13.1.13

Sessão sobre a greve geral e a insurreição operária do 18 de janeiro de 1934 ( no espaço Musas, no dia 18/1/2013, pelas 21h.)

18 DE JANEIRO DE 1934 – GREVE GERAL/INSURREIÇÃO OPERÁRIA
Sessão informativa/ Debate/ Exposição documental-
 
 
No próximo dia 18 de Janeiro (sexta-feira), pelas 21.00 h., no Espaço MUSAS,Rua do Bonjardim, 998, Porto (zona de Faria Guimarães) irá ser recordado o que foi o ato de resistência dos trabalhadores contra as leis laborais que os pretendiam submeter ao Estado salazarista e ao patronato.
 
Organiz.: AIT-SP Porto e Colect.Anarquista HIPATIA (anarco-sindicalistas)
 
Para uns, um ato heroico marcando a recusa dos trabalhadores às leis do Estado fascista e do patronato, para outros uma tentativa revolucionária capaz de travar o passo ao fascismo salazarista, para outros ainda uma “anarqueirada”, o certo é que o “18 de Janeiro”, despido de mitos e de revivalismos, oferece matéria de reflexão útil para o confronto com a realidade atual.
 
Nestes acontecimentos estiveram envolvidas várias correntes diferentes de pensamento com expressão nos meios laborais de então : CGT (anarcosindicalistas),FARP (anarquistas), CIS e PCP (comunistas),FAO (socialistas). Se na Marinha Grande o movimento assumiu a forma mais insurrecional, noutros pontos do país –onde a implantação da CGT era maior (Silves, Sines, Almada, Barreiro, Leiria) e também a da CIS e do PCP (Lisboa e arredores – além de na Marinha Grande) assumiu formas mais diversas, de greves e protestos a sabotagens.
 
 

Sermão do Bom Ladrão (excerto)


 
"Não são ladrões apenas os que cortam as bolsas.
Os ladrões que mais merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, pela manha ou pela força, roubam e despojam os povos.
Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam correndo risco, estes furtam sem temor nem perigo.
Os outros, se furtam, são enforcados; mas estes furtam e enforcam."

Padre António Vieira, in Sermão do Bom Ladrão

Manifestação nacional de ferroviários ( 17 de janeiro de 2013)


MANIFESTAÇÃO NACIONAL DE FERROVIÁRIOS
 
 Trabalhadores do activo e reformados
 
17 Janeiro 2013 – 14,30h
 
Trabalhadores ferroviários no activo e reformados vão manifestar-se a 17 de Janeiro em frente à sede da CP, em Lisboa, contra a reestruturação das empresas do sector ferroviário, contra os cortes salariais e em defesa do cumprimento dos acordos de empresa. Contra as “medidas recessivas” que dizem estar “a conduzir ao empobrecimento” e para travar aquilo que dizem ser uma “brutal ofensiva” contra os ferroviários, 18 organizações do sector apelam a uma “forte mobilização” dos trabalhadores no activo, dos reformados e dos “trabalhadores na situação de rescisão de contratos”.
 
A manifestação, anunciada pela Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (FECTRANS), é convocada, entre outras organizações, pelas comissões de trabalhadores da CP, CP Carga, Refer e Emef (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário), a comissão de reformados e os sindicatos do sector ferroviário, dos maquinistas e dos revisores.
 
 

A greve dos ferroviários em Janeiro de 1911

 


«Nada pedimos, porque nada nos dão. Exigimos, intransigentes, porque, para isso, temos direito e possuímos a força.»

 
Em Janeiro de 1911 os Ferroviários portugueses erguiam uma grande greve, que duraria 5 dias, e permitiria a conquista de importantes direitos pelos trabalhadores ferroviários.
Estamos no período imediatamente posterior à Revolução de 5 de Outubro de 1910, que os ferroviários haviam apoiado – como a generalidade do proletariado português – mas que colocara no poder uma burguesia que, primeiro, iria desiludir as expectativas de satisfação das suas reivindicações que esse proletariado alimentara, e depois iria trair esse apoio lançando-se na mais brutal repressão à luta e aos direitos dos trabalhadores
Uma greve a reivindicar as 8 horas de trabalho, que teve como resposta o governo mandar ocupar militarmente a estação do Rossio
 
O pessoal da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses,declaraou-se em greve secundado pelos ferroviários do Sul e Sueste, Beira Alta, Minho e Douro, na sequência de anteriores reivindicações assumidas por uma «comissão de melhoramentos», que vinha discutindo com a administração a redução do horário de trabalho e o aumento de salários. No Domingo anterior, os trabalhadores haviam-se reunido no Salão da Caixa Económica Operária tomando conhecimento da recusa da Companhia em aceitar as suas principais reivindicações. Num processo complexo e gradualmente politizado, os ferroviários optaram pela greve e pela constituição de piquetes. Esta greve, que durou até 15 de Janeiro, levou à intervenção pessoal de António José de Almeida, que tentou mediar o conflito.
A greve dos ferroviários da Companhia Portuguesa afectou as ligações de Lisboa para o Norte e Leste e ligações internacionais. A capital chegou a estar isolada do resto do país. Verificaram-se vários actos violentos como o descarrilamento de comboios e corte de linhas telegráficas, vistos pelo governo como sabotagens. A greve teve como catalisador a questão da Caixa de Reforma do Pessoal, já que a publicação do novo regulamento não contemplara as proposta da comissão de delegados do pessoal e do sindicato. O Conselho de Administração da CP, desde logo, procura restabelecer as ligações, nomeadamente a com o Porto, avisando o pessoal que deve regressar ao seu posto de trabalho, sob pena de serem demitidos.
O governo de Afonso Costa apoia a estrutura dirigente da CP, prometendo ajuda na guarda e defesa das propriedades e bens e no restabelecimento das ligações ferroviárias. Mesmo com a presença da força pública, os grevistas conseguem controlar as gares. Dia 17, a direcção da Companhia publica a Ordem Geral do Conselho de Administração n.º 66 na qual se determina que todos os empregados da Companhia que não se apresentem ao trabalho até dia 20 de Janeiro deixarão de pertencer aos quadros da mesma. Muitas classes de trabalhadores anunciam, pouco depois, greves de solidariedade com os ferroviários. A greve terminaria dia 23 de Janeiro, não sem a prisão de vários de entre os grevistas. Esta greve forçou os organizadores do Congresso de Tomar a adiarem a realização do mesmo, o que acabou por permitir a participação dos sindicalistas que doutra maneira não poderiam estar presentes já que estavam presos
 
 
Dossier com documentos da época, consultar: AQUI
 

12.1.13

Encontro Indignados Lisboa ( hoje, 12 de Janeiro, às 15h.)

 
 
Encontro Indignados Lisboa 
 
Hoje, 12/01/2013, às  15h  no Teatro da Comuna ( à Praça de Esapanha, Lisboa)

Assembleia dos Indignados de Lisboa aberta a todos os que desejem participar e debater soluções e alternativas ao actual sistema e formas de o modificar. É urgente organizar o protesto contra as medidas que conduzem o país à pobreza e à miséria e apresentar novos caminhos e alternativas. Só todos juntos o podemos fazer e a tua voz pode e deve ser ouvida.

Ordem de Trabalhos:

Informações gerais

Apresentação de novas acções e protestos

Apresentação de ideias para o Encontro Nacional de Assembleias Populares

Continuação da Jornada de debates sobre assuntos estudados





 

 

A República das Putas - texto de João Magueijo

A República das Putas
 
Por João Magueijo
 
texto publicado no jornal Público de 11 de janeiro de 2013
 
João Magueijo é professor de Física Teórica no Imperial College da Universidade de Londres, depois de ter passado pela Universidade de Cambridge (St. John's College) onde fez o seu doutoramento (Trinity College).
 
 
A expressão não é original, mas o plágio é deliberado. Quando Josef Skvorecky escreveu o livro A República das Putas, havia na então Checoslováquia o sentimento de um país traído, entregue ou vendido a uma ideologia questionável, por uma classe dominante corrupta e por políticos que eram de facto putas, metafórica e literalmente. No caso de Portugal não houve tanques a entrar pelo país e a ideologia a que fomos vendidos será a outra, supostamente oposta. Mas de resto a história é tal e qual, especialmente no que diz respeito à qualidade e moralidade dos políticos.
 
E o pior é que paga o justo pelo pecador, ou pelo menos há pecadores, a nível mundial, que não pagaram nada. Até isto se resolver não me parece que faça grande sentido ser optimista, ou filosofar sobre o estado das letras e das ciências. Antes falar de tourada.
 
Ainda deve haver por aí quem se lembre da Dona Branca, a autodenominada banqueira do povo. Para quem não sabe, era uma senhora que mais não fazia que comprar e vender dinheiro, fazê-lo circular, o que lhe era levado de novo era usado para pagar juros chorudos aos que já lá estavam, e cada vez havia mais. Ela arrecadava uma comissão, a coisa foi crescendo até que um dia PUM, foi tudo pelos ares. Recordo-me de uma Dona Arminda, que lavava as escadas lá do prédio, que perdeu as poupanças todas nestas andanças, ainda me lembro da senhora a chorar muito, faz-me lembrar o Portugal de hoje. E a Dona Branca inevitavelmente foi dar com os costados na prisão, coitada da senhora, estava muito avançada para a época, se fosse hoje davam-lhe um bónus de milhões, e teria uma posição de topo na Wall Street.
 
  Não sejamos hipócritas, já todos recorremos aos bancos, e houve tempos em que o mundo das finanças fazia algum sentido. Precisava-se de algo agora, a ser pago com dinheiro que se iria ganhar mais tarde, os bancos tratavam da necessária máquina do tempo financeira. Em Itália vai-se a uma terriola qualquer, e lá há-de estar a Caixa Agrícola de Montemerdini, ou lá o que for: emprestava para se comprar os adubos, as sementes, as alfaias, e quando se fazia a colheita pagava-se, ficava tudo contente, belos tempos. Eram tempos em que o capitalismo tinha um lado quase bom, ou pelos menos paternalista. Claro que a pobreza era extrema, e deixa lá as coisas correrem mal e logo se via quem passava fome. Mas o capital nesses tempos era usado para produzir riqueza real, e o sistema financeiro apoiava o processo, conduzia a coisas que se viam, que resultavam em produtos tangíveis e reais.
 
O capitalismo de hoje é bem mais tenebroso. Os jogos financeiros contemporâneos são tão abstractos e auto-referenciais que trocando a coisa por miúdos mais não são do que comprar e vender dinheiro, como fazia a Dona Branca. Por razões que nunca entendi, muitas das galinhas dos ovos de ouro, em Londres e Nova Iorque, são físicos teóricos e matemáticos falhados, ex-colegas meus em alguns casos. Temos tido acesas discussões, mas numa coisa concordamos: a teoria do caos e o Lema de Ito que se lixe, aquilo é simplesmente jogar na lotaria. Como é que trocar acções por computador ao microssegundo, como se tem vindo a propor, pode corresponder a alguma operação económica real? Aquilo é verdadeiramente a Dona Branca: uma pescadinha de rabo na boca financeira, "financiar o financiamento das finanças financiadas", num jogo bem enterrado no umbigo da Wall Street e da City de Londres, um totoloto mundial mas com um belo seguro contra perdas: quando se ganha, ganham eles; quando se perde ,pagamos todos, em cascata. E é aí que entram as tais putas, especificamente as nacionais.
 
Ao longo dos anos vimos o país a endividar-se com coisas que eram precisas e coisas que não eram. Tínhamos um serviço nacional de saúde do terceiro mundo e uma taxa de mortalidade infantil a condizer, analfabetismo e subdesenvolvimento a níveis do Subsara... e as coisas mudaram dramaticamente nos últimos 20 anos. Saí de Portugal em 1989 e sempre que voltava via algo de novo que era genuinamente preciso: portos para pescadores, estradas ao nível europeu, uma enorme expansão do ensino, etc., etc. E claro que tudo isto custa dinheiro, mas podia argumentar-se que se a Europa não queria ter um país do terceiro mundo no seu seio que o pagasse.
 
Mas onde a porca torce o rabo é que se via também uma orgia de infra-estruturas desnecessárias: túneis nas entranhas da Madeira que levavam a lado nenhum, estradas em duplicado nos cus de judas regionais, coisas tão ridículas que davam vontade de rir. Foram-se fazendo obras públicas completamente faraónicas, de novo-rico que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro. Tornava-se óbvio que se construíam infra-estruturas, não para preparar o futuro, mas sim para alimentar o presente, numa cumplicidade corrupta entre Estado e empresas privadas, em que o último elo da cadeia era o mundo das finanças internacionais. E esses andavam entretidos com os seus jogos de totoloto, e quando a bolha rebentou lixou-se o proverbial mexilhão, tradução, nós.
 
Como Skvorecky notava, as "putas" que tinham antes vendido o seu país aos nazis eram as mesmas que agora acolhiam os soviéticos (e mais tarde, muito depois de o livro ser publicado, acolheriam o capitalismo selvagem, sem que ele o soubesse). O mesmo se passa no nosso caso: não tenham dúvidas de que em tempos de fascismo os nossos primeiros-ministros teriam sido rapazes de sucesso. Mas de certa forma estamos a bater no ceguinho. Se eles (e nós, por extensão) fizeram figuras tristes e agora estamos a pagar por isso, houve quem fez pior e se está agora a rir. Os usurários mundiais nem sequer construíram túneis inúteis: construíram castelos de valores inexistentes, que continuam a crescer e a alimentar a sua ganância. Até isto se resolver falemos de tourada, porque não faz muito sentido discutir o estado da nossa sociedade, e o demais, em 2013.
 
Aliás, parece-me que a nossa sociedade estaria muito bem, muito obrigado, se não fosse este "pequeno detalhe" político e financeiro. Por exemplo: a sociedade portuguesa é muito mais sã do que a inglesa. Na Inglaterra, quem abre a boca inevitavelmente vomita uma etiqueta de classe social autenticada. Os famosos sotaques britânicos fornecem informações precisas sobre a classe, uma pena não se ensinar isto nas aulas de inglês do secundário que cá se apanham. E este simples facto cria uma quase ausência de mobilidade e interacção entre as classes; pior, torna as pessoas em estereótipos da sua classe social. Por exemplo, a classe operária inglesa força-se a seguir um cliché de ignorância e estupidez, atitudes racistas e xenófobas, contra a cultura e a educação. A sua imagem de marca é falar com erros de gramática que em Portugal só um atrasado mental cometeria... assim as classes superiores os têm vindo a controlar.
 
Nada disto se passa em Portugal (e já agora na Grécia, onde se encontram camponeses analfabetos a pagar a educação dos filhos em Cambridge). Ainda fui daqueles que tiveram de ir fazer a inspecção para a tropa, estava já então em Inglaterra, e o que mais me impressionou foi que entre os 500 "mancebos" de pirilau de fora que lá estavam, não se sabia de que classe era quem (tirando os casos extremos de dois grosseiríssimos labregos e de um pretendente à coroa). Ora na Inglaterra nada disto seria assim, e com graves consequências: ao contrário de Inglaterra, se há cultura e identidade neste país, elas residem precisamente na classe trabalhadora. E diria que é este o maior potencial de Portugal: temos uma sociedade muito mais saudável, em termos de identidade e de classe, apesar de todos os problemas com que nos deparamos.
 
Sim, éramos um país de pobres que passou temporariamente a um país de novos-ricos. Mas agora somos um país de novos-pobres: miúdos cheios de talento desempregados há dois anos, pessoal de ponta a emigrar para o estrangeiro, médicos educados cá a colmatarem as faltas de sistema de saúde inglês... um desperdício óbvio de uma geração. Em vez de usarmos estas fontes de rendimento, deixámos os tanques financeiros entrar pelo país, para aumentar os impostos e baixar os salários, já de si entre os mais baixos da Europa.
 
Não sei se haverá soluções milagrosas, mas uma quebra total com o que se tem vindo a fazer é evidentemente necessária. Lembro-me de uma senhora perguntar a um médico meu amigo se podia usar água benta para a sua enfermidade. O médico respondeu-lhe que sim, mas que a fervesse primeiro. Não me parece que doses sucessivas de banha da cobra sejam a solução dos nossos males. Muita da nossa dívida, e consequente austeridade, não é legítima, em perfeita analogia com as dívidas contraídas pelas prostitutas, e que as mantêm nas malhas dos seus donos. Se a nível mundial algo tem de ser feito para refrear os chulos financeiros, a nível nacional um corte com o passado seria um primeiro passo. Ou então que se dê o Prémio Nobel da Economia à Dona Branca. E viva a República das Putas.

11.1.13

Ovelhas negras: quanto mais lêem, mais negras se tornam


“I find television very educating. Every time somebody turns on the set, I go into the other room and read a book.”
Groucho Marx
 
 
“My alma mater was books, a good library.... I could spend the rest of my life reading, just satisfying my curiosity.”
Malcolm X

Ser professor é ter orgulho de ser o profissional que fará a diferença para o futuro do país


 
Não é um estudo técnico, é um programa político e uma agenda contra a economia e os portugueses
 
 
Propostas do estudo do FMI pago pelos portugueses e que, apesar dos erros, das informações erradas, desactualizadas, e das conclusões manipuladas, é considerado pelo governo PSD/CDS um «estudo muito bem feito»:
 
- mais de 100 mil desempregados
-cortes nas pensões e reformas
- cortes nos salários
- cortes na educação
- cortes na saúde
- cortes na segurança
 

Compreender a Dívida Pública ou como os bancos privados encontraram uma maneira de obter lucros garantidos



Porque é que o Banco central deixou de emprestar dinheiro ao Estado, deixando essa função nas mãos dos bancos privados?

Não será porque a dívida pública aos bancos privados está condenada a alimentar-se a ela própria, e a não parar de crescer, para garantir lucros fabulosos aos bancos por meio dos impostos pagos pelos cidadãos contribuintes?

Os bancos arranjam assim um meio garantido de se auto-financiar:

 o Estado é obrigado a financiar-se juntos dos Bancos, estes cobram-lhe os juros que lhes mais convém, podendo ser até juros agiotas, e o Estado, por sua vez, para obter receitas, cobra impostos cada vez mais elevados aos contribuintes.

No final, quem fica com a receita fiscal do Estado são os bancos.

A alienação da infância ou como as crianças são castradas da sua alegria e da sua natureza humana

 
 
Já não bastava a alienação dos trabalhadores, nem a dos consumidores, relativamente aos problemas sociais, nomeadamente a exploração e a manipulação a que são sujeitos sob a dominação do sistema capitalista.
 
Assistimos hoje à domesticação em larga escala de toda a população, a começar pelas crianças e jovens que abandonam a realidade social, e a sua própria felicidade pessoal, e rendem-se aos gadgets e à intoxicação mediática dos mass media.

O povo é quem mais ordena - convocação de uma grande mobilização popular para 2 de Março


Várias pessoas que estiveram na origem da manifestação cultural do dia 13 de outubro apelam a todos e todas para que, juntos, tomemos as ruas a 2 de março.
 
Somos todos precisos. Todos e todas: funcionários públicos e do privado, efectivas, contratados, precárias, reformados, pensionistas, estudantes e desempregadas. O Orçamento do Estado para 2013 vai ser posto em prática contra nós. Cortes, penhoras, despejos, despedimentos, dispensas são uma realidade diária, imposta à força, no país em que vivemos. Custe o que custar, dizem. Doa a quem doer, dizem. Mas sabemos que custa sempre aos mesmos, que dói sempre aos mesmos. E que os mesmos somos sempre nós.
 
2013 ainda não começou e já sabemos bem demais o que aí vem, porque a fome já se faz sentir em muitas casas, em muitas ruas, em muitas escolas. A doença e a miséria já matam, aqui e nos outros países reféns da Troika, esse governo não-eleito que continua a decidir o nosso futuro, que continua a condenar-nos os sonhos à morte, o futuro ao medo, a vida à sobrevivência. Gente que ninguém elegeu e que fala já de medidas de contingência para este mesmo Orçamento, que passarão, dizem, por novas baixas nos salários. Pela miséria nossa que lhes traz lucro a eles.
 
Depois de durante quase dois meses sentirmos na pele os efeitos deste Orçamento criminoso e imoral, a Troika regressará ao nosso país a 25 de fevereiro, para a 7ª avaliação do assalto financeiro a que este governo, ajoelhado e sem legitimidade, insiste em chamar “de resgate". Sabemos já de cor o teor das mentiras que dirão: que estamos a cumprir, que vamos no bom caminho, que tudo está como deveria estar. Mas esse caminho, o "bom" caminho no qual estamos e (se deixarmos) estaremos, será, como é hoje, o caminho para o cadafalso, o caminho da fome, da miséria, da destruição total da Constituição da República que este Governo e esta Presidência juraram defender, mas que violam constantemente, sem qualquer dúvida ou arrependimento. Já não fazem nada sequer próximo daquilo para que foram eleitos.
 
Mas nós somos cada vez mais. Somos já muita gente que se recusa a continuar calada. Já mostrámos a força da nossa voz e do nosso protesto. Em Portugal e noutros países, saímos à rua pacificamente, para dizer Basta. E o mundo inteiro ouviu e viu a nossa força. Sabíamos que essas enormes demonstrações de vontade, apesar da sua dimensão, não seriam suficientes, que a luta seria dura e longa e que teria de continuar. A força dos que nos oprimem é cega e obedece a uma rede internacional, para a qual somos apenas um nó insignificante. Mas esse nó é constituído por milhões de pessoas. Pessoas que sentem, pessoas que sofrem, mas que não deixam por isso de pensar, não deixam por isso de saber que têm de agir. Não vamos deixar que se repita a história e que acabemos entregues a regimes totalitários, reféns do ódio, da miséria, da guerra.
 
Por isso, a 2 de Março, unidos como nunca antes, com a força da revolta na voz e a solidariedade nos braços que entrelaçamos, sairemos de novo à rua, todos e todas, para dizer NÃO.
 
Apelamos a todos os cidadãos e a todas as cidadãs, com e sem partido, com e sem emprego, com e sem esperança, para que se juntem a nós. Como apelamos às organizações, aos movimentos cívicos, aos sindicatos, aos partidos políticos, às colectividades, aos grupos informais, de norte a sul, nas ilhas, no estrangeiro, para que saiam à rua e digam BASTA. Faremos de cada cidade, de cada aldeia, de cada povoação, um mar de força e gente, exigindo o fim definitivo da austeridade desumana, a queda do governo e o lançamento das bases para um novo pacto social. Sem troikas, sem políticas recessivas, sem inevitabilidades, sem despedimentos, sem sacrifícios irracionais que já todos percebemos aonde levam: à miséria total, ao fim de toda e qualquer esperança de uma vida digna, ao fim do Estado Social.
 
Usemos o tempo que nos separa desta data para construirmos um caminho, para alertarmos este, para esclarecermos aquela, sem perdermos de vista os nossos objectivos: o derrube total e inequívoco deste governo, o derrube da austeridade enquanto política que, ao contrário do que nos dizem, não funciona. Porque apenas funciona contra nós, contra o povo, contra os povos, quem quer que seja o seu intérprete - troika ou troikistas.
 
Concentremos energias e forças numa mobilização sem precedentes, sabendo que só juntos venceremos.
É preciso união.
Somos precisos - todos e todas nós.
Vamos manifestar-nos na tarde de 2 de Março!
A troika e o governo vão ouvir-nos gritar: O POVO É QUEM MAIS ORDENA!
 

10.1.13

Pelo Trabalho Doméstico Digno e Decente

 
Petição pública a favor do trabalho doméstico digno. Assina


Texto da Petição

Associação Comunidária, organização sem fins lucrativos, com número de Identificação Fiscal n.º 508438330 e signatários/as vêm, perante à vossa presença, apelar que Portugal, ratifique a Convenção 189 da OIT em prol do trabalho doméstico digno e proceda às alterações do da lei do serviço doméstico em Portugal que não sofre qualquer alteração desde 1992, ou seja, há 20 anos.

Atualmente o contrato de trabalho doméstico é legislado pelo regime especial, Decreto Lei 235/92, que até o presente momento encontra-se em vigor, pelo que pede-se pela revogação e alteração deste regime adaptando-o as regras da Convenção 189 da OIT bem como tornando eficaz a sua implementação.

  O trabalho doméstico em Portugal é prestado em grande número por mulheres migrantes e muitas delas não documentadas. Isto porque a lei não é eficaz e falta para estas empregadas, uma fiscalização ativa dos Órgãos governamentais quando se trata de trabalho doméstico.

É fácil compreender a suma importância e necessidade emergente de uma mudança legislativa quanto ao trabalho doméstico de forma a enquadrar as regras mínimas transpostas pela Convenção 189 da OIT na legislação local.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, o setor dos trabalhadores e trabalhadoras domésticas ainda é insuficientemente regulamentado e, em grande parte, informal. Dados da OIT mostram que há cerca de 53 milhões de pessoas atuando na área. Devido à informalidade e à falta de regulamentação, estima-se que esse número possa chegar a 100 milhões de pessoas, sendo que grande parte destes (as) trabalhadores (as) encontram-se na Europa. Na Convenção 189 são estabelecidos direitos fundamentais que devem ser comuns aos trabalhadores (as) domésticos (as) , como horas de trabalho razoáveis; pagamento de salário mínimo, onde houver; descanso semanal de no mínimo 24 horas consecutivas; esclarecimento prévio sobre termos e condições do emprego, respeito à liberdade sindical e direito à negociação coletiva.

O documento é organizado em 27 artigos, que tratam de definições do termo, direitos humanos e fundamentais do trabalho, proteção contra abusos, condições equitativas, contratos de trabalho, proteção a trabalhadoras e trabalhadores migrantes, moradia, jornada de trabalho, remuneração mínima, proteção social, medidas de saúde e segurança, agenciamento de emprego doméstico, acesso a instâncias de solução de conflitos e inspeção do trabalho. Quanto aos empregadores/as, vale mencionar que a formalização do contrato de trabalho doméstico é sempre benéfico, seja pela garantia e segurança de manter-se o registo do trabalhador/a, o/a qual lhe presta o serviço, bem como à título de IRS para dedução de ajuste anual.

Ao ratificar a Convenção 189 da OIT, Portugal será o país pioneiro na Europa a participar desta nobre e fundamental causa, será exemplo para os demais países a dignificar essas pessoas que necessitam com a máxima urgência de uma proteção social, jurídica e acima de tudo humanitária, a fim de melhorar suas condições de trabalho e de vida como trabalhadores/as domésticos/as.

Nesse sentido buscamos a vossa sensibilização e mobilização para a utente promoção e proteção emergente dos direitos humanos para todos (as) as trabalhadoras e trabalhadores domésticos em Portugal, para através do vosso apoio levar a discussão e votação em Assembleia, o projeto lei que proponha a ratificação e aplicação das disposições da Convenção 189 da OIT, bem como a criação de um Órgão Inspector direccionado a implementação do respectivo regime no sentido de influenciar uma positiva mudança legislativa para os/as trabalhadores/as domésticos/as.




História de uma trabalhadora doméstica em Portugal



Invisível, desvalorizado, mal pago, não remunerado, isolado, ocupado na maior parte por mulheres imigrantes e/ou domésticas, desigual, escravatura moderna...versus realização, dignidade, crescimento, desenvolvimento e igualdade .... O convite e desafio que lançamos é para acompanhar as ações que decorrem em Portugal e no mundo no âmbito do trabalho doméstico e assim promover as mudanças não só setoriais, mas pelos direitos humanos e principalmente por milhões de mulheres e meninas que são a grande maioria de ocupação neste sector.
 

Europa periférica no combate à crise - debate internacional ( dia 11/1) para assinalar o 10º aniversário da ATTAC Portugal



No âmbito da comemoração do seu 10º aniversário, a ATTAC Portugal organiza um debate internacional 'Europa periférica no combate à crise', na sexta-feira, dia 11 de Janeiro, às 18h30, no cinema S. Jorge, Lisboa, que contará com a participação de:

  Gunnar Armannsson - ATTAC Islândia
Cristina Asensi - ATTAC Espanha
  Benedikte Hansen - ATTAC Noruega
  Luís Bernardo - ATTAC Portugal

O debate será em inglês. Na plateia estarão ainda activistas convidados de muitos outros países, como França, Alemanha, Suíça, Bélgica, Grécia, Finlândia, Reino Unido, entre outros.

  Numa altura crítica do combate à crise, a ATTAC Portugal organiza um debate com vozes de diferentes pontos da Europa, para partilharem as suas experiências e pontos de vista connosco.

http://attacportugal.webnode.com/

9.1.13

Leitura das Histórias em três linhas, de Félix Fénéon, na livraria-bar Gato Vadio no dia 12/1/2013 por Rui Manuel Amaral e Pedro Amaral

Leitura das "Histórias em três linhas", de Félix Fénéon,
 
por Pedro Amaral e Rui Manuel Amaral,
 
no Gato Vadio, dia 12 de Janeiro de 2013, pelas 17h00.
 
Gato Vadio: Rua do Rosário, 281, Porto.
 
No próximo sábado, 12 de Janeiro, pelas 17h00, há mais uma sessão das Leituras do Gato Vadio. Desta vez dedicada às "Notícias em três linhas", de Félix Fénéon, traduzidas por Manuel Resende. O convidado é o Pedro Amaral.
 


 
 

Interrogatório a Fénéon pelo juíz no processo judicial contra os 30 acusados de actividades anarquistas


— Êtes vous un anarchiste, M. Fénéon ?
— Je suis un Bourguignon né à Turin.
— Vous étiez aussi l'ami intime d'un autre anarchiste étranger, Kampfmeyer?.
— Oh, intime, ces mots sont trop forts. Du reste, Kampfmeyer ne parlant qu'allemand, et moi le français, nos conversations ne pouvaient pas être bien dangereuses. (Rires.)
— À l'instruction, vous avez refusé de donner des renseignements sur Matha et sur Ortiz.
— Je me souciais de ne rien dire qui pût les compromettre. J'agirais de même à votre égard, monsieur le Président, si le cas se présentait.
— Il est établi que vous vous entouriez de Cohen et d'Ortiz.
— Pour entourer quelqu'un, il faut au moins trois personnes. (Explosion de rires.)
— On vous a vu causer avec des anarchistes derrière un réverbère.
— Pouvez-vous me dire, monsieur le Président, où ça se trouve derrière un réverbère ? (Rires forts et prolongés. Le président fait un rappel à l'ordre.)
— On a trouvé dans votre bureau, au ministère de la Guerre, onze détonateurs et un flacon de mercure. D'où venaient-ils ?
— Mon père était mort depuis peu de temps. C'est dans un seau à charbon qu'au moment du déménagement j'ai trouvé ces tubes que je ne savais pas être des détonateurs.
— Interrogée pendant l'instruction, votre mère a déclaré que votre père les avait trouvés dans la rue.
— Cela se peut bien.
— Cela ne se peut pas. On ne trouve pas de détonateurs dans la rue.
— Le juge d'instruction m'a demandé comment il se faisait qu'au lieu de les emporter au ministère, je n'eusse pas jeté ces tubes par la fenêtre. Cela démontre bien qu'on pouvait les trouver sur la voie publique. (Rires.)
— Votre père n'aurait pas gardé ces objets. Il était employé à la Banque de France et l'on ne voit pas ce qu'il pouvait en faire.
— Je ne pense pas en effet qu'il dût s'en servir, pas plus que son fils, qui était employé au ministère de la Guerre.
— Voici un flacon de mercure que l'on a trouvé également dans votre bureau. Le reconnaissez-vous ?
— C'est un flacon semblable, en effet. Je n'y attache pas l'ombre d'une importance.
— Vous savez que le mercure sert à confectionner un dangereux explosif, le fulminate de mercure].
— Il sert également à confectionner des thermomètres, baromètres, et autres instruments. (Rires)

Art et anarchie dans le Paris fin de siècle

Joan Halperin, Félix Fénéon, éd. Gallimard, 1991, p. 321-326
 
 

Félix Fénéon (1861 - 1944) foi um anarquista e crítico de arte francês em Paris durante finais do século XIX. Ele criou o termo do "Neoimpressionismo" em 1886 para identificar a um grupo de artistas encabeçados por Georges Seurat, ao que tanto apoiou.
 
 
 
"Apesar do seu aspecto voluntariamente frio, da sua política um pouco rígida, do dandismo especial das suas maneiras, reservadas e altivas, tinha um coração caloroso e leal. Mas não o abria a toda a gente, visto que pessoa menos banal não havia. Quem conquistasse a sua confiança, podia abrigar-se nele como sob um tecto acolhedor. Sabia que lá havia de ser acarinhado e defendido, sempre que necessário."Octave Mirbeau, a propósito de Félix Fénéon.
 
 
 
Quando se conhece a fundo a vida de Félix Fénéon, tem-se a consciência clara de que lhe importavam pouco os seus antecessores e nada, ou quase nada, os que viessem depois: viveu sempre aferrado à grave matéria do presente. E é por isso que, como cidadão, teve uma existência marcante, e se dedicou de forma inesgotável ao tempo que lhe tocou viver, a ponto de se relacionar com terroristas e de ter chegado a participar, de forma mais ou menos directa, em algumas acções de terrorismo anarquista. (…) No entanto, o mais curioso de tudo isto é que alguém com esta impetuosidade seria hoje, de forma quase automática, pasto para a atenção do público, em boa medida porque ele próprio se postularia como objecto de notícia e comentário. Mas ele preferiu sempre o anonimato. Nesse sentido, parece também um oblíquo precursor dos personagens de Walser, do protagonista do único romance de Ville de la Mirmont, dos protagonistas dos textos kafkianos que têm por nome apenas uma letra. O desejo de anonimato de Fénéon parece quase inverosímil se tivermos em conta a sua participação em tantas actividades. E, contudo, podemos aceitar como totalmente sincera a sua afirmação de que aspirava ao silêncio, ao esquecimento, a passar completa e absolutamente incógnito.Antonio Jiménez Morato.


O fotógrafo Joachim Berthoud não conseguia
consolar-se da morte da mulher. Matou-se em
Fontenay-sous-Bois.


O abade Andrieux, de Roannes, a Aurillac,
trespassado na quarta-feira a tiros de espingarda
por impiedoso marido, morreu ontem à noite (Havas).


Por desaguisado político, os Srs. Bégouen,
publicista, e Bepmale, deputado, tinham-se
tratado de «ladrão» e «cobarde». Reconciliaram-se (Despacho particular).

Juiz: O que é que tem a dizer aos testemunhos de ter sido visto detrás de um candeeiro público a falar com um conhecido anarquista?



Fénéon: Terei todo o prazer em responder a essa questão se o meritíssimo juiz tiver a gentileza de me indicar qual é a parte detrás de um candeeiro público.

Félix Fénéon durante o julgamento em que foi acusado de envolvimento no atentado anarquista do restaurante Foyot, em 1894.

Fonte:



 

O sofrimento deve dar lugar à rebelião e à solidariedade - texto de António Pinho Vargas

 
O sofrimento deve dar lugar à rebelião e à solidariedade

Texto do compositor e sociólogo António Pinho Vargas publicado no jornal Público de 5 de Janeiro de 2013


"Estás a sofrer?"

Como considerar a questão da solidariedade? Como é possível conduzir uma vida com base nesse conceito? Que formas práticas pode ela assumir? Julgo que há duas formas de pensar este problema. Podemos considerar, em primeiro lugar, que a pergunta fulcral para desencadear solidariedade é a formulada por Richard Rorty: "Estás a sofrer?"

Em segundo lugar, há uma acepção mais propriamente política, na qual se encara o sofrimento humano como "a contradição que existe entre a experiência da vida quotidiana, em muitas partes do mundo, e a ideia, o horizonte, de uma vida decente" (Santos, 2004). Em que mundo vivemos, sob que hegemonia? Para Boaventura de Sousa Santos, "o neoliberalismo é uma das utopias conservadoras para as quais o único critério de eficácia é o mercado ou as leis do mercado". "Qualquer outro critério ético é desvalorizado como ineficaz. Nega-se radicalmente a existência de alternativas à realidade do presente e procura-se desacreditar quaisquer alternativas precisamente por serem utópicas, idealistas, irrealistas" (Santos, 2011). Esta "ética" da eficácia capitalista é avaliada de forma peculiar pelos detentores do poder - continua a ser vista pelos conservadores como a única eficaz, mesmo quando falha totalmente - e é justamente no meio de um processo violento desta natureza que estamos na passagem para 2013, em Portugal. Na Europa, que se move numa lentidão institucional exasperante e que, no essencial, se rege pelos mesmos critérios e pelos mesmos valores conservadores neoliberais, radica a origem do imenso sofrimento humano que decorre do desemprego galopante, dos salários cada vez mais baixos para as camadas mais pobres, do aumento das desigualdades, do desmantelamento do Estado social, visto como insustentável, de acordo com esse critério de análise - o mercado como única medida de eficácia - e, desse modo, aumenta-se o sofrimento humano de milhões de pessoas de forma brutal e persistente.

É forçoso sobrepor os dois planos: ter em conta a pergunta de Rorty "Estás a sofrer?" e pôr fortemente em questão a pretensão de única via possível atribuída aos "mercados". É óbvio que há alternativas, como houve com Lula da Silva no Brasil ? muitos milhões de pessoas retirados da pobreza -, como há, mesmo nos EUA, com Obama, como se viu no Obama Care, apesar do tremendo combate que teve de travar com a direita no quadro do complexo sistema político americano. Mas, na Europa, segue-se o caminho inverso: empobrecer as populações e retirar-lhes muitos dos sistemas sociais de apoios estabelecidos. Entre as consequências da acção deste Governo e das acções comandadas pela troika europeia e o FMI - pretexto ou não - verifica-se um regresso da pobreza de forma nunca vista desde o regime de Salazar. Mas as alternativas políticas que existem, ao contrário do que o discurso hegemónico quer fazer crer, não respondem, por si só e neste momento particular, à pergunta de Rorty. Vejamos a questão considerando os diferentes tempos simultâneos em jogo.

Do ponto de vista das necessidades reais do ser humano em sofrimento, o seu tempo existencial de vida contínua não se pode medir apenas no tempo médio das alternâncias políticas, nem no tempo longo das crises estruturais.

O tempo da crise é o tempo das crises económicas - que podem durar entre 25 e 50 anos - sem que, no entanto, a sua presença na actualidade mediática deixe de nos transmitir a sensação de que tudo está por um fio: um tempo médio ou longo, narrado como tempo frenético. Daí a estranha sensação de uma imobilidade de fundo e de uma superfície agitada e frenética. A luta política entre os vários responsáveis pela política global prossegue com o anúncio de medidas para combater a crise que se revelam ineficazes para combater a crise e são mesmo criadores de crise. Aquilo que faz a actualidade das notícias manifesta-se de acordo com os critérios do tempo frenético dos media. Também os famosos "mercados" financeiros - lugar por excelência da luta dos especuladores - é igualmente regulado pelo tempo frenético. Na especulação financeira, num só dia, biliões de dólares ou euros podem mudar de lugar, de proprietário, de banco, de multimilionário. O tempo da economia, no sentido da acção humana produtora de bens e mercadorias e das suas trocas, é muito mais lento do que o movimento acelerado da troca de capitais. A tecnologia e a Internet permitiram essa aceleração brutal.

Mas para um desempregado - aí colocado pela voragem destrutiva das medidas de austeridade, até aqui o único remédio erroneamente proclamado para a crise - o tempo que domina a sua vida é existencial e vive-se de acordo com o ritmo da pulsação cardíaca, ou seja, não pára, não tem tempo para parar; é regulado pela necessidade de encontrar todos os dias, no pior dos casos, uma forma de sobreviver, uma forma de comer, uma forma de manter a vontade de viver. É, desse modo, o tempo da existência quotidiana dos humanos; em cada minuto, em cada dia, pode passar do espanto para a revolta, da fúria para um sossego de fadiga, da luta convicta para a submissão e a desistência. É um tempo determinado pela crise, mas que obriga muitas pessoas a acções diárias de sobrevivência: como vou arranjar dinheiro para a casa, para dar à mãe, para dar aos filhos, para pagar a escola, onde vou viver depois de ir entregar a casa ao banco, etc.

Os políticos, os cientistas sociais, os economistas, os intelectuais, vivem numa espécie de tempo intermédio: analisar, escrever, decretar, interpretar diariamente aquilo que envia sinais provenientes da profundeza do tempo longo da economia, da rapidez dos movimentos rápidos das bolsas financeiras e, nos casos mais lúcidos, interpretar igualmente os sinais inquietantes enviados para o ambiente, pelos movimentos lentíssimos do planeta, na sua rejeição imparável da agressão violenta dos humanos das sociedades capitalistas industriais do mundo. A acção deste vasto grupo, em particular dos políticos, sendo diária, só manifesta mudanças de vulto nos períodos eleitorais-atualmente-carnavalescos ou nos períodos de crise política aparente ou eventual. Daí, desse tempo intermédio da democracia-actualmente-existente, saem, por vezes, sinais de alguma esperança para os que sofrem a crise e sinais de preocupação para os que lucram com ela. Os sinais são os mesmos; a sua interpretação é que varia conforme são vistos por pobres, motivados pela pulsão da sobrevivência, ou por ricos, motivados pela pulsão destrutiva da acumulação de capital. Esta divisão não é retórica, é real.

Esta multiplicidade de tempos simultâneos parece mostrar que a tese de Walter Benjamin de que, nas revoluções, "o tempo sai dos eixos" ? de Hamlet, "the time is out of joint" - se tornou o nosso tempo diário "normal", tal como na sua outra brilhante intuição de que nas sociedades capitalistas "o estado de excepção é a regra". Na crise todos estes tempos se misturam e interligam.

Entronca neste ponto a divergência entre duas tradições de solidariedade: a católica progressista? existente desde o antigo regime? sob múltiplas formas e a solidariedade no sentido político mais lato, vista como horizonte político futuro de uma sociedade mais justa. Esta visão política, sobretudo a da tradição marxista-leninista, tinha em tempos uma tal confiança no determinismo histórico, que punha em causa toda e qualquer acção passível de ser criticada como "reformista", ou mesmo "solidária". Corria, em 1970-71, entre os movimentos associativos estudantis de Lisboa, uma anedota, provavelmente inventada - mas lúcida na sua invenção - sobre um dirigente associativo do qual se dizia que dava pontapés no engraxador para agudizar as contradições de classe e, desse modo, favorecer a vinda do socialismo, o desenrolar mais rápido do processo histórico já conhecido. Hoje sabemos que não existe determinismo histórico algum que conduza necessariamente a um destino já previamente conhecido. Apenas a acção das pessoas do mundo permitirá sair desta crise pelo lado da emancipação e da solidariedade.

Nesse sentido, regressa aqui uma forma de tempo frenético que talvez afecte também os partidos das esquerdas: a luta parlamentar diária, a luta pelo poder entre si e a luta contra o Governo de direita que absorve, de forma diária, a sua concentração e a sua acção, imersa na vida política aparentemente rápida. Essa actividade, certamente importante, poderá, talvez, fazer esquecer o tempo presente em favor do tempo médio ou longo, no qual se trava a luta fundamental que comanda a evolução das sociedades. Ora, para muitas pessoas em sofrimento, não há tempo para esperar pela História.

Sendo certo que, durante o regime de Salazar, "a caridade cristã" pôde ser vista como uma forma de eternizar o estado de coisas e que essa memória ainda nos afecta, o facto é que, no seu tempo existencial de vida quotidiana, os excluídos, os pobres, os desempregados, os que recorrem ao Banco Alimentar e às Misericórdias, às Sopas dos Pobres, etc., não têm tempo para esperar pelo desenlace da luta política, pela queda do Governo, pelo fim da crise, ou outras projecções que se podem desejar ou especular.

A atitude a tomar será considerar que, enquanto não chega o momento da rebelião - como passo para "o momento da solidariedade na construção de uma tópica para a emancipação" ? e se está no momento do sofrimento humano, é necessário considerar a pergunta de Rorty e responder-lhe com acções imediatas, independentemente dos eventuais pressupostos ideológicos que presidem àqueles que as desencadeiam. É necessário sobrepor os dois momentos: o momento político das lutas de médio e longo prazo e o momento de solidariedade activa face ao sofrimento humano, evitando colocá-los como alternativas opostas e contraditórias entre as quais é forçoso escolher. Agir agora: "Estás a sofrer?"



Nota biográfica:
António Pinho Vargas(Vila Nova de Gaia, 15 de agosto de 1951) é um músico e compositor português.
Licenciou-se em História, pela Faculdade de Letras do Porto, e terminou o Curso Superior de Piano do Conservatório da mesma cidade. Posteriormente obteve o mestrado em Composição, pelo Conservatório de Música de Roterdão, onde foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2010 doutorou-se em Sociologia da Cultura, na Universidade de Coimbra, com uma tese intitulada Música e Poder: para uma sociologia da ausência da música portuguesa no contexto europeu.
Destacou-se como compositor clássico, sendo autor de três óperas e várias peças, incluindo obras gravadas pela Arditti String Quartet, o Galliard Ensemble, o escocês Royal Academy Brass, a Northern Sinfonia, entre outros. No mundo do jazz tem sete álbuns editados, sendo o primeiro, Outros Lugares, de 1983

António Damásio diz que os cortes preconizados na educação preconizados pelo FMI são incompatíveis com aquilo que Portugal precisa

O neurologista António Damásio lembrou que a educação de excelência que o país precisa é incompatível com os cortes exigidos pelo FMI.
Para este médico, que foi distinguido em todo o mundo, um défice de educação conduz invariavelmente a um défice económico e social, por isso mais cortes na educação são um risco perigoso.
«Espero que nada disso se vá passar e seja possível manter qualidade e aumentar a qualidade nas escolas», acrescentou o cientista português.
Ao visitar uma escola nos Olivais que vai ter o seu nome, António Damásio frisou que «não é possível ter uma sociedade justa e com progresso se não houver excelente educação».
Com este tipo de educação, será possível «ter indivíduos mais bem preparados para viverem e participarem numa economia forte em que as pessoas possam chegar à boa saúde, felicidade e ao que chamo o florescer do indivíduo humano».
Para este professor que está radicado há muitos anos nos EUA, «não há nada que nos diga que não se deve emigrar», contudo, «o que não é de todo solução é resolver problemas económicos com emigração».

Vamos todos apoiar amanhã (10/1/2013) a Myriam Zaluar

 
Amanhã, dia 10 de janeiro, pelas 11h, Myriam Zaluar será julgada no Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa por, no passado dia 6 de março, ter distribuído panfletos e tentado efectuar uma inscrição colectiva no Centro de Emprego do Conde de Redondo em Lisboa. Foi constituída arguida e acusada de organizar uma manifestação não autorizada. Eram quatro pessoas.
 
Perante nova demonstração de repressão e violação dos direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa, vimos por este meio convocar todos e todas para que se juntem a nós no apoio a esta companheira. ‎
 
10 de janeiro | 11h |
Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa.
  Alameda dos Oceanos, No 1.08.01 .F - 1990-209 Lisboa.
 
 
Artigo 45.º da Constituição da República Portuguesa
 Direito de reunião e de manifestação
1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.
2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.

Manifestação de Professores em Lisboa (26 de Janeiro). Todos os professores a Lisboa contra o desmantelamento da Escola Pública!

 

Perante tudo isto, não podes ficar em casa!
 
Mais desemprego

Professores dos quadros em risco de despedimento / mobilidade

Corte total do salário nos 3 primeiros dias de doença

 Mais Mega-agrupamentos

Municipalização da Educação

Aumento do horário de trabalho

Maior componente lectiva
 
O ano de 2013 surge sem novidades. O que se anuncia é ainda pior. O Orçamento do Estado promulgado por Cavaco entre o Natal e o Ano Novo, anuncia mais miséria e a troika, achando pouco, quer acrescentar-lhe mais desgraça. A direita no poder aproveita a crise para, com essa justificação, levar por diante o mais forte ataque jamais desferido contra o Portugal Democrático, aproveitando para, por fim, ajustar contas com Abril.
 
A par do desmantelamento das funções sociais do Estado, que a todos obrigará a custos mais elevados na saúde, educação ou proteção social, sobre os portugueses irá abater-se uma brutal carga fiscal destinada a extorquir-lhes dinheiro que será enviado para estrangeiros. Ali Babá, ou seja, o FMI usa os seus homens de mão na nossa terra para delapidar Portugal e os portugueses e, assim, se anuncia ainda mais desemprego, novos cortes salariais, o aumento do horário de trabalho ou a transferência total do ensino para os municípios, primeiro passo para a concessão a privados… em suma, sugadas gorduras e secada a carne, querem agora arrancar-nos a pele!
 
Para 2013 não ser tão mau como todos prevemos e é anunciado, só resta, a cada um de nós, assumir a responsabilidade de tudo fazer para contrariar este rumo negativo dos acontecimentos.
 
É preciso que o país saiba dizer “Não!”, como disseram os argentinos quando decidiram pagar apenas parte da dívida, dada a ilegitimidade da mesma. É preciso que o país tenha governantes que não aceitem discriminações e não aceitem ser gozados, assistindo ao aliviar de pressões sobre países com défice mais elevado, mas , aqui, comendo com tudo adotando o que chamam de “bom comportamento”. É preciso responsabilizar quem é, efetivamente, responsável pela situação criada e, nesse sentido, não basta constatar o chamado “milagre irlandês”, é necessário olhar para a coragem de responsabilizar sem olhar a consequências.
 
É por isso que 2013 será tanto melhor ou pior, quanto soubermos e formos capazes de ultrapassar silêncios e conformismos com exigências, propostas, ação e luta. A espiral que aperta cada vez mais, e apertará até sufocar, não irá parar se não fizermos por isso. Se ficarmos apenas a assistir as coisas tornar-se-ão insuportáveis, pois Pedro, Passos Coelho e outros que tais continuarão a rir-se das nossas vidas, acenando-nos de longe, escrevendo hipocrisias com gozo e deixando para os portugueses apenas as pedras que não reluzirem.
 
DAR OUTRO RUMO AO PAÍS E ÀS NOSSAS VIDAS
 
2013 será o ano de nos livrarmos destes males: estas políticas malvadas, os seus executores e a troika que traz ainda outros presos pela goela. É preciso enxotar a troika daqui para fora, rasgar o seu memorando e trilhar outro caminho, que há. Não faltam políticas alternativas, há que saber construir a alternativa política. É preciso dar esperança aos portugueses; é preciso dar rumo ao futuro; é preciso lutar muito por tudo isso!
 
Para os professores, a luta desponta já no alvorecer do ano, em 26 de janeiro.
 
Todos na rua, mais uma vez.