30.1.06

A não violência

( a propósito do Dia Mundial da Não violência, 30 de Janeiro)

Sobre Gandhi e a não-violência, consultar:
http://pimentanegra.blogspot.com/2005/01/gandhi-e-o-dia-da-no-violncia-30-de.html


O que é a não-violência?

A não-violência é um variado conjunto de meios destinados, em situações de divergência e ou de conflito, a fazer respeitar-se e a fazer respeitar as ideias e os fins que julgamos os mais adequados. Note-se que a não-violência é também um comportamento comunicativo - e de escuta - pelo qual alguém se exprime sem infligir sobre o seu interpelante juízos vexatórios nem humilhantes. ( ver a este propósito o livro de Marshall Rosenberg, «Les mots sont dês Fênetres ( ou bien ce sont dês murs). Initiation à la communication non-violente, Syros, 1999)
A não-violência assenta no pressuposto de que o poder repousa naqueles que são objecto de sujeição e opressão, pelo que, em consequência, a recusa destes em colaborar levará à dissolução daquele mesmo poder.


Qual é a origem do termo?

A génese do termo de não-violência data dos anos 20 do século XX e aparece na língua inglesa graças a Gandhi que a utilizou a partir da palavra do sânscrito «ahimsa» que significa «não fazer mal», tendo passado para o francês por volta de 1924.

Deve-se a Gandhi a noção de não-violência?

Gandhi não criou nem inventou a chamada não-violência. O seu papel consistiu antes em ter conseguido reunir conceitualmente os vários meios e formas de luta não-violenta ( a greve, a desobediência civil) que já eram conhecidos anteriormente e mais ou menos utilizados antes da sua época. Gandhi associou-os à ideia da recusa da violência, teorizando a ideia e a prática da luta não-violenta. Recorde-se no entanto que autores precedentes como La Boétie (Discours sur la servitude volontaire, de 1546), Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau (n.1817)

É preciso ser uma pessoa excepcional para ter um comportamento não-violento?

Não é preciso ser ou parecer-se com personagens ímpares como Gandhi, nem muito menos partilhar as suas crenças e opiniões para se adoptar comportamentos ou formas de luta não-violenta. Com efeito, muitas outras pessoas vulgares levaram a cabo acções e campanhas não-violentas, o que revela bem que se trata de um método de combate de validade universal e ao alcance de todos e de todas. É certo que algumas das formas de luta não-violenta carecem de uma grande dose de coragem e presença de espírito, mas tais atributos estão ao alcance de todos, inclusivamente das pessoas fisicamente mais fracas e frágeis. Na verdade, enquanto a acção violenta é normalmente apanágio dos homens e dos jovens, a não-violência pode mobilizar os mais variados géneros de pessoas, desde as mais frágeis até às mais atrevidas e ousadas.

Quais foram as principais acções não-violentas, historicamente conhecidas?

Entre as muitas acções de luta não-violenta, destacam-se as seguintes:
- a resistência dos professores noruegueses face ai governo colaboracionista de Quisling e a Hitler (1941-41)
-a resistência dos Búlgaros contra a tentativa dos nazis de deportar os judeus búlgaros, o que permitiu salvar toda essa comunidade de judeus búlgaros, calculada em 50.000 pessoas.
-a resistência civil dos dinamarqueses para defender os judeus da Dinamarca ( 1943)
-a queda da ditadura de Ubico na Guatemala em 1944
- o boicote aos transportes urbanos em Montgomory (Alabama) em 1955 contra a discriminação racial
-A resistência da maior parte dos checos contra a invasão dos tanques soviéticos em Agosto de 1968 contra os negros norte-americanos
- o movimento pelos direitos cívicos e contra as discriminações raciais nos Estados Unidos encabeçada por Martin Luther King e que teve como ponto alto na mega-manifestação em 28 de Agosto de 1963 que reuniu em Washington mais de 250.000 pessoas
- a luta anti-apartheid protagonizada por Nelson Mandela, e largamente inspirada em Gandhi, até 1961, pois a partir desta data o seu movimento aderiu à luta armada
- a resistência dos dissidentes russos durante os anos 70
- a greve de César Chavez e dos chicanos californianos entre 1965 e 1970
-a luta dos camponeses de Larzac (França) contra a extensão de um campo militar (1972-81)
- a luta das mães ( e das avós) da Praça de Maio, na Argentina, sobretudo durante o período ditatorial ( 1977-1983)
- A acção desencadeada pelo sindicato Solidariedade na Polónia ao longo da década de 1980
- derrube do regime de Didier Ratsiraka em Madagáscar em 1991
- a resistência de Aung Suu Kyi na Birmânia desde 1988
- a luta ecologista protagonizada por numerosas associações e activistas, entre as quais a Greenpeace desde 1971
- a acção da maioria dos críticos à globalização capitalista.


Qual é a eficácia da não-violência?

Tal como a violência, as múltiplas formas e lutas não-violentas têm tido desenlaces e resultados contraditórios. Umas vezes com sucesso, outras em fracasso. Mas nunca chega a atingir o número de vítimas que a luta violência gera habitualmente.

Não foram os judeus vítimas da sua própria acção não-violenta contra os nazis?

Excepto alguns casos pontuais de insurreição e de resistência violenta ( por exemplo, a insurreição do gueto da Varsóvia), os Judeus não oefreceram praticamente nenhuma resistência ( seja ela de carácter violento ou não-violento) ao seu genocídio. Houve, todavia, casos de resistência não-violenta à deportação dos judeus pelos Nazis, como aconteceu na Bulgária, que conseguiu os seus objectivos.

A não-violência permite o fraco de defender-se do forte?

Ao contrário da violência, e dos respectivos métodos, onde a parte mais forte e mais preparada e apetrechada consegue impor pela força a sua vontade e os seus objectivos, a não-violência confere à parte mais fraca uma superioridade moral e um ânimo de luta que pode levar à derrota do mais forte.

Quem é geralmente o adversário das lutas não-violentas?

Salvo nas situações de agressão individual ou grupal, as lutas não-violentas dirigem-se, habitualmente, não contra uma pessoa em particular, mas contra todo um sistema político e social, uma autoridade investida com um poder sobre os demais.

A não-violência pretende convencer o adversário?

A acção não-violenta é uma forma de luta. Mais que pretender convencer o adversário, ela tem com finalidade impedir que este atinja os seus objectivos, sem causar danos à sua pessoa ou aos seus representantes e agentes.

Quais são os meios e métodos de acção mais utilizados na acção não-violenta?

Dada vastíssima gama de recursos não-violentos torna-se difícil expor exaustivamente todos eles. Apontam-se por isso tão-só os mais conhecidos:

- a greve ( e muita outras modalidade de greve: greve de zelo; greve de fome; greve ao trabalho, etc,etc)
- a desobediência civil
- a objecção de consciência ( que tem também diversas modalidades como a objecção fiscal)
- a obstrucção civil
- boicotes sociais
- embargos
- a realização de manifestações de rua ou cortejos
- realização de marchas
- realização de assembleias públicas
- sit-ins, sit-down
- ocupações de via públicas ou de certos locais
- a não-cooperação ( legal ou ilegal)
- a mediação
-a discussão e negociação
- a informação
-teatro de rua e representações públicas
- actos públicos simbólicos
- vigílias
- concertos, canções de rua ou actos
- cartas abertas
- petições e abaixo-assinados
- cartazes, panfletos e «pichagens» nas paredes e ruas
- publicações periódicas e não-periódicas
- realização de contra-cimeiras ou de conferências paralelas.
- emigração ou exílio

Etc, etc


Breve bibliografia:

Maurel, Olivier – La non-violence active, 100 questions-réponse pour résister et agir, La Plage éditeur, 2001

Sharp, Gene – The Politics of Nonviolent, Three volumes ( Vol 1 Power and Struggle ; Vol 2 The Methods of Nonviolent Action ; Vol. 3 The Dynamics of Nonviolent Action), ed. Extending Horizon Books, 1998.