21.2.08

Putos do Bolhão

Texto escrito por Juvenal Pinheiro
em Fevereiro de 2008

Sou um jovem de 23 anos, que fo criado dentro do Mercado do Bolhão. Dentro deste mercado habituei-me a ouvir os famosos pregões, a sentir a mistura de aromas no ar, qual cocktail de sensações, a estar rodeado de cor das frutas e das flores. Grande parte daquilo que sou hoje deve-se ao que vivi dentro deste mercado. E por isso me considero o que em bom portuense se diz um "puto do bolhão". Ao contrário do que se possa pensar, não sou o único da minha geração, muitos da minha idade, cresceram e se fizeram homens e mulheres aqui dentro. Os comerciantes que lá trabalham dizem por graça: "esta é a minha faculdade", mas a verdade é que dentro daquelas quatro paredes se ensinou a viver, muito mais do que em certas faculdades.

As pessoas que aqui trabalham já há muito tempo se habituaram por altura de eleições, ver um vai e vem, de políticos de caras sorridentes a passear pelo mercado prometendo mundos e fundos, qual "caça furtiva de votos".

Estava eu a começar a aprender a escrever, quando foi falado no projecto de reabilitação do mercado. Presidente atrás de Presidente, foi prometendo uma nova vida para o Bolhão, até que um dia subiu ao cargo o Sr. Rui Rio que nada teve para dizer aos comerciantes do que: "O Mercado do Bolhão não é prioridade"
Comentário esse que abalou mais um pouco os já muito frágil mas muito receptivo e alegre moral dos comerciantes. Por essa altura, já se implorava por obras no Mercado, devido ao estado do edifício.

Agora pergunto Sr. Presidente, não tinham já o seu tempo? Se a sua habitação estivesse a mostrar sinais de desgaste só iria mandar arranjar quando se ouve o "perigo eminente" (que tanto se fala) de ela lhe cair em cima?

Eu muitas vezes o oiço a dizer que é necessário revitalizar a baixa portuense. Mas é importante saber que grande parte do carácter que é atribuido à baixa portuense, se deve ao Mercado do Bolhão. Citando o site da Câmara Municipal do Porto, (http://www.cm-porto.pt/) : "É vulgar dizer-se que no Mercado do Bolhão, mora a verdadeira alma, o profundo carácter, a singular mundividência das gentes dos Porto".
"O Mercado do Bolhão é um excelente exemplar da arquitectura civil comercial, apresentando fortes caracteristicas do estilo neoclássico tardio, sobressaindo a sua monumentalidade pelos torreões nas suas esquinas que contrastam com as suas linhas horizontais, marcadas nas superficies das fachadas." Mas o verdadeiro néctar do mercado é a sua gente e isso é que é muito importante não esquecer.

Espero que no futuro que se avizinha para este mercado, todos estes pontos sejam levados em conta.

Obrigado

Juvenal Pinheiro

Retirado de:
http://manifestobolhao.blogspot.com/

Exposição-encontro com músicas sob o tema da Fronteira (23 de Fev., ao longo de todo o dia, no espaço 555, Porto)

FRONTEIRA

“limite, extremo que separa dois países; linha de demarcação entre duas frentes; limite, fim, baliza;”


O encontro e exposição que aqui se propõem pretendem mostrar diferentes projectos que desenvolvem trabalho fomentando, entre outros, uma reflexão sobre a noção de “fronteira”.

As fronteiras podem assumir características diversas, visíveis ou invisíveis, e a maneira como o homem as compreende e se relaciona com elas é complexa. Os projectos envolvidos nesta iniciativa, “Cidade de Abrigo” dos ASFP e grupo M.I.R.A., “Frontiers” do grupo artístico Gold Extra, “Uma terra sem gente para gente sem terra” exposição de Nuno Coelho e “Pisar a Linha” análise comentada de Adam Kershaw visam a reflexão sobre esta problemática. É a partir da exposição dos seus trabalhos e pontos de vista que esperamos sensibilizar e envolver mais pessoas em torno desta e de outras questões relativas, para um papel social mais consciente e activo do indivíduo.


www.almada555.com


CIDADE DE ABRIGO


EXPOSIÇÃO DAS PROPOSTAS RECEBIDAS NO CONCURSO DE IDEIAS INTERNACIONAL
SÁBADO 23 FEVEREIRO 2008 15:30


A.S.F.P. - Arquitectos sem Fronteiras Portugal

M.I.R.A. - Migration Interface for Reflexion and Activism


O contexto de pós modernidade traz ao espaço urbano uma profunda crise de identificação. Os antigos paradigmas de análise e compreensão de sociedade e cidade tradicionais não mais servem ao estudo e investigação dos actuais fenómenos urbanos. Estes aumentam em dispersão, variedade e multiplicidade. Longe da rendição à impossibilidade de manejar tal complexidade, este projecto pretende ser uma plataforma de confluência do pensamento sobre espaço físico e social, concretamente no que respeita aos fenómenos associados à migração e exclusão social. Na primeira tentativa de aproximação abriu-se o caminho à reflexão, à observação dos fenómenos sociais e urbanos, através do estímulo à intervenção aberta em contextos reais formulados em quatro casos de estudo. Do concurso internacional de ideias Cidade de Abrigo/Hosting City resulta agora uma exposição pública, uma mostra das propostas de cada participante de onde salta a complexidade na abordagem geral de que cada um toma para si como ponto de partida. Diversas formulações do conceito de problema, metodologias e a variedade do conceito de solução convertem para uma mostra também ela múltipla e diversa.


www.mi-ra.in/hostingcity

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PISAR A LINHA


ANÁLISE DE ADAM KERSHAW


SÁBADO 23 FEVEREIRO 2008 18:00


Hoje poucas guerras são travadas por questões territoriais, mas o conflito entre Israel e os territórios Palestinianos parece conter todas as causas tradicionais de conflito: religiosas, económicas, culturais e um sentido de justificação histórica. Este tipo de luta habitualmente não tem um "meio termo", sem espaço para um compromisso quando as duas partes lutam por aquilo que julgam ser como o seu absoluto e inegável direito. Os posters gráficos realizados por Nuno Coelho para a sua exposição "Uma Terra Sem Gente para Gente Sem Terra" pretendem criar um discurso visual com o espectador, simplificando a história complexa da região para uma forma mais acessível, quase infantil. Através do uso de técnicas simples, como colorir mapas, podemos localizar a fonte e o trajecto do conflito. Acompanhando os gráficos criados por Nuno Coelho, Adam Kershaw tentará analisar o conflito do ponto de vista das fronteiras, tendo como referência a sua própria experiência na Cisjordânia em 2006, e discutir o actual conflito e a decisão tomada por Israel de construir uma "barreira de separação definitiva" em vez de uma fronteira legítima.

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SIMONAL BIÉ & CONVIDADOS


SÁBADO 23 FEVEREIRO 2008 22:00


Nascido em Maputo, Moçambique, Simonal é um etnomusicologista, especializado em instrumentos tradicionais moçambicanos. Para além deste género, colabora igualmente com vários músicos/produtores de outros estilos, tendo participado na criação de projectos como Tchkare Kanyembe, Maty, entre outros.


www.myspace.com/simonalbie

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ATHLETIC COCKTAIL (DJ/VJ SET)


SÁBADO 23 FEVEREIRO 2008 24:00


Alejandra Pinggera vem da Suíça, mas tem raízes mexicanas e argentinas. Mulher de negócios e designer de palco, estudou na Business School de Zurique, Schule fuer Gestaltung Basel, na Suíça, e na Academy for Scenekunst, na Noruega. Alejandra trabalhou igualmente para o Teatro Nacional de Oslo, no Festival Ibsen, com uma instalação audiovisual intitulada «INBETWEEN», em 2006. Também trabalhou com o Hotel Pro Forma como artista de vídeo para a performance «Sand child» , na Dinamarca, e para o filme «fra Sor» presente no Festival de Cinema Norueguês, sendo ainda responsável por instalações de vídeo e pelas festas de abertura e encerramento. Em complemento, trabalhou em diversos projectos de arte independentes.
Desde o encontro na Academy for Scenekunst, Alejandra Pinggera e Filipe Canha iniciaram juntos um trabalho em termos conceptuais traduzido em várias performances de palco, instalações e projectos: a performance «no meat to chew», em 2006 - Noruega; a instalação de vídeo «Umen» com Bernardo Vercelli, em 2006 - Noruega; a performance «Mr. EggMan», em 2007.
Filipe Canha é um artista de performance com estudos em ballett clássico, dança moderna, dança contemporânea e interpretação teatral. Completou o seu curso universitário na Academy for Scenekunst, na Noruega, e realizou um intercâmbio na Concordia University, em Montreal, Quebec, Canadá, em coreografia, no qual resultou uma profunda investigação para os seus estudos conceptuais. Enquanto criador, desenvolveu e coreografou as seguintes performances: «asphyxia», em 2006; «The words, the truthful words are mute.», em 2006; «...anonymously, women.», em 2007, «none metalayer», em 2007, Canadá.
Sónia Carvalho é oriunda de Portugal. Esta artista direccionou o seu estudo universitário para a ESAD, nas Caldas da Rainha. Paralelamente, ingressou no programa ERASMUS no departamento de Belas Artes de Madrid, Espanha. Sónia Carvalho realiza exposições desde 2000 e, em complemento, trabalha com a galeria de arte contemporânea Galeria Plumba, no Porto. O seu trabalho provém de uma mistura entre performance, pintura, vídeo-arte e instalação, sendo ainda que nem a música é esquecida. Há três anos atrás, Sónia Carvalho esteve envolvida num projecto de DJ/VJ chamado GIRLS ON GOMMA, realizado por um colectivo de seis raparigas, no Porto, cujo som se aproximava dos beats anos 80 e electroclash.
O propósito destes três artistas é criar uma pista de dança interdisciplinar, na qual se fundem efeitos visuais e arte performativa com beats africanos, grime e sons de hip hop. Explorando diferentes desportos, as personagens dos Athletic Cocktail são infuenciadas pela cultura street wear, vivendo com vibrações cómicas e positivas... mas a diversão tem que ser organizada!


www.myspace.com/athleticcocktail

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ANTÓNIO SERGINHO DIZ EI! BOM DIA!


SÁBADO 23 FEVEREIRO 2008 02:00


O aguardado regresso ao 555 de António Serginho, a afamada marimba dos inigualáveis Tchakare Kanyembe. Desta feita atrás dos decks, cabe a este artista de vulto encerrar esta nobre noite. A não perder!


www.myspace.com/antonioserginho

Exposição sobre Sphaera Mundi: A Ciência na Aula da Esfera (a partir de 21 de Fev.na Biblioteca Nacional)



A Biblioteca Nacional inaugura hoje, 21 de Fevereiro, 5ª-feira, pelas 18h00, a exposição Sphaera Mundi: A Ciência na Aula da Esfera.


Manuscritos Científicos do Colégio de Santo Antão nas Colecções da BNP , na Galeria de Exposições (2º piso).



A exposição que agora se inaugura mostra, através dos fundos de Reservados da BNP, principalmente da colecção de Manuscritos, a grande vitalidade de uma instituição estreitamente ligada ao ensino e prática científicos em Portugal: a “Aula da Esfera” do Colégio de Santo Antão.

A «Aula da Esfera» do Colégio de Santo Antão foi uma das mais marcantes instituições de ensino e de prática científica em Portugal, tendo sido, durante quase dois séculos, o principal centro de formação dos quadros técnicos e científicos (cosmógrafos, engenheiros, etc.)


Fazendo parte da rede supranacional de centros de ensino da Companhia de Jesus, foi não só local de passagem dos melhores professores da época como foco de intercâmbio com os mais avançados centros científicos europeus, formando durante quase dois séculos os quadros técnicos e científicos de que o país necessitava. O colégio, instituição situada entre a escola elementar e a Universidade, é um dos símbolos do labor jesuíta e uma resposta pragmática às novas necessidades de conhecimento determinadas por um universo em expansão, satisfazendo simultaneamente as necessidades de formação dos novos membros da Companhia e dos jovens das classes sociais altas que buscavam novos métodos pedagógicos e modelos educativos renovados. À data da extinção da Companhia de Jesus (1773) existiam já cerca de 800 colégios espalhados pelos vários continentes.


O colégio jesuíta de Santo Antão tem como característica particular ter sido a única instituição a assegurar ininterruptamente, durante cerca de 170 anos (finais do séc. XVI a meados do séc. XVIII), o ensino de disciplinas físico-matemáticas em Portugal, leccionadas por alguns dos mais reputados mestres europeus: Cristoph Grienberg (1564-1636), Cristoforo Borri (1583-1632) ou Giovanni Paolo Lembo (1570-1618) e nacionais como João Delgado (1553-1612), Luís Gonzaga (1666-1747), Inácio Vieira (1678-1739) entre outros. Embora o seu nome apele directamente ao ensino da Cosmografia e Astronomia – que utilizavam como obra introdutória o Tratado da Esfera, de João de Sacrobosco, redigida no séc. XIII e desde então largamente comentada e parafraseada – também o ensino da Geometria, Aritmética, Náutica, Óptica e outros temas científicos ou teórico-práticos ali tinha lugar.


Henrique Leitão , comissário científico desta exposição, destaca o papel privilegiado desta “Aula” como: ponto de entrada das novidades científicas (como o telescópio e o novo mundo que ele descobriu, as novas técnicas matemáticas); local único de ensino e aplicação de algumas disciplinas emergentes como a Estática, a Mecânica teórica, ou a Óptica geométrica; o Colégio de Santo Antão era um centro de investigação verdadeiramente internacional que sempre beneficiou dos recursos e contactos da rede da Companhia de Jesus em que se encontrava integrado.


As notas e apontamentos dos alunos, e outros trabalhos manuscritos que sobreviveram e integram a colecção de manuscritos da BNP, constituem fontes indirectas para o conhecimento dos professores que leccionaram no Colégio e os seus ensinamentos. Embora este Colégio seja estudado e conhecido, a sua real dimensão e importância não se encontra ainda suficientemente divulgada junto do grande público que pode também, simultaneamente, avaliar sob uma outra perspectiva a riqueza patrimonial da BNP.

O catálogo que acompanha a exposição é a parte visível de um projecto mais amplo que o sustenta e que tem sido o esforço de inventariação, catalogação e estudo dos manuscritos científicos da BNP, precedido por estudos parcelares que dão conta das actividades da “Aula da Esfera” e do seu impacto cultural. A iniciativa conta com o apoio mecenático da REN – Redes Energéticas Nacionais.


Para mais informações, por favor, contacte-nos através do endereço
rel_publicas@bnportugal.pt
ou dos telefones:
21 798 2124,
21 798 2428.
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Horário de visita à Exposição: Dias úteis: 10h - 19h
Sábados: 10h -17h
Encerra domingos e feriados

O Povo das Mercadorias

Quando viajei para longe, vi a terra dos brancos, lá onde havia muito tempo viviam os seus ancestrais. Visitei a terra que eles chamam Eropa. Era a sua floresta, mas eles despiram-na pouco a pouco cortando as árvores para construir as suas casas. Eles fizeram muitos filhos, não pararam de aumentar, e não havia mais floresta. Então, eles pararam de caçar, pois não havia mais caça também. Depois, os seus filhos puseram-se a fabricar mercadorias e o seu espírito começou a obscurecer-se por causa de todos esses bens sobre os quais fixaram o seu pensamento.
Eles construíram casas de pedra, para que não se deteriorassem. Continuaram a destruir a floresta, dizendo: "Nós vamos-nos tornar o povo das mercadorias! Vamos fabricar muitas mercadorias e dinheiro também! Assim, quando formos realmente numerosos, jamais seremos miseráveis". Foi com esse pensamento que eles acabaram com a sua floresta e sujaram os seus rios. Agora, só bebem água "embrulhada", que precisam de comprar. A água de verdade, a que corre nos rios, já não é boa para beber.

Nos primeiros tempos, os brancos viviam como nós na floresta e os seus ancestrais eram pouco numerosos. Omama transmitiu também a eles as suas palavras, mas não o escutaram. Pensaram que eram mentiras e puseram-se a procurar minerais e petróleo por toda parte, todas essas coisas perigosas que Omama quis ocultar sob a terra e a água porque o seu calor é perigoso. Mas os brancos encontraram-nas e pensaram fazer com elas ferramentas, máquinas, carros e aviões. Eles ficaram eufóricos e disseram: "Nós somos os únicos a ser tão engenhosos, só nós sabemos realmente fabricar as mercadorias e as máquinas!". Foi nesse momento que eles perderam realmente toda a sabedoria. Primeiro estragaram a sua própria terra antes de ir trabalhar na dos outros para aumentar as suas mercadorias sem parar. Nunca mais eles disseram: "Se destruirmos a terra, será que seremos capazes de recriar uma outra?"

Quando conheci a terra dos brancos isso deixou-me inquieto. Algumas cidades são belas, mas o seu barulho não pára nunca. Eles correm por elas com carros, nas ruas e mesmo com comboios por debaixo da terra. Há muito barulho e gente por toda parte. O espírito torna-se obscuro e emaranhado, não se pode mais pensar direito. É por isso que o pensamento dos brancos está cheio de vertigens e eles não compreendem as nossas palavras. Eles não fazem mais que dizer: "Estamos muito contentes de rodar e de voar! Continuemos! Procuremos petróleo, ouro, ferro! Os yanomami são mentirosos!". O pensamento desses brancos está obstruído, é por isso que eles maltratam a terra, desbravando-a por toda parte, e a cavam até debaixo das suas casas. Eles não pensam que ela vai acabar por desmoronar. Eles não temem cair no mundo subterrâneo. Porém, é assim. Se os "brancos-espíritos-tatus-gigantes", as mineradoras, entram por toda parte sob a terra para retirar minérios, eles vão-se perder e cair no mundo escuro e podre dos ancestrais canibais.

[O universo yanomami compõe-se de quatro níveis superpostos suspensos em um "grande vazio". O mundo subterrâneo foi formado pela queda do nível terrestre na aurora dos tempos. É habitado pelos ancestrais yanomami da primeira humanidade, que se tornaram monstros canibais, os aõpataripë.]

Nós, nós queremos que a floresta permaneça como é, sempre. Queremos viver nela com boa saúde e que continuem a viver nela os espíritos xapiripë, a caça e os peixes. Cultivamos apenas as plantas que nos alimentam, não queremos fábricas, nem buracos na terra, nem rios sujos. Queremos que a floresta permaneça silenciosa, que o céu continue claro, que a escuridão da noite caia realmente e que se possam ver as estrelas. A terra dos brancos estão contaminadas, estão cobertas da xawara wakixi, uma "epidemia-fumaça", que se estendeu muito alto no peito do céu. Essa fumaça dirige-se para nós mas ainda não chega lá, pois o espírito Hutukarari repele-a ainda sem descanso. Acima da nossa floresta o céu ainda é claro, pois não faz tanto tempo que os brancos se aproximaram de nós. Mas bem mais tarde, quando eu estiver morto, talvez essa fumaça aumente a ponto de estender a escuridão sobre a terra e de apagar o sol. Os brancos nunca pensam nessas coisas que os xamãs conhecem, é por isso que eles não têm medo. O seu pensamento está cheio de esquecimento. Eles continuam a fixá-lo sem descanso nas suas mercadorias, como se estas fossem as suas namoradas.

Davi Kopenawa Yanomami, xamã, 1998.

O corpo não espera (por nós ou pelo amor): café-teatro pelos Bonifrates em Tondela (23 de Fev.)


http://www.bonifrates.com/

Peça a estrear em 21 de Fevereiro na Casa da Cultura em Coimbra:

O Médico à Força
(texto de Molière)


Teatro-Estúdio Bonifrates
Fev: 21 (estreia), 22, 27 e 29
Mar: 5, 6, 12, 14, 19, 20 e 27
na Casa Municipal da Cultura
Rua Pedro Monteiro 3000-329 Coimbra


Sinopse
Uma peça que celebra e denuncia, como só o teatro o sabe fazer, a mentira. "Depois de uma cena doméstica (entre a violência e o jogo de sedução) com a sua esposa, Martinha, Esganarelo é envolvido numa trama urdida por aquela para se vingar, fazendo-o passar por um médico famoso, capaz de curar a mudez da filha do senhor Géronte. Esganarelo não resiste ao apelo do dinheiro, como não resiste aos encantos da criada Jacqueline, o que não agrada nada ao seu marido, Lucas. Mas a filha do velho viúvo não está, de facto, doente; antes procura contrariar a ganância paterna e casar com quem realmente ama, um homem de expedientes duvidosos mas de futuro auspicioso… Todos enganam todos, todos escondem alguma coisa."


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O CORPO NÃO ESPERA (POR NÓS OU PELO AMOR)

Espectáculode café-teatro no dia 23 de Fevereiro em Tondela ( no Acert)

Oito mulheres falam do corpo, recorrendo às linguagens de poesia e do movimento.

O corpo é praia a boca é a nascente
Ter um corpo de mulher às vezes...é mar… é violência
são rugas… são barriguinhas… são borbulhas… são momentos.
O que é um corpo de mulher,
um corpo de mulher sente-se
Memórias, sensações…às vezes doridas, outras vezes…é bom ser mulher.
Quando fala, fala amor
fala desamor
fala paixão
fala raiva
fala ausência
fala sonho
ternura
fala vida.
Eu gosto de ter um corpo de mulher e gosto da forma como o corpo muda, como fica bonito
e sensual…
O corpo cansa-se
aí o corpo adormece e fica uma outra coisa que não é o corpo.
O corpo não espera não por nós ou pelo amor.
A parte do corpo que eu mais gosto
é a boca
eu gosto particularmente do umbigo
e dos lábios…
O corpo é praia…
memórias, sensações… às vezes doridas…às vezes…
Quando fala, fala amor
fala desamor
fala vida
Sobretudo fala vida.
Oito mulheres, através da poesia e do movimento, falam do corpo.
Do corpo na sua relação consigo, com o outro, com o amor.
Do corpo como lugar de encontro e desencontros. Lugar de memórias, de esquecimentos, de mudanças e resistência a mudanças, lugar de desejos, de entrega e (também) de solidão.
É um espectáculo onde pulsa a contradição que percorre a mulher, herdeira de uma tradição judaico-cristã que durante séculos lhe negou o corpo e o prazer, e teima em palpitar no desejo maculado pela noção de pecado.
Mulher cujo despojamento procura na pele as memórias do desejo, no toque a sede dos beijos, o húmido das carícias.
Mulher cujo abandono de si procura na entrega ao outro, o corpo que não espera.



Neste espectáculo encontramo-nos com o sentir de oito mulheres… respiramos com elas mas também com Maria Teresa Horta, Eugénio de Andrade, Carolina Kujawski, Jorge de Sena, Adília Lopes, Sarah Kane, Chico Buarque, David Mourão-Ferreira, Herberto Hélder, Guillaume Apolinaire, António Ramos Rosa, Natália Correia, Conceição da Costa Neves, Astor Piazzolla, Ângelo Badalamenti, Umebayshi Shigeru, Dead Combo e David Sylvian.



Ficha Técnica
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Criação colectiva: Alexandra Mascarenhas, Carla Miguel, Cristina Janicas, Filipa Amorim, Maria Manuel Almeida, Paula Santos, Sílvia Barbeiro, Tânia Almeida

Selecção de textos: Paula Santos


Sábado, 23 Fev'08, às 21.45h

www.acert.pt/programacao/registo.php?id=183

Vai-se realizar no Porto a I Feira do Cânhamo (16,17 e 18 de Maio)


Vai-se realizar no Porto, no Mercado Ferreira Borges, nos próximos dias 16, 17 e 18 de Maio a 1ª Feira do Cânhamo - Mostra Internacional das aplicações e tecnologias alternativas.

Para saber mais sobre esta mostra: http://www.feiradocanhamo.com



Canhamo ou canhamo industrial é o nome que recebe as variedades da planta Cannabis e o nome da fibra que se obtem delas, que tem, entre outros, uso texteis. Além de roupas, é utilizado na fabricação de papel e como forragem animal.
Muito cultivado em várias partes do mundo, inclusive na Europa, onde a União Européia em 1998 o legalizou e autorizou inclusive o subsídio ao linho de cânhamo.
Há limitações quanto ao seu plantio, sendo permitido só para terrenos de até um hectare, segundo normas da comissão agrícola européia. Não confundir com a maconha, cujo o teor de THC é bem superior ao do cânhamo, apesar de ambos pertencerem ao género Cannabis.
Para quem quer plantar é recomendável recorrer ao Ministério da Agricultura ou a empresas especializadas, pois estes disponibilizam a legislação e meios para o agricultor que queira iniciar no ramo da cânhamo cultura.


Em Portugal há uma empresa chamada "Cânhamo de Portugal", devidamente certificada (desde 1999) que comercializa (e produz) diversos produtos em cânhamos, desde materiais de construção, produtos alimentares, vestuário, cosméticos, sementes, etc...
O cultivo do cânhamo em Portugal é legal (tal como em toda a comunidade europeia) e subvencionado. No entanto temos que ter em consideração que a estirpe tem de provir de semente devidamente certificada de forma a que esteja garantido que o teor de THC (toxicidade) seja inferior a 0.3
Em 1998 existiam em Portugal 23 produtores subsidiados, segundo informações do INGA.

O cânhamo é cultivado em todos os continentes e está a ressurgir na Europa, com especial incidência em França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Holanda, Áustria, etc...
A planta é integralmente utilizada para os mais diversos fins, mas destaca-se especialmente a sua fibra, também chamada de filaça, muito usada na indústria de papel, pois um hectare de cânhamo produz o mesmo que quatro hectares de eucaliptos, num período de vinte anos.
A indústria têxtil também é um bom mercado para o cânhamo, por este ser cinco vezes mais resistente que o algodão, e com seus longos feixes de até 4,5 m é usado para fabricar cordas e amarras de navios pois são bastante resistentes. Da semente extrai-se um óleo muito usado na indústrias de cosméticos como base para cremes, xampus, óleos hidratantes, etc, na indústria mecânica para vernizes, lubrificantes, combustíveis, tintas e outros, bem como para a alimentação humana em óleo, tempero, margarina, flocos de cereais, snacks e outros


Texto retirado da wikipedia



Em defesa do espaço público: caminhada pela Tapada das Necessidades (dia 24 de Fev. às 10h.)


A Tapada das Necessidades Não Pode Fechar!


O
Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades, convida todos para uma Caminhada à volta daquele maravilhoso pulmão verde de Lisboa, que decorrerá no próximo domingo dia 24 de Fevereiro, a partir das 10 horas da manhã.


A Tapada situa-se na freguesia dos Prazeres, junto ao Palácio das Necessidades.


Apareça e venha desfrutar de momentos de convívio, desfrute cultural e algum exercício, que fazem bem ao corpo e à mente!


Aderiram já a esta iniciativa (e estão a divulgá-la): a Junta de Freguesia dos Prazeres, a Associação Lisboa Verde, o jornal Conversas de Café, a Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular e o Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes".


Fundado em 10 de Abril de 2007, o Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades foi criado para ajudar a salvaguardar a arquitectura paisagística, a flora, a fauna,o património edificado e uma História de dez hectares de sonho, que resistem no coração da cidade, apesar de algum abandono e até degradação.


Constituído por moradores vizinhos da Tapada, associações ambientalistas e colectividades locais, o Grupo realizou até hoje várias acções de divulgação, nomeadamente uma caminhada com a população da freguesia, na Primavera, um painel na Feira de Artes e Ofícios dos Prazeres, pelo S. Martinho, uma intervenção distribuída à Comunicação Social e aos autarcas, na Assembleia Municipal de Lisboa e, ao longo da época natalícia, afixação de cartazes em estabelecimentos do comércio local.


http://gatnecessidades.blogspot.com/

http://aaldraba.blogspot.com/



foto do cartaz retirada do blogue

19.2.08

2ª Assembleia preparatória do MayDay 2008 vai realizar-se nesta quinta-feira ( 21 de Fev.) às 21h30 na CrewHassan

De há uns anos a esta parte, diversos países têm vindo a assinalar o dia 1 de Maio, Dia do Trabalhador/a, alertando especificamente para a situação dos trabalhadores/as precários. Esta iniciativa é conhecida como MayDay.

MayDay é um termo utilizado nas comunicações radiofónicas, marítimas ou aeronáuticas que significa “urgência” ou “socorro” e que deriva do francês “m'aidez” (ajudem-me).

No dia 1 de Maio de 2007, realizou-se pela primeira vez em Portugal o MayDay, uma iniciativa que decorreu em Lisboa e que acabou por integrar a marcha da CGTP.

Nesta primeira parada do MayDay participaram trabalhadores/as do espectáculo, de call-centers, bolseiros/as, imigrantes, contratados/as a prazo e muitas outras pessoas solidárias com a causa.

Começamos agora a preparação do MayDay 2008 e convidamo-vos a participar!

Na 1ª Assembleia já realizada verificou-se que há pessoas e vontades e ideias, muitas ideias, e também um objectivo em comum: construir um percurso de acções, eventos, debates, festa e concerto que culmine no 1.º de Maio com a parada alternativa de precári@s - MayDayLisboa2008 - e deste modo conseguir juntar pessoas, desde precários a desempregados, estudantes a imigrantes, etc., convocando o MayDay e contestando já a precariedade, dando-lhe visibilidade ou denunciando patrões e leis.

Precisamos então de nos organizar, discutir propostas, agendar coisas, construir o MayDayLisboa2008.


E contamos contigo!

A próxima assembleia preparativa do MayDay decorre esta quinta-feira, dia 21 de Fevereiro, às 21h30, na CrewHassan, situada na Rua das Portas de Santo Antão, 159, 1.º (rua do Coliseu), em Lisboa.


http://www.precariosinflexiveis.blogspot.com/





O precariado rebela-se!!!


Tod@s à Crewhassan às 21h30 do próximo dia 21 de Fevereiro ( nesta 5ª feira)

Nota: a assembleia é antecedida de um jantar vegetariano às 20h a umpreço precário (4euros)

CrewHassan
*Rua das Portas de Santo Antão, 159, 1.º (rua do Coliseu).

Uma Marcha da Indignação de Professores e Educadores foi convocada para o próximo dia 8 de Março


A FENPROF anunciou em conferência de imprensa (19/02/2008), a realização de uma Manifestação Nacional de Professores e Educadores no próximo dia 8 de Março. A acção decorrerá em Lisboa, com concentração no Alto do Parque Eduardo VII, às 14h 30, e terá como lema "Assim não se pode ser professor. A Escola Pública não aguenta mais esta política



ASSIM NÃO SE PODE SER PROFESSOR

Permanentemente desrespeitado e desconsiderado pelos responsáveis do ME, entre outros governantes;

Sujeito a horários de trabalho pedagogicamente desadequados e que retiram qualidade ao desempenho dos docentes;

Com um ECD que desvaloriza os profissionais e a função docente e que urge ser renegociado;

Com uma avaliação dos professores que é burocrática, injusta e ofensiva dos profissionais e que deve ser urgentemente alterada;

Com o tratamento dado a docentes que deram o melhor de si à Educação e agora serão remetidos para supranumerários, como se de trapos velhos se tratassem;

Com a tremenda instabilidade em que vivem milhares de professores contratados, muitos outros milhares no desemprego e a quem, o ME, pretende retirar a qualidade de "docente" com o designado "exame de ingresso" a que os sujeitará.

Também no Ensino Superior, o problema da precariedade e do desemprego atinge proporções inéditas e extremamente preocupantes.




A ESCOLA PÚBLICA NÃO AGUENTA MAIS ESTA POLÍTICA

Que degrada as suas condições de trabalho e o seu funcionamento em resultado de uma cada vez maior desresponsabilização do Estado e de um crescente desinvestimento público;

Que aponta para a desvalorização do primado do pedagógico face ao administrativo, por via de um regime de direcção e gestão que reduz ao mínimo ou liquida espaços e princípios de participação democrática;

Que retira capacidade de resposta aos alunos com necessidades educativas especiais, ferindo de morte princípios essenciais da escola inclusiva; Que prevê privatizar o parque escolar do Secundário e entregar aos municípios todas as responsabilidades em relação à Educação Pré-Escolar e Ensino Básico;

Que já encerrou mais de 2.000 escolas e prevê encerrar, ainda, outras tantas;

Que transforma o que deveria ser uma escola a tempo inteiro, num conjunto de ofertas [prolongamento de horário, AEC's] sem qualidade nem regulação; que se prepara, para, em nome da poupança degradar a qualidade do ensino no 2º Ciclo do Ensino Básico;

Que empurra as Instituições de Ensino Superior Público para a privatização



Abaixo-assinado em Março


Entretanto, vai também ser posto a circular, em Março, um abaixo-assinado de exigência de horários de trabalho pedagogicamente adequados.
Simultaneamente, na net, vai circular uma carta para, individualmente, os docentes contratados e desempregados protestarem contra o designado "exame de ingresso".

Petição contra a nomeação do criminoso de guerra Tony Blair para presidente do Conselho da União Europeia. Assinem


http://www.stopblair.eu/


Nós, cidadãos europeus de todas as origens e inclinações políticas, desejamos expressar a nossa oposiçao total à nomeação de Tony Blair para a Presidência do Conselho da União Europeia.


O Tratado de Lisboa prevê a criação do cargo de Presidente do Conselho da União Europeia, a ser eleito pelo Conselho para um mandato de dois anos e meio, renovável uma vez. Nos termos do Tratado: “O Presidente assegura a preparação e continuidade dos trabalhos do Conselho Europeu“ e “O Presidente preside aos trabalhos do Conselho Europeu e dinamiza esses trabalhos“. Além disso, “O Presidente do Conselho Europeu assegura, ao seu nível e nessa qualidade, a representação externa da União nas matérias do âmbito da política externa e de segurança comum“¹.


O futuro presidente terá portanto um papel chave na definição das políticas da União Europeia e nas relações desta com o resto do mundo. A primeira presidência possuirá ainda um peso simbólico particular, quer para os cidadãos da União Europeia, quer para a imagem da União no resto do mundo. Nesta perspectiva, cremos ser essencial que o primeiro presidente incarne o espírito e os valores do projecto europeu.


Desde há algum tempo, saem na imprensa artigos, cada vez mais frequentes, tornando evidente o desejo por parte de alguns quadrantes em fazer de Tony Blair o primeiro Presidente do Conselho da União Europeia. Esta nomeação, a acontecer, estaria em contradição total com os valores representados pelo projecto europeu.


Em violação do direito internacional, Tony Blair envolveu o seu país numa guerra no Iraque, guerra essa à qual se opôs a maioria dos cidadãos europeus. Uma guerra que fez centenas de milhares de vítimas e provocou milhões de refugiados. Que é um factor maior na actual desestabilização profunda do Médio Oriente e que enfraqueceu a segurança mundial. De modo a conduzir o seu país à guerra, Blair fez uso sistemático de provas forjadas e de manipulação da informação. O seu papel na guerra do Iraque pesaria fortemente sobre a imagem da União no mundo, caso fosse eleito presidente.


As medidas tomadas pelo seu governo, bem como a sua cumplicidade com a administração Bush no programa ilegal de “entregas extraordinárias“ (conhecido como “vôos da CIA“) resultaram num recuo sem precedentes das liberdades civis, em contradição com os termos da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, a qual é parte integrante do Tratado.


A Carta Europeia dos Direitos Fundamentais formaliza os valores fundadores do projecto europeu e constitui um dos pilares do novo tratado. Tony Blair lutou contra a sua integração no Tratado de Lisboa e assegurou que não fosse aplicada no Reino Unido.


Ao invês de fazer avançar a integração europeia, o antigo primeiro-ministro britânico impôs uma série de “linhas vermelhas“ durante a negociação do tratado², com o intuito de bloquear qualquer progresso nas questões sociais e de harmonização fiscal, bem como na política externa e de defensa comuns.


Além disso, parece-nos impensável que o primeiro presidente da União Europeia seja o antigo chefe de um governo que manteve o seu país afastado de dois elementos chaves da construção da Europa: o Espaço Schengen de livre circulação de pessoas e a Zona Euro.


Numa altura em que uma das prioridades das instituições europeias é a reaproximação aos seus cidadãos, cremos ser fundamental que o Presidente do Conselho da União Europeia seja alguêm em quem uma maioria dos cidadãos possa rever-se, ao invês de alguêm rejeitado pela maioria³. Por tudo isto, declaramos a nossa oposição total a esta nomeação.

Tratado de Lisboa, Artigo 1º, nº 16 - que insere o Artigo 9ºB no Tratado da União Europeia -, parágrafos 5 e 6. (2007/C 306/17, 18) ↑
Blair sets out EU treaty demands, BBC, Junho de 2007. ↑
Tabela 6 da
Sondagem FT/Harris, Junho de 2007. ↑

Exposição-venda em apoio à revista «Águas Furtadas» com pedido de colaboração

A edição da revista "aguasfurtadas" está suspensa por falta de dinheiro. Para tentar evitar o fim da revista, ou pelo menos adiá-lo o mais possível, pretende-se promover uma venda de obras de arte. Assim, pede-se a colaboração de diversos autores amigos, nas mais diversas áreas (fotografia, ilustração, pintura, música, literatura, etc.), no sentido de doarem um pequeno trabalho da sua lavra. Esse trabalho estará em exposição a partir do dia 1 de Março na Galeria do Jornal Universitário do Porto (Rua Miguel Bombarda, 187, Porto) e será vendido pelo preço unitário de €20 ao primeiro comprador interessado. O dinheiro que resultar desta venda será aplicado na edição do número 11 da revista "aguasfurtadas".No caso da literatura, pedia-se muito simplesmente um texto manuscrito numa folha A4 (de linhas, sem linhas, quadriculada, como preferirem). Pode ser um poema breve, um microconto, um aforismo, um excerto de romance, qualquer coisa, desde que da vossa autoria, escrito pela vossa mão e assinado (não precisa de ser um inédito).


Grande venda de obras de arte.
Todas as peças a €20.

Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas musicais originais, manuscritos, etc., etc.

Só autores famosos.

Inauguração no dia 1 de Março, pelas 16h00, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto).

O produto das vendas será aplicado na produção da revista "aguasfurtadas" 11.

http://revista-aguasfurtadas.blogspot.com/

18.2.08

O que mais adoras na tua terra?

Transcrição do último post do blogue Nadir dos Tempos pela emoção com que é escrito e que, apesar de todas as diferenças geográficas que nos separam, não me é de todo estranho. Por isso, o reproduzo aqui:

No Sotavento de hoje? Da minha geração?
A minha resposta é rápida: as comunidades de chineleiros alemãs da Mexilhoeira Grande a Odeceixe. Os bifes maluques e drogades, com que cresci. Estou convencido que foram o motor de evolução cultural da uma geração portimonense inteira, maior que quaisquer eventos esparsos promovidos pela câmaras, cultura "de dentro para dentro" - a única verdadeira fonte de cosmopolitanismo a que tive acesso na minha adolescência.


O único espaço no Barlavento a albergar consistentemente exposições de artistas livres, e concertos quase todos os dias para "qualquer um que tivesse uma banda e quisesse tocar" era o bar Santa Suzana do
Tim, punk alemão, perto de Aljezur, no meio do monte. Quando fechou passou a não haver nada ... até que abriu o Satori, perto de Querença, do francês Pascal.


Noites e noites passadas na Pereira, Arão, sob as estrelas, e acordar junto de praias selvagens são as melhores memórias que tenho.Há quatro anos, toda essa zona ardeu. Os terrenos desvalorizaram brutalmente. Cada vez mais amigos se vão embora, para a Austrália, para América do Sul, onde as praias ainda são selvagens e a gente ainda se pode sentar à fogueira, a água dos poços ainda se pode beber sem pesticidas dos campos de golf e onde não se toca fogo à terra para construir
autódromos. Perdemos todos.


Não por acaso o lema do
blogue Nadir dos Tempos é retirado do Coro dos Caídos de José Afonso:


Dançai ó parcas vossa negra festa
sobre a planície em redor que o ar empesta.
Cantai ó corvos pela noite fora
neste areal onde não nasce a aurora.




Texto completo:
Coro dos Caídos (José Afonso)

Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia

Cantai cantai melancolias serenas
Como trigo da moda nas verbenas
Canta cantai guisos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó Parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora

Acervo documental de Maria de Lourdes Pintasilgo disponível pela internet

Apesar de ser aparentemente uma heresia no Pimenta Negra – mas eu gosto de heterodoxias e imprevistos - quero recordar aqui, por interposta pessoa( por via deste excelente blogue, e da sua autora), a figura forte e envolvente de Maria de Lourdes Pintasilgo cuja vida calou fundo a muitos dos seus conterrâneos, independentemente das nossas crenças e opiniões poderem ser diferentes. E a minha modesta homenagem não podia ser outra que não seja a de dar a palavra à autora do blogue – que tenho vindo a consultar diariamente - , e de que me permito reproduzir um seu post a dar conta da disponibilização na Net de um importante acervo de documentação do arquivo de Maria de Lourdes Pintasilgo:


«Por ela equipei o meu mini com megafone e andei freguesias urbanas e rurais a incitar, com esta voz que Deus me deu e o tabaco aperfeiçoou, o voto numa esperança outra, pura, inteligente, límpida e visionária para Portugal. Foi em 86, era a primeira volta para as Presidenciais. Estive na sede de campanha no dia das eleições. Aplaudi-a por fora e chorei por dentro : discursos dignos provocam-me esse efeito. Uma Senhora, com maiúscula, e não só ali: em toda a sua vida. Até na hora da sua morte, atraiçoada por um ataque cardíaco devido a quem não poderia senão indignar-se e assustar-se com a perspectiva de um santanazeco lopes no governo. Jorge Sampaio vai ter que prestar muitas contas a Nosso Senhor.

Foi a única e última pessoa que me motivou tal comprometimento na vida política deste país (e nenhum partido político o houvera feito ou fez desde aí).

Com a sua derrota - e a cada dia que passa mais o entendo em toda a sua evidência - perdeu Portugal, perdemos todos nós.

Ganhámos todavia um pouco hoje: «mais de 10 mil documentos que retratam a vida de Maria de Lourdes Pintasilgo (...) vão estar disponíveis, a partir de hoje, na internet, (...) podendo ser consultado em
http://www.arquivopintasilgo.pt/MLP/ . O projecto, iniciado ainda em vida de Maria de Lourdes Pintasilgo, estará acessível a todos e não apenas a historiadores e estudiosos - como era seu desejo.» (Público de hoje)

A democracia, a verdadeira democracia directa que se sustenta no respeito pelo livre-arbítrio e pela inteligência dos cidadãos, foi mais do que a sua prática - foi a essência da sua alma.

Bem-haja e até sempre, Senhora Presidente»


(fim da transcrição)


Soneto à Liberdade ( Sonnet to Liberty) de Oscar Wilde

Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso
Somente vê a própria e repugnante dor,
Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada
É que, com seu rugir, tuas Democracias,
Teus reinos de Terror e grandes Anarquias
Refletem meus afãs extremos como o mar,
Dando-me Liberdade! - à cólera uma irmã.
Minha alma circunspeta gosta de teus gritos
Confusos só por causa disso: do contrário,
Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros
Roubavam às nações seus sagrados direitos,
Deixando-me impassível e ainda, ainda assim,
Esses Cristos que morrem sobre as barricadas,
Deus sabe que os apóio ao menos parcialmente.

No original:

Not that I love thy children, whose dull eyes
See nothing save their own unlovely woe,
Whose minds know nothing, nothing care to know,
But that the roar of the Democracies,
Thy reigns of Terror, thy great Anarchies,
Mirror my wildest passions like the sea
And give my rage a brother Liberty!
For the sake only do thy dissonant cries
Delight my discreet soul, else might all kings
By bloody knout of treacherous cannonades
Rob nations of their rights inviolate
And I remain unmoved and yet, and yet,
These Christs that die upon the barricades,
God knows I am with them, in some things.


Oscar Wilde
Tradução: Nelson Ascher



Poema que encontrei e trouxe até aqui pela mão de um
blogue com óbvias afinidades com o Pimenta Negra, e que recomendo a todos uma merecida visita.

«O conhecimento é a tua arma de guerra mais poderosa e destruidora...»

Citação que encontrei neste blogue que vou passar a frequentar com assiduidade pois surpreendeu-me agradavelmente:


O Mundo, a Vida e a Liberdade podem ser melhores do que isto. Esforça-te para o conseguires, cada segundo, cada vez que respires. Liberta-te a ti mesmo pelo conhecimento, não acreditando nas mentiras das religiões, dos poderes, dos estados... A sabedoria é o único poder maior. Aprende, para saberes mais do que eles. O conhecimento é a tua arma de guerra mais poderosa e destruidora. Usa-a, ataca, mata, destrói.
(World, Life and Liberty can be better than this. Makes an harder effort for obtain it, each second, every time you breath. Liberate youself by the knowledge, not believing in the lies of the religions, of the powers, of the states... The wisdom is the unique one bigger power. Learn more, for know more than they.The knowledge is your more powerful weapon of war and destroyer. Use it, attack, kill, destroy!)


Também no mesmo blogue encontrei este soberbo poema da Sofia de Mello Breyner Andresen que aproveito para reproduzir :


Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sofia de Mello Breyner Andresen

O Canto de Intervenção ( 23 de Fev às 21h30) - tertúlia com música e poesia

O CANTO DE INTERVENÇÃO”
Espectáculo a realizar no dia 23 de Fevereiro, pelas 21h 30m, nas instalações do Clube Literário do Porto

Tertúlia com música e poesia.

Com a participação de:
Ana Afonso, Ana Ribeiro, Gabriela Marques, Jorge Ribeiro, José Luís Guimarães, Paulo
Esperança, Tino Flores.



c l u b e l i t e r á r i o d o p o r t o
Rua Nova da Alfândega, 22
PORTO
Telefone 222 089 228

12ª Mostra de Teatro de Almada - 8 a 24 de Fevereiro 2008

As companhias e grupos teatrais do concelho e a Câmara Municipal de Almada (CMA) organizam uma vez mais a Mostra de Teatro de Almada de 8 a 24 de Fevereiro nos diversos auditórios e espaços do concelho.


Esta iniciativa cumpre o objectivo primordial de promover e apoiar a diversidade da produção teatral dos grupos do concelho de Almada. Tendo-se distinguido nas edições anteriores pela variedade apresentada, tanto em termos de grupos apresentados como de actividades desenvolvidas, a 12ª edição afirma o desenvolvimento do projecto através da riqueza dos trabalhos apresentados e acções paralelas, bem como através do envolvimento dos vários espaços formais e alternativos.O início da Mostra este ano é assinalada pela presença muito especial de Ruy de Carvalho, com a abertura oficial a 8 Fevereiro, contando ainda com muita animação. Ruy de Carvalho reconhece o valor do trabalho da Mostra, a desenvolver e a estimular a criação teatral.

Em 2008 a Mostra arranca com os espectáculos a 10 de Fevereiro (domingo), iniciando com a estreia de “Amãenhecer “, um trabalho original da Armadilha – Associação de Teatro e Música com Cultura, dirigido a bebés e crianças dos 0 aos 5, no Auditório Fernando Lopes-Graça. Seguem-se trabalhos do GiTT, OTA e Ninho de Víboras. Serão apresentados 18 trabalhos, 8 dos quais estreias absolutas preparadas para a Mostra.A Mostra começou em 1996 com apresentações de 13 companhias no Salão de Festas da Sociedade Filarmónica Incrível Almandense (ainda hoje parte do circuito obrigatório da Mostra) e que desde então a Câmara Municipal de Almada continua a apostar num projecto de diversidade e estímulo.

De 8 a 24 de Fevereiro de 2008, Almada entra em cena!

Programa dos Grupos e projectos teatrais da 11ª edição da Mostra de Teatro de Almada

Amãenhecer - estreia
Um espectáculo Armadilha – Associação de Teatro e Música com Cultura
de António Rocha
10 de Fevereiro 11h30, 15h00, 16h15 Auditório Fernando Lopes-Graça
17 de Fevereiro 15h00, 16h15 Sala de Ensaios – Teatro Municipal de Almada


A vertigem da falésiaUm espectáculo GITT - Grupo de Iniciação Teatral da Trafaria de Carlos Alfredo Amaral
10 de Fevereiro 16h00 Sala de Ensaios – Teatro Municipal de Almada


Paixões VeniaisUm espectáculo OTA - Oficina de Teatro de Almada de Fernando Rebelo a partir de Passiones Venéreas de Juan José Millás em
10 de Fevereiro 21h30 Casa Municipal da Juventude de Cacilhas


Feliz Aniversário Um espectáculo Ninho de Víborasde Harold Pinter
12 de Fevereiro 21h30 Sala de Ensaios do Teatro Municipal de Almada

Bonifácio do ParaísoUm espectáculo Teatro da Costa de Carlos G Melo
13 de Fevereiro 21h30 Teatro Extremo


Land EscapeUm espectáculo Murmuriu
14 de Fevereiro Sessões contínuas entre as 20h00 e as 23h00 Casa Municipal da Juventude de Cacilhas


Maria CurieUm espectáculo Teatro Extremo de Mira Michalowska
15 de Fevereiro 21h30 Teatro Extremo


O Fazedor de Vidas - estreiaUm espectáculo Menina dos Meus Olhos, Associação Culturalde Ângela Ribeiro
16 de Fevereiro 16h00 Auditório Fernando Lopes-Graça


Mr. Pipon, cabaret internacionalUm espectáculo Associação Créme de la Créme de Andreas Piper
16 de Fevereiro 21h30 Auditório Fernando Lopes-Graça


Huis Clos (Sem Saída) - estreiaUm espectáculo O Gritode Jean-Paul Sartre
17 de Fevereiro 21h30 Auditório Fernando Lopes-Graça


Bicho
Um espectáculo Útero
de Miguel Moreira
18 de Fevereiro 21h30 Espaço Ginjal


Chez Kantor - estreia
Um espectáculo Novo Nucleo de Teatro da FCT (NNT)
a partir de Tadeusz Kantor
19 de Fevereiro 21h30 Ginjal

A Perca
Um espectáculo Teatro da Costa
de Carlos G Melo
21 de Fevereiro 21h30 Auditório Fernando Lopes-Graça


Teoria Geral dos Maridos - estreia
Um espectáculo Teatro de Areia – Associação Cultural “Mundo do Espectáculo”
de Sarah Adamopoulos
22 de Fevereiro 21h30 Auditório Fernando Lopes-Graça


Pedro e o Lobo Um espectáculo Teatro ExtremoA partir de Esopo e de Serguei Prokofiev
23 de Fevereiro 16h00 Auditório Fernando Lopes-Graça

Tontos - estreiaUm espectáculo Ninho de Víboras de Maria João Garcia, a partir de textos de Anthony Minghella e Ingmar Bergman
23 de Fevereiro 18h00 Espaço Ginjal


Noite de Poesia Inesiana - estreiaUm espectáculo Teatro de Papelde António Ferreira
23 de Fevereiro 21h30 Convento dos Capuchos

Morte e Vida Severina - estreiaUm espectáculo Teatro & Teatro – Associação Cultural “Mundo do Espectáculo"de João Cabral de Melo Neto
24 de Fevereiro 21h30 Auditório Fernando Lopes-Graça


Mais Informação/ esclarecimentos
- DMDS - Divisão Municipal de Acção Cultural da Câmara Municipal de Almada
9h30m - 12h30m / 14h00 - 17h30m
Tel.: 212 724 735/51
Fax: 212 724 779
e-mail:
accao.cultural@cma.m-almada.pt
site:
www.almadadigital.pt/

Debate público sobre o novo modelo de gestão escolar na Fac. de Psicologia e de Ciências da Educação do Porto

Vai-se realizar um debate aberto ao público em geral sobre o "Projecto de Decreto-Lei sobre o novo regime jurídico de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário" no auditório 2 A da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, pelas 17 horas do dia 20 de Fevereiro de 2008

Maria Lacerda de Moura - Uma Anarquista Individualista Brasileira


Texto publicado no nº 9 da revista Utopia



"Sou "indesejável", estou com os individualistas livres, os que sonham mais alto, uma sociedade onde haja pão para todas as bocas, onde se aproveitem todas as energias humanas, onde se possa cantar um hino à alegria de viver na expansão de todas as forças interiores, num sentido mais alto – para uma limitação cada vez mais ampla da sociedade sobre o indivíduo."

Maria Lacerda de Moura

Um dos temas da história do movimento operário e, particularmente, do anarquismo, que até hoje tem sido pouco pesquisado é o da presença feminina. Na história do anarquismo, e do socialismo no seu conjunto, a atuação das mulheres, mesmo não sendo rara, é significativamente menor do que a masculina. Existem razões de sobra que explicam esse fato. Em primeiro lugar, na composição do operariado que viria a gerar esses movimentos, a percentagem de mulheres foi, ao longo de muitas décadas, muito inferior à dos homens. Um fato ainda mais evidente nos círculos da intelectualidade independente que esteve associada ao nascimento das idéias socialistas. Por outro lado, a cultura familiar reacionária, ou revestida de valores conservadores, estava bem presente no mundo operário do século XIX e primeira metade do século XX, fazendo com que as mulheres acabassem, mesmo nos movimentos sociais, adotando - ou sendo empurradas em alguns casos - para uma posição subalterna, ligada a velhos preconceitos associados a idéias como "fragilidade feminina", papel "maternal" das mulheres ou da sua "passividade".
É certo que em muitos casos era tão-só a histórica divisão de papéis sociais que relegava as mulheres para uma função doméstica que contrariava, ou dificultava, a sua militância social. Talvez por isso, entre as mulheres que mais se destacaram no movimento anarquista, exista um número importante de personagens femininas que optaram por uma vida pessoal independente, onde o casamento e uma relação familiar mais tradicional, ou até a maternidade, foram recusadas em nome da liberdade e da autonomia.
Evidente que o papel das companheiras e cúmplices - sentimentais e de idéias - dos anarquistas, e dos militantes operários em geral, foi de tal forma relevante que constituiu, por si mesmo, uma destacada presença feminina no movimento. Ainda que um feminismo pseudo-radical, incapaz de situar histórica e culturalmente as relações de gênero, veja nessa relação ou em aspectos tradicionais das relações dentro das famílias dos militantes operários e anarquistas a prova irrefutável da manutenção de valores machistas e de sujeição das mulheres nos movimentos anti-burgueses.
A cultura operária anti-capitalista sempre procurou valorizar os direitos intrínsecos e específicos das mulheres. Era também comum, na imprensa e literatura libertárias, a crítica das instituições familiares, do casamento burguês e a defesa do amor livre3 , tematização que alguns pensadores individualistas chegaram a dar um relevo especial. Foi o caso de Emile Armand4 e Han Ryner5 . Mulheres libertárias, como Emma Goldman6 , também deram uma particular atenção ao tema.
Mesmo sendo assim, há que se reconhecer, a presença efetiva, marcante e autônoma das mulheres, no movimento operário e no anarquismo, foi limitada. O que não impediu que em alguns setores operários, particularmente no têxtil, tecelãs e costureiras tivessem um papel determinante na organização e nas lutas sindicais, a partir das quais se destacaram importantes militantes libertárias e socialistas que contribuíram para o anarco-sindicalismo e para o sindicalismo revolucionário internacional. É no contexto da época e das sociedades onde desenvolveram sua militância que poderemos explicar as diferenças de presença, de importância ou de destaque entre mulheres e homens no movimento operário anarquista ou no movimento socialista em geral. Por essa mesma razão, não é de estranhar a ausência de um número mais significativo de teóricas do anarquismo e do socialismo, principalmente no século XIX.
Apesar de tudo isso, nomes como Mary Wollstonecraft7 , companheira de William Godwin8 e precursora do feminismo, Flora Tristán9 , Louise Michel10 , Emma Goldman, Voltarine de Cleyre11 , Lucy Parsons12 , Tereza Mané13 , Federica Monteseny14 , May Picqueray15 , Giovanna Caleffi16 e Luce Fabri17 , deixaram profundas marcas nos movimentos sociais e no pensamento libertário de seus respectivos países. Em Portugal, alguns nomes se destacam: Miquelina Sardinha18 , Virgínia Dantas e Luisa Franco Adão. No Brasil, Edgar Rodrigues, na sua obra Os Companheiros, que reúne em cinco volumes uma ampla pesquisa biográfica de militantes anarquistas, lista o nome de 52 mulheres que tiveram especial relevância no movimento social, no período que vai do final do século XIX à metade do século XX.
Entre estas mulheres, Maria Lacerda de Moura merece um lugar à parte, não só pela sua personalidade combativa, pela sua múltipla atividade de escritora e conferencista, como pelo destaque que chegou a ter, não só no Brasil, como em outros países da América do Sul, tendo os seus textos divulgados em Portugal, na França e, principalmente, na Espanha.
Nascida em Minas Gerais a 16 de maio de 1887, desde jovem se interessou pelo pensamento social e pelas idéias anticlericais. Formou-se na Escola Normal de Barbacena, em 1904, começando logo a lecionar nessa mesma escola. Inicia então um trabalho junto às mulheres da região, incentivando um mutirão de construção de casas populares para a população carente da cidade. Participou da fundação da Liga Contra o Analfabetismo. Como educadora, adotou a pedagogia libertária de Francisco Ferrer Guardia19 . Após se mudar para São Paulo, começou a dar aulas particulares e a colaborar na imprensa operária e anarquista brasileira e internacional. No jornal A Plebe (SP) escreveu principalmente sobre pedagogia e educação. Seus artigos foram também publicados por jornais independentes e progressistas, como O Combate, de São Paulo e O Ceará (1928), de Fortaleza, de onde se extraiu o texto Feminismo? Caridade?, bem como em diferentes jornais operários e anarquistas de todo o Brasil.
Em Fevereiro de 1923, lançou a revista Renascença, publicação cultural divulgada no movimento anarquista e entre setores progressistas e livre-pensadores. A importância desta militante pode ser avaliada, entre outros, pelo fato de que, em 1928, jovens estudantes e trabalhadores paulistas terem invadido o jornal pró-fascista italiano Il Piccolo, como resposta a um artigo que caluniava violentamente a pensadora libertária. Na mesma época, Rachel de Queiroz20 polemizou acaloradamente, nas páginas d’ O Ceará, com um jornalista cearense que atacou Maria Lacerda.
Ativa conferencista, tratava de temas como educação, direitos da mulher, amor livre, combate ao fascismo e antimilitarismo, tornando-se conhecida não só no Brasil, mas também no Uruguai e Argentina, onde esteve convidada por grupos anarquistas e sindicatos locais. Entre 1928 e 1937, a ativista libertária viveu numa comunidade em Guararema (SP), no período mais intenso da sua atividade intelectual, tendo descrito esse período como uma época em que esteve "livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais, religiosos e sociais".
Maria Lacerda de Moura pode ser considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil e uma das poucas ativistas que se envolveu diretamente com o movimento operário e sindical. Entre os seus numerosos livros destacam-se: Em torno da educação (1918); A mulher moderna e o seu papel na sociedade atual (1923); Amai e não vos multipliqueis (1932); Han Ryner e o amor plural (1928) e Fascismo: filho dileto da Igreja e do Capital (s/d).
O texto de Maria Lacerda de Moura que transcrevemos de seguida foi publicado no jornal independente O Ceará (1928), de Fortaleza, a pedido da então jovem escritora Rachel de Queiroz, que se consagraria como uma das grandes romancistas brasileiras contemporâneas. Esse texto expressa o pensamento de Maria Lacerda de Moura sobre o feminismo e sua visão anarco-individualista. Uma filosofia libertária bastante influenciada por Han Ryner, um pensador libertário original que se destacou em França como ativista anti-militarista, anti-clerical e defensor do amor livre. Outra influência notória no texto é a de Emile Armand.
É certo que ele não representa todo o pensamento da anarquista brasileira. Como todo militante, com larga atividade literária, passou por diferentes fases e sua reflexão abordou temas tão diversos comoa guerra, o malthusianismo e a pedagogia libertária.
Polêmica na literatura e na militância, Maria Lacerda de Moura passou pela Maçonaria e pela Fraternidade Rosa Cruz, com quem rompeu denunciando-a como agente do nazismo. Atravessou algumas fases de maior envolvimento social e outras de isolamento, umas de otimismo e outras de declarado pessimismo. E, se no fim da vida, permanecia num certo pessimismo, isso deve-se certamente às divergências e rupturas que, no fim da década de 20, confrontavam anarquistas e comunistas ao mesmo tempo em que acontecia a ameaçadora ascensão do fascismo. No entanto, quando após a fundação do Partido Comunista dirigentes desse partido, fizeram várias tentativas para aliciá-la, a pensadora libertária recusou-se a abandonar sua visão de mundo, mantendo até ao fim da vida o seu anarquismo individualista21 .
Maria Lacerda de Moura é praticamente desconhecida no Brasil, onde um certo feminismo parece querer ocultar aquela que seria uma das primeiras e mais importantes ativistas das causas das mulheres, mas que nunca reconheceu no Estado, no Direito e no acesso profissional burguês a sua causa. Na verdade, isso acontece porque, antes de tudo, via generosamente a luta feminista como parte integrante do combate social compartilhado igualmente por homens e mulheres engajados na luta pela eliminação de toda exploração, injustiça e preconceito. Talvez por isso mesmo, ela seja ainda um símbolo incômodo para toda a sociedade conservadora, até para o atual conservadorismo feminista, mero arrivismo social de classe média em busca do seu lugar ao sol no Estado e no capitalismo, tal comoo foi para as sufragistas da classe média e das elites do seu tempo.A militante anarquista morreu em 1945, no Rio de Janeiro.
Notas:

1 Historiadora e professora da Universidade Federal do Ceará.
2 Doutor em nada, militante anarquista e colaborador da imprensa libertária
3 Giovanni Rossi (1856-1943), idealizador da Colônia Cecília fundada em 1891 por anarquistas italianos no sul do Brasil, chegou a escrever o livro Un Episodio d’amore nella Colonia Cecilia, onde analisa a sua experiência pessoal de um amor plural e as dificuldades de superação das relações e moral convencional numa comunidade libertária.
4 Emile Armand (1872-1963).Um dos mais importantes militantes anarquistas individualistas franceses. Autor de L’ Iniciation Individualiste Anarchiste e Anarquismo e Individualismo.
5 Han Ryner (1861-1938). Pensador e escritor anarquista individualista francês nascido na Argélia. Pacifista, anticlerical e defensor do amor livre. Autor de O Pequeno Manual Individualista e de O Quinto Evangelho, exerceu grande influência sobre Maria Lacerda Moura, mais visível no seu livro Han Ryner e o Amor Plural, de 1933.
6 Emma Goldman (1868-1940). Militante e pensadora anarquista de origem russa, emigrou para os EUA em 1886. Em 1919 foi expulsa para a Rússia, mas logo teve de abandonar o país por discordar do que denominava a evolução autoritária da Revolução Soviética. Viveu em vários países e teve um importante papel no apoio à Revolução Espanhola de 1936. Viria a falecer no Canadá.
7 Mary Wollstonecraft (1759-1797). Ativista libertária inglesa, companheira de William Godwin e autora do livro precursor do feminismo Vindicatin of the Rights of Woman, editado em 1792.
8 William Godwin (1756-1835). Considerado um dos primeiros pensadores anarquistas modernos foi o autor do livro Investigação Acerca da Justiça Política, editado em 1873.
9 Flora Tristán (1803-1844). Libertária, de pais peruanos, nascida em Paris. Preocupada com o problema social, engajou-se nas lutas operárias e escreveu, em 1843, a União Operária, uma das primeiras propostas de organização internacional dos trabalhadores.
10 Louise Michel (1833-1905). Professora e militante anarquista francesa. Participou da Comuna de Paris e acompanhou de forma ativa o crescimento do movimento operário e do anarquismo francês.
11 Voltairine de Cleyre (1866-1912). Uma das mais ativas agitadoras e oradoras anarquistas americanas, colaborou na revista Mother Earth e destacou-se por tratar dos temas referentes às mulheres e ao amor livre.
12 Lucy Parsons (1853-1942). Militante operária e anarquista americana. Companheira de Albert Parsons, um dos mártires de Chicago, continuou sendo uma ativa militante operária até ao final da sua vida, dando destaque aos temas da mulher e do racismo.
13 Teresa Mané (1865-1939). Militante anarquista e professora, ficou conhecida pelo pseudônimo de Soledad Gustavo, foi companheira de Federico Urales e mãe de Federica Montseny, que constituíram uma das famílias mais ativas no movimento anarquista espanhol.
14 Federica Montseny (1905-1994). Uma das mais conhecidas militantes anarquistas espanholas. Militante da CNT, durante a Revolução de 1936 integrou o governo republicano como ministra da saúde, por decisão majoritária, embora polêmica do movimento anarquista.
15 May Picqueray (1898-1983). Anarquista individualista e ativa pacifista francesa.
16 Giovanna Caleffi (1897-1962). Militante anarquista italiana, companheira de Camilo Berneri, assassinado pelos estalinistas em Barcelona. Continuou sua militância em Itália até morrer. Sua filha Maria Louise Berneri, foi também militante anarquista.
17 Luce Fabri (1908-). Ativa militante anarquista uruguaia ainda viva, filha de Luigi Fabri (1877-1935) um dos mais ativos anarquistas italianos deste século.
18 Miquelina Sardinha (1902-1966). Professora e militante anarquista portuguesa, companheira de Francisco Quintal (1898-1987) ativo militante anarco-sindicalista.
19 Francisco Ferrer y Guardia (1859-1909). Pedagogo e militante anarquista espanhol que desenvolveu os princípios da Escola Moderna baseada no ensino misto, laico, crítico e científico. O seu método e filosofia de educação espalharam-se por diversos países entre os quais o Brasil. O movimento operário, principalmente o anarco-sindicalista, criou escolas nos sindicatos baseadas no pensamento de Ferrer. Franscisco Ferrer viria a ser fuzilado, em 1909, em razão das suas idéias e da sua militância social.
20 Rachel de Queiroz (1910-). Romancista e cronista brasileira nascida no Ceará. Autora dos romances: O Quinze; João Miguel; Caminho das Pedras e Memorial de Maria Moura, entre outros. Esteve próxima às posições trotskistas e hoje gosta de se definir como "uma anarquista doce".
21 Embora no livro de Míriam Leite, Outra face do feminismo, se tente provar a aproximação de Maria Lacerda de Moura do Partido Comunista, Otávio Brandão, dirigente comunista da época, e ex-anarquista, desmente na sua autobiografia, Combates e Batalhas (São Paulo: Alfa-Omega, 1978), que a sua tentativa tenha resultado.

Bibliografia consultada:
- Combates e Batalhas, Otávio Brandão. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1978.
- Os Companheiros (vol 1 a 5), Edgar Rodrigues. Florianópolis: Editora Insular, 1997-1998.
- Os Libertários, Edgar Rodrigues. Petrópolis: Editora Vozes, 1988.
- Outra Face do Feminismo: Maria Lacerda de Moura, Míriam Lifchtitz Moureira Leite. São Paulo: Editora Ática, 1984.
- Jornal O Ceará, Fortaleza, 1928.
Adelaide Gonçalves(1) e Jorge Silva(2)



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