11.4.09

O nº 8 da revista electrónica marxista «O Comuneiro» já saiu


O nº 8 da revista electrónica ‘O Comuneiro’ está já disponível em linha, no seu endereço habitual: www.ocomuneiro.com

Apresentação da revista


Em Wall Street as expectativas crescem. Há fusões de grandes conglomerados e mais despedimentos massivos em perspectiva. As armadilhas da liquidez. Grandes aluviões de dinheiro – fictício, esbulhado, prometido - cachoam enlouquecidos, como manadas de bisontes em pânico. Flexibilidade, polivalência, just in time. Os ritmos aceleram para os sobreviventes da empregabilidade. Os nervos crispam-se no esforço. A TV vomita as suas obscenidades quotidianas. A terra está seca. Os peitos das mães acusam silenciosamente. Torrentes de humanidade “excedentária” afluem continuamente às megapólis de lata. As chuvas são ácidas. O barril do ‘brent’ está cotado em alta. Erguem-se novamente as cabeleiras rubras da guerra. De todos os cantos do mundo se levanta um mesmo clamor de revolta.


‘O Comuneiro’ pretende ser, dentro do mundo da língua portuguesa, um pequeno laboratório de pesquisa na busca de um propósito articulado nesta revolta. Para isso, serve-se dos instrumentos da crítica ao universo do capital forjados há cento e cinquenta anos e temperados desde então em milhões de lutas, grandes e pequenas, certas e equivocadas. Trabalho necessário, mais-valia, D-M-D’. Como do sangue, suor e fezes das grandes multidões laboriosas se foram amassando as riquezas acumuladas nas mãos dos poucos, reproduzindo-se o ciclo incessantemente com uma regularidade cega e brutal. Até que a rotativa da valorização entra em panne mortal. O velho red doctor, nas insónias do Soho, viu tão bem e tão longe que só hoje começamos a compreendê-lo verdadeiramente. Ou só hoje as duras esquinas do real parecem obstinar-se a preencher e cumprir fielmente os seus conceitos.


Que um outro mundo é possível, ninguém o duvida. Menos que todos os ideólogos estipendiados para o negar, que são as únicas vozes autorizadas no novo Leviatã totalitário da “globalização”. Mas os futuros possíveis arrancam do que é presente, do que se compreende a si próprio como movimento e razão. O nosso desígnio é pois tornar esse movimento e essa razão presentes a si próprios. Para que, de entre os miasmas em decomposição do mundo mercantil (e seu bailado de fetiches), se ergam as novas vozes prontas a reclamar e fazer sua a própria vida. Em comum. Saltando as cercas. Rasgando a mãos juntas os velhos protocolos da exclusão e do enclausuramento proprietário.



Edital do nº 8 da revista O Comuneiro


A crise geral do capitalismo vai cozendo em lume brando. O sistema vai-se sustentando inercialmente a si próprio, deslizando suavemente sobre o caos, porque no mundo não há qualquer exterior a ele. Para usar uma expressão popular portuguesa, o capital não tem onde cair morto. É ele próprio “too big to fail”. Nestas últimas semanas, as bolsas até têm apresentado alguma recuperação e a CNN já apregoa “the way to recovery”. Obama pegou no microfone e concita os seus fiéis ao optimismo. A cimeira do G-20 auto-proclamou-se um sucesso. Vem aí mais do mesmo FMI.

Mas não há recuperação possível para este capitalismo, tal como o conhecemos. O que o futuro nos reserva é algo de muito pior, dentro do mesmo declive a que nos conduziu o império do lucro. Ou será algo de radicalmente novo. Algo para o qual temos ainda que inventar o conceito e reunir o sujeito transformador.

Ecossocialismo é o conceito que nos propõe Michael Löwy, num ensaio seu já um tanto antigo, que não dá conta, por exemplo, de trabalhos e investigações mais recentes – de John Bellamy Foster e de Paul Burkett – a partir dos quais a questão passou a entender-se não tanto como sendo a de “esverdear Marx” ou elaborar uma boa síntese verde-vermelho, e muito mais como a de recuperar o genuíno verde original dos fundadores do marxismo. O movimento ecossocialista é já uma realidade política internacional vibrante, tendo recentemente publicado na ‘Declaração de Belém’ uma importante síntese de propósitos, que publicamos neste número de ‘O Comuneiro’.

Também em Belém, mas agora na própria Assembleia dos Movimentos Sociais do Fórum Social Mundial foi aprovado uma outra Declaração, que nos parece ser um claro avanço político em relação a outros documentos similares de eventos anteriores. Oxalá não nos enganemos. Para referência, publicamos também uma primeira tradução em português da ‘Declaração de Bamako’ (2006), que nos parece ser o documento político mais completo até hoje aprovado em qualquer instância do movimento alterglobalizador.

De Daniel Bensaïd e Olivier Besancenot publicamos ‘Um plano de urgência para sair da crise’, concebido claramente dentro de uma estratégia transicional anti-sistémica, com referência à realidade política europeia e ao Novo Partido Anticapitalista em gestação em França. Do nosso colaborador João Esteves da Silva publicamos uma reflexão própria sobre os direitos humanos e também a tradução de um ensaio de Jean-Claude Michéa sobre a mesma questão, recheados ambos de motivos de interesse e debate. De Ronaldo Fonseca publicamos um olhar sobre a actualidade e o método próprio da luta revolucionária anticapitalista mundial. Ângelo Novo noticia e reflecte sobre a brutal agressão perpetrada pelo Estado de Israel sobre o povo palestiniano de Gaza, enquanto Nadine Rosa-Rosso nos interroga sobre as razões de tanta hesitação, tergiversação e clamorosa recusa no apoio devido à resistência árabe (Hamas, Hezbollah) por parte da esquerda europeia.


Índice do nº8