26.12.07

Acerca da pseudo-democracia em que vivemos

Antigamente, e não há muito tempo, o conceito de democracia era vilipendiado e objecto das mais variadas sátiras pelos agentes do poder e pelos fazedores de opinião ( para eles não havia nada de mais caricatural que o poder da populaça, de uma múltidão de brutos e analfabetos como era visto o povo)

Hoje, a democracia só venceu na ordem discursiva dos media e na retórica diária dos agentes ao serviço do poder na medida em que o seu real significado e conteúdo ( = poder do povo) se foi esvaziando até se perder na realidade manipulada de umas eleições cozinhadas pela engenharia eleitoral e pelas campanhas de propaganda partidária



Evidências da falsa democracia em que vivemos:


O governo finge promover a estabilidade social, mas vive principalmente à custa do povo que vai sobrevivendo de crise em crise

O governo finge promover a educação, mas toda a sua força baseia-se na ignorância do povo;


O governo finge defender a liberdade constitutional, mas toda a sua política vai no sentido de constranger e delimitar a liberdade individual;

O governo finge melhorar a condição social do trabalhador, mas na realidade oprime-o para continuar a existir o domínio social de uma élite não-eleita sobre a maioria da população;

O governo elabora leis para para garantir a segurança mas a precariedade e a insegurança social não páram de crescer;

O governo elabora leis que dizem promover a educação mas isso não vai suprimir a ignorância nem a alienação, apenas as aumentam;

O governo elabora leis para garantir a liberdade constitucional, mas esconde o despotismo dos poderes ocultos que não são eleitos democraticamente ( o enorme poder dos grupos económico-financeiros e das grandes empresas multinacionais que são quem verdadeiramente governam o mundo);


O governo diz na sua vil propaganda, que aprova leis de protecção ao trabalhador, mas não o livra da dominação, e até acaba por bloquear e impedir alguma tantativa dos trabalhadores em sairem deste sistema de dominação social ( capitalismo) em que vivemos

Realizada a primeira acção do Clown Army (exército de palhaços) no Porto contra a árvore do Millenium





11 palhaços rebeldes veneraram a maior árvore de natal da Europa, com VIVAS ao consumo, ao desperdício, ao Millenium-bcp e ao rui rio!

Ver aqui o video-reportagem:
http://youtube.com/watch?v=jmkbYhFGL1k






No dia 23 de Dezembro a secção do Porto do universal exercito de palhaços decidiu adorar a arvore do millenium BCP, a maior árvore da europa, plantada na avenida dos aliados da cidade do Porto.
A grandeza do rídiculo daquela árvore deixou os palhaços estupefactos e de forma espontânea bradaram do fundo dos pulmões: Viva o desperdício, viva o Rui Rio, Viva o aquecimento global, viva o Millenium BCP.

Utilizando tácticas altamente avançadas, o muy nobre corpo expedicionário do CIRCA-PORTUGAL realizou durante a tarde do dia 23 do mês presente, a primeira de muitas acções de forma a reclamar uma série de objectivos ... ( falta texto ) ….
Toda a acção correu muito bem e foram cumpridos todos os objectivos acima assinalados.

Chegaram,
viram
e adoraram a árvore do Millenium BCP!
Gritaram muito alto em prol do desperdício e dançaram em honra do aquecimento global, agradecendo ao Rui Rio por tão nobre e grande esforço (construir a maior árvore da europa... e talvez do mundo).




Foi entretanto distribuído o seguinte texto:

Amar a árvore com todo o fervor.
Dar vivas ao aquecimento global.
Agradecer pela dívida.
Premiar o desperdício.
Incentivar as câmaras de vigilância.
Louvar Rui Rio.
Festejar e fazer rir.
Alterar o panorama chato de chatos protestos que chateiam as pessoas.

Divertirmo-nos. (este já está no papo)

CIRCA-PT


Dados recolhidos sobre a árvore do millenium que se encontra plantada na Avenida dos Aliados na cidade do Porto com a cumplicidade e o beneplácito de Rui Rio, querido líder da câmara da cidade, permitem-nos afirmar o seguinte:
a estrutura montada que pomposamente ( mas incorrectamente) dá pelo nome de árvore tem 180 toneladas de ferro, nas quais se devem incorpor 26 toneladas de CO2 eq. que foram emitidas aquando da sua produção. A isto se acrescem 132 toneladas de CO2 das emissões do gerador associadas a um consumo de cerca de 50 mil litros de gasóleo e à produção de 464100 kWh de energia eléctrica para a iluminação da árvore - o correspondente ao consumo de aproximadamente 170 lares com um agregado de 3 pessoas num ano.
Ou seja, um total das emissões - 158 toneladas de CO2 equivalente - que irá consequentemente contribuir para o aumento das emissões do nosso país e, como tal, engordar a factura que teremos que pagar pelo nosso incumprimento do protocolo de Quioto que o Estado português se comprometeu a respeitar !!!

Fuja do circo. Junte-se ao CIRCA (clandestine insurgent Rebel Clown Army)


Roll up, roll up - Ladies and gentlemen, meninas e meninos, amigos e amigas: bem vindos ao único, ao inesperado, ao paradoxal, ao grotescamente belo, ao novo e inútil mundo do Clandestine Insurgent Rebel Clown Army (Exército Insurgente Clandestino de Palhaços Rebeldes).


Somos clandestinos porque recusarmos o espectáculo e porque somos qualquer pessoa.
Porque sem nomes reais, rostos e narizes, mostramos que as nossas palavras, sonhos e desejos são mais importantes do que nossas biografias.
Porque nós recusamos a sociedade da vigilância e do controle: que observa, controla, espia, regista e acompanha cada um de nossos movimentos.
Porque ao esconder as nossas identidades nós recuperamos o poder dos nossos actos.
Porque mascarados nós resistimos de uma forma engraçada e tornamo-nos
visíveis.

Somos insurgentes por termos surgido do nada e estarmos em todos os lugares.
Porque as ideias podem ser ignoradas mas não censuradas, e uma insurreição da imaginação é irresistível.
Porque sempre que caírmos, nós nos levantaremos de novo, de novo e de novo, sabendo que nada se perde historicamente, nada é finito. Porque a história se projecta em linha recta, mas surge como a água: às vezes escorrendo em espiral, às vezes pingando, fluindo ou inundando tudo - sempre irreconhecível, inesperada, incerta.
Porque a chave da insurreicção é o improviso, e não meras reproduções baratas.

Somos rebeldes por amarmos mais a vida e a felicidade do que a 'revolução'.
Porque nenhuma revolução se completa e as rebeliões são eternas. Porque não queremos mudar 'o' mundo mas sim os 'nossos' mundos. Porque sempre iremos desertar e desobedecer àqueles que abusam e acumulam poder.
Porque os rebeldes transformam tudo: como vivem, criam, comem, riem, brincam, aprendem, trocam, ouvem, pensam e acima de tudo a forma como se rebelam.

Somos palhaços, porque, afinal o que mais poderíamos ser neste mundo estúpido?
Dentro de cada um de nós há um palhaço tentando revoltar-se. Porque nada afeta mais as autoridades do que ridicularizá-las.
Porque os idiotas são temíveis e inocentes, espertos e estúpidos, entertainers e dissidentes, curandeiros e subversivos.
Porque um palhaço sobrevive a tudo e sempre se sai bem.


Somos um exército por vivermos num planeta em permanente guerra - a guerra do dinheiro contra a vida, o lucro contra a dignidade, o progresso contra o futuro.
Porque uma guerra que se alimenta de sangue & morte e caga dinheiro & toxinas merece um corpo obsceno de soldados contestadores.
Porque apenas um exército pode declarar uma guerra absurda contra uma guerra absurda.
Porque o combate requer solidariedade, disciplina e comprometimento.
Porque palhaços sozinhos são figuras patéticas, porém em grupos, brigadas ou batalhões são extremamente perigosos.
Somos um exército por sermos putos: onde as bombas falharem nós vamos rir e ridicularizá-las.
E as nossas risadas precisam de eco.


Somos CIRCA por sermos próximos e ambivalentes, por estarmos no mais poderoso lugar: entre a ordem e o caos.


FUJA DO CIRCO
JUNTE-SE AO CIRCA




Para mais informação consultar aqui, e o website da Clow Army:

http://www.clownarmy.org/

24.12.07

Eu tenho um sonho...


O Genocídio perpetrado no Iraque pelo exército dos Estados Unidos da América, e que não pára de aumentar desde a invasão daquele país soberano em 2003, é já muito maior que o genocídio no Rwanda em 1994 ( 880.000 mortes).
Segundo fontes fidedignas o número de vítimas de iraquianos já ultrapassa o 1 milhão e 100 mil mortos, sem contar os 500 mil mortos da primeira guerra do Golfo.
A isto haverá a acrescentar os feridos, os presos, os torturados, os refugiados, e todo o sofrimento provocado pelas decisões de dois criminosos de guerra. Bush e Cheney ( presidente e vice-presidente dos Estados Unidos da América).
Não esquecer ainda os cúmplices: Durão Barroso. Aznar e Tony Blair ( o quarteto genocida dos Açores), e todos quantos colaboraram de perto ou de longe neste crime contra a Humanidade…

23.12.07

Palavras (Paroles), de Jacques Prévert, poeta anarquista - livro traduzido finalmente para português


"Embauché malgré moi dans l’usine à idées
J’ai refusé de pointer
Mobilisé de même dans l’armóc des idées
J’ai déserté"
J.Prévert

Empregado contra a vontade na fábrica de ideias
Recusei-me a marcar o ponto
Mobilizado mesmo assim para o exército das ideias
Eu desertei



«Notre Père qui etes aux cieux,... Restez y !
et nous,
nous resterons sur cette terre
qui est parfois si jolie. »
J. Prévert


Pai nosso que estais no céu…Ficai por lá!
Que nós,
Nós continuaremos na terra
Que por vezes é tão bonita.


Jacques Prévert, poeta francês (n. Neuilly-sur-Seine, 1900 - m. Ormonville-a-Petite, 1977), e um dos expoentes da literatura francesa, tem agora finalmente o seu livro Paroles traduzido para português nas edições Sextante com tradução de Manuela Torres

Poeta, surrealista, guionista, escritor de diálogos e de contos infantis, o seu talento desdobrou-se por múltiplos géneros e sempre com geral admiração. Foi um assumido e visceral poeta libertário, cultivador da liberdade e do espírito de revolta, a cujo humor corrosivo não escapava nenhum símbolo burguês, seja ele o clericalismo, o militarismo ou a moral hipócrita. ( um dos seus poemas mais corrosivos é "Tentative de description d'un dîner de tête à Paris-France”, de 1931.

A publicação do seu livro de poemas Paroles em 1946, constituiu um marco importante que mereceu o geral reconhecimento público, tendo então ingressado no colegio da patafísica, onde alcançou o grau de sátrapa em 1953.

Para além de representar a vida parisiense, as suas ruas e gentes, a cultura popular e boémia, a sua obra revela um empenhamento pelas causas sociais, pelo pacifismo e pela liberdade, identificando-se com o anarquismo e as ideias libertárias.

Jacques Prévert parece falar quando escreve. É um homem da rua e não da literatura de salões e de bibliotecas. Encontra a poesia por todo o lado que passa, ao virar da esquina ou nuns simples lábios.
A sua poética é des-respeituosa para com todos os conformismos e mostra-se delirante sobre as coisas simples da vida. São celebrações libertárias e improvisações de humor crítico e corrosivo.

Em 1930 rompeu com André Breton - representante máximo dos surrealistas - demasiado autoritario para o seu gosto, afastando-se igualmente do partido comunista onde nunca, de resto, chegou a militar, abraçando então assumidamente as ideias libertárias do anarquismo. Contra as pretensas virtudes o velho patriotismo, Prévert sempre se manifestou o seu declarado antimilitarismo e pacifismo que não admitia qualquer concessão.


Escreveu também vários guiões para cinema, em especial para o realizador Marcel Carné, entre as quais se encuentra Drôle de drame (1937), Le jour se lève (1939) e a mais famosa, Les enfants du paradis (1945).
Muitos dos seus poemas são cantados pelas figuras mais importantes da Chanson francesa e seleccionados para servir de lectura e estudo nas escolas de francês em todo o mundo.


Os seus poemas tratam geralmente do quotidiano de uma grande cidade como é Paris, dedicando-se a realizar contínuo jogos de palabras, e reinventando musicalmente a linguagem poética numa singular demonstração da sua capacidade imaginativa e inspiração poética.
Ligado ao surrealismo, mas mantendo a sua independencia e especificidade, a sua poesia está recheado de imagens e recursos literários que nos dão a ver uma naturaleza fluída e uma composição heteróclita de objectos e pessoas.

Nos seuscontos infantis, como O Pequemo Leão, Cartas desde as ilhas Baladar, Contos para crianças más, A pastora e outros ( já anteriormente traduzidos para português), Prévert mostra que sabe manejar com sensibilidade e maestria a rebeldia do eterno insubmisso que existe na criança e no jovem.




"Ni Dieu, ni Maître; Mieux d'Etre "
"Rêve + Evolution = Révolution "

Nem Deus, Nem Senhor; Melhor é Ser
Sonho + Evolução = Revolução





Filme sobre Jacques Prévert – realizado por Janine Marc Pezet, Alain Poulanges et Gilles Nadeau

Parte 1





Parte 2






Parte 3








Parte 4











Parte 5








Parte 6








Prévert no cinema








Um dos mais famosos textos de Prévert interpretado por Serge Reggiani










POESIA DE JACQES PRÉVERT




FAMILIALE

La mère fait du tricot
Le fils fait la guerre
Elle trouve ça tout naturel la mère
Et le père qu'est-ce qu'il fait le père?
Il fait des affaires
Sa femme fait du tricot
Son fils la guerre
Lui des affaires
Il trouve ça tout naturel le père
Et le fils et le fils
Qu'est-ce qu'il trouve le fils?
Il ne trouve rien absolument rien le fils
Le fils sa mère fait du tricot son père des
[ affaires lui la guerre
Quand il aura fini la guerre
Il fera des affaires avec son père
La guerre continue la mère continue elle
[ tricote
La père continue il fai des affaires
Le fils est tué il ne continue plus
La père et la mère vont au cimetière
Ils trouvent ça naturel le père et la mère
La vie continue la vie avec le tricot la guerre
[ des affaires
Les affaires la guerre le tricot la guerre
Les affaires les affaires et les affaires
La vie avec le cimitière.



FAMILIAR

Tradução: Silviano Santiago

A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele
[ luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra
Negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra
[ os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.


JE SUIS COMME JE SUIS

Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Quand j'ai envie de rire
Oui je ris aux éclats
J'aime celui qui m'aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n'est pas le même
Que j'aime chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi

Je suis faite pour plaire
Et n'y puis rien changer
Mes talons sont trop hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu'est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu'est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m'est arrivé
Oui j'ai aimé quelqu'un
Oui quelqu'un m'a aimée
Comme les enfants qui s'aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer...
Pourquoi me questionner
Je suis là pour vous plaire
Et n'y puis rien changer.








CET AMOUR

Cet amour
Si violent
Si fragile
Si tendre
Si désespéré
Cet amour
Beau comme le jour
Et mauvais comme le temps
Quand le temps est mauvais
Cet amour si vrai
Cet amour si beau
Si heureux
Si joyeux
Et si dérisoire
Tremblant de peur comme un enfant dans le noir
Et si sûr de lui
Comme un homme tranquille au milieu de la nuit
Cet amour qui faisait peur aux autres
Qui les faisait parler
Qui les faisait blêmir
Cet amour guetté
Parce que nous le guettions
Traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Parce que nous l'avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Cet amour tout entier
Si vivant encore
Et tout ensoleillé
C'est le tien
C'est le mien
Celui qui a été
Cette chose toujours nouvelles
Et qui n'a pas changé
Aussi vraie qu'une plante
Aussi tremblante qu'un oiseau
Aussi chaude aussi vivante que l'été
Nous pouvons tous les deux
Aller et revenir
Nous pouvons oublier
Et puis nous rendormir
Nous réveiller souffrir vieillir
Nous endormir encore
Rêver à la mort
Nous éveiller sourire et rire
Et rajeunir
Notre amour reste là
Têtu comme une bourrique
Vivant comme le désir
Cruel comme la mémoire
Bête comme les regrets
Tendre comme le souvenir
Froid comme le marbre
Beau comme le jour
Fragile comme un enfant
Il nous regarde en souriant
Et il nous parle sans rien dire
Et moi j'écoute en tremblant
Et je crie
Je crie pour toi
Je crie pour moi
Je te supplie
Pour toi pour moi et pour tous ceux qui s'aiment
Et qui se sont aimés
Oui je lui crie
Pour toi pour moi et pour tous les autres
Que je ne connais pas
Reste là
Là où tu es
Là où tu étais autrefois
Reste là
Ne bouge pas
Ne t'en va pas
Nous qui sommes aimés
Nous t'avons oublié
Toi ne nous oublie pas
Nous n'avions que toi sur la terre
Ne nous laisse pas devenir froids
Beaucoup plus loin toujours
Et n'importe où
Donne-nous signe de vie
Beaucoup plus tard au coin d'un bois
Dans la forêt de la mémoire
Surgis soudain
Tends-nous la main
Et sauve-nous.






POUR TOI MON AMOUR

Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
mon amour
Et puis je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée










Texto retirado de:
http://ruibebiano.net/zonanon/non/abc/prevert.html


"De fora", como se dizia dos irredutíveis da anarquia, Jacques Prévert insurgiu-se sempre contra a Ordem – fosse ela moral, social, religiosa ou militar – com uma certa violência mas ao seu estilo, alternando alfinetadas com patas de veludo, vestindo-se como um dandi mas usando boina de operário. Nascido em 1900, Prévert inicia-se em Montparnasse, nos anos vinte, através de facécia e de invenções verbais, em conjunto com um grupo de amigos, mais próximos de Dada do que do surrealismo, que costumavam acampar na Rue du Château: Yves Tanguy, Marcel Duhamel, Benjamin Péret. Em seguida, entre provocações-escândalos e trabalhos de encenação, confirmará a eficácia dos seus gags produzindo sketches para Octobre, um grupo de agit-prop mais esquerdista do que comunista, ainda que o seu encenador, Louis Bonin, se tenha rebaptizado, exibindo um certo "chique" soviético, como Lou Tchimoukov. A propósito de uma possível ligação, Jacques recusar-se-á: «Aderir?.. Mas iam logo meter-me numa célula!». La Bataille de Fontenoy, Suivez le druide e outros escritos incendiários constituem nesta altura enormes sucessos.


O grupo Octobre auto-dissolver-se-á em 1936, depois de achar que a Frente Popular era demasiado consensual, mas manter-se-á para sempre a amizade entre os seus membros: J. B. Brunius, Yves Allégret, Raymond Bussières, Yves Deniaud, que Prévert jamais esquecerá na formação dos seus castings.
Ei-lo agora, com Drôle de drame, mais do que um cenófrogo-dialoguista: será ele o verdadeiro autor de filmes que irão rodar Renoir (Le Crime de M. Lange, um testamento do grupo Octobre), Grémillon (Remorques, Lumière d'été), o seu irmão Pierre Prévert (L’affaire est dans le sac, Adieu Léonard, Voyage surprise), Christian Jaque (Les Disparus de Saint-Agil, Sortilèges), Carne por fim, com o qual assinará algumas das obras-primas do realismo poético francês: Jenny, Drôle de drame, Le Quai dês brumes, Le jour se leve, Les Visiteurs du soir, Les Enfants du paradis, Les Portes de la nuit.
E a escrita? Prévert não se considerava um homem de letras, mas Un peu de ténue, Souvenirs de famílle ou Le Diner de têtes apareceram regularmente em revistas desde 1929. Em 1936, regressado (com o grupo Octobre) com um grande desencantamento de Moscovo, irá até às Baleares com a mulher amada. Aí escreverá Lumières d'homme, poemas cheios de implícitos sentidos («Toujours três près des camarades/Mais si loin tout de même si loin.»), num livro dado a um impressor e editor, que não os publicará senão em... 1955!
Todavia, desde antes da guerra que alguns dos seus poemas circulavam já por albergues da juventude. Será em 1946 que René Bertelé reunirá Paroles, cujo enorme sucesso editorial não terá precedentes senão no Livro dos Cantos, de Heine, nos tempos idos do romantismo alemão. «Notre Père qui Êtes aux cieux/Restez-y»: é difícil imaginar hoje o significado, naquela época, desta nova Libertação! Seguir-se-ão Spectacle, La Pluie et le Beau Temps, Histoires, Fatras, Choses et autres. Uma obra complexa e erudita, mesmo quando ela parece superficial ao brincar, como brincava, com as palavras. Uma obra de reivindicação, mas também de um profundo lirismo, de pudor mais do que de fracasso, inscrevendo-se naquela estreita linha da poesia francesa que, de Villon a Hugo, se consegue dirigir a todos e a cada um.
Poesia viva ainda devido às canções musicadas por Bessières, Crolla, e sobretudo Kosma, que soube encontrar melodias simplesmente memoráveis para Agnès Capri ou Yves Montand; devido às suas variações em homenagem às pinturas de Miró, Chagall, Ernst, Braque, e Picasso, seu amigo; devido aos reflexos do seu próprio imaginário que se encontram representados em fotografias de Brassaï, Izis, Villers, Doisneau; devido aos inúmeros recortes, colagens e colorações da sua lavra.
«Quando ele escreve, é como se falasse.», dizia Ribemont-Dessaignes antes ainda de 1930. Claro que sim, mas olhada mais de perto, a sua frase, longamente experimentada no decorrer de inesgotáveis monólogos, aparece como busca paciente de uma apenas aparente simplicidade, de uma perfeição minimal. Nada pois de automático, de improvisado: Prévert polia e voltava a polir. Quanto aos «temas», às escolhas se quisermos, elas foram aquelas do repertório eterno dos poetas: o amor pela vida, a fraqueza do homem, a nobreza da fraternidade, o amor do amor.
A criação e a vida: poesia de imagens, de palavras, de sons, de cores. De amor e de revolta. Um rendez-vous previsto com o século seguinte, com este terceiro milénio, quando forem esquecidos de vez os nomes dos académicos e dos eminentes "protectores das artes", ao mesmo tempo que continuarão a sua ronda os estranhos personagens de JP.

22.12.07

Solstício de Inverno



Em Astronomia, o Solstício de Inverno é o momento em que a Terra está naquele ponto da sua órbita onde um dos pólos da Terra está mais afastado do Sol . Ocorre, no hemisfério norte, em 21 de Dezembro ou em 22 de Dezembro e no hemisfério sul em 21 de Junho ou em 22 de Junho.

O solstício de Inverno é o primeiro dia de Inverno. No calendário chinês, por exemplo, o solstício de Inverno chama-se dong zhi (chegada do Inverno) e é considerado uma data de importância extrema, visto ser aí festejada a passagem de ano. É também nesta data que se celebra o Sabbat Neopagão Yule.


A celebração pagã do Soltício do Inverno é considerada a mais antiga celebração do mundo.


Pagan Tradition stonehenge winter solstice





Há milhares de anos a humanidade festeja o nascimento do sol como sendo o acontecimento mais importante da Terra.

O chamado Solsticio de Inverno acontece anualmente no periodo que varia de 17 a 25 de dezembro, dependendo do ciclo solar de cada ano.

A comemoraçao do solsticio de inverno foi totalmente modificada e readaptada pelo Imperio Romano e as geraçoes subsequentes e esse Imperio. Foi em Roma que o solsticio passou a ser conhecido como sendo a data fixa do nascimento do filho de Deus, salvador da humanidade, e nao mais do So. Foi no ano de 336 de nossa era, que o Imperador Romano Constantino I, aproveitando os festejos do solsticio da luz, anunciou para os povos do imperio a nova religiao de Roma e contou a historia de seu salvador.Essa religiao tomou como base para a sua formaçao, muitas das valiosas e preciosas informaçoes mais antigas. O nascimento do filhode Deus na Terra na mesma data do nascimento do sol, foi uma dessas adaptaçoes feitas para a nossa era. Roma simplemente usou uma data que já existia como festejo tradicional dos povos e criou um novo motivo para as pessoas continuarem comemorando.
Desde que Roma modificou os motivos dos festejos, o solsticio perdeu o seu significado

O solsticio de inverno era uma data comemorada por todos os povos de todas as religioes pois se tratava do nascimento do novo ciclo do sol sob a Terra. Essas informaçoes do solsticio ainda estão registradas nas paredes dos monumentos egípcios e nos registros indianos. O solsticio tambem estava registado em muitos livros que foram destruidos e queimados pelo Imperio Romano.


É sabido tambem, que aquele que chamam de Jesus Cristo (seu verdadeiro nome de fato nao importa), nao nasceu em 25 de dezembro como dizem os "boatos"... Nem na propria biblia existe a data correcta deste suposto nascimento. Segundo a biblia, esse ser sem registros nasceu em algum momento entre agosto e setembro, no ano de 7 Antes de Cristo (antes dele mesmo)... Ou algo parecido...
Foi através da formaçao do que ficou registrado em Roma como o concilio de Niceia, concilio formado por 800 dos mais sabios ministros de Roma, que Roma mudou toda a historia da humanidade. Esse concilio foi criado pelo imperio Romano no ano de 336 com o intuito de criar uma religiao oficial para o imperio. Roma elaborou nao somente um novo calendário para o mundo, como tambem mudou o rumo da humanidade, atirando as pessoas no que nos chamamos de era da escuridao. Foi a partir do controvertido livro religioso criado pelo concilio de Niceia, que perdemos completamente a consciencia de quem de fato somos. Essas confusoes foram e sao motivo de muitas guerras que ainda acontecem no mundo. Actualmente sao mais de 2500 diferentes religioes que interpretam a biblia de formas contràrias a Roma.
A biblia demorou 4 anos para ser escrita e elaborada e nela estao reunidas muitas informações, porem essas mensagens e códigos estao misturados com informaçoes manipuladas pelas instâncias dominantes.

Esta data do solsticio é reconhecida como o dia em que o sol atinge o seu grau minimo de luminosidade na Terra. Por esse motivo, os magistas e filosofos chamam esse dia de dia do renascimento da luz... Depois do dia 21 de dezembro, o sol renasce e recomeça o seu ciclo em torno do planeta.

Os Egípcios festejavam o solsticio com rituais de magia que envolviam os cultivos de sementes e as fecundaçoes...
Os Indianos festejavam o solsticio transcendendo os corpos em rituais dimensionais magicos...
Os Mayas elaboraram um perfeito calendario usando o solsticio como o inicio do ciclo do sol e da lua na Terra... Nos periodos de 21 de dezembro e 21 de junho, a radiaçao do sol na Terra atinge o seu momento maximo e os Mayas projetaram esses ciclos num calendario que vai até o dia 21 de dezembro de 2012.


E se voltassemos a comemorar o solsticio da luz como era comemorado no nosso esquecido passado?

Alegria, danças, frutas, flores, amigos, amores... Da luz do sol a luz da lua, assim se comemorava o nascimento da vida.

A partir deste ano, nao festejarei mais o convencional natal. Essa é mais uma algema que me liberto nesta vida!
Comemoro sim, o renascimento da vida em todos os dias.
Sem religioes, sem rituais, sem regras e sem condiçoes sociais, no dia 21 de dezembro vamos festejar novamente o renascimento do sol e saldar incondicionalmente esse novo ciclo da luz que se inicia na Terra.

Um orgasmo pela paz mundial para hoje (primeiro dia do Inverno)


Pelo segundo ano consecutivo a Global Consciousness Project marcou para hoje, o primeiro dia do Inverno, um Orgasmo simultâneo em todo o mundo em prol da paz. Esta singular forma de manifestação sexual está marcada para as 6h.08 da manhã, hora de Lisboa. Recomenda-se que nos países que possuam armas de destruição maciça os aderentes se preparem com mais cuidado e durante mais tempo.


À frente da ideia está o casal Donna Sheehan e Paul Reffel que são dois eco-pacifistas e antigos hippies que se inspiraram no projecto da consciência global, um programa da Universidade de Princeton, que pretende medir o efeito que pode ter o pensamento humano no devir dos acontecimentos. O casal promotor da iniciativa tem a esperança de que o enorme influxo da energía física, mental e espiritual tenha efeitos positivos profundos que modifiquem o estado de violência do mundo. Segundo eles, a injecção dessa força no campo energético da Terra contribuirá para essa mudança positiva.

Consultar:
http://global-o.org/
http://globalo.blogspot.com/



3 Reasons ... for Global Orgasm

Peace
Orgasm and the sense of well-being it brings - how would the planet be if it felt that good? Could that be one definition of Peace? Practice visualizing the planet experiencing the afterglow of your Big Oh and ignoring the Govern-Men as they try to drum up support for their next invasion. As global population expands, we will all feel the pressures that They will manipulate to justify violent takeover of resources.

Use less, have fewer babies, live more simply and think outside the box that They would lock you in. Nations are made up of people like you and us, and we allow people like Them to act as if they run everything, just to keep Them out of our neighborhoods. It is an act and it can only become real if we allow it to. Visualize a world in which public servants serve the public.


Gender & Social Justice
Justice starts with compassionate understanding. Only when we can visualize ourselves in someone else’s place can we understand what drives them to behave the way they do. Empathy, compassion, love – these are the Feminine traits that all women and men are born with in varying ratios. When they are used in our interactions with others and with the other species, justice will prevail. Differences in gender, social status and race are not delineators of bad and good. We are all worthy of justice. To combine the energy of orgasm with a conscious empathy for all beings, human and otherwise, would be a powerful boost to the well-being of our planet and species. Visualize true partnership to heal the planet.


Global Warming
The planet needs a rest from all our other desires, so what better way to get us to take a rest from over-consumption than an orgasm? And if we can combine that energy with a resolution to be satisfied with less of everything (except orgasms, of course), perhaps the collective mindset will change. And since a major cause of global warming, peak oil, peak water, peak everything is overpopulation by humans, lets put in a collective request for fewer offspring. Every cute baby is another consumer. Let’s make children even more valued by making fewer of them, before the pressures of overpopulation drive our children to kill each other.


OBJECTIVOS DA INICIATIVA


WHO? All Men and Women, you and everyone you know.

WHERE? Everywhere in the world, but especially in countries with weapons of mass destruction and places where violence is used in place of mediation.

WHEN? Solstice Day - December 22, at 06:08 Universal Time (GMT)

WHY? To effect positive change in the energy field of the Earth through input of the largest possible instantaneous surge of human biological, mental and spiritual energy.

WHO? All Men and Women, you and everyone you know.

WHERE? Everywhere in the world, but especially in countries with weapons of mass destruction and places where violence is used in place of mediation.

WHEN? Solstice Day - December 22, at 06:08 Universal Time (GMT)

WHY? To effect positive change in the energy field of the Earth through input of the largest possible instantaneous surge of human biological, mental and spiritual energy.



Donna Sheehan e Paul Reffel

Natal dos Simples - por José Afonso







José Afonso - Ao Vivo no Coliseu

Natal dos Simples

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

José (Zeca) Afonso

21.12.07

Por uma nova forma de viver e de jogar: não aos brinquedos bélicos, sexistas e que promovam o egoísmo


Escolhe e dá preferência a brinquedos que não sejam bélicos, sexistas, nem promovam o egoísmo,…


...que sejam construtivos e que, acima de tudo, ensinem uma nova forma de viver, distinta da concorrência individualista própria do mercado capitalista



Dizemos não aos brinquedos bélicos
Porque por intermédio deles e com a compra de brinquedos que simulam armas estamos na prática a legitimar o uso de armas e da guerra na resolução de conflitos aos olhos dos nossos filhos e jovens. (há que argumente que assim estamos a contrariar a vontade da criança, ou que agindo dessa forma estaríamos a potenciar o seu desejo, mas cabe perguntar se ele quisesse jogar com fogo, acaso o permitíramos?)
Na realidade, é importante formar um sentimento de auto-estima e na base da qual ele poderá construir uma personalidade capaz de vencer a pressão exercida pelos seus amigos. Ensina-o por isso a pensar pela sua própria cabeça. Mostra-lhe que o objectivo dos empresários de brinquedos é aumentar o seu lucro, e não garantir o bem estar das pessoas.


Dizemos não aos brinquedos sexistas
Porque por intermédio deles estamos a fomentar a desigualdade de género. Não se trata de impor nada, mas simplesmente de superar a uma construção social ideologicamente direccionada que afirma que «isto é para rapazes» e «aquilo é para raparigas». Note-se que quando se chama rapariga a um rapaz que brinca às casinhas o efeito depreciativo desaparecerá se os modelos referenciais da criança (o pai, a mãe, o professor, …) realizam indistintamente as mesmas tarefas, contrariando os padrões convencionais que tendem a desvalorizar as actividades realizadas pelas mulheres. Com os brinquedos tais esquemas mentais poderão diluir-se ou reforçar-se.


Conselhos básicos ao comprar brinquedos:
- Brinquedos de paz e não deguerra
- Evitar os brinquedos que não sejam só para raparigas ou só para rapazes
-Brinquedos em demasia não são bons
-Brinquedos que possam também divertir os adultos
-Os jogos de computador devem ser usados com bom senso e não serem demasiados absorventes
-Fazer sempre que possível os nossos próprios brinquedos
- Os brinquedos não deverão reproduzir nem reforçar comportamentos sexistas, autoritários, agressivos, racistas e egoístas.
- Ensinar as crianças a partilhas os seus brinquedos



Ler outros textos já publicados neste blogue: aqui, aqui

Mais info:
http://www.elmonoazul.org

As melhores tascas do Porto por Raúl Simões Pinto

Sugestões retiradas do livro «As Tascas do Porto», de Raul Simões Pinto, editado recentemente pela Afrontamento, e que constitui um inventário fascinante das casas de pasto e tascas, e de muitas histórias e memórias, que ainda vão subsistindo na cidade do Porto.


Uma lista elaborada por Raúl Simões Pinto, autor do livro As Tascas do Porto, onde são inventariadas dezenas de tabernas, adegas, casas de pasto, tasquinhas, botequins e tascas que ainda existem na cidade do Porto e que esperam por todos nós para se manterem vivas e com elas algumas das características mais marcantes da cultura popular urbana.


As «minhas» 20 tascas antigas e tradicionais do Porto, para que conste, antes que fechem as portas (por Raúl Simões Pinto):


1) Adega de S. Martinho - R. D.João IV, 795

2) O Alfredo Portista - R. do Cativo, junto a Cimo da Vila)

3) O Escondidinho de Paranhos - R. de Costa e Almeida, 255 (junto à Arca d'Água)

4) O Presuntinho - R. de Sro Ildefonso

5) Filha da Mãe Preta - R. dos Canastreiros ( à Ribeira)

6)Casa das Iscas - Largo da Igreja de Paranhos

7) Adega da Piedade - Muro do Ouro ( na marginal do rio)

8) O Firmino - R. da Preciosa ( em Pereiró, Ramalde)

9 ) O João do Fado - R. Direita de Francos, 146, Ramalde

10) Adega O Cantinho - Campo Mártires da Pátria, 130

11) Casa Costa - R. de Trás, 224 (na Vitória)

12) O Manel do Abade - R. da Estação ( em Campanhã)

13) O Tone das Águas - R. da Arrábida, 153 ( no Aleixo)

14) O Leandro - R de Trás (perto dos Lóios)

15) O Radar - R. das Taipas, 17C (perto do tribunal de S.joão Novo)

16) O Túnel - R. de Serralves (junto ao Hotel Ipanema)

17)O Escondidinho do Monte Aventino - R. do Monte Aventino, 236 ( às Antas)

18) A Flor de S. Vítor - R. de S. Vítor ( no Bonfim)

19) A Floresta - R. de Afonso Martins do Alho, 115 ( antiga travessa das Flores)

20) A Badalhoca - R. do Dr. Alberto Macedo ( em Ramalde)

Solidariedade com o bispo Dom Cappio em greve de fome na defesa do Rio São Francisco e contra o transvase das águas


Poesia de cordel em solidariedade com o bispo Dom Cappio em greve de fome na defesa do Rio São Francisco e contra o transvase das águas como está previsto no projecto governamental em vias de execução



Entre as muitas balelas
Que fazem divulgação
Com promessas mentirosas
De fartura e redenção
A mais deslavada eu digo
Pode acreditar amigo
É a da transposição.

Dizem que nosso sertão
Só vai melhorar um dia
Se as águas do São Francisco
Aqui fizer moradia
Transportando o velho Chico
Fazendo o maior fuxico
Com um rio em agonia.

Eu acho uma ironia
Trazer um rio cansado
Do estado da Bahia
Pra ele ser desviado
Do seu leito, do seu canto
Quando precisa portanto
De ser revitalizado.

Mas é que foi inventado
Pelo Dom Pedro Segundo
Desde o tempo do império
Um governo moribundo
Que seria a salvação
Trazer água pra o sertão
Dum rio grande e profundo.

Mas, é preciso ir mais fundo
Na nossa realidade
Hoje é bem diferente
Seja no campo ou cidade
Do século dezessete
Onde não pintavam o sete
Nem havia liberdade.




Sem ser dono da verdade
Posso afirmar que o rio
Sendo transposto assim
Num constrangido desvio
Para outra região
Não será a solução
Para a fome e o fastio.

Porque se somente água
Fosse a solução real
Não existiria fome
Em bacia fluvial
Amazônia e Mato Grosso
Onde a água corre grosso
De forma descomunal.

Só água não basta não
Tem que ter seriedade
Gerenciar os recursos
Com ética e muita vontade
Com políticas sociais
Compromisso e ideais
E solidariedade.

Dizer que 12 milhões
De pessoas no Nordeste
Vão saciar sua sede
E ficar livres da peste
Com esta transposição
É conversa pra bobão
E não pra cabra que preste.

Peço até que me conteste
Mas, é conversa fiada
Dizer que a transposição
Vai trazer uma enxurrada
De bênçãos e matar a sede
De quem dorme numa rede
Isso é promessa de fada

Porque a nossa desgraça:
Fome, sede e coisa e tal.
Nunca foi por falta d’água
Ou recurso natural
Mas, é a concentração
De renda e a exploração
Do sistema social.



Porque a transposição
Tem o seu objetivo
Voltado ao agronegócio
O seu marco decisivo
Criador de camarão
De tilápia e de salmão
Tem água e mais incentivo.


No eixo do Ceará
O destino é consciente
Água para a siderúrgica
Para o Pecém água quente
As empreiteiras lucrando
Com as obras faturando
E nosso povo doente.

Então vem um cearense
Radicado em Pernambuco
Escrever contra o bispo
Com sentimento caduco
Num cordel intransigente
Agressivo e inconseqüente
Igual bala de trabuco.

Seu alan Sales devia
Pesquisar mais a história
E não cair na conversa
Tão insensata e simplória
Que a fome no sertão
É por falta d?água, irmão
Reze uma ?jaculatória.?

A fome, sede e miséria
No sertão já faz alarde
Desde o tempo do império
O couro do pobre arde
É pela concentração
De terra e a opressão
Do latifúndio covarde.

O bispo Dom Cappio é
Fervoroso Franciscano
Que defende a natureza
Sem consultar o Vaticano
Seu compromisso é com a vida
Das pessoas sem guarida
Que esperam em Deus soberano.


Pois se São Francisco fosse
Vivo não comungaria
Em desviar nosso rio
Ele não concordaria
Transportar o velho Chico
Fazendo esse fuxico
Com tanta selvageria.

O bispo Dom Cappio é
Um homem justo e humano
Sem ganância e em soberba
Confirma o povo baiano
Porém foi desrespeitado
E ridicularizado
Por um poeta mundano.

A greve do bispo é
Um protesto rigoroso
Contra o cruel latifúndio
Atrasado e asqueroso
Pela vida e a favor
Da justiça e do amor
Contra quem é poderoso.

Os que são contra o bispo
E sua manifestação
São também contra as lutas
De Canudos e Caldeirão
Do Beato Zé Lourenço
Conselheiro que sem lenço
Queria um outro sertão.

A atitude do bispo
É uma revolução
Como foi com o beato
Construindo o Caldeirão
E Conselheiro em Canudos
Sertanejos sem escudos
Resistindo à opressão.

Canudos e Caldeirão
Tinham tudo com fartura
Farinha, milho e feijão,
Leite, carne e rapadura
Tinham água à vontade
Mas, destruíram a cidade
De forma cruel e dura.



A luta do bispo clama
Por vida com dignidade
Para o povo do sertão
Seja do campo ou cidade
Sem fazer transposição
Mas, buscando solução
Com solidariedade.


Se o rio for transportado
Vai se sentir muito mal
Será grande a agressão
Pra natureza em geral
Alertamos a toda gente
Que será sem precedente
O impacto ambiental.


O bispo Dom Luiz Cappio
Tem comportamento ético
É humilde e humanista
Tem pensamento eclético
Porque defende os pobres
É um perigo para os nobres
Este seu gesto profético.


O bispo Dom Luiz Cappio
Merece nosso respeito
E não ser zombado assim
Por um maldoso sujeito
Que usa a poesia
Pra dizer tanta heresia
De um homem de conceito.

A greve do bispo é feita
Para sensibilizar
Governantes insensíveis
Para não continuar
Esta obra inconseqüente
Do rio que está doente
Devemos lhe preservar.

Porque hoje o velho Chico
Está muito ameaçado
Queimadas, desmatamento
Encontra-se assoreado
Tem que ficar no seu canto
Precisa ele, portanto
É ser revitalizado.

Água estocada em açudes
Aqui no Nordeste tem
O problema é o destino:
Quem vai usá-la também
Quem controla é a questão
O problema é a gestão
De séculos sem fim, amém.

O presidente devia
Ouvir a população
Movimentos Sociais
E o povo do sertão
Fazer cisternas de placas
Pagar bom preço por sacas
De milho, fava e feijão.

Para que transposição
Se a água vai ser cobrada ?
O destino está traçado:
Fruticultura irrigada
Das multinacionais;
Carcinicultura e mais
Pra siderúrgica implantada.


O compromisso de Lula
Agora é com empresário
E com o agronegócio
E o latifundiário
Que atrasou o Brasil
Explorando a mais de mil
O agricultor e operário.

Se Lula não abre mão
Da obra descomunal
É porque tem compromisso
Com o grande capital
Se o bispo morrer de fome
Morre o corpo a terra come
Mas fica o seu ideal.


A concentração de renda
Desigualdade social
Falta de políticas públicas
Para a zona rural
É o grande mal e a mágoa
De quem não tem terra e água
Pra tomar um sonrisal.
Se a esmola é muito grande
Todo cego desconfia
Este projeto promete
Redenção e galhardia
Mas, tem ?gente? interessada
Quer só o lucro e mais nada
Deus nos livre, Ave Maria.


Se o governo quer mesmo
O sertanejo com água
Faça milhões de cisternas
Para a chuva que deságua
Ser pra dentro captada
Água boa armazenada
E o povo com menos mágoa.

Façam pequenas barragens
E açudes no sertão
Sejam também equipados
Pra pequena irrigação
Com correto equipamento
E com acompanhamento
Técnico e orientação.


Se a água existente
Nos açudes armazenada
Fosse bem distribuída
Com justiça utilizada
Com um programa de gestão
Seria a solução
Sem transposição, sem nada.

Já chega de violência
Contra o meio ambiente
A natureza devastada
Morre bicho, planta e gente
Efeito estufa é o tal
Aquecimento global
E o planeta doente.

Defendem a transposição
E falam em crescimento
Econômico voltado
Para o desenvolvimento
Visando o lucro insano
Sem pensar no ser humano
Na vida em seu elemento.


Pensam no imediato
O lucro é sua verdade
Devastam a flora e a fauna
Nossa biodiversidade
O planeta ameaçado
Por um modelo atrasado
Sem sustentabilidade.

Dizem que isso é progresso
Que a ciência não erra
Transgênicos, Transposição
Vão devastar nossa terra
E as multinacionais
Lucrando cada vez mais
Deixando o planeta em guerra.


Conviver no semi-árido
É realmente viável
Sem transposição de um rio
Com esta agressão terrível
Uma obra deplorável
Mas, outro mundo é possível
Sem essa agressão terrível
E com vida sustentável.

Portanto, Seu Alan Sales
Esqueça a transposição
Escreva o seu cordel
Com outra conotação
Respeite o bispo e o povo
Que querem um mundo novo
E vida para o sertão.




José Rogaciano S. Oliveira
Tauá-CE, dezembro de 2007



Mai info: aqui, aqui, aqui








Informação sobre o rio São Francisco retirada da Wikipedia:

O rio São Francisco, também chamado de Opará, como era conhecido pelos indígenas antes da colonização, ou popularmente de Velho Chico, é um rio brasileiro que nasce na Serra da Canastra no estado de Minas Gerais, a aproximadamente 1200 metros de altitude, atravessa o estado da Bahia, fazendo a divisa ao norte com Pernambuco, bem como constituindo a divisa natural dos estados de Sergipe e Alagoas. Por fim, deságua no Oceano Atlântico, na região nordeste do Brasil.
Com 2.800 km de extensão, e drenando uma área de aproximadamente 641.000 km2, o rio São Francisco nasce no estado de Minas Gerais, na Serra da Canastra, desemboca no Oceano Atlântico, entre Sergipe e Alagoas. Apresenta dois estirões navegáveis: o médio, com cerca de 1.371 km de extensão, entre Pirapora(MG) e Juazeiro(BA)/Petrolina(PE) e o baixo, com 208 km, entre Piranhas(AL) e a foz, no Oceano Atlântico.
O rio São Francisco atravessa regiões com condições naturais das mais diversas. As partes extremas superior e inferior da bacia apresentam bons índices pluviométricos, enquanto os seus cursos médio e sub-médio atravessam áreas de clima bastante seco. Assim, cerca de 75% do deflúvio do São Francisco é gerado em Minas Gerais, cuja área da bacia ali inserida é de apenas 37% da área total.
A área compreendida entre a fronteira Minas Gerais-Bahia e a cidade de Juazeiro(BA), representa 45% do vale e contribui com apenas 20% do deflúvio anual.
Os aluviões recentes, os arenitos e calcários, que dominam boa parte da bacia de drenagem, funcionam como verdadeiras esponjas para reterem e liberarem as águas nos meses de estiagem, a tal ponto que, em Pirapora (MG), Januária (MG) e até mesmo em Carinhanha (BA), o mínimo se dá em setembro, dois meses após o mínimo pluvial de julho.
À medida em que o São Francisco penetra na zona sertaneja semi-árida, apesar da intensa evaporação, da baixa pluviosidade e dos afluentes temporários da margem direita, tem seu volume d'água diminuído, mas mantém-se perene, graças ao mecanismo de retroalimentação proveniente do seu alto curso e dos afluentes no centro de Minas Gerais e oeste da Bahia. Nesse trecho o período das cheias ocorre de outubro a abril, com altura máxima em março, no fim da estação chuvosa. As vazantes são observadas de maio a setembro, condicionadas à estação seca.

20.12.07

Jaime, de António Reis ( filme de 1974)


Consultar o excelente blogue dedicado à obra de António Reis:




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Reproduz-se a seguir o texto de Mathias Lavin, retirado de um das edições da revista Docs.pt :

Jaime de António Reis (1974)
A VIDA DE UM HOMEM INFAME

Jaime pertence à categoria pouco frequente de filmes cuja singularidade é quase ofuscante. Não a essa “aristocracia de obras primas” de que falava Susan Sontag a propósito de Hitler de Syberberg, nem a essas obras menores das quais muitos cinéfilos são apreciadores, mas antes à constelação desses filmes solitários e frágeis que figuram à margem de toda a genealogia estilística e quase sem linhagem. Hoje estamos algo esquecidos de que nos anos 70, sobretudo depois da realização de Trás-os-Montes (1976), António Reis era considerado no discurso crítico, tanto em Portugal como no estrangeiro, o realizador português mais importante juntamente com Oliveira – à frente de Paulo Rocha, Fernando Lopes, ou César Monteiro, que avançará para primeiro plano durante o decénio seguinte. Se a morte prematura do cineasta e o número diminuto das suas obras lhe conferem desde logo um estatuto quase secreto, à distância de 30 anos a emoção crítica provocada por Jaime torna-se ainda mais surpreendente.


Oriundo do Porto, Reis iniciou a sua actividade cinematográfica como assistente de Oliveira em Acto da Primavera (1963) e como argumentista de Mudar de Vida (1967) de Rocha, realizando três curtas-metragens documentais nos anos 60. É preciso lembrar igualmente que, desde finais dos anos 50, Reis escrevia poesia, uma prática que não deixou de se reflectir no conjunto da sua obra. Porque, se por um lado, podemos colocar Jaime na linha dos documentários que tentaram transformar a visão comum sobre a loucura, por outro, a sua vertente poética distingue-o de Matti da Slegare (Agosti/Bellocchio/Petraglia/Rulli, 1975), Animación en la Sala de Espera (Coronado/Rodriguez Sans, 1981) ou San Clemente (Depardon-Ristelhueber, 1982).


Para evocar Jaime, que deu a conhecer o nome de António Reis, um quase estreante de 47 anos, e o da sua companheira e colaboradora, Margarida Cordeiro, deve referir-se o contexto da sua realização. Filmado durante o ano de 1973, estreado de forma providencial logo após a revolução, no início de Maio de 1974, o filme esteve em adequação perfeita com o seu tempo. Compreende-se de que maneira o retrato de Jaime Fernandes - um camponês originário da região da Covilhã, que tendo passado quase 30 anos num asilo, onde morreu em 1969, começou subitamente a desenhar e a pintar depois dos 60, na mais pura tradição da arte bruta - podia rimar com a época da anti-psiquiatria, da crítica da clausura e das instituições.


Ao rever o filme, torna-se evidente a proximidade com um dos mais belos textos de Michel Foucault, La vie des hommes infames, ambos atendendo às “existências obscuras e infortunadas”. Mais ainda, no contexto português, o filme (o início em particular) oferece uma metáfora suficientemente legível de um país sufocado pelo Salazarismo – como o fará alguns meses mais tarde o Benilde de Oliveira num registo diferente. E compreende-se que esta obra, apesar da sua curta duração, tenha suscitado inúmeras discussões ao longo de toda a Primavera de 74, como se o silêncio ao qual estavam confinados os loucos tivesse um valor de metonímia para todo um povo e devesse ser compensado por uma libertação geral da palavra.


Após uma fotografia de Jaime, e um plano sobre as suas notas, o filme abre-se no pátio circular do Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Estes planos utilizam efeitos de íris que, mais do que um processo do cinema mudo, evocam uma visão através de um óculo de alcance ou de um buraco de fechadura. As poucas silhuetas pressentidas, apanhadas na sua inacção ou na repetição de gestos simples, parecem remeter para um universo carcerário. Se a entrada no asilo se faz por arrombamento, a inteligência do cineasta reside na escolha de não associar a obsessão de um olhar e o carácter espectacular do que é mostrado. Vemo-lo claramente nesse plano onde as sombras imóveis de três pacientes são projectadas sobre uma parede, enquanto um médico de bata branca atravessa o espaço em diagonal. Não se trata de descrever, nem de denunciar, mas de recolher e de produzir um conjunto de signos com carácter fragmentário assumido. Nessas imagens em parte encobertas, nesses corpos filmados à distância, ou nessas sombras, inscreve-se a dimensão de vestígio do filme. Dessa maneira, emergem os magros rastos da vida de Jaime no seio da instituição asilar, como outros tantos retalhos da grande História.


O filme é pontuado regularmente por imagens mostrando a escrita de Jaime e as suas fórmulas opacas, pelos seus desenhos (personagens, animais), ou ainda por documentos que emanam da instituição médica (notas, gráficos), diversas marcas dessa existência de clausura. Uma fórmula anotada por Jaime é particularmente tocante: “morrereis como estes retratos” – logo depois, Reis mostra detalhes de um desenho, um animal (difícil de identificar) levado pela trela por um personagem. Estariam as imagens, elas próprias, condenadas à morte? O risco existe e toda a obra de Reis está assombrada pela angústia de ver desaparecer o que foi gravado pela câmara, mas o filme não coloca a morte como uma paragem definitiva: “oito vezes Jaime já foi morto aqui” adianta um outro fragmento de texto. A morte torna possível o renascimento como indica uma das sequências mais impressionantes do filme: filmado de costas, um homem vestido com uma capa de cores faz um gesto com a mão em direcção a uma porta do asilo enquadrada por dois pacientes deitados. Essa benção profana, quase tão miraculosa como a de Johannes em A Palavra [Carl T. Dreyer, 1955], faz abrir a porta do edifício e, após um raccord no eixo, um médico sai, precipitando-se então a câmara através da abertura para conduzir a uma banheira, que passa a ocupar todo o plano.


Reis não se contenta com a imagem, apesar de tudo muito atraente, deste lugar de cura e de tortura. Ele associa a esta imagem o som do vento e, sempre com esse mesmo som, faz o encadeamento com planos de uma barca, depois de uma torrente. Neste fragmento, vemos como a dimensão política (fazer justiça ao que se manteve na noite da clausura) é utilizada juntamente com um princípio de movimento poético: o vento que reforçava o aspecto desértico do asilo acompanha o fluxo da corrente, a banheira transforma-se em embarcação, etc.. Não se trata de uma estrita equivalência, mas sim de um princípio de encadeamento que se encontra frequentemente no filme, seja pelo parentesco das formas (por exemplo, um pouco mais adiante, uma panorâmica sobre uma colina e depois sobre um cavalo) ou pelo choque de elementos (especialmente a dissociação entre som e imagem). Reis e Cordeiro dão assim a experimentar uma sensação de co-dependência dos diferentes elementos filmados.


Este último ponto permite atenuar uma interpretação frequente que considera Jaime como um meio de encontrar, através de um certo número de artifícios, a subjectividade de um alienado. Se, por um lado, essa leitura se justifica, nela falta todavia um elemento essencial: tudo aponta no filme para a recusa de uma fronteira entre objectividade e subjectividade – como entre normalidade/ anormalidade – o que faz com que a identificação de um ponto de vista, ainda que delirante, se torne problemática. Trata-se de operar a passagem do ponto de vista à visão, para tornar sensível essa co-dependência dos dois elementos separados pela experiência quotidiana. Assim, um outro olhar é frequentemente lançado sobre as coisas do mundo e não apenas sobre o asilo. Vemo-lo, por exemplo, nos planos filmados num interior sombrio (sem dúvida a casa da esposa de Jaime), onde a câmara se demora sobre réstias de cebolas, um monte de espigas de milho, ou uma pipa de vinho. Estas coisas vulgares tornam-se tão estranhas como as maçãs artificiais de tamanho desproporcionado ou a cabra imóvel num palheiro (o do asilo ou o da casa de família?). E poderíamos continuar ainda a enumerar outras imagens: o curso de um ribeiro, um campo de flores atravessado por uma câmara que enlouquece, uma tigela vazia poisada sobre uma mesa; tantos planos que ficam fortemente impregnados na memória devido à sua estranheza, e à sua quase novidade.


Numa entrevista feita por João César Monteiro no momento da estreia do filme, Reis compara as criações de Jaime às do fauvismo e do expressionismo - apesar dele não ser contemporâneo destes dois movimentos pictóricos - afirmando: “o seu tempo histórico e psicológico era outro.” Evidentemente, esta observação remete para a arte de um cineasta que se quis sempre “excentrado” e cujo lado inactual convida à redescoberta.


Mais ainda, parece-me que a herança de António Reis e de Margarida Cordeiro mereceria finalmente ser assumida. Seguindo este exemplo maior, os realizadores de documentário não deveriam renunciar à dimensão poética da sua arte. Poderiam autorizar-se uma força visionária, não se contentando com uma atitude de aceitação ou de denúncia do que existe. Isto, em suma, para seguir o programa de Foucault que comecei por usar para descrever a sua afinidade com Jaime: “fazer aparecer o que não aparece – não pode ou não deve aparecer: dizer os últimos níveis, os mais ténues do real.” •


Referências:

Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo (org.), António Reis e Margarida Cordeiro – A poesia da terra, Cineclube de Faro, 1997. [Uma obra de referência de grande qualidade]



ANTÓNIO REIS
António Reis (1927-1991) chega ao cinema nos anos 60, quando já exercia actividade como pintor e poeta. Após curtas-metragens documentários, chama a atenção para o seu trabalho com Jaime (1974), a que se seguiram três longas-metragens (Trás-os-Montes, Ana e Rosa de Areia), realizadas com a sua mulher Margarida Cordeiro. As suas obras, oscilando entre o ensaio e o poema, são consagradas à cultura popular de Trás-os-Montes. Reis foi igualmente um grande pedagogo que formou a nova geração de cineastas portugueses na Escola Superior de Teatro e Cinema.

MATHIAS LAVIN
Mathias Lavin, doutor em cinema pela universidade Paris III (tese consagrada à obra de Manoel de Oliveira), lecciona Estética e História do Cinema (Lyon II e Paris III). Autor de diversos artigos, nomeadamente para as revistas Trafic, Cinergon, Vertigo; chefe co-redactor da revista de literatura Action Restreinte.

Hoje é o lançamento de mais um número da Docs.pt, a única revista dedicada ao documentário

Vai ser lançado hoje no Museu do Chiado pelas 18h30 mais um número da revista Docs.pt, a única publicação do género dedicada ao cinema documental.
Trata-se desta vez de um número temático sobre a «Arte do Cinema – a hipótese cinema no campo das artes»


Com esta edição temática, a docs.pt intenta abrir um campo de reflexão e de partilha teórica sobre a relação entre cinema e arte, sobre correspondências e ressonâncias entre diversas práticas e processos de criação. Privilegiando a dimensão do encontro e a forma dialógica, procurámos convocar autores e ensaístas oriundos das diversas áreas e desdobrar o pensamento em torno do cinema, das suas migrações no campo das artes e da sua mise en espace, do documentário sobre as artes e os seus dispositivos.


Será projectado o documentário "Le Centre Georges Pompidou" de Roberto Rossellini, com a presença do produtor Jacques Grandclaude, no contexto da exposição Centro Pompidou Novos Media 1965-2003


A docs.pt é a única publicação portuguesa dedicada ao cinema documental e uma das poucas existentes na Europa. Bilingue – em Português e em Inglês -, e editada duas vezes por ano (em Junho e em Outubro), a docs.pt foi criada para servir de veículo de promoção e de difusão da cultura cinematográfica portuguesa, dos seus autores, obras e realidades.
A docs.pt assume-se como uma proposta alternativa para todos os que se interessam pelos documentário contemporâneo.


Tem como objectivos divulgar o cinema documental e levar os filmes a um público cada vez mais alargado, constituir um acervo escrito da evolução e do crescimento deste género em Portugal e criar condições para um espaço crítico onde se pense e debata o cinema e as suas linguagens.
Assim, num âmbito mais restrito, a docs.pt responde às necessidades de um conjunto de profissionais e de estudantes das áreas do cinema, audiovisual, comunicação, artes, e ciências sociais, que, tendo já encontrado espaços e momentos de visibilidade das obras documentais, pode encontrar nesta publicação um campo de reflexão mais aprofundado.
A docs.pt quer ser uma janela para outras realidades, um veículo de aprofundamento e de interligação das várias práticas do cinema e do cinema Documental, confrontando-as com cinematografias estrangeiras, segmentos das artes visuais e performativas, estimulando uma convivência com outras áreas e pessoas de formação diversa.
Editada pela Apordoc – Associação pelo Documentário, a docs.pt enquadra-se na linha de acção da organização, empenhada em contribuir para a criação e para o desenvolvimento de uma cultura do cinema documental em Portugal.
Uma das particularidades da docs.pt é ter partido de uma pluralidade de ideias e formas de expressão. Por essa razão, apostou numa direcção editorial organizada num conselho ou fórum de “consulta”, onde são elaboradas e discutidas as opções editoriais de cada número. Este conselho editorial é composto por um grupo de realizadores, produtores, programadores, professores e jornalistas.

EQUIPA
Direcção: Caroline Barraud
Direcção editorial (número especial / Dez. 2007): Luciana Fina
Coordenação de redacção e edição: Miguel Coelho
Revisão: Cátia Salgueiro, Raquel Schefer
Tradução inglesa: Kevin Rose, Mark Cain, Claudia Buonaiuto
Tradução portuguesa: Maura Lemos, Paola d´Agostino
Conselho editorial: Ana Isabel Strindberg, Caroline Barraud, Cátia Salgueiro, Clémentine Mourão-Ferreira, Luciana Fina, Miguel Coelho, Susana de Sousa Dias, Susana Martins
Publicidade e distribuição: Margarida Ventosa
Assinaturas: Nina Ramos
Tratamento de imagem: Pedro Silva
Produção gráfica: João Costa
Design: Miss Sushie


CONTACTOS
Redacção: docsptred@gmail.com
Publicidade e distribuição: docs.ptpub@gmail.com
Assinaturas e vendas: apordoc@sapo.pt
http://www.apordoc.org/index.htm?no=2020001230

http://www.apordoc.org/index.htm

Em Coimbra a Escola da Noite tem em cena «Na estrada Real» de Tchékhov até 23 de Dez.



A Escola da Noite está a apresentar, no mês de Dezembro, o espectáculo "Na Estrada Real [um estudo dramático]", de Anton Tchékhov, com encenação de António Augusto Barros.

O espectáculo, que estreou a 19 de Outubro e teve uma curta temporada (14 espectáculos], vai estar em cena entre 13 e 23 de Dezembro, de terça a sábado às 21h30 e aos domingos às 16h, na Oficina Municipal do Teatro.

Em "Na Estrada Real" — um exercício de escrita a partir da forma do melodrama —, Tchékhov propõe uma curiosa e (ainda hoje) perturbante inversão dos termos normalmente associados a este género teatral, particularmente popular na Europa do final do século XIX. Evitando conscientemente, e com grande mestria, o facilitismo panfletário ou moralista, bem como o final feliz que hoje associamos a certos tipos de entretenimento cinematográfico ou televisivo, Tchékhov (e, com ele, A Escola da Noite) convida os espectadores a entrar na taberna de beira de estrada onde Tíkhon, seu proprietário, alberga peregrinos, trabalhadores fabris, vagabundos e fidalgos. E porque o mundo, a vida e o ser humano são sempre mais complexos do que a forma como conseguimos representá-los, recusa fornecer-nos as conclusões, desafiando cada um de nós a terminar uma história aparentemente inacabada.
Em "Na Estrada Real" — um exercício de escrita a partir da forma do melodrama —, Tchékhov propõe uma curiosa e (ainda hoje) perturbante inversão dos termos normalmente associados a este género teatral, particularmente popular na Europa do final do século XIX. Evitando conscientemente, e com grande mestria, o facilitismo panfletário ou moralista, bem como o final feliz que hoje associamos a certos tipos de entretenimento cinematográfico ou televisivo, Tchékhov (e, com ele, A Escola da Noite) convida os espectadores a entrar na taberna de beira de estrada onde Tíkhon, seu proprietário, alberga peregrinos, trabalhadores fabris, vagabundos e fidalgos. E porque o mundo, a vida e o ser humano são sempre mais complexos do que a forma como conseguimos representá-los, recusa fornecer-nos as conclusões, desafiando cada um de nós a terminar uma história aparentemente inacabada.

de 13 a 23 de Dezembro
de terça a sábado, às 21h30, domingos, às 16h00
Oficina Municipal do Teatro, Coimbra
espectáculo para maiores de 12 bilhetes entre 6 e 10 Euros
reservas telf 239 718 238, 966 302 488


um estudo dramático em um acto de Anton Tchékhov

tradução do original russo António Pescada
encenação António Augusto Barros
elenco António Jorge, Eduardo Dias, Eduardo Gama, Maria João Robalo, Miguel Magalhães, Ricardo Kalash, Rui Valente, Sofia Lobo, Sílvia Brito e Valdemar Cruz



A Escola da Noite
Rua Pedro Nunes, Oficina Municipal do Teatro
3030-199 COIMBRA

www.aescoladanoite.pt

tel. 239 718 238 fax 239 703 761
tlm. 965 659 792




A Escola da Noite apresenta Tchékhov em sessão especial para Russos


O espectáculo de domingo, 23 de Dezembro, a apresentar pelas 16h, inicialmente divulgado para o público em geral, vai ser apresentado em exclusivo para os cidadãos russófonos, numa colaboração entre a companhia e a Embaixada da Federação da Rússia. Uma maneira curiosa de terminar um ano de trabalho d'A Escola da Noite em torno da obra teatral do escrito russo: recordamos que "Na Estrada Real" é o terceiro e último espectáculo do ciclo dedicado ao dramaturgo russo que tem ocupado a companhia desde o início do ano, depois do exercício-espectáculo "A Boda" e do muito elogiado "Tchékhov e a Arte Menor", que incluía a representação de seis peças em um acto deste autor.


Espectáculo de TEATRO
23 de Dezembro DOMINGO 15h

Oficina Municipal do Teatro Coimbra
“NA ESTRADA REAL”
peça de Anton Tchékhov por A ESCOLA DA NOITE
Sessão especial para cidadãos russófonos
Entrada gratuita com marcação antecipada obrigatória pelo telefone 239718238 ou telemóvel 966302488 [lotação limitada]
Organização: Embaixada da Federação da Rússia


Вечер Русской Культуры
В воскресенье 23 декабря 2007 года в 15.00
в помещении Муниципальной театральной мастерской города Коимбры состоится спектакль
театра "Escola da Noite", поставленного по пьесе А.П. Чехова «На большой дороге».
Специальное представление для русскоязычных граждан
Вход свободный. Предварительная запись по телефонам: 239 718238 или 96 6302488
[количество мест ограничено].
Организатор мероприятия: Посольство Российской Федерации.

Conversa-debate sobre o livro de Chomsky, A Democracia e os Mercados na nova ordem mundial,no café-livraria Gato Vadio (22 de Dez., Sábado, às 22h,)


19.12.07

Tarde de solidariedade para com o povo basco ( na Casa-Viva, Sábado, 22 Dez, às 15h)

Os legítimos anseios do povo basco em prol da sua auto-determinação merecem-nos o nosso maior apreço e admiração. A manipulação informativa e a repressão que se abateu sobre essa legítima aspiração não pode pois deixar de ser objecto da mais viva condenação, especialmente quando essa repressão recorre à tortura e violação dos direitos humanos.


Por isso, é importante a solidariedade para com um povo que luta pela sua emancipação social das forças externas que impedem a sua independência e soberania. Uma luta que, no nosso entendimento, não deve recorrer a armas nem a actos de violência gratuita, mas antes ter como protagonista principal a legítima vontade popular de se separar do Estado espanhol através dos meios pacíficos mais adequados por onde essa pretensão se possa manifestar.

A paranóia repressiva é de tal ordem que o Estado espanhol não se limita a ilegalizar Partidos políticos representativos dos bascos nem a fechar e a coagir órgãos de informação, mas vai ao ponto de pretender encerrar bares e cafés, simples estabelecimentos comerciais, onde a cultura basca se faz sentir com toda a sua vivacidade.
Felizmente, e segundo as últimas decisões do Supremo Tribunal de Justiça do Estado espanhol, o pedido de encerramento das chamada Herrico tabernas por parte das autoridades espanholas foi indeferido por se considerar que os seus titulares são pessoas particulares.

Mas muitas outras acções repressivas têm sido lançadas , constituindo grosseiras violações dos direitos humanos, como é o caso da tortura sistemática e da prisão sem provas nem fundamento legal.

A violência estatal não deverá, no entanto, justificar qualquer acto de violência gratuita sobre pessoas por parte de quem luta pela emancipação do povo basco.




Onde procurar informação sobre o país basco:

http://paisbasco.blogspot.com/

http://www.stoptortura.com/

http://www.behatokia.info/ observatório dos direitos humanos no país basco

http://www.gara.net/

http://irishbasquecommittees.blogspot.com/





Murais políticos em Euskal Herria (país basco)
http://muralespoliticos.blogspot.com


Parte I




Parte 2



Parte 3



Parte 4

Câmara do Porto vai destruir e desfigurar o Mercado do Bolhão (património da cidade)!




Uma bonita loja do comércio tradicional, situada numa das ruas circundantes ao Mercado do Bolhão, e que será certamente prejudicada com a instalação de um hipermercado no antigo Bolhão.


A decisão já foi tomada. O executivo da Câmara do Porto, liderado pelo inominável Rui Rio, vai entregar o Mercado do Bolhão a uma empresa holandesa (Trancrone), especializada em centros comerciais, para esta o transformar num grande supermercado com o inevitável parque de estacionamento subterrâneo.

Seguindo sempre a já velha e conhecida estratégia de desinvestir, deixar apodrecer e, depois, avançar para a privatização, Rui Rio desfere assim mais outro golpe contra o património público da cidade e a gestão pública dos equipamentos colectivos ao admitir não só a destruição do antigo Mercado do Bolhão da cidade, mas a concessão desse espaço por 50 anos a uma empresa privada para nele ser construído e explorado um incaracterístico supermercado que, além de ser altamente prejudicial para com os estabelecimentos do comércio tradicional existentes na zona circundante, vai desfigurar completamente o espaço tal como o conhecemos.


Notícia da imprensa:

O executivo camarário do Porto aprovou hoje, com os votos favoráveis da maioria PSD/CDS-PP e contra do PS e CDU, o contrato de concepção, construção e exploração, por 50 anos, da renovação do Mercado do Bolhão.
O PS justificou o voto contra com a recusa do presidente da autarquia, o social-democrata Rui Rio, de inclusão de um representante do partido na Comissão de Acompanhamento da execução do projecto.
O vereador socialista Matos Fernandes, que substituiu hoje Francisco Assis, afirmou que o projecto vencedor, da empresa de capitais holandeses Tramcrone, «é um mar de dúvidas».
«Aquilo que sabemos é que a equipa que ganhou é muito má a fazer projectos e muito boa a negociá-los», disse Matos Fernandes, referindo-se ao facto de ter sido seleccionado o concorrente que teve pior classificação na avaliação da qualidade técnica do projecto.
O vereador da CDU, Rui Sá, considerou a proposta «um cheque em branco», acusando a maioria PSD/CDS-PP de falta de transparência de procedimentos.
«Estamos a votar um contrato que remete o essencial para anexos que fazem parte do próprio contrato, mas não temos nenhum deles», frisou Rui Sá.
Para o autarca comunista, a execução do projecto da Tramcrone vai «destruir a alma do Mercado do Bolhão», sem dar garantias concretas aos actuais comerciantes e transformando o imóvel numa «filosofia de centro comercial e não mercado de produtos tradicionais».
«Porque é que na conferência de imprensa não falaram no supermercado?», questionou Rui Sá, acusando a maioria de ter «alguns pruridos» em admitir publicamente que a Tramcrone tem autorização para instalar um supermercado, que fará concorrência ao comércio tradicional do edifício.
O vereador do Urbanismo, Lino Ferreira, admitiu que a proposta da Tramcrone prevê a construção de um supermercado no Bolhão «mas não no mesmo piso do comércio tradicional».
O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, anunciou quarta-feira, em conferência de imprensa, que a Tramcrone venceu o concurso para a renovação do Mercado do Bolhão, com uma proposta de investimento de 50 milhões de euros.
Rui Rio referiu que «o objectivo é que o Mercado do Bolhão abra dentro de dois anos, no Natal de 2009», mas antes que as obras se iniciem é necessário ainda que o projecto de execução seja elaborado e aprovado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar).
O «novo» Mercado do Bolhão vai manter a traça original e partilhar a área comercial tradicional com novas lojas, cerca de metade das quais de cultura, lazer e restauração.
A Tramcrone vai construir dois pisos subterrâneos para cargas e descargas e estacionamento, com capacidade para 216 automóveis, e um piso intermédio entre os dois actuais pisos comerciais.
A restauração e o comércio tradicional vão ficar instalados no segundo piso, com entrada pela Rua Fernandes Tomás, a céu aberto, mas com cobertura amovível «para os dias de maior invernia».
Os pisos zero e um, ambos cobertos, vão receber lojas «âncora» e de conveniência.
Nos torreões do edifício, vão ser criadas pequenas habitações complementares ou serviços compatíveis, nomeadamente para utilização pelos comerciantes.
Rui Rio explicou que a Câmara do Porto vai ceder o edifício em direito de superfície por 50 anos, recebendo um milhão de euros no momento da emissão da licença de construção e uma percentagem dos resultados de exploração a partir do décimo ano.
Entre o décimo e 33º ano, a Tramcrone terá de pagar à autarquia 2,5 por cento dos resultados (cerca de 72 mil euros por ano) e, entre o 34º e o 50º ano, 43,5 por cento dos resultados (1,26 milhões de euros por ano).
Rui Rio referiu que uma das razões que levou a autarquia a escolher a proposta da Tramcrone, em detrimento da da Aplicação Urbana (do grupo espanhol Chamartín), foi o seu lema: «Os comerciantes do Bolhão são parte da solução e não do problema».
O autarca afirmou que a concessionária se compromete a negociar com cada comerciante e ocupante do Mercado do Bolhão as condições de continuação, reconversão ou saída do seu negócio.
Enquanto decorrerem as obras, os actuais comerciantes vão poder exercer a sua actividade de comércio tradicional num local ainda não definido, mas que será «tão próximo quanto possível do Mercado do Bolhão».
A Tramcrone compromete-se ainda a disponibilizar 200 mil euros por ano para actividades culturais, de animação e marketing, a executar de forma coordenada com a empresa municipal Porto Lazer.
O vereador do Urbanismo, Lino Ferreira, referiu que vai ser criado um gabinete técnico de apoio para os actuais comerciantes e um gabinete de acompanhamento e fiscalização, pela autarquia, da execução do projecto. Lino Ferreira disse hoje que a autarquia vai nomear um técnico para a comissão de acompanhamento, que «trabalhará todos os dias», permanência que, em sua opinião, inviabiliza a representatividade política nesta comissão.

Notícia da Lusa/SOL



Como é o Mercado do Bolhão ( para mais tarde recordar)