7.10.07

O nº 1 do jornal Mudar de Vida já se encontra em distribuição

Por intermédio do blogue O Bitoque tomo conhecimento do lançamento do primeiro número do jornal Mudar de Vida, que terá uma versão digital em constante actualização, e outra em suporte de papel, com periodicidade mensal. O nº 1 corresponde justamente a este mês de Outubro.
Independentemente das diferenças de pressupostos teóricos que possamos ter, registamos com agrado o aparecimento regular de um novo jornal para reforçar a luta anti-capitalista.


Consultar o website do jornal, e que incluiremos sem dúvida na nossa coluna na rubrica de contra-informação:


MUDAR DE VIDA é um jornal político popular que se edita em dois suportes: internet e papel. Um primeiro número experimental, em papel, foi amplamente divulgado no 25 de Abril e no 1.º de Maio de 2007; e, em 30 de Maio, foi distribuído um suplemento dedicado à greve geral.
A edição de papel sairá com regularidade mensal a partir da primeira semana de Outubro deste ano.


Os nossos propósitos estão expressos no estatuto editorial que a seguir se publica. Sem suportes financeiros, sem estrutura partidária que o apoie, MUDAR DE VIDA depende inteiramente, desde a nascença, do acolhimento que encontrar.
A todos fazemos um apelo. Enviem-nos críticas e sugestões. Se se sentirem cativados, colaborem na divulgação junto de colegas, amigos, vizinhos.


E se acharem que este projecto vale a pena, façam uma assinatura.




Estatuto Editorial

1
MUDAR DE VIDA é um jornal político popular.
O objectivo de MUDAR DE VIDA é contribuir para que os trabalhadores e as camadas populares ganhem confiança nas suas forças próprias; encorajá-los a agir contra os atropelos aos seus direitos; dizer-lhes, numa palavra, que mudar de vida depende da sua iniciativa política.
Opomos o trabalho ao capital.
Opomos a liberdade e a independência dos povos ao imperialismo.
Combatemos todas as formas de obscurantismo, de desigualdade e de discriminação.



2
MUDAR DE VIDA procura romper o monopólio da informação oficial, dominada pelos interesses do capital ou pelas conveniências das forças partidárias que detêm o poder.
Rejeitamos a informação institucionalizada, obediente a centros de decisão, submetida a hierarquias, que filtra a opinião popular e a impede de se fazer ouvir de viva voz.



3
MUDAR DE VIDA está ligado à vida do país e do mundo.
Centramos a atenção nas condições de vida, nos anseios e nas lutas dos trabalhadores e das camadas populares. Damos prioridade aos mais oprimidos da sociedade: o proletariado, a mulher trabalhadora, os imigrantes.
Somos uma tribuna de denúncia da exploração. Combatemos todas as situações em que as pessoas são tratadas como instrumentos de lucro e não como seres humanos.
Noticiamos a vida nas empresas e a actividade sindical. Fomentamos a troca das experiências dos colectivos de trabalhadores e dos agrupamentos cívicos, de qualquer país, com o fim de incentivar a resistência, a iniciativa própria, a auto-organização e o apoio mútuo sem fronteiras.
Procuramos criar uma corrente de opinião activa contra as guerras de agressão, a dominação neocolonial, a destruição da natureza. Incentivamos a solidariedade com os povos que resistem à opressão e defendem a sua independência e os seus recursos.
Damos importância a tudo o que na vida do país e do mundo - desde a actividade partidária à cultura ou ao quotidiano - seja espelho da oposição de interesses que marca as sociedades contemporâneas.



4
MUDAR DE VIDA está aberto a opiniões diversas sobre os assuntos que concitam o interesse do campo popular.
Fomentamos o debate e o confronto de ideias sob todas as formas de escrita jornalística. Damos lugar de destaque à polémica. Procuraremos ter posição sobre cada matéria em discussão.
Pomos de lado o academismo, o doutrinarismo, a frase fácil. O propósito é, pela informação objectiva, pelo relacionamento dos factos e pela argumentação, fornecer aos leitores chaves para o entendimento da realidade – ajudar a compreender a natureza da política dos governos e dos partidos do poder ocultada pelas querelas do dia-a-dia; ajudar a ver os interesses privados que se mascaram de interesse social ou nacional.
Mantemos com os leitores uma permanente troca de ideias, suscitando a crítica, a correspondência e a colaboração individual e colectiva.



5
MUDAR DE VIDA apresenta-se como um jornal de militância, feito e divulgado por pessoas empenhadas nos objectivos enunciados neste estatuto editorial.
Um projecto como o de MUDAR DE VIDA só pode ter êxito se for apoiado por uma rede de grupos locais.
A difusão e o enraizamento de MUDAR DE VIDA dependem, acima de tudo, da constituição e multiplicação desses grupos locais. Tais grupos serão os elos de ligação da redacção ao país. Deles se espera também a colaboração permanente no envio de notícias, na crítica ao que for publicado, na organização de debates.



6
MUDAR DE VIDA publica-se em dois suportes: página de Internet e papel.
A página Internet tem actualização permanente, pretendendo-se que constitua, quanto possível, um veículo diário de informação alternativa.
A versão em papel sai, inicialmente, com periodicidade mensal, e ainda quando os acontecimentos o exijam. Constitui base para a actividade dos grupos locais de apoio. Destina-se fundamentalmente a chegar às pessoas que não dispõem de acesso à Internet.



7
MUDAR DE VIDA é dirigido por um colectivo redactorial.
O colectivo é responsável, no quadro deste estatuto editorial, pela edição tanto da versão electrónica como da de papel.
Tem por missão reunir e seleccionar os textos a publicar (de sua autoria ou de colaboradores permanentes ou de correspondentes), com base em critérios de rigor informativo, de interesse político e de actualidade.







Manifesto

MUDAR DE VIDA

REERGUER A LUTA CONTRA O CAPITAL


Precarização, despedimentos colectivos, cortes drásticos nos direitos laborais e nas pensões de reforma, desmantelamento da segurança social, entrega dos serviços públicos às empresas privadas, quebra contínua do nível de vida – com o pretexto do equilíbrio orçamental e da “modernização”, o governo do Partido Socialista desencadeou uma ofensiva em todas as frentes contra os trabalhadores, para garantir lucros cada vez maiores aos capitalistas, os quais aplaudem a sua “determinação”. E estas não são medidas temporárias para superar a crise. Fazem parte do programa neoliberal posto em prática pela União Europeia, na sua ambição de se equiparar ao poderio dos Estados Unidos. São o modelo de sociedade que nos querem impor.



Esta pilhagem brutal dos pobres pelos ricos, acompanhada pelo apodrecimento das instituições e pelo envolvimento do país na escalada de guerras e invasões do imperialismo, desperta alarme e indignação. Alastra a consciência de que é preciso resistir à voracidade do capital. Mas, vendo que as greves, manifestações e protestos, o esforço de tantos militantes e activistas, não conseguem inverter a situação, espalha-se a ideia de que não há alternativa, de que o destino das pessoas está a partir de agora fatalmente subordinado às “leis do mercado”, à força cega e impessoal do capital.



É toda a acção tradicional da esquerda que é posta em causa pela nova correlação de forças entre Trabalho e Capital. Torna-se forçoso perguntar se há alguma perspectiva real de eleger, no actual quadro do “Estado de direito democrático”, um governo que defenda os trabalhadores. Como poderemos tomar medidas contra a ditadura do grande capital, aplicar uma política não aprovada por Bruxelas, desligar-nos das infames guerras da NATO? Como deter a ameaça já visível da fascização das instituições? Como romper o bloqueamento que estrangula as iniciativas do movimento popular?
Estas são perguntas novas colocadas pela ofensiva do capital mundializado. Deixá-las sem resposta é privar o movimento de capacidade ofensiva e preparar situações trágicas para a Humanidade.

A esquerda do regime

Denúncias certeiras e propostas positivas é o que não falta na actividade das forças da esquerda parlamentar. Mas, fazendo girar toda a sua acção em torno do parlamento e dos calendários eleitorais, os partidos reformistas acumulam votos mas não acumulam forças de mudança. As suas proclamações anticapitalistas acabam sempre na tentativa para se encaixarem nas instituições e serem reconhecidos pelo sistema como forças “responsáveis”. Receosos de que as acções “descontroladas” dos trabalhadores afugentem a pequena burguesia, afogam todas as iniciativas de base no controleirismo. Trocam a militância pela profissionalização. Privando o movimento de activistas conscientes e ousados, provocam a desmoralização e a desmobilização das grandes massas. Têm boa parte de responsabilidade no descrédito da política e dos partidos aos olhos das massas.



Implantado no movimento operário e popular como a força mais à esquerda e mais organizada, crítico da direita e do imperialismo, o PCP esgota contudo essas potencialidades no mito de “um novo governo e uma nova política”, o qual, na falta de um forte movimento de massas, só pode assentar numa coligação com o PS. Mas uma tal via ou não existe, ou não será anticapitalista. Em busca de horizontes aceitáveis para explorados e exploradores, o PCP dirige patéticas exortações aos capitalistas para que não busquem o “lucro excessivo” e se guiem pelo “interesse nacional”. Ilude os trabalhadores com o sonho de uma “democracia avançada”, de tranquila coexistência entre capital e trabalho, através da qual se faria a passagem ao socialismo sem ruptura da ordem vigente.
Cumprida a passagem do fascismo à democracia burguesa, desaparecida a esperança de chegar ao poder com a ajuda da União Soviética, o PCP ficou limitado ao objectivo de participar na gestão do capitalismo. Incapaz de resolver a contradição entre a “firmeza de princípios” proclamada e a prática reformista que o transforma num viveiro de sucessivas dissidências social-democratas, afunda-se na burocratização, na sufocação da vida interna e na senilidade ideológica.



O êxito eleitoral e mediático do BE, o mais recente produto na contínua invenção social-democrata de “novas esquerdas”, não pode disfarçar a inconsistência do seu estilo pseudo-radical. A sua prática sindical e anti-imperialista é em muitos casos mais recuada que a do PCP, a quem procura suplantar como possível parceiro do PS. Apregoando-se como a “esquerda moderna”, o Bloco especializou-se nos direitos das minorias, nas reivindicações de “cidadania” e nos “novos movimentos sociais” como alternativa à luta de classes. Cativa assim massas de eleitores, sobretudo jovens, desiludidos com a passagem do PS para o campo da direita, mas as suas campanhas ecológicas, humanistas, culturais são facilmente digeridas pelo sistema, justamente porque não confrontam explorados com exploradores, oprimidos com opressores.



A CGTP, que se impôs como o representante da massa assalariada devido à sua resistência aos ataques do patronato, dos governos e do sindicalismo amarelo da UGT, perde influência por se obstinar nos sermões sobre a colaboração de classes quando a burguesia impõe brutalmente a lei da selva neoliberal. Ansiosa por sensibilizar todos, operários, tecnocratas e patrões “esclarecidos”, apresenta protestos cordatos na Concertação Social e dá conselhos sobre o desenvolvimento económico e o crescimento da produtividade, como se se pudesse, ao mesmo tempo, estar contra o capitalismo e participar na gestão mesmo tempo, estar contra o capitalismo e participar na gestão dos seus interesses. Montou um enorme aparelho burocrático que mata o activismo nas empresas. Favorece o alastramento do corporativismo, do elitismo e do sindicalismo de gestão. No clima de paz social que a CGTP contribuiu para criar, as suas “jornadas de luta” são impotentes para deter a ofensiva do patronato.



O mal incurável desta esquerda é a sua prisão voluntária dentro da ordem existente, que a coloca na dependência estratégica do PS, apesar das críticas acesas que lhe faz no dia-a-dia. Ora, o PS confirmou-se ao longo dos últimos trinta anos como o principal obreiro da recuperação capitalista e do ataque ao movimento popular – mais eficaz inclusive que o PSD e CDS. O seu discurso sobre liberdade, solidariedade e progresso encobre a cumplicidade nas mais sinistras acções do grande capital e do imperialismo. Tem que ser reconhecido como um partido de direita. A prática de o tratar como uma alternativa “menos má” e de lhe dirigir apelos e desafios na esperança de o recuperar só tem servido para confundir os campos e paralisar os trabalhadores. Não é pela conciliação com o PS que se ganham as massas que nele votam mas pela afirmação de um novo pólo de atracção anticapitalista que o desmascare.

Libertar forças

Sabemos que a revolução social não está ao virar da esquina e que as lutas a travar em cada momento são aquelas que o estado de consciência das massas permite. É através da luta pelos seus interesses imediatos e objectivos parciais que os explorados se unirão e organizarão para lutas superiores. Exige-se-nos um trabalho paciente, que não se compadece com radicalismos verbais. Porém, ao empenharmo-nos nessas lutas diárias, por reivindicações muitas vezes modestas, não perdemos de vista que a sua utilidade é incutir gradualmente nos trabalhadores a confiança nas próprias forças, o repúdio pela ordem capitalista, a consciência e determinação revolucionárias. São positivas as lutas que contribuem para pôr explorados e exploradores em confronto, não as que semeiam ilusões na colaboração de classes. Alertamos os trabalhadores contra a miragem de que uma espiral infinita de reformas transformaria gradualmente o inferno capitalista num paraíso socialista. Dizemos que conquistas verdadeiras só com lutas superiores podem ser alcançadas e que tudo depende de se criar um campo resolutamente anticapitalista.


O ponto de partida para uma nova política é dizer frontalmente aos trabalhadores que nada têm a esperar do actual regime, romper com o fatalismo e o espírito da obediência à ordem reinante, incutir nos explorados o desprezo pelos valores do regime, alimentar-lhes a aspiração a um outro modo de vida, realmente democrático, liberto da opressão do capital. Para dar vigor às reivindicações e protestos da população pelos seus direitos é preciso fazer alastrar a todas as frentes a insatisfação com o infame modo de vida que nos é vendido como a “verdadeira democracia”, popularizar o direito à rebeldia, a ideia de que se pode viver de outra maneira. Há que retomar a linha de continuidade dos grandes movimentos populares de há trinta anos, que fizeram mais pela libertação e o progresso social do país que todas as leis de todos os parlamentos e governos. O proletariado já fez muitos sacrifícios por causas alheias – é hora de afirmar a sua própria causa, o seu antagonismo com o sistema e o objectivo de acabar com o capitalismo.



É dentro das empresas que o capitalismo manifesta toda a sua brutalidade. Hoje nenhum assalariado se sente seguro quanto ao seu posto de trabalho e aos seus direitos. Concentrar esforços nos sectores mais atingidos, criar focos de resistência nas empresas, é a via para erguer uma nova corrente popular combativa. Desclassificado, precarizado e atomizado, cercado pelas novas classes médias, bombardeado pela ideologia imperialista, o proletariado encontra-se em pesada desvantagem. Mas a experiência das últimas décadas já mostrou que não há outras forças motrizes da mudança social. Só o proletariado pode tornar-se a coluna vertebral da oposição popular ao regime, reganhando pela acção económica e política a confiança nas suas próprias forças e deslocando a luta das questões menores para o eixo da luta de classes: o trabalho contra o capital, as massas contra o poder do Estado.



A nossa presença no movimento sindical deve ter como objectivo impulsionar as reivindicações que melhor contribuam para unificar as classes trabalhadoras contra o patronato e o Estado, para avivar o antagonismo entre o Trabalho e o Capital. A ajuda organizativa às comissões de empresa e aos delegados sindicais mais activos, a prática da democracia dos plenários na preparação e durante as lutas, o apoio mútuo entre empresas dos mesmos sectores, a solidariedade para não deixar isolar e derrotar as greves, as ligações internacionais aos sindicatos combativos – são tarefas que darão vitalidade a uma futura corrente sindical de classe, independente dos aparelhos burocráticos da central.



Atenta às questões que em cada momento mobilizam as massas, uma política realmente anticapitalista não pode rebaixar-se ao nível da “comissão de melhoramentos” nem seguir ao sabor dos “factos políticos” criados pelos governantes. Puxando sempre o debate para as questões centrais da luta de classes, temos que mostrar que os abusos dos poderosos, a cumplicidade criminosa do Estado que os serve, o fosso cada vez maior entre pobres e ricos, o desemprego e a precariedade, a baixa do nível de vida, as chagas da criminalidade, da pilhagem dos bens públicos, da corrupção, da alienação, da prostituição, do abuso de crianças, não se curam com receitas “moralizadoras” porque fazem parte integrante de um sistema iníquo fundado na exploração e na mercantilização de todas as relações sociais. Trabalhando em muitos casos em acções comuns com a esquerda do sistema, cooperando lealmente com os militantes do PCP e BE, mantemos claro que existem dois caminhos na oposição ao regime – queremos mudar a sociedade, não remendar o capitalismo.



Há que estabelecer laços com o meio milhão de imigrantes, utilizados pela burguesia como mão-de-obra descartável, para fazer baixar o preço da força de trabalho no mercado. Com a imigração tratada pelo Estado como um assunto de polícia, com os sindicatos, partidos e ONGs a limitarem-se a esmolas e campanhas simbólicas, cava-se no seio do proletariado um perigoso fosso entre nacionais e imigrados e cresce em largos estratos da população a xenofobia e o racismo. O trabalho em associações que defendam os direitos dos imigrantes, o estabelecimento de laços culturais, as campanhas contra o racismo, formam uma frente prioritária de luta.


Vital também empenhar esforços num feminismo de massas que rompa as barreiras patriarcais da sobreexploração, da desigualdade e da violência machista. A integração em massa das mulheres na luta política geral não será possível enquanto as trabalhadoras continuarem a ser tratadas como mão-de-obra mal paga e precária, remetidas para tarefas subalternas, com jornadas múltiplas de trabalho, consideradas como máquinas de procriar. A revitalização da luta anticapitalista exige que a mulher deixe de ser a sombra e a proletária do homem, a criada para todo o serviço. Temos que contribuir para desmascarar a hipócrita “igualdade” actual, que esteriliza as reivindicações das mulheres em cargos decorativos e funções burocráticas, ou as trata como mera questão “cultural” no capítulo dos “direitos das minorias”, quando elas formam a maioria da população.



Recusamos deixar-nos envolver na dramatização eleitoral e na chantagem do voto no “mal menor”, expedientes com que os partidos do sistema têm conseguido neutralizar forças válidas e impedir a afirmação de novas correntes sociais. A intervenção nos períodos eleitorais, quer seja pela concorrência ou pela abstenção activa, conforme as situações, é para os revolucionários uma ocasião importante para transmitir a sua mensagem às grandes massas normalmente arredadas da política e para transformar em repúdio activo o desprezo passivo que normalmente manifestam pelas instituições. Medimos o êxito da participação eleitoral, mais do que em votos, pelos avanços que proporcionem no estado de espírito das massas.



A frente ideológica e cultural pode ter um papel decisivo no reagrupamento de forças nesta longa fase defensiva do movimento. Revelar, explicar, desmistificar, combater o obscurantismo, criar hábitos de independência crítica face à máquina alienante do sistema são para a esquerda revolucionária tarefas políticas de primeiro plano. É necessário por isso apoiar e estimular a criação literária e artística de denúncia e contestação, aproveitar todos os meios de imprensa, edição, internet, locais de convívio e debate, de modo a criar uma forte corrente de opinião materialista crítica, anticapitalista e anti-imperialista.



Contra a globalização capitalista, globalização da luta



É urgente despertar o povo português do seu alheamento suicida das questões internacionais. Debatendo-se convulsivamente com os limites à realização do capital e com a tendência para a baixa da taxa de lucro, os grandes centros capitalistas afundam-se no caos da especulação financeira e invocam as “leis incontornáveis do mercado” para degradar brutalmente a situação das massas produtoras, lançar centenas de milhões no desemprego, arruinar continentes inteiros. A concentração inaudita do poderio e da riqueza face a milhares de milhões de famintos anuncia batalhas de classe ainda mais gigantescas que as do passado. A pilhagem do mundo inteiro por um punhado de Estados ricos e poderosos, capitaneados pelos EUA, provoca um cortejo interminável de guerras, fomes e massacres. E a recusa das superpotências a partilharem o bolo com as novas potências capitalistas emergentes (China, Índia, Rússia, Brasil) vai colocar na ordem do dia novos conflitos destruidores.



A monopolização da economia gera a monopolização do poder político. O tremendo poder financeiro e militar da classe dirigentes dos Estados Unidos, imune a qualquer controle interno ou internacional, torna-a um foco de pulsões agressivas, que não admite qualquer obstáculo ao seu projecto de domínio total do planeta. Instaura o controle totalitário dos cidadãos. Depois de ter planeado friamente as sangrentas guerras no Afeganistão e no Iraque, tem na agenda novas invasões, golpes de Estado e, se necessário, ataques nucleares. O novo fascismo que irradia dos EUA sob a bandeira da democracia e dos direitos humanos está a ser adoptado pela burguesia à escala mundial e torna-se uma grande ameaça para os povos de todo o mundo. A mobilização antifascista, pela defesa das liberdades, é uma grande tarefa da nossa época.



A saída não virá de campanhas moralizadoras por “uma nova lei internacional”. As propostas irrealizáveis das Attacs e congéneres para diminuir o fosso entre Estados ricos e pobres, por um comércio justo, pela reforma da ONU, só contribuem para adormecer as massas para a gravidade da situação e empenhá-las em causas imaginárias. Êxitos reais na luta contra a barbárie das guerras de conquista, as armas de destruição maciça, contra a catástrofe económica, contra o fascismo, a rapacidade do FMI, a intoxicação ideológica, a destruição da natureza, só serão possíveis quando perdermos as ilusões num regresso ao passado, pusermos de lado a esperança na auto-regulação do sistema, incutirmos nas massas a consciência de que ele é irreformável e inscrevermos nos nossos programas a tarefa única da nossa época: pôr fim ao capitalismo.



Estamos solidários com os povos que lutam com os meios ao seu alcance para expulsar os invasores e opressores. Saudamos a luta armada dos povos do Iraque, Afeganistão, Líbano, Colômbia, Nepal, a resistência heróica da Palestina ao extermínio levado a cabo por Israel, a resistência de Cuba, da Venezuela e dos outros povos latino-americanos à ingerência e agressão dos Estados Unidos. Recusamos pôr em igualdade os agressores e as vítimas. Recusamos embarcar na histeria da “defesa da civilização” e do “antiterrorismo”. Repudiamos a bandeira esfarrapada da democracia e dos direitos humanos agitada pelo Ocidente imperialista para servir de capa à sua dominação sobre os povos. Não alinhamos no falso optimismo dos que, a todo o momento, para “dar ânimo”, pretendem descobrir nos sinais de crise o colapso iminente no imperialismo, vitórias populares imaginárias, entrada em cena de líderes “salvadores”. Só à custa de um tremendo esforço será possível levar a bom termo a luta anti-imperialista.



Apostada em disputar aos EUA o lugar de chefe mundial dos salteadores, a União Europeia pinta com as cores do “progresso económico e social” o seu projecto expansionista e agressivo. Executa todo um programa para baixar os custos da força de trabalho, escravizar os imigrantes, submeter as pequenas nacionalidades, pilhar as riquezas do Terceiro Mundo, criar um corpo policial e de vigilância continental, um exército. As propostas do PCP e BE para “refundar” a UE dotando-a de uma Constituição “de base democrática” e tornando a “Europa Social” um “espaço de solidariedade e de paz”, são uma grande mistificação – como se um bloco capitalista continental pudesse ser outra coisa do que geneticamente reaccionário. Unir à escala do continente as forças do trabalho contra as do capital é a tarefa que se coloca aos revolucionários europeus.



A marcha da globalização capitalista aglutina as burguesias nacionais no grande bloco continental europeu, que lhes é necessário para fazer frente aos concorrentes. Por isso, a luta no nosso país contra a UE não tem como meta a restauração da independência nacional burguesa, etapa ultrapassada quando a classe governante se vendeu ao mercado europeu, sem consultar sequer a população. Só a pequena burguesia pode ainda alimentar sonhos de renascimento do seu espaço próprio, expressos nos apelos “patrióticos” do PCP. O proletariado tem que rejeitar tanto essas utopias passadistas como as promessas que rejeitar tanto essas utopias passadistas como as promessas chauvinistas de “uma grande e boa Europa”. Tem de aprender a unificar as lutas interna e externa contra a burguesia, tendo como horizonte a livre associação de todas as nacionalidades, só possível quando for desmantelado o capitalismo.

Reconstruir o campo revolucionário

A reconstrução de uma autêntica corrente anticapitalista, que lute por uma nova ordem social, exige um longo combate contra os preconceitos instalados pela social-democracia ao longo das últimas décadas: pretender que já não há classes com interesses antagónicos, que a revolução passou à história e que todas as “pessoas de boa vontade” podem ser unidas na aspiração do “bem comum”; reduzir a política ao presente, ao imediato, como meio de apagar a memória histórica do movimento e de não ter que falar de um projecto futuro; difamar a militância política e os movimentos de massas como “opressores da individualidade”; e sobretudo utilizar os fracassos dos chamados “regimes comunistas” como eficaz arma de propaganda do capitalismo.
A reconstrução do campo revolucionário não tem que ficar refém dos desastres do passado. Se a revolução russa e as outras grandes revoluções do século XX não cumpriram o seu projecto de desmantelar o capitalismo e estabelecer a democracia dos produtores e se afundaram em regimes burocráticos e ditatoriais, isso em nada diminui o alcance histórico da modernização que trouxeram a sociedades até então mergulhadas no atraso, na miséria e na ignorância e o golpe que deram ao sistema imperialista. Não temos de que nos penitenciar. Iludidos muitos de nós tempo demais quanto à natureza do “campo socialista”, não nos enganámos contudo ao defender os interesses operários e populares, ao lutar contra o fascismo, o colonialismo e o imperialismo. Nada temos de comum com os saudosistas de um falso socialismo de aparatchiks obedientes e acéfalos, nem com os que concebem a democracia socialista à imagem da democracia burguesa. E não confundimos os ideais socialistas com os crimes odiosos que foram cometidos em seu nome. Por isso, precisamos de compreender as razões dessa degenerescência. Inspirando-nos nos revolucionários do passado, trabalhamos por aproximar a hora da emancipação dos explorados através do socialismo, que será também a libertação de toda a sociedade.



Só uma organização independente do regime dará corpo a uma corrente política independente. Vimos no passado que a organização pode degenerar, de instrumento de luta, em instrumento de opressão de militantes e de adaptação ao sistema, pelo que procuramos um tipo diferente de organização, unificada pela identidade de convicções políticas e não pelo aparelho e o controle. Uma organização em que cada militante exerça livremente as suas capacidades, onde se busque a confluência de energias e não a disciplina cega, onde o espírito crítico seja o instrumento decisivo da unidade política. Uma organização democrática, aberta ao debate dentro e fora de si própria, que não pretenda tornar-se proprietária do movimento de massas mas ser o seu fermento e instrumento unificador. Praticando a democracia proletária, respeitando sempre a inalienável soberania das massas populares, esse colectivo organizado, mesmo pequeno, poderá propagar entre as massas uma nova corrente política mais avançada que as do passado e tornar-se uma força real.



Sabemos que temos pela frente uma longa e difícil luta mas somos optimistas. Os donos do capital jogam contra a corrente da História. A abundância criada pelas novas tecnologias, o derrubamento das fronteiras, o mercado mundial único estão a criar um proletariado mundial e a dar-lhe novas armas para pôr termo à divisão milenar da humanidade em opressores e oprimidos, exploradores e explorados, à barbárie das guerras e do terror, à dominação patriarcal. No meio das catástrofes da nossa época, divisa-se a possibilidade de aceder a uma forma de viver digna de seres humanos, a Democracia do Trabalho, o Socialismo. Mas só se formos capazes de vencer a resistência do capitalismo a abandonar a cena histórica. Chamamos todos os que não se conformam com a actual impotência do mundo do trabalho a colaborar connosco nessa causa, a única digna de forças anticapitalistas consequentes.

Frentes de luta imediata

Trabalhar pela criação de um grande movimento que leve à demissão do governo de Sócrates e interrompa a ofensiva capitalista em curso.



Criar plataformas de acção unitária contra o desmantelamento dos serviços sociais, as privatizações e a montagem do Estado policial.



Na luta contra a exploração, a precariedade, o assalto aos direitos dos trabalhadores, desenvolver acção sindical de base nas empresas, dando especial apoio aos precários, aos imigrantes, às mulheres.



Trabalhar por um movimento nacional de condenação dos EUA e de Israel, de solidariedade com os povos do Iraque, Palestina e outros povos em luta, pelo regresso imediato dos soldados portugueses em “missões de paz”, pela saída de Portugal da NATO.



Trabalhar pela coordenação das lutas económicas e políticas do proletariado à escala europeia contra a UE do capital. Estabelecer relações internacionalistas com organizações da esquerda revolucionária de outros países.


Sumário de Outubro da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique




Colóquio sobre o «Poder e a Cidade - de Paris a S.Paulo»

no Instituto Franco-Português ( Av. Luís íver, 91, Lisboa) - 18 de Outubro às 21h.







EDITORIAL
● «Sarkozy» (editorial de Ignacio Ramonet)


IRÃO
● «Os ultras preparam a guerra contra o Irão» (Selig S. Harrison)

FUTEBOL E MODERNIDADE
● «Adorando José Mourinho: à procura dos “atributos de um Portugal moderno”» (José Neves)
UNIVERSIDADES
● «Avaliação do ensino superior: o autismo do critério único» (João P. Almeida Fernandes, Alexandre Bettemcourt, Christopher Bochmann, Manuel J. do Carmo Ferreira, António Fidalgo, Clara Meneres, Manuel Melo e Mota e Raul M. Rosado Fernandes)

FISCALIDADE
● «A França regressa aos privilégios fiscais do Antigo Regime» (Liêm Hoang-Ngoc)
● «Que outra reforma do imposto?» (L.N.)

CIDADES
● «A invenção dos “bairros problemáticos» (Sylvie Tissot)
● «Os sem-tecto acampam às portas de São Paulo» (Philippe Revelli)
● «Uma reforma urbana necessária e sempre adiada» (PH.R.)
● «Do Grito do Ipiranga ao Grito dos Excluídos» (Elisabeth Carvalho)

GEOPOLÍTICA
● «A Coreia do Norte torna-se respeitável» (Bruce Cummings)
● «Os Estados Unidos face ao traumatismo do fim do império» (Philip S. Golub)
● «O autoritarismo – um estudo de caso» (PH.S.G.)

DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO
● «Cada um deve poder alimentar-se, não ser alimentado» (Jacques Diouf)

CIÊNCIA E PODER
● «Investigadores ao serviço da ordem estabelecida» (Jean-Pierre Garnier)

EM DEBATE
● «A esquerda a reconstruir» (Gérard Duménil e Jacques Bidet)

CADERNOS INÉDITOS
● «O socialismo segundo Che Guevara» (Michel Lövy)

EDIÇÃO
● «“Pequenos” editores escapam ao domínio dos grupos económicos (André Schiffrin)

CINEMA
● «DocLisboa: Os 10 dias do documentário» (Cátia Salgueiro)
● «O surpreendente sucesso dos documentários contestatários» (Christian Christiensen)

LEITURAS
● «Trabalho, desemprego, o tempo do desespero» (Noëlle Burgi)

ESCRITOS DO MÊS
> João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha, Vítimas de Salazar. Estado Novo e Violência Política (recensão crítica de Daniel Melo);
> Manuel Pinto e Helena Sousa (org.), Casos em que o Jornalismo foi Notícia (recensão crítica de Carla Baptista);
> Anatol Lieven, América a Bem ou a Mal. Uma Anatomia do Nacionalismo Americano (recensão crítica de Mafalda Graça);
> Ryszard Kapuscinski, Andanças com Heródoto (recensões críticas de Rui Lobo);
> Manuel da Silva Ramos, A Ponte Submersa (recensão crítica de Jean-Claude Egídio).

Ainda sabemos escrever? - tema a debater na Cooperativa Árvore no Porto ( 8 de Out. às 21h)

"Ainda sabemos escrever?" é o título do debate público que o Sindicato dos Jornalistas (SJ) promove amanhã, dia 8 de Outubro, pelas 21 horas, no auditório da Cooperativa Árvore, no Porto, no âmbito do ciclo "Conferências de Outono".

Com intervenções de Mário Cláudio, escritor - que acaba de ser agraciado com o Prémio Pen Clube pelo seu romance Camilo Broca - e docente da Universidade do Porto; Pedro Olavo Simões, jornalista no "Jornal de Notícias" e bloguer no "Fonte das Virtudes"; e José Mário Costa, responsável pelo sítio Ciberdúvidas, este será um encontro especialmente destinado a jornalistas, estudantes e professores da área do Jornalismo e das Ciências da Comunicação, mas também aberto ao público em geral.

Numa altura em que todos os dias somos inundados por novas tecnologias e novas plataformas capazes de vulgarizar os espaços destinados à escrita, é da maior relevância suscitar o debate a propósito da qualidade do que escrevem e como escrevem os jornalistas.

O ciclo "Conferências de Outono" realiza-se no Porto, às segundas-feiras, durante o mês de Outubro. Em Lisboa, decorrerá uma iniciativa similar em todas as quartas-feiras do mês de Novembro.

Próximas sessões no Porto

- 15.OUT - "Não te rias que é pior: Humor, Jornalismo e Política" ? Intervenções de Manuel António Pina (jornalista e escritor), Carlos Romero (jornalista) e José Manuel Ribeiro (jornalista em "O Jogo" e autor do cartune "Sistema ao Quadrado" neste diário).

- 22.OUT - "Vamos acabar no Museu? O futuro do jornalismo" ? Intervenções de Luís Humberto Marcos (antigo jornalista, director do Museu da Imprensa), Miguel Carvalho (jornalista na "Visão") e Jorge Fiel (jornalista no "Expresso").

- 29.OUT - "Ainda podemos escrever? - Incidências do Estatuto do Jornalista e das Novas Leis Penais" ? Intervenções de Rui Pereira (jornalista e docente da Universidade do Porto), António Arnaldo Mesquita (jornalista no "Público) e Horácio Serra Pereira (advogado, chefe do Gabinete Jurídico do Sindicato dos Jornalistas).

Lisboa acolhe conferências em Novembro

As Conferências de Lisboa, cujo programa detalhado será divulgado em breve, abordarão os seguintes temas:

- "Do caso Casa Pia ao caso Maddie - Jornalismo sob suspeita: Comunicação Social e Justiça"

- "Jornalismo, Ciência e Ambiente - Informar para uma cidadania activa"

- "O Jornalismo tem sexo? - A Comunicação Social Perante as Questões de Género"

- "Novas Tecnologias - Instrumento Para Uma Nova Ordem da Comunicação".



http://www.jornalistas.online.pt/

Festival Sons do Mundo - Blues - dias 12 e 13 Outubro no Centro de Artes e Espectáculos de Portalegre


http://www.caeportalegre.blogspot.com/


Dia 12 de Outubro - Little Freddie King
Grande Auditório
Inicio 21.30h
Preço único 10€


O verdadeiro nome de Little Freddie king é Fread E. Martin, e nasceu em McComb, Mississipi, no ano de 1940, perto da rua onde morava Bo Diddley.
O seu pai, Jessie James Martin (assim chamado pelo dono de uma plantação em homenagem ao famoso bandido), foi um guitarrista de blues que trabalhou no circuito sulista de artistas negros do Delta. São daí as suas primeiras recordações, de quando o pai o levava à cidade quando ia tocar: “ ficava cá fora à entrada das “juke joints” e escutava atentamente o som que vinha lá de dentro. Ele passava o tempo todo a tocar, a beber e a divertir-se, assim como toda a gente.”

Freddie eventualmente aprendeu a tocar guitarra sozinho, e começou desde cedo a desenvolver o seu estilo de Country Blues, a que ele chama "Gut Bucket Blues” (que se poderá traduzir livremente por “Blues Sujos vindos das Entranhas").
Com 14 anos, Freddie “apanhou” um comboio desde a quinta onde trabalhava até Nova Orleães, onde ficou com a sua irmã. Aí conheceu músicos tão fundamentais para o som da cidade como Buddy Guy e Slim Harpo.

Foi no início dos anos 60 que Freddie ficou com a alcunha de "Little Freddie King", nome que usou sempre a partir daí, inspirado no famoso guitarrista de blues Freddie King.
“King era bastante conhecido nessa época devido aos instrumentais “Hideaway” (depois tocada por Eric Clapton, entre outros) e “San-Ho-Zay". As pessoas diziam-me constantemente que soava exactamente como ele, porque eu conhecia todas as suas músicas, e então começaram a chamar-me “Little”, e assim ficou…”
A história ainda se torna mais interessante porque anos depois “Little” começou a tocar baixo em N. Orleães na banda do “Big” Freddie King, só não dando o pulo com ele para o Texas devido a outros compromissos.

Os anos 60 foram anos de intensa actividade para Little King, tocando com músicos de Blues como Babe Stoval, Polka Dot Slim, Guitar Grady, Guitar Ray, Snooks Eaglin, Billy Tate, Harmonica Williams, Boogie Bill Webb, Rev Charles Jacobs, Harmonica Slim e Eddie Lang.

Little Freddie King tornou-se num membro habitual e numa das atracções do famoso Festival de Jazz de N. Orleães, e fez digressões pela Europa com Bo Diddley e o mítico John Lee Hooker.
O seu álbum de 1970, "Harmonica Williams and Little Freddie King", é considerado pelos críticos o primeiro registo de blues eléctrico gravado em N. Orleães.
A sua digressão mais inesquecível foi feita em 1981, quando embarcou numa viagem de seis meses pelos Estados Unidos, chegando a tocar em universidades e a participar em palestras sobre blues.

Desde a passagem do milénio, King tem-se mantido muito ocupado, tocando em Montreaux (Suiça), no prestigiado Festival de Jazz, e em festivais de Jazz e blues pelo mundo inteiro, como em Ottawa (Canadá), Nancy e Lille (França), Burnley (Inglaterra), Debrecen (Hungria), assim como em vários festivais nos E. Unidos, em N. Orleães, Portsmouth, Savannah, Nova Iorque, etc.

Site da editora Fat Possum:
www.fatpossum.com/media_kits/littlefreddie




Dia 12 de Outubro – Petit Vodo
Café Concerto
Inicio 24.00h
Preço único 5€

Petit Vodo é o nome do mentor de um original projecto de blues, iniciado em 1997, que começou a sua carreira de músico como baterista de um grupo de blues na sua cidade natal, Bordéus. Vodo toca simultaneamente bateria, guitarra, harmónica e vozes, além de incorporar pedaços de programas de rádio e samples nas suas actuações ao vivo.
A sua carreira discográfica iniciou-se com o mini-álbum “Monon”, de 1998, seguido em 2000 do álbum “69 Stereovox” e de “A Little Big Pig with a Pink Lonely Heart”, em 2004.
Ao vivo, Petit Vodo pode ser descrito como uma mescla do eclético e anárquico Beck, com o trash-rock estético de Hasil Adkins e a entrega frenética em palco de John Spencer, dos Blues Explosion.
As suas maiores influências são mestres do blues, tais como Slim Harpo, Skip James, Dan Pickett e Lighting Hopkins, e outros artistas contemporâneos de nomeada, como G-Love, Beck e os já defuntos Morphine.
Vodo não descarta, porém, influências como o rock and roll experimental de grupos como os Doo Rag, 20 Miles e The Lonesome Organist.
Conceituado no seu país (França), depois de fazer as primeiras partes do famoso grupo de rock Noir Désir, assim como digressões europeias com artistas tão diferentes como RL Burnside, T-Model Ford, Mettalica e Andre Williams, Petit Vodo tem sido capaz de construir a reputação ao vivo de um artista que é uma autêntica “one man band”, uma explosão de blues que atormenta e deslumbra, que como os críticos a apelidam, é “verdadeiramente sulfurosa”.
Depois de concertos esgotados na sua estreia na Inglaterra, Vodo fez as primeiras partes dos Gallon Drunk e dos Penthouse, além da passagem de músicas suas nos principais programas de rádio britânicos, como o do influente e nunca por demais recordado John Peel e o de Steve Lamacq, ambos na BBC, assim como excelentes críticas aos seus álbuns e concertos ao vivo em revistas de referência como a “Mojo”, “NME”, “Melody Maker”, “Kerrang!” e “Music Week”.
O seu trabalho mais recente é “Paradise”, álbum de 2006, lançado pela editora Lollipop.

http://vodo.free.fr/
www.myspace.com/petitvodo


Dia 13 de Outubro - David "Honeyboy" Edwards
Grande Auditório
Inicio 21.30h
Preço único 10€



David "Honeyboy" Edwards, nascido no ano de 1915, em Shaw, Mississipi, é um dos últimos originais "bluesmen" acústicos do Delta. É uma lenda viva, e a sua história é parte da História do blues.
Como dizem os americanos, Honeyboy é “the real deal/o produto original”.

A vida de Edwards está interligada com muitas das legendas do blues, incluindo Robert Johnson, Charlie Patton, Big Joe Williams, Sonny Boy Williamson, Howlin' Wolf, Peetie Wheatstraw, Sunnyland Slim, Lightnin' Hopkins, Big Walter, Little Walter, Magic Sam, Muddy Waters, e... bom, digamos apenas que a lista não termina por aqui…
Em 1942, Alan Lomax (musicólogo autor das gravações mais importantes da história do blues, feitas através da América inteira) gravou Honeyboy em Clarksdale, Mississipi, para preservação na Livraria do Congresso, num total de 15 faixas.

Edwards não voltou a gravar comercialmente até 1951, quando a sua música "Who May Your Regular Be", foi passada a vinil pela “Arc Records”. Na mesma época, gravou também "Build A Cave" como Mr. Honey, para a editora Artist.
Mudando para Chicago no início dos anos 50, Honeyboy começou a tocar em pequenos clubes e esquinas de rua, tendo como companheiros Floyd Jones, Johnny Temple, e Kansas City Red.
Em 1953, Edwards gravou para a prestigiada Chess Records uma série de músicas que se mantém inéditas, excepto o clássico "Drop Down Mama", que foi incluído numa colectânea.

Em 1972, Honeyboy conheceu Michael Frank, encetando uma amizade que os levou quatro anos depois a tocar em dueto como “The Honeyboy Edwards Blues Band”.
Em 1979, com os amigos Sunnyland Slim, Kansas City Red, Floyd Jones e Big Walter Horton gravou o clássico álbum "Old Friends".
As gravações de Honeboy recolhidas pela Livraria do Congresso e outras mais recentes foram compiladas em 1992 na antologia "Delta Bluesman".
Além destas gravações, Honeyboy escreveu uma série de êxitos do blues, incluindo "Long Tall Woman Blues", "Sweet Home Chicago" e "Just Like Jesse James".

Aos 93 anos, Honeyboy Edwards continua a palmilhar os palcos da Estrada do Blues, viajando de “juke joints” para clubes nocturnos e festivais de blues, tocando a verdadeira música do Delta e continuando a espantar os seus fãs de todas as idades.

Site oficial: http://www.davidhoneyboyedwards.com/
My Space: www.myspace.com/honeyboyedwards


Dia 13 de Outubro - Reverendo Vince Anderson
Café Concerto
Inicio 24.00h
Preço único 5€



O Reverendo Vince Anderson nasceu em período de férias em 1970, no Monte Palomar, Califórnia, à época o maior telescópio do mundo.
A família de Anderson mudou-se seguidamente para a cidade de Fresno, onde o futuro Reverendo cresceu influenciado pela música cristã menos convencional.
Depois de terminar o secundário, começou os seus estudos de música clássica, entrando para o Conservatório do Pacífico, onde estudou piano Clássico.
Foi neste local, que segundo ele próprio recebeu a “vocação” para servir Deus.

Depois de São Francisco e Denver, onde ministrou serviços religiosos para os inadaptados da sociedade americana, o já Reverendo Anderson mudou-se em 1994 para Nova Iorque, para estudar Teologia no Seminário Metodista.
Os 3 meses que esteve no Seminário serviram apenas para descobrir que Deus o chamava para tarefas espirituais em lugares menos convencionais, como bares e tabernas. Consequentemente, agarrou num acordeão e num piano, e começou a dar serviços semanais nos bares mais mal frequentados do Lower East Side nova-iorquino e em Brooklyn.

Depois de uma breve estadia com a Igreja da Vida Universal, o Reverendo criou a sua própria igreja, denominada Igreja do Espírito Inquieto de Deus em Cristo, cujos membros são recrutados nos próprios concertos, e que é sediada em qualquer lugar onde o Reverendo actua.
A sua forma de chamamento espiritual está, segundo o próprio, baseada na inclusão e na abertura a todos os membros da sociedade, através do caminho espiritual individual. Anderson, como membro ordenado já celebrou inúmeros casamentos e baptismos.

A sua música é por ele denominada "Dirty Gospel/Gospel Sujo", título que não pretende ofender, mas lembrar as pessoas que a humanidade é uma parte importante do Gospel. Refere-se também aos elementos do Blues puro que o Reverendo “invoca” para a sua música.
Ainda nas palavras de Anderson, “o Dirty Gospel permite tanto o sagrado como o secular, já que a linha entre ambos é muito ténue”.
A esperança do Reverendo Anderson é que todos os espectadores se possam relacionar com o seu Gospel sujo, independentemente das suas crenças religiosas.

Em 2000, o Reverendo criou a sua própria editora, obviamente chamada “Dirty Gospel”, na qual lançou os álbuns “I Need Jesus”, “ The 13th Apostle”, “The Blackout Sessions” e o próximo "100% JESUS".
Anderson tem ultimamente realizado serviços nocturnos religiosos com a sua banda nova-iorquina "The Love Choir/ O Coro do Amor", assim como extensas digressões pelo mundo, espalhando a sua mensagem de música, amor e aceitação de todos.

Site oficial: http://www.reverendvince.com/
My Space: www.myspace.com/reverendvinceanderson


Livre Trânsito para todos os concertos 20 €

Ciclo de conferências sobre As Luzes da Grécia


Coordenação
Maria Helena da Rocha Pereira

Ciclo de conferências sobre As Luzes da Grécia no âmbito da exposição
Os Gregos. Tesouros do Museu Benaki, Atenas


Local: Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian (Sede) , Lisboa
sempre às 18.00 horas

entrada livre


Segunda-Feira, 15 de Outubro de 2007
EM VOLTA DO MILAGRE GREGO
Maria Helena da Rocha Pereira
Universidade de Coimbra

Devido às novidades trazidas pela Arqueologia, Epigrafia e Papirologia, desde o séc. XIX até à actualidade, o nosso conhecimento da Grécia antiga, e bem assim do Próximo Oriente e do Egipto, tem-se enriquecido e continua a enriquecer-se consideravelmente. Porém o modo helénico de questionar a realidade e tentar interpretá-la em termos racionais distingue-se desde logo do dos demais povos. Essa herança intelectual e artística é depois universalizada pelos Romanos vencedores e voltará a prevalecer no Ocidente, sobretudo a partir do Renascimento. Em tempos modernos, a devoção de figuras como Lord Byron à causa da independência grega assume, nesta perspectiva, um valor simbólico.


Segunda-Feira, 29 de Outubro de 2007
POLIS E DEMOCRACIA: ONTEM E HOJE
José Ribeiro Ferreira
Universidade de Coimbra

Depois de breve caracterização da pólis, serão referidos os diversos regimes que lhe dão forma ao longo dos tempos e das diversas instituições que aí vão ganhando corpo. De seguida, será apresentada uma definição de dêmos e breve referência ao nascimento e evolução da democracia, corporizada na pólis ateniense. Esta será descrita no tempo de Péricles, em meados do séc. V a.C., em que atingiu o apogeu e em que apresenta determinadas particularidades, quando comparada com as actuais. Será de interesse observar e apontar as semelhanças e as diferenças, bem como a relação entre uma e outras. Discutir-se-á até que ponto é lícito chamar democracia ao regime ateniense ou se tem razão K. Reinhardt em negar qualquer ligação entre eles e as democracias modernas. A parte final apontará alguns princípios da democracia ateniense que continuam na actualidade e mostrará o fascínio da Revolução Francesa pela Grécia e Roma.


Segunda-Feira, 26 de Novembro de 2007
A FILOSOFIA FALA GREGO
José Pedro Serra
Universidade de Lisboa

"A filosofia fala grego". Ao tomarmos como ponto de partida da nossa relexão esta conhecida formulação, procuraremos delinear a natureza específica dessa atitude que a filosofia encerra. Enraizada em solo grego, sua pátria original, nascida da experiência do espanto, como sublinham Platão e Aristóteles, a philo-sophia, na tensão que a caracteriza (o amor ao saber e não a sua posse ? tensão que é também a sua gloriosa fragilidade), coloca-nos no trilho que, desde então, constitui o nosso destino histórico. Pela filosofia nos tornamos gregos, uma mão tocando a origem, outra mão apontando o horizonte, o gesto desenhando o que temos sido.



Quinta-Feira, 6 de Dezembro de 2007
DA KORE ARCAICA À VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA
Rui Morais
Universidade do Minho

A escultura é uma das mais nobres manifestações artísticas que o mundo helénico nos legou. Tal como nas outras expressões artísticas, também na escultura grega se conhecem várias fases evolutivas, cada uma com as suas características próprias. Apesar do elevado número de esculturas conhecidas, não é de mais salientar que, na sua grande maioria, estas são obras de autores menores ou cópias romanas e de épocas posteriores. Até à data, as únicas grandes esculturas conhecidas atribuídas aos maiores escultores da arte grega são Hermes de Praxíteles, no Museu de Olímpia, e parte considerável da decoração escultórica do Pártenon, atribuída a Fídias e seus discípulos. Dignas de destaque são ainda algumas obras do estilo severo, caso das esculturas dos pedimentos e das métopas do templo de Zeus em Olímpia e de dois belíssimos bronzes recuperados em 1972 no Mar de Riace, no Sul da Itália.




EXPOSIÇÃO


Os Gregos. Tesouros do Museu Benaki, Atenas


28 de Setembro de 2007 a 6 de Janeiro de 2008


Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian
A grande matriz da Cultura da Europa é grega, presença que terá hoje maior evidência material através da Filosofia, da Mitologia, do Teatro e da Arte, objectos da atenção e de estudos contemporâneos e de constante curiosidade dos povos a Ocidente e a Oriente ao longo de mais de dois milénios.

«Os Gregos», que nos é permitido conhecer melhor através desta exposição, são convocados por objectos que reflectem o seu pensamento e acção, num tempo que vem do Neolítico, representado por cerâmicas do 6.o milénio, e que se desenvolve até à reunião deste povo como País num Estado Helénico em 1830.

Trata-se de um conjunto altamente representativo da sua riquíssima história, cedido pelo Museu Benaki, de Atenas, através de uma criteriosa e muito generosa selecção de peças das suas colecções.


6.10.07

Hoje vai-se tentar bater o record mundial com o grito «no vas a tener casa en la puta vida»


Para hoje, dia 6 de Outubro, foi feita uma convocatória em todo o território do Estado espanhol para que às 19h. o maior número de pessoas, em frente aos municípios de cada localidade, gritem ao mesmo tempo «no vas a tener casa en la puta vida».
O objectivo é reunir milhares de pessoas para protestarem contra a falta de casas, sobretudo para jovens, a especulação imobiliária e os elevados juros dos créditos exigidos pelos bancos, reinvindicando ao mesmo tempo o direito a uma casa digna.
Perante a já mais que habitual surdez do poder político, os promotores esperam que desta vez o governo e os decisores políticos possam finalmente ouvir o clamor de protesto.



http://novasatenercasaenlaputavida.com/

5.10.07

Exposição sobre a Carbonária em Portugal abre hoje em Espinho

A Carbonária foi a principal dinamizadora do golpe republicano do 5 de Outubro que levou à queda da monarquia em Portugal. Foram elementos seus que cometeram o regicídio contra o rei D. Carlos. Foram eles – a quem hoje facilmente se colaria o qualificativo de «terroristas» - que estiveram na origem do regime republicano e do parlamentarismo republicano. Lutavam pela liberdade e a perfeição da Humanidade.

Vai ser inaugurada hoje, 5 de Outubro, na Galeria do Centro Multimeios de Espinho, a exposição A Carbonária em Portugal, com produção da Biblioteca Museu República e Resistência.
A exposição, em 18 painéis, retrata a vida da sociedade secreta e revolucionária, que desenvolveu alguma actividade no domínio da educação popular e esteve envolvida em diversas conspirações antimonárquicas. Merece destaque óbvio a sua participação e organização do levantamento popular na revolução de 5 de Outubro de 1910.


As visitas são gratuitas e a exposição, que estará patente ao público até ao dia 28 de Outubro, poderá ser visitada de Terça a Sexta-feira das 10,00h às 22,00h e aos Sábados, Domingos e feriados, das 14,00h às 22,00h.
Obs: Há visitas guiadas para as escolas. Para o efeito, as escolas e os professores interessados deverão contactar os seguintes números de telefone: 227335866 ou 227331190.
http://www.multimeios.pt/a-carbonaria


A Carbonária era uma sociedade secreta e revolucionária que actuou na Itália, França e Espanha no princípio do século XIX. Fundada na Itália por volta de 1810, tinha a ideologia assentada em princípios libertários e que se fazia notar por um marcado anticlericalismo. Participou das revoluções de 1820, 1830-1831 e 1848. Embora não tendo unidade política, já que reunia anarquistas e republicanos, nem linha e acção definida, os carbonários (do italiano carbonaro, "carvoeiro") actuavam em toda a Itália. Reuniam-se secretamente nas cabanas dos carvoeiros, derivando daí seu nome. Foram também os inventores do espaguete à carbonara. Inventaram uma escrita codificada, para uso em correspondência, utilizando um alfabeto carbonário

Em Portugal, a Carbonária foi estabelecida por volta de 1822. Nas suas primeiras décadas, teve um âmbito restrito e, sobretudo, localizado: surgiram várias associações independentes, sem ligação orgânica entre si e com pouca capacidade de intervenção social. De uma maneira geral, estas associações não duraram muito tempo nem tiveram realce histórico.

A Carbonária que teve importância na vida política nacional portuguesa foi fundada em 1896 por Artur Augusto Duarte da Luz de Almeida. Desenvolveu alguma actividade no domínio da educação popular e esteve envolvida em diversas conspirações antimonárquicas. Merece destaque óbvio a sua participação no assassínio do Rei D.Carlos I e do Príncipe Herdeiro Luís Filipe, e na revolução de 5 de Outubro de 1910, em que esteve associada a elementos da Maçonaria e do Partido Republicano
(texto extraído da Wikipedia)



«Aí por 1896 era já conservador da Biblioteca Municipal da Rua do Saco o republicano Feio Terenas. O ajudante era um rapaz magro, baixo, pálido, de poucas falas, sem gestos, sem vivacidade, sempre vestido de negro e com uma grande gravata Lavallière pendente sobre o colete. A casa era um rectângulo vasto de prateleiras enfileiradas, atulhadas de grandes livros que se iam buscar para os domicílios; ao lado ficava a sala de leitura e, no canto da janela que deitava para o largo, tristonho, por detrás de um estore corrido, o ajudante passava os dias lendo, muito compenetrado, com o seu eterno ar sereno, os olhos tão negros como o fato ao erguerem-se, com um ar resignado quando o vinham interromper. Chamava-se Luz de Almeida. Ao lado havia uma escola e, de quando em quando, ouvia-se a gralhada do rapazio no grande pátio vizinho, perturbando o silêncio grave da biblioteca. Todas as manhãs o homem chegava no seu passo moderado e lento, sentava-se à carteira, começava o seu serviço e depois mergulhava na leitura; às quatro da tarde saía, para voltar à noite e de novo, à luz do gás sibilante, continuava a sua tarefa […]. Nós não podíamos imaginar que em plena Lisboa, ali, no fundo daquela biblioteca, na pessoa tristonha daquele pálido rapaz melancólico, estava um organizador como o activo Basard das casas Belford e da Rochella.»

(Rocha Martins, in António Ventura, A Carbonária em Portugal: Lisboa, Biblioteca Museu República e Resistência (CML), 1999)



A Carbonária dos anarquistas e Heliodoro Salgado

Paralelamente à Carbonária Portuguesa, foi fundada igualmente em 1897 a Carbonária Lusitana, sem conhecimento da primeira, também conhecida por Carbonária dos Anarquistas, com uma visão própria: enquanto que para os republicanos a República seria o fim em si mesmo, para os anarquistas "intervencionistas" ela era apenas um meio em direcção à sociedade perfeita, uma utopia em que não seria já necessário governo.
Estes anarquistas "intervencionistas" fundaram a loja maçónica "Obreiros do Futuro", verdadeiro alfobre de conspiradores contra a monarquia.
( este último texto foi retirado de http://expressodalinha.blogspot.com/)



«Paralelamente à Carbonária Portuguesa, fundada em 1897, surgiu outra organização similar, desconhecida dos animadores da primeira, como reconheceu o próprio Luz de Almeida: “Só mais tarde tive conhecimento da existência de um núcleo secreto chamado Bonfim, com sede na Rua 24 de Julho, próximo da Rocha do Conde de Óbidos, ao qual pertenciam os anarquistas intervencionistas […]. Descoberta a sede do núcleo secreto pelos esbirros do juiz Veiga, foi o núcleo dissolvido pelos próprios membros, que fundaram outro de tipo maçónico com uma secção carbonária, relativamente importante, à qual deram o título de Carbonária Lusitana, sendo conhecida nos meios extremistas pela designação de Carbonária dos Anarquistas.” […]Uma das vertentes mais significativas da obra e da acção de Heliodoro Salgado foi a luta anticlerical, travada ao longo de muitos anos, através de inúmeros artigos na imprensa, teses, conferências, livros originais, traduções, e da participação no movimento dos círios civis, chegando a existir um círio com o seu nome onde ocorreu, justamente, a sua terceira prisão […].[…] José Nunes alude à génese da Carbonária Lusitana, datando-a de 1896: “Foi então que apareceu aquele protótipo do organizado, o homem couraçado para todas as bestas, psicólogo, erudito, perfeito conhecedor do seu tempo e do seu meio, Heliodoro Salgado. Conhecedor como poucos de quanto é romântica e impressionável a psique do povo português, e adivinhando que era esse o fraco onde se lhe encontraria o forte, reuniu assim Benjamim Rebelo e Ribeiro de Azevedo, e juntos lançaram as bases de uma associação secreta com iniciações espectaculosas e rigorosíssima escolha dos iniciados. […]”»in António Ventura, A Carbonária em Portugal: Lisboa, Biblioteca Museu República e Resistência (CML), 1999
(texto extraído daqui)



A História da Carbonária


“Sociedade secreta de carácter político-religioso, que exerceu a sua principal actividade desde o fim do sec XVIII a meados do sec. XIX, particularmente em Itália e França. Não se sabe ao certo se nasceu em Itália ou em França. Naquele país os seus membros chamavam-se carbonari (carvoeiros) e, em França, fendeurs (lenhadores) e, nas suas comunicações, usavam de expressões próprias daqueles ofícios. Ao lugar das reuniões chamavam barraca; ao seu interior, choça e aos seus arredores bosque. Tratavam-se por bons primos. A sua acção foi sempre de combate à Igreja católica e, no entanto, os seus filiados veneravam S. Teobaldo, conde de Champagne, morto em 1066, a quem consagraram como seu patrono. Tinha muita analogia com a Maçonaria e, como esta, propunha-se realizar os mais nobres e elevados ideais da Humanidade. Tal como os mações, os carbonários reuniam-se em assembleias e banquetes e usavam uma linguagem convencional. A sua acção consistia em limpar o bosque dos lobos, ou seja destruir os tiranos. Dividiam-se em duas classes: aprendizes e mestres, e havia ritos especiais para a iniciação, que era rigorosíssima. A hierarquia carbonária elevava-se das choças ou barracas para as vendas, que eram as orientadoras daquelas e nomeavam delegados ao conselho supremo, denominado alta-venda, à qual presidia um grã-mestre, escolhido pelos referidos delegados, ou deputados. Havia também barracas de mulheres, que se chamavam jardins, tendo elas o nome de jardineiras. Tinham os carbonários insígnias e sinais secretos e o selo da organização era ornado com a deusa da Liberdade, tendo um dragão aos pés e a legenda Aniquilador do despotismo. Foram organizações carbonárias a Sociedade dos Carvoeiros fundada em Paris em 1821, de carácter revolucionário, e a Sociedade dos Caçadores, do Canadá (1837 e 1838), de tendência anti-inglesa, que alcançou enorme número de filiados chegando a ter núcleos filiais em França. Durante a Restauração, em França, a carbonária teve importância enorme, contando 40 000 filiados sob a presidência de La Fayette. A ela se devem as insurreições de Belfort (1-1-1822), de La Rochelle e Saumur, todas juguladas. Depois da luta contra as ordenanças de Julho de 1830, a Carbonária francesa dissolveu-se. Em Espanha e na Alemanha, também a carbonária teve ramificações importantes. Na Itália, a carbonária lutou contra a invasão francesa e em 1820 contava 600.000 filiados, entre os quais havia muitos altos funcionários e eclesiásticos. Bateram-se contra o Estado Pontifício, a Áustria e seus aliados. O futuro Napoleão III pertenceu à choça de Roma. Em 1821, a associação de Mazzini, “Jovem Itália” absorveu a Carbonária.


Em Portugal, em seguida à guerra civil de 1844, em que o partido progressista foi vencido, organizou-se, pela primeira vez, a Carbonária. Foi o general Joaquim Pereira Marinho quem, em Março de 1848, conseguiu obter de França autorização para poder estabelecer entre nós essa sociedade. Delegou os poderes que lhe haviam conferido no padre António de Jesus Maria da Costa, Ganganelli, que, em 29 de Maio do mesmo ano, instalou em Coimbra, numa casa da rua da Ilha, a Carbonária Lusitana. Procedeu-se, nesse mesmo dia, a eleições, ficando o padre Costa como Supremo Conselheiro da Alta-Venda. Em 1 de Junho seguinte, foram eleitas as comissões encarregadas de regularizar os trabalhos da choça-mãe, ou alta-venda, com as choças filiais. Em Outubro, novas eleições se fizeram em Coselhas, sendo eleito Supremo Conselheiro o dr. Francisco Fernandes da Costa. O padre, despeitado, por ter sido o instalador e assim o alijarem, guardou o livro de matrícula e mais documentos, recusando-se obstinadamente a entregá-los, pelo que foi irradiado. Havia então en Coimbra as barracas Igualdade e União e as choças Fraternidade e Liberdade, que se reuniam numas casas do correio velho, na rua das Fangas, e ainda a 16 de Maio, mais tarde denominada Segredo, que estava instalada numa casa perto do Arco do Colégio. Teve a Carbonária Lusitana barracas e choças noutros pontos, como Figueira da Foz, Soure, Anadia, Cantanhede, Pombal, Ílhavo e Braga. Outras localidades se preparavam para organizar os seus núcleos, mas, em 1850, esta Carbonária dissolveu-se, embora só no distrito de Coimbra tivesse mais de quinhentos filiados, quase todos armados, pois uma das condições para ser iniciado era a de possuir ocultamente uma arma e os competentes cartuchos. Em 1853, o padre Costa pretendeu reorganizar a Carbonária em Coimbra, ainda se constituiu uma choça, com o nome de Kossuth, mas esta tentativa não conseguiu ir por diante. Mais tarde, no ano de 1862, também em Coimbra, novamente se constituiu a Carbonária, estando à sua frente Abílio Roque de Sá Barreto, tendo a alta-venda reunido, pela primeira vez, em 15 de Abril. Não logrou mais do que uns poucos meses de existência, apesar de ter choças e barracas em vários pontos, nomeadamente em Cantanhede e Soure. Em 1864, novo esforço se fez para reorganizar a carbonária, sob a presidência de Abílio Roque de Sá Barreto , mas esta tentativa falhou por completo e até 1907 ninguém mais meteu ombros, em Portugal, à constituição dessa sociedade secreta.

Artur Augusto Duarte da Luz Almeida foi quem organizou a Carbonária Portuguesa, que nada tinha de comum com a já citada Carbonária Lusitana. Teve como auxiliares preciosos o comissário naval Machado Santos e o eng. António Maria da Silva; a Carbonária Portuguesa teve a suas primeiras reuniões no sótão da casa onde morava Luz de Almeida, na rua de Santo António da Glória, em Lisboa, onde se fizeram muitas iniciações e se deram lições de manejo de armas. Foi Luz de Almeida quem , em meados de 1907, elaborou a sua constituição e regulamentos geral e ultra-secreto, este apenas transmitido verbalmente aos filiados, que tinham o dever de o decorar. Havia quatro graus: Rachador, Cavador, Mestre e Mestre-Sublime; aos Carbonários chamavam-se Bons Primos e tratavam-se por tu, sendo obrigados a possuir uma arma de fogo e um punhal. Grão-Mestre foi Luz de Almeida e havia um corpo superior, intitulado Venda Jovem Portugal, que se compunha de um número limitado de Bons Primos decorados com o grau de Mestre Sublime. Esta venda tinha as atribuições de velar pela observância do ritual, nomear os juízes do Tribunal Secreto e constituir-se em Alto Tribunal, quando fosse necessário; escolher os inspectores e os delegados provinciais e as altas vendas (efectiva e substituta), eleger o grão-mestre e o grão-mestre adjunto. Todas as ordens da alta venda deviam ser cumpridas sem discussão. As secções da Carbonária Portuguesa eram representadas por estrelas de diversas grandezas e o conjunto de todas elas constituía o Grande Firmamento, onde se destacava uma estrela de cinco pontas, encimada pelo globo terrestre. Foram carbonários que fundaram o célebre grémio maçónico Montanha, introduzindo assim a Carbonária no Grande Oriente Lusitano. Paralela à carbonária e agindo sob orientação desta, foi necessário fundar outra associação secreta, A Coruja, a fim de agrupar muitos elementos republicanos que não queriam submeter-se às rigorosas fórmulas carbonárias. À frente dela estava José Maria de Sousa, António José dos Santos, Coelho Bastos e Henrique Cordeiro, os quais, depois de recrutarem numerosos adeptos, a dissolveram, integrando estes na Carbonária, o que era, afinal, o fim que se propunham. Desde o início até à proclamação da República, a Carbonária Portuguesa teve seis altas vendas, sendo a existente em 5 de Outubro de 1910 composta por Luz de Almeida, Machado Santos, António Maria da Silva, Henrique Cordeiro, António dos Santos Fonseca e Franklim Lamas. A acção desta associação secreta fez-se sentir de Norte a Sul do país, e dela faziam parte militares e civis de todas as categorias, tendo sido ela que organizou a revolução que implantou a República em Portugal. Depois de proclamado o novo regime, ainda se manteve enquanto houve movimentos monarquistas, até que com a luta dos partidos políticos, que deu a divisão do antigo Partido Republicano, ela se dividiu igualmente e se dissolveu, sem voltar a ser possível, apesar de inúmeras tentativas feitas, reconstituí-la.

(in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa e Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, V. 5, pp. 867-868)



A CARBONÁRIA EM PORTUGAL

1. INTRODUÇÃO

Abordar este tema é uma tarefa complicada, difícil, resultante da escassez de documentos, fruto natural de uma sociedade secreta. Porém, a sua acção deixou marcas profundas na sociedade portuguesa, se atentarmos sobretudo, que a Implantação da República foi fruto da Carbonária, e como em tudo na vida, a causas seguem-se consequências...
Muita gente confunde Maçonaria com Carbonária, ou pelo menos, associa uma destas sociedades à outra. No entanto esta associação não se aparenta assim tão linear e muito menos a Carbonária funcionou como o braço armado da Maçonaria como se tem escrito e falado.
Embora não fossem carbonários todos os maçons, a Carbonária foi muitas vezes uma associação paralela da Maçonaria.
Introduzida em Portugal entre 1822 e 1823, manifestou a sua dinâmica social e política quando do Ultimato inglês em 1890 e de sobremaneira quando do desaire da revolta republicana de 1891 e posteriormente em 1908 quando no Porto foi abortada outra revolta.
O inicio da sua actividade em Portugal, prende-se, sem dúvida, com antecedentes próximos, com o estado de governação despótica exercida pelo marechal britânico Beresford, que colocou a nação a ferro e fogo durante mais de uma década. É bom recordar, que entre as suas vítimas se encontrou o marechal Gomes Freire de Andrade, Grão Mestre da Maçonaria Portuguesa, enforcado no Forte de S. Julião da Barra, junto com outros companheiros, acusados de conspiração com a sua governação.
Efectivamente, desde 1808, data em que por via das invasões francesas a corte procurou refúgio no Brasil, o País passou a colónia brasileira. Porém, a verdade, é que após a ajuda dos exércitos britânicos para a expulsão das tropas napoleónicas, Portugal passou a ser governado pela Inglaterra.
Para parte do povo, vivia-se em estado de orfandade - os soberanos, "os paizinhos" estavam longe... - para outra enorme fatia da população, a monarquia portuguesa encontrava-se desacreditada.
A Carbonária funcionava como uma organização secreta com objectivos políticos e tinha por defesa fundamental, a liberdade pública e a perfeição humana. Era declaradamente anticlerical e adversária das congregações religiosas, o que não significa que os seus membros fossem ateus. Estes homens, procediam maioritariamente das classes baixas, havia no entanto no seu seio, elementos das classes média e alta. Todos eles recebiam treino militar e defendiam o recurso às armas.
A sua extinção surgirá na sequência das divisões verificadas no interior do Partido Republica Português e do triunfo da revolução do 28 de Maio de 1926 que pôs fim à 1ª República.

2. ORIGENS DA CARBONÁRIA EM PORTUGAL
A Carbonária italiana serviu de figurino à Carbonária Portuguesa. Efectivamente foi em Itália que nasceu a Maçonaria Florestal ou Carbonária, onde a primeira foi recolher os seus princípios.
Segundo alguns autores, esta associação secreta remonta ao século XIII, época em que apareceram em Itália os primeiros carbonários, ligando-se à continuação das lutas que se haviam travado na Alemanha entre os Guelfos, partidários do Papa e os Gibelinos, partidários do imperador. Aqueles não queriam a interferência de estrangeiros nos destinos de Itália; estes, defendiam o poder do império germânico. A luta durou até ao século XV. Os Guelfos reuniam no interior das florestas, nas choças dos carvoeiros, daí a designação de carbonários. No entanto, outros autores referem a origem desta sociedade secreta em épocas mais recentes.
A verdade, é que foi em Itália sem dúvida, que a Carbonária ganhou contornos, o rosto de que ouvimos falar, consubstanciada com o aparecimento da "Jovem Itália" de Mazzini, fundada em 1831 em Marselha.
No entanto, apesar dos esforços de Garibaldi, Cavour e Mazzini, a Carbonária não conseguiu proclamar a República, porém, dois enormes trunfos foram alcançados: a unificação da Itália e a abolição do poder temporal do Papa.

Em Portugal, Fernandes Tomás, José Ferreira Borges, Borges Carneiro e Silva Carvalho entre outros, fundaram em 1818 uma sociedade secreta (uma pequena Carbonária) a que chamaram Sinédrio, que preparou e fez eclodir a revolução liberal de 1820. Em 1828, um reduzido número de estudantes da Universidade de Coimbra organizou um núcleo secreto, de cariz carbonária, com o título de "Sociedade dos Divodignos", com a finalidade de combater a monarquia absoluta de D. Miguel.
Denunciados por lentes dessa Universidade, perseguidos pelo rei caceteiro, a maioria acabou tristemente na forca, outros emigrados. Um destes, foi encontrado no Algarve, completamente miserável, transfigurado, exercendo a profissão de caldeireiro ambulante, não se sabendo dele o nome nem o seu fim.
O presidente desta sociedade era um sextanista da faculdade de Direito, que emigrado na Bélgica por lá faleceu. Chamava-se: Francisco Cesário Rodrigues Moacho.

Em 29 de Maio de 1848, fundou-se em Coimbra a Carbonária Lusitana. Foi seu "patrono" António de Jesus Maria da Costa, um padre anti-jesuíta, de nome simbólico Ganganelli. Abrindo as portas e fechando, encerrou-as por longo tempo em 1864.

Por volta de 1850-1851, teve sede em Lisboa uma Carbonária com o nome de "Portuguesa", dividida em secções chamadas choças, ou "lojas-carbonárias". Esta carbonária foi de curta duração.
Pela Segunda metade do século XIX, surge em Portugal a Maçonaria Académica, que se irá transformar em Carbonária. As Lojas Independência, Justiça, Pátria e Futuro passaram a Choças, sendo os seus membros divididos em grupos de vinte. Cada um desses grupos ou choças adoptou um nome diferente. Foram assim criadas vinte choças, presididas por uma Alta Venda provisória.
Em breve, esta Carbonária foi integrada por elementos populares que foram sendo iniciados na antiga rua de S. Roque, 117, último andar, em Lisboa, sede provisória da Carbonária Portuguesa. A primeira Choça popular teve o nome República, seguindo-se a Marselhesa, Companheiros da Independência, Mocidade Operária e Amigos da Verdade entre outras.
As diferentes secções da Carbonária tinham as seguintes denominações: Choças, Barracas, Vendas e Alta Venda.. Os Bons Primos, que pertenciam às Choças, possuíam os graus primeiro e segundo (Rachadores e Carvoeiros) e eram presididos por um carbonário decorado com o terceiro grau; Mestre. Às Barracas e Vendas só pertenciam os Mestres, presidentes dum certo número de Choças ou Barracas.
Na verdade, tanto a Carbonária Lusitana (antiga e moderna) como a Carbonária Portuguesa, foram geradas no seio dos estudantes universitários.
Na Carbonária encontravam-se Primos de todas as classes sociais: médicos, engenheiros, advogados, professores de todos os ramos de ensino, estudantes, oficiais e sargentos das forças armadas, funcionários públicos, proprietários, lavradores, administradores de concelho, actores, lojistas, comerciantes, polícias, operários, etc.. Havia de tudo, de Norte a Sul do País. No Algarve, os núcleos mais importantes encontravam-se em Silves, Faro e Olhão. O seu rosto visível - embora o não fosse aos olhos de profanos - eram os centros republicanos.
Havendo já bastantes Mestres, fundou-se a Venda Jovem Portugal. A Loja maçónica Montanha, fundada por Bons Primos, foi o veículo da Carbonária dentro da Maçonaria. Outras Lojas maçónicas com o mesmo cariz se lhe seguiram.

3. A ORGANIZAÇÃO CARBONÁRIA
Os carbonários ou bons primos, tratavam-se por tu e davam-se a conhecer por meio de sinais de ordem, senhas, contra-senhas, apertos de mão e cumprimentos especiais com o chapéu. Usavam distintivos e possuíam armas de fogo para a sua defesa. - Os rachadores e os carvoeiros usavam uma folha de carvalho na lapela. - Os mestres, cintos com as cores do seu grau em aspa, e punhal. - Os mestres sublimes usavam além do cinto, um colar de moiré e com as cores carbonárias do último grau, tendo pendente um pedaço de carvão cortado em aspa. - O símbolo solar com 32 raios, era o distintivo superior da Ordem, sendo unicamente usado nas várias sessões magnas pelo Grão-Mestre. - A estrela de cinco pontas representava o Bom Primo.

4. A ESTRUTURA DA CARBONÁRIA
Só o Grão-Mestre Sublime e a Alta Venda conheciam toda a organização sem desta serem conhecidos, o que garantia o secretismo desta organização, reforçado pela rígida hierarquia e pelo ritual iniciático que contemplava o uso de balandraus e de capuzes, caveiras, tíbias, etc..
Desde a sua criação até ao seu fim, a Carbonária Portuguesa teve oito Alta Venda, tendo sido seu Grão-Mestre em todas elas, Luz de Almeida.
De todas a mais importante foi a Sexta, pois foram os seus elementos que participaram decisivamente no 5 de Outubro de 1910, na ausência de Luz de Almeida, então exilado em França.

5. A INICIAÇÃO
As iniciações faziam-se nalguns Centros Republicanos - onde, aliás, se encontrava grande parte dos Bons Primos carbonários - mas de preferência em escritórios e casas particulares, quando temporariamente desabitadas, ou ainda, em armazéns, caves e até em cemitérios a altas horas da noite.
Os que presidiam às iniciações vestiam-se de balandrau com orifícios no capuz. O venerável carbonário que presidia era assistido pelos seguintes Bons Primos: primeiro secretário (primo Olmo); o segundo secretário (primo Carvalho); o primeiro vogal (primo Choupo) e o 2º vogal (guarda externo).
Era a este último que incumbia o secretismo das sessões, alertando ao mínimo movimento suspeito nas imediações.
O neófito era vendado à entrada pelo bom primo Choupo, depois do interrogatório e após o juramento, se era aceite, assinava então o seu compromisso de honra, muitas vezes com o próprio sangue, como se segue: "Juro pela minha honra de cidadão livre guardar absoluto segredo dos fins e existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regeneração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento".
Quanto ao bom primo Carvalho, lia os estatutos, em que referia que: "...os associados deviam obedecer cegamente às ordens que lhes fossem dadas; guardar segredo tão absoluto que nem às próprias famílias podiam revelar tudo quanto se passasse nas assembleias; que deviam ser astuciosos, perseverantes, intrépidos, corajosos, solidários, destemidos e valentes...".

6. CONCLUSÃO
A Carbonária foi uma sociedade secreta, política, organizada de modo a poder admitir elementos de todas as classes sociais, desde as mais elevadas às mais baixas. Diferia substancialmente da Maçonaria, esta mais tolerante em política e religião, e de carácter burguês.
Sem dúvida que a Carbonária Lusitana e a Maçonaria divergiam substancialmente. Nem todos os Bons Primos eram maçons. A mais importante Loja maçónica que fazia a ponte para a Carbonária era a Loja Montanha. Aliás, esta Loja era uma irradiação da Carbonária, tendo chegado a estar fora da obediência do Grande Oriente.
Embora tivesse favorecido e patrocinado a Revolução Republicana, a Maçonaria não foi a sua alavanca, mas sim a Carbonária. O baluarte da Revolução encontrava-se implantado na zona ribeirinha de Lisboa, muito embora abarcasse todo o País, num total de mais de 40 000 membros. Com a revolução triunfante, a Carbonária dissolve-se em bandos e clientelas políticas, sobretudo na busca de empregos, desfazendo-se assim, o espírito igualitário e fraterno cimentado por anos de luta.
(texto retirado de
http://abarracadacarbonaria.blogspot.com/ )

3.10.07

Transgénicos: video-reportagem da sic sobre a manifestação e a contestação aos OGMs

A guerra biológica americana já chegou aos nossos pratos?

A Reportagem Especial ouviu os argumentos dos que defendem a engenharia genética como uma tecnologia ao serviço da humanidade e dos que temem impactos irreversíveis na saúde e nos ecossistemas e um problema social de dimensões imprevisíveis. Acompanhou a preparação de uma manifestação anti-transgénicos, ouviu activistas, políticos, cientistas e agricultores.
Em Elvas, ouviu Maria do Amparo explicar porque voltou a dormir descansada quando plantou 70 hectares de milho transgénico.
No Cadaval, viu o que João Vieira acredita ser a prova de que os transgénicos lhe roubarão inevitalmente o direito às sementes que apurou durante décadas.
70 por cento dos consumidores europeus temem os alimentos geneticamente modificados. Mas o que sabemos, afinal, sobre transgénicos?



A Reportagem Especial da SIC sobre Transgénicos está disponível online a tod@s @s que não a viram.

Video thumbnail. Click to play

Ver o video no blogue do movimento Verde Eufémia: AQUI


http://eufemia.ecobytes.net/





Jaime Silva: ministro transgénico ou ministro ignorante?

Texto retirado de:
http://ingenea.pegada.net/


A SIC emitiu hoje uma excelente reportagem sobre transgénicos. A primeira reportagem que colocou as questões certas e tentou transmitir respostas claras de ambos os lados. Embora hajam vários aspectos a comentar na argumentação apresentada pelos vários intervenientes pró-OGM, decido, pelo menos por hoje, focar-me nas palavras com que o Ministro da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, Jaime Silva, nos brindou.


«Nós somos 27 estados-membros, será que estamos todos a ser manipulados?»
Certamente que não Sr. Ministro. A Áustria, a Hungria, a Polónia e a Grécia têm proibições ao cultivo de transgénicos, contra a vontade da Comissão Europeia. A Alemanha impôs uma proibição temporária ao cultivo de MON810, pelo facto de a Monsanto não ter apresentado até agora um plano de monitorização sobre o cultivo desta variedade, conforme obriga a Directiva 2001/18. Outros países como a Itália e o Chipre têm mostrado forte resistência ao cultivo de transgénicos no seu território. A França considera avançar com uma proibição ao cultivo de milho transgénico.

Não Sr. Ministro, nem todos os Ministros Europeus são marionetas da Monsanto. E talvez lhe fizesse bem aos cordelinhos perguntar ao seu colega do Ambiente, o Ministro Nunes Correia, por que razão apoiou a proibição do cultivo de milho transgénico pela Hungria.

«27 Estados-membros que têm os seus cientistas no comité cientifico permanente, não são extra-terrestres que estão lá sentados. São cientistas portugueses, ingleses, franceses e alemães… e se eles nos chumbam… por exemplo há uma variedade de arroz que foi chumbada. Não foi autorizado no espaço da União Europeia e aplicámos medidas contra a importação de arroz dos Estados-Unidos.»

Não sei a que cientistas Jaime Silva se refere, se aos do Painel OGM, se à própria EFSA. As decisões sobre as autorizações são baseadas nas recomendações do Painel OGM. O papel da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) é emitir opiniões para a Comissão Europeia e para os Estados Membros, baseadas nas recomendações do Painel OGM. Ou seja, “eles” não chumbam nada, nem podem chumbar… quem pode chumbar alguma coisa são os Ministros, como o Jaime Silva, ou a Comissão Europeia.

Contudo, pior que isso é o Ministro desconhecer a própria estrutura das instituições europeias da sua área. O comité permanente a que o Ministro se refere, onde há representantes de todos os países, é o comité regulador da Directiva 2001/18, que não é um comité científico. Ao contrário desse comité, no painel OGM da EFSA os cientistas não representam os países e nem sequer há cientistas de todos os países - Portugal, por exemplo, não tem lá nenhum cientista.

E sobre as votações do arroz transgénico? Terá de facto sido chumbada alguma variedade de arroz? Não, também aqui o Ministro mente, ou por ignorância, ou para nos enganar. Nunca houve nenhuma votação sobre qualquer variedade de arroz transgénico na União Europeia e como tal, nunca houve nenhum chumbo.

Quanto às medidas contra a importação de arroz, mal seria se não se aplicassem medidas contra a importação de variedades que não são autorizadas na União Europeia, ainda que o agro-negócio, os Estados Unidos e a Organização Mundial do Comércio vejam isso como uma afronta ao comércio livre global. No caso do arroz transgénico LL601, as medidas justificaram-se pelo aparecimento de arroz transgénico em latas comercializadas nos Estados Unidos. Um mês mais tarde, foi encontrado arroz transgénico Bt63 em massas chinesas no mercado alemão.

«Portugal, juntamente com a Alemanha, foram os primeiros dois Estados-membros a fixar regras. Só há 7 estados membros que têm regras. Isto significa uma coisa muito simples: que os outros 20 estados-membros, qualquer agricultor pode produzir os OGM autorizados de qualquer maneira.»

Aqui, mais uma falácia, onde Jaime Silva ignora os países que têm batalhado (este é o termo adequado) com a Comissão Europeia para impedir o cultivo de transgénicos. Já os referi acima. Outros há que não têm transgénicos pela simples razão de que o clima do seu território não permite o cultivo de milho. O MON810 só é adequado para cultivo nos países do Sul da Europa, pelo que países como o Reino Unido ou os países escandinavos não têm nenhuma pressa em regulamentar.

Segundo dados oficiais da indústria, em 2006 só houve cultivo de milho transgénico em 7 dos 27 países da União Europeia. Países como a Alemanha, apesar de não terem regras específicas para a coexistência (ao contrário do que diz o Ministro!), têm uma lei geral muito mais abrangente que a nossa e que efectivamente atribui responsabilidades quando alguma coisa correr mal.

No meio de tanta alarvidade, o Ministro ainda conseguiu dizer uma boa verdade, ainda que abone contra o seu discurso apologista MonsantoTM. Ao falar sobre a BSE, afirmou que «a ciência também tem por trás interesses económicos. Os políticos na altura não foram suficientemente cautelosos, não adoptaram medidas de precaução».

Pois, não aplicaram e viu-se no que deu. Só no Reino Unido os custos da BSE foram estimados em mais de 6500 milhões de euros.

Mas será que relativamente aos OGM não há interesses económicos? Ora, façamos um pequeno exercício de comparação. Que interesses económicos estavam por detrás das rações com cadáveres, que resultaram nas vacas loucas? A indústria das rações, certamente, que viu na “reciclagem” de animais mortos uma excelente oportunidade para poupar uns trocos com proteína barata. Não querendo perder a sua galinha dos ovos de ouro, fez lobby junto das instituições governamentais de vários países, para que não proibissem a importação das suas rações contaminadas, permitindo que a contaminação se alastrasse com efeitos sócio-económicos catastróficos.

E do lado dos OGM, quem temos?
Monsanto, a maior empresa de agro-biotecnologia e a segunda maior empresa de sementes do mundo, com vendas a ascender a 1700 milhões de dólares. Curiosamente, é também uma das maiores empresas do sector agro-química e detentora da patente do herbicida Roundup. Será coincidência que 75% dos transgénicos cultivados em todo o mundo são Roundup Ready, resistindo ao herbicida mais vendido do mundo?
Syngenta, a maior empresa do agronegócio do mundo. Originou-se a partir da Novartis, a maior farmacêutica do mundo e da AstraZeneca. As vendas ascendem a mais de 6 mil milhões de dólares.
Pioneer Hi-Bred, a maior empresa de sementes do mundo, adquirida em 1999 pela DuPont, a segunda maior empresa de químicos do mundo. As vendas de sementes ascendem a mais de 1900 milhões de dólares.
Bayer CropScience, uma bem conhecida produtura de químicos e farmacêuticos. As vendas nos sectores da saúde, agricultura, químicos e polímeros ascendem a mais de 25 milhões de euros.
Advanta, uma joint venture da AstraZeneca, uma das maiores farmacêuticas/químicas e a empresa de sementes VanderHave. Tem rendimentos anuais superiores a 400 milhões de euros.

De facto, não há razão para alarme. Desta vez os interesses económicos não são, de facto, um problema… mas só porque são tão fortes que nem Estados, nem Comissão Europeia são capazes de lhes fazer frente…

O Ministro afirma ainda que «o passado diz-nos que não devemos temer o futuro», revelando o seu positivismo tecnocrata ao mais alto nível. Eu da minha parte, não tenho medo do futuro, Sr. Ministro. O único medo que tenho é de políticos que defendem que a sociedade deve estar ao serviço da ciência e não a ciência ao serviço da sociedade. De políticos que dizem que a agricultura deve pertencer a meia dúzia de multinacionais e não aos agricultores. E, sobretudo, de um Ministro que, capataz do agro-negócio, se assume como o carrasco da agricultura e do meio rural português.