6.1.08

Até sempre Luiz Pacheco! Vais fazer-nos falta.




«...um dia a sua leitura há-de passar a ser obrigatória nas escolas para que a tal "liberdade em estado puro" transforme este país "cada vez mais pobre" numa nação saudavelmente ateísta, anarquista e bem-disposta.» (lido em algures)







Biografia retirada da Wikipedia:



Luíz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (Lisboa, 7 de Maio de 1925 — Montijo, 5 de Janeiro de 2008) foi um escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura português.
Nasceu no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão [1].
Desde cedo manifestou enorme talento para a escrita. Chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi óptimo aluno,[2] mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego. Desde então teve uma vida atribulada, sem meio de subsistência regular e seguro para sustentar a família crescente (oito filhos de várias mulheres), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues. (Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto Comunidade, considerado por muitos a sua obra-prima.) Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles [3] . Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista [4] .
A sua obra literária tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista".
Alto [5] , magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas muitas vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho, hipersensível ao álcool, hipocondríaco sempre à beira da morte, cínico impenitente, é sem dúvida, como pícaro personagem literário, um digno herdeiro de Luís de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.
Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado para casa do seu filho Paulo Pacheco [1] em 2006 e daí para um lar, no Montijo, onde viria a falecer.
Um ano após a morte de Mário Cesariny, a 26 de Novembro de 2007, Comunidade foi editada em serigrafia/texto com pinturas de Cruzeiro Seixas. Nessa efeméride, Luiz Pacheco foi entrevistado pela RTP, encontrando-se num lar do Montijo.
Morreu a 5 de Janeiro de 2008.



Notas
1. ↑ 1,0 1,1 Entrevista ao Correio da Manhã
2. ↑ Vitorino Nemésio, na sua cadeira, atribuiu-lhe 18 valores (de 0 a 20).
3. ↑ Luiz Pacheco foi um compagnon de route dos surrealistas portugueses e o seu primeiro e apaixonado editor ("sacristão do surrealismo", chamou-lhe o crítico João Gaspar Simões). Foi amigo íntimo de António Maria Lisboa e de Mário Cesariny, tendo este cortado definitivamente relações com Pacheco, devido a desavenças intelectuais e pessoais (vd. Pacheco versus Cesariny, de Luiz Pacheco e Diário do Gato, de Mário Cesariny).
4. ↑ Depois do 25 de Abril de 1974, Pacheco tornou-se militante do Partido Comunista Português.
5. ↑ 1,77 m, cf. bilhete de identidade.




Bibliografia
• História antiga e conhecida in Bloco (vários autores). Reeditado em Crítica de circunstância e em 2002 com o nome "Os doutores, a salvação e o menino Jesus" (1946)
• Caca, cuspo & Ramela (1958?)(com Natália Correia e Manuel de Lima)
• Carta-Sincera a José Gomes Ferreira (1958)
• O Teodolito (1962)
• Surrealismo/Abjeccionismo (antol.org: Mário Cesariny, c/versão abreviada d'O Teodolito (1963)
• Comunidade (1964)
• Crítica de Circunstância (1966)
• Textos Locais (1967)
• O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (1970; 1992)
• Exercícios de Estilo (1971)
• Literatura Comestível (1972)
• Pacheco versus Cesariny (1974)
• Carta a Gonelha (1977)
• Textos de Circunstância (1977)
• Textos Malditos (1977)
• Textos de Guerrilha 1 (1979)
• Textos de Guerrilha 2 (1981)
• Textos do Barro (1984)
• O Caso das Criancinhas Desaparecidas (1986)
• Textos Sadinos (1991)
• O Uivo do Coiote (1992)
• Carta a Fátima (1992)
• Memorando, Mirabolando (1995)
• Cartas na Mesa (1996)
• Prazo de Validade (1998)
• Isto de estar vivo (2000)
• Uma Admirável Droga (2001)
• Os doutores, a salvação e o menino Jesus - Conto de Natal (2002)
• Mano Forte (2002)
• Raio de Luar (2003)
• Figuras, Figurantes e Figurões (2004)
• Diário Remendado 1971-1975 (2005)
• Cartas ao Léu (2005)



Par saber mais, consultar:
http://luizpacheco.no.sapo.pt/default.htm




Excertos de
«O LIBERTINO PASSEIA POR BRAGA, A IDOLÁTRICA, O SEU ESPLENDOR» (1970)
retirado de:
http://www.triplov.com/luiz_pacheco/braga_01.html



Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!



Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur ("O Enjeitadinho"? "O Corcundinha"?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: "Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada". Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros. Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias). Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar... Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.

Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.



Largo o casaco e a sacola num tasco. Meto mais verde. Telefono ao. Victor de Sá, a quem vinha incumbido de entrevistar para a "Seara". Grande confusão política em Braga: há duas listas da Oposição, uma, a boa, que o Governo cortou, "da maneira mais arbitrária...", diz-me o V.S.; outra, a dos moderados ou mortos (é o termo dele). E que não dá entrevista, que tem muito que fazer, que estão a estudar uma reclamação ou petição, etc. Oh diacho, é outro caso de pré-deputado ou candidato a deputado, que chega ao dia das eleições sem saber se vai, se o deixam ir, se lhe contam os votos, se as listas de eleitores lhe são facultadas, a cegada do costume. E duas listas da Oposição, em Braga?!... É para ver se perdem mais depressa, ah!... ah!... (isto sou eu a rir-me dos políticos de Braga). Concluo que em Braga a política é uma trampa, uma trampa aflita em dias de sol deste, com raparigas na sua folga de domingo, o Vianense a jogar contra o Braga, logo excursões de Viana ali perto, com certeza - e a Deolinda perdida entre azinhagas e casas velhas, o lugar de Assento ao pé da igreja, a Deolinda ainda não esquecida mesmo depois do frango do almoço. Vou-me a ela!



Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou. Olha para trás, por vezes. Já comunicou à parceira. A andar, a andar, chegamos a uma espécie de logradouro público, com certo ar antiquado e bancos largos de pedra, onde finda a linha dos eléctricos para o estádio (vejo o nome, Estádio 28 de Maio, oh a Política!, ah! ah!, isto só em Braga). Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. Sento-me num banco e faço de grão-senhor, porque assim disfarço as calças rotas no rabo. A miúda mais bonita dá-me uma chance? (será isso?). Atira-se a dizer: "Eu sento-me já aqui", e vem toda lampeira para o meu banco, mas depois passa ao do lado. Manobra provocatória, mas feita por uma quase amadora? assim o entendi, e lanço-lhe uns olhares de desfazer pedras, o meu olhar mágico, de megatoneladas de cio (assim penso, mas com as 17 ou mais dioptrias e o estigmatismo e as lentes, e as clarabóias do verde, que olhar será o meu?). A trupe das estúpidas, porém, escolhe um banco lá pro fim e depois ficam todas sentadas e de costas umas para as outras e caladas. Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas. Crio fastio de posar ao grão-senhor, distraído e benevolente com a paisagem. E começo a deambular, de árvore para árvore, e vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultadodão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada; outro, assim: Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa, ao lado da bolota que me caiu em cima dos ombros esta manhã e considero um talismã... ora agora aqui se podem rir da minha infantilidade, mas olhem que vi O Mundo a Seus Pés. Viram ? A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha, isto se chegarmos à fala, do que já começo a duvidar; sinto que estou a perder tempo (como o outro tonto, a redigir petições sinceras) e precipito os acontecimentos. Aproximo-me do banco delas e faço um jogo declarado de olhares furiosos, de cem megatoneladas, para a gorducha lorpa, que é a que me deita as trombas de frente; a outra, a sagaz, está de costas. A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. Vou-as seguindo a distância, e pelo caminho inda catrapisco umas malfeitonas que andam a saber o seu Destino numa maniqueta chegada da América que diz se o que se tem no pensamento sairá certo ou errado, e dá uma sina disparatada a cada cliente, tudo por dez tostões (esqueci-me de dizer que no caminho para lá, para o repouso ao pé do estádio, a miúda gira tinha ido consultar a maquineta, muito azougada e preocupada com o seu futuro, e foi aí, até, que reparei como era vivaz e um tanto parecida (ou não seria ilusão minha?), nos modos e cabrice, com a Geninha. Começo a ver que, com guardiã à perna e saloias até mais não, destas fulanas não levo nada. Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: "Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...". O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!

______
(1) o cinismo da personagem é bem evidente nesta palavra de simpatia, não acham?
(2) Uma miudinha esfarrapada e esperta, um-padre-Amaro-sósia-do-outro; uma capelita com escadaria Bom-Jesus em miniatura (lembro-me de subir lá acima e fazer um pacto; mas a escadaria é alta, ainda); uma bonita minhota de cetim preto, com olhos largos e calmos, belos olhos que nunca mais verei.
(3) Umas miúdas de 4, 5 anos, a quem peço tremoços e castanhas, e depois ficam muito excitadas, e começam a levantar as saias umas às outras, dizendo (quem diz, é uma desdentadinha, magrizela e encarvoada): «Mostra a zabelinha, mostra a zabelinha a este senhor!». Olha que putitas!




Luiz Pacheco 82 anos






Luiz Pacheco - O tradutor






Luiz Pacheco - O cachecol do artista








Luiz Pacheco - O caso do sonâmbulo chupista







COMUNIDADE
[Extractos]



Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.
(...)
Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!
Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, rne penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção e a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas). A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho. Nem eu me atrevia a falar-vos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.
Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. As vezes, muitas vezes, beijos e abraços.
As vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau, génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas ? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores na Avenida! E deixem-me que lhes diga: se é precisa a maior vigilância com as maganas das lêndeas e as brincalhonas pulguitas (especialmente daquelas pequeninas, estilo terroristas, são mesmo uns amores!), a graça que tem a Irene na caça à bicharada, desporto conceituado nas brenhas beirãs onde a fui escolher, e como se alegra dizendo «era uma verdadeira toira !» ou «esta tinha o rabo branco, eram duas às cavalitas», o que só demonstra que na classe agrária, enquanto não chega o dia do tractor e da reforma, a educação feminina quedou nessas prendas doméstico-venatórias do olho atento, dedos que nem setas, unhas como guilhotinas.
Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.
Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)
(...)

Encontro de experiências das lojas sociais em Cantanhede ( em 7 de Janeiro, no Banco de Recursos – Colmeia de Cantanhede)

No primeiro ano de funcionamento o Banco de Recursos de Cantanhede cedeu 40 mil bens

Entre os bens disponibilizados pelo Banco de Recursos, no primeiro ano de funcionamento, contam-se vestuário, calçado, mobiliário, electrodomésticos, brinquedos e material didáctico.

Inaugurado há um ano, exactamente a 6 de Janeiro de 2007, o Banco de Recursos – Colmeia de Cantanhede já disponibilizou, até à data, cerca de 40 mil bens, solidariamente cedidos pela comunidade.

Na próxima segunda-feira, assinalando o primeiro ano de funcionamento, decorre no auditório da Biblioteca Municipal de Cantanhede o Encontro de Experiências de Lojas Sociais, que inclui uma visita, pelas 14H30, às instalações do Banco de Recursos, situado na Rua Carlos de Oliveira, Edifício Pátio da Cidade, durante a qual se procederá à entrega simbólica de bens a famílias carenciadas.

Entre os bens disponibilizados no último ano pelo Banco de Recursos contam-se peças de vestuário, calçado, mobiliário, electrodomésticos, brinquedos, material didáctico e outros artigos. Do total, cerca de 14 mil foram entregues directamente a mais de 550 pessoas, tendo sido o restante sido enviado a instituições que as fizeram chegar a famílias e pessoas carenciadas.

A dinamização do Banco de Recursos está, desde o seu início, a cargo de uma equipa de voluntários do Banco de Voluntariado de Cantanhede, supervisionada pelo município, tendo desenvolvido "um trabalho que contribui fortemente para o bem-estar dos sectores da população mais fragilizados".

O objectivo do Banco de Recursos foi "criar uma resposta social inovadora e solidária e surgiu como um complemento da intervenção social do município". Visa "a erradicação da pobreza e da exclusão social, promovendo a cooperação entre entidades e a criação de uma verdadeira cadeia de solidariedade entre a população, no sentido de criar condições que permitam resolver alguns dos problemas sociais existentes no concelho", realça uma nota assinada pelo vereador Paz Cardoso.


www.asbeiras.pt/?area=coimbra&numero=54162&ed=05012008

5.1.08

Vende-se a cidade do Porto! Tratar o negócio com Rui Rio

Fotos e texto retirados do excelente blogue:
http://www.mruim.blogspot.com/






Rui Rio, dono e senhor da "mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto", prossegue a sua política de ROUBO DE PATRIMÓNIO PÚBLICO e desta vez não fez a coisa por menos:

Entregou de mão beijada o Mercado do Bolhão a uma imobiliária holandesa - Tramcrone, que o irá explorar por 50 anos!!!

A táctica é sempre a mesma:

- desinvestir e deixar apodrecer, para justificar a entrega a privados.

Os livros ardem mal - mensário da actualidade editorial no Teatro Gil Vicente (7 de Janeiro às 18h em Coimbra)


OS LIVROS ARDEM MAL

Mensário da Actualidade Editorial

Próxima sessão:
Dia 7 de Janeiro 2008 > 18h00 > Café-Teatro



Na sequência de Escaparate, Mensário da Actualidade Editorial, a iniciativa mensal que agora leva o nome Os Livros Ardem Mal (tomado de empréstimo ao autor galego Manuel Rivas) propõe um encontro mensal sobre e a pretexto de livros recentemente editados.


O painel é constituído por António Apolinário Lourenço, Luís Quintais, Osvaldo Manuel Silvestre e Rui Bebiano. Cada encontro mensal terá um/a convidado/a, cujo livro recém-publicado será um dos objectos de conversa. As sessões serão transmitidas, em diferido, pela Rádio Universidade de Coimbra. Com esta iniciativa, o TAGV contribui para o conhecimento dos livros enquanto parte essencial de um espaço público informado.

O convidado desta quarta sessão é o jornalista JOAQUIM FURTADO

Entrada Livre


Joaquim Furtado (n. 1948, Penamacor). Depois de passar pela Rádio Universidade, iniciou a actividade como profissional a partir de 1970, fazendo programas e jornalismo no Rádio Clube Português, Rádio Renascença, Diário de Lisboa e RDP. Entre 1975 e 2002 trabalhou na RTP, tendo integrado as redacções do Telejornal, Informação 2, Grande Reportagem, Portugal sem Fim e Jornal das 9. Foi autor e apresentador dos programas Falar Claro e Casa Comum e co-autor da série Anos 70, imagens de uma década, com Joaquim Vieira, Solano de Almeida e Perez Metelo. Ainda na RTP desempenhou as funções de Director-Coordenador de Informação e Programas, entre 1996 e 1998. Esteve entre os jornalistas que lançaram o jornal Gazeta da Semana e a revista Grande Reportagem. Recebeu vários prémios de jornalismo. Autor do livro Na Ilha de Mussa-bin-biki, Amigos do Livro, Editores, 1984. Foi provedor do Leitor do jornal Público no ano de 2004. A sua última realização, A Guerra, dedicada à guerra colonial, foi exibida pela RTP entre Outubro e Dezembro de 2007.

António Apolinário Lourenço é professor de Literatura Espanhola na Universidade de Coimbra, director do Instituto de Estudos Espanhóis da mesma Universidade e membro da Comissão Executiva do Centro de Literatura Portuguesa. Tem publicado recensões críticas, sobretudo de autores portugueses e espanhóis, em diversos jornais e revistas. Co-autor (com Eloísa Álvarez) de uma História da Literatura Espanhola (Asa, 1994) e co-editor (com José Luis Gavilanes) de uma Historia de la Literatura Portuguesa (Cátedra, 2000), tem privilegiado como objecto de estudo o Naturalismo e o Modernismo na Península Ibérica. Entre os livros que publicou, destacam-se Identidade e alteridade em Fernando Pessoa e Antonio Machado (Angelus Novus, 1995, traduzido para espanhol em 1997) e Eça de Queirós e o Naturalismo na Península Ibérica (Mar da Palavra, 2005).

Luís Quintais nasceu em 1968 em Angola. Antropólogo, ensaísta e poeta. Como antropólogo tem vindo a trabalhar sobre as relações entre cognição, biotecnologias e bioarte. Tem ensaios publicados em diversas publicações, destacando-se ainda o ensaio sobre a psiquiatria forense em Portugal na primeira metade do século XX, Franz Piechowski ou a Analítica do Arquivo (2005, Lisboa, Livros Cotovia). Mantém um blog sobre ciência cognitiva (www.webqualia.blogspot.com). Publicou os seguintes livros de poemas: A Imprecisa Melancolia (1995, Lumen), Lamento (1999, Cotovia), Umbria (1999, Pedra Formosa), Verso Antigo (2001, Cotovia), Angst (2002, Cotovia), Duelo (2004, Cotovia), Canto Onde (2006, Cotovia).

Osvaldo Manuel Silvestre ensina teoria da literatura e artes na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Publicou ensaios e livros sobre literatura portuguesa, brasileira e africana no período moderno e contemporâneo, e ainda sobre questões de teoria, comparatismo e estética. Com Pedro Serra, co-organizou o volume Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX (2003). Foi um dos directores da revista de poesia Inimigo Rumor, no período em que foi editada em simultâneo em Portugal e Brasil, e co-dirigiu Zentralpark. Revista de Teoria & Crítica. Foi um dos membros do blogue Casmurro.

Rui Bebiano é professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo participado nos anos 80 na renovação dos estudos sobre o barroco. Em 1997 doutorou-se com uma tese sobre a ideia de guerra entre os séculos XVI e XVIII. Trabalha desde essa altura sobre temas de história cultural e política do pós-Segunda Guerra Mundial até à actualidade, sobre culturas juvenis e sobre formas de representação contemporânea do passado. Tem publicado livros, crónicas e artigos distribuídos por panfletos, programas, fanzines, dicionários, jornais e revistas. Entre 1996 e 2002 foi responsável pela primeira revista electrónica portuguesa ( ' Non! Cultura e intervenção ' ). Participa também em diversos blogues
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Trabalho e Sindicalismo em Tempo de Globalização, livro de Manuel Carvalho da Silva

Outros caminhos possíveis... Reconhecida figura pública, Carvalho da Silva, sindicalista deste 1974, concluiu este ano uma importante investigação em torno da temática do trabalho e da sua importância na vida das pessoas. Aliando a sua vasta experiência, “a muita vida percorrida e partilhada”, à investigação sociológica a que se dedicou nos últimos dez anos, terminou com distinção e louvor uma polémica tese de doutoramento pelo ISCTE. Apresentando casos concretos, próximos das pessoas e do cidadão comum, este trabalho aponta soluções e alternativas às actuais políticas do trabalho.


O trabalho é fundamental na vida das pessoas.
Por vezes perdemo-nos em discursos estatísticos e abstractas percentagens, mas a verdade é que o trabalho, o desemprego, a precariedade afectam a forma como o indivíduo se sente consigo mesmo, a sua auto estima e dignidade; as suas relações sociais e familiares.


Consciente dessa centralidade do trabalho na vida das pessoas, Carvalho da Silva acompanha de perto os problemas laborais desde anos 70.
Natural de Viatobos, em Barcelos, onde nasceu no ano de 1948, sonhava levar a electricidade à casa dos pais. Como os pais não tinham meios para o mandar estudar, acabou por tirar o curso de Montador Electricista. Aos 45 anos de idade decide completar a sua formação, entrando, por exame ad-hoc, no curso de Sociologia no ISCTE, defendendo em 2007 a presente tese. Ligando sempre a sua experiência de vida à investigação sociológica, consegue precisamente neste trabalho focar problemas tão actuais como a globalização, o individualismo, as desigualdades sociais, a cada vez maior precariedade no trabalho. Ao mesmo tempo que foca as grandes temáticas mantém assim uma forte ligação ao mundo concreto das pessoas e trabalhadores com quem conviveu durante anos. Talvez por isso afirme, «O meu único contributo com este livro será o de chamar a atenção - chamar a atenção para aspectos marcantes e perigosos do processo de globalização em curso, para alternativas possíveis, para que não nos acomodemos.»



Trabalho e Sindicalismo em Tempo de Globalização
de MANUEL CARVALHO DA SILVA.

Edição da Temas & Debates.


Muita vida percorrida e partilhada...
Queria levar a luz à casa dos seus pais. Natural de Viatodos, Barcelos, Manuel Carvalho da Silva nasceu no seio de uma família de agricultores. Não havendo electricidade em casa sonhava um dia ser engenheiro electrotécnico. Acabou electricista. Em 1973, por se insurgir contra um gestor da empresa, foi despedido. É sindicalista desde 1974. Com 45 anos de idade iniciou a licenciatura em Sociologia, entrando por exame ad-hoc, e este ano terminou o doutoramento no ISCTE, com nota máxima: distinção e louvor por unanimidade. É essa tese que dá origem a este livro, com o título «Trabalho e Sindicalismo em Tempo de Globalização». Positivo, avesso ao derrotismo, é capaz de dizer - bem alto e claro - que não. Não à desumanização, à injustiça, às crescentes desigualdade sociais.

Jornalista- Usa com frequência a expressão de “centralidade do trabalho” na vida das pessoas.

Manuel Carvalho da Silva - Sem trabalho não conseguimos organizar a nossa vida de ponto de vista individual, familiar, colectivo. Uma vez no desemprego, ou com trabalho muito precário, as relações sociais descem a pique de uma forma impressionante. E as pessoas ficam desprotegidas. Aliás, quanto maior a qualificação mais visível é a perda de relações e estatuto social.

Jornalista - O que quer dizer com perda de relações sociais?

MCS – É impressionante observar jovens quadros de empresas que passam de uma situação confortável (o bom salário, o bom automóvel, o cartão de crédito) para o desemprego. Sem emprego não têm os meios suficientes para manter o tipo de vida que tinham, desestruturando-se o seu espaço de relações humanas. A tendência é para a perda de auto-estima...

Jornalista - E no caso da precariedade, do medo de perder emprego.

MCS - O livro é rico nesse aspecto. Em limite as pessoas tendem a responder à precariedade como um menor compromisso no trabalho.

Jornalista - Quer dizer, com um menor envolvimento?

MCS - Sim, um menor envolvimento, menor aprofundamento das suas capacidades. Por exemplo, em relação a trabalhadores altamente qualificados, não é pelo aumento do horário de trabalho, pelo intensificar de ritmos de trabalho, que a entidade patronal conseguirá tirar mais do trabalhador. É necessária a predisposição do indivíduo para dar esse contributo, para aplicar as suas capacidades.

Jornalista - E qual a consequência de valores como a “competição” e “produtividade” na relação entre trabalhadores, entre colegas de trabalho?

MCS – Violências, geram-se muitas violências. Violências incríveis. Induz-se os trabalhadores a um comportamento individualizado – aliás, toda a organização dominante na empresa empurra as pessoas para isso. Fala-se tanto da importância do trabalho em equipa, do conjugar de esforços, mas esses princípios chocam com as formas como se procura explorar, individualizando cada vez mais o trabalhador.

Jornalista – E, hoje, ser-se individualista é um mostra de egoísmo ou apenas uma tentativa de sobrevivência?

MCS – É essencialmente uma forma de sobrevivência. Não partilho da ideia de que as gerações mais jovens sejam mais individualistas que as anteriores. As pessoas estão é sujeitas a um individualismo institucionalizado. A sujeição das pessoas decorre directamente de um conjunto de factores, nomeadamente: do predomínio das políticas financeiras e monetaristas, da indução a um consumo irracional e cheio de dependências, das inseguranças e instabilidades…

Jornalista – E existe ainda espaço para valores como o da solidariedade? Qual a actual ligação das pessoas aos sindicatos?

MCS - O individualismo sustenta-se numa perversa noção de mudança e de adaptabilidade. Uma das expressões mais usadas nos nossos dias é a da adaptação, o de “termos de nos adaptar”. Individualizam-se as responsabilidades, não para os indivíduos pensarem e agirem construindo também dinâmicas colectivas, mas sim para ficarem isolados e se sujeitarem a orientações pré-definidas e a todo o momento poderem ser culpabilizadas pelas suas “incapacidades”. Por isso, o grande desafio para os sindicatos no contexto actual, é o de ir onde as pessoas (os trabalhadores) estão, procurar conhecer as condições objectivas que o trabalhador hoje enfrenta e, a partir daí, construir solidariedades.



Jornalista– E sentem-se as pessoas como fazendo parte de uma “classe” social?

MCS - Uma das consequências do individualismo, e destas novas dinâmicas de organização do trabalho, é precisamente a dificuldade que as pessoas têm em identificar o seu lugar na sociedade. Existem, de facto, conquistas extraordinárias que se expressam nessa mescla de situações de vivências das pessoas (em particular os jovens) e de extractos sociais diferenciados que vemos conviverem todos os dias, mas depois chega-se ao trabalho, e à vida concreta, e percebemos que a estratificação continua a existir. Talvez os lugares de classe se tenham multiplicado, mas as classes sociais continuam a existir. Criam-se ilusões, baralhando as pessoas, dizendo que todas estão em situações iguais quando as condições materiais, de educação, de qualificação são, de facto, diferentes...

Jornalista – Afirma: «...vivemos em tempo de contradições profundas, nas também de grandes esperanças.»

MCS - Recuso-me ao negativismo. Recuso-me, por exemplo, a ver o aumento da esperança média de vida como uma carga difícil de gerir. A longevidade é uma conquista extraordinária, é uma grande conquista da humanidade. Assim como o aumento quantitativo e qualitativo das mulheres no trabalho é um avanço civilizacional. Os movimentos migratórios, que sempre existiram, representam no processo actual uma atitude positiva. Um homem ou mulher que vivam algures em África, sem meios de subsistência, podem sonhar com uma vida melhor, por isso emigram. A ideia de que o aumento das qualificações do trabalhador implicou o aumento do desemprego também não é verdadeira. Recuso todas essas falsas ideias, e por isso me afirmo como alguém positivo que encara a vida com confiança.

Jornalista – Pretende com esta investigação apontar soluções?

MCS - O meu único contributo com este livro será o de chamar a atenção - chamar a atenção para aspectos marcantes e perigosos do processo de globalização em curso, para alternativas possíveis, para que não nos acomodemos.

Jornalista– E como conjugou as facetas de investigador e de sindicalista?

MCS - Desde logo esta tese incorpora a minha experiência de vida partilhada com milhares de trabalhadores. Por outro lado, procurei ouvir, compreender e analisar, fiz muitas e muitas entrevistas, desenvolvi conversas estruturadas com algumas centenas de actores sociais (trabalhadores, sindicalistas, gestores, autarcas, políticos, cientistas, etc.), trabalhei um questionário que apliquei, com êxito, a um significativo universo de trabalhadores. Não penso por isso que haja um choque ou ruptura entre a vida prática e o mundo do conhecimento teórico. É verdade que para construir esta dissertação tive de assumir algum distanciamento, mas uma coisa é distanciamento outra é o alheamento. Não abdico de ter uma opinião, de ter a minha perspectiva. Por vezes querem fazer-nos aceitar esse distanciamento num sentido errado, para que abdiquemos de opções próprias, para que simplesmente usemos a opinião dos outros. Ora, aí digo: não! Todas as áreas do conhecimento são desenvolvidas pelo ser humano: o conhecimento é empírico e científico. É bom manter um distanciamento, mas com compromisso de vida, com pensamento próprio.

Jornalista– Nasceu em Viatodos, na zona de Barcelos, numa família de agricultores. Conta na introdução a esta edição como desde cedo observou (lá está, em proximidade) as desigualdades sociais.

MCS - Sim, as desigualdades, e os processos de trabalho.

Jornalista - Alguma situação que o tenha marcado?

MCS - Não uma única situação, antes muitos momentos. O meu pai tinha algumas terras, pequenas e muito dispersas, que faziam vizinhança com um das maiores proprietárias da aldeia. Algumas vezes observei a dona dessas terras, a senhora Aurora. Nas suas terras trabalhavam os jornaleiros, que sachavam o milho sob um sol abrasador, muitos mal alimentados, ganhando 25 tostões por meio-dia (4 horas) de trabalho, e
essa dona Aurora aparecia no campo e começava a gritar: “A despachar, a despachar!” Trazia então um sachola igual à dos trabalhadores e metia-se no meio do grupo, dizendo: “Isto é assim que se faz.” Ela, bem alimentada, com alguns criados em casa, trabalhava então meia-hora a um ritmo dos diabos que tentava impor aos trabalhadores. É claro que ao fim de meia-hora se ia embora... E os/as jornaleiros/as ali continuavam até ao fim do dia. O que conto é apenas um exemplo dos tantos casos que vi ao longo da vida.

Jornalista - Casos que continuam a repetir-se?

MCS - Sim, a teoria do sucesso (dos capazes e dos incapazes, dos competentes e dos incompetentes, dos preguiçosos e dos diligentes, dos frugais e dos perdulários, dos dedicados e dos não dedicados) aplica, ao limite, essa mesma lógica. São capazes aqueles que detêm os meios, e os bem sucedidos são os que muitas vezes não tiveram escrúpulos para chegarem onde chegaram. Conheço homens e mulheres neste país, e no mundo inteiro, de extraordinária inteligência, dedicados, que trabalham horas e horas por dia, e que nunca enriqueceram. Como não acumularam riqueza são tantas vezes definidos como “incapazes”. Essa é uma das grandes manipulações dos nossos tempos – a de defender que os que vencem na vida, são os mais empenhados e capazes.

4.1.08

Declaração de independência dos índios Lakota relativamente aos Estados Unidos.




Nação Lakota – o Kosovo dos EUA ?


Enquanto Washington gosta de se intrometer nos assuntos internos de muitos países, promovendo po exemplo a independência do Kosovo, os Índios Lakota da América do Note exigem uma nação livre e independente e decidiram retirar-se do Tratado de Fort Laramie que assinaram com os EUA em 1868.

Na sua declaração, os Lakota afirmam que
“Somos os Lakota das reservas índias Sioux de Nebraska, Dakota Norte, Dakota Sul e Montana, que adoram a liberdade e que se retiraram dos tratados, constituindo assim uma nação independente e livre. Alertamos a Família das Nações que reassumimos a nossa liberdade e independência sob a lei natural, internacional e dos EUA”.
Canupa Gluna Mani, líder da Sociedade dos Guerreiros Strongheart, explica que “a saída do tratado está vestido no poder do povo Lakota e seus filhos”.
“Através da nossa história e sob a Lei de Reorganização dos Povos Índios de 1934, o Congresso disse que iria rever as provisões de 1968 (Tratado de Fort Laramie) mas não o fizeram. Mantiveram algumas promessas menores mas de forma geral o tratado não foi honrado. Porque se fosse, não teríamos esse colapso colossal de alcoolismo, abuso de drogas e pobreza e não teríamos as altas taxas de encarceração nas populações prisionais masculinas e femininas”.
Os Lakota, descendentes de Sitting Bull e Crazy Horse, declaram que saíram dos tratados assinados com os EUA por causa de sistemática quebra dos compromissos assumidos pelos Estados Unidos nesses tratdos e reclamam agora os direitos sobre todas as suas terras.


www.freelakota.com e http://www.republicoflakotah.com/





Republic of Lakota









The Lakota Way
PARTE 1





PARTE 2





PARTE 3






Lakota Voices





Lakota Song


Acção de formação para activistas sobre transgénicos ( 1ª sessão na Maia no próximo 13 de Janeiro)

A Plataforma Transgénicos Fora e as entidades que a compõem estão a desenvolver um programa de formação para activistas que queiram saber mais e trabalhar na área dos OGM (organismos geneticamente modificados, ou transgénicos).

Este programa será composto por uma série de sessões ao fim de semana, ao longo do ano, em diferentes pontos dos país. Cada sessão pode também ser frequentada individualmente por quem não possa participar no programa todo.

A primeira sessão terá lugar no dia 13 de Janeiro de 2008, na Maia, entre as 9:30 e as 17:30.
A participação é gratuita, sujeita a inscrição prévia.
O número máximo de participantes é 30 (se houver demasiados inscritos, conta a ordem de inscrição).
O prazo limite para inscrições é sexta-feira dia 11 de Janeiro.

Quem estiver interessad@ deve enviar um email para
info@stopogm.net com as seguintes
informações:
- Nome
- Número de telemóvel ou telefone de contacto
- Entidade em que desenvolve activismo
- Se pretende alojamento, e em que dias

A inscrição só é válida após confirmação, a qual incluirá instruções detalhadas para acesso ao local e informações sobre almoço e alojamento.

Para quaisquer questões adicionais deve ser usado o mesmo endereço de email,
info@stopogm.net

Apresentação do livro «Condomínio da Terra» de Paulo Magalhães (11 de Jan. às 21h30 na sede da Campo Aberto

Sexta-feira, 11 de Janeiro, às 21h30,
na sede da Campo Aberto
Rua de Santa Catarina, 730-2.º, Porto


Ver o texto publicado neste blogue sobre o livro:
aqui

A crise ambiental é, antes de mais, um problema do homem, que ao homem compete resolver. Indispensável e urgente é tomar consciência de que existe uma deficiente adaptação das sociedades humanas às circunstâncias impostas pelo planeta onde habitam, o qual é dominado por profundas e intricadas inter-relações naturais.

«Condomínio da Terra» tem como objectivo conciliar os homens com o seu planetapossibilitando a coexistência de soberanias autónomas num espaço colectivo, ou seja, um poder político, supremo e independente, relativo à fracção territorial de cada estado, e partilhado, no que concerne às partes comuns.

O AUTOR
Paulo Magalhães nasceu no Porto, onde se licenciou em Direito. Foi um dos membros fundadores da QUERCUS, onde desempenhou vários cargos, sendo actualmente coordenador do projecto «Condomínio da Terra».

Uma boa notícia para começar o ano: o Rali Lisboa – Dakar foi anulado.




A notícia abre todos os noticiários. E, de facto, a coisa não é para menos. A edição de 2008 do estapafúrdio Rali Lisboa-Dakar foi anulada. Os motivos invocados para uma tal decisão não podem fazer esquecer as crescentes críticas que ao longo dos anos têm sido feitas a uma competição motorizada que já provocou dezenas de mortes e feridos, muitas delas crianças e jovens dos locais por onde os bólides passam em alta velocidade até chegar a Dakar.


A anulação que representará logicamente o descalabro e até a morte deste projecto escabroso deve ser motivo de regozijo geral pois são assim poupadas vidas humanas, especialmente de crianças.


Ficam no entanto muitas perguntas: como foi possível que uma tal selvajaria se tenha mantido ao longo de 30 anos? E com que cumplicidades? Valeu a pena a morte de tanta gente? Quem ficará com o opróbrio de ter colaborado ( e participado) numa corrida, como esta, manchada de sangue?

2.1.08

A contestação ao Rali Lisboa-Dakar começa a surtir efeito: o Mali rejeitou a travessia do seu território pela caravana dos carros assassinos


A edição deste ano de 2008 do rali Lisboa – Dakar já não atravessará o território do Mali. Com efeito, as autoridades daquele país recusaram este ano a passagem dentro das suas fronteiras do Rali mais estúpido do mundo, obrigando a organização a rever os percursos contra a sua vontade. A notícia é tanto mais importante e significativa quanto se sabe que o Mali é um dos países mais pobres do mundo e nos últimos 22 anos a organização do Rali sempre se mostrou pródiga em «ajuda humanitária» a este país que, não obstante, e num gesto de grande dignidade, veio desta vez a rejeitar tais benesses em nome da vida das suas populações ( as crianças sempre foram as principais vítimas dos múltiplos acidentes) e do respeito pelo habitat natural. Uma tal decisão constitui uma derrota histórica para a organização do rali, que tem tentado dissimular o incómodo que lhe provocou aquela recusa, minimizando o facto e ocultando ou silenciando as razões que explicam a rejeição do Mali em ser invadido pela caravana dos bólides e das máquina assassinas deste triste espectáculo da toda-poderosa indústria automóvel



Crítica ao rali feita por desenhadores








Paródia ao rali ao relatar as surpresas de supostos pilostos africanos nos campos dos países europeus





31.12.07

Se querem um Ano Novo, que seja mesmo a valer...

Se querem um Ano Novo,
que seja mesmo a valer,
ponham o Sócrates na rua,
que não se irão arrepender.


Bom Ano Novo de 2008

( mensagem recebida )

Músicas e músicos de África

Para acabar o ano de 2007, e começar o novo ano com coragem e determinação…


Etran Finatawa
(música tuareg do Níger)





Etran Finatawa no @womad





Mariem Hassen ( cantora saharui)


Actuação no II Festival das Três Culturas de Frigiliana em Agosto de 2007





Conversa com Mariem Hassen ( cantora saharui)






Djelimady Tounkara


Djelimady Tounkara no Womad 2006









MALI

Oumou Sangare ( músico do Mali)

Oumou Sangare no Festival in the Desert : 2003












Rokia traoré









SENEGAL

Nuru Kane ( do Senegal)














Baaba Maal ( do Senegal)




Poemas dos detidos em Guantánamo ( do livro : Poems from Guantanamo: the detainees speak)

"O Father, this is a prison of injustice.
Its iniquity makes the mountains weep.
I have committed no crime and am guilty of no offense.
Curved claws have I,
But I have been sold like a fattened sheep."

Abdulla Thani Faris al Anazi, cidadão da Arábia Saudita, foi preso pelo exército norte-americano no Afeganistão, e com um perna amputada foi levado para Guantanamo pelos militares americanos, e desconhecendo as razões e os motivos para a sua prisão refugiou-se na poesia para expressar as suas angústia e a injustiça da sua situação. Durante o primeiro ano foi impossível escrever o que quer que fosse dadas as difíceis condições em que os detidos viviam e as circunstâncias em que foram submetidos.

No entanto, uma série de poemas foram transportados para fora do campo de Gantanamo e compilados pelo advogado Marc Kalkoff, a quem cabe a defesa de 17 detidos.


“To My Father”
Por Abdulla Thani Faris al Anazi, preso em Guantanamo

Two years have passed in far-away prisons,
Two years my eyes untouched by kohl.
Two years my heart sending out messages
To the homes where my family dwells,
Where lavender cotton sprouts
For grazing herds that leave well fed.

O Flaij, explain to those who visit our home
How I used to live.
I know your thoughts are swirled as in a whirlwind,
When you hear the voice of my anguished soul.
Send sweet peace and greetings to Bu’mair;
Kiss him on his forehead, for he is my father.
Fate has divided us, like the parting of a parent from a newborn.

O Father, this is a prison of injustice.
Its iniquity makes the mountains weep.
I have committed no crime and am guilty of no offense.
Curved claws have I,
But I have been sold like a fattened sheep.

I have no fellows but the Truth.
They told me to confess, but I am guiltless;
My deeds are all honorable and need no apology.
They tempted me to turn away from the lofty summit of integrity,
To exchange this cage for a pleasant life.
By God, if they were to bind my body in chains,
If all Arabs were to sell their faith, I would not sell mine.

I have composed these lines
For the day when your children have grown old.

O God—who governs creation with providence,
Who is one, singular and self-subsisting,
Who brings comfort and happy tidings,
Whom we worship—
Grant serenity to a heart that beats with oppression,
And release this prisoner from the tight bonds of confinement.


Um poema de Jumah al-Dossari' é lido por y Riz Ahmed, um dos actores do filme "Road to Guantánamo", no video que se segue.
Nota: Jumah al-Dossari foi solto em 2007 depois de estar detido em Guantanamo mais de 5 anos , tendo passado pelo isolamento s numa cela desde o fim de 2003., e tentado o suicídio por diversas vezes







Vanessa Redgrave lê poemas da antologia «Poems from Guantanamo: the detainees speak»





O poeta Andrew Motion o trabalho do afegão Abdur Rahim Muslim Dost que foi solto de Guantanamo em 2005. Regresado ao Paquistão, ele foi preso novamente em local desconhecido, encontrando-se actualmente numa prisão paquistanesa

O jazz ficou mais pobre com a morte do pianista Oscar Peterson

O jazz ficou mais pobre com a morte do célebre pianista e compositor canadiano Oscar Peterson. O primeiro músico negro de uma orquestra de baile popular na metrópole de Québec, tinha quase 70 anos de carreira
Morreu Oscar Peterson, um dos ícones do piano jazz. Peterson, nasceu em 1925 em Montreal, começou a tocar com 15 anos e, três anos depois, integrou a orquestra dum músico canadiano, Johnny Holmes, onde apurou as suas faculdades técnicas. Morreu com complicações renais no passado dia 23.
Tocou com lendas como o trompetista Dizzy Gillespie e o saxofonista Charlie Parker.
Peterson era conhecido pela sua versatilidade ao piano, exercitando sua criatividade em estilos variados como o bebop e o boogie woogie




Oscar Peterson - You Look Good To Me


Oscar Peterson -The Quartet Live feat.Joe Pas-Soft Winds

Perdido - Ben Webster and Oscar Peterson 1973.



Oscar Peterson & Count Basie - Slow Blues

O "LIFTING" NACIONAL ( por Manuel António Pina)

Crónica deManuel António Pina publicada no Jornal de Notícias de 28 de Dez- de 2007

Com uma campanha de três milhões comprada a uma agência de publicidade, o Governo quer apagar - vem no texto de apresentação da campanha - a imagem de subdesenvolvimento, iliteracia, corrupção e recorrentes indicadores estatísticos de miséria de Portugal.

O ministro da Economia é um homme du monde e, para milagres, não vai ao Professor Karamba, vai a uma agência de publicidade.
Em vez do Abracadabra! do Professor, a agência pronuncia as palavras mágicas West Coast of Europe e o país transforma-se de um momento para o outro, em (ainda a crer no texto de apresentação da campanha) surf, qualidade de vida, Hollywood, criatividade, entretenimento, Los Angeles, S. Francisco, Las Vegas, Silicon Valley.

Para o lifting nacional ser total, a agência usou imaginosamente, em vez de Amália, uma foto de Marisa, em vez de Eusébio, Mourinho e Cristiano Ronaldo (só falta a nova basílica para a trilogia Fado, Futebol & Fátima ficar completa).

A agência quis ainda (não é invenção do cronista, quis mesmo!) mudar a bandeira, pois isso constituiria um evento mundial maior do que, coisa banal, acabar com a iliteracia, a corrupção e a miséria, mas o ministro hesitou.
A bandeira ficará para depois.
Para quando Tony Carreira acabar de escrever o novo hino.

M.A.P.

30.12.07

Apelo à revolta do povo português

retirado de:



Se trabalhais há mais de 40 anos e ainda não tendes casa própria, é plenamente justificável que vos revolteis.

Se trabalhais há mais de 36 anos e ainda não tendes uma viatura em condições, é plenamente razoável que vos revolteis.

Se trabalhais no duro há mais de 30 anos e ainda não tendes 12.000 euros de poupança, para a velhice, é plenamente lícito que vos revolteis.

Se trabalhais seriamente desde os 18 anos e aos 47 ainda não auferis um rendimento mensal superior a 1.300 euros, é profundamente aceitável que vos revolteis.

Se estivestes a estudar durante 11 anos e depois, aos 19/20, não encontrais trabalho, é perfeitamente aceitável o vosso descontentamento.

Se não tendes um centro de saúde a menos de oito quilómetros de casa, é admissível o vosso grito de revolta.

Se precisais de ir antes das oito horas da manhã para um centro médico a fim de garantir consulta, é de toda a justiça que vos revolteis.

Se há ordenados abaixo dos 600 euros por mês, é caso para que toda a nação se revolte.

Se há sete ou oito por cento dos portugueses dos 18 aos 63 anos que estejam no desemprego, é caso para descontentamento geral.

Se uns têm duas ou três viaturas e outros nem uma só é caso para revolta.
Se uns ganham 4.800 euros mensais e oitos apenas 970, é caso para reflectir e para concluir que muito está ainda por fazer.

O estado do país nestes últimos cinco ou seis anos é deveras alarmante. É decerto muito diferente do desejável; e daquilo que teríamos previsto em 1974/1975/1976.

O estado de Portugal é desesperante. É preciso dizê-lo. É preciso gritá-lo.

Graffitis e frases escritas nas paredes de Paris ( Março de 2006) durante a luta contra os contratos de primeiro emprego e a precariedade laboral

Graffitis e frases escritas nas ruas de Paris durante a onda de contestação que varreu a França em Março (e nos meses seguintes) de 2006, quando milhares de jovens protestaram contra os Contratos de Primeiro Emprego (CPE) que consagravam e reforçavam a precariedade laboral com especial incidência nos jovens que estavam prestes a entrar no mercado de trabalho.
A contestação e as manifestações atingiram uma tal escala que o governo francês teve de revogar a lei.


POLÍCIA EM TODA PARTE = JUSTIÇA EM PARTE ALGUMA

NÃO AO ESTADO, AOS MEDIA E AO PATRONATO

PARA PAGAMENTO RUIM, TRABALHO RUIM

BASTA DE SER RAZOÁVEL

CONSTRUAM ESCOLAS E AS PRISÕES SERÃO DESNECESSÁRIAS

VIVA O CONVÍVIO MÚTUO E A SOLIDARIEDADE

MORTE AO PRODUTIVISMO E AO CONSUMISMO

DESTITUAM TODOS OS POLÍTICOS

DESTRUIÇÃO É REJUVENESCIMENTO

QUEIMEM BANCOS

LUCIDEZ É UMA FORMA DE RESISTÊNCIA

A MELHOR FORMA DE VOTAR É ARRANCAR PEDRAS DA CALÇADA E LANÇÁ-LAS NAS CABEÇAS DOS POLÍTICOS

NÃO IMPLORE PELO DIREITO DE VIVER, TOME-O

O EGO É UMA PRISÃO

AS ELEIÇÕES MUDAM AS MOSCAS, A ALTERNATIVA REAL ESTÁ NAS RUAS

SOMOS LIVRES PARA ABOLIR O VOSSO MUNDO

MEDIA POR TODA PARTE = INFORMAÇÃO EM PARTE ALGUMA

NÃO TENHA MEDO DE NADA

SOMOS INCANSÁVEIS

QUEM SEMEIA MISÉRIA COLHE FÚRIA

SE NINGUÉM OBEDECE, NINGUÉM COMANDA

Os melhores discos do ano de 2007 em música clássica para a revista Le Monde de la Musique

Consultar:

Les Chocs de l'années 2007


Vincenzo Bellini
La Somnambule.
Natalie Dessay (Amina), Francesco Meli (Elvino), Chœurs et Orchestre de l’Opéra de Lyon, Evelino Pido (dir.).

2 CD Virgin Classics-EMI 0094639513826



Johannes Brahms
Fantaisies op. 116 - Intermezzi op. 117 - Klavierstücke opp. 118 et 119
Nicholas Angelich (piano).
Virgin Classics-EMI 379302 2.



Dietrich Buxtehude
L’œuvre d’orgue.
Bernard Foccroulle.

5 CD Ricercar-Intégral Distribution RIC 250.


Wolfgang Amadeus Mozart
Divertimentos pour cordes et vents - Marche KV 290.
Ensemble Zefiro.

1 CD Sony Classi¬cal-Sony-BMG 88697025872.


Gabriel Fauré
Requiem - Messe des pêcheurs de Villerville.
Ensemble vocal de Lausanne, Sinfonia Varsovia, Michel Corboz (dir.).
Mirare-Harmonia Mundi 028.



François Couperin
« Tic, toc, choc ».
Alexandre Tharaud (piano).

Harmonia Mundi HMC 901956.


Armenia
Jean-Marc Phillips-Varjabédian (violon), Xavier Phillips (violoncelle), Vahan Mardirossian (piano).
Warner 2564 64 341 2.


Robert Schumann
Symphonies nos 1 « Printemps » et 3 « Rhénane ».
Orchestre des Champs-Elysées, Philippe Herreweghe (dir.).
Harmonia Mundi HMC 901972.


Jean Sibelius
Symphonie n° 2 - La Fille de Pohjola.
Orchestre symphonique de Londres, Colin Davis (dir.).

LSO Live-Harmonia Mundi 0605.


Alessandro Scaralatti
Dixit Dominus - Magnificat - Madrigaux.
Concerto Italiano, Rinaldo Alessandrini (dir.).

Naïve OP 30350


Thierry Escaich
Miroir de l’ombre - Vertiges de la croix - Chaconne.
Renaud Capuçon (violon), Gautier Capuçon (violoncelle), Orchestre national de Lille, Paul Polivnick, Michyoshi Inoue, Jean-Claude Casadesus (dir.).

Accord 492 9057.


Claude Debussy
Préludes, livres I et II.
Jean-Efflam Bavouzet (piano).

Chandos-Abeillemusique.com 10421



Juan Diego Florez
« Airs pour Rubini »
Chœurs et Orchestre de l’Académie Sainte-Cécile de Rome, Roberto Abbado (dir.).

Decca-Universal 475 9079.


David Greilsammer (piano)
« Fantaisie - Fantasme ».

Naïve V 5081


Ludwig van Beethoven
Concerto pour violon et orchestre - Sonate pour violon et piano « A Kreutzer ».
Vadim Repin (violon), Martha Argerich (piano), Orchestre philharmonique de Vienne, Riccardo Muti (dir.).

Deutsche Grammophon-Universal 477 6596.


DVDs

Ludwig van Beethoven
Les trente-deux sonates pour piano (+ six master classes).
Daniel Barenboim (piano
).
1 Coffret de 6 DVD EMI Classics


Dimitri Chostakovitch
Lady Macbeth de Mzensk.

Eva-Maria Westbroek (Katarina), Christopher Ventris (Sergei), Chœurs de l’Opéra néérlandais, Orchestre du Concertgebouw d’Amsterdam, Mariss Jansons (dir.)
Opus Arte-Codaex France OA 0965 D.

Alguns jornais revolucionários do ano de 1974 em Portugal

Reproduções retiradas de:
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Indice/IndiceAlfabetico.htm

Cabe aqui uma palavra de louvor ao trabalho que é desenvolvido pela Hemeroteca digital ao disponibilizar publicamente uma acervo de publicações de grande valor histórico






De orientação marxista -luxembourguista






Voz do povo , jornal da UDP, Partido da União Democrática Popular
( tendência marxista-leninista);
direcção de Mariano Castro



A Verdade, jornal do PUP, Partido da Unidade Popular,
direcção de Célia Vidal da Costa.
Jornal de orientação Marxista-Leninista