7.7.06

Aviso à Navegação



«Um homem ( ou uma mulher) mostram o que valem,
Não pelas palavras que dizem,
Mas pelas acções que praticam»


Este velho dito, que se pode aplicar tanto nas relações amorosas ( quantas vezes os falsos amantes enchem a boca com o banal «amo-te») como na política (os partidos políticos têm um programa político, mas aplicam outro), explica a razão porque decidimos suspender a actualização do Pimenta Negra até ao próximo mês de Outubro.

Torna-se um imperativo voltarmo-nos cada vez mais para a vida, porque nem tudo é comunicação palavrosa nem fluxos pós-modernistas de frases com pouco ou nenhum sentido.

O importante mesmo é ter uma ética de acção.

O projecto «Pimenta Negra», aliás, sempre foi de carácter formativo ( para nós, de longe, o mais importante), e não tanto a informação propriamente dita ( jornais, revistas, net,… e tutti quanti desempenharão essa função de satisfazer as atenções sôfregas dos que gostam de viver a 200 à hora)


Com a chegada do Verão surge também a necessidade de uma paragem para agirmos em consequência.

Continuem a ler outras coisas, mas, sobretudo, não se esqueçam de levar mais a sério as vossas palavras, para não fazerem o show-off de alguns…


Em suma:

Foi linda a festa, pá!

Agora, é preciso continuar a espalhar o cheirinho de alecrim!



O autor do
Pimenta Negra

3.7.06

Por um mundo sem fronteiras


As grandes manobras eleitorais mal ainda começaram e já a questão da imigração passou para o centro dos debates. Le Pen, de Villiers, Sarkozy competem entre si para cativar as vozes da França xenófoba., enquanto os deputados de esquerda e de direita, se travam de razões sobre a forma, estão no fundo de acordo sobre o controle da imigração a fim que «toda a miséria do mundo» permaneça fora do território nacional.

Como anarquistas, nós não conhecemos outra fronteira que não seja a que separa os oprimidos dos seus exploradores. Não somente os seres humanos são, para nós, livres e iguais em direitos, onde quer que estejam, como ainda gostamos que estrangeiros venham à nossa casa, e fazemos questão de os acolher como hóspedes. Não aceitamos qualquer entrave à livre circulação de pessoas e a simples ideia de «quotas» para a imigração é coisa que repudiamos veementemente. Rejeitamos igualmente as políticas de Tartufo que preconizam o desenvolvimento do Sul só para que os « negros» não invadam o Norte.

Uma tal posição, que deverá ser partilhada sem hesitação por todos os internacionalistas consequentes, geram frequentemente críticas e acusações de irresponsabilidade, mais concretamente, actos de provocação da «esquerda» sindical e política. Todavia, até de um ponto de vista «razoável» a abertura das fronteiras é perfeitamente defensável (1). Assim, tendo em conta os condicionantes, examinemos os argumentos dos que se opõem à liberdade de circulação e de instalação.

O primeiro que surge, e que faz tremer as torres, é a ameaça de um «vaga migratória»: dada a diferença ente o salário médio por habitante (2) (de 1 a 50) entre a França e numerosos países de África, a abertura das fronteiras provocaria um gigantesco força de atracção que levaria todos os miseráveis do continente negro em direcção à nossa bela e opulenta pátria.

Pensar que os pobres se deslocam mecanicamente de um território para outro em função das diferenças de nível de vida é bem uma ideia ocidental. Quem pode pensar que se deixa, a não ser obrigado, da sua aldeia, da sua família, dos seus amigos, das suas canções, danças e o sol de África para vir suportar as nossas tristes cidades? Todas as pessoas aspiram, na sua
esmagadora maioria, a manter as suas condições de vida e os seus valores do seu meio natural.
Na verdade, aqueles sobre os quais a miséria caiu estão já aqui, ou a caminho, e nada os deterá. Quem os viu a escalar à mão as paredes de arame farpado em Ceuta e Melilla não duvidam. E é inútil barricarmo-nos contra o desespero; a abertura das fronteiras não aumentará o número dos querem matar a fome. Estudos estatísticos das migrações mostram que não são as populações mais pobres que emigram mais (3). Mostram também que as situações de livre circulação – entre a França e o Gabão, o Togo ou a República Centro-africana, até uma data recente, ou ainda actualmente entre os novos membros da União Europeia do Leste e os dos Oeste que lhes abriram as suas fronteiras – não provocaram fluxos migratórios, apesar das enormes diferenças de nível de vida. Provou-se sobretudo que «quanto mais as fronteiras se abrem, mais a mobilidade é de curta duração; e quanto mais elas se fecham, mais a migração de residência se torna desejável» (4). É por isso que a política restritiva transforma uma imigração que poderia ser sazonal em imigração com prazo indeterminado, bem como acaba por dissuadir a partir aqueles que gostariam de regressar ao país, mas temem não poder retornar em caso de fracasso.

A migração internacional, ponderadas todas as suas causas, refere-se a 2,5 % da população mundial (55.000 entradas por ano em França, segundo o INSEE, o mais provável será 100.000). A abertura das fronteiras, passado o breve afluxo dos que já estão às nossas portas e aguardam por entrar – e entrarão mais cedo ou mais tarde – não mudará nada.

O segundo argumento constitui um espantalho para os sindicatos: a imigração incontrolada aumentaria o desemprego e contribuiria a baixar os salários dos franceses. Ora os estudos disponíveis desmentem a correlação entre o crescimento do desemprego e o aumento dos recursos em mão-de-obra, logo o número de imigrados (5). Por um lado, os empregos mais desejados ( a função pública) estão interditos aos trabalhadors estrangeiros, os quais ocupam massivamente os que os franceses recusam. Recordemos ainda que o desemprego é indispensável ao capitalismo a fim de regular o mercado de trabalho, e os imigrados servem normalmente para serem os bodes expiatórios desse facto. Quanto ao risco de haver concorrência entre trabalhadores estrangeiros e autóctones a regra é simples: os mesmos papéis e os mesmos direitos para todos.

O terceiro argumento, o mais frequente, diz respeito ao equilíbrio dos orçamentos sociais, de saúde e o custo da imigração em geral. Mas ele faz parte do preconceito segundo o qual as populações do Terceiro Mundo sonham viver nas nossas sociedades só por causa das ajudas sociais. Para falarmos a sério, torna-se necessário recordar que a imigração é na realidade vital para as economias das sociedaes ricas – os Latinos nos Estados Unidos estão prestes a provar isso mesmo, e tal é a consequência directa da pilhagem do Sul pelo Ocidente desde a colonização. Disto isto, poder-se-ia mesmo dizer que o custo de uma verdadeira política de acolhimento e de integração não excedaria certamente os custos da política repressiva com todo o arsenal de polícias, juízes, centros de retenção e as operações de recondução às fronteiras.

Uma vez afastados os argumentos «técnicos», resta o temor, irracional e perigoso, que leva a votar pela Frente Nacional ( em França) as aldeias onde jamais um imigrante pôr lá os pés, o receio do outro, do estrangeiro, o receio de ver a dissolver-se a cultura e a «identidade nacional» numa mistura de cores, culturas e religiões. O fantasma de uma civilização superiora, branca, cristã e rica, «submergida pelas hordas dos bárbaros» encontra a sua origem histórica na queda do império romano do Ocidente. Mas tal como a maior parte das «verdades» que nos são transmitidas pelos manuais escolares, também essa é truncada. Na realidade, colonizadores romanos e autóctones «bárbaros» viveram juntos durante mais de 25 gerações no interior das fronteiras do império. E quando as povoações, vindas da Ásia, o atravessaram de uma ponta à outra, forma esses mesms «bárbaros» que se esforçaram para manter as estruturas.

Após uma investigação profunda não encontraremos nenhum exemplo na história de qualquer nação que tivesse sido dissolvida ou destruída no seguimento de uma invasão pacífica de migrantes pobres. O contrário não se pode dizer: quando os Europeus começaram a expandir-se pelo planeta, por onde eles passaram reduziram à escravatura os povos autóctones, quando não mesmo os exterminaram, como aconteceu nos Estados Unidos, na Austrália, na Nova Zelândia, só para citar alguns exemplos.

Em suma, a abertura das fronteiras não provocaria o fluxo de imigrantes suplementares nem em França nem na Europa, e evitaria inumeráveis dramas humanos. Ela não mudaria a ordem económica neo-colonislista de que se aproveitam as sociedades ocidentais e que é a primeira causa para a imigração «não escolhida», mas poderia ser um pequeno passo para a solidariedade internacional dos explorados contra o capitalismo globalizado e os seus falsos nacionalistas.

Autor do texto: François Roux

(1) Consultar o dossier »migrations et mondialisation», elaborado pela ATTAC 63
(2) Que corresponde a uma diferença de nível de vida de cerca de 1 a 20
(3) Ler Faut-il ouvrir les frontières? Catherine Withord de Wenden, Éditions de Sciences-Po, 1999.
(4) L'Europe et toutes ses migrations, sob la direction de Catherine Withord de Wenden et Anne de Tinguy, Éditions Complexe, 1995.
(5) Rapport « Immigration, emploi et chômage » , Conseil de l'emploi, des revenus et de la cohésion sociale, 1999.

Texto publicado no Le Monde Libertaire de 18 de Maio de 2006

Manifesto contra a política europeia de fronteiras, e pelo fecho dos Centros de Internamento para Estrangeiros

Contra as imputações aos detidos da Zona Franca (Barcelona) que estavam a realizar acções de protesto contra as limitações à liberdade de circular pela europa no passado dia 24 de Junho.

Desde o Outono último, as imagens de horror que estão a produzir-se como resultado do actual regime de fronteiraseuropeias não cessam de chegar à imprensa, Tv e blogs. As mortes nas valas de Ceuta e Melilla, as deportações em pleno deserto do Sahara, os naufrágios nas costas das Canárias, as negociações bilaterais para que certos países africanos aceitem as deportações de não-nacionais em troca de avultadas somas de dinheiros, a mobilização por parte da EU de patrulhas navais e aéreas para cntrolar as costas das Canárias e da África Ocidental… tudo fala-nos de uma guerra larvar que está a ser levada a efeito nas fronteiras externas da Europa contra aqueles homens e mulheres que ousam viajar para a Europa em busca de uma vida melhor.


A migração Sul-Norte, tal como a migração campo-cidade, é algo como que irreversível. Apesar disso, a União Europeia empenha-se a encará-la em termos insistentemente repressivos. Isto não acontece só nas fronteiras externas da Europa e nos países de trânsito migratório, subcontratados para a gestão do deslocamento das pessoas para a Europa, mas cada vez mais dentro das nossas cidades: os controles de identidade multiplicam-se um pouco por todo o lado, desde a saída do metro e do comboio suburbano, até às agências de viagens ou estação de correios. O objectivo não é tanto o de identificar e expulsar todos os estrangeiros extracomunitários sem licença de residência, mas principalmente manter uma grande quantidade da população num estatuto de subalternidade. Assim é que os cidadaãos migrantes extracomunitários que vivem e trabalham na UE vêem o seu estatuto legal, a sua segurança, a sua segurança, a sua liberdade de movimentos a serem submetidas à arbitrariedade típica das legislações de excepção. O medo e a incerteza impregnam as suas vidas quotidianas mas também o ambiente que respiramos dentro das nossas cidades.

Os acontecimento ocorridos no passado Sábado (24 de Junho) no Centro de Internamento para estrangeiros de Zona Franca ( em Barcelona), que se encontra em construção, são uma expressão mais da modalidade repressiva, de carácter policial-militar da actual política fronteiriça do governo Zapatero e de todos os governos da União Europeia. E são-no pelo simples desencadear dos factos: nada exemplifica melhor a arbitrariedade e denegação de direitos do regime fronteiriço europeu que os Centros de Internamento para Estrangeiros. Nestas prisões para imigrantes é retido por um prazo até 40 dias pessoas cujo único delito é existir e querer habitar, trabalhar e conviver num lugar em que não nasceram. O Centro de Internamento em construção duplica a capacidade existente, e situa-se num local isolado dos centros populacionais e de difícil acesso, tudo isso para aperfeiçoar o terror e afasta-lo das cabeças bem pensantes.

Os acontecimentos do dia 24 de Junho mostarm a orientação repressiva da política fronteiriça e constituem uma reacção policial contra quem ousam desafiar as fronteiras, e contra quem levanta a sua voz esta política, feita supostamente em nome da nossa segurança, mas que não nos representa.

A detenção de 59 pessoas que entraram no recinto do Centro em construção, juntamente com dois advogados e dois jornalistas, as acusações abusivas, o tratamento vexatório nas instalações policiais, o prolongamento da detenção durante mais de 48 horas como resposta a uma acção pacífica, não podem senão suscotar a mais viva indignação e contestação.

Por isso os baixo-assinados, em solidariedade com todos aqueles que imigram para a Europa e se encontam em condições humilhantes, numa situação de subalternidade e sofrendo na pele os ataques que lhes são desferidos, assim como em solidarieade com a centena de homens e mulheres que, vindo de toda a Europa, realizaram no Sábado passado (24 de Junho) uma acção pacífica para chamar a atenção para a construção de mais um centro de internamento, antes da sua inauguração, publicitando assim o movimento contra os Centros de Internamento Europeus , exigimos:

– a retirada de todos as acusações contra todos os detidos;

– a declaração de Barcelona como ciudade livre de Centros de Internamento para Estrangeiros;

– a regularização incondicional de todos os imigrantes na Europa; – o fim da política de fronteiras policial-militar.

http://communia.org/caravana/reply/reply.php?loc=0

Activistas pró-Tibet protestam contra o novo comboio Pequim-Lhasa





Activistas que defendem a independência do Tibet escalaram a fachada da Estação de Ferrovias do Oeste de Pequim, onde afixaram um cartaz em protesto contra o novo tcomboio para Lhasa (capital tibetana), segundo um comunicado da organização Free Tibet Campaign.

O cartaz tinha a frase "Comboio chinês para o Tibet, um projecto para destruir", em referência à linha de caminho de ferro que foi inaugurada dia 1 de Julho. Três mulheres que participaram nos protestos, uma britânica, uma americana e uma canadiana, foram detidas pouco depois.

"Os tibetanos temem que o Governo chinês use o caminho de ferro para aumentar a sua colonização, transferindo um maior número de colonos chineses e militares, e ao mesmo tempo explorando os grandes recursos naturais da região", diz o comunicado enviado à imprensa.

"Continuaremos com acções para defender a cultura tibetana, e os protestos de hoje são só uma amostra do que a China pode esperar à medida que se aproximam os Jogos Olímpicos de Pequim", afirmou o director da organização Estudantes por um Tibet Livre, Lhadon Tethong.

A China responde que a linha de caminhos de ferro será boa para a economia tibetana, especialmente para o turismo, criará novos postos de trabalho e não causará danos ambientais. A oposição tibetana anunciou protestos em todo o mundo. Grupos tibetanos em Londres, Ottawa, Nova York e Paris convocaram protestos com o lema "rejeite o comboio". Em Dharamsala (norte de Índia), lugar do exílio do Dalai Lama, os tibetanos fecharão os seus estabelecimentos e usarão braceletes negros. Em Londres, a Free Tibet Campaign pediu um "boicote turístico" à nova ferrovia.


Apresentado pela China como um exemplo da sua avançada tecnologia, o projecto foi criticado pelos ecologistas, que consideram que as reservas naturais do planalto tibetano vão ser contaminadas com a passagem do comboio.


Também o Dalai Lama, exilado no estrangeiro, acusou Pequim de ter const ruído a linha-férrea para aumentar a chegada de "colonos" chineses ao Tibete, co ntribuindo para a progressiva perda de cultura e identidade do povo tibetano



O primeiro comboio de passageiros que chegará ao planalto do Tibete partiu da remota cidade de Golmud, na província vizinha de Qinghai com destino à capital tibetana, Lhasa, no passado dia 1 de Julho.
O comboio, cuja locomotora foi construída pela empresa chino-canadiana Bombardier Sifang, começou a percorrer a via-férrea mais alta do mundo às 11:00 locais, levando 600 passageiros.
Antes decorreu uma cerimónia de inauguração com a presença do President e chinês, Hu Jintao, o vice-primeiro-ministro Zeng Peiyan e o ministro dos Camin hos-de-ferro, Liu Zhijun.
À mesma hora partiu outro comboio de Lhasa, com destino a Lanzhou (capi tal de Gansu, noroeste), com mais de 600 passageiros a bordo.
Hu Jintao, que foi secretário-geral do Partido Comunista no Tibete em f inais dos anos 80 e princípios de 90, destacou que a nova linha de caminho de fe rro é mais "um magnífico objectivo" que a China conseguiu com o "impulso de modernização socialista".
De Golmud, o comboio demorará cerca de oito horas a chegar ao limite da província de Qinghai e começo da região autónoma do Tibete, nos montes Tanggula , passando pelo local mais alto jamais alcançado por uma linha de comboio, a 5.0 72 metros.
O comboio, apresentado pelo governo como um projecto chave para tirar o Tibete do subdesenvolvimento e isolamento, foi construído em duas fases: a primeira entre 1956 e 1984, na qual participaram soldados do exército, e a segunda entre Junho de 2001 e Outubro de 2005.


Students For A Free Tibet


Free Tibet Campaign

1.7.06

A Contra-História da Filosofia, de M. Onfray



Já se encontram editados em francês os dois dos primeiros volumes da monumental obra de Michel Onfray, «Contra-História da Filosofia», que, quando completa, deverá contar com os seis volumes previstos.
(nota: a tradução para português já foi contratualizada com a editora brasileira Martins Fontes)

O sumário do 1º Volume, dedicado às Sabedorias Antigas, contém os seguintes capítulos:

1. Leucippe et "la joie authentique"

2. Démocrite et "le plaisir pris à soi-même"

3. Hipparque et "la vie la plus plaisante"

4. Anaxarque et sa "nature éprise de jouissance"

5. Antiphon et "l'art d'échapper à l'affliction"

6. Aristippe et "la volupté qui chatouille"

7. Diogène et "jouir du plaisir des philosophes"

8. Philèbe et "la vie heureuse"

9. Eudoxe et "l'objet de désir pour tous"

10. Prodicos et "la félicité"

11. Epicure et "le plaisir suprême"

12. Philodème de Gadara et la communauté hédoniste

13. Lucrèce et "la volupté divine"

14. Diogène d'Oenanda et "la joie de notre nature"


O 2º volume, intitulado «O Cristianismo hedonista», tem o seguinte sumário:

1. Simon le magicien et "la grâce"

2. Basilide et "la débauche"

3. Valentin et "les semences d'élection"

4. Carpocrate et "l'amour"

5. Épiphane et "le désir impétueux"

6. Erinthe et "la satisfaction du ventre"

7. Marc et "les femmes élégantes"

8. Nicolas et "la vie sans retenue"

9. Amaury de Bène et "la sanctification de la vie courante"

10. Willem Cornelisz d'Anvers et "le péché contre nature"

11. Bentivenga de Gubbio et "l'occupation infâme"

12. Walter de Hollande et "la liberté suprême"

13. Jean de Brno et "le nihilisme intégral"

14. Heilwige de Bratislava et "l'esprit subtil"

15. Johannes Hartmann d'Amtmansett et 'la vraie béatitude"

16. Willem van Hilderwissem de Malines et "le plaisir du paradis"

17. Éloi de Pruystinck et "la manière épicurienne"

18.Quintin Thierry et "la liberté de la chair"

19. Lorenzo Valla et "la volupté"

20. Marsile Ficin et "les voluptés contemplatives"

21. Érasme et "le plaisir honnête"

22. Montaigne et "l'usage des plaisirs"


Na apresentação à obra, o editor escreve o seguinte:

Nesta «Contra-Historia da Filosofia», Michel Onfray propõe-se examinar em seis volumes 25 séculos da filosofia esquecida. Os manuais, as histórias, as enciclopédias, os trabalhos universitários evitam cautelosamente esse imenso continente da filosofia. É por isso que só conhecemos as figuras mais austeras e as menos interessantes da filosofia. Porque será?
Porque a história da filosofia é escrita pelos vencedores de um combate que, em geral, opõe os idealistas e os materialistas. Basta lembrar que com o cristianismo aqueles tomam o poder que vão manter ao longo dos últimos vinte cinco anos. Desde então, favorecem todos os pensadores que trabalham segundo as suas tendências e apagam conscientemente todos os traços de uma filosofia alternativa. Daí a ocultação dos materialistas, dos cínicos, dos epicuristas, dos gnósticos licenciosos, dos irmãos e das irmãs do Livre Espírito, dos libertinos barrocos, dos ultras iluministas, dos utilitaristas anglo-saxões, dos socialistas dionisíacos, dos nietzcheanos de esquerda e de outros tantos continentes povoados por personagens furiosas. Esta Contra-História conta a sua aventura.
E qual é o ponto comum de todos estes indivíduos? Nada mais que o gosto por uma sabedoria prática., de um vocabulário claro, de uma exposição límpida, de uma teoria que visa produzir uma vida filosófica. À maneira dos sábios antigos, todos eles voltam as costas à linguagem hermética e obscura; á filosofia só para os filósofos, às discussões de especialistas, aos assuntos próprios de profissionais, e fazem-no porque pretendem fazer da filosofia uma arte de viver – de viver bem, isto é, de viver melhor.
Os seis volumes previstos abrangem os sete anos de trabalho desenvolvido por Michel Onfray à frente do seminário de filosofia hedonista realizado na Universidade Popular de Caen ( no Norte da França). Todos estes textos servem de base de apoio às suas exposições improvisadas nas sessões realizadas por ele em cada 3ª feira à noite e que frequentadas em geral por umas quinhentas pessoas.

Reproduzimos as primeiras linhas do 2º tomo dedicado ao cristianismo hedonista:

A invenção de Jesus, a construção violenta e autoritária do cristianismo que se veio a tornar na religião de todo o Império graças ao golpe de Estado realizado por Constantino, o vandalismo voluntário da soldadesca às suas ordens, a destruição dos homens, o incêndio das bibliotecas, a perseguição dos filósofos, o encerramento das suas escolas, a inscrição no corpo jurídico – Códigos de Teodósio e de Justiniano – do estatuto de extraterritorialidade cidadã dos pagãos, o alastramento cultural e planetário da nevrose de S. Paulo, o triunfo do paulinismo – ódio às mulheres, ao corpo, à carne, aos desejos, aos prazeres, às paixões, à ciência, à inteligência, à filosofia – a conversão dos antigos perseguidos em perseguidores, tudo isso produziu uma sanha na História que excluiu dos séculos seguintes, incluindo o actual, de uma considerável acervo de informações sobre esse período histórico.
O mundo antigo afunda-se. Desaparece, morre, e com ele, a filosofia pagã, de que uma grande parte não consegue atravessar os séculos seguintes por razões que não procedem todas da vontade deliberada dos homens de não deixar rasto do património dos antigos gregos e romanos. Com certeza que os homens queimaram bibliotecas, incendiaram-nas, pilharam-nas, assassinaram os seus semelhantes, muitos deles gente das letras, mas o tempo também apaga os traços de uma civilização que se tornou um imenso campo de ruínas.

Compreende-se bem demais que o desaparecimento dos livros dos filósofos materialistas abderitanos – os seiscentos títulos de Demócrito … -, que as obras dos cínicos e dos epicuristas, que os abundantes volumes – trezentos, segundo consta – de Epicuro ou dos seus discípulos tenham sido uma das prioridades. Os copistas cristãos tinham outras prioridades mais importantes do que salvar livros subversivos. O platonismo e o estoicismo, reivindicados por vezes pelos Padres da Igreja como sabedorias propedêuticas ao cristianismo, dispunham de claras vantagens sobre as ideias que se mostravam inimigas ao ideal ascético católico.

Mais a mais o livro antigo é uma espécie de acessório numa época em que primam a oralidade e a transmissão oral. A palavra evanescente que não seja consignada pelos escribas ou pelos copistas acaba por desaparecer para sempre. Foi o que aconteceu com o ensino oral de Platão, provavelmente muito diferente do ensino dos seus textos que ainda persistem. A oralidade foi, pois, um obstáculo de monta. A que se deve juntar os obstáculos ligados aos seus suportes materiais como o papiro de origem egípcia, incapaz de aguentar a hidrometria, os climas e as estações de Roma. Tornaram-se em poeira, e com eles, aquilo que, por via deles, era transmitido. Até porque o número de exemplares de uma edição inicial não ultrapassava a trintena…

Recensão crítica de Robert Maggiori, publicada no Liberation (de 9/3/2006):

É preciso dizê-lo claramente: não se conhece lá muito bem Heilwige de Bratislava, Bentivenga de Gubbio, Eloy de Pruystinck, Willem van Hildervissem de Malines. Ignoramos também completamente quem seja Cérinthe. E nem sequer sabíamos que Carpocrate era o pai de Epífanes. Mas, desde que queiramos, a ignorância tem sempre remédio. Nada impede a qualquer um de visitar as bibliotecas, e tornar-se num especialista de Filodemo de Gadara, e interessar-se por Jean de Brno. Da mesma maneira que um explorador de ouro tem de remexer toneladas de pedras e calhaus antes de encontrar uma minúscula pepita, também se deve começar por folhear toda a biblioteca antes de encontrar qualquer fragmento de, ou sobre, algum daqueles pensadores…
Falámos disto porque uma Contra-História da Filosofia, mais concretamente os dois primeiros volumes ( vol 1, As Sabedorias Antigas; vol. 2, O Cristianismo Hedonista) de um conjunto previsto de seis, acabou de ser editada.
Não será difícil de prever que, tal como o seu anterior Tratado de Ateologia, esta obra trará ao seu autor, Michel Onfray, o mesmo ódio daqueles que já anteriormente se tinham manifestado contra os autores que ele defende. O que é perfeitamente legítimo, senão mesmo necessário. Não há dúvidas que «a historiografia releva da arte de guerra» e que o modo por que se faz a história resulta das relações de força, das estratégias, das fraquezas, dos calculismos, dos confrontos reais ou simbólicos ou, como disse Marx, que as ideias dominantes de uma época sejam aquelas pelas quais a classe dominante justifica a sua dominação. Por outras palavras, a história sempre foi escrita pelos vencedores. Donde a absoluta necessidade de uma «contra-história» que venha a recuperar os restos dos discursos dos vencidos, dos excluídos, dos dominados, dos minoritários, dos esquecidos. Foi s esta exigência, política e moral, que esteve, aliás, na origem da renovação da historiografia contemporânea, ao integrar a história das mulheres, a história da homossexualidade, a história da loucura, a história dos internamentos, a história dos colonizados, dos operários, dos camponeses…E é perfeitamente legítimo que Michel Onfray queira olhar os «estilhaços» acumulados sob o peso das estátuas monumentais de Platão, Descartes e Kant, assim como faça por difundir as vozes dos cristãos heréticos, silenciadas pelas de Santo Agostinho, S.Tomás de Aquino, e que ao lado da corrente dominante de Pitágoras, Parménides, Platão, Marco Aurélio ou Séneca, ele queira ver o trajecto de Leucipo, Demócrito, Diógenes, Epicuro ou Lucrécio, ou que proteste contra a relativa desvalorização de Erasmos e de Montaigne, ou ainda tente responder à interrogação «que pode o corpo?», quando aborda Spinoza, Nietzche ou Deleuze, diferentemente dos que maldosamente os desconhecem. Ou seja, que a uma filosofia idealista, espiritualista, ascética, ele prefira uma filosofia «materialista, sensualista, existencial, utilitarista, pragmática, ateia, corporal, incarnada…». Mas algumas questões permanecem…
Michel Onfrauytraça uma galeria de retratos intelectuais, legíveis por todos, na qual são referidos, para além de Demócrito, Diógenes o cínico, Lucrécio, os filósofos que têm sido frequentemente marginalizados… A galeria apresentada no segundo volume, acerca do Cristianismo hedonista, é ainda mais espantosa…

Mais info:
http://perso.orange.fr/michel.onfray/accueilonfray.htm

Colectivo das Mulheres por um Portugal sem futebol lança protesto contra o Mundial da Alemanha

Protesto contra o Mundial de Futebol da Alemanha


Os homens encontram-se profundamente perturbados, doentes mesmo.
Os homens ignoram-nos
Os homens estão mentalmente ausentes
Os homens pensam e falam mais em Ronaldo que nas mulheres
Os homens estão obcecados com a bola
Os homens dão ares que sabem tudo de futebol


As nossas noites são substituídas por uma gritaria sem sentido acerca de 22 homens e uma bola que não têm outro objectivo que andar de um lado para outro à força de pontapés e cabeçadas. E perguntámos nós: será isto que nos distingue dos restantes animais?

O colectivo «Mulheres por um Portugal sem futebol» pretende contribuir para acabar com este estado de coisas, que mostra cada vez mais a sua insensatez.
Esta declaração é apenas um primeiro passo da nossa campanha contra o futebol.


Há que acabar com esta paranóia, já!
Já basta o que sofremos com os campeonatos nacionais.
Chegou-se, agora, a um extremo que é completamente intolerável.
É a hora de sairmos em protesto e que nos escutem.

Este colectivo representa apenas as mulheres que ousam e têm coragem de protestar.
O colectivo visa reunir todas as mulheres que aspiram a mais respeito por parte do seu parceiro.
O colectivo luta pelos direitos das mulheres que sofrem por causa desta paranóia colectiva do futebol que atingiu e contamina a população masculina, mas que, infelizmente, já começa a alastrar-se a outras mulheres, que se mostram indefesas face à agressividade e violência do vírus pestífero.

A luta é longa e difícil, sabemos bem. Mas não desistiremos.
Não estamos sós, e temos a razão pelo nosso lado.

Nunca estaremos fora do jogo.

Apenas reivindicamos que os homens se esqueçam das bolas, e passem a jogar connosco.

De uma vez por todas: Não à paranóia do futebol-espectáculo


As nossas regras de jogo são:

1 – Nunca mais mundiais de futebol

2 – Nunca estaremos fora de jogo

3 – Por cada hora de futebol na Tv reivindicamos dois dias de curtição

4 – O colectivo está disposto a fazer tudo o que for necessário, desde manifestações, recolha de assinaturas e acções directas

5 – Cada golo será recompensado por uma semana de sonho

6 – Não permitiremos a entrada em casa dos escabrosos jornais desportivos atulhados de intrigas de bastidores e banalidades ocas que só estupificam os nossos homens

7 – A cada jogo no café reivindicamos o direito a um sóbrio e delicioso pequeno-almoço na cama

8 - Todos os aparelhos de televisão deveriam vir com a advertência que a televisão prejudica gravemente a saúde mental do tele-espectador e perturba irremediavelmente a vida do casal

9 - Depois de cada jogo de futebol todos os seus assistentes deveriam fazer uma corridinha para desenferrujar as pernas

10 – Os comandos à distância deveriam ser sempre partilhados e objecto de debate prévio, e deixarem de estar à mercê da publicidade e da propaganda mais intrusiva, enfim, da ditadura da programação por parte dos canais de televisão que tudo fazem para se instalarem dentro das nossas casas e... das nossas cabeças!!!


Colectivo das Mulheres por um Portugal sem futebol:
Ana, Cristina, Ema, Graça, Luísa, Maria, Paula, Sara, Sílvia, Tânia

29.6.06

Eles inventam máquinas para vivermos sentados !




Retirado de:

A nossa sociedade está constantemente a inventar máquinas, aparelhos e artifícios que nos fazem estar sentados, a desfrutar cheios de stress, a rir como drogados e a viver como mortos.

Andar é deslocar-se ao longo de um espaço utilizando o movimento das pernas, primeiro uma e logo depois a outra, fazendo com que o músculo unido aos ossos por tendões e tecido, converta a energia químia em tensão e contracção, fazendo assim mover os ossos. A coordenação destes movimentos, fruto de aprendizagem desde a primeira infância, permite mover o corpo para outro local.

Hoje em dia, cada vez que temos de fazer coisas em lugares afastados, preferimos cada vez mais a deslocação do nosso corpo por via de outros meios que não o do próprio, meios esses, que as mais das vezes, são autopropulsionados por combustíveis fósseis, e que permitem poupar tempo e esforço. Graças a isso podemos dedicarmo-nos a outras actividades, como trabalhar horas extraprdinárias ou ver TV (4 horas em média por dia). Evitamos também com isso encontros de rua com vizinhos ou caras conhecidas, ou ouvir anedotas e histórias sobre o quotidiano, que certamente nos roubariam tempo e constituiriam perdas irreparáveis e nos impediam de ver a nossa telenovela preferida ou a partida de futebol entre os clubes da actualidade.

Ora acontece que gerir as nossas deslocações constitui uma das mais importantes e valiosas possibilidades. E andar e caminhar é uma recomendação que se revela vital uma vez que pelo seu efeito o corpo activa a circulação, reduz o stress e queima 300 calorias ( a andar a pé durante uma hora). Daí que o ginásio se tenha transformado quase que num ritual de executivos: almoçam rápido e vão de carro até ao ginásio do shopping center, sobem as escadas rolantes, enfiam-se no recinto e passam horas a andar – imóveis - sobre uma máquina rolante… !!!

Sob a bandeira do socialismo (texto de Eduardo Subirats)


Texto de Eduardo Subirats, professor de Filosofia, Estética e Literatura; actualmente ensina na Universidade de Nueva York

(Texto publicado em EL PAÍS, 27/06/06)

A sentença de morte da academia pós-modernista norte-americana contra a teoria crítica de Marx foi uma fraude. Tornou-se mesmo o novo credo «cuia absurdum» das ciências humanas corporativamente departamentalizadas. Face às guerras coloniais que inauguraram o século XXI, os genocídios económicos administrados pelos bancos mundiais e as organizações do comércio global, e aos infinitos fenómenos de violência local e global, esta «superação de Marx» adquire hoje um significado patético.

O poder militar e financeiro do mundo concentra-se nas mãos de um pequeno número de empresas. Os sistemas jurídicos democráticos permitem doses mínimas de soberania social, quando não ocultam autênticos sistemas tirânicos em que reina a corrupção. O terror do Estado, que Hobbes definiu programaticamente por via da metáfora totalitária do Leviatã, impõe-se nos quatro cantos do mundo com a mesma naturalidade como se tratasse de uma vontade divina. Nos centros privilegiados do poder mundial, em Londres, Moscovo, Nova Iorque, este terror encena-se como um sistema de segurança nacional, e uma guerra contra um terrorismo que abrange dentro da mesma caixa conceptual as altas tecnologias de destruição nuclear e biológica do planeta, e, no seu outro extremo, o controlo digital de todos os seres humanos. Nas cordilheiras e nas selvas da Colômbia, Equador e Peru, nos povos curdos e Tchechenos, a nas altas montanhas do Tibete, ou nas civilizações sunitas e chiítas do Próximo Oriente tudo jaz em ruínas.

As estratégias do espectáculo encobrem por detrás das suas infinitas montras e da sua propaganda permanente os processos de liquidação de recursos naturais vitais como a água, a terra e o ar, e as subsequentes deslocalizações, e genocídios, de milhões de indivíduos. Em vez de um sistema de produção agrícola adaptado aos ciclos reprodutivos da natureza, e das culturas que durante séculos com ela conviveram, tal como sonhava o socialista do século XVIII Charles Fourier, temos que afrontar com as consequências cada vez mais violentas dos desequilíbrios biológicos e atmosféricos gerados pelo desenvolvimento industrial, ecológico e socialmente irresponsável. A racionalização mecânica do trabalho industrial, que Marx e Engels tanto criticaram como processos de alienação humana, nos campos de trabalho e extermínio do século passado, e nas actuais fábricas do Terceiro Mundo, adquire hoje em dia dimensões delirantes.

O Manifesto Comunista antecipava a culminação de uma idade da barbárie, com fome em todo o planeta e a extensão de guerras devastadoras em consequência de uma «demasiada civilização, com demasiados meios de subsistência, indústria em demasia e demasiado comércio». E anunciava justamente a delirante dissolução «no ar de tudo o que era sólido», desde os desejos mais íntimos até aos meios de sobrevivência. E falava ainda dos «contínuos distúrbios sociais», das reiteradas «revoluções dos meios de produção», da «permanente incerteza» e de uma imparável «agitação».

A ambiguidade d teoria crítica de Marx não reside na sua visão da barbárie civilizada do capitalismo global, cujas expressões de podridão e devastação podemos hoje observar por todo o lado. A sua debilidade consistia antes em ter elevado à posição messiânica do proletariado a categoria do povo, eleito como um deus de uma história concebida segundo uma progressão linear. A sua fé residia na salvação graças a um espírito histórico providencial. Sobre os ombros deste proletariado repousava a redenção de uma humanidade nova e universal, nem mais nem menos como Paulo a tinha projectado. Ao mesmo tempo que dotou o proletariado desta magnitude cristológica e transcendente, Marx construiu-o empiricamente a partir da racionalidade produtiva e da disciplina industrial. Por isso, por ser simultaneamente a representação de uma salvação transcendente e o representante dos valores racionais da indústria pesada, o proletariado levantou, nos comunismos soviético e chinês, um sistema totalitário de opressão e de violentos processos de acumulação capitalista.

Contra esta lógica congelada de progresso, Gramsci redefiniu a revolução dos sovietes como o triunfo da vontade contra Das Kapital. Por seu turno, e face ao historicismo marxista, Mahatma Gandhi reivindicou um socialismo enraizado nas sabedorias e tradições culturais milenárias. E José Carlos Mariátegui fundou o socialismo peruano sobre a compreensão cósmica da unidade d pessoa e a comunidade, que ainda vive nas culturas quechua e aimara. Paul Tillich concebeu o socialismo sobre as bases de uma ética cristã que se aproximava das suas raízes judaicas, e das noções biblícas de comunidade, lei e salvação. Martin Buber entendeu o socialismo como a restauração dos vínculos do humano com a criação e a comunidade. Num sentido similar, a crítica de Karl Polanyi ao fascismo, concebendo-o como uma consequência política necessária da economia de mercado, e como correspondente do liberalismo económico, com a consequente proposta daquele autor de uma ampliação e radicalização dos direitos humanos, arrancava de premissas metafísicas e éticas de um humanismo cristão.

É absurdo dizer que foram superados os ideais sociais como os que estavam representados nos falanstérios de Fourier. Na realidade, tratam-se de modelos racionais de sobrevivência, face à destruição biológica do planeta pelas empresas transnacionais, que são hoje mais do que nunca actuais. O anarquismo de Piotr A. Kropotkin encerra em si os valores comunitários mais radicalmente democráticos que a sociedade moderna pode conceber. A crítica do militarismo de Lenine é hoje mais actual, face às guerras coloniais do Iraque ou da Colômbia, do que o foi alguma vez face ao militarismo industrial do século passado.

Tudo isto não quer dizer que não haja que redefinir as categorias do socialismo numa época em que sob a sua bandeira coabitam políticas socialmente vazias. É necessário renovar a sua crítica à civilização pós-moderna. E recuperar uma tradição intelectual esquecida, que ao longo do século passado, fez frente à guerra nuclear e biológica, e às tendências totalitárias inerentes à economia empresarial e da cultura do espectáculo.

Carta aberta a Régis Debray sobre o trágico, o utópico e a esquerda do séc. XXI




Régis Debray, escritor, filósofo e ex-guerrilheiro, companheiro de Che Guevara, lançou recentemente na Gallimard um livro com o sugestivo título «Súplica aos novos progressistas do séc. XXI»

O sociólogo Philippe Corcuff acaba de fazer publicar no jornal Le Monde uma carta aberta dirigida justamente a Debray a propósito daquele texto. É esta carta aberta que abaixo reproduzimos em tradução para português.

Caro Régis,

A tua Súplica aos novos progressistas do século XXI (edição da Gallimard) orienta-nos oportunamente para uma reflexão sobre a armadura intelectual da política num momento em que não faltam na cena mediático-política golpes baixos e manobras eleitoralistas.

Com as tragédias do século XX, e com a corrida neoliberal em vento em popa, com todos os riscos ecológicos, é tempos de re-avaliar a nossa concepção do Progresso. Tens razão quando escreves:«O século crê na História porque acreditou em Deus, e para continuar a crer, mas de uma outra maneira, depois que perdeu a fé. O que se designa de Providência na igreja, chama-se de Progresso na cidade.»

Todavia, para um agnóstico de história, não há senão lugar a progressos, no plural. Neste sentido, toda a tradição não seria, à priori, de carácter negativo, nem toda a novidade se mostraria, por si mesma, positiva.

Não se trata de acabar com as Luzes, mas antes de «renovar a ferramenta intelectual». E que não se confunda isto com qualquer relativismo pós-moderno, onde tudo vale, porque nada vale. Esboçar-se-ia assim umas Luzes mitigadas, menos arrogantes, para uma esquerda que não abandona a tripla aposta do conhecimento, da modificação de si e da transformação do mundo. Donde o teu apelo à emergência de uma «esquerda trágica», «tingida de pessimismo», bem distinta quer daquela «esquerda divina», submergida no optimismo, quer da «esquerda gestora», enredada no presente, sem memória histórica nem projecção para o futuro.

A esquerda tem certamente necessidade de se alimentar do trágico. Basta recordarmo-nos das fragilidades da acção humana face às circunstâncias que se mostram independentes da sua vontade e que, permanentemente, lhe escapam. Basta lembrarmo-nos da componente de incerteza das nossas histórias, dos nossos riscos e dos nossos desafios. Basta lançarmos um olhar sobre a condição humana, com as suas potencialidades criadores mas também destrutivas, imersa numa história com clarões emancipadores quanto inércias opressivas. Abandonemos as ilusões antropológicas do «homem bom por natureza que é pervertido pelo capitalismo». Façamos a economia da hipótese, irrealista e por vezes mortífera, do nascimento rápido de um «homem novo» que resolveria como um milagre todas as contradições das políticas de mudança. Sim, mas…

As tuas análises surgem-nos unilateralmente negras. Como se a pretensão a uma lucidez última alimentasse na tua boca a nostalgia do definitivo e do absoluto, que estariam ligados mais ao trabalho do negativo do que ao «futuro radioso». O teu auto-retrato de «navegador solitário», a remar contra-a-corrente, leva-nos directos ao rídiculo a uma pretensão de um lucidez omnisciente. Desde o teu livro «Critica da Razão Política»(1981), na qual pretendeste conhecer, graças aos teus conceitos, o enigma de toda a sociedade humana ( o seu fundamento supostamente religioso), tomaste a direcção dos filósofos-reis. Ao fazê-lo não estás a confundir rápido demais o carácter heurístico de uma analogia ( entre o religioso e o político) com uma verdade eterna? Sem dúvida que és mais convincente nas narrativas autobiográficas, quando colocas em cena as nossas deficiências face aos desregulamentos da vida política e amorosa: Les rendez-vous manqués (1975), Les masques (1988), Loués soient nos seigneurs (1996)...

E se fosse necessário recusar definitivamente a lucidez definitiva e as poses inspiradas dos que crêem ver o essencial? Interrogar, através de perspectivas sempre parciais, as sinuosidades das contingências históricas como as nossas próprias limitações individuais. Apoiando-nos em referências de tradições do passado, que funcionariam como bússolas revisíveis pelo caminho, e que valem mais que o cocktail relativista das insignificâncias pós-modernas e menos que os absolutos de antanho. Transcendências relativas, de qualquer forma.

A tua esquerda trágica» parece ter esquecido a tensão dialéctica entre o trágico e o utópico. Não serão as características parecidas da história humana, a sua abertura, os seus movimentos, a sua parte de imprevisibilidade, que dão conta da sua dupla face? Maurice Merleau-Ponty teve a intuição: « O mundo humano é um sistema aberto ou inacabado e a mesma contingência fundamental que o ameaça de discórdia o subtrai à fatalidade da desordem e impede o desespero» (Humanisme et terreur, 1947). As flores da utopia continuam a eclodir um pouco por todo o lado nos mundos confusos dos altermundismos ou, bem perto de nós, nas revoltas dos «banlieues» ou nos movimentos anti-CPE, com as suas contradições, e os seus maniqueísmos. Na tensão, pois, com o trágico. «Homem da chuva e criança do bom tempo, as vossas mãos de erros e progressos me são igualmente necessários», dizia René Char (Seuls demeurent, 1938-1944), poeta em armas no meio da resistência «maquis».

A dupla possibilidade de novos avanços emancipadores e novas regressões bárbaras jogam-se hoje em França por um fio. Num contexto menos dramático, estaremos nós, um pouco como Walter Benjamin em 1940, «ao alcance do perigo», tentando discernir no «aqui-presente» uma frágil esperança libertadora? De uma lado: a etnicização das relações sociais, protagonizada pela FN e pelo marketing anti-muçulmano de Villiers, estimulado pelas demagogias securitárias. No meio: a gestão social-liberal da precarização generalizada da UMP-PS, sobre o fundo do esgotamento das instituições da nossa democracia representativa. Do outro lado: a estrela de uma nova questão social, respeitadora das individualidades, vacilante na vitalidade dos movimentos sociais anti-liberais e com falta de tradução política. Quando os fogos cruzados da utopia anti-capitalista desafiam as mecânicas ameaçadoras do mais provável.

Que tal, Régis, uma esquerda utópica e trágica para o século XXI? O desafio é imenso, as urgências iminentes, tudo à altura das nossas fraquezas.

Philip Corcuff

(texto publicado no Le Monde, 23 de Junho de 2006)

28.6.06

10 excelentes razões para não ires à tropa ou incorporares-te num exército


10 excelentes razões para não ires à tropa ou incorporares-te num exército


1 – Podes ser morto

2 – Podes ser levado a matar outros seres humanos

3 – Podes ser ferido

4 – Podes não receber os devidos cuidados de saúde

5 – Poderás vir a sofrer de problemas de saúde para toda a vida

6 – Podes ser vítima de mentiras e falsa propaganda

7 – Podes ser objecto de discriminação

8 – Podes receber ordens para fazer aquilo que vai contra os teus princípios e valores

9 – Pode depois tornar-se difícil deixar as forças armadas

10 – Tens muitas outras escolhas para te realizares como pessoa, para além da incorporação nas fileiras do Exército ( da Força Aérea, e da Marinha)



Para consultar o livro:
http://www.endthewartour.org


I just read an excellent book called "10 Excellent Reasons Not to Join the Military." Personally I was never attracted to the military because I could never stand having anyone tell me what to do ? well, and because I had parents who helped me find other options in life.

The military glorifies the giving and obeying of orders as somehow something good for its own sake, something called "discipline" or "character." I can't judge whether I have either of those things, but I do know the last place I would ever have thought to turn for a career was an institution in which I would have had to do what a bunch of mean bastards said to do simply because they said to do it. That wouldn?t have worked. I'd have ended up a conscientious objector even in peace time.

But, of course, order-taking is common in many young people's households and potential workplaces. My whole life, whenever I've had a boss who's annoyed me I've quit my job. I've had the good fortune to always find another and to have strong support from family. Not everyone has that luxury. Clearly taking orders from a military officer could sound more liberating than taking orders from a Wal-Mart manager, particularly to someone who currently works at Wal-Mart.

But even such a person, facing a highly unpleasant and unrewarding work life, and facing a taxpayer-funded multibillion-dollar advertising campaign for military recruitment, would not for an instant consider joining the military if they had read "10 Excellent Reasons Not to Join the Military."

The 10 reasons are:

1. You May Be Killed


This chapter was written by Cindy Sheehan. It alone should dissuade any potential recruit who does not hate his or her mother.

2. You May Kill Others


This chapter is timely, given the U.S. media's recent and long-in-coming awakening to the killing of civilians in Iraq by U.S. soldiers. Here Paul Rockwell recounts the stories of Iraq War veterans, including Jimmy Massey, Darrell Anderson, and Aidan Delgado. Massey says he was involved in a number of routine checkpoint killings. Anderson said, "At traffic stops, we kill innocent people all the time. If you are fired on from the street, you are supposed to fire on everybody that is there. If I am in a market, I shoot people who are buying groceries."

Delgado described killings at Abu Ghraib: "They opened fire on the prisoners with the machine guns. They shot twelve and killed three. I talked to one guy who did the killing. He showed me grisly photographs and bragged about the results. 'Look, I shot this guy in the face,' he said. 'See, his head is split open.' He talked like the Terminator. I was stunned and said, 'You shot an unarmed man behind a barbed wire for throwing a stone.' He said to me, 'Well, I said a prayer, and I gunned him down.' There was a complete disconnect between what he had done and his morality. He was the nicest guy, a family man, a courteous, devout Christian." (Was there a disconnect? He prayed his Christian prayer as he murdered a non-Christian. The connection seems unavoidable.)


3. You May Be Injured


If you sign up, you may not die, but you are quite likely to be injured, physically and psychologically. You may come back without arms, without legs, without eyes, without sanity. And if you're injured in a support role, not in combat, you won't even count as a statistic.

The stories in this chapter are painful. Robert Acosta, who lost his hand, among other injuries suffered in Iraq, described the attack on Iraq as a time of fear for himself and his fellow soldiers. The largest army the world has ever seen was aggressively attacking a ruined nation, using massive high-tech machinery, but the soldiers inside the trucks were focused on their fear of children:"I got to call home almost every other day, which would change once we moved north. We stayed in a place called Camp Udairi, not too far from the Kuwait-Iraq border. The whole 1st Armored Division was there, and little by little troops were moving north. We heard stories of soldiers still getting ambushed and little kids stabbing them through the thin plastic on the Humvee doors."


4. You May Not Receive Proper Medical Care


In fact, judging by the accounts here and elsewhere, you are likely to be tossed aside as human waste and allowed to suffer all kinds of unnecessary misery.


5. You May Suffer Long-Term Health Problem
s

Here are stories from Nevada, Vietnam, and the Gulf War. "You" in this case includes your children, even those not yet so much as a gleam in your eye ? should you be capable of producing a gleam in your eye.


6. You May Be Lied To


In this chapter Elizabeth Weill-Greenberg describes her experience posing as a potential recruit. The recruiters blatantly lie to her and cruelly pressure her to join, risk her life, and help fill their quota.


7. You May Face Discrimination


Aimee Allison describes a military culture that is openly and brutally racist, misogynistic, and homophobic. "These revelations are not surprising," she writes, "to former Marine Corps Lance Corporal Stephen Funk. During his training in 2002, Stephen told me that his drill instructor gave a rousing speech at the end of Marine combat training: 'This is the reality of war. We Marines like war. We like killing. We like raping females. This is what we do.'"


8. You May Be Ordered to Do Things Against Your Beliefs


Here we get into the matter of orders. Even if you don't mind following orders that you think might actually have been given for some good reason, what will you do if ordered to murder children? Read these stories of what others did in that sort of situation.


9. You May Find it Difficult to Leave the Military


You can check in any time you like, but you can never leave.

10. You Have Other Choices.


There are many other ways to get money for college, to take overseas adventures, to do good for the world, and to develop skills and abilities. In fact, a list of resources is listed at the end of this book.


Um novo número da «Análise Social» dedicado ao tema «Futebol e Globalização»





Publicada desde 1963, a Análise Social é a mais antiga revista portuguesa de ciências sociais, cobrindo os mais diversos aspectos da realidade social portuguesa desde a história e a antropologia até à sociologia e a ciência política

A Análise Social tem atravessado várias fases ao longo da sua existência e de uma maneira geral representa as correntes académicas mais tradicionais. De qualquer forma o seu interesse é irrecusável.

Número 179, Volume XLI, 2º trimestre de 2006 ( último número)

Sumário:


STEPHEN WAGG «Anjos de todos nós?» Os treinadores de futebol, a globalização e as políticas de celebridade

MIGUEL MONIZ Identidade transnacional adaptativa e a venda do soccer: o New England Revolution e as populações imigrantes lusófonas

NUNO DOMINGOS Futebol e colonialismo, dominação e apropriação: sobre o caso moçambicano

PAUL DARBY Migração para Portugal de jogadores de futebol africanos: recurso colonial e neocolonial

TIAGO MARANHÃO «Apolíneos e dionisíacos» — o papel do futebol no pensamento de Gilberto Freyre a respeito do «povo brasileiro»

MARCOS ALVITO «A parte que te cabe neste latifúndio»: o futebol brasileiro e a globalização

JIM RIORDAN «Entrar no jogo»: pela Rússia, pelo dinheiro e pelo poder

W. MANZENREITER, J. HORNE Levando o jogo pós-fordista ao Extremo Oriente: a futebolização da China, do Japão e da Coreia do Sul

JOÃO NUNO COELHO, NINA CLARA TIESLER O paradoxo do jogo português: a omnipresença do futebol e ausência de espectadores dos estádios

ADAM BROWN «Not for sale»? A destruição e a reforma das comunidades futebolísticas na aquisição do Manchester United pelos Glazer

DETLEV CLAUSSEN Sobre a estupidez no futebol

MASSA CRÍTICA, no próximo 30 de Junho de 2006 ( Lisboa e Porto)

18H00 – LISBOA, Marquês de Pombal
18H30 – PORTO, Praça dos Leões
A Massa Crítica está inserida no contexto de um movimento internacional de nome “Critical Mass”, iniciado em São Francisco há já 10 anos. A ideia consiste em realizar um passeio lúdico e reivindicativo de bicicleta, patins, skate pelas ruas da cidade.
Neste passeio os participantes divulgam de maneira criativa o uso de veículos não poluentes e protestam contra o uso abusivo de transportes poluentes.
Objectivos:
1. Divulgar e promover o uso da bicicleta e outros veículos não poluentes como meio de transporte;
2. Criar condições favoráveis ao uso da bicicleta e outros veículos não poluentes como meio de transporte;
3. Tornar mais ecológicos os sistemas de mobilidade e transporte.
Resumo dos Princípios: Não há hierarquia de cargos. As decisões são tomadas por consenso. A Massa Crítica é um movimento apartidário e não comercial. A participação é aberta a qualquer pessoa ou entidade que esteja de acordo com os objectivos do movimento. Para participar na Massa Crítica basta comparecer no local combinado, no dia e hora marcados com a sua bicicleta, skate ou patins. Não é preciso fazer qualquer tipo de inscrição ou pagar qualquer taxa. Os roteiros são decididos na hora e podem ser realizados por todos, inclusive principiantes. Pode trazer seus próprios panfletos, cartazes ou faixas ou usar os já existentes. Se é automobilista e não pode participar da Bicicletada pedalando, o seu apoio também é bem-vindo, seja divulgando a causa, seja respeitando o ciclista no seu dia a dia.
Para mais informações visite http://massacriticapt.net

Ecopista em Torre de Moncorvo



Já se encontra pronto o primeiro troço da ecopista do Sabor que irá ligar o Pocinho até ao Carvalhal numa extensão de cerca de 30 Km aproveitando o antigo traçado da linha férrea que foi desactivada há mais de 20 anos.
Por agora, e prontos para serem usados, construídos apenas os primeiros 5 km que ligam o centro da vila transmontana à zona industrial..
A ecopista serve para a marcha a pé como para ciclovia, e é a primeira a ser realizada em Trás-Os-Montes.

24.6.06

Para onde irão os milhões de refugiados e imigrantes climáticos?

Com a gradual subida das águas milhões de pessoas terão de sair do seu local de residência e até fugir do seu país. Quem é que os poderá acolher?

Segundo certos ecologistas os países responsáveis pela poluição ( os países ricos do hemisfério do Norte) deverão acolher os exilados na proporção do seu nível de poluição
Acolher os imigrantes proporcionalmente à poluição emitida por cada país é uma ideia simples e muito bonita.



Um norte-americano emite em média 5 vezes mais dióxido de carbono que um mexicano e 20 vezes mais que um indiano. Conclusão lógica: a última coisa que o nosso meio ambiente, já demasiadamente mal tratado, precisa é de um aumento da população norte-americana. Este é o argumento de um dos grupos mais activistas existentes dentro da Sierra Club, a mais importante associação norte-americana de defesa do meio ambiente. No início do mês de Maio esta associação propôs aos respectivos membros (750.000 sócios) a defesa do princípio de uma redução da imigração para os Estados Unidos que atingisse cerca de 700.000 pessoas por ano. A proposta foi rejeitada mas os seus defensores continuam firmemente determinados. « A demografia americana pelo seu peso e a sua taxa de cresimento está a colocar a uma rude prova o meio ambiente mundial »

Uma atitude que ilude o verdadeiro problema

Opiniões similares ouvem-se noutras latitudes. Seguno o ecologista Tim Flannery, director da South Australian Museum, em Adelaide, a Austrália não pode responder sustentavelmente às necessidades de mais de 7 ou 8 milhões de habitantes – menos de metade dos 19 milhões que conta actualmente o país. Isto levantará um verdadeiro dilema moral quando se tiver de acolher os imigrantes que serão forçados a mudar de país por causas climáticas como será o caso dos habitantes das ilhas do Pacífico que se arriscam a serem submergidas pela subida do nível das águas do Pacífico.
«Se acolhermos estes refugiados eles multiplicarão imediatamente por cem a sua produção de gás com efeito de estufa ao colocar-se ao nível de vida dos australianos. O que agravar+a ainda a situação.», afirma Tim Flannery. Segundo este, a solução consiste para os países ricos a reduzir de forma draconiana as suas emissões poluentes.
Outros afirmam, pelo contrário, que o frenesim de consumo dos países desenvolvidos deverá levá-los a abrirem-se ao acolhimento dos imigrantes. Nos próximos séculos milhões de habitantes das zomas litorias e de pequenas ilhas serão forçados a tornarem-se «refugiados ambientais» por causa da subida do nível das águas do oceano ou das condições climáticas extremas. Numa carta recentemente enviada à revista Nature, Sujatha Byravan do Council for Responsible Genetics (conselho para uma genética responsável) de Cambridge, nos Estados Unidos, e Chella Rajan, do Tellus Institute, um grupo de reflexão de Bóston, defendem uma nova versão do princípio do poluidor-pagador: os países responsáveis pela poluição deverão acolher os exilados na proporção do seu nível de poluição.
«Há actualmente um grande debate sobre a justiça climática, principalmente à volta das emissões poluentes» - declara Chella Rajan - «Nós pensamos que é tempo de estabelecer a relação entre as emissões e as suas consequências e pensar isso em termos de justiça.»
Ora se esta tese vingasse, os Estados Unidos, país em que o consumo energético está na origem de 30% das emissões mundiais de carbono ao longo do último século, deveria consequentemente acolher 30% dos refugiados.

Milhões de «boat people» fugirão das áreas submergidas

Todos estes argumentos têm as suas lacunas. Assim, uma das principais críticas endereçadas aos partidários da redução da imigração por razões ecológicas é a de que uma tal orientação não estimula os países desenvolvidos a assumir as suas responsabilidades pelos prejuízos causados. « É anti-ecológico fazer pesar a responsabilidade sobre a imigração, pois isso desvia a atenção para o verdadeiro problema», sustenta Betsy Hartmann, directora do programa População e Desenvolvimento na universidade de Hampshir, em Amherst (Massachusetts). «É preciso insistir na necessidade de reduzir o nosso consumo, mais do que apontar o dedo de acusação aos fluxo de pessoas. Os norte-americanos não são imbecis vorazes, mas vivem num sistema de sobre-consumo e de tecnologias poluentes.» Tim Flannery não diz outra coisa. «A única coisa sensata é evitar uma mudança climática catastrófica», afirma este último. Porque nunguém dúvida que, a continuarmos nesta direcção, as consequências serão terríveis. É que os países que mais sofrem não serão os mais poluentes.
Robert Nicholls, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, fez uma estimativa dos grupos populacionais atingidos pelas inundações devidas à subida dos Oceanos: os números variam entre 100.000 e qualquer coisa como 100 milhões de pessoas por ano entre 2020 e 2100, em função das projecções feitas com base no crescimento demográfico, no desenvolvimento económico e de sensibilidade climática. As costas densamente povoadas da Ásia e de África serão as mais duramente atingidas, sendo responsáveis em cerca de 80% das populações inundadas.Os pequenos Estados insulares das Caraíbas, do Pacífico, e do Oceano Índico, no qual se situam as ilhas Tuvalu, e que se encontram em média a menos de 1 metro acima do nível do mar, ainda são as mais ameaçadas. Apesar das incertezas que se mantêm quanto ao número exacto de pessoas atingidas, Sujatha Byravan e Chella Rajan defendem que um direito de imigração deva ser concedido às populações ameaçadas, antes mesmo que surjam as crises ecológicas. «Não é preciso que se chegue a uma situação na qual milhões de «boat people» tenham de fugir à procura de um local para desembarcar».
Andrew Simms, da New Economics Foundation, em Londres, é muito favorável às propostas de Sujatha Byravan e Chella Rajan. « A ideia de acolher os refugiados proporcionalmente à poluição emitida por cada país é simples e bonita».
Mas ele adianta que as coisas poderão ser bem mais complicadas, uma vez que as pessoas deslocadas poderão recusar partir para os países desenvolvidos. Com efeito, os deslocados por motivos ligados à guerra ou a lutas políticas emigram geralmente para países mais próximos, onde estão os seus compatriotas. Apesar do receio dos países desenvolvidos de um afluxo massivo de refugiados e de pedidos de asilo, a verdade é que uma ínfima percentagem de pessoas deslocadas acabam por escolher este destino. Foram, por exemplo, o Irão e o Paquistão, os países que acolheram a maioria dos refugiados das guerras do Iraque e do Afeganistão. Entre 1992 e 2001 num total de 12 milhões de pedidos de asilo originários dos países subdesenvolvidos, cerca de 72% procuraram refúgio noutros países subdesenvolvidos.

O que fazer para os que recusam partir?

«Se a metade da população do Bangla-Desh for obrigada a partir, será para a Índia e não para o a Vírginia», declara Neil Adger que estuda a economia de adaptação à mudança climática no Centre Tyndall de pesquisa sobre a mudança cliátoca de Norwich, na Grã-Bretanha. As pessoas ameaçadas pelas inundações no Bangla-Desh estão, aliás, prestes a emigrar para a Índia, tal como o farão as populações insulares do Oceano Índico.
A nova Zelândia e a Austrália serão os destino mais prováveis dos habitantes das ilhas do Pacífico. As Tuvalu já negociou direitos de imigração com a Nova Zelândia para os seus 9.000 habitantes, caso o seu território fique inabitável. Todavia, muitos dos habitantes recusam-se a partir, apesar de todos os esforços desenvolvidos pelo primeiro-ministro daquele arquipélago.
O desaparecimento total dos Estados soberanos não deixará de levantar a questão acerca das responsabilidades e dos direitos ou não das vítimas a uma compensação. Esta poderá tomar a forma de uma indemnização financeira, de tecnologias de protecção contra as mudanças climáticas ou ainda de direitos de imigração. Mas para as populações situadas no lado negro da evolução climática é a hora de se resignarem aos prejuízos. «A protecção das ilhas Maurícias e da nossa biodiversidade deverá ser uma preocupação mundial.», afirma o diplomata das ilhas Maurícias, Jagdish Koonjul, que está à cabeça da Aliança dos pequenos Estados Insulares. E interroga-se: « O que fazer com uma indemnização quando se perdeu tudo?»


Artigo de Anna Gosline, publicado no New Scientist

22.6.06

Plataforma Não ao Nuclear

http://www.naoaonuclear.org/

No próximo dia 27 de Junho, pelas 15h, no auditório da Casa do Ambiente e do Cidadão, na Rua São Domingos à Lapa, nº26, em Lisboa, será apresentada a página da plataforma Não ao Nuclear.

Esta apresentação será conjugada com uma breve palestra sobre o livro «A Maldição das Bruxas de Ferrel» protagonizada pelo seu autor, Mariano Calado.

Este encontro pretende dar a conhecer aos meios de comunicação social esta nova ferramenta da Plataforma Não ao Nuclear, mas também estimular a participação por parte de cidadãos e organizações, na dinamização de actividades que possam dar corpo aos objectivos da Plataforma:
- Promover o debate em torno das opções energéticas nacionais e, muito particularmente, da demonstração de como a opção pela energia nuclear em Portugal seria um obstáculo e um desvio à via da sustentabilidade energética.
- Promover as opções necessárias e urgentes nas energias renováveis de baixo impacto ambiental, de forma a reforçar a autonomia do país.
- Estimular a implementação de medidas que permitam uma maior eficiência energética, por ser esta a forma mais vantajosa de Portugal atingir a sustentabilidade energética e um saudável desenvolvimento económico, social e ambiental.

Neste sentido, logo após a apresentação pública da página da Plataforma e do livro «A Maldição das Bruxas de Ferrel», será promovida uma reunião da Plataforma, onde se procurará definir as suas formas de funcionamento e áreas estratégicas de actuação. Para que esta possa ser uma reunião efectiva e proveitosa, solicita-se a presença de todos aqueles que estejam interessados em dinamizar e apoiar este movimento. Prevê-se que a reunião decorra entre as 16h 30m e as 19h.

A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano, vai ser editado pela Deriva

Retirado de:
http://www.derivadaspalavras.blogspot.com/




Vai ser editado no Outono pela Deriva, “A Formação da Mentalidade Submissa”, uma obra que transcende o espectáculo mediático em si mesmo. Para inserir, como diria Michel Foucault, na ordem das coisas e da batalha, a ordem das palavras e do discurso.

A obra é do catedrático de Sevilha, professor Vicente Romano, doutorado pela Universidade Complutense de Madrid e pela Universidade de Münster e dotado de um currículo científico tão invejável quanto de um desassombro conceptual total [ver dados biográficos]. Romano junta ao rigor do pensamento a coragem de o dizer, liberto das peias que tolhem e encolhem as palavras ditas apenas para deixarem de bem com todos, aqueles que as disseram. Perdendo, ocasionalmente, esplêndidas oportunidades para guardarem um pouco de um bem tão crescentemente mais raro como é, se não o da reflexão, pelo menos o do silêncio.


As sessões de lançamento, a que se prevê associarem-se vários sectores académicos e da investigação no nosso país, bem como outros colectivos e pessoas, ainda se encontram por agendar em termos definitivos. Aponta-se para Setembro / Outubro, próximos. Até lá, alguns excertos ou –melhor dito- alguns estilhaços não sobre, mas contra a mentalidade submissa que renasce a cada esquina deste volátil tempo em que agonizamos sorridentemente uns para os outros.

20.6.06

A sexualidade e as classes sociais (in «A Revolução Sexual», de Daniel Guérin)


Transcrição do quarto capítulo do livro de Daniel Guérin, «Revolução Sexual, segundo Reich e Kinsey»(Essai sur la révolution sexuelle après Reich et Kinsey», no original),
editado pela Inova (1975)


Breve nota biográfica (retirada da contracapa do livro editado pela Inova):
Daniel Guérin nasce em 1904 de uma família burguesa. Aos 26 anos rompe com o seu meio de origem para se tornar militante revolucionário, e assim manter-se-á durante toda a sua vida. Daniel Guérin foi um autor multiforme: os seus escritos estendem-se desde a sociologia, história, teoria política, sexologia e até ficção.
Muitos das suas obras são hoje verdadeiros clássicos nas respectivas matérias.
Ideologicamente Daniel Guérin reivindica-se do chamado marxismo libertário, entre o anarquismo e o marxismo, e por isso mesmo, é um dos nomes mais citados pelos estudantes revoltosos em Maio de 68.
Muito antes de Maio de 68, Daniel Guérin já desmascarava o puritanismo e defendia a revolução sexual ao lado da revolução social, apoiando-se em Wilhelm Reich e Alfred Kinsey.
Para Daniel Guérin, a liberdade de cada um praticar o amor à sua maneira faz parte dos direitos do homem: confunde-se com a liberdade, simplesmente.

Nota prévia de advertência deste weblog:
os inquéritos sobre as práticas sexuais foram realizados por Kinsey nos Estados Unidos na década de 50, e os comentários de Guérin foram escritos no final da década de sessenta. Apesar de serem algo datados, a verdade é que estes dados ( e comentários subsequentes) são imprescindíveis caso se queira fazer uma análise histórica e sociológica acerca da sexualidade nas sociedades contemporâneas.




Kinsey, se bem que menos orientado para a sociologia do que para a biologia, consente no entanto em fazer uma incursão na primeira destas duas ciências quando enumera as diferenças de comportamento que lhe foi possível verificar em toda a escala social. Mas tais observâncias são limitadas pela sua repugnância ( bem americana) em admitir que existem classes sociais: apenas pretende conhecer «níveis de instrução» ou «categorias profissionais». Comete o deslize de se limitar a alinhar cifras e a traçar curvas sem demasiada preocupação em interpretar as variações registadas.

Para Kinsey, as diversas camadas sociais são todas elas inibidas sexualmente, obedecendo a «tabus» cuja origem remonta à moral judaico-cristã. Mas, segundo a sua opinião, tais tabus não são por elas observadas do mesmo modo. O que é «tabu» para as camadas ditas «superiores» é-o em menor grau para as classificadas de «inferiores».

Comecemos pelas interdições de que são vítimas as chamadas classes «superiores» e com as quais as «inferiores» se preocupam muito menos.

De um modo geral, a actividade sexual global das camadas «superiores» é bastante menor que a das camadas «inferiores». Kinsey dividiu a sociedade em 3 camadas e em função do seu nível de instrução, que ele cifra respectivamente: 0 a 8 ( instrução primária), 9 a 12 ( instrução secundária), 13 e mais ( instrução superior) e traça a curva da actividade global das 3 categorias, dos 10 aos 45 anos. Enquanto que as curvas das duas primeiras categorias coincidem até cerca dos dezassete anos ( ou seja, a idade em que cessa a instrução da 1ª categoria), elas afastam-se a seguir ligeiramente até cerca dos 40 anos. Os louros cabem aos que têm apenas a instrução primária. Quanto à curva da terceira categoria, ela diverge muito acentuadamente em comparação com as duas primeiras desde os 12 anos de idade com clara desvantagem da actividade sexual para as camadas «superiores», ainda que a distância diminua sensivelmente depois dos 30 anos de idade.

As camadas sociais ditas «superiores» são menos precoces que as classificadas de «inferiores». Três quartos dos rapazes que não ultrapassam a escola primária exercitam-se no coito pré-adolescente ( e muitas vezes vão mesmo até ao acto sexual consumado) contra apenas um quarto dos rapazes que vão frequentar o ensino secundário.

Nos adolescentes das camadas «inferiores» o coito pré-conjugal é absolutamente corrente e considerado como normal e mesmo saudável, enquanto que as camadas «superiores» estão mais impregnadas do conceito cristão que atribui a mais alta importância à virgindade antes do casamento, ainda que em maior grau no referente à mulher. 98% dos rapazes que não continuam os estudos após a escola primária praticam o coito antes do casamento, contra 84% dos rapazes de formação secundária e 67% dos que prosseguem os seus estudos na universidade.

A frequência das relações sexuais entre os 16 e os 20 anos eleva-se a uma média entre 2 e 4 vezes por semana nos rapazes que só têm a instrução básica, contra 1,5 para os que frequentam o secundário e 0,3 para os universitários.

Contrariamente aos das camadas «superiores», os homens pertencentes às camadas sociais inferiores não se preocupam com a escolha das suas companheiras, dado que possuem menos exigências estéticas a satisfazer e menos convencionalismos a respeitar. Pelo contrário, preferem prazeres positivos e que não os façam incorrer em obrigações sociais ou emocionais. Ainda entre os 16 e 20 anos, os rapazes das camadas «inferiores» ( ou com apenas escolaridade básica) têm relações sexuais com prostitutas 9 vezes mais frequentes que os que frequentam a universidade, enquanto os rapazes do nível «secundário» frequentam-nas mais de 4 vezes que os «universitários».

É sobretudo entre os «primários» e, em menor grau, entre os «secundários» que se encontra um gosto muito vivo pela variedade das companheiras sexuais.

Finalmente, os «universitários» são obrigados a contentar-se com prazeres imaginários em muito maior medida que os rapazes menos instruídos. O conceito de sexo evoca nele a masturbação, as poluções nocturnas, as carícias e uma avidez incessante de raparigas que só muito raramente aceitam copular com ele.

Nas mulheres, algumas destas diferenças são diametralmente opostas. Assim, por exemplo, apenas 30% das raparigas que têm «ensino primário» têm coitos pré-conjugais, contra 47% das que só frequentam até ao fim do «ensino secundário» e 60% das «universitárias». Claro está que estas estatísticas estão falseadas pela simples razão de que o casamento não tem lugar, nas 3 camadas ou categorias, na mesma idade de vida: as das camadas «inferiores» casam-se muito mais cedo, pelo que têm menos oportunidade de praticarem o coito pré-conjugal. Se restringir-mos a análise às mulheres que casam com a mesma idade, apercebemo-nos que a percentagem do coito pré-conjugal não varia demasiado em função do nível de escolaridade. Kinsey concluiu desse facto que os factores sociais influenciam mais o comportamento sexual dos homens que o das mulheres. E também neste aspecto ele abstém-se de levar as suas deduções até ao fim. Se os factores educacionais exercem menos influência sobre o comportamento das mulheres que sobre o dos homens, é, sem dúvida, porque todas as mulheres, sem distinção do nível de instrução, estão ainda, em larga medida, subjugadas pelo patriarcado e, portanto, inibidas por essa mesma razão.

No que se refere à homossexualidade, Kinsey faz uma constatação que confirma as suas afirmações precedentes quanto ao carácter natural desta conduta: ela é mais praticada pelos elementos que só têm a instrução básica do que pelos que possuem formação superiora, além de que aqueles, comparativamente a estes últimos, são muito raramente exclusivos.

Resumindo: sob muitos aspectos, as chamadas camadas «inferiores» são menos inibidas pelos tabus anti-sexuais que as camadas «superiores», e encontram-se muito mais próximas da natureza que as ditas «superiores»

Acontece que as camadas «inferiores» sofreriam, por seu lado, de certas inibições que atormentam em menor medida os membros das camadas «superiores».
Assim, por exemplo, aquelas não gostam de fazer durar o acto sexual durante tanto tempo como os das pretensas elites sociais, e isso talvez porque as suas capacidades imaginativas e emocionais são menos apuradas. Praticam, também, menos livremente os contactos bucais. Possuem ainda mais preconceitos perante a nudez ( tida como obscena) no momento das relações sexuais. Têm menos necessidade de estimulantes psicológicas (imagens eróticas, literatura «perversa»). Dedicam-se menos à masturbação e são mais reticentes quanto a ela.

Perante tais diferenças, Kinsey comete o erro de as atribuir pura e simplesmente a um maior respeito popular por certos tabus, quando também se podem explicar por uma maior conivência com a natureza, uma menor intervenção da actividade cerebral e das aquisições culturais na sexualidade das amplas massas.

É verdade, sem dúvida, que também o povo é prisioneiro de tabus, mas menos que as pretensas «elites» e somente na medida em que a religião ainda o subjuga. Mas os tabus não são tão rígidos, pelo que a sua sexualidade se mantém fundamentalmente «pagã». O povo, entregue a si próprio, pratica o amor também de uma maneira simples e espontânea.

Ou seja, a revolução sexual, tal como a revolução social, é, antes de tudo, obra do povo.

As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros - Os vendedores de doenças

retirado de
http://ecodebate.com.br/



As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa “síndrome” que exige tratamento


Autores:
Ray Moynihan,
Alain Wasmes

Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune seu desespero por ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Explicando preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley’s – fabricante e distribuidor de gomas de mascar –, Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às... pessoas saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de “vender para todo mundo”. Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.

As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais pessoas, transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de 500 bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença – mudando assim literalmente o que significa ser humano. Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.

A fabricação das “síndromes”A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis preocupadas com a saúde em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndomes graves, de tal modo que a timidez torna-se um “problema de ansiedade social”, e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada “problema disfórico pré-menstrual”. O simples fato de ser um sujeito “predisposto” a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.

O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais famacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos – e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.

De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado “A arte de catalogar um estado de saúde”, Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para “favorecer a criação” dos problemas médicos [1]. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova “disfunção”. Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual – uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.

Médicos orientados por marqueteiros (propagandista das farmacêuticas)

Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.

Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para “criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde”. O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, “de uma nova maneira de pensar nessas coisas”. O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.

Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de “criar mercados de novas doenças” traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser “convencidas” de que “problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição” são “dignos de uma intervenção médica”. Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: “Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa”.

Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o “normal” do “anormal” são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.

Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado “hipertensão arterial”; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de 40 milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.


Quanto mais alienados, mais consumistas

A remuneração dos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influências. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, médicos e indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.

As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo de marketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no célebro.

O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.


A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas de marketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.


O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de “pacientes”. Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.


A “medicalização” interesseira da vida

A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a “toda e qualquer pessoa do mundo”. O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.


Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão do establishment médico estava prestes a “medicalizar” a própria vida, minando a capacidade das pessoas enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, “que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias [2] ”.

Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou “a venda de doenças”: ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos [3]. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido do marketing e que se consolidas as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.

(Tradução: Wanda Caldeira Brant)
wbrant@globo.com

Bibliografia complementar:


* A revista médica PLoS Medecine traz, em seu número de abril de 2006, um importante dossiê sobre “A produção de doenças” – http://medicine.plosjournals.org/
* Na França, as revistas Pratiques (dirigida ao grande público) e Prescrire (destinada aos médicos) avaliam os medicamentos e trazem um olhar crítico sobre a definição das doenças.
*Jörg Blech, Les inventeurs de maladies. Manœuvres et manipulations de l’industrie pharmaceutique, Arles, Actes Sud, 2005.
* Philippe Pignarre, Comment la dépression est devenue une épidémie, Paris, Hachette-Littérature, col. Pluriel, 2003.
[1] Ler, de Vince Parry, “The art of branding a condition ”, Medical Marketing & Media, Londres, maio de 2003.
[2] Ler, de Ivan Illich, Némésis médicale, Paris, Seuil, 1975.
[3] Ler, de Lynn Payer, Disease-Mongers: How Doctors, Drug Companies, and Insurers are Making You Feel Sick, Nova York, John Wiley & Sons, 2002.



Texto traduzido de Le Monde Diplomatique-Brasil,

in EcoDebate.com.br - 16/06/2006