21.6.07

O solstício do Verão

O solstício do Verão acontece a 21 de Junho. Representa o apogeu e celebra o zénite, isto é, a elevação máxima do sol e é motivo de rituais celebratórios. As fogueiras de S. João, e as alegrias a que normalmente estão associadas, não são estranhas ao momento simbólico de passagem como é o solstício.

Em Vila Nova de Foz Côa celebra-se o solstício de verão, num local onde se pensa ter sido um templo Celta. No dia mais longo do ano, muitas pessoas juntam-se para recriar lendas Celtas...




Notícia do jornal O Primeiro de Janeiro:

Vila Nova de Foz Côa: Cerimónia começa às 20h00 em templo solar pré-histórico
Solstício de Verão festejado hoje


O Verão é recebido hoje no concelho de Vila Nova de Foz Côa, com uma Festa do Solstício, marcada para um templo solar existente no lugar dos Tambores, freguesia de Chãs.
Segundo Jorge Trabulo Marques, da comissão organizadora, “o dia mais longo do ano vai ser celebrado com uma cerimónia mística, com início às 20h00, que evocará sacrifícios e rituais celtas, num momento carregado de significado”. “No local onde em tempos ancestrais os homens louvavam o Deus Sol e ofereciam os seus sacrifícios, serão repetidos gestos, cânticos e orações às forças da natureza”, adiantou.
O momento evocativo do solstício do Verão acontecerá pelas 20h40, num local onde existe um antigo altar de pedra e um megálito com três metros de diâmetro que se assemelha a uma enorme réplica da esfera terrestre. Cinco minutos depois acontecerá o pôr-do-sol e o “alinhamento sagrado”, altura em que os participantes poderão testemunhar a passagem dos raios solares sobre o eixo da Pedra do Solstício, “num acto de grande simbolismo histórico e místico”, explicou. O “momento alto” da celebração será antecedido da leitura de poemas de inspiração celta, recitados por Paulo Marinho e Jorge Carvalho, acompanhados ao som da viola de arco pelo actor e músico João Castro, que tocará uma ária de Sebastião Bach.
A Festa do Solstício de Verão acontece num local onde existe um imponente bloco granítico que se ergue sobranceiro ao vale da Ribeira Centieira, no patamar de uma depressão rochosa, a curta distância do Santuário Rupestre da Cabeleira de Nossa Senhora e na vertente de um antigo castro. “Visto perpendicularmente em direcção ao pôr-do-sol no solstício, assume a forma redonda. Observado, porém, noutro ângulo, deforma-se e chega mesmo a parecer um estranho busto, adensando o mistério que cobre estas pedras imortais”, disse Trabulo Marques. A festa evocativa do Solstício de Verão - o dia mais longo do ano para o Hemisfério Norte - também inclui o rufar de tambores e os sons de gaitas de foles pelos grupos Gaiteiros de Miranda do Douro e os Anaquiños da Terra (Galiza).
Durante o cerimonial evocativo “estarão presentes personagens várias, envergando túnicas brancas, que representarão os sacerdotes druidas, lembrando alguns dos seus rituais ou tradições, exibindo a sua vara de condão, transportando consigo grinaldas de flores e carregando aos ombros os cordeiros para o ritual das oferendas e dos sacrifícios, em louvores e acção de graças ao seus deuses protectores, às entidades espirituais em quem acreditavam e recorriam sob as mais diversas formas”, adiantou Jorge Trabulo Marques.

O local onde vai ser comemorado o Solstício de Verão, fica a curta distância do Santuário Rupestre da Cabeleira de Nossa Senhora, onde foi festejado o Equinócio da Primavera, no dia 21 de Março. Os dois templos solares situam-se na área do Parque Arqueológico do Vale do Côa.



Indicam-se alguns lugares interessantes para passar o solstício do Verão:


Avebury
- in amongst the towering stones or standing on the surrounding bank for a panoramic view.


Orkney ( Scotland) - week long festival of music, literature and drama at the St Magnus Festival - watch the midsummer sunrise from the amazing Ring of Brodgar.




Newgrange (Ireland) is a brilliant place to be, but you need to win a ticket to gain entry to this one, but you can still join others at standing stones around Drombeg, Beara and Kenmare to watch how they align with the sun on the 21st.
Sweden - 'Midsommar' is celebrated traditionally - often wearing traditional folk costumes - around the Majstång, a tall maypole covered with flowers, and fun solstice parties with lots of vodka are held in Gotaland and the Oland islands.
Finland - 'Juhannus', Finland's Flag Day is also celebrated on the same day, so Finnish flags are displayed all around the country from Midsummer's Eve to the evening of the following day. Bonfires (kokko) are lit and maypoles are danced around - originating from old rituals of fertility, cleansing and the banishing of evil spirits. Homes are decorated with flowers and birch branches.
Reykjavik, Iceland - many gather to celebrate the midnight sun on the longest day of the year. The solstice comes after a month of endless sunshine, during which the sun never sets. Feasting and partying continues through the early hours of the midsummer morning.
Denmark - St. John's Eve is celebrated the night before the Summer Solstice - bonfires on the beach, by lakes and in parks with picnics and songs are traditional.
Poland - 'Noc Swietojanska', St. John's Night on midsummer's day it is traditional for the men to dress up as pirates, and for the girls to throw Solstice wreaths made of wild flowers into the Baltic Sea, lakes or rivers.
Letónia - 'Jani' is an important national holiday, celebrated with bonfires, drinking beer, singing and jumping over the bonfire wearing wreaths made of flowers for girls and oak leaves for the men. It is also traditional to attach small oak branches with leaves to cars.
At the North Pole, and everywhere north of the Arctic circle (66'30" degrees north latitude) the Summer Solstice means 24 hours of daylight - a good reason to party!
Stonehenge - in the magnificent circle celebrating the midsummer sunrise!










A batalha de 1985 em Stonehenge entre os manifestantes e a polícia





Campo Holístico do Solstício do Verão,
organizado pela Terra Viva
Local:
CARVALHAL DE VALINHAS.
MONTE CÓRDOVA -SANTO TIRSO
22,23 e 24 de JUNHO.2007

No próximo fim de semana realiza-se o Campo Holistico do Solsticio.Se quiseres participar e ainda não fizeste a incrição no campo podes faze-la ainda. Para isso basta copiar a ficha de incrição disponivel no Site ou então apareceres na sede da Terra Viva! durante a semana entre as 14:00 e as 18:00 horas.

Os workshops serão diversos:
FAZER TEEPEES (aprender a fazer tenda índia c/ pano - cortar varas e montar tripé de sustentação - .entrada e chaminé – orientação ritual – decoração)
CONSTRUÇÕES E TÉCNICAS PRIMITIVAS ( instrumentos pedra e pau – principais amarrações e estruturas c/varas – uso de machado – esteira de ervas ou palha)
LAND-ART (Arte Efémera na Paisagem:- descoberta formas zoomórficas e antropomórficas- objectos e instalações c/ elementos naturais – mandalas
ADEREÇOS E TRAJES CASTREJOS ( apoio a representaç.resistência antiromana : trajes druídicos e celtibérios . escudos e “armas” em cartão - decorações …)
SAUNA RITUAL ÍNDIA (construção de estrutura de tenda de sudação e sua cobertura – recolha de seixos para “aquecer” - recriação de ritual índio )
DESENVOLVIMENTO PERCEPÇÃO SENSORIAlL (jogos de apuramento do tacto,,olfacto e visão – camuflagem e” fusão”no terreno – expressão gráfica sensorial)
PLANTAS SILVESTRES MEDICINAIS E COMESTÍVEIS ( passeio de reconhecimento de espécies – recolha de algumas – utilizaç.1ºs socorros, sobrevivência e colin.ª)
PINTURA RITUAL FACIAL E CORPORAL ( índios americanos lakotas e cheyenes- das tribos celtas- pícteos e outros– de outros povos de sociedades orgânicas )
“DO-IN” E PRIMEIROS SOCORROS ( Técnica oriental milenar: -concentração/absorção de energia vital – principais pontos e meridianos – exercícios práticos )
PERCUSSÃO IMPROVISADA ( Exercícios ritmo e articulação – improvisação de alguns instrumentos – ritmos e batidas de diferentes culturas – mistura c/canto )
IDENTIFICAÇÃO DE ASTROS E CONSTELAÇÕES (leitura de cartas estelares - utilização de telescópio – orientação pelas estrelas e lua -…. …. )
DANÇA RITUAL DE DIFERENTES CULTURAS (danças africanas e das tribos indias da América do Norte)
ALFABETOS PROTO-HISTÓRICOS ( escrita ogâmica – alfabeto arbóreo druídico – runas - significados antropológicos

Apoios:IPJ/PAJ
Junta de freguesia de Monte Córdova

Um bufo é sempre um bufo e a denúncia é uma suja doença de carácter

Texto de Manuel António Pina publicado na edição do JN de 18 de Junho com o título

António Luís anda por aí

O jornal "República" publicou em 1974, sob o título de "O sórdido dossier da PIDE-DGS / Estudante bufo denuncia os colegas ao seu chefe espiritual Elmano Alves", uma carta de 8 de Setembro de 1968 encontrada nos arquivos da PIDE em que um tal António Luís denunciava ao então subsecretário de Estado da Juventude e Desportos colegas seus da Universidade do Porto considerados " associativos" e/ou "perigosos", bem como organismos como a UNICEPE, o Coral de Letras e a JUC. Entre esses "perigosos" estudantes estão pessoas que são hoje médicos de prestígio, conhecidos profissionais liberais e até, ó ironia!, um importante político do PS. Guardo o recorte porque minha mulher era uma das estudantes da Faculdade de Letras denunciadas pelo informador. Já havia esquecido essa torpe memória do "antigamente", mas senti uma melancólica vontade de voltar a lê-la ao saber da carta que um tal António Basílio dirigiu à directora da DREN, Margarida Moreira, denunciando um colega e amigo. O endereço é agora diferente, o remetente também, mas a carta, 40 anos depois, é exactamente a mesma. Porque, fascista ou "democrático", um bufo é sempre um bufo e a denúncia, uma suja doença de carácter. Os regimes políticos mudam, mas Luíses, Basílios, Margaridas e Elmanos, não.

O governo continua apostado na sua obra de demolição social: desta vez são as universidades que vão ser esfrangalhadas !

Reprodução da notícia publicada no Expresso do último Sábado.


Reitores acusam governo de destruir a universidade

O presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) diz que a proposta do governo vai “esfrangalhar” as instituições. Em declarações ao Expresso Seabra Santos explica que a proposta aprovada quinta-feira em Conselho de Ministros permite que unidades ou instituições de uma universidade possam negociar directamente como o ministério do Ensino Superior a sua saída da casa-mãe.
A título de exemplo o reitor diz que o Instituto Superior Técnico pode acertar com o ministério a sua autonomização em relação à Universidade Técnica de Lisboa. “Esta proposta vai fragmentar a universidade portuguesa”, defendeu Seabra Santos.

Outro ponto “inaceitável” para o CRUP prende-se com a escolha do reitor, que na proposta aprovada deixa de ser eleito pelos professores, alunos e funcionários da universidade.O reitor passa assim a ser designado pelo conselho geral, um órgão que terá um mínimo de 30% de pessoas exteriores à universidade, uma percentagem de estudantes e uma maioria de professores e investigadores.

Os actuais reitores deixarão de ter qualquer palavra a dizer na produção dos estatutos que serão elaborados de acordo com a nova legislação. "Neste processo transitório estamos proibidos de votar" o documento estruturante de qualquer universidade, critica o presidente do CRUP.

A proposta de lei vai ser votada na generalidade no próximo dia 28, baixando depois à comissão de educação. A vontade do governo é que a lei seja aprovada até dia 20 de Julho



Informação suplementar:
Queria dar aqui conta do comentário muito oportuno feito no blogue Matarbustos a propósio das declarações do Reitor da Universidade de Coimbra e que subscrevo completamente:
«O governo avançou com uma proposta que irá oficializá-lo (ao Reitor) como o fantoche que tem sido de livre vontade. É o que acontece aos cãezinhos amestrados que bajulam governos que os afagam a cada abanar de cauda»
Leiam sem falta o resto do comentário aqui

Debate sobre Violência e Não-violência no espaço Musas (23 de Junho às 15h30)

O Espaço Musas organiza no próximo sábado, dia 23 de Junho, pelas 15h30, um debate com Mário Rui e José Maria Carvalho Ferreira, editores da revista de cultura anarquista “Utopia”, sob o tema do seu último número, “Violência e Não-Violência”.

Bem-vind@ ao debate.

O Espaço Musas situa-se na Rua do Bonjardim, 998, Porto

Sair na estação do Metro de Faria Guimarães,

http://musas.pegada.net/

Banda Desenhada galega em exposição na cidade do Porto a partir do dia 22 de Junho

Vai ser inaugurada na próxima sexta-feira, dia 22 de Junho, pelas 18h30, na Galeria Sargadelos (no Porto), a exposição " Banda Desenhada Galega: uma retrospectiva – dos anos 70 à actualidade" , sendo comissários da exposição, Fausto Isorna (também autor de BD) e Gemma Sesar.

Galeria Sargadelos
Rua Mouzinho da Silveira, 294
4050-418-PortoTelef.: 222011666


A mostra, constituída por originais de mais de 20 autores galegos, está organizada em 4 períodos cronológicos: Pioneiros, Underground, Indústria e Presente. Nos primeiros tempos, destaca-se a influência da pintura na banda desenhada, tendo esta última um vincado carácter de intervenção política, com os nomes pioneiros de Reimundo Patiño ( La Coruna, 1936-1985), Xaquin Marin (Ferrol, 1943) e o Grupo do Castro (Xosé Diaz, entre outros). Os dois primeiros assinam, em 1975, a primeira BD galega, "2 Viaxes". Patiño considera que a arte popular foi aniquilada pelos novos meios de comunicação, perspectivando o comic como uma nova forma de expressão artística. No final dessa década, a revista Xofre, de que saiu apenas o primeiro nº (um dos autores é o então estudante Miguelanxo Prado), é alvo de ataques por parte dos nacionalistas galegos, acusada de "espanholista e imitadora do estilo francês". Os anos 80 (período da movida madrilena), surge em ambiente underground, com a multiplicação dos quadradinhos em revistas e fanzines. Nos anos 90, assiste-se por um lado a uma maior industrialização desta arte e por outro a um interesse crescente pela manga japonesa, salientando-se o idealismo e a aventura de uns poucos. Distinguida desde os seus primórdios, a BD da Galiza adquiriu projecção europeia. Destacam-se nomes como Emma Rios, Kiko da Silva e Das Pastoras. De assinalar também a revista Golfino e os fanzines BD Banda e Barsowia, que vêm confirmar a importância da banda desenhada galega no mundo da arte.

Tendo começado a sua itinerância, em finais de 2006, na conceituada Fundação Feima, em Madrid, a exposição passou por Barcelona e, no mês passado, pela Bedeteca (Lisboa).

Patente até 31 de Julho, na rua Mouzinho da Silveira, 294, Porto (Estação METRO S. BENTO).

www.galeriasargadelosporto.blogspot.com

19.6.07

Os 25 anos da canção «FMI» de José Mário Branco


O emblemático "FMI", obra síntese do movimento revolucionário português com seus sonhos e desencantos, trouxe pela voz de José Mário Branco, uma consciencialização politica, mas essencialmente social do verdadeiro sentido de ser português, da vontade de se superar, de trazer de novo o espírito de inquietação sem descanso, enquanto tudo não estiver bem. Uma clara alusão ao passado glorioso de um povo, "que não se governa, nem se deixa governar".
Inicialmente escrito em 1979, "de um jorro só", "FMI" é apresentado ao público no Teatro Aberto, em 1982, num ajuste de contas com uma geração e seus fantasmas. Não se sabe ao certo qual o impacto da obra na sociedade portuguesa da altura, mas a verdade é que da geração de hoje, poucos conhecem a mensagem que apesar de ter 25 anos desde a sua primeira edição, continua extremamente actual.

Por isso está em organização uma iniciativa em Lisboa (28 de Junho) onde se propõe um "revisitar" creativo,a marcar os 25 anos, por vozes de hoje, para inquietar os mesmos fantasmas que no passado atormentaram José Mário Branco, e toda "uma nação de poetas".

Local: MusicBox, Cais do Sodré
Data: 28 de Junho
Mais Info: Pedro Azevedo: 91 28 98 567




FMI: 25 anos depois.


“É o internacionalismo monetário,” explicava José Mário Branco na introdução do mítico “FMI”. Na verdade é muito mais do que isso. É um retrato poético e satírico de um Portugal às voltas com a responsabilidade de ser, enfim, livre. “(…) estas coisas já nem querem dizer nada, não é? Ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão(…)” Mas de facto as palavras – como “comunismo” e “fascismo” a que aqueles “ismos” se referiam – eram bem mais do que bolinhas de sabão. Eram uma ferramenta num tempo em que o futuro ainda se construía com ideias. E nesse tempo, a música tinha outro valor, outro peso e outra força.


José Mário Branco escreveu “FMI” em 1979, quando muitos sentiam já que Portugal e Abril tinham deixado de rimar, de andar lado a lado. Este foi o período em que a chamada música de intervenção se pode estender para lá das metáforas que desafiavam o lápis azul dos censores. Mas as raízes de José Mário Branco estavam no exílio, onde a sua carreira arrancou, ainda durante a década de 60. Ao longo dos anos, José Mário não se limitou a trabalhar nas suas próprias composições e emprestou o seu talento de arranjador a clássicos de José Afonso, por exemplo. O pós-25 de Abril foi período e terreno de utopias: formou o GAC, trabalhou como actor na Comuna, fez bandas sonoras para filmes e, em 1979, foi expulso do PCP. “FMI” é filho directo de todas essas experiências e muito provavelmente o resultado de uma desilusão crescente.


Mas, “FMI” só seria editado em 1982, no fomato maxi single que entretanto se tinha tornado na medida certa de uma outra revolução de palavras que do lado de lá do oceano tomava conta de Nova Iorque e se preparava para conquistar o mundo. Esta forma cadenciada de dizer textos – uns mais inflamados do que outros, naturalmente – tinha raízes fortes nas Américas (Gil Scott-Heron, Isaac Hayes e até Pete Seeger), mas também na França onde José Mário recolheu o seu próprio universo de referências (Leo Ferre…). No ano em que “FMI” foi editado, Portugal andava às voltas com o boom do rock português: os Xutos editavam o clássico “1978-1982” onde um eléctrico “Avé Maria” atentava à moral e aos bons e velhos costumes; os GNR espalhavam as suas “Avarias” pelo segundo lado inteiro de “Independança”; e Portugal, enfim, lá ia inventando a sua própria modernidade, com direito à segunda edição de Vilar de Mouros em Agosto de 82 e tudo.


E José Mário Branco? Editava “FMI”, uma espécie de “vómito emotivo” como lhe chamou Nuno Pacheco em 96. Um jorro de emoções que vão da raiva ao lamento, do grito ao sussurro enquanto se pinta um Portugal perdido, às voltas sobre a sua memória e sobre os novos caminhos que se abrem à sua frente. José Mário Branco é mordaz, violento, certeiro nas suas observações, com acompanhamento simples de viola acústica ou flauta para não distrair ninguém do verdadeiro centro desta peça – as palavras. Curiosamente, na sua edição, José Mário Branco proibia a execução pública e radiodifusão deste trabalho, talvez por causa do conteúdo severo das palavras, talvez por achar que a catarse em que tinha investido só podia ser experimentada por uma pessoa de cada vez. 25 anos depois, o mito cresceu, e essas palavras continuam a fazer pleno sentido. Entretanto, uma nova geração de autores, filhos da liberdade de 74, mas também das ideias exportadas do Bronx, também mexe nas palavras para descrever a realidade que nos rodeia a todos. E tal como no “FMI” de 82, também o que se cospe em 2007 não é bonito.


Retirado de:

Mais informação aqui.

Alquimias do feminino - VII Colóquio Internacional "Discursos e Práticas Alquímicas"

LAMEGO - SALÃO NOBRE DA CÂMARA MUNICIPAL
22-24 de Junho de 2007

Ver
Programa


Alquimias do feminino


A alquimia é feminina, a alquimia só é possível através do feminino: é a fêmea que procria – eis uma primeira pista.


É aceitável ainda a tradição judaico-cristã, segundo a qual as mulheres são impuras, pelo facto de perderem o sangue durante as regras e o parto? A natureza imperfeita da mulher provém da sua frieza, manifestada pela perda de sangue, portador do calor da vida. As mulheres são frias, logo “naturalmente” inferiores, segundo Aristóteles e Galeno – eis mais um punhado de preconceitos contra o feminino.


O impulso utópico que varreu os anos 60 traz a cor feminina das grandes mutações, e com ela a revolução sexual. Depois, tornam-se visíveis as utopias unissexuadas: a utopia determinista da clonagem reprodutiva em que os homens já não são necessários; a utopia masculina que fantasma passar sem as mulheres na reprodução.


O ciberfeminismo é hoje um terreno em que de forma inédita a questão do “género” se coloca de uma forma radical. As teologias feministas estão a redefinir muitos dos conceitos que a teologia “masculina” impôs como únicos. O interesse político pelas questões relativas à mulher gozam de um interesse nunca antes visto, quer nos Relatórios sobre Desenvolvimento Mundial, quer nas metas das Nações Unidas. Porquê? Estaremos a deixar de ser humanos?


Em muitos mundos se compreende a realidade pela oposição entre masculino e feminino: na Alquimia, claro, mas também na electricidade, na Botânica, na Zoologia, e nas colectividades humanas. Em algumas, já os sexos são mais de dois, dois os principais géneros, ou biliões deles, se por tal entendermos que todos temos direito a “fazer género”.


Portugal sempre viveu no feminino. Existe um matriarcado nacional «por mais que isto custe às feministas», diz Maria Belo. A família tem na vida portuguesa e, em particular, a mãe, um peso imenso. Como estamos, em matéria de direitos da mulher, por esse mundo fora, da China à Europa, e da África ao Irão? E desde a Igreja Católica até à Maçonaria Regular? De que espaços a mulher é tradicionalmente excluída?
E que tem a mulher feito pela sociedade, pela religião, pela arte e pela cultura, além do que se lhe atribui como específico? Bataille alça a mulher dissoluta à altura de Deus. Para Lacan, a Mulher é um dos nomes de Deus. Para Freud, a religião é como uma mulher de 30 anos. Qual é então o espectro da presença da mulher, que forças lhe dão a aura que os tempos lhe atribuem? Que medos, que fantasmas evoca? Que Messias anuncia? – eis mais um milhar de tópicos a desenvolver no colóquio.


Contactos:
ISTA:José Augusto Mourão (Presidente)
jam@triplov.com
CICTSUL:Elisa Maia (Direcção) - elisamaia@netcabo.pt
Isabel Serra (Direcção) - isabelserra@netcabo.pt
TRIPLOV:Maria Estela Guedes (Direcção) – estela@triplov.com




VII Colóquio Internacional


Comunicações
Revisitando Casablanca de Michael Curtiz Por Helena & Eduardo Langrouva



A Grande Mãe e a via lunarPor José Medeiros




Lançamento de "Máscaras", com textos de Francisco Proença Garcia, Floriano Martins, José Augusto Mourão, Reinhard Huamán Mori & Maria Estela Guedes, numa edição da Apenas Livros Lda

no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lamego

23 de Junho. 19 horas

Apresentação: Major Miguel Garcia

18.6.07

Pela liberdade de expressão. Contra a prepotência do poder do governo Sócrates



O blog http://doportugalprofundo.blogspot.com/ está agora na mira da justiça que tem mostrado estar do lado dos que detém o poder. Caso contrário não seria arguido mas testemunha de acusação.



Passe a informação. Não custa nada e convém que toda a gente saiba. Em Portugal passa-se algo muito estranho.

PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO!


CONTRA A PREPOTENCIA DO PODER!

Há uns tempos veio-se a descobrir graças ao empenhamento de vários cidadãos que o actual primeiro-ministro de Portugal, apesar de se intitular de engenheiro, não o era. Que a licenciatura que tirara numa Universidade privada, hoje em vias de encerramento, fora obtido por via de um processo muito pouco transparente. Essas mesmas pessoas que denunciaram essa situação do primeiro-ministro e a ilegitimidade em intitular-se de engenheiro são agora objecto de perseguição judicial, o que mostra uma campanha persecutória do poder do governo e representa um ataque à liberdade de expressão.


Au Portugal, il y a quelque temps, on a découvert des documents qui on prouvé que le premier ministre signait son nom avec le titre d'ingénieur avant de l'être. Quelque personnes on fait l'investigation et, maintenant, pour l'avoir fait, vont devenir accusé. C'est honteux, mais c'est vrai.

In Portugal, a few months ago we found out that our prime minister lied about his profession before being what he claims to be now. A few people looked for proves. And now their being called in court as if they were the guilty ones. Interesting, cause in Portugal nowadays you can't tell your opinion, otherwise you go into court.

Hace unos meses en Portugal, nosotros averiguamos que nuestro primero ministro mintió sobre su profesión antes de ser lo que él exige ser ahora. Unas personas integras buscaran e lo demuestran. Y ahora suciedad que llo llamaron a la justicia como si ellos fueran los detentores de toda la verdad . Interesante, asunto de hoy en día en Portugal que usted no puede decir a su opinión, por otra parte usted entra en la justicia se se atreve.

In Portugal vor ein paar Monaten fanden wir heraus, dass der unser Premierminister über seinen Beruf vor der sein log, was er behauptet, jetzt zu sein. Einige Menschen suchten erweist sich. Und jetzt dass sie herbeigerufen werden, huldigt, als ob sie die gilty waren. Interessant, verursachen Sie in Portugal heutzutage Sie können nicht Ihrer Meinung sagen, dass sonst Sie in Gericht eintreten.

In Portugal, een paar maanden geleden kwamen wij te weten dat onze eerste minister over zijn beroep alvorens zijnd loog wat hij om eist nu te zijn. Een paar gezochte mensen blijken. En nu hun die hof wordt gelaten komen alsof zij de gilty waren. Het interesseren, oorzaak in Portugal tegenwoordig niet u kan uw advies vertellen, anders gaat u in hof.

Nel Portogallo, alcuni mesi fa abbiamo scoperto che il nostro ministro principale si è trovato circa la sua professione prima di essere che cosa sostiene essere ora. Alcuna gente cercata risulta. Ed ora loro che è denominato in tribunale come se siano quei gilty. Interessare, causa nel Portogallo al giorno d'oggi non potete dire al vostroparere, altrimenti entrate nella corte.

Passem a mensagem para todos os vossos contactos.

No rectângulo e no estrangeiro!

Contra a morte do Rivoli-Teatro municipal (vídeo)



Um video sobre a história da privatização do Rivoli - Teatro Municipal do Porto.


O negócio pouco transparente entre Rui Rio e o produtor Filipe La Féria

Rivolição contra o rivoluxo dos vips pindéricos

Workshop com elementos da CIRCA (rebel clown army)


Dois dos elementos da CIRCA,( http://www.clownarmy.org/ ) estarão presentes em Portugal entre 15 e 20 de Julho para dar um workshop.

A duração é de dois dias (ainda a decidir quais)

O workshop será grátis!

Precisamos de saber quantas pessoas estariam interessadas em participar neste workshop, para ver se vale a pena realizá-lo.

Por isso, passem palavra.

Tod@s @s interessad@s mandem um mail para

rikardoalves@gmail.com








17.6.07

Os lucros astronómicos dos bancos


Os cinco maiores bancos portugueses têm lucros diários de 8,7 milhões de Euros.


Só o Millennium/BCP soma diariamente lucros superiores a dois milhões de Euros.



Os Bancos portugueses nos primeiros meses deste ano (2007) tiveram mais 21% de lucros do que em igual período do ano passado.



Se fizermos uma poupança e guardarmos o dinheiro nos bancos portugueses, recebemos de juros pouco mais do que 1,5%. A inflação está quase nos 3%. Isso quer dizer que perdemos dinheiro nos bancos, como perdemos poder de compra com os nossos salários, como anos após ano vamos ganhando menos.



O socialismo cavaquista garante aos bancos milhões. A nós rouba-nos os parcos tostões que conseguimos amealhar com o nosso trabalho honrado.

Mas Sócrates está cada vez mais popular e Cavaco Silva, o pai desta criança, diz que os portugueses não devem resignar-se. Suprema hipocrisia!


Como fazer uma escola ecológica


Para quando uma verdadeira formação ecológica dos estudantes nas escolas portuguesas, que ponha em causa o actual modelo de desenvolvimento insustentável da economia virado para a maximização do lucro e com sacrifício dos bens ambientais e dos valores humanistas de solidariedade e cooperação?

A edição do mês de Junho do Le Monde de l’Éducation contém um dossier sobre a escola ecológica, ou mais propriamente sobre como fazer dos estabelecimentos de ensino verdadeiras escolas ecológicas. Desde os projectos pedagógicas às cantinas bio, passando pelos materiais utilizados nos edifícios e pelas fontes próprias de energias alternativas da própria escola a serem aproveitadas, o dossier constitui um bom repositório de ideias e sugestões de carácter ecológico com vista à formação de futuros eco-cidadãos.


Inclui ainda uma entrevista com Roger Guesnerie, professor no Collège de France, que não hesita, a propósito dos riscos das alterações climáticas, em afirmar que «o clima é o arquétipo de um bem colectivo mundial», cuja defesa caberá, obviamente, a toda a Humanidade.
Do conteúdo da edição deste mês da revista fazem parte outros interessantes artigos, nomeadamente um sobre as escolas criadas pelo Movimento dos Sem-Terra no Brasil, escolas a pensar na especificidade do mundo rural onde vivem os jovens e que, a pensar nisso, desenvolveram os seus próprios currículos inspirados nas pedagogias activas e nos princípios humanistas da solidariedade, da transformação social, da abertura ao mundo, da cooperação e da emancipação dos indivíduos.

Outro texto fala do professores de direita, tradicionalmente muito minoritários no meio docente, mas que por circunstâncias várias têm vindo a aumentar, tentando o articulista fazer um retrato geral da personalidade daqueles professores que, ao arrepio de toda a tradição da escola republicana, votam em candidatos de direita !


Consular:

http://www.lemonde.fr/mde/index.html

NOTA: a partir de hoje passo a colaborar com o
blogue A Sinistra Ministra, onde colocarei também os posts relacionados com a temática da educação.

«People have the power» por Patti Smith


People Have the Power

I was dreaming in my dreaming
of an aspect bright and fair
and my sleeping it was broken
but my dream it lingered near
in the form of shining valleys
where the pure air recognized
and my senses newly opened
I awakened to the cry
that the people / have the power
to redeem / the work of fools
upon the meek / the graces shower
it’s decreed / the people rule

The people have the power
The people have the power
The people have the power
The people have the power

Vengeful aspects became suspect
and bending low as if to hear
and the armies ceased advancing
because the people had their ear
and the shepherds and the soldiers
lay beneath the stars
exchanging visions
and laying arms
to waste / in the dust
in the form of / shining valleys
where the pure air / recognized
and my senses / newly opened
I awakened / to the cry

Refrain

Where there were deserts
I saw fountains
like cream the waters rise
and we strolled there together
with none to laugh or criticize
and the leopard
and the lamb
lay together truly bound
I was hoping in my hoping
to recall what I had found
I was dreaming in my dreaming
god knows / a purer view
as I surrender to my sleeping
I commit my dream to you

Refrain

The power to dream / to rule
to wrestle the world from fools
it’s decreed the people rule
it’s decreed the people rule
LISTEN
I believe everything we dream
can come to pass through our union
we can turn the world around
we can turn the earth’s revolution
we have the power
People have the power ...





16.6.07

Ulisses de James Joyce


Há livros assim. A partir deles, da sua chegada, nada do que havia sido se mantém, nada do que acontece depois poderá permanecer indemne à angústia da influência.

Joyce é um ponto nodal da literatura de sempre. Com Shakespeare, o inventor do humano, e com Baudelaire, o mittelpunkt da literatura moderna, Joyce habita uma cidade inexpugnável à qual é necessário aceder.

Com o texto joyceano, de nome Ulisses, o escritor irlandês instaurou a guerra das palavras provando que, através da sua digladiação deifica e do seu carácter redentor, pôde escrever o mundo e ocupar um espaço antes sitiado. A edificação de um marco como este é a verificação de uma força hercúlea que a todos atinge e transforma, reganhando um locus que afecta em catadupa escritores de todas as épocas, repulsando uns para as margens e convocando outros para o centro.
Qualquer texto se transfigura na cidade que a leitura quer habitar. O leitor toca o criador e a criação. Todos se agitam. O leitor-intérprete, num frémito sem sono, derruba a muralha e funde-se no dentro-fora do texto do autor-intérprete. Assim se mostra o criador, sem se dar. Aí começa a empresa do leitor, insónia activa pela vida do texto dentro de si. Joyce afirmará algo de semelhante a propósito dos seus livros, escritos a pensar no «leitor ideal que deverá possuir a insónia ideal».

James Augustine Joyce nasceu a 2 de Fevereiro de 1882, em Rathgar, nos subúrbios de Dublin. Seis anos volvidos, ingressa no Colégio dos Jesuítas de Clongowes. Pouco tempo depois, na mesma altura em que, por razões económicas foi obrigado a mudar-se para uma escola mais barata e protestante, descobrem-se-lhe os primeiros tentames literários. Em 1893, inscreveu-se, gratuitamente, no Colégio Jesuíta de Belvedere sendo, em 1898, admitido na University College, instituição católica da universidade de Dublin. Fascinado por Ibsen, publicou aos 18 anos um artigo dedicado ao escritor norueguês com quem, aliás, entabulará correspondência. Em 1902 viaja até Londres e Paris, iniciando, no ano seguinte, o também cultuado Gente de Dublin. Em 1904, publica diversas composições poéticas em revistas e viaja com Nora Barnacle por Zurique e Pola. Em 1905 dá início à sua carreira docente na Berlitz School de Pola, de onde transitou para a homónima da Trieste, surgindo-lhe, enquanto trabalhava uns meses em Roma, as primeiras ideias para o Retrato de Artista quando Jovem e o Ulisses. No ano de 1907, publica Música de Câmara, saindo a lume, volvido quase lustro e meio, Gente de Dublin (1914). Em 1916 deu-se à estampa Retrato de Artista e, em 1918, Exílios. Instala-se em Paris em 1920. O espírito odisseico do escritor irlandês em breve chegaria ao fim dessa incomparável viagem iniciada, ainda seminalmente, no já longínquo ano de 1906 e com data de arrancada por 1914. Joyce conclui Ulisses em 1921, publicando-o na não despicienda data de 2 de Fevereiro de 1922. Afinal, nesse monumento perene estava a sua vida. O tempo vai poendo. Joyce regressa à poesia com Pomes Penyeach (1927) e com Collected Poems (1936). A par dessa incursão lírica, vai publicando fragmentos da sua «work in progress» Finnegans Wake que verá a luz do dia no dealbar da Segunda Grande Guerra . Dois anos depois, em 1941, com inconclusos 62 anos de idade, Joyce abandonou o corpo e subiu ao Olimpo.

Joyce era um obcecado por datas , comemorações e coincidências. Todos os anos, a cada 16 de Junho que passava, colocava a si próprio a mesma questão: «será que alguém se lembrará deste dia?». Ao que parece, a efeméride irá ser comemorada por mais 300 anos, pelo menos, os mesmos que Joyce gostaria que durassem todos os enigmas de Ulisses e Finnegans Wake.
Mas o que acontece a 16 de Junho para que James Joyce seja recordado para sempre? Destacamos o "Bloomsday", o dia em que se desenrola a história de Leopold Bloom, de Stephen Dedalus e de Molly Bloom, os personagens principais do livro que foi criado para destruir todos os livros, o livro que todos querem ler mas não conseguem, o livro impossível de ser compreendido - Ulisses. Claro que também havia um motivo pessoal para Joyce escolher essa data. Por baixo da arquitectura detalhista, do rigor quase maníaco, do virtuosismo estilístico, da ambição do projecto, Ulisses é, na verdade, uma carta de amor a Nora Barnacle. E como bom irlandês, temperou o seu amor com um pouco de traição, muita cerveja espumosa e, principalmente, muita audácia pela única coisa que dava sentido à sua própria trajectória pessoal tumultuada: a literatura. Data indefectível na mitologia joyceana, o dia 16 de Junho de 1904 é, na vida real-real, o dia em que Nora Barnacle, a mulher que viria a acompanhar Joyce para todo o sempre, fez do jovem Augustine, de 22 anos, «um homem de verdade», segundo o testemunho das suas cartas intensamente melodramáticas, algo estranho para alguém que possuía uma visão do mundo bem grotesca e bem ao gosto dos irlandeses, carregada de humor esdrúxulo e de um profundo carinho pelo ser humano. Mas, ser melodramático também fazia parte da personalidade complicada de Joyce, quase no limite da esquizofrenia, e que conseguiu ficar una graças à palavra que o guiava nos subterrâneos da psique universal. Assim, ao escrever o grande romance sobre a totalidade da vida nada mais natural que situar os seus três personagens - Ulisses, Telémaco e Penélope da era moderna - em busca de uma razão para viver, senão no dia em que o seu criador encontrou a sua própria razão para viver. O antigo herói grego é agora transformado num homem comum e as lutas épicas passam a pequenos desafios diários. Joyce acreditava que era dever do artista representar todos as situações da vida o mais honestamente possível, em especial, aquelas que não eram discutidas em público, tais como o comportamento sexual, funções do corpo e controvérsias religiosas. Em Ulisses, 24 horas são comprimidas em 1000 páginas de monólogos interiores, blasfémias, momentos sublimes ("epifanias"), reflexões sobre a morte, bêbados, poetas, jornalistas, prostitutas diabólicas, ateus santos, passado, presente e futuro tornando-se uma grande síntese na mente de um escritor que conseguiu retratar a sua cidade natal com tamanha exactidão, que ela poderia ser novamente reconstruída através dos seus livros, caso fosse consumida num incêndio.
Ulisses, 1906 - 1914 - 1922. A ideia, a palavra de Trieste e o seu corpo. No real-ficcional o dia 16 de Junho ficaria gravado no Ulisses, associando-se-lhe, para todo o sempre, o "Bloomsday" e o "doomsday", libação celebrativa do valor da refundação linguística operada pelo escritor irlandês.

Joyce escrevia devagar e meticulosamente. Modificava passos e adicionava novo material aos rascunhos à medida que os ia revendo. Onde quer que fosse, levava consigo pequenos livros de apontamentos para anotar, de imediato, uma palavra ou uma frase que tivesse chamado a sua atenção ou de que gostasse. A enorme quantidade de detalhes que adicionou às suas histórias é uma das razões pelas quais elas são tão desafiantes e satisfatórias de ler.
Acusado por muitos de ser um herege por causa da sua recusa em viver de acordo com os preceitos da Igreja Católica, na qual foi educado, a sua aparente heresia constituía, na verdade, um murro na fachada obsoleta das instituições, a única forma de rebelião possível numa Irlanda aprisionada culturalmente e politicamente pela bota inglesa, um país traumatizado pela traição de Charles Parnell, pelas guerrilhas de Michael Collins e por um tal de Renascimento Cultural Irlandês que nunca interessou às ambições do jovem Joyce. Orgulhoso da sua nacionalidade e desejando ver o país independente, era céptico, contudo, em relação ao modo como os movimentos políticos normalmente acabam por limitar as liberdades individuais. Vestindo as "asas" de Dédalo, o grande artífice-arquitecto grego, Joyce voará alto por sobre todas as restrições castradoras que impõem um enclausuramento no pesadelo que é a história da Irlanda. Defendendo a paixão individual como o poder motivador para tudo, arte e filosofia incluídas, e adoptando o credo «non servian» por forma a alcançar uma liberdade incondicional, transformar-se-á num potencial autor de uma epopeia nacional irlandesa. Na doutrina cristã, o único ser "não-criado" é Deus. Na perspectiva teológica de Joyce, é a consciência rácica que ainda urge criar e será ele o seu profeta, ou talvez o seu redentor. Assim como Cristo na cruz simboliza a humanidade, Joyce surgirá, à sua imagem e semelhança, como baluarte de uma identidade nacional una. Será, no fundo, através da sua escrita e da literatura enquanto missão, que irá oferecer a sua própria alma, em sacrifício, à Irlanda e «forjar a consciência incriada da minha raça» (Retrato de Artista).

É justo que Ulisses, a história de um dia na vida de Dublin de há cem anos atrás, seja celebrado em todo o mundo, no dia 16 de Junho, o Bloomsday - talvez a única festividade internacional dedicada a uma obra de arte. Através das personagens e lugares que descreveu, Joyce mostrou a Dublin de 1904 ao mundo; e pelas suas inovações literárias mostrou que a Irlanda, apesar da sua imagem tradicional, é um caso exemplar do mundo moderno.

A influência anarquista no pensamento político de Joyce


Um texto em língua francesa da autoria de Romain Henry sobre as referências anarquistas no pensamento político de James Joyce, um tema apaixonante e objecto de intermináveis debates.

Consultar o sumário do texto, a aguardar publicação, e o seu conteúdo no site indicado no fim.


La pensée politique de James Joyce est un sujet d'études passionnant qui a donné lieu à de nombreuses publications en langue anglaise. Le problème pour le lecteur français demeure cependant l'inaccessibilité de ces sources, quand bien même il parlerait suffisamment bien l'anglais pour en comprendre les enjeux. En effet, les livres les plus sérieux sur ce sujet ont été l'objet de faibles tirages, souvent chers, et ils sont maintenant épuisés.
A ce manque fondamental s'ajoute celui de l'inexistence de critiques joyciennes en traduction et la rareté des sources francophones disponibles.
Il y avait donc un vide bibliographique évident, que j'ai tenté en partie de combler, par des recherches en France, à l'Université d'Ulster à Coleraine (où je suis resté une année) et à la National Library de Kildare Street à Dublin.
Ce texte, écrit à mon retour, est mon mémoire de fin d'études a l'IEP d'Aix-en-Provence et il a été présenté au jury en mars 1999.
Mon directeur de recherche, M. Patrick Hutchinson, l'a ensuite soumis a un éditeur, qui l'a accepté. J'ai donc eu la chance, a 21 ans, de signer un premier contrat de publication et le livre devait sortir en octobre 2000.
Cependant, les difficultés rencontrés par l'éditeur (Sulliver) n'ont pas permis la concrétisation de ce projet.
Dans ces conditions, j'ai pensé qu'il était important néanmoins que ce texte rencontre le public nombreux qui s'intéresse à l'auteur irlandais.
Je mets donc ce texte gratuitement à la disposition des internautes en format pdf (Il faut avoir un version récente d'Adobe Acrobat Reader pour le lire).
Il va sans dire qu'aucun droit d'auteur n'est demandé, mais j'aimerais si possible être cité quand on fera usage de mon texte.
D'ailleurs, celui-ci est conservé par l'université d'Aix-Marseille III depuis 1999 et ma propriété intellectuelle est donc garantie contre toute utilisation abusive.
Bonne lecture !

Romain Henry
Lire 'la pensée politique de James Joyce'




Résumé


Introduction Joyce un écrivain politique ?
Chapitre 1 Une incompréhension durable
Chapitre 2 Les déterminations socio-économiques de la pensée joycienne
Chapitre 3 L'anarchisme de Joyce et ses conséquences
Chapitre 4 Cinq positionnements philosophiques
Chapitre 5 Le statut ambigu de la femme
Chapitre 6 Réflexions sur le choix des héros
Conclusion Le projet personnel d'une Irlande moderne
Annexes
Eléments biographiques, bibliographiques et index nominum



Consultar:
http://perso.club-internet.fr/mehenry/joyce/memoire.htm

Hoje acontece mais um Bloomsday




Bloomsday é o dia em que se recorda a vida e a obra do escritor irlandês James Joyce. Todos os anos no dia 16 de Junho organizam-se múltiplos eventos, especialmente em Dublin ( mas não só) , como leituras públicas, perfomances, pequenos-almoços, passeios, conferências, visitas e lançamentos de livros, para divulgar o escritor que é considerado por muitos o maior expoente dos tempos modernos.


O cosmopolitismo crítico de Joyce contra o nacionalismo dos conservadores e tradicionalistas


O dia 16 de Junho de 1904 é simbolicamente o dia em que decorre a Odisseia modernista do dia-a-dia de Leopold Bloom, um ordinário e anónimo cidadão da civilização urbana e industrial do século XX.
É desse dia e dessa banal odisseia modernista que fala a obra maior da literatura mundial do século XX que é o Ulisses de James Joyce.
Curiosamente é nesse dia que Joyce encontra Nora , sua futura mulher, num mal afamado bar da sua Dublin natal, cidade que ele não perde oportunidade de lançar o seu fel ao longo de toda a sua vida.
O casal Joyce tornou-se num mito dos tempos modernos, e Joyce é justamente considerado o maior escritor da modernidade.
Ao atingir os 103 anos a odisseia literária da banalidade civilizacional da nossa época costuma ser devidamente recordada um pouco por todo o mundo, em especial na cidade de Dublin que serve de cenário ao enredo das misérias do homem moderno.

Iniciativas ao longo desta semana no Centro Joyce (em Dublin)
www.jamesjoyce.ie/detail.asp?ID=81

Programa para este ano (2007)
www.jamesjoyce.ie/docs/BLOOMSDAY_IN_DUBLIN_2007.pdf

Para mais informações sobre o Bloomsday e a vida e obra de Joyce:
www.jamesjoyce.ie/


Outros websistes a consultar:

The James Joyce Bibliography Online
www.jjoycebiblio.org/

James Joyce Society, New York:

James Joyce Annual

15.6.07

Filme em cartaz no cinema Águia D'Ouro

O filme actualmente em cartaz no cinema Águia D'Ouro, condiz plenamente com o estado de total abandono em que se encontra o velho edifício em ruínas... mas também a acção cultural na cidade do Porto, muito especialmene a que diz respeito à autarquia portuense:

«NOITE NA TERRA »

O filme que se segue:

«E tudo o Rio levou!»

(nota: clicar em cima da fotografia para melhor apreciar os pormenores do filme em cartaz)

Súplica de uma criança aos seus educadores (Jacques Salomé)

Aprendei em nós o entusiasmo
Ensinai-nos o espanto da descoberta,
Não deis apenas as vossas respostas
Sonhai com as nossas questões
E sobretudo acolhei as nossas interrogações.
Chamai-nos a respeitar a vida,
A trocar, partilhar e dialogar.
Ensinai-nos as possibilidades de pôr em comum
Não nos dêem só o vosso saber.
Nunca esqueceis a nossa fome de ser
Aceitai as nossas contradições e hesitações.
Deixai-nos crescer
Aprendei o que há de melhor em nós
Ensinai-nos a olhar, a explorar, a tocar o indizível
Não nos dêem só o vosso saber
Despertai em nós o gosto do envolvimento activo
Aceitai a nossa criativadade para construir o futuro
Peçam-nos para enriquecer a vida
Aprendei a reencontrar o mundo
Ensinai-nos a compreender o mundo para lá das aparências
Não nos tragam somente a coerência e pedaços de verdades
Mas despertai em nós gozo da procura de sentidos
Aceitai as nossas errâncias e inabilidades
Chamai-nos para entrar numa vida mais ardente

Há uma vital urgência em tudo isso

No original:


Supplique d’un enfant à ses enseignants.

Apprenez-nous l'enthousiasme.
Enseignez-nous l'étonnement de découvrir.
N'apportez pas seulement vos réponses.
Réveillez nos questions.
Accueillez surtout nos interrogations.
Appelez nous à respecter la vie.
Apprenez-nous à échanger, à partager, à dialoguer.
Enseignez-nous les possibles de la mise en commun.
N'apportez pas seulement votre savoir.
Réveillez notre faim d'être.
Accueillez nos contradictions et nos tâtonnements.
Appelez nous à grandir à la vie.
Apprenez-nous le meilleur de nous-mêmes.
Enseignez-nous à regarder, à explorer, à toucher l'indicible.
N'apportez pas seulement votre savoir faire.
Réveillez en nous le goût de l'engagement.
Accueillez notre créativité pour baliser un devenir.
Appelez nous à enrichir la vie.
Apprenez-nous la rencontre avec le monde.
Enseignez nous à entendre au-delà des apparences.
N'apportez pas seulement de la cohérence et des bribes de vérités,
éveillez en nous la quête du sens.
Accueillez nos errances et nos maladresses.
Appelez-nous à entrer dans une vie plus ardente.

Il y a une urgence vitale.

Jacques Salomé "car nous venons tous du pays de notre enfance."

Ver:
http://www.j-salome.com/01-info/accueil.php

O Sr Rogério, que tocava acordeão nas ruas dos Porto, deixou-nos mais sós

Só agora soube do seu recente falecimento. Mas o Sr Rogério era uma presença diária nas ruas do Porto. Todos os dias lá estava ele na esquina da Rua José Falcão com a Ricardo Jorge a tocar música com o seu acordeão e a dar vida ao ambiente cinzento da cidade. Acompanhou-me ao longo de muitos anos pois cresci ali perto e, quando saía de casa, não poucas vezes cruzava-me com ele e a sua presença animava aquele recanto de ruas.
Apesar de tarde, um bem haja ao humanismo que deu mostras e que me marcou ao longo dos anos.

Os novos dez mandamentos

por Jurandir Freire Costa - Psicanalista, professor do Instituto de Medicina Social da UERJ, em texto publicado no caderno Mais da Folha de São de S.Paulo de 26 Dez. de 1999

1. Amarás o universo, a natureza e a vida sobre todas as coisas.
(Francisco de Assis)

2. Amarás a ti mesmo com o esquecimento e o mundo com a lembrança. (Buda, Hannah Arendt)

3. Darás sempre início ao novo, pois os humanos, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para recomeçar. (Agostinho de Hipona, Hannah Arendt)

4. Não forjarás ideais contrários à vida e à alegria de viver.
(Séneca, Lucrécio, Nietzsche)

5. Não te torturarás com o passado e com o futuro para não sofreres em vão. (Buda, Séneca, Nietzsche)

6. Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente. (Séneca)

7. Não dirás que tua vida é ou foi frustrada; vida alguma jamais se frustra. (Séneca, Nietzsche, Henry James)

8. Não obedecerás sem pensar no que te leva a obedecer.
(Hannah Arendt, Winnicott)

9. Não dirás que tua verdade é a única, e sim aquela em que mais acreditas. (William James)

10. Não eternizarás esse decálogo. (todas as vítimas da intolerância)



Agora comparem este novos mandamentos com os velhos mandamentos bíblicos e vejam qual dos dois decálogos é o melhor.


Recorde-se que os «Dez Mandamentos» é o nome dado aos 10 mandamentos ou ordens que, segundo a Bíblia, teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. As tábuas de pedra originais foram quebradas, de modo que foram feitas cópia. Encontramos primeiramente os Dez Mandamentos em Êxodo 20:2-17. É repetido novamente em Deuteronómio 5:6-21, usando palavras similares.
Decálogo significa dez palavras (Ex 34,28). Estas palavras resumem a Lei, dada por Deus ao povo de Israel, no contexto da Aliança, por meio de Moisés. Este, ao apresentar os mandamentos do amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traça, para o povo eleito e para cada um em particular, o caminho duma vida liberta da escravidão do pecado.




Os Dez Mandamentos para o catecismo católico ( A Igreja reconhece ao Decálogo uma importância e um significado basilares. Os cristãos estão obrigados a observá-lo) :
1. Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas.
2. Não invocar o Seu santo nome em vão.
3. Guardar os domingos e festas.
4. Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
5. Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo).
6. Não pecar contra a castidade (em palavras ou em obras).
7. Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
8. Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo)
9. Não desejar a mulher do próximo.
10. Não cobiçar as coisas alheias.





Entrevista com Jurandir Freire Costa retirada
daqui


A violência é resultado da desigualdade
(Para o psicanalista a responsabilidade é dos poderosos )

É devastadora a análise que o psicanalista Jurandir Freire Costa faz da elite brasileira em seu décimo livro, O vestígio e a aura, recém-lançado pela editora Garamond. Sobre os ombros dos poderosos pesa, no seu entender, a responsabilidade pelas principais mazelas sociais que atormentam o País, em especial a altíssima criminalidade. Não seria apenas a cruel concentração de renda que gera o crime, como se repete à exaustão, mas também a adoção de um comportamento em que “sociabilidade e moralidade se tornaram adversárias”. Jurandir, 60 anos, não usa meias-palavras. “Destravamos o freio de uma engrenagem alucinada, que tripudia sobre séculos de ideais democráticos e humanitários, só porque alguns decidiram fazer de seus prazeres o umbigo do mundo”, escreve. Essa subordinação à moral do entretenimento levou a elite a descartar valores tradicionais, a cultivar a obsessão com o corpo, a consumir drogas sem limites.
A crise moral fez com que a autoridade fosse substituída pela celebridade. Nas telas de tevê ou nas colunas sociais desfilam personagens que são vistos com inveja, mas não com respeito, já que muitas vezes são considerados venais, levianos e corruptos. Nem a autoridade dos pais se manteve, já que estes se recusam a ser vistos como portadores de tradições. Querem ser juvenis a todo custo e ocupar o mesmo espaço dos filhos, que acabam por perder referências fundamentais.
Um dos principais pensadores brasileiros da atualidade, Jurandir diz que sua crítica não tem nada a ver com as idéias moralistas de quem quer o retorno a um passado repressor. Defende a busca do prazer, desde que isso não represente a ruptura do compromisso social. Mas afirma que a crise moral pode ser superada. “Quando fazemos a boa pergunta acabamos encontrando a solução.”

ISTOÉ – A alta criminalidade é o maior sintoma da crise moral que o sr. trata
em seu livro?
Jurandir Freire Costa – Sem dúvida, sobretudo nas grandes cidades. A violência é resultado da desigualdade. Mas não existe fator pessoal nem social que tenha causa única. Desigualdade e concentração de renda sempre existiram neste país. Só posso entender que está ocorrendo algo de ordem moral que faz com que as pessoas não se submetam mais, não se organizem politicamente em
torno de utopias, não pensem em encontrar outra saída a não ser a violência.
E quem dá as regras da insubordinação violenta são as próprias elites. Isso choca. É diferente dos tempos da aristocracia, quando a plebe jogava pedras contra o poder, e do operariado do século XIX, começo do XX, que tinha as idéias socialistas e ia contra o molde de vida dos privilegiados.


ISTOÉ – É o consumo de drogas que faz a elite ficar “de joelhos” diante dos miseráveis, como o sr. escreve?
Jurandir – É uma relação que vira a cultura de cabeça para baixo. Antes, quem tinha autoridade e poder não pedia a outro um meio que o tornasse feliz, como acontece agora. É uma ruptura completa. Os líderes políticos, espirituais, científicos eram fontes autônomas de satisfação. Eles detinham a chave do que as pessoas queriam. Não se pode inverter essa relação e achar que a cultura ficará em ordem. Quem sabe que monopoliza sua felicidade dá as cartas e não o respeita. Chega ao ponto de não respeitar a vida. Nos assaltos em que as pessoas são mortas, nota-se que a vida do outro é irrelevante. Que valor aquela pessoa tem para quem está com a arma na mão, a não ser o dinheiro? Nenhum. É vista como integrante de uma elite que não se respeita, que diz o tempo todo que depende daquele miserável. É encarada como alguém que vive da superexploração dos miseráveis. Essa distorção não começou com o miserável que porta a arma, mas sim com a elite que deu a norma da destruição. Não há um grupo para orientar a sociedade, buscar uma trégua. O grupo dos miseráveis e o grupo da elite querem a mesma coisa. Os dois buscam ser irresponsáveis diante da vida, gozar o quanto puderem. Não têm compromisso com os filhos e ironizam todo tipo de preocupação com o outro. Não existe guerra civil, mas acordo de matança mútua.


ISTOÉ – A elite não tem mais autoridade?
Jurandir – Poder sem autoridade é uma coisa nova na nossa cultura. Quem está embaixo não respeita mais quem está em cima e não é somente pelo consumo de drogas. Antes, a autoridade vinha de pessoas ou instituições com poder político, econômico ou social que se conduziam de forma a merecer o respeito e a admiração. Hoje, quem está no topo do poder não tem mais a admiração moral. Acredita-se que essas pessoas estão lá porque são levianas, venais, em alguns casos corruptas. É a fratura entre a base da ascensão social e a base de valores. Essas figuras inspiram ao mesmo tempo inveja e desprezo. Inveja pelas posses materiais e pelo poder social. Desprezo porque todos sabem que aquelas pessoas não têm mérito. Para chegar até lá, sobem de qualquer jeito. A cultura do espetáculo pede a exposição: aparecer independentemente do talento, do esforço e da disciplina.


ISTOÉ – O que a cultura do bem-estar, do culto ao corpo, tem a ver com essa situação?
Jurandir – Para o grupo formador de opinião, mudou o ideal de felicidade, que hoje é o bem-estar corporal, o prazer físico. Além desse ideal de felicidade sensorial, há uma idéia da vida como entretenimento. Ou seja, a pessoa deixa de pensar nas consequências morais do que faz. Quem compra droga simplesmente desliga o botão que avisa qual será a consequência disso. Parece que tudo é uma brincadeira. Multidões de pessoas que deveriam ter responsabilidade agem dessa forma. Na moral do espetáculo, o outro é sempre o responsável pelas mazelas e não eu. Eu estou corrompendo, sou venal, sou leviano, mas o que eu faço não tem nenhuma consequência. O que o vizinho faz com certeza terá. É uma posição típica dessa falta de compromisso.


ISTOÉ – A busca do prazer não é um direito inalienável?
Jurandir – Prazer não é incompatível com compromisso social. Ninguém aceita a visão moralista de condenação do prazer. Com razão. Mas o prazer da droga, que as pessoas estão se matando para ter, é pífio. O prazer físico torna a pessoa dependente do aqui e do agora porque o corpo só é estimulado por algo presente. Cria-se uma servidão diante do objeto que contrasta com o desejo de autonomia. É um prazer ilusório. Quem diz que é bom é a moral do espetáculo. O viciado em cocaína, por exemplo, passa a não sentir prazer com mais nada. Vive da angústia da próxima dose. Já o usuário social, ao colaborar com o comércio ilegal de drogas e com a marginalidade urbana, paga um preço muito caro: está se restringindo. Não pode andar com liberdade. Nem seu filho. Tem de gastar mais com mecanismos que segurem sua vida ou sua propriedade. Passa a viver numa sociedade sitiada, situação que o dinheiro dele financia.


ISTOÉ – A descriminalização das drogas resolveria esse problema?
Jurandir – Ela pode acarretar dois tipos de consequências. Primeiro, as pessoas começariam a usar socialmente e só alguns se tornariam adictos, como acontece com o álcool. Na segunda possibilidade, devemos levar em conta que a sociedade em que vivemos tende a consumir tudo de forma compulsiva. Nesse caso, correríamos o risco de uma catástrofe, como aconteceu com o consumo de ópio na China. É uma grande discussão e deve ser levada à frente.


ISTOÉ – Como a mídia colabora para a crise moral?
Jurandir – Um dos mecanismos é o tom de isenção com que tudo isso é apresentado. De um lado faz a campanha antidrogas e de outro apresenta um artista que faz propaganda de drogas. Tudo é igual. Há também o mecanismo de informação, que é servida às enxurradas. Isso prejudica o tempo de formação de convicção que a cultura do livro permitia. A mídia vive de moda e é importante que você não tenha convicção para que seja possível mudar a moda de hoje para amanhã. Sobretudo na cabeça das crianças e dos adolescentes. É desalentador. Se troco todos os dias de valor, não posso ter responsabilidade.


ISTOÉ – A psicanálise, principalmente nos anos 70, teve também responsabilidade nisso, ao incentivar uma certa irresponsabilidade? Costumava-se dizer: não se culpe. A religião já lhe culpou tanto...
Jurandir – Com certeza. Foi um componente a mais a maneira como ela foi apresentada culturalmente, como foi apropriada. Parecia que era somente incentivar a pessoa a encontrar o próprio desejo e o próprio prazer. Um pouco de “irresponsabilização”, a pretexto de que as pessoas já tinham sido muito culpadas. Isso é tudo uma tolice. Não tem nada a ver com o que Freud pensava. Ele nunca imaginou a vida como uma Disneylândia. As noções fundamentais dele são as que dizem que nada existe de mais importante do que a responsabilidade do sujeito para consigo e para com o outro.

ISTOÉ – Qual seria a conduta desejáveldas instituições e das pessoas que detêm a autoridade?
Jurandir – Primeiro, deve haver respeito ao sofrimento e à vida do outro. Isso é básico. Segundo, com os preceitos do iluminismo, que são justiça e decência. E, depois, o direito à felicidade de cada um. Além disso, é preciso retomar a discussão da educação no nível da família e das escolas. A quantidade de pessoas apresentadas como tendo sucesso é mínima. Não vai caber todo mundo. Então, a vida dela sempre aparecerá como algo miserável, sem glamour. Se antes as pessoas almejavam ser íntegras, solidárias, honestas como foram seus pais, hoje isso parece não ter mais valor. Dizia-se que não se pode fazer qualquer coisa para subir na vida. Hoje, as pessoas fazem qualquer coisa para subir na vida e ainda são apontadas como exemplo.

ISTOÉ – O sr. detecta a “juvenilização” dos pais, que passam a disputar o mesmo espaço dos filhos.
Jurandir – Os pais se converteram a essa idéia de felicidade sensorial. Achamque viverão bem com a receita de juvenilidade, boa forma e puerilidade mental.
Os próprios filhos se sentem constrangidos. Não digo que o pai deva dar a sua vida pelo filho, só que tem de integrar o filho à sua vida. Ou então não seja pai ou mãe. Se as pessoas não puderem se responsabilizar pelas novas gerações, a gente vai jogar esse mundo na lata de lixo. Se a pessoa não se dispõe a cuidar, então não tenha filhos. Isso acontece porque o pai tem vergonha de ser velho, não quer ser um ancestral.


ISTOÉ – Há esperança para quem continua a cultivar valores como
solidariedade e honestidade?
Jurandir – Esses têm um valor fundamental. São a bússola. O navio pode se desgovernar aqui e ali, mas enquanto você tem isso há esperança de seguir o bom caminho. Essas pessoas não podem ser silenciadas nem podemos desacreditar da importância delas. Quando elas são silenciadas, sabemos o horror que é. Quando elas desacreditam, decretam o fim da cultura. No espaço cultural houve isso. Roma acabou em um dia. Há figuras públicas que mantêm esses valores. Há também o pai que batalha e tem coragem de se impor ao filho, para que depois o filho agradeça. Essa resistência cotidiana me agrada muito mais. É preciso que essas pessoas saibam que fazem diferença quando realizam bem o seu trabalho, que a sua honestidade é um valor, que essa crença constrói um país. Não podemos deixar que se desesperem e digam que nada adianta. Do outro lado há o deboche, o cinismo. Mas no final o resultado dessa resistência vale a pena. Basta pensar que japoneses, alemães, italianos e outros europeus carregaram pedra depois da Segunda Guerra Mundial e estão aí de novo. Se eles fizeram aquilo, a gente também pode fazer. Por que não?

R de Rivoli

O Rivoli-teatro municipal do Porto está transformado em casa de espectáculos!!!

Manifestação contra a política cultural de Rui Rio e a entrega do Rivoli-teatro municipal aos interesses comerciais reuniu muita gente.


(Nota pessoal: a beleza natural das jovens manifestantes contrastava com o kitsch e o evidente mau gosto exibido pelas convidadas de serviço do La Féria. Até nisso a manifestação foi uma vitória da população do Porto. )


Ontem a concentração silenciosa convocada para a estreia do espectáculo revivalista do empresário La Féria no Rivoli (ex-teatro municipal do Porto) conseguiu reunir muitos manifestantes que acabaram por cercar todo o aparato «à Hollywood-de-trazer-por-casa» que foi montado para o efeito à entrada da nova casa de espectáculos.
Os manifestantes exibiam um R impresso numa folha branca em memória ao Rivoli – teatro municipal, adquirido e totalmente reconstruído com dinheiros públicos e que, durante mais de uma década, realizou uma notável obra de divulgação cultural permitindo que os grupos e colectivos da cidade apresentassem as suas produções nas suas instalações como ainda trazendo de fora uma variada gama de artistas e produções artísticas sempre com uma boa receptividade e retorno financeiro.
A presença numerosa dos manifestantes permitiu o cerco completo à volta do gradeamento instalado na Praça D.João I e constituiu um cenário alternativo, mais recomendável e vistoso, que o triste e ridículo espectáculo em que se transformou a chegada e a recepção dos presumidos «vips» à estreia da velhinha e bolorenta ópera-pop «Jesus Cristo Superstar». O aparato montado metia dó, tal era o artificialismo bacoco que misturava batuques com um ritualizado meneio de ancas a que um casal não se cansava de se entregar no alto de dois andaimes. Um tenda de plástico transparente era a antecâmara por onde se tinha de passar para entrar no átrio do edifício, não sem antes a patrocinadora do espectáculo, uma conhecida marca de cerveja, se exibir a fim de mostrar o seu alto contributo para mais este acto «kultural». Mas pior ainda foi a chegada dos convidados. Aquilo parecia mais uma brigada do reumático. De todos os lados da praça, surgiam senhoras a coxear ( as jovens e as menos jovens pouco ou nada se distinguiam, tal era a sua semelhança), com notória dificuldade em locomover-se nas alturas dos seus sapatos, enquanto jovens imberbes mascarados de cavalheiros faziam o possível por se passarem por ambiciosos executivos do BPI e, outros, por versões recicladas do Conselheiro Acácio.
A acção de contestação, comparada com aquele refugado, foi excelente. De emoção contida, de número muito significativo de presenças, da qualidade de manifestantes ( sobretudo, da beleza da raparigas), em tudo a contestação de rua ficou a ganhar.
Rui Rio e o La Féria, de costas voltadas para a cidade e a sua população mais activa, ficarão definitivamente condenados ao papel de vendilhões do património urbano, aqueles que pretenderam esbulhar a cidade do seu teatro municipal e transformá-lo em casa de espectáculos.


Fotografia retirada de http://artimanha-artimanha.blogspot.com/

14.6.07

Alemães usaram aviões de caça Tornado para fotografar acampamento de manifestantes anti-G8 !!!


O Governo da muita «civilizada» Alemanha já não tem vergonha em colocar-se fora-da-lei e ir contra a sua própria Constituição ao autorizar um raid aéreo e usar aviões militares como os caças de combate Tornado para tirarem fotografias sobre os acampamentos dos manifestantes anti-G8

Esta notícia está a gerar polémica na Alemanha porque uma operação deste género é ilegal e – pior ainda - anti-constitucional

Notícia completa( retirada
daqui ):


A utilização de «caças» da força aérea alemã para fotografar um acampamento dos manifestantes contra a Cimeira do G-8, na semana passada, em Heiligendamm, já admitida pelo Ministério da Defesa, está a gerar celeuma na Alemanha.

Os Verdes foram os primeiros a criticar a operação dos «caças» Tornado, que consideram inconstitucional, e ontem foi a vez de um porta-voz do SPD afirmar que se tratou de “uma provocação”. Para este social-democrata, a decisão de enviar os Tornado, os aviões de combate mais modernos de que a Alemanha dispõe, para fazer o reconhecimento do acampamento onde estavam milhares de activistas antiglobalização, em Reddelich, foi legal, “mas politicamente muito pouco inteligente e insensível”.
O mesmo deputado avisou o ministro da defesa, o democrata-cristão Franz-Josef Jung, para “não irritar o SPD”, aumentando assim as tensões na coligação chefiada por Angela Merkel, depois de o líder social-democrata Kurt Beck ter criticado abertamente os resultados da Cimeira do G-8, em que a chanceler teve papel predominante.
Wiefelspuetz afirmou que o reconhecimento do local onde estavam os manifestantes também podia ter sido feito com helicópetros, acusando Jung, que ordenou a operação, de “falta de instinto político”.
O Ministério da Defesa confirmou na segunda-feira os voos de dois “caças” Tornado sobre a região em torno de Heiligendamm, onde estava a decorrer a Cimeira dos líderes políticos da Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia, rodeada por forte dispositivo de segurança.
Os Tornado estão a ser utilizados, por exemplo, no Afeganistão, para fornecer posições de grupos de rebeldes talibãs às tropas aliadas norte-americanas e britânicas da Operação Liberdade Duradoura.
Os “caças” sobrevoaram o acampamento anti G-8 em Reddelich a 150 metros de altura, para tirar vários fotos.
O deputado ambientalista Hans-Christian Stroebele já tinha considerado o “raid” aéreo anti-constitucional e pediu esclarecimentos ao governo, depois de ter sido informado do incidente por manifestantes que acamparam em Reddelich.
Testemunhas ocupares disseram à imprensa alemã que os Tornado sobrevoaram na terça-feira passada, na véspera de começar a Cimeira, o acampamento em Reddeelich, a baixa altura, fazendo estremecer as estruturas ali erguidas.
Quatro dias antes da Cimeira, registaram-se duros confrontos entre cerca de dois mil manifestantes anarco-libertários e a polícia, que provocaram quase mil feridos, após uma manifestação, em Rostock, de mais de 30 mil pessoas contra a reunião dos líderes mundiais. Nos dias seguintes, milhares de pessoas conseguiram bloquear alguns acessos a Heiligendamm, mas quase tudo decorreu de forma pacífica, embora se tenham registado mais alguns incidentes entre manifestantes e as forças da ordem.

Rivoli: mantém-se para hoje(dia 14) o protesto silencioso sob a forma de sit-in

Hoje estreia o Jesus Cristo Super Estar do La Féria no Rivoli (teatro ex-municipal) do Porto

CONTRA VENTOS E MARÉS, CHUVISCOS OU AGUACEIROS, FESTA VIP,etc

MANTÉM-SE O PROTESTO SILENCIOSO.

APARECE NA PRAÇA D. JOÃO 1º ÀS 20h15
DEBAIXO DAS ARCADAS DO PALÁCIO ATLÂNTICO,

TRAZ AMIGOS, VIZINHOS, E TODOS OS QUE NÃO SE CONFORMAM COM A ACTUAL GESTÃO DA CIDADE,

TRAZ UM GUARDA-CHUVA,
TRAZ A TUA FORÇA SOLIDÁRIA,

O NOSSO SILÊNCIO DE CORPO PRESENTE É MAIS FORTE QUE A FESTA DA PREPOTÊNCIA POLÍTICA

CONTAMOS CONTIGO

Crew Hassan, cooperativa cultural ( em Lisboa)

http://www.crewhassan.org/

A Crew Hassan é uma cooperativa cultural sem fins lucrativos, criada em 2004, inicialmente sem espaço fixo, mas a partir de Maio de 2006 com instalações próprias na baixa de Lisboa ( na Rua das Portas de Sto Antão 159-1º). Desenvolve diversas actividades na área cultural e social. Tem agora um website onde divulga as suas iniciativas colocando o seu espaço ao dispor dos colectivos que desejam concretizar as suas acções.
É também um bar e um óptimo ponto de encontro para activistas sociais e culturais.

Crew Hassan

Horários: Todos os dias: 14h-24h
Do It Yourself
No primeiro sábado de cada mês, há uma feira dedicada a produtos reciclados ou transformados, está aberta a quem queira participar, tendo como única condição que os artigos postos à venda tenham sido feitos à mão.