9.9.06

Editora «Apenas», uma editora para dar a conhecer a cultura popular



http://www.apenas-livros.com/

A «Apenas-livros» é uma pequena editora que, através de artesanais edições de cordel ( 2 e 3 euros), tem vindo subterraneamente a divulgar algumas preciosidades literárias da ( e sobre) a cultura tradicional popular portuguesa (tradição oral e escrita)
Basta atentar nalgumas das suas colecções e livros.


Colecção «À mão de respigar» (estudos sobre tradições populares portuguesas), folhetos à maneira de quem pendurava a vida a cavalo num barbante. Sob a direcção de Ana Paula Guimarães

As obras desta colecção visam em especial a análise dos RESTOS (sobras, ruínas, cinzas ou memórias), quer nos nossos quotidianos quer na chamada grande literatura. Demonstra-se aqui que a sabedoria tradicional portuguesa e universal, tantas vezes remetida para o degrau inferior das aprendizagens e dos estratos sociais, está afinal pujante na nossa grande literatura e no dia-a-dia de todos nós.


- E tudo o Resto, por Ana Paula Guimarães
-Um balde água fria. Episódios de Vida e de Conto, por Ana Paula Guimarães
-Contar com contos, por Ana Paula Guimarães
-António Aleixo.«A Dor Também Faz Cantar…», por João Barrento
-Literatura de Cordel, por Carlos Nogueira
-Sopa de Pedras, Jorge Castro
-Do Papel à Voz: as papeladas ou o Teatro Popular de Valongo, por Carlos Nogueira
-Através da Alice: A Tradição ao Espelho. Ana Paula Guimarães
-Almanaque: O Livro? Eça? Platão, Mallarmé e Borges, por Ana Paula Guimarães
-Quem isto ouvir e contar, em Pedra se Há-de tornar! Sobre o Conto e o Reconto, por Natália Constâncio
- A Fábula: da Tradição à Modernidade na Poesia Contemporânea Portuguesa, por Paula Cristina Costa
-As Lendas e os Mitos na Literatura, por Lurdes Cameirão
-Pulhas, Troças e Caçoadas. Crítica e maldizer na Tradição Portuguesa, por Aurélio Lopes
-Gráfitos Literários e Estado Novo, por Carlos Nogueira
-Nos passos da poesia, por António Carlos Cortez
-Repensar a Nossa Identidade Cultural, por João David Correia Pinto
-Orações e Benzeduras da Freguesia da Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez(recolha), por Ana Eleanora Borges
-As casas e as coisas na escrita de Sophia, por Marta Linel
.Orações e Benzeduras do Alentejo (recolha), por Ana Eleonora Borges
-Cantigas ao desafio e estetização da Fala: natureza, modalidades, função, por Carlos Nogueira
-Os pauliteiros de Miranda e os «Ihacos»: entre a literatura popular, a dança e a música, por Barbara Alge
-Gigantes, Olharapos e Outras Desmesuras, por Maria Teresa Meireles
-Os animais nos Cenários Literários Aquilinianos, por Ana Isabel Queiroz
-Ana Saldanha: Linhas Cruzadas nos Contos «Era uma vez…», por Maria Natividade Pires
-Sobre a Oração Popular Tradicional, por Carlos Nogueira
-Aspectos do ex-voto pictórico português, por Carlos Nogueira
-Cantigas Paralelísticas na Tradição Oral Portuguesa: Trás-Os-Montes, Algarve, Açoes, por Maria Aliete Galhoz




Colecção «Bilhetes de Identidade», a primeira sistematização temática da literatura tradicional ((emitidos por quem os conhece de gingeira, os B. I. dos bichos e quejandos revelam-nos quem somos e ao que andamos), e sob a direcção de Ana Paula Guimarães


Este núcleo constitui, a este nível, a primeira grande sistematização do BESTIÁRIO e outros SERES MÍTICOS, constantes na tradição popular portuguesa. Os livros organizam-se ao modo de um bilhete de identidade (nome, filiação, locais de nascimento, moradas, características diversas, etc.), sendo a pesquisa efectuada, essencialmente, nas grandes recolhas de contos e lendas dos séculos XIX e XX. As obras destinam-se ao público em geral e a especialistas em particular, constituindo um precioso auxiliar para professores e alunos dos ensinos básico e secundário.

- BI do Zarapelho, por Ana Paula Guimarães
-BI da Aranha, por Ana Maria Freitas
-BI da Serpente, por Maria Teresa Meireles
-BI do Lobisomen, por Alexandre Matos
-BI da Pomba, por Ana Maria Freitas
-BI de Sapos e Rãs, por Maria Teresa Meireles
-BI das Mouras Encantadas, por Aurélio Lopes
-BI de Ratos, Ratinhos, Ratões e Ratazanas, por Maria Teresa Meireles
-BI do Capuchinho Vermelho, por Nuno Júdice
-BI do Lobo, por Ana Paiva Morais
-BI das fadas e das bruxas, por Maria de Lourdes Soares
-BI do Leão, por Sara Diogo
-BI da Sereia, por Ana Maria Freitas
-BI do Macaco, por Teresa Maniate
-BI do Cavalo, por Manuela Parreira da Silva
-BI da Figueira e do Figo, por Ricardo Marques
-BI do Pão, por Marta Linel
-BI da Criação do Mundo, por Natália Constâncio
-BI do Carvalho e da Bolota, por Ricardo Marques
-BI dos Príncipes Encantados, por Natália Constâncio
-BI do Azeite e da Azeitona,por Ricardo Marques
-BI do Carneiro, por Ana Paiva Morais
-BI do Exu e da Pombagira, por Bruno Barba




Colecção «Breviário de Ética Ambiental», a primeira colecção portuguesa de ensaios sobre ética ambiental ( para quem se ocupa e preocupa com a natureza e o ambiente), e sob a direcção de João Lopes Barbosa.

Esta colecção dirige-se a todos quantos se ocupam e preocupam com a natureza e o ambiente, seja por interesse pessoal, seja por necessidade profissional, de formação ou outra. Todas as obras são publicadas em co-edição com a Sociedade de Ética Ambiental, fundada em Março de 2001 e responsável pela escolha de todos os temas desta «área interdisciplinar que reflecte os valores que atribuímos ou devemos atribuir ao ambiente e sobre os valores que orientam ou devem orientar as nossas relações com o mesmo».


- O Valor do Mundo Natural, por Maria João Varandas
-Dilemas da ética Ambiental. Estudos de um caso, por Cristina Beckert
-Vida: propriedades do organismo ou atributo do planeta terra?, por Maria José Varandas



Colecção «Teatro no Cordel», com peças originais e não só (teatro para grandes e pequenos, cultos e incultos, jovens e velhos, homens e mulheres), e sob a direcção de Fernanda Frazão

-As Barbas de Sua Senhoria, por Teresa Rita Lopes
-Ofício das Trevas, por Maria Estela Guedes



Colecção «Ofiusa», com estudos sobre a actualidade do passado português, sob a direcção de Gabriela Morais

Quem fomos, quem somos e porque permaneceremos. A antiguidade do povo que somos, nascido muito antes de termos sido nação política. OFIUSA é, aliás, o nome que os autores da Antiguidade deram a esta nossa Terra Portuguesa. Aqui congregamos os trabalhos concernentes à nossa «pequena/grande história», tão importante para a construção do pequeno/grande edifício do nosso devir.

-O Santuário de São Miguel da Mota, por Gabriela Morais
-Breve História de Aromáticos e Condimentares em Portugal, por Sandra Mesquita
-Lenda da Fundação de Portugal, Irlanda e Escócia, por Gabriela Morais
-A Viagem de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva ou a Mundividência de D.João II, por Luís M. Alves de Fraga
-São Tomé e Pincípe, Ilhas de Sofrimento e de Fortuna. Súmula Histórica, por Luís M. Alves de Fraga
-Megalitismo de Mora, por Leonor Rocha, Manuel Calado
-Cecília Marina, Ossonobense, por José d’Encarnação



Colecção «Ora e Outrora», com textos sobre curiosidades da cultura portuguesa ( com textos arrancados ao silêncio das bibliotecas), sob a direcção de Margarida Leme

A nossa grande (in)Cultura «esqueceu-os» nas prateleiras das bibliotecas. Talvez não sejam prodigiosas peças literárias, mas são espantosos, curiosos e (agora) quase-desconhecidos momentos da verdadeira cultura de um Portugal antigo, pequenos episódios que falam de Nós e dos nossos hábitos, das grandezas e misérias tão perenes ao longo dos séculos. Constituem afinal a nossa diferença neste mundo que nos desejam estereotipado. E alguns, transpostos, por exemplo, para a televisão, fariam as delícias de todos.


- O Arrependimento dos Inimigos de Deus Baco e a Reconciliação dos Amigos da Pinga
- Reabilitação do Queijo por Um Documento Antigo, por Alberto Pimentel
- O chá português, por Alberto Pimentel
-A broa, por Alberto Pimentel
-O Doutor da Mula Ruça. O Sandeu daRetorta, por Sousa Viterbo
-A peidologia, por Domingos Monteiro de Albuquerque
-Jogos portugueses, por Sousa Viterbo
-A Filha de Pedro Nunes, por Conde de Sabugosa
-Os amores de D. Carlota Joaquina, Por Pinto de Carvalho Tinop)
-As Modas femininas do séc. XVIII, por Júlio Dantas
-As Modas masculinas do séc. XIX, por Júlio Dantas
-A Guloseima Nacional, por Gustavo de Matos Sequeira
-Lápis de Carvão, por Maria Estela Guedes
-Natureza dificultosíssima. Uma quase epopeia do padre António Vieira e outros missionários do século XVII em serras do Brasil., por João Lopes Barbosa
- A Noite de Natal, o Ano Bom e os Santos Reis, por A. Tomás Pires



Colecção «Literatralha Nobelizável», a literatura de três em pipa (as outras vozes da literatura), sob a direcção de Luís Filipe Coelho

Muito, muito, a sério literatura não pode ser coisa tão «séria»! Aqui moram outras vozes, às vezes as dos que não têm voz nenhuma noutros sítios, às vezes os discursos outros dos que têm vozes também noutros sítios. Às vezes o primeiro gemido de um poeta tímido, às vezes a voz de um género politicamente incorrecto. Divirta-se, comova-se ou exalte-se com o recycle bin que nos vai chegando... sempre, sempre candidato ao Prémio NOBEL da vida.

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Fragmentos de Uma Narrativa Adiada, L.F.BaCo
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Peregrinações de Um Ponto Preto. Divagações sobre O Mito do Eterno-Retorno (quase-romance), L.F.BaCo
-O Fardo e Outros Escritos, Fernanda Basto
-Puerilidades, La Liça
-O Caralho, Rodrigues Baptista
-Grande Gaita, Gabriela Morais
-Re-ciclo, Ana Porto
-O Pintelho da Maltrapilha, Garízio D.B.
-Ninfa, João Lopes Barbosa
-O Guardião do Templo, Gabriela Morais
-Tamarindo.Livro de Tetramor, Dólar Bug
-Nietzsche.Os últimos dias de Nietzsche ou O Canto do Sepulcro.Peça/theatrumortis, por Lopo Ulrik
-Sete Conficções/ ou Põe Mas, Manuel de Arriaga
-Lugar Humano, Ana Porto
-Margarida, Margaridas, João Pedro Ferreira
-A punheta do Canhoto, Garízio D.B.
-Bokeh, Lino Ferreira
-Tejo, João Lopes Barbosa
-Lisboa que amanhece, Tiago Videira
-Odes no Brejo & alguns pecados, Jorge Castro
-Da-se!!!, P.Esse Lopes
-As Aventuras Maravilhosas de Jacin Tortudo Fu deer, Gilmar Kruchinski Junior
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Sincocilos de Quacaína e Uma Hefemérdide, por P. Esse Lopes
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Insunities (Insolaridades). Edição bilingue.. por Albert John
-Eros, João Barbosa
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O Homem a quem Tiraram a Idade, Carlos Canhoto
-Gosto das Mulheres que gostam deles grandes, Aníbal Silva St.
À Flor da Pele. 18-38. Foi assim, C. Marques
-A arte das Putas, Nuno Rebocho
-A Loja, Rosa Baião
-História Local de Portugas, Fernando Morais
-Ausências, Aníbal Silva St.
-Os cus-de-cristo, Diego Frestas



Colecção «Res Rustica», dimensões de um país desconhecido além-betão ( património vivos do mundo rural), sob a direcção de Inocêncio Seita Coelho.

Agrónomos, veterinários e solidários fazem chegar ao público em geral o nosso património rural: os animais e os seus produtos, as plantas medicinais e os seus usos, as florestas e todos os seus problemas, as hortas e os jardins que nos interessam. Este grupo de cientistas tem aqui um lugar privilegiado para fazer chegar a toda a gente um património português que tem tido escassa divulgação junto das pessoas.

-Queijos portugueses com tradições, por Inocêncio Seita Coelho
-Plantas Medicinais e condimentares, por Ana Eleanora Borges
-Raças Bovinas autóctones, por Victor Coelho Barros, Antonino Rodrigues
-Remédio Naturais. Etnobotânica das plantas medicinais, por Ana Eleanora Borges
-A Xerojardinagem ou a construção de jardins com pouca rega, por Ana Eleanora Borges
-Alminhas do Alto Minho. Freguesia da Gavieira. Concelho de Arcos de Valdevez, por Ana Eleanora Borges
-Fabrico Artesanal do Pão Algarvio,pela família Monteiro, por Lívia Paula do Nascimento
-Vivências Serranas. A Serra da Penda e as suas tradições no quotidiano, por Ana Eleanora Borges
-Cogumelos, Maria Helena Neves Machado, Ana Cristina Martins Ramos
-O Castanheiro, Rita Maria Lourenço da Costa
-A renascida fileira do porco de raça alentejana, Ana Margarida Santana Carlos, João Pedro Veiga da Costa, José Brito ramos


Colecção «Bisca Lambida», a primeira colecção portuguesa a dizer-lhe tudo sobre cartas de jogar, truques e casinos em Portugal (para quem quer saber mais do que jogar ás cartas), sob a direcção de Fernanda Frazão

Um dia, todos aprendemos a jogar às cartas, mas nunca pensámos nelas, nunca imaginámos que tivessem qualquer importância cultural. E, no entanto... durante 400 anos, tivemos um tipo de cartas só nosso, exportámo-lo para locais como o Japão já no século XVI; houve um monopólio estatal desde o início do século XVII, e, quase na mesma altura, descreveram-se em livro alguns truques matemáticos/ilusionistas, ainda hoje utilizados. A finalidade destas obras é a história, a técnica, o comércio e o coleccionismo de um dos objectos culturais menos conhecidos em Portugal.


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No tempo em que jogar às cartas era proibido, Fernanda Frazão
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As Cartas de Jogar Constitucionais. História de um Baralho. Constitutional Playing Cards. The Background, Fernanda Frazão
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Falando de... Cartas de Ilusionismo, José Manuel Guimarães
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Os Primeiros Fabricantes de Cartas de Jogar em Portugal. The First Playing Cards Manufacturers in Portugal, Fernanda Frazão


Colecção «Linhas Invisíveis», riscos e borrões de quem tem outras vidas ( a paixão pelo desenho), sob a direcção de Pedro Baptista



Colecção «OmniCiência», dimensões e abordagens diversas de um vasto território chamado ciência, sob a direcção de João Lopes Barbosa


-Ciência para quê? O velho sonho de Bacon e Descartes, João Lopes Barbosa
-Memórias de um grão de quartzo, Carlos Neto de Carvalho
-Um segundo génesis? Inquietações de um tempo em que a tecnociência acaba com as barreiras ancestrais…, João Lopes Barbosa
-Portugal e o Mar. Importância da Oceanografia para Portugal. J.Alveirinho Dias
-As Cores dos artistas. História e ciência dos pigmentos, António João Cruz
-Ciência e Ambiente. Uma aliança para a sustentabilidade Henrique Cabral
-Sardinhas. Mares Sardinheiros, Águas de Prata, Marcelo de Sousa Vasconcelos
-Bases para uma hierarquia ética e jurídica dos animais, Humberto D. Rosa
-Da ciência e da ética à prática: as grandes causas da protecção animal, por Leonor Galhardo



Colecção «L filo de la lhéngua» (Edições bilingues, em homenagem à outra língua de Portugal e a um povo antigo, em prol da língua mirandesa) sob a direcção de Antóniio Bártolo Alves

L acto de filar era, i ainda ye, un trabalho habitual na Tierra de Miranda. Pula antiquíssima ruoca se filórun muitos filos de lhana i de lhino que bestírun i acunchegórun las gientes mirandesas. Deçde l pardo mais ásparo, al lhençol mais ameroso, até la tradicional capa d'honras, todo tube l sou bércio an nes carinhos de las manos i na rudimentar cumbinaçon antre la ruoca i l fuso. Tamien la lhéngua i la cultura mirandesas se urdírun al ritmo deste lhabor. De la magie de l suonho, deixado libre por ua actividade que solo pide l trabalho de la manos, salírun muitas cantigas, cuntas i lhonas. L cartapácio - cobertura de panho cun se tapa l manelo de lhino - ye l símbolo que sconde la mintira i l fascínio. Cartapácio de mil mintiras An ne mar cuorren las lhiebres An nes prados las anguilas Se isto ye berdade Poucas seran mintiras. L real ancóntra-se cun l eimaginário, l suonho fecunda la realidade. La lhiteratura oural, anquanto produto de la memória, guarda ls traços de l passado, mas ye tamien ua poderosa spresson de la cultura i de la eidentidade presentes. La coleçon L filo de la lhéngua, anteiramente dedicada a la lhéngua i a la cultura mirandesas, pretende dibulgar este caudal de saber campestre i telúrico, onde mana i onde se reflite la filozofie, l saber i l'eidentidade mirandesas. Tenerá, drento deilha, outras coleçones, música, cuntas tradicionales, triato, i tamien cuntas einéditas, podendo inda abrir-se a outros temas. Las páginas destes libros quieren solo plasmar la dibersidade de la cultura mirandesa. Mas, porque eilha ye biba i dinámica, queremos que l sou ímpeto cuorra libremente, crecendo i comunicando la sue bitalidade.




Colecção «fazereSaberes», sobre «os trabalhos e os dias que nos restam», testemunhos e histórias de vida sobre a prática dos saberes. Sob a direcção de Ana Luísa Janeira

Esta colecção promove trabalhos do projecto «INOVAÇÃO - TRADIÇÃO - GLOBALIZAÇÃO - formas de viver, formas de fazer, formas de saber - FAZERES COM SABERES», cujos objectivos principais são recolher testemunhos e histórias de vida sobre a prática dos saberes, esclarecendo os seus «comos», «porquês» e «para quês», com vista à constituição de um corpus que importa poder descrever e caracterizar, preservar e compreender, insere-se no âmbito da relação próxima do Homem com a Natureza. Aqui se divulgarão os trabalhos deste projecto e muitos outros contributos portugueses e brasileiros similares.


-Natureza e Cultura, por Ana Luísa Janeira
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Saúde-Doença-Remédio numa comunidade piscatória caiçara do Brasil, Maria Aparecida de Sá Xavier
-Moinhos de Vento.Um saber e uma ciência,para alem de um simples olhar…, Maria Mascarenhas, Luís Francisco, Ivone Henriques
-Em torno da construção tradicional no Alentejo, por Ana Luísa janeira
-A brincar…a brincar.Os brinquedos populares de Montemor-O-Novo, Marioke Krom




Colecção « Redes & Enredos», tramas do tempo e do espaço no conto e na lenda, sob a direcção de Maria Teresa Meireles

Espaço privilegiado para trabalhos sobre contos e lendas e para a publicação de pequenas antologias, sejam elas provenientes de investigação literária ou de recolhas de campo.


- A Troca. Perdas e Permutas nos contos tradicionais, por Maria Teresa Meireles
-A Certidão das Histórias, Nuno Júdice
-Más mulheres, boas meninas. Personagens femininas nos contos tradicionais portugueses, por Ana Maria Freitas
-Fadas, mouras, bruxas e feiticeiras, Maria Teresa Meireles



Colecção «Lápis de Carvão» (o diamante nasce das bodas do carbono com a pedra filosofal – alquimias, esoterismos, maçonarias), sob a direcção de Maria Estela Guedes


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Colecção «Naturarte» ( os híbridos das novas ideias, afectos e tecnologias)

Nas colecções «Lápis de Carvão» e «Naturarte» publicamos, maioritariamente, comunicações aos colóquios em linha no triplov.org, em especial ao Colóquio Internacional «Discursos e Práticas Alquímicas», iniciativas do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL) e do Instituto São Tomás de Aquino.Comissão organizadora: Maria Estela Guedes e José Augusto Mourão




Colecção «Papoulas gustativas» (tudo o que se relaciona com bons comeres, bons comeres, bons deglutires, para ainda melhores bons viveres), sob direcção de Luís Filipe Coelho

-Dos termos da Arte de Cozinha, Frei João Pacheco




Para além das edições de cordel, a editora tem editado vários livros em edição normal:

-Provérbios sobre plantas, por Ana Eleanora Borges
-Os 10 mandamentos dos contos, Maria Teresa Meireles
-A partilha da palavra nos contos tradicionais, por Maria Teresa Meireles
-Lendas portuguesas da terra e do mar, por Fernanda Frazão
-A arca dos contos, por Maria Teresa Meireles
-Cuidar da criação, por Ana Paula Guimarães
-Viagens do diabo em Portugal, por Fernanda Frazão
-Arte de evocar os espíritos, Eugénio Montalegre
-Banquete esplêndido de iguarias diversas, anónimo
-História das cartas de jogar, Egas Moniz

7.9.06

Cocooning ou a socialização pelo isolamento !!!


Cocooning versus convivialidade social

Segundo a Wikipedia designa-se o cocooning como aquela atitude que consiste em ficar por casa, só saindo a título excepcional para a rua a fim de satisfazer necessidades vitais. O cocooning significa pois um estilo de vida caseiro, doméstico (domesticado ?) subentendendo uma desconfiança adquirida face ao convívio social com os outros, e temor e antipatia para com a vida social nos espaços públicos.
Significa, além disso, um novo tipo de socialização, por mais paradoxal que pareça ser: a socialização ou integração social por via do isolamento individual da pessoa que, atomisticamente, e encerrada na sua «casa-cela» se conecta com o mundo por intermédio da tecnologia.



Costuma-se apontar a uma guru das modernas tendências sociais, Faith Popcorn, a autoria e a invenção do neologismo cocooning nos anos 1990 ao pretender exprimir a disposição das pessoas de se protegerem face às realidades cruéis e imprevisíveis do mundo exterior, como seria supostamente o caso da actual geração que – segundo aquela autora – teria tendência de se refugiar no abrigo do conforto e do calor da casa, e não em empreender um estilo de vida convivial e sociável. A isso não seria certamente estranho a crescente presença da Internet no quotidiano dos indivíduos, que lhes permitiria estarem conectados , ainda que estando encerrados em casa.

Precursor desta atitude seria o autor inglês E.M.Forster que no seu livro de ficção científica teria prevista pela primeira vez a generalização da atitude típica do cocooning. Com efeito, ele imagina um mundo onde os indivíduos ficariam encerrados na sua célula hexagonal, pouco dispostos a manterem contactos humanos directos ou a empreenderem viagens, por mais curtas ou próximas que fossem, e que não comunicam senão por via dos aparelhos electrónicos. Forster descreve, de forma pessimista, uma humanidade que se caminha para a sua própria perda, pois vai perdendo o gosto pela acção, rendendo-se ao fatalismo e à indiferença.

Se é verdade que a visão futurista de Forster não encontrou cabimento ao longo do século XX, durante o qual a mobilidade das pessoas não parou de crescer, e as viagens e o turismo se tornaram numa realidade social e económica indesmentível, também não é menos verdade que no dealbar do século XXI os avanços tecnológicos e a indústria electrónica se tem vindo cada vez mais a impor às sociedades e aos indivíduos, moldando o seu quotidiano e as suas atitudes para com os outros e para consigo mesmo. Assim factores de várias ordem ( Internet, videoconferência, multimedia, aumento do petróleo, pânico do terrorismo, etc, etc) têm levado nos últimos tempos ao reforço do cocooning que mais não significa a morte da vida social e do convívio humano tal como os conhecemos





Mais informação:




Cocooning is the act of insulating or hiding oneself from the normal social environment, which may be perceived as distracting, unfriendly, dangerous, or otherwise unwelcome, at least for the present. Technology has made cocooning easier than ever before. The telephone and the Internet are inventions that made possible a kind of socialized cocooning in which one can live in physical isolation while maintaining contact with others through telecommunication.

The term was popularized in the 1990s by marketing consultant Faith Popcorn in her book The Popcorn Report: The Future of Your Company, Your World, Your Life. Popcorn suggested that cocooning could be broken down into three different types: the socialized cocoon, in which one retreats to the privacy of one's home; the armored cocoon, in which one establishes a barrier to protect oneself from external threats; and the wandering cocoon, in which one travels with a technological barrier that serves to insulate one from the environment.

A common example of home-based cocooning is staying in to watch videos instead of going to the movies. Wandering cocooning is evident in those who exercise or walk around the city while being plugged in with earphones to a private world of sound. Wireless technologies such as cell phones and PDAs have added a new dimension of social cocooning to wandering cocooning by allowing people to include selected others in their mobile cocoon.

Examples of armored cocooning include network firewalls, virtual private networks (VPNs), surveillance cameras, and spyware-blocking software applications.

When it comes to watching movies, Internet households in North America prefer to stay at home while similar European households prefer the cinema, according to
Global Digital Living™, a multinational consumer study by Parks Associates that provides comparative data from 13 nations, identifying the relative rates of adoption of digital living technologies.

For North America, the gap between renting versus going out is particularly pronounced in Canada, where 54% of all Internet households rent movies each month but just 29% go out to the movies at the same rate. Conversely, European Internet households prefer the cinema over renting movies. In France, for example, 36% of all Internet households go to the cinema every month while just 21% rent movies.

“The practice of ‘cocooning’ or surrounding your personal living space with everything you want appears to be stronger in North America than in Europe,” said John Barrett, director of research at Parks Associates. “North American households are much more likely to use pay-per-view or have a subscription TV service, and the difference in film viewing habits is an extension of this trend.”
In addition, Global Digital Living found that Asian Internet households generally follow their North American peers and rent movies more often than go to the cinema. South Korea was a notable exception, however, with 43% going to the movies monthly and 35% renting movies monthly.
“This finding in Korea is partially due to the increasing use of the Internet to watch movies,” Barrett said. “Forty-eight percent of Korean Internet households download or stream video every month, a number that surpasses both their rental and movie-going rates. Korea has always had a weak movie rental market, which ironically has helped boost the demand for online distribution.”The Global Digital Living project is a study of worldwide consumer technology trends. It surveyed Internet households in thirteen nations: France, Italy, Spain, Germany, Canada, Taiwan, Japan, India, China, South Korea, Australia, the United Kingdom, and the United States

O declínio da gravata



A proporção dos homens que compram uma gravata para ir trabalhar diminuiu consideravelmente ( de 70% em 1996 para os actuais 56%) revela um relatório citado pela jornalista Kathryn Hughes num seu artigo publicado no jornal britânico The Guardian acerca do declínio deste apêndice de vestuário que a crer nas suas observações se encontra completamente em desuso, e que é herdeiro de uma fase recuada da evolução social.
A recusa da gravata simbolizará segundo aquela jornalista a saída do homem do terreno de combate para uma posição de maior neutralidade. É nos ambientes de equipa e camaradagem, onde as pessoas não se sentem em duelo, que é mais visível o abandono da gravata. E ao recusar essa peça de vestuário os elementos das profissões pós-industriais estariam também a pugnar por uma maior interactividade e um ambiente laboral não hierárquico.


Reproduz-se a seguir o artigo original, recentemente editado pelo The Guardian (4 de Set.) e da autoria de Kathryn Hughes e sob o título «Uncool under the collar»

Uncool under the collar
The decline of the tie reflects a refusal to be defined by class - and a reluctance to point rudely

There is, apparently, consternation in the world of tie manufacturers. The proportion of men in professional jobs who buy ties, a report says, has dropped from 70% in 1996 to just 56% today. And, to break that down (pay attention at the back, please), only 28% of office managers have bought a tie in the past 12 months. It is, however, floppy-collared architects and surveyors who are the biggest slackers: last year only a paltry 16% of them bothered to purchase a thin string of fabric to tie around their necks at 7 o'clock every morning.

These architects and surveyors are doubtless responding to the realisation that the tie is the sartorial equivalent of an appendix - an entirely redundant bit of kit left over from a much earlier phase of evolution. Just as it is several millennia since our digestive systems were required to deal with grass, it is at least a couple of centuries since men felt it necessary to protect their throats in the street from anyone making a lunge at the jugular with a sword (although nostalgia freaks will be queasily pleased to note that those times may be returning in certain parts of our inner cities).
Rejecting the tie, then, takes a man out of the symbolic combat zone and places him permanently in a "stand down" position. This might be a disadvantage in a court of law, which is why solicitors and barristers buy more ties than anyone else. However, in the team-based environment of an advertising agency, or even a call centre, it's probably a good idea if individuals don't feel permanently poised to fight a duel (at one point in history merely touching another man's tie knot was an invitation to trek out to a heath and start trading pot shots, which must have played havoc with staffing rotas).

What's more, by rejecting the tie, architects, surveyors and engineers (only 13% of whom managed to buy one last year) are also making a strong statement about not wanting to be defined by class. Ever since 1880, when the jaunty rowers of Oxford's Exeter College removed the ribbon bands from their hats and tied them round their necks, the tie has become a virtual microchip of information about where you come from and, by implication, where you are going. Schools, clubs, regiments and colleges all signal their specialness with a complicated pattern of spots and stripes that can only be decoded by those in the know. By refusing to be tied down in this way, members of what might be termed the post-industrial professions (financial advisers are also low on the tie-buying scale) signal that they hail from a world of flattened hierarchies and democratic interaction.

There is, finally, another very good reason for men to reject the symbolic freight of a tie. For while the necktie started off as a dandified bit of kit (as near as dammit to tucking a lace hanky into the top of your shirt), from Victorian times onwards it became austerely and dominatingly male. As a result, any woman wearing a tie in the 20th century was either very obviously in drag for her own pleasure or was being forced to send a slightly humiliating signal to the world that she wished to be viewed as a neuter (it's for that reason, surely, that disturbingly luscious adolescent girls are still obliged to wear a tie to school).

In these metrosexual days, however, for a man to insist on wearing a tie does not speak of a casual and unforced masculinity, but suggests instead a nagging worry about where the proper markers lie. For, viewed against a crisp white shirt, the classic dark tie forms an urgent pointing finger, dragging the viewer's eye straight towards the wearer's genitals. "Look," the tie seems to shout, like an embarrassing drunk in the pub, "there's no doubt about it, he's definitely all man."

· Kathryn Hughes's most recent book is The Short Life and Long Times of Mrs Beeton

2.9.06

Os livros malditos das Edições Afrodite (como «A Filosofia na Alcova», do Marquês de Sade)



http://editora-afrodite.blogspot.com/

Surgiu neste Verão um novo weblog dedicado à editora Afrodite que desempenhou um relevante papel durante a última década ( começou a sua actividade em 1965) do fascismo português, tendo editado livros e autores malditos, o que lhe provocou a ira e a perseguição dos esbirros ao serviço do regime político anterior


Reproduzimos o primeiro post ( com data do passado 7 Julho) do referido weblog:

"Com a publicação integral do "Kâma Sûtra - Manual do Erotismo Hindu", iniciou-se em 1965 a Colecção Afrodite, que marca o começo da actividade de Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite, entre nós precursora e única, até ao 25 de Abril, na tentativa de divulgar certo tipo de obras "malditas" pela sacristia político-cultural em que os portugueses iam existindo e asfixiando.Conforme eram lançadas, todas as edições desta Colecção foram imediata e inquisorialmente apreendidas pela Polícia Judiciária e pela PIDE-DGS e, duas delas, até acusadas, julgadas e condenadas pelo fogo fascista do Tribunal Plenário de Lisboa." Texto na badana da edição: O Supermacho, Alfred Jarry, Edições Afrodite / Fernando Ribeiro de Mello - 1975.


Recordamos, entretanto, quais foram as principais obras editadas pela edições Afrodite:

Na Colecção Afrodite


-Kama-Sutra: Manual do Erotismo Hindú, séc. v d. c. - Vatsyayana, 1965
-Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros medievais à actualidade – Selecção, prefácio e notas de Natália Correia e ilustrações de Cruzeiro Seixas, 1966
-A Filosofia na Alcova - Marquês de Sade – Tradução de António Manuel Calado Trindade, prefácios de David Mourão-Ferreira e Luiz Pacheco, ilustrações de João Rodrigues, 1966
-Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros medievais à actualidade – Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, edição “pirata” com selo do Rio de Janeiro, 19??
- A Vénus de Kazabaika - Leopold von Sacher Masoch, 1966
-Cara Lh Amas: Poemas eróticos e sarcásticos - E. M. de Melo e Castro, 1975
-O Supermacho - Alfred Jarry, 1975
-Antologia de Poesia Latina Erótica e Satírica, 1975
-Poesia Portuguesa Erótica e Satírica dos séc. xviii – xix, 1975
-A Filosofia na Alcova - Marquês de Sade – Tradução de Manuel João Gomes, 1976

Outros:

-Lugar de Massacre - José Martins Garcia, 1975
- Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente - Natália Correia, 1981
- Peregrinação & Cartas – Fernão Mendes Pinto, 1989, 2 vol

Na Colecção Antologia

- Antologia do Conto Fantástico Português, 1967
- Antologia do Humor Português, 1969
-Antologia do Conto Abominável, 1969
-Antologia do Humor Negro – André Breton, 1973
-Antologia, De Fora Para Dentro, 1973
-Nova Recolha de Provérbios e Outros Lugares Comuns Portugueses, 1974
-Antologia do Conto Fantástico Português, 2ª edição: com revisão, anotações e prefácio de E. M. de Melo e Castro, 1974
-O Sexo da Moderna Ficção Científica – antologia de autores franceses, 1976

Na Colecção Clássicos

- Arte de Furtar – Anónimo do séc. xvii, 1970
- Peregrinação – Fernão Mendes Pinto, 1971, 2 vol.
- História Trágico-Marítima – Bernardo Gomes de Brito, 1972, 2 vol.
- Grande livro de S. Cipriano ou os tesouros do feiticeiro – S. Cipriano, ?
- O Manual dos Inquisidores – Nicolau Emérico, 1972
-O Processo dos Távoras: A Expulsão dos Jesuítas, Conselho de Ministros de D. José I, 1974
- Sobre as Feiticeiras – Jules Michelet, 1974

Na Colecção Ensaio/Documentos
Nº1 - Anti-Duhring: Ou a subversão da ciência pelo sr. Eugénio Duhring Frederico Engels, 1971
Nº 2 - A Sociedade do Espectáculo – Guy Debord, 1972·
Nº 3 - Teatro Vanguarda: Revolução e Segurança Burguesa – Fernando Luso Soares, 1973

Na Colecção Extra-Colecção

-Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Lewis Carrol, 1971
-Apocalipse do Apóstolo João, 1972
- As Crianças Falam, 1973
- A Malcastrada - Emma Santos, 1975
- Do General ao Cabo Mais Ocidental – Álvaro Guerra, 1976

Na Colecção Antologia de Vanguarda

-4 Autores da Novela Portuguesa Contemporânea – Sá-Carneiro, Almada, Manuel de Lima, Luíz Pacheco, ?

Colecções Autores I e II

- Alecrim, alecrim aos molhos... - José Martins Garcia, 1974
- O Uso e o Abuso – Armando Silva Carvalho, 1976
- O Encoberto – Natália Correia, 1977
- Revolucionários e Querubins - José Martins Garcia, 1977
- Textos Malditos - Luíz Pacheco, 1977

Na Colecção Sagir

- O Vinho e a Lira – Natália Correia, ?
- Insofrimento In Sofrimento, José Carlos Ary dos Santos, 1970

Na Colecção Cabra Cega (Infantil)
1 – Conversas Com Versos – Maria Alberta Menéres, 1968

2 – Afinal o Castelo Era Verdade – Júlio Moreira, 1968
3 – Os Quatro Corações do Coração – Ricardo Alberty, 1968
4 – Perrault Vai Contar – Maria Alberta Menéres, ?
5 – Histórias Com Juízo – Mário Castrim, ?
6 – Giroflé Giroflá – Alice Gomes, 1970
7 – Histórias de Bichos em África – Tais Ribas, 1970
8 – Ulisses – Maria Alberta Menéres, 1972
9 – A Nuvem e o Caracol – António Torrado, 1972
10 – Uma Rosa Na Tromba de Um Elefante – António José Forte, 1971
11 – Pinguim em Fundo Branco – António Torrado, 1973

Das colecções Guias, Documentos, Doutrina/Intervenção, destacamos alguns ensaios e documentos editados a partir de 1974, até início dos anos 80.

- Guia Prático do Trabalhador Português – Marcelo Curto, 1974 (Guias)
- A Metafísica do Sexo, Julius Evola, 1976
- 26 Anos na União Soviética, notas de exílio do “Chico da C.U.F” – Francisco Ferreira, 1975 (Documentos)
- A Vida Sexual de Robinson Crusoé – Michel Gall, 1978
- O Pequeno Livro Vermelho do Estudante – Soren Hansen e Jesper Jensen, 1977 (Guias)
- Mein Kampf – Adolf Hitler, 1976 (Doutrina / Intervenção)
- Os Normalizados – Christian Jelen, 1978 (Doutrina / Intervenção)
- Liberdade Para José Diogo, 1975 (Documentos)
- O Processo das Virgens: aventuras, venturas e desventuras sexuais em Lisboa, nos últimos anos do fascismo, 1975 (Documentos)


Por último refira-se que um dos livros editados que mais celeuma terá porventura provocado, dando origem inclusivamente a um processo judicial, foi a Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade. Para mais informações sobre esta obra e muito mais consultar o:

http://editora-afrodite.blogspot.com/

Manifestação contra a Central Nuclear de Almaraz, junto ao Tejo ( dia 9 de Setembro)



Marcha até ao portão da Central Nuclear de Almaraz depois da Concentração.

Almaraz fica na província de Cáceres na Extremadura, que faz fronteira com os distritos de Castelo Branco e Portalegre do lado português.

A Central em questão, tem tido incidentes com regularidade, o último dos quais em Junho, tendo-se na altura, e nos arredores da Central, medido níveis de radioactividade superiores ao permitido. Estes incidentes têm passado despercebidos do lado de cá da fronteira, isto apesar de no caso de haver um acidente grave, sermos dos primeiros a ser afectados.

Convocan: Plataforma Antinuclear Cerrar Almaraz, Plataforma de Afectados por la Central Nuclear de Almaraz, ADENEX, CGT, CNT-Cáceres Norte, CNT-AIT-Mérida, IU-Extremadura, Ecologistas en Acción - Extremadura, Asociación Comarcal Jóvenes del Valle del Jerte, CEFNA.

http://www.ecologistasenaccion.org/article.php3?id_article=5460

Novo Tempo


Novo Tempo ( letra de Ivan Lins)


No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer

No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança

No novo tempo, apesar dos castigos
De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer

No novo tempo, apesar dos perigos
De todos os pecados, de todos enganos, estamos marcados
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver

No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer

No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça

Começar De Novo ( letra de Ivan Lins)


Começar de novo
e contar comigo.

Vai valer a pena
ter amanhecido.


Ter-me rebelado.
Ter-me debatido.

Ter-me machucado.
Ter sobrevivido.

Ter virado a mesa.
Ter-me conhecido.

Ter virado o barco.
Ter-me socorrido.

Começar de novo
e contar comigo.


Vai valer a pena
ter amanhecido.

Sem as tuas garras,
sempre tão seguras.

Sem o teu fantasma.
Sem tua loucura.

Sem tuas esporas.
Sem o teu domínio.

Sem tuas esporas.
Sem o teu fascínio.
Começar de novo
e contar comigo.


Vai valer a pena
já ter te esquecido.


Começar de novo.

Somos todos iguais nessa noite (Ivan Lins)

Somos todos iguais nessa noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo

Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre as luzes e a dança das cores
Onde estão os atores?
Pede à banda pra tocar um dobrado

Olha nós outra vez no picadeiro
Pede à banda pra tocar um dobrado

Vamos dançar mais uma vez
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos entrar mais uma vez

Somos todos iguais nessa noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo

Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque mal feito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores

15.8.06

As últimas notícias da utopia

«As utopias são como a linha do horizonte: eu dou um passo e ela afasta-se um passo; dou dois passos e ela afasta-se cinco ou mais passos; dou dez passos e ela afasta-se outros dez. Quanto mais caminhamos mais ela se afasta.
Então para que é que servem as utopias?
Para isso mesmo, para fazer-nos caminhar.»





Como será a sociedade do futuro? ...As últimas notícias da utopia!


Em Agosto de 2005 cerca de sessenta pessoas – militantes políticos, escritores, jornalistas , sindicalistas – receberam por correio electrónico um convite irresistível. Michael Albert, próximo de Noam Chomsky, e animador da rede Znet (1), propunha aos destinatários da sua mensagem, muitos deles colaboradores daquela rede, encontrarem-se em casa dele dez meses mais tarde, ou seja, em Junho de 2006, durante cinco dias. Objectivo? As discutir as formas que as sociedade do futuro poderá tomar.

A proposta tinha os seus perigos. Lançado com um ano de avanço, corria o risco de tropeçar com um uso de tempo demasiado sobrecarregado. O seminário seria mesmo organizado às portas do Verão num local agradável (Woods Hole, em Cape Cod, a uma centema de quilómetros de Bóston, na costa leste dos Estados Unidos), junto à praia e com possibilidade de excursões…Já mais a sério a reunião permitiria aos colaboradores da Znet, se bem que alguns deles pouco implicados nessa rede, de se conhecerem. E de reflectirem em conjunto, na companhia de Noam Chomsky, Barbara Ehrenreich, Arundhati Roy, Naomi Klein, etc, que também marcariam presença.

O convite comportava uma vantagem suplementar: a própria formulação do projecto. Com efeito, Michael Albert escrevia: «Imaginai cada sessão corresponderia a uma exposição sobre a visão do futuro, a estratégia, o programa – e não tanto s obre o que corre mal na actual sociedade, as opressões, etc – e que essa exposição esteja estruturada a partir de um texto distribuído previamente que seria comentado por uma pessoa, também escolhida de antemão, e tudo isso conduzisse a uma discussão colectiva.» Para os convidados, no seio dos quais se contavam os velhos frequentadores dos Fóruns Sociais e dos seus discursos estereotipados, repetidos sucessivamente de Porto Alegre a Atenas, tal seria uma forma de ultrapassar a litania dos sermões acusadores contra o ultraliberalismo e os seus sequazes.

Nesse ponto a promessa foi cumprida. É certo que nem Chomsky, nem Ehrenreich, nem Roy, nem Klein apareceram: os mais conhecidos são os mais anunciados, mas também os mais desistentes. E se em matéria de «programa» ou de «estratégia» as coisas não foram tão satisfatórias, a verdade é que, em contrapartida, não faltou capacidade de imaginação e de antecipação. Com uma meteorologia uniformemente má, refeições tomadas em grupo numa cantina de empresa, um programa cheio de exposições e de debates – ao longo das manhãs, tardes e noites – tudo isso fazia com que cada um escolhesse fixar a sua atenção sobre uma problemática, cuja actualidade não era particularmente grande, sobretudo nos Estados Unidos: na suposição de que o capitalismo não existisse («suponha que…» é uma das figuras retóricas preferidas por Michael Albert, que a ela recorre, de resto, mais do que uma quarenta vezes, no seu último livro, «Realizing Hope»), como se pareceria a sociedade ideal?

Michael Albert tem como se calcula uma pequena ideia sobre o assunto. Recorde-se que ele se insere na tradição libertária, no sentido mais amplo do termo (2). Elaborou até, mais do que Chomsky, um modelo alternativo de sociedade que rompia simultaneamente com o capitalismo ( a regulação pelos mercados é rejeitada) e com o socialismo ( que gere inevitavelmente uma vanguarda autoritária e uma classe de «coordenadores»).
Desenvolvida desde há una quinze anos, juntamente com Robin Hahnel, este projecto de «economia participativa» ( «participatory economics» ou Parecon em inglês, ou «participalismo» em francês) iria servir de referencial ao longo dos cinco dias do seminário. As obras de Michael Albert estão traduzidas em numerosos países, mas o seu impacto é demasiado modesto para que uma explicação, ainda que sucinta, do seu programa – da sua «utopia» -seja completamente supérflua (3).

Apesar de «igualitária», «solidária» e «autogerida», a economia participativa não se reclama da iguadade absolutta dos salários, e menos ainda da ideia, julgada irrealista, do «cada um segundo as suas necessidades». Ela adopta como critério de remuneração «o esforço e o sacrifício» na «produção de bens socialmente úteis». Quem trabalha mais, e mais duramente, em condições mais difíceis, receberá mais. Em contrapartida, quem, pelo único efeito do destino ou do nascimento, beneficiar de máquinas ou de tecnologias mais avançadas, ou de dons artísticos, físicos ou intelectuais, não será por isso melhor remunerado.Michael Albert é sensível, mais do que ninguém, à injustiça dos rendimentos imobiliários até porque o valor da casa que serve de quartel general às operações «participalistas» foi multiplicado por nove em catorze anos. Prova suficiente, ironiza ele, de que em regime capitalista «uma massa inerte pode trazer mais trabalho aos seus proprietários que uma vida de trabalho».

A economia participativa reprova a organização social que fixa tarefas de execução, de limpeza a uns, e reserva as missões de enquadramento, de criação a outros. Comabeta o modelo industrial baseado na especialização fordista. Se nos países capitalistas, tal como nos países «socialistas» (stakhanovismo), um tal modelo favorecer a produtividade, isso foi à custa de uma organização de trabalho alienante e «desgastante» (como é o caso da cadeia de montagem automóvel). Mas foi, segundo Albert, a consolidação de uma terceira «classe», os coordenadores», que teria entrado em contradição como o esquema marxista de uma sociedade que tinha como dialéctica principal a oposição entre os detentores do capital e os que vendem a sua força de trabalho.

Cauteloso em evitar a sobrevivência –ou o regresso, uma vez passada a euforia revolucionária – desses especialistas, quadros, tecnocratas, e do seu desdém social e do seu autoritarismo legitimado pela sua «competência», os participalistas propõem que em cada actividade profissional, o conjunto das tarefas sejam redefinidas de modo a misturar as tarefas de execução e de concepção. Essa Seia a única forma aceitável de distribuir os benefícios e os constrangimentos do trabalho social. Tal significaria que o patrão da General Electric encarregar-se-ia por vezes da limpeza do elevador, ou da recepção do correio, enquanto que a sua empregada de limpeza verificaria as contas? Não será bem assim, porque nem na General Electric nem em nenhuma outra parte, haveria «patrão» ou «empregada de limpeza», mas antes actores iguais com «conjuntos equilibrados de tarefas» ( balanced Job complexes) concebidos graças a negociações e discussões prévias.

Utopia prometaica à escala de um país gigantesco e de uma economia diversificada como a dos Estados Unidos, o projecto já encontrou, no domínio privado, a partilha de tarefas doméstica por (modesto) antegozo. E tal não é anedótico nem secundário pois tudo deve estar lgado:«O prgresso numa certa esfera deve ir concetado com o avanço numa outra esfera». Um participalismo que já rege, aliás, algumas das empresas cooperativas. As quais, pela sua própria existência, prefiguram a utopia autogestiono presente. «Incorporam as sementes dofuturo desconhecido nos nossos comportamentos imediatos».

A casa editorial «South End Press» que Michael Albert criou com outros em plenos anos 60 e a imensa efervescência progressista que ela gerou na sociedade norte-americana, inspirou-se em alguns daqueles princípios enunciados. A recusa de separação entre funções de execução e funções de direcção foi tal que South End Press ( quatro empregados) decidiu, pelo menos uma vez, excluir da cooperativa um dos seus membros que, por receio de tomar um dis uma decisão prejudicial ao colectivo, recusava ser responsável pelas escolhas editoriais. Reclamando querer manter-se num posto subalterno, ele confessava-se satisfeito em contribuir assim para um objectivo comum. A resposta que recebeu é que uma conduta desse género era inaceitável: a lei do participalismo era para se cumprir…

A situação inversa é mais fácil de imaginar: a do caso em que o editor ou um autor hesitam em abandonar os trabalhos de pesquisa e de escrita para reservar algumas horas do dia aos trabalhos domésticos, ao conserto de sapatos ou a descida a um poço ( a polivalência requerida deve abranger diversos sectores de actividade). Susan George apresentou uma objecção por via de uma interrogação «antropológica»: terá existido na história da humanidade uma sociedade sem classes, principalmente quando a definição das classes passa, para além da propriedade dos meios de produção, pela incorporação do saber dos «coordenadores»? Pouco convincente ( e convicta) da resposta, ela concluiu: «Desde que se sejamos altamente qualificados no que fazemos, devemo-nos poder consagrar inteiramente e a fundo nisso». Um veredicto contrário à utopia defendida por Michael Albert e partilhada pela maior parte dos presentes.

Mesmo supondo que o princípio-chave da economia participativa não seja posto em causa, a verdade é que as questões só agora começam. Quem estabelece a remuneração dos esforços e do sacrifício? Quem reorganiza o trabalho em torno dos conjuntos equilibrados de tarefas? Quem fixa o nível e o tipo de oferta ( da produção)? E como se irão prever as reacções da procura ( dos consumidores)? Resposta: o que o mercado ( desigualitário e fonte de injustiças) e os coordenadors centrais ( presumivelmente, autoritários) fariam seria realizado pela «planificação participativa». Mas o que é que isto vêm a ser? «Conselhos alargados e abrangentes» ( nested councils) descentralizados, compostos por actores sociais implicados que tenham uma palavra a dizer em função das consequências, que as opções a tomar, lhes possam afectar; e que todos tenham acesso a uma informação de qualidade, sejam devidamente formados, e tenham confiança nas suas competências e estejam motivados para as desenvolver, comunicar e exprimir as suas preferências.»

Um vasto programa - não há dúvida -, tanto mais que ele pressupõe certas condições prévias que dizem respeito quer ao saber partilhado, à consciência política, à motivação e à informação democrática. Não será muito surpreendente que uma tal visão de conjunto não deixe de suscitar algumas dúvidas, menosprezo até, e reiterados pedidos de aclarações. (4). Um dos objectivos do seminário organizado por Michael Albert era reforçar o ptencial do modelo através da indicação de exemplos que de um modo ou de outro pudessem evocar o género de estrutura autogerida atrás descrita.

Agora sobre a América do Sul, comecemos com a Argentina em que, há alguns anos atrás, foi submergida com a exclamação «que se vayan todos!» e um movimento de recuperação de 180 fábricas abandonadas pelos seus proprietários, assim como por cooperativas, trocas, sistemas de trocas locais (SEL), de autogestão, e assembleias de bairro. (5). Desconfiança em relação a todas as instituições ( a que não foi estranho a espectacular falência que atingiu a Argentina), recusa da delegação de poderes e da recuperação: o questionamento da propriedade dos meios de produção que então se registou não poderia deixar de encantar os anarquistas. Até parecia que, conforme ironizou um dos intervenientes do seminário, Marie Trigona, ela «nos iria conduzir à utopia, como no filme de René Char de 1931, A nous la liberte, quando a fábrica começou a funcionar por si mesma, enquanto os operários divertiam-se, pescavam, dormiam a sesta ou faziam um pique-nique».


Poesia cinematográfica aparte, essas estruturas autogeridas já constituíram uma «rede internacional de solidariedade que reúne 300 empresas recuperadas da Argentina, Venzuela, Brasil e uruguai».Em Novembro de 2005 realizaou-se em Caracas uma conferência destas unidades de produção e de outras na Europa ( estiveram então representadas 135 dessas empresas). Exemplo de entre-ajuda entre elas é o facto de um jornal argentino autogerido publicar gratuitamente os anúncios das agências de viagens venezuelanas; em troca, os trabalhadores desse jornal passaram férias no mar das Caraíbas. Trocas deste género são tanto mais valiosas quanto, por falta de infra-estruturas e de tecnologias adaptadas, a maior parte das cooperativas operárias, de dimensão modesta ( a mais importante na Argentina é uma fábrica de cerâmica de 470 assalariados) não suportariam o impacto do mercado capitalista. De resto, alguns dos fornecedores ou clientes habituais hesitam em trabalhar com empresas com um estatuto legal incerto.

E este não é mais do que um dos muitos problemas. Os outros são a família,o Estado, a «visão prospectiva». Relativamente à família, segundo Marie Trigona, «desde que os trabalhadores tomaran o controle do hotel Bauen, a cooperativa recrutou 85 pessoas. Quase todos eram filhos, filhas, mães, pais, irmãos e irmãs dos trabalhadores». Ou seja, o perigo de uma forma de nepotismo pesa sobre a nova utopia.
Depois há o Estado. As autoridades políticas argentinas nunca encorajaram a recuperação das fábricas abandonadas, se bem que não tivessem lançado as forças de ordem contra a maior parte das cooperativas.No total, o movimento sobrevive num vazio jurídico – com a ajuda funanceira, por vezes, do Estado – e não se alastra.Michael Albert, que se deslocou à Argentina, confessou a sua decepção sobre este ponto: os assalariados das empresas recuperadas não se dedicavam a propagar as suas conquistas às outras empresas. Apesar de se mostrarem orgulhosos da sua nova organização de trabalho, eles não conseguiam «ver que o que faziam era muito mais importante daquilo que produziam».
Ausência de consciência revolucionária, de visão prospectiva? Susan George avançou uma outra interpretação. Algo cansada das batalhas de aparelho em que a sua associação Attac está envolvida, ela recordou a objecção que Oscar Wilde (1854-1900) tinha apresentado ao socialismo na sua época: « Isso exige muitas reuniões». E acrescenta num murmúrio: « as pessoas cansam-se rapidamente, e não têm desejos de consagrar todo o seu tempo livre a assembeis intermináveis e a um trabalho de evngelização». O reparo visava indirectamente o participalismo e os seus conselhos de bairro e de empresa, cada qual com 25 a 50 membros, que deliberam muito para que todos os perticipantes possam estar a par do que está em causa nas questões que lhes digam respeito. E delegam num dos seus, revocável a todo o momento, para estar presente numa assembleia mandatada para arbitrar qualquer questão que ulrapasse a competência do grupo de base ( num período de gripe aviaria, por exemplo, uma pequena comunidade não poderia decidir sozinha sobre o que fazer das suas aves doentes). E assim continuamente…até ao sexto nível: um Parlamento para o conjunto de população mundial. O projecto pode parecer complicado, a jurisdição dis diversos conselhos é bastante delimitada.Mas não passa de um esquema e a sua execução não é para amanhã…
No caso da Argentina a incapacidade aparente das cooperativas em irradiar a sua prática de autogestão ao conjunto da sociedade explica-se também pela consciência dos riscos de repressão que os operários passavam a estar sujeitos caso a sua experiência se alastrasse. Esticar a corda poderia significar perder tudo, inclusive o seu pequeno paraíso. Ou seja, mais valia ter a seu favor as autoridades nacionais, do que estarem estas contra, não obstante pouco ou nada fazerem para apoiarem as experiências. Quanto aos patrões o modelo argentino era um pouco sui generis: os trabalhadores não se tinham defrontado com os seus empregadores , uma vez que estes os abandonaram.É difícil imaginar que a Ford, Total, Mittal abandonassem o seu património.

Quando se começa e enumerar as vantagens das cooperativas nos Estados Unidos ou na Argentina a primeira coisa que se nota é o impacto reduzido que tais estruturas têm no modo de produção dominante. O qual sabe perfeitamente adaptar-se à situação, tal como prova o que aconteceu com os media alternativos, as transgressões culturais, a gestão feminina de um departamento de Estado ou a presença de locutores negros na televisão. «São interessantes, mas completamente anedóticas», ouviu-se dizer uma voz na sala, quando se estava a expor uma outra experiência anti-autoritária.

Um interveniente argentino, Ezequiel Adamovsky, tinha participado no levantamento populat de Buenos Aires em Dezembro de 2001. Tinha verificado que «os movimentos que rejeitam todo o contacto com a política nacional são incapazes de estabelecer laços com a maioria da população. Porque o que nós propomos não era percepcionado como preferível ou realizável.As regras e as instituições que organizam a opressão são também as que organizam a vida social.». Por conseguinte, se é importante, segundo ele, saber responder à questão «o que é que nós propomos?», de repetir que a pobreza e o racismo existem, e que é preciso lutar, de que é possível a vitória contra o sistema, não é menos importante deixar de imaginar de que uma ordem espontânea vai surgir do caos. E saber precisar como e por quem as propostas vão ser apresentadas. Certamente que os partidos políticos procurarão colonizar os movimentos sociais e impor-lhes as suas regras de funcionamento hierárquico e autoritário…Mas isso não nos deve fazer esquecer que também existe frequentemente «a tirania da ausência de estruturas».

A mensagem que poderia ter passado por iconoclasta numa tal assembleia não suscitou praticamente nenhuma reacção. Provavelmente, porque depois de uma dezena de anos de retórica das soluções parciais, de comunidades em rede, do «mudar o mundo sem tomar o poder», tais fórmulas comecem a cansar (6). Demasiadas palavras, de «narcissismo anti-autoritário» ( nas palavras de um interveniente anarquista), de mediatização sem fim: demasiados efeitos face a um capitalismo talentoso na arte de recuperar o que o ameaça. (7)

Apercebemo-nos já deste cansaço – ou desta lucidez – em certos ecologistas europeus. Um dos animadores do movimento francês para o decrescimento, Vincent Cheynet, interpela alguns dos seus amigos: «Ainda que perturbadora, a mensagem da simplicidade voluntária (…) pode rapidamente converter-se numa legitimação do ultra-liberalismo. Os seus apóstolos indicam que isso é a prova de como o sistema deixa a cada um a liberdade de viver como quiser. Notemos, por exemplo, a importância da comunidade amish nos Estados Unidos: cerca de 250.000 pessoas vivem sem carro, sem tv, sem telemóvel. Apesar da sua existência, esta comunidade parece não ter contrariado a expansão do modelo consumista no país (…) A máscara do espírito libertário é utilizado, em contradição com o seu conteúdo histórico, para defender um ultraliberalismo puro e duro, e uma incapacidade profunda em pensar o colectivo. O ultraliberalismo gerou verdadeiras crianças soldados, não somente dentro das multinacionais, como no seio da sua própria contestção»(8)

Autores que giram em torno do movimento libertário formulam o mesmo tipo de impaciências.Ainda que dirigidas aos altermundialistas e aos seus Fóruns Sociais, a admoestações de Jean-Pierre Garnier poderiam também ser aplicadas a alguns anarquistas: «Não mais organizações hierárquicas e centralizadas, mas sim um “movimento de movimentos” estruturado em rede; não mais um quadro nacional previamente fixado para se constituir em força política, mas sim um activismo transnacional; não mais uma classe operária compacta e disciplinada, mas sim “cidadãos” com forte capital cultural, zelosos em preservar a sua autonomia e individualidade; não mais “uma grande noite”, “amanhãs que cantam”, mas sim “alternativas concretas” e “utopias realistas” (…) Esta “figura moderna” não é outra coisa que um neoreformismo que abre caminho à promoção de uma globalização que seja “democrática”, “justa”, “solidária” e “ecológica” (9)

A maior parte dos conferencistas de Woods Hole não eram reformistas nem – muito menos – adeptos do oximoro de uma globalização «democrática». Não obstante, certas consideraçõesde Jean-Pierre Garnier não deixavam de os interpelar, pelo menos em certos aspectos. Na verdade, colocavam-se problemas como se já estivessem resolvidos, ou como se a prefiguração de uma utopia «libertária» ( a cooperativa em Boston, o movimento indígena em Chiapas, um squat em Amsterdam) e o estabelecimento de «laços» (links) diversos ( Internet, Fóruns mundiais) entres estas ilhotas participativas pudessem dar lugar a alguma estratégia política. Como se as experiências locais que são enaltecidas não fossem tributárias de decisões nacionais e internacionais ( nível de vida, fiscalidade, acordos de livre-troca, moeda, guerras,..) que proíbem a construção das pequenas utopias «sem tomar o poder». Como se um internacionalismo legítimo pudesse esquecer que certos Estados-nações constituíram campos de luta, de solidariedade, e permitiram garantir conquistas operárias que a «globalização» se tem empenhado em quebrar em eliminar.Como se, na coligação imaginada dos explorados, das vítimas, a subtracção não levasse a melhor à adição, em especial, à medida que as regressões religiosas e os fechamentos identitários ganhassem um ascendente sobre as solidariedades económicas.

Implicados numa infinidade de combates muito actuais e muito concretos – sindicalismo britânico, pacifismo americanos, altermundialismo europeu, software livre, solidariedades com a Venezuela, direito das mulhees no Afeganistão, etc – os presentes no Seminário, organizado põr Michael Albert avalaliaram as dificuldade concretas. Naõ eram ingénuos nem fechados sobre si mesmos. Não ignoraram que mesmo depois do capitalismo, numa hipotética sociedade sem classes, numerosas questões ficarão sem resposta: o direito das crianças, a legalização da droga, a pornografia, a prostituição, a liberdade religiosa quando contrária à igualdade de género, a alocação de recursos médicos dispendiosos, o tratamento dos animais, a clonagem, a eutanásia (10)…

Como explicou o escritor do Quebéc, Normand Baillargeon, «a anarquia é a possibilidade de organizar uma sociedade muito complexa com um mínimo de autoridade». E o seu camarada sérvio Andrej Grubacic acrescentava: «A era das revoluções não terminou. O movimento revolucionário do século XXI não será socialista, mas anarquista». Grubacic declara-se inspirado pela economia participativa, «uma visão económica anarquista, por excelência», mas também pelas «municipalidades autónomas de Chiapas», e pela «procura de consensos característica dos quakers norte-americanos». Contudo, para ele, «os grandes recrutadores anarquistas em países como os Estados Unidos foram escritoras feministas como Starhawk e Ursula K.. LeGuin».

Há, no fundo, tantas anarquias quantos anarquistas.Alguns reclamam-se de socialistas pré-marxistas como Charles Fourier ou Robert Owen, que não es esqueceem que as marmitas do futuro aquecem-se sempre no fogo dos sonhos. Em 1949, um pensador de direita incitava os seus adeptos, evangelistas do mercado, a terem «coragem de serem utópicos», tal como os socialistas: « O que nos falta – escrevia von Hayek (1899-1992), teórico do liberalismo – é que uma utopia liberal não se limite àquilo que é politicamente possível hoje». Mudem o adjectivo e a frase continuará a apontar para a mesma direcção.

Texto de autoria de Serge Halimi, publicado na edição de Agosto de 2006 do Le Monde Diplomatique.

Notas:
(1)
www.zmag.org/ Trata-se de uma publicação, Z Magazine ( com 10.000 exemplares), um centro de formação audiovisual, Zmedia Institue, e um boletim quotidiano electrónico, em que um especialista analisa uma tema ligado à actualidade ( 150.000 subscritores recebem Zet por 30 a 120 dólares por ano, conforme os rendimentos)
(2) Um dos participantes, o ´servio Andrej Grubacic, resumia assim os «princípios de base» do anarquismo: «Descentralização, associações voluntárias, apoio mútuo, modelo em rede, e, acima de tudo, recusa da ideia de que os fins justificam os meios, e que um objectivo revolucionário pode apoiar-se do poder do Estado para em seguida impôr a sua visão com uma arma na mão»
(3) O livro mais conhecido e traduzido em várias línguas de Michael Albert é Parecon, Elementos de economia participalista. O seu último livro é «Realizing Hope: Life beyond capitalism», Z Books, Londres, 2006, de onde foram retiradas a maior parte da citações do presente artigo. Para uma exposição detalhada da teoria, consultar Michael Albert e Robin Hahnel, The Political Economy of Participatory, Princeton Press, Princeton (New Jersey), 1991
(4) Um debate muito vivo e completo opôs David Scweickart e Michael Albert, consultável em
www.zmag.org.org/debateschw.html
(5) Ler Cécile Raimbeau, «En Argentine, occuper, résister, produire», Le Monde Diplomatique, Septembre 2005
(6) Um dos intervenientes, Greg Wilpert sugeriu o sentimento que lhe inspira as teorias de John Holloway, autor do livro com data de 2002, «Change the world without taking power: the meaning of revolution today» (Pluto press), ao titular o seu livro, recentemente editado pela Verso (Londres), «ChangingVenezuela by taking power: the history and policies of the Chavez government»
(7) Ler «Eternelle récupération de la contestation», Le Monde Diplomatique, Avril 2001
(8) Vincent Cheynet, «our en finir avec l’altermonde»,La Décroissance nº 32,Lyon, Juin 2006
(9) Jean-Pierre Garnier, «L’altermondialisme: un internationalisme d’emprunt», Utopie critique nº37, Paris, 2º trimestre de 2006
(10) Esta lista retoma no essencial a de Stephen Shalom que está resumida em «Realizing Hope», p. 23-24

A actual vaga massificadora do turismo sexual

A miséria económica dos países do Sul
e a miséria afectiva dos países do Norte





Face ao mal-estar das sociedades de consumo das economias industrializadas ( como é o caso de Portugal), que pouca importância conferem à vida intelectual, ética e espiritual, e que condena o quotidiano dos «cidadãos» a un estilo de vida gelatinoso e a uma frugal vida de aparências, quantas vezes ocupada em hipermercados, centros comerciais e cabeleireiras, oferecendo subprodutos de escaparate, transformando as pessoas vulgares em «clientes» passivos, anulando a sua capacidade activista de, como sujeitos, traçarem o seu próprio destino, já para não falar dos efeitos induzidos do assalariamento desresponzabilizante do trabalho por conta e sob a direcção de outrem, assim como da alienação televisiva ( com telenovelas, concursos, espectáculo,…) que empurra e promove a passividade amorfa do telespectador de sofá – face a esta triste realidade do seu quotidiano, os cidadãos dos países industrializados do Norte sentem cada vez mais a necessidade de preencherem o seu vazio existencial e «fugirem» para o ambiente «quente» e muito mais «humano» e afectivo das sociedades do Sul, nem que para isso tenham de recorrer ao seu enorme poder de compra de consumidores, comprando os mais variados serviços, sejam eles de carácter turístico ( viagens de avião, por exemplo), de carácter afectivo ou até mesmo sexual.

Trata-se, no fundo, de estratégias comportamentais para satisfazar necessidades existenciais que não encontram satisfação nas nossas sociedades desenvolvidas em que predomina os feitiches e os gadgets do consumismo paralisante e amorfo, o frio formalismo burocrático da modernidade, e a espectacularidade dos media ( com a TV à frente) que tudo converte em realidade catódica pronto a ser servida à hora do jantar…

É neste contexto societário que se insere, e que se pode explicar, a actual e crescente vaga de turismo sexual realizado por indivíduos dos países industrializados do hemisfério Norte em direcção aos países pobres do hemisfério Sul.

Um turismo sexual que não é exclusivo dos homens mas que também envolve cada vez mais mulheres que se dirigem para estas últimas sociedades em busca de satisfações afectivas e sexuais que não encontram nas suas terras de origem e que, habitualmente, passa pelo pagamento monetário destes serviços, mas que pode em alguns casos não ser assim, uma vez que nessas sociedades a monetarização das relações sociais ainda não é completa e as relaçõe afectivas e sexuais naquelas culturas indígenas poderem ser regidas por outros padrões que não decorram do uso de moeda, ao contrário do que acontece nas nossas sociedades de consumo onde as relações sociais estão completamente mercantilizadas e que são intermediadas pelo omnipotente ( e existencialmente absorvente) dinheiro.

Desgraçadamente já se tornou um hábito assistirmos( sobretudo nos períodos de férias), a uma sucessiva hemorragia de turistas europeus em direcção a países como Marrocos, Brasil, Tailândia, Filipinas,etc. Uma vez chegados ao destino, num qualquer balcão de ocasião, não escondem o que realmente procuram e querem obter:

- «Um postal e uma puta, se faz o favor!» (para os homens)
ou
- «Uma bebida e um macho amável, por favor!» (para as mulheres)


Reproduz-se a seguir o texto publicado no Le Monde Diplomatique de Agosto de 2006, com o título «Para uma massificação do turismo sexual? » ( Vers un tourisme sexuel de masse?) e de autoria de Franck Michel


As indústrias de viagem e do sexo partilham entre si interesses comuns ao converterem o mundo num gigantesco parque de atracções. Assente no tradicional universo da prostituição, o turismo sexual estende-se ao ritmo da crescente mobilidade e globalização turística. Nos países onde a constante é a pobreza, ele afecta centenas de milhares de seres humanos, em que as crianças são uma parte não negligenciável.

No seguimento do turismo clássico chegou agora o turismo sexual a conhecer actualmente a «democratização». Cada vez mais se assiste à emergência de uma prostituição «à la carte», uma tendência que segue, aliás, de perto o que se passa com as viagens à medida…Não é raro encontrar em Phuket ou em Ko Samui, só para evocar o caso da Tailândia, um motoqueiro ocidental a transportar, atrás de si, na sua moto uma «namorada», designação oficial e mais aceitável que prostituta, e que ele alugou para uma semana ou um mês.

O turismo sexual conhece hoje uma autêntica «bola de neve» e que se está a tornar numa verdadeira massificaçã. Ainda na Tailândia, os novos clientes são cada vez mais jovens ocidentais em busca de aventuras e de sensações fortes. Tais jovens estão a substituir os velhos turistas alemães, japoneses ou norte-americanos, os quais já tinham substituído os militares que estavam colocados naquela região, aquando da guerra do Vietname. Por outro lado, uma nova clientela faz a sua aparição nas praias e nos bares: os malaios, chineses, sul-coreanos…

A prostituição «turística» afecta muito os países do hemisfério Sul: aí as raparigas ( e os rapazes) são jovens, ppbres,pouco instruídos e facilmente exploráveis. Entram de uma forma mais ou menos forçada na prostituição, «ofício» este que não têm vontade de exercer. À busca de sexo fácil e barato os turistas sexuais estrangeiros afluem à procura de carne fresca, disponível e submissa. Numerosos deles, para a sua boa-consciência, apontam mil e umas razões para se auto-convencer que não abusam da miséria dos jovens. Segundo eles,mais não fazem que ajudar, apoiar e contribuir para o desenvolvimento do país….

Nesses países , após a vaga do turismo de massas, o desenvolvimento do sector informal da prostituição verificou-se com a chegada dos turistas individuais. Pode-se estabelecer uma cartografia do turismo sexual: as mulheres vão a Goa ( na Índia), à Jamaica, à Gambia; enquanto os homens preferem os países do Sudeste asiático, Marrocos, a Tunísia, o Senegal, a República Dominacana, Cuba, Panamá, Suriname, México, sem esquecer, é claro, o Brasil, onde se estima que haja 500 mil crianças a prostituírem-se (1)

O turismo sexual de massas desenvolve-se assim no cruzamento de diversos mobilidades turísticas. Para muitos ocidentais, ele representa uma nova forma de colonizaçãoadaptada à nossa época. Há quem queira estabelecer uma distinção entre prostituição forçada e a prostituição voluntária ou «livre». Sob o pretexto de que em certas cidades dos países do Norte – ou nos enclaves abastados dos países deserdados – a prostituição de luxo, dita «livre», poderá permitir a certas raparigas ( que tenham escapado ao controle dos proxenetas) de «dispôs livremente do seu corpo». Esses mesmo admitem, no entanto, que na maior parte dos países do Sul – tal como nos enclaves miseráveis das cidades dos países do Norte ou do Leste – a prostituição é uma actividade exercida sob um apertado controle ( com proxenitismo, violências, violações) (2). Mas como combater a prostituição nos países pobres do Sul, se se pretende que ela é, nos países do Norte, o resultado de opções individuais.

Industrialização dos corpos

Outros insistem para que não se confunda a prostituição infantil e a prostituição dos adultos. A insistência nesta diferença acaba por ser algo suspeita. Tanto mais que o consenso estabelecido para condenar o abuso sexual de crianças já não é fácil para a condenação do abuso dos adultos ( mulheres e homens), que é visto e admitido como uma deriva, presumida como inevitável, no mundo em que vivemos. Como consequência, a prostituição infantil incómoda todos, mas cada qual vai acomodando-se à prostituição «clássica».

Numa tal atmosfera o turismo sexual é objecto, de alguma forma, de uma desresponsabilização e desculpabilização. Tanto mais que a prática se inspira nas indústrias clássicas do sexo: pornografia e prostituição. Uma prostituição que não seria mais do que aquilo que é proposto pela pornografia (3). Estes dois universos convergem para instrumentalizarem os seres humanos e industrializarem os corpos. O aparelho mediático e publicitário aparecem a preparar o terreno visando reforçar o reconhecimento oficial da indústria do sexo. A violência sexual é assim celebrada, ao mesmo tempo que ele surge em tudo o que é media, mesmo quando é para ser alvo de denúncia. Um paradoxo e uma confusão que é bem a imagem da nossa cultura porno chic e soft que consagra a dominação do macho, numa época em que a sua virilidade parece estar em declínio.

A procura sexual é encorajada e estimulada por uma oferta em alta. O mercado estende-se e diversifica-se: uma internacionalização da oferta, com raparigas cada vez mais jovens, provenientes dos quatro cantos do mundo, atrai novos clientes (4). Com este afluxo de emigrantes do sexo, alimentado pela sede de consumo, a rotação das raparigas está garantida. Objecto de todas as espécies de tráficos, os corpos ficam disponíveis. A tarifas que não param de deixar por causa da dura concorrência.

O sucesso crecente do turismo sexual feminino mostra que a mulher vai a par com o homem, reiterando e reproduzindo as representações do poder, da dominação e da exploração. A esse respeito, não é inútil a aproximação – no plano essencialmente simbólico – entre, por uma lado, o «turismo organizado», confiado a uma agência ou a um operador, e, do outro, o «turista sexual».

O turista organizado afasta, frequentemente, toda a responsabilidade desde o momento em que ele desembarca no destino da sua viagem de férias. Expressão disso são as palavras do viajante, acabado de desembarcar no aeroporto de Hanói: « Eis que acabei de chegar de avião, a partir de agora confio a minha sorte nas próximas semanas ao meu guia, pois estou fatigado de mais do meu emprego e agora não quero mais pensar,mas apenas deixar-me levar». Não há aqui, certamente, qualquer referência sexual explícita, mas outros farão a devida associação de ideias, e não deixarão de dar o passo que falta…

Com efeito, no fim do mundo, tudo se torna possível, nomeadamente quebrar certos interditos. Outro exemplo: um turista perdido no meio do seu grupo confiará talvez o seu destino ao guia ou à agência de viagens, permitindo práticas que seriam objecto de reprovação ou de proibição ao pé da sua porta. Como banhar-se nu numa praia da Malásia, rodeado de pescadores muçulmanos, ou namorar uma miúda que se aproxima para vender cigarros ou bugigangas num restaurante do Vietname.

É quase sempre desta forma que o turista ordinário, longe da sua casa, começa a praticar actos que seriam totalmente impensáveis na sua própria região habitual de residência. Esta aspiração à transformação de si é tanto mais fácil para os turistas – organizados ou não – quanto mais tiver se instalado na sua mente a perda de responsabilidade que ocorre durante a viagem… Para o turista organizado, o Outro – o “indígena”, dizia-se no tempo das colónias – é o servidor turístico, cujo papel consiste em ser explorado.
O turista sexual livra-se com frequência de toda a responsabilidade humana, uma vez que, por meio de uma transacção financeira, sente-se liberto da necessidade de se preocupar com o Outro. Ele não se sente mais nem na obrigação de respeitar a sua (ou o seu) parceiro efémero, nem de lhe proporcionar prazer. Ao pagar por um serviço – no caso, sexual – ele está comprando a liberdade de uma pessoa sobre a qual, por um tempo determinado, tem todos os direitos. Inclusive o de reduzir esta pessoa ao estado de “produto mercantil”, de mercadoria.
Ele não precisa de poupar sua presa, forçada à submissão, da qual pode dispor como bem entende, sem ter medo de ser expulso ou castigado por uma autoridade. O cliente é rei. Em férias, muito particularmente. O cliente-turista é o único a mandar a bordo, uma vez que o Outro foi relegado à condição de escravo sexual, pouco importando, aliás, que ela (ele) seja bem ou mal tratada pelo seu mestre do momento.
É visível as grandes diferenças entre o turista organizado e o turista sexual, mas a passagem de um para o outro por vezes vem a ser surpreendentemente fácil. “Em geral”, explica Paola Monzini, “o sexo pago tornou-se uma componente mais ou menos visível do turismo de massa (5)”. Contudo, a maioria dos turistas sexuais opera de modo solitário. Essencialmente por duas razões: o medo de chamar a atenção e ser denunciado, e o egocentrismo evidente do abusador.
Pode um turista organizado transformar-se num turista sexual? Sim, caso ele se acomode com muito facilidade à tendência actual de ficar ligado na moda do momento – que celebra o culto do corpo e o do rejuvenescimento, tendo como pano de fundo a apetência sexual e o mal-estar da civilização (6). Encontramos, por exemplo, o arquétipo desse veraneante no personagem central do romance “Plataforma”, de Michel Houellebecq, no qual o mergulho no sexo e na viagem permite ao turista vulgar ter a impressão de ser alguém diferente daquele que está empregado e é submisso, enfim, no homem sem qualidades que ele é na sua morna vida quotidiana. No Ocidente, o turismo sexual continua sendo representado de duas maneiras muito simplistas e incompletas demais: de um lado a miserabilidade, e do outro o angelismo.
Cinco causas principais estão na origem da expansão sem precedente do turismo sexual de massa: a pauperização crescente; a liberalização dos mercados sexuais, que incentiva mais ou menos directamente o tráfico de mulheres para fins de prostituição; a persistência de sociedades patriarcais e sexistas; a deterioração da imagem da mulher, tendo como pano de fundo a violência sexual generalizada e banalizada; e a explosão do turismo internacional e dos fluxos de migrantes de todo tipo.
Esta expansão foi estimulada por duas características das nossas sociedades: em primeiro lugar, a ‘democratização’ dos fluxos de viajantes (massas de turistas que circulam por todo lado); em segundo lugar, a hiper-sexualidade dos jovens, cultivada por meios de comunicação obcecados pela violência sexual. Ela alimenta-se também da convergência entre a miséria e a beleza do mundo. Miséria e beleza atestam o corte que rege a ordem desigual do planeta. Uma miséria afectiva nos países do Norte, e uma miséria económica nos países do Sul e no Leste; “beleza” dos bens materiais de consumo no Norte, beleza das paisagens e das pessoas, assim como da espiritualidade, do modo de vida e das “tradições” no Sul e no Leste.
Na sequência da publicação da Declaração da Organização Mundial do Turismo (OMT) sobre a prevenção do turismo sexual organizado (9), adoptada no Cairo em Outubro de 1995, que sensibilizou os agentes do turismo e o conjunto dos clientes-viajantes para este flagelo global (que não diz respeito apenas às crianças), a luta contra “o turismo sexual de massa” começou a organizar-se melhor..

Blair e Bush foram para férias, depois de anunciarem ao mundo a iminência dos maiores ataques terroristas desde a II Guerra Mundial…!!!





A propósito dos perigosos atentados terroristas que, segundo o governo inglês de Blair, se preparavam para serem cometidos contra vários aviões, e que obrigou ao desencadeamento do estado de alerta mais elevado, o que significa a iminência de um ataque, e à adopção de medidas drásticas não só nos aeroportos britânicos como em todos os aeroportos mundiais, na passada semana, com os consequentes atrasos e os enormes transtornos já conhecidos, provocando um verdadeiro caos nos aeroportos britânicos, e de muitos outros países, ameaças de atentados esses que levaram mesmo Bush a lembrar, numa alocução televisionada, que os Estados Unidos estavam em guerra contra fascistas islâmicos, a imprensa mundial mas especialmente a imprensa inglesa começam agora a interrogar-se sobre a verosimilhança dessa propalada ameaça terrorista…

Com efeito, o jornal inglês Daily Mirror informa ontem que o primeiro-ministro Tony Blair não demorou uma hora para partir de férias, depois de ter discursado ao país para alertar do perigo e da iminência dos atentados terroristas, e cuja ameaça, nas suas palavras, seria a maior desde a II Guerra Mundial…

O mesmo se terá passado com Bush que não interrompeu as férias, continuando a trabalhar para o bronze…

!!!

Patti Smith contra os massacres provocados pelos bombardeamentos de Israel




A conhecida cantora e compositora nova-iorquina Patti Smith acabou de compor uma canção sobre o massacre de Qana e os bombardeamentos israelitas sobre os bairros civis e a população libanesa e que se pode encontrar no seu website:
http://www.pattismith.net/news.html



Qana


There’s no one
in the village
not a human
nor a stone
there’s no one
in the village
children are gone
and a mother rocks
herself to sleep
let it come down
let her weep

the dead lay in strange shapes

Some stay buried
others crawl free
baby didn’t make it
screaming debris
and a mother rocks
herself to sleep
let it come down
let her weep

the dead lay in strange shapes

Limp little dolls
caked in mud
small, small hands
found in the road
their talking about
war aims
what a phrase
bombs that fall
American made
the new Middle East
the Rice woman squeaks

the dead lay in strange shapes

little bodies
little bodies
tied head and feet
wrapped in plastic
laid out in the street
the new Middle East
the Rice woman squeaks

the dead lay in strange shapes

Water to wine
wine to blood
ahh Qana
the miracle
is love


A cantora faz a seguir algumas observações:


The Israeli practice of collective punishment is a war crime under the Geneva Convention. Why are they allowed to do this? Because they have our permission?

We send over four billion dollars in aid and weapons to Israel every year. We are paying for this devastation. The slaughter of children. The country in ruins.We are paying for this. George Bush willfully rejected a truce and now we have the Qana massacre on our head. Thirty seven of the dead were children.Qana is considered by some as the location of the first miracle of Christ. Turning water into wine. There is no wine flowing in Qana today. Only blood. Only blood.




Dá-me Cá os Braços Teus

(letra e música de Vitorino)


Se tu és o meu amor
Dá-me cá os teus braços teus
Se não és o meu amor
Vai-te embora adeus, adeus

Diz oh sol que alumia a gente
Por onde andará o meu bem
Terra estranha nunca foi quente
Quem me dera estar mais além

Mais além mais ao pé do monte
Onde nasce o rosmaninho
Muito padece quem está longe
Já me cansa de estar sozinho

Vendo a força do meu trabalho
Ruim paga me dão aqui
Vou-me embora sempre mais valho
Lá na terra onde nasci

Lá na terra onde nasci
Os campos são de toda a gente
Não há donos nem capatazes
Vou-me embora e vou contente

13.8.06

Guy Debord, o irrecuperável




A recente publicação das Obras Completas, com cerca de 2.000 páginas, de Guy Debord (1931-1994) fornece-nos uma excelente ocasião para uma viagem para além da sua legenda situacionista e que permita observar a prodigiosa coerência de um pensamento que, por nunca ter renegado a sua dimensão revolucionária, oferece-nos as melhores chaves para compreender o nosso tempo


Situação paradoxal é a de Guy Debord no panorama intelectual francês: por um lado, toda a gente o cita, lhe faz referência, inclusivé os próprios agentes do espectáculo, de que ele foi adversário durante toda a sua vida; por outro, fica-se chocado com a estranha discreção da imprensa face à edição do conjunto das suas obras. Um livro que reúne todas as suas obras publicadas, e que inclui ainda toda uma recolha de cartas, directivas, intervenções, artigos de revista, notas inéditas, é, sem dúvida, um acontecimento: permite simultaneamente esclarecer o trajecto deste pensamento, ano após ano, e observar a sua impressionante coerência. Mas na realidade tudo se passa como se o pensamento de Debord ficasse reduzido a clichés, a fórmulas estereotipadas, e mais que estafadas, sobre a «sociedade do espectáculo»; e isso em detrimento do posicionamento indefectivelmente revolucionário daquele que não teve outro objectivo, tanto nos seus textos como na sua vida, senão de perturbar a rdem estabelecida – ou, pelo menos, de não lhe fazer concessões.

No início dos anos 1950, Debord está no centro de um pequeno grupo de jovens que se empenham, na linha de certas vanguardas do início do século, a defender que a arte morreu enquanto entidade «separada», que a poesia deve Dora em diante passar a ser vida. Dada, pensam eles, quis suprimir a arte sem a realizar; o surrealismo quis realizar a arte sema suprimir; ora é este antagonismo que é preciso superar. Cada vida deve ser inventada e não sofrida; a cidade ( neste caso, Paris) é o território das «derivas», das aventuras ( daí o escândalo fomentado, por exemplo, contra Le Corbusier, responsável, segundo eles, de apoiar uma concepção de urbanismo visando a «destruir a rua»). O objectivoé criar situações – o que implica um desprezo para com a arte existente, e mais grealmente contra toda a cultura «alienada», separada da experiência directa. Quando muito pode-se agir na «decomposição» desta cultura, e imaginar ( com Lautréamont) nas técnicas que permitam subvertê-la….

Num segundo perído (correspondendo, de grosso modo, à passagem da Internacional letrista para a Internacional Situacionista), Debord vai muito claramente alargar o campo de acção – isto é, politizá-lo. A contestação à cultura desemboca logicamente na contestação à sociedade. O encontro com Marx era inevitável – ainda que se tratasse, no caso pendente, de um marxismo heterdoxo, nos antípodas do comunismo oficial ( para Debord e os seus amigos, foi a «contra-revolução» que triunfou no século XX, quando o Estado totalitário substituiu na Rússia o poder dos sovietes, ou quando os levantamento libertários da guerra civil espanhola foram esmagados pela burocracia estalinista).

No essencial, Debord apercebeu-se do segunte: a lógica da «mercadoria», que Marx tinha analisado, ligada ao sistema de produção, estendeu-se entretanto a todos os aspectos da vida quotidiana; o lado do «lazer», produzido pela evolução técnica, longe de suscitar liberdades acrescidas, redunda na expansão do espectáculo, propulsionando necessidades fictícias, renovadas sem cessar, e que submetem as nossas vidas a representações manipuladas e falsificadas, e que vão-se tornar na nossa relação com o mundo. É a época, para Debord, de novas cumplicidades internacionais, de alianças tácticas, traduzidas em «manifestos» ( o grupo não pára de se recompor) e também de uma intensa elaboração teórica – o levará tudo isto à edição em 1967 do livro decisivo que é A Sociedade do Espectáculo, implacável conjunto de textos impecavelmente escritos.

«O espectáculo – escreve Debord – não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada pelas imagens»; «a sociedade do espectáculo» não é somente a hegemonia do modelo mediático ou publicitário, mas, para além disso, o «reinado autocrático da autonomia mercantil que acedeu a um estatuto de soberania irresponsável, e o conjunto de novas técnicas de governo que acompanham esse reinado». A sequência é conhecida: propagação subterrânea destas teses, a sua ramificação no meio estudantil de Strasbourg a Nanterre, para acabar com a explosão de Maio de 68, cujo espírito situacionista surge como o segredo vivo, irradiante, talvez menos por influência directa ( nomeadamente, na Sorbonne, sobre o Comité para a manutenção e defesa das ocupações), do que por inspiração difusa. É ele que vibra e que se ouve nos slogans, nos cartazes, nas inscrições murais que invadem as ruas.

A continuação é mais sombria. Debord, depressa, dá-se conta de que aquilo que inspirou arrisca-se, por extensão, a converter-se em lugar comum, ou seja, a ficar diluído numa contestação banalizada, conformista. Donde a dissolução da sua «Internacional» ( que nunca teve mais do que quinze elementos), o seu auto-encolhimento, os exílios voluntários ( nomeadamente em Itália, ocasião que lhe serviu para demonstrar a verdadeira natureza do «compromisso histórico» proposto pelos comunistas, e apontar, com um enorme lucidez, a manipulação e a infiltração das Brigadas Vermelhas pelo poder do Estado).

Dá-se então o encontro com um mecenas, Gérard Lebovici, cuja editora publicará os autores predilectos de Debord ( de Gracián a Orwell), e que consagrará um sala à difusão exclusiva dos seus filmes ( pois que toda a sua aventura será pontuada por uma singular actividade cinematigráfica, visando a destruir o espectáculo desde o seu interior, com as suas próprias armas subvertidas). Lebovici aparecerá assassinada certo dia em circunstância mal elucidadas. Debord, que se torna cada vez mais irredutível, cada vez mais isolado na sua radicalidade, no momento em que a maior parte dos jovens dos anos 60 aderem à ordem liberal estabelecida, consagrará os seus últimos esforços a ripostar às imagens ( caluniosas, muitas vezes) que são postas a circular da sua pessoa e das suas obras.

Empenhado numa escrita, simultaneamente clássica e subversiva, soberana, condensada, depurada, não hesitando ( recorde-se o prodigioso Panegírico) a evocar a sua própria experiência na primeira pessoa – não por narcissismo ( até porque o narcissismo +e também um dos ingredientes do espectacular ), mas antes para sugerir que a resistência ao mundo completamente mercantilizado obriga a afirmar, apesar dele e contra tudo, que uma outra forma de vida é possível para além da que nos é imposta.

O livro maior deste último período é, sem dúvida,os Comentários sobre a sociedade do espectáculo, com data de 1988, em que Debord alarga e aprofunda as suas análises de 1967, fazendo-nos um agudo diagnóstico quer sobre o mundo contenporâneo quer sobre os meios que permitam compreênde-lo. Um ano antes da queda do muro de Berlim, ele pressente que a oposição entre a forma «concentrada» do espectáculo (os regimes comunistas) e a sua forma «difusa» ( o capitalismo ocidental) está prestes a ser ultrapassada na forma de uma « espectacularidade integrada» que reinará sem rival em todo o planeta. Quais são os seus traços carecterísticos? A «renovação tecnológica incencessante» ( por exemplo, a imposição da mercadoria informática, convertendo todo o utilizaodr em cliente submisso); a «fusão económico-estatal» ( a absorção do Estado no mercado); o «segredo generalizado» ) as verdadeiras decisões são inacessíveis, o modelo mafioso triunfa na instância política); o «falso sem réplica» ( pela primeira vez, os mestres do mundo são também os das suas representações); o «presente perpétuo» ( abolição de toda a consciência histórica).

Tudo isso cria um universo de servidão voluntária sem rpecedentes ( a verdadeira novidade do espectáculo, segundo Debord, é «de ter podido levar uma geração a vergar-se às suas leis»): «Quem olhar sempre, para saber a continuação, nunca agirá, e esse será o espectador». O momento, como é evidente, não é para grandes utopias colectivas, pois o espectáculo tudo invadiu, absorveu tudo, incluindo as crítcas parcelares, localizadas do sistema, e que não produzem senão efeitos periféricos –não é mais possível recusar radicalmente este sistema: O que em Debord não exclui uma certa tonalidade de nostalgia: a regressão é tal, de ora avante, que pode ser revolucionário retomar certos aspectos do passado – aqueles justamente que o espectáculo neutralizou…

Em suma, um livro apaixonante, no qual se pode seguir o percurso de debord ao longo de todas as suas etapas – em que nenhuma renega as precedentes. Saliente-se a fulgurância de certos textos publiados, até agora inéditos, ou desaparecidos. Por exemplo: «Adresse aux révolutionnaires d’Álgerie», de 1965, na época do golpe de Houari Boummedienne que derrubou Bem Bella; ou aquele espantoso artigo de 1967 sobre a revolução cultural chinesa, analisada em todas as suas contradições; ou ainda, mais perto de nós, as «Notas inéditas sobre a questão dos imigrados» ( Dezembro de 1985) – em que Debord coloca a questão desarmante que é a de saber qual a integração que esperam os imigrantes no momento em que o espectáculo está em vias de americanizar o que resta da França…

Tantas análises precisas, clarividentes, antecipadoras, que não cedem ao lugar comum, em especial, ao estereótipo e à cegueira da esquerda conformista. Não se trata aqui de salientar o facto de Debord nunca ter manifestado a mínima condescendência para com o «campo socialista» ou as ditaduras do terceiro mundo; ou de interrogramo-mos porque é que nele a procura do ponto de vista mais revolucinário gera, em todos os assuntos, o máximo de inteligência e de lucidez.

A notar também o extraordinário interesse dos seus textos cinematográficos. Pois que se tratava, para ele, de destruir esse código a partir do seu interior ( rompendo com toda a fascinação espectacular, e sistematicamente dissocia a imagem e o som, afirmando o primado do pensamento sobre o «visual», frequentemente graças a imagens documentários ou a planos subvertidos), paraalém de que não é menos certo que os filmes de Debord ( principalmente a sua obra-prima que é «In girum imus nocte et consumimur igni) representam uma tentativa inaudita de projectar do lado da consciência ( histórica e subjectiva) uma arte votada em princípio ao seu esvaziamento. Daí que os seus filmes sejam simultaneamente ensaio, confissão, mediação e compreensão do mundo através das suas imagens e que não se comparam a quaisquer outros– a não ser, talvez, às últimas realizações de Jean-Luc Godard ( e não deixa de ser lamentável que qualquer diálogo não tenha havido entre ambos, que se detestavam cordialmente entre si). (2)

Certamente que é legítimo não aderir cegamente a tudo o Debord escreveu. Considerar excessiva e injusta, por exemplo, o seu repúdio a toda a arte e literatura do seu tempo – quando é nítido que é justamente toda a efevercênscia criativa do século XX que o espectáculo tende destruir, ou a tornar «ilegível». Ou ainda que não deixa de ser algo suspeito a tendência de Debord a desecadear, nos grupos em que esteve, rupturas, exclusões, epurações, visando até os que lhe eram mais próximos, apoucando a dimensão colectiva ( logo, política) das suas posições. Mas talvez isso não seja mais do que a consequência forçada da sua intransigência, da sua exigência quase absoluta de radicalidade – ele que sabia que todo o grupo subversivo deve prever que seja sucessivamente «enganado, provocado, infiltrado, manipulado, usurpado, revolvido».

É esta radicalidade, em suma, que permite que o pensamento de Debord hoje em dia seja o único a dar conta de forma crítica de todos os aspectos da mercantilização do mundo, e da «falsa consciência» que daí se alastrou. Por isso mesmo é que Debord permanece, não obstante todos os efeitos efémeros das modas que convertem o seu pensamento inofensivo, profundamente irrecuperável. «É notório – escreve ele – que em nenhuma parte fiz concessões às ideias dominantes da minha época». Essa é, na verdade, a grande lição que ele nos legou – e que é preciso saber, como ele fez, passar para as nossas vidas.



Autor do texto: Guy Scarpetta
Texto publicado no Le Monde Diplomatique de Agosto de 2006


(1) Guy Debord, Oeuvres, Gallimard,Paris, 2006: edição estabelecida e anotada por Jean-louis Rançon, com a colaboração de Alice Debord.
(2) A proximidade contraditória entre Debord e godar foi muito bem apontada por Cécile Guilbert ( «Pour Débord», Gallimard, Paris, 1996) num dos melhores ensaios jamais escritos a seu respeito.