20.6.06

A sexualidade e as classes sociais (in «A Revolução Sexual», de Daniel Guérin)


Transcrição do quarto capítulo do livro de Daniel Guérin, «Revolução Sexual, segundo Reich e Kinsey»(Essai sur la révolution sexuelle après Reich et Kinsey», no original),
editado pela Inova (1975)


Breve nota biográfica (retirada da contracapa do livro editado pela Inova):
Daniel Guérin nasce em 1904 de uma família burguesa. Aos 26 anos rompe com o seu meio de origem para se tornar militante revolucionário, e assim manter-se-á durante toda a sua vida. Daniel Guérin foi um autor multiforme: os seus escritos estendem-se desde a sociologia, história, teoria política, sexologia e até ficção.
Muitos das suas obras são hoje verdadeiros clássicos nas respectivas matérias.
Ideologicamente Daniel Guérin reivindica-se do chamado marxismo libertário, entre o anarquismo e o marxismo, e por isso mesmo, é um dos nomes mais citados pelos estudantes revoltosos em Maio de 68.
Muito antes de Maio de 68, Daniel Guérin já desmascarava o puritanismo e defendia a revolução sexual ao lado da revolução social, apoiando-se em Wilhelm Reich e Alfred Kinsey.
Para Daniel Guérin, a liberdade de cada um praticar o amor à sua maneira faz parte dos direitos do homem: confunde-se com a liberdade, simplesmente.

Nota prévia de advertência deste weblog:
os inquéritos sobre as práticas sexuais foram realizados por Kinsey nos Estados Unidos na década de 50, e os comentários de Guérin foram escritos no final da década de sessenta. Apesar de serem algo datados, a verdade é que estes dados ( e comentários subsequentes) são imprescindíveis caso se queira fazer uma análise histórica e sociológica acerca da sexualidade nas sociedades contemporâneas.




Kinsey, se bem que menos orientado para a sociologia do que para a biologia, consente no entanto em fazer uma incursão na primeira destas duas ciências quando enumera as diferenças de comportamento que lhe foi possível verificar em toda a escala social. Mas tais observâncias são limitadas pela sua repugnância ( bem americana) em admitir que existem classes sociais: apenas pretende conhecer «níveis de instrução» ou «categorias profissionais». Comete o deslize de se limitar a alinhar cifras e a traçar curvas sem demasiada preocupação em interpretar as variações registadas.

Para Kinsey, as diversas camadas sociais são todas elas inibidas sexualmente, obedecendo a «tabus» cuja origem remonta à moral judaico-cristã. Mas, segundo a sua opinião, tais tabus não são por elas observadas do mesmo modo. O que é «tabu» para as camadas ditas «superiores» é-o em menor grau para as classificadas de «inferiores».

Comecemos pelas interdições de que são vítimas as chamadas classes «superiores» e com as quais as «inferiores» se preocupam muito menos.

De um modo geral, a actividade sexual global das camadas «superiores» é bastante menor que a das camadas «inferiores». Kinsey dividiu a sociedade em 3 camadas e em função do seu nível de instrução, que ele cifra respectivamente: 0 a 8 ( instrução primária), 9 a 12 ( instrução secundária), 13 e mais ( instrução superior) e traça a curva da actividade global das 3 categorias, dos 10 aos 45 anos. Enquanto que as curvas das duas primeiras categorias coincidem até cerca dos dezassete anos ( ou seja, a idade em que cessa a instrução da 1ª categoria), elas afastam-se a seguir ligeiramente até cerca dos 40 anos. Os louros cabem aos que têm apenas a instrução primária. Quanto à curva da terceira categoria, ela diverge muito acentuadamente em comparação com as duas primeiras desde os 12 anos de idade com clara desvantagem da actividade sexual para as camadas «superiores», ainda que a distância diminua sensivelmente depois dos 30 anos de idade.

As camadas sociais ditas «superiores» são menos precoces que as classificadas de «inferiores». Três quartos dos rapazes que não ultrapassam a escola primária exercitam-se no coito pré-adolescente ( e muitas vezes vão mesmo até ao acto sexual consumado) contra apenas um quarto dos rapazes que vão frequentar o ensino secundário.

Nos adolescentes das camadas «inferiores» o coito pré-conjugal é absolutamente corrente e considerado como normal e mesmo saudável, enquanto que as camadas «superiores» estão mais impregnadas do conceito cristão que atribui a mais alta importância à virgindade antes do casamento, ainda que em maior grau no referente à mulher. 98% dos rapazes que não continuam os estudos após a escola primária praticam o coito antes do casamento, contra 84% dos rapazes de formação secundária e 67% dos que prosseguem os seus estudos na universidade.

A frequência das relações sexuais entre os 16 e os 20 anos eleva-se a uma média entre 2 e 4 vezes por semana nos rapazes que só têm a instrução básica, contra 1,5 para os que frequentam o secundário e 0,3 para os universitários.

Contrariamente aos das camadas «superiores», os homens pertencentes às camadas sociais inferiores não se preocupam com a escolha das suas companheiras, dado que possuem menos exigências estéticas a satisfazer e menos convencionalismos a respeitar. Pelo contrário, preferem prazeres positivos e que não os façam incorrer em obrigações sociais ou emocionais. Ainda entre os 16 e 20 anos, os rapazes das camadas «inferiores» ( ou com apenas escolaridade básica) têm relações sexuais com prostitutas 9 vezes mais frequentes que os que frequentam a universidade, enquanto os rapazes do nível «secundário» frequentam-nas mais de 4 vezes que os «universitários».

É sobretudo entre os «primários» e, em menor grau, entre os «secundários» que se encontra um gosto muito vivo pela variedade das companheiras sexuais.

Finalmente, os «universitários» são obrigados a contentar-se com prazeres imaginários em muito maior medida que os rapazes menos instruídos. O conceito de sexo evoca nele a masturbação, as poluções nocturnas, as carícias e uma avidez incessante de raparigas que só muito raramente aceitam copular com ele.

Nas mulheres, algumas destas diferenças são diametralmente opostas. Assim, por exemplo, apenas 30% das raparigas que têm «ensino primário» têm coitos pré-conjugais, contra 47% das que só frequentam até ao fim do «ensino secundário» e 60% das «universitárias». Claro está que estas estatísticas estão falseadas pela simples razão de que o casamento não tem lugar, nas 3 camadas ou categorias, na mesma idade de vida: as das camadas «inferiores» casam-se muito mais cedo, pelo que têm menos oportunidade de praticarem o coito pré-conjugal. Se restringir-mos a análise às mulheres que casam com a mesma idade, apercebemo-nos que a percentagem do coito pré-conjugal não varia demasiado em função do nível de escolaridade. Kinsey concluiu desse facto que os factores sociais influenciam mais o comportamento sexual dos homens que o das mulheres. E também neste aspecto ele abstém-se de levar as suas deduções até ao fim. Se os factores educacionais exercem menos influência sobre o comportamento das mulheres que sobre o dos homens, é, sem dúvida, porque todas as mulheres, sem distinção do nível de instrução, estão ainda, em larga medida, subjugadas pelo patriarcado e, portanto, inibidas por essa mesma razão.

No que se refere à homossexualidade, Kinsey faz uma constatação que confirma as suas afirmações precedentes quanto ao carácter natural desta conduta: ela é mais praticada pelos elementos que só têm a instrução básica do que pelos que possuem formação superiora, além de que aqueles, comparativamente a estes últimos, são muito raramente exclusivos.

Resumindo: sob muitos aspectos, as chamadas camadas «inferiores» são menos inibidas pelos tabus anti-sexuais que as camadas «superiores», e encontram-se muito mais próximas da natureza que as ditas «superiores»

Acontece que as camadas «inferiores» sofreriam, por seu lado, de certas inibições que atormentam em menor medida os membros das camadas «superiores».
Assim, por exemplo, aquelas não gostam de fazer durar o acto sexual durante tanto tempo como os das pretensas elites sociais, e isso talvez porque as suas capacidades imaginativas e emocionais são menos apuradas. Praticam, também, menos livremente os contactos bucais. Possuem ainda mais preconceitos perante a nudez ( tida como obscena) no momento das relações sexuais. Têm menos necessidade de estimulantes psicológicas (imagens eróticas, literatura «perversa»). Dedicam-se menos à masturbação e são mais reticentes quanto a ela.

Perante tais diferenças, Kinsey comete o erro de as atribuir pura e simplesmente a um maior respeito popular por certos tabus, quando também se podem explicar por uma maior conivência com a natureza, uma menor intervenção da actividade cerebral e das aquisições culturais na sexualidade das amplas massas.

É verdade, sem dúvida, que também o povo é prisioneiro de tabus, mas menos que as pretensas «elites» e somente na medida em que a religião ainda o subjuga. Mas os tabus não são tão rígidos, pelo que a sua sexualidade se mantém fundamentalmente «pagã». O povo, entregue a si próprio, pratica o amor também de uma maneira simples e espontânea.

Ou seja, a revolução sexual, tal como a revolução social, é, antes de tudo, obra do povo.

As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros - Os vendedores de doenças

retirado de
http://ecodebate.com.br/



As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa “síndrome” que exige tratamento


Autores:
Ray Moynihan,
Alain Wasmes

Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune seu desespero por ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Explicando preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley’s – fabricante e distribuidor de gomas de mascar –, Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às... pessoas saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de “vender para todo mundo”. Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.

As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais pessoas, transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de 500 bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença – mudando assim literalmente o que significa ser humano. Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.

A fabricação das “síndromes”A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis preocupadas com a saúde em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndomes graves, de tal modo que a timidez torna-se um “problema de ansiedade social”, e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada “problema disfórico pré-menstrual”. O simples fato de ser um sujeito “predisposto” a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.

O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais famacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos – e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.

De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado “A arte de catalogar um estado de saúde”, Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para “favorecer a criação” dos problemas médicos [1]. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova “disfunção”. Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual – uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.

Médicos orientados por marqueteiros (propagandista das farmacêuticas)

Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.

Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para “criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde”. O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, “de uma nova maneira de pensar nessas coisas”. O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.

Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de “criar mercados de novas doenças” traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser “convencidas” de que “problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição” são “dignos de uma intervenção médica”. Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: “Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa”.

Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o “normal” do “anormal” são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.

Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado “hipertensão arterial”; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de 40 milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.


Quanto mais alienados, mais consumistas

A remuneração dos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influências. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, médicos e indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.

As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo de marketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no célebro.

O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.


A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas de marketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.


O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de “pacientes”. Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.


A “medicalização” interesseira da vida

A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a “toda e qualquer pessoa do mundo”. O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.


Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão do establishment médico estava prestes a “medicalizar” a própria vida, minando a capacidade das pessoas enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, “que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias [2] ”.

Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou “a venda de doenças”: ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos [3]. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido do marketing e que se consolidas as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.

(Tradução: Wanda Caldeira Brant)
wbrant@globo.com

Bibliografia complementar:


* A revista médica PLoS Medecine traz, em seu número de abril de 2006, um importante dossiê sobre “A produção de doenças” – http://medicine.plosjournals.org/
* Na França, as revistas Pratiques (dirigida ao grande público) e Prescrire (destinada aos médicos) avaliam os medicamentos e trazem um olhar crítico sobre a definição das doenças.
*Jörg Blech, Les inventeurs de maladies. Manœuvres et manipulations de l’industrie pharmaceutique, Arles, Actes Sud, 2005.
* Philippe Pignarre, Comment la dépression est devenue une épidémie, Paris, Hachette-Littérature, col. Pluriel, 2003.
[1] Ler, de Vince Parry, “The art of branding a condition ”, Medical Marketing & Media, Londres, maio de 2003.
[2] Ler, de Ivan Illich, Némésis médicale, Paris, Seuil, 1975.
[3] Ler, de Lynn Payer, Disease-Mongers: How Doctors, Drug Companies, and Insurers are Making You Feel Sick, Nova York, John Wiley & Sons, 2002.



Texto traduzido de Le Monde Diplomatique-Brasil,

in EcoDebate.com.br - 16/06/2006


A mais bonita camisola da selecção brasileira...

Por via de http://www.sindromedeestocolmo.com/ soubemos de uma manifestação realizada em Londres neste últimos dias que foi liderada por Abul Koyair, 20 anos, e que visava protestar contra as operações antiterror da polícia britânica.
Abul Koyar apareceu vestindo uma camisola da selecção brasileira, em homenagem a Jean Charles de Menezes (alguns parentes deste estavam também presentes).

Koyair, nascido em Londres, é mais uma vítima da atual violenta polícia britância. Tomado totalmente de surpresa o seu irmão foi baleado e dois outros ficaram detidos vários dias, antes de serem soltos, sem nenhuma acusação formal.
É a guerra de Bush e Blair contra os "terroristas": Primeiro atiram, depois averiguam.
Viver em Londres ficou muito perigoso



Colher para Semear - Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais


COLHER PARA SEMEAR

Rede Portuguesade Variedades Tradicionais

PORQUÊ PRESERVAR VARIEDADES TRADICIONAIS?


A perda da biodiversidade agrícola, em todo o mundo, é da ordem dos 75%, segundo estudo da FAO em 1984. A situação portuguesa contribui certamente para este panorama, tendo em conta o número de variedades desaparecidas nas últimas décadas das nossas hortas e pomares. Poderemos apontar várias razões para esta situação.

A generalização do uso de sementes híbridas na agricultura contribui para aumentar a pobreza varietal e também para a dependência dos agricultores: devido à degeneração e perda natural de vitalidade destas sementes logo à segunda geração, a sua compra anual torna-se necessária. O comportamento actual dos agricultores que deixam de colher sementes das suas culturas, preferindo comprar os lindos pacotes que os cativam com as fotografias e as promessas de boas colheitas, é outra destas razões.

Por outro lado, a aglutinação das pequenas casas de sementes, geralmente por parte das multinacionais do ramo, reduziu drasticamente a oferta de variedades regionais e tradicionais, pois estas não têm qualquer interesse económico num sistema globalizado. Por essa razão, hoje cultivam-se as mesmas variedades por todo o mundo, não se adaptando estas, como é óbvio, a todos os climas, microclimas e tipos de solos existentes. Consequentemente, necessitam de uma gama enorme de biocidas para completar o seu ciclo, contribuindo assim para os efeitos sobejamente conhecidos de poluição a vários níveis, e para a redução da qualidade alimentar

As variedades que empreenderam uma viagem ao longo de inúmeras gerações para chegarem até nós, foram cuidadosamente criadas e acompanhadas, muitas vezes com grandes sacrifícios, pelos nossos antepassados. São a nossa herança mais preciosa, elas são a vida em forma de semente, são o nosso passado sem o qual não existiria vida em nós. Cabe-nos portanto dar continuidade a essa herança que nos foi tão generosamente cedida, semeando estas variedades, dando-lhes vida e utilidade, podendo assim ser vistos com orgulho por aqueles que nos antecederam, e também pelas gerações vindouras.

OBJECTIVOS DA ASSOCIAÇÃO:

- Inverter a situação actual de contínua perda de biodiversidade genética agrícola, por meio da recolha, cultivo e catalogação das variedades tradicionais ainda existentes;

- Formar e incentivar os agricultores para a recolha anual das suas próprias sementes, assim como estimular a sua troca, assegurando-lhes uma independência e autonomia em termos de sementeiras;

- Contribuir para o conhecimento do nosso património vegetal, promovendo e participando em colóquios e feiras com exposição de sementes, levando o tema onde for necessário;

- Promover o uso de variedades tradicionais em agricultura biológica por estas estarem melhor adaptadas ao local de cultivo e terem menos problemas fitossanitários;

- Estimular o uso de legumes esquecidos, para uma maior diversidade alimentar e uma culinária mais rica, atractiva e completa;- Dar a conhecer aos jovens a herança que nos foi transmitida pelos nossos antepassados, pois cada semente tem um percurso e uma história própria;

- Defender a segurança alimentar continuando a semear as nossas variedades tradicionais de polinização aberta, perfeitamente adaptadas ao seu meio de origem, em detrimento das práticas actuais que usam as sementes híbridas e, no pior dos cenários, as sementes transgénicas ou geneticamente modificadas.

COMO CONTRIBUIR?

Para concretizar estes objectivos, que são do interesse de todos nós, é necessária a contribuição do maior número de pessoas.De que modo?

- Através da inscrição como sócio;
- Pela oferta de donativos ou géneros;
- Voluntariado em diversas áreas: parte administrativa, pesquisa e trabalho de campo, recolha e propagação de sementes, inventariação, outras áreas relacionadas com as actividades da associação;
- Ser sócio guardião de sementes: comprometendo-se a multiplicar a(s) variedade(s) que apadrinhar, devolvendo à associação parte da sua colheita anual, devidamente seleccionada.

Este sócio deve ter assistido previamente a uma oficina de formação sobre recolha, caracterização e propagação de sementes. O sócio guardião é mencionado no catálogo de variedades como reprodutor da semente que apadrinhar.

INFORMAÇÕES E CONTACTOS:

Colher Para Semear
Rede Portuguesade Variedades Tradicionais
Quinta do Olival, Aguda3260 Figueiró dos Vinhos

José Miguel Fonseca - 236 622 218

Graça Ribeiro - 91 490 9334

fcteixeira@esb.ucp.pt
gcaldeiraribeiro@gmail.com"



Boletim de Inscrição de Sócio (Por favor, preencher com letras bem legíveis, de preferência com maiúsculas)Nome: ___________Morada: ____Localidade: ___ Código Postal: ___E-mail: _ Telefone/ Telemóvel: ___Data de Nascimento: __Profissão: ____ Nacionalidade: ____Nº contribuinte: ______
Quota anual: o Sócio individual 35 ¤ o Sócio colectivo 70 ¤ o Sócio estudante/reformado/menor de 16 anos 17,5 ¤ o Donativo de _____________
Pretende receber sementes*?
o Sim
o Não
Pagamento por cheque nº __ do Banco _____No valor de
à ordem de Colher para Semear
Data ___________________
Assinatura ______

Preencha e envie para: Colher para Semear, Tv. Convento de Jesus, 47 - 2º dto, 1200-125 LISBOA*Os sócios da associação Colher Para Semear têm o direito a: participar em todas as actividades promovidas ou apoiadas pela associação (p. e. encontros, oficinas de formação) com direito a redução de entrada quando praticável; receber o boletim interno e circulares; usufruir anualmente de um número de variedades, que serão definidas e disponibilizadas pela Direcção a partir de uma lista anual.

18.6.06

A redução da diversidade genética das culturas agrícolas


Redução da biodiversidade agrícola: cultiva-se hoje 150 espécies, em contraste com as 7.000 que foram cultivadas no passado

A diversidade das culturas está a reduzir-se nos terrenos agrícolas de todo o mundo a um ritmo galopante. A FAO adverte que ao longo dos últimos cem anos se perderam 75% das variedades agrícolas.

A erosão deste património significa uma menor capacidade de resistência e adaptação às doenças e às mudanças climáticas.

Foram estas as conclusões a que se chegou numa reunião que foi promovida pela FAO na semana passada em Madrid e que teve em vista avaliar a aplicação do Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos que entrou em vigor em 2004

Constatou-se que a agricultura mecanizada e as exigências do mercado estão a reduzir a um ritmo vertiginoso a variedade das culturas agrícolas um pouco por todo o mundo.

Note-se que historicamente o Homem utilizou entre 7.000 e 10.000 espécies, ao passo que hoje só se cultivam tão só 150 espécies, doze das quais representam 75% do consumo alimentar humano.

Os recursos fitogenéticos para a alimentação e a agricultura constituem a base biológica da segurança alimentaria mundial e sustentam, directa ou indirectamente, os meios de sustento e de vida de todas as pessoas do planeta. Compreendem a diversidade genética das variedades tradicionais e das culturas agrícolas modernas, assim como as das espécies silvestres aparentadas e ainda outras plantas silvestres que se podem hoje ou no futuro utilizar na alimentação e agricultura. Em termos gerais estes recursos fitogenéticos abrangem os recursos que contribuem para os meios de sustento da vida ao proporcionarem alimentos, medicamentos, forragens para os animais domésticos, fibras, roupa, casas, energia e um grande número de outros produtos e serviços.

Ao longo da toda a história da Humanidade os seres humanos utilizaram milhares de espécies vegetais para a alimentação, muitas das quais se foram dosmesticando. Mas hoje cultivam-se tão só 150 espécies de plantas, das quais só 12 proporcionam cerca de 75% dos alimentos que toda a população mundial consome e se alimenta. E desses só quatro espécies são responsáveis pela metade dos nossos alimentos.

Esta evolução mostra a vulnerabilidade da agricultura e representa um claro empobrecimento da alimentação humana.

Além disso, muitas culturas locais que tradicionalmente serviam para alimentar as camadas mais pobres da população estão subutilizadas ou a ser negligenciadas.
Esta é a conclusão a que chega o primeiro relatório da FAO sobre a situação dos recursos fitogenéticos mundiais

Para consultar o Relatório da FAO que serviu de instrumento de trabalho, ver:
http://www.fao.org/biodiversity/crops_es.asp

A revolta dos estudantes negros do Soweto foi há 30 anos




Em 16 de Junho passaram 30 anos da revolta estudantil do Soweto que
Constitui um marco importante no declínio e derrube do sistema de apartheid que então existia na África do Sul e mediante o qual a lei legalizava e institucionalizava a descriminação racial para com as pessoas de cor negra, ainda que estas fossem a esmagadora maioria da população.


Em 16 de junho de 1976, milhares de jovens sul-africanos revoltaram-se no município de Soweto, África do Sul, contra a decisão do governo branco da altura em impor a língua afrikaans como língua obrigatória do ensino, juntamente com o inglês.. Tratava-se de uma medida humilhante e cruel porque o afrikaans não era vista como a língua do opressor", mas ainda porque os estudantes negros falavam pouco ou mal este idioma, surgido do holandês.


"Os alunos não conseguiam aprender em afrikaans e os professores não podiam ensinar nesta língua", explicou Pandor, que vivia no exílio na época da rebelião. "Era uma política estúpida", mediante a qual o governo do apartheid esperava "impor a sua ideologia", acrescentou. Na manhã de 16 de junho de 1976, milhares de estudantes invadiram as ruas de Soweto, em protesto.

A manifestação começou em calma, mas a dada altura a polícia abriu fogo. O primeiro a cair foi Hector Pieterson, de 13 anos. A foto de seu corpo, carregado por um amigo com o rosto coberto de lágrimas, deu a volta ao mundo.

Os estudantes responderam atirando pedras. A polícia e as autoridades responderam então com um verdadeiro massacre de que resultou a morte de mais 500 jovens estudantes negros.


Aquele dia deu origem a uma onda de indignação no exterior e marcou na África do Sul o ponto de partida de uma rebelião que se espalhou por todo o país e em poucas semanas deixou centenas de mortos.

"Os acontecimentos deste dia tiveram repercussões em todos os municípios da África do Sul. Os funerais das vítimas das violências do Estado se tornaram locais de motins nacionais. Subitamente, os jovens sul-africanos assumiram um espírito de protesto e rebelião", escreveu nas suas memórias o ex-presidente sul-africano e Prêmio Nobel da Paz Nelson Mandela.

Embora esta decisão de impor o afrikaans tenha sido um detonador, esta revolta traduziu também um agudo sentimento de frustração e uma profunda cólera. Foi a conseqüência de uma segregação racial sistemática, acentuada por um contexto econômico difícil depois da euforia dos anos 60, cujas conseqüências foram pagas em primeiro lugar pelos negros.

O massacre de Soweto, perpetrado pelo regime racista da África Sul nos subúrbios de Joanesburgo – na cidade-dormitório de Soweto, verdadeira reserva de força de trabalho negro para as minas de ouro foi a resposta do regime racista para a revolta contra as condições infra-humanas em que vivia a sua população, contra a falta de direitos, contra o racismo. Na África do Sul de então a vida de um negro nada significava para o poder político.

O Soweto ficou como símbolo da resistência ao appartheid e tornou-se um estigma que levou ao isolamento dos racistas, à sua condenação, e ao princípio do fim de um regime execrável.

16.6.06

Saiu o nº 21 da revista Utopia com um dossier sobre ecologia


Foi lançado na semana passada o nº 21 da Utopia, revista anarquista de cultura e intervenção, editada pela Associação cultural A Vida, e que se encontra já à venda nas livrarias e nos centros de cultura libertária espalhados pelo país.
Este último número contém um dossier dedicado à ecologia com vários textos sobre a relação entre anarquia e ecologia, o decrescimento, a água e várias outras questões ambientais. Inclui ainda uma extensão abordagem da vida e obra de Élisée Reclus, notável geógrafo e conhecido militante anaquista.
Pode-se ainda encontrar ao longo da revista, com um renovado aspecto gráfico, artigos sobre as recentes lutas contra a precariedade em França, a manipulação da televisão, os tumultos do passado mês na cidade brasileira de S.Paulo, os cafés lisboetas frequentados pelos anarquistas, e um texto de autoria de Edson Passetti sobre a parrésia anarquista.
Uma breve recensão crítica de livros e uma extensa lista de publicações recebidas pela redacção servem para rematar o conteúdo desta edição da revista.
Como se pode constatar temos aí mais um número da Utopia (nº21), cheio de interesse e que bem merece uma leitura atenta.


www.utopia.pt

13.6.06

Objecção fiscal: Se queres a paz, não pagues a guerra

Objecção fiscal: não pagar impostos que sejam para fazer a guerra!


Se queres a paz, não pagues a guerra

Com o teu dinheiro, tu é que decides!


2 mísseis tomahawkk= 1 colégio


3 tanques leopardo= 1 hospital


1 caça eurofighter = 25 hospitais
.
1 porta-aviões = 50 hospitais


O Estado e a carnificina selvagem do século XX



200 milhões de pessoas foram assassinadas ao longo do século XX.
Não temos por isso direito a dizer que os outros séculos foram mais selvagens que este, pela simples razão de que o século XX foi, ao longo da história, o mais selvagem de todos. E o que tornou isso possível foi a existência do Estado.

Martin Van Creveld, expert militar

Da gratuitidade (Jean-Louis Sagot Duvaroux)


Tradicionalmente a «cultura da gratuitidade» está associada aos antípodas do mercado, a uma forma alternativa de encarar as trocas, assim como a tentativas de emancipação social, e liga-se ainda habitualmente aos usos e costumes das oferendas. Infelizmente todo este património cultural tem vindo a perder-se com a emergência e a consolidação do todo-poderoso mercado e as suas subsequentes trocas mercantis. Ultimamente o marketing e o consumismo perverteram ainda mais a ideia e o acto gratuito do uso e benefício dos mais variados bens. O acesso gratuito ao ensino, e os serviços públicos, como os fornecidos pelo serviço nacional de saúde têm vindo também a sofrer ataques sob a forma de taxas e várias outras formas de pagamento, tudo com vista a satisfazer a ânsia do lucro e dos equilíbrios orçamentais.

Por essa e outras questões é que se torna oportuno a leitura do último livro do autor que mais tem escrito sobre a gratuitidade, Jean-Louis Sagot_Duvaroux, com o título «De la gratuité», editado pelas edições L’éclat.

O livro pode ser descarregado gratuitamente em :

www.lyber-eclat.net/lyber/sagot1/gratuite.html

À Milú Rodrigues, ministra da educação ( segundo consta por aí)


em época de santos populares aqui divulga-se uma recente cantiga de escárnio e maldizer em homenagem de uma paixão não correspondida…



No dia dos Namorados
Solto a minha paixão…

Quando te imagino a «decretar»
Parte-se-me o coração;
Começo logo a ansiar
Por mais uma «substituição» …

Teus negros e doces olhos,
Tua face tão altiva
Arrebata-me o desejo
P’la tua «componente não lectiva» …

Teu nariz arrebatado
Símbolo de tanta firmeza
Mais consegue realçar
Contra os professores a dureza

Sou tímido, eu sei;
E cuidadoso no trato,
Mas, sem tremer, colocarei
No cacifo o teu retrato…

Nas longas horas que passo
Na «sala de estudo», aos bocados,
Vou enchendo resmas de folhas
Com corações trespassados…

E na «sala do aluno» faria
Se não fosse tanta confusão,
Juras de eterna poesia
Vertendo a minha paixão…

Nas horas de «Bibliotecar»,
Pesquiso sempre à procura
De nas revistas encontrar
Tua adorada figura…

Só não consigo cmpreender
Meu amor não correspondido;
Passo meus dias na Escola,
Ando, por aqui, todo partido…

Com tamanha frustração
E injusto sofrimento
Meu amor tornou-se aversão
E a Escola um tormento

Autor: um docente da Escola EB 2,3 de Gualtar

9.6.06

Greenpeace pede a retirada das 480 bombas nucleares dos Estados Unidos do solo europeu


Militantes da Greenpeace, originários de vários países ( Bélgica, Alemanha, Itália, Países Baixos, Turquia, Grã-Bretanha) introduziram-se hoje de manhã no recinto da NATO a fim de exigir a retirada de 480 bombas nucleares norte-americanas que se encontram em solo europeu e prontas a ser usadas.

Às 6 horas desta manhã um camião da Greenpeace semelhante a uma réplica em tamanho real (3,7 metros de altura) de uma bomba nuclear americana do tipo B61 bloqueou a principal entrada do quartel general da NATO. Dentro dele estavam os militantes que traziam as bandeiras dos 6 países em que se encontram armazenadas as bombas norte-americanas.
Simultaneamente outros militantes entravam no recinto e desfraldaram sobre o símbolo gigante da NATO uma bandeirola a reclamar o desarmamento nuclear da Aliança Atlântica.
O protesto levou à detenção dos 24 militantes da Greenpeace e ocorre ao mesmo tempo em que os ministros de defesa dos países da NATO estão reunidos em Bruxelas para discutir o futuro da NATO.
16 anos depois do fim da guerra fria, 480 bombas nucleares norte-americanas (consultar: Hans Kristensen, "U.S. Nuclear Weapons in Europe : A Review of Post-Cold War Policy, Force Levels, and War Planning" (Natural Resources Defense Council, Washington DC, February 2005) ainda se encontram em território europeu no quadro da NATO e espalhadas por diversos países (Alemanha, Bélgica, Itália, Países Baixos, Turquia , Grã-Bretanha). Note-se que cada uma dessas armas tem uma capacidade destrutiva 10 vezes superior à bomba que destruiu Hiroshima e o conjunto de todas elas teriam capacidade de arrasar a Europa inteira do mapa.
Na passada semana a Greenpeace tinha divulgado uma sondagem junto da opinião pública europeia que mostrava como uma larga maioria dos europeus desejavam um Europa sem armas nucleares.
http://www.greenpeace.org/internati...
«Os ministros de defesa devem tomar em consideração a vontade popular a favor da retirada das bombas da Europa e agir em consequência», declarou Donna Mattfield, a activista da Greenpeace encarregada pela campanha desarmamento nuclear.
Há alguns dias atrás, no relatório da Comissão sobre as Armas de Destruição Massiva, então divulgado, o seu presidente, Hans Blix, incluiu na lista das recomendações 2 pontos relativos ao reenvio das 480 bombas nucleares para os Estados Unidos. O relatório fornece informações muito precisas sobre os perigos ligados à presença destas armas na Europa, como o facto destas armas perturbarem os esforços internacionais empreendidos para relançar o desarmamento, citando o caso da Rússia.

Os governos dos países membros da NATO deverão decidir durante o presente ano o futuro desta aliança militar, podendo exigir o reenvio destas bombas ao seu proprietário. Aliás, um tal procedimento já tem precedentes no passado: o Canadá, a Grécia, a Dinamarca, a Islândia são hoje países sem bombas norte-americanas que tinham sido lá instaladas.

Num período de tensões muito vivas como actualmente se vive, a propósito da questão iraniana, a presença das bombas norte-americanas tácticas viradas para o Médio Oriente representam para o Irão uma ameaça muito directa que não ajuda em nada as negociações em curso com esse país.
«No momento em que as doutrinas do emprego de bombas nucleares evoluem, nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e agora em França, para a ideia da guerra nuclear preventiva, essas bombas tácticas são uma ameaça directa para o Irão e um obstáculo à resolução do conflito com este país » declarou Xavier Renou, encarregado para a campanha de desarmamento nuclear da Greenpeace francesa. E acrescentou: « Os países europeus devem reconhecer que esta violação do Tratado de Não Proliferação descredebiliza a sua posição face ao Irão e impede o relançamento do processo do desarmamento nuclear em todo o mundo.»

Nota : os países membros da NATO vão reunir-se em Novembro próximo para discutir o futuro da NATO e a sua adaptação para o século XXI

8.6.06

Prémio Tuvalu vai para Durão Barroso por andar diariamente em plena cidade de Bruxelas … numa viatura de todo-o-terreno !!!


Cada ano um júri composto por activistas de três associações ecologistas internacionais - «Agir pour l’environnement», «Action Climat», «Transport & Environnment» - escolhe o premiado do chamado «prémio Tuvalu do desregramento climático», designação essa que tem origem no nome da ilha do oceano Pacífico ameaçada pela subida do nível das águas como consequência do aquecimento do planeta. Trata-se obviamente de um anti-prémio pois que visa justamente denunciar a acção de um actor, político ou económico, que se tenha mostrado incapaz de agir a favor da luta contra o desregramento climático.

Para este ano a escolha do júri recaiu sobre Durão Barroso, presidente da Comissão europeia pelo facto do dito cujo, sobejamente conhecido pelos portugueses, se deslocar diariamente dentro da cidade de Bruxelas com a sua viatura pessoal que é, nada mais nada menos, uma viatura 4x4 de todo-o-terreno (!!!), que gasta mais de 13.2 litros aos 100Km em circulação urbana e que produz, pelo menos, 265g de CO2/km percorrido ( sem contar a climatização), ou seja, mais de 60 toneladas de CO2 ao longo da sua vida útil.

Curiosamente é o próprio presidente da comissão europeia que acaba de lançar, pessoalmente, esta semana uma campanha europeia no sentido de sensibilizar os cidadãos para o problema do aquecimento planetário que, pelos vistos, não se aplica à sua pessoa, uma vez que ao circular, em plena cidade de Bruxelas, num modelo como o Volkswagen Touareg, Durão Barroso está, com o seu mini-camião, a emitir no mínimo 265g de CO2/km, isto é, duas vezes mais que o objectivo fixado pela Comissão Europeia no quadro do acordo voluntário dito ACEA.

Recorde-se que este acordo assinado entre a comissão europeia e os construtores de automóveis estipula que em 2008 os novos carros lançados no mercado deveriam produzir dióxido de carbono até ao limite de 120 gramas…Os jurados fustigam duramente Durão Barroso por este se mostrar inconsequente face à campanha de sensibilização contra o aquecimento global, promovida pela própria comissão, e o seu comportamento constituir um péssimo exemplo para todos os cidadãos europeus no que respeita às atitudes e condutas individuais a tomar a fim de lutar contra o aquecimento global do planeta

O mercado do futebol e da prostituição a propósito do campeonato mundial de futebol na Alemanha


Texto-comunicado da
www.federation-anarchiste.org

O escândalo da abertura de bordéis gigantes (hiper-bordéis) na Alemanha não pára de aumentar à medida que se aproxima o Mundial do futebol. O desporto-negócio sempre estimulou o mercado da prostituição em paralelo aos grandes acontecimentos desportivos. E a legalização da prostituição além-Reno permite aos capitalistas explorar daqui para a frente mais esta mina financeira. Recorde-se que o maior bordel da Europa – o Artémis – pode acolher em Berlim 650 clientes para 100 prostitutas e isto não é senão um começo…

A consequência directa da criação do Artémis é a chegada de milhares de prostitutas vindas dos países economicamente dependentes ( Europa do leste, mas também da América Latina). Trata-se de um verdadeiro tráfico de carne humana, orquestrado para favorecer os empresários do Artémis e de todos os proxenetas que consideram as mulheres como mercadorias e encaram os clientes como consumidores de produtos de supermercado.

Estes bordéis são a consequência de uma sociedade iníqua onde a lógica do lucro predomina: enchem-se de mulheres «a render», a quem convencem com rendimentos «fáceis», sem qualquer protecção social. Artémis é o sonho de todos os patrões e, principalmente, a consequência da degradação dos direitos sociais e da precarização generalizada. A indústria da prostituição é de tal modo lucrativa que o investimento de 6,4 milhões de euros fica quase pago em 6 meses. Os promotores do Artémis reivindicam-se do modelo do MacDonald ... Trata-se na verdade de um dos mercados mais lucrativos, juntamente com o das armas e o das drogas.


A legalização da prostituição na Alemanha e nos Países Baixos não mudou o problema de fundo e se a legalização permitiu a saída de uma situação hipócrita de invisibilidade, o certo é que não trouxe a melhoria das condições de vida de numerosas prostitutas: precariedade, suicídio, reféns de redes mafiosas, violências, drogas, etc. De resto, o efeito foi aumentar o número de prostitutas em situação de precariedade: estima-se que 25% das prostitutas do Artémis sejam mulheres sem papéis legais. E a situação piora quando se sabe que os serviços sociais alemães estão impossibilitados de fazer um trabalho de informação e de investigar as condições de prevenção e de higiene porque simplesmente os seus elementos não poderão entrar !!!

O Estado alemão tem inteira responsabilidade por esta situação uma vez que é ele que vai embolsar dinheiro fácil graças a esta mina que é o turismo sexual. E não se esqueça que em França as leis de sarkozy preferem criminalizar as prostitutas do que os proxenetas e os clientesA crescente pauperização causada pela economia liberal estimula e desenvolve a prostituição, pelo que a melhor forma de lutar contra os bordéis organizados é combater a favor da igualdade social e pela partilha de riquezas.Por natureza, o Estado prefere sempre salvaguardar os interesses dos capitalistas.Combater os bordéis e a prostituição é lutar contra o capitalismo e a ordem patriarcalPor um mundo solidário, igualitário e de amor livre.
Fédération anarchiste, le 4 juin 2006

Para a compreensão (social) da prostituição


Nota: independentemente de partilharmos ou não as teses que são defendidas no texto de Maria Inês Fontinha julgamos da máxima utilidade a sua divulgação.
Congratulamo-nos também que a Seara Nova, conhecida revista anti-fascista, disponibilize os seus textos on-line.


Texto retirado de:

http://www.searanova.publ.pt/1695/index.html

autora do texto:
Maria Inês Fontinha (Socióloga, Directora de O Ninho)


Molduras jurídicas

Foi a questão do moralismo que inspirou os ideólogos do sistema regulamentarista que vigorou em Portugal até 1963 e que tem como objectivo “a necessidade de sujeitar a rigorosa inspecção as meretrizes” a fim de “prevenir e acautelar os males que resultam para a moral, saúde e segurança pública, da notável relaxação em que se acha esta classe miserável como se refere na introdução do Regulamento Policial das Meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa de 1858.
A idade mínima de inscrição não era fixa: 16 anos - caso do regulamento de Lisboa de 1858 e 1900, por exemplo, - e 21 anos para as restantes cidades.
Distinguiam-se as mulheres que viviam em comum sob a direcção da “dona ou directora de Casa Tolerada” e as que habitavam sós em casa própria. A meretriz (mulher que, por costume, se entrega a um e a outro por dinheiro) a fim de ser tolerada era obrigada a matricular-se num livro de registo ou na administração local. Possuía obrigatoriamente um livrete com os seus dados pessoais que teria de apresentar à inspecção sanitária ou à polícia sempre que o requeressem.
Proibiam-se arrendamentos e mudanças de habitação sem prévia autorização, ausências superiores a cinco dias da área de residência, a coabitação com filhos maiores de três anos, impunha-se a declaração obrigatória das gravidezes. Interditava-se a presença de prostitutas em lugares públicos e requeria-se a “maior severidade para com as faltas à decência” (...) No caso da tolerada abandonar a prostituição por casamento ou tutela dos pais continuava objecto de vigilância policial.
No que diz respeito aos clientes, os regulamentos eram omissos.
O Estado, ao institucionalizar as condições de funcionamento dos mecanismos de comercialização da prostituição, visava garantir o controle estrito das mulheres por parte das autoridades. A segregação das prostitutas visava manter dentro de limites, mais ou menos aceitáveis, os focos de desvio social e garantir a reprodução de formas de controle existentes ao delimitar expressamente as zonas de respeitabilidade e as zonas de transgressão socialmente admissíveis.
O paradigma regulamentarista, centrado numa concepção do mercado da prostituição fechado, controlado e hierarquizado, revelou-se ineficaz. Segundo Arnaldo Brazão face a esta situação desenham-se duas correntes.
Uma defendendo o reforço da repressão regulamentada da prostituição, doutrinariamente dirigida contra o “deboche” , o “adultério”, o vício, a liberdade dos costumes, responsáveis pelas baixas taxas de nupcialidade e de natalidade, pela “degenerescência da raça”, pela desagregação da integridade física e moral da família, do Estado, da Nação.
Um dos muitos casos típicos da repressão regulamentarista é relatado por Arnaldo Brazão no Congresso Abolicionista Português (1926). As autoridades de Leiria ordenaram a inspecção forçada às criadas de servir, em Julho de 1926, e obrigaram todas as que não estavam virgens a matricular-se nas “casas toleradas.”
A segunda corrente, a abolicionista, condena o regulamentarismo: “A regulamentação da prostituição pelo Estado, instituída sob o tríplice aspecto da moral da higiene e da família é, de todas as instituições sociais que têm sido criadas com determinado fim, aquela que tem fracassado mais escandalosamente” (Arnaldo Brazão - 1926).
As primeiras manifestações doutrinais do movimento abolicionista datam do início do século XX. Em 1902, Ângelo Fonseca apresenta uma proposta de regulamentação geral das doenças venéreas em que defendia a abolição do sistema de matrículas numa dissertação apresentada na Faculdade de Medicina do Porto.
A sua análise, através de um inquérito realizado nas subdelegações de saúde, constatava o fracasso do regulamentarismo e dos fins a que o sistema se propõe: “a prostituição feminina em vez de diminuir aumentou; o número de matriculadas é diminuto e o número de clandestinas cresce regularmente em especial no Porto e em Lisboa; os regulamentos locais são contraditórios e, sobretudo, não são aplicados; a inspecção sanitária é insuficiente e mal organizada, não cobre sequer as matriculadas e tão pouco abrange as clandestinas e os clientes. O sistema até hoje seguido, degrada a mulher, sem que dessa degradação possa resultar profilaxia das doenças venéreas”.

Ãngelo Fonseca sublinhava ainda que “as prostitutas têm direito a beneficiar e não a servir de instrumentos ao bem, que porventura possam causar no campo sanitário” e salienta a necessidade de “difundir a educação no proletariado, dar à mulher outros direitos, levantá-la do servilismo em que a tem emergido a sociedade”. Considerava que as condições de vida do proletariado, o desemprego, os baixos salários, a promiscuidade familiar, a miséria em geral eram responsáveis pelo alastramento da prostituição.
Em 1926, é criada a Liga Portuguesa Abolicionista filiada na Federação Abolicionista Internacional, fundada, em 1875, por Josephine Butler (luta contra a prostituição regulamentada).
A Liga Portuguesa Abolicionista realiza o seu primeiro congresso em Agosto do mesmo ano. Arnaldo Brazão, eleito Presidente, disse que o Congresso votou por:
a) Abolição dos regulamentos da prostituição
b) Encerramento das casas de tolerância
c) Mudança das idades civis para os 18 e 21 anos
d) Combate à pornografia do livro, teatro e cinema
e) Co-educação
f) Moral única (igualdade entre homens e mulheres)
g) Reforma dos serviços policiais, segundo os princípios abolicionistas
h) Polícia feminina
i) Educação sexual, moral e cívica
j) Repressão do proxenetismo
l) Liberdade de tratamento e criação de dispensários gratuitos
m) Educação profissional da mulher
n) Criação de maternidades
o) Educação e instrução da mulher sob todos os pontos de vista
p)Vulgarização das medidas preventivas do mal venéreo e de conhecimentos de higiene individual
q) Medidas contra a escravatura feminina e criação de casas de refúgio e regeneração.
Arnaldo Brazão pronunciou-se sistematicamente contra a prostituição regulamentada em diversas intervenções públicas e artigos nos jornais da época. Afirmava que “o encerramento das casas de tolerância conduz à paz nas ruas e nas famílias e liberta as mulheres das amarras de situações indignas e ultrajantes e que a prostituição escraviza a mulher “

Proibição do exercício da prostituição

Em 1949 uma proposta do Ministério do Interior à Assembleia Nacional definiu as normas a observar na luta contra as doenças contagiosas, estabelecendo que “a autoridade sanitária determinará o encerramento das casas em que exerçam prostituição menores de 21 anos, ou quando se verifique que as mesmas funcionam em contravenção das normas de higiene por elas estabelecidas, ou ainda quando, constituindo focos de infecção, representam perigo grave para a saúde pública.”
A Câmara Corporativa apresentou então um parecer, sob proposta governamental, em que propunha o encerramento imediato de todas as casas de prostituição, a abolição das matrículas das prostitutas e extinção de todos os regulamentos, alvarás e serviços em vigor.
Após discussão em defesa da família, da raça e da alta moralidade do Estado, a Assembleia, por voto unânime, aprovou a proibição de novas matrículas de prostitutas e a abertura de novas casas, mantendo em funcionamento as casas já existentes. (Diário da Assembleia Nacional de 1949)
Em 1962, proíbe-se o exercício da prostituição pelo Decreto-lei n.º 44579, de 19 de Setembro.
O artigo 2.º pune com pena de prisão e multa correspondente todos os indivíduos que, conscientemente, favorecessem ou de algum modo facilitassem o exercício da prostituição ou nela interviessem com fins lucrativos. As prostitutas eram equiparadas aos vadios (n.º 3, art.º 19) e a medida de segurança aplicada é de internamento em casas de trabalho ou colónia agrícola, por período indeterminado de 6 meses a 3 anos.
Segundo esse Decreto-lei consideravam-se prostitutas as raparigas e mulheres habitualmente entregues à prática de relações sexuais ilícitas com qualquer homem, dela obtendo remuneração ou qualquer proveito económico.
Foram encerradas pelas autoridades policiais todas as casas onde se exercia a prostituição, com despejo e apreensão de todos os bens aí encontrados.
Posteriormente, o Tribunal da Relação de Lisboa esclareceu “que a incriminação do artigo 2.º não abrangia aquele que mediante remuneração mantivesse relações sexuais com prostitutas” (Acórdão de 6/6/1964, Boletim do Ministério da Justiça, 141, pág. 208), isto é, apenas as mulheres seriam perseguidas pelos agentes da autoridade e submetidas a processos que poderiam culminar num julgamento no Tribunal de Execução de Penas.
Proibiu-se a prostituição por via legislativa, mas não se previu nenhuma intervenção na área da prevenção, nem da reintegração social da mulher, tendo-se o cuidado de excluir o cliente de qualquer punição.

Código Penal de 1982

Com a entrada em vigor do Código Penal de 1982, a partir de 1 de Janeiro de 1983, a prostituição foi despenalizada, tendo por base de referência a Convenção de 2 de Dezembro de 1949, pela repressão do tráfico de pessoas e da exploração da prostituição de outrém. Tendia-se, então em Portugal, para o sistema abolicionista. Este sistema considera a prostituição incompatível com a dignidade humana, sendo o seu objectivo abolir a exploração da prostituição de outrém.

Conceitos

Considerando a prostituição a efectivação de práticas sexuais, hetero ou homossexuais, com diversos indivíduos, a troco de remuneração e dentro de um sistema organizado, podemos compreender que a prostituição não se reduz a um acto individual de uma pessoa que aluga o seu sexo por dinheiro, mas é uma organização comercial com dimensões locais, nacionais, internacionais e transnacionais onde se encontram três parceiros: pessoas prostituídas, proxenetas e clientes. E por isso, assumimos a prostituição como um problema social na perspectiva em que é “uma situação que afecta um número significativo de pessoas e é julgado por estas ou por um número significativo de outras pessoas como uma fonte de dificuldade ou infelicidade e susceptível de melhoria ou resolução” (Unesco), e por isso, falar de prostituição é tomar consciência de que a prostituição é resultado de um conjunto de causas de natureza económica, social, cultural e política.
Falar de prostituição implica necessariamente reflectir sobre um conjunto de fenómenos sociais que a ela estão, directamente ou indirectamente, ligados.
Os fenómenos sociais não se podem separar das sociedades em que se integram e dos espaços em que ocorrem e uma reflexão sobre prostituição obriga-nos a reflectir sobre o sistema social em que estamos inseridos, obriga-nos a reflectir sobre a natureza das relações homem/mulher, sobre os comportamentos, sobre os papéis historicamente atribuídos.
E a prostituição faz-nos reflectir sobre a forma como os homens e as mulheres vivenciam a sua sexualidade.
As mulheres e os homens têm sido educados de formas diferentes para vivenciarem a sua sexualidade e a prostituição feminina tem exercido, ao longo dos anos, uma função social: era com mulheres prostitutas que os jovens-rapazes iniciavam a sua sexualidade. Era comum um amigo da família aconselhar e até acompanhar um jovem com 16/17 anos a uma “casa de passe”. Segundo a mentalidade da época “ele tinha que aprender, tinha que ter experiência”. Pelo contrário, a mulher tinha que ser pura, ingénua, inexperiente. A virgindade é um valor profundamente valorizado na mulher até ao casamento e desvalorizado no homem a partir da idade da adolescência. Assim, a prostituição é aceite, porque é legítimo que o homem liberte as suas fantasias não com a sua companheira, mas com as prostitutas.
A prostituição assume uma função reguladora numa sociedade monogâmica e por isso tolerada como um mal necessário porque é legítimo que o homem procure prazer fora do lar. A prostituição liberta as tensões sexuais que a organização social reprime. Na prática, ela responde às necessidades que não são satisfeitas no casamento ou nas uniões estáveis e contribui para atenuar os problemas decorrentes das restrições sexuais impostas pela monogamia patriarcal absoluta.
As mentalidades parecem estar a mudar e homens e mulheres são considerados em igualdade de direitos e de deveres.
A OMS diz-nos que a sexualidade é uma energia que nos motiva a encontrar amor, contacto, ternura, intimidade. Ela integra-se no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados. É ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, acções e interacções e por isso, influencia a nossa saúde física e mental. Apercebemo-nos assim claramente que na prostituição se vive em contradição com o conceito de sexualidade. Na prostituição todos estes actos íntimos são transformados num valor mercantil, onde a mulher é instrumento do prazer do homem.
Integrada numa relação afectiva, a sexualidade é vivida de uma forma responsável, partilhada, em igualdade, cimentando uma relação estável.

O meio prostitucional

O meio prostitucional funciona como um mercado de oferta e de procura. Oferta por parte da mulher que se vende. Procura por parte do homem que a compra. E os que lucram com este negócio - o chulo e o proxenetismo organizado.
O mercado é caracterizado por uma procura à qual responde uma oferta. A procura é feita pelo cliente a quem chamamos de “prostituidor”. A oferta é feita pela mulher. É o caso mais simples mas o mais raro. Na maioria dos casos, oito ou nove em cada dez, segundo os observadores na Europa, intervém uma terceira pessoa. Talvez a mais importante: o organizador e explorador do mercado, o chulo ou proxeneta, o proprietário de casa fechadas, de salões de massagens, o fornecedor de quartos de hotel ou de estúdios.
A mulher prostituída é uma intermediária do dinheiro que vem do cliente, passa pelas suas mãos e segue para o chulo e /ou outras formas de proxenetismo.
A armadilha do dinheiro fechou-se em volta dos parceiros. O peso maior recai sobre a mulher prostituta.
O meio prostitucional desempenha um papel formador. Em apenas alguns meses, as jovens ficam formadas nas deformações do “meio”. Ficam formadas e encerradas. O “meio” ensina-lhes os modelos, as atitudes aconselhadas ou proibidas face ao dinheiro, face aos clientes, face aos proxenetas.
E, como a escravatura, também a prostituição tem um aspecto económico. Ao mesmo tempo que é um fenómeno cultural enraizado nas imagens do homem e da mulher veiculadas pela sociedade, ela é também um mercado forte e lucrativo.
A mercadoria é aqui o prazer do homem ou a imaginação desse mesmo prazer, é a oferta da intimidade da mulher ou da criança. Também, o que é aqui alienado na pessoa, é mais grave do que na escravatura, no sentido habitual, pois nesta aliena-se a força de trabalho e não a intimidade.

O Cliente

Quando se fala de prostituição, fala-se sobretudo de quem se vende e não de quem compra ou de quem consome - o cliente. Ele é o “eterno anónimo”. É o que fica ilibado de todos os valores comprometidos neste acto. Paga. E o acto de pagar desculpabiliza, desresponsabiliza, descompromete. Afasta qualquer afecto, e o cliente pode assim entregar-se às suas fantasias, à sua realidade interior - à sua , não à dela - sem ter que se preocupar com o que ela sente, pensa ou deseja. O dinheiro lá está para pôr os sentimentos à distância. Estamos perante o sexo separado de todo o significado humano. Sexo-objecto. É muito aquilo que se joga, ao recusar dissociar-se o sexo, objecto de prazer, do sexo, órgão de reprodução, e do sexo como meio de exprimir o amor)
O cliente é proveniente de todas as classes sociais. O local onde procura a mulher é diferenciado. Varia consoante o seu poder de compra. Por exemplo, numa zona pobre de prostituição, a clientela é constituída por trabalhadores com fracos recursos económicos. O preço da prática sexual está de acordo com o seu poder de compra e, por isso, é pouco exigente no que diz respeito à aparência da mulher e ao seu comportamento. Há oscilações na procura, esta é intensa no princípio e no fim de cada mês, que é quando o cliente recebe o salário, e vai diminuindo nos restantes dias.
Num hotel ou bar de luxo, o cliente tem poder económico. É exigente quanto à oferta. A maneira de se vestir e de se comportar da mulher, adapta-se à origem social do cliente, confundindo-se com ela. É a oferta a adaptar-se à procura. E devido aos nossos estereótipos de pertença, inconscientemente colocamos a mulher na classe social do cliente.

O Chulo

O chulo é o homem que explora directamente a mulher prostituta. Recebe o dinheiro proveniente do acto prostitucional. Em muitos casos é o recrutador de jovens para o “meio”. Desempenha para a mulher prostituta o papel de protector e é a sua componente afectiva.
O relacionamento da prostituta com o cliente é mercantil. Ela sente-se objecto, “uma coisa” que é usada e posta de lado. Não existe afectividade neste tipo de relação. O pagamento do acto sexual descompromete o cliente, desresponsabiliza-o, desculpabiliza-o. Ele usa a mulher para a satisfação do seu prazer.
O chulo quebra a agressividade desta relação e é elemento de socialização.
A necessidade de “ter um homem” que as proteja e que as torne semelhantes a um casal normal é o sentimento expresso pelas mulheres que se prostituem.

Proxenetismo organizado

Falar sobre o chulo das outras é sempre mais fácil do que falar do seu chulo. Este é apresentado não como explorador, mas como o seu marido, o seu companheiro com quem afirmam estabelecer uma relação afectiva.
Ouvimos com muita frequência uma mulher prostituta dizer:
“Eu tenho um homem mas ele não é chulo. Ele gosta de mim e eu gosto dele. Ele não tem trabalho mas anda à procura. Eu ajudo-o e ele é meu amigo. Leva-me a jantar a restaurantes finos e dá-me tudo o que eu preciso. Leva-me ao cinema. É mesmo meu amigo.”
Compra-lhe a afectividade, a companhia e a protecção, mas não tem consciência disso. Vive a ilusão do amor.
A economia tornou-se global e as pessoas já não são recrutadas apenas na periferia das grandes cidades ou nas zonas pobres de Portugal.
Já não são só as filhas de portugueses pobres que se prostituem. O campo de recrutamento cresceu. Hoje, em diversos locais da cidade, multiplicam-se jovens africanas, asiáticas, brasileiras, da América Latina, da Europa de Leste que sofrem diante dos nossos olhos a forma mais violenta de escravatura.
O mundo todo, com os seus níveis de subdesenvolvimento cruéis, transforma-se numa reserva gigantesca de mulheres, de jovens e de crianças para a indústria do sexo global.
Calcula-se que todos os anos, cerca de 200 mil mulheres provenientes de países de Leste caem nas mãos de proxenetas europeus.
A Liga Feminina de Kiev afirma que “nos últimos anos, 100 mil ucranianas foram vítimas de redes criminosas da indústria do sexo” (Le Monde Diplomatique).
Segundo a Interpol, “o negócio da exploração sexual entre os dois lados da Europa (Ocidental e de Leste) está em plena explosão”.
Na Polónia, a prostituição estrangeira concentra-se nos grandes eixos que conduzem à Alemanha. Na Bulgária, cerca de 10 mil raparigas caíram nas malhas dos proxenetas.
Desenvolve-se um autêntico mercado de escravas (segundo a Associação Animus). Os traficantes romenos leiloam ucranianas, moldavas, romenas, búlgaras, russas. Despidas, exibidas, são compradas por cerca 500 euros por proxenetas que as violam antes de as fazer seguir para outros países.
Uma rapariga caída nas mãos de um proxeneta, passa dois meses numa casa de passe. É depois vendida por 2.500 dólares (2.709 euros) a outro proxeneta ainda mais brutal que o primeiro. Uma jovem foi vendida dezoito vezes.
As mulheres são reduzidas à escravatura. Existem autênticos campos de sujeição onde as raparigas são violadas, domadas.
No total, a prostituição poderá representar um volume de negócios entre os 5 mil milhões de dólares e 7 mil milhões de dólares (entre 5,4 e 7,6 mil milhões de euros). Segundo a Interpol, uma mulher prostituta consegue entregar anualmente 107 mil euros ao seu proxeneta.
Em Paris a prostituição gera um volume de negócios anual avaliado em 3 milhões de euros. “O negócio da prostituição é um negócio muito menos perigoso do que o tráfico de droga, porque não existe nenhum quadro jurídico internacional para combatê-lo”. (Gerard Stoudman, da Organização para a Cooperação e a Segurança na Europa - OSCE).
A causa do recurso à prostituição é sobejamente conhecida: a miséria. A maioria das mulheres espera ganhar dinheiro suficiente para regressar ao seu país e ajudar as famílias a sobreviver. Três quartos delas nunca se tinham prostituído antes.
O volume de negócios gerado pelas mafias organizadas da indústria do sexo faz circular milhões de euros, que fazem até com que Estados legalizem a prostituição como se de um trabalho se tratasse, concedendo ao homem o poder legítimo de comprar sexo a outros seres humanos.
Mulheres prostituídas defendem o reconhecimento da prostituição em nome “do direito fundamental de dispor do seu próprio corpo”. Mas não dizem que a reclamação desse direito é-lhes incutida pelo proxenetismo organizado, pelas mafias criminosas, que as empurram e as obrigam a “dar a cara” porque objectivamente querem ser legalizados como industriais do sexo e não perseguidos por envolvimento em crime organizado. Legalizando a prostituição automaticamente as redes criminosas ficam de mãos livres.

Que significado social tem esta situação?

Trata-se de uma dinâmica profunda segregada pela sociedade mercantil, da qual, o capitalismo é a forma actualmente dominante. Este sistema não produziu ainda um antídoto, um “contra-veneno” que nos permita passar do dinheiro como equivalente de todo o valor, para o dinheiro como equivalente unicamente de alguns valores.
Os mecanismos económicos funcionam no “meio” mas de uma forma caricatural. Por exemplo: há um preço para a relação sexual, depois há mais uma determinada quantia por uma atitude suplementar. É bem a lógica da tabela de preços de qualquer comerciante: uma lata de ervilhas custa tanto, se o cliente levar também uma lata de feijões, custa mais tanto.
Assim, não se pode reduzir a prostituição a uma questão de moral individual. A moral está realmente em causa, mas é a moral do sistema económico, social e político.



O Ninho

O Ninho é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, que tem por objectivo a promoção humana e social de mulheres vítimas de prostituição.
Foi fundado em Portugal em 1967 seguindo o modelo de O Ninho Francês criado em Paris pelo Padre André Marie Talvas, em 1936.
A história de O Ninho insere-se na história do trabalho de colaboração entre os Movimentos do Ninho da França, da Bélgica (1980), do Brasil e de outras organizações e movimentos que trabalham directamente com pessoas prostituídas.
O Ninho nasce a partir das necessidades sentidas pelas mulheres prostituídas e estrutura uma metodologia de intervenção que se vai adequando às realidades.
Conhecer o meio prostitucional e os seus agentes foi o início de uma intervenção inovadora que, na década de sessenta poucas pessoas compreendiam.
Os serviços vão sendo estruturados de acordo com as solicitações feitas pelas mulheres e com a aprendizagem que os técnicos foram fazendo ao longo do seu percurso de trabalho directo com as mulheres.
Conhecemos a origem social das mulheres e dos clientes.
Conhecemos os proxenetas ( os companheiros, como elas dizem )
Conhecemos mulheres que foram traficadas, vendidas para certos países.
O Ninho, ao longo dos anos, tem tido uma intervenção séria e coerente na denúncia da prostituição. Na denúncia das suas causas e consequências. Parte do conhecimento adquirido ao longo de 39 anos de trabalho directo com pessoas prostituídas e da troca de experiências com organizações congéneres da Europa e do Brasil.
Por isso a análise feita tem por base a experiência de intervenção psicossocial feita com as pessoas que são prostituídas

6.6.06

O assassino de Victor Jara foi publicamente desmascarado!




Edwin Dimter Bianchi não esperava nada daquilo,passados todos estes 30 anos de esquecimento. Pode ser, também, que sempre estivesse à espera deste dia. Como todas as manhãs Edwin seguiu a sua rotina em direcção ao seu local de trabalho, como chefe de um departamento de controle de superintendência da AFP em Santiago do Chile. Quando lá chegou deu os bons dias, tomou um café, falou com os colegas, e seguindo as hierarquias ocupou,com um certo desdém, a sua secretária.

Foi então que o som dos batuques se começou a ouvir. De princípio, o ruído era imperceptível, longínquo, como se viessem de um passado remoto, ainda que insistente e resistente. Mas a verdade é que o murmúrio ia crescendo. Tambores e mais tambores acompanham os cantos que se escutavam desde o passeio da avenida. O estrondo parou à porta do edifício do ministério do trabalho. Edwin começou então a suar rios de recordações. Ouvia gritos e choros. As vozes tornaram-se muito nítidas. Eles estavam ali.Edwin Dimter Bianchi ouviu claramente como gritavam o seu nome, alto e bom som, entre refrões e contratempos. Um autêntico clamor.
Quem trabalhava por perto começou a olhá-lo como nunca o havia feito. Os gritos e os cantos daquele numeroso grupo, armado de tambores e cartazes, alertava também os transeuntes e todos os funcionários do ministério. E todos eles ficaram a saber que alí estava «O Príncipe». Anos a fio gozando do maior anonimato como um incógnito e cinzento funcionário não impediram a sua identificação e localização. Haviam-no descoberto.

Edwin Dimter Bianchi, «o príncipe», é recordado por muitos pela sua crueldade quando, por ocasião do golpe de estado militar de 1973, esteve no Estádio do Chile durante aqueles dias. Foi Edwin Dimter Bianchi, «o princípe», que assassinou Victor Jara depois de o ter torturado ao longo de várias horas. Victor Jara recebeu então quarenta e quatro tiros. Desde então, os tribunais nada fizeram. Mas as gentes não esquecem. E Edwin Dimter sabe agora que a sua tranquilidade, tal como a sua impunidade, acabaram. Desmascararam-no.
As mãos de Victor Jara perseguem-no e lançam-no ao inferno. Que se foda.

Abel Ortiz

Tradução para português do texto de Abel Ortiz.
Ver o original em:
http://abelortiz.blogspot.com/

Acabou a impunidade tranquila para o sádico assassino do músico Victor Jara!






No passado dia 25 de Maio de 2006, 5ª feira, cerca de 300 pessoas, assistiram à FUNA do ano ( ver a explicação abaixo sobre o que é a FUNA).

Este ano o visado foi o assassino do cantor Victor Jara. Recorde-se que este músico chileno foi preso, torturado e assassinado no Estádio de Santiago do Chile, aquando do golpe militar de Pinochet em 1973 que instaurou uma ditadura sanguinária.

Segundo constam testemunhas presentes Victor Jara foi vítima de torturas cruéis: cortaram-lhe as mãos como vingança pelo facto do músico continuar a tocar a sua guitarra, mesmo depois de ter sido detido e preso dentro do Estádio convertido em enorme campo de detenção pelos militares golpistas.

Não contentes pelos seus actos, os torturadores de Victor Jara alvejaram-no com 44 tiros. O executor deste assassínio foi Edwin Minter Bianchi, também conhecido por «príncipe» e que na altura dos acontecimento era tenente do exército, e tinha a máxima confiança dos generais golpistas.

Durante décadas, Edwin Dimter conseguiu esconder a sua identidade, graças ao encombrimento dos seus antigos camaradas de armas.

Nenhum dos 5 mil presos, que foram encerrados no Estádio do Chile logo depois do golpe de estado militar de Pinochet de 1973, esqueceram, no entanto, esta sinistra figura que não hesitou em alvejar com 44 tiros Victor Jara, músico chileno muito popular, cujas canções se tornaran mundialmente conhecidas.
Era conhecido pela sua presunção e vanglória e não se cansava de insultar e provocar os prisioneiros.Tinha ingressado em 1979 na escola militar juntamente com Armando Fernández Larios, Augusto Pinochet Hiriart y Óscar Izurieta Ferrer. Logo depois seguiria para o Panamá com mais de 100 oficiais chilenos a fim de receber um «curso de aperfeiçoamento» na Escola das Américas, controlada pelas forças armadas dos Estados Unidos.
Em 1985 entrou para o Minstério das Obras Públicas e começou, incógnito, a fazer carreira de funcionário público sempre gozando da maior impunidade.
O assassino trabalha hoje no Ministério do Trabalho como chefe do departamento de controle das instituições de superintendência da AFP, num edifício situado na avenida Huerfanos 1273, e tem como e-mail edimte@safp.cl e os seus telefones são 7530400, e 7530401


Para mais informação:
aqui, aqui, aqui


LA FUNA


LA FUNA procura desmascarar as caras e as historias das personagens que, durante a ditadura no Chile, foram responsáveis pelos sequestros, detenções, torturas, crimes e desaparecimentos, violando os direitos de milhares de chilenos e que, entretanto., se integraram no quotidiano como qualquer cidadão, gozando de liberdada graças à impunidade que se auto-outorgam.

LA FUNA tem como objectivo realizar «visitas» aos criminosos e aos torturadores quer em sua casa quer no seu local de trabalho, visitas que são acompanhadas com muito ruído de batuques e danças, cartazes e lenços, panfletos e improvisações, de forma a que os colegas de trabalho ou os vizinhos do visado passem a conhecer o que este fez contra os chilenos e chilenas durante a ditadura.

Esquecer significa pôr de lado, minimizar os actos de violência política, permitir e promover que tais actos continuem a acontecer. Todo aquele que esquece torna-se com a sua indiferença cúmplice dos crimes.

LA FUNA existe para derrotar o esquecimento, superar a indiferença social, acabar com a impunidade e defender a Verdade, a Justiça e a verdadeira Democracia.
Queremos reconstruir a história do que se passou a fim de transformar o presente e entregar aos que vierem um futuro digno para se viver.

A melhor homeagem aos que caíram é continuar a lutar por aquilo que aqueles companheiros deram a vida.

Se não há Justiça, há FUNA !!!


http://www.funachile.cl/

A melhor homenagem é continuar a combater

Para os torturadores, assassinos e seus cúmplices:

Nem esquecimento, nem perdão!




Acima, a fotografia do assassino de Victor Jara na passada semana, furioso por ter sido desmascarado no seu gabinete em Santiago do chile

Vientos del pueblo ( de Victor Jara)


Vientos del pueblo

De nuevo quieren manchar
mi tierra con sangre obrera
los que hablan de libertad
y tienen las manos negras
los que quieren dividir
a la madre de sus hijos
y quieren reconstruir
la cruz que arrastrara Cristo.

Quieren ocultar la infamia
que legaron desde siglos,
pero el color de asesinos
no borrarán de su cara
ya fueron miles y miles
los que entregaron su sangre
y en caudales generosos
multiplicaron los panes.

Ahora quiero vivir
junto a mi hijo y mi hermano
la primavera que todos
vamos construyendo a diario
no me asusta la amenaza
patrones de la miseria
la estrella de la esperanza
continuará siendo nuestra.

Vientos del pueblo me llaman
vientos del pueblo me llevan
me esparcen el corazón
y me aventan la garganta
así cantará el poeta
mientras el alma me suene
por los caminos del pueblo
desde ahora y para siempre.

Victor Jara


http://www.patriagrande.net/chile/victor.jara/

http://www.nuevacancion.net/victor/