11.1.08

Ode ao burguês (poema de Mário de Andrade)

Ode ao burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel

o burguês-burguês!

A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
"- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...



Mário de Andrade
(biografia retirada da wikipedia)

Mário Raul de Morais Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945) foi um poeta, romancista, crítico de arte, folclorista, musicólogo e ensaísta brasileiro.

Nasceu, estudou e iniciou a sua carreira musical e literária na cidade de São Paulo. Em 1917 foi publicado o seu primeiro livro de versos: Há uma gota de sangue em cada poema.
A sua segunda obra, Paulicéia desvairada, colocou-o entre os pioneiros do movimento modernista no Brasil, culminando, em 1922, como uma das figuras mais proeminentes da histórica Semana de Arte Moderna. Alguns dos seus livros de poesia mais conhecidos são: Losango cáqui, Clã do jabuti, Remate de males, Poesias e Lira paulistana.
Publicou, em 1928, Macunaíma o herói sem nenhum caráter e Ensaio sobre a Música Brasileira.
Em 1938 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu o cargo de diretor do Instituto de Artes na antiga Universidade do Distrito Federal (hoje Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Regressando a São Paulo em 1942, regeu durante muitos anos a cadeira de História da Música no Conservatório Dramático e Musical.
Possuidor de uma cultura ampla e profunda erudição, foi o fundador e primeiro diretor do Departamento de Cultura de São Paulo da Prefeitura Municipal de São Paulo, onde fundou a Sociedade de Etnologia e Folclore, o Coral Paulistano e a Discoteca Pública Municipal.
Foi amigo e compartilhou os ideais estéticos modernistas de Oswald de Andrade.

1893: Nasce Mário Raul de Moraes Andrade, no dia 9 de outubro, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade; na Rua Aurora, 320, em São Paulo - SP.

1904: Escreve o primeiro poema, cantado com palavras inventadas. "O estalo veio num desastre da Central durante um piquenique de subúrbio. Me deu de repente vontade de fazer um poema herói-cômico sobre o sucedido, e fiz. Gostei, gostaram. Então continuei. Mas isso foi o estralo apenas. Apenas já fizera algumas estrofes soltas, assim de dois em três anos; e aos dez, mais ou menos, uma poesia cantada, de espírito digamos super realista, que desgostou muito minha mãe. "— Que bobagem é essa, meu filho?" — ela vinha. Mas eu não conseguia me conter. Cantava muito aquilo. Até hoje sei essa poesia de cor, e a música também. Mas na verdade ninguém se faz escritor. Tenho a certeza de que fui escritor desde que concebido. Ou antes... Meu avô materno foi escritor de ficção. Meu pai também. Tenho uma desconfiança vaga de que refinei a raça..." Este o depoimento do escritor a Homero Senna, publicado no livro "República das Letras", Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1996, 3a. edição, sobre como havia começado a escrever.

1905: Ingressa no Ginásio N. Sra. do Carmo dos Irmãos Maristas.

1909: Forma-se bacharel em Ciências e Letras. Terminado o curso multiplica leituras e freqüenta concertos e conferências.

1910: Cursa o primeiro ano da faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo.

1911: Inicia estudos no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo.

1913: Morre seu irmão Renato, aos 14 anos, devido a complicações decorrentes de uma cabeçada em jogo de futebol. Abalado pelo fato e trabalhando em excesso, Mário tem uma profunda crise emocional. Passa um tempo em Araraquara, na fazenda da família. Quando retorna desiste da carreira de concertista devido a suas mãos terem se tornado trêmulas. Dedica-se, então a carreira de professor de música.

1915: Conclui curso de canto no Conservatório.

1916: Conclui, como voluntário, o Serviço Militar.

1917: Diploma-se em piano pelo Conservatório. Morre seu pai. Publica Há uma gota de sangue em cada poema, poesia, sob o pseudônimo de Mário Sobral.. Primeiro contato com a modernidade na Exposição de Anita Malfatti. Primeira viagem a Minas: encontra o barroco mineiro, visita Alphonsus de Guimarães. Já iniciou sua Marginália.

1918: Recebe Diploma de Membro da Congregação Mariana de N. Sra. da Conceição da Igreja de Santa Ifigênia. Noviciado na Ordem Terceira do Carmo. Nomeado professor no Conservatório. Escreve contos e poemas. Colabora ocasionalmente em jornais e revistas como crítico de arte e cronista; em A Gazeta e O Echo (São Paulo).

1919: Profissão na Ordem Terceira do Carmo à 19 de março. É colaborador de A Cigarra, O Echo e A Gazeta. Viagem à Minas Gerais, visitando as cidades históricas.

1920: Lê obras Index . Faz parte do grupo modernista de São Paulo. Colabora em Papel e Tinta (São Paulo), na Revista do Brasil (Rio de Janeiro - até 1926) e na Illustração Brasileira (Rio de Janeiro - até - 1921).

1921: É professor de História da Arte no Conservatório. Pertence à Sociedade de Cultura Artística. Está presente no lançamento do Modernismo no banquete do Trianon. É apresentado ao público por Oswald de Andrade através do artigo "Meu poeta futurista" (Jornal do Commércio São Paulo). Escreve "Mestres do passado" para o citado jornal.

1922: Professor catedrático de História da Música e Estética no Conservatório. Participa da Semana de Arte Moderna em São Paulo, de 13 à 18 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo. Faz parte do grupo da revista Klaxon, publicando poemas e críticas de literatura, artes plásticas, música e cinema. Escreve Losango Cáqui, poesia experimental. Inicia a correspondência com Manuel Bandeira, que dura até o final de sua vida. Publica Paulicéia desvairada, poesia.

1923: Estuda alemão com Kaethe Meichen-Bosen, de quem se enamora. Faz parte da revista Ariel, de São Paulo. Escreve A escrava que não é Isaura, poética modernista. Continua a colaborar na Revista do Brasil (Rio de Janeiro).

1924: Realiza a histórica "Viagem da Descoberta do Brasil", Semana Santa dos modernistas e seus amigos, visitando as cidades históricas em Minas. Colabora em América Brasileira (contos de Belazarte), Estética e Revista do Brasil (Rio de Janeiro).

1925: Colabora n'A Revista Nova de Belo Horizonte. Publica A Escrava que não é Isaura: discurso sobre algumas tendências da poesia modernista. Adquire a tela de André Lhote, Futebol, através de Tarsila.

1926: Férias em Araraquara, escrevendo Macunaíma. Publica Primeiro andar, contos, e Losango Cáqui (ou Afetos Militares de Mistura com os Porquês de eu Saber Alemão), poesia. Escreve poemas de Clã do Jaboti. Colabora na Revista de Antropofagia, na Revista do Brasil e em Terra Roxa e Outras Terras.

1927: Colabora no Diário Nacional de São Paulo: crítico de arte e cronista (até 1932, quando o jornal é fechado). Estréia como romancista, publicando Amar, verbo intransitivo, que choca a burguesia paulistana com a história de Carlos, um adolescente de família tradicional iniciado nos prazeres do sexo pela sua Fraülein, contratada por seu pai exatamente para essa tarefa. Lança, também, o livro Clã do Jaboti, de poesias. Realiza a primeira "viagem etnográfica": percorrendo o Amazonas e o Peru, da qual resulta o diário O Turista Aprendiz.

1928: Membro do Partido Democrático. Realiza sua segunda "viagem etnográfica": ao Nordeste do Brasil (dez. 1928 - mar. 1929). Colabora na Revista de Antropofagia e em Verde. Publica Ensaio sobre a Música Brasileira e Macunaíma - o Herói sem nenhum caráter, onde inova com audácia e rebela-se contra a mesmice das normas vigentes. Com enorme sucesso a obre repercutiu em todo o país por seus enfoques inéditos. Sob um fundo romanesco e satírico, aí se mesclavam numa narrativa exemplar a epopéia e o lirismo, a mitologia e o folclore, a história e o linguajar popular. O personagem-título, um "herói sem nenhum caráter", viria a ser uma síntese, o resumo das virtudes e defeitos do brasileiro comum.

1929: Inicia coluna de crônicas "Táxi", no Diário Nacional. "Viagem etnográfica" ao Nordeste, colhendo documentos: música popular e danças dramáticas. Rompimento da amizade com Oswald de Andrade. Publica Compêndio de História da Música.

1930: Apóia a Revolução de 30. Defende o Nacionalismo Musical. Publica Modinhas Imperiais, crítica e antologia, e Remate de Males, poesia.

1933: Completa 40 anos. Faz crítica para o Diário de São Paulo (até 1935).

1934: Diplomado Professor honorário do Instituto de Música da Bahia. Cria e passa a dirigir a Coleção Cultural Musical (Edições Cultura Brasileira - São Paulo). Colabora em Festa (Rio de Janeiro), Boletim de Ariel. Publica Belazarte, contos, e Música, Doce Música, crítica.

1935: É nomeado chefe da Divisão de Expansão Cultural e Diretor do Departamento de Cultura. Publica O Aleijadinho e Álvares de Azevedo.

1936: Deixa de lecionar no Conservatório. Nomeado Chefe do Departamento de Cultura da Prefeitura.

1937: É contra o Estado Novo.

1938: Transfere-se para o Rio de Janeiro (27 jun.), demitindo-se do Departamento de Cultura (12 mai.). É nomeado professor-catedrático de Filosofia e História da Arte na Universidade do Distrito Federal e colabora no Diário de Notícias daquela cidade. Publica Namoros com a Medicina, estudos de folclore.

1939: Cria a Sociedade de Etnologia e Folclore de São Paulo, sendo seu primeiro presidente. Organiza o 1o. Congresso da Língua Nacional Cantada (jul.). Projeta a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, SPHAN. É nomeado encarregado do Setor de São Paulo e Mato Grosso. Escreve poemas de A Costela do Grão Cão. Publica Samba Rural Paulista, estudo de folclore. É crítico do Diário de Notícias (até 1944) e colabora na Revista Acadêmica (Rio de Janeiro) e em O Estado de S. Paulo. Publica A Expressão Musical nos Estados Unidos.

1941: Volta a viver em São Paulo, à Rua Lopes Chaves 546. Está comissionado no SPHAN. Colabora em Clima (SP).

1942: Sócio-fundador da Sociedade dos Escritores Brasileiros. Colabora no Diário de S. Paulo e na Folha de S. Paulo. Publica Pequena História da Música.

1943: Publica Aspectos da Literatura Brasileira, O Baile das Quatro Artes, crítica, e Os Filhos de Candinha, crônicas.

1944: Escreve Lira Paulistana, poesia.


Um capítulo à parte em sua produção literária sem fronteiras é constituído pela correspondência do autor, volumosa e cheia de interesse, ininterruptamente mantida com colegas como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Fernando Sabino, Augusto Meyer e outros. Suas cartas conservaram, de regra, a mesma prosa saborosa de suas criações com palavras — um lirismo que, como ele disse, "nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada".
Coberto de reconhecimento pelo papel de vanguarda que desempenhou em três décadas, Mário de Andrade morreu em São Paulo SP em 25 de fevereiro de 1945.


Bibliografia:

- Há uma gota de sangue em cada poema, 1917

- Paulicéia desvairada, 1922

- A escrava que não é Isaura, 1925

- Losango cáqui, 1926

- Primeiro andar, 1926

- A clã do jabuti, 1927

- Amar, verbo intransitivo, 1927

- Ensaios sobra a música brasileira, 1928

- Macunaíma, 1928

- Compêndio da história da música, 1929 (reescrito como Pequena história da música brasileira, 1942)

- Modinhas imperiais, 1930

- Remate de males, 1930

- Música, doce música, 1933

- Belasarte, 1934

- O Aleijadinho de Álvares de Azevedo, 1935

- Lasar Segall, 1935

- Música do Brasil, 1941

- Poesias, 1941

- O movimento modernista, 1942

- O baile das quatro artes, 1943

- Os filhos da Candinha, 1943

- Aspectos da literatura brasileira 1943 (alguns dos seus mais férteis estudos literários estão aqui reunidos)

- O empalhador de passarinhos, 1944

- Lira paulistana, 1945

- O carro da miséria, 1947

- Contos novos, 1947

- O banquete, 1978

- Será o Benedito!, 1992

As sextas-feiras culturais em Águeda começam hoje com os Gaiteiros de Lisboa


A associação cultural d'Orfeu, de Águeda, que tantas iniciativas tem desenvolvido nos últimos tempos, lança-se em mais uma animação cultural com as Sextas-Feiras Culturais em Águeda. e cujo programa segue abaixo. Hoje é a vez dos Gaiteiros de Lisboa.


http://www.dorfeu.com/


Sextas-feiras culturais em Águeda


14 Março Camané


9 Maio A Naifa

13 Junho Os Melhores Sketches dos Monty Python



Dois videos dos Gaiteiros de Lisboa




A Roda de Choro de Lisboa no Grémio Lisbonense ( às 3ªs feiras) e na Fábrica Braço de Prata ( às 4ªs feiras)

RODA DE CHORO DE LISBOA
na Fábrica Braço de Prata
todas as quartas das 22h às 02h

Cada vez mais quentinha e mais rodada, a Roda de Choro, outrora nascida no histórico Espaço Fala-Só, e que viria a ressurgir no mítico Sítio do Cefalópode onde ganhou uma nova vitalidade, e enquanto mantém residência às terças no belo espaço do Grémio Lisbonense...
apresenta-se agora todas as quartas-feiras no grande espaço da Fábrica Braço de Prata.

A Roda tem-se presentado em espectáculos cheios de uma alegre nostalgia que caracteriza esta música herdada do mestre Pixinguinha.

Os chorões de Lisboa estão imparáveis, numa Roda viva!

Fábrica Braço de Prata
Rua Fernando Palha 26, 1950-131 Lisboa (Marvila)
entrada: 3 euros

ENCONTRO DOS AMANTES DO CHORINHO, GÉNERO NASCIDO DO RIO E SUBLIMADO POR PIXINGUINHA... ESTE ESTILO DE MÚSICA POPULAR BRASILEIRA É PRATICADO TAMBÉM EM LISBOA!

10.1.08

A chegada do preço do barril de petróleo aos 100 dólares foi festejada efusivamente pelos ecologistas




Numa acção espontânea e com algum humor e boa-disposição à mistura , os defensores da bicicleta como meio alternativo de deslocação, e os ecologistas em geral, festejaram em várias cidades francesas um acontecimento promissor: nada mais nada menos que o facto do preço do barril de petróleo ter atingido os 100 dólares.
Segundo os organizadores dos festejos não se trata propriamente de um má notícia, muito pelo contrário poderá ser até um motivo para levar a signficativas mudanças sociais e comportamentais e uma ocasião importante para repensar as nossas sociedades baseadas no todo-poderoso automóvel, ajudando a re-localizar a economia.
Uma dessas festas decorreu simbolicamente num antigo posto de gasolina , agora desactivado, e entre canções e diversas intervenções, a tónica comum foi sempre a necessidade das nossas sociedades se habituarem em viver sem o sacro-santo petróleo.

Ao contrário da vulgata ideológica difundida todos os dias pelos media acerca da alta do preço do petróleo como uma má notícia, esta corrida de preços poderá constituir uma ocasião única para repensarmos a economia e levar muitos de nós a privilegiar os transportes colectivos e a bicicleta, meios muito menos danosos para o ambiente.

Do que se trata é de festejar o fim de uma civilização fundada no petróleo, por muitos considerado o «ouro negro»

Um litro de petróleo economizado é mais um bocado de liberdade que se ganha!

Consultar:
http://fete100dollars.free.fr/recitlyon.html
http://fete100dollars.free.fr/
e ainda aqui

Fotografias dos festejos:












Excerto do filme utópico «Ano 01 – pára tudo e começamos a pensar» (L'an 01 - "On arrête tout et on réfléchit" ) realizado por Alain Resnais, Jacques Doillon, Jean Rouch et Gébé em 1973, que trata da primeira bicicletada realizada em França ( sob o nome de Vélorution)






A Velorution hoje em dia


Filo-Café: Suicídio/Altericídio ( sábado, 12 de Janeiro às 21h. na café Princesa, Porto)


Filo-Café: Suicídio/Altericício
12Janeiro 2008, 21h
Café Princesa
Rua Silva Tapada, 134
Porto
sábado, 12/01/08

filo-café
lançamento de livro
performances

Mais informação:
INCOMUNIDADE
http://incomunidade.blogspot.com/



Inscrições Abertas:
Para a sua inscrição indique nome, lugar de proveniência e área de intervenção, através de incomunidade@gmail.com


Mais info: 00351.965817337

9.1.08

Movimento Porta 65 Fechada: reunião preparatória no café Piolho (dia 12 de Janeiro às 18h) para o fim de semana de contestação de 9 e 10 de Fev.

Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.


O movimento Porta 65 Fechada decidiu promover um fim-de-semana de contestação ao programa Porta 65 Jovem a 9 e 10 de Fevereiro. A acção culminará no Domingo, dia 10, com concentrações simultâneas e inovadoras em Lisboa, Porto e Coimbra, sendo que outras cidades se poderão ainda juntar. Entretanto o movimento continuará a promover acções de sensibilização da população.

A decisão foi tomada, a 5 de Janeiro, na primeira reunião nacional do movimento que, apesar de ter nascido há pouco mais de um mês, já conta com o apoio directo de centenas de pessoas, e o encorajamento de movimentos similares estrangeiros.

O movimento Porta 65 Fechada continua empenhado em denunciar as graves situações criadas pelo novo programa de apoio ao arrendamento jovem, onde se incluem a definição de critérios absolutamente desajustados da realidade, que afastam os jovens que mais necessitariam do incentivo.

A contestação, que teve a sua primeira acção a 20 de Dezembro, pretende obrigar à revogação da lei que institui o Porta 65 Jovem e à criação de regras mais justas.

As candidaturas ao programa Porta 65 – Jovem terminaram no passado dia de 3 Janeiro, após sucessivos adiamentos atestando o completo falhanço desta primeira fase de candidaturas. Das 15 a 20 mil candidaturas esperadas apenas se efectuaram cerca de 3500. O movimento Porta 65 Fechada estima que entre 15 a 17 mil jovens, antigos beneficiários do programa de apoio anterior, ficaram automaticamente excluídos da possibilidade de se virem a candidatar.


Para tal, quem quiser participar na preparação deste fim de semana envie por favor um email de confirmação para a reunião que vai ser realizada este sábado 12 de Janeiro às 18h00 no café piolho ( no Porto)

Todos juntos conseguimos!



obrigada,





Reportagens das televisões sobre o assunto: o arrendamento-jovem e o Movimento Porta 65 Fechada







Convite da Casa-Viva para partilha de informação

A CasaViva tem a felicidade de ter um espaço amplo, que muito raramente é utilizado na sua plenitude. Nesse sentido, decidiu-se dedicar uma sala para coisas mais perenes, como computadores, biblio, áudio e videotecas e, igualmente importante, espaço para que gente que connosco partilha críticas e pensamentos possa divulgar as suas lutas.

Ou seja, para além de, logicamente, aceitarmos que nos enviem zines, livros, CDs, filmes e computadores que tenham a mais ou que iam deitar ao lixo, gostaríamos de vos convidar a ter uma banca permanente nesse espaço que será de acesso livre e público. Temos mesas disponíveis para colocar lá flyers, cartazes, zines, o que acharem que é importante a cada momento.

A ideia é que a banca seja alimentada pelas próprias pessoas ou colectivos que a ocupam, ou seja, é importante que, regularmente, nos enviem material novo para substituir o que a obsolescência ou o interesse de quem por cá passa fizer desaparecer.

Envia as tuas coisas para:

CasaViva
Praça Marquês de Pombal, 167

7.1.08

Mais um ano com muita… Pimenta Negra !

Este blogue nasceu em Setembro de 2004, mas a sua edição regular só começou a partir de Janeiro de 2005. O seu aparecimento deve-se a circunstâncias várias ligadas à necessidade de encontrar um canal de comunicação autónomo e alternativo que difundisse ideias que estão longe de terem eco nos media, mas ainda a certos factos que tiveram a ver com o proverbial assédio do poder, ainda que sob um disfarce rasteiro, aos meios e às lutas por justiça e igualdade social.

Algo que historicamente não é novo, mas que teve uma receptividade surpreendente por parte de quem devia estar teoricamente preparado para fazer face a tais contingências mais do que previsíveis. Certo é que da situação criada surgiu a necessidade de um blogue que rompesse aquela abordagem insidiosa, e contribuísse – como veio felizmente a acontecer – para a sua desmontagem e consequente neutralização ( até ver).

Claro está que os nossos propósitos e a razão de ser da nossa intervenção social e cultural não dependem desses factores aleatórios pois já vêm de há muitos anos atrás, e radicam numa postura e num ideário que – como não poderia deixar de ser – têm como fonte principal o percurso vivencial da pessoa que dá vida ao blogue, as suas experiências, as suas amizades, enfim, as leituras e sonhos que o percorrem.


E se há coisa que não se pode afirmar destes três últimos anos é que tenham faltado acontecimentos e peripécias na vida de um activista. Desde traições e deserções, até cumplicidades e aplausos, amargos de boca e sensações agradáveis, tudo foi possível experienciar nesta curta existência do blogue. Nada afinal que não mostrasse as grandezas e misérias de que é capaz o género humano.

O que curiosamente só vem reforçar uma das ideias-chave que estiveram na origem do Pimenta Negra e que postula como seu objectivo principal, não tanto a informação, mas sobretudo o primado da formação nas suas múltiplas facetas.

E quanto a isto temos de confessar que a experiência deste blogue é positiva. Certamente que seria possível fazer muito melhor. Mas é também insofismável que o blogue Pimenta Negra conseguiu criar, entretanto, um espaço próprio, sem sectarismos nem concessões, por onde vai passando o vendaval das ideias libertárias, inconformistas e rebeldes de quem, com espírito crítico, não alimenta ilusões quanto ao poder mas também não se refugia num vanguardismo auto-complacente.


E se há algo que nos força a prosseguir são os quase 170.000 visitantes que por cá passaram desde o dia 1 de Março de 2006, data a partir da qual decidimos incluir um contador de visitas, pelo que naquele número não estão incluídas as visitas do ano de 2005.


Mas outro dado se nos impõe: são as provas de amizade e companheirismo que vamos sentindo, a cumplicidade mas ainda a crítica de quem nos conhece e nos vai acompanhando no correr dos dias.


E reproduzo as palavras de há um ano atrás:

«Aos amigos(as) do mundo real, aos autênticos, aos que não nos abandonam nem nos traem, e lutam lado a lado, na mesma barricada, falo-lhes naturalmente quando os encontrar…
Aos amigos(as) do cyber-espaço, que espero sejam também feitos da mesma massa de autenticidade, gostaria de aqui me referir, ainda que de forma breve e alusiva…»


Começo logicamente por aqueles que desenvolvem uma actividade e que merecem, sem reservas, todo o nosso apoio: a
Livraria Letra Livre, a Casa Viva , Livraria A Pulga , a Editora Deriva, o Teatro de Montemuro (blog Lobos no Fojo), o blogue anti-OGM inGENEa, e o mui dinâmico e velocipédico blogue Menos um carro


A seguir vêm os blogues amigos : o
A Sinistra MInistra ( um blogue sobre educação, onde também colaboro), o ondas3 ( indiscutivelmente, o melhor blogue ambiental português) a que, com toda a justiça, se deve juntar o Bioterra ( com um notável esforço em matéria de educação ambiental), mais o pessoalissimo Paris/Texas ( nome de um filme que sempre me marcou muito), a poesia do Arqueologia das Palavras, e Trip na Arcada ( um abraço ao Pedro), e recentemente o Arte e Tal . A estes quero acrescentar por uma questão de cumplicidade activa os seguintes blogues: Ruim (criativo e interveniente), Be the change you want to see (Gandhi, sempre presente!), Taborda ( Vivam as bicicletas), Hop3 , Mozaico , Utopiar aqui e IaOeOal . Gostaria ainda de incluir o blogue O país do burro ,onde tenho encontrado excelentes e oportunos textos.

Logo atrás aparecem os blogues com quem sentimos afinidades de ideias: Sismógrafo,
Contramestre , Pasquim , F.a.l.a. , Crise Social , Vida Nova(Azores) ,Rede Libertária, Centro cultural Gonçalves Correia de Aljustrel, a Carbonária Anarca, o BdeAnarquia,

Próximos da nossa sensibilidade perante o mundo e a vida são também a
InfoAlternativa, o Xatoo, o Investigando o Imperialismo, O Bitoque, a Farpa Kultural, o Lapas do Almonda, o núcleo de Sintra da Amnistia Internacional, o Tupiniquim, ao Esquerda Republicana, Muito Barulho .

Lugar à parte merece, sem dúvida, o blogue We have kaos in the garden pela criatividade e acutilância que os seus desenhos são uma boa amostra.

Também uma palavra especial para o blogue
Desmancha-prazeres, que tenho acompanhado com interesse, a quem peço desculpa por ainda não ter respondido a um desafio lançado sobre os filmes mais marcantes, mas que espero satisfazer em breve.

Guardados, bem guardados, estão aqueles que têm estado há mais tempo com o Pimenta Negra: falo concretamente da
Fenixarte, do Matarbustos, o DesNorte ( com música clássica) , a Citizen Mary, a Ave do Arremedo, The Amazing Trout blog, Blue the life of waters, Cores da Terra, Bolota Voadora., e last but not least a Ilusão da visão , e o Mundo Perfeito, ...

Na área cultural e literária registo os blogues que vou visitando amiúde:
Frenesi-livros (indispensável!), Incomunidade, o Insónias, Almocreve das Petas (muito parado ultimamente), Abencerragem, Raízes e antenas(músicas do mundo), Crónicas da Terra(músicas do mundo).


No que toca aos blogues do outro lado do Atlântico faço questão de enviar um abraço e agradecer a atenção e a reciprocidade ao
Apocalipse Motorizado e Animot(br), e aos muitos companheiros e amigos que no Brasil diariamente nos visitam, assim como os links de alguns dos seus blogues

Ao longo do último ano foram muitos os blogues que nos linkaram, a quem agradecemos e que não mencionamos agora. O mesmo se diga dos blogues para quem inserimos links e que responderam com o mesmo gesto.

Receando termos cometido alguma omissão, pelo que pedimos desde já desculpa pela desatenção, queremos assim agradecer a vossa prova de confiança ao longo do último ano.


Um abraço para todos(as).

É nossa intenção avançar neste ano de 2008 com certas iniciativas que a seu tempo não deixaremos de anunciar. Para além disso, continuaremos a incluir links para os blogues que reputamos merecedores de atenção, bem como a criar secções temáticas de links.

Já agora aproveitamos para enviar a todos os que acompanham o Pimenta Negra um Bom Ano Novo, com alegrias, sonhos, muitas leituras e outras tantas lutas, porque...

…um outro mundo é possível !




Reproduzimos a seguir, mais uma vez, o Manifesto do blogue Pimenta Negra, difundido desde o seu início, e que pretende ser uma forma de apresentação do que somos e para onde queremos ir.



MANIFESTO do blogue PIMENTA NEGRA

Pimenta Negra, um blogue de crítica social e contra-cultural


Um website sobre os movimentos sociais, a ecologia, a contra-cultura, os livros, adoptando uma perspectiva crítica sobre todas as formas de poder (económico, político, etc).


Somos contra a guerra, o fundamentalismo e o sectarismo ideológico e religioso, o racismo, assim como a dominação e a opressão capitalista. Nós encaramos a educação reflexiva e crítica como uma condição importante para os indivíduos tomarem consciência das estruturas sociais em que vivem, e lutarem pela sua emancipação social e individual.

Para nós, a arte, a literatura e todas as manifestações artísticas de carácter contra-cultural são importantes meios de desmontagem da cultura global massificada que reduz a diversidade cultural do mundo e normaliza as sociedades segundo um mesmo padrão ditado pela sociedade espectacular.

Defendemos que um mundo melhor é não só possível em cada continente, em cada cidade, em cada habitação, como é indispensável para a sobrevivência do nosso planeta.

Somos rebeldes com causas…como a emancipação dos seres humanos de todos os condicionamentos sociais ilegítimos.

email:
PimentaNegra@hotmail.com

6.1.08

Festival Spoken words ( 17, 18 e 19 Janeiro no teatro da Vilarinha) no Porto


Integrado na 3ª edição da Circunvalação à Noite, vai decorrer no Teatro da Vilarinha, situado na estrada da circunvalação, na cidade do Porto, um festival de Spoken Words durante os dias 17, 18 e 19 de Janeiro.


O primeiro dia terá Ana Deus como figura principal, depois no dia seguinte haverá a poesia de Godot, e no último dia será a vez de Adolfo Luxúria Canibal a encerrar este ciclo de spoken words



Teatro da Vilarinha
Rua da Vilarinha, 1386
4100-513 Porto
tel. 226 108 924
fax. 226 108 924


O Circunvalação à Noite é um projecto da Pé de Vento (companhia profissional de teatro fundada em 1978 e residente no Teatro da Vilarinha no Porto) iniciado em Março de 2007 e que pretende divulgar e promover concertos organizados por ciclos temáticos divulgando bandas e projectos de certa forma alternativos.

A primeira experiência acontecida em Março trouxe um ciclo de Folk Fusão e contou com a participação dos Le Partisan, Lufa-Lufa e Comvinha Tradicional. Estes concertos resultaram numa grande qualidade técnica e artística o que impulsionou imediatamente a organização do segundo Circunvalação à Noite (Junho) dedicado à música Electrónica Alternativa Ambiental em que particiaparam Musgo, Human Groove Machine e Umpletrue. Estes concertos foram uma verdadeira experiência para os intérpretes e para o público ambos habituados a tocar/ouvir música electrónica em discotecas ou recintos amplos abertos ou fechados, mas nunca num teatro em que o público se encontra sentado.
Entretanto o Teatro da Vilarinha entra em obras de manutenção e remodelação e encerra durante alguns meses.


O Circunvalação à Noite regressa agora em Janeiro naquela que será a primeira grande abertura ao público depois dos referidos trabalhos. Mais uma vez a aposta será na qualidade e desta vez num ciclo dedicado às Spoken Words. Nos dias 17 18 e 19 de Janeiro vai passar no Teatro da Vilarinha o que de melhor encontramos nesta área em Portugal. Um programa que contará na abertura com Ana Deus (Ex-Ban; Três Tristes Tigres, etc) num espectáculo concebido expressamente para o evento, seguido dos Godot (projecto recente e liderado por Mário Costa – ex- Ecos da cave) e finalmente para encerrar o ciclo, “Estilhaços” de Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael (Mão Morta).
Um programa a não perder!

Ana Deus abre o festival, 5ª feira, dia 17. Promete canções e textos “muito significativos”, com o auxílio de uma loop station, um mini-disc e projecções vídeo. Contará com o apoio de Amarante Abramovici no vídeo e de Paulo Ansiães Monteiro na manipulação de objectos, projectados em tempo real. Uma espécie de biografia musical.


O recente projecto Godot, que actua 6ª feira, dia 18, tem a poesia de Cezariny como sua fonte nuclear. No entanto, o grupo não deixa de surrealizar outros poetas, como John Clare, Cesário Verde e Teixeira de Pascoaes. Com o contributo artístico/visual de Luís Dias, Godot dá movimento às palavras dos poetas como se de um chevrolet se tratasse.


Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael encerram o festival, sábado, dia 19, com o espectáculo “Estilhaços”. Adolfo Luxúria Canibal lê textos e poemas do seu livro homónimo, acompanhado ao piano e outros teclados por António Rafael. “Estilhaços” foi gravado a 14 de Setembro de 2006, nos estúdios AreaMaster, de Vigo, e editado em Dezembro desse ano pela Transportes de Animais Vivos, a nova colecção fonográfica das Quasi Edições, responsável pela edição do livro.


Preço dos bilhetes: 8€ por espectáculo; 20€ os três espectáculos.


http://www.teatropedevento.blogspot.com/



Ciclo teatral «30 por noite» – os novos projectos teatrais do Porto


Alegremente inspirado no desprezo autárquico por espectáculos a que assistem “duas ou três dezenas de pessoas”, a mostra 30 por Noite resgata da sombra um conjunto de cinco projectos teatrais desenvolvidos por jovens criadores do Porto, boa parte dos quais com idades inferiores a 30 anos.

A escolha recaiu sobre as companhias Estufa, Primeiro Andar, Teatro do Frio, Teatro Meia Volta e Depois à Esquerda Quando eu Disser e Mau Artista, grupos da cidade que, tendo já nascido no cenário em desagregação do pós-Porto 2001, vêm demonstrando maior (in)consequência artística e uma crescente exigência de profissionalização.

Aos espectáculos somem-se ainda a instalação enigmaticamente intitulada Está Cá Alguém?, debates sobre os objectos artísticos gerados por estas estruturas “alternativas” de produção teatral, e um desopilante concerto de encerramento dos Mimicalkix.

Evocando ao longo de uma semana intensiva o doce prazer de se ser minoritário, 30 por Noite traz para o palco do TeCA aqueles que trabalham para 30 espectadores com o mesmíssimo empenho daqueles que o fazem para uma plateia de 300 ou 3000. As minorias crescem com os processos de criação. Juventude em marcha!


30 Por Noite é um ciclo de programação dedicado a uma geração de fazedores de teatro da cidade do Porto que ainda não estão integrados, por razões diversas, nos circuitos “oficiais” de profissionalização (nem por eles canibalizados!).

Da quase dezena de estruturas mais ou menos informais que circulam na cidade – constituídas por pessoas formadas em diversas escolas –, sobrevivendo à custa de trabalhos temporários, paralelos e instáveis, e que, mesmo assim, produzem espectáculos com regularidade, associamo-nos às que demonstraram alguma originalidade profissional e que mais rápidas foram em corresponder aos nossos impulsos de solidariedade.
Na veleidade de podermos ser parceiro profissional destas estruturas, apresentamos esta intensa semana de actividade, que, se quisermos um rótulo geracional, é o fruto das tentativas de criação de um tecido profissional pós-2001.

Durante uma semana queremos discutir e reflectir sobre a diversidade de percursos, seja ao nível dos próprios métodos de criação e dos objectos artísticos daí resultantes, seja ao nível dos processos de produção e de distribuição de cada uma destas estruturas, revelando as particularidades desta geração que vive ainda sem a segurança, eventualmente corporativa, de um financiamento estável.

O TeCA abre as portas não só aos espectáculos de Teatro como a outras actividades (uma ocupação, um concerto e duas conferências), que legitimem o direito e a inevitabilidade destas práticas minoritárias! 30 Por Noite, ou mesmo menos, a qualquer hora do dia.

Ver o site do Teatro nacional de S.João
http://www.tnsj.pt/


Programa

4 a 12 de Dezembro
terça-feira a domingo
14:00-19:00 (ou até às 24:00, nos dias em que há espectáculos em exibição)
Está Cá Alguém?
Uma ocupação de >> Catarina Felgueiras, Rodrigo Areias, Susete Rebelo
Estreia Absoluta

8 e 9 Dezembro
terça-feira 22:00 quarta-feira 19:00
Sicrano
Uma criação >> Estufa

9 , 10 e 12 Dezembro
quarta-feira 15:00 quinta-feira 11:00 sábado 19:00
Diz que Diz
Uma criação >> Teatro do Frio

9 e 10 Dezembro
quarta-feira 23:00 quinta-feira 22:00
Vertigem
Uma criação >> Primeiro Andar

10 e 11 Dezembro
quinta-feira 19:00 sexta-feira 22:00
Confissões de um Carrasco na Hora de Ir Para a Cama
Uma criação >> Mau Artista

11 e 12 Dezembro
sexta-feira 19:00
sábado 22:00
O Nome das Ruas
Uma criação >> Teatro Meia Volta e Depois à Esquerda Quando Eu Disser

12 Dezembro
sábado 12:00
Fábricas de Cultura
Uma conferência de >> Joana Oliveira

sábado 15:00
Plenário 30 Por Noite
Uma conversa moderada por >> Tiago Bartolomeu Costa

sábado 24:00
Mimicalkix [Concerto]

Até sempre Luiz Pacheco! Vais fazer-nos falta.




«...um dia a sua leitura há-de passar a ser obrigatória nas escolas para que a tal "liberdade em estado puro" transforme este país "cada vez mais pobre" numa nação saudavelmente ateísta, anarquista e bem-disposta.» (lido em algures)







Biografia retirada da Wikipedia:



Luíz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (Lisboa, 7 de Maio de 1925 — Montijo, 5 de Janeiro de 2008) foi um escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura português.
Nasceu no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão [1].
Desde cedo manifestou enorme talento para a escrita. Chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi óptimo aluno,[2] mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego. Desde então teve uma vida atribulada, sem meio de subsistência regular e seguro para sustentar a família crescente (oito filhos de várias mulheres), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues. (Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto Comunidade, considerado por muitos a sua obra-prima.) Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles [3] . Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista [4] .
A sua obra literária tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista".
Alto [5] , magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas muitas vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho, hipersensível ao álcool, hipocondríaco sempre à beira da morte, cínico impenitente, é sem dúvida, como pícaro personagem literário, um digno herdeiro de Luís de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.
Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado para casa do seu filho Paulo Pacheco [1] em 2006 e daí para um lar, no Montijo, onde viria a falecer.
Um ano após a morte de Mário Cesariny, a 26 de Novembro de 2007, Comunidade foi editada em serigrafia/texto com pinturas de Cruzeiro Seixas. Nessa efeméride, Luiz Pacheco foi entrevistado pela RTP, encontrando-se num lar do Montijo.
Morreu a 5 de Janeiro de 2008.



Notas
1. ↑ 1,0 1,1 Entrevista ao Correio da Manhã
2. ↑ Vitorino Nemésio, na sua cadeira, atribuiu-lhe 18 valores (de 0 a 20).
3. ↑ Luiz Pacheco foi um compagnon de route dos surrealistas portugueses e o seu primeiro e apaixonado editor ("sacristão do surrealismo", chamou-lhe o crítico João Gaspar Simões). Foi amigo íntimo de António Maria Lisboa e de Mário Cesariny, tendo este cortado definitivamente relações com Pacheco, devido a desavenças intelectuais e pessoais (vd. Pacheco versus Cesariny, de Luiz Pacheco e Diário do Gato, de Mário Cesariny).
4. ↑ Depois do 25 de Abril de 1974, Pacheco tornou-se militante do Partido Comunista Português.
5. ↑ 1,77 m, cf. bilhete de identidade.




Bibliografia
• História antiga e conhecida in Bloco (vários autores). Reeditado em Crítica de circunstância e em 2002 com o nome "Os doutores, a salvação e o menino Jesus" (1946)
• Caca, cuspo & Ramela (1958?)(com Natália Correia e Manuel de Lima)
• Carta-Sincera a José Gomes Ferreira (1958)
• O Teodolito (1962)
• Surrealismo/Abjeccionismo (antol.org: Mário Cesariny, c/versão abreviada d'O Teodolito (1963)
• Comunidade (1964)
• Crítica de Circunstância (1966)
• Textos Locais (1967)
• O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (1970; 1992)
• Exercícios de Estilo (1971)
• Literatura Comestível (1972)
• Pacheco versus Cesariny (1974)
• Carta a Gonelha (1977)
• Textos de Circunstância (1977)
• Textos Malditos (1977)
• Textos de Guerrilha 1 (1979)
• Textos de Guerrilha 2 (1981)
• Textos do Barro (1984)
• O Caso das Criancinhas Desaparecidas (1986)
• Textos Sadinos (1991)
• O Uivo do Coiote (1992)
• Carta a Fátima (1992)
• Memorando, Mirabolando (1995)
• Cartas na Mesa (1996)
• Prazo de Validade (1998)
• Isto de estar vivo (2000)
• Uma Admirável Droga (2001)
• Os doutores, a salvação e o menino Jesus - Conto de Natal (2002)
• Mano Forte (2002)
• Raio de Luar (2003)
• Figuras, Figurantes e Figurões (2004)
• Diário Remendado 1971-1975 (2005)
• Cartas ao Léu (2005)



Par saber mais, consultar:
http://luizpacheco.no.sapo.pt/default.htm




Excertos de
«O LIBERTINO PASSEIA POR BRAGA, A IDOLÁTRICA, O SEU ESPLENDOR» (1970)
retirado de:
http://www.triplov.com/luiz_pacheco/braga_01.html



Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!



Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur ("O Enjeitadinho"? "O Corcundinha"?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: "Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada". Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros. Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias). Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar... Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.

Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.



Largo o casaco e a sacola num tasco. Meto mais verde. Telefono ao. Victor de Sá, a quem vinha incumbido de entrevistar para a "Seara". Grande confusão política em Braga: há duas listas da Oposição, uma, a boa, que o Governo cortou, "da maneira mais arbitrária...", diz-me o V.S.; outra, a dos moderados ou mortos (é o termo dele). E que não dá entrevista, que tem muito que fazer, que estão a estudar uma reclamação ou petição, etc. Oh diacho, é outro caso de pré-deputado ou candidato a deputado, que chega ao dia das eleições sem saber se vai, se o deixam ir, se lhe contam os votos, se as listas de eleitores lhe são facultadas, a cegada do costume. E duas listas da Oposição, em Braga?!... É para ver se perdem mais depressa, ah!... ah!... (isto sou eu a rir-me dos políticos de Braga). Concluo que em Braga a política é uma trampa, uma trampa aflita em dias de sol deste, com raparigas na sua folga de domingo, o Vianense a jogar contra o Braga, logo excursões de Viana ali perto, com certeza - e a Deolinda perdida entre azinhagas e casas velhas, o lugar de Assento ao pé da igreja, a Deolinda ainda não esquecida mesmo depois do frango do almoço. Vou-me a ela!



Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou. Olha para trás, por vezes. Já comunicou à parceira. A andar, a andar, chegamos a uma espécie de logradouro público, com certo ar antiquado e bancos largos de pedra, onde finda a linha dos eléctricos para o estádio (vejo o nome, Estádio 28 de Maio, oh a Política!, ah! ah!, isto só em Braga). Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. Sento-me num banco e faço de grão-senhor, porque assim disfarço as calças rotas no rabo. A miúda mais bonita dá-me uma chance? (será isso?). Atira-se a dizer: "Eu sento-me já aqui", e vem toda lampeira para o meu banco, mas depois passa ao do lado. Manobra provocatória, mas feita por uma quase amadora? assim o entendi, e lanço-lhe uns olhares de desfazer pedras, o meu olhar mágico, de megatoneladas de cio (assim penso, mas com as 17 ou mais dioptrias e o estigmatismo e as lentes, e as clarabóias do verde, que olhar será o meu?). A trupe das estúpidas, porém, escolhe um banco lá pro fim e depois ficam todas sentadas e de costas umas para as outras e caladas. Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas. Crio fastio de posar ao grão-senhor, distraído e benevolente com a paisagem. E começo a deambular, de árvore para árvore, e vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultadodão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada; outro, assim: Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa, ao lado da bolota que me caiu em cima dos ombros esta manhã e considero um talismã... ora agora aqui se podem rir da minha infantilidade, mas olhem que vi O Mundo a Seus Pés. Viram ? A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha, isto se chegarmos à fala, do que já começo a duvidar; sinto que estou a perder tempo (como o outro tonto, a redigir petições sinceras) e precipito os acontecimentos. Aproximo-me do banco delas e faço um jogo declarado de olhares furiosos, de cem megatoneladas, para a gorducha lorpa, que é a que me deita as trombas de frente; a outra, a sagaz, está de costas. A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. Vou-as seguindo a distância, e pelo caminho inda catrapisco umas malfeitonas que andam a saber o seu Destino numa maniqueta chegada da América que diz se o que se tem no pensamento sairá certo ou errado, e dá uma sina disparatada a cada cliente, tudo por dez tostões (esqueci-me de dizer que no caminho para lá, para o repouso ao pé do estádio, a miúda gira tinha ido consultar a maquineta, muito azougada e preocupada com o seu futuro, e foi aí, até, que reparei como era vivaz e um tanto parecida (ou não seria ilusão minha?), nos modos e cabrice, com a Geninha. Começo a ver que, com guardiã à perna e saloias até mais não, destas fulanas não levo nada. Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: "Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...". O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!

______
(1) o cinismo da personagem é bem evidente nesta palavra de simpatia, não acham?
(2) Uma miudinha esfarrapada e esperta, um-padre-Amaro-sósia-do-outro; uma capelita com escadaria Bom-Jesus em miniatura (lembro-me de subir lá acima e fazer um pacto; mas a escadaria é alta, ainda); uma bonita minhota de cetim preto, com olhos largos e calmos, belos olhos que nunca mais verei.
(3) Umas miúdas de 4, 5 anos, a quem peço tremoços e castanhas, e depois ficam muito excitadas, e começam a levantar as saias umas às outras, dizendo (quem diz, é uma desdentadinha, magrizela e encarvoada): «Mostra a zabelinha, mostra a zabelinha a este senhor!». Olha que putitas!




Luiz Pacheco 82 anos






Luiz Pacheco - O tradutor






Luiz Pacheco - O cachecol do artista








Luiz Pacheco - O caso do sonâmbulo chupista







COMUNIDADE
[Extractos]



Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.
(...)
Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!
Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, rne penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção e a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas). A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho. Nem eu me atrevia a falar-vos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.
Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. As vezes, muitas vezes, beijos e abraços.
As vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau, génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas ? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores na Avenida! E deixem-me que lhes diga: se é precisa a maior vigilância com as maganas das lêndeas e as brincalhonas pulguitas (especialmente daquelas pequeninas, estilo terroristas, são mesmo uns amores!), a graça que tem a Irene na caça à bicharada, desporto conceituado nas brenhas beirãs onde a fui escolher, e como se alegra dizendo «era uma verdadeira toira !» ou «esta tinha o rabo branco, eram duas às cavalitas», o que só demonstra que na classe agrária, enquanto não chega o dia do tractor e da reforma, a educação feminina quedou nessas prendas doméstico-venatórias do olho atento, dedos que nem setas, unhas como guilhotinas.
Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.
Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)
(...)

Encontro de experiências das lojas sociais em Cantanhede ( em 7 de Janeiro, no Banco de Recursos – Colmeia de Cantanhede)

No primeiro ano de funcionamento o Banco de Recursos de Cantanhede cedeu 40 mil bens

Entre os bens disponibilizados pelo Banco de Recursos, no primeiro ano de funcionamento, contam-se vestuário, calçado, mobiliário, electrodomésticos, brinquedos e material didáctico.

Inaugurado há um ano, exactamente a 6 de Janeiro de 2007, o Banco de Recursos – Colmeia de Cantanhede já disponibilizou, até à data, cerca de 40 mil bens, solidariamente cedidos pela comunidade.

Na próxima segunda-feira, assinalando o primeiro ano de funcionamento, decorre no auditório da Biblioteca Municipal de Cantanhede o Encontro de Experiências de Lojas Sociais, que inclui uma visita, pelas 14H30, às instalações do Banco de Recursos, situado na Rua Carlos de Oliveira, Edifício Pátio da Cidade, durante a qual se procederá à entrega simbólica de bens a famílias carenciadas.

Entre os bens disponibilizados no último ano pelo Banco de Recursos contam-se peças de vestuário, calçado, mobiliário, electrodomésticos, brinquedos, material didáctico e outros artigos. Do total, cerca de 14 mil foram entregues directamente a mais de 550 pessoas, tendo sido o restante sido enviado a instituições que as fizeram chegar a famílias e pessoas carenciadas.

A dinamização do Banco de Recursos está, desde o seu início, a cargo de uma equipa de voluntários do Banco de Voluntariado de Cantanhede, supervisionada pelo município, tendo desenvolvido "um trabalho que contribui fortemente para o bem-estar dos sectores da população mais fragilizados".

O objectivo do Banco de Recursos foi "criar uma resposta social inovadora e solidária e surgiu como um complemento da intervenção social do município". Visa "a erradicação da pobreza e da exclusão social, promovendo a cooperação entre entidades e a criação de uma verdadeira cadeia de solidariedade entre a população, no sentido de criar condições que permitam resolver alguns dos problemas sociais existentes no concelho", realça uma nota assinada pelo vereador Paz Cardoso.


www.asbeiras.pt/?area=coimbra&numero=54162&ed=05012008