7.9.05

Os bibliotecários norte-americanos impugnam o Act Patriot


Os bibliotecários norte-americanos entregaram uma impugnação judicial contra uma cláusula do Act Patriot aprovado pela administração Bush que exige às bibliotecas fornecer ao governo os registos de empréstimos dos utentes das bibliotecas. A impugnação apresentada contra o Procurador Geral dos Estados Unidos, Alberto Gonzales, e o director do FBI, Robert Mueller, deu entrada num tribunal do Connecticut no passado dia 9 de Agosto e foi subscrita por uma biblioteca não identificada e pela União americana das liberdades civis (ACLU).
Os subscritores sustentam que a ordem do FBI de mostrar os registos das bibliotecas é claramente inconstitucional e que a proibição judicial vigente de falar publicamente sobre a impugnação é claramente inconstitucional por constituir uma restrição à liberdade de expressão. Por força dessa proibição as informações transmitidas pela Democracy Now baseiam-se no site da ACLU

http://www.democracynow.org/article.pl?sid=05/08/26/2134241&mode=thread&tid=25

Puta de fábrica

Puta de fábrica (Putain d'usine), livro de Jean Pierre Levaray

«Todos os dias iguais. Chego ao emprego e algo se precipita sobre mim, uma espécie de vaga de desespero, como um suicídio, como uma pequena morta, a sensação de ardência de uma bala na testa. Um trabalho já bem conhecido, uma sala de controle inundada de luzes – e colegas que, em certos dias, não têm vontade de se encontrarem. Trabalhamos juntos, mas nunca nos habituamos. Acaba-se até por desejar que a fábrica feche. Que seja deslocalizada, ou reestruturada, que aumente a sua produtividade e que baixe os seus custos fixos.
Parar, para quê ? Para não termos mais trabalho, e para que sejamos livres. Livres mas, claro está, com outro tipo de actividades.
Ninguém fala deste mal estar que atinge os operários com mais de 40 anos e que já há muito tempo não estão motivados para um trabalho que os faz sofrer. Mas que é preciso defender porque há a crise, o desemprego. E sempre é uma garantia para continuar a consumir, na falta de condições para viver dignamente.A equipa da tarde está em vias de ser substituída, feliz, por deixar o local. Será, depois, a nossa vez de aí estar durante 8 horas. Sentamo-nos no refeitório à volta das chávenas de café. As colheres giram moles, o estado de espírito de todos é o mesmo, tal como já a fadiga que nos invade frente a esta noite que vai ser longa.»Extracto do livro Puta de fábrica («putain d’usine») de Jean Pierre Levaray, operário numa fábrica de produtos químicos em Rouen e que não esconde o seu esforço para se evadir do mundo que descreve e no qual vive através da escrita.

O livro é uma reedição dos seus escritos de 2002 , revista e aumentada com a crónica «Après la catastrophe», ambos editados pela L’Insomniaque, e ainda o epílogo industrial «Plan Social». A actual edição é das edições Agone.

O Lago Tchad ameaça desaparecer


O lago Tchad evapora-se gradualmente. O crescimento demográfico, as actividades agro-pastoris a e desertificação estão a provocar uma preocupante degradação na fauna e flora. Recorde-se que o lago Tchad se situa no coração de um território árido e quente, na fronteira sul do deserto do Sahara. A sua superfície de água passou de 25.000 Km2 em 1963 para 5.000 Km2 nos anos 2000, ou seja, um recuo de500 km2 por ano, tendo tido uma importantíssima função económica já que fornece agua a mais de 20 milhões de pessoas distribuídas por 4 países: o Tchad, os Camarões, o Níger e a Nigéria. Para ele confluem os rios Logone, Chari e o Komadougou Yobé. Segundo os especialistas a continuar a este ritmo o lago desaparecerá daqui a 20 anos. A agravar a situação está a redução drástica da pluviosidade
Mais info:

http://www.monde-solidaire.org/spip/article.php3?id_article=2315

6.9.05

Para uma sociologia do hiperpoder ( o caso dos Estados Unidos)



A editora catalã Anthropos Editorial, que publica uma revista de sociologia com o mesmo nome, acaba de editar o livro «Repensar los Estados Unidos, para una sociologia del hiperpoder» com a direcção de Loic Wacquant, que reúne os textos distribuídos por dois números da revista francesa Actes de la Recherce en Scences Sociales (nº 138 e 139, de Junho e Setembro de 2001, respectivamente) sob o lema « A excepção americana». Nele se inclui as contribuições de vários investigadores como Pierre Bourdieu( dos imperialismos do universal), Roger Brubaker (para além a identidade), Dan Clawson, Peter Cookson, Frederick Cooper, Rick Fantasia ( uma ditadura sobre o proletariado), Paul Farmer (Quando amedicina se converte em indústria), Neil Fligstein ( o mito do mercado), Nicolas Guilhot ( os profissionais da democracia), Carole Persell ( o sofrimento do priviligiado:internados de élite e transmissão do poder), Barbara Rylko-Bauer, Teresa Sullivan, Elizabeth Warren, Jay Lawrence Westbrook.

Segue-se a tradução do prólogo de autoria de Loic Wacquant, sob o título «A América como profecia de autocumprimento»


A América como profecia de autocumprimento


Poucas sociedades opõem ao esforço de objectivação científica tantos obstáculos como os Estados Unidos. Tal não se deve à imensidade do seu território nem à sua diversidade social e cultural, mas antes ao facto de tratar-se de um país que, desde a sua origem, se pensou e sempre viveu como uma «nação à parte», que escapava às leis e as determinações que habitualmente governam a estrutura e trajectória das sociedades. A noção de «excepção», introduzida na era jacksoniana pelo fascinado visitante da nova república que foi Alexis de Tocqueville, e mais tarde retrabalhada por toda uma tradição de pensamento de carácter liberal, é um efeito cosubstancial da ideologia nacional, tal como declara o historiador Richard Hofstadter: «O nosso destino não é o de ser uma nação que gera ideologias, mas sim o de incarnar uma ideologia» (1). Como pode a Sociologia, ciência do normal e do comum, do regular e do secular, consagrada à implantação de «modelos e leis», segundo a formulação de Durkheim, e que provém de instituições sociais europeias com vestígios de um passado multissecular repleto de desigualdades herdadas, conseguir com esta visão apropriar-se desta «Nova Jerusalém»? Isto é, de uma sociedade de imigração fluida e móvel, uma sociedade impregnada de religião e formada no livre jogo do «fim» eternamente inalcançável e virada, não obstante, para o futuro, que encontra precisamente a sua unidade na crença da sua unicidade e na fervente busca de um destino manifesto a que está pretensamente destinada e que crê realizar em nome do género humano.
Outra razão é que o citado postulado da «excepção» não só proporciona uma referência impensada das artes, letras e do pensamento autóctone como também, e sobretudo, nas ciências sociais norte-americanas que se fundamentam, como demonstra Dorothay Roos em The origins of American Social Science (3) , em dois dogmas complementares e que constituem um mito fundador da nação, que só periodicamente é posto em questão para uma melhor renovação com recurso a novos conceitos. O primeiro é aquele que fala do «individualismo metafísico» e que, de Ralph Waldo Emerson a Richard Rorty como de George Herbert Mead a James Coleman, faz do indivíduo o fundamento infundado da acção, o valor e o seu saber. (4) O segundo considera que a América do Norte de deve definir em oposição às velhas sociedades europeias, rígidas e conflitivas, organizadas segundo esquemas colectivos historicamente retrógados e, portanto, condenadas à partida à estagnação e à decadência, a menos que se transformem segundo o padrão norte-americano que se inspira no antiestatismo, tal como o propõem as diferentes variantes do discurso actual sobre a globalização. Assim aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial com a teoria da «modernização», bem recebida por David McLellend, Daniel Lerner e Talcott Parsons.
Um terceiro factor, este mais conjuntural, aumenta ainda mais a força da ilusão da excepcionalidade da América do Norte: é que depois da queda do império soviético, e por efeito da instalação do seu capital económico, militar, jurídico e cultural através do planeta, esta tornou-se a nação-referência de toda a humanidade. O domínio sem precedentes que exercem os Estados Unidos por um duplo movimento articulado de atracção ( através da fuga de cérebros – brain drain – e a exportação, mediante os seus gabinetes estratégicos – think tanks - , fundações, agências comerciais e variados organismos classificados de não-governamentais) no movimento internacional de bens
Imateriais, meios de comunicação, arte, direito, ciência, filantropia, colocam-nos em posição de inculcar em todo o planeta a sua visão particular do mundo.(5) Os Estados Unidos têm, desde logo, a característica excepcional de, nos alvores do século vinte e um, ser a primeira sociedade da história dotada de meios materiais e imateriais para impôr o seu padrão político e social como estrutura de pensamento universal, e excepcional, é também o facto de o fazer, transmutando as suas particularidades em normas ( veja-se o ideal transhistórico) . Procedendo assim transforma toda a realidade à sua imagem e semelhança.
Um último obstáculo à sociologia da sociedade norte-americana reside nos discursos cruzados e cúmplices de celebração e denegação que sempre a acompanham e a envolvem num denso entrelaçar de pré-noções que derivam do senso comum e que, para lá do seu antagonismo, se põem de acordo para travar um conhecimento rigoroso do funcionamento das suas instituições. Por essa razão é que foi necessário reunir aqui os trabalhos de investigadores norte-americanos provenientes de todas as áreas disciplinares e acabar com o encantamento do mito fundador que converte os Estados Unidos na figura emblemática da prosperidade em aliança com a liberdade ( de trabalhar, de iniciativa, de aprender, de votar,etc), mas também para romper com a lógica do processo que pensa em termos de «ser a favor ou contra» a fim de inculpar ou inocentar. Tudo isso para que seja possível encontrar o modo para compreender e explicar as relações e os mecanismos sociais que não pelo facto de pertencerem a um contexto específico, são menos genéricos.
Um mercado de trabalho do proletariado que estala por estar sujeito ao despotismo legal do empresariato graças à repressão sem limites nem descanso dos sindicatos; crescimento da precariedade da classe média no próprio seio da prosperidade reencontrada devido à divisão da protecção social em camadas sociais; escolas de elite que outorgam aos herdeiros um quase monopólio da facto das posições superiores de poder e que se juntam à classe dominante, permitindo as famílias patrícias da costa Este com os novos ricos das outras burguesias regionais(6); um Estado que desregula o emprego e «mercantiliza» ilimitadamente a saúde, desenvolvendo uma política fiscal e industrial em benefício dos accionistas e dos sectores de ponta da «nova economia»; as redes e os estratagemas na base dos quais as grandes empresas dominam a máquina eleitoral, sem esquecer os atributos bizantinos da arquitectura política ( que se revelou na confusão jurídico-política da recontagem dos votos na Florida aquando da primeira eleição de George W. Bush); a relação entra a clivagem racial e o encarceramento massivo como «política social» que se propõe lutar não contra a pobreza mas sim contra os pobres, entendidos como a negação viva da ideologia nacional da oportunidades para todos; por último, a irrupção no campus universitário de um discurso fluído e confuso que releva mais da moral e da política que da teoria social, e que tem como efeito a fusão das estruturas de desigualdade no dissolvente retórico da (pluri)cultura; são outros tantos aspectos desconhecidos da realidade norte-americana e que se opõem a uma visão idealizada da América do Norte, hoje em dia hegemónica tanto dentro como fora das suas fronteiras.
Colocando de manifesto os efeitos da intrusão violenta e do império crescente do capital económico em todos os sectores da vida social, as análises deste livro contribuem para o progresso do conhecimento empírico dos Estados Unidos enquanto sociedade singular, mas também servem como analista histórico em tamanho real das transformações que se operam nos nossos dias em todas as instituições sociais submetidas ao seu tropismo. O facto de radiografarmos as instituições norte-americanas permite proporcionar materiais indispensáveis para uma antropologia comparativa de uma invenção do neoliberalismo na prática, já que os Estados Unidos, após a evolução sociopolítica dos anos setenta, se tornaram no motor teórico e prático da codificação e disseminação transnacional de um projecto ideológico que pretende submeter o conjunto das actividades humanas à tutela do mercado. Daí que o compêndio de trabalhos aqui reunidos apresenta não apenas um interesse científico mas também um interesse cívico, o que faz com que não fique apenas limita a um público universitário.


(1) Richard Hofstader, citado por S.M. Lipset, American Exceptionalism: A Double-Edged Sword, Nova Iorque, Norton, 1996,p.18, obra de grande utilidade pois oferece um catálogo dos tópicos mais importantes sobre esta temática; veja-se igualmente J.P. Greene, The Intellectual Construction of América: Exceptionalim and Identify from 1492 to 1800, Chapel Hill, University of North Carolina Press, 1993; e Byron E. Shafer (dir.), Is América Different? A New Look at American Exceptionalim, Oxford, Oxford University Press, 1991
(2) M.F. Jacobson, Barbarian Virtues: The United States Encounters Foreign Peoples at Home and Abroad 1876-1891, Nova Iorque, Hill and Wang, 2000
(3) D.Ross, The Social Origins of American Social Science, Nova Iorque, Cambridge University Press, 1991, e idem, «An Historian’s View of American Social Science», Journal of the History of the Behavorial Sciences, 29-2 (abril 1993), pp 99-112
(4) O excepcionalismo também serve de refúgio ao espiritualismo e sustenta uma visão heróica da história, tal como indica esta citação cheia de candor.de Seymor Martin Lipset «…a Providência encarregou-se de dotar uma nação de um Washigton, de um Lincoln, de um Roosevelt quando eram necessários…
(5) Y. Dezalay e I. Garth, The Intertionalization of Palace Wars: Lawyers, economists and the contest to transdform Latin American States, Chicago, University of Chicago Press, 2002
(6) Cujo representante caricatural bem pode ser o presidente George W. Bush, multimilionário, filho de Presidente e neto de Senador, nasido numa aldeia no Connecticut, antigo aluno ( medíocre) de uma das «academias» privadas descritas por Caoline Persell e Peter Cookson ( «Pensionnats d’élite: ethnographie d’une transmission de pouvoir», Actes de Recherces…, 138) e também neste livro o texto sobre o «Sofrimento dos privilegiados: internatos de elite », tendo passado mais tarde pelas Universidades de Yale e de Harvard, mas cuja imagem pública é de um jovem de uma cidade do Texas.

A poesia como resistência

O filósofo francês Jean-Luc Nancy lançou há já alguns meses atrás um pequeno livro intitulado «Resistência da poesia», no qual se pode ler a dado passo:

«É preciso contar com a poesia. É preciso contar com ela em tudo o que fazemos e pensamos fazer, nos discursos, no pensamento, na prosa e na arte em geral. O que quer que haja atrás desta palavra, e mesmo supondo que não haja nada que não seja datado, terminado, deslocado, eliminado, mesmo assim resta a palavra. Uma palavra com a qual há que contar porque assim ela exige. Podemos suprimir o «poético», o «poema» e o «poeta» sem grandes prejuízos ( talvez). Mas com a poesia com toda a indeterminação do seu sentido, e não obstante toda essa indeterminação, não há nada a fazer. Ela lá está, e sempre estará mesmo que a rejeitemos, que desconfiemos dela e que a detestemos (p23/3)

No original:


"il faut compter avec la poésie. Il faut compter avec elle en tout ce que nous faisons et pensons devoir faire, en discours, en pensée, en prose et en 'art' en général. Quoi qu'il y ait sous ce mot, et à supposer même qu'il n'y ait là plus rien qui ne soit daté, fini, délogé, arasé, il reste ce mot. Il reste un mot avec lequel il faut compter parce qu'il demande son dû. Nous pouvons supprimer le 'poétique', le 'poème' et le 'poète' sans beaucoup de dommages (peut-être). Mais avec 'la poésie', dans tout l'indéterminé de son sens et malgré toute cette indétermination, il n'y a rien à faire. Elle est là, et elle est là alors même que nous la récusons, la suspectons, la détestons. " (p.23/23)

Revista Crítica das Ciência Sociais dedica número temático aos estudos para a paz.


A revista de sociologia crítica, editada pelo Centro dos Estudos Sociais da cidade de Coimbra acabou de lançar o seu último número (nº71) dedicado à temática dos estudos para a paz. Inclui textos de José Manuel Pureza e Teresa Cravo (Margem crítica e legitimação nos estudos para a paz), Håkan Wiberg (Investigação para a Paz: Passado, presente e futuro), Vicent Martínez Guzmán (Filosofia e investigação para a Paz), John Galtung (Três formas de violência, três formas de paz. A paz, a guerra e a formação social indo-europeia), Tatiana Moura (Novíssimas guerras, novíssimas pazes. Desafios conceptuais e políticos), Rodrigo Tavares (Por que é a Europa uma região pacífica? Um novo quadro de análise), Elísio Estanque (Trabalho, desigualdades sociais e sindicalismo), Hermes Augusto Costa (A política internacional da CGTP e da CUT: Etapas, temas e desafios).
Recorde-se que os Estudos para a Paz aparecem como conhecimento crítico e, portanto, alternativo ao conhecimento paradigmático dominante no domínio das Relações Internacionais determinado pelos interesses egoístas, da violência e força dos Estados. Hoje, mais do que nunca, é preciso revitalizar estes estudos. Boa hora, pois, para o aparecimento de um conjunto de ensaios sobre esta problemática.

A população índia no Brasil


A população índia no actual Brasil não é homogénea: comporta cerca de 220 povos que falam 120 línguas diferentes. Está estimada em 500.000 a 700.000 indivíduos, representando 0,3& a 0,4% da população total do país, e vivendo na sua esmagadora maioria ainda em aldeias.
Recorde-se que em 1500 quando Pedro Alvares Cabral descobriu a costa brasileiras o número de índios residentes no território do actual Brasil era estimado em 5 milhões. Desde então, muitos dos povos indígenas desapareceram por acção de massacres, escravatura, mortes e maus tratamentos, epidemias e a penetração da civilização predatória do capitalismo europeu.
Fonte: Le Monde

4.9.05

Os edukadores


Os edukadores (título original: Die Fetten Jahre sind vorbei) é o título de um filme do realizador Hans Weingartner que já está em exibição em Lisboa e que merece ser visto.
O argumento refere-se à actual luta contra a dominação capitalista e os seus personagens são três jovens berlinenses: Jan ( que defende que os mais ricos devem ser "edukados"), o seu companheiro de casa, Peter, que partilha os mesmo ideais, mas é mais descontraído, e Jule, a namorada de Peter, que se muda lá para casa porque já não consegue sobreviver com o seu salário de empregada.
Peter e Jan decidem invadir as mansões dos ricos, mexer nas suas coisas e deixar mensagens como «Os vossos dias de abundância estão contados» a fim de criar neles um sentimento de insegurança sobre o seu estatuto social privilegiado.
O enredo permite também o confronto entre duas gerações contestatárias: a de 1968 que, entretanto, se integrou socialmente, e a actual geração de contestação ao neo-liberalismo capitalista.
Com uma realização heterodoxa ( tipo câmara na mão), repleto de humor sarcástico e frequentes denúncias sociais, o filme serve sobretudo para reflectir nas melhores formas de criticar e contestar o sistema de domínio e exploração como é a economia de acumulação do capital.

Jedes Hertz ist Eine Revolutionäre Zelle!” (Todo coração é uma célula revolucionária!) é um exemplo de frases que marcam o filme.
Site oficial:
http://www.theedukators.com/

Alguns diálogos:

Quando Jule descobre que Peter e Jan são os Edukadores, ela pergunta a Jan porque invadem as mansões deixando mensagens como “Você tem dinheiro a mais” ou “os seus dias de fartura estão contados”:

Jan: - Para eles se sentirem inseguros mesmo com toda a segurança. É sinistro ter a casa invadida. Ter alguém que te vigia e vai continuar a vigiar

Jule: - Por que não pegam tudo e doam para os pobres?

Jan: - Eles contam com ladrões. Mas nós queremos que fiquem apavorados. Na fila do banco, vão ouvir sussurros: “Você tem dinheiro a mais”. Vão sentir-se completamente sozinhos. Nada poderá ajudá-los. Nem a fortuna, nem a mulher, nem a polícia.

Noutro passo Jan, Jule e Peter conversam com Hardenberg, milionário sequestrado pelos 3, num verdadeiro debate filosófico:

Jule: - Quantas horas por dia trabalha?

Hardenberg: - 13, 14 horas tranquilamente.

Jule: - O que faz com tanto dinheiro? Você acumula coisas. Coisas grandes, carros, mansões, um iate. Um monte de coisas para dizer: “Sou um macho poderoso”. Não vejo outra razão. Não tem tempo para curtir o seu iate. Então, por que é que quer sempre mais?

Hardenerg: – Vivemos numa democracia. Não devo explicações sobre os meus bens. Paguei por eles.

Jan: - Errado. Vivemos sim numa ditadura do capital. Você roubou tudo o que possui.

Hardenberg: - Posso possuir mais coisas porque trabalho mais. Tive as ideias certas na hora certa. E, além disso, não sou o único. Todos tem chances iguais.

Jule: – No sudeste da Ásia, muitos trabalham até 14 horas por dia e não têm mansões. Ganham 30 euros por mês. Também podem ter boas ideias mas não conseguem pagar uma viagem de autocarro à cidade vizinha.

Hardenberg: - Desculpe por eu não ter nascido na Ásia.

Jule: - Mas ainda assim pode tornar suportável a vida lá. O Primeiro Mundo devia perdoar a dívida do Terceiro Mundo. É só 0,01% do nosso PIB! Por que não fazem isso?

Hardenberg: - Seria o colapso do sistema financeiro mundial

Jule: - Vocês querem-nos pobres, para poder controlá-los... forçá-los a vender os seus produtos a preços ridículos.
(...)
Jan: - É a regra básica do sistema: exaurir todos até o limite para que não possam reagir.

Hardenberg: - Não é verdade. Claro, precisamos melhorar as coisas. Protecção ambiental, aumentar os preços do produtor... mas o sistema não vai mudar.

Jan: - Por que não?

Hardenberg: - É da natureza humana querer ser melhor que os demais. Todo grupo logo elege um líder. E a maioria só fica feliz quando compra algo novo.

Jan: - “Feliz”? Acha que as pessoas são felizes, Hardenber? Ei, abra os olhos. Saia do seu carro e ande pelas rua! Elas parecem felizes ou animais assustados? Veja suas salas de estar. Todas com a TV ouvindo zumbis chiques falarem sobre uma felicidade perdida. Passeie pela cidade. Verá a imundice, a superpopulação, as massas feito robôs nas escadas rolantes das lojas de departamento. Ninguém conhece ninguém. Acham que a felicidade está ao alcance mas ela é inalcançável porque você a roubou. É a vida. Você sabe muito bem. Mas tenho uma notícia para você: a máquina superaqueceu. Somos só os precursores. A sua época está a acabar. Enquanto você surfa na tecnologia, outros sentem ódio. Como as crianças das favelas vendo filmes de acção americanos. É só o começo. Haverá mais. Mais casos de insanidade, serial killers, almas destruídas, violência g
ratuita. Não pode neutralizar todo mundo com game shows e shoppings e os antidepressivos não vão funcionar para sempre. O povo está cansado da merda do seu sistema.

Hardenberg: - Admito que há alguma verdade no que falou, mas sou o bode expiatório errado. Eu jogo o jogo, mas não fiz as regras.

Peter: - Não importa quem inventou a arma, e sim quem puxa o gatilho.

Noutro momento estão Jan e Hardenberg a conversar , enquanto este lava suas roupas. Jan questiona-o como um ex-revolucionário que participou do Maio de 68 e agora se transformou num magnata insensível.

Jan: - Aposto que há muito tempo que não lava as sua s próprias roupas. Como é que alguém com o seu passado vive como você? Você teve ideais.

Hardenberg: -O meu pai dizia: “com menos de 30, se não és de esquerda és um desalmado. Acima dos 30 se continuares de esquerda és burro”.

Jan: - Eu sei, mas não acredito nesses baboseiras. É sempre a mesma desculpa.

Hardenberg: - Acontece devagar, aos poucos. A gente nem nota. Um dia, vendemos o carro velho. Queremos um mais seguro, com ar condicionado. Você casa-se, constitui família, compra uma casa. Educar os filhos custa caro. Segurança. Contrais dívidas, e começas a trabalhar para pagá-las e age como os demais. Até que numas eleições , para sua surpresa, o teu voto vira conservador.

Objectores do crescimento


A rede dos objectores ao crescimento e para o pós-desenvolvimento vai organizar nos dias 17 e 18 de Setembro em Brens, na região francesa de Tarn, encontros entre todos os interessados no decrescimento e no pós-desenvolvimento.
O movimento dos objectores do crescimento e do pós-desenvolvimento constituiu-se no seguimento da Conferência Internacional «Desfazer o desenvolvimento, refazer o mundo» realizada em Fevereiro de 2002 em Paris.

O buraco da camada de ozono atingiu a sua maior extensão


A Agência Espacial Europeia anunciou que o buraco da camada de ozono no pólo sul atingiu a sua máxima extensão desde o ano de 2000, ao ocupar uns 10 milhões de Km2, qualquer coisa como a superfície do continente europeu. Prevêem ainda que continue a aumentar até meados do mês de Setembro.
Os principais responsáveis são os compostos à base de clorofluorocarbonos, proibidos desde 1987, mas cujos efeitos – segundo os entendidos – soa se deixarão de sentir daqui a 10 anos.

Fonte: El País

Espanha já pensa em enterrar CO2 no subsolo

O governo espanhol lançou um projecto para armazenar o dióxido de carbono (CO2) debaixo da terra. As emissões de gases com efeito-estufa não param de aumentar e uma das soluções projectadas pelo governo espanhol é armazenar CO2 debaixo da terra a fim de cumprir o Protocolo de Kioto. Este projecto envolve 90 milhões de euros e foi entregue ao Centro de Investigações Energéticas, do Meio Ambiente e Tecnológicas (Ciemat)

Fonte: El País

ONU alerta para o perigo da extinção dos grandes símios


O panorama dos grandes símios ( gorilas, orangotangos, bonobos, chimpanzés) é desolador. Segundo o Atlas dos Grandes Símios e da sua conservação publicado por estes dias pela ONU estas espécies correm o risco de desaparecer nos próximos 30 anos se o meio ambiente em que vivem continuar a degradar-se como aconteceu até agora. Entre as causas figura a pobreza dos países que albergam estas espécies e que facilita a sua caça e a desflorestação dos habitats.

Fonte: El País

«O novo militarismo americano», um livro de Andrew Bacevich


«The New American Militarism: how americans are seduced by war», cujo autor é Andrew Bacevich, professor, veterano da guerra do Vietname, lança um libelo contra o complexo militar-industrial norte-americano, fornecendo não argumentos mas muitos dados sobre o crescendo militarismo norte-americano. Uma leitura útil, pois.

Reproduz-se aqui um comentário retirado de uma conhecida livraria virtual sobre este livro:

According to many of the custodians of public opinion, Andrew Bacevich has earned his right to a fair hearing. Not only is he a graduate of West Point, a Vietnam veteran, and a conservative Catholic, he is a professor of international relations and a contributor to "The Weekly Standard" and "The National Review." Obviously, if he were a left-leaning anti-war Democrat and a contributor to, say, "The Nation," he wouldn't be taken seriously as a critic of American militarism - he would be merely another "blame-America-first" defeatist.
Bacevich sees militarism manifesting itself in some disquieting ways. Traditionally America has always gauged the size of its military with the magnitude of impending threats. After the Civil War, World War I and II, the military was downsized as threats receded. Not so after the fall of the Soviet Union. The military budget has continued to grow and the expenditures are greater - by some measures - than all other countries combined. American military forces are now scaling the globe and the American public seems quiet comfortable with it. And everyone else is growing uneasy.
The mindset of the current officer corps is dominant control in all areas "whether sea, undersea, land, air, space or cyberspace." In other words, supremacy in all theaters. Self-restraint has given way to the normalization of using military force as a foreign policy tool. From 1989 (Operation Just Cause) to 2002 (Operation Iraqi Freedom) there have been nine major military operations and a number of smaller ones. The end of the Cold War has given the US a preponderance of military strength (the proverbial unipolar moment) that has enamoured successive administrations with the idea of using military force to solve international problems. In earlier times, war was always an option of the last resort, now it is a preventative measure.
War, according to Bacevich, has taken on a new aesthetic. During World War I and II, and also Vietnam and Korea the battlefield was a slaughterhouse of barbarism and brutality. Now, with the advent of the new Wilsonianism in Washington, wars are seen as moments of national unity to carry out a positive agenda, almost as if it were international social work.
The modern soldier is no longer looked upon as a deadbeat or a grunt, but rather as a skilled professional who is undertaking socially beneficial work. In fact, in a poll taken in 2003, military personnel consider themselves as being of higher moral standards than the nation they serve.
In the political classes, the Republicans have traditionallly been staunchly pro-military, but now even Democrats have thrown off their ant-military inclinations. When Kerry was running for president he did not question Bush's security policies, he was actually arguing that Bush had not gone far enough. Kerry wanted to invest more in military hardware and training. Even leftist Michael Ignatieff argues that US military intervention should be used to lessen the plight of the oppressed and that we should be assisting them in establishing more representative government. But superpowers are not altruistic; they are only altruistic to the extent that it serves their self-interest. That's probably why Ignatieff will not get much of a hearing and Bacevich will. This book should give us pause as to why the range of opinion in the America on the use of military force is so narrow. If there is one voice that stands a chance of being heeded, it is from this conservative ex-soldier.

Tariq Ramadan, intelectual árabe, vai ser conselheiro do governo de Blair


Segundo as notícias veiculadas pela imprensa oficial o conhecido e polémico intelectual árabe Tariq Ramadan, a quem o governo norte-americano recusou o visto de entrada nos Estados Unidos no ano passado sob a acusação de defender os terroristas, vai ser conselheiro do governo britânico....

3.9.05

O verdadeiro nome do Katrina é o aquecimento global


O furacão que arrasou a costa sul dos Estados Unidos recebeu o nome de Katrina pelo Serviço Meteorológico Nacional. Mas o seu verdadeiro nome é o aquecimento global. Quando o ano começou, a causa da nevada de 60 cm que caiu em Los Angeles foi aquecimento global. Quando os ventos de 200 Km fecharam as centrais nucleares na Escandinávia e cortaram o fornecimento de corrente eléctrica a centenas de milhares de pessoas na Irlanda e no Reino Unido, o factor impulsionador foi o aquecimento global. Quando uma grave seca atingiu o Oeste americano, reduzindo os níveis de água do rio Misuri a mínimos históricos, durante este Verão, o responsável é mais uma vez o aquecimento global.
Quando a pior seca registada há muitos anos atinge Espanha e Portugal, provocando incêndios, e os níveis de água em França são os mais baixos desde há 30 anos, a explicação está ainda no aquecimento global. Quando uma vaga de calor letal no Arizona manteve temperaturas acima aos 43 graus centígrados e acabou com a vida de mais de 30 pessoas numa semana, o culpado chama-se aquecimento global. E quando a cidade indiana de Bombaim acumulou um metro de água num só dia, matando 1000 pessoas e arruinando a vida mais de 20 milhões, o vilão tem o nome de aquecimento global.
À medida que a atmosfera aquece, gera secas mais prolongadas, chuvas mais intensas, vagas de calor mais frequentes e tormentas mais rigorosas. Apesar do Katrina ter começado como um furacão relativamente pequeno que assediava as costas do sul da Florida, a verdade é que veio a receber uma enorme carga de intensidade resultante das temperaturas abrasivas da superfície oceânica do Golfo do México. As consequências foram terríveis e aterradoras. Infelizmente muito poucos norte-americanos conhecem o verdadeiro nome do Katrina, já que as indústrias do carvão e do petróleo encarregam-se de gastar milhões de dólares a fim de manter a opinião pública na ignorância sobre a matéria.
O motivo é simples: permitir que o clima se estabilize exigiria que a humanidade reduzisse o seu consumo de carvão e petróleo em cerca de 70%. Ora isso ameaça logicamente a sobrevivência das maiores empresas. Em 1995 os serviços públicos do Minnesota descobriram que a indústria do carvão tinha pago mais de 800 milhões de euros a 4 cientistas a fim de que estes se mostrassem cépticos quanto ao aquecimento global. O ExxonMobil gastou mais de 10 milhões de euros desde 1998 numa campanha de relações públicas e de intoxicação pública contra a demonstração da existência do aquecimento global. Em 2000 os magnatas do petróleo e do carvão tiveram a sua maior vitória com a vitória do presidente George W. Bush que não tardou em seguir as suas opiniões sobre a política climática e energética.
À medida que a mudança climática vai evoluindo, muitos investigadores temem que já nos encontremos num ponto de mutação irreversível e descontrolada. Sob este pano de fundo a ignorância dos cidadãos norte-americanos acerca do aquecimento global reforça ainda mais as críticas dirigidas contra os meios de comunicação norte-americanos. Quando a imprensa dos Estados Unidos trata do tem do aquecimento global é para se dedicar aos seus aspectos políticos e diplomáticos, e não para o que o dito aquecimento está a provocar na agricultura, no abastecimento de água, na vida vegetal e animal, na saúde pública e no clima.
Durante anos a indústria dos combustíveis fósseis pressionou os meios de comunicação para que valorizassem mais a opinião de um grupo de cépticos do aquecimento global do que as conclusões a que chegou a Comissão Intergovernamental sobre a Mudança Climática ( constituída por mais de 2.000 cientistas procedentes de 100 países). Agora que a ciência viu confirmada as suas conclusões – e os impactos são evidentes, como mostram o que ocorreu no Golfo do México – a imprensa partilha também, com os sectores do carvão e do petróleo, as culpas pelo rasto de destruição que nos atingiu. Como habitante de Bóston tenho receio que o próximo Inverno – tal como no ano passado – seja rápido e extremamente rigoroso. Nos inícios de 2005 uma mortífera tormenta de neve deixava sem electricidade milhares de pessoas na Nova Inglaterra e uma camada record de 1,6 metros de neve cobriu a cidade de Bóston. O nome tradicional daquele mês era Janeiro. O verdadeiro é aquecimento global.

Texto publicado no The New York Times, de Ross Gelbspan, também autor do livro «The heat is on y Boiling Point»

Tradução para português a partir da versão publicada na edição do El País de 3 de Setembro de 2005

New Orleans a cidade da música e dos negros


New Orleans é conhecida como a The Big Easy pelos costumes permissivos, pela sua tolerância e inclinação para os prazeres mundanos. Os seus habitantes amam a boa mesa, a música e o divertimento, e os turistas não param de chegar em massa à cidade atraídos pela sua vibrante vida nocturna, os seus casinos e restaurantes.
Milhares de médicos, advogados e agentes de seguros assistem anualmente a multitudinários congressos no mesmos hotéis e centros de convenções convertidos agora em refúgio de desesperados.
A parte antiga da cidade, conhecida pelo nome de Bairro Francês, foi construído pelos espanhóis – a cidade esteve sob domínio da coroa espanhola entre 1772 e 1800 – e o seu ambiente subtropical recorda muito mais Habana, San José, Cartagena das índias do que Bóston. NY ou Washington. Ali os bares estão abertos 24 horas e não faltam tentações ao virar da esquina.
Habitada maioritariamente por pessoas de origem indígena, francesa, espanhola e africana, Nova Orleans é um mundo completamente distinto daquele outro que existe do outro lado da autoestrada número 10, dessa outra América puritana e furibundamente conservadora. Nove Orleans é também a Meca do jazz e uma das cidades com mais músicos por metro quadrado. Nela nasceram e viveram Duke Ellingtom, Louis Armstrong, Fats Domino, Louis Prima, Mahalia Jackson, Professor Longhair, Dr. John, or irmãos Neville, a família Marsalis, Harry Connick jr e tantos outros.
Mas a cidade sofre também uma merecida fama de corrupta e violenta, onde reina a prostituição, droga e marginalidade delinquente. Nova Orleans é a cidade norte-americana com o rendimento per capita mais baixo – a quarta parte dos seus habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza – e o seu índice de criminalidade é dos mais altos dos Estados Unidos.
Em muito dos seus bairros populares, longe do bulício da parte antiga e do esplendor das mansões coloniais do Garden District, os gangs de jovens narcotraficantes armados entregam-se às suas rivalidades e impõem as suas leis.
Nova Orleans é uma cidade antiga em que sobrevive uma estrutura social herdada da época colonial. Brancos e negros misturam-se nos locais de trabalho, nos Carnavais e nos estádios, mas raramente nas zonas residenciais onde persistem barreiras difíceis de franquear. Dois em cada três habitantes da cidade são de raça negra, a maioria descendente dos escravos trazidos de África.
Quem trata hoje de sobreviver no superlotado Estádio da cidade e no Centro de Congressos são aqueles que durante o resto do ano dependem dos subsídios estatais para viver, são aqueles que careciam de meios próprios para seguir as instruções dadas para evacuar a cidade. São os mais pobres, na sua imensa maioria negros. São eles as vítimas desta catástrofe.

Texto de J.P. Velázquez-Gaztelu, publicado na edição do El País de 3 de Setembro de 2005

Feynman contra a burocracia administrativa

(Nota: Convém recordar que o conhecido cientista Richard Feynman, prémio nobel da Física, foi considerado deficiente mental pelo Exército norte-americano, que o dispensou do serviço militar e que, quando trabalhou no Projecto Manhattan nunca se adaptou à disciplina militar)



Em certa ocasião um funcionário do departamento de relações públicas de uma prestigiada Universidade contactou Feynmam para o convidar a dar uma conferência nessa Universidade. Feynman recebeu o funcionário em sua casa. Céptico e um pouco para se divertir explicou ao funcionário que evitava dar conferências por via da Administração por causa da papelada que habitualmente há que tratar. O funcionário, atencioso, riu-se e garantiu-lhe que no seu caso tudo será rápido e fácil.

- Será numa Faculdade, não é verdade?
- Sim
- Então gostaria de dar a conferência sob uma única condição: que não tenha de assinar a minha assinatura mais que 13 vezes, incluindo a o endosso do cheque.
- Não há problema. Trata-se já disso


A primeira assinatura foi logo para a aceitação do acordo. Pouco mais tarde Feynman teve que apôr a sua assinatura num documento ( em duplicado) em que assegurava que era leal ao governo, sob pena de não poder dar a conferência, outra assinatura para a Câmara local, e ainda outra para assegurar que era professor universitário em funções.O funcionário que o havia visitado estava a enervar-se uma vez que o número de assinaturas não párava de subir.
Feynman deu a conferência no dia aprazado. Brilhante, como sempre. Todo o mundo ficou maravilhado. Teve que assinar mais um documento a assegurar que tinha estado nessa Universidade a dar a conferência... e assim se somaram uma a uma até se atingir o número de 12 assinaturas. Pouco tempo depois, o funcionário apresenta-se na casa do físico trazendo o cheque.Para o receber Feynman tinha de assinar o cheque e um documento no qual declarava que havia realizado a tal conferência. Ou seja, teria que assinar mais duas vezes a sua assinatura, perfazendo 14 vezes.



- Se assino o documento não posso assinar o cheque. Como você esteve lá e escutou a minha conferência, então assine você pela minha vez.
- Ouça, não acha isto tudo um capricho – replicou o funcionário - Não, Foi um acordo que fiz consigo logo à partida. Você até pareceu que nunca chagaríamos às 13 assinaturas; mas foi o que foi acordado entre ambos, e espero bem que tal seja cumprido.
- Repare. Eu trabalhei muito e empenhei-me nisto. E o que me dizem é que não pode receber o seu dinheiro a menos que assine a declaração.
- Pois bem, se assim é, e como assinei já por 12 vezes, e como a conferência já foi realizado, prescindo do dinheiro.
- Detesto ter que fazer isto – balbuciou o funcionário
-Não se importe – rematou Feynman.



No dia seguinte o funcionário telefona desesperado: era impossível não lhe dar o dinheiro pois tinha havido autorização superior e havia que justificar a despesa já contabilizada.

- Bom, então dêem-me o dinheiro
- Mas você tem de assinar o documento
- Isso é não farei – retorquiu o físico

Depois de muito tempo, Feynman endossou a sua décima quarta assinatura, desfeito de riso, perante o alívio e a incompreensão do diligente funcionário.


Fonte:http://www.historiasdelaciencia.com/

Como Feynman foi considerado deficiente mental pelo exército norte-americano




Richard Feynman, Prémio Nobel de Física em 1965, para efeito da sua incorporação nas forças armadas dos Estados Unidos, foi obrigado a fazer um exame médico para o exército no ano de 1942, durante o qual foi considerado inapto, por razões de deficiência mental

Segue-se parte do diálogo dele com o psiquiatra que o avaliava:
Psiquiatra: Quanto você valoriza a vida?
Feynman: Sessenta e quatro
P: Por que você disse sessenta e quatro?
F: Como você espera que se meça o valor da vida?
P: Não! Eu quero dizer, por que você falou "sessenta e quatro" e não "setenta e três", por exemplo?
F: Se eu tivesse dito "setenta e três", você faria a mesma pergunta!



Fonte: «Você deve estar a brincar, Mr Feynman», livro do próprio. A edição portuguesa é da Gradiva

Bansky subverte o muro do apartheid de Sharon


O famoso, irreverente e anónimo artista britânico conhecido pelo nome de Bansky escolheu desta vez o Muro da Vergonha construído pelos israelitas e que serve para se apropriarem dos territórios palestinianos com mais valor, conquistado e ocupado pelo exército do Estado de Israel desde 1967.
Bansky desenhou algumas obras mordazes e imaginativas nas paredes do muro, já insistentemente considerado ilegal por várias instâncias internacionais. Bansky interroga-se mesmo se será ilegal fazer grafittis e desenhos num muro declarado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça.
O artista esclarece que as suas acções servem para denunciar a todo o mundo que o Estado Judeu converteu a Palestina na «maior prisão ao ar livre de todo o mundo»

Para saber mais e ver os seus desenhos:
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1.9.05

Já saiu o nº7 do Coice de Mula



Acabou de sair o último número ( nº7) do Coice de Mula, uma das publicações alternativas e contraculturais mais interessantes da imprensa escrita, desta vez sob o lema « Para a desindustrialização da arte».
Com um óptimo aspecto visual, este nº 7 do Coice de Mula contém um dossier sobre Agricultura Biológica, e outro sobre Anarquismo Naturista ( uma das correntes libertárias ainda mal conhecidas e muito pouco divulgadas). Inclui ainda um texto de David Watson ( « Contra a Mega máquina»), um artigo corrosivo sobre «Neo-aves e frangossauros» ( acerca das aves drogadas nos aviários portugueses), a reprodução de uma entrevista a Zeca Afonso e outros textos de análise social (como o que preenche toda a primeira página, «Técnica, Política e Canibalismo») e de humor sarcástico ( como, por exemplo, sobre os «uârquechopes»), sem esquecer uma página inteira dedicada à Banda Desenhada.
Contas feitas, trata-se de mais um extraordinário Coice de Mula, com uma qualidade notável, tanto a nível gráfico como dos seus conteúdos.

e-mail :
jornal_coicedemula@oninet.pt

contactos e subscrições:
Apartado 21477, 1134 Lisboa Codex Portugal

Pontos de Venda:
Almada: Centro de Cultura Libertária

Braga: Livraria Centésima Página

Coimbra: Café República Sé Velha

Évora: Quiosque Praça do Giraldo; Quiosque do Largo de Luís de Camões

Leiria: Livraria Arquivo; Café Pé do Rio

Lisboa: Livraria Ler Devagar; Quiosque do Rossio; Loja Suchi

Porto: Livraria Utopia; Quiosque do café Piolho

Portalegre: Livraria Tavares; Livraria 8.6

Setúbal: Zaragata
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Nota: os interessados em adquirir a revista podem também contactar: