2.8.06

A disneylandização do planeta, ou como o turismo está a transformar o mundo



Autora do texto: Sylvie Brunel


Viajar de outra maneira, viajar inteligente e, sobretudo, não fazer figura de turista…A fim de responder a estes desejos do viajante moderno, a indústria do turismo, a 3ª indústria mundial, multiplica as suas ofertas e os seus produtos. Com tudo isso o mundo acaba por se tornar num imenso parque de atracções em que a ilusão e o maravilhoso se substituem habilmente à realidade.

«Um pequeno mundo» é uma das atracões fetiches da Eurodisney em Paris, e na qual as famílias realizam uma volta ao mundo de barco no meio de autómatos cantantes. Todos os países e todas as civilizações são sintetizadas, umas após outras, em arquétipos imediatamente identificáveis tanto quanto eles se colam às representações mentais colectivas: os polinésios dançam o tamouré, os mexicanos trazem sombreros entre cactus, os japoneses vestem kimonos, etc. E aquela atracão acaba em apoteose no meio dos cintilantes luzes das Folies-Bèrgeres e de outros espectáculos «tipicamente parisienses», cuidadosamente reformulados já que se trata de uma atracão de carácter familiar. A uma outra escala é assim que o turismo está em vias de moldar o mundo, as paisagens e as civilizações.

Uma globalização pacífica

O turismo de massas desenvolveu-se a partir dos anos 1950 com o prolongamento das reformas pagas, a democratização do transporte aéreo e a emergência das classes médias. Quando a guerra fria termina, no fim dos anos 1990, pode-se dizer que a quase totalidade do mundo ficou aberta ao turismo que logo se tornou na terceira indústria mundial. Enquanto que em 1950 não passavam dos 25 milhões, o número estimado dos turistas, hoje em dia, ultrapassa em muito os 800 milhões, os quais todos os anos partem para mais um viagem de lazer para um local outro que não o da sua residência e habitação ( esta é a definição habitual de turismo). O fluxo não pára de crescer: a Organização Mundial do Turismo estima que daqui ao ano 2020 o número de turistas deverá atingir qualquer coisa como 1.600 milhões de pessoas!
A nível mundial o turismo representa 10% do PIB e emprega 8% da população activa (1). As suas receitas anuais elevam-se em média a 650 mil mlhões de dólares, ou seja, 8 vezes o montante da ajuda ao desenvolvimento. Os turistas, esses, já não apenas os brancos ricos do Ocidente, pois cada vez mais indíviduos originários dos países emergentes (Chineses, Russos, Brasileiros, Indianos, Coreanos…) se incluem no contigente dos turistas, constuído em grande medida por elementos das classes médias, ávidos por descobrir o mundo. A globalização permitiu abrir destinos que estavam fechados ou que eram de difícil acesso. É assim que, Dora em diante, o turismo se instala em todo o lado, salvo nos cenários de guerra. Ao permitir a milhões de pessoas ficar na sua região de origem, em vez de serem forçados a exilarem-se, o turismo pode ser visto –e é normalmente encarado – como uma actividade benemérita, que constituiria a versão pacífica e postiva da globalização. Fonte de consideráveis recursos, o turismo é geralmente promovido pelas regiões com capacidade de acolhimento ( recorde-se que a França é o primeiro destino turístico mundial com cerca de 70milhões de visitantes anuais). Não espanta pois que a epidemia chikungunya constitua não só uma catástrofe para as ilhas Reunion pelo seu impacto sanitário sobre a população local, mas também porque ao desviar os turistas, vem a traduzir-se numa verdadeira hecatombe económica.
Os géografos, nomeadamente a equipa MIT de Saint-Denis, dirigida por Rémy Knafou (2), mostraram que a «acção do turismo» transforma os locais e as culturas: cidades que estavam condenados ao declínio económico, como Bruges ou Veneza, encontram uma segunda vida graças ao turismo. Determinados sítios, que se encontravam em acelerado processo de degradação e mesmo de extinção, como é o caso das montanhas médias, vêem-se asso, revitalizados pela multiplicação de estações e a diversificação das actividades que são propostas aos visitantes. A colocação das paisagens e dos homens na disponibilidade da terceira indústria mundial traduz-se forçosamente em transformações que poderão ser encaradas pelos críticos mais exigentes como um aviltamento e uma desnaturalização. Não por acaso a palavra em alemão para designar o turismo é «Fremdenverkehr», que significa tráfico de estrangeiros. O termo não poderia ser, realmente, mais esclarecedor. Tudo é feito para atrair o turista…que, no entanto, não pára de ser criticado um pouco por todo o lado.

Habitar a sua viagem

O turismo apresenta-se com efeito como um paradoxo: ainda que todos sejam turistas, ninguém o quer admitir, nem aceitar esse estatuto, visto como desvalorizador. Por isso, é que o turista é quase sempre o outro. Um outro que se despreza e que se tenta escapar (3). Mas será que essa caricatura de turista existirá realmente? É conhecido como a maioria dos turistas manifestam o desejo de conhecer os locais visitados.
O turismo organiza-se com base num encontro: de um lado, milhões de pessoas estão prontas a gastar muito dinheiro para se desnacionalizarem-se à procura de exotismo, e do outro lado,, existem milhões de pessoas que também estão dispostas a acolhê-los e a satisfazer essa ânsia de exotismo, e que lhes permita ganhar dinheiro e continuar a viver no seu local habitual de residência, sem necessidade de se exilarem para outro local em busca de melhores condições de vida. Formulada assim, compreende-se-á fácilmente que este encontro não pode concretizar-se senão de uma maneira muito enviezada. É que na sociedade capitalista a felicidade, tal como muitas outras coisas,é algo que se fabrica e se compra. O arquétipo é o parque temático ( a Disneylândia, os Universal Studios) ou o falso ambiente tropical das estufas ( como em Central Park). Tratam-se de locais artificiais, enclaves em que o turista entra, e que são concebidos para o seu divertimento. Os geógrafos falam a propósito de um turismo «hors sol» (fora do locais de origem)
Além disso cada vez mais um número crescente de turistas manifesta o desejo por viagens alternativas. Mas alternativa a quê? Tradicionalmente em alternativa àquela figura de turista japonês «de câmara fotográfica ou de vídeo em mão» - uma conhecida fórmula comum de carácter pejorativo – e que parte em grupo, em viagens organizadas pelas agências especializadas, muitas vezes em autocarros fretados para o efeito e que se dirigem invariavelmente para os locais massificados onde tudoestá organizado para os recber com base num mesmo figurino de oferta turística. Hoje, no entanto, os turistas querem cada vez mais «habitar a sua viagem», como diz eufemisticamente o jornalista da conhecida revista Géo, Jan-Luc Marty, no número de Março daquela revista. Com efeito, os profissionais do turismo, agências e revistas, compreenderam há muito que era necessário responder a esta expectativa, dando ao turista a sensação de que ele é diferente daqueles estereótipos de turistas japoneses.

Oferecer a ilusão de «viajante»

«Tudo» é, hoje em dia, objecto de escolha: poder ser aventureiro, salvador da humanidade, etnólogo amador, ou um temerário pioneiro-explorador. O turista precisa agora de «autenticidade». E, na verdade, essa autenticidade passou a ser um produto como qualquer outro, e toda a arte de um bom profissional de turismo consiste em saber fabricar o melhor possível essa tal «autenticidade». O turismo molda pois os locais, a natureza e a cultura em função das representações mentais dos próprios indivíduos que o realizam. Com isso é todo o planeta que se «disneyliza-se» por força da influência do turismo de massas: as paisagens tornam-se em cenários (décors) e os indivíduos que aí vivem convertem-se em actores prontos a satisfazer aquele desejo de autenticidade que está presente nas expectativas dos turistas que são vistos, acima de tudo, como grandes portadores ( e fornecedores) de divisas.
No seu último número do passado mês de Março a revista Géo propunha 50 viagens «inesperadas», distribuídas por cinco painéis: natureza, cultura, desporto, descando, humanitário. No capítulo temático da natureza o turista pode descobrir, por exemplo, os gorilas, os pandas, as baleias e até ser o salvador de certas espécies raras. No capítulo da cultura, por seu turno, convida-se os interessados a partir ao encontro de «povos autênticos» como os Touaregs ou os Inuits. Já no capítulo do desporto o planeta é transformado num imenso terreno de jogos em que se pode sobrevoar em balão, ou em parapente, que se desce em kayak ou em VTT, e que, no fundo, mais não faz que tentar satisfazer a ilusão do homem moderno em tornar-se num Tarzan moderno, protector da natureza, e na qual ele pode realizar os saltos de árvore em árvore em pleno ambiente tropical graças aos esquemas montados para o efeito. Quanto ao capítulo da ciência os destinatários são convidados a vestirem a pele de vulcanólogos, de oceanógrafos ou de paleantólogos, quais crianças modernas, cujos pais zelosos as enviam para colónias de férias, onde inteligentemente podem «aprender, divertindo-se». Com uma diferença, apenas: com os adultos, as coisas são mais sérias. Na rubrica das «paixões» é-se desafiado a retomar a prática saudável dos ateliers de actividades que pretendem concretizar as artes que fazem escola: os mosaicos de Itália, a cozinha do Vietname, a fotografia da Gutemala, a salsa em Cuna ou o cinema no Níger,… e até a «risoterapia» em Bombaim, ou o «banho» no Tirol.
Tal como a indústria agro-alimentar inventa sem cessar novos produtos para aumentar os seus encaixes , também a indústria turística pretende desenvolver e explorar incessantemente novos conceitos, novos nichos a fim de oferecer a cada um o sonho desejado, segundo a tarifa previamente fixada. Na rubrica «aventura» converte-se o turista, segundo a sua opção, em cow-boy ( nos EUA), em explorador de ouro ( na Austrália), em explorador de lixo e destroços (nas Filipinas): pretende-se, no fundo, em tentar realizar os «sonhos de criança» do próprio turista. Todas essas viagens têm dois pontos comuns: custam caro, o que as faz serem exclusivasde elite; e, depois, organizam-se segundo um princípio de regressão infantil do homem ocidental, cujas necessidades materiais, uma vez satisfeitas, fazem nascer nele a necessidade de ilusão, que o leva a aderir a um jogo de papéis que lhe permitam regularmente ser um actor que desempenhe a função de, por exemplo, etnólogo, de Tarzan ou de Robinson. E quando não lhe cabe o papel de salvador da humanidade, ao menos sempre pode aderir ao chamado turismo humanitário, muito em voga nos dias que correm.

«Na pele de um explorador»

Apesar de todas as críticas que lhe são dirigidas, o turista é um ser admirável, pronto a gastar muito para obter a sua satisfação. Curiosamente, quanto mais dinheiro ele está disposto a gastar, mais ele rejeita ser tratado com turista. A indústria do turismo cria hoje produtos elitistas, que permitem vender ilusões de um turismo inteligente, de preço mais elevado que os tradicionais pacotes-padrão de oferta turística em hóteis-club. Dormir em sacos-cama e baver, mas ter auto-consciência de um cidadão responsável, ou seja, fazer tudo para que não prejudique o planeta, uma vez que é do conhecimento geral a necessidade de garantir um «desenvolvimento sustentável», entendido como preservação dos antigos equilíbrios, respeito pelos povos «autênticos» e pela natureza «selvagem». (4) Indignado pelas derivas da sociedade industrial, de que ele, não obstante, faz parte, o cidadão urbano do mundo moderno invoca a beleza dos ambientes «selvagens», frequentemente«ameaçados», e a «autenticidade» dos modos de vida tradicionais. Esquece, porém, aquilo que os geógrafos falam há muito tempo:as paisagens naturais não existem eternamente, elas foram e t~em sido moldadas pelo homem, assim como as sociedades e os ecossistemas estão em perpétua evolução, dado que é essa mesma a condição da sua permanência.
A indústria turística monta pois uma encenação programada com base em supostos «paraísos perdidos» ( ainda que o não sejam para o turismo) onde viveriam civilizações «preservadas». E tanto mais preservadas quanto o acesso à modernidade lhes é frequentemente negado precisamente por aqueles que, por razões mercantis, os colaram a representações foclóricas, muito longe de serem autênticas. O turismo disneylandiza, pois, o mundo, transformando os locais de acolhimento num sucessão de parques temáticos, onde o turista pode encontrar um passado recriado ou preservado com toda a segurança.
A este respeito o primeiro texto do número de Março da revista Géo é revelador da actual tendência. «Na pele de um explorador», é o seu título. E é proposto ao leitor uma marcha pela natureza «selvagem» da Tasmânia – e, de facto, não há nada mais longínquo e exótico que a Tasmânia ? O adjectivo «selvagem» retorna um pouco mais à frente através do título «espaços selavagens» Trata-se mais uma vez do reencontro com um paraíso perdido, que seria totalmente preservado pelo homem. O vocabulário utilizado retoma os termos habituais do género. Os subtítulos referem-se a uma «floresta amazónica» ( na Tasmânia?!), depois a uma «solidão dos espaços grandes», e ainda às «primeiras idades Terra». Nesta «jóia ecológica», neste «destino mítico», o explorador estaria «só entre os cangurús».
Todavia, a verdade é que os ocupantes originais – humanos e animais – da Tas
Mania foram erradicados pelso colonos europeus. E nesse parque natural protegido, como em muitos outros do mundo algo-saxão, o visitante está sob controle apertado, quer nos itinerários dos praticantes de trekking,quer nas pausas para descanso, todos devem estar registados e expressamente proibidos de abandonar o mais pequeno alimento. Os nossos aprendizes exploradores estão bem enquadrados e sob grande vigilância. Eles são mesmo duramente repreendidos no caso de ousarem passar a noite num refúgio em vez de temporário cumprirem com o percuso previsto para a estape do dia. E nem pensar sair dos caminhos balizados nem tomar qualquer iniciativa. Quanto aos animais selvagens, eles são-no tão pouco que o turista é avisado a não deixar o seu saco sem protecção, vigiar a sua tenda, onde podem penetrar indesejáveis opossums, e ter cuidado com tudo o que leva para o pique-nique. No fundo, é o mito do «wilderness», a natureza selvagem, que os anglo-saxões, os grandes predadores do Novo Mundo,acabaram por encenar no fim do século XIX nos «grandes espaços» que tinham previamente conquistado, e diligentemente esvaziado dos seus ocupantes indígenas ( índios, aborígenes, Maoris,…). Agora é preciso reconstituir os grandes painéis da naturez selvagem para gozo do homem branco.O turista começou por ser um caçador, num género de caça só reservada a uma elite ( Hemingway, Roosevelt, Giscard d’Estaing,…), que ainda hoje se perpetua, embora os safaris se tenham tranformado sobretudo em safaris fotográficos, nas reservas da África Oriental e Austral, em que o preço dos troféus atinge somas astronómicas. (5). O turista new-look é de ora em diante um «explorador» que parte para uma aventura cuidadosamente balizada nos parques naturais – sob alta protecção – do Novo Mundo. A classifcação desses espaços pela Unesco a título de «património mundial da humanidade» resultou na prática, através da publicidde mundial concedida, em erigir o conservacionismo no mais rígido dogma. Sob o pretexto do desenvolvimento sustentável pretende-se santificar e sacralizar uma natureza forçosamente ameaçada, os tais «mundos em vias de extinção» que semanalmente as televisão não se cansam de falar.
Para viajar «alternativo», o turista aceita um certo desconforto, cuidadosamente construído, uma vez que tal faz parte integrante da aventura. Ele traz a sua mochila, para não «explorar» as populações locais que, no entanto, encontram nele uma fonte não negigenciável de rendimentos. Marchas a pé até ao esgotamento, mas sem arriscar todavia a vida, sob pena de processos judiciais altamente dispendiosos. O interessado deve, aliás, assinar um formulário de responsabilização antes do início da aventura. E aceitar as incómodas sanguessugas e mosquitos, vistos como «naturais». O desconforto paga-se caro, pois também ele é uma forma de comprar o mito: mil euros por pessoa para uma viagem à Tasmânia com 6 dias de marcha, noites na tenda e carga por conta do «aventureiro». Uma hierarquização subtil se constrói igualmente entre os neófitos, que aí se enredam, e os mais experientes, qe conhecem todos os truques do aventureiro, nomeadamente em matéria de equipamento de última estação ( sapatos, tendas, telefone satélite) reproduzindo assim as diferenças de classe entre os turistas de base e a elite, que se pode dar a luxo de usufruir as aventuras no maior conforto (noites nos melhores hóteis, deslocações em helicópteros,etc)

Todos estão por sua conta

O turismo está a transformar o mundo numa imensa Disneylândia em que tudo é concebido e controlado para vender a natureza «selvagem» e as «povoações autênticas» aos visitantes ricos que são cuidadosamente enquadrados. Deplorável? Se pensarmos que a operação é rigorosamente montada, que cada qual sabe de si, que o turista parte feliz uma vez que teve a sua parte de sonho, enquanto o autóctone fica satisfeito, pois teve a sua bolsa mais recheada, e o agente de viagens, organizador desta troca, não deixa de esfregar as mãos de contente, porquanto vendeu caro um serviço que não lhe custou quase nada, dado que no que diz respeito às condições alojamento e restauração os custos são mínimas, se assim pensarmos a resposta não é certa. Aliás, as populações locais sonham com o conforto e o desenvolvimento, aquilo que paradoxalmente a oferta turística lhe poderá garantir. Fica por verificar se a disneylandização do mundo não transformará, tal como nos parques temáticos do Mickey, os protagonistas locais em figurantes reduzidos ao silêncio, e mal pagos.

(1) L. Carroué, D. Collet, C. Ruiz, La Mondialisation, génese, acteures et enjeux, Bréal, 2005
(2) Equipe MIT, Tourismes I. Lieux communs. Belin, 2002; Tourismes II Moments de lieux, Belin, 2005
(3) J-D. Urbain, L’idiot du voyage. Histoires de touristes, 1991
(4) G.Rosssi, L’ingérence écologique. Environnement et développemente rural du Nord au Sud, CNRS, 2001
(5) A. Volvey(dir.) , L’Áfrique, Atlande, 2005


Autora do Texto: Sylvie Brunel
Título: “Quand le tourisme disneylandise la planète
Publicado em Sciences Humaines nº174, Août-Sept 2006-07-31
( Sylvie Brunel é também autora do livro «La planète disneylandisé», ed. Sciences Humaines)

Elogio da loucura (segundo Erasmo)


…a religião cristã tem um parentesco com uma certa loucura e muito pouca relação com a sabedoria. Quereis provas? Reparai primeiro que as crianças, os velhos , as mulheres e os imbecis têm muito mais prazer do que as outras pessoas nas cerimónias e coisas religiosas e, levados unicamente pelo impulso da Natureza, querem sempre estar mais próximos do altar.
Vêde depois que os primeiros autores da religião, de uma simplicidade admirável, foram inimigos mortais das letras. Enfim, os loucos mais extravagantes são aqueles que foram completamente arrebatados pelo ardor da fé cristã. Delapidam os seus bens, desprezam as injúrias, suportam com paciência os enganos, não fazem distinção entre amigos e inimigos, têm horror à volúpia, satisfazem-se com jejuns e vigílias, lágrimas, trabalhos ultrajes, desprezam a vida e não desejam senão a morte. Numa palavra, parecem de tal modo privados de senso comum, que poder-se-ia julgar que as suas almas existem desligadas dos seus corpos. Que é isto, senão a loucura?

(…)

Cristo chama ovelhas àqueles que destina à vida eterna. Ora não há animal mais néscio que a ovelha . Aristóteles afirma que o provérbio «cabeça de ovelha» provinha da estupidez deste animal e se aplica injuriosamente a todos os estúpidos e imbecis. Tal é o rebanho de que Cristo se declara pastor. Agrada-lhe mesmo o nome de cordeiro.É assim que o designa S. João: «Eis o cordeiro de Deus» e é esta a expressão mais frequente no Apocalipse.

(…)

«Os padres deixam, por modéstia, o exercício da piedade ao povo. O povo delega-a naqueles a quem chama eclesiásticos, excluindo-se da Igraja, como se os votos do baptismo não tivessem qualquer valor. Muitos padres, por sua vez, fazem-se denominar seculares, parecendo assim votar-se ao mundo e não a Cristo. Rejeitam o fardo entregando-o aos seculares e estes aos monges; os monges não reformados aos monges reformados e todos juntos emetem-nos aos Mendicantes e os Mendicantes aos cartuxos, os únicos em cujo convento a piedade se oculta, tão bem, aliás, que ninguém a consegue ver.
De igual modo, os papas, tão diligentes quando se trata de receber as rendas, deixam aos bispos os trabalhos apostólicos, estes aos curas, os curas passam-nos para os vigários,os vigários para os frades mendicantes e estes últimos entregam as ovelhas aos que as sabem tosquiar.»

(…)

Digamos a verdade tal como ela é: a Fortuna ama os irreflectidos, os temerários, os aventureiros, aqueles que dizem facilmente: «os dados estão lançados!». A sabedoria torna os homens tímidos; assim encontrareis por todo o lado sábios a morrer de fome, pobreza e dor, esquecidos, sem glória e sem simpatia. Os loucos, pelo contrário, nadam em dinheiro, governos os Estados e, numa palavra, encontram em pouco tempo a prosperidade. Se fazeis consistir a vossa felicidade em agradar aos princípes e em ser admitidos entre os cortesãos, divindades brilhantes de pedrarias, de que vos servirá a sabedoria? Recuaríeis perante um perjúrio, coraríeis antes de mentir, pois tendes na cabeça os escrúpulos dos sábios sobre o roubo e usura. Se ambicionais as dignidades e bens eclesiásticos, mais facilmente os conseguiríeis se fosseis asno ou boi, do que sendo sábio.
Se procurais o prazer amoroso, as mulheres, parte importante neste assunto, amam os loucos e fogem dos sábios como de um escorpião. Enfim, se decidis viver para os divertimentos, deveis evitar o sábio. Em suma, indo por onde quiserdes, entre os papas, princípes, juízes, magistrados, amigos, inimigos, grandes e pequenos, todos procuram o metal sonante; e, como o sábio, despreza o dinheiro, todos evitam a sua companhia.

É universalmete admitido que: «Quando não temos algo, devemos simulá-lo». Donde se conclui que «simular a loucura do louco é a sua sabedoria»

Excerto retirado do livro de Erasmo, «Elogio da Loucura»

25.7.06

Fim aos massacres na Palestina e no Líbano!

Concentrações em Lisboa e no Porto

Solidariedade com os Povos da Palestina e do Líbano


Apelamos à participação nas Concentrações marcadas para a próxima 4ª feira, dia 26 de Julho, em protesto contra as brutias agressões do estado sionista de Israel ( fantoche dos EUA) aos povos palestiniano e libanês.

Manifesta a tua solidariedade com os Povos do Líbano e da Palestina!

Esta agressão dos militaristas sionistas tem de parar!

CONCENTRAÇÃO em Lisboa: dia 26 de Julho, 18.30 horas, em frente à embaixada de Israel, na R. António Enes, 16, ao Saldanha (Lisboa)

CONCENTRAÇÃO no Porto: dia 26 de Julho, 18 horas na Praça da Batalha










FIM AOS MASSACRES NO LÍBANO E PALESTINA!

PAZ NO MÉDIO ORIENTE!

Os bombardeamentos constantes e diários levados a cabo por Israel sobre o Líbano, que se sucedem à violenta ofensiva contra o povo palestiniano em Gaza, são verdadeiros crimes e representam uma nova e perigosa escalada belicista no Próximo e Médio Oriente que só podem merecer a nossa mais firme condenação. Os bombardeamentos já causaram centenas de mortos, entre os quais mulheres e crianças, e a destruição de importantes infra-estruras vitais daquele país e que bem demonstram quão falaciosa é a procura dos soldados israelitas.

Nada justifica estas acções bélicas contra as populações civis. Trata-se de uma acção belicista absolutamente desproporcional, tendo em conta o desequilíbrio da correlação da força militar... Convém ter presente que Israel continua a ocupar territórios palestinianos, do Libano e da Síria, sendo – à luz do direito internacional – legítima a luta contra os ocupantes. As acções bélicas de Israel só são possíveis com a cobertura dos EUA e com a cumplicidade da União Europeia, incluindo a do governo português. Consideram insuportável o silêncio da ONU.

Apela-se a todos os portugueses para que se solidarizem com o povo libanês e palestiniano vítimas destas agressões e exigem do governo português uma posição de condenação dos ataques israelitas e de defesa uma política que conduza à paz na região, com base no respeito dos direitos nacionais de cada povo.

Convocam para o próximo dia 26 de Julho, às 18.30, uma concentração em frente à Embaixada de Israel a fim de exigir o fim dos bombardeamentos e uma paz justa no Médio Oriente.

CONCENTRAÇÃO EM FRENTE À EMBAIXADA DE ISRAEL EM LISBOA

PAZ NO MÉDIO ORIENTE!

26 JULHO • 18H30

Partir de férias sem carros nem aviões

La Decroissance, le journal de la joie de vivre
O Decrescimento, o jornal da alegria de viver
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Passar o Verão sem automóvel
e
Partir para férias sem carros nem aviões
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19.7.06

O primeiro dia da revolução libertária espanhola (19 de Julho de 1936)


Mural a reproduzir o célebre quadro Guernica que Picasso pintou em homenagem aos resistentes anti-fascistas espanhóis e a propósito do bombardeamento pelos aviões nazis, ao serviço das forças nacionalistas de Franco, sobre os bairros residenciais de Guernica, um pequena vila situada no País basco.
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Hoje fazem 70 anos
que começou
o breve Verão da Anarquia
em Espanha.
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19 de Julho é o primeiro dia da revolução libertária espanhola. Foi nesse dia, quando corria o ano de 1936, que todo um povo se levantou contra o golpe fascista de uma boa parte das forças armadas espanholas.
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Em Barcelona os militares fascistas amotinam-se nos quartéis e tentam tomar de assalto a cidade, mas encontram forte resistência por parte dos operários da C.N.T. e da F.A.I. que levantam barricadas e conseguem rechaçar os militares golpistas, obrigando-os a regressaarem aos quartéis.
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Será o início de um processo revolucionário que se tornou conhecido pelo curto Verão da Anarquia e que com a militarização das forças em conflito irá evoluir para uma sangrenta guerra civil entre os republicanos anti-fascistas, de um lado, e as forças nacional-fascistas capitaneadas por Franco, e apoiado pelas tropas de Mussolini e pelos aviões de Hitler, do outro.
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Nota
Esta é uma mais que justificada excepção relativamente ao conteúdo do texto do post seguinte, uma vez que, face ao facilitismo dos que não sabem cumprir com a palavra dada, nem com os compromissos assumidos, recordar é também resistir.

7.7.06

Aviso à Navegação



«Um homem ( ou uma mulher) mostram o que valem,
Não pelas palavras que dizem,
Mas pelas acções que praticam»


Este velho dito, que se pode aplicar tanto nas relações amorosas ( quantas vezes os falsos amantes enchem a boca com o banal «amo-te») como na política (os partidos políticos têm um programa político, mas aplicam outro), explica a razão porque decidimos suspender a actualização do Pimenta Negra até ao próximo mês de Outubro.

Torna-se um imperativo voltarmo-nos cada vez mais para a vida, porque nem tudo é comunicação palavrosa nem fluxos pós-modernistas de frases com pouco ou nenhum sentido.

O importante mesmo é ter uma ética de acção.

O projecto «Pimenta Negra», aliás, sempre foi de carácter formativo ( para nós, de longe, o mais importante), e não tanto a informação propriamente dita ( jornais, revistas, net,… e tutti quanti desempenharão essa função de satisfazer as atenções sôfregas dos que gostam de viver a 200 à hora)


Com a chegada do Verão surge também a necessidade de uma paragem para agirmos em consequência.

Continuem a ler outras coisas, mas, sobretudo, não se esqueçam de levar mais a sério as vossas palavras, para não fazerem o show-off de alguns…


Em suma:

Foi linda a festa, pá!

Agora, é preciso continuar a espalhar o cheirinho de alecrim!



O autor do
Pimenta Negra

3.7.06

Por um mundo sem fronteiras


As grandes manobras eleitorais mal ainda começaram e já a questão da imigração passou para o centro dos debates. Le Pen, de Villiers, Sarkozy competem entre si para cativar as vozes da França xenófoba., enquanto os deputados de esquerda e de direita, se travam de razões sobre a forma, estão no fundo de acordo sobre o controle da imigração a fim que «toda a miséria do mundo» permaneça fora do território nacional.

Como anarquistas, nós não conhecemos outra fronteira que não seja a que separa os oprimidos dos seus exploradores. Não somente os seres humanos são, para nós, livres e iguais em direitos, onde quer que estejam, como ainda gostamos que estrangeiros venham à nossa casa, e fazemos questão de os acolher como hóspedes. Não aceitamos qualquer entrave à livre circulação de pessoas e a simples ideia de «quotas» para a imigração é coisa que repudiamos veementemente. Rejeitamos igualmente as políticas de Tartufo que preconizam o desenvolvimento do Sul só para que os « negros» não invadam o Norte.

Uma tal posição, que deverá ser partilhada sem hesitação por todos os internacionalistas consequentes, geram frequentemente críticas e acusações de irresponsabilidade, mais concretamente, actos de provocação da «esquerda» sindical e política. Todavia, até de um ponto de vista «razoável» a abertura das fronteiras é perfeitamente defensável (1). Assim, tendo em conta os condicionantes, examinemos os argumentos dos que se opõem à liberdade de circulação e de instalação.

O primeiro que surge, e que faz tremer as torres, é a ameaça de um «vaga migratória»: dada a diferença ente o salário médio por habitante (2) (de 1 a 50) entre a França e numerosos países de África, a abertura das fronteiras provocaria um gigantesco força de atracção que levaria todos os miseráveis do continente negro em direcção à nossa bela e opulenta pátria.

Pensar que os pobres se deslocam mecanicamente de um território para outro em função das diferenças de nível de vida é bem uma ideia ocidental. Quem pode pensar que se deixa, a não ser obrigado, da sua aldeia, da sua família, dos seus amigos, das suas canções, danças e o sol de África para vir suportar as nossas tristes cidades? Todas as pessoas aspiram, na sua
esmagadora maioria, a manter as suas condições de vida e os seus valores do seu meio natural.
Na verdade, aqueles sobre os quais a miséria caiu estão já aqui, ou a caminho, e nada os deterá. Quem os viu a escalar à mão as paredes de arame farpado em Ceuta e Melilla não duvidam. E é inútil barricarmo-nos contra o desespero; a abertura das fronteiras não aumentará o número dos querem matar a fome. Estudos estatísticos das migrações mostram que não são as populações mais pobres que emigram mais (3). Mostram também que as situações de livre circulação – entre a França e o Gabão, o Togo ou a República Centro-africana, até uma data recente, ou ainda actualmente entre os novos membros da União Europeia do Leste e os dos Oeste que lhes abriram as suas fronteiras – não provocaram fluxos migratórios, apesar das enormes diferenças de nível de vida. Provou-se sobretudo que «quanto mais as fronteiras se abrem, mais a mobilidade é de curta duração; e quanto mais elas se fecham, mais a migração de residência se torna desejável» (4). É por isso que a política restritiva transforma uma imigração que poderia ser sazonal em imigração com prazo indeterminado, bem como acaba por dissuadir a partir aqueles que gostariam de regressar ao país, mas temem não poder retornar em caso de fracasso.

A migração internacional, ponderadas todas as suas causas, refere-se a 2,5 % da população mundial (55.000 entradas por ano em França, segundo o INSEE, o mais provável será 100.000). A abertura das fronteiras, passado o breve afluxo dos que já estão às nossas portas e aguardam por entrar – e entrarão mais cedo ou mais tarde – não mudará nada.

O segundo argumento constitui um espantalho para os sindicatos: a imigração incontrolada aumentaria o desemprego e contribuiria a baixar os salários dos franceses. Ora os estudos disponíveis desmentem a correlação entre o crescimento do desemprego e o aumento dos recursos em mão-de-obra, logo o número de imigrados (5). Por um lado, os empregos mais desejados ( a função pública) estão interditos aos trabalhadors estrangeiros, os quais ocupam massivamente os que os franceses recusam. Recordemos ainda que o desemprego é indispensável ao capitalismo a fim de regular o mercado de trabalho, e os imigrados servem normalmente para serem os bodes expiatórios desse facto. Quanto ao risco de haver concorrência entre trabalhadores estrangeiros e autóctones a regra é simples: os mesmos papéis e os mesmos direitos para todos.

O terceiro argumento, o mais frequente, diz respeito ao equilíbrio dos orçamentos sociais, de saúde e o custo da imigração em geral. Mas ele faz parte do preconceito segundo o qual as populações do Terceiro Mundo sonham viver nas nossas sociedades só por causa das ajudas sociais. Para falarmos a sério, torna-se necessário recordar que a imigração é na realidade vital para as economias das sociedaes ricas – os Latinos nos Estados Unidos estão prestes a provar isso mesmo, e tal é a consequência directa da pilhagem do Sul pelo Ocidente desde a colonização. Disto isto, poder-se-ia mesmo dizer que o custo de uma verdadeira política de acolhimento e de integração não excedaria certamente os custos da política repressiva com todo o arsenal de polícias, juízes, centros de retenção e as operações de recondução às fronteiras.

Uma vez afastados os argumentos «técnicos», resta o temor, irracional e perigoso, que leva a votar pela Frente Nacional ( em França) as aldeias onde jamais um imigrante pôr lá os pés, o receio do outro, do estrangeiro, o receio de ver a dissolver-se a cultura e a «identidade nacional» numa mistura de cores, culturas e religiões. O fantasma de uma civilização superiora, branca, cristã e rica, «submergida pelas hordas dos bárbaros» encontra a sua origem histórica na queda do império romano do Ocidente. Mas tal como a maior parte das «verdades» que nos são transmitidas pelos manuais escolares, também essa é truncada. Na realidade, colonizadores romanos e autóctones «bárbaros» viveram juntos durante mais de 25 gerações no interior das fronteiras do império. E quando as povoações, vindas da Ásia, o atravessaram de uma ponta à outra, forma esses mesms «bárbaros» que se esforçaram para manter as estruturas.

Após uma investigação profunda não encontraremos nenhum exemplo na história de qualquer nação que tivesse sido dissolvida ou destruída no seguimento de uma invasão pacífica de migrantes pobres. O contrário não se pode dizer: quando os Europeus começaram a expandir-se pelo planeta, por onde eles passaram reduziram à escravatura os povos autóctones, quando não mesmo os exterminaram, como aconteceu nos Estados Unidos, na Austrália, na Nova Zelândia, só para citar alguns exemplos.

Em suma, a abertura das fronteiras não provocaria o fluxo de imigrantes suplementares nem em França nem na Europa, e evitaria inumeráveis dramas humanos. Ela não mudaria a ordem económica neo-colonislista de que se aproveitam as sociedades ocidentais e que é a primeira causa para a imigração «não escolhida», mas poderia ser um pequeno passo para a solidariedade internacional dos explorados contra o capitalismo globalizado e os seus falsos nacionalistas.

Autor do texto: François Roux

(1) Consultar o dossier »migrations et mondialisation», elaborado pela ATTAC 63
(2) Que corresponde a uma diferença de nível de vida de cerca de 1 a 20
(3) Ler Faut-il ouvrir les frontières? Catherine Withord de Wenden, Éditions de Sciences-Po, 1999.
(4) L'Europe et toutes ses migrations, sob la direction de Catherine Withord de Wenden et Anne de Tinguy, Éditions Complexe, 1995.
(5) Rapport « Immigration, emploi et chômage » , Conseil de l'emploi, des revenus et de la cohésion sociale, 1999.

Texto publicado no Le Monde Libertaire de 18 de Maio de 2006

Manifesto contra a política europeia de fronteiras, e pelo fecho dos Centros de Internamento para Estrangeiros

Contra as imputações aos detidos da Zona Franca (Barcelona) que estavam a realizar acções de protesto contra as limitações à liberdade de circular pela europa no passado dia 24 de Junho.

Desde o Outono último, as imagens de horror que estão a produzir-se como resultado do actual regime de fronteiraseuropeias não cessam de chegar à imprensa, Tv e blogs. As mortes nas valas de Ceuta e Melilla, as deportações em pleno deserto do Sahara, os naufrágios nas costas das Canárias, as negociações bilaterais para que certos países africanos aceitem as deportações de não-nacionais em troca de avultadas somas de dinheiros, a mobilização por parte da EU de patrulhas navais e aéreas para cntrolar as costas das Canárias e da África Ocidental… tudo fala-nos de uma guerra larvar que está a ser levada a efeito nas fronteiras externas da Europa contra aqueles homens e mulheres que ousam viajar para a Europa em busca de uma vida melhor.


A migração Sul-Norte, tal como a migração campo-cidade, é algo como que irreversível. Apesar disso, a União Europeia empenha-se a encará-la em termos insistentemente repressivos. Isto não acontece só nas fronteiras externas da Europa e nos países de trânsito migratório, subcontratados para a gestão do deslocamento das pessoas para a Europa, mas cada vez mais dentro das nossas cidades: os controles de identidade multiplicam-se um pouco por todo o lado, desde a saída do metro e do comboio suburbano, até às agências de viagens ou estação de correios. O objectivo não é tanto o de identificar e expulsar todos os estrangeiros extracomunitários sem licença de residência, mas principalmente manter uma grande quantidade da população num estatuto de subalternidade. Assim é que os cidadaãos migrantes extracomunitários que vivem e trabalham na UE vêem o seu estatuto legal, a sua segurança, a sua segurança, a sua liberdade de movimentos a serem submetidas à arbitrariedade típica das legislações de excepção. O medo e a incerteza impregnam as suas vidas quotidianas mas também o ambiente que respiramos dentro das nossas cidades.

Os acontecimento ocorridos no passado Sábado (24 de Junho) no Centro de Internamento para estrangeiros de Zona Franca ( em Barcelona), que se encontra em construção, são uma expressão mais da modalidade repressiva, de carácter policial-militar da actual política fronteiriça do governo Zapatero e de todos os governos da União Europeia. E são-no pelo simples desencadear dos factos: nada exemplifica melhor a arbitrariedade e denegação de direitos do regime fronteiriço europeu que os Centros de Internamento para Estrangeiros. Nestas prisões para imigrantes é retido por um prazo até 40 dias pessoas cujo único delito é existir e querer habitar, trabalhar e conviver num lugar em que não nasceram. O Centro de Internamento em construção duplica a capacidade existente, e situa-se num local isolado dos centros populacionais e de difícil acesso, tudo isso para aperfeiçoar o terror e afasta-lo das cabeças bem pensantes.

Os acontecimentos do dia 24 de Junho mostarm a orientação repressiva da política fronteiriça e constituem uma reacção policial contra quem ousam desafiar as fronteiras, e contra quem levanta a sua voz esta política, feita supostamente em nome da nossa segurança, mas que não nos representa.

A detenção de 59 pessoas que entraram no recinto do Centro em construção, juntamente com dois advogados e dois jornalistas, as acusações abusivas, o tratamento vexatório nas instalações policiais, o prolongamento da detenção durante mais de 48 horas como resposta a uma acção pacífica, não podem senão suscotar a mais viva indignação e contestação.

Por isso os baixo-assinados, em solidariedade com todos aqueles que imigram para a Europa e se encontam em condições humilhantes, numa situação de subalternidade e sofrendo na pele os ataques que lhes são desferidos, assim como em solidarieade com a centena de homens e mulheres que, vindo de toda a Europa, realizaram no Sábado passado (24 de Junho) uma acção pacífica para chamar a atenção para a construção de mais um centro de internamento, antes da sua inauguração, publicitando assim o movimento contra os Centros de Internamento Europeus , exigimos:

– a retirada de todos as acusações contra todos os detidos;

– a declaração de Barcelona como ciudade livre de Centros de Internamento para Estrangeiros;

– a regularização incondicional de todos os imigrantes na Europa; – o fim da política de fronteiras policial-militar.

http://communia.org/caravana/reply/reply.php?loc=0

Activistas pró-Tibet protestam contra o novo comboio Pequim-Lhasa





Activistas que defendem a independência do Tibet escalaram a fachada da Estação de Ferrovias do Oeste de Pequim, onde afixaram um cartaz em protesto contra o novo tcomboio para Lhasa (capital tibetana), segundo um comunicado da organização Free Tibet Campaign.

O cartaz tinha a frase "Comboio chinês para o Tibet, um projecto para destruir", em referência à linha de caminho de ferro que foi inaugurada dia 1 de Julho. Três mulheres que participaram nos protestos, uma britânica, uma americana e uma canadiana, foram detidas pouco depois.

"Os tibetanos temem que o Governo chinês use o caminho de ferro para aumentar a sua colonização, transferindo um maior número de colonos chineses e militares, e ao mesmo tempo explorando os grandes recursos naturais da região", diz o comunicado enviado à imprensa.

"Continuaremos com acções para defender a cultura tibetana, e os protestos de hoje são só uma amostra do que a China pode esperar à medida que se aproximam os Jogos Olímpicos de Pequim", afirmou o director da organização Estudantes por um Tibet Livre, Lhadon Tethong.

A China responde que a linha de caminhos de ferro será boa para a economia tibetana, especialmente para o turismo, criará novos postos de trabalho e não causará danos ambientais. A oposição tibetana anunciou protestos em todo o mundo. Grupos tibetanos em Londres, Ottawa, Nova York e Paris convocaram protestos com o lema "rejeite o comboio". Em Dharamsala (norte de Índia), lugar do exílio do Dalai Lama, os tibetanos fecharão os seus estabelecimentos e usarão braceletes negros. Em Londres, a Free Tibet Campaign pediu um "boicote turístico" à nova ferrovia.


Apresentado pela China como um exemplo da sua avançada tecnologia, o projecto foi criticado pelos ecologistas, que consideram que as reservas naturais do planalto tibetano vão ser contaminadas com a passagem do comboio.


Também o Dalai Lama, exilado no estrangeiro, acusou Pequim de ter const ruído a linha-férrea para aumentar a chegada de "colonos" chineses ao Tibete, co ntribuindo para a progressiva perda de cultura e identidade do povo tibetano



O primeiro comboio de passageiros que chegará ao planalto do Tibete partiu da remota cidade de Golmud, na província vizinha de Qinghai com destino à capital tibetana, Lhasa, no passado dia 1 de Julho.
O comboio, cuja locomotora foi construída pela empresa chino-canadiana Bombardier Sifang, começou a percorrer a via-férrea mais alta do mundo às 11:00 locais, levando 600 passageiros.
Antes decorreu uma cerimónia de inauguração com a presença do President e chinês, Hu Jintao, o vice-primeiro-ministro Zeng Peiyan e o ministro dos Camin hos-de-ferro, Liu Zhijun.
À mesma hora partiu outro comboio de Lhasa, com destino a Lanzhou (capi tal de Gansu, noroeste), com mais de 600 passageiros a bordo.
Hu Jintao, que foi secretário-geral do Partido Comunista no Tibete em f inais dos anos 80 e princípios de 90, destacou que a nova linha de caminho de fe rro é mais "um magnífico objectivo" que a China conseguiu com o "impulso de modernização socialista".
De Golmud, o comboio demorará cerca de oito horas a chegar ao limite da província de Qinghai e começo da região autónoma do Tibete, nos montes Tanggula , passando pelo local mais alto jamais alcançado por uma linha de comboio, a 5.0 72 metros.
O comboio, apresentado pelo governo como um projecto chave para tirar o Tibete do subdesenvolvimento e isolamento, foi construído em duas fases: a primeira entre 1956 e 1984, na qual participaram soldados do exército, e a segunda entre Junho de 2001 e Outubro de 2005.


Students For A Free Tibet


Free Tibet Campaign

1.7.06

A Contra-História da Filosofia, de M. Onfray



Já se encontram editados em francês os dois dos primeiros volumes da monumental obra de Michel Onfray, «Contra-História da Filosofia», que, quando completa, deverá contar com os seis volumes previstos.
(nota: a tradução para português já foi contratualizada com a editora brasileira Martins Fontes)

O sumário do 1º Volume, dedicado às Sabedorias Antigas, contém os seguintes capítulos:

1. Leucippe et "la joie authentique"

2. Démocrite et "le plaisir pris à soi-même"

3. Hipparque et "la vie la plus plaisante"

4. Anaxarque et sa "nature éprise de jouissance"

5. Antiphon et "l'art d'échapper à l'affliction"

6. Aristippe et "la volupté qui chatouille"

7. Diogène et "jouir du plaisir des philosophes"

8. Philèbe et "la vie heureuse"

9. Eudoxe et "l'objet de désir pour tous"

10. Prodicos et "la félicité"

11. Epicure et "le plaisir suprême"

12. Philodème de Gadara et la communauté hédoniste

13. Lucrèce et "la volupté divine"

14. Diogène d'Oenanda et "la joie de notre nature"


O 2º volume, intitulado «O Cristianismo hedonista», tem o seguinte sumário:

1. Simon le magicien et "la grâce"

2. Basilide et "la débauche"

3. Valentin et "les semences d'élection"

4. Carpocrate et "l'amour"

5. Épiphane et "le désir impétueux"

6. Erinthe et "la satisfaction du ventre"

7. Marc et "les femmes élégantes"

8. Nicolas et "la vie sans retenue"

9. Amaury de Bène et "la sanctification de la vie courante"

10. Willem Cornelisz d'Anvers et "le péché contre nature"

11. Bentivenga de Gubbio et "l'occupation infâme"

12. Walter de Hollande et "la liberté suprême"

13. Jean de Brno et "le nihilisme intégral"

14. Heilwige de Bratislava et "l'esprit subtil"

15. Johannes Hartmann d'Amtmansett et 'la vraie béatitude"

16. Willem van Hilderwissem de Malines et "le plaisir du paradis"

17. Éloi de Pruystinck et "la manière épicurienne"

18.Quintin Thierry et "la liberté de la chair"

19. Lorenzo Valla et "la volupté"

20. Marsile Ficin et "les voluptés contemplatives"

21. Érasme et "le plaisir honnête"

22. Montaigne et "l'usage des plaisirs"


Na apresentação à obra, o editor escreve o seguinte:

Nesta «Contra-Historia da Filosofia», Michel Onfray propõe-se examinar em seis volumes 25 séculos da filosofia esquecida. Os manuais, as histórias, as enciclopédias, os trabalhos universitários evitam cautelosamente esse imenso continente da filosofia. É por isso que só conhecemos as figuras mais austeras e as menos interessantes da filosofia. Porque será?
Porque a história da filosofia é escrita pelos vencedores de um combate que, em geral, opõe os idealistas e os materialistas. Basta lembrar que com o cristianismo aqueles tomam o poder que vão manter ao longo dos últimos vinte cinco anos. Desde então, favorecem todos os pensadores que trabalham segundo as suas tendências e apagam conscientemente todos os traços de uma filosofia alternativa. Daí a ocultação dos materialistas, dos cínicos, dos epicuristas, dos gnósticos licenciosos, dos irmãos e das irmãs do Livre Espírito, dos libertinos barrocos, dos ultras iluministas, dos utilitaristas anglo-saxões, dos socialistas dionisíacos, dos nietzcheanos de esquerda e de outros tantos continentes povoados por personagens furiosas. Esta Contra-História conta a sua aventura.
E qual é o ponto comum de todos estes indivíduos? Nada mais que o gosto por uma sabedoria prática., de um vocabulário claro, de uma exposição límpida, de uma teoria que visa produzir uma vida filosófica. À maneira dos sábios antigos, todos eles voltam as costas à linguagem hermética e obscura; á filosofia só para os filósofos, às discussões de especialistas, aos assuntos próprios de profissionais, e fazem-no porque pretendem fazer da filosofia uma arte de viver – de viver bem, isto é, de viver melhor.
Os seis volumes previstos abrangem os sete anos de trabalho desenvolvido por Michel Onfray à frente do seminário de filosofia hedonista realizado na Universidade Popular de Caen ( no Norte da França). Todos estes textos servem de base de apoio às suas exposições improvisadas nas sessões realizadas por ele em cada 3ª feira à noite e que frequentadas em geral por umas quinhentas pessoas.

Reproduzimos as primeiras linhas do 2º tomo dedicado ao cristianismo hedonista:

A invenção de Jesus, a construção violenta e autoritária do cristianismo que se veio a tornar na religião de todo o Império graças ao golpe de Estado realizado por Constantino, o vandalismo voluntário da soldadesca às suas ordens, a destruição dos homens, o incêndio das bibliotecas, a perseguição dos filósofos, o encerramento das suas escolas, a inscrição no corpo jurídico – Códigos de Teodósio e de Justiniano – do estatuto de extraterritorialidade cidadã dos pagãos, o alastramento cultural e planetário da nevrose de S. Paulo, o triunfo do paulinismo – ódio às mulheres, ao corpo, à carne, aos desejos, aos prazeres, às paixões, à ciência, à inteligência, à filosofia – a conversão dos antigos perseguidos em perseguidores, tudo isso produziu uma sanha na História que excluiu dos séculos seguintes, incluindo o actual, de uma considerável acervo de informações sobre esse período histórico.
O mundo antigo afunda-se. Desaparece, morre, e com ele, a filosofia pagã, de que uma grande parte não consegue atravessar os séculos seguintes por razões que não procedem todas da vontade deliberada dos homens de não deixar rasto do património dos antigos gregos e romanos. Com certeza que os homens queimaram bibliotecas, incendiaram-nas, pilharam-nas, assassinaram os seus semelhantes, muitos deles gente das letras, mas o tempo também apaga os traços de uma civilização que se tornou um imenso campo de ruínas.

Compreende-se bem demais que o desaparecimento dos livros dos filósofos materialistas abderitanos – os seiscentos títulos de Demócrito … -, que as obras dos cínicos e dos epicuristas, que os abundantes volumes – trezentos, segundo consta – de Epicuro ou dos seus discípulos tenham sido uma das prioridades. Os copistas cristãos tinham outras prioridades mais importantes do que salvar livros subversivos. O platonismo e o estoicismo, reivindicados por vezes pelos Padres da Igreja como sabedorias propedêuticas ao cristianismo, dispunham de claras vantagens sobre as ideias que se mostravam inimigas ao ideal ascético católico.

Mais a mais o livro antigo é uma espécie de acessório numa época em que primam a oralidade e a transmissão oral. A palavra evanescente que não seja consignada pelos escribas ou pelos copistas acaba por desaparecer para sempre. Foi o que aconteceu com o ensino oral de Platão, provavelmente muito diferente do ensino dos seus textos que ainda persistem. A oralidade foi, pois, um obstáculo de monta. A que se deve juntar os obstáculos ligados aos seus suportes materiais como o papiro de origem egípcia, incapaz de aguentar a hidrometria, os climas e as estações de Roma. Tornaram-se em poeira, e com eles, aquilo que, por via deles, era transmitido. Até porque o número de exemplares de uma edição inicial não ultrapassava a trintena…

Recensão crítica de Robert Maggiori, publicada no Liberation (de 9/3/2006):

É preciso dizê-lo claramente: não se conhece lá muito bem Heilwige de Bratislava, Bentivenga de Gubbio, Eloy de Pruystinck, Willem van Hildervissem de Malines. Ignoramos também completamente quem seja Cérinthe. E nem sequer sabíamos que Carpocrate era o pai de Epífanes. Mas, desde que queiramos, a ignorância tem sempre remédio. Nada impede a qualquer um de visitar as bibliotecas, e tornar-se num especialista de Filodemo de Gadara, e interessar-se por Jean de Brno. Da mesma maneira que um explorador de ouro tem de remexer toneladas de pedras e calhaus antes de encontrar uma minúscula pepita, também se deve começar por folhear toda a biblioteca antes de encontrar qualquer fragmento de, ou sobre, algum daqueles pensadores…
Falámos disto porque uma Contra-História da Filosofia, mais concretamente os dois primeiros volumes ( vol 1, As Sabedorias Antigas; vol. 2, O Cristianismo Hedonista) de um conjunto previsto de seis, acabou de ser editada.
Não será difícil de prever que, tal como o seu anterior Tratado de Ateologia, esta obra trará ao seu autor, Michel Onfray, o mesmo ódio daqueles que já anteriormente se tinham manifestado contra os autores que ele defende. O que é perfeitamente legítimo, senão mesmo necessário. Não há dúvidas que «a historiografia releva da arte de guerra» e que o modo por que se faz a história resulta das relações de força, das estratégias, das fraquezas, dos calculismos, dos confrontos reais ou simbólicos ou, como disse Marx, que as ideias dominantes de uma época sejam aquelas pelas quais a classe dominante justifica a sua dominação. Por outras palavras, a história sempre foi escrita pelos vencedores. Donde a absoluta necessidade de uma «contra-história» que venha a recuperar os restos dos discursos dos vencidos, dos excluídos, dos dominados, dos minoritários, dos esquecidos. Foi s esta exigência, política e moral, que esteve, aliás, na origem da renovação da historiografia contemporânea, ao integrar a história das mulheres, a história da homossexualidade, a história da loucura, a história dos internamentos, a história dos colonizados, dos operários, dos camponeses…E é perfeitamente legítimo que Michel Onfray queira olhar os «estilhaços» acumulados sob o peso das estátuas monumentais de Platão, Descartes e Kant, assim como faça por difundir as vozes dos cristãos heréticos, silenciadas pelas de Santo Agostinho, S.Tomás de Aquino, e que ao lado da corrente dominante de Pitágoras, Parménides, Platão, Marco Aurélio ou Séneca, ele queira ver o trajecto de Leucipo, Demócrito, Diógenes, Epicuro ou Lucrécio, ou que proteste contra a relativa desvalorização de Erasmos e de Montaigne, ou ainda tente responder à interrogação «que pode o corpo?», quando aborda Spinoza, Nietzche ou Deleuze, diferentemente dos que maldosamente os desconhecem. Ou seja, que a uma filosofia idealista, espiritualista, ascética, ele prefira uma filosofia «materialista, sensualista, existencial, utilitarista, pragmática, ateia, corporal, incarnada…». Mas algumas questões permanecem…
Michel Onfrauytraça uma galeria de retratos intelectuais, legíveis por todos, na qual são referidos, para além de Demócrito, Diógenes o cínico, Lucrécio, os filósofos que têm sido frequentemente marginalizados… A galeria apresentada no segundo volume, acerca do Cristianismo hedonista, é ainda mais espantosa…

Mais info:
http://perso.orange.fr/michel.onfray/accueilonfray.htm

Colectivo das Mulheres por um Portugal sem futebol lança protesto contra o Mundial da Alemanha

Protesto contra o Mundial de Futebol da Alemanha


Os homens encontram-se profundamente perturbados, doentes mesmo.
Os homens ignoram-nos
Os homens estão mentalmente ausentes
Os homens pensam e falam mais em Ronaldo que nas mulheres
Os homens estão obcecados com a bola
Os homens dão ares que sabem tudo de futebol


As nossas noites são substituídas por uma gritaria sem sentido acerca de 22 homens e uma bola que não têm outro objectivo que andar de um lado para outro à força de pontapés e cabeçadas. E perguntámos nós: será isto que nos distingue dos restantes animais?

O colectivo «Mulheres por um Portugal sem futebol» pretende contribuir para acabar com este estado de coisas, que mostra cada vez mais a sua insensatez.
Esta declaração é apenas um primeiro passo da nossa campanha contra o futebol.


Há que acabar com esta paranóia, já!
Já basta o que sofremos com os campeonatos nacionais.
Chegou-se, agora, a um extremo que é completamente intolerável.
É a hora de sairmos em protesto e que nos escutem.

Este colectivo representa apenas as mulheres que ousam e têm coragem de protestar.
O colectivo visa reunir todas as mulheres que aspiram a mais respeito por parte do seu parceiro.
O colectivo luta pelos direitos das mulheres que sofrem por causa desta paranóia colectiva do futebol que atingiu e contamina a população masculina, mas que, infelizmente, já começa a alastrar-se a outras mulheres, que se mostram indefesas face à agressividade e violência do vírus pestífero.

A luta é longa e difícil, sabemos bem. Mas não desistiremos.
Não estamos sós, e temos a razão pelo nosso lado.

Nunca estaremos fora do jogo.

Apenas reivindicamos que os homens se esqueçam das bolas, e passem a jogar connosco.

De uma vez por todas: Não à paranóia do futebol-espectáculo


As nossas regras de jogo são:

1 – Nunca mais mundiais de futebol

2 – Nunca estaremos fora de jogo

3 – Por cada hora de futebol na Tv reivindicamos dois dias de curtição

4 – O colectivo está disposto a fazer tudo o que for necessário, desde manifestações, recolha de assinaturas e acções directas

5 – Cada golo será recompensado por uma semana de sonho

6 – Não permitiremos a entrada em casa dos escabrosos jornais desportivos atulhados de intrigas de bastidores e banalidades ocas que só estupificam os nossos homens

7 – A cada jogo no café reivindicamos o direito a um sóbrio e delicioso pequeno-almoço na cama

8 - Todos os aparelhos de televisão deveriam vir com a advertência que a televisão prejudica gravemente a saúde mental do tele-espectador e perturba irremediavelmente a vida do casal

9 - Depois de cada jogo de futebol todos os seus assistentes deveriam fazer uma corridinha para desenferrujar as pernas

10 – Os comandos à distância deveriam ser sempre partilhados e objecto de debate prévio, e deixarem de estar à mercê da publicidade e da propaganda mais intrusiva, enfim, da ditadura da programação por parte dos canais de televisão que tudo fazem para se instalarem dentro das nossas casas e... das nossas cabeças!!!


Colectivo das Mulheres por um Portugal sem futebol:
Ana, Cristina, Ema, Graça, Luísa, Maria, Paula, Sara, Sílvia, Tânia

29.6.06

Eles inventam máquinas para vivermos sentados !




Retirado de:

A nossa sociedade está constantemente a inventar máquinas, aparelhos e artifícios que nos fazem estar sentados, a desfrutar cheios de stress, a rir como drogados e a viver como mortos.

Andar é deslocar-se ao longo de um espaço utilizando o movimento das pernas, primeiro uma e logo depois a outra, fazendo com que o músculo unido aos ossos por tendões e tecido, converta a energia químia em tensão e contracção, fazendo assim mover os ossos. A coordenação destes movimentos, fruto de aprendizagem desde a primeira infância, permite mover o corpo para outro local.

Hoje em dia, cada vez que temos de fazer coisas em lugares afastados, preferimos cada vez mais a deslocação do nosso corpo por via de outros meios que não o do próprio, meios esses, que as mais das vezes, são autopropulsionados por combustíveis fósseis, e que permitem poupar tempo e esforço. Graças a isso podemos dedicarmo-nos a outras actividades, como trabalhar horas extraprdinárias ou ver TV (4 horas em média por dia). Evitamos também com isso encontros de rua com vizinhos ou caras conhecidas, ou ouvir anedotas e histórias sobre o quotidiano, que certamente nos roubariam tempo e constituiriam perdas irreparáveis e nos impediam de ver a nossa telenovela preferida ou a partida de futebol entre os clubes da actualidade.

Ora acontece que gerir as nossas deslocações constitui uma das mais importantes e valiosas possibilidades. E andar e caminhar é uma recomendação que se revela vital uma vez que pelo seu efeito o corpo activa a circulação, reduz o stress e queima 300 calorias ( a andar a pé durante uma hora). Daí que o ginásio se tenha transformado quase que num ritual de executivos: almoçam rápido e vão de carro até ao ginásio do shopping center, sobem as escadas rolantes, enfiam-se no recinto e passam horas a andar – imóveis - sobre uma máquina rolante… !!!

Sob a bandeira do socialismo (texto de Eduardo Subirats)


Texto de Eduardo Subirats, professor de Filosofia, Estética e Literatura; actualmente ensina na Universidade de Nueva York

(Texto publicado em EL PAÍS, 27/06/06)

A sentença de morte da academia pós-modernista norte-americana contra a teoria crítica de Marx foi uma fraude. Tornou-se mesmo o novo credo «cuia absurdum» das ciências humanas corporativamente departamentalizadas. Face às guerras coloniais que inauguraram o século XXI, os genocídios económicos administrados pelos bancos mundiais e as organizações do comércio global, e aos infinitos fenómenos de violência local e global, esta «superação de Marx» adquire hoje um significado patético.

O poder militar e financeiro do mundo concentra-se nas mãos de um pequeno número de empresas. Os sistemas jurídicos democráticos permitem doses mínimas de soberania social, quando não ocultam autênticos sistemas tirânicos em que reina a corrupção. O terror do Estado, que Hobbes definiu programaticamente por via da metáfora totalitária do Leviatã, impõe-se nos quatro cantos do mundo com a mesma naturalidade como se tratasse de uma vontade divina. Nos centros privilegiados do poder mundial, em Londres, Moscovo, Nova Iorque, este terror encena-se como um sistema de segurança nacional, e uma guerra contra um terrorismo que abrange dentro da mesma caixa conceptual as altas tecnologias de destruição nuclear e biológica do planeta, e, no seu outro extremo, o controlo digital de todos os seres humanos. Nas cordilheiras e nas selvas da Colômbia, Equador e Peru, nos povos curdos e Tchechenos, a nas altas montanhas do Tibete, ou nas civilizações sunitas e chiítas do Próximo Oriente tudo jaz em ruínas.

As estratégias do espectáculo encobrem por detrás das suas infinitas montras e da sua propaganda permanente os processos de liquidação de recursos naturais vitais como a água, a terra e o ar, e as subsequentes deslocalizações, e genocídios, de milhões de indivíduos. Em vez de um sistema de produção agrícola adaptado aos ciclos reprodutivos da natureza, e das culturas que durante séculos com ela conviveram, tal como sonhava o socialista do século XVIII Charles Fourier, temos que afrontar com as consequências cada vez mais violentas dos desequilíbrios biológicos e atmosféricos gerados pelo desenvolvimento industrial, ecológico e socialmente irresponsável. A racionalização mecânica do trabalho industrial, que Marx e Engels tanto criticaram como processos de alienação humana, nos campos de trabalho e extermínio do século passado, e nas actuais fábricas do Terceiro Mundo, adquire hoje em dia dimensões delirantes.

O Manifesto Comunista antecipava a culminação de uma idade da barbárie, com fome em todo o planeta e a extensão de guerras devastadoras em consequência de uma «demasiada civilização, com demasiados meios de subsistência, indústria em demasia e demasiado comércio». E anunciava justamente a delirante dissolução «no ar de tudo o que era sólido», desde os desejos mais íntimos até aos meios de sobrevivência. E falava ainda dos «contínuos distúrbios sociais», das reiteradas «revoluções dos meios de produção», da «permanente incerteza» e de uma imparável «agitação».

A ambiguidade d teoria crítica de Marx não reside na sua visão da barbárie civilizada do capitalismo global, cujas expressões de podridão e devastação podemos hoje observar por todo o lado. A sua debilidade consistia antes em ter elevado à posição messiânica do proletariado a categoria do povo, eleito como um deus de uma história concebida segundo uma progressão linear. A sua fé residia na salvação graças a um espírito histórico providencial. Sobre os ombros deste proletariado repousava a redenção de uma humanidade nova e universal, nem mais nem menos como Paulo a tinha projectado. Ao mesmo tempo que dotou o proletariado desta magnitude cristológica e transcendente, Marx construiu-o empiricamente a partir da racionalidade produtiva e da disciplina industrial. Por isso, por ser simultaneamente a representação de uma salvação transcendente e o representante dos valores racionais da indústria pesada, o proletariado levantou, nos comunismos soviético e chinês, um sistema totalitário de opressão e de violentos processos de acumulação capitalista.

Contra esta lógica congelada de progresso, Gramsci redefiniu a revolução dos sovietes como o triunfo da vontade contra Das Kapital. Por seu turno, e face ao historicismo marxista, Mahatma Gandhi reivindicou um socialismo enraizado nas sabedorias e tradições culturais milenárias. E José Carlos Mariátegui fundou o socialismo peruano sobre a compreensão cósmica da unidade d pessoa e a comunidade, que ainda vive nas culturas quechua e aimara. Paul Tillich concebeu o socialismo sobre as bases de uma ética cristã que se aproximava das suas raízes judaicas, e das noções biblícas de comunidade, lei e salvação. Martin Buber entendeu o socialismo como a restauração dos vínculos do humano com a criação e a comunidade. Num sentido similar, a crítica de Karl Polanyi ao fascismo, concebendo-o como uma consequência política necessária da economia de mercado, e como correspondente do liberalismo económico, com a consequente proposta daquele autor de uma ampliação e radicalização dos direitos humanos, arrancava de premissas metafísicas e éticas de um humanismo cristão.

É absurdo dizer que foram superados os ideais sociais como os que estavam representados nos falanstérios de Fourier. Na realidade, tratam-se de modelos racionais de sobrevivência, face à destruição biológica do planeta pelas empresas transnacionais, que são hoje mais do que nunca actuais. O anarquismo de Piotr A. Kropotkin encerra em si os valores comunitários mais radicalmente democráticos que a sociedade moderna pode conceber. A crítica do militarismo de Lenine é hoje mais actual, face às guerras coloniais do Iraque ou da Colômbia, do que o foi alguma vez face ao militarismo industrial do século passado.

Tudo isto não quer dizer que não haja que redefinir as categorias do socialismo numa época em que sob a sua bandeira coabitam políticas socialmente vazias. É necessário renovar a sua crítica à civilização pós-moderna. E recuperar uma tradição intelectual esquecida, que ao longo do século passado, fez frente à guerra nuclear e biológica, e às tendências totalitárias inerentes à economia empresarial e da cultura do espectáculo.

Carta aberta a Régis Debray sobre o trágico, o utópico e a esquerda do séc. XXI




Régis Debray, escritor, filósofo e ex-guerrilheiro, companheiro de Che Guevara, lançou recentemente na Gallimard um livro com o sugestivo título «Súplica aos novos progressistas do séc. XXI»

O sociólogo Philippe Corcuff acaba de fazer publicar no jornal Le Monde uma carta aberta dirigida justamente a Debray a propósito daquele texto. É esta carta aberta que abaixo reproduzimos em tradução para português.

Caro Régis,

A tua Súplica aos novos progressistas do século XXI (edição da Gallimard) orienta-nos oportunamente para uma reflexão sobre a armadura intelectual da política num momento em que não faltam na cena mediático-política golpes baixos e manobras eleitoralistas.

Com as tragédias do século XX, e com a corrida neoliberal em vento em popa, com todos os riscos ecológicos, é tempos de re-avaliar a nossa concepção do Progresso. Tens razão quando escreves:«O século crê na História porque acreditou em Deus, e para continuar a crer, mas de uma outra maneira, depois que perdeu a fé. O que se designa de Providência na igreja, chama-se de Progresso na cidade.»

Todavia, para um agnóstico de história, não há senão lugar a progressos, no plural. Neste sentido, toda a tradição não seria, à priori, de carácter negativo, nem toda a novidade se mostraria, por si mesma, positiva.

Não se trata de acabar com as Luzes, mas antes de «renovar a ferramenta intelectual». E que não se confunda isto com qualquer relativismo pós-moderno, onde tudo vale, porque nada vale. Esboçar-se-ia assim umas Luzes mitigadas, menos arrogantes, para uma esquerda que não abandona a tripla aposta do conhecimento, da modificação de si e da transformação do mundo. Donde o teu apelo à emergência de uma «esquerda trágica», «tingida de pessimismo», bem distinta quer daquela «esquerda divina», submergida no optimismo, quer da «esquerda gestora», enredada no presente, sem memória histórica nem projecção para o futuro.

A esquerda tem certamente necessidade de se alimentar do trágico. Basta recordarmo-nos das fragilidades da acção humana face às circunstâncias que se mostram independentes da sua vontade e que, permanentemente, lhe escapam. Basta lembrarmo-nos da componente de incerteza das nossas histórias, dos nossos riscos e dos nossos desafios. Basta lançarmos um olhar sobre a condição humana, com as suas potencialidades criadores mas também destrutivas, imersa numa história com clarões emancipadores quanto inércias opressivas. Abandonemos as ilusões antropológicas do «homem bom por natureza que é pervertido pelo capitalismo». Façamos a economia da hipótese, irrealista e por vezes mortífera, do nascimento rápido de um «homem novo» que resolveria como um milagre todas as contradições das políticas de mudança. Sim, mas…

As tuas análises surgem-nos unilateralmente negras. Como se a pretensão a uma lucidez última alimentasse na tua boca a nostalgia do definitivo e do absoluto, que estariam ligados mais ao trabalho do negativo do que ao «futuro radioso». O teu auto-retrato de «navegador solitário», a remar contra-a-corrente, leva-nos directos ao rídiculo a uma pretensão de um lucidez omnisciente. Desde o teu livro «Critica da Razão Política»(1981), na qual pretendeste conhecer, graças aos teus conceitos, o enigma de toda a sociedade humana ( o seu fundamento supostamente religioso), tomaste a direcção dos filósofos-reis. Ao fazê-lo não estás a confundir rápido demais o carácter heurístico de uma analogia ( entre o religioso e o político) com uma verdade eterna? Sem dúvida que és mais convincente nas narrativas autobiográficas, quando colocas em cena as nossas deficiências face aos desregulamentos da vida política e amorosa: Les rendez-vous manqués (1975), Les masques (1988), Loués soient nos seigneurs (1996)...

E se fosse necessário recusar definitivamente a lucidez definitiva e as poses inspiradas dos que crêem ver o essencial? Interrogar, através de perspectivas sempre parciais, as sinuosidades das contingências históricas como as nossas próprias limitações individuais. Apoiando-nos em referências de tradições do passado, que funcionariam como bússolas revisíveis pelo caminho, e que valem mais que o cocktail relativista das insignificâncias pós-modernas e menos que os absolutos de antanho. Transcendências relativas, de qualquer forma.

A tua esquerda trágica» parece ter esquecido a tensão dialéctica entre o trágico e o utópico. Não serão as características parecidas da história humana, a sua abertura, os seus movimentos, a sua parte de imprevisibilidade, que dão conta da sua dupla face? Maurice Merleau-Ponty teve a intuição: « O mundo humano é um sistema aberto ou inacabado e a mesma contingência fundamental que o ameaça de discórdia o subtrai à fatalidade da desordem e impede o desespero» (Humanisme et terreur, 1947). As flores da utopia continuam a eclodir um pouco por todo o lado nos mundos confusos dos altermundismos ou, bem perto de nós, nas revoltas dos «banlieues» ou nos movimentos anti-CPE, com as suas contradições, e os seus maniqueísmos. Na tensão, pois, com o trágico. «Homem da chuva e criança do bom tempo, as vossas mãos de erros e progressos me são igualmente necessários», dizia René Char (Seuls demeurent, 1938-1944), poeta em armas no meio da resistência «maquis».

A dupla possibilidade de novos avanços emancipadores e novas regressões bárbaras jogam-se hoje em França por um fio. Num contexto menos dramático, estaremos nós, um pouco como Walter Benjamin em 1940, «ao alcance do perigo», tentando discernir no «aqui-presente» uma frágil esperança libertadora? De uma lado: a etnicização das relações sociais, protagonizada pela FN e pelo marketing anti-muçulmano de Villiers, estimulado pelas demagogias securitárias. No meio: a gestão social-liberal da precarização generalizada da UMP-PS, sobre o fundo do esgotamento das instituições da nossa democracia representativa. Do outro lado: a estrela de uma nova questão social, respeitadora das individualidades, vacilante na vitalidade dos movimentos sociais anti-liberais e com falta de tradução política. Quando os fogos cruzados da utopia anti-capitalista desafiam as mecânicas ameaçadoras do mais provável.

Que tal, Régis, uma esquerda utópica e trágica para o século XXI? O desafio é imenso, as urgências iminentes, tudo à altura das nossas fraquezas.

Philip Corcuff

(texto publicado no Le Monde, 23 de Junho de 2006)

28.6.06

10 excelentes razões para não ires à tropa ou incorporares-te num exército


10 excelentes razões para não ires à tropa ou incorporares-te num exército


1 – Podes ser morto

2 – Podes ser levado a matar outros seres humanos

3 – Podes ser ferido

4 – Podes não receber os devidos cuidados de saúde

5 – Poderás vir a sofrer de problemas de saúde para toda a vida

6 – Podes ser vítima de mentiras e falsa propaganda

7 – Podes ser objecto de discriminação

8 – Podes receber ordens para fazer aquilo que vai contra os teus princípios e valores

9 – Pode depois tornar-se difícil deixar as forças armadas

10 – Tens muitas outras escolhas para te realizares como pessoa, para além da incorporação nas fileiras do Exército ( da Força Aérea, e da Marinha)



Para consultar o livro:
http://www.endthewartour.org


I just read an excellent book called "10 Excellent Reasons Not to Join the Military." Personally I was never attracted to the military because I could never stand having anyone tell me what to do ? well, and because I had parents who helped me find other options in life.

The military glorifies the giving and obeying of orders as somehow something good for its own sake, something called "discipline" or "character." I can't judge whether I have either of those things, but I do know the last place I would ever have thought to turn for a career was an institution in which I would have had to do what a bunch of mean bastards said to do simply because they said to do it. That wouldn?t have worked. I'd have ended up a conscientious objector even in peace time.

But, of course, order-taking is common in many young people's households and potential workplaces. My whole life, whenever I've had a boss who's annoyed me I've quit my job. I've had the good fortune to always find another and to have strong support from family. Not everyone has that luxury. Clearly taking orders from a military officer could sound more liberating than taking orders from a Wal-Mart manager, particularly to someone who currently works at Wal-Mart.

But even such a person, facing a highly unpleasant and unrewarding work life, and facing a taxpayer-funded multibillion-dollar advertising campaign for military recruitment, would not for an instant consider joining the military if they had read "10 Excellent Reasons Not to Join the Military."

The 10 reasons are:

1. You May Be Killed


This chapter was written by Cindy Sheehan. It alone should dissuade any potential recruit who does not hate his or her mother.

2. You May Kill Others


This chapter is timely, given the U.S. media's recent and long-in-coming awakening to the killing of civilians in Iraq by U.S. soldiers. Here Paul Rockwell recounts the stories of Iraq War veterans, including Jimmy Massey, Darrell Anderson, and Aidan Delgado. Massey says he was involved in a number of routine checkpoint killings. Anderson said, "At traffic stops, we kill innocent people all the time. If you are fired on from the street, you are supposed to fire on everybody that is there. If I am in a market, I shoot people who are buying groceries."

Delgado described killings at Abu Ghraib: "They opened fire on the prisoners with the machine guns. They shot twelve and killed three. I talked to one guy who did the killing. He showed me grisly photographs and bragged about the results. 'Look, I shot this guy in the face,' he said. 'See, his head is split open.' He talked like the Terminator. I was stunned and said, 'You shot an unarmed man behind a barbed wire for throwing a stone.' He said to me, 'Well, I said a prayer, and I gunned him down.' There was a complete disconnect between what he had done and his morality. He was the nicest guy, a family man, a courteous, devout Christian." (Was there a disconnect? He prayed his Christian prayer as he murdered a non-Christian. The connection seems unavoidable.)


3. You May Be Injured


If you sign up, you may not die, but you are quite likely to be injured, physically and psychologically. You may come back without arms, without legs, without eyes, without sanity. And if you're injured in a support role, not in combat, you won't even count as a statistic.

The stories in this chapter are painful. Robert Acosta, who lost his hand, among other injuries suffered in Iraq, described the attack on Iraq as a time of fear for himself and his fellow soldiers. The largest army the world has ever seen was aggressively attacking a ruined nation, using massive high-tech machinery, but the soldiers inside the trucks were focused on their fear of children:"I got to call home almost every other day, which would change once we moved north. We stayed in a place called Camp Udairi, not too far from the Kuwait-Iraq border. The whole 1st Armored Division was there, and little by little troops were moving north. We heard stories of soldiers still getting ambushed and little kids stabbing them through the thin plastic on the Humvee doors."


4. You May Not Receive Proper Medical Care


In fact, judging by the accounts here and elsewhere, you are likely to be tossed aside as human waste and allowed to suffer all kinds of unnecessary misery.


5. You May Suffer Long-Term Health Problem
s

Here are stories from Nevada, Vietnam, and the Gulf War. "You" in this case includes your children, even those not yet so much as a gleam in your eye ? should you be capable of producing a gleam in your eye.


6. You May Be Lied To


In this chapter Elizabeth Weill-Greenberg describes her experience posing as a potential recruit. The recruiters blatantly lie to her and cruelly pressure her to join, risk her life, and help fill their quota.


7. You May Face Discrimination


Aimee Allison describes a military culture that is openly and brutally racist, misogynistic, and homophobic. "These revelations are not surprising," she writes, "to former Marine Corps Lance Corporal Stephen Funk. During his training in 2002, Stephen told me that his drill instructor gave a rousing speech at the end of Marine combat training: 'This is the reality of war. We Marines like war. We like killing. We like raping females. This is what we do.'"


8. You May Be Ordered to Do Things Against Your Beliefs


Here we get into the matter of orders. Even if you don't mind following orders that you think might actually have been given for some good reason, what will you do if ordered to murder children? Read these stories of what others did in that sort of situation.


9. You May Find it Difficult to Leave the Military


You can check in any time you like, but you can never leave.

10. You Have Other Choices.


There are many other ways to get money for college, to take overseas adventures, to do good for the world, and to develop skills and abilities. In fact, a list of resources is listed at the end of this book.