7.4.05

Amor, liberdade e Fourier

Para Fourier, a bússola social que conduz à harmonia universal tem por nome "Teoria da Associação Natural e da Atracção Apaixonada". A nova ordem societária substituirá a ordem incoerente e fragmentada, formada por famílias isoladas umas das outras e vivendo sob coacção. Profeta do insólito e do desejo, Fourier antecipa-se a Freud ao erigir a atracção apaixonada em lei do funcionamento colectivo. Em toda a parte, os seres humanos são movidos pelo prazer, pelo que a ordem societária aliará o interesse geral ao particular utilizando um mecanismo de "paixões afectivas", erradamente consideradas pelos "civilizados" como "tigres à solta", ou "enigmas incompreensíveis" que é necessário reprimir ou asfixiar. A atracção passional, que estimula a interacção contínua entre todas as idades e sexos e também entre os grupos sociais, mitiga a exigência da luta entre os mais ricos e os mais pobres. "Harmonia" é o resultado da seriação de paixões que julgávamos inimigas da concórdia. As paixões conjugam-se tanto mais facilmente quanto mais vivas e numerosas são, implicando, obrigatoriamente, seres livres. Não há atracção passional sem prévia emancipação de todos os escravos e libertação das mulheres, asfixiadas pelas «tarefas domésticas fragmentadas». A degradação da mulher em civilização é negativa para os dois sexos. Não há destino social para os homens independente do das mulheres. Logo, se a liberdade está vedada a um dos sexos, está fatalmente vedada ao outro: «a lida doméstica simplificada pela combinação geral dos trabalhos emancipará a grande maioria das mulheres, que poderão, assim, participar nas magníficas recompensas reservadas pelas ciências e pelas artes, e deixar de se esgotar na arte de mexer a panela e remendar as ceroulas velhas...».
(in "Teoria da Unidade Universal", 1841)