21.4.07

Pedagogia Libertária versus Pedagogia Autoritária

Autor do texto: José Maria Carvalho Ferreira


1.Questões de índole metodológica e epistemológica no discurso narrativo dos especialistas da pedagogia, na generalidade dos casos, esta aparece quase sempre associada a uma visão circunscrita à utilização de um conjunto de métodos e técnicas relacionadas com o sistema educacional. É interpretada e aplicada como meio de aperfeiçoamento do comportamento humano, nos domínios físico e cognitivo, de forma a potenciar a sua capacidade de assimilação do conhecimento. Inscrita num modelo educacional racional-instrumental, a pedagogia serve fundamentalmente para melhorar os processos de aprendizagem cultural e socializar os indivíduos e grupos que vivem nas instituições escolares.

Hoje, no entanto, a pedagogia tornou-se num fim em si mesmo. Como conjunto de técnicas e métodos de acção e intervenção sobre o comportamento humano, revela-se, cada vez mais, uma disciplina com um objecto científico e um objecto de observação autónoma e específica. Esta evolução leva a que os pedagogos e especialistas afins transformem a pedagogia num objecto de compra e venda, com conceitos e metodologias próprias. Embora mantenha laços de indissolubilidade com o ser humano e a sociedade, tende a funcionar como um mero instrumento de adaptação racional dos seres humanos aos desígnios das instituições escolares, do Estado e do mercado.

Estamos, sem dúvida, em presença de um fenómeno complexo, cujos contornos científicos e metodológicos, por vezes, é difícil determinar. Em primeiro lugar, porque temos dificuldade em discernir com exactidão as fronteiras e autonomia específica do objecto científico e do objecto de observação da pedagogia. Em segundo lugar, porque enquanto conjunto de técnicas e métodos aplicados ao comportamento humano, é difícil circunscrever a sua função exclusivamente no indivíduo, prescindindo de a relacionar com toda a envolvência cultural, política, social e económica. Desse modo, não podemos restringir a análise à unidade focal professor/aluno, sem analisarmos a instituição escolar no seu todo. Mas, ao fazê-lo, somos constrangidos a perceber a instituição escolar como um sistema aberto e, logicamente, como uma realidade interdependente e em interacção com a sociedade global. Em terceiro lugar, essas relações entre a instituição escolar e a sociedade global obrigam-nos a pensar e analisar a racionalidade que está subjacente à pedagogia vigente, tendo presente os conteúdos e as formas da assunção estruturante que releva do instituinte e do instituído. Finalmente, contemporaneamente, persiste uma grande dificuldade em descortinar o sentido e a lógica de uma pedagogia que se ideologiza como espontânea, criativa e livre, quando, na maioria dos casos, ela não é mais do que um fenómeno de castração do ser humano ao serviço da racionalidade instrumental do mercado e do Estado.


O facto de estarmos em presença de um fenómeno complexo, de forma alguma devemos inibir-nos perante o mesmo. Ao tentar confrontar a essência das teorias e experiências pedagógicas de características libertárias com a pedagogia vigente de natureza autoritária, conseguimos clarificar esse dilema. Por serem duas pedagogias contrastantes, ao analisar o conteúdo e as formas mais representativas da pedagogia libertária que procuraram e/ou procuram superar a natureza negativa da pedagogia autoritária capitalista, isso permitir-me-á percebê-la e analisá-la de forma dicotómica: de um lado, a individualidade, a liberdade, a espontaneidade e a criatividade do indivíduo a constituir-se num projecto de vida integrado, do outro, a instrumentalidade da racionalidade do mercado, do Estado, do poder e da autoridade a agirem e a intervirem sobre o comportamento do indivíduo de forma tutelar e separada .


Para evitar cair em generalizações fáceis e abusivas, vejo-me constrangido a restringir o meu objecto de análise ao contexto geográfico da Europa ocidental, onde o capitalismo atingiu maior desenvolvimento. Se bem que o modelo pedagógico de características autoritárias esteja disseminado à escala mundial, não é possível visualizá-lo de forma padronizada e consistente, já que temos que ter presente o carácter discrepante dos níveis de desenvolvimento económico, político, cultural e social dos diferentes países. Pela homogeneidade civilizacional e grau de estruturação histórica da instituição escolar e da pedagogia, parece-nos mais aconselhável essa opção metodológica.


Da mesma forma que delimitámos a amplitude geográfica do objecto de análise, somos também obrigados a reduzir a sua dimensão histórica. O fenómeno pedagógico, nesse sentido, não será analisado desde os primórdios históricos da humanidade, mas a partir do momento a que se assiste a uma correlação estreita entre o advento histórico do processo de laicização, industrialização e urbanização das sociedades da Europa ocidental e a institucionalização do ensino enquanto actividade autónoma separada dos meios tradicionais que o ministravam: família, igreja e corporação .


Uma vez estabelecido o quadro epistemológico e metodológico do texto, importa, agora, referir que numa primeira fase abordarei sumariamente os conteúdos e formas mais representativas das teorias e experiências pedagógicas de características autoritária e libertária que emergiram desde a 1ª revolução industrial. De seguida, tentarei formular as tendências contemporâneas do fenómeno pedagógico que se observam no quadro das sociedades capitalistas mais desenvolvidas da Europa ocidental. Finalmente, como conclusão, procurarei construir um conjunto de hipóteses virtuais e reais que se apresentam à pedagogia libertária.

2. Pressupostos da pedagogia autoritária capitalista

Fénelon (1) personifica com alguma expressividade as características da pedagogia autoritária que prevalecia na Europa ocidental no período histórico da reforma e do renascentismo. O seu Tratado da Educação das Meninas permite-nos não só compreender o peso histórico da influência da religião cristã no processo de aculturação das crianças e dos adultos, como, ainda, perceber a função de uma pedagogia autoritária baseada na discricionaridade da autoridade do clero e dos perceptores sobre as crianças. As técnicas e métodos pedagógicos utilizados para ensinar as crianças não só permitiam a utilização de violências físicas (vergastadas, réguadas, castigos corporais e psíquicos diferenciados, etc.,), como também funcionavam no sentido da omissão e a castração da intelectualidade e sexualidade da criança através da redução da pedagogia aos desígnios de uma ordem social fundamentada nos condicionalismos do poder divino.

Para Fénelon "todas as crianças gostam de histórias. É necessário tirar partido dessas disposições naturais. Mas que se tenha cuidado em só lhes contar histórias instrutivas. As da Biblia são as melhores, porque a par do interesse que despertam, formam as bases da religião (.). O ensino religioso, mas histórico, deve começar pela distinção entre a alma e o corpo e o conhecimento dum Deus todo-poderoso, criador e conservador do Universo (.). Por esse meio preparam-se as crianças para a leitura do Evangelo e da palavra de Deus" (2). É uma pedagogia autoritária no sentido em que a razão, a liberdade e a espontaneidade criativa das crianças são coarctadas desde a infância. Por outro lado, as tipologias relacionais da transmissão de conhecimentos polarizavam-se em formas de autoridade e dominação arbitrárias do clero, pais e perceptores sobre as crianças e até sobre os adultos.

Quando em meados do século XVIII irrompe o processo de industrialização e de urbanização das sociedades situadas na Europa ocidental, o ensino e, logicamente, a pedagogia são objecto de uma reestruturação progressiva. Os múltiplos saberes - saber fazer, saber viver e saber ser – são constrangidos a um processo de adaptação funcional sob efeito da laicização e do individualismo fomentados pelo progresso e a razão. O incremento das funções e tarefas ligados à gestão e governação do Estado e dos grandes aglomerados urbanos, a proliferação de actividades socio-económicas relacionadas com os sectores industrial, comercial, agricola, assim como os transportes e as comunicações, desenvolveram de forma gigantesca as necessidades de qualificação da mão-de-obra dos diferentes grupos sócio-profissionais. Dessa realidade emerge uma nova racionalidade instrumental baseada num novo tipo de ensino e pedagogia.

Tratava-se, desde de então, de deixar o ensino escolástico e livresco sem articulações com a razão, a ciência, a tecnologia e o mundo do trabalho. Os processos de aprendizagem dos múltiplos saberes passaram a ser determinados progressivamente pelos ditames da racionalidade empresarial e estatal . O mundo da produção, consumo e distribuição de mercadorias exigia um tipo de conhecimentos que não se adequava mais a um saber contemplativo da ordem divina.

Rousseau ao escrever a seu livro Emílio (3) enunciava já algumas das premissas que a educação e a pedagogia devia assumir no sentido de uma adaptação da actividade espiritual e intelectual dos seres humanos às experiências da vida e aos diferentes ofícios.

Para ele, a pedagogia e a educação deveria transformar as crianças em adultos a partir de um processo de aculturação naturalista e científico. As diferentes fases evolutivas da criança até atingir a idade adulta passavam, previamente, por um conhecimento das virtualidades físicas do corpo humano, de seguida, por um conhecimento baseado na razão, para, finalmente, instrumentalizar-se na aquisição de conhecimentos ligados às exigências de execução de tarefas e funções correlacionados com a actividade económica de então.

Com Durkheim (4), a educação e a pedagogia assumiam fundamentalmente uma função de cientificidade. A aprendizagem de um conhecimento científico e laico deveria estar em consonância perfeita com as exigências da divisão do trabalho social das sociedades industrializadas e urbanizadas. As implicações da organização científica das empresas, das novas tecnologias, dos novos materiais e energias potenciaram não só exigências de conhecimentos humanos ao nível dos procedimentos operatórios das tarefas e funções, como inclusivé traduziu-se em novas exigências de conhecimentos no plano da adaptação física e ergonómica dos seres humanos em relação ao mundo do trabalho. Acresce a esses factos, a crescente complexidade do tecido sócio-cultural e político das sociedades de então em termos da pressão demográfica, migrações populacionais, anomia social, gestão e governação dos grandes aglomerados urbanos e do Estado. A socialização desta realidade levou a um processo de institucionalização e organização das relações sociais baseados num sistema de representatividade formal. Por esta via, a socialização do comportamento humano traduziu-se também na proliferação da exigência de novos conhecimentos.

Desde os finais do século XIX assistiu-se a um desenvolvimento progressivo desse tipo de conhecimentos em paralelo com a criação de outros que, entretanto, emergiram. Depreende-se desse contexto histórico, a assunção da evolução das características da educação e da pedagogia de tipo autoritário capitalista. Se no tempo de Rousseau (1712-1778) o advento da laicização e do individualismo tinham permitido que a educação e a pedagogia evoluissem no sentido naturalista e racional, no tempo de Durkheim (1858-1917), a industrialização e urbanização das sociedades capitalistas desenvolvidas da Europa ocidental deram origem à transformação da educação e da pedagogia autoritária num sentido racional-instrumental e laico. O Estado passa a assumir uma função de legitimidade científica para ministrar os diferentes graus de ensino (básico, secundário e universitário) e simultaneamente tutela a sua institucionalização pelas diferentes instituições e organizações de carácter privado e público.

A institucionalização progressiva da escolarização do sistema social, nos diferentes graus de ensino de forma a corresponder às novas necessidades do conhecimento humano, introduziu uma série de dilemas aos sistema educacional e pedagógico autoritário.

Em primeiro lugar, o tipo de educação e pedagogia ministrada pela Igreja, família e corporação não consegue satisfazer a procura agregada de conhecimentos de carácter científico e técnico que as novas qualificações do factor trabalho e o desenvolvimento cultural do ser humano exigiam(5). O ensino de massa, conforme a exigência dos valores da cidadania nos parâmetros da democracia burguesa, conjugados com a descodificação de linguagens complexas de carácter tecnológico e científico não se coadunavam mais com os conhecimentos humanos ministrados pela Igreja, a família e as corporações.

Por esses motivos, as relações polares entre pais/filhos na família, teólogos/leigos na Igreja e mestres/aprendizes nas corporações, que serviam de suporte a todo o sistema educacional e pedagógico tradicional, vão ser objecto de uma desintegração progressiva.

O carácter secular e público da instituição escolar ao evoluir para uma crescente dependência do Estado e do mercado, obrigou a uma reestruturação dos fenómenos educacional e pedagógico de características autoritárias. A partir de então tratava-se não de instruir e socializar a criança de forma a transformá-la num adulto e de a identificar com a ordem social vigente e o poder divino subjacente, mas de desenvolver sobretudo um tipo de ensino que possibilitasse transformar radicalmente as virtualidades físicas e cognitivas do ser humano numa função de produção e de consumo de bens e serviços de natureza mercantil capitalista. É esta racionalidade instrumental e utilitarista baseada no interesse e na competitividade pela apropriação de riqueza que as expectativas racionais dos indivíduos vão ser objecto de uma estruturação ontológica específica.
No domínio da pedagogia desenvolvem-se métodos e técnicas que potenciem a percepção do conhecimento num sentido competitivo e hierárquico. A relação entre professor/aluno pressupõe uma autoridade desigual relativamente às virtualidades de criatividade e liberdade de acesso ao conhecimento. O processo de aprendizagem de conhecimentos passa, desse modo, por formas de dominação nas relações estabelecidas entre professor/aluno. A essência ontológica dos alunos, nos planos cognitivo, psíquico e físico, é reduzida a uma função de passividade e subalternidade criativa, na medida em que a dinamização da criatividade e da espontaneidade relacionados com os múltiplos saberes é determinada hierarquicamente por aqueles que têm o poder e a autoridade sobre as questôes pedagógicas: Estado, instituições escolares, professores e diferentes especialistas da pedagogia. Doravante o corpo, o espírito e a mente dos alunos e dos professores são objecto de experiências laboratoriais, de aprendizagens sócio-cognitivas e formação científica no sentido de um aperfeiçoamento crescente das suas virtualidades, de forma a potenciarem relações hierárquicas de dominação do professor sobre os alunos no processo de aprendizagem de conhecimentos.

Esta pedagogia passa a estar articulada com uma educação que obedece a uma lógica de estratificação e de mobilidade social confinada aos ditames do Estado e do mercado. No quadro da sociedade capitalista, o rendimento, a propriedade, o "status", o poder, etc., não são usufruidos e apropriados de igual modo pelos diferentes grupos e classes sociais que constituem essa sociedade. Pela dominação e hierarquização que essa realidade encerra, os diferentes grupos sociais e classes sociais passam a dispôr de capacidades e possibilidades pedagógicas e educacionais reguladas pela competividade e concorrência do mercado, pela legitimidade institucional imposta pelo Estado e o constrangimento das relações sociais de produção capitalistas.

Neste quadro, os estratos sociais desfavorecidos, em função das suas capacidades e possibilidades económicas, sociais, políticas e culturais, tendem a reproduzir a sua condição-função, o que leva a serem preteridos no acesso ao desenvolvimento educacional e pedagógico de características autoritárias. Em última instância, o modelo educacional e pedagógico autoritário que se desenvolve durante o século XX serve fundamentalmente para reproduzir a estratificação social e a mobilidade social baseada na desigualdade económica, social, política e cultural (6).

No âmbito das teorias autoritárias há, no entanto, uma outra perspectiva que tende a analisar os indivíduos como função de racionalidade a optimizar no mercado (7). Nesta assunção, os constrangimentos estruturais e institucionais do Estado e do mercado capitalista nunca poderão inviabilizar, em absoluto, as expectativas racionais dos indivíduos no campo educacional e pedagógico.

Integrados numa lógica de acção social pautada pela percepção da análise de custo-benefício, os indivíduos são capazes, por si só, de desenvolver o seu potencial físico e cognitivo de forma a melhorarem as suas "perfomances" no quadro da mobilidade e da estratificação social . A ideologia burguesa da plena cidadania e a função positiva da democracia representativa optimizam-se plenamente, já que, nesta perspectiva, pode-se passar de burguês a operário, de ministro a sacerdote, etc., e "vice-versa", bastando somente que os indivíduos maximizem as suas expectativas racionais nos sistemas educacional e pedagógico vigentes.

No fundo, todas as experiências e as teorias identificadas com as características da educação e pedagogia autoritária capitalista apontam para uma condição-função homológica do ser humano em termos das suas capacidades e possibilidades sócio-cognitivas e físicas. Baseiam-se numa educação e pedagogia que procura formar, treinar, domesticar, desenvolver e aperfeiçoar o indivíduo desde o seu nascimento até à morte (8), permitindo-lhe funcionar como objecto de aperfeiçoamento sistemático no acesso ao conhecimento, mas constrangindo-o sempre a assumir um carácter competitivo, concorrencial, hierárquico e castrador. Obedece a uma racionalidade instrumental que é bem visível nas interdependências e complementaridades que as instituições escolares mantêm com o Estado ,o mercado e os múltiplos locais de trabalho e vida quotidiana em geral. Ou seja, o indivíduo forma e treina o seu físico e a sua mente nas instituições escolares de maneira a evoluirem posteriormente como padrão de comportamento tipificado de papéis e profissões que a sociedade e o mercado lhes permitem exercer. ~

Todo o periodo histórico do século XIX até à década de sessenta do século XX fundamentou-se na difusão de uma racionalidade instrumental do ser humano, enquanto "homo educandus," integrado e funcionalizado prioritariamente nos parâmetros da ordem económica burguesa autoritária. No entanto, não podemos deixar de observar e analisar as tipologias de saber fazer, de saber viver e saber ser que se reportam aos sistemas cultural. político e social. Nestes domínios, a educação e a pedagogia limitaram-se a socializar e a modelar as funções cognitivas e físicas dos indivíduos de forma a codificarem e descodificarem as linguagens que emergem nas instituições escolares em termos das relações entre grupos sociais e relações interpessoais confinadas aos processos de socialização dos indivíduos, aos conflitos de poder e aprendizagem de conhecimentos.

Em síntese, a educação e pedagogia autoritária capitalista assumem formas e conteúdos, cuja homologia espacio-temporal é muito representativa nos "modus vivendi" das instituições escolares, da família, do Estado, dos locais de lazer, da fábrica , do campo, do escritório e da praça pública, etc. Trata-se sobretudo de relações e de interacções sociais orientadas e presididas sempre por bases desiguais e hierárquicas, onde predomina, por um lado, a dominação, a exploração do homem pelo homem e, por outro, a mutilação da liberdade, da espontaneidade, da responsabilidade e criatividade dos indivíduos. Uma relação e uma interacção social estruturada entre os que sabem e os que não sabem (professor/aluno); entre os que decidem e os que acatam as decisões sobre as questões educacionais e pedagógicas (funcionários/professores/alunos); entre os que detém o poder de emitir ordens, controlar e punir e os que obedecem, são controlados e punidos sobre questões relacionadas com a espontaneidade e liberdade criativa do corpo e da mente dos indivíduos (professores/funcionários/alunos); entre os que orientam e institucionalizam valores, ideias, ideologias e crenças e os que são coagidos a assumi-los (sociedade/Estado; organizações/instituições; professores/funcionários/alunos); e, enfim, entre os grupos sociais dominantes que detém o poder, o prestígio e a riqueza e os grupos sociais dominados que deles são desprovidos (classes e grupos sociais /professores/funcionários/alunos).

Toda a educação autoritária se baseia na difusão de um conhecimento cuja eficiência e eficácia se mede por dar corpo e forma a essa realidade social estratificada desigualmente. Toda a pedagogia autoritária tem por objectivo nuclear desenvolver e aplicar um conjunto de técnicas e de métodos capazes de aperfeiçoar, treinar e formar as virtualidades sócio-cognitivas e físicas do ser humano como função de produção e de reprodução da sociedade vigente. A pedagogia autoritária é, desse modo, uma função de adaptação dos indivíduos que se enquadra no processo de aculturação dos indivíduos em relação à assimilação dos múltiplos saberes que relevam dos imperativos educacionais da evolução da sociedade capitalista no contexto geográfico da Europa ocidental e no resto do mundo.

3. Pressupostos da pedagogia libertária Como fenómeno de reacção às contradições e limitações do modelo autoritário capitalista, no período histórico em análise, desenvolveram-se na Europa ocidental experiências e teorias libertárias no campo educacional e pedagógico.

Essas experiências e teorias, embora tenham uma abrangência geográfica e social muito reduzidas, demonstram, no entanto, um conjunto de virtualidades potenciadoras de uma educação e de uma pedagogia que pretende ser, em princípio, a negação do modelo precedentemente analisado. Importa, pois, compreender e explicitar a pedagogia e a educação de caraccterísticas libertárias enquadradas em práticas sociais e humanas presididas pelos valores da solidariedadade, da liberdade, da autogestão, da espontaneidade e da criatividade integradas num todo social harmónico. Estes são os denominadores comuns das experiências e teorias mais representativas que se enquadram na educação e pedagogia libertária.

Os fundamentos desta perspectiva, em primeiro lugar, radicam no facto de que as experiências e as teorias mais representativas não separam arbitrariamente a educação e a pedagogia do todo social em que se integram. Subsiste entre a pedagogia, a educação e a sociedade uma relação de interdependência e de complementaridade sistemática, o que implica correlacionar as funções de adaptação e de integração entre as partes (pedagogia e educação) e o todo (a sociedade).
Em segundo lugar, essas experiências e teorias emergiram enquanto fenómenos de crítica radical da sociedade vigente e visualizavam a implementação de um modelo de sociedade libertária, na qual a educação e a pedagogia subentendiam relações sociais e práticas humanas identitárias entre indivíduos e grupos que interagem nas instituições escolares. Os objectivos são a extinção das relações de dominação e de exploração que subsistem entre professores, alunos e funcionários e que trabalham e vivem nas instituições escolares, de forma a permitir que a espontaneidade, a liberdade, a criatividade e a responsabilidade natural dos indivíduos pudessem emergir para configurações sociais integradas num modelo autogestionário de características libertárias. A educação e a pedagogia não se separam da vida no sentido estrito do termo e dessa forma o acesso aos processos de aprendizagem de conhecimentos não tinham limites de qualquer espécie, quer aqueles relacionados com o organismo humano nas suas múltiplas dimensões, quer aqueles relacionados com o conhecimento da natureza e da sociedade.
Na Europa ocidental, as experiências históricas e as teorias que emergiram desde os finais do século XVIII até aos nossos dias foram várias. Por questões de síntese no âmbito deste texto, limitar-me-ei a enunciar os postulados teóricos centrais que foram comuns à maioria dos autores anarquistas - William Godwin (1756-1836), Max Stirner (1800-1856), Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), Miguel Bakounine (1814-1876), Paul Robin (1837-1912), Pedro Kropotkine (1842-1921), Sebastien Faure (1859-1909) (9) - e a sumariar as experiências históricas mais representativas que ocorreram nesse período até aos nossos dias.

A questão da liberdade como expressão genuina da criatividade e de espontaneidade dos indivíduos no processo de aprendizagem dos conhecimentos sempre teve e tem uma grande relevância para a maioria dos autores anarquistas. William Godwin ao escrever Investigações sobre a Justiça Política em 1793 e o Investigador em 1797 dá-nos uma visão crucial para compreender a essência de uma pedagogia e de uma educação alicerçada na liberdade dos indivíduos. Para Godwin o problema central da pedagogia e da educação não se confina à transformação do aluno num adulto sujeito aos desígnios autoritários do Estado e do professor. A liberdade do indivíduo não deve ser sujeita a nenhuma restrição, salvo aquelas que vão no sentido da mutilação da criatividade e espontaneidade natural dos indivíduos. A experiência da vida nas suas múltiplas manifestações comportamentais deverá servir como base essencial para um desenvolvimento livre e espontâneo dos indivíduos no processo de aprendizagem cultural (10). Nenhum Estado ou outro tipo de autoridade moral (professor, Deus, etc.,) poderia pedagogicamente sobrepôr-se aos desígnios soberanos do aluno como ser essencialmente livre e criador. Para conquistar essa liberdade e felicidade criadora é preciso que o ser humano, desde criança, ganhe o hábito e o método de aprender por si mesmo, sem depender de quaisquer tutela moral, política ou religiosa.

Para Godwin, qualquer projecto de educação nacional revelava-se contraproducente. A escola pública (tão cara a muitos socialistas e republicanos laicos) sob tutela de um governo nacional e do Estado encarregar-se-ia, em todas as circunstâncias, de difundir um tipo de ensino e de pedagogia que cerceava inevitavelmente a liberdade e a criatividade dos indivíduos e reforçava, simultaneamente, o poder do Estado e das suas instituições.

Max Stirner, embora não tivesse uma visão tão globalista e integrada como Godwin, pensou a educação e a pedagogia como um hino de criatividade e liberdade circunscritos à soberania absoluta do indivíduo face a todos os poderes ou autoridades exteriores ao mesmo (11). Nesta assunção, o indivíduo, ao assumir-se como uma função de soberania relativamente ao outro ou aos outros instituidos em instituições de diferentes tipos e no Estado, só assume a criatividade e espontaneidade plena nos planos educacional e pedagógico, quando usufrui do máximo de liberdade e de individualidade. A figura do pedagogo, do professor e/ou do funcionário administrativo das instituições escolares revelam-se, por tais motivos, instrumentos de negação da liberdade e da individualidade dos seres humanos. A existência de um processo de aprendizagem de conhecimentos de incidência social , nestes termos, só poderia estruturar-se numa sintese única e indivísível: a emergência de uma sociedade hipoteticamente anarquista. Só o ser humano, enquanto entidade ontológica única,poderia evoluir para uma soberania de indivíduos livres que construiam e desenvolviam pedagogias e educações múltiplas, mas simultaneamente passíveis de se integrarem numa mesma síntese societária anarquista.

Um dos outros elementos centrais das teorias anarquistas reporta-se à perspectiva
autogestionária e integrada da pedagogia e da educação. Por um lado, o fenómeno da educação e da pedagogia só é passível de entendimento se o contextualizarmos no âmbito da sociedade global, por outro, só através do desenvolvimento de uma sociabilidade e socialização de carácter fraternal e solidário permitir-nos-ia falar verdadeiramente de uma educação e de uma pedagogia libertária. A auto-organização e auto-responsabilização dos indivíduos no processo de aprendizagem de conhecimentos não somente deveria enquadrar-se numa acção social criativa e espontânea, mas também tendo presente os valores e as finalidades últimas da emancipação dos indivíduos numa perspectiva autogestionária e integrada.

Proudhon foi um dos autores que maior preocupação teve relativamente a esta questão central. Esse facto deriva, em parte, das suas análises sobre o federalismo, o mutualismo, o sindicalismo revolucionário e a autogestão. A ordem social e económica que defendia num sentido de uma sociedade libertária construia-se basicamente a partir do trabalho e dos trabalhadores livres e emancipados. A educação e a pedagogia inscrevia-se nesta orientação primacial e funcionavam como o motor de aprendizagem dos conhecimentos necessários a toda actividade económica, profissões, ofícios e vida cultural e social em geral. Este carácter integrado da educação passava por um processo de socialização fundamentado na autogestão. A partir dos múltiplos locais de trabalho, das escolas de diferentes tipos e graus de ensino, etc., os indivíduos deveriam auto-organizar-se de forma a que o processo de aprendizagem de conhecimentos estivesse correlacionado com a sua vida quotidiana e estivesse identificado com os processos de decisão e transmissão de conhecimentos baseados em relações sociais fraternas e solidárias .

Para Proudhon, o ensino ministrado pelo sistema de educação burguês limitava-se a reproduzir um tipo de conhecimentos que embrutecia e desenvolvia atavismos comportamentais nos trabalhadores, transformando-os em máquinas obedientes e escravas da lógica exploradora e opressiva do Estado e da burguesia. Na medida em que considerava o trabalho como fonte criadora da ordem social e económica da sociedade futura, o seu projecto educacional e pedagógico está muito ligado ao mundo do trabalho. Para libertar o trabalho do jugo da opressão e da exploração capitalista e estatal, numa sociedade libertária, a instrução e a educação dos trabalhadores assumia uma importância capital.

Na perspectiva de Proudhon, as diferentes escolas públicas e privadas não deveriam estar desligadas da experiência, do raciocínio científico, dos locais de trabalho e da vida quotidiana em geral (12). A integração do ensino intelectual e manual numa síntese criativa humana permitiria a sua inserção espacio-temporal em todas as actividades sociais, económicas, políticas e culturais. Para a consecução desse objectivo, haveria três modalidades para ministrar a instrução e a educação: pelos pais nas suas famílias e domicílios, pelas escolas privadas em obediência aos seus particularismos, profissionais, ideológicos e geográficos e, ainda, as escolas públicas com uma abrangência social alargada e baseada em pressupostos federalistas.

As relações entre professores e alunos inscreviam-se num quadro estrutural autogestionário, mutualista e federativo. A auto-organização da educação e da pedagogia baseava-se em pressupostos de solidariedade e fraternidade o que, em princípio, inviabilizaria todo o tipo de relações hierárquicas traduzidas em tipos de autoritarismo e de dominação entre professores e alunos. Os professores dependiam das comunas ou federações distribuidas por departamentos e provincias. A escola pública, nas suas múltiplas funções de instrução e de educação, enquadrava-se organicamente numa sociedade global descentralizada e federalista, opondo-se, dessa forma, às concepções centralistas e monopolistas do ensino tutelado pelo Estado. Pedagogicamente, a escola modelo para Proudhon é a "escola-oficina" que permitia um processo de aprendizagem de conhecimentos politécnicos. A politecnia era uma pedagogia que permitia um acesso ao conhecimento dos diferentes ofícios, através da experiência e da racionalidade científica e simultaneamente de relações sociais espontâneas e simples, sem hierarquias e autoridades morais exteriores ao indivíduo e ao colectivo a que pertencia.

Bakounine não foi de forma alguma um autor profícuo na análise do fenómeno educacional. A razão fundamental dessa assunção radica na expressividade da sua luta pela transformação radical da sociedade capitalista e, ainda, devido ao facto de analisar a questão da educação e da pedagogia no quadro da sociedade libertária futura. Neste sentido, a sua visão colectivista do anarquismo embora estivesse pautada pela liberdade, a criatividade e espontaneidade dos indivíduos, a sua inserção nos parâmetros da sociabilidade e socialização humana transcritas em tipologias interactivas e relacionais de características solidárias e fraternas, leva-nos a interpretar o fenómeno educacional e pedagógico como algo que se integra e adapta aos desígnios de emancipação social, económica, política e cultural da sociedade libertária. Assim sendo, a criatividade e espontaneidade dos indivíduos como a sua liberdade e responsabilidade transcende o quadro de aprendizagem de conhecimentos na qual se inscreve o fenómeno pedagógico e educacional (13). Mais do que privilegiar a análise das relações polares professor/aluno, para Bakounine haveria que abolir o Estado e as relações sociais capitalistas a nível de toda a sociedade e, logicamente, o tipo de autoridade hierárquica e dominação que emerge na instituição escolar,. Neste amplo sentido, a tipologia das relações sociais anarquistas encarregar-se-iam de estruturar de uma forma livre, espontânea, responsável e criativa a inserção dos indivíduos na sociedade e nas suas unidades constituintes.

A educação, tal como a pedagogia, inscrevia-se neste quadro típico relacional e interactivo dos indivíduos, daí que em termos de processo de aculturação sócio-cognitivo e físico dos indivíduos não pudesse ser objecto de uma aprendizagem de conhecimentos diferente daquela que ocorria em toda a sociedade libertária.

Kropotkine sempre viu o fenómeno educacional e pedagógico como uma função crucial na formação dos jovens, como também o conceptualizou no sentido da emancipação dos trabalhadores (14). O conhecimento da vida, da natureza e da sociedade esteve sempre no centro das suas preocupações . Esse conhecimento permitiria destruir os factores que condicionavam a inteligência humana de percepcionar e interpretar científica e racionalmente os fenómenos que observava, mas também permitiria ao ser humano construir-se como ser individual e ser social emancipado de poderes e autoridades exteriores à sua identidade intrínseca.

A educação e a pedagogia libertária, nesse sentido, diferentemente da pedagogia e educação burguesa, deveria actuar de forma a que subsistisse sempre uma identidade entre tudo aquilo que se aprende e os requisitos inquestionáveis da emancipação individual e social: isto é, a aprendizagem de um conhecimento traduzido na potenciação da liberdade, da criatividade, da espontaneidade, da fraternidade e solidariedade humana .

Assim, tal como era importante formar jovens de forma a torná-los responsáveis e activos enquanto agentes de transformação radical da sociedade capitalista, para Kropotkine , a pedagogia e a educação libertária deveria desenvolver-se em sintonia com a assimilação de um conhecimento compatível com as necessidades de produção, de distribuição e consumo de bens e serviços inerentes ao funcionamento de uma sociedade libertária. A aprendizagem desse conhecimento deveria basear-se na realidade experimental dos múltiplos aspectos da vida quotidiana e do trabalho e fundamentar-se num equilíbrio ecológico de características identitárias com a natureza e seus elementos constitutivos. Nestes parâmetros, as comunidades pedagógicas e educacionais de Kropotkine enquadravam-se numa perspectiva de relações sociais fraternas e solidárias entre professores e alunos, eliminando-se os fenómenos relacionais interpessoais presididos pela dominação e exploração do homem pelo homem.

As experiências pedagógicas e educacionais libertárias que consideramos mais representativas, e que passamos de seguida a descrever, não devem ser vistas como qualquer prova de desvalorização em relação a todas as outras que omito. Esta omissão decorre, em primeiro lugar de opções metodológicas e epistemológicas, como enunciei logo de início neste texto e também porque há que referenciar aquelas que assumiram maior força simbolica no quadro da perspectiva libertária.

No campo das experiências libertárias, aquela que foi realizada por Paul Robin no orfanato de Cempuis (França), entre 1880 e 1894, foi dinamizada no sentido de dar uma formação integral às crianças nos domínios psíquico, físico e mental (15). Esta experiência, embora estivessse enquadrada institucionalmente no sistema escolar público da França, fundamentou-se numa perspectiva educacional e pedagógica libertária que Paul Robin protagonizou durante toda sua vida de professor. Os constrangimentos estruturais e institucionais impostos pelo meio ambiente dessa experiência não impediu que o orfanato de Cempuis reorientasse a educação e a pedagogia no sentido das crianças viverem o espaço-tempo da escola num clima de liberdade, de criatividade e de espontaneidade. A educação física, intelectual e moral constituiam as bases de formação das crianças, desde a infância até à adolescência. O corpo era sujeito e objecto de uma aprendizagem baseada em conhecimentos naturais e espontâneos e eram conjugados com jogos lúdicos.

A alimentação fundamentava-se em práticas naturalistas e actividades de lazer acompanhados de um diálogo de aproximação e de identidade com a natureza. A educação intelectual estava intimamente relacionada com a vida quotidiana dos alunos e professores, evitando-se o abuso de um ensino livresco e escolástico. No plano da educação moral estimulava-se, no aluno, a defesa de valores que se orientavam por princípios humanistas e emancipalistas, procurando-se incutir no espírito das crianças o sentido lógico da liberdade e da fraternidade entre os indivíduos. A relação entre professores e alunos inseria-se num esquema pedagógico de igualdade na discussão e explicação de todos os fenómenos estudados. A coeducação e a relação de liberdade e de igualdade entre rapazes e raparigas foi também estimulada. A experiência educacional e pedagógica de Paul Robin, em Cempuis, teve o seu epílogo em 1894, porque, em última instância, era demasiada radical para a época e punha em perigo a essência da educação e pedagogia burguesa de carácter autoritário. Não admira, portanto, que tivesse soçobrado perante os ataques difamatórios que sofreu da Igreja e do sistema escolar vigente.

Sebastien Faure pode ser enquadrado no campo das experiências educacionais e pedagógicas mais representativas no meio libertário, pese embora a sua obra e vida estar muito ligada aos meios anarquistas mais como intelectual e militante de grande envergadura. Na sua perspectiva de luta por uma sociedade anarquista, a educação e a pedagogia assumiam uma função estruturante de crucial importância para a emancipação das massas trabalhadoras. O projecto educacional e pedagógico de Sebastien Faure, por esse motivo, não podia circunscrever-se nos parâmetros e condicionalismos da educação e pedagogia burguesa, mas integrar-se plenamente nos objectivos e estratégias da revolução social (16). Embora seguindo, em grande parte, os passos de uma educação integral preconizada por Paul Robin nos planos intelectual, moral e físico, diferentemente deste, no entanto, fundamentou a construção de uma escola libertária apoiada em princípios e práticas autogestionárias, sem depender da tutela institucional e pedagógica estatal.

Nestes termos, em 1904, sob auspícios de Sebastien Faure é criada uma escola denominada A Colmeia, em Rambouillet (França). Em Rambouillet, não só foi dinamizado uma aprendizagem de conhecimentos manuais e intelectuais numa perspectiva integrada, como, ainda, todo esse conhecimento estava harmonicamente correlacionado com as necessidades de produção, de consumo e de educação da cooperativa integral A Colmeia. Na medida em que persistia uma interligação entre produção, consumo e educação, os aspectos organizacionais e pedagógicos eram estabelecidos mediante decisões e relações sociais de características autogestionárias e libertárias.

A criatividade, liberdade e espontaneidade dos alunos e professores permitia-lhes uma auto-organização e uma auto-responsabilização no processo de aprendizagem dos múltiplos saberes que estavam intimamente associados e, simultaneamente, orientavam o comportamento dos diferentes cooperantes no sentido da aprendizagem de conhecimentos integrados, opondo-se à separação entre trabalho manual e intelectual e à descontinuidade espacio-temporal entre os momentos de aprender e os de trabalhar.

Para os anarquistas e sindicalistas revolucionários que aspiravam libertar as massas trabalhadoras da exploração e a opressão exercida pelo Estado e a burguesia, ao criarem uma cooperativa estruturada em princípios e práticas autogestionárias e libertárias, significava criar as condições básicas para educá-las, de forma a extinguir essa realidade negativa e desenvolveram a sua luta no sentido da revolução social. Estava-se, portanto, a desenvolver uma experiência autogestionária em que as massas trabalhadoras tinham um espaço de manobra estratégica para dinamizarem um projecto educacional e pedagógico de características populares.

A liberdade, a criatividade e a espontaneidade existentes entre alunos, professores e restantes cooperantes ao permitirem uma aprendizagem de conhecimentos numa perspectiva integral, desenvolviam profecientemente o intelecto, o físico e a moral das crianças. Em termos pedagógicos acentuava-se a autonomia e a liberdade das crianças, privilegiava-se o estudo das diferentes ciências numa perspectiva racionalista e prescindia-se da classificação dos alunos em moldes hierarquizados. A cooeducação fundamentava-se numa base igualitária nas relações sociais estabelecidas entre rapazes e raparigas. Na medida em que esta experiência decorria, em grande parte, das capacidades e possibilidades humanas e financeiras de Sebastien Faure e do sindicalismo revolucionário francês da época, com a crise social e económica proveniente das mazelas da primeira guerra mundial, A Colmeia teve que fechar as suas portas em princípios de 1917.

Francisco Ferrer foi sem dúvida alguma uma figura proeminente no domínio da luta por uma educação e pedagogia de essência libertária. Através da sua acção persistente criou um modelo de Escola Moderna que teve grandes repercussões históricas na Espanha e, em menor grau, noutras partes do mundo: Brasil, Portugal, Suissa, Holanda, etc. Com intenções explícitas de lutar contra a ignorância e o analfabetismo endémico que perpassava a Espanha, Francisco Ferrer ao desenvolver a sua perspectiva racionalista e laica de ensino, depressa encontrou grandes resistências e oposição por parte da Igreja Católica que tinha uma influência clerical hegemónica sobre o sistema educacional e pedagógico espanhol.

Propriamente dito, a experiência da Escola Moderna teve o seu início, em Barcelona, no ano de 1904, e generalizou-se de seguida em outros locais na Espanha. Para além de seguir alguns dos passos educacionais e pedagógicos que Paul Robin tinha já desenvolvido em Cempuis, a estratégia e os objectivos da Escola Moderna enquadravam-se num regime de coeducação de crianças,com rapazes e raparigas em situação de igualdade , e na alfabetização de adultos.
Sem pôr em causa a sua essência libertária, o que singularizava, porém, a força da acção da Escola Moderna era o seu carácter laico e racional (17). Em uma sociedade, como era o caso da Espanha de então, modelada espiritual e físicamente pelo poder despótico do ensino clerical da Igreja Católica, criar e dinamizar um projecto educacional e pedagógico libertário por todas as regiões de Espanha, revelava-se, no mínimo, um perigo e uma afronta para todos os poderes instituídos: Estado, burguesia e Igreja. No fundo, era um tipo de escola que procurava fazer da educação e da pedagogia um instrumento de desenvolvimento humano das crianças e dos adultos numa perspectiva racionalista e ateia e simultaneamente criar as bases emancipalistas das classes trabalhadoras e do povo em geral.

Pelos constrangimentos em que decorria, a integração da educação moral e física não atingiram o mesmo nível de desenvolvimento das experências que ocorreram em Cempuis e Rambouillet. Deverá, ainda, sublinhar-se que os seus objectivos de educação popular foram custeados pelos pais dos alunos e/ou pelos próprios alunos adultos, mas sempre em função das suas capacidades financeiras específicas.

Com o fusilamento de Francisco Ferrer em 1909, em Barcelona, sob as ordens de Afonso XIII, a experiência libertária da Escola Moderna sofreu um rude golpe nas suas aspirações de expansão. Após esse acontecimento trágico, o projecto de Francisco Ferrer foi-se desintegrando progressivamente. Porém, isso não impediu que a sua força simbólica no campo das experiências pedagógicas e educacionais libertárias deixasse rastos para sempre no imaginário colectivo anarquista, quer em Espanha, quer no resto do Mundo.

A revolução espanhola, de 1936-1939, revelou-se uma experiência no campo pedagógico e educacional libertário que não podemos desprezar. Em primeiro lugar, porque ela foi realizada no quadro das contingências de uma transformação radical da sociedade capitalista espanhola. Em segundo lugar, porque os constrangimentos e os condicionalismos da sociedade global em relação ao funcionamento interno das instituições escolares eram menos relevantes.
O projecto educacional e pedagógico apresentado pela CNT (Confederação Nacional do Trabalho) no Congresso de Saragoza, em Maio de 1936, é bastante elucidativo a esse respeito. É certo que o projecto educacional e pedagógico consubstanciado na Escola Nova Unificada só foi implementado após o início da revolução espanhola, em Julho de 1936, e, em grande medida, não teve os efeitos práticos que o Congreso de Saragossa pretendia. Isso, porém, não invalida que, na região da Catalunha e outras regiões onde a CNT tinha uma certa influência, fosse implementado um processo de aprendizagem de conhecimentos pautado pela força estruturante da liberdade, da criatividade e espontaneidade dos alunos, professores e restantes pessoas que estavam integrados no projecto autogestionário de educação e pedagogia libertária (18).

O insucesso relativo desta experiência, em grande medida, deve-se ao epílogo da revolução espanhola em 1939 e também porque o funcionamento quotidiano da Escola Nova Unificada foi perpassado por um conjunto de contradições e conflitos resultantes das alianças realizadas pela CNT com os diferentes sindicatos que estavam sob tutela dos partidos socialista, comunista e republicano.

Mesmo sabendo que existiram e existem um conjunto de experiências libertárias no campo da educação e da pedagogia, pelas diferentes partes do planeta, não gostaria porém de fazer uma pequena referência a alguns exemplos que se enquadram, de certo modo, nas suas virtualidades. Refiro-me, concretamente, às experiências de Alexander Sutherland Neil, iniciada em 1921, Summerhill (Inglaterra) (19), às Comunidades Escolares de Hamburgo (20), iniciadas em 1919 na Alemanha, durante a vigência da Republica de Weimar e, finalmente, ao projecto educacional e pedagógico desenvolvido pelo Colectivo Paideia em Mérida (Espanha) desde há vários anos (21).

Não obstante saber das diferenças subsitentes entre essas experiências que foram objecto de análise, todas elas, no entanto, procuraram e procuram extinguir ou superar os factores que estão na base dos constrangimentos e na negação da emergência de um projecto educacional e pedagógico fundamentado na liberdade, espontaneidade, criatividade e responsabilidade dos indivíduos, sem que para tal haja necessidade de amos ou senhores ou de qualquer poder ou autoridade exteriores a esse projecto.

4. Actualidade da pedagogia autoritária e hipóteses históricas para a pedagogia libertária

Como enunciei no início do texto, a pedagogia e a educação são impossíveis de separar mecanicamente do contexto global de que fazem parte e onde ocorrem: a sociedade global. Este carácter de interdependência e de complementaridade sistemática entre as diferentes realidades permite-nos compreender e interpretar, com maior rigor e verdade, os conteúdos e formas que a pedagogia e a educação autoritária capitalista assume, nos nossos dias, na Europa ocidental. Se fizermos da instituição escolar o nosso objecto de observação científico, somos constrangidos, inevitavelmente, a analisar três aspectos essenciais: 1) que tipo de ensino é ministrado pelas instituições escolares?; 2) que relações sociais e tipologias interactivas emergem no quadro do funcionamento interno das instituições escolares?; 3) que tipos de articulações e adaptações existem entre a instituição escolar, o Estado, o mercado, empresas e outras instituições que fazem parte da sociedade?

Assim quando, hoje, tentamos descortinar o tipo de ensino que é ministrado pelas diferentes instituições escolares, torna-se, quase impossível, analisá-lo exclusivamente como expressão genuina dos interesses e necessidades dos indivíduos e grupos que o asssimilam, nem conseguimos vivê-lo e pensá-lo como algo neutral ou abstracto. Na generalidade dos casos, o tipo de ensino ministrado reflecte as necessidades de desenvolvimento cultural dos indivíduos que compõem uma dada sociedade e, por outro lado, serve de padrão de instrução e de veiculação de saberes múltiplos que se adequam à produção e reprodução da sociedade em que o mesmo se insere. Em face desta realidade, existe um tipo de educação que tem por função o desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos e, por outro lado, a função de aprendizagem sócio-cultural, polí;tica e económica no quadro de uma sociedade específica.

No entanto, quando nos reportamos à esssência racional e instrumental da educação relacionada com um tipo de ensino que é ministrado nas escolas, liceus e universidades dos países capitalistas desenvolvidos da Europa ocidental, depressa nos apercebemos que estamos a referenciar uma educação bem específica. Nesta óptica, o que persiste como modelo educacional está basicamente identificado como o desenvolvimento dos indivíduos nos domínios sócio-profissional, do poder, do "status", da propriedade e da apropriação e usufruto de bens e serviços sob as mais variadas formas. O ensino nos seus diferentes graus hierarquiza e legitima institucionalmente todos os indivíduos que se integrarão numa função de saber em determinado grupo sócio-profissional, ao mesmo tempo que isso lhes possibilita uma contrapartida do exercício desse saber corporizado num sistema de recompensas políticas, sociais, económicas e culturais. Por essa via podem mobilizar-se e integrar-se na escala hierárquica da estratificação social da sociedade .

Esta identidade racional-instrumental, que existe entre o tipo de ensino ministrado x=saber do indíduo x=profissão x= lugar na escala da estratificação social x, está, no entanto, a sofrer uma grande transformação. Nem o tipo de ensino coincide exactamente com as necessidades funcionais e de regulação do mercado, do Estado e da sociedade em geral, como inclusivé o que se aprende nas escolas, liceus e universidades não se identifica com a maioria das expectativas racionais e instrumentais dos indivíduos nos múltiplos domínios da sua articulação com vida de todos os dias na sociedade. Não funcionando plenamente este tipo de ensino racional-instrumental, assiste-se ao desenvolvimento de fenómenos que originam a desintegração social .

A desedequacção persiste com cerca de 30 milhões de desempregados na Comunidade Económica Europeia que, entretanto, tinham sido alfabetizados pelo sistema escolar mas não encontraram aplicabilidade prática no mundo do mercado do trabalho .

Esta tendência do modelo educacional autoritário capitalista demonstra-nos que nem o Estado, nem o mercado, nem a sociedade capitalista conseguem socializar e regular com a eficácia requerida o tipo de ensino que é dinamizado pelas diferentes instituições escolares públicas e privadas. Estas, em contrapartida, são, cada vez mais, meros reservatórios para estruturar a integração social de indivíduos marginalizados e desocupados. Mais do que ministrar um tipo de ensino para promover e desenvolver culturalmente os indivíduos, trata-se antes de socializar e controlar indivíduos em espaços fechados, durante um certo número de horas, de forma a impedir que se tornam agentes de marginalidade e de desintegração social.


Para agravar a disfuncionalidade da racionalidade instrumental da educação autoritária capitalista, com a emergência de novos desafios ao sistema educacional vigente impostos pelas novas tecnologias, a crise ambiental, a pressão demográfica, a marginalidade social e a desintegração social, etc., assiste-se à exigência de novos conhecimentos cujas linguagens complexas e sofisticadas são muito difíceis de descodificar. Os múltiplos saberes que estão correlacionados com essas novas exigências de conhecimento humano são, no entanto, paradoxais para o sistema educacional autoritário capitalista. Isso ocorre porque, em grande medida, muitas das manifestações críticas que a sociedade capitalista atravessa são o resultado lógico da aplicabilidade concreta da educacção racional-instrumental subsistente. Nas circunstâncias, dinamizar novos conhecimentos ao ser humano de forma a superar a actual crise corporizada no ambiente, marginalidade social, desintegração social e pressão demográfica, etc., revela-se paradoxal, já que foi o processo de aculturação racional-instrumental dos indivíduos que está na base dessa crise.

A partir do momento que nos situamos na análise da educação e da pedagogia, estamos, quase sempre, a compreender e interpretar as instituições escolares na lógica do seu funcionamento interno. Em termos sócio-culturais e políticos, essa realidade interna é fundamentalmente um espaço de interacção social e de significados simbólicos para os professores, alunos e funcionários. É uma realidade atravessada por uma intervenção social de significados simbólicos que se consubstancia em tipologias interactivas e relações sociais padronizadas que põem em acção, jogos e formas de poder, atitudes, valores e conflitos diferenciados.


Desse contexto emergem relações sociais padronizadas que são legitimadas institucionalmente pela sociedade e o Estado em que as instituições escolares operam. Os valores e as ideologias da sociedade traduzem-se, por outro lado, em normas e regras prescritivas que orientam e sancionam um comportamento humano padronizado de todos aqueles que integram as instituições escolares. Desse modo, toda a pedagogia e a educação é objecto de uma socialização traduzida em papéis e funções específicas do professor, do aluno e do funcionário que foram, na ocorrência, legitimados e formalizados previamente pelas instituições tutelares do Estado e da sociedade. Há, portanto, níveis hierárquicos de autoridade formal que determinam à partida quem pode e deve exercer o poder dentro da instituição escolar. As tarefas e funções do professor, a partir do momento que obedecem a uma lógica normativa e prescritiva, leva a que o seu papel se traduza numa função de discricionaridade pedagógica e educacional de tipo autoritário nas relações que têm com oa alunos. Embora inscritos num outro plano relacional, o mesmo poderemos afirmar em relação aos papéis que decorrem da autoridade formal dos quadros administrativos superiores, os professores e os funcionários subalternos das instituições escolares. Mesmo sendo relações sociais vinculadas por diferenças de estatutio sócio-profissional, entre os vários grupos subsistem modalidades de acção e de intervenção mediatizadas pela autoridade hierárquica formal legitimada pela instituição escolar.

As relações sociais entre alunos e funcionários também passam por mecanismos relacionais de poder. É no poder de decisão burocrático-administrativo que se observa expressivamente o poder dos funcionários sobre os alunos e, muitas vezes, sobre os próprios professores. As relações de poder entre professores, alunos e funcionários, na medida em que são atravessados por fenómenos de dominação, geram um conjunto de conflitos quando os processos comunicacionais e de decisão relacionados com a aprendizagem de conhecimentos ocorrem nas instituições escolares. É evidente que o exercício do poder formal legitima um tipo de autoridade que se manifesta na aplicação de uma pedagogia autoritária. A codificação e a descodificação das linguagens inerentes aos múltiplos saberes veiculados pelos professores, e que são objecto de percepção por parte dos alunos, não permitem que as potencialidades cognitivas e físicas dos alunos se exprimam num clima de liberdade, criatividade, espontaneidade e responsabilidade. Por outro lado, a emergência de fenómenos de contestação e de avaliação do conteúdo e formas das mensagens transmitidas pelo professor dificilmente ocorrerão porque não lhes é permitido reequacionar ou sequer reformular erros ou distorsões durante o processo de aprendizagem de conhecimentos.

A força constrangedora da autoridade formal do professor observa-se também nas atitudes e valores que veiculam. Nestes aspectos, a função do professor resume-se a ministrar uma educação que decorre e é prescrita por um conjunto de ideias, crenças e valores institucionalizados pelo Estado e a sociedade. Os múltiplos saberes veiculados pelo sistema educacional são orientados por um conjunto de ideologias e valores dominantes que se traduzem em atitudes inquestionáveis e intransigentes por parte do professor em relação a qualquer constestação ou interrogação dos alunos sobre o conteúdo e as formas como as matérias são ministradas.

Os fenómenos de reacção contra esta pedagogia autoritária capitalista implicou a emergência de conflitos intragrupais e intergrupais e, logicamente, o aparecimento de grupos informais nas instituições escolares. Esses grupos embora não sejam legitimados pela estrutura da autoridade formal das escolas, vão, no entanto, buscar a sua razão de ser a opções de acção colectiva confinadas a interesses especificos e a reivindicações junto daqueles que detêm a autoridade e o poder formal. Professores, alunos e funcionários podem, desse modo, interagir num sentido de exercício de uma autoridade e poder que é legitimado pela forma como se estabelecem as relações de poder entre as estruturas formais e informais e a força estruturante das relações sociais de tipo informal em relação às relações sociais de tipo formal nas instituições escolares.


Depreendemos as razões da emergência de conflitos e de relações sociais de tipo informal como formas de reacção e de adaptação ao funcionamento interno das instituições escolares baseadas numa pedagogia e educação autoritária. Pelo facto de nunca questionarem essa realidade negativa em profundidade, não admira que ao longo da história, e mais recentemente, tenham surgido um conjunto de pedagogias com a finalidade de superar as contradições da pedagogia autoritária capitalista. A antipedagogia, a pedagogia institucional, a pedagogia terapêutica e a dinâmica de grupo, entre outras, como pedagogias inovadoras, até agora, mais não têm feito do que tentar aperfeiçoar essa pedagogia e essa educação, sem todavia pôrem em causa a sua essência autoritária e opressiva e a própria sociedade e Estado que lhes dão corpo e forma (22).

Em presença das diferentes tendências que estruturam as sociedades capitalistas desenvolvidas da Europa ocidental, denota-se que o processo de aculturação dos indivíduos, com a emergência histórica das novas tecnologias no campo da informática, electrónica, rádio, televisão, rádio e imprensa, foi drasticamente modificado. A aprendizagem de conhecimentos e da cultura em geral pulverizou-se e estrutura-se numa polivalência funcional que não é mais passível de organizar e institucionalizar nos estritos limites e fronteiras das instituições escolares clássicas.

As capacidades e possibilidades de transmitir informação é gigantesca e os processos de inovação no que toca a aprendizagem de conhecimentos modificou-se substancialmente. O processo de aculturação dos indivíduos num sentido mais global, por esta via, vai também ser objecto de grandes mudanças, na medida em que o conteúdo e as formas de codificação e descodificação das linguagens deixam de ser personificados por linguagens corporizadas em observações e comunicações humanas directas e passam a ser mediatizadas por artefactos tecnológicos sofisticados, o que subverte os processos cognitivos de aprendizagem de conhecimentos nos planos educacional e pedagógico.


A mediação funcional dos novos meios de comunicação que podem ser objecto de utilização no acesso à informação e ao conhecimento relacionado com os múltiplos saberes potenciou e transformou as capacidades e possibilidades relacionais dos indivíduos a todos níveis: gestão e controlo das mensagens recebidas e emitidas; velocidade e distâncias espacio-temporais e seus significados simbólicos através das mensagens recebidas e emitidas; heterogeneidade e sínteses sócio-culturais das mensagens transmitidas; mudanças no processo de percepção cognitiva e adaptações diferenciadas do corpo e da mente humana, etc.


Em função destas tendências, o processo de aculturação dos indivíduos ultrapassou as fronteiras do quadro institucional e funcional das instituições escolares clássicas e transformam as próprias funções de controlo e de regulação do Estado e do mercado em relação ao fenómeno pedagógico e educacional. As tendências actuais constrangem ao aparecimento de novas instituições e organizações, cuja função crucial consiste em protagonizar uma difusão importante do conhecimento racional-instrumental autoritário capitalista: televisão, imprensa, rádio, empresas de formação, instituições e organizações de produção e difusão cultural, de lazer, etc. Este facto, leva a que as relações e as interacções sociais ligadas aos fenómenos educacional e pedagógico reestruturem o poder e a autoridade daqueles que ensinam e daqueles que são ensinados. As relações clássicas polares professor/aluno, embora ainda sejam importantes, vão sendo progressivamente substituidas por relações multipolares inscritas em códigos de linguagens com significados diferenciados e múltiplas qualificações sócio-profissionais.

Em presença deste quadro tendencial da pedagogia e educação autoritária capitalista, as hipóteses históricas de uma perspectiva libertária são sempre passíveis de equacionar a duas dimensões:

1)como função integrada numa sociedade hipoteticamente anarquista e;
2) como hipótese de desenvolvimento de experiências radicais no próprio contexto da evolução da sociedade capitalista. Pela sua natureza tendencial e virtualidades reais, interessa-nos mais construir as alternativas mais credíveis a partir da segunda dimensão.

Nestes termos, em primeiro lugar, as virtualidades da pedagogia e da educação libertária têm um valor simbólico no imaginário colectivo dos seres humanos que em si próprio, é inquestionável em qualquer tipo de sociedade. Como escolha radical, ao alicerçar uma sociedade baseada num processo de aculturação dos indivíduos, tendo como base os pressupostos da liberdade, espontaneidade, criatividade e responsabilidade humana, sempre houve e haverá pessoas que vão integrar acções individuais e colectivas que se inscreverão numa luta pela emancipação social e individual em termos integrados e autogestionários.


Em segundo lugar, as próprias contradições e condicionalismos da pedagogia e educação autoritária capitalista tendem a evoluir para uma desintegração social, cuja crise assumirá proporções inauditas. As contingências e constrangimentos dessa crise levarão a uma necessidade de encontrar soluções credíveis para a sua superação. Em confronto com as múltiplas alternativas pedagógicas e educacionais de características autoritárias e mesmo daquelas que se inscrevam em pressupostos de não-directividade e na dinâmica de grupo, a pedagogia e a educação libertária tem grandes possibilidades, porque as outras têm extrema dificuldade em superar a crise do modelo educacional e pedagógico vigente. Ora, neste domínio, pela originalidade que personifica nos domínios da auto-reflexão e da auto-organização, a perspectiva libertária pode ser estruturada com viabilidade em contextos autogestionários e cooperativos, desde que tenha em atenção os fenómenos de adaptação e de reacção impostos pelas outras realidades institucionais e organizacionais escolares e pela própria sociedade global.

Finalmente, o projecto educacional e pedagógico libertário pode ser visto como uma base de alternativa mais ampla face à realidade de anomia e de desintegração social que subsiste na articulação das comunidades locais e regionais com os sistemas de representatividade formal corporizadas na centralização e burocratização do Estado, nos grandes aglomerados urbanos e na própria sociedade. Enquanto projecto de vida autogestionário e comunitário integrado, a possibilidade de construir projectos educacionais e pedagógicos numa perspectiva libertária nos espaços comunidades locais e regionais, seria sem dúvida um bom antídoto para começar a superar as contradições e antagonismos que persistem no modelo educacional e pedagógia autoritário capitalista.

* José Maria Carvalho Ferreira Professor do ISEG-Universidade Técnica de Lisboa
NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) PAROZ, Jules, História universal da pedagogia, Porto, Livraria Figueirinhas -Editora, 1908.
(2) PAROZ, Jules, ob. cit., pp. 124-125.
(3) ROUSSEAU, Jean-Jacques, Emílio (2 tomos), Lisboa, Europa-América, 1990.
(4) DURKHEIM, Emile, Textes - fonctions sociales et institutions, Paris, Minuit, 1975; e Divisão do trabalho social (2 tomos), Lisboa, Presença, 1989 (3ª edição).
(5) FOUREZ, Gerard, Eduquer - école, éthique, sociétés, Bruxelles, De Boeek Université, 1991.
(6) BOURDIEU, Pierre e PASSERON, Jean-Claude, La reproduction, Paris, Minuit, 1970.
(7) BOUDON Raymond, L'inégalité des chanches - la mobilité sociale dans les sociétés industrielles, Paris, Armand Colin, 1973.
(8) SPRINTHALL, Norman e SPRINTHALL, Richard, Psicologia educacional - uma abordagem desenvolvimentista, Lisboa, McGraw-Hill, 1993.
(9) PREPOSIET, Jean, Histoire de l'anarchisme, Paris, Tallandier, 1993.
(10) "Wlliam Godwin - philosophe de la justice et de la liberté", in Les Cahiers Pensée et Action, nº 1, Août-Septembre, Paris, 1953.
(11) STIRNER, Max, L'unique et sa propriété, Paris, Stock, 1899.
(12) PROUDHON, Joseph-Pierre, De la justice dans la révolution et dans l'église, Paris, Librairie de Granier Frères, 1858.
(13) BAKUNIN, Miguel, Obras completas (5 tomos), Madrid, La Piqueta, 1979.
(14) KROPOTKINE, Pierre, Champs, usines et ateliers, Paris, Stock, 1910; e À gente nova, Lisboa, Delfos, 1974.
(15) RAYNAUD, J. e AMBAUVES, G., L'éducation libertaire, Paris, Spartacus, 1978.
(16) FAURE, Sebastien, La verdadera revolución social, Barcelona, Biblioteca "Rojo e Negro", 1934.
(17) RAYNAUD, J. e AMBAUVE, G., ob. cit.,
(18) LEVAL, Gaston, Espagne libertaire, Paris, Ed. du Cercle/Ed. de la Tête de Feilles, 1971.
(19) SKIDELSKY, Robert, La escuela progressiva, Barcelona, A.Redondo-Editor, 1972.
(20) SKIDELSKY, Robert, ob. cit.,
(21) LUENGO, Josefa Martin, "Colectivo Paideia - experiências en torno de um ensino novo e antiautoritário" in Antítese, nº8, Fevereiro-Maio, Almada, 1988.
(22) RESWEBER, Jean-Paul, Pedagogias novas, Lisboa, Teorema, 1988.

O direito à escolha reduziu-se à liberdade de consumir

A propósito da conferência dada por Rancière em Serralves na semana passada.Artigo retirado do jornal Público:

"Se houvesse uma outra palavra para democracia, eu adoraria usá-la".Jacques Rancière diz que algo de nocivo se instalou no pensamento crítico. "O nome da doença é democracia", diagnostica.


Perguntam-lhe porque é que insiste em usar a palavra democracia - sim, por que razão ele, Jacques Rancière, um pensador francês que está nos antípodas dos neoconservadores, e que treme só de pensar nas guerras que já se fizeram para impor sistemas democráticos, continua a usar este termo nas suas obras e conferências? "Não conheço outro. Se houvesse uma palavra mais apropriada, eu adoraria usá-la", responde o professor de filosofia da Universidade de Paris VIII.
Jacques Rancière falava às mais de 600 pessoas que, há cerca de uma semana, não permitiram que houvesse uma só cadeira vazia no auditório da Fundação de Serralves, no Porto.
Foi da democracia que Rancière falou a maior parte do tempo. Da sua noção de democracia (um espaço onde a capacidade ou contribuição de qualquer pessoa, não importa quem, é valorizada na discussão política) aos diversos significados distintos que esta palavra assumiu ao longo dos tempos, "a maioria dos quais não são muito agradáveis". Como sublinhou o próprio Guilherme d´Oliveira Martins, moderador da conferência, "para Jacques Rancière a democracia não é só isto de ter a liberdade de vender e comprar".

Desenhar o pensamento

Como é hábito, Rancière socorreu-se da arte e da história para desenhar o seu pensamento: começou pelas imagens do fotógrafo freelancer iraquiano Ghaith Abdul-Ahad e discorreu sobre as colagens Bringing War Home feitas pela norte-americana Martha Rosler nos anos 70, que introduziu imagens das atrocidades no Vietname em cenários de lares burgueses confortáveis.

Há três décadas, argumenta o filósofo francês, havia um incómodo provocado "pela junção numa mesma imagem da guerra lá fora e do consumismo doméstico" - daí advinha a culpa e a rejeição de algo que nos responsabilizava. Mas, e hoje? Bom, agora "o próprio protesto parece pertencer ao processo já homogeneizado de consumo tanto de bens como de imagens".

Rancière acredita que o contraste deu lugar à equivalência. Aqueles que hoje se manifestam, provavelmente porque consumiram imagens da guerra no Iraque e da queda das Torres Gémeas em Nova Iorque, são os mesmos que oferecem, através das imagens de contestação nas ruas, um novo espectáculo para ser consumido.

"Terrorismo e consumo, protesto e espectáculo têm sido reduzidos ao mesmo processo, processo esse que é governado pela lei dos bens que, por sua vez, é uma lei de equivalência", afirmou o autor de, entre outras obras, Ódio à Democracia (Mareantes Editores, 2007), o seu livro que já está traduzido em Portugal.

O facto de tudo acabar equiparado não isenta, contudo, a sociedade contemporânea da culpa. Um problema irresolúvel para o qual, aos olhos do filósofo francês, o pensamento crítico actual não tem uma resposta. Porque somos muitas vezes o hedonismo que se quer ver como politicamente engajado, por exemplo. Algo do tipo: as minhas sapatilhas foram costuradas por crianças na Ásia, mas estes miúdos explorados (ai, não quero nem pensar nisto!) estão a criar riqueza e, num futuro próximo, estarão em condições de lutar por melhores condições de trabalho, uma vez que fazem parte de um país que agora dá as cartas na economia mundial. Esta é a lei do comércio global, não me culpem por isso. E, bem feitas as contas, eu até já "cliquei" várias vezes no sítio do Live Aid para dar o meu contributo electrónico.

"Não é só uma questão de vaidade. É também uma questão de culpa. Há um fantasma que nos chama culpados. Mas essa mesma voz diz-nos que somos culpados por duas razões diametralmente opostas. Primeiro, porque continuamos a sustentar as mesmas velhas mentiras sobre a realidade, a pobreza e a culpabilidade - tentamos ignorar que vivemos hoje num mundo onde não há nada mais que nos culpabilize. Segundo, porque de facto temos culpa ao contribuirmos através do nosso consumo desenfreado de produtos, protestos e espectáculos para infame reino da equivalência de bens transaccionáveis", defendeu Rancière.

Despolitização

O professor de filosofia está convicto que algo de nocivo se instalou no pensamento crítico contemporâneo. "O nome da doença é democracia", diagnostica. Não porque as pessoas tenham liberdade de expressão e de escolher os seus representantes, mas porque as democracias se ancoraram na noção de "identidade" associada ao livre consumo.

Isto torna o sistema democrático muito complexo, uma vez que os direitos humanos e a afirmação da escolha individual se tornam bens de consumo. Daí que aquilo que mais importa na política se desloque do âmago para as margens, fazendo por exemplo que a tónica ideológica de um candidato incida sobre domínios da ordem da despolitização.
O grande problema, concluiu o pensador francês, é que hoje "o monstro é demasiado doce". Pode até fazer mal, mas sabe tão bem...

DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL

A Conferência Geral,

Reafirmando o seu compromisso com a plena realização dos direitos humanos e das liberdades fundamentais proclamadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e em outros instrumentos universalmente reconhecidos, como os dois Pactos Internacionais de 1966 relativos respectivamente, aos direitos civis e políticos e aos direitos económicos, sociais e culturais,

Recordando que o Preâmbulo da Constituição da UNESCO afirma “(...) que a ampla difusão da cultura e da educação da humanidade para a justiça, a liberdade e a paz são indispensáveis para a dignidade do homem e constituem um dever sagrado que todas as nações devem cumprir com um espírito de responsabilidade e de ajuda mútua”,

Recordando também seu Artigo primeiro, que designa à UNESCO, entre outros objectivos, o de recomendar “os acordos internacionais que se façam necessários para facilitar a livre circulação das ideias por meio da palavra e da imagem”,

Referindo-se às disposições relativas à diversidade cultural e ao exercício dos direitos culturais que figuram nos instrumentos internacionais promulgados pela UNESCO[1],

Reafirmando que a cultura deve ser considerada como o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afectivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as maneiras de viver juntos, os sistemas de valores, as tradições e as crenças[2],

Constatando que a cultura se encontra no centro dos debates contemporâneos sobre a identidade, a coesão social e o desenvolvimento de uma economia fundada no saber,

Afirmando que o respeito à diversidade das culturas, à tolerância, ao diálogo e à cooperação, em um clima de confiança e de entendimento mútuos, estão entre as melhores garantias da paz e da segurança internacionais,

Aspirando a uma maior solidariedade fundada no reconhecimento da diversidade cultural, na consciência da unidade do género humano e no desenvolvimento dos intercâmbios culturais,

Considerando que o processo de globalização, facilitado pela rápida evolução das novas tecnologias da informação e da comunicação, apesar de constituir um desafio para a diversidade cultural, cria condições de um diálogo renovado entre as culturas e as civilizações,

Consciente do mandato específico confiado à UNESCO, no seio do sistema das Nações Unidas, de assegurar a preservação e a promoção da fecunda diversidade das culturas,

Proclama os seguintes princípios e adopta a presente Declaração:


IDENTIDADE, DIVERSIDADE E PLURALISMO

Artigo 1 – A diversidade cultural, património comum da humanidade

A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. Essa diversidade manifesta-se na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. Fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade, a diversidade cultural é, para o género humano, tão necessária como a diversidade biológica para a natureza. Nesse sentido, constitui o património comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em beneficio das gerações presentes e futuras.

Artigo 2 – Da diversidade cultural ao pluralismo cultural

Nas nossas sociedades cada vez mais diversificadas, torna-se indispensável garantir uma interacção harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais a um só tempo plurais, variadas e dinâmicas, assim como a sua vontade de conviver. As políticas que favoreçam a inclusão e a participação de todos os cidadãos garantem a coesão social, a vitalidade da sociedade civil e a paz. Definido desta maneira, o pluralismo cultural constitui a resposta política à realidade da diversidade cultural. Inseparável de um contexto democrático, o pluralismo cultural é propício aos intercâmbios culturais e ao desenvolvimento das capacidades criadoras que alimentam a vida pública.

Artigo 3 – A diversidade cultural, factor de desenvolvimento

A diversidade cultural amplia as possibilidades de escolha que se oferecem a todos; é uma das fontes do desenvolvimento, entendido não somente em termos de crescimento económico, mas também como meio de acesso a uma existência intelectual, afectiva, moral e espiritual satisfatória.

DIVERSIDADE CULTURAL E DIREITOS HUMANOS

Artigo 4 – Os direitos humanos, garantias da diversidade cultural

A defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável do respeito à dignidade humana. Ela implica o compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais, em particular os direitos das pessoas que pertencem a minorias e os dos povos autóctones. Ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo direito internacional, nem para limitar seu alcance.

Artigo 5 – Os direitos culturais, marco propício da diversidade cultural

Os direitos culturais são parte integrante dos direitos humanos, que são universais, indissociáveis e interdependentes. O desenvolvimento de uma diversidade criativa exige a plena realização dos direitos culturais, tal como os define o Artigo 27 da Declaração Universal de Direitos Humanos e os artigos 13 e 15 do Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Toda pessoa deve, assim, poder expressar-se, criar e difundir suas obras na língua que deseje e, em particular, na sua língua materna; toda pessoa tem direito a uma educação e uma formação de qualidade que respeite plenamente sua identidade cultural; toda pessoa deve poder participar na vida cultural que escolha e exercer suas próprias práticas culturais, dentro dos limites que impõe o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais.

Artigo 6 – Rumo a uma diversidade cultural acessível a todos

Enquanto se garanta a livre circulação das ideias mediante a palavra e a imagem, deve-se cuidar para que todas as culturas possam se expressar e se fazer conhecidas. A liberdade de expressão, o pluralismo dos meios de comunicação, o multilinguismo, a igualdade de acesso às expressões artísticas, ao conhecimento científico e tecnológico – inclusive em formato digital - e a possibilidade, para todas as culturas, de estar presentes nos meios de expressão e de difusão, são garantias da diversidade cultural.

DIVERSIDADE CULTURAL E CRIATIVIDADE

Artigo 7 – O património cultural, fonte da criatividade

Toda criação tem suas origens nas tradições culturais, porém se desenvolve plenamente em contacto com outras. Essa é a razão pela qual o património, em todas suas formas, deve ser preservado, valorizado e transmitido às gerações futuras como testemunho da experiência e das aspirações humanas, a fim de nutrir a criatividade em toda sua diversidade e estabelecer um verdadeiro diálogo entre as culturas.

Artigo 8 – Os bens e serviços culturais, mercadorias distintas das demais

Frente às mudanças económicas e tecnológicas actuais, que abrem vastas perspectivas para a criação e a inovação, deve-se prestar uma particular atenção à diversidade da oferta criativa, ao justo reconhecimento dos direitos dos autores e artistas, assim como ao carácter específico dos bens e serviços culturais que, na medida em que são portadores de identidade, de valores e sentido, não devem ser considerados como mercadorias ou bens de consumo como os demais.

Artigo 9 – As políticas culturais, catalisadoras da criatividade

As políticas culturais, enquanto assegurem a livre circulação das ideias e das obras, devem criar condições propícias para a produção e a difusão de bens e serviços culturais diversificados, por meio de indústrias culturais que disponham de meios para desenvolver-se nos planos local e mundial. Cada Estado deve, respeitando suas obrigações internacionais, definir sua política cultural e aplicá-la, utilizando-se dos meios de acção que julgue mais adequados, seja na forma de apoios concretos ou de marcos reguladores apropriados.

DIVERSIDADE CULTURAL E SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL

Artigo 10 – Reforçar as capacidades de criação e de difusão em escala mundial

Ante os desequilíbrios actualmente produzidos no fluxo e no intercâmbio de bens culturais em escala mundial, é necessário reforçar a cooperação e a solidariedade internacionais destinadas a permitir que todos os países, em particular os países em desenvolvimento e os países em transição, estabeleçam indústrias culturais viáveis e competitivas nos planos nacional e internacional.

Artigo 11 – Estabelecer parcerias entre o sector público, o sector privado e a sociedade civil

As forças do mercado, por si sós, não podem garantir a preservação e promoção da diversidade cultural, condição de um desenvolvimento humano sustentável. Desse ponto de vista, convém fortalecer a função primordial das políticas públicas, em parceria com o sector privado e a sociedade civil.

Artigo 12 – A função da UNESCO

A UNESCO, por virtude de seu mandato e de suas funções, tem a responsabilidade de:

a) promover a incorporação dos princípios enunciados na presente Declaração nas estratégias de desenvolvimento elaboradas no seio das diversas entidades intergovernamentais;

b) servir de instância de referência e de articulação entre os Estados, os organismos internacionais governamentais e não-governamentais, a sociedade civil e o sector privado para a elaboração conjunta de conceitos, objectivos e políticas em favor da diversidade cultural;

c) dar seguimento a suas actividades normativas, de sensibilização e de desenvolvimento de capacidades nos âmbitos relacionados com a presente Declaração dentro de suas esferas de competência;

d) facilitar a aplicação do Plano de Acção, cujas linhas gerais se encontram apensas à presente Declaração.


Fonte:

LINHAS GERAIS DE UM PLANO DE AÇÃO PARA A APLICAÇÃO DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DA UNESCO SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL

Os Estados Membros se comprometem a tomar as medidas apropriadas para difundir amplamente a Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural e fomentar sua aplicação efectiva, cooperando, em particular, com vistas à realização dos seguintes objectivos:

1. Aprofundar o debate internacional sobre os problemas relativos à diversidade cultural, especialmente os que se referem a seus vínculos com o desenvolvimento e a sua influência na formulação de políticas, em escala tanto nacional como internacional; Aprofundar, em particular, a reflexão sobre a conveniência de elaborar um instrumento jurídico internacional sobre a diversidade cultural.

2. Avançar na definição dos princípios, normas e práticas nos planos nacional e internacional, assim como dos meios de sensibilização e das formas de cooperação mais propícios à salvaguarda e à promoção da diversidade cultural.

3. Favorecer o intercâmbio de conhecimentos e de práticas recomendáveis em matéria de pluralismo cultural, com vistas a facilitar, em sociedades diversificadas, a inclusão e a participação de pessoas e grupos advindos de horizontes culturais variados.

4. Avançar na compreensão e no esclarecimento do conteúdo dos direitos culturais, considerados como parte integrante dos direitos humanos.

5. Salvaguardar o património linguístico da humanidade e apoiar a expressão, a criação e a difusão no maior número possível de línguas.

6. Fomentar a diversidade linguística - respeitando a língua materna - em todos os níveis da educação, onde quer que seja possível, e estimular a aprendizagem do plurilinguismo desde a mais jovem idade.

7. Promover, por meio da educação, uma tomada de consciência do valor positivo da diversidade cultural e aperfeiçoar, com esse fim, tanto a formulação dos programas escolares como a formação dos docentes.

8. Incorporar ao processo educativo, tanto o quanto necessário, métodos pedagógicos tradicionais, com o fim de preservar e otimizar os métodos culturalmente adequados para a comunicação e a transmissão do saber.

9. Fomentar a “alfabetização digital” e aumentar o domínio das novas tecnologias da informação e da comunicação, que devem ser consideradas, ao mesmo tempo, disciplinas de ensino e instrumentos pedagógicos capazes de fortalecer a eficácia dos serviços educativos.

10. Promover a diversidade linguística no ciberespaço e fomentar o acesso gratuito e universal, por meio das redes mundiais, a todas as informações pertencentes ao domínio público.

11. Lutar contra o hiato digital - em estreita cooperação com os organismos competentes do sistema das Nações Unidas - favorecendo o acesso dos países em desenvolvimento às novas tecnologias, ajudando-os a dominar as tecnologias da informação e facilitando a circulação electrónica dos produtos culturais endógenos e o acesso de tais países aos recursos digitais de ordem educativa, cultural e científica, disponíveis em escala mundial.

12. Estimular a produção, a salvaguarda e a difusão de conteúdos diversificados nos meios de comunicação e nas redes mundiais de informação e, para tanto, promover o papel dos serviços públicos de radiodifusão e de televisão na elaboração de produções audiovisuais de qualidade, favorecendo, particularmente, o estabelecimento de mecanismos de cooperação que facilitem a difusão das mesmas.

13. Elaborar políticas e estratégias de preservação e valorização do património cultural e natural, em particular do património oral e imaterial e combater o tráfico ilícito de bens e serviços culturais.

14. Respeitar e proteger os sistemas de conhecimento tradicionais, especialmente os das populações autóctones; reconhecer a contribuição dos conhecimentos tradicionais para a protecção ambiental e a gestão dos recursos naturais e favorecer as sinergias entre a ciência moderna e os conhecimentos locais.

15. Apoiar a mobilidade de criadores, artistas, pesquisadores, cientistas e intelectuais e o desenvolvimento de programas e associações internacionais de pesquisa, procurando, ao mesmo tempo, preservar e aumentar a capacidade criativa dos países em desenvolvimento e em transição.

16. Garantir a protecção dos direitos de autor e dos direitos conexos, de modo a fomentar o desenvolvimento da criatividade contemporânea e uma remuneração justa do trabalho criativo, defendendo, ao mesmo tempo, o direito público de acesso à cultura, conforme o Artigo 27 da Declaração Universal de Direitos Humanos.

17. Ajudar a criação ou a consolidação de indústrias culturais nos países em desenvolvimento e nos países em transição e, com este propósito, cooperar para desenvolvimento das infra-estruturas e das capacidades necessárias, apoiar a criação de mercados locais viáveis e facilitar o acesso dos bens culturais desses países ao mercado mundial e às redes de distribuição internacionais.

18. Elaborar políticas culturais que promovam os princípios inscritos na presente Declaração, inclusive mediante mecanismos de apoio à execução e/ou de marcos reguladores apropriados, respeitando as obrigações internacionais de cada Estado.

19. Envolver os diferentes sectores da sociedade civil na definição das políticas públicas de salvaguarda e promoção da diversidade cultural.

20. Reconhecer e fomentar a contribuição que o sector privado pode aportar à valorização da diversidade cultural e facilitar, com esse propósito, a criação de espaços de diálogo entre o sector público e o privado.

Os Estados Membros recomendam ao Director Geral que, ao executar os programas da UNESCO, leve em consideração os objectivos enunciados no presente Plano de Acção e que o comunique aos organismos do sistema das Nações Unidas e demais organizações intergovernamentais e não-governamentais interessadas, de modo a reforçar a sinergia das medidas que sejam adoptadas em favor da diversidade cultural.





[1] Entre os quais figuram, em particular, o acordo de Florença de 1950 e seu Protocolo de Nairobi de 1976, a Convenção Universal sobre Direitos de Autor, de 1952, a Declaração dos Princípios de Cooperação Cultural Internacional de 1966, a Convenção sobre as Medidas que Devem Adoptar-se para Proibir e Impedir a Importação, a Exportação e a Transferência de Propriedade Ilícita de Bens Culturais, de 1970, a Convenção para a Protecção do Património Mundial Cultural e Natural de 1972, a Declaração da UNESCO sobre a Raça e os Preconceitos Raciais, de 1978, a Recomendação relativa à condição do Artista, de 1980 e a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, de 1989.

[2] Definição conforme as conclusões da Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais (MONDIACULT, México, 1982), da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento (Nossa Diversidade Criadora, 1995) e da Conferência Intergovernamental sobre Políticas Culturais para o Desenvolvimento (Estocolmo, 1998).

A força criativa de Mercedes Peón e a actual música galega


Mercedes Péon representa, ao mesmo tempo, a força original e as tendências renovadoras e criativas da música que se pratica hoje na Galiza
Compositora, gaiteira, pandeireteira, dançarina e responsável por algumas recolhas de temas incluídos nos seus dois discos já editados, ela subverte a habitual rigidez de abordagem à música galega de forma brilhante, dando-nos uma lição de criatividade pessoal que contagia e nos absorve do início ao fim de cada tema. A sua música recebe influências várias que criam uma ambiência única.






Outros nomes da música que se faz actualmente na Galiza:


Xosé Lois Romero (Igaem, Nova Galega de Danza,..), Emilio Cao, Manolo Rico (folclorista i etnografo), Oscar Fernández (Os Cempés, bOnOvO,..), Xosé Ferreirós (Milladoiro), Miro Casabella, Sara Vidal (Luar Na Lubre), Guadi Galego (Berrogüetto, Nordestin@s, Espido,..) e Mini (A Quenlla),…


Todos eles se pronunciam para a associação da música galega à luta pela autonomia da sua terra. Ver:
www.ghastaspista.com/estatuto

Para saber mais sobre a música galega, consultar:


Sobre Pandeireiteiros e festeiros na Galiza:

20.4.07

Encontro multicultural em Lisboa de movimentos e cidadãos contra o fascismo ( dia 21 de Abril, 17.30)

Encontro na Crew-Hassan (Rua de Portas de Santo Antão, nº 159) a partir das 17h30 da tarde de Sábado (21 de Abril)

A imigração, a integração e os modelos de multiculturalidade possiveis são actualmente temas incontornáveis na procura de uma definição da(s) sociedade(s) que queremos construir. Num contexto de aparente reorganização de alguns sectores marginais em Portugal que partilham uma visão particularmente extremista do assunto, importa discutirmos de forma séria alguns dos aspectos mais complexos do tema.
Assim, porque os tempos exigem uma acção política convidamos-te para, neste Sábado, vires pensar connosco sobre migrações, precariado, ou outros temas da multiculturalidade que queiras trazer para o debate.

Vamos ver um filme sobre um movimento de reivindicação dos direitos laborais dos imigrantes que, em 2006, encheu as ruas dos EUA. Num momento em que cada vez mais se retira à classe assalariada e se acusa os imigrantes urge pensar: não somos todos iguais trabalhadores?
Segue-se o debate: que espaço existe, na nossa sociedade, para a igualdade? Na busca por uma sociedade mais igualitária, qual o nosso papel, enquanto cidadãos?

A ATTAC, a Cores do Globo, a Crew-Hassan, o GAIA e a Solidariedade Imigrante esperam por ti, na Crew-Hassan (Rua de Portas de Santo Antão, nº 159) a partir das 17h30 da tarde de Sábado.

Gualter Barbas Baptista, do GAIA, uma das organizações que convocou o encontro multicultural, considerou que a iniciativa vai servir para mostrar que "o activismo não está só do lado da extrema-direita e que existem movimentos com ideias contrárias".

"Este encontro não é só contra o fascismo, mas essencialmente pela diversidade cultural", sublinhou

Para mais informações: Artur Palha - 918173496

Como o Sr. Sócrates (1º ministro de Portugal) fez o seu curso superior (pelos Gato fedorento)

... e como vai a educação em Portugal...

(tomei conhecimento deste video por via do blogue
http://asinistraministra.blogspot.com/)


19.4.07

Fartos de recibos verdes (FERVE)

Agora há mais precariedade e acaba-se a receber muito menos !!!
A primeira iniciativa do FERVE vai decorrer amanhã, dia 20 de Abril, às 22h00, no espaço "Maria Vai com as Outras", situado na Rua do Almada, 443, no Porto.

Procederemos à projecção de duas curtas-metragens:
- "Precárias à Deriva", 20 minutos. Espanha.
- "A Triste Verdade", 12 minutos. Michael Moore. EUA.

Entre os filmes, decorrerá uma tertúlia.

Contamos com a vossa presença!




O que é o FERVE

O FERVE foi fundado a 5 de Março de 2007

O grupo de trabalho FERVE surge com a intenção de denunciar a utilização imprópria, errada e abusiva dos recibos verdes. Este uso inadequado ocorre sempre que os/as trabalhadores/as deveriam ter direito a um contrato de trabalho, visto serem, de facto, trabalhadores/as por conta de outrem e não trabalhadores/as independentes.


Os recibos verdes devem ser utilizados, única e exclusivamente por trabalhadores/as independentes, ou seja, pessoas que trabalham por conta própria, sem subordinação hierárquica, determinando o seu horário de trabalho e utilizando as suas instalações para exercício da actividade profissional (por exemplo, médicos/as ou dentistas que trabalham no seu consultório).


Visto trabalharem por conta própria, estas pessoas têm ao seu encargo a responsabilidade de pagarem o seu seguro de trabalho anual, fazerem os descontos de IRS (20% no regime normal) e pagarem a segurança social mensalmente (151.58€, no regime normal). Precisamente por trabalharem por conta própria, estas pessoas não auferem subsídio de Natal ou de férias e não têm direito a subsídio de desemprego.


Esta modalidade laboral, perfeitamente legítima para quem trabalha por conta própria, generalizou-se de tal forma que constitui agora a realidade que demasiadas pessoas conhecem aquando da “contratação”, seja por parte de empresas privadas seja por parte do próprio Estado.


Assim, a entidade patronal dirá à pessoa que esta receberá 800€/mês, pelos quais deverá passar um recibo verde. Na prática, isto significa que a pessoa irá receber, líquidos, 488.42€, visto que 160€ vão para o IRS e 151.58€ para Segurança Social!!!!


A “contratação” através de recibo verde é por demais conveniente para as entidades patronais: não há necessidade de contrato de trabalho, não há pagamento de segurança social, de IRS, não há direito a férias e muito menos a reclamações.
O/A trabalhador/a vê-se numa situação de total desprotecção, podendo ser despedido/a a qualquer momento, sem quaisquer regalias ou direitos, vivendo uma situação constante de precariedade e ausência de direitos.


Estas pessoas são mães que são forçadas a voltar ao trabalho duas semanas após o parto.
São pessoas que não têm direito a ficar doentes.
São pessoas que não podem fazer férias.
São pessoas que não podem fazer uma intervenção cirúrgica.


O FERVE não aceita este estado de coisas! Não podemos viver numa sociedade que é conivente com este novo tipo de escravatura laboral, baseada na ameaça de desemprego a qualquer instante, na ausência total de direitos laborais. Não aceitamos que a coação e o medo de perder o trabalho possam ser motivo para a manutenção desta situação de ilegalidade.


Através da sua acção, o FERVE pretende denunciar as empresas privadas e públicas que recorrem aos falsos recibos verdes para a “contratação” dos/as seus trabalhadores/as. Queremos abrir um amplo debate na sociedade sobre a errada utilização dos recibos verdes, juntar pessoas que “passam recibos verdes” e entidades interessadas na mudanças numa plataforma de luta alargada e unida na defesa de direitos laborais.

O FERVE faz sentido porque são demasiadas as pessoas a trabalhar nesta condição de ilegalidade. Trabalharemos até ao fim para denunciar e erradicar esta situação de usurpação de direitos, de canibalismo laboral, de silenciamento dos/as trabalhadores/as. Estamos fartos/as disto.


A luta tem que passar por todos/as junta-te a nós!


www.fartosdestesrecibosverdes.blogspot.com/

Cinema Independente em Lisboa a partir de hoje

A quarta edição do Festival de Cinema Independente de Lisboa começa hoje. Até 29 de Abril vão passar por Lisboa 226 filmes, vindos de quatro continentes: Europa, Ásia, África e América. Estreias mundiais (19) e europeias (10), filmes-concerto, masterclasses, painéis e mesas redondas são apenas alguns dos muitos atractivos desta edição, que se distribui pelo Fórum Lisboa e pelos cinemas São Jorge, Londres e King.

Hoje, pelas 21h30, tem lugar a cerimónia oficial de abertura no Cinema São Jorge, após a qual será exibido o filme “LIFE IN LOOPS - A MEGACITIES REMIX”, de Timo Novotny.

Este ano, o IndieLisboa recebeu um total de 2500 inscrições. Desse universo, foram seleccionados 226 filmes (88 longas-metragens e 138 curtas-metragens), dos quais 19 estreias mundiais (16 curtas e 3 longas), 10 estreias internacionais/europeias (curtas-metragens).
Da Europa (sem contar com Portugal), vieram 109 filmes (36 longas e 77 curtas), da Ásia serão exibidos 38 filmes (22 longas e 13 curtas), dos EUA e Canadá estão representados com 38 filmes (14 longas e 24 curtas), da América Latina serão mostrados 12 filmes (7 longas e 5 curtas) e de África foram seleccionados 3 filmes (1 longa e 2 curtas).
Finalmente, o IndieLisboa irá exibir 20 filmes portugueses (5 longas e 15 curtas).



O INDIELISBOA é um local privilegiado para a descoberta de novos autores e tendências do cinema mundial. O Festival dá especial atenção a obras e cinematografias com menor visibilidade no mercado de distribuição comercial português e integra uma competição de longas e curtas metragens de novos realizadores.

Consultar a Programação: aqui

Nos 100 anos da Greve Académica de 1907

Na greve académica de 1907 em Coimbra destacaram-se muito particularmente os estudantes que defendiam ideais anarquistas como Campos Lima, tal como se pode ver por um excerto de um texto escrito por um fura-greves da altura e que retiramos simpaticamente daqui:

"Nesta quadra de actos, falta em Coimbra o assunto para a carta semanal: porque porêm, nas noites quentes deste Julho, pela alta, à luz da fraca iluminação publica, grupos de estudantes da rua Larga à Couraça, discutem até de madrugada, e anda em móda na academia o anarquismo, que Campos Lima, Gomes da Silva e um novo caloiro [Alfredo] França, lá na baixa, inflamados, declaram ser o regimen do futuro (...)" [Academia Politica, Julho de 1906]


Video sobre o assunto retirado do
blogue Almanaque Republicano





Pinto Quartin

Outra figura envolvida nos acontecimentos de 1907 em Coimbra foi Pinto Quartin, estudante da Faculdade de Direito, e que passou a ser uma das figuras com mais actividade na divulgação das ideias anarquistas ao criar e participar em muitas publicações tal como se pode ler também na
biografia de Pinto Quartin publicada no blogue Almanaque Republicano.

De lá também retiramos a informação sobre o ser espólio:

O espólio de Pinto Quartin, legado à Casa da Imprensa, foi mais tarde depositado no Instituto de Ciências Sociais, no Arquivo de História Social e pode ser consultado online. Nele podem ser encontrados milhares de documentos sobre o movimento sindical e anarquista em Portugal. Para poder analisar os diversos documentos que aí existem deve consultar-se o catálogo da Exposição de Documentos de Pinto Quartin integrado no Seminário "O Movimento Operário em Portugal", organizado pelo Gabinete de Investigações Sociais, com texto de Maria Filomena Mónica, Lisboa, Biblioteca Nacional, 4 a 67 de Maio de 1981.



Remetemos por fim para vários posts do Almanaque Republicano onde se reproduzem relatos da Greve Académica de 1909 da autoria de Pinto Quartin:
1, 2, 3


Café Bom: o café dos anarquistas

Princípio do séc. XX - Na Rua da Betesga, em Lisboa, o Café Bom "onde se reuniam os primeiros anarquistas" portugueses.
(informação e foto igualmente recolhida no excelente blogue Almanaque Republicano)

A palavra é quem mais ordena ( sobre a cultura hip hop e a música rap)

Texto de Manuel Halpern
Retirado do JL(jornal das letras, artes e ideias)

«A poesia está na rua», uma frase de Sophia que se tornou um dos slogans da Revolução de Abril. Erguia-se num cartaz, entre a multidão que celebrava a democracia, no 1.º Primeiro de Maio (mais tarde serviu de mote a Helena Vieira da Silva). A voz do povo ouvia-se nos cantores de intervenção.
Os tempos mudaram, as palavras de ordem do 25 de Abril ficaram esquecidas. A sociedade capitalista vingou perante o conformismo da população. Apesar da insistência e coerência de alguns autores, passou a ouvir-se um rock divertido e quase sempre inócuo. Até que, no final dos anos 80, um novo movimento devolveu a intervenção à música e a poesia às ruas. O novo neo-realismo, a tradução moderna da literatura de cordel, as palavras genuínas da intervenção, o despertar das consciências estão nas vozes dos rappers.

Os pretextos são diferentes, tal como a comunidade. Não cantam de punho erguido, nem mobilizam a sociedade. Não há um empenhamento político e partidário, nem um discurso intelectualizado. Mudar o mundo é uma miragem. A marginalidade é cultivada, quase uma condição. Partem do gueto (real e ou figurado) para o mundo. Mas as questões ideológicas estão presentes e a autenticidade é uma exigência. E a palavra quem mais ordena.

Rap significa Rhythm and Poetry (ritmo e poesia). E assim se define, como a arte de articular o ritmo com as palavras. E, como em nenhum outro estilo musical, as palavras tornam-se a essência. Os MC (mestres de cerimónias) digladiam-se em batalhas de rimas espontâneas, vence aquele que consegue a melhor metáfora. Um caso recente corre na Internet: num dia azarado, Black Mastah, um rapper já veterano e com provas dadas, foi derrotado por Cristal, abalando assim a credibilidade junto de alguns dos seus fãs.
À primeira vista o trabalho do MC pode parecer fácil. Mas a estrutura rítmica de articulação de vocábulos é muitas vezes complexa. Em nenhum outro estilo se dizem tantas palavras por minuto, por faixa, e com um imperativo fonético. Sem nunca esquecer a importância da mensagem. Há de tudo. Os estilistas conseguem resultados sofisticados, através de jogos de palavras. O flow é uma técnica só ao alcance dos mais engenhosos, que consiste em rimar fora da sílaba tónica. Como faz Sam the Kid, em Poetas do Karaoke: «Eu sou Dom Dinis, tu és donde estiveres melhor». Ou o artifício do tema 100 em que o rapper repete cem vezes «cem/sem».
Não há qualquer tipo de preconceito linguístico. Sem barreiras, é usada a linguagem das ruas, dos bairros, com calão e estrangeirismos. Mas tal não impede o uso de palavras mais eruditas. A língua de lés a lés.

A ideia de espontaneidade é uma das regras. Dentro da comunidade, as sessões de improviso são muito apreciadas. Assemelham-se à tradição da desgarrada no fado ou do «lá vai mote» renascentista. Contudo, é óbvio que as letras dos temas gravados são escritas e estudadas: apesar de poder passar a ideia de improviso, tudo está assente no papel.

Ideologicamente, o hip hop de intervenção identifica-se com a esquerda. É a voz das margens da sociedade, dos excluídos. A denúncia das desigualdades sociais e, por vezes, do racismo. Nem todos são tão directos quanto Valete, o Che Guevara do rap, que se afirma de extrema-esquerda. Mas muitos alinham num discurso engajado, como Chullage, Micro, NBC, Black Mastah, MAC ou Sir Scratch.
No seu tema Hip Hop, Boss AC descreve-o assim: «De certa forma Hip Hop é estar na política/ Não aceitar tudo calado/ é desenvolver a consciência crítica».

Todavia nem todo hip hop é de intervenção. Há vários traços que se desenham nos rappers portugueses. Como o combate, a exaltação do ego e a rivalidade com outros MC. Como diz PacMan: «Um gajo para ser rapper, à partida, tem que ter um ganda ego. É uma cena mais ou menos egocêntrica e gabarolas.» Um bom exemplo é o primeiro álbum de Sir Scratch, em que se ouve: «Eu conheci o Sir Scratch em casa do Sam ele tinha 12 anos, já fazia melhor rap que muitos niggers que têm 30, 35 e 40 anos/ o gajo podia ser filho de metade desses rappers e já cuspia melhor que os rappers». Ou esta letra dos MAC, chamada Toma: «Bem podes continuar a treinar frente ao espelho/ se me chegas aos calcanhares não me passas do joelho». Por vezes, os rappers descrevem o que vêem ou têm intuitos pedagógicos, alertando para os perigos da droga, da sida, da violência ou da gravidez adolescente. Noutros casos, os textos são meramente biográficos.


História em movimento

O hip hop tal como o conhecemos nasceu no Bronx, em Nova Iorque, nos anos 70, com a chamada Zulu Nation, de Afrika Bombataa. As suas origens, segundo algumas teorias, estão na Jamaica, nos sound systems: carrinhas que percorriam o país a passar reggae. Antes dos espectáculos, o locutor fazia uma apresentação, numa fala ritmada, com tal talento, que passou a ser tão cativante quanto a música em si. Mas podem adivinhar-se origens mais remotas, no spoken word da beat generation, na verborreia de algumas canções folk de Woodie Guthrie, ou mesmo nos vendedores de feiras, nos apresentadores do circo e nos locutores desportivos.

Tal como apareceu no Bronx, o movimento divide-se em três vertentes: a música dos MC e DJ, as artes plásticas dos graffiters e a dança dos breakdancers. No início teve a positiva função de apaziguar as rivalidades entre negros e porto-riquenhos nos guetos. Em vez de lutas físicas, passaram a batalhar através da arte. Vários grupos se destacaram internacionalmente, desde o início dos anos 80, como Run DMC, Public Enemy ou Afrika Bobataa.

Em Portugal começou por se adaptar o movimento americano à realidade suburbana de Lisboa e do Porto. António Concorda Contador e Emanuel Lemos Ferreira, no seu livro Ritmo e Poesia, afirmam: «Miratejo está para o rap português, como o Bronx está para o rap americano.»

1994 foi o ano em que o rap português saiu dos bairros. O país ficou a saber da sua existência. Para tal foi determinante o lançamento da colectânea Rapública, que incluía o hit dos Black Company, Nadar – um tema que esquecia a intervenção e defendia o lado festivo do hip hop.
No mesmo ano, saíram os marcantes primeiros álbuns dos Da Weasel e General D. Para rappar em português foi igualmente importante o sucesso do brasileiro Gabriel, o Pensador. No início, houve quem associasse Pedro Abrunhosa & Bandemónio ao movimento, embora seja óbvio que é um parentesco muito afastado. O músico do Porto enquadra-se mais no soul funk, na herança de James Brown.

Dinamizadores importantes do hip hop foram os DJ Bomberjack e Cruzfader. Desde 1996 que Bomberjack grava mixtapes, onde compila talentos. De início vendia directamente nas lojas. Agora formou a sua própria editora, a Footmovin’, e distribuidora, a Sóhiphop. Estas empresas, a que se dedica a tempo inteiro, são grandes divulgadoras. Só em 2006, lançaram mais de 20 títulos. «Não há mercado para tudo – explica –, a partir de agora teremos de ser mais selectivos.» Bomberjack defende uma música de temática plural: «Nem todos têm que ser interventivos, é bom que haja vários estilos». Reconhece que o género é maioritariamente procurado por «adolescentes», mas que a regra tende a mudar. Aliás, os nomes que têm surgido nos últimos tempos são de MC mais velhos. E chama a atenção: «Hoje a cena é mais individual, já não há tanto aquela coisa dos grupos e dos bairros.»


Verdade, orgulho e preconceito

Tal como no fado, em que puristas e inovadores facilmente entram em conflito, o hip hop, que é um estilo musical com regras definidas, também tem as suas bipolaridades. A primeira é a «Old School» e a «New School». Está sobretudo ligada à componente musical. As bandas fundadoras usavam apenas samplers, gira-discos, caixa de ritmos ou, em alternativa, o beat-box – instrumentação vocal feita com a ajuda das mãos. Essa simplicidade permitiu que o movimento emergisse na rua, nos bairros mais pobres, sem recursos para instrumentos caros. Com o tempo, foram aparecendo novas tendências, que usam instrumentos e se afastam destes cânones. E até mesmo sub-estilos, muito apreciados, como o hip hop estratosférico ou trip hop.

Underground versus comercial é uma discussão permanente. Nos Estados Unidos é totalmente justificada. Vários são os grupos ou MC que desvirtuam os princípios do hip hop com objectivos comerciais. E o rap tem como regra de ouro a autenticidade. O rapper tem que acreditar no que diz. Em Portugal, não há grandes exemplos de ‘Gangsta Rap’ (que apelam ao crime, à violência e ao machismo, como é o caso de 50 cent), quem mais se aproxima é Halloween. Obviamente, uns têm mais sucesso do que outros. Mas vender bem não é sinónimo de traição. Como explica Sam the Kid: «Então de que lado é que eu estou? Aceito que me chamem comercial, porque os meus discos estão nas lojas. E aceito que me chamem undergound porque nunca traí os meus princípios».

É um lugar comum nos álbuns de hip hop português apontar o dedo àqueles que se vendem. É, por exemplo, o que faz Valete em Pela Música: «Vais da glória ao fracasso corrido ao pontapé/ E a história nem guardará para ti um rodapé/ Se vives de joelhos nem te vale a camisa do Che/ Eu estou na horizontal mas hei-de morrer de pé».

O cenário do hip-hop nacional está em constante mutação. Nos últimos anos houve um boom de artistas. Poucos deles chegam aos discos. E alguns limitam-se a edições de autor de circulação restrita. Mas os sucessos de Sam the Kid, Valete, Da Weasel e Boss AC alargaram o espectro de forma transversal na sociedade: definitivamente já não é uma cena do bairro.
Em termos geográficos, os subúrbios de Lisboa e do Porto continuam a ter grande protagonismo: bairros como Chelas, Odivelas, Damaia, Miratejo ou Matosinhos. Quarteira, no Algarve, pode considerar-se já um pólo relevante, graças ao dinamismo do MC e produtor Twism. Mas um pouco por todo o lado, de Norte a Sul, aparecem movimentos. Observe-se o caso do Alentejo, uma das regiões mais pobres, desertificadas e envelhecidas da Europa. Por ali existem núcleos. Em Sines a cena é particularmente forte. Mas nas cidades do interior tal também acontece. É o caso de Beja, onde mora o rapper e produtor Suarez, que se prepara para lançar o seu primeiro disco com distribuição nacional. «Comecei em 1999, fui um dos pioneiros no distrito, mas agora já foi formado um circuito na região, com o hip hop em todas as suas vertentes.» Chegou a participar em algumas colectâneas e a lançar um disco de distribuição local. A distância das grandes urbes marcam a diferença no discurso: «Falo do que vivo, das discrepâncias que há no país, do desemprego e da falta de patriotismo.»

O universo do hip hop é dominado por homens. O que talvez se explique por uma certa ideia de virilidade dominante nas suas origens, nos despiques entre gangs. Em Portugal, a ausência de mulheres é flagrante. Dama Bete, que se prepara para editar o primeiro álbum, com produção e arranjos de Filipe Larsen, é uma das raras excepções. «O hip hop é um movimento machista, as mulheres continuam a ser reprimidas» – diz. Desde os 16 anos que se interessa pelo estilo. Oriunda da linha de Sintra, integrou vários grupos femininos. «Muitas vezes éramos convidadas para concertos pela curiosidade de sermos mulheres, e não pela validade do projecto em si. Diziam: ‘para rapariga está bom’». Sam the Kid, em conversa com o JL, também sustentou: «Infelizmente, ainda não apareceu nenhuma em que dissesse mais do que essa coisa horrível: ‘para mulher não está mal’». As letras de Dama Bete, falam de injustiças sociais. Em Dama no Rap, refere-se a essa discriminação: «Ser dama no rap é antes de abrir a boca ser ignorada/ Ser logo posta de parte por pensarem “n’ sabe nada”/ É subir no palco e olharem-me como se fosse E.T./ Começar uma actuação, ouvir “vens fazer o quê?”/ É a todo momento ouvir, porque não cantas R&B?». Pode ser que este disco, com beats do seu irmão (Macaco Simão), ajude a abolir o preconceito.
A abertura ao hip hop feminino é uma possível saída para um estilo em expansão, que em Portugal pode vir a entrar num impasse criativo e ideológico. E cada vez mais se afirma no mainstream. Seguindo o exemplo americano, corre o risco de se institucionalizar. Só que, ao contrário da música pop, o verdadeiro hip hop nunca poderá ser dominante, sob a pena de trair os seus princípios. Abandonando as margens, abandona-se a si próprio. Confundindo-se com o poder, ficará corrompido. De forma triste e irremediável.

Mindelo é primeira freguesia a aderir à Agenda 21 local

Ver:www.agenda21local.info/index.php


As preocupações com o Ambiente e a Qualidade de Vida têm, em Mindelo, Vila do Conde, uma importância incontornável pelas especificidades locais. A Associação Amigos do Mindelo está a desenvolver um processo de Agenda 21 local que pretende ser uma referência nacional.

O desenvolvimento sustentável é o ‘sonho’ dos habitantes da freguesia de Mindelo, Vila do Conde, a primeira a desenvolver em Portugal um processo de Agenda 21 Local (A21L), numa iniciativa que pretende ser exemplo a nível nacional.

O processo, lançado pela Associação dos Amigos do Mindelo para a Defesa do Ambiente, visa tornar, a longo prazo, esta freguesia num exemplo nacional do ponto de vista do desenvolvimento sustentável e da cidadania ambiental.
“Em termos de desenvolvimento sustentável, Mindelo ainda não será um exemplo nacional, mas, na área da cidadania, tem assegurado uma disseminação efectiva de boas práticas, onde se destaca a Agenda 21 Local”, refere um documento elaborado pela associação ambientalista.

A primeira freguesia a desenvolver o processo

A freguesia do Mindelo iniciou o processo de A21L em Outubro de 2003, sendo a primeira, em Portugal, a desenvolver este tipo de projecto, criado na Conferência do Rio de 1992 para promover o desenvolvimento sustentado ao nível local.
“A A21L demonstrou ser uma ferramenta essencial para reunir consensos e os primeiros resultados começam a surgir”, salienta o documento, que frisa ainda que “o desenvolvimento de parcerias com autarquias, empresas e outras organizações tem permitido encontrar os recursos necessários para os projectos”.

Mindelo é uma freguesia do concelho de Vila do Conde, situada na zona costeira, a cerca de 20 quilómetros do Porto. Localizada numa zona que mantém fortes características rurais, a freguesia, que se caracteriza pelas praias e pinhais, tem actualmente cerca de 3.500 habitantes distribuídos por uma área com cerca de 570 hectares. As qualidades ambientais e a proximidade com a cidade do Porto tornaram Mindelo, ao longo dos anos 70 e 80 do século passado, num local privilegiado para a construção de segundas habitações, ocupadas apenas durante a época balnear. Mais recentemente, Mindelo começou a transformar-se numa zona dormitório do Porto, situação favorecida pela construção de novas ligações rodoviárias e pela extensão da rede de Metro do Porto.

Preocupações

“O aumento da construção gerou uma significativa perda de espaços agrícolas e florestais”, alerta o documento. Sustenta ainda que a freguesia “corre o risco de perder a sua identidade, com a destruição acelerada do património natural, factor diferenciador e potenciador de qualidade de vida na freguesia”.
O combate contra este perigo passa também pelo desenvolvimento do processo A21L, através da apresentação de propostas de acções prioritárias que permitam contribuir para o desenvolvimento sustentável da freguesia.
A água, o ordenamento do território, a biodiversidade e os resíduos sólidos urbanos foram definidos como os quatro eixos fundamentais de actuação no quadro do Plano de Acção e Monitorização, elaborado na sequência das contribuições apresentadas pela população e entidades locais.
“O facto de ser um processo independente do poder político, criou logo uma grande proximidade com a população. A credibilidade e a isenção tornaram-se inquestionáveis por não existir nenhum partido político, órgão governativo ou grupo a beneficiar do sucesso da Agenda 21 em detrimento de outros”, salienta o documento, frisando que “o sucesso do projecto é um sucesso da população como um todo”.
Nesse sentido, refere que “o facto dos residentes de Mindelo perceberem que estão a discutir o desenvolvimento de tudo o que faz parte do seu dia-a-dia tornou-se um trunfo para o projecto”.

Desenvolvimento sustentável na agenda

Este projecto inovador a nível nacional teve o mérito de colocar o tema do desenvolvimento sustentável da freguesia no centro das atenções, gerando uma discussão que permitiu atingir um consenso generalizado sobre o que se pretende que Mindelo seja no futuro.
É esse sonho que Mindelo quer que venha a ser um exemplo nacional.

Fonte: jornal Primeiro de Janeiro

Consultar ainda:
www.amigosdomindelo.pt/

Para saber mais da Reserva Ornitológica do Mindelo:
aqui

José Luís Peixoto hoje nas Quintas de Leitura

As «Quintas de Leitura» do TCA ( Teatro do Campo Alegre, no Porto) recebem hoje o poeta José Luís Peixoto que vai revelar uma vintena de poemas inéditos, fragmentos do seu novo livro de poesia, a editar até ao final deste ano. A sessão, intitulada «Unicórnios e Farmácias Abandonadas» – verso de um dos novos poemas - , está marcada para as 22h00.
O espectáculo assina ainda a estreia absoluta em Portugal do pianista, vocalista, compositor e improvisador norte-americano Thollen McDonas, que actuará na segunda parte, numa excursão pelas ideias que resumem o seu pensamento musical - «Ler nas entrelinhas e tocar fora delas».
Os poemas de José Luís Peixoto serão lidos pelo próprio autor e ainda pelos recitadores Sandra Salomé, Susana Menezes, Isaque Ferreira e Isabel Guimarães, que se estreia nas «Quintas de Leitura».
Ao longo de todo o espectáculo, o fotógrafo Nelson D’Aires mostrará uma série de imagens inspiradas no universo poético de Peixoto. Nelson D’Aires acaba de ganhar o prémio Reportagem do prestigiado Prémio de Fotojornalismo Visão/BES 2007.

Biografia:

José Luís Peixoto nasceu em 1974 (Galveias, Ponte de Sor). Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Inglês e Alemão) pela Universidade Nova de Lisboa. Tem publicado poesia e prosa. Recebeu o Prémio Jovens Criadores (área de literatura) nos anos 97, 98 e 2000. Em 2001, o seu romance «Nenhum Olhar» recebeu o Prémio Literário José Saramago. Está representado em diversas antologias de prosa e de poesia nacionais e estrangeiras. É colaborador de diversas publicações nacionais e estrangeiras. Em 2005, escreveu as peças de teatro «Anathema» (estreada no Theatre de la Bastille, Paris) e «À Manhã» (estreado no Teatro São Luiz, Lisboa). Os seus romances estão publicados em França, Itália, Bulgária, Turquia, Finlândia, Holanda, Espanha, República Checa, Croácia, Bielo-Rússia e Brasil. Estando actualmente em preparação edições no Reino Unido, Hungria e Japão.



Bibliografia:
Morreste-me (ficção, 2000)
Nenhum Olhar (romance, 2000)
A Criança em Ruínas (poesia, 2001)
Uma Casa na Escuridão (romance, 2002)
A Casa, a Escuridão (poesia, 2002)
Antídoto (ficção, 2003)
Cemitério de Pianos (romance, 2006)

http://quintasdeleitura.blogspot.com/

http://joseluispeixoto.net/