4.8.06

Como educar face à «máquina que produz esquecimento»? (Zygmunt Bauman)


Sociólogo e filósofo polaco, Zygmunt Bauman explica ao longo da sua já vasta obra como passamos de uma «modernidade sólida» para uma «modernidade líquida», na qual a rapidez, a superficialidade e o consumismo frenético dos indivíduos em geral, e dos alunos em especial, colidem com as maneiras de ensinar e educar estávamos habituados. Num mundo em perpétua mudança, saturado de informações, autêntica «máquina do esquecimento» ( ou, com mais rigor, de produzir esquecimento), os educadores devem inventar uma outra maneira de ensinar e aprender.


No seu estado «sólido», definitivamente superado, a modernidade tinha a obsessão da durabilidade (…) O conhecimento tinha valor pois era suposto durar, o que se verificava com a educação,uma vez que oferecia um conhecimento durável (…) Ora nós encontramos aqui o primeiro dos numerosos desafios com que se defronta a educação contemporânea. Na nossa época, uma época «moderna-fluída» as possessões duráveis, os produtos que eram supostos serem apropriados uma vez por todas e jamais substituídos, perderam a atracção que tinham no passado. Era vistos outrora como um capital, e arriscam-se agora a ser encarados como dívidas (…)
Os editores das revistas de luxo pressentiram como ninguém as novas tendências: simultaneamente com as novidades «para fazer» ou «a ter», fornecem regularmente aos seus leitores conselhos sobre o que «passou de moda». (…) O consumismo não consiste hoje numa acumulação de coisas, mas no prazer efémero que elas dão. Se assim é, então porque é que o conjunto de conhecidos obtidos na escola ou na faculdade deveriam ser excepção a essa tendência universal? No turbilhão de mudanças, o conhecimento adaptou-se a um uso instantâneo e previsto para uma única utilização: o conhecimento «pronto-a-vestir», do tipo que é oferecido pelos programas informáticos, e parece atrair a atenção geral. É assim que a ideia segundo a qual a educação é um produto, destinada a ser adquirida e conservada, está em declínio e não se fala mais da educação institucionalizada (…)
O segundo desafio que também se opõe às premissas fundamentais da educação provêm da natureza errática e essencilamente imprevisível das mudanças contemporâneas e reforça o primeiro desafio. Ao longo dos tempos, o conhecimento foi apreciado pela sua representação verídica do mundo: mas o que se passa se o mundo muda de um modo que desafia e questiona constantemente a verdade do conhecimento existente? (…)
O mundo em que vivemos hoje é visto mais como uma máquina de produzir esquecimento do que como um local para desenvolver aprendizagens (…) Numa tal espécie de mundo, a aprendizagem está destinada a ser uma corrida sem fim, logo que um objecto seja substituído e um outro começa a fazer-se notar (…) Como já observara há muito tempo Ralph Wald Emerson quando se está de patins de gelo, o segredo está na velocidade (…)
Isto tudo vai contrariar todos os aspectos da aprendizagem educativa tal como foram praticados ao longo da sua história (…)Nesse mundo, a memória era um capital: mais a memória abraçava o passado e se conservava, mais este capital se valorizava. Hoje uma tal memória aparece como potencialmente incapacitante (…) No nosso mundo volátil feito de mudanças instantâneas e erráticas, os hábitos enraizados, os quadros cognitivos sólidos e a presença de valores estáveis, que eram as finalidades últimas da educação ortodoxa, tornaram-se obstáculos. Pelo menos, eles são rejeitados pelo mercado do conhecimento, para o qual ( tal como para todos os mercados e para todas as mercadorias) a lealdade, os laços e os envolvimento a longo prazo estão obsoletos, quais obstáculos que urge desembaraçarmo-nos (…)
A questão é que muito pouco, ou mesmo nada, poderá ser remediado unicamente através da reforma das estratégias de educação, por mais engenhosa e completa que ela seja. (…) Devo insistir nisto: as actuais mudanças a que assistimos não são do mesmo género que as do passado. Em nenhum das épocas passadas da história da humanidade, os educadores foram confrontados com um desafio desta magnitude. Nunca nos encontramos numa situação semelhante. A arte de viver num mundo sobre-saturado de informações deve ainda ser aprendida. O mesmo se passa com a maneira como preparamos os seres humanos para essa forma de viver.


Tradução de excertos de um texto de Zygmunt Bauman inicialmente publicado na revista Diògene, e retomado no livro «Revue Diogène:une anthologie da la vie culturelle au XXè siécle», PUF, 2005

Os charlatães do turismo verde


As visitas ao templo Angkor no Cambodja estão confiadas a uma sociedade de turismo; as cidades históricas como a de Huê no Vietname estão constantemente sujeitas a uma avalanche de veraneantes…Não obstante a inscrição de certos locais no Património mundial da Humanidade pela UNESCO, a verdade é que os interesses financeiros acabam por sobrepor-se, em detrimento dos próprios locais e das suas populações. A Organização Mundial do Turismo promoveu a noção de «ecoturismo» que soa bem aos viajantes com preocupações ecológicas. Mas, na ausência de uma definição rigorosa, os governos e os grupos privados aproveitam-se deste label para projectos muito pouco ecológicos e fortemente anti-sociais. Vejamos alguns exemplos na América Latina.

No norte da Guatemala e da reserva da biosfera maya (RBM), a mais importante área protegida da América Central, o sítio arqueológico do Mirador era uma pérola bem protegida pela floresta. Fora as comunidades locais e os arqueólogos ninguém conhecia a existência destas 26 cidades mayas que datam do período pré-classico e que são anteriores entre mil e mil oitocentos anos dos outros sítios mayas (Palenque, Copán, Tikal). Os especialistas consideram Mirador como o berço da civilização maya: nele estão alojadoas as pirâmidas mais altas jamais construídas na Meso-América (147 metros de altura). Um arqueólogo norte-americano, Richard Hansen, viu neste património um mina de ouro: «Temos aqui uma combinação única de floresta tropical e de sítios arqueológicos de um valor inestimável que criam um potencial turístico enorme para a Guatemala»

Daí que não demorou a propor a construção de um complexo turístico que permita, segundo ele, a garantir os financiamentos para restaurar o sítio, travar a pilhagem arqueológica e conservar os recursos naturais. O projecto El Mirador nasceu com a fama do «ecoturismo» e foi apoiado pelo presidente da Guatemala, Óscar Berger, assim como por uma longa lista de instituições que aparentemente estavam apostadas na conservação da reserva (1). Contudo, com a chegada prevista de 120 mil turistas por ano a este meio preservado o projecto dividiu as comunidades até então unidas: o avanço do projecto está a conduzir à privatização do património, sob a cobertura de objectivos científicos e/ou turísticos muito pouco claros.(2)

Antes mesmo que o projecto seja conhecido em todos os seus detalhes, e conhecido o seu impacto ecológico, El Mirador já é anunciado na imprensa como uma óptima notícia para a economia do país e a conservação do planeta. A questão da água não é sequer referida: com efeito, não há água na zona de El Mirador, sendo necessário transportá-la por helicóptero. E o que vai acontecer quando os turistas começarem a chegar? Quanto a isso não há resposta até ao momento. Mas para Richard Hansen torna-se urgente actuar ( isto é, expropriar): « a riqueza da RBM deve ser preservada; as comunidades locais são responsáveis pela sua deterioração»

Uma imputação que é particularmente escandalosa. Na verdade, a comunidade visada pertence à rede da Associação das comunidades florestais do Petén (Acofop), premiada aquando da Cimeira da Terra em Joanesburgo, em 1992, pela sua gestão sustentável de 500.000 hectares da reserva, com o acompanhamento da Forest Stewardship Council (FSC) (3). «Em circunstância alguma Acofop é reponsável pela desflorestação da RBM», insurge-se Ileana Valenzuela, do grupo «Acções e propostas de Petén»: «Richard Hansen sabe perfeitamente que ela é destruída pelas explorações petrolíferas, pelas explorações florestais privadas e pelas rotas do narco-tráfico. Ora o turismo vai gerar deslocações e actividades suplementares numa zona da reserva que ainda está preservada justamente graças ao trabalho da Acofop».

El Mirador já reviu o seu projecto inicial para uma apresentação mais «verde»: o comboio e um heliporto substituíram as estradas e o aeroporto inicialmente previstos. No entanto, ninguém garante que esta zona não venha a ser percorrida por autocarros de turistas ou por camiões das empresas de exploração florestal caso as «estradas turísticas» projectadas pela organização Mundo Maya, uma componente do plano Puebla-Panamá venham a ver a luz do dia. Mundo Maya agrupa o Banco Interamericano de desenvolvimento (BID) e os ministros de turismo do México, Guatemala, Honduras, San Salvador e do Belize, tem como seus objectivo, pelo menos ao nível das suas intenções…, desenvolver o turismo «verde» e trazer benefícios para as populações locais.

Mas no plano dos factos as intenções do Mundo Maya são de «facilitar as deslocações dos turistas entre os diversos sítiios arqueológicos mayas e criar infra-estruturas para o turismo»(5). Ou seja, a ideia é estabelecer vias de comunicação entre os sítios de Palenque e Tulum ( no México), Tikal ( na Guatemala) e Copán ( nas Honduras), e que atravessará a região, ainda intacta, da RBM, muito próxima de El Mirador (6). Oficialmente; a região comprometeu_se a desenvolver »um turismo mais respeitador das culturas e do ambiente e cujos benefícios reverterão para o combate à pobreza»(7). Mas, na realidade, esta política arrisca-se a ter um resultado oposto.

No México, as costas marítimas enchem-se de projectos de betão (142 projectos encontram-se em vias de realização) e visam aumentar a «oferta praia» (8). Com a excepção da Costa Rica que tem desenvolvido uma efectiva política de conservação, a América Central percebeu que a natureza é um produto que se vende bem.. Acontece, todavia, que os projectos classificados de «ecoturismo» implicam frequentemente uma actividade em plena natureza mas sem contar com a participação dos habitantes locais na definição e gestão do projecto nem as adaptações ecológicas que possam reduzir o impacto da actividade. Os investidores privados, desejosos de locais virgens, protegidos, são bem acolhidos pelos países que fornecem a matéria prima e cada governo aspira a desenvolver um ´«grande projecto» durante o seu mandato com os olhos postos nas receitas turísticas que daí possam advir.

O presidente mexicano Vicente Fox apoiou desde a sua eleição em 2000 um desastrosa iniciativa da Fonatur, a instância governamental encarregada pelo turismo. Tratava-se de explorar o «último aquarium mundial» na baixa-Califórnia, região que tem uma bioodiversidade marítima única e local de reprodução da baleia cinzenta e de outras espécies. Ao longo das 240 ilhas (9), extremamente sensíveis às fontes de poluição sonora e química, o denominado projecto Mar de Cortès pretende atrair os iates norte-americanos para o que se projecta a construção de 24 marinas capazes de receber 50 mil embarcações privadas. Cinco milhões de turistas são esperados até 2014.

Os investimentos privados têm as mãos livres: o projecto Paraíso del Mar, uma das componentes do Marde Cortès, foi iniciado sem dispor de alguma autorização nem de qualquer estudo de impacto ambiental, digno desse nome.. Ele prevê a construção de 1500 villas, 2.000 quartos de hotel, dois campos de golfe, um centro comercial, um parque recreativo e dois hospitais privados, para um investimento estimado em 900 milhões de dólares. Face aos desvarios dos investidores ( construção de estradas sem autorização, destruição de mangroves,…) a UNESCO decidiu por classificar as ilhas do golfo da Califórnia, e que o México tinha pedido em 1978 para serem incuídas no conjunto do Património mundial da humanidade. É deveras significativo que o governador do Estado, Narciso Agúndez, nem o presidente da câmara de La Paz, Victor Castro Cosio, tenham assitido à cerimónia oficial de classificação do sítio pela Unesco no passado dia 23 de Agosto de 2005, ao passo que ambos tinham inaugurado o estaleiro do Paraíso del Mar. «Face ao turismo, a Unesco não poderá regulamentar o que quer que seja, nem ela tem sequer capacidade para tal», deplora Gonzalo Halffter, especialista junto da organização, que esclarece que a intervenção só se dá quando algum governo assim o solicitar, o que não é o caso do governo mexicano. Em contrapartida, uma rede de associações locais, «Ciudadanos Preocupados AC», impugnou judicialmente estes projectos privados com base nos «estudos de impacto que esqueceram a presença das baleias e de outras espécies». Segundo esta mesma rede, «o contexto social é negado, e o desenvolvimento local é tudo menos uma prioridade»

As Honduras praticam também o «ecoturismo» numa das mais belas parcelas das costas das Caríbas, à entrada do Parque Nacional Jeannette Kawas, terra dos Garifunas, população creoula de origem africana, aqui instalada desde 1880. ao longo da costa o país já «vendeu» aos norte-americanos as suas ilhas – em torno de Roatán, onde se fala inglês e se comercializa em dólares - assim como as suas terras agrícolas, para o cultivo do ananás pela empresa norte-americana United Fruits (reconvertida, desde 1990, em Chiquita Brands Company). Faltava aquela parcela do litoral, com uma orla de coqueiros, até aqui esquecida pelo governo de tegucigalpa.

Em nome do muito prático «interesse nacional», o Instituto do Turismo das Honduras muito simplesmente expropriou 300 hectares do litoral sem seuqer indemnizar os Garifunas. Em 2004 vendeu esta parcela de terra por 19 milhões de dólares à empresa privada que se constituiu para realizar o grande projecto Micos Beach & Golf Resort. Esta designação tem sido motivo de grande perturbação unto dos Garifunas: «na nossa língua micos significa macaco e nunca houve macacos por estas bandas. Os únicos macacos destas praias somos nós, os Garifunas», explica o jovem Alex Podilla, presidente do Pélican Café, uma associação de promoção da cultura garifuna. Não haverá macacos, efectivamente, mas antes um campode golfe de 25 hectares, 2.000 quartos de hotel, 170 villas, um centro de congressos, uma marina,etc. E se a atracção principal é o parque nacional onde se prevê a realização de «diversas actividades», segundo os promotores,« a dança e a música dos garifunas são também motivos de atracção». E não deixa de ser oportuno saber se os antros de turismo sexual já estão também previstos?

Neste 3 grandes projectos - El Mirador, Mar de Cortés e Micos Beach – a natureza é explorada e vendida como o foi há 40 anos a magnífica baía de Acapulco. Os métodos utilizados não mudaram muito: corrupção das autoridades, informações truncadas, indemnizações ridículas ou mesmo inexistentes sobre as expropriações de terras, negação das consequências ecológicas e sociais. No fundo, encontramos os mesmos promotores e investidores ( conhecidos por serem os «coiotes do turismo» por causa da compra das terras a baixo preço), em busca das últimas pérolas intactas do planeta.

Estamos muito longe dos compromissos assumidos pela Organização Mundial do Turismo e pelos Estados sobre a matéria, através do código mundial de ética do turismo e da declaração do Quebec sobre o ecoturismo (10). E a anos-luz de uma verdadeira definição deste último. Sob a capa da consrvação (real ou não) uma tal designação tem conduzido a uma privatização ainda mais rápida dos recursos naturais do que no turismo dito clássico. Os projectos anunciam por vezes objectivos de carácter ecológico, mas todos exigem garantias acerca da titularidade da terra, empurrando pra fora os seus residentes.

A comunidade local perde as suas terras, as suas reservas de peixe ou a sua fonte de água doce, isto é, tudo o que lhe permitia sobreviver. Por vezes, as zonas públicas (praias, margens dos rios, florestas) caem simplesmente nas mãos do privado por um golpe de magia e com recurso à meios ilícitos. De facto, todos estes projectos reservam as últimas baleias, as últimas ceibas ( a árvore-emblema da Guatemala) ou a região dos Garifunas aos mais afortunados, justamente àqueles que terão contribuído para a sua destruição mais rápida. No futuro, será então normal pagar, e pagar caro, para usufruir de uma natureza preservada. El Miradordestina-se ao turismo europeu ( mais cultivado), enquanto o Mar de Cortès e Micos Beach estão talhados para os norte-americanos.

A utilização fraudulenta da designação «ecoturismo» quase nunca é denunciada. O ecoturismo beneficia geralmente de uma boa fama, e é actual o seu desenvolvimento.Para as agências de desenvolvimento parece mesmo que se tornou uma panaceia. Na América Central e no México, agências da ONU (11), organismos financeiros, BID, Banco Mundial, United States Agency for Internacional development (Usaid) e a União Europeia possuem inúmeros projectos direccionados para as comunidades locais. (12). Justificam-nos com as vantagens que podem trazer para a economia local, para a formação profissional, e a tomada de consciência pelos residentesda riqueza do seu património natural e cultural. Uma fórmula quase perfeita que visaria responder à necessidade de valorizar o património e garantir a sua conservação.

Organização não governamentais como a Conservation Inernationale e o BID, ainda que muito críticos sobre as políticas que foram conduzidas na região, financiaram, mesmo assim, durante os anos 1990, pequenos projectos de turismo, 100% comunitários, nos quais os residentes asseguravam uma verdadeira preservação do meio graças aos rendimentos obtidos pelo turismo.

Nos projectos do PNUE ( programa das Nações Unidas para o ambiente), explica Diego Masera, responsável para a América no seio daquela orgaanização, «a participação da comunidade é o motor do processo de conservação, e nenhuma actividade turística é feita sem a população». Em contraste, pelo lado dos Estados, a comunidade, ou seja, a criação e gestão de projectos por parte dos habitantes coloca problemas. Uma comunidade organizada e consciente do valor dos seus recursos naturais tende a mostrar-se contrária à venda a baixo preço das suas terras, ou a deixar que a sua fonte de água ou a sua cascata sejam privatizadas.

Em Chiapas os projectos de ecoturismo promovidos pelos governos (local e federal) não se fundam sobre o modelo comunitário, tentando antes promover o turismo familiar e privado. O governo local não se cansa de elogiar o ecoturismo como a «solução para os problemas económicos de Chiapas», mas a verdade é que financia desde há anos os piores projectos de ecoturismo do…México. Segundo Maxime Kieffer, consultor para o sector, que acaba de fazer uma pesquisa em Chiapas, «os habitantes não são consultados na fase preparatória. Apresenta-se-lhes a actividade e as cabanas, tudo pronto, em betão, sem qualquer cuidado ou preocupação de carácter ecológico, para limitar,por exemplo,a poluição. Os responsáveis não são formados, não existe gestão colectiva, nem projecto de desenvolvimento local, nem sequer uma análise sobre o lixo.» Pior: quando as comunidades rejeitam um projecto sobre as suas terras, os métodos empregues para os convencer deixam pairar sobras sobre o futuro da região. Assim, o conselho autónomo da comunidade zapatista Roberto Barrios denunciou diversas vezes as intimidações dos funcionários públicos, tal como as dos investidores privados, sobre um projecto de ecoturismo a ser realizado próximo das suas famosas cascatas. Ora o primeiro direito de uma qualquer comunidade é o de recusar a chegada de visitantes às suas terras – logo, não se pode impor projectos, mesmo que «sejam muito, muito bons», como o repete incessantemente a responsável pelo turismo de Chiapas.

Os projectos são também financiados pela União Europeia através do programa Prodesis. Com um tal parceiro – o governo, pouco recomendável, de Pablo Salazar – a UE apoia projectos que não têm nada de ecológicos e são até, em muitos dos seus aspectos, o oposto às regras de base do ecoturismo. Na comunidade lacandonica de Lacanjá Chansayab, as famílias gerem os projectos privados sem qualquer colaboração entre si. Aceitam andar com a sua túnica tradicional (13) porque os formadores enviados pelo ministério do turismo lhes garantem que os turistas querem vê-los assim.

Se se acreditarmos nos folhetos a região de Chiapas é o reino da natureza e da paz. O verde do ecoturismo faria desaparecer o kaki dos soldados que nunca mais deixaram a região desde 1994, o ano do levantamento zapatista. A comunicação é astuciosa e está bem oleada. Nos escritórios locais do ministério do turismo reconhece-se que os projectos não respeitam os princípios-chave do ecoturismo,mas o conceito não deixa de ser utilizado em todas as campanhas governamentais.

Ao copresidir no segundo Fórum Internacional do Turismo solidário (FITS) em Chiapas,em Março de 2002, a França veio a caucionar esta falsa política. O presidente Fox, o mesmo que propôs a destrução da Baixa-Califórnia, foi recebido por Pablo Salazar como o «o grande fundador do turismo solidário». Ao mesmo tempo os participantes do Fórum, vindo de África e de Ásia lamentaram, numa carta aberta dirigida aos organizadores,de não terem debatido com nenhuma das comunidades locais, nas várias visitas de campo.

No seio do FITS a preservação da denominação «ecoturismo tornou-se numa prioridade das redes, associações e universitários que defendem o conceito. A denominação, sobretudo no turismo solidário, é a solução mais indicada.
Do meio
Uma denominação dessas para o turismo solidário garantiria, além disso, a preservação do meio, a gestão pelos habitantes do projecto de turismo e um reinvestimento de uma parte dos rendimentos assim obtidos nos serviços comuns. Em França os viajantes solidários, agrupados na Associação para um turismo justo e solidário (ATES) convidaram a Fairtrade Labelling Organizations (FLO) (14), que acompanha a rede do comércio justo a debruçar-se sobre o tema. Todas estas associações têm interesse em defender a transparência e salientar as suas acções de soldariedade e a sua ética, quando outras agências se mitam a um código de boa conduta, e utilizam termos cativantes como o de «turismo responsável» nas suas comunicações.

Mas a certificação é um processo pesado, complexo e dispendioso. Para Ernest Cañada, responsável espanhol Acção para um turismo responsável (ATR), «as taxas de certificação são incomportáveis para os pequenos projectos». No México, por exemplo, o custo da certificação do label do comércio justo aproxima-se dos 2.000 euros por ano para uma organização de produtores de café. «Ao certificar o café das multinacionais como Nestlé, McDonalds, Carrefour, a FLO optou por um caminho que conduzirá muito em breve as cadeias hoteleiras a fazer o mesmo, apesar de violarem os direios dos seus assalariados. Ora isso não tem nenhum sentido para nós», diz-nos Ernest Cañada.

Para não reproduzir os erros da labelização do comércio justo, as taxas de certificação não devem ser suportadas pelo pprojecto, a fim dos mais pequenos – que são a maioria – poderem também ter acesso. Mas, sobretudo, um label do turismo solidário, sustentável ou responsável, deverá excluir à partida os grandes grupos de turismo.

Labelizado, ou não, o ecoturismo deve cessar de enganar o cliente. A actividade, é certo, não é uma solução de aplicação universal, que possa aplicar-se em todo lado: não é possível converter as populações de todos os sítios arqueológicos em guias, sob o pretexto do desenvolvimento social. Além disso, tal como o comércio justo não resolveu a crise do café, também o ecoturismo pervertido não servirá grande coisa para combater a pobreza.


Notas
(1) Universidade da Califórnia, National Geographic Society, Counterpart International
(2) Em Chiapas a organização «Maderas del pueblo» denunciou várias vezes a biopirataria feita em nome do ecoturismo
(3) A FSC é uma ONG que agrupa desde 1993 proprietários de terrenos, empresas madeireiras, grupos sociais e associações ecologistas. AFSC baseia-se em 10 princípios e 56 critérios para a certificação
(4) O plano Puebla-Panama é um plano de desenvolvimento que visa criar infra-estruturas para futura implantação de actividades económicas desde o Panamá até ao Estado de Puebla, no México
(5) Ver
www.iadh.org/ppp
(6) Ver o site www.tropicoverde.org da ONG guatamalteca deo mesmo nome
(7) Declaração das ilhas Galápagos (2002), cimeira ibero-americana e das Caraíbas dos 20 ministros de turismo e do ambiente (Equador)
(8) Os outros segmentos envolvem o turismo cultural, o de negócios, os cruzeiros, o de aventura e o ecoturismo
(9) Para a UNESCO estas ilhas abrigam a biodiversidade marinha muito rica
(10) Adoptada emMaio de 2002, após o Ano Internacional do Eoturismo de 2001
(11) OIT, PNUD,PNUE, OMT
(12) A maior parte dos projectos concernem com comunidaes indígenas
(13) Os lacadónios não são originários da província do mesmo nome. Esta população maya é originária da penincula de Yucatán
(14) A FLO nasceu e, 1997 e agrupa uma vinte associações do comércio justo em todo o mundo e certifica548 cooperativas (
www.fairtrade.net )
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Texto de autoria de Anne Vigna, e publicado no Le Monde diplmatique de Julho de 2006

3.8.06

Morreu Murray Bookchin, figura maior da ecologia social e da esquerda libertária




Murray Bookchin, um dos mais destacados nomes da esquerda libertária, e provavelmente um dos mais salientes pensadores dos últimos cem anos, morreu no passado dia 30 de Julho de 2006 em Burlington (Vermont), com 85 anos de idade. Foi um dos primeiros divulgadores e promotores das questões e temas ecológicos, sendo por muitos considerado um verdadeiro pioneiro da ecologia, tendo criado e teorizado a chamada ecologia social, uma das principais correntes do ecologismo.
Bookchin é também uma figura destacada do anarquismo contemporâneo, ao fazer uma leitura re-actualizada do pensamento e da prática anarquista, através do chamado municipalismo libertário, apesar de, nos seus últimos anos de vida, se ter mostrado muito crítico para com o movimento anarquista e até a utilidade e oportunidade do termo anarquismo.
Deixa a sua companheira de muitos anos, Janet Biehl, os seus filhos Joseph e Debbie Bookchin, e a sua ex-esposa e grande amiga, Beatrice Bookchin.


Bookchin nasceu em Nova Iorque a14 de Janeiro de 1921. Os seus pais eram revolucionários russos emigrados. Muito cedo juntou-se ao movimento dos jovens comunistas mas, em breve, dele se afastou com críticas ao seu carácter autoritário. Aproxima-se dos trotskistas mas também rompeu com eles, desiludido devido aquele mesmo autoritarismo. Foi operário de fundição e de uma fábrica de automóveis e militou no sindicato L’UAU (United Auto-Workers), tendo tomado parte na grande greve que afectou a General Motor em 1948. Passa a participar em diversas publicações, e envolve-se no movimento contra-cultural da nova esquerda que desponta na sociedade norte-americana logo após a II Grande Guerra. Durante os anos 60 escreveu diversas obras, tendo sido um dos pioneiros no estudo e análise das temáticas ecológicas, apresentando e teorizando sobre a ecologia social revolucionária ( argumentava que só uma sociedade completamente livre a aberta poderia resolver os problemas ambientais, pois o principal problema ecológico são as enormes desigualdades, hierarquias e relações de dominação que estruturam as sociedades humanas), ao mesmo tempo que faz uma crítica profunda ao marxismo tradicional .
Bookchin está na linha de muitos anarquistas e naturalistas, como Kropotkine, para quem a natureza não é esse ambiente hostil, competitivo e terrífico que imaginamos, mas antes a fonte de múltiplas formas inter-activas de vida ( criativas, simbólicas e produtivas). E se a natureza é fonte de liberdade, participação, solidariedade e apoio mútuo, então as estruturas sociais que organizam as sociedades humanas também assim poderiam ser.
Propõe-se então encontrar alternativas às instituições universitárias institucionalizadas para o que cria Universidades Livres e é o co-fundador e director do Instituto da Ecologia social em Vermont, USA.. Ensina de 1974 1984 no Ramapo Collège de New Jersey, ganhando renome internacional pelos seus trabalhos eco-filosóficos sobre ecologia e as alternativas tecnológicas. Em Burlington, onde se instala, ajudou a criar o Partido Verde. As suas teorias são conhecidas sob o nome do Municipalismo Libertário, no qual propõe um tipo de organização social e político, baseado no livre associativismo, na ecologia, e nas críticas às hierarquias institucionalizadas do patriarcado, do Capital, do Estado e do antropocentrismo. É autor prolífico, com diversas obras, muitas delas traduzidas nas mais variadas línguas, inclusive em português, sobre temas como a ecologia, a história, a política, a filosofia e o urbanismo.
As suas concepções são muitas vezes encaradas como vanguardistas e avançadas para a época. Critica ainda a «ecologia profunda» por não valorizar nem atender ao facto dos problemas ecológicos terem raízes nas estruturas e na maneira como a sociedade se organiza. Daí que defenda uma ecologia social como uma via racional e revolucionária que, com a participação e envolvimento dos cidadãos, consiga superar e resolver os problemas ambientais.
O eixo principal do seu pensamento está exposto no seu livro «Post-scarcity anarchism», onde escreve:
«The reason that human beings institute powerful government, with powerful military and police forces, is that we've always been engaged in a struggle for survival, fighting each other for scarce resources. In the modern era, for the first time in human history, we have the capability to eliminate scarcity as a basic part of human life -- to provide the basics of food, clothing, shelter, education and freedom to all. At some point, Bookchin argued (he was forever an optimist) the entire concept of scarcity would be meaningless -- and at that point, the whole idea of a powerful, centralized state would become meaningless, too.»

Bookchin foi um duro crítico das cidades modernas. Entre os seus variados trabalhos escritos sobre a matéria contam-se «Crisis in our cities» (1965) e The Rise of Urbanization and the Decline of Citizenship (1987.) nos quais é feita uma crítica profunda aos padrões da vida urbana.
Há que salientar, no entanto, que Bookchin é alvo de certas críticas que o acusam de se ter mantido colado a um evolucionismo ultrapassado, não tendo prestado atenção às últimas teorizações no domínio epistemológico nem ter questionado muitos conceitos (por ex., o do progresso) herdados do século dezanove. A esta obsolescência teórica haveria a acrescentar algumas propostas altamente discutíveis nos últimos anos como a utilidade de apresentação às eleições municipais através de um partido político libertário…
Para outros o contributo de Bookchin foi grande ao apontar os princípios que devem estruturar uma sociedade naturalmente ecológica: diversidade complementaria, espaços para a espontaneidade, e ausência de hierarquias. Bookchin seria assim o autor mais seguro para uma sociedade anarquista sustentável e realizável.


Mais info:
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Obituary by Janet Biehl, for the Burlington Free Press


Murray Bookchin was a left-libertarian social theorist who, in the early 1960s, introduced the concept of ecology into radical politics. A self-described utopian, he sought a decentralized, genuinely democratic society and placed ecology in a humanistic and social framework. He wrote more than two dozen books on ecology, history, politics, philosophy, and urban planning. At all times he upheld reason against the alternatives and sought to bring a lived revolutionary past forward into the future.

He was born on Jan. 14, 1921 in New York City, the only son of Russian Jewish immigrants, Nathan and Rose (Kaluskaya) Bookchin. At nine he joined the Communist youth organization but became disillusioned with the authoritarian character of the international Communist movement and broke with it in 1937. Unable to afford a college education, he worked as a foundryman in New Jersey and as a union organizer for the CIO. He served in the U.S. Army, then returned to civilian life as an autoworker. He participated in the great General Motors strike of 1946, but the strike leaders’ compromises with management caused him to abandon his faith in the industrial proletariat.

His first book, Our Synthetic Environment (written under the pseudonym Lewis Herber), published in 1962, addressed a broad range of ecological issues. Preceding Rachel Carson’s famous SilentSpring by nearly half a year, it called for a decentralized society using alternative energy sources. In this and later writings he developed what he called social ecology, which holds that ecological problems can be remedied only by the creation of a free and democratic society. At a time when “ecology” was an unfamiliar concept to most people, he lectured indefatigably on the subject to countercultural groups throughout the United States. He advanced the concept of postscarcity, holding that advances in technology would make possible a reduction of the workday, thereby providing people with the free time necessary to engage in civic self-management and direct democracy. His 1960s essays were very influential both in the counterculture and in the New Left and were anthologized in Post-Scarcity Anarchism (1971).

During the 1970s Bookchin’s writings and lectures influenced the formation of Green movements in the United States and abroad. Three years after moving to Burlington in 1971, co-founded the Institute for Social Ecology in Plainfield, Vt., becoming its director; the school later acquired an international reputation for its curriculum on social theory, ecophilosophy, and alternative technologies. That same year he began teaching at Ramapo College of New Jersey, where he became a full professor in 1977. He retired from Ramapo in 1981 with emeritus status.
In 1982 he Bookchin published The Ecology of Freedom, which became a classic in social thought. His 1986 The Rise of Urbanization and the Decline of Citizenship (1986) presented his program for direct-democratic politics at the municipal, neighborhood, and town levels. In Burlington Bookchin attempted to put these ideas into practice by working with the Northern Vermont Greens, the Vermont Council for Democracy, and the Burlington Greens, retiring from politics in 1990. His ideas are summarized succinctly in Remaking Society (1989) and The Murray Bookchin Reader (1997).

Bookchin is survived and his passing mourned by his loving family members, all of whom live in Burlington: his longtime companion, Janet Biehl; his daughter, Debbie Bookchin, her husband, James Schumacher, and their daughter, Katya Bookchin Schumacher; his son, Joseph Bookchin; and his ex-wife and longtime friend, Beatrice Bookchin. He will be much missed as well by his many dear friends and by the thousands of people, unknown to him personally, whom he touched during his long and productive life.

2.8.06

A disneylandização do planeta, ou como o turismo está a transformar o mundo



Autora do texto: Sylvie Brunel


Viajar de outra maneira, viajar inteligente e, sobretudo, não fazer figura de turista…A fim de responder a estes desejos do viajante moderno, a indústria do turismo, a 3ª indústria mundial, multiplica as suas ofertas e os seus produtos. Com tudo isso o mundo acaba por se tornar num imenso parque de atracções em que a ilusão e o maravilhoso se substituem habilmente à realidade.

«Um pequeno mundo» é uma das atracões fetiches da Eurodisney em Paris, e na qual as famílias realizam uma volta ao mundo de barco no meio de autómatos cantantes. Todos os países e todas as civilizações são sintetizadas, umas após outras, em arquétipos imediatamente identificáveis tanto quanto eles se colam às representações mentais colectivas: os polinésios dançam o tamouré, os mexicanos trazem sombreros entre cactus, os japoneses vestem kimonos, etc. E aquela atracão acaba em apoteose no meio dos cintilantes luzes das Folies-Bèrgeres e de outros espectáculos «tipicamente parisienses», cuidadosamente reformulados já que se trata de uma atracão de carácter familiar. A uma outra escala é assim que o turismo está em vias de moldar o mundo, as paisagens e as civilizações.

Uma globalização pacífica

O turismo de massas desenvolveu-se a partir dos anos 1950 com o prolongamento das reformas pagas, a democratização do transporte aéreo e a emergência das classes médias. Quando a guerra fria termina, no fim dos anos 1990, pode-se dizer que a quase totalidade do mundo ficou aberta ao turismo que logo se tornou na terceira indústria mundial. Enquanto que em 1950 não passavam dos 25 milhões, o número estimado dos turistas, hoje em dia, ultrapassa em muito os 800 milhões, os quais todos os anos partem para mais um viagem de lazer para um local outro que não o da sua residência e habitação ( esta é a definição habitual de turismo). O fluxo não pára de crescer: a Organização Mundial do Turismo estima que daqui ao ano 2020 o número de turistas deverá atingir qualquer coisa como 1.600 milhões de pessoas!
A nível mundial o turismo representa 10% do PIB e emprega 8% da população activa (1). As suas receitas anuais elevam-se em média a 650 mil mlhões de dólares, ou seja, 8 vezes o montante da ajuda ao desenvolvimento. Os turistas, esses, já não apenas os brancos ricos do Ocidente, pois cada vez mais indíviduos originários dos países emergentes (Chineses, Russos, Brasileiros, Indianos, Coreanos…) se incluem no contigente dos turistas, constuído em grande medida por elementos das classes médias, ávidos por descobrir o mundo. A globalização permitiu abrir destinos que estavam fechados ou que eram de difícil acesso. É assim que, Dora em diante, o turismo se instala em todo o lado, salvo nos cenários de guerra. Ao permitir a milhões de pessoas ficar na sua região de origem, em vez de serem forçados a exilarem-se, o turismo pode ser visto –e é normalmente encarado – como uma actividade benemérita, que constituiria a versão pacífica e postiva da globalização. Fonte de consideráveis recursos, o turismo é geralmente promovido pelas regiões com capacidade de acolhimento ( recorde-se que a França é o primeiro destino turístico mundial com cerca de 70milhões de visitantes anuais). Não espanta pois que a epidemia chikungunya constitua não só uma catástrofe para as ilhas Reunion pelo seu impacto sanitário sobre a população local, mas também porque ao desviar os turistas, vem a traduzir-se numa verdadeira hecatombe económica.
Os géografos, nomeadamente a equipa MIT de Saint-Denis, dirigida por Rémy Knafou (2), mostraram que a «acção do turismo» transforma os locais e as culturas: cidades que estavam condenados ao declínio económico, como Bruges ou Veneza, encontram uma segunda vida graças ao turismo. Determinados sítios, que se encontravam em acelerado processo de degradação e mesmo de extinção, como é o caso das montanhas médias, vêem-se asso, revitalizados pela multiplicação de estações e a diversificação das actividades que são propostas aos visitantes. A colocação das paisagens e dos homens na disponibilidade da terceira indústria mundial traduz-se forçosamente em transformações que poderão ser encaradas pelos críticos mais exigentes como um aviltamento e uma desnaturalização. Não por acaso a palavra em alemão para designar o turismo é «Fremdenverkehr», que significa tráfico de estrangeiros. O termo não poderia ser, realmente, mais esclarecedor. Tudo é feito para atrair o turista…que, no entanto, não pára de ser criticado um pouco por todo o lado.

Habitar a sua viagem

O turismo apresenta-se com efeito como um paradoxo: ainda que todos sejam turistas, ninguém o quer admitir, nem aceitar esse estatuto, visto como desvalorizador. Por isso, é que o turista é quase sempre o outro. Um outro que se despreza e que se tenta escapar (3). Mas será que essa caricatura de turista existirá realmente? É conhecido como a maioria dos turistas manifestam o desejo de conhecer os locais visitados.
O turismo organiza-se com base num encontro: de um lado, milhões de pessoas estão prontas a gastar muito dinheiro para se desnacionalizarem-se à procura de exotismo, e do outro lado,, existem milhões de pessoas que também estão dispostas a acolhê-los e a satisfazer essa ânsia de exotismo, e que lhes permita ganhar dinheiro e continuar a viver no seu local habitual de residência, sem necessidade de se exilarem para outro local em busca de melhores condições de vida. Formulada assim, compreende-se-á fácilmente que este encontro não pode concretizar-se senão de uma maneira muito enviezada. É que na sociedade capitalista a felicidade, tal como muitas outras coisas,é algo que se fabrica e se compra. O arquétipo é o parque temático ( a Disneylândia, os Universal Studios) ou o falso ambiente tropical das estufas ( como em Central Park). Tratam-se de locais artificiais, enclaves em que o turista entra, e que são concebidos para o seu divertimento. Os geógrafos falam a propósito de um turismo «hors sol» (fora do locais de origem)
Além disso cada vez mais um número crescente de turistas manifesta o desejo por viagens alternativas. Mas alternativa a quê? Tradicionalmente em alternativa àquela figura de turista japonês «de câmara fotográfica ou de vídeo em mão» - uma conhecida fórmula comum de carácter pejorativo – e que parte em grupo, em viagens organizadas pelas agências especializadas, muitas vezes em autocarros fretados para o efeito e que se dirigem invariavelmente para os locais massificados onde tudoestá organizado para os recber com base num mesmo figurino de oferta turística. Hoje, no entanto, os turistas querem cada vez mais «habitar a sua viagem», como diz eufemisticamente o jornalista da conhecida revista Géo, Jan-Luc Marty, no número de Março daquela revista. Com efeito, os profissionais do turismo, agências e revistas, compreenderam há muito que era necessário responder a esta expectativa, dando ao turista a sensação de que ele é diferente daqueles estereótipos de turistas japoneses.

Oferecer a ilusão de «viajante»

«Tudo» é, hoje em dia, objecto de escolha: poder ser aventureiro, salvador da humanidade, etnólogo amador, ou um temerário pioneiro-explorador. O turista precisa agora de «autenticidade». E, na verdade, essa autenticidade passou a ser um produto como qualquer outro, e toda a arte de um bom profissional de turismo consiste em saber fabricar o melhor possível essa tal «autenticidade». O turismo molda pois os locais, a natureza e a cultura em função das representações mentais dos próprios indivíduos que o realizam. Com isso é todo o planeta que se «disneyliza-se» por força da influência do turismo de massas: as paisagens tornam-se em cenários (décors) e os indivíduos que aí vivem convertem-se em actores prontos a satisfazer aquele desejo de autenticidade que está presente nas expectativas dos turistas que são vistos, acima de tudo, como grandes portadores ( e fornecedores) de divisas.
No seu último número do passado mês de Março a revista Géo propunha 50 viagens «inesperadas», distribuídas por cinco painéis: natureza, cultura, desporto, descando, humanitário. No capítulo temático da natureza o turista pode descobrir, por exemplo, os gorilas, os pandas, as baleias e até ser o salvador de certas espécies raras. No capítulo da cultura, por seu turno, convida-se os interessados a partir ao encontro de «povos autênticos» como os Touaregs ou os Inuits. Já no capítulo do desporto o planeta é transformado num imenso terreno de jogos em que se pode sobrevoar em balão, ou em parapente, que se desce em kayak ou em VTT, e que, no fundo, mais não faz que tentar satisfazer a ilusão do homem moderno em tornar-se num Tarzan moderno, protector da natureza, e na qual ele pode realizar os saltos de árvore em árvore em pleno ambiente tropical graças aos esquemas montados para o efeito. Quanto ao capítulo da ciência os destinatários são convidados a vestirem a pele de vulcanólogos, de oceanógrafos ou de paleantólogos, quais crianças modernas, cujos pais zelosos as enviam para colónias de férias, onde inteligentemente podem «aprender, divertindo-se». Com uma diferença, apenas: com os adultos, as coisas são mais sérias. Na rubrica das «paixões» é-se desafiado a retomar a prática saudável dos ateliers de actividades que pretendem concretizar as artes que fazem escola: os mosaicos de Itália, a cozinha do Vietname, a fotografia da Gutemala, a salsa em Cuna ou o cinema no Níger,… e até a «risoterapia» em Bombaim, ou o «banho» no Tirol.
Tal como a indústria agro-alimentar inventa sem cessar novos produtos para aumentar os seus encaixes , também a indústria turística pretende desenvolver e explorar incessantemente novos conceitos, novos nichos a fim de oferecer a cada um o sonho desejado, segundo a tarifa previamente fixada. Na rubrica «aventura» converte-se o turista, segundo a sua opção, em cow-boy ( nos EUA), em explorador de ouro ( na Austrália), em explorador de lixo e destroços (nas Filipinas): pretende-se, no fundo, em tentar realizar os «sonhos de criança» do próprio turista. Todas essas viagens têm dois pontos comuns: custam caro, o que as faz serem exclusivasde elite; e, depois, organizam-se segundo um princípio de regressão infantil do homem ocidental, cujas necessidades materiais, uma vez satisfeitas, fazem nascer nele a necessidade de ilusão, que o leva a aderir a um jogo de papéis que lhe permitam regularmente ser um actor que desempenhe a função de, por exemplo, etnólogo, de Tarzan ou de Robinson. E quando não lhe cabe o papel de salvador da humanidade, ao menos sempre pode aderir ao chamado turismo humanitário, muito em voga nos dias que correm.

«Na pele de um explorador»

Apesar de todas as críticas que lhe são dirigidas, o turista é um ser admirável, pronto a gastar muito para obter a sua satisfação. Curiosamente, quanto mais dinheiro ele está disposto a gastar, mais ele rejeita ser tratado com turista. A indústria do turismo cria hoje produtos elitistas, que permitem vender ilusões de um turismo inteligente, de preço mais elevado que os tradicionais pacotes-padrão de oferta turística em hóteis-club. Dormir em sacos-cama e baver, mas ter auto-consciência de um cidadão responsável, ou seja, fazer tudo para que não prejudique o planeta, uma vez que é do conhecimento geral a necessidade de garantir um «desenvolvimento sustentável», entendido como preservação dos antigos equilíbrios, respeito pelos povos «autênticos» e pela natureza «selvagem». (4) Indignado pelas derivas da sociedade industrial, de que ele, não obstante, faz parte, o cidadão urbano do mundo moderno invoca a beleza dos ambientes «selvagens», frequentemente«ameaçados», e a «autenticidade» dos modos de vida tradicionais. Esquece, porém, aquilo que os geógrafos falam há muito tempo:as paisagens naturais não existem eternamente, elas foram e t~em sido moldadas pelo homem, assim como as sociedades e os ecossistemas estão em perpétua evolução, dado que é essa mesma a condição da sua permanência.
A indústria turística monta pois uma encenação programada com base em supostos «paraísos perdidos» ( ainda que o não sejam para o turismo) onde viveriam civilizações «preservadas». E tanto mais preservadas quanto o acesso à modernidade lhes é frequentemente negado precisamente por aqueles que, por razões mercantis, os colaram a representações foclóricas, muito longe de serem autênticas. O turismo disneylandiza, pois, o mundo, transformando os locais de acolhimento num sucessão de parques temáticos, onde o turista pode encontrar um passado recriado ou preservado com toda a segurança.
A este respeito o primeiro texto do número de Março da revista Géo é revelador da actual tendência. «Na pele de um explorador», é o seu título. E é proposto ao leitor uma marcha pela natureza «selvagem» da Tasmânia – e, de facto, não há nada mais longínquo e exótico que a Tasmânia ? O adjectivo «selvagem» retorna um pouco mais à frente através do título «espaços selavagens» Trata-se mais uma vez do reencontro com um paraíso perdido, que seria totalmente preservado pelo homem. O vocabulário utilizado retoma os termos habituais do género. Os subtítulos referem-se a uma «floresta amazónica» ( na Tasmânia?!), depois a uma «solidão dos espaços grandes», e ainda às «primeiras idades Terra». Nesta «jóia ecológica», neste «destino mítico», o explorador estaria «só entre os cangurús».
Todavia, a verdade é que os ocupantes originais – humanos e animais – da Tas
Mania foram erradicados pelso colonos europeus. E nesse parque natural protegido, como em muitos outros do mundo algo-saxão, o visitante está sob controle apertado, quer nos itinerários dos praticantes de trekking,quer nas pausas para descanso, todos devem estar registados e expressamente proibidos de abandonar o mais pequeno alimento. Os nossos aprendizes exploradores estão bem enquadrados e sob grande vigilância. Eles são mesmo duramente repreendidos no caso de ousarem passar a noite num refúgio em vez de temporário cumprirem com o percuso previsto para a estape do dia. E nem pensar sair dos caminhos balizados nem tomar qualquer iniciativa. Quanto aos animais selvagens, eles são-no tão pouco que o turista é avisado a não deixar o seu saco sem protecção, vigiar a sua tenda, onde podem penetrar indesejáveis opossums, e ter cuidado com tudo o que leva para o pique-nique. No fundo, é o mito do «wilderness», a natureza selvagem, que os anglo-saxões, os grandes predadores do Novo Mundo,acabaram por encenar no fim do século XIX nos «grandes espaços» que tinham previamente conquistado, e diligentemente esvaziado dos seus ocupantes indígenas ( índios, aborígenes, Maoris,…). Agora é preciso reconstituir os grandes painéis da naturez selvagem para gozo do homem branco.O turista começou por ser um caçador, num género de caça só reservada a uma elite ( Hemingway, Roosevelt, Giscard d’Estaing,…), que ainda hoje se perpetua, embora os safaris se tenham tranformado sobretudo em safaris fotográficos, nas reservas da África Oriental e Austral, em que o preço dos troféus atinge somas astronómicas. (5). O turista new-look é de ora em diante um «explorador» que parte para uma aventura cuidadosamente balizada nos parques naturais – sob alta protecção – do Novo Mundo. A classifcação desses espaços pela Unesco a título de «património mundial da humanidade» resultou na prática, através da publicidde mundial concedida, em erigir o conservacionismo no mais rígido dogma. Sob o pretexto do desenvolvimento sustentável pretende-se santificar e sacralizar uma natureza forçosamente ameaçada, os tais «mundos em vias de extinção» que semanalmente as televisão não se cansam de falar.
Para viajar «alternativo», o turista aceita um certo desconforto, cuidadosamente construído, uma vez que tal faz parte integrante da aventura. Ele traz a sua mochila, para não «explorar» as populações locais que, no entanto, encontram nele uma fonte não negigenciável de rendimentos. Marchas a pé até ao esgotamento, mas sem arriscar todavia a vida, sob pena de processos judiciais altamente dispendiosos. O interessado deve, aliás, assinar um formulário de responsabilização antes do início da aventura. E aceitar as incómodas sanguessugas e mosquitos, vistos como «naturais». O desconforto paga-se caro, pois também ele é uma forma de comprar o mito: mil euros por pessoa para uma viagem à Tasmânia com 6 dias de marcha, noites na tenda e carga por conta do «aventureiro». Uma hierarquização subtil se constrói igualmente entre os neófitos, que aí se enredam, e os mais experientes, qe conhecem todos os truques do aventureiro, nomeadamente em matéria de equipamento de última estação ( sapatos, tendas, telefone satélite) reproduzindo assim as diferenças de classe entre os turistas de base e a elite, que se pode dar a luxo de usufruir as aventuras no maior conforto (noites nos melhores hóteis, deslocações em helicópteros,etc)

Todos estão por sua conta

O turismo está a transformar o mundo numa imensa Disneylândia em que tudo é concebido e controlado para vender a natureza «selvagem» e as «povoações autênticas» aos visitantes ricos que são cuidadosamente enquadrados. Deplorável? Se pensarmos que a operação é rigorosamente montada, que cada qual sabe de si, que o turista parte feliz uma vez que teve a sua parte de sonho, enquanto o autóctone fica satisfeito, pois teve a sua bolsa mais recheada, e o agente de viagens, organizador desta troca, não deixa de esfregar as mãos de contente, porquanto vendeu caro um serviço que não lhe custou quase nada, dado que no que diz respeito às condições alojamento e restauração os custos são mínimas, se assim pensarmos a resposta não é certa. Aliás, as populações locais sonham com o conforto e o desenvolvimento, aquilo que paradoxalmente a oferta turística lhe poderá garantir. Fica por verificar se a disneylandização do mundo não transformará, tal como nos parques temáticos do Mickey, os protagonistas locais em figurantes reduzidos ao silêncio, e mal pagos.

(1) L. Carroué, D. Collet, C. Ruiz, La Mondialisation, génese, acteures et enjeux, Bréal, 2005
(2) Equipe MIT, Tourismes I. Lieux communs. Belin, 2002; Tourismes II Moments de lieux, Belin, 2005
(3) J-D. Urbain, L’idiot du voyage. Histoires de touristes, 1991
(4) G.Rosssi, L’ingérence écologique. Environnement et développemente rural du Nord au Sud, CNRS, 2001
(5) A. Volvey(dir.) , L’Áfrique, Atlande, 2005


Autora do Texto: Sylvie Brunel
Título: “Quand le tourisme disneylandise la planète
Publicado em Sciences Humaines nº174, Août-Sept 2006-07-31
( Sylvie Brunel é também autora do livro «La planète disneylandisé», ed. Sciences Humaines)

Elogio da loucura (segundo Erasmo)


…a religião cristã tem um parentesco com uma certa loucura e muito pouca relação com a sabedoria. Quereis provas? Reparai primeiro que as crianças, os velhos , as mulheres e os imbecis têm muito mais prazer do que as outras pessoas nas cerimónias e coisas religiosas e, levados unicamente pelo impulso da Natureza, querem sempre estar mais próximos do altar.
Vêde depois que os primeiros autores da religião, de uma simplicidade admirável, foram inimigos mortais das letras. Enfim, os loucos mais extravagantes são aqueles que foram completamente arrebatados pelo ardor da fé cristã. Delapidam os seus bens, desprezam as injúrias, suportam com paciência os enganos, não fazem distinção entre amigos e inimigos, têm horror à volúpia, satisfazem-se com jejuns e vigílias, lágrimas, trabalhos ultrajes, desprezam a vida e não desejam senão a morte. Numa palavra, parecem de tal modo privados de senso comum, que poder-se-ia julgar que as suas almas existem desligadas dos seus corpos. Que é isto, senão a loucura?

(…)

Cristo chama ovelhas àqueles que destina à vida eterna. Ora não há animal mais néscio que a ovelha . Aristóteles afirma que o provérbio «cabeça de ovelha» provinha da estupidez deste animal e se aplica injuriosamente a todos os estúpidos e imbecis. Tal é o rebanho de que Cristo se declara pastor. Agrada-lhe mesmo o nome de cordeiro.É assim que o designa S. João: «Eis o cordeiro de Deus» e é esta a expressão mais frequente no Apocalipse.

(…)

«Os padres deixam, por modéstia, o exercício da piedade ao povo. O povo delega-a naqueles a quem chama eclesiásticos, excluindo-se da Igraja, como se os votos do baptismo não tivessem qualquer valor. Muitos padres, por sua vez, fazem-se denominar seculares, parecendo assim votar-se ao mundo e não a Cristo. Rejeitam o fardo entregando-o aos seculares e estes aos monges; os monges não reformados aos monges reformados e todos juntos emetem-nos aos Mendicantes e os Mendicantes aos cartuxos, os únicos em cujo convento a piedade se oculta, tão bem, aliás, que ninguém a consegue ver.
De igual modo, os papas, tão diligentes quando se trata de receber as rendas, deixam aos bispos os trabalhos apostólicos, estes aos curas, os curas passam-nos para os vigários,os vigários para os frades mendicantes e estes últimos entregam as ovelhas aos que as sabem tosquiar.»

(…)

Digamos a verdade tal como ela é: a Fortuna ama os irreflectidos, os temerários, os aventureiros, aqueles que dizem facilmente: «os dados estão lançados!». A sabedoria torna os homens tímidos; assim encontrareis por todo o lado sábios a morrer de fome, pobreza e dor, esquecidos, sem glória e sem simpatia. Os loucos, pelo contrário, nadam em dinheiro, governos os Estados e, numa palavra, encontram em pouco tempo a prosperidade. Se fazeis consistir a vossa felicidade em agradar aos princípes e em ser admitidos entre os cortesãos, divindades brilhantes de pedrarias, de que vos servirá a sabedoria? Recuaríeis perante um perjúrio, coraríeis antes de mentir, pois tendes na cabeça os escrúpulos dos sábios sobre o roubo e usura. Se ambicionais as dignidades e bens eclesiásticos, mais facilmente os conseguiríeis se fosseis asno ou boi, do que sendo sábio.
Se procurais o prazer amoroso, as mulheres, parte importante neste assunto, amam os loucos e fogem dos sábios como de um escorpião. Enfim, se decidis viver para os divertimentos, deveis evitar o sábio. Em suma, indo por onde quiserdes, entre os papas, princípes, juízes, magistrados, amigos, inimigos, grandes e pequenos, todos procuram o metal sonante; e, como o sábio, despreza o dinheiro, todos evitam a sua companhia.

É universalmete admitido que: «Quando não temos algo, devemos simulá-lo». Donde se conclui que «simular a loucura do louco é a sua sabedoria»

Excerto retirado do livro de Erasmo, «Elogio da Loucura»

25.7.06

Fim aos massacres na Palestina e no Líbano!

Concentrações em Lisboa e no Porto

Solidariedade com os Povos da Palestina e do Líbano


Apelamos à participação nas Concentrações marcadas para a próxima 4ª feira, dia 26 de Julho, em protesto contra as brutias agressões do estado sionista de Israel ( fantoche dos EUA) aos povos palestiniano e libanês.

Manifesta a tua solidariedade com os Povos do Líbano e da Palestina!

Esta agressão dos militaristas sionistas tem de parar!

CONCENTRAÇÃO em Lisboa: dia 26 de Julho, 18.30 horas, em frente à embaixada de Israel, na R. António Enes, 16, ao Saldanha (Lisboa)

CONCENTRAÇÃO no Porto: dia 26 de Julho, 18 horas na Praça da Batalha










FIM AOS MASSACRES NO LÍBANO E PALESTINA!

PAZ NO MÉDIO ORIENTE!

Os bombardeamentos constantes e diários levados a cabo por Israel sobre o Líbano, que se sucedem à violenta ofensiva contra o povo palestiniano em Gaza, são verdadeiros crimes e representam uma nova e perigosa escalada belicista no Próximo e Médio Oriente que só podem merecer a nossa mais firme condenação. Os bombardeamentos já causaram centenas de mortos, entre os quais mulheres e crianças, e a destruição de importantes infra-estruras vitais daquele país e que bem demonstram quão falaciosa é a procura dos soldados israelitas.

Nada justifica estas acções bélicas contra as populações civis. Trata-se de uma acção belicista absolutamente desproporcional, tendo em conta o desequilíbrio da correlação da força militar... Convém ter presente que Israel continua a ocupar territórios palestinianos, do Libano e da Síria, sendo – à luz do direito internacional – legítima a luta contra os ocupantes. As acções bélicas de Israel só são possíveis com a cobertura dos EUA e com a cumplicidade da União Europeia, incluindo a do governo português. Consideram insuportável o silêncio da ONU.

Apela-se a todos os portugueses para que se solidarizem com o povo libanês e palestiniano vítimas destas agressões e exigem do governo português uma posição de condenação dos ataques israelitas e de defesa uma política que conduza à paz na região, com base no respeito dos direitos nacionais de cada povo.

Convocam para o próximo dia 26 de Julho, às 18.30, uma concentração em frente à Embaixada de Israel a fim de exigir o fim dos bombardeamentos e uma paz justa no Médio Oriente.

CONCENTRAÇÃO EM FRENTE À EMBAIXADA DE ISRAEL EM LISBOA

PAZ NO MÉDIO ORIENTE!

26 JULHO • 18H30

Partir de férias sem carros nem aviões

La Decroissance, le journal de la joie de vivre
O Decrescimento, o jornal da alegria de viver
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Passar o Verão sem automóvel
e
Partir para férias sem carros nem aviões
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19.7.06

O primeiro dia da revolução libertária espanhola (19 de Julho de 1936)


Mural a reproduzir o célebre quadro Guernica que Picasso pintou em homenagem aos resistentes anti-fascistas espanhóis e a propósito do bombardeamento pelos aviões nazis, ao serviço das forças nacionalistas de Franco, sobre os bairros residenciais de Guernica, um pequena vila situada no País basco.
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Hoje fazem 70 anos
que começou
o breve Verão da Anarquia
em Espanha.
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19 de Julho é o primeiro dia da revolução libertária espanhola. Foi nesse dia, quando corria o ano de 1936, que todo um povo se levantou contra o golpe fascista de uma boa parte das forças armadas espanholas.
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Em Barcelona os militares fascistas amotinam-se nos quartéis e tentam tomar de assalto a cidade, mas encontram forte resistência por parte dos operários da C.N.T. e da F.A.I. que levantam barricadas e conseguem rechaçar os militares golpistas, obrigando-os a regressaarem aos quartéis.
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Será o início de um processo revolucionário que se tornou conhecido pelo curto Verão da Anarquia e que com a militarização das forças em conflito irá evoluir para uma sangrenta guerra civil entre os republicanos anti-fascistas, de um lado, e as forças nacional-fascistas capitaneadas por Franco, e apoiado pelas tropas de Mussolini e pelos aviões de Hitler, do outro.
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Nota
Esta é uma mais que justificada excepção relativamente ao conteúdo do texto do post seguinte, uma vez que, face ao facilitismo dos que não sabem cumprir com a palavra dada, nem com os compromissos assumidos, recordar é também resistir.

7.7.06

Aviso à Navegação



«Um homem ( ou uma mulher) mostram o que valem,
Não pelas palavras que dizem,
Mas pelas acções que praticam»


Este velho dito, que se pode aplicar tanto nas relações amorosas ( quantas vezes os falsos amantes enchem a boca com o banal «amo-te») como na política (os partidos políticos têm um programa político, mas aplicam outro), explica a razão porque decidimos suspender a actualização do Pimenta Negra até ao próximo mês de Outubro.

Torna-se um imperativo voltarmo-nos cada vez mais para a vida, porque nem tudo é comunicação palavrosa nem fluxos pós-modernistas de frases com pouco ou nenhum sentido.

O importante mesmo é ter uma ética de acção.

O projecto «Pimenta Negra», aliás, sempre foi de carácter formativo ( para nós, de longe, o mais importante), e não tanto a informação propriamente dita ( jornais, revistas, net,… e tutti quanti desempenharão essa função de satisfazer as atenções sôfregas dos que gostam de viver a 200 à hora)


Com a chegada do Verão surge também a necessidade de uma paragem para agirmos em consequência.

Continuem a ler outras coisas, mas, sobretudo, não se esqueçam de levar mais a sério as vossas palavras, para não fazerem o show-off de alguns…


Em suma:

Foi linda a festa, pá!

Agora, é preciso continuar a espalhar o cheirinho de alecrim!



O autor do
Pimenta Negra

3.7.06

Por um mundo sem fronteiras


As grandes manobras eleitorais mal ainda começaram e já a questão da imigração passou para o centro dos debates. Le Pen, de Villiers, Sarkozy competem entre si para cativar as vozes da França xenófoba., enquanto os deputados de esquerda e de direita, se travam de razões sobre a forma, estão no fundo de acordo sobre o controle da imigração a fim que «toda a miséria do mundo» permaneça fora do território nacional.

Como anarquistas, nós não conhecemos outra fronteira que não seja a que separa os oprimidos dos seus exploradores. Não somente os seres humanos são, para nós, livres e iguais em direitos, onde quer que estejam, como ainda gostamos que estrangeiros venham à nossa casa, e fazemos questão de os acolher como hóspedes. Não aceitamos qualquer entrave à livre circulação de pessoas e a simples ideia de «quotas» para a imigração é coisa que repudiamos veementemente. Rejeitamos igualmente as políticas de Tartufo que preconizam o desenvolvimento do Sul só para que os « negros» não invadam o Norte.

Uma tal posição, que deverá ser partilhada sem hesitação por todos os internacionalistas consequentes, geram frequentemente críticas e acusações de irresponsabilidade, mais concretamente, actos de provocação da «esquerda» sindical e política. Todavia, até de um ponto de vista «razoável» a abertura das fronteiras é perfeitamente defensável (1). Assim, tendo em conta os condicionantes, examinemos os argumentos dos que se opõem à liberdade de circulação e de instalação.

O primeiro que surge, e que faz tremer as torres, é a ameaça de um «vaga migratória»: dada a diferença ente o salário médio por habitante (2) (de 1 a 50) entre a França e numerosos países de África, a abertura das fronteiras provocaria um gigantesco força de atracção que levaria todos os miseráveis do continente negro em direcção à nossa bela e opulenta pátria.

Pensar que os pobres se deslocam mecanicamente de um território para outro em função das diferenças de nível de vida é bem uma ideia ocidental. Quem pode pensar que se deixa, a não ser obrigado, da sua aldeia, da sua família, dos seus amigos, das suas canções, danças e o sol de África para vir suportar as nossas tristes cidades? Todas as pessoas aspiram, na sua
esmagadora maioria, a manter as suas condições de vida e os seus valores do seu meio natural.
Na verdade, aqueles sobre os quais a miséria caiu estão já aqui, ou a caminho, e nada os deterá. Quem os viu a escalar à mão as paredes de arame farpado em Ceuta e Melilla não duvidam. E é inútil barricarmo-nos contra o desespero; a abertura das fronteiras não aumentará o número dos querem matar a fome. Estudos estatísticos das migrações mostram que não são as populações mais pobres que emigram mais (3). Mostram também que as situações de livre circulação – entre a França e o Gabão, o Togo ou a República Centro-africana, até uma data recente, ou ainda actualmente entre os novos membros da União Europeia do Leste e os dos Oeste que lhes abriram as suas fronteiras – não provocaram fluxos migratórios, apesar das enormes diferenças de nível de vida. Provou-se sobretudo que «quanto mais as fronteiras se abrem, mais a mobilidade é de curta duração; e quanto mais elas se fecham, mais a migração de residência se torna desejável» (4). É por isso que a política restritiva transforma uma imigração que poderia ser sazonal em imigração com prazo indeterminado, bem como acaba por dissuadir a partir aqueles que gostariam de regressar ao país, mas temem não poder retornar em caso de fracasso.

A migração internacional, ponderadas todas as suas causas, refere-se a 2,5 % da população mundial (55.000 entradas por ano em França, segundo o INSEE, o mais provável será 100.000). A abertura das fronteiras, passado o breve afluxo dos que já estão às nossas portas e aguardam por entrar – e entrarão mais cedo ou mais tarde – não mudará nada.

O segundo argumento constitui um espantalho para os sindicatos: a imigração incontrolada aumentaria o desemprego e contribuiria a baixar os salários dos franceses. Ora os estudos disponíveis desmentem a correlação entre o crescimento do desemprego e o aumento dos recursos em mão-de-obra, logo o número de imigrados (5). Por um lado, os empregos mais desejados ( a função pública) estão interditos aos trabalhadors estrangeiros, os quais ocupam massivamente os que os franceses recusam. Recordemos ainda que o desemprego é indispensável ao capitalismo a fim de regular o mercado de trabalho, e os imigrados servem normalmente para serem os bodes expiatórios desse facto. Quanto ao risco de haver concorrência entre trabalhadores estrangeiros e autóctones a regra é simples: os mesmos papéis e os mesmos direitos para todos.

O terceiro argumento, o mais frequente, diz respeito ao equilíbrio dos orçamentos sociais, de saúde e o custo da imigração em geral. Mas ele faz parte do preconceito segundo o qual as populações do Terceiro Mundo sonham viver nas nossas sociedades só por causa das ajudas sociais. Para falarmos a sério, torna-se necessário recordar que a imigração é na realidade vital para as economias das sociedaes ricas – os Latinos nos Estados Unidos estão prestes a provar isso mesmo, e tal é a consequência directa da pilhagem do Sul pelo Ocidente desde a colonização. Disto isto, poder-se-ia mesmo dizer que o custo de uma verdadeira política de acolhimento e de integração não excedaria certamente os custos da política repressiva com todo o arsenal de polícias, juízes, centros de retenção e as operações de recondução às fronteiras.

Uma vez afastados os argumentos «técnicos», resta o temor, irracional e perigoso, que leva a votar pela Frente Nacional ( em França) as aldeias onde jamais um imigrante pôr lá os pés, o receio do outro, do estrangeiro, o receio de ver a dissolver-se a cultura e a «identidade nacional» numa mistura de cores, culturas e religiões. O fantasma de uma civilização superiora, branca, cristã e rica, «submergida pelas hordas dos bárbaros» encontra a sua origem histórica na queda do império romano do Ocidente. Mas tal como a maior parte das «verdades» que nos são transmitidas pelos manuais escolares, também essa é truncada. Na realidade, colonizadores romanos e autóctones «bárbaros» viveram juntos durante mais de 25 gerações no interior das fronteiras do império. E quando as povoações, vindas da Ásia, o atravessaram de uma ponta à outra, forma esses mesms «bárbaros» que se esforçaram para manter as estruturas.

Após uma investigação profunda não encontraremos nenhum exemplo na história de qualquer nação que tivesse sido dissolvida ou destruída no seguimento de uma invasão pacífica de migrantes pobres. O contrário não se pode dizer: quando os Europeus começaram a expandir-se pelo planeta, por onde eles passaram reduziram à escravatura os povos autóctones, quando não mesmo os exterminaram, como aconteceu nos Estados Unidos, na Austrália, na Nova Zelândia, só para citar alguns exemplos.

Em suma, a abertura das fronteiras não provocaria o fluxo de imigrantes suplementares nem em França nem na Europa, e evitaria inumeráveis dramas humanos. Ela não mudaria a ordem económica neo-colonislista de que se aproveitam as sociedades ocidentais e que é a primeira causa para a imigração «não escolhida», mas poderia ser um pequeno passo para a solidariedade internacional dos explorados contra o capitalismo globalizado e os seus falsos nacionalistas.

Autor do texto: François Roux

(1) Consultar o dossier »migrations et mondialisation», elaborado pela ATTAC 63
(2) Que corresponde a uma diferença de nível de vida de cerca de 1 a 20
(3) Ler Faut-il ouvrir les frontières? Catherine Withord de Wenden, Éditions de Sciences-Po, 1999.
(4) L'Europe et toutes ses migrations, sob la direction de Catherine Withord de Wenden et Anne de Tinguy, Éditions Complexe, 1995.
(5) Rapport « Immigration, emploi et chômage » , Conseil de l'emploi, des revenus et de la cohésion sociale, 1999.

Texto publicado no Le Monde Libertaire de 18 de Maio de 2006

Manifesto contra a política europeia de fronteiras, e pelo fecho dos Centros de Internamento para Estrangeiros

Contra as imputações aos detidos da Zona Franca (Barcelona) que estavam a realizar acções de protesto contra as limitações à liberdade de circular pela europa no passado dia 24 de Junho.

Desde o Outono último, as imagens de horror que estão a produzir-se como resultado do actual regime de fronteiraseuropeias não cessam de chegar à imprensa, Tv e blogs. As mortes nas valas de Ceuta e Melilla, as deportações em pleno deserto do Sahara, os naufrágios nas costas das Canárias, as negociações bilaterais para que certos países africanos aceitem as deportações de não-nacionais em troca de avultadas somas de dinheiros, a mobilização por parte da EU de patrulhas navais e aéreas para cntrolar as costas das Canárias e da África Ocidental… tudo fala-nos de uma guerra larvar que está a ser levada a efeito nas fronteiras externas da Europa contra aqueles homens e mulheres que ousam viajar para a Europa em busca de uma vida melhor.


A migração Sul-Norte, tal como a migração campo-cidade, é algo como que irreversível. Apesar disso, a União Europeia empenha-se a encará-la em termos insistentemente repressivos. Isto não acontece só nas fronteiras externas da Europa e nos países de trânsito migratório, subcontratados para a gestão do deslocamento das pessoas para a Europa, mas cada vez mais dentro das nossas cidades: os controles de identidade multiplicam-se um pouco por todo o lado, desde a saída do metro e do comboio suburbano, até às agências de viagens ou estação de correios. O objectivo não é tanto o de identificar e expulsar todos os estrangeiros extracomunitários sem licença de residência, mas principalmente manter uma grande quantidade da população num estatuto de subalternidade. Assim é que os cidadaãos migrantes extracomunitários que vivem e trabalham na UE vêem o seu estatuto legal, a sua segurança, a sua segurança, a sua liberdade de movimentos a serem submetidas à arbitrariedade típica das legislações de excepção. O medo e a incerteza impregnam as suas vidas quotidianas mas também o ambiente que respiramos dentro das nossas cidades.

Os acontecimento ocorridos no passado Sábado (24 de Junho) no Centro de Internamento para estrangeiros de Zona Franca ( em Barcelona), que se encontra em construção, são uma expressão mais da modalidade repressiva, de carácter policial-militar da actual política fronteiriça do governo Zapatero e de todos os governos da União Europeia. E são-no pelo simples desencadear dos factos: nada exemplifica melhor a arbitrariedade e denegação de direitos do regime fronteiriço europeu que os Centros de Internamento para Estrangeiros. Nestas prisões para imigrantes é retido por um prazo até 40 dias pessoas cujo único delito é existir e querer habitar, trabalhar e conviver num lugar em que não nasceram. O Centro de Internamento em construção duplica a capacidade existente, e situa-se num local isolado dos centros populacionais e de difícil acesso, tudo isso para aperfeiçoar o terror e afasta-lo das cabeças bem pensantes.

Os acontecimentos do dia 24 de Junho mostarm a orientação repressiva da política fronteiriça e constituem uma reacção policial contra quem ousam desafiar as fronteiras, e contra quem levanta a sua voz esta política, feita supostamente em nome da nossa segurança, mas que não nos representa.

A detenção de 59 pessoas que entraram no recinto do Centro em construção, juntamente com dois advogados e dois jornalistas, as acusações abusivas, o tratamento vexatório nas instalações policiais, o prolongamento da detenção durante mais de 48 horas como resposta a uma acção pacífica, não podem senão suscotar a mais viva indignação e contestação.

Por isso os baixo-assinados, em solidariedade com todos aqueles que imigram para a Europa e se encontam em condições humilhantes, numa situação de subalternidade e sofrendo na pele os ataques que lhes são desferidos, assim como em solidarieade com a centena de homens e mulheres que, vindo de toda a Europa, realizaram no Sábado passado (24 de Junho) uma acção pacífica para chamar a atenção para a construção de mais um centro de internamento, antes da sua inauguração, publicitando assim o movimento contra os Centros de Internamento Europeus , exigimos:

– a retirada de todos as acusações contra todos os detidos;

– a declaração de Barcelona como ciudade livre de Centros de Internamento para Estrangeiros;

– a regularização incondicional de todos os imigrantes na Europa; – o fim da política de fronteiras policial-militar.

http://communia.org/caravana/reply/reply.php?loc=0

Activistas pró-Tibet protestam contra o novo comboio Pequim-Lhasa





Activistas que defendem a independência do Tibet escalaram a fachada da Estação de Ferrovias do Oeste de Pequim, onde afixaram um cartaz em protesto contra o novo tcomboio para Lhasa (capital tibetana), segundo um comunicado da organização Free Tibet Campaign.

O cartaz tinha a frase "Comboio chinês para o Tibet, um projecto para destruir", em referência à linha de caminho de ferro que foi inaugurada dia 1 de Julho. Três mulheres que participaram nos protestos, uma britânica, uma americana e uma canadiana, foram detidas pouco depois.

"Os tibetanos temem que o Governo chinês use o caminho de ferro para aumentar a sua colonização, transferindo um maior número de colonos chineses e militares, e ao mesmo tempo explorando os grandes recursos naturais da região", diz o comunicado enviado à imprensa.

"Continuaremos com acções para defender a cultura tibetana, e os protestos de hoje são só uma amostra do que a China pode esperar à medida que se aproximam os Jogos Olímpicos de Pequim", afirmou o director da organização Estudantes por um Tibet Livre, Lhadon Tethong.

A China responde que a linha de caminhos de ferro será boa para a economia tibetana, especialmente para o turismo, criará novos postos de trabalho e não causará danos ambientais. A oposição tibetana anunciou protestos em todo o mundo. Grupos tibetanos em Londres, Ottawa, Nova York e Paris convocaram protestos com o lema "rejeite o comboio". Em Dharamsala (norte de Índia), lugar do exílio do Dalai Lama, os tibetanos fecharão os seus estabelecimentos e usarão braceletes negros. Em Londres, a Free Tibet Campaign pediu um "boicote turístico" à nova ferrovia.


Apresentado pela China como um exemplo da sua avançada tecnologia, o projecto foi criticado pelos ecologistas, que consideram que as reservas naturais do planalto tibetano vão ser contaminadas com a passagem do comboio.


Também o Dalai Lama, exilado no estrangeiro, acusou Pequim de ter const ruído a linha-férrea para aumentar a chegada de "colonos" chineses ao Tibete, co ntribuindo para a progressiva perda de cultura e identidade do povo tibetano



O primeiro comboio de passageiros que chegará ao planalto do Tibete partiu da remota cidade de Golmud, na província vizinha de Qinghai com destino à capital tibetana, Lhasa, no passado dia 1 de Julho.
O comboio, cuja locomotora foi construída pela empresa chino-canadiana Bombardier Sifang, começou a percorrer a via-férrea mais alta do mundo às 11:00 locais, levando 600 passageiros.
Antes decorreu uma cerimónia de inauguração com a presença do President e chinês, Hu Jintao, o vice-primeiro-ministro Zeng Peiyan e o ministro dos Camin hos-de-ferro, Liu Zhijun.
À mesma hora partiu outro comboio de Lhasa, com destino a Lanzhou (capi tal de Gansu, noroeste), com mais de 600 passageiros a bordo.
Hu Jintao, que foi secretário-geral do Partido Comunista no Tibete em f inais dos anos 80 e princípios de 90, destacou que a nova linha de caminho de fe rro é mais "um magnífico objectivo" que a China conseguiu com o "impulso de modernização socialista".
De Golmud, o comboio demorará cerca de oito horas a chegar ao limite da província de Qinghai e começo da região autónoma do Tibete, nos montes Tanggula , passando pelo local mais alto jamais alcançado por uma linha de comboio, a 5.0 72 metros.
O comboio, apresentado pelo governo como um projecto chave para tirar o Tibete do subdesenvolvimento e isolamento, foi construído em duas fases: a primeira entre 1956 e 1984, na qual participaram soldados do exército, e a segunda entre Junho de 2001 e Outubro de 2005.


Students For A Free Tibet


Free Tibet Campaign

1.7.06

A Contra-História da Filosofia, de M. Onfray



Já se encontram editados em francês os dois dos primeiros volumes da monumental obra de Michel Onfray, «Contra-História da Filosofia», que, quando completa, deverá contar com os seis volumes previstos.
(nota: a tradução para português já foi contratualizada com a editora brasileira Martins Fontes)

O sumário do 1º Volume, dedicado às Sabedorias Antigas, contém os seguintes capítulos:

1. Leucippe et "la joie authentique"

2. Démocrite et "le plaisir pris à soi-même"

3. Hipparque et "la vie la plus plaisante"

4. Anaxarque et sa "nature éprise de jouissance"

5. Antiphon et "l'art d'échapper à l'affliction"

6. Aristippe et "la volupté qui chatouille"

7. Diogène et "jouir du plaisir des philosophes"

8. Philèbe et "la vie heureuse"

9. Eudoxe et "l'objet de désir pour tous"

10. Prodicos et "la félicité"

11. Epicure et "le plaisir suprême"

12. Philodème de Gadara et la communauté hédoniste

13. Lucrèce et "la volupté divine"

14. Diogène d'Oenanda et "la joie de notre nature"


O 2º volume, intitulado «O Cristianismo hedonista», tem o seguinte sumário:

1. Simon le magicien et "la grâce"

2. Basilide et "la débauche"

3. Valentin et "les semences d'élection"

4. Carpocrate et "l'amour"

5. Épiphane et "le désir impétueux"

6. Erinthe et "la satisfaction du ventre"

7. Marc et "les femmes élégantes"

8. Nicolas et "la vie sans retenue"

9. Amaury de Bène et "la sanctification de la vie courante"

10. Willem Cornelisz d'Anvers et "le péché contre nature"

11. Bentivenga de Gubbio et "l'occupation infâme"

12. Walter de Hollande et "la liberté suprême"

13. Jean de Brno et "le nihilisme intégral"

14. Heilwige de Bratislava et "l'esprit subtil"

15. Johannes Hartmann d'Amtmansett et 'la vraie béatitude"

16. Willem van Hilderwissem de Malines et "le plaisir du paradis"

17. Éloi de Pruystinck et "la manière épicurienne"

18.Quintin Thierry et "la liberté de la chair"

19. Lorenzo Valla et "la volupté"

20. Marsile Ficin et "les voluptés contemplatives"

21. Érasme et "le plaisir honnête"

22. Montaigne et "l'usage des plaisirs"


Na apresentação à obra, o editor escreve o seguinte:

Nesta «Contra-Historia da Filosofia», Michel Onfray propõe-se examinar em seis volumes 25 séculos da filosofia esquecida. Os manuais, as histórias, as enciclopédias, os trabalhos universitários evitam cautelosamente esse imenso continente da filosofia. É por isso que só conhecemos as figuras mais austeras e as menos interessantes da filosofia. Porque será?
Porque a história da filosofia é escrita pelos vencedores de um combate que, em geral, opõe os idealistas e os materialistas. Basta lembrar que com o cristianismo aqueles tomam o poder que vão manter ao longo dos últimos vinte cinco anos. Desde então, favorecem todos os pensadores que trabalham segundo as suas tendências e apagam conscientemente todos os traços de uma filosofia alternativa. Daí a ocultação dos materialistas, dos cínicos, dos epicuristas, dos gnósticos licenciosos, dos irmãos e das irmãs do Livre Espírito, dos libertinos barrocos, dos ultras iluministas, dos utilitaristas anglo-saxões, dos socialistas dionisíacos, dos nietzcheanos de esquerda e de outros tantos continentes povoados por personagens furiosas. Esta Contra-História conta a sua aventura.
E qual é o ponto comum de todos estes indivíduos? Nada mais que o gosto por uma sabedoria prática., de um vocabulário claro, de uma exposição límpida, de uma teoria que visa produzir uma vida filosófica. À maneira dos sábios antigos, todos eles voltam as costas à linguagem hermética e obscura; á filosofia só para os filósofos, às discussões de especialistas, aos assuntos próprios de profissionais, e fazem-no porque pretendem fazer da filosofia uma arte de viver – de viver bem, isto é, de viver melhor.
Os seis volumes previstos abrangem os sete anos de trabalho desenvolvido por Michel Onfray à frente do seminário de filosofia hedonista realizado na Universidade Popular de Caen ( no Norte da França). Todos estes textos servem de base de apoio às suas exposições improvisadas nas sessões realizadas por ele em cada 3ª feira à noite e que frequentadas em geral por umas quinhentas pessoas.

Reproduzimos as primeiras linhas do 2º tomo dedicado ao cristianismo hedonista:

A invenção de Jesus, a construção violenta e autoritária do cristianismo que se veio a tornar na religião de todo o Império graças ao golpe de Estado realizado por Constantino, o vandalismo voluntário da soldadesca às suas ordens, a destruição dos homens, o incêndio das bibliotecas, a perseguição dos filósofos, o encerramento das suas escolas, a inscrição no corpo jurídico – Códigos de Teodósio e de Justiniano – do estatuto de extraterritorialidade cidadã dos pagãos, o alastramento cultural e planetário da nevrose de S. Paulo, o triunfo do paulinismo – ódio às mulheres, ao corpo, à carne, aos desejos, aos prazeres, às paixões, à ciência, à inteligência, à filosofia – a conversão dos antigos perseguidos em perseguidores, tudo isso produziu uma sanha na História que excluiu dos séculos seguintes, incluindo o actual, de uma considerável acervo de informações sobre esse período histórico.
O mundo antigo afunda-se. Desaparece, morre, e com ele, a filosofia pagã, de que uma grande parte não consegue atravessar os séculos seguintes por razões que não procedem todas da vontade deliberada dos homens de não deixar rasto do património dos antigos gregos e romanos. Com certeza que os homens queimaram bibliotecas, incendiaram-nas, pilharam-nas, assassinaram os seus semelhantes, muitos deles gente das letras, mas o tempo também apaga os traços de uma civilização que se tornou um imenso campo de ruínas.

Compreende-se bem demais que o desaparecimento dos livros dos filósofos materialistas abderitanos – os seiscentos títulos de Demócrito … -, que as obras dos cínicos e dos epicuristas, que os abundantes volumes – trezentos, segundo consta – de Epicuro ou dos seus discípulos tenham sido uma das prioridades. Os copistas cristãos tinham outras prioridades mais importantes do que salvar livros subversivos. O platonismo e o estoicismo, reivindicados por vezes pelos Padres da Igreja como sabedorias propedêuticas ao cristianismo, dispunham de claras vantagens sobre as ideias que se mostravam inimigas ao ideal ascético católico.

Mais a mais o livro antigo é uma espécie de acessório numa época em que primam a oralidade e a transmissão oral. A palavra evanescente que não seja consignada pelos escribas ou pelos copistas acaba por desaparecer para sempre. Foi o que aconteceu com o ensino oral de Platão, provavelmente muito diferente do ensino dos seus textos que ainda persistem. A oralidade foi, pois, um obstáculo de monta. A que se deve juntar os obstáculos ligados aos seus suportes materiais como o papiro de origem egípcia, incapaz de aguentar a hidrometria, os climas e as estações de Roma. Tornaram-se em poeira, e com eles, aquilo que, por via deles, era transmitido. Até porque o número de exemplares de uma edição inicial não ultrapassava a trintena…

Recensão crítica de Robert Maggiori, publicada no Liberation (de 9/3/2006):

É preciso dizê-lo claramente: não se conhece lá muito bem Heilwige de Bratislava, Bentivenga de Gubbio, Eloy de Pruystinck, Willem van Hildervissem de Malines. Ignoramos também completamente quem seja Cérinthe. E nem sequer sabíamos que Carpocrate era o pai de Epífanes. Mas, desde que queiramos, a ignorância tem sempre remédio. Nada impede a qualquer um de visitar as bibliotecas, e tornar-se num especialista de Filodemo de Gadara, e interessar-se por Jean de Brno. Da mesma maneira que um explorador de ouro tem de remexer toneladas de pedras e calhaus antes de encontrar uma minúscula pepita, também se deve começar por folhear toda a biblioteca antes de encontrar qualquer fragmento de, ou sobre, algum daqueles pensadores…
Falámos disto porque uma Contra-História da Filosofia, mais concretamente os dois primeiros volumes ( vol 1, As Sabedorias Antigas; vol. 2, O Cristianismo Hedonista) de um conjunto previsto de seis, acabou de ser editada.
Não será difícil de prever que, tal como o seu anterior Tratado de Ateologia, esta obra trará ao seu autor, Michel Onfray, o mesmo ódio daqueles que já anteriormente se tinham manifestado contra os autores que ele defende. O que é perfeitamente legítimo, senão mesmo necessário. Não há dúvidas que «a historiografia releva da arte de guerra» e que o modo por que se faz a história resulta das relações de força, das estratégias, das fraquezas, dos calculismos, dos confrontos reais ou simbólicos ou, como disse Marx, que as ideias dominantes de uma época sejam aquelas pelas quais a classe dominante justifica a sua dominação. Por outras palavras, a história sempre foi escrita pelos vencedores. Donde a absoluta necessidade de uma «contra-história» que venha a recuperar os restos dos discursos dos vencidos, dos excluídos, dos dominados, dos minoritários, dos esquecidos. Foi s esta exigência, política e moral, que esteve, aliás, na origem da renovação da historiografia contemporânea, ao integrar a história das mulheres, a história da homossexualidade, a história da loucura, a história dos internamentos, a história dos colonizados, dos operários, dos camponeses…E é perfeitamente legítimo que Michel Onfray queira olhar os «estilhaços» acumulados sob o peso das estátuas monumentais de Platão, Descartes e Kant, assim como faça por difundir as vozes dos cristãos heréticos, silenciadas pelas de Santo Agostinho, S.Tomás de Aquino, e que ao lado da corrente dominante de Pitágoras, Parménides, Platão, Marco Aurélio ou Séneca, ele queira ver o trajecto de Leucipo, Demócrito, Diógenes, Epicuro ou Lucrécio, ou que proteste contra a relativa desvalorização de Erasmos e de Montaigne, ou ainda tente responder à interrogação «que pode o corpo?», quando aborda Spinoza, Nietzche ou Deleuze, diferentemente dos que maldosamente os desconhecem. Ou seja, que a uma filosofia idealista, espiritualista, ascética, ele prefira uma filosofia «materialista, sensualista, existencial, utilitarista, pragmática, ateia, corporal, incarnada…». Mas algumas questões permanecem…
Michel Onfrauytraça uma galeria de retratos intelectuais, legíveis por todos, na qual são referidos, para além de Demócrito, Diógenes o cínico, Lucrécio, os filósofos que têm sido frequentemente marginalizados… A galeria apresentada no segundo volume, acerca do Cristianismo hedonista, é ainda mais espantosa…

Mais info:
http://perso.orange.fr/michel.onfray/accueilonfray.htm