6.12.06

RR 3D – Redução de Riscos a Três Dimensões

2º Seminário RR 3D – Redução de Riscos a Três Dimensões
( 6 e 7 de Dez. 2006)

no bar Maus Hábitos, à Rua Passos Manuel 178, 4º no Porto

Participantes:

António Escohotado

Eduardo Hidalgo

Luís Fernandes

Ana Lopes

Stephane Leclercq


Organização da Agência Piaget para o Desenvolvimento
Inscrições: check-in@apdes.net.


O Seminário subordinado ao tema RR 3D – Redução de Riscos a Três Dimensões trata-se de um espaço de co-construção de novos sentidos críticos sobre a Filosofia de Redução de Riscos e Minimização de Danos associada a diferentes objectos da desviância e, para tal, propomo-nos abordar esta temática a três dimensões : Consumidores de Drogas Lícitas; Consumidores de Drogas Ilícitas; e Trabalhadores Sexuais, sob os olhares do Saber , da Estratégia e das Figuras da Desviância.

Relativamente à vertente do Saber procurar-se-á reflectir sobre a importância da Investigação como dispositivo orientador da compreensão do fenómeno do consumo de drogas nas sociedades do capitalismo avançado e, simultaneamente, da sua importância como dispositivo de avaliação de resultados dos projectos de Redução de Riscos.

Prevê-se, portanto, reflectir sobre as propriedades emergenciais advindas da aplicação de metodologias de Investigação-Acção, através da discussão de resultados práticos da implementação destes modelos.

Esta temática servirá de base de discussão às duas mesas de trabalho da 1ª manhã do seminário: “ O Saber ao Serviço da Redução de Riscos (Investigação / Avaliação)” e “ O Projecto GIRUGaia: uma proposta de Investigação / Avaliação”.

No que concerne à vertente da Estratégia prevê-se retratar, por um lado, a situação actual da Filosofia de Redução de Riscos em Portugal e no Sul da Europa e, por outro, as condições facilitadoras do (des)fortalecimento das políticas que definem a aplicação de medidas de Redução de Riscos e Minimização de Danos.

Na 1ª mesa de trabalho do 2º dia de seminário, intitulada “O Panorama da Redução de Riscos em Portugal e na Europa” , esta temática será abordada por diversos especialistas nesta matéria.

Por último, tratar-se-á das 3 Figuras da Desviância que foram escolhidas (consumidores de drogas lícitas, consumidores de drogas ilícitas e trabalhadores sexuais) para, sobre elas, se fazer incidir um exercício de reflexão desde os fundamentos de análise e compreensão da desviância até à definição de estratégias de Redução de Riscos ajustadas a cada uma delas .

Atendendo aos percursos e sentidos existenciais de cada uma destas figuras, sempre sob uma lógica processual, discutir-se-á sobre estratégias pragmáticas de intervenção e adaptadas às necessidades biopsicossocias do indivíduo. Prevê-se, portanto, reflectir sobre as estratégias de Redução de Riscos e Minimização de Danos ao nível mais Microssocial e que tem em vista o indivíduo e a sua (re)construção individual, como complemento indissociável da visão Macrossocial apresentada na mesa de trabalho anterior – “Velhas (Con)figurações, Novas Dimensões de Intervenção” .

Assim, prevê-se terminar as comunicações apresentadas perspectivando as possibilidades de trabalho futuras e as Estratégias Micro e Macrossocias mais prementes a seguir.
A APDES – Agência Piaget para o Desenvolvimento - é uma associação privada sem fins lucrativos e tem como visão ser um agente social responsável e participativo, que procura influenciar a agenda das políticas de cidadania e do desenvolvimento territorial, ao nível local e global, no respeito pelos indivíduos e comunidades, e em exigência permanente face aos objectivos e modos de actuação.
O seu projecto assenta na ideia de Desenvolvimento segundo uma matriz de investigação-acção que privilegia as populações, o território, o indivíduo no seu processo de mudança e as expressões de identidade e de afirmação de uma comunidade;
Através do exercício de três dimensões fundamentais de acção: acção técnica, acção científica e acção política, e construindo uma ética de responsabilidade;
Sendo um espaço de inovação e de debate, disponível para a experimentação de metodologias, processos de trabalho e de modos de visão da sociedade;Onde o crescimento pessoal e profissional assenta na liberdade criativa e na realização de novas ideias e projectos.
Mais informação:
O CHECK-IN é uma equipa que visa contribuir para uma melhor Gestão de Prazeres e Riscos associados ao consumo de substâncias psicoactivas e da sexualidade.

O CHECK-IN tem como princípios:
- Há quem consuma substâncias psicoactivas e não queira deixar de o fazer.
- O consumo de substâncias psicoactivas pode apresentar riscos que devem ser evitados pelos consumidores das mesmas.
- O consumo de substâncias psicoactivas também tem uma dimensão de prazer.
- As práticas sexuais de risco devem ser evitados devido à possibilidade de transmissão de doenças infecciosas.

O CHECK-IN não é moralista em relação aos comportamentos de risco de qualquer espécie, procurando informar e apoiar os consumidores para a Gestão de Prazeres e Riscos.

O CHECK-IN intervém em contextos festivos de qualquer tipo, desde festas de música electrónica, festivais de verão, festas académicas etc.

As actividades do CHECK-IN em festas podem incluir:
- Prestação de informação verbal ou em flyers acerca das substâncias e DST´s.
- Fornecimento de preservativos.
- Testagem do conteúdo de substâncias psicoactivas.
- Auxílio em situações de crise.
- Fornecimento de água e alimentos.

Mais esclarecimentos em check-in@apdes.net

O CHECK-IN é financiado pela Coordenação Nacional da Infecção VIH/SIDA e promovido pela APDES – Agência Piaget para o Desenvolvimento

Petição pela Acessibilidade Electrónica Portuguesa

A comunicação não se faz em branco

Para que todos possamos escrever e ler nos nossos blogues, como noutras situações de acesso à informação, independentemente das nossas características físicas

Há oito anos foi desencadeado um movimento sobre a primeira petição electrónica no nosso país – a petição pela acessibilidade da Internet portuguesa -, que deu origem à Resolução do Conselho de Ministros nº 97/99, de 26 de Agosto, estabelecendo regras relativas à acessibilidade pelos cidadãos com necessidades especiais aos conteúdos de organismos públicos na Internet.
No ano de 2007, Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos, em que Portugal assume a Presidência do Conselho da União Europeia, está disponível a segunda petição, seguindo as linhas gerais da secção 508 da Lei da Reabilitação (http://www.section508.gov) dos Estados Unidos, que inclui também a acessibilidade do software, equipamentos de telecomunicações, produtos de áudio e vídeo, equipamentos electrónicos de escritório e computadores, e da Lei italiana sobre Promoção do Acesso às Tecnologias da Informação para Deficientes (http://www.pubbliaccesso.it/english/) que define regras de acessibilidade para a Web, equipamento electrónico usado no trabalho, materiais educacionais usados nas escolas, nomeadamente software educativo multimédia.

Informações e Recolha de Assinaturas

Petição pela Acessibilidade Electrónica Portuguesa

Retirado de:
http://citizenmary.blogspot.com/

4.12.06

Porque




Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

( poema de Sophia de Mello Breyner Andresen,

in No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79

1.12.06

DIZSONANTE [sound poetry, sound art, performance, spoken word, oralidades] na Guarda (30 Nov a 2 Dez.)


Dizsonante [sound poetry, sound art, performance, spoken word, oralidades]


No último dia do mês de Novembro (dia 30) regressa o mais vanguardista dos Festivais promovidos pelo Teatro Municipal da Guarda, o DizSonante [sound poetry . sound art . performance . spoken word . oralidades], cuja abertura é feita com as performances “Passagem”, de Alberto Pimenta e “Disección Poética en Público”, da poetisa espanhola Marina Oroza.

Alberto Pimenta é frequentes vezes apelidado de “experimentalista”, mas já explicou que rejeita a combinação de estética e programática de correntes. Uma das principais marcas da sua obra poética consiste porventura em sacralizar o profano e vice-versa. Da sua estética da performance faz parte central tratá-la como um evento único, irrepetível, criado para a circunstância local e temporal da sua realização.

Marina Oroza é escritora, poetisa, performer e actriz. Na sua trajectória tem desenvolvido trabalhos de investigação como poetisa sonora. Colabora com grupos de acção poética, com artistas visuais e músicos.

No dia 1 de Dezembro, “Rumor” de Ana Deus substui o espectáculo de Blixa Bargeld, que por motivos pessoais não se pode deslocar a Portugal. Ana Deus, dos projectos Ban e Três Tristes Tigres apresenta este “Rumor”, a solo, onde, só a voz se faz ouvir. Com a ajuda de pedais, cria texturas e ritmos sobre os quais vai criando e recriando temas. Alberto Pimenta, Ernesto Melo e Castro, Daniel Faria, Fausto, José Mário Branco e Regina Guimarães são alguns dos autores visitados. Os vídeos são de Amarante Abramovici e os desenhos de Paulo Ansiães Monteiro.

No dia seguinte (2 de Novembro) actuam também no âmbito do Dizsonante: Uno Duo Trio (Paulo Maria Rodrigues, Luís Miguel Girão e Rolf Gehlhaar) com a performance “Cyberlieder”, e a espanhola Maria Durán apresenta “Cuisine Concrète”, espectáculo a partir de sons “cozinhados” com a ajuda de fogões e microfones.

“CyberLieder” é uma composição resultante da colaboração de Paulo Maria Rodrigues, Luis Miguel Girão e Rolf Gehlhaar. É uma estrutura para improvisação que se desenvolve em torno da descoberta pessoal do potencial existente na interacção entre o performer e o computador. A performance baseia-se na transformação da tradicional jaqueta do cantor clássico num interface de controle em comunicação com um computador.

“Cuisine Concréte”, de Maria Durán, tem como principal objectivo fazer as delícias dos convidados (o público), elaborando um “guisado de equivalências artísticas”. Os diferentes ingredientes utilizados (fogões e microfones, juntos mas não mexidos) dão a possibilidade, ao cozinheiro e ao seu ajudante de maturar uma obra feita de alimentos e de tecnologia, sendo para isso imprescindível, num meio activo e não pré-cozinhado, a qualidade de uns e a fiabilidade e o “savoir-faire”de outros. Da cozinha, esse imaginativo laboratório quotidiano, sai este prato “concreto”, baseado numa receita que mistura sons e sabores


Trata-se pois de um acontecimento que cruza diferentes artes, num processo de contaminação criativa que tem por base a palavra e o som. Festival vanguardista, o dizsonante pretende desafiar as normas e o esteticamente correcto, através de propostas inovadoras que se constituam como um desafio à imaginação dos espectadores.

Consultar:
http://teatromunicipaldaguarda.blogspot.com/

10º Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira ( 3 a 10 Dez.)



A não perder! A não perder!
Uma iniciativa do Cine-clube da Sta Maria da Feira

A acontecer de 3 a 10 de Dezembro, o Festival luso-brasileiro de Sta Maria da Feira propõe um confronto saudável entre a cinematografia portuguesa e brasileira. É um espaço que procura intensamente contribuir para a reconciliação do público com o cinema português e proporcionar uma maior abertura à entrada do cinema brasileiro no nosso país, afirmando deste modo o cinema que fala a nossa língua.
Como grandes eixos programáticos do festival, salientamos a aposta no sentido de descoberta de novos valores (marca indelével do festival), na crescente abertura à exibição em novos suportes e na relação do cinema clássico com as gerações actuais.
O Festival de Santa Maria da Feira é o principal espaço de confronto entre as cinematografias portuguesa e brasileira, reunindo as mais representativas produções do biénio 2005/2006.
Durante o certame serão apresentados cerca de 60 filmes nos diversos blocos que constituem a programação, sendo exibidos na sua quase totalidade com a presença dos realizadores e actores
Consultar a programação:

http://www.cineclubedafeira.net/10FEST/programacao.html


O Festival de Santa Maria da Feira tem vindo a dar um particular foco ao documentário brasileiro, mostrando sucessivamente nas últimas edições, filmes importantíssimos, revelando cineastas (Cao Guimarães e Kiko Goifman)e afirmando autores consagrados (Eduardo Coutinho).
Este ano propomos um programa constituído por três documentários brasileiros de temática social.
“À Margem do Concreto” de Evaldo Mocarzel, que mergulha fundo no mundo dos excluídos, acompanhando todo o processo das ocupações dos sem tecto, “Atos dos Homens” de Kiko Goifman, denunciando a violência policial no célebre massacre da Baixada Fluminense, nos arredores do Rio de Janeiro e “Meninas” de Sandra Werneck, que acompanha o quotidiano da gravidez precoce das adolescentes das favelas
.


Recorde-se que o Festival faz parte integrante da intensa actividade realizada por um dos mais empenhados cine-clubes do país, o Cine-clube de Sta Maria da Feira.
Ver:

XII Festival Internacional de Teatro Acert ( 1 a 9 Dez.) em Tondela


Começa hoje, e prolonga-se até 9 de Dezembro, em Tondela o XII Festival Internacional de Teatro Acert.
Recorde-se que o Acert é uma companhia de teatro independente instalada no interior do país e que tem desenvolvido um trabalho notável na divulgação das artes e letras, nomeadamente do teatro.
Trata-se, sem dúvida, de uma iniciativa a não perder e que merece bem uma visita (à tarde e à noite) a Tondela, no distrito de Viseu.
Lá estaremos.
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Para mais informações e consultar o programa, ver:

Graffiti e Arte Rupestre - mesa-redonda em Trancoso (3 de Dez.)

Mesa Redonda “Graffiti e Arte Rupestre: artes públicas em discussão” ( em Trancoso, a 3/12/2006)

O assunto é actual e pertinente.
O acto de inscrever em suportes de domínios diversos e em contextos vários, mensagens que se traduzem em desenhos e escrita, é compreendido como um veículo comunicacional por excelência.
À parte das conotações negativas que caracterizam os autores destes trabalhos e da própria apreciação artística, é evidente a intemporalidade do gesto.
Através dele comunicam-se, tal como no passado, as preocupações, os desejos e as alegrias do quotidiano.

Os oradores:
Maria Lino [Escultora; Feital];
Alberto Carneiro [Escultor; Porto];
Ricardo Campos [Laboratório de AntropologiaVisual/Universidade Aberta, Sociólogo];
Craft [Writer; Almada];
Ficto [Writer; Almada];
António Martinho Baptista [Arqueólogo, Centro Nacional de Arte Rupestre]

Outras informações
3 de Dezembro 18 horas

Informações: 271881245 938723037
Inscrições até 29 de Novembro
Preço: 10 euros para sócios da Luzlinar e 18 euros para outros interessados
Inclui jantar temático criado por António Lino



Fonte:
http://www.culturacentro.pt/evento.asp?id=271

Sons em Trânsito - música étnica em Aveiro ( 29 Nov. a 2 de Dez 2006)

Está a decorrer em Aveiro o destival Sons de Trânsito, uma inciativa que permite divulgar a música étnica de várias partes do mundo


- PROGRAMAÇÃO -
29 Novembro

21.00 Feira do Disco l Salão Nobre
21.30 Cristobal Repetto (Argentina) l Sala Principal
23.00 Ludovico Einaudi & Ballake Sissoko (Itália Mali) l Sala Principal.

30 Novembro
21.00 Feira do Disco l Salão Nobre
21.30 Debashish Bhattacharya (Índia) l Sala Principal
23.00 Kepa Junkera (País Basco) l Sala Principal00.
30 Sessão de Contos: Carles Garcia Domingo l Bar Café TA.

01 Dezembro
21.00 Feira do Disco l Salão Nobre
21.30 Sara Tavares (Portugal) l Sala Principal
23.00 Lo´Jo (França) l Sala Principal
00.30 Sessão de Contos: Paula Carballeira l Bar Café TA.

02 Dezembro
21.00 Feira do Disco l Salão Nobre
21.30 Aldina Duarte (Portugal) l Sala Principal
23.00 Rene Aubry (França) l Sala Principal
01.00 Dazkarieh (Portugal) l Salão Nobre.

Mais info:
http://www.set.com.pt/scid/set06/

4º Festival de Cinema de Arouca (1,2 e 3 de Dez)


Decorre, nos dias 1, 2 e 3 de Dezembro, no cine estúdio dos Bombeiros Voluntários em Arouca o 4º Festival de Cinema de Arouca.
Imagine aliar a beleza de Arouca a um festival de cinema...
A sétima arte faz com que uma nova brisa apareça onde diferentes gentes e culturas se encontram, e nós termos a oportunidade de a sentir, viver, apoiar e ajudar a concretizar essa ideia que numa terra quase esquecida no interior do país faz a diferença.
Mais informações em:
http://www.aroucafilmfestival.com/
Programa:

Sexta-feira, 01

ABERTURA 21h30

PEREGRINAÇÃO – Jaime Ribeiro – 25m

AROUCA PORTO: O FILME – João Rita - 18m

Convívio com realizadores, júris e convidados + porto de honra



Sábado, 02

Visita Turística Guiada por Arouca
14h30

COMPETIÇÃO I 21h30

A FLOR DA TELA – Cinema de Poesia – BRASIL – 7m

CAMBIO – Vanderley Timóteo – BRASIL – 4m

ESTADOS DA MATÉRIA – Susana Nobre – PORTUGAL – 14m

Ph 25 A – Ricardo Freitas – Portugal – 2m

VAMOS CANTAR – Carlos Cruz e Vítor Lopes – PORTUGAL – 2m

HISTÓRIAS A PASSO DE CÁGADO – Artur Correia – 2m

THE PLAY – Cinema de Poesia – BRASIL – 3m

WOLF – Juraj Kubinec – ESLOVÁQUIA – 4m

DEU NO JORNAL – Yanko Del Pino - BRASIL – 3m

PARA CHEGAR ATÉ Á LUA – Split Filmes – BRASIL – 10m

DESISTE – Hernâni D. Maria e Pedro Luz – PORTUGAL – 5.24´´m

Intervalo

AS FEBRAS DE JESUS – Pedro Manuel Dias – PORTUGAL – 13m

Á MÃO ARMADA – Vanderley Timóteo –BRASIL – 6m

LE BVISER - O BEIJO – Stefan Le Lay – FRANÇA – 5m

DETAIL – Ana Maria Carneiro – PORTUGAL – 2m

EN EL HOYO – NO BURACO – David Martin de Los Ssntos – ESPANHA – 24m

O CARRO – Cinema de Poesia – BRASIL – 2.31´´m

BOKOVKA – SIDEWAY – Tomas Janco – ESLOVAQUIA – 28m

SEREI O TEU ESPELHO – Pedro Rocha Nogueira – PORTUGAL – 13m

Domingo, 03

COMPETIÇÃO II 14h00

LUGAR COMUM – Verónica da Costa – PORTUGAL – 10m
AS FADAS DAS GALINHAS – João Rei Lima – PORTUGAL – 2m

JE SUIS JEAN COCTEAU – Cinema de Poesia – BRASIL – 10m
MAIS UM ENCONTRO DE FAMÍLIA – Filipe Peres Calheiro – BRASIL – 15m

QUERO QUE VOLTS (ANIMADO) – João Rei Lima – PORTUGAL – 3m

BÉBÉ CHORÃO – Carla Santos – PORTUGAL – 3.30´´m

HISTÓRIA DA BORRACHA – Éric Blésin – BÉLGICA – 15m

O MAGO – Cinema de Poesia – BRASIL – 3m

A RELIGIOSA 2 – Clídio Nóbio – PORTUGAL – 2m

MAU DIA - Sanguenail – PORTUGAL – 19m

MACACOS ME MORDAM – Lumiô Filmes – BRASIL – 19m

Intervalo

PRÍSERA – MONSTRO – Michaela Ostadalova – ESLOVAQUIA – 5m

O SEGREDO – Luís António Pereira – BRASIL – 18m

CAIXA POSTAL – Vanderley Timóteo – BRASIL – 9m

ALMAS CONGELADAS – Joana Macias – ESPANHA – 14m

BERÇO DE PEDRA – Nuno Rocha – PORTUGAL – 28m

AMÉLIO O HOMEM DE VERDADE –Luís António Pereira – BRASIL – 14m

37 C – Tamara Sulamanidze - GEORGIA

PROJECÇÂO CINEMA Super 8mm 18h15

EXIBIÇÃO DA CURTA METRAGEM REALIZADA PELOS ALUNOS da Escola Secundária de Arouca 18h30

ENCERRAMENTO ENTREGA DE PRÉMIOS 18h40

Ribeirinha - Festival de mulheres na Guarda



Com algum atraso - mas mais vale tarde do que nunca - damos conta do que se vai passando na cidade da Guarda, nomeadamente no seu teatro municipal, onde têm estado a decorrer coisas muitíssimos interessante e que mais que justificam uma deslocação para aquelas bandas.
Falamos, neste caso concreto, do Ribeirinha, um festival de música no feminino e que trouxe nomes e grupos musicais extremamente importantes.

Ribeirinha é o nome da mulher que nos tempos de D. Sancho I inquietou e seduziu a sociedade da cidade da Guarda daqueles tempos. Hoje inspira um festival onde a arte no feminino ganha destaque durante todo o mês de Novembro.

O Teatro Municipal da Guarda (TMG) promoveu, durante o mês de Novembro, um festival inteiramente dedicado à arte no feminino.

O Ribeirinha – Festival de Mulheres conta, no seu programa, com importantes presenças femininas. Cristina Branco, Meira Asher, Sussan Deyhim, Tucanas, Fátima Miranda, Gerda Lepke, Ingrid Kerma e Liane Birnberg integram o cartaz deste festival que aposta na diversidade de propostas e na inquestionável qualidade das artistas convidadas. Da música às artes plásticas, Novembro foi o mês das mulheres no TMG.

O “Ribeirinha - Festival de Mulheres” começou no dia 4 de Novembro, com a “voz do novo fado”, Cristina Branco, que actuou no Grande Auditório do TMG, pelas 21.30 horas. Sem procurar uma ruptura ingénua com a tradição do fado, Cristina Branco revitaliza essa tradição pela autenticidade da sua interpretação. A voz e a sensibilidade interpretativa de Cristina Branco procuram o difícil convívio dos textos com a musicalidade do fado, tentando encontrar um caminho expressivo tornando a música e a letra inseparáveis no sentir.

No dia 11, Meira Asher regressou à Guarda (actuou em 2000, no âmbito do Ó da Guarda). Desta vez, a irreverente artista israelita apresentou o espectáculo “Open Cuts” com o holandês Guy Harries, no Pequeno Auditório do TMG. Em “Open Cuts”, Meira Asher e Guy Harries apresentam uma mistura única de texturas electrónicas e de ambientes samplados aliados à experimentação vocal.

Seguiu-se, Sussan Deyhim, no dia 12 de Novembro. Sussan Deyhim é compositora e artista vocal de primeiríssima linha na música experimental internacional. A música de Deyhim combina técnicas vocais com processamento digital, misturando-lhe depois o misticismo da música do médio Oriente A acompanhá-la neste espectáculo, intitulado “Vocodeliks” esteve, como convidado especial Richard Horowitz. Horowitz, é um conhecido músico norte-americano premiado por diversas vezes pelas suas prestações em bandas sonoras para cinema. Horowitz criou música para filmes de Oliver Stone e Bernardo Bertolucci, entre outros

O Ribeirinha – Festival de Mulheres prosseguiu no dia 19 de Novembro, com a actuação do grupo de percussão português Tucanas. Joana Neves, Mónica Rocha, Sara Jónatas, Tânia Lopes e Xana Abreu subiram ao palco do Pequeno Auditório, pelas 21.30 horas para um espectáculo com muito ritmo e com uma forte componente cénica, entre a sensibilidade feminina e a força rude de tocar percussão. As Tucanas são compositoras e autoras dos seus próprios temas interpretados com bidons, cabaças, baterias, surdos, djembés, dumbas, entre outros.

No dia 25 de Novembro foi a vez da espanhola Fátima Miranda que apresenta “Cantos Robados”. Dona de uma voz inigualável, Fátima «é o santuário da voz humana, onde se entrecruzam o sagrado e o profano», como a definiu o crítico musical português Fernando Magalhães. Aplaudida pela crítica internacional, Fátima Miranda apresenta, na Guarda, o seu mais recente espectáculo “Cantos Robados”, criado propositadamente para a sua cidade natal, Salamanca. “Cantos Robados” integrou o programa de “Salamanca 2005 – Plaza Mayor de Europa” tendo estreado no passado dia 30 de Setembro. Dona de uma voz inigualável, que junta técnicas vocais japonesas, indianas e do flamenco, Fátima Miranda é uma artista única nas fileiras da vanguarda.

A fechar este Festival está a exposição “3 Pintoras da Alemanha: Gerda Lepke, Ingrid Kerma e Liane Birnberg”, que ficará patente, na Galeria de Arte do TMG, de 26 de Novembro a 30 de Dezembro e pode ser visitada de Terça a Domingo, das 14.00 às 23.00 horas. O comissariado desta exposição é da também artista plástica Maria Lino.

Gerda Lepke, nasceu em Jena, na Alemanha, em 1939. Estudou na Escola de Belas Artes de Dresden. Obteve diversos prémios na área das artes plásticas, desde 1971 que vive apenas da pintura.Ingrid Kerma nasceu em 1942, numa localidade perto de Berlim. Estudou no Goldsmhith’s College, da Universidade de Londres. Actualmente vive e trabalha entre Londres e Berlim.Liane Birnberg nasceu em 1948, em Bucareste (Roménia).Estudou na Escola Superior de Música Ciprian Porumbescu, também em Bucareste. Em 1978 muda-se para a Alemanha e faz as suas primeiras pinturas. Vive como pintora e compositora em Berlim desde 1989.

http://www.tmg.com.pt/

29.11.06

Never to forget (de Arundhati Roy)

Never To Forget

To love.
To be loved.
To never forget your own insignificance.
To never get used to the unspeakable violence
And the vulgar disparity of life around you.
To seek joy in the saddest places.
To pursue beauty to its lair.
To never simplify what is complicated
Or complicate what is simple.
To respect strength, never power.
Above all, to watch.
To try and understand.
To never look away.
And never, never to forget.

—Arundhati Roy, from The End of Imagination



Serões de Inverno na aldeia

Os serões na aldeia, durante a estação fria do Inverno, são um dos usos e costumes populares mais enraízados na cultura popular. São momentos de convívio e de conversa, onde se pratica a literatura oral e o companheirismo entre iguais.







Índios tupiniquim e guarani pedem a devolução das suas terras


Os índios tupiniquim e guarani pedem a devolução das suas terras. A tensão é grande nas aldeias indígenas envolvidas no conflito no Espírito Santo.

Quando se vê as plantações de eucalipto da Aracruz, a tupiniquim Genira Pinto dos Santos, 68 anos, sente saudades de uma paisagem que desapareceu da região em que fica a aldeia Pau Brasil, no norte do Espírito Santo.
«Isso aqui era tudo mata virgem. Tínhamos caça – veado, tatu, tamanduá, cotia, catitu – e muitos peixes. Plantávamos feijão, milho e mandioca. Quando vieram os tractores – e nem usaram machado – arrasaram a terra. Plantaram o eucalipto e os bichos fugiram. O nosso rio, que era largo, já secou três vezes", conta Genira de 68 anos.
Mesmo assim, Genira não resignou: "Penso que um dia vamos ter nossa terra de volta", diz. "Nossa terra", no caso, são os 11 mil hectares que 2200 índios tupiniquim e guarani pedem de volta da Aracruz Celulose, uma das maiores produtoras de celulose do mundo.

Origem do conflito

Em 1967, um estudo da Fundação Nacional do Índio (Funai) reconheceu que os tupiniquim e guarani tinham direito a uma área de 18 mil hectares, tradicionalmente ocupada por eles no município de Aracruz (ES).
Mais de 30 anos depois, em 1998, os índios ganharam o direito de uso sobre 7 mil hectares. Os outros 11 mil hectares foram negados pelo Ministério da Justiça, por estarem registrados como propriedade da Aracruz Celulose, empresa que possui 150 mil hectares de plantações de eucalipto na região.
Nos últimos anos, o conflito acirrou-se. Para tentar forçar uma decisão que esperam do Ministério da Justiça desde maio de 2005, os índios chegaram a demarcar por conta própria a área reivindicada e construíram uma aldeia. Em Janeiro deste ano, foram despejados por decisão judicial e acção da Polícia Federal. A clareira onde estava a aldeia hoje está tomada pelo capim.

Luta para corrigir um erro

O cacique tupiniquim Valdeir de Almeida Silva e outros 12 índios da aldeia Pau Brasil ainda têm manchas azuis no corpo, resultado da truculência da polícia, que usou balas de borracha e bombas de efeito moral no despejo.
"A empresa não quer dar o braço a torcer, porque daí também os quilombolas vão bater à sua porta. O que está em jogo é a madeira plantada na nossa terra, pela qual a empresa quer 300 milhões de dólares. Mas no passado, ela destruiu muito mais do que isso", diz o cacique.

Outdoors e cartilha

A situação continua tensa. A Funai apoia os índios. Já quanto a Aracruz, ela é a maior empregadora da região – e responsável por cerca de 10 mil empregos directos e 80 mil indirectos e tem pelo menos 100 índios entre funcionários – contando com o apoio da maioria da população local.
A empresa diz que já teve um prejuízo material da ordem de 2,5 milhões de reais por causa do confito: "Durante os meses de setembro e outubro, índios apoiados por manifestantes queimaram mais de 200 mil árvores em uma área de aproximadamente 170 hectares da Aracruz Celulose".
Através de um estudo científico de 14 volumes, com cerca de 15 mil páginas de documentos, a multinacional rebate linha por linha um relatório da Funai de 1998, que confirmou o direito dos índios à terra. A Aracruz garante ter provas de que a área reivindicada jamais foi território indígena. Numa cartilha distribuída às escolas locais, informa que os índios não são mais índios, são "aculturados", teriam até ar condicionado nas casas.

Algumas firmas que mantêm negócios com a produtora de celulose colocaram outdoors na beira de estradas com os dizeres: "A Aracruz trouxe o progresso. A Funai trouxe os índios". Contra os outodoors e a cartilha da Aracruz, a Funai move acção na Justiça, pedindo indemnização por considerar a campanha discriminatória aos índios e à fundação.

Segundo cacique Wetá Kwatay, da aldeia Boa Esperança. , "antes da chegada do eucalipto não tínhamos o progresso da morte, que se destrói a si mesmo. O plantio de eucalipto no Espírito Santo acabou com a nossa base de subsistência


Esta versão é compartilhada pelo caboclo Edson (Zé) Barbosa, 91 anos, na aldeia Comboios. Como dona Genira na aldeia Pau Brasil, também "seu" Zé Barbosa sente saudades da caça e pesca farta "do tempo em que vivíamos em casa de palha e quase sem roupa. Nos últimos 18 anos, a Aracruz destruiu a mata virgem e matou o rio Comboios".
Sua esposa, Nilsa, mãe de dez filhos, no entanto, diz não ter perdido a esperança. "Eles dizem que aqui não tem índio, que caboclo não é índio. Podem fazer o que quiserem, mas não ganham a terra que é dos índios", diz.

A mesma esperança é alimentada pelos jovens tupiniquim da aldeia Pau Brasil. Que não deixam de guardar sementes em saquinhos de plástico cheios de terra. "Estamos preparando mudas de árvores nativas, para plantar no lugar dos eucaliptos, quando nos devolverem a nossa terra", disse um deles.

Entre os cerca de 370 mil índios existentes no Brasil, os guarani e seus subgrupos kaiowa, ñandéva e mbya formam a maior etnia. A maior parte vive no Mato Grosso do Sul, Estado dominado por grandes plantações de soja e fazendas de gado. No município de Dourados, por exemplo, 11 mil índios vivem numa área de 3500 hectares

O antropólogo Rubem Thomaz de Almeida é um dos maiores conhecedores no Brasil da cultura e da realidade dos índios guarani e kaiowa de Mato Grosso do Sul. Já realizou vários estudos científicos sobre a etnia e assessorou órgãos governametais e ONGs que atuam na região.

È com ele que é realizada a seguinte entrevista.

Jornalista: Como está a situação actual dos guarani no Mato Grosso do Sul?

Rubem Thomaz de Almeida: A situação dos guarani do Mato Grosso do Sul se acirrou e piorou consideravelmente, depois do trágico episódio do assassinato dos dois policiais civis no Paso Piraju em 1º. de abril de 2006. Nos 33 anos em que atuo com os guarani, nunca vi uma situação tão problemática como hoje, em especial por inoperância e omissão do Estado. A atual gestão da Funai [Fundação Nacional do Índio] simplesmente "abandonou" os guarani do Mato Grosso do Sul. Ela não atua para amenizar a situação, mas aloca o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) para assistir os índios. O Ministério Público defende com unhas e dentes os índios, mas a Justiça não reconhece sequer os relatórios de identificação de terras feitos pelos antropólogos e cria espaço para prisões aleatórias de índios. É um Estado esquizofrênico em relação aos índios. O que se observa no Mato Grosso do Sul são formas etnocIdas contra os índios, em especial da Justiça e das polícias. Os problemas têm se multiplicado e, para mim, são procedimentos genocidas.

Qual é o balanço que senhor faz da política indigenista brasileira desde a Constituição de 1988, que ampliou os direitos dos povos indígenas?

A política indigenista brasileira não sofreu grandes variações, apesar do cuidado da Constituição 1988 com os povos indígenas do país. O que se observa, por exemplo, é que a referida Constituição abriu vários espaços favoráveis aos índios, cabendo destaque às atribuições do Ministério Público. Mas a política indigenista em si não mudou muito, porque os responsáveis por sua condução atendem interesses políticos e econômicos vários, e não cumprem a lei. Há séculos as leis relativas aos índios são favoráveis, o que não significa que sejam cumpridas. E isso não é nenhuma novidade neste país.

A política indigenista do atual governo é melhor do que era a dos militares?

O atual presidente da Funai é um dos piores gestores da questão indígena no país. No caso dos guarani, os presidentes da Funai que mais contribuíram com esse grupo étnico foram o general Ismarth de Araújo (1974–1978) e o delegado de Polícia Federal Nelson Marabuto (1985–1986). Na primeira reunião do Conselho Indigenista, do qual me demiti junto com outros quatro colegas em fevereiro de 2005, o presidente da Funai disse que "não levaria problemas ao ministro". A ação indigenista foi absolutamente pífia no governo atual, pelo menos em relação aos guarani, fora, como já disse, o atendimento emergencial: fornecimento de cestas básicas, atendimento de saúde, combate à desnutrição e à fome, entre outras ações do MDS – não da Funai. E esses atendimentos não irão terminar enquanto não for solucionado o problema da terra.

Quais são hoje os principais motivos de conflito entre povos indígenas e brancos no Brasil?

O problema crucial dos conflitos entre brancos e índios é a disputa por terras. Uma parte considerável do problema já foi resolvida com demarcações. Alguns poucos grupos étnicos têm problema com a garantia de suas terras, sobretudo os índios do Nordeste e os guarani. Estes formam uma população entre 60 mil e 65 mil pessoas nos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, e especialmente no Mato Grosso, onde somam 42 mil pessoas. São a maior etnia em número e também a etnia que tem mais problemas de terra no país.

No Centro-Oeste e na Amazônia observa-se um "cerco do agronegócio" a terras indígenas. Como os índios reagem a isso?

Não sei como os índios mais ao norte da região Centro-Oeste reagem ou mesmo como o agronegócio está afetando essas populações. Quanto aos kaiowa e ñandéva do Mato Grosso do Sul, o cerco do "agronegócio" vem se fechando há muito tempo. Houve a exploração extensiva da erva-mate (1880–1920), daí veio a exploração de madeira e eliminação de florestas (1920–1960), a implantação de fazendas para gado (1960–1970) e o surgimento de grandes empresas agropecuárias com o plantio de soja (1980–2003). Para os próximos anos, prevê-se a construção de 30 usinas de açúcar e álcool no Mato Grosso do Sul, com plantações de aproximadamente 700 mil hectares de cana-de-açúcar em pleno território tradicional kaiowa e ñandéva, que servirão de mão-de-obra para o plantio e a colheita. O Estado brasileiro não está atento ao problema desses indígenas sem-terra. Por isso mesmo, é obrigado a oferecer-lhes cestas básicas para não morrerem de fome.




Houve um tempo em que, no Brasil, "todo dia era dia de índio", diz uma música de Jorge Benjor. Pelos menos virtualmente esse tempo parece estar voltando. Os índios começam a povoar a "aldeia global" formada pela internet.

Um exemplo disso é o portal Índios online www.indiosonline.org.br .
Trata-se de uma rede de diálogo intercultural, formada pelos povos Kiriri, Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Tumbalalá da Bahia, os Xucuru-Kariri e Kariri-Xocó de Alagoas, e os Pankararu de Pernambuco.
A intenção do projeto, desenvolvido pela ONG Thydewa, de Salvador (BA), com o apoio do Ministério da Cultura, da Associação Nacional de Apoio ao Índio (Anai) e assessoria de um etnólogo alemão, é facilitar a inserção digital indígena e apresentar aos internautas "os índios na visão dos índios", dizem os coordenadores.
Segundo o director da Thydewa, Sebastián Gerlic, além de ser útil ao resgate da cultura e da cidadania indígenas, o portal também está dando resultados práticos. "Os índios valeram-se da tecnologia para cobrar salários atrasados, receber merenda escolar, tirar o lixo de suas aldeias e ser cidadãos mais activos".

Além do site Índios Online e de outros projectos nacionais e internacionais desenvolvidos junto aos índios, também as estatística apontam um cenário de renascimento do povos indígenas no Brasil.
Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), a população indígena brasileira cresce em média 3,5% ao ano. Actualmente existem no Brasil entre 450 mil e 460 mil índios, quatro vezes mais do que em 1950, quando se chegou ao mínimo da população indígena brasileira, informou a Funai.


Fonte: Deutsche welle

26.11.06

Morreu Mário Cesariny, poeta e pintor surrealista

Amor, Liberdade e Poesia -
o programa dos surrealistas

"Para a pátria, a igreja e o estado a nossa última palavra será sempre... MERDA" ( Mário Cesariny )


Texto-poema de Cesariny que fala de Émile Henri, célebre anarquista francês:



PASSAGEM DE EMILE HENRI

Era no tempo da palavra papel
da pluma bem comida lançando ideias de justiça aos chineses
da espingarda de ar podre ao ombro de cada um

Depois de ver com os seus próprios olhos como é que o ratazana toma o sei chazinho
Emile Henri
escritor da literatura da dinamite
lança a segunda bomba à porta do Café Términus
dado que: da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra
TODOS SEM EXCEPÇÃO TÊM A MÁXIMA CULPA»

[in Mário Cesariny, Pena Capital: Lisboa, Assírio e Alvim, 1982
e também in Paulo da Costa Domingos, Judicearias, o Álbum dos Glórias: Lisboa, frenesi, 2000]

retirado daqui


Breve biografia (retirada da wikipedia):

Mário Cesariny de Vasconcelos (Lisboa, 9 de Agosto de 1923 — Lisboa, 26 de Novembro de 2006) foi um pintor e poeta, considerado o principal representante do surrealismo português.
Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudou música com o compositor Fernando Lopes Graça. Durante a sua estadia em Paris em 1947, frequenta a Academia de La Grande Chaumière. É em Paris que conhece André Breton, cuja influência o leva a criar no mesmo ano o Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com figuras como António Pedro José Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e Alexandre O´Neill. Este grupo surgiu como forma de protesto contra o regime político vigente e contra o neo-realismo. Mais tarde, funda o Grupo Surrealista Dissidente.
Mário Cesariny adopta uma atitude estética de constante experimentação nas suas obras e pratica uma técnica de escrita e de pintura amplamente divulgada entre os surrealistas designada “cadáver esquisito”, que consiste na construção de uma obra por três ou quatro pessoas, num trabalho em cadeia criativa em que cada um dá continuidade, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas parte do que este fez.
São algumas das suas obras poéticas: Corpo Visível, 1950; Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, 1953; Manual de Prestidigitação, 1956; Pena Capital, 1957; Nobilíssima Visão, 1959; Burlescas, Teóricas e Sentimentais, 1972.



Entrevista a Mario Cesariny de Vaconcelos, por Óscar Faria

Cesariny (n. 9/8/1923) gosta de posar. E de fumar. Muito. Cesariny tem o dom das palavras. Às vezes basta-lhe uma linha para construir um mundo: "Ama como a estrada começa". Outras, esse encantamento suscita contínuos estremecimentos: "longe dos jogos civilizados/ livres da hora da mãe e da filha/ jogamos fumo para uma bilha/ jogamos o pocker o king a vrilha/ jogamos tudo como danados". O maravilhoso surreal, ainda vivo, ainda intensamente livre atravessa uma conversa acontecida na inauguração da polémica exposição "Do Surrelismo em Portugal", que esteve patente na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão. Fala-se aqui de ditadura, de revolução e da dificuldade em cumprir o programa surrealista: "liberdade, amor e poesia". Também se recordam António Maria Lisboa e Pedro Oom, Vieira da Silva e Pascoaes: "Não tenho nada contra o Pessoa, mas para mim o Pascoaes é o velho da montanha, é o mágico". Cesariny é um sedutor. Cesariny é um danado.

Entrevistador - A revolução é um dos objectivos essenciais do movimento surrealista. Como é que viveu o 25 de Abril de 1974?
MÁRIO CESARINY - Nós estávamos muito mal vistos pelo Salazar e pelos marxistas; tínhamos dois inimigos. Há uma carta do António Dacosta, que está em minha casa - não sei onde, espero que apareça - em que me conta a ida para Paris, em 1947, onde frequenta as reuniões do grupo surrealista com o André Breton e o Benjamin Péret. Eu sei que dizer isto pode parecer esquisito, mas acho que devo dizer: ele começa a explicar ao Péret o que se passa em Portugal - "Há o anti-fascismo, claro, mas ao mesmo tempo não podemos acusar ou denunciar os estalinistas por causa do fascismo imperante e porque o Salazar prende os comunistas todos". Péret, que sabia bem o que se passava em todo o mundo, disse assim: "Ai o Salazar prende os comunistas, pois faz o Salazar muito bem". Esta anedota é complicada, o que se subentende disto tudo, mas agora subentendam o que quiserem.


P. - Mas Breton também se aproximou do comunismo soviético...
R. - Em duas palavras lhe digo. Tive uma perseguição muito grande e muito chata do regime, porque descobriram uma maneira mais simpática e mais atroz de me chatear: fui dado como vagabundo na Polícia Judiciária de Lisboa, tinha lá o cartão... dado não, suspeito, suspeito de vagabundagem, que era também um termo que se aplicava a pessoas assim um bocado esquisitas. E, em nome dessa suspeita de vagabundagem, tive uma perseguição que só acabou no 25 de Abril, porque tudo aquilo era ilegal. Não sou um mártir nem um herói da luta anti-fascista, não sou, mas fui muito chateado, porque a qualquer hora, a qualquer momento, a qualquer ano, podia receber uma convocação da polícia: o senhor venha cá - uma coisa horrorosa. Isso só acabou com o 25 de Abril, porque tudo aquilo era ilegal.


P. - Chatearam-no muitas vezes?
R. - Não é chatear muito; é que eles tinham o poder de chatear sempre que quisessem. Até podiam deixar passar vinte anos sem chatear, mas ao fim de vinte anos lembravam-se: "Olha este, vamos chamá-lo". Era uma coisa sempre pendente em cima da cabeça, uma espada. Tinha medo de ir ao telefone, tinha medo de ir ao correio: não me tratavam mal, nem me batiam, mas era uma coisa muito chata, muito humilhante ir às apresentações. Sempre me deitei muito tarde e sempre me levantei muito tarde, o que para a polícia era horrível: "não trabalha", essas coisas. E há uma manhã em que a minha irmã Henriette me chama e diz: "Mário, acabou a ditadura" - "O quê?", "Acabou a ditadura". Saio para a rua com uma máquina fotográfica e durante quase um ano, não foi um ano certo, mas quase um ano, fosse qual fosse a hora a que eu me deitasse, às oito horas eu levantava-me de cabeça fresca. Percebe o que isto quer dizer...


P. - Quais eram as acções desenvolvidas pelos surrealistas contra o regime?
R. - Havia uma glória em Portugal, que era ser mártir, ser preso e ser torturado pelo regime: nós não achávamos que isso fosse uma coisa interessante, as nossas intervenções eram um bocado aparecer, dizer, sair logo e aparecer noutro lado: uma guerrilha. Como não podíamos fazer uma revolução - e não fizémos, claro -, a nossa revolução foi uma espécie de implosão, foi cá dentro que explodiu; para fora não podia sair, que a censura não deixava, foi por dentro. É pena que não se estude um bocado mais a condição dos surrealistas sob a ditadura, porque havia muita coisa interessante a saber nesse aspecto. E depois morreu o António Maria Lisboa, que, quanto a mim é o maior - dizei que sou eu, mas não sou, é ele o maior, só não tem versos tão bonitos, a poesia dele é uma coisa dura, agreste. Tivemos o atabafamento dos neo-realistas, que eram os realistas-socialistas e tivemos o atabafamento do Salazar: essas duas forças contra nós. As gerações que vieram a seguir, também não sabiam bem o que se passava... Foi um bocado uma ideia louca, porque falei com o André Breton e combinamos fazer uma pequena revista, mas era uma ideia um bocado louca, hoje vejo isso, era impossível tentar uma expansão pública, porque íamos logo para a choça e não estávamos muito interessados em ser mártires e heróis do estalinismo. O Cruzeiro Seixas foi para África, o António Maria Lisboa morreu, o Pedro Oom fechou-se em casa, como grande abjeccionista e, depois, o nosso grupo dispersou-se.


P. - Qual é a grande diferença entre o surrealismo e o abjeccionismo?
R. - Quem captou a grande frase foi o Pedro Oom, o criador do abjeccionismo: "Que pode fazer um homem desesperado, quando o ar é um vómito e nós seres abjectos". Ele refere-se à condição política. O que pode fazer esse homem? Pode suicidar-se, por exemplo. Pode sair para a rua, como os malucos, e matar uma data de gente. O que é que ele fez: meteu-se em casa. Uma vez fui a casa dele e fiquei gelado. Aquilo não era uma casa, era uma coisa despida de tudo, com uma flor de plástico no corredor: nada. O Pedro Oom desistiu de tudo e, no entanto, ele escreveu um ou dois dos mais belos poemas que se escreveram na altura e depois foi para casa e acabou daquela maneira: um suicídio se não pessoal em relação a tudo. Aparecia raras vezes. O abjeccionismo contagiou também um bocado o António Maria Lisboa. O António Maria Lisboa suicidou-se contra vontade, ele não queria realmente morrer, mas são as tais imprudências... foi uma primeira vez a Paris, mas a segunda vez que ia a Paris já não tinha um pulmão...


P. - Foi a morte que mais lhe custou na sua vida?
R. - Não digo isso, mas digo que o António Maria Lisboa era, de certeza, embora a sua obra seja diminuta, um ponto muito alto, se não o mais alto, de todos nós. Para mim, neste século que passou, houve duas grandes revoluções: a russa e a sureealista. A revolução russa acabou no que acabou, uma tragédia, um inferno. A revolução surrealista foi sabiamente soterrada pela sociedade. Primeiro ignorada pela geração que veio a seguir - o Cruzeiro Seixas é de outra opinião, muito optimista, eu não, eu acho que a revolução surrealista não é só os quadros que se põem nas paredes, pretendia-se uma revolução mesmo, muito mais utópica que a russa; agora os Magritte e os Max Ernst valem milhões, que é a maneira da sociedade abafar -, depois porque os actuais membros da Assembleia da República leram o bê-à-bá da literatura portuguesa pela história da literatura portuguesa do Óscar Lopes e do António José Saraiva. O Óscar Lopes era, e ainda é, membro do comité central do PCP, veja o que isto quer dizer, o outro era um espírito mais aberto, mas fez o jeito; de maneira que aprenderam todos o bê-à-bá do enterro do surrealismo e ainda hoje estão nisso.


P. - O que se pode fazer para dar a volta a essa situação?
R. - Não posso fazer nada. Só posso sair para a rua com uma metralhadora e matar uma data de gente.


P. - Cumprir o gesto de Breton?
R. - É. Sair para a rua de revólver. São uma coisa profética, os textos dele, porque isso é o que está a acontecer agora. Na América é dia sim, dia não: a criancinha entra na escola de metralhadora e mata os colegas todos e outras coisas assim. Outra coisa que pode ser um aspecto negativo é a droga, o Breton também a experimentou, mas aquilo atingiu um ponto tal, em grupo... É sabido e contado que uma noite, já não era em casa do Breton, era numa pequena moradia assim género "chateau", já havia um que andava atrás do Eluard com um punhal para o matar, foi pena, deixa lá [risos]f+b.f-b A sociedade apanhou todos os aspectos mais negativos: a droga e o matar a torto e a direito, que é o que está a acontecer, isso é profético.


P. - E quais são os aspectos mais positivos do surrealismo?
R. - É a luta desesperada pelo amor, pela liberdade e pela poesia: é isto. Parece que é uma trindade que vem substituir a liberdade, igualdade, fraternidade: liberdade, amor, poesia - é viver isso, é um bocado complicado, não é?


P. - Já falou de António Maria Lisboa. Outra figura que o marcou e que, em termos plásticos, chegou a comparar a Rimbaud, é Maria Helena Vieira da Silva...
R. - Essa é a velha história que também se prende com a exposição do surrealismo. Tenho um livro chamado "Vieira da Silva/Arpad Szènes, ou o Castelo Surrealista", onde até inventei uma expressão que gosto muito, que é "os surrealistas-copistas". Em Inglaterra, a pintura surrealista é toda metade Dali e metade Magritte, e dali não saiem. Em 40, antes de partirem para o Brasil, a Vieira da Silva e o Arpad fazem uma exposição no atelier deles, exposição tal que o João Gaspar Simões vai lá e faz uma pequena crónica em que fala no Breton e no surrealismo. Quando o António Pedro, estava a tentar lançar o dimensionismo - uma coisa que, se não se opunha, ignorava o surrealismo - com um companheiro se possível mais fascista do que ele, um tal Dutra Faria.


P. - A posição política do surrealismo é o anarquismo?
R. - É capaz de ser. Não, é um socialismo utópico. A última grande exposição organizada pelo André Breton, em Paris, chamou-se - e há um catálogo admirável - "L' Écart Absolu" [dedicada a Charles Fourier, a mostra teve lugar na Galeria L'Oeil, em1965] , quer dizer "afastamento absoluto", total, da política, da arte: desaparecer. Porque falhou: não falhou nos museus, mas o voto profundo dos surrealistas, que era também uma revolução social e a revolução total da linguagem e a revolução total das revoluções humanas: tudo isso falhou.


P. - No caso das relações sexuais, os surrealistas, sobretudo Breton, foram sempre muito rigorosos quanto à homossexualidade...
R. - Isso diz-se do Breton e é verdade, mas o homem era assim, o que é que se há de fazer. Mas lembro que nas célebres conversas sobre a sexualidade, o Péret diz não é contra nem a favor: "Não tenho nada com isso". E o Breton responde: "Se continua com esses termos eu vou-me embora". É uma opção pessoal. E no entanto, que ele tinha dessas coisas à czar... fazia excepções, como o Marquês de Sade. É evidente que o Breton terá tido os seus deslizes, como toda a gente. O [René] Crevel era homossexual e o Breton sabia-o perfeitamente, e o Crevel matou-se por causa do Breton, quando foi a história do congresso de escritores em prol da União Soviética, em que não deixaram falar o Breton; o Crevel - os textos dele são muito importantes - matou-se e deixou um papel a dizer "enojado". E também é discutível a história da "femme-enfant", a mulher-menina, que também é um mito do Breton; mas isso são mitos pessoais, não são obrigatórios: a culpa não é do Breton, a culpa é de quem aceitava a gritaria. Eu não aceito isso, pronto, acabou-se.


P. - Há alguns anos, em Madrid, Eugénio Granell, recentemente falecido, falava de si com grande apreço. Como se conheceram?
R. - O nosso encontro foi muito bonito. Conheci-o em Nova Iorque: havia uma exposição chamada "Exposição Mundial do Surrealismo", em Chicago. A Gulbenkian pagou e eu fui lá - parece que é assim, para se ir ao México tem de se aterrar primeiro em Nova Iorque, era assim, não sei se ainda é - e então ficámos uns dias em Nova Iorque e foi aí que conheci o Eugénio Granell, acho que ele ficou a gostar muito de mim, sobretudo porque eu era um português, isso foi em 1975, era o ano quente da revolução, que ele acompanhava muito pela rádio, porque lhe interessava. Eu fiz-lhe uma entrevista bastante grande, onde ele pôs os seus pontos de vista, e acho que ficou grato por eu lhe ter aparecido em casa e o pôr a falar do que acontecia e do que não acontecia, porque é evidente que o 25 de Abril teve muita importância para a própria Espanha. Tenho uma admiração muito grande por ele: na pintura considero-o um dos pintores mais originais do surrealismo espanhol. Não foi como o Picasso roubar à arte negra, que não é para pôr na parede - a arte negra é para cachimbos, é para fazer cadeiras, tem um sentido utilitário ou então tem um sentido sagrado, e o Picasso, com todo o seu talento, que é enorme, transformou aquilo numa coisa decorativa. E o Granell é muito original como surrealista espanhol, não foi à arte negra, nem às criancinhas, como o Miró - o Miró é muito bom, mas foi às criancinhas - e o Granell tirou aquilo lá não sei donde: para mim é o mais original, não digo que seja o maior ou o menor, isso não interessa. E depois, pessoalmente, teve uma vida admirável, de resistente: até ao fim, quis ser enterrado com a bandeira republicana: tudo isso é de uma coerência... e as perseguições que ele teve dos comunistas, porque ele era do POUM [trotskistas catalães]. E até no estrangeiro quem se encarregava disso era o Pablo Neruda, que pode ser um grande poeta, mas era um grande sacana ao serviço do comunismo soviético.


P. - Há um quadro seu em que homenageia Teixeira de Pascoaes...
R. - O Pascoaes é o grande poeta, não tenho nada contra o Pessoa, mas para mim o Pascoaes é o velho da montanha, é o mágico. Sabe que ele tinha lá no solar uma divisão em vidro no exterior, quando havia grandes tempestades devia ser uma coisa formidável, uma trovoada no Marão...


P. - Dizia-se que ele tinha poderes mágicos, druídicos...
R. - O João [um familiar de Pascoaes] contou-me e eu perguntei-lhe: "Você que idade tinha?", "Para aí 19 anos, vi-o sair do escritório com a cabeça em chamas". Isso é corroborado por um simples camponês que viu o Pascoaes vir não sei de onde e disse: "Quem é aquele homem que deita fogo pela cabeça?" Estava a carregar lá naquela coisa de vidro. Mas isto atira tudo para um terreno que as pessoas não gostam, cheira ao paranormal. A poesia dele - e talvez não propriamente os versos,"O Bailado" em prosa, por exemplo - é uma coisa formidável...


P. - "S. Paulo" é um texto notável...
R. - Desses o que ainda gosto mais é "S. Jerónimo e a Trovoada", porque é aflitivo, parece que ele estava lá. Não nego o talento poético do Pessoa, mas tornou-se odioso, porque já se ganha a vida à custa do Pessoa: é demais, já não pode ser. Nós temos grandes poetas desde os galaico-portugueses, não é? Isto acontece porque o Pessoa pegou lá fora, não é por outro motivo. Como pegou lá fora, então a saloiada toca toda a pegar no Pessoa nas universidades. O Camilo Pessanha não é inferior ao Pessoa; há muitos, o Sá-Carneiro...


P. - Foi por isso que escreveu "O Virgem Negra"?
R. - Não é contra ele, mas é contra a igreja dele. Isso tem uma segunda edição onde acrescentei mais duas cartas inventadas, mas muito giras.


P. - Na exposição tem um verso seu: "Ama como a estrada começa". Qual é essa estrada?
R. - Oh, aí é que está. Não sei, é com cada um. "Ama como a estrada começa" é o sentido da criação original, começa e vai...


P. - Falou nos antecessores, como Pascoes ou a própria Vieira da Silva. Actualmente quem é poderia ser visto na continuidade da tradição surrealista? Recordo, por exemplo, Álvaro Lapa... R.- Se ele quiser entra à vontade, se não quiser não entra: o resultado é igual. E a Paula Rego, com certeza, essa tem a sorte de ter fama internacional; ela disse-me que está dentro. E entre os novos, novíssimos, o Álvaro Lapa. E parece que está a aparecer mais gente, veremos.

Poesia de António Gedeão ( a propósito do centenário de nascimento de Rómulo de Carvalho)




Enquanto

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;

enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;

enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto,
rasgado pelo grito da sereia estridente;

enquanto o grande pássaro de fogo de alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de exetrmínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;


enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA!

(António Gedeão, in Linhas de Força, 1967, Coimbra)
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O poeta, professor e investigador Rómulo de Carvalho ( mais conhecido na literatura com o pseudónimo de António Gedeão), cujo centenário de nascimento é agora recordado, marcou gerações inteiras e nunca é demais divulgar a sua obra e vida.
Num destes últimos dias a sua esposa divulgou um seu escrito que reproduzimos:
“Os governos têm sabido organizar as coisas de modo a alterar tudo segundo as suas conveniências. A imprensa só diz o que é conveniente dizer-se e de um só modo considerado conveniente. Os serviços oficiais só dão notícia e relevo a tudo quanto contribui para o prestígio de uma certa doutrina considerada como a única aceitável.”

"Eu tenho sobre a história uma ideia que está longe de ser a mais frequente. Penso que, quem faz a história, não é o governo de uma nação. Sou eu, a vizinha do andar do lado e o merceeiro que está estabelecido com loja na esquina da rua. É o par de namorados que passa de lambreta ou o operário que vai para a oficina com a malinha do almoço. É o poeta, é o pensador, é o cientista, é tudo, toda a gente, a que sai e a que fica em casa, todos, todos, excepto os que compõem o governo. Esses só têm uma atitude permanente, que é a de, atónitos, solucionarem, ou verdadeiramente ou falsamente, os problemas que lhes são impostos."
( retirado daqui)
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Para um homem simples, que nunca votou, e que se recusou a integrar a comissão de apoio à presidência de Mário Soares, estas palavras mostram, caso fosse ainda necessário, o sentido da sua filosofia de vida e a sua concepção política:
A emancipação dos seres humanos é obra deles próprios !
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Aproveitamos para incluir dois excertos de textos que analisam a obra e a vida de Rómulo de Carvalho:
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A ideologia de António Gedeão foge tanto à ideologia oficial como ao padrão cultural da classe dominante, que chega não raro a afectar o discurso mesmo daqueles que contestam o regime. É a ideologia de um sage: cientista, professor, poeta, espectador crítico e dilacerado, cuja intervenção se resume ao seu fazer de artista, mas que penetra fundo em quem o lê. Ele sonha a harmonia do mundo, isto é, a igualdade na desigualdade, a fraternidade na competição ou na luta de instintos; a liberdade íntima e cívica, que só pode conseguir-se através de um aperfeiçoamento incessante e progressivo da espécie humana.
Será redutor empregarmos a palavra socialismo para nos acercarmos desta cosmovisão? O certo é que não encontro melhor expressão. O mundo sonhado pelo trovador de «A Pedra Filosofal» está ao mesmo tempo aquém e além da visão de Fourier, de Proudhon, de Karl Marx? É decerto um mundo sem deus, no estrito sentido teológico da crença num criador do universo, omnisciente e omnividente, detentor do castigo e da recompensa. Materialista, darwnista, einsteineano, Rómulo de Carvalho/António Gedeão sonha no entanto o paraíso possível, a pacificação das feras que são a maioria dos homens, ainda presos e talvez para sempre aos primórdios da sua origem, mas capazes de ternura, de êxtase ante a beleza do mundo. É essa dualidade, a do homem preso à terra e à morte, condicionado pelas leis biológicas, rigorosas, da mecânica universal, e a da ascensão a uma plataforma superior da vida transformada através da cor, do gesto, da música e das palavras, que ele tenta comunicar-nos, ensinando-nos a olhar sem ilusões, mas com calma euforia, a beleza dos rios, das fontes, das plantas, das crianças, a união dos contrários. E assim a sua poesia fala a dor, o absurdo e por vezes, com atormentada alegria, a esperança
(texto de Urbano Tavares Rodrigues, retirado daqui)
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É durante este período preparatório (de 1954 a 1955) que lhe surge a ideia da adopção de um pseudónimo. Mas é só de quando em quando que surge uma assinatura nesses poemas, a maior parte das vezes resumida a um simples A (de António). Aliás, ao longo de toda a sua produção, só muito raramente assinava o pseudónimo completo. O elemento que está quase sempre presente é o A ou António.
Esse período preparatório para a arrancada definitiva que o levará a definir- -se e a aparecer publicamente como António Gedeão, corresponde a uma grande alteração na sua vida individual. Transplantáramo-nos da nossa cidade natal, de Lisboa e capital, onde nos ficavam, além dos sítios históricos que ele amava, o resto da família, a dele e a minha, e assentávamos em Coimbra, cidade de características académicas e de costumes ainda acentuadamente provincianos, e isto durante o período do Estado Novo. Havia ainda alguns costumes da«praxe», que não nos agradavam, havia procissões pelas ruas, com as figuras gradas da cidade a pegarem nas borlas dos pálios debaixo dos quais seguiam os bispos paramentados, e havia no liceu oficial para que ele fora nomeado uma hierarquia rígida, que envolvia obediências políticas, cívicas e religiosas muito acentuadas. Nesse meio, um professor de liceu devia mostrar-se como uma figura grave, encarregada da instrução e da educação de jovens. Era difícil mostrar uma faceta crítica, filosófica, implicitamente contestatária e, pior, lírica e anti-convencional.
(texto de Natália Nunes,retirado daqui)
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Para ver cronologia e mais informações sobre Rómulo de Carvalho ( isto é, ó poeta António Gedeão), consultar:
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Acreditava não poder zangar-se com alguém, e considerava que havia de morrer inocente, exactamente como nascera. Poeta até ao fim, António Gedeão, afirmava em 1989: "continuarei a escrever poesia até ao último suspiro. Suponho que o último suspiro será um verso."

Rómulo e Gedeão, o pedagogo da simplicidade e o poeta do sonho, deixam-nos uma obra vastíssima com a lucidez das palavras, idealisticamente voltada para o futuro.

25.11.06

Certificado de isenção de prendas

Certificado de isenção de prendas
(nota: esta declaração-modelo pode ser livremente modificada pelos interessados, segundo a sua imaginação e fantasia)


Uma vez que o essencial da vida não se compra…

… e como já tenho tudo o que me é necessário
….sendo tudo o resto muitíssimo caro.

Eu, abaixo-assinado, declaro isentar com todo o gosto o dever-obrigação dos meus amigos de me comprarem uma prenda neste período de festas e de Natal.

Declaro, desde já, que prefiro muito mais:

- fazer um passeio em plena natureza com boa companhia

- partilhar uma refeição com os amigos

- aproveitar o meu tempo para conviver com quem tenho gosto de estar

- brincar e divertir-me em conjunto

- fazer qualquer outra coisa que me encha de prazer e que não passe por comprar bens e mercadorias sob a forma de prendas.

Assino com gosto e muita ternura,

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Dia Sem Compras ( 25 de Novembro)



Greve Geral dos Consumidores

No dia 25 de Novembro, último Sábado do mês de Novembro, celebra-se o Dia Sem Compras (Buy Nothing Day) em todo o mundo.

Falem dele aos familiares, aos vossos amigos e colegas.
Convencei-los a não comprar nada e a aproveitar esse dia para reflectirem individual ou em conjunto sobre o que andamos a fazer nesta vida e tentar responder a esta interrogação:


Será que somos, todos nós, consumidores consumidos?

Aproveitai também o dia para começar a simplificar a vossa vida.
Tentai fazer com que ela seja menos neurótica, consumista e stressante.


A sociedade de consumo em que vivemos é cega. Com efeito, não há crescimento económico infinito e sem limites. O nosso mundo não aguenta com tanto «crescimento» e «progresso» pela simples razão de que os seus recursos são limitados: nós extraímos duas vezes mais recursos fósseis, e emitimos gás carbónico para a atmosfera duas vezes mais que a capacidade de absorção do planeta. A bioddiversidade está a desaparecer. A extracção do petróleo decai. A sociedade de consumo e a febre consumista provoca uma autêntica pilhagem de recursos e a multiplicação de injustiças: 20% do nosso planeta, concentrada nos países ricos, consomem mais de 80% dos recursos planetários. O nosso nível de consumo e a febre consumista de que se apoderou de nós tem um custo: a submissão de população inteiras a um modelo económico predatório da natureza e dos homens. A sociedade de consumo é mortífera: ela reduz o ser humano a pouco mais do que a um agente económico, isto é, a um simples consumidor, negando e impedindo a valorização das nossas dimensões políticas, culturais, filosóficas, poéticas e espirituais, que são, no fundo, o que constitui a humanidade.
Devemos, pois, libertar-nos deste obscurantismo que consiste em acreditar piamente na toda-poderosa tecno-ciência e atirar para ela as nossas próprias responsabilidades pelos destinos das nossas sociedades. A ciência baseia-se – e é sempre bom recordar – na dúvida e não em qualquer lei sagrada. O nosso objectivo com esta iniciativa é reanimar a nossa responsabilidade social, e traduzir em actos do quotidiano a nossa tomada de consciência que assim não vamos a lado algum. Apostemos nas nossas capacidades de contenção, optemos pela simplicidade voluntária e exploremos a via do decrescimento sustentável e equitativo.

Façamos todos um gesto simbólico, individual e colectivo, e não façamos compras no próximo dia 25 de Novembro, aproveitando o Sábado para uma celebração das coisas simples da vida, e dedicando-o a uma reflexão sobre os caminhos por que anda a trilhar a nossa civilização.

Em Portugal a associação ambientalista Gaia promove um conjunto de iniciativas que visam celebrar o Dia Sem Compras, que é também assinalado em muitos outros países.

Participa e envolve-te.

Ver, para mais informação:

http://www.adbusters.org/home/

http://adbusters.org/metas/eco/bnd/index.php

http://www.ecoplan.org/ibnd/ib_index.htm - muito bom

Sê um herói do consumo. Luta contra o bombardeamento mediático para se comprar:
http://www3.sympatico.ca/dalia/buy0/buytoc.htm

http://www.punknews.org/article/20836

http://www.buynothingday.co.uk/ - no Reino Unido

http://www.ecologistasenaccion.org/article.php3?id_article=6134 - em Espanha
http://www.ecologistasenaccion.org/article.php3?id_article=6135

http://www.letra.org/spip/article.php?id_article=1492 - Consome até morreres


http://www.casseursdepub.org/ - em França

http://www.koopniets.nl/ - na Holanda ( muito bom)


http://www.thevacuumcleaner.co.uk/ - um vídeo acerca dos prazeres da vida gratuitos

Um filme sobre a Wal-Mart e como os baixos preços têm afinal um custo elevado:
http://walmart.bravenewtheaters.com/screening/show/4791

Ideias acerca do Natal sem compras:
http://www.buynothingchristmas.org/


Um certificado que serve para cada um de nós isentar os amigos e parentes de nos «encher» com prendas e presentes:
http://www.consommateur.qc.ca/union/images/PasDeCado.jpg