23.1.07

Reedição do livro Socialismo Libertário ou Anarquismo, de Silva Mendes

A Livraria Letra Livre acaba de reeditar, numa tiragem limitada, o livro de Silva Mendes «Socialismo Libertário ou Anarchismo» a mais importante obra escrita sobre anarquismo em língua portuguesa.
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Esse livro de 1896, hoje raro, escrita por um jovem licenciado em Direito, teve um importante papel na divulgação das teorias libertárias na Universidade de Coimbra, contribuindo para formar a geração da Greve Académica de 1907, mas também os militantes socialistas e sindicalistas do final do século XIX e começos do século XX.
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A apresentação será feita na Livraria Letra Livre sábado, dia 27 de Janeiro, pelas 18.30h.
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Livraria Letra Livre
Calçada do Combro, 139 (Bairro Alto)
1200-113 Lisboa
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Morreu Abbé Pierre, o Gandhi francês

Abbé Pierre, o Gandhi francês, fundador das comunidades Emmaus, morreu ontem aos 94 anos.

Abbé Pierre, do seu verdadeiro nome Henri Antoine Groués, nasce em Lyon a 5/1/1912, numa família numerosa e socialmente bem colocada, e entra aos 19 anos para os franciscanos, transitando depois para a Ordem dos Capuchos que é de todas e a congregação mendicante mais pobre.

Como vigário da Catedral de Grenoble envolveu-se na resistência anti-nazi, arriscando a sua vida na ajuda aos judeus perseguidos, e transportando ele próprio refugiados judeus para a Suiça. Foi nessa época que adoptou o cognome de Pierre. Organizou mesmo uma grupo armado no seio da Resistência francesa à ocupação nazi.
No final dos anos 40 fundou a Comunidade Emmaus vocacionado para a ajuda aos sem-abrigo e aos pobres e marginalizados em geral. A comunidade Emmaus espalhou-se entretanto por vários países e ganhou uma dimensão internacional de fraternidade e partilha. A 1 de Fevereiro de 1954 lança pela rádio o célebre apelo «A insurreição da bondade» a favor dos pobres e dos grupos sociais carenciados. Infatigável na sua luta pelos mais fracos e desprotegidos, ele tornou-se uma figura conhecida e respeitada pelos franceses e até a nível internacional. Era o porta-voz dos párias, dos humilhados e ofendidos. Merece pois o nosso reconhecimento. Nele o amor pelos outros, o respeito pelos outros, o bem para os outros não eram só palavras. Ele personificava o homem que combatia a favor do outro, e dava voz à cólera dos que pediam justiça.
Ao lado de Josué de Castro, participou da fundação da Associação Mundial de Luta Contra Fome (Ascofam), em 1957, e de diversos congressos e reuniões internacionais a favor do bem estar dos excluídos
É o fundador da Comunidade Emmaus ("O nome Emmaus corresponde a uma localidade da Palestina onde alguns desesperados voltaram a encontrar esperança. Esse nome evoca em todos crentes ou não, nossa comum convicção que só o amor pode nos unir e permitir avançar juntos”). As Comunidades de Emmaus são compostas por pobres que, através do trabalho de recuperação e reutilização daquilo que é lançado fora, adquirem o seu próprio sustento e ajudam quem se encontra em condições piores.

Independentemente da sua ligação à Igreja e da sua fé católica, Abbé Pierre merece o nosso reconhecimento por tudo o que fez a favor dos mais pobres e dos mais fracos. Defensor dos direitos humanos, ele não hesitava em intervir em prol das causas justas contra a iniquidade e a opressão. Será recordado como um homem bom que lutava pela vitória da justiça no mundo.

20.1.07

Há 20 anos que José Afonso nos deixou a sós com as suas canções

“Somos Nós os Teus Cantores"

PARA O QUE DER E VIER...SEM MUROS NEM AMEIAS!

IGUAIS POR DENTRO E IGUAIS POR FORA!


José Afonso, falecido a 23 de Fevereiro de 1987, aos 57 anos, foi, com Adriano Correia de Oliveira, umas das figuras centrais da canção de intervenção em Portugal.
Neste ano de 2007 passam 20 anos que José Afonso nos deixou a sós com as suas canções. Aquele que deu voz à resistência anti-fascista, e foi um dos símbolos do 25 de Abril do povo e, mais tarde, uma bandeira de luta contra a recuperação capitalista no período cinzento do eanismo e do soarismo, será lembrado ao longo de todo este ano através das mais variadas iniciativas, sempre com o apoio da Associação José Afonso.

Daremos disso conta à medida que tais acções se forem realizando.Por enquanto, e que tenhamos conhecimento, estão programadas várias manifestações culturais na Moita, no Porto ( mais concretamente no Clube Literário) e na Casa do Povo da Longra (no concelho de Felgueiras).


Assim já no próximo dia 3 de Fevereiro, na Casa do Povo da Longra ( Felgueiras) e numa parceria com o núcleo do Norte da AJA realiza-se um concerto sob o lema “Somos Nós os Teus Cantores”, que contará com a participação de Francisco Fanhais, Tino Flores, grupo Erva de Cheiro, grupo AJAFORÇA, banda Hyubris e, possivelmente, Manuel Freire.
Os actores Alexandre Castanheira e Fernando Soares farão da poesia o eco do homem da "Grândola". Neste dia vai falar-se, também, de Adriano Correia de Oliveira, companheiro de canções de luta e de vida de José Afonso.
Na parte de tarde, pelas 16 horas, haverá lugar a um debate/tertúlia, ao qual foram convidados Alexandre Manuel (jornalista e ex-editor do DN), Isabel e José Manuel Correia de Oliveira (filhos de Adriano), Paulo Alão (músico que participou em algumas gravações do Zeca e do Adriano), Alexandre Castanheira, Soares Novais (jornalista e editor da Arca das Letras), representantes da AJA-NORTE e da Casa do Povo, entre outros que poderão juntar-se.

Segue-se depois um conjunto de iniciativas na cidade do Porto ao longo do mês de Fevereiro em memória de José Afonso promovido pelo núcleo do norte da AJA a desenrolarem-se no espaço do Clube Literário do Porto (
http://www.clubeliterariodoporto.org/) e cujo programa é o seguinte:

14 Fevereiro
21h30 - Inauguração da exposição “José Afonso: Vida e obra”
22h - “José Afonso: Testemunhos" Colóquio/Debate com a participação de Alípio de Freitas e Benedicto Garcia Villar.
15 Fevereiro
21h 30m – Tertúlia no “Piano-Bar” do CLP integrada na iniciativa “O Prazer do Texto” – “Música e poesia de José Afonso”
16 Fevereiro
21h 30m – “José Afonso, a obra poética" Colóquio/Debate com a participação de Elfried Elgelmeyer e José António Gomes.
17 Fevereiro
21h 30m – “José Afonso, a música" Colóquio/Debate com a participação de José Mário branco e Francisco Fanhais.


Também a Câmara Municipal da Moita recorda José Afonso, 20 anos depois da sua morte, com um ciclo de três espectáculos de música popular portuguesa (o primeiro dos quais hoje à noite, depois um outro, com Vitorino, a 27 de Janeiro, e um terceiro com a Brigada Victor Jara a 24 de Fevereiro) a realizar no Fórum José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira.
Além dos três espectáculos, o conjunto de iniciativas agendadas inclui uma declamação de poemas de José Afonso na Biblioteca de Alhos Vedros, uma festa popular também nesta freguesia e ainda uma romagem à campa do autor de "Grândola, vila morena", no cemitério de Setúbal, organizada pela Academia Musical 8 de Janeiro no dia 23 de Fevereiro à tarde

Estão previstas, segundo sabemos, ainda iniciativas similares em Guimarães, Espinho e Odivelas.

Entretanto tomamos conhecimento que os «Frei Fado d’El Rei» irão muito em greve editar um cd com o título «Senhor Poeta» e que será justamente uma homenagem a José Afonso.
Os Frei Fado d'El Rei são um dos melhores exemplos de perseverança e coragem nestes caminhos da folk - chamemos-lhe folk por facilidade de designação - feita em Portugal. Tendo como base uma originalíssima mistura de música tradicional portuguesa, fado, flamenco, música medieval e moderna, os Frei Fado d'El Rei sempre estiveram na vanguarda da renovação da nossa música. E apesar de muitos dos seus membrs se terem dispersado nos últimos anos por projectos como os Roldana Folk, Lúmen ou Goliardos d'El Rey, os Frei Fado d'El Rei continuam vivíssimos (deram em Dezembro vários concertos na Bélgica e Holanda).

Info:

http://vejambem.blogspot.com/

http://www.aja.pt/

19.1.07

Apoia e vai ver teatro!


O teatro independente, o teatro experimental, o teatro amador e o teatro de rua devem merecer a nossa atenção e apoio.


Breve questionário sobre a tua relação com o teatro
Escolhe a afirmação seguinte que melhor reflecte as tuas atitudes e o teu comportamento para avaliares a qualidade da tua relação para com teatro:


Afirmação A = 0 pontos
Nunca fui ver uma peça de teatro


Afirmação B = 10 pontos
Já fui a Lisboa ver uma peça do Filipe La Féria, mas nunca fui ver qualquer teatro feito na minha cidade



Afirmação C = 40 pontos
Já fui ver uma única vez uma peça de teatro ao auditório municipal da minha cidade.



Afirmação D = 60 pontos
Costumo ir ao teatro municipal assistir às peças e aos grupos de teatro que lá passam.



Afirmação E = 60 pontos
Sou espectador assíduo de teatro, consulto a agenda semanal dos espectáculos de teatro, e leio frequentemente as críticas de teatro publicadas na imprensa. Gostaria de fazer teatro.



Afirmação F = 100 pontos
Vou sempre que posso ao teatro, mesmo àquelas peças mais difíceis de entender, as quais servem, aliás, de motivo para eu conversar e debater com os meus amigos/as ou com quem me acompanhou ao espectáculo.
Enquanto não tiver oportunidade de fazer teatro vou utilizando a expressão dramática na minha comunicação pessoal.



Conclusão: o teatro em geral, e o teatro independente em particular, mesmo aquele que possa ser de mais difícil compreensão ( o teatro experimental), põe-nos em contacto com novas ideias, e utiliza novas formas de comunicar e exprimir ideias e sentimentos. Acontece que habitualmente os grupos de teatro independente defrontam-se permanentemente com problemas de financiamento das suas actividades, pelo que é altamente meritório o envolvimento e o apoio aos grupos de teatro de todos quantos consideram o teatro como uma arte maior e uma excelente forma de manter a nossa condição de seres humanos



Seguem-se três propostas para ver teatro


«A um dia do Paraíso» ( texto e encenação de José Carretas) no Teatro Nacional Carlos Alberto de 18 a 28 de Janeiro (de 3ª feira a Domingo), numa co-produção TNSJ e Panmixia

Sinopse:

Aventureiro, diplomata e espião ao serviço de sua majestade D. João II, Pêro da Covilhã parte em finais do séc. XV para a costa oriental de África. Procura o reino do Preste João, onde florescem maravilhas de todo o tipo, entre o quase divino e o quase diabólico, mito cuja matriz literária remonta ao séc. XII, à Carta do Preste João das Índias, síntese efabulada do imaginário medieval do ocidente cristão. No fim da viagem, descobre afinal a distância (drástica mas conciliável…) entre a ideia de um reino utópico e a experiência "claramente vista" de um pequeno território pobre e ameaçado pelos vizinhos muçulmanos. Indiferente a qualquer tipo de rigor historicista, José Carretas propõe-nos uma incursão nos últimos anos da venturosa vida de Pêro da Covilhã, arriscando uma alegoria cénica sobre a necessidade prática da utopia, sobre o desencanto como forma irónica, melancólica e combativa da esperança.

http://www.tnsj.pt/



Outra proposta é o Festival Nacional de Teatro de Amadores promovido pelo Cale Estúdio Teatro – Associação Cultural de Actores (CET) e que com o curioso título de «Cale-se» vai decorrer de 20 de Janeiro a 24 de Março na sede do daquele grupo de teatro - Rua do Meiral, 51 ; 4400-501 Vila Nova de Gaia Tels. 963 697 254
Mais info:
caleestudioteatro@portugalmail.pt
http://festivalcale-se.blogspot.com/
O Festival contará com a presença de vários grupos sendo que todos são associados da ANTA - Associação Nacional de Teatro de Amadores.

A última proposta de teatro é reservada para a digressão que o Teatro Montemuro vai realizar com a sua peça UBELHAS, MUTANTES E TRANSUMANTES
Segundo as datas divulgadas são estes os locais por onde a peça será representada:
20 de Jan. PINHEL22,
23 e 24 de Jan. CAMPO BENFEITO sessões escolares
25 de Jan. VIANA DO CASTELO Teatro Sá de Miranda
26 de Jan. PAREDES27 de Jan. SEIA
2 de Fev. LISBOA Teatro da Comuna ( sala 1, 21h30)
3 de Fev. LISBOA Teatro da Comuna ( sala 1, 21h30)
4 de Fev. LISBOA Teatro da Comuna ( sala 1, 16h00
)7 de Fev. FARO Teatro Lethes
9, 10 e 11 de Fev. PORTO Balletteatro
17 de Fev. VILA NOVA DE PAIVA Auditório Carlos Paredes
3, 4, 5 e 6 de Março COIMBRA A mUSEU DOS tRANSPORTES
31 de Março LEIRIA Teatro José Lúcio da Silva (21h00)

18.1.07

Concentração dos utentes dos transportes públicos do Porto na Pr. da Liberdade (19 de Janeiro) às 17h.30

Movimento de Utentes dos Transportes da Área Metropolitana do Porto

Concentração e Marcha lenta até ao governo civil
dos utentes dos transportes públicos
na Praça da Liberdade (Porto)
dia 19 de Janeiro de 2007 às 17h30

O Movimento de Utentes dos Transportes da Área Metropolitana do Porto convida a população para a Concentração na Praça da Liberdade e Marcha até a Governo Civil para entrega do Caderno Reivindicativo dos utentes que a Nova Rede da STCP retirou direitos como o acesso a transportes públicos de qualidade e de proximidade, a mobilidade, o percurso num único meio de transporte desde a origem ao destino, com facilidade de acesso e de bilhética funcional e a preço justo.

A participação de todos é importante para vencermos esta luta.

A luta é justa, participe connosco.

Campanha “Susana livre!”


Várias pessoas manifestaram-se durante o mês de Dezembro contra o desalojamento de um centro social em Copenhaga, Dinamarca, edifício cedido pela câmara em 1982 a várias associações e colectivos. Cerca de 213 pessoas foram presas, entre as quais 87 estrangeiros de 10 nacionalidades diferentes. A Susana, um amigo dela, um rapaz finlandês e um dinamarquês são os únicos que ainda se encontram presos neste momento.
A Susana já está há mais de 25 dias na prisão, passou lá o Natal e o Ano Novo e não sabe quando vai sair. Por mais que questionemos o porquê dela lá estar, na nossa opinião, o que interessa é que uma prisão é sempre uma prisão, e que ela não devia estar lá mas sim perto da família e dos amigos.

Quem é a Susana?

A Susana é, antes de mais, uma amiga. Está a estudar em Coimbra, na Escola Superior de Educação, no último ano. É uma activista social e ambiental. Pertence ao GAIA (Grupo de Acção e Intervenção Ambiental), a um grupo de teatro de rua e a outros colectivos .É vegetariana, defensora dos direitos dos imigrantes, dos direitos humanos, da paz! Activa na luta contra a praxe, na defesa da despenalização do aborto, no movimento estudantil.

E quem somos nós?
Alguns amig@s da Susana, e outros amig@s de tod@s os presos!

Que centro social é esse?
Chama-se Ungdomshuset (Centro da Juventude) e como se pode ler na sua página na Internet, hoje eram um centro político e cultural, uma alternativa a uma sociedade opressora, usada por activistas para organizarem inúmeros eventos. (mais aqui:
http://ungdomshuset.info/spip.php?article45). O edifício foi cedido pela câmara em 1982 a várias associações e colectivos. Em 1999 foi vendido pela câmara a uma seita fundamentalista cristã, e inicia-se um processo no tribunal. Um processo moroso e bastante dúbio, onde os activistas acusam a câmara de vender algo que foi cedido, e a
“seita” que reclama a casa e uma compensação por não poderem ter usufruído dela. Em 2006, o tribunal decide que os activistas têm de evacuar a casa até dia 14 de Dezembro. (mais sobre o processo em http://ungdomshuset.info/spip.php?article47)


O que aconteceu? Porque se manifestavam?

No passado dia 15 de Dezembro, mais de 5000 pessoas manifestaram-se contra a decisão do tribunal e recusavam-se a entregar o Centro da Juventude.
No dia 16, uma marcha com cerca de 1000 participantes. Começaram a sair da casa e a dirigirem-se para o centro da cidade mas não conseguiram andar mais de 300 metros pois a policia impedia-lhes a passagem. E aí o cenário passou a ser de guerra: pedras pelo ar, garrafas, montras partidas, barricadas, fogo, fumam, escuro, gás lacrimogéneo... Violência da parte dos polícias e da parte de alguns manifestantes. As imagens comprovam-no: http://indymedia.dk/article/754. Alguns activistas ficaram feridos assim como polícias. Muitas montras partidas e as ruas quase destruídas.
Cerca de 213 pessoas foram presas, entre as quais 87 estrangeiros de 10 nacionalidades diferentes.
Os dinamarqueses (à excepção de um, o Allin) foram postos em liberdade passado 24h e aguardam julgamento. Até ao final do ano, 20 estrangeiros foram deportados e proibidos de entrar na Dinamarca e os restantes foram libertos e reencaminhados para a fronteira. Á excepção da Susana, do amigo dela, o Mariano (argentino/italiano) e do Tomi (finlandês).

O que se passou exactamente com a Susana?

A Susana foi visitar um amigo à Dinamarca, no dia 14 de Dezembro, com intenções de voltar para Portugal antes do Natal. Como activista social que é, a Susana participou na marcha em defesa de Ungdomshuset, no dia 16. Foi uma dessas pessoas indiscriminadamente presas. Está a ser acusada de agressão à autoridade.
A lei dinamarquesa diz que depois de 24 horas (72 para estrangeiros) o detido tem de ser julgado ou posto em liberdade. A Susana foi “julgada” e colocada em prisão preventiva até julgamento oficial. No máximo, a lei indica que pode ir até 4 semanas esse tempo de espera. Sendo assim, este seria no dia11 de Janeiro.

E então, qual o resultado?

Ao que parece, a Susana teve e está a ter azar, pois o seu julgamento foi adiado 15 dias, para o dia 25 de Janeiro (um dia antes do seu aniversário). O julgamento dos outros 3 presos também foi adiado para a mesma altura.
É que afinal, o que a lei diz é que os detidos têm de ser colocados em frente a um juiz. Foi o que aconteceu, mas esse não tem poder decisivo, digamos, não foi um julgamento na verdade, pois ainda não reuniram todas as provas necessárias!!!
A Susana encontra-se de novo em prisão preventiva, numa prisão isolada em Copenhaga.
Praticamente ainda não recebeu visitas (apenas da embaixada portuguesa) e da advogada. É uma advogada dinamarquesa, “especialista” em casos como este, voluntária, amiga da casa (Ungdomshuset). Não sabemos qual vai ser a pena atribuída à Susana, e os rumores são muitos: que não há hipótese de cumprir pena cá, que vai ter de pagar multa, que pode ficar lá cerca de 3 meses...

O que podes fazer para ajudar?

a) escrever à Susana e aos outros presos.
Têm várias hipóteses (carta ou e-mail), mas tenham em atenção ao que escrevem porque a polícia vai ler. Escrever é mesmo muito importante, mas não comentem sobre o caso, pois sem quererem, podem prejudicar a Susana. Mesmo que alguns de vocês não a conheçam bem , escrevam na mesma. Imaginem o que é estar numa prisão sem nada que fazer... Receber cartas deve ser uma alegria! Falem do vosso dia-a-dia, dos vossos activismos, das vossas paixões, das vossas viagens, transcrevam um poema, sei lá, mas escrevam!!
Para a Susana podem escrever em português, castelhano ou inglês. Para o Mariano podem escrever em castelhano ou inglês. Para o Tomi em finlandês ou inglês. E para o Allin em dinamarquês.

Enviem as cartas para a ABC (associação que está a dar apoio no local) e coloquem algures na parte de trás do envelope “a letter for Susana” - ou o nome de outro preso):
c/o Ungdomshuset
Jagtvej 69
2200 København N
Danmark

ou podem escrever e-mail também para a ABC (retsgruppe69@yahoo.dk) com assunto “a letter for Susana” (ou o nome de outro dos presos), que os voluntários da associação imprimem e fazem chegar todos os dias à prisão.

b) podes também enviar cd's originais, livros, dinheiro dinamarquês (croas) e roupa. Envia para a mesma morada acima.

c) contribuir monetariamente.
Envia tua contribuição para a conta 003520730000338193093 em nome de “Su Livre”. Se possível, envia e-mail para sulivre@riseup.net com comprovativo de transferência.

d) escrever à embaixada dinamarquesa em Portugal a exigir a libertação da Susana e dos outros presos:
Embaixada Dinamarquesa em Portugal
Rua Castilho 14-C 3º 1200-069 Lisboa
21 3512960 21 3570124 (fax)

e) contactar advogados para sabermos o que se pode fazer a partir de Portugal. Se encontrares algum que esteja interessado em ajudar, dá-lhe o nosso contacto: sulivre@riseup.net.

f) receber e divulgar informação.
Envia e-mail para sulivre@riseup.net com pedido de inscrição em
mailling-list (para receberes notícias), ou com sugestões ou dúvidas.


Obrigada por leres até aqui,
os amig@s de Susana.

Pela defesa do direito à habitação dos moradores dos bairros de Lisboa em risco de serem demolidos


A luta dos moradores dos bairros Marianas, Azinhaga dos Besouros, Estrada Militar, Quinta da Vitória, Fim do Mundo e Quinta da Serra ( todos da cidade de Lisboa), com o apoio do grupo Direito à Habitação da associação Solidariedade Imigrante, contra a demolição dos seus bairros sem a salvaguarda do seu direito a terem uma habitação digna.


Os bairros de barracas foram construídos há já dezenas de anos pelos trabalhadores que chegavam à cidade, portugueses e imigrantes. A cidade precisava deles mas não tinha habitação para eles. Então tiveram de construir as suas casas, ocupando terrenos devolutos ou comprando terrenos a proprietários de quintas etc...

Os bairros, que respondiam à falta de habitação, ficaram até que as autoridades e os novos proprietários dos terrenos ( grupos imobiliários, bancos...) decidirem, por interesses económicos, mandar toda a gente embora.

Há quinze anos, os despejos violentos fizeram crescer os protestos dos moradores. Sob a pressão dessa luta o Estado criou o PER, Programa Especial de Realojamento. Foram construídos prédios sociais e uma parte dos moradores foi realojada. Num prazo de 5 anos era previsto acabar com os bairros e realojar todos os moradores. Mas a verdade é que os bairros ainda existem e lá permanecem, e ainda não foram realojadas todas as famílias que foram recenseadas em 1993.
O problema principal é que o programa está agora completamente desactualizado.

Desde 1993, passaram 14 anos. A situação mudou, chegaram pessoas, nasceram pessoas. Todos as pessoas ( muitos são trabalhadores da construção civil ) que chegaram depois de 1993 não tem direito a nada. Outros já cá estavam em 1993 mas não foram recenseados porque, por exemplo, estavam a trabalhar numa obra no Algarve ou não estavam em casa no dia do recenseamento.

Os salários baixos que as pessoas recebem não lhes permite alugar uma casa no mercado privado.

São expulsos violentamente. A polícia atira-os para a rua



MANIFESTO DOS MORADORES DOS BAIRROS AFECTADOS PELAS DEMOLIÇÕES

Este manifesto foi escrito por um grupo de moradores dos bairros Marianas, Azinhaga dos Besouros, Estrada Militar, Quinta da Vitória, Fim do Mundo e Quinta da Serra, com o apoio do grupo Direito à Habitação da associação Solidariedade Imigrante.

Nós, moradores dos bairros demolidos ou na iminência de o serem, expomos o seguinte:

Vários bairros da área metropolitana de Lisboa, construídos há décadas por trabalhadores portugueses migrantes do interior do país e por trabalhadores imigrantes e os seus filhos, estão a ser demolidos.
Muitas pessoas são expulsas das suas casas e não têm direito ao realojamento.

O Programa Especial de Realojamento (PER) baseia-se num recenseamento realizado em 1993.
Muitos moradores, chegados aos bairros antes de 1993, não foram incluídos no PER. Nós, por exemplo, que somos trabalhadores da construção civil, fomos excluídos. O nosso trabalho exige frequentes deslocações durante dias seguidos aos locais das obras. Essa é a razão da nossa ausência do bairro e da nossa falta de informação durante o recenseamento.

Também existem, nos nossos bairros, milhares de pessoas que chegaram depois de 1993 e que pela sua situação económica precária, pela discriminação à qual estão sujeitas no acesso à habitação no mercado privado e pela inexistência de uma política real de habitação que possa responder às suas necessidades habitacionais, não tiveram outra alternativa que os bairros de barracas.

Agora, as câmaras expulsam-nos sem nos deixar nenhuma alternativa habitacional, tirando-nos o único tecto que temos.

Trabalhamos para construir Portugal. Pagamos os nossos impostos e contribuímos para a economia do país. Como qualquer cidadão, descontamos para o Estado mas este não nos reconhece o direito constitucional a uma habitação.

Considerando a história da colonização e considerando a da emigração portuguesa, não achamos justo o tratamento recebido pelos imigrantes em solo português.

Não estamos a pedir casas de graça, mas o acesso a uma habitação com uma renda de acordo com os nossos rendimentos.

Estamos dispostos a colaborar com o Estado para encontrar uma solução que respeite os direitos de todas as pessoas.


DENUNCIAMOS:

O Programa Especial de Realojamento (PER) revelou-se um programa limitado e injusto que tem excluído muitas pessoas.

As autarquias estão a tratar-nos como se não fossemos seres humanos.

As demolições contribuem para a degradação dos bairros, provocando inúmeros danos psicológicos, morais e materiais. As condições de habitabilidade têm vindo a piorar substancialmente desde o início das demolições: entulho, canalizações partidas, estruturas danificadas que criam infiltrações quando chove...

Estes processos de demolição, além de não terem tido nenhum acompanhamento social, têm-se caracterizado por uma presença violenta e abusiva das forças policiais, que se limitam a expulsar brutalmente as pessoas das suas casas sem qualquer diálogo. Isto é abuso de poder.

Existem inúmeras casas fechadas nos bairros de realojamento, destinadas à venda e que permanecem vazias até hoje.

O estatuto ilegal das nossas casas não é assim tão evidente. O Estado permitiu a construção destes bairros e, em certos casos, até a apoiou; pois, estes remediavam a carência de habitação para os trabalhadores que chegavam à cidade. Posteriormente o Estado deixou desenvolver este mercado paralelo de habitação. Em muitos casos as casas foram compradas pelas pessoas. Outras pessoas sempre pagaram aluguer, facturas de electricidade, água, esgotos e contribuições autárquicas. Existem mesmo casos de "habitação ilegal" registada nas finanças.

Achamos absolutamente inadmissível a desresponsabilização do Estado e a sua completa despreocupação para com os seus cidadãos. Sentimo-nos tratados como se não fossemos pessoas. As Câmaras e o Governo passam as responsabilidades um para o outro como num jogo de ping-pong.

Quando confrontadas por nós, as Câmaras dão esperanças, mas logo a seguir dão o dito pelo não dito. O Governo fez promessas e apresentou soluções que nunca cumpriu. As falsas alternativas são injustas, provisórias e discriminatórias: apoio incerto de três meses de renda, dias em centros de acolhimento ou pensões, propostas de regresso ao país de origem.


EXIGIMOS QUE SEJAM RESPEITADOS OS NOSSOS DIREITOS!

EXIGIMOS que seja respeitado o direito à habitação para todos, consagrado pelo artigo 65 da Constituição Portuguesa.

EXIGIMOS que sejam suspensas as demolições das casas onde moram pessoas que não têm alternativa habitacional.

EXIGIMOS o realojamento de todos os moradores dos bairros que não estão incluídos no PER.

EXIGIMOS que o Estado crie e aplique uma verdadeira política da habitação para todos os cidadãos.

EXIGIMOS o acesso a uma habitação condigna em que nos responsabilizamos pelo pagamento de uma renda de acordo com os nossos rendimentos, de forma a criar uma oportunidade para podermos mostrar e defender a possibilidade de uma vida melhor.


HABITAÇÃO PARA TODOS!

Ecologia social versus ecologia liberal

A ecologia é a ciência das trocas e dos equilíbrios naturais, isto é, ciência que trata das relações entre os seres vivos, plantas e animais, e entre estes e o seu meio e habitat.

Ao lado desta ecologia natural, pertencente ao domínio das ciências da natureza, juntamente com a biologia e a geografia física, desenvolveu-se, entretanto, a partir daquela uma ecologia politica que estuda o impacto das actividades humanas, nomeadamente as de carácter económico e produtivo, sobre aqueles equilíbrios naturais. Pela sua abordagem específica da realidade envolvente, a ecologia mantém uma relação conflitual com a tradicional ciência económica, vista as mais das vezes como um verdadeira ideologia dominante da civilização industrial, mercantil e produtivista do capitalismo.

A ecologia política originou desde os anos 60/70 do século XX a um crescente e cada vez mais poderoso movimento social, o ecologismo, cujo objectivo é mudar a forma como se produz e como se consome a fim de preservar o ambiente natural.


Dentro do ecologismo podemos encontrar várias teorias/doutrinas ecologistas, todas reclamando a necessidade de defender o ambiente natural.


No plano filosófico há fundamentalmente uma oposição entre uma ecologia antropocêntrica, que coloca o homem no centro do seu concepção, e uma ecologia biocêntrica, que preconiza um descentramento daquela visão de molde a envolver todos os seres vivos, não só os seres humanos como também os animais e as plantas.

No plano económico diferenciam-se duas concepções contrárias: a ecologia liberal e a ecologia social.

A ecologia liberal lança os seus fundamentos nos mecanismos do mercado e acredita que através de uma legislação normativa apropriada será possível resolver os problemas ambientais que afectam as sociedades contemporâneas. Na linha desta visão ambientalista, os seus representantes defendem a chamada internalização dos custos (e prejuízos infligidos à natureza) através do cálculo económico e contabilístico das empresas e das famílias ( com a consequente criação de taxas e de subsídios, tal como acontece para com qualquer outra actividade económica ), a promoção da investigação e da inovação técnica ( para se obter técnicas produtivas limpas, como os carros não-contaminantes, etc), assim como o desenvolvimento do denominado capitalismo verde (eco-business, eco-indústrias, etc, etc) que permitirão gerir economicamente os recursos da natureza, sem causarem grande impacto sobre as grandezas macro-económicas como o PIB, o emprego e o crescimento económico. No fundo, a ecologia liberal pretende substituir o capital natural pelo capital técnico como único meio para garantir as capacidades produtivas das gerações futuras.


A ecologia social não tem uma visão economicista dos problemas ambientais, considerando mesmo que a própria economia se tornou com o neo-liberalismo num instrumento de mistificação e legitimação de um sistema sócio-económico depredatório e suicidário, para além de se ter mostrado profundamente iníquo.
Sob a designação geral de ecologia social, originariamente associada a Murray Bookchin, encontram-se no entanto vários autores (Lewis Mumford, J.Ellul, I.Illich, A. Gorz, etc…) e abordagens que questionam o capitalismo, a ideologia produtivista, a sociedade de consumo e de desperdício, assim como as desigualdades sociais, o racismo e o domínio e a exploração de uns homens sobre os outros, abordagens estas que se complementam e que preconizam um novo paradigma (modelo) social e uma nova forma de relacionamento para com a natureza.


Para estes autores a técnicas produtivas da indústria capitalista ao procurarem satisfazer uma necessidade, através da produção industrial das mercadorias, geram outras tantas carências e insatisfações que, num ciclo interminável, aguardam pela sua superação. O crescimento económico, segundo estes autores, alimenta-se dos seus próprios prejuízos e insatisfações que produz incessantemente. A conclusão é, pois, óbvia: a economia tal como a conhecemos, isto é, a economia capitalista é contra-produtiva, já que o crescimento se mostra nefasto, lesivo e ilusório. Nefasto, porque destrói os recursos não renováveis e gere, além disso, altíssimos custos sociais: exclusão, precariedade, desemprego tecnológico, alienação social e mercantil, perda do sentido e de autonomia face às forças poderosas do Estado e das grandes mega-corporações, as empresas transnacionais. Ilusório, porque não existe na realidade valor acrescentado senão por via dos preços, e estes não dão conta das inutilidades crescentes (desperdícios,etc) e dos valores perdidos.


Claro está que um questionamento do progresso e do crescimento económico deste género arrasta consigo outros problemas, como o problema do emprego e a indispensabilidade de um outro modelo e de uma outra lógica que não seja o produtivismo economicista de inspiração liberal ( ou marxista) da economia clássica, predominante desde a Revolução Industrial. Uma vez que não haverá empregos para todos haverá então que dividir os rendimentos gerados ( consultar a esse propósito André Gorz) e redefinir o papel do Estado e do mercado, bem como da esfera das actividades autónomas (triângulo de S.C. Kolm).


Nesta perspectiva valorizam-se as actividades autónomas, fora do âmbito do mercado, que são conviviais, que se mostram pouco poluentes , porque utilizam técnicas produtivas alternativas, e são promotoras do salário mínimo universal, o qual deverá ser acrescentado ao elenco já tradicional dos direitos do homem, e como tal qualificado.

O controle das chamadas tecnociências, até agora submetidas aos imperativos económicos do lucro ou do poder ( consultar sobre a matéria L.Mumford, J.Ellul), integram todo um projecto alternativo que valoriza as sinergias comunitárias de cooperação e entre-ajuda, e contesta frontalmente o capitalismo e o seu pretenso realismo em resolver a crise ambiental, cujo desencadeamento e agravamento ele próprio foi o principal responsável.

A ecologia social aponta claramente para a superação do paradigma modernista da ideia de «progresso» e de «crescimento», cujos limites são cada vez mais patentes com o rápido esgotamento dos recursos naturais, remetendo para aquilo que já é designado por alguns como sociedades do pós-crescimento.




Consultar o livro:


Social Ecology After Bookchin


David Watson (Contributor) and Andrew Light (Editor)


For close to four decades, Bookchin's eco-anarchist theory of social ecology has inspired philosophers and activists working to link environmental concerns with the desire for a free and egalitarian society.

This instructive book brings together leading theorists to contemplate the next steps in the development of social ecology. Topics covered include reassessing ecological ethics, combining social ecology and feminism, building decentralized communities, evaluating new technology, relating theory to activism, and improving social ecology through interaction with other left traditions.

Those contributing the 11 essays include Joel Kovel, John Clark, David Watson, David Macauley, Robyn Eckersley, and Regina Cochrane.

17.1.07

As cidades verdes

O ano que está agora a iniciar-se representa um ponto de inflexão na forma de vida dos seres humanos. Pela primeira vez na História, segundo a ONU, há mais pessoas a viver em meios urbanos do que nos meios rurais. Isto significa que aos grandes problemas já conhecidos das grandes aglomerações urbanas (contaminação, consumo energético exacerbado, problemas de mobilidade, insegurança,…) devemos agora somar o facto da maioria da população pobre passar a viver nas cidades. Tudo isto faz nascer o risco das grandes urbes passarem a ter um centro histórico rodeado de enormes bolsas de miséria sob a forma de subúrbios.

Em 2003, 280 milhões de pessoas na Ásia, África e América viviam amontoadas (4 ou mais pessoas partilhando pequenas habitações). A contaminação urbana mata três milhões de pessoas por ano, e um milhão de crianças morre por ano devido a contaminação no interior das casas. Metade da população mundial (2.400 milhões de pessoas) usa diariamente combustíveis fósseis que são altamente contaminantes ( como é, por exemplo, a gasolina).

Para conseguir que as cidades continuem a ser o motor económico e de desenvolvimento social e o principal gerador de riqueza dos países, a ONU julga que é imprescindível melhorar as infra-estruturas, o transporte e a saúde dos residentes urbanos, para não falar da urgente necessidade de se alcançar um equilíbrio entre progresso e sustentabilidade.

«As cidades vão defrontar-se no século XXI com um desafio sem precedentes. A sua própria existência está ameaçada pelas consequências das mudanças climáticas. Assim como a sua coesão social e estabilidade são ameaçadas pela exclusão e pelas desigualdades. A qualidade de vida e de saúde dos seus habitantes vê-se prejudicada cada dia que passa pela deterioração da qualidade do ar e da água.» Foi nestes termos que começou o Fórum Urbano Mundial (World Urban Forum) no ano passado numa iniciativa da ONU.

Entre as muitas ideias que então foram apresentadas encontravam-se os projectos e as boas práticas de diversas cidades que são exemplos a seguir para as demais, devidamente adaptados pelas circunstâncias concretas de cada caso. Projectos esses que tentam à sua maneira concretizar o ideal de «cidade verde» ao melhorar a mobilidade, através da promoção do transporte público, da bicicleta ou das deslocações pedestres, ou ainda propondo um urbanismo baseado nas energias renováveis. Os casos mais conhecidos são os das cidades de Friburgo ( Alemanha), Vancouver ( Canadá) Bogotá (Colômbia) e Malmõe (Suécia).

Cidades verdes nos EUA:
www.motherjones.com/news/feature/2001/08/greencities.html


Cidades verdes na Europa:
http://www.europeangreencities.com/

http://environment.guardian.co.uk/waste/story/0,,1941185,00.html

Próxima Convenção sobre cidades verdes na Austrália(Fevereiro de 2007):
http://www.greencities.org.au/




Friburgo e o bairro ecológico de Vauban

Uma enorme preocupação pelo meio ambiente une os habitantes de Friburgo, uma cidade de 215.000 habitantes situada no Sudoeste da Alemanha, nos rebordos da Floresta Negra. Com efeito, Friburgo é um bastião dos Verdes que a governam graças aos 30% dos votos recebidos nas últimas eleições. Tornou-se também conhecida pelos inúmeros prémios recebidos a propósito da política de gestão de tráfico seguida, e das energias renováveis que são utilizadas na cidade. Tudo isto explica por que é que a cidade recebe sem cessar visitantes de todo o mundo que aí se deslocam para tomar contacto com as medidas que são lá tomadas.

Friburgo aplica uma política integrada de tráfico desde há 35 anos. «Nesta matéria não há êxitos de curto prazo», adverte Martin Haag, director do departamento de infraestruturais da autarquia, e que recorda o primeiro plano geral de tráfico, aprovado em 1969: « Na época não se falava ainda de sustentabilidade, mas já havia uma vontade muito forte de proteger o centro antigo do tráfego motorizado.»

Nos anos setenta redescobriram-se as bicicletas. Além disso, em 1972, quando muitas cidades se desfaziam dos eléctricos (transvias), Friburgo optou por ampliar a sua rede. Assim, de 1985 a 2004 os silenciosos e não contaminantes eléctricos (transvias) viram o número de passageiros a duplicar.

Em 1975, a luta contra a construção de uma central nuclear uniu a população. Por uma vez, estudantes – maioritariamente de esquerdas – e os cultivadores de vinhas –tradicionalmente conservadores – lutaram juntos lado a lado. Uns, em defesa do meio ambiente, outros, receosos pelos seus vinhedos. As preocupações ambientais começaram a dar os seus frutos: o uso de bicicleta aumentou de 1982 a 1999, de 15% para 27% nas deslocações, ao passo que o uso do carro reduziu-se de 29% para 26%, ao mesmo tempo que os transportes públicos viram o seu uso a crescer de 11% para 18%

Na cidade não há engarrafamentos nem ruídos. O tráfego de bicicletas é contínuo ao longo dos 500km de ciclovias que atravessam a cidade. Os trajectos também não são muito longos uma vez que a cidade é relativamente pequena (15.300 hectares, dos quais 40% é ocupado por bosques), além de que a política de transportes é complementada pela do urbanismo que evita que a cidade cresça em demasia. «Pretende-se construir apenas nas eras já urbanizadas para não sacrificar a área verde dos bosques, e manter a cidade segundo dimensões compactas.», esclarece a conselheira do Meio Ambiente, Gerda Stuchik.

Como solução não-contaminante para as entradas e saídas diárias das 80.000 pessoas foi criado um aparcamento vigiado e coberto com capacidade para 1000 bicicletas o que torna possível o inter-face entre comboio e bicicleta nas deslocações diárias para os empregos. Neste aparcamento existe ainda uma oficina para reparação e aluguer de bicicletas, e ainda uma agência de aluguer de carros, em regime de partilha (trata-se de um sistema denominado Car Sharing, que funciona em toda a Alemanha, e que permite o uso de carros por horas ou dias a um preço inferior ao do aluguer tradicional).
A agência de Car Sharing da cidade possui mais de 100 veículos. Muitos dos seus utentes vivem no bairro super-ecológico de Vauban, uma zona sem carros nem fumos, e que é abastecido por energia solar. Antigo quartel das forças francesas de ocupação, Vaubon passou em 1993 para as mãos da autarquia que decidiu construir aí um bairro ecológico. Nele a maioria das casas têm placas solares para o seu consumo energético. Algumas nem sequer precisam de aquecimento em virtude da sua construção ter sido feita com base em materiais que aproveitam o máximo o calor do sol e que proporcionam um óptimo isolamento térmico. Outras habitações produzem mais energia do que precisam, pelo que podem vendê-la à empresa de energia eléctrica local, amortizando assim mais facilmente o investimento realizado.

Vauban é um idílio ecologista com algum travo orweliano. Com efeito, quem tem carro é obrigado a comprar um lugar nas duas garagens-solares que existem para o efeito, e que se situam à saída do bairro. Os que não têm carro devem anualmente comprovar essa sua situação. «Caso se venha a averiguar que alguém tem carro sem ter adquirido um local de garagem, a pessoa é multada em função das poupanças que tiver obtido por não ter adquirido um local de garagem», explica-nos Lubke, orgulhoso por este sistema de controle.
Dentro de Vaubun não é permitido estacionar, a não ser excepcionalmente; praticamente, em todo o bairro não há tráfego motorizado. Não por acaso é o bairro com mais crianças de toda a Alemanha: na verdade, as ruas servem também como pátio de jogos e de recreio. Só o eléctrico atravessa o Bairro ao longo da sua rua principal. «Preocupamo-nos que o trajecto para as paragens dos eléctricos fossem sempre mais perto do que o trajecto para as garagens, como medida dissuasora», adianta Lubke. O que constituiu um sucesso: das 500 famílias que vivem no Bairro, 400 não têm carro.

Mais de 10.000 pessoas trabalham no sector do meio ambiente na cidade e nos arredores, maioritariamente em empresas relacionadas com a energia solar, e que facturam 1.000 milhões de euros ao ano. Com 36,7 vóltios por habitante e 11.223 colectores térmicos, Friburgo lidera a classificação das cidades com maior uso de energia solar.
Na cidade estão sedeados os principais institutos de investigação solar do país. As placas não estão apenas nas casas particulares, mas ainda em certos edifícios de serviços, junto da estação de comboios, cobrindo ainda outros edifícios e equipamentos colectivos.
Fonte: El País, 15 de Janeiro de 2007

16.1.07

Exposição de arte na Tate Britain recria os protestos contra Blair e a guerra no Iraque

O prestigiado museu Tate Britain em Londres tornou-se esta semana no mais recente cenário às críticas e contestação da política do governo Blair, nomeadamente a intervenção e a ocupação militar do Iraque pelas tropas britânicas, graças a uma exposição acabada de estrear do artista londrino Mark Wallinger e intitulada State Britain (O Estado da Grã-Bretanha).

No grande corredor central da galeria do museu Mark Wallinger recria com cartazes, fotografias e slogans a campanha pública a favor da paz protagonizada pelo pacifista Brian Haw em frente do Parlamento inglês ao longo de largos meses e que foi destruída pelas forças policiais um acto que foi qualificado de atentatórias das liberdades públicas. Caricaturas políticas de Blair e Bush, cartazes com mensagens de denúncia contra a guerra do Iraque, bandeiras de paz, slogans religiosos, bonecos, fotos e recortes de imprensa constituem o material de que é feita a instalação que pretende ser uma reprodução exacta do protesto de Brian Haw em Westminster.


Recorde-se que este último, um típico inglês originário do interior rural do país, instalou-se na parte central da praça de Westminter em Junho de 2001 como protesto contra as sanções impostas ao Iraque e o seu «acampamento» da paz (que se estendeu por 40 metros) foi enchendo-se ao longo de meses com fotografias de crianças mutiladas, de estendais de roupa sangrenta, e até de ursos de peluche de crianças mortas em resultado da guerra. Nos cartazes aí colocados pedia-se simplesmente a paz e acusava-se directamente o primeiro-ministro inglês de mentir e de matar. Acontece que na noite de 23 de Maio de 2006, 78 agentes da polícia inglesa tomaram de assalto o acampamento da paz e destruíram grande parte dos símbolos de protesto contra a guerra, tendo as autoridades policiais chegado ao extremo de invocar uma lei contra o crime organizado aprovada em 2005 que criminaliza a organização e a participação em manifestações nas imediações do Parlamento de Werstminster sem prévio consentimento do chefe da Scotland Yard. Não obstante estas medidas, o activista anti-guerra manteve-se no local mas com a sua acção drasticamente restringida.


Na galeria Duveen, no corredor central da Tate Britain, Mark Wallinger recria numa reprodução fiel todo o acampamento de Haw com a parafernália de símbolos que o pacifista utilizou ao longo dos largos meses que se tem mantido em frente a Westminster.«Trata-se de uma mensagem política muito clara», declarou o autor da instalação, Mark Wallinger, de 47 anos, e que foi um dos participantes das exposições do coleccionista Charles Saatchi, que divulgaram as obras dos chamados Jovens Artistas Britânicos na década de 90. Sempre interessado por assuntos da actualidade, o artista define a sua arte como «a representação da política e a política da representação».
A exposição State Britain estará patente na Tate Britain até o próximo 27 de Agosto e segundo Clarrie Wallis, a comissária da instação, «chama a atenção para a liberdade de expressão, sobre a erosãp das liberdades civis, e solicita a acção dovisitante».Por sua vez, Anthony Reynolds, director da galeria que representa Wallinger, reconhece que se trata de «uma peça muita política,mas fundamental pois permite observar algo que todos conhecemos de uma forma diferente, intensa e concentrada.» .
A crítica de arte do jornal Guardin, Maev Kennedy, qualifica a instalação como «the most extraordinary work of arte ver installed in the gallery».

(consultar http://blogs.guardian.co.uk/art/2007/01/wallinger.html)


Reproduzimos a seguir o artigo publicado no The Guardian de 16 de janeiro sobre o assunto.

Bears against bombs


They passed a law to ban him, but they can't keep Brian Haw out of the Tate: his five-year protest against Tony Blair has been lovingly restaged by the artist Mark Wallinger

The barricades came down yesterday morning, when the temporary walls obscuring Mark Wallinger's State Britain were finally removed. Running the length of the central spine of Tate Britain is a near-perfect, life-sized replica of the one-man camp that peace campaigner Brian Haw occupied on Parliament Square between June 2001, when he first began his protest against the economic sanctions imposed on Iraq, and the night in May 2006 when the police removed almost the entirety of Haw's belongings

In between, the twin towers fell, Afghanistan was invaded, and sanctions against Iraq turned into occupation and civil war. London and Madrid were bombed, and the 2005 Serious Organised Crime and Police Act was passed, forbidding any unauthorised protests within a kilometre of Parliament Square. It was said that terrorists might use protests such as Haw's as a cover for their activities - though it appeared to have been designed principally to move Haw on.

Over the years, Haw's public protest opposite the Houses of Parliament grew to become a rambling, gap-toothed, 40-metre-long wall of banners, placards, rickety, knocked-together information boards, handmade signs and satirical slogans. Banksy donated a big painting of soldiers. Sun-bleached rainbow peace flags flapped overhead. The placards declaimed "You Lie Kids Die BLIAR" and "Christ Is Risen Indeed!". Road-spattered appeals to motorists to "Beep For Brian" stood beside an accumulation of material that could only be read or understood close-up. Photocopied warzone reports, commemorative crosses, entreaties and signs that have crept in from other people's protests - "Pensioners want a slice of the cake, not crumbs" - compete, and an estate agent's board has even found its way amongst the piles of stuff on the far side of Haw's placards, the accumulation of a near-five-year tenure.

Lovingly copied and recreated, this has all made its way into Wallinger's work. All that is missing is the indomitable Haw himself, with his megaphone and his badge-encrusted floppy hat. He is still camped on the grass opposite parliament, but now occupying only a fraction of the space he once had. A few days before Haw's stuff was all taken away, Wallinger took hundreds of photographs of the entire, splendidly ramshackle, ranting, unmissable eyesore on which he based his reconstruction. Here is an impromptu, cobbled-together monument to a "fallen comrade", constructed from a plastic traffic cone, several lengths of taped-together garden cane and a homemade flag. There, a group of dolls in Victorian dresses is lying beside a plastic baby with missing arms and legs, bloodied with paint. Mutilated soft toys, placard-waving and card-carrying teddy bears - bears against bombs, bears saying "too much to bear" - and soft toys piled in a paper coffin.

It all has a cumulative, creepily sentimental horror. It also, weirdly, reminds one of all sorts of artwork one has seen before: the installations of Mike Kelley; the placards, swathes of photocopied material and detritus of Thomas Hirschhorn. With its recreation and representation of an individual's lair, and the stuff they surround themselves with - Haw's Tesco biscuits are here, a sleeping bag sandwiched between layers of tarpaulin, his rolling tobacco and his flagons of drinking water, and what looks like pee - it is not unlike the fictional habitats of Mike Nelson's work, or even of some of Beuys's placards and survival packs.

State Britain could be interpreted as a continuation of Haw's protest by other means, in such a place and in such a way as to mock a law designed to curtail our freedom to protest. The whole thing is a trompe l'oeil fabrication, a still life, a 2007 history painting - the modern equivalent of Géricault's Raft of the Medusa, Goya's Third of May and Manet's Execution of the Emperor Maximillian, all of which referred in contentious ways to world events. Taken as a whole, it is the sort of thing one might find documented in Jeremy Deller's Folk Archive, his collection of the amateur and the inadvertent.

For State Britain, Wallinger has also taped a line on the floor, indicating an arc of the kilometre cordon as it passes through the gallery. It first appears under a display of wrapping paper in the Tate Britain shop, crossing the floor and disappearing under a display of art-technique manuals. It crosses a room currently dominated by a bust of TE Lawrence, hitting the wall beneath Jacob Kramer's Jews at Prayer; it passes Jacob Epstein's alabaster Jacob and the Angel, and speeds beyond Nicholas Hilliard's portrait of Elizabeth I. It slides past a vitrine displaying the first English translation of the Qur'an, published in 1649, just four months after the beheading of Charles I. Finally, the line hits the wall under George Stubbs's 1785 painting of Reapers, his immaculately turned-out peasants decorously working the farm. The line may be an arbitrary slice through the building, but it adds to the effect, and creates its own resonances and echoes. The line joins as much as it divides, and places Wallinger's work in a conversation with the rest of Tate Britain.

Brian Haw is a driven individual, whose entire life is given over to his kerbside protest. To ask what drives him, apart from his moral and political convictions, is to diminish the exemplary nature of his protest, whatever one might think of the manner of his dissent. Yet he is not unlike the figures Wallinger has focused on before. Throughout his career, Wallinger has returned again and again to the theme of Englishness as a trope for identity, and to the events, myths, faiths and individuals that make up a sense of national belonging. In Passport Control, 1988, Wallinger graffitied over his own portrait, turning his photo into various ethnic stereotypes (orthodox Jew, Arab, Chinese). In his 2000 film Threshold to the Kingdom, he showed passengers emerging through passport control at London City Airport, in slo-mo and to the strains of Allegri's setting of the 51st Psalm. We see their ecstatic expressions and relief, as though they had indeed passed a spiritual, as much as a bureaucratic, test. The film is deeply sad, a miserable miracle.

Everyone from the Women's Institute to the far right has claimed William Blake's Jerusalem for themselves, but in his OWN work Wallinger reminds us of Blake's radicalism; he has used the word Jerusalem as if it were revolutionary graffiti, spraying it over his own rendering of a painting by George Stubbs.

Wallinger once recorded a performance of the comedian Tommy Cooper and played it backwards, reflected in a mirror, a sort of loving homage to Cooper's anarchic stage confusion. Recreating Haw's protest is itself a kind of reversal, as well as a duplication. By bringing the protest inside an institution, Wallinger gives us a chance almost to freeze it, presenting it as a simulacrum of itself.

He is very good at teasing out meanings and metaphors. In a number of paintings and videos, he has analysed the culture of horse breeding and racing - in which he saw the dynamics of race, sex and class at work. In 1994, he bought a real live racehorse, calling it A Real Work of Art and registering his own racing colours.

Looking at State Britain, I am reminded of numerous earlier works by the artist. Haw's protest stems from his evangelical faith. In several works, including 1999's Ecce Homo, Wallinger has examined what kind of faith an artwork might now exemplify or entail. Ecce Homo placed a cast of an anonymous young man dressed as Christ on the empty plinth in Trafalgar Square in 1999. Wallinger's Christ was not just an everyman, he was a stand-in. What, I asked a few months ago on these pages, would be the reaction to the placing of such an overt Christian symbol there today? It might well be taken as a provocation. Certainly, it is within the sacred kilometre.

Is State Britain a protest, a readymade, a simulation or an appropriation? It is all these things - an installation, an institutional critique, an example of relational aesthetics. It touches all bases, without becoming tedious or hectoring. The title may be a poor pun, but the work itself is clever and barbed. It makes us think of the mores of recent installation art, about the "public" nature of a space such as Tate Britain's Duveen Galleries and about the Britishness of the gallery itself - what is and is not exhibited here? State Britain raises more questions than it answers, but it is not glib. While Haw's placards announce the campaigner's beliefs, Wallinger takes a step back from the slogans themselves. Walking among the banners, you realise you look at them differently here.

Wallinger is asking us to view his recreation of Haw's stuff as art (even if some of it, like Banksy's image, already is art of a sort); he is not asking us to see Haw himself as an artist. Instead, he wants us to think more in terms of place and context - another of modern art's modes, the site-specific. In an accompanying exhibition publication, Wallinger presents a montage of writings - taken from George Orwell and Thomas Jefferson, the journalist Henry Porter and Tony Blair himself ("When I pass protesters every day at Downing Street, and believe me, you name it, they protest against it, I may not like what they call me, but I thank God they can. That's called freedom").

Since the 1960s, many artists, from Hans Haacke to Daniel Buren, Cildo Meireles to Allan Sekula, have made work which offers a critique of the institution that houses it, and the structures, financial and ideological, that support it. However critical such art may itself be, it also serves to highlight the institution's liberalism, by allowing it to be there in the first place. Such inclusiveness, as Susan Sontag argued, defuses the very criticism being offered. What State Britain offers is a sort of portrait of British institutions at a time of war, of the lip service government pays to dissent, on the attacks being made on our freedoms in the name of security, on the impotence of protest and of art itself as a form of protest. How rich this work is, and how saddening our state.

About the artist

State Britain is Wallinger's first major project in London since Ecce Homo 1999, one of his most celebrated works to date, a modern day, life-size Christ figure crowned with barbed-wire thorns that temporarily occupied The Fourth Plinth in Trafalgar Square, London.
Wallinger was born in Chigwell in 1959. He lives and works in London. He studied at Chelsea School of Art, London (1978-81) and Goldsmiths’ College, London (1983-85). Since the mid-1980s Wallinger’s primary concern has been to establish a valid critical approach to the ‘politics of representation and the representation of politics’ and has often explored issues of the responsibilities of individuals and those of society in his work. He was shortlisted for the Turner Prize in 1995 and represented Britain at the 49th Venice Biennale in 2001

http://www.tate.org.uk/britain/exhibitions/wallinger/default.shtm

14.1.07

Semana mundial da vida lenta (14 a 22 de Janeiro)


Semana mundial da vida lenta - International Slow Down Week (14 a 20 de Janeiro)


Tu andas depressa demais…
Vive mais devagar!



Nunca é tarde para reduzir a pressa do lufa-lufa diário, repensar os nossos objectivos ( e desejos) em prol de um modo de vida mais saudável e mais respeitador da natureza e dos outros seres humanos.

Se estás disposto a experimentar um estilo de vida com um ritmo diferente, então vem connosco celebrar mais uma Semana da Vida Lenta ( International Slow Down Week), entre 14 e 20 de Janeiro de 2007.


Durante uma semana,

Em vez de andares a correr atrás do autocarro ou a tentares safar-te do trânsito caótico, opta por andares a pé.

Em vez de recorreres às refeições pré-preparadas e à comida rápida, experimenta fazer em casa uma refeição com a tua família ou os teus amigos

Em vez de ligares a televisão e o computador, como fazes sempre quando chegas a casa, porque não ir buscar um jogo de mesa, sentares-te e começares a jogar com quem vives ou com quem está mais próximo de ti.

E em vez de ires trabalhar, tira um dia de descanso, e vai dar um longo passeio, aproveitando a tarde para recuperares energias.


Contudo, seguindo ou não estas sugestões, durante esta semana, o que quer que faças, fá-lo devagar e lentamente …

www.adbusters.org

www.greenevents.co.uk/london/new-view.php?new_id=1244

Ler é um acto de rebeldia !

Autor de uma «História da Leitura», livro que constituiu um marco no universo dos leitores, toda a obra de Alberto Manguel ( nascido a 1948 em Buenos Aires) não faz mais que recrear o mundo dos livros e dos autores que o protagonizam. Nos próximos dias é editado (em castelhano) um seu novo livro «La biblioteca de noche»(A biblioteca da Noite) , que é uma viagem pelas grandes bibliotecas do mundo: desde a legendária Biblioteca de Alexandria fundada pelos ptolomeus no século III antes de Cristo, até às bibliotecas que podemos hoje desfrutar, para terminar, por fim, na figura da biblioteca como local, um local a que sempre se regressa.


O amor pelo livro nasceu em Manguel, segundo o próprio, de forma espontânea e rápida: «Era uma criança adulta, e quem me criou foi um ama, com quem aprendi o inglês e o alemão, as minhas duas línguas maternas, e ela, que não sabia muito bem o que era uma criança, punha à minha disposição os livros, e uma vez por semana íamos comprar um. Mas a paixão por eles era uma coisa minha, pois rapidamente notei que os livros eram uma forma de me abrir ao mundo. Passei a infância de país para país, e voltar aos livros à noite era para mim uma forma de voltar ao conhecido». Filho de diplomatas, foi certamente ao longo dessa infância errante quando nasceu o que hoje é um sonho realizado: a construção de um edifício onde alberga a sua própria biblioteca.

O local eleito pelo autor de «Dicionário dos lugares imaginários» chama-se Le Presbytère e localiza-se em Mondion, uma pequena aldeia perto da aldeia francesa de Poitiers, erguida numa colina a sul do Loire. O que Manguel encontrou nesta antiga propriedade da Igreja, que perdera o seu património com a evolução Francesa, foi apenas um muro que a separava do prédio vizinho. Hoje no local ergue-se uma magnífica nave, construída com pedra arenisca, e contígua à qual está a casa do escritor que fica encosta ao muro com vitrais da igreja do século XV. Logo que flanqueamos a porta notamos que se trata de uma biblioteca de um romântico. Salpicados com detalhes e cumplicidades pessoais, as prateleiras da biblioteca distribuem-se pelos dois pisos. O escritor trabalha no de cima, que possui uma vista invejável para o jardim: um amplo campo com bétulas, abetos e pinheiros. Manguel faz questão de salientar de como ali se ouve o silêncio. E a verdade é que neste épico lugar, em cujo horizonte próximo se encontram os túmulos de Leonor de Aquitânia e de Ricardo Coração de Leão há algo de parecido.
Próximos do seu gabinete estão os livros de literatura espanhola e portuguesa e os seus livros de referência: autores clássicos, exemplares de livros sobre o livro, coleccionados na altura em que escrevia a sua história da leitura, e títulos de literatura árabe. Entre as distintas edições do D. Quixote, está uma edição de 1782 que comprou numa velha livraria de Madrid, e em que sobressai um curioso retrato real do imaginário narrador do Quixote, Cide Hamete Benengel. Uma fotografia do túmulo de Borges em Genebra, um retrato do próprio Manguel, realizado por Silvina Ocampo, quando ele tinha 17 anos e uma variada colecção de fotografias dos seus filhos e amigos completam o horizonte visual de que se rodeia o escritor. O grosso da colecção de livros está no piso inferior.


Uma vez que corresponde a uma biblioteca tão pessoal, a maioria dos livros têm a sua própria história: «Os Contos dos Irmãos Grimm foi o primeiro livro que comprei», conta Manguel. «Aprendi a ler em Israel, onde o meu pai era embaixador, e onde podia ir à livraria que era ao lado da nossa casa, e escolher os livros que quisesse. Tinha cinco ou seis anos quando comprei este exemplar. Além disso, encontramos diversas edições assinadas por Juan Ramón Jiménez, todo a obra de Pérez Galdós nas edições da Biblioteca Castro, as obras completas de Kippling com a assinatura do autor, vários livros de Borges com dedicatória, e um livro do próprio Kipling que tinha pertencido ao autor de O Aleph e que este ofereceu a Manguel quando tinha 17 anos e teve de deixar Buenos Aires.

O ponto de partida do seu novo livro «A Biblioteca da Noite» é a interrogação sobre o sentido do universo, mas qual é a necessidade de encontrarmos um sentido? «Os seres humanos podem ser definidos como animais leitores. Achamos que o mundo natural tem de ser decifrado. Vivemos então esse paradoxo: sabemos por um lado que este mundo não tem nenhum sentido e ao mesmo tempo perguntamos pelo porquê das coisas.» A resposta, Manguel não tem dúvidas, está nos livros. Por isso lamenta que o livro não goze hoje do prestígio de outros tempos: «As características que a tecnologia possui são as que, por razões económicas, as nossa sociedade mais valoriza. Há 50 anos a biblioteca estava no centro da sociedade, ninguém questionava que ler era importante, mas o actual capitalismo selvagem não tolera um consumidor lento. Ora a literatura, ao contrário, exige lentidão, exige que pares, que reflictas, que nunca chegues a uma conclusão. Nunca poderás concluir, por exemplo, que o D.Quixote está louco ou não. Como sociedade temos que dizer que o acto intelectual é importante. Não podes pedir a um adolescente que leia quando ele vê que toda a actividade que não te dê um lucro imediato e visível é olhada como inútil. Acho que não existem seres humanos não leitores. Na actual sociedade somos como que missionários de uma religião em que a igreja central já não acredita.»



Uma das bibliotecas preferidas por Alberto Manguel é a Biblioteca circular de Aby Warburg, em Hamburgo, à qual dedica um capítulo do seu livro. Herdeiro de uma grande fortuna, Warburg deixou-a nas mãos do seu irmão com a condição de que reservasse o dinheiro suficiente para manter a sua biblioteca e pudesse comprar os livros que quisesse. O lema desse homem tão singular era «vive, e não faças mal». Mas há outras bibliotecas que são exemplares para Manguel: « A London Library, uma biblioteca circular, que te envia os livros que queiras, onde quer que estejas, e compram os livros que precisas, e para a qual os livros não são peças de museu. E há ainda as bibliotecas andantes de Colômbia, os biblioburros que servem para chegar às povoações perdidas na Serra. Alguém da aldeia trata de esvaziar a bolsa, para algum tempo depois voltar a enchê-la.»



Os livros nunca se deram bem com o poder, e por isso é que o escritor insiste na necessidade da leitura como elemento de protecção: «A história do livro é paralela à da censura. Uma das coisas essenciais que a leitura proporciona é aprender a pensar, e não há nada mais perigoso para o poder que um povo pensante. A tarefa do político é mais fácil se tiver um povo idiota. Tiram-nos os livros para educarem-nos na estupidez, e isso sempre foi o objectivo dos ditadores. Mas Manguel salienta outras formas de censura na actualidade:« o editor cuja vocação era a literatura já não pode trabalhar da mesma maneira porque tem de sacar um proveito financeiro, e isso elimina 90% da literatura. Se Borges apresentasse hoje um novo livro não poderia publicá-lo. Um editor baseia-se nas vendas anteriores desse autor, e se elas não tiverem sido satisfatórias, deixa de o publicar. Essa situação complica-se ainda mais porque agora existem os compradores das grandes superfícies, e são eles que cada vez mais decidem. No mundo anglo-saxão à mesa do editor sentam-se o crítico, o gerente e esse comprador que opina sobre o livro, e se se aceita as suas condições são comprados 50.000 exemplares, sempre com a possibilidade, no entanto, de os devolver. Esta situação, em que nos encontramos, terá consequências catastróficas.»



Será a leitura um acto de rebeldia?
«Sempre o foi: primeiro porque se valoriza a acção e não a inacção, e porque suscita a reflexão, e isso é sempre perigoso. E ainda porque graças à leitura começamos a saber quem somos. No futuro, ler será não só um acto de rebeldia como também um acto de sobrevivência. Se nos resignarmos, como leitores, a que nos impeçam de ler a boa literatura, acabamos por nos condenar a ser menos humanos. É um risco que não podemos correr. E estamos à beira de uma catástrofe, porque depois de termos destruído o mundo natural, estamos a fazer tudo para destruir também o mundo intelectual. Por isso há que agir agora. O que significa dizer agir hoje mesmo.»



O lema a que preside à biblioteca de Le Presbystère é «Lê o que quiseres», porquanto para Manguel o amor aos livros não se pode ensinar: « O amor aos livros é algo que se aprende, mas não se pode ensinar. Da mesma forma que ninguém nos pode obrigar a apaixonarmo-nos, também ninguém nos pode obrigar a amar um livro. São coisas que ocorrem por razões misteriosas. Mas do que estou convencido é que para cada um de nós há um livro que nos espera. Nalgum lugar da biblioteca há uma página que foi escrita para nós.»

(artigo de Maria Luísa Blanco, publicado na edição de13 de Janeiro de 2007 do jornal El País, com o título «Leer será en el futuro un acto de rebeldia»)

13.1.07

Defesa da Alegria, por Mario Benedetti


Fui buscar ao http://citizenmary.blogspot.com/ esta lindíssima poesia de Mario Benedetti, e com ele também me apetece defender a alegria face ao oportunismo e aos vendilhões do riso. A tradução é livre mas segue-se depois o original.

Defender a alegria, por vezes até contra a própria alegria, e adoptá-la como a minha barricada....


DEFESA DA ALEGRIA

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

Defender a alegria como um princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos diagnósticos graves

Defender a alegria com uma bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

Defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros

dos suicidas e dos homicidas
das férias e do tédio
da obrigação de estarmos alegres

Defender a alegria como um certeza
Defendê-la do óxido e da manha
Da famosa ilusão do tempo
Do negligente e do oportunismo
Dos proxenetas do riso

Defender a alegria como um direito
Defendê-la de deus e do Inverno
Das maiúsculas e da morte
Dos apelidos e dos lamentos
Do azar e também da alegria


(tradução livre da responsabilidade do autor deste blogue)

Defensa de la alegría

Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar y también de la alegría.

Retirado de:
http://citizenmary.blogspot.com/

Liberalismo e escravatura são afinal irmãos siameses!

Retirado de:
http://animot.blogspot.com/


Contra-História do Liberalismo, de Domenico Losurdo, é um estudo sobre a relação íntima entre a defesa do liberalismo político e econômico e a prática e defesa da escravidão contra negros e contra pobres.


No livro Contra-História do Liberalismo,[1] Domenico Losurdo mostra que havia, na Inglaterra, nas suas colónias na América do Norte, e na Holanda, entre os séculos XVII e XIX, uma estreita relação entre a defesa do liberalismo e a defesa da escravidão, o que é paradoxal, pois, como lemos acima, supostamente o liberalismo é "uma ideologia ou corrente do pensamento político que defende a maximização da liberdade individual mediante o exercício dos direitos e da lei".
Raramente os defensores do liberalismo se colocaram contra a escravidão, e frequentemente a defenderam ou lucraram com a mesma. Locke, por exemplo, um dos pais do liberalismo, defendeu a escravidão e investiu em empresas de tráfico de escravos.



Tais práticas e idéias mostram que, historicamente, o liberalismo tendeu a ser a defesa da maximização da liberdade individual de um pequeno grupo de pessoas, ao mesmo tempo em que foi uma teoria e prática da desumanização de pessoas de outras etnias. Historicamente, os teóricos do liberalismo negaram a humanidade a irlandeses católicos, negros africanos e ameríndios, dizendo que o tratamento brutal aos mesmos lhes faria bem, pois lhes levaria à civilização



John C. Calhoun,[2] importante estadista e filósofo político dos EUA durante o século XIX, sétimo vice-presidente dos EUA, ao mesmo tempo que, sob inspiração de Locke, defendia apaixonadamente a liberdade do indivíduo, não via a escravidão como um mal necessário, mas sim como um bem positivo, essencial para a civilização, por ser uma forma de propriedade legítima, e amparada pela constituição dos EUA.[3]
John Locke, o filósofo da liberdade individual ante a lei, participa da redação da constituição da Província da Carolina, segundo a qual



[...] todo homem livre da Carolina deve ter absoluto poder e autoridade sobre os seus escravos negros seja qual for sua opinião e religião.[4]


Além disso, Locke fez sólidos investimentos no tráfico de africanos.[5]
Também houve liberais que defenderam a escravidão dos pobres. Entre eles se encontram Andrew Fletcher e James Burgh. Francis Hutcheson, o mestre de Adam Smith, tinha reservas à escravidão dos negros, mas considerava a escravidão das pessoas dos "níveis mais humildes" da sociedade como uma "punição útil".
[6] Diz ele que a escravidão dos pobres é:


[...] castigo normal para aqueles vagabundos preguiçosos que, mesmo depois de ter sido justamente advertidos e submetidos à servidão temporária, não conseguem sustentar a si próprios e às suas famílias com um trabalho útil.[7]


Adam Smith, um dos pais do liberalismo, percebeu que, no que diz respeito à escravidão, os "governos despóticos" são preferíveis aos "governos livres", pois nos últimos só os proprietários brancos têm representação política. Por isso, ele vê como desesperadora a situação dos escravos negros nos "governos livres", pois:


[...] toda lei é feita pelos seus donos, os quais nunca vão deixar passar uma medida favorável a eles.[8]


Por isso:
A liberdade do homem livre é a causa da grande opressão dos escravos [...].[9]

Tal como, no século XX, os nazistasjustificam suas ações na suposta superioridade da etnia germânica, o liberal John Stuart Mill defende o dominação dos ocidentais sobre os outros povos por considerar sua própria etnia, ocidental, superior às outras etnias. Para ele, os outros povos estão em situação de menoridade, e por isso precisam, para seu próprio bem, obedecer absolutamente aos ocidentais. Submetendo-se a tal ditadura pedagógica, os não-ocidentais passariam da condição selvagem à condição civilizada.[10] Mais uma vez, vê-se que a ideologia da "maximização da liberdade individual perante a lei" não é considerada nem um valor humano, nem um valor universal pelos liberais clássicos.