tenta lançar um olhar transversal que inclua tanto as mulheres, os gays, as lésbicas como outras minorias que não se reduzam a nenhuma das duas primeiras categorias. Para J.Butler, se o sexo é tão cultural quanto o género, este último pode ser entendido como um discurso performativo sobre o qual se podia agir a assim introduzir modificações aos habitus impostos pela sociedade. Este esquema analítico alarga-se à pesquisa sobre as minorias tais como os homossexuais, as lésbicas ou os transsexuais. Os estudos de género constituem parte inteira pois que a opressão não diz respeito somente às mulheres, nem a dominação emana unicamente dos homens mas do sistema heterossexual. Os estudos gay e lésbicos, e mais tarde a teoria queer, insistirão na análise da norma imposta ao género ou não. Assim, o caso das lésbicas pode ser analisado sob o ângulo do género, enquanto mulheres, como do da norma, enquanto desviantes. O movimento queer baseia-se na multiplicidade das identidades sexuais estabelecidas segundo as necessidades e as contingências. Da mesma maneira, o trabalho do historiador americano George Chauncey sobre a cultura gay nova-iorquina durante o período entre as guerras mundiais cruza os parâmetros do género e da sexualidade de uma forma frutuosa. Mostra como se passou de um sistema de género em que a relação homossexual assentava nas identidades homem/mulher (só o dos homens que apresentava um comportamento feminino era estigmatizado) para um sistema em que a homossexualidade é avaliada à sombra da heterossexual idade. No segundo caso ( a que corresponde ao actual período) todo o homossexual é estigmatizado sob o olhar da sua sexualidade. O historiador mostrou assim a coexistência dos dois sistemas na actual Nova Iorque em que certas comunidades de latinos continuam a funcionar segundo um binarismo de género.

O contributo francês

O conceito de género encontrou algumas dificuldades para se implantar em França, devido principalmente à desconfiança para com o feminismo americano visto como demasiado comunitarista e radical. Nos anos 1980 a universidade francesa procurou precaver-se contra o político. Pela sua passagem pelo militantismo, os estudos feministas afastaram-se do domínio da pesquisa.
As expressões «relações de sexo» ou « relações sociais de sexo» foram durante muito tempo preferidas à noção de género, encarada por fluida demais. Esse vocabulário explica-se pela abordagem feminista materialista, influenciada pela escola marxista que caracteriza a primeira geração das investigadoras nos anos 1970, por via das sociólogas Christine Delphy, Nicole-Claude Mathieu e Colette Guillaumin.
Elas acabaram por retomar o trabalho de desnaturalização iniciado pelos universitários americanos, principalmente através do questionamento do trabalho enquanto actividade natural da mulher.
C. Delphy centra a sua reflexão na opressão como construção social. Ela opõe-se a uma visão diferencialista e identitária que vê as mulheres como um grupo homogéneo com características especificamente femininas. Inverte mesmo a problemática inicial: a masculinidade e a feminilidade não explicam a hierarquia e a dominação tal como o sexo muito menos explica o género. Os grupos de homens e mulheres não se constituíram senão porque a instituição social da hierarquia ( que se estende à organização social) é o princípio primeiro, do mesmo modo que é o género o que dá sentido à característica física do sexo (que em si não contém algum sentido).
O conceito de género começou realmente a difundir-se em França nos meados dos anos 1990, quando a Comunidade Europeia se virou para as questões de género e da paridade na busca de u ma igualdade efectiva. A partir de 1993 os debates sobre a paridade alargaram os trabalhos sobre o género ao campo político. Desde 1970 que os trabalhos de Janine Mossuz-Lavau sobre a visibilidade das mulheres relativamente ao voto, às eleições e à elegibilidade representaram uma primeira abordagem das relações entre os estudos de género e o campo político. A sociologia do trabalho acabou por concluir da necessidade de se tomar em conta o sexo de modo sistemático. Neste quadro assiste-se ao longo dos anos 90 à criação de módulos específicos de pesquisa como o «Mage» (Marche du travail et genre) à volta da socióloga Margaret Maruani que, depois de se ter interessado pela divisão sexual do trabalho, analisa hoje a divisão sexual do mercado de trabalho.
Quer seja na história, na antropologia ou em qualquer das ciências sociais, o género é objecto de um crescente interesse nos meios universitários, a passo que nos Estados Unidos parece que o conceito parece ter perdido grande parte da sua força provocativa e do seu valor heurístico, não abrindo novas pistas de investigação ou não promovendo novas perspectivas sobre os temas clássicos. Os jovens investigadores franceses estão, por seu turno, mais entusiasmados, tanto mais que se encontram distantes do militantismo que entravava o reconhecimento dos seus predecessores. Nesse sentido, o seu principal desafio é dar ao género um estatuto teórico nas ciências sociais despido de ideologia.

(Tradução para português do artigo de Sandrine Teixido, publicado no hors-série nº 4 ( Septembre-Octobre 2005)da revista francesa Sciences Humaines)

Breve glossário:

Género = de origem anglo-saxónica (gender) o termo começou por ser usado nas ciências médicas, a psicologia e a sociologia, e só depois pela história das mulheres a partir dos anos 1980. Em França preferiu-se durante muito tempo empregar expressões como «sexo social» ou «diferença social dos sexos» para se referir à mesma realidade. O termo hoje já se generalizou e inscreve-se numa perspectiva construtivista e pela qual se analisam as diferenças entre homens e mulheres (desigualdades, hierarquias, dominação masculina, etc) como construções sociais e culturais, e não como resultado de diferenças naturais.


Feminismo diferencialista = ramo do movimento feminista que postula uma diferença da natureza entre o masculino e o feminino, pelo qual existiria uma «essência feminina» que decorreria dos caracteres femininos específicos e inatos ( condutas femininas, escrita feminina,…) e que justificaria as diferenças no tratamento entre os dois sexos. Apelidadas por vezes de «essencialistas» ) sobretudo pelos seus detractores) as feministas diferencialistas reivindicam a igualdade na diferença.

Feminismo Igualitarista = para as feministas igualitaristas, também conhecidas por «universalistas», todos os seres humanos são indivíduos iguais, independentemente das diferenças dos traços físicos como a cor da pele ou o sexo. As diferenças entre homens e mulheres são o resultado de relações de poder e de dominação. A subordinação da mulher é uma produção social e toda a afirmação da especificidade feminina arrisca-se a dar lugar a uma hierarquização. O sexo deve pois estar dissociado dos papéis sociais, políticos e simbólicos na sociedade.

Queer = o termo aparece nos Estados Unidos no período entre as duas grandes guerras para designar pejorativamente os homossexuais com um comportamento ostensivamente efeminado. Hoje, o termo designa uma teoria que coloca em causa toda a norma, quer ela seja de género ou de sexo. Para desmontar as identidades, os queers empenham-se a misturar todas as classificações: sexualidade hetero ou homossexual, gays, lésbicas, transsexuais, masculino-feminino,…a fim de insistir na plasticidade das relações sexo-género. A identidade não é mais uma essência mas antes uma perfomance, algo fluído, bizarro e inclassificável…

Gender studies = conjunto de estudos e pesquisas que analisa as diferenças de tratamento entre homens e mulheres em todos os domínios sociais e que gerou inúmeros estudos nas ciências sociais de carácter transdisciplinar. Posteriormente, tais trabalhos desmultiplicaram-se em outras tantas áreas de estudo como os «men’s sutides ( sobre a construção do masculino e da virilidade), os «gay and lesbian studies» ( sobre a sexualidade), e os «queer studies»


Women’s studies
= desenvolveram-se na década de 1960 nas universidades norte-americanas estreitamente ligados ao movimento feminista da época, e marcado por um acentuado feminismo «radical» que assumia um diferencialismo e que levava à separação entre os sexos.

Alguns nomes:


· Margaret Mead (1901-1978) – figura de proa do culturalismo antropológico norte-americano. Combate a noção do «eterno feminino». A partir dos seus estudos no terreno nas ilhas do Pacífico Margaret Mead defende o carácter cultural e construído das identidades de sexo, mostrando que em certas etnias a passividade e a sensibilidade são características masculinas.
· Simone de Beauvoir – publica em 1949 o livro «O Segundo Sexo» que se vai tornar na obra de referência na reflexão sobre o género. Analisa aí as modalidades sociológicas, psicológicas e económicas da hierarquia entre os sexos e mostra a universalidade da dominação dos homens sobre as mulheres, convidando as mulheres a usar da sua liberdade para escaparem ao papel de serva e mãe.
· Luce Irigaray – é a principal figura da contestação à psicanálise enquanto disciplina patriarcal, denunciando o imperialismo masculino da filosofia ocidental. Procura lançar uma nova ética nas relações sexuais.
· Michel Foucault – o filósofo francês constitui uma referência maior para os defensores da teoria queer ao mostrar o carácter construído da normatividade heterossexual e ao questionar as noções de género e sexo.
· Carol Gilligan – psicóloga diferencialista para a qual homens e mulheres tem funcionamentos psicológicos diferenciados. Interessa-se em especial pelas concepções da moral dos dois sexos: a mulher com uma «ética da solidão» (empatia, protecção e altruísmo) e o homem com uma «ética de justiça» (igualdade das pessoas, respeito do direito).
· Elisabeth Badinter – defende uma concepção igualitarista dos dois sexos. O amor maternal não teria nada de natural e instintivo. Cada sexo tem a sua dose de masculinidade e de feminilidade. As sociedades são cada vez mais andróginas. Ao mesmo tempo que se opôs a qualquer medida discriminatória para as mulheres, erigiu-se igualmente contra as tendências de vitimização de algumas feministas, reafirmando a sua completa rejeição de todo o diferencialismo.
· Joan Scott – Historiadora americana que, no encalço de Foucault e dos desconstrucionistas (conhecida pelo seu French feminism), propôs uma definição rigorosa da noção de género. Apresenta o post-estruturalismo como um instrumento para re-analisar os fenómenos históricos, sociais e culturais à luz dos discursos e das representações sobre a diferenças dos sexos.
· Judith Butler – Professora de literatura comparada em Berkeley, esta autora, juntamente com Eve Kosofsky Sedgwick, é a teorizadora do movimento queer. Opõe-se às feministas que definem as mulheres como um grupo com características comuns, o que reforçaria o modelo heterossexual e binário. Vê o género como uma variável fluida e susceptível de variar segundo o contexto e o momento. J. Butler convida a uma acção subversiva ( o chamado «gender trouble») que leve a uma confusão e à profusão de identidades. Para ela, a identidade de género pode ser reinventada sem cessar pelos próprios actores.
· Françoise Héritier – parte da constatação do carácter universal da dominação masculina, da hierarquia homem(mulher e daquilo que ela chama uma «valência diferencial dos sexos». Preconiza uma mudança para as mulheres a partir do controle destas sobre a sua fecundidade graças à contracepção.
· Pierre Bourdieu – dedicou-se a descrever em todas as obras as relações de dominação nas sociedades e a violência simbólica que daí resulta, mostrando como as mulheres integraram o «habitus» (comportamentos mais ou menos conscientes e modos de pensar) do sexo, ou seja, da sua própria dominação. A dominação masculina torna-se assim uma «construção social naturalizada» que, não obstante o movimento feminista, não se mostra pronto a desaparecer.

25.10.05

As pessoas sem sentimentos triunfam mais nos negócios


Os psicopatas funcionais, ou seja, aquelas pessoas que reprimem os seus sentimentos, são as que tomam as melhores decisões de investimento porque não experimentam emoções como o medo, segundo revela um estudo realizado por investigadores da Stanford Graduate School of Business.
O medo evita que as pessoas assumam certos riscos, mesmo os considerados lógicos. Além disso, a capacidade de controlar as emoções contribui – segundo o mesmo estudo – para um melhor desempenho dos negócios.
Muitos executivos e eminentes advogados partilham essas características, garante Antoine Bechara, professor de Neurologia da Universidade de Iowa, num comunicado publicado no site da Stanford Graduate School of Business. O estudo foi realizado pela Carnegie Mellon University e pela Universidade do Iowa.
Cada um dos participantes no estudo recebeu 20 dólares para apostar num jogo. No começo de cada partida deviam decidir se arriscavam um dólar ao lançar uma moeda ao ar e com uma vantagem de 2,50 dólares se acertassem. Ainda que pudessem negar a participar, a aposta financeira era grande uma vez que o rendimento potencial superava o risco de perda.
Os jogadores com danos cerebrais aderiam mais facilmente à aposta. Terminavam com três dólares a mais que os outros, e investiam 84% nas partidas face aos 58% dos outros, os quais deixavam que o receio e temor influenciasse as suas decisões.
Muitos dos investidores de sucesso podiam bem ser psicopatas funcionais porque não conhecem o medo ou conseguem eliminá-lo.

O estudo foi publicado na revista Psychological Science de Junho.

Veredicto do Tribunal Internacional de Opinião para Julgar a Dívida Externa

Consultar:
www.quiendebeaquien.org/castellano/eventos/tribunal/veredicto.htm

Em castelhano:

SENTENCIA

Tras la realización de las tres Vistas Preliminares de Córdoba, Salamanca y Barcelona, ayer, día 22 de octubre, se celebró en Madrid el “Tribunal Internacional de Opinión para juzgar las políticas de Deuda Externa” con la finalidad de enjuiciar la responsabilidad del gobierno español, las empresas transnacionales españolas y las instituciones financieras internacionales en relación con los daños causados por la llamada Deuda Externa en los pueblos del sur.
Esta deuda produce perjuicios desde una perspectiva estrictamente económica, empobreciendo a los pueblos; desde una perspectiva de deterioro del medio ambiente y entorno natural, cuyo daño se trasmite a las futuras generaciones; y desde una perspectiva que fractura la convivencia y la organización política, impidiendo un desarrollo democrático de los pueblos y dañando la sociedad con grave perjuicio y sufrimiento de los sectores menos favorecidos.


Sobre estos puntos versaron los debates, las exposiciones de los testigos, peritos, y los argumentos defensivos o justificativos y sobre los mismos, el Jurado ha emitido un veredicto, tras lo cual, este

TRIBUNAL INTERNACIONAL DE OPINIÓN PARA JUZGAR LA DEUDA EXTERNA

Formula, EN NOMBRE DE LOS PUEBLOS QUE SOPORTAN LA DEUDA EXTERNA y de todos los ciudadanos y ciudadanas solidarios con los mismos, esta SENTENCIA que declara probados los siguientes HECHOS:

1. Constatamos que el monto de la denominada “Deuda Externa” se ha ido acrecentando de forma vertiginosa en las últimas décadas y que supone un claro obstáculo para el desarrollo de una vida digna de los pueblos.

2. Constatamos que el pago de la Deuda Externa cobra diariamente la muerte de personas y es una de las mayores causas de la violencia estructural y de la violación sistemática de los Derechos Humanos de la mayor parte de la población mundial.

3. Constatamos que dicha deuda es ILEGITIMA ya que:
Está pagada con creces. Los interés son usureros Se concedió a gobiernos dictatoriales y corruptos sin consultar ni repercutir a sus poblaciones, ya que éstos se destinaron a proyectos improductivos, compra de armamento o se desviaron a cuentas personales en países del Norte y paraísos fiscales. Es utilizada como instrumento de saqueo permanente del Sur y como medio de presión para imponer políticas neoliberales que lo mantiene entrampado en un ciclo de dependencia y de más deuda.


4. Constatamos la existencia de una DEUDA del Norte CONTRAÍDA CON LOS PUEBLOS DEL SUR que es mucho más profunda y que abarca los valores, el desarrollo de las personas y las comunidades y que legitima los sistemas de dominación y sometimiento de los pueblos. El problema de la deuda es un problema de PODER y de injusta distribución de ese poder a escala mundial, nacional, comunitaria y muchas veces, familiar.

5. Constatamos que la deuda del Norte abarca la inmensa DEUDA HISTÓRICA, contraída tras más de quinientos años de saqueo y destrucción, avasallamiento político y cultural, esclavitud y sometimiento perpetuado hasta el presente por un sistema y ordenamiento mundial que ha institucionalizado la inequidad, el robo, la mentira y la impunidad.

6. Constatamos que los países del Norte han generado una DEUDA ECOLÓGICA la cual tiene importantes impactos sociales y medioambientales, impide la soberanía alimentaría, contamina el aire, el agua y el suelo, provoca enfermedades poniendo en peligro de forma grave la salud pública, y supone una transferencia de carga para las generaciones futuras, además de comprometer seriamente la supervivencia del planeta.

7. Constatamos asimismo una DEUDA SOCIAL por la violación sistemática de los DERECHOS HUMANOS incluyendo los derechos a la vida, al trabajo y un salario digno, la seguridad social, la educación, la salud, el acceso a los medios de subsistencia, la alimentación, agua potable, la vivienda, el derecho a no sufrir destierro, derechos al desarrollo y a la paz.

8. Constatamos la existencia de una DEUDA POLÍTICA de vasta dimensión ya que muchos países tienen usurpada sus derechos a la vida, a la soberanía y a la autodeterminación.

9. Constatamos una DEUDA CULTURAL por el trasvase de valores y perversión del lenguaje que convierte a los acreedores en supuestos deudores; el robo y el saqueo en interdependencia y globalización; la humillación y la auto-complacencia en ayuda y cooperación.

10. Constatamos que el gobierno español así como el Fondo Monetario Internacional y el Banco Mundial han participado en la comisión de actos internacionalmente ilícitos, dando apoyo a regímenes criminales, dictatoriales y autoritarios cuando están obligados por el derecho internacional a respetar y hacer respetar los derechos humanos.

11. Constatamos que el Gobierno español, así como la Unión Europea en su conjunto, pone serias trabas a la libre circulación de los trabajadores inmigrantes y viola el Convenio de Ginebra para refugiados, mientras imponen al Sur la libre circulación de capitales y mercancías, a través del FMI, la OMC, el BM y la OECD. La inmigración se produce por la causa de las desigualdades económicas entre los p aíses empobrecidos que tienen, sin embargo, que destinar gran parte de sus recursos al pago de la deuda externa. Así, se condena a buena parte de la población mundial a una situación sin salida. Ni en los países emisores de inmigrantes ni en los receptores encuentran una posibilidad para salir de las condiciones de extrema pobreza que afrontan.

12. Constatamos que el gobierno español ha aumentado la partida de los presupuestos generales del Estado destinada a los créditos FAD (Fondos de Ayuda al Desarrollo) en un 63,5% respecto al último año. Con ello, sigue utilizando mecanismos de supuesta “ayuda” que perpetúan la generación de Deuda Externa y sirven a la internacionalización de la economía española.

13. Constatamos que el gobierno español utiliza el gasto público y mecanismos públicos de apoyo a la exportación como la CESCE (Compañía Estatal de Seguros de Crédito a la Exportación) para impulsar actividades de empresas transnacionales españolas que comportan impactos ambientales, económicos y sociales muy negativos en los países destinatarios de la Inversión Extranjera Directa española. Así mismo constatamos la total pasividad e indiferencia del gobierno español ante casos de denuncias por la violación de los derechos humanos y procesos judiciales contra empresas transnacionales españolas tales como Repsol-YPF, Endesa, Union Fenosa, Iberdrola, Gas Natural, BBVA, Grupo Santander, La Caixa, Aguas de Barcelona, Abengoa, FCC, ACS-Dragados, etc.

14. Constatamos que de llevarse a cabo la cancelación de la Deuda Externa del gobierno español al ritmo establecido actualmente, el 4%, necesitaríamos 25 años para alcanzar la cancelación total.

Estos hechos expuestos en el Tribunal Internacional de Opinión para juzgar la Deuda Externa, constituyen una violación grave del Derecho Internacional y sus normas y cuerpos legales, tales como la Declaración Universal de los Derechos Humanos, el Convenio 169 de la Organización Internacional de Trabajo (OIT) sobre los pueblos indígenas y originarios, el Pacto Internacional de Derechos Económicos, Sociales y Culturales, el Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos, el Derecho a la Autodeterminación de los Pueblos, así como de leyes y normas de carácter nacional e internacional, tales como el Convenio sobre Biodiversidad o el Protocolo de Kioto.

Por ello se condena al Gobierno español, a las instituciones financieras y comerciales internacionales así como a las empresas transnacionales españolas a:

1. Reconocer política y jurídicamente que las mujeres y hombres de los países del Sur son sujetos de derecho. Se debe garantizar satisfactoriamente los derechos de todas las víctimas de la globalización capitalista a la verdad, la justicia y la reparación integral.

2. Ejecutar las políticas necesarias para abolir la deuda externa. Prohibir cualquier política económica que tenga repercusiones negativas sobre otros países, y que ponga en peligro la vida de los ciudadanos o impida la satisfacción de sus necesidades básicas (soberanía alimentaría, educación, salud, vivienda digna, agua potable, soberanía cultural, etc.).

3. Instalar una moratoria, sin acumulación de intereses, en el cobro de la deuda de los 82 países del estado español con el fin de realizar Auditorias Públicas Integrales y participativas para determinar la ilegitimidad de la deuda exigida.

4. Abolir de forma inmediata e incondicional todas las deudas impagables e ilegítimas. Establecer un calendario de compromisos para adoptar un proceso que muestre la verdad y las responsabilidades políticas y judiciales de aquellas personas y/o instituciones que permitieron, fomentaron e hicieron uso de los créditos ilegítimos. Restituir los daños causados e indemnizar a las víctimas.

5. Reconocer la deuda ecológica adquirida con los países empobrecidos - lo que implica pedir públicamente perdón por los daños y perjuicios causados -, establecer mecanismos para su restitución y aplicar políticas que eviten su generación.
La prohibición de inversiones públicas y privadas en proyectos que no cumplan los estándares ambientales, laborales y sociales. La derogación de todas aquellas políticas que fomentan un modelo de producción, transporte y consumo, dependientes de la importación de energías no renovables o la utilización de espacios ambientales fuera de nuestro territorio.
La cancelación de todos los mecanismos de flexibilidad que permitan incumplir los compromisos adquiridos de reducción de emisiones de gases de efecto invernadero.


6. Establecer, en los ámbitos que proceda, reparaciones y responsabilidades judiciales, civiles o penales, por la generación de deudas ecológicas, sociales y políticas.
La creación de un fondo de compensación por los daños producidos a causa de la deuda ecológica adquirida por el gobierno español, sus instituciones públicas y las empresas privadas.


7. La eliminación de los créditos FAD (Fondo de Ayuda al Desarrollo) como instrumento de Ayuda Oficial al Desarrollo (AOD), el cierre de la CESCE (Compañía Española de Seguros de Crédito a la Exportación) y el cese inmediato de sus actividades, así como la no contabilización de la cancelación de la deuda como AOD.

8. La no utilización de los mecanismos públicos para generar nueva Deuda Externa o de apoyo a la exportación para impulsar actividades de empresas transnacionales españolas.

9. Ejecutar políticas efectivas para la prohibición del comercio armamentístico, así como la reducción radical del gasto público militar. Además del no apoyo a leyes que fomentan la impunidad y las violaciones de los derechos humanos.

10. La incorporación de los puntos expuestos anteriormente en la Ley reguladora del tratamiento de la deuda externa, actualmente en tramite en el Parlamento español, así como en los Presupuestos Generales del Estado.

11. Promover en el ámbito internacional el no reconocimiento tanto de la deuda externa multilateral como de la privada, y proceder al desmantelamiento de las instituciones internacionales, tales como el Banco Mundial, el Fondo Monetario Internacional y la Organización Mundial de Comercio.

12. Replantear completamente el concepto de deuda externa para que los países mal llamados deudores sean considerados acreedores y los países generadores de Deuda Ecológica, Social y Política, como el Estado español, sean considerados deudores.

13. Garantizar el derecho a la información y el derecho a informar de los ciudadanos mediante legislaciones que pongan fin a la concentración de medios y favorezcan a la prensa sin animo de lucro.

14. Encaminar todas las políticas públicas y privadas hacia una profunda transformación del sistema económico capitalista.

Ordenamos a todas las autoridades y funcionarios que cumplan y hagan cumplir la presente sentencia contra la que no cabe recurso alguno.

Y así lo declaramos y firmamos en Madrid, a 22 de octubre de 2005.

Firmado, los jueces:

Juana Calfunao (Lonko de la Comunidad Mapuche Juan Paillalef, Comisión Ética contra la Impunidad, Red de Defensores Comunitarios, Chile),
Itziar Ruiz Jiménez (Profesora de Relaciones Internacionales de la Universidad Autónoma de Madrid),
Carlos Berzosa (Rector de la Universidad Complutense de Madrid).
Félix Pantoja (Vocal del Consejo General del Poder Judicial).



El Jurado Popular ha fallo de forma unánime que los acusados son culpables de todos los delitos imputados y acusaciones realizadas por la campaña ¿Quién debe a quién?. Este jurado estuve compuesto por Rosa Regás (Directora de la Biblioteca Nacional), Carlos Taibo (Profesor de Ciencia Política en la UAM), Javier Ortiz (Periodista), César Carrillo (Expresidente del sindcato USO de Colombia, exiliado), Eunice Khanyssa Mabyeka (Jurista, Miembro de la Asociación de Estudios Africanos y Panafricanismo), Chini Rueda (Teóloga, Miembro de Católicas por el Derecho a Decidir y del colectivo Somos Iglesia), Gemma Tarafa (Activista contra la Deuda Externa, Observatorio de l a Deuda en la Globalización), Jorge Fonseca (Profesor de economía de la UCM) y Begoña Lalana Alonso (Abogada, miembro de la junta de la Asociación Libre de Abogados).

Guia do ceifeiro voluntário de OGMs ( ou transgénicos)


O guia indispensável para qualquer ceifeiro voluntário de OGMs já circula na net. Ele reúne uma série de truques e cuidados a ter para as acções de descontaminação dos campos semeados de OGMs.

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http://www.geneticsaction.org.uk)

17.10.05

Conferência de Imprensa ( texto de Harold Pinter)


Excertos da peça/sketch de Harold Pinter, Prémio Nobel da literatura de 2005 com o título original «Press Conference» e que, com a tradução de Pedro Marques, faz parte do volume «Conferências de Imprensa e Outras Aldrabices, editado em conjunto pelos Artistas Unidos e Livros Cotovia, na colecção «Livrinhos de Teatro», por altura da representação do espectáculo homónimo, estreado em Junho de 2005, e encenado por Jorge Silva Melo


CONFERÊNCIA DE IMPRENSA (excertos)

Imprensa – Senhor ministro, antes de ser Ministro da Cultura creio que o senhor foi chefe da Polícia Secreta.

Ministro – Correcto.

Imprensa – Vê alguma contradição entre estes dois papéis?

Ministro – Absolutamente nenhuma. Como chefe da Polícia Secreta tinha a responsabilidade, especificamente, de proteger e garantir a nossa herança cultural de forças cuja intenção é subvertê-la. Defendíamo-nos do verme. E ainda nos defendemos.

Imprensa – O verme?

Ministro – O verme

….

Imprensa - Qual era a natureza da cultura por si proposta?

Ministro – Uma cultura baseada no respeito e nas regras da lei.

Imprensa – Como é que vê o seu actual papel de Ministro da Cultura?

Ministro – o Ministro da Cultura apoia-se nos mesmos princípios que os guardiães da Segurança Nacional. Acreditamos numa compreensão saudável, musculada e terna da nossa herança cultural e das nossas obrigações culturais. Estas obrigações incluem naturalmente a lealdade ao mercado livre.

…..

Imprensa – E a divergência crítica?

Ministro – A divergência crítica é aceitável – se for deixada em casa. O meu conselho é o seguinte – deixem-na em casa. Guardem-na debaixo da cama. Ao lado do penico do mijo.
(Ele ri-se)
É lá que é o lugar dela.

….

Imprensa – Então vê o seu papel como Ministro da Cultura como vital e frutuoso?

Ministro – Imensamente frutuoso. Acreditamos na bondade inata do vosso Manel vulgar e da vossa Maria. É isto que procuramos proteger. Procuramos proteger a bondade essencial do vosso Manel vulgar e da vossa Maria vulgar. Vemos isso como uma obrigação moral. Estamos determinados a protegê-los da corrupção e da subversão com todos os meios que temos à nossa disposição.

(…)