4.8.07

O espírito da utopia em Ernst Bloch

Pensar significa ultrapassar
(in O Princípio da Esperança, de Ernst Bloch)

«O utópico encontra-se espalhado por todos os lados, não há uma só cultura conhecida que ignore a sua presença visto que se converteu numa "dimensão antropológica essencial". Uma sociedade sem utopia é tão impossível como a um ser humano não sonhar. »

Ernst Bloch (8 de julho de 1885 - 4 de agosto de 1977) foi um filósofo alemão que dedicou uma atenção especial ao tema da utopia, vista como uma força revolucionária. As suas principais obras são «Princípio Esperança», «O Espírito da utopia», «Sujeito e Objecto em Hegel», todas elas abordando a problemática das utopias e a dimensão utópica da história humana: o homem não é só o produto do seu ser, mas está ainda dotado de um «excedente», de um «princípio de esperança», que se concretiza nas utopias sociais, económicas e religiosas, e se expressa nas artes e na música ("A relação com este mundo torna a música um sismógrafo social, ela reflete fracturas sob a superfície social, expressa desejos de transformação, convida à esperança. [...] O som exprime o que ainda está mudo no ser humano", afirma Bloch em O princípio esperança). O socialismo e o comunismo ilustrariam a capacidade de aplicação desse mesmo excedente humano.

«O que lhe fascinava eram os elementos imaginativos, os "sonhos diurnos" de todos nós, e como eles tinham o poder de modelar o comportamento e a cultura dos homens. Afastando-se da pretensão científica do marxismo, procurou enfatizar o conteúdo messiânico que a revolução era portadora. Para ele, o atraente dela estava nos seus elementos emocionais-redentores e não na sua dimensão racionais-evolucionista como Marx defendia. »

Defendendo-se de acusações de perseguir o irrealizável, Bloch desenvolverá o conceito, aparentemente paradoxal, da "utopia concreta", distanciando-se assim tanto do puro sonho quanto do banimento de todas as esperanças para um mundo melhor num qualquer além transcendental.

À ideia freudiana do inconsciente como algo "não-mais-consciente", o filósofo justapõe a existência do "ainda-não-consciente". "Sobretudo nos dias de expectativa, em que predomina, não o que já foi, mas sim o que está por vir, na dor indignada, na gratidão da felicidade, na visão do amor [...], transpomos claramente as fronteiras de um saber ainda-não-conhecido."

Importa esclarecer o uso do conceito utopia por Bloch,que é utilizado por ele de maneira bem mais ampla e genérica do que é comum. A palavra utopia é sempre associada à descrição de uma sociedade inexistente, a algo ainda não concreto e que jamais houve de facto, como na dialéctica de Platão ("República") ou na narrativa de Thomas More ("Utopia"), e tantos outros narradores utópicos. Este uso afigura-se-lhe limitado, pois é apenas um dos aspectos de como o fenómeno utópico aparece.
A utopia de Bloch é algo difenrente. É, por assim dizer, todo e qualquer pensamento maravilhoso que brota da mente humana. Pode ser a constituição de uma sociedade perfeita, a arquitectura intelectual de uma infinidade de reformadores religiosos e de filósofos sociais, ou um simples desejo de que ocorram coisas melhores no futuro. Pode surgir igualmente nos versos de um poeta, no sonhar acordado de um Goethe, de um Hölderlin,ou ainda nos castelos no ar das histórias infantis e das aventuras.

Bloch recebe influência de Hegel e Marx, e é amigo de Lukács, mas o seu marxismo sai fora de qualquer ortodoxia e adquire uma tonalidade singular que faz do filósofo alemão uma das vozes únicas no panorama intelectual europeu do século XX, e é considerado uma das fontes de todas as movimentações de contestação social ocorridas ao longo dos anos 60. Influenciou, por sua vez, filósofos como Adorno, Walter Benjamin e Erich Fromm.
A sua primeira obra, O Espírito da utopia, aparecida no início dos anos 20, faz dele um dos principais teorizadores do conceito de utopia, graças à qual é possível repensar a história e constitui, segundo ele, uma forma de messianismo moderno, e não por acaso escreveu uma obra de divulgação e análise a Thomas Muntzer («Thomas Muntzer, teólogo da revolução»), uma personagem mítica que protagonizou um movimento herético de cariz messiânico. No espírito da utopia ele escreve: "O mundo existente é o mundo passado, porém o anseio humano, em ambas suas formas – como inquietude e como sonho acordado – é a vela que leva ao outro mundo".

Mas a sua obra principal é o seu «Princípio da Esperança» em 3 volumes. A pré-condição para que se supere a servidão e as estruturas hierárquicas da sociedade é o princípio vital da esperança. Este não se deixa abalar por uma decepção qualquer, pois o ser humano precisa de coragem e de disposição à luta, um "optimismo militante". Prescinde pois de toda a leninista para fazer a Revolução.

Pelos seus escritos e pela sua descendência judia teve de se refugiar nos Estados Unidos, durante o regime nazi, após o qual voltou à Alemanha, tendo preferido em 1949 ir para a Universidade Karl Marx em Leipzig preterindo uma regência para que tinha sido convidado na Universidade Goethe de Frankfort. Pelas suas posições anti-estalinistas e opiniões libertárias resolve abandonar a RDA em 1961, quando se começa a construir o Muro de Berlim, passando a ser professor na Universidade de Tubingen


Bloch saudou o movimento estudantil nos anos 60 como uma "revolta contra a repressão primária", capaz de pôr em desordem e movimento uma sociedade estagnada. "Os nossos senhores fazem, eles próprios, que o homem comum se torne seu inimigo e se indigne, e a isso eles chamam de rebelião."


Títulos originais dos seus livros :
• Kritische Erörterungen über Heinrich Rickert und das Problem der Erkenntnistheorie, Dissertation, 1909.
• Geist der Utopie, 1918.
• Thomas Müntzer als Theologe der Revolution, München, 1921.
• Spuren, Berlin, 1930.
• Erbschaft dieser Zeit, 1935.
• Freiheit und Ordnung, Berlin, 1947.
• Subjekt - Objekt, 1949.
• Christian Thomasius, 1949.
• Avicenna und die aristotelische Linke, 1949.
• Das Prinzip Hoffnung, 3 vol., 1954-1959.
• Naturrecht und menschliche Würde, 1961.
• Tübinger Einleitung in die Philosophie, 1963.
• Atheismus im Christentum, 1968.
• Politische Messungen, 1970.
• Das Materialismusproblem, seine Geschichte und Substanz, 1972.
• Experimentum Mundi. Frage, Kategorien des Herausbringens, Praxis, 1975.


Traduções francesas
• Traces, Paris, Gallimard, 1968 (1998, coll. Tel)
• Thomas Munzer: théologien de la révolution, Paris, UGE, 10/18, 1975.
• Droit naturel et dignité humaine, Paris, Payot, 1976.
• L'esprit de l'utopie, Paris, Gallimard, 1977.
• Héritage de ce temps, Paris, Payot, 1977.
• Sujet-Objet. Éclaircissements sur Hegel, Paris, Gallimard, 1977.
• L'athéisme dans le christianisme: la religion de l'Exode et du Royaume, Paris, Gallimard, 1978.
• Experimentum mundi: question, catégories de l'élaboration, praxis, Paris, Payot, 1981.
• Le principe espérance, 3 vol., Paris, Gallimard, 1976, 1982, 1991.
• La philosophie de la Renaissance, Paris, Payot, 1994.


http://www.bloch.de/

http://www.ernst-bloch.net/

Concentração contra o encerramento e a venda de consulados de Portugal em França (no Rossio, 9 de Agosto às 15h.)


Os Portugueses, Emigrantes em França, precisam e solicitam a compreensão e apoio de todos.

Concentração no Rossio ( em Lisboa) contra o encerramento dos Consulados Portugueses


O Governo português quer encerrar quatro Consulados de Portugal em França: os das áreas de Nogent-sur-Marne, Versalhes, Orleães e Tours e concentrar todos os Emigrantesdessas áreas e todos os serviços, num único Consulado, o de Paris.

Em França, esses consulados, abrangem uma zona geográfica, superior a todo o território de Portugal, incluindo as regiões autónomas dos Açores e da Madeira.



Esses consulados, prestam um serviço público essencial a mais de 500 000 utentes, ou seja, a cerca de metade dos cidadãos portugueses e luso descendentes que residem em França.


Notícia via:
www.ocorencias.blogspot.com/


2.8.07

Cooperativa Torre Bela – estreia hoje em Lisboa o filme sobre uma das mais célebres ocupações de terras em Portugal

Está anunciada para hoje a estreia em Lisboa, depois de recuperado e restaurado devido à usura do tempo, o filme-documentário Torre Bela do cineasta alemão Thomas Harlan que relata a ocupação de uma herdade no concelho da Azambuja, Ribatejo, por parte de trabalhadores agrícolas e pequenos rendeiros durante o período revolucionário de 1974-75 em Portugal.

A herdade chamava-se Torre Bela, era propriedade do Duque de Lafões, Dom Manuel de Bragança, e estava praticamente ao abandono, sendo utilizada para reserva de caça e proveito exclusivo dos seus donos, apesar da sua grande extensão. O documentário é um importante testemunho histórico dos acontecimentos da época e das contradições que então se viveram.

A ocupação da herdade deu-se a 23 de Abril de 1975 e prolongou-se por alguns anos. Criou-se então uma cooperativa agrícola para organizar a produção e distribuição dos produtos agrícolas das terras que passaram a ser cultivadas, produção que serviu ao longo de alguns meses como fonte de abastecimento aos mercados urbanos limítrofes ( de Lisboa, por exemplo) num circuito que pretendia escapar aos intermediários e à especulação de preços, apostando sobretudo no contacto directo entre produtor e consumidor.

Outro motivo de interesse desta ocupação de terras é que foi realizada à revelia dos aparelhos partidários, nomeadamente do Partido Comunista, e ao contrário da orientação política que dele saía quanto à Reforma Agrária, e que consistia em tentar «legalizar» e «estatizar» as ocupações de terras tornando-as em UCPs (unidades colectivas de produção), na directa dependência do Ministério da Agricultura, a Cooperativa Torre Bela sempre manteve a sua estrutura e gestão em termos cooperativos e autónomos face ao aparelho do Estado. Este facto despertou por isso bastante animosidade por parte das forças hegemónicas da época, e dos sucessivos Governos Provisórios, levando inclusive, na fase descendente da Revolução portuguesa, a uma invasão da Torre Bela por um força dos Comandos militares, sob a chefia de oficiais contra-revolucionários, com o pretexto de haver fortes suspeitas que os trabalhadores ocupantes estivessem armados e possuíssem armamento pesado, o que se veio a revelar ser falso e calunioso, não passando de mais uma manobra de intimidação e chantagem sobre os cooperantes e a Cooperativa Torre Bela.

Mas se a Cooperativa Torre Bela foi objecto de assédio repressivo e vítima da luta pelo poder das forças político-partidárias, ela não deixou de ser, por outro lado, uma referência importante para todos os que dentro e fora de Portugal lutavam pelo avanço da nossa Revolução, tendo-se tornado por isso um local de visita obrigatória para muitos revolucionários que então passaram pelo nosso país, como ainda um destino para onde rumaram muitos jovens portugueses que lutavam pelo avanço das lutas dos trabalhadores e do Poder Popular.

Não é pois de admirar, e dado até o circunstancialismo histórico em que se vivia, que não eram poucas as dificuldades e as contradições que se viveram durante o tempo de vida da Cooperativa. A câmara do realizador alemão , autor do documentário, mostra justamente algumas dessas contradições então vividas, nomeadamente, a falta de consciência social do sentido e significados das acções e iniciativas em curso por parte de alguns elementos envolvidos na ocupação das terras e na gestão cooperativa, as dificuldades do seu quotidiano, o desespero mas também as esperanças por uma vida melhor.

Curiosa e sintomaticamente, foi um governo do Partido «Socialista» - mais uma vez apostado na recuperação capitalista e na «normalização» da economia do capital - presidido por Mário Soares, e com sociólogo académico António Barreto à cabeça do Ministério da Agricultura que determinou a devolução das terras aos antigos proprietários, dando a machadada final a uma experiência cooperativa.


O filme a exibir, a partir de hoje, tem já uma longa história, com a passagem por vários certames internacionais e ciclos de cinema, sendo um importante contributo para a análise social e histórica do período revolucionário que se viveu em Portugal nos anos de 1974 e 1975. Conta com a participação de músicos como José Afonso, e Francisco Fanhais, e anti-fascistas envolvidos directamente no projecto como Camilo Mortágua, célebre militante da LUAR, organização que lutou contra o regime fascista anterior ao 25 de Abril.


São de Serge Daney, um reputado crítico de cinema, e redactor da conhecida revista Cahiers de Cinema, estas palavras acerca do filme-documentário Torre Bela:

"Raramente se terá visto melhor o fazer e o desfazer de uma colectividade singular, feita ela própria de singularidades, apanhada num processo político em que ela é a verdade cega e o ponto da utopia."


O filme pode ser visto a partir de hoje, 2 de Agosto, na sala de cinema King



1.8.07

Sicko", o novo filme de Michael Moore

No país mais rico do mundo, os Estados unidos da América, existem 45 milhões de pessoas que não dispõem de cuidados médicos adequados, nem uma parte importante da população tem sequer um seguro médico. Paradoxalmente, demonstra-se que noutros países ditos subdesenvolvidos a população usufrui de maior apoio médico que nos EUA.
É sobre os cuidados de saúde à população que vive e reside nos Estados Unidos e o seu péssimo sistema de saúde pública que trata o novo documentário de Michael Moore
http://michaelmoore.com

http://thedailybackground.com





Entrevista com Michael Moore sobre o filme:

10º edição do Festival Altitudes em plena Serra de Montemuro


http://teatrodomontemuro.com/

Numa pequena aldeia – Campo Benfeito - em plena Serra de Montemuro, no concelho de Castro Daire, num ambiente natural de brumas, fráguas e pastagens verdes, que até nos leva a ter vontade de nos perdermos por lá, vai realizar-se mais uma edição do Festival Altitudes, promovido pelo Teatro de Montemuro. Uma inciativa que envolve a comunidade local mas também forasteiros de todos lados e que ficam rendidos à beleza natural, às gentes como à acção cultural desenvolvida na região por aquele grupo de teatro. Ainda não há muito tempo realizou-se nas mesmas instalações um workshop de didgeridoo e uma acção de formação de teatro para educadores e professores.

Nota importante: nos espectáculos à noite é recomendável um agasalho porque, apesar de Verão, faz frio na Serra.


O programa desta 10º edição do Festival Altitudes já foi divulgado e reproduzimo-lo a seguir:


11 AGOSTO


12 AGOSTO
14.30hWorkshop "Corpos Coloridos" orientado por Helen Ainsworth


13 AGOSTO
14.30hWorkshop "Corpos Coloridos" orientado por Helen Ainsworth


14 AGOSTO
14.30hWorkshop "Clown e Pantomima" orientado por Angel Fragua
21h30"Querido Che" de Abel Neves e Encenação de Almeno Gonçalves


15 AGOSTO
14.30hWorkshop "Clown e Pantomima" orientado por Angel Fragua

16 AGOSTO
14.30hWorkshop "Construção e Manipulação de Fantoches" orientado pelo Teatro Do Elefante
23h"Vira Milho" - Concerto Musical

17 AGOSTO
14.30hWorkshop "Construção e Manipulação de Fantoches" orientado pelo Teatro Do Elefante

18 AGOSTO
14.30hWorkshop"Aprender a tocarDidgeridoo" orientado por Rodrigo Viterbo

19 AGOSTO
14.30hWorkshop"Aprender a tocarDidgeridoo" orientado por Rodrigo Viterbo
23h"O quEstrada" - "Tasca Tour" – Concerto




Um aspecto da aldeia de Campo Benfeito, na Serra de Montemuro




AS CAPUCHINHAS - cooperativa de mulheres artesãs
Em Campo Benfeita existe ainda uma cooperativa de mulheres artesãs – As Capuchinhas (Cooperativa de Artesanato Local sediada na aldeia de Campo Benfeito, Concelho de castro Daire, distrito de Viseu) - que com os seus teares trabalham o linho e o burel e produzem uma bonita roupa tradicional que também faz parte do património da região:
http://capuchinhas.blogspot.com/

Contactos:
Capuchinhas, CRL

Campo Benfeito3600- 371
Gosende - Castro Daire
Telf./Fax: 254 689 160capuchinhas@clix.pt
SERRA DE MONTEMURO

Aproveitando a realização do Festival Altitudes em Campo Benfeito deixamos aí algumas pistas para uma incursão à Serra de Montemuro e que fomos buscar ao website da autarquia de Castro Daire:

Examinando a nossa Carta Hipsométrica, vemos destacar-se na metade setentrional do País, logo a seguir à serra da Estrela, uma zona de relevo com altitude máxima de 1382 m, de forma grosseiramente triangular, compreendida entre o douro, o seu afluente Paiva e uma linha quási recta tirada de Castro Daire por Lamego em direcção à Régua.”
É assim que Amorim Girão define Montemuro, aquela à que chamou, há muitos anos, “a mais desconhecida serra de Portugal”.
E ainda o é. Permanecem distantes os cerros onde se aventuram os pastores. As mulheres escondem ainda o rosto em velhas capuchas de burel.
As lendas ainda servem para explicar os tempos antigos. Mas sente-se que há um deus maior que guarda esta montanha, cuja plenitude apenas os simples de coração podem conhecer.
Este percurso pretende dar a conhecer ao visitante um pouco desta montanha desconhecida, rica em paisagens de cortar a respiração, onde as cooperativas artesanais se recusam a baixar os braços, e onde o visitante se pode deliciar com uma gastronomia de excepção.
Considerando Castro Daire como ponto de partida, tome a EN 2, que atravessa a montanha, em direcção a Lamego.
A 8 km de Castro Daire a serra é já uma imensidão vazia. A capela de Nossa Senhora da Ouvida, outrora aparecendo como milagre, é hoje companheira do parque industrial, à direita.
À esquerda, bem aconchegada na veiga vemos Moura Morta, curiosa aldeia que guarda no seu nome resíduos de lendas.
No Inverno a neve estende muitas vezes o seu manto por estas paragens.

Ao quilómetro 11,5, chega-se ao Mezio. A aldeia abriga-se no vale, mas veio gente acomodar-se à beira da estrada para servir o viajante com manjares da serra como se fossem preparados em casa de família e para nos mostrar os ofícios dos antigos artesões.
Aqui podemos encontrar artes tradicionais que vão desde a cestaria às tecedeiras, estando estas actividades organizadas num pequeno museu. Este será o primeiro ponto do nosso percurso turístico. Após perder largos minutos na visita ao museu e a loja de artesanato, são horas de nos fazermos à estrada. Leve a zero o seu conta-quilómetros, ele vai ajuda-lo a orientar-se.
Arrancamos de novo pela EN 2, sentido Lamego. Pouco depois de passar o nó de acesso à A 24, teremos que voltar a esquerda para Gosende.

Sente-se que a terra é áspera, apesar de haver castanheiros e carvalhos distribuídos pelas encostas e junto às múltiplas linhas de água. A 4 km desde a saída do Mezio, junto a uma pequena ponte, surge um sugestivo moinho coberto de colmo, que apenas mói com as águas de Inverno o pão de milho dos povos da vizinhança, Gosendinho e Gosende, cuja igreja pode ser visitada.

Seguindo a estrada, voltamos à esquerda ao quilómetro 5,7 em sentido a Campo Benfeito, e logo encontramos a rusticidade saborosa, quase românica, da Capela de Nossa Senhora do Fojo, com festa em Setembro.Um pouco mais a frente, junto a um cruzeiro, podemos disfrutar de uma fabulosa vista sobre a enorme Baixa do Rio Balsemão, uma veiga monumental que se estende desde Rossão até Pretarouca.

Andando, andando, ficam os povos de Campo Benfeito e Rossão. Foram importantes na Idade Média, isso dizem os pelourinhos. Ao quilómetro 7.6 somos chegados a Campo Benfeito. Aqui numa antiga escola primária, à entrada da aldeia, seis mulheres rodeadas de teares, linho e burel criam peças únicas e singulares, conhecidas e vendidas em todo o país.Depois de entrar e conhecer a Cooperativa e de dar uma pequena volta pelos meandros da aldeia, seguimos em direcção a Rossão. Aqui ainda se transforma rolos de palha e cascas de silva ou tiras de vime, em obras-primas de cestaria, como à 500 anos atrás. É a cestaria breza ainda útil e bela.Antes de chegar a Rossão o nosso percurso manda-nos cortar à esquerda, fazendo-nos adiantar pela serra mais alguns quilómetros.

Cerca de 10.5 km após a nossa partida do Mezio, encontramos a Cruz do Rossão, capelinha com um Cristo crucificado. Cruzavam-se aqui os antigos caminhos da serra. Uma oração exorcizava terrores de homens e de feras. Todos os anos havia ali, e ainda há, uma feira.

Os gados da transumância deslocados da serra da Estrela vinham há poucos anos para aqueles pastos, hoje desertos.Depois de nos maravilharmos com a fantástica plenitude que o Montemuro nos oferece, é hora de voltar ao caminho. No cruzamento junto à Capela, seguir para a esquerda em direcção a Picão. A estrada desce a encosta funda da serra voltada a sul.
As urzes cobrem o chão, e com um pouco de sorte poderemos encontrar uma pastora sentada ou um homem vigiando algumas vacas arouquesas, tudo sereno como se fosse o princípio do Mundo. A descida termina no cruzamento com a EN 321.
Aqui rumaremos à esquerda, para Picão. Perto do quilómetro 14 abandonaremos a EN 321, virando à direita para descermos até à aldeia de Picão.

Ao chegar a Picão somos recebidos por uma igreja cheia de preciosa imaginária, nichos de alminhas, fontes rústicas despejando água e duas impressivas máscaras de granito cravadas num muro, antropomorfas, as quais o povo identifica como o Picão e a Picoa, fundadores do lugar. Aventure-se pelo meio da aldeia, em busca das Lançadeiras de Picão, cooperativa de mulheres que se especializou na tradicional confecção de linhos e lãs. Esta aventura apeada vale pela aldeia assim como pelas peças artesanais que poderá adquirir.Voltando ao carro, continuaremos a nossa descida por esta encosta. Assim, sem nos apercebermos, estaremos a embrenhar-nos na Mata do Bogalhão. Uma impressionante mata composta por carvalhos e castanheiros centenários, com uma área aproximada de 200 ha.

É hora de voltar à EN 321, e aí voltar à esquerda, no sentido a Cinfães. Estaremos a voltar atrás no caminho que nos trouxe até Picão. Quase 20 km depois de iniciarmos o nosso percurso encontraremos a aldeia da Carvalhosa. Este merece uma visita mais minuciosa pelo seu interior.

Um pouco mais a frente (km 21.4), olhando para o lado esquerdo, teremos sobre a nossa visão a magnifica vista da aldeia de Picão, com os a aldeia posta bem acima dos campos em patamar, estendendo-se ate ao pequeno rio que corre no fundo do vale. Não existem caminhos para automóveis, sendo que estes campos são trabalhados à força de braços e bestas.

Esperam-nos cerca de 5 km de estrada, bons de fazer, até às Portas de Montemuro, uma viagem rápida até à dobra do monte que em tempos idos fez de penedia fortaleza. A Capela do Senhor das Portas está guardada dos ventos por muro negro de pedra. Do outro lado, fica outro mundo, o grande vale do Douro, como estrada de todas as ilusões, ao fundo de uma encosta que depressa se cobre de pomares e de pão. Vale a pena chegar até aqui.

Retornando pela mesma estrada, em direcção a Castro Daire. Pouco depois do quilómetro 28 do percurso, viramos à direita no cruzamento que nos leva a Faifa. Por esta estrada iremos concluir a descida desde o alto da serra até ao vale do rio. É hora de olhar a soberba paisagem que se desdobra à nossa frente, cobrindo o vale do rio Paiva, ao fundo, e os montes da Gralheira, elevados.

Continuando a descer em direcção ao Paiva, encontramos o último ponto do nosso percurso. Perto de 33 km depois da nossa saída do Mezio, deparamos com algo invulgar nestas serranias, um bosque de bétulas que se estende encosta abaixo, frente à aldeia de Eiriz

Findo o percurso continue a descer em direcção ao Paiva, cerca de 2.5 km, ate encontrar a EN 225. Agora vire á esquerda, rumando a Castro Daire, que dista cerce de 15 km deste ponto. Aproveite para apreciar o rio Paiva, que o acompanhará até ao destino. Mas o Paiva, isso é outro percurso

Blogues e links sobre a região:

http://homepages.oniduo.pt/gralheira/ ( aldeia da Gralheira)


http://serra-montemuro.blogspot.com/ ( recursos e links sobre a Serra de Montemuro)

http://boassas.blogspot.com/ ( Boassas)

http://pausresende.blogspot.com/


Sobre o Rio Bestança

http://www.bestanca.com/bestanca.php
O rio Bestança nasce nas Portas de Montemuro, na serra do mesmo nome, e morre em Porto Antigo, na margem esquerda do rio Douro.São 13,5 Km de curso, numa extensão de verdura e águas sempres cristalinas que o fazem um dos rios mais limpos da Europa

Ler o relato da última decida do rio Bestança:



Sobre a Binaural, em Nodar, e os Encontros Internacionais de Artes Transdisciplinares


A Binaural é uma Associação Cultural sem fins lucrativos fundada em 2004 com o intuito de promover a exploração e a pesquisa nos domínios da arte sonora / visual experimental, com especial ênfase na transversalidade de media e linguagens e na articulação entre a produção artística e o contexto envolvente, particularmente ao desenvolver actividades no espaço rural de Nodar.

O Nodar Guest Studio (Nogs) é uma parte importante da Binaural e está situado na comunidade rural de Nodar, uma pequena aldeia no norte do distrito de Viseu, Portugal situada a 150 Km do Porto e 350 Km de Lisboa.
As residências do Nogs são organizadas e produzidas em colaboração entre a Binaural e a Associação Nodar, esta última uma organização cultural e comunitária da aldeia onde se situa o Nogs.
A residência do Nogs está situada num espaço parcialmente renovado de uma casa típica rural. O Nogs pretende desenvolver uma plataforma de produção e interacção nas artes sonoras, visuais e ambientais, e o estabelecimento de uma rede de parcerias e colaborações ao nível nacional e internacional.

http://binauralmedia.org/texts/texts_fronteiras.html

http://binauralmedia.org/news.html

Fronte[i]ras 07 - Encontro Internacional de Artes Transdisciplinares
Datas: 17 a 30 Setembro de 200
Organização: Binaural (Portugal) e Alg-a (Galiza)
Formato: Residência Artística + Simpósio + Exposicão Itinerante
Convocatória de projectos artísticos: 11 Maio a 22 de Junho de 2007

30.7.07

Lançado o Pica Miolos de Agosto de 2007


Foi lançado e já está disponível mais uma edição do Pica Miolos, desta vez relativa ao mês de Agosto de 2007. Com uma excelente apresentação gráfica e um conteúdo de fácil leitura, este número inclui um cd com gravações de algumas bandas e músicos que passaram pela CasaViva.

O Pica Miolos é gratuito e está disponível na CasaViva, Praça Marquês de Pombal, 167, Porto











Editorial do Pica-Miolos sob a forma de apresentação da publicação com o título:

O porquê do Pica-miolos


Mais do que um espaço, a CasaViva é um meio de provocação. Nunca foi um projecto meramente artístico ou cultural. Muito menos uma ideia comercial ou pretensão de figurar no mapa da noite portuense. A CasaViva é um esforço de cidadania, um espaço de activismo, com aspiração a anfetamina que combata a letargia e a incapacidade de indignação. Para contrariar esta instituiçãodepensar, ser e conformadamente estar e viver.
Se o espaço é temporário, o projecto não quer ser efémero. Razão destas folhas de opiniões e notícias e que nos vão chegando e tocando mais profunda e especialmente.
Segue um critério necessariamente tendencioso, como todos os critérios editoriais de todos os media que se dizem imparciais. Objectivo: picar miolos. E, assim, participar na revolução das mentalidades desta sociedade acrítica e bem comportada e demonstrar de que lado do activismo a CasaViva vive e resiste.



Sumário-índice:

- O G8 come tudo, tudo. A EU come tudo o que puder. A polícia acha que ainda bate pouco.

- 4 anos de ocupação, 4 anos de resistência: mentira como técnica de governação

- A informação é mercadoria?

- 25 de Abril 2007, em Lisboa: Manifs sim, se cheirosas e bem vestidas

- Debate na CasaViva: Basta de cerejas, que é feito do bolo? (conversa vadia sobre o que é então a cultura e para que serve afinal)

- Pelo direito à habitação e ao lugar: a Plataforma Artigo 65 quer transformar a política de habitação

- Foi bonito, pá . A primeira marcha global pela marijuana no Porto

- Mais vale que arda a STCP

- Curtas notícias

Mais um suplemento com um Glossário Pica-Miolos

… e a acompanhar tudo isto um cd sob o simbólico título «A Vizinha queixou-se deste barulho» !



CASAVIVA167 - projecto multicultural de ocupação temporária de uma casa no Porto

Fanfarra Recreativa Improvisada Colher de Sopa (F.R.I.C.S.)

Fanfarra Recreativa Improvisada Colher de Sopa (F.R.I.C.S.) é uma banda que pratica música improvisada nos locais mais improvisados possíveis, mas que já têm um cd-r gravado de seu nome «Abraço Vivo»

A banda é constituída pelos seguintes elementos:

Sr. Almeida - Trompetes, Assobios

Sr. Costa - Percussões
Sr. Fernandes - Contrabaixo
Sr. Martins - Saxofone
Sr. Ricardo - Sintetizador Analgico
Sr. Saldanha - Bombardino, Trombone
Sr. Silva - Xilofone, Organeta
Dr Hostilino - Tele-Maestro

Consultar:
www.myspace.com/fanfarraimprovisada


Próximas actuações da FRICS ( Fanfarra Recreativa Improvisada Colher de Sopa)

01 Agosto/August - Sociedade Harmonia Eborense, Évora


15 Agosto/August - Festival de Paredes de Coura

Actuação da F.R.I.C.S. no Café Floresta ( Bragança) tocando em troca de bagaço na 4ª paragem da Capitais de Distrito Tour por ordem alfabética (26/05/07)

Nota: Floresta é um café snack bar em Bragança

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A sétima arte de Ingmar Bergman


"Ingmar Bergman is probally the only genius in cinema" (Woody Allen)

Ingmar Bergman, homem do teatro e do cinema, morreu na sua casa nas ilhas Faro . Bergman ajudou a muitos a compreender o que é a sétima arte, se bem que tenha sempre confessado a sua predilecção pela arte dramática. Não se cansou de abordar a condição humana. Filmes como O Ovo da serpente sobre a besta nazi, e Cenas da Vida Conjugal sobre o universo familiar marcam qualquer cinéfilo.

Ernst Ingmar Bergman (Uppsala, 14 de Julho de 1918 — Fårö, 30 de Julo de 2007) foi um dramaturgo e cineasta sueco. Estudou na Universidade de Estocolmo, onde se interessou por teatro, e mais tarde, por cinema. Iniciou a sua carreira em 1941, escrevendo a peça de teatro "Morte de Kasper" e, em 1944, escreveu o primeiro argumento para o filme "Hets". Realizou o primeiro filme em 1945, "Kris".
Os seus filmes lidam geralmente com questões existenciais como a mortalidade, solidão e fé. As suas influências literárias vêm do teatro: Henrik Ibsen e August Strindberg.

Dentro da sua extensa filmografía podemos distinguir varios períodos, pela sua temática e pela sua estética:
1946-1950: Aprendizagem
1951-1955: Primeiras obras
1957-1960: Maturidade
1961-1980: Moderno
1982- : Fora de parâmetros

Consultar:
http://www.bergmanorama.com/

http://film.guardian.co.uk/bergman/story/0,,2137813,00.html

http://www.filmref.com/directors/dirpages/bergman.html


Filmografia
• 2003 - Saraband (cinema digital)
• 2002 - Anna (TV)
• 2000 - Bildmakarna (TV)
• 1997 - Larmar och gör sig till (TV)
• 1995 - Sista skriket (TV)
• 1993 - Backanterna (TV)
• 1992 - Markisinnan de Sade (TV)
• 1986 - Documentário sobre Fanny and Alexander
• 1984 - Efter repetitionen (Depois do ensaio)
• 1983 - Karins ansikte
• 1982 - Fanny och Alexander (Fanny e Alexander)
• 1980 - Aus dem Leben der Marionetten (Da vida das marionetes)
• 1979 - Farödokument 1979
• 1978 - Höstsonaten (Sonata de outono)
• 1977 - Das Schlangenei (O ovo da serpente)
• 1976 - Ansikte mot ansikte (Face a face)
• 1974 - Trollflöjten (A flauta mágica )
• 1973 - Scener ur ett Äktenskap (Cenas de um casamento)
• 1972 - Viskningar och rop (Gritos e sussurros)
• 1971 - Beroringen (A hora do amor)
• 1969 - Farödokument
• 1969 - Ritten (O rito)
• 1969 - En passion (A paixão de Ana)
• 1968 - Skammen (Vergonha)
• 1968 - Vargtimmen (A hora do lobo )
• 1967 - Stimulantia
• 1966 - Persona (Quando duas mulheres pecam)
• 1964 - For att inte tala om alla dessa kvinnor (Para não falar de todas essas mulheres)
• 1963 - Tystnaden (O silêncio)
• 1962 - Nattvardsgästerna (Luz de inverno)
• 1961 - Sason I em spegel (Através de um espelho)
• 1960 - Djavulens oga (O olho do diabo)
• 1959 - Jungfrukällan (A fonte da donzela)
• 1958 - Ansiktet (O rosto)
• 1957 - Nära livet (No limiar da vida)
• 1957 - Smultronstallet (Morangos silvestres)
• 1956 - Det sjunde inseglet (O sétimo selo)
• 1955 - Sommarnattens leende (Sorrisos de uma noite de amor)
• 1955 - Kvinnodröm (Sonhos de mulheres)
• 1954 - En lektion I kärlek (Uma lição de amor)
• 1953 - Gycklarnas afton (Noites de circo)
• 1952 - Sommaren med Monika (Monika e o desejo)
• 1952 - Kvinnors väntan (Quando as mulheres esperam)
• 1951 - Sommarlek (Juventude, divino tesouro)
• 1950 - Sant händer inte här (Isto não aconteceria aqui)
• 1949 - Till glädje (Rumo à Felicidade)
• 1949 - Torst (Sede de paixões)
• 1949 - Fängelse (Prisão)
• 1948 - Hamnstad (Porto)
• 1948 - Musik I moker (Música na noite)
• 1947 - Skepp till India land (Um barco para a Índia)
• 1946 - Det regnar pa var kärlek (Chove em nosso amor)
• 1945 - Kris (Crise)

Entrevista a Ingmar Bergman -1


Entrevista a Ingmar Bergman -2




Os 50 anos do sétimo selo
http://www.the-seventh-seal.co.uk/


O sétimo selo
(excerto)





Persona (excerto)



Morangos silvestres (excerto)


O Condomínio da Terra - um livro de Paulo Magalhães

Foi recentemente editado um livro de leitura quase que obrigatória para todos os interessados nestes assuntos ( da ecologia ao direito ao ambiente) : O condomínio da Terra, das alterações climáticas a uma nova concepção jurídica do planeta, de Paulo Magalhães, jurista que trabalhou com a Quercus.

Consultar:
http://www.earth-condominium.com/intro.html

Organizar a Vizinhança Global

A nossa época é a época das alterações climáticas. É a época em que a humanidade se defronta com uma colisão massiva e sem precedentes, entre a nossa civilização e o planeta que habitamos. E no jogo entre probabilidades, incertezas e eventuais certezas, entre a pedagogia da catástrofe e o cepticismo, parece que nos resta apenas a convicção que nos enganámos completamente em relação ao ambiente. As alterações climáticas trouxeram consigo a definitiva certeza de que a estratégia de “ver para crer”, de “provar para validar”, falhou na rede de complexidade da natureza.

Só quando os efeitos do aquecimento global se exercem já de forma concreta, e tornam as eventuais medidas de correcção incertas e de limitada eficácia, é que se toma consciência de que este é um processo que está fora das nossas jurisdições. Lidamos com um sistema complexo, cumulativo e intricadamente interdependente. Sabemos hoje que globalização, interdependência e complexidade sempre existiram na natureza, e que esta não esperou que o homem as decifrasse para interagir como um único corpo vivo. O que se discute hoje já não é se o planeta está ou não a aquecer, mas sim se as águas vão subir um ou cinco metros, em dez ou cinquenta anos, por hipótese. Parece que o que é relevante é a que velocidade e a forma como aquece, e não o facto, já aceite de estar a aquecer. Mais uma vez, a mesma lógica de domínio e controlo do tempo e da realidade parece sobrepor-se ao único trabalho que podemos realmente fazer, que é organizar a nossa vizinhança e interdependência global, e conferir sustentabilidade organizacional a um futuro que exige a prossecução de interesses comuns.

Se é necessária uma outra revolução industrial, que passa obrigatoriamente pela descarbonização da economia, parece-nos que os ajustes tecnológicos sem mais, não resolvem um problema de base. A partir do momento em que sabemos que entre o espaço físico da crusta terrestre, o mar, a atmosfera e os seres vivos existem essas profícuas e intricadas interligações que sustentam a vida e que fazem o planeta funcionar como um único organismo vivo, tal facto transforma o nosso ultrapassado conceito de vizinhança fronteiriça numa vizinhança verdadeiramente global. Todos somos funcionalmente dependentes de bens que circulam de forma algo peregrina a nível planetário, e em que nenhum cidadão ou estado se pode excluir do seu consumo, e todos nós os podemos afectar de forma positiva ou negativa.

A “tarefa monumental” que séc. XXI nos impõe será de a conseguirmos definir o interesse comum, definir quem o defenderá, sob que autoridade e com que meios. Esta mútua interdependência funcional de bens globais requer uma inevitável administração comum.

O CONDOMÍNIO DA TERRA tem como objectivo conciliar uma primária necessidade humana de existência de um espaço vital, a territorialidade, com a unidade interdependente do planeta que os homens habitam, possibilitando a coexistência de soberanias autónomas num espaço colectivo, ou seja, um poder político, supremo e independente, relativo à fracção territorial de cada estado, e partilhado, no que concerne as partes insusceptíveis de divisão e que por isso são inevitavelmente comuns.



Do prefácio de autoria de Viriato Soromenho-Marques:

Fazer do perigo o que salva, tal é o famoso lema imortalizado num grande poema de Hölderlin. É a aceitação desse repto o que encontramos nesta obra do jurista e ambientalista Paulo Magalhães, sob a forma de um duplo desafio.
Desafio para o pensamento, na medida em que o autor nos propõe um olhar renovado sobre o sistema internacional, sobre a relação entre Estados e sistemas políticos, face ao desafio da crise global do ambiente.

Desafio para a acção, pois este livro não nos ilude quanto à urgência das tarefas políticas, jurídicas e económicas que temos de levar a cabo, se quisermos evitar o colapso de uma civilização que tarda em compreender que o único modelo para as sociedades humanas se relacionarem duradouramente com os ecossistemas não é o da dominação, mas sim o da habitação.

As alterações climáticas são o factor catalisador da crise global do ambiente, simultaneamente da sua centralidade e da sua visibilidade para o cidadão comum, que a entrada em cena da tecnociência como principal acelerador da história moderna transformou na realidade incontornável, na questão axial do nosso tempo, na causa definitiva da nossa época.

Paulo Magalhães explora, com ousadia intelectual, um caminho de analogia teórica. E se pensássemos a Terra como um imenso condomínio? Se em vez de uma crepuscular “soberania absoluta”, que apenas sobrevive ainda nas páginas envelhecidas de Jean Bodin e Hugo Grotius, colocássemos a possibilidade de uma “soberania complexa”? Se em vez duma ordem jurídica e política que fecha os olhos perante a autofagia da nossa morada planetária por uma economia predadora e ruinosa, erguêssemos os alicerces de uma economia de simbiose e solidariedade? Se em alternativa a uma visão territorial de justiça, fôssemos capazes de nela integrar a responsabilidade pelo tempo e pelas gerações futuras?

Partindo da inspiração de grandes pensadores, clássicos e contemporâneos, mas avançando sempre no fio articulado de uma reflexão amadurecida e comprometida pelo seu próprio percurso de vida e pensamento, Paulo Magalhães abre, neste ensaio, uma janela de luz e esperança para todos aqueles que não se resignaram à condição de sermos a primeira geração, à escala global, a quem o futuro ameaça ser roubado.
Viriato Soromenho-Marques




Os 10 Princípios do Condomínio da Terra:

1 – Temos de encarar a crise ambiental mundial, não como um problema do ambiente, mas como um problema da Comunidade dos Homens.

2- Para resolver a crise ambiental mundial, temos de resolver o problema jurídico da coordenação duma multitude de soberanias (Estados) exercidas sobre um bem materialmente indiviso (Terra), conformado por componentes insusceptíveis de divisão jurídica, mas dos quais todas as soberanias são funcionalmente dependentes.

3 – Só na definição e prossecução do interesse comum (Terra), será possível continuar a garantir, a cada Estado, os seus direitos - sob pena de estes brevemente deixarem de ter objecto.

4 – Um projecto “Condomínio da Terra” tem que distinguir as fracções estaduais das partes comuns: cada condómino é soberano dentro do seu território e, ao mesmo tempo, detentor de uma soberania partilhada das partes comuns do planeta.

5 – As partes comuns são constituídas pelas partes que, de um ponto de vista ambiental, são: a) necessariamente comuns (a Atmosfera e Hidrosfera), e b) presumidamente comuns (a Biodiversidade).

6 - Existirá um regulamento do Condomínio da Terra que disciplina o uso, fruição e conservação das partes comuns, e uma Administração que será eleita em Assembleia de Condóminos (Estados).

7 - Existe um direito/dever igual per capita no uso/conservação dos bens comuns; logo a votação relativa de cada condómino deverá ser aferida em função do número de habitantes de cada soberania.

8 - Cada condómino comparticipará nas despesas necessárias à conservação ou fruição das partes comuns, de forma equitativa, em função do número de habitantes ou do uso efectivamente realizado de partes comuns, quando este for determinável, no sentido de garantir a coincidência entre o óptimo social e o óptimo ecológico.

9 - Competirá ao Administrador do Condomínio receber todas as verbas provenientes dos Condóminos e promover projectos de conservação e melhoramento das partes comuns, bem como, compensar todos os condóminos que no seio dos seus estados contribuam para a sua manutenção e melhoramento.

10 – Compete ao Condomínio da Terra descobrir formas de compatibilizar os sistemas jurídico e económico com o Sistema Natural Terrestre.




Qual é o problema Jurídico?

O sistema de organização dos povos retalhou o planeta em soberanias e respectivos domínios delimitados por fronteiras, zonas económicas exclusivas e espaços aéreos (que as poluições atravessam, independentemente das linhas que traçamos nos mapas). Estas delimitações, às quais atribuímos uma dimensão jurídica, não deixam por isso de serem válidas apenas entre nós, e esquecem toda a realidade física e biológica do planeta.

Não é que as abstracções jurídicas territoriais não sejam necessárias para a organização interna dos grupos humanos, o problema surge quando confundimos as nossas abstracções com uma realidade que é a biosfera, regida por leis que já existiam antes de nós existirmos e continuarão a existir depois de deixarmos de existir 1 e que, em grande parte, desconhecemos.

Os vários direitos de soberania têm servido de álibi socialmente legitimado para perpetuar a devastação estrutural de todo o futuro da vida que nela possa irromper. Todos os estados estão em contacto directo com partes que são insusceptíveis de divisão e apropriação jurídica, e que circulam por todo o planeta: a atmosfera e hidrosfera. O problema não está no funcionamento dos sistemas naturais, o problema está no homem e numa deficiente adaptação das sociedades humanas às circunstâncias impostas pelo planeta que habitam, o qual é dominado por profundas e intricadas interrelações naturais.

Por outro lado, a nossa proposta de conexão entre a complexidade objectiva da natureza e a nossa capacidade subjectiva de a representar, no nosso sistema social, não pode nunca desvalorizar as funções primordiais da territorialidade como conceito angular da paz social.

Chegamos, portanto, a uma situação de impasse e teremos mesmo que saber lidar com o chamado paradoxo da racionalidade:

1. Por um lado, é racional a manutenção das divisões internas da sociosfera, uma vez que os equilíbrios geopolíticos entre os vários grupos humanos são precários e foram fruto de um aturado processo de afirmações e reconhecimentos. A posse de um território bem definido, é reconhecida pela psicologia ambiental como uma necessidade biológica básica de qualquer indivíduo ou comunidade. Neste sentido, será insustentável pretender tornar comunitário um sistema em que a sua própria segurança depende destas divisões internas.

2. Por outro lado, dado o carácter complexo da profunda imbricação dos efeitos combinados e das suas implicações globais e duradouras na biosfera, é irracional pensar que poderemos continuar a sobrepor a lógica destes equilíbrios internos da sociosfera à necessária gestão comum da biosfera como um Bem Comum Universal.
Será possível resolver este paradoxo?

Analisemos esta pergunta sob o ponto de vista jurídico e coloquemos a questão central: Qual o problema jurídico de base que continua por resolver?

É um problema de gestão, coordenação e conciliação de uma multitude de domínios humanos, exercidos sobre um bem materialmente indivisível e, por isso, requer uma administração comum. Mais, se a hipotética separação jurídica destes diferentes domínios é possível sobre um dos elementos constitutivos deste bem, fisicamente inseparável, a Crusta Terrestre, relativamente aos elementos Água e Ar, dado seu carácter peregrino a nível planetário, até mesmo a sua hipotética separação jurídica é inviável, uma vez que a utilização destes bens, por parte de um estado ou indivíduo, pode provocar efeitos imediatos ou mediatos em todos os outros estados e em todos os outros indivíduos, e nenhum está em posição de se auto-excluir do seu consumo.

Ora, o problema da conciliação dos diferentes e aparentemente opostos interesses em questão, não é a primeira vez que se coloca às ciências jurídicas, e foi resolvido através de uma figura “ definidora da situação em que uma coisa materialmente indivisa, ou com estrutura unitária, pertence a vários contitulares mas tendo cada um deles direitos privativos ou exclusivos de natureza dominial sobre fracções determinadas (…) sendo ainda comproprietários das partes do edifício que constituem a sua estrutura comum”. Esta figura jurídica dá pelo nome de “Condómino”.

Se no direito internacional do ambiente nos parece ser este o problema de base, tentemos então adaptar este conceito, que está internacionalmente experimentado e validado à escala planetária, ao nosso edifício comum que é o Planeta Terra. E como o faremos? Criando um sistema que divide o que poderá ser objecto de uma divisão jurídica e que constituem as soberanias estaduais (litosfera) e que mantêm comum e que não se pode reduzir à dimensão da organização estatal (atmosfera e hidrosfera).



Economia de Simbiose

Se o documentário de Al Gore, “Verdade Inconveniente”, promoveu a entrada da problemática das alterações climáticas em toda a sociedade, no dia 21 de Outubro de 2006, o economista Nicholas Stern, ao apresentar os resultados do estudo encomendado pelo governo britânico sobre a Economia das Alterações Climáticas, tocaria no argumento mais eficaz, e promovia assim a entrada deste assunto na Real Politic. O relatório não será mais do que o momento em que se apresenta a factura. Os resultados são desoladores: uma quebra de 5% do PIB mundial que pode atingir os 20%, se não forem tomadas medidas drásticas e praticamente imediatas.

Interessa agora questionar como foi anteriormente possível analisar a economia global, ou formular alguma teoria económica sem ter em conta o cenário em que essa economia se desenrola. Se a própria palavra eco (Casa)+nomos (lei de gestão), significa a gestão da casa, então o que hoje existe será uma economia, no sentido semântico da palavra, ou será antes um sistema financeiro completamente desconectado da casa? Não sabemos todos nós que o uso e a manutenção de uma casa têm custos? Aquilo que fizermos à casa-planeta vai, ou não, inevitavelmente repercutir-se no sistema financeiro? Aquilo que fizemos à nossa habitação individual, reflecte-se ou não na economia familiar de cada um de nós?

O que existe actualmente a nível planetário é uma gestão em que os custos do “uso casa” não são assumidos.

Se antes se poderia justificar uma “economia sem casa” pelo desconhecimento das interligações globais cumulativas e duradouras e pela dificuldade de valorar e incorporar os custos ambientais no processo produtivo, será hoje possível continuar a considerar como inexistente o que por enquanto ainda é de difícil mensuração e contabilização?

Como poderemos continuar a admitir que uma floresta como a Amazónia, por mero exemplo, só tenha valor económico quando as árvores são cortadas? As relações que a crise ambiental nos revelou, tornaram as relações entre sociosfera e biosfera obrigatórias e íntimas, e não apenas relações de cooperação que poderão ser mutuamente vantajosas. Cada estado está funcionalmente dependente do uso de áreas comuns como a atmosfera e hidrosfera, e que estão ao serviço de todos os outros estados, e essa é uma condição obrigatória à qual nenhum se pode excluir.

A poluição, no seu sentido mais amplo, revela-se como uma das mais importantes manifestações da relação entre a actividade económica produtiva e a Biosfera. Será precisamente a propósito da poluição, que os economistas se apercebem, pela primeira vez, que em todo o cálculo económico há uma série de efeitos “externos” ao sistema interno da Sociosfera, mas “internos” do supra-sistema Biosfera, da qual aquela depende. “Quer dizer, uma actividade económica não se processa em laboratório, protegida por paredes artificiais do mundo que a rodeia, dos outros seres humanos e do outro mundo em que ela se insere, e o raciocínio económico abstracto que referi, que é do sujeito racional, esquece, minimiza, sobretudo, despreza o lado externo da actividade económica e esse lado externo existe quase sempre.” (1)

Estas externalidades negativas em economia, usualmente chamadas de “disfunções ambientais”, são na realidade “disfunções económicas”, uma vez que o problema encontra-se na deficiente adaptação da economia à realidade biológica do planeta. São os efeitos da desarticulação entre os sistemas jurídicos e económicos humanos e o sistema natural terrestre. E a sociosfera não encontrou ainda um sistema organizacional que incorpore a necessária unidade interdependente e cumulativamente global da biosfera, e em que o uso e cuidado dos bens globais seja valorado no sistema de trocas humanas.

Em biologia, quando os organismos agem activamente em conjunto para proveito mútuo, o que pode acarretar especializações funcionais de cada espécie envolvida, diz-se que existe uma relação simbiótica. A simbiose implica uma inter-relação de tal forma íntima entre os organismos envolvidos que se torna obrigatória, quando não existe obrigatoriedade na relação, dever-se-á falar apenas de protocooperação. A intricada interdependência global, depois de descoberta e vivida, tem de ser valorizada jurídica e economicamente.

Isto é, as inter-relações globais impostas pelo Sistema Natural Terrestre ao sistema económico e ao sistema jurídico, são obrigatórias, íntimas e interdependentes. Então uma economia de simbiose será aquela que aceita esta obrigatoriedade íntima, e que valora no sistema financeiro humano o custo do uso do Sistema Natural Terrestre. Nada de novo do que é já preconizado na economia ambiental, só que, desta feita, estruturada com um sistema jurídico de condomínio que garante a existência de uma “instituição de troca onde o sujeito que afecta positivamente outro(s) receba uma compensação por isso ou o sujeito que afecta negativamente outro(s) suporte o respectivo custo”.(2)

A Economia de simbiose será aquela que assume estas interdependências globais, e em articulação com um sistema jurídico de condomínio, contabiliza e organiza o uso de destes bens comuns universais, através de uma instituição de troca que recebe de quem usa os bens comuns para lá dos limites equitativos, e compensa quem os afecta de forma positiva. Essas serão uma das funções essenciais da Administração do Condomínio.

(1) FRANCO, A.S. (1994) – Ambiente e Economia – Centro de Estudos Judiciários, Textos, Actividade económica e Direito do Ambiente – http://www.diramb.gov.pt/ , Texto 7525.
(2) DIAS SOARES, C. A. (2001) , O Imposto ecológico – Contributo para o estudo dos instrumentos económicos de defesa do ambiente, Coimbra, Universidade de Coimbra, Coimbra Editora,p.81 – sublinhado nosso.

Durante as nossas acções de divulgação do projecto CONDOMÍNIO DA TERRA, oferecemos simbolicamente frascos com as partes comuns do nosso planeta. A hidroesfera e a atmosfera, e com os seguintes textos:


Atmosfera

Respiramos atmosfera 25 vezes por minuto. A atmosfera é um bem comum, pois ninguém pode ser excluído do seu consumo: os seus danos ou benefícios afectam todos a nível global. O Administrador do Condomínio receberá de quem usa a atmosfera para lá dos limites equitativos e compensará quem cuide deste bem comum.


Hidrosfera

Uma molécula de água permanece em média 2500 anos no oceano e 10 dias na atmosfera - é elemento vital em todas as formas de vida. É um bem comum, pois ninguém pode ser excluído do seu consumo: os seus danos ou benefícios afectam todos a nível global. O Administrador do Condomínio receberá de quem usa a hidrosfera para lá dos limites equitativos e compensará quem cuide deste bem comum.

http://www.earth-condominium.com/intro.html

Objectivos do milénio para 2015 ou será para 3015?

Em Setembro de 2000, chefes de Estado e de Governo de 189 países, incluindo Portugal, reuniram-se nas Nações Unidas. Ali assinaram a Declaração do Milénio, comprometendo-se a lutar contra a pobreza e fome, a desigualdade de género, a degradação ambiental e o vírus do VIH/SIDA. Assumiram ainda o compromisso de melhorar o acesso à educação, a cuidados de saúde e a água potável. Para avaliar o cumprimento daquele compromisso, estabeleceram 8 Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), a alcançar até 2015.

2015 ou 3015?


A Social Watch considera que, ao ritmo actual, os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) só serão alcançados por todos dentro de cem anos. Para esta rede internacional de organizações da sociedade civil, os principais responsáveis pelo atraso são os países desenvolvidos, que não cumprem os compromissos assumidos quanto à ajuda para o desenvolvimento.

A Social Watch baseia esta leitura pessimista no seu Índice de Capacidades Básicas.
Consultar:




A Millennium Campaign – Campanha do Milénio das Nações Unidas – foi lançada em 2002. Procura inspirar os cidadãos em países ricos e em países pobres no sentido de exigirem aos seus líderes políticos o cumprimento, até 2015, dos compromissos assumidos na Declaração do Milénio. Ou seja, procura incentivar políticas públicas, tanto em países ricos como em países pobres, que tenham impacto positivo no desenvolvimento sustentável dos países mais desfavorecidos. A Campanha do Milénio das Nações Unidas está presente em 24 países africanos e asiáticos, bem como em seis países na Europa e América do Norte.Em Portugal, a Campanha quer inspirar todos os cidadãos e organizações que acreditam que o Governo Português deve conceder mais e melhor ajuda públicapara o desenvolvimento (APD).Em 2006, Portugal investiu 0,21% do seu Rendimento Nacional Bruto em APD. O compromisso assumido foi o de investir 0,7% até ao ano 2015.

Para saber mais, contacte-nos para o e-mail info@objectivo2015.org

ou adire à campanha aqui.


http://www.objectivo2015.org/

8 perguntas para entender o que se passa com a Terra e o que se pode fazer pelo Mundo

Consultar:


8 perguntas para entender o que se passa com a Terra e o que pode fazer pelo Mundo

1. O que é o clima?
2. O que são alterações climáticas?
3. O que é o efeito de estufa?
4. O que é o aquecimento global?
5. Porque devo preocupar-me?
6. Quem é mais afectado?
7. Quem é responsável?
8. O que podemos fazer?


O que é o clima?

Vento, chuva, neve – estes são alguns dos fenómenos climáticos que definem o estado do tempo todos os dias. O clima é o comportamento mais comum do tempo meteorológico para uma determinada região durante um período alargado (cerca de 30 anos). O clima resulta das interacções que se estabelecem entre os cinco componentes do sistema climático: a atmosfera, os oceanos, a biosfera terrestre e marinha, a criosfera (água em estado sólido) e a superfície terrestre.
O que são alterações climáticas?

O clima sempre variou ao longo do tempo em função de causa naturais: alterações na radiação solar, erupções vulcânicas que podem cobrir a Terra com poeiras que reflectem o calor do sol de volta para a espaço e ainda variações naturais no próprio sistema climático. Mas nos últimos séculos juntaram-se às causas naturais as causas humanas. Desde que se iniciou a industrialização, o clima da Terra tem sofrido alterações climáticas, sob a forma de mudanças na atmosfera que se adicionam às que o planeta sempre sofreu de forma natural.

O que é o efeito de estufa?

A temperatura média da Terra poderia ser bem menos amena, caso não existissem na atmosfera certos gases. O dióxido de carbono (CO 2), o óxido nitroso, o ozono e o metano são os principais gases que impedem que todos andemos bater o dente com frio: sem eles, a temperatura média à superfície da Terra andaria pelos -15ºC. Estes gases deixam passar a radiação do sol rumo à superfície do planeta, mas absorvem parte do calor – radiação infravermelha – que a Terra devolve para a atmosfera, aumentando deste modo a temperatura. A esta contenção do calor chama-se efeito de estufa.

O que é o aquecimento global?

Quanto maior for a concentração de gases com efeito de estufa (GEE) na atmosfera, maior será a quantidade de calor que eles impedem de regressar ao Espaço, causando a subida da temperatura à superfície da Terra. Nos últimos séculos, a temperatura tem aumentado a um ritmo crescente, devido a cada vez maiores emissões de GEE para a atmosfera, sobretudo de CO 2. Estas emissões resultam da queima de combustíveis fósseis –tipo petróleo e carvão – e atingiram os níveis mais altos de sempre na década de 90 do século passado, causando um aumento da temperatura na Terra de cerca de 0,5ºC desde o início do século. Caso as emissões não sejam bastante reduzidas, em menos de cem anos o aquecimento global poderá ir até aos 5,8ºC.

Porque devo preocupar-me?

O aquecimento global tem causado a subida do nível das águas do mar (devido ao degelo dos glaciares), ameaçando as populações em zonas costeiras e certas ilhas; o aumento da intensidade das chuvas, provocando mais inundações e erosão dos solos; o crescimento da frequência de fenómenos meteorológicos extremos, como furacões, que devastam vastas regiões, tornando-as ambientes propícios a epidemias; o avanço das regiões áridas e semi-áridas, mais vulneráveis a incêndios florestais e ainda a alteração dos habitats de numerosas espécies, colocando-as no caminho da extinção. Tudo isto irá continuar por pelo menos mais cem anos, garantidos pelos GEE já enviados para a atmosfera. O economista Nicholas Stern demonstrou que, caso nada seja feito, a economia mundial poderá entrar numa recessão sem precedentes – com os jovens na linha da frente dos desempregados. Ou seja, o mal já está feito; resta-nos adaptar-nos e evitar que cresça para um mal maior.

Quem é mais afectado?

Os países pobres/em desenvolvimento, embora sejam quem menos polui, mostram-se mais vulneráveis às alterações climáticas, pois dispõem de menos meios para se adaptarem e para enfrentarem as consequências dessas mudanças. Em África – o continente mais afectado pela fome – a produção agrícola é muito sensível às variações no clima e as economias estão muito dependentes do sector agrícola. Além disso, os desastres naturais e as secas reduzem o tempo de que rapazes e raparigas dispõem para frequentar a escola. As alterações climáticas podem agravar as desigualdades existentes entre homens e mulheres nestes países: aumentarão as dificuldades no acesso aos recursos, especialmente à água e à lenha, o que implicará um acréscimo de trabalho para as mulheres; forçarão mais migrações masculinas em busca de trabalho, com a consequente carga adicional nas responsabilidades e tarefas femininas. As alterações climáticas foram ainda responsáveis no ano 2000 por aproximadamente 2,4% dos casos de diarreia em todo o mundo e por 6% dos casos de paludismo em alguns países em desenvolvimento. Muitas doenças infecciosas, como a malária e a febre amarela, ou transmitidas por alimentos e água, como a diarreia e a cólera, são sensíveis a mudanças nas condições climáticas. Em algumas regiões, o risco estimado de diarreias para o ano 2030 é 10% maior do que na ausência de alterações climáticas. O acréscimo no número de inundações trará consigo um aumento no risco de afogamentos, diarreias e doenças respiratórias, bem como fome e subnutrição. Considerando os cenários previstos de emissões de GEE, também aumentarão as doenças derivadas da contaminação do ar nas grandes cidades nos países em desenvolvimento. Nestes, a escassez de combustíveis “limpos” – como a energia solar – afecta directamente as habitações das zonas rurais, que dependem da lenha, do estrume, dos resíduos das colheitas e do carvão para a cozinha e para o aquecimento. A contaminação do ar em lugares fechados derivada da queima deste tipo de combustíveis causa por ano mais de 1,6 milhões de mortes, principalmente entre mulheres e crianças.

Quem é responsável?

Os países ricos/desenvolvidos foram responsáveis por quase 80% da queima de combustíveis fósseis de 1900 a 1999. Mas alguns países pobres/em desenvolvimento, como a China e a Índia, estão a aumentar rapidamente as suas emissões devido ao forte crescimento económico. Enfim, há responsabilidades partilhadas, mas diferenciadas: são os países mais ricos, entre os quais Portugal, quem tem maior responsabilidade na redução das emissões e em ajudar os países pobres a adaptarem-se às consequências das alterações climáticas.

O que podemos fazer?

Algumas das medidas para reduzir as emissões para a atmosfera de gases com efeito de estufa são:
• a redução do consumo de combustíveis fósseis (mediante a utilização de energias mais limpas, coma a solar, ou poupando energia);
• o incentivo à utilização eficiente da energia;
• a captação do metano emitido pelas lixeiras para posterior queima ou para utilização como biogás;
• o desenvolvimento da captação de carbono através actividades como a gestão florestal (pois os bosques são captadores naturais de CO 2).
Existem ainda numerosas opções para uma melhor adaptação às alterações climáticas e para minimizar os seus danos previsíveis:
• desenvolvimento de medidas de protecção face à subida do nível das águas do mar;
• melhoria dos sistemas de saúde;
• conservação e recuperação de ecossistemas naturais (como p.e. os mangais, que actuam como barreiras contra tempestades e inundações);
• desenvolvimento de infraestruturas adaptadas a fenómenos meteorológicos extremos;
• adaptação da agricultura a condições climáticas difíceis (como p.e. a utilização de espécies resistentes e o acesso melhorado a seguros agrícolas);
• ordenamento dos recursos hidrológicos de modo a garantir o acesso à água e a minimizar os riscos de secas e de inundações;
• em geral, incluir os riscos climáticos nos planos de ordenamento do território.

Nenhuma destas medidas é possível sem um compromisso dos Governos. Enquanto cidadãos dos países mais desenvolvidos, temos uma responsabilidade acrescida para exigir aos nossos governantes que façam mais pelo nosso mundo. Em especial, temos de exigir-lhes que não só façam melhor aqui, mas também que ajudem os governos dos países mais vulneráveis a responder às consequências das alterações climáticas. Temos de exigir-lhes que concedam mais Ajuda Pública para o Desenvolvimento de modo a que os países pobres consigam atingir os 8 Objectivos do Milénio e ainda que libertem fundos adicionais para que esses países possam apostar num desenvolvimento limpo.

26.7.07

A utopia ecológica de William Morris


Pintor pré-rafaelista, desenhador ( de telas e papel pintado), magnífico tipógrafo ( a edição da sua responsabilidade dos Contos de Canterbury, ilustrada por Burne-Jones é considerada um jóia mundial), William Morris é um polifacetado escritor e artista inglês do século XIX ( nasceu em Walthamstow, 1834-Kelmscott House 1896) e uma figura importante do que se convencionou chamar socialismo utópico, sendo justamente considerado o mais importante escritor utópico do séc. XIX da Inglaterra.

Nasceu numa família endinheirada e teve uma infância privilegiada, junto da natureza rural e campestre e do que de melhor esta podia oferecer. Depois de um período onde frequenteu o Marlbrough College, de que foi expulso por indisciplina, entra em 1853 no Exeter College ( Oxford) onde recebe a influência de John Ruskin, célebre estudioso de arte e reconhecido reformador social, que defende a ligação entre a vida, a arte e o trabalho, e acaba por se reunir ao círculo artístico dos pré-rafaelitas. Consagra-se ao fabrico de móveis, dando primazia à reabilitação dos estilos medievais, ao mesmo tempo que trabalha iluminuras de livros, na decoração de vidros coloridos e na escultura em madeira.

Em 1861 é criada a sociedade Morris and Co que se dedica à produção de mobiliário e de peças para decoração interior e que, em breve, se tornou conhecida pelo seu elevado nível de tal modo que as suas criações têm um lugar central no então nascente movimento Arts and Crafts.
A partir dos anos de 1870 Morris interessa-se pela acção política, começa a dar conferências, quase sempre para auditórios operários, onde não se cansa de defender a ligação entre arte e trabalho no seio de uma sistema socialista. O socialismo de Morris é, pois, fortemente influenciado pela estética e pela criatividade individual, e a importância que ele confere à necessidade de embelezar todos os momentos do quotidiano. Harmonizar a cidade e o campo é outra das suas preocupações constantes e sonha transformar a Inglaterra num «jardim», preconizando restringir a selvagem industrialização que a paisagem inglesa estava a sofrer e que, segundo ele, não respondia a nenhuma necessidade. Apesar de extremamente crítico para com a maquinaria industrial, e a divisão de trabalho que engendrava, William Morris não defendia a supressão total das máquinas, antes desejando que estas apenas fossem utilizadas quando se mostrassem como benéficas para tornar menos pesado e enfadonho o trabalho humano. ( ver as suas conferências de 1884 intituladas « Trabalho inútil contra pena inútil» e « A fábrica tal como deve ser»).


O livro mais conhecido dele, editado em 1891, e que relata uma utopia, tem por nome «Notícias de lugar nenhum» (News from nowhere). Alguns anos antes, Em 1888 publica a novela «O sonho de John Ball» onde mistura utopia, sonho e uma viagem na história, e por onde perpassa um certo pessimismo sobre a liberdade, a igualdade dos trabalhadores e a justoça social . O narrador da novela é transportada para uma pequena aldeia em plena Idade Média inglesa, que luta pelos seus direitos e liberdade contra os seus senhores. A revolta popular é liderada por um clérigo sábio e atrevido, de seu nome John Ball, e com quem o narradar entabula uma conversa nocturna, sob o tecto de uma igreja medieval, acerca da liberdade humana, a igualdade dos trabalhadores e a justiça social. Aquela revolta fracassa, mas da conversa se deduz que outras surgirão face a um sistema social injusto ( o capitalismo ) que não deixará de manter e perpetuar a exploração do homem pelo homem, do humilde pelo poderoso, dos que nada têm pelos possidentes. Uma visão pessimista do futuro mas que não deixa aos homens outra solução que não seja irem à luta no decurso dos séculos em que reinar a iniquidade. Agora e sempre o homem deve procurar uma solução. John Ball deve assim marchar sobre Londres, não obstante a probabilidade de acabar na forca por desobediência ao rei. A novela acaba com uma lenda de rei húngaro Mattias Corvinas que deixa pairar uma vaga desesperança, mas serve também para Morris retratar os usos e costumes, o ambiente social da época medível, de que o autor se sente próximo, em contraste com a pérfida evolução a que assiste por efeito da industrialização das cidades e do campo da sua região.

Morris demora-se particularmente em descrever a beleza artesanal daquela época e não se cansa em elogiar o artesanato, a arte e o labor artesanal. Na injusta Idade Média havia mais gente feliz que no industrializado século XIX, para além das coisas estarem muito melhor feita que na era da produção industrial em série


Mas o livro mais conhecido dele, editado em 1891, e que relata uma utopia, tem por nome «Notícias de lugar nenhum» (News from nowhere). Trata-se de uma crítica em forma de romance utópico contra a obra de Edward Bellamy (1850-1898) , Looking Backward 2000-1887(Revendo o futuro) de 1888, considerada por Morris como uma utopia cockney ( com esta expressão pretende o autor designar tudo o que é prejudicial e negativo para Londres).
Na sua utopia Bellamy leva ao extremo as tendências então emergentes de centralização e de mecanização, num pano de fundo igualitário, onde os cidadãos mais se assemelham a soldados de um quartel vocacionado para a produção industrial ( o exército de trabalho é literalmente constituído graças ao princípio do recrutamento obrigatório), ou então a peças de uma enorme engrenagem social segundo o modelo da modernidade burocrática, enformando toda uma rígida estrutura social fechada que para se manter precisa de valorizar o desporto que se constitui assim como uma forma de evasão do ambiente totalitário em que estão encerrados os indivíduos. Em contraste, Morris esboça uma utopia claramente anticentralizadora que logo ganha as simpatias dos seus amigos anarquistas.

Morris sabe que as utopias de reconstrução à maneira da de Bellamy mais não servem para reorganizar as tendências industrializadoras que cada vez mais se acentuavam na Inglaterra e que a dignidade do homem não está tanto na obediência cega como na sua capacidade criativa. Por isso a sua obra, «Notícias de lugar Nenhum», transporta-nos para um mundo oposto àquele que ele via todos os dias a nascer em Londres, para um mundo onde se questiona o crescimento e a eficácia industrial, assim como o gigantismo da produção e das cidades. Um mundo onde o homem é a medida de todas as coisas, se afirma a relação entre o homem e o ambiente, e o comércio não é aquela actividade impessoal e predatória da natureza e da vida das pessoas. Porque o alheamento entre o ser humano e o real criara o desaparecimento do saber-fazer artesanal e os homens alienados encontravam-se à mercê de um meio social artificial, Morris profetiza um regresso ao trabalho manual, à habilidade do homo faber que permitiria a reintrodução da estética na vida diária uma vez que exigência de beleza deveriam presidir ao fabrico dos objectos e artefactos.

A história começa com um despertar estranho do narrador, numa Casa de Hóspedes, que se surpreende a viver dois séculos depois do tempo a que estava habituado, um futuro socialista que se lhe oferece radioso face à brutal realidade inglesa do século XIX industrial. Nesse futuro tudo seria embelezado e purificado, desde os rios ( que inclui o convite de um barqueiro para um mergulho matinal do Tamisa), as pessoas , os locais ( com uma toponímia renovada) até ao sistema político e social, para surpresa e satisfação do personagem-narrador ao longo de um passeio a que ele se entrega através de Londres e do vale do rio Tamisa a montante da cidade. As roupas, por exemplo, seriam feitas em casa à imagem e inspiradas na época medieva. As mulheres, por seu turno, eram não só iguais aos homens, como livres de fazer aquilo que mais gostassem de fazer, para além de exibirem um vigor atlético e uma saúde física dignos de registo. A dimensão de Londres era mais reduzida, cheia de bosques e prados, ao passo que as aldeias ao seu redor teriam adquirido uma dimensão que as tornavam auto-sustentáveis. Já a aquitectura feita de materiais tradicionais tinha superado a lúgubre arquitectura industrial caracterizada pelo vasto uso do aço e a construção de monumentos já passar para o tempo passado pois eram símbolos imóveis de um inócuo pretensiosismo de morte (as Casas do Parlemento inglês estavam agora convertidas em armazém de estrume) Na utopia morrisiana não há compras nem vendas no sentido comercial, mas antes mercados regulados por acordos locais, de controles regulares, mas cuja regulação é desprovida de sanções punitivas. Os crimes desapareceriam com a abolição da propriedade privada, e os criminosos seriam vistos não como delinquentes mas como amigos tresmalhados. Os usos e costumes prevalecem face à lei. A tolerância e o respeito pela diferença e pela individualidade de cada um primava nas relações sociais, pelo que a opinião mnoritária não deixaria de ser respeitada e não seria esmagada peloa maioria. A criatividade estava omnipresente em tudo o que dissesse respeito ao trabalho num espantosa harmonia entre beleza artística e o trabalho. Enquanto na outra época se falava da necessidade de trabalho, da dignidade e do heroísmo do trabalhador, os trabalhadores imaginados de «Notícias de lugar nenhum» descobrem a beleza do trabalho tranquilo, realizado com habilidade e perícia manual próprio dos artesãos criadores. Curiosamente não deixam de existir indivíduos insatisfeitos: um, é um velho que se dedica à história e confessa a sua nostalgia pela era de cocorrência, e outro, é alguém que compara a literatura utópica com aquela que estava repleta de enredos, paixões e desgraças e conclui que a primeira é mais dócil. Mas, no fundo, a única contrariedade que econtramos nos habitantes da Londres imaginada pelo autor são os desgostos de amor, em relação aos quais nada nem ninguém é imune.

O regresso à natureza preconizado por William Morris significa uma recuperação da simplicidade, da acção directa e da beleza natural, uma reinvenção da harmonia e do equilíbrio entre homem e natureza, longe de qualquer forma de ascetismo e de maniqueísmo, e até muito mais próximo da vida prática ideal.

Bibliografia:

- L’utopie ecologique de William Morris, Michel Louve, artigo publicado na colectânea «Utopia, mitos e formas», compilação das comunicações apresentadas no Colóquio com o mesmo título, sob a coordenação de Yvette Centeno e promovido pelo Acarte, da fundação Calouste Gulbenkian em colaboração com o gabinete de estudos de simbologia da Universidade Nova de Lisboa

- La pensée utopique de William Morris, Paris, 1972

- Dictinonnaire des utopies, Michèle Riot-Sarcey, Thomas Bouchet, Antoine Picon, Larousse, 2002



Sobre os múltiplos encontros a realizar este ano sobre William Morris:
http://www.morrissociety.org/index.html