2.3.05

Ecologistas versus conservacionistas



Os ecologistas distinguem-se dos conservacionistas ( e preservacionistas) com quem têm apesar de tudo, muitas coisas em comum.
Para os primeiros as respostas aos problemas ambientais não passam apenas pela adopção de legislação e da criação de reservas e parques,ou aumentar o controle e fiscalização da poluição.

Os desequilíbrios e os graves problemas ambientais com que o planeta se defronta não se resolvem com simples preocupações em salvaguardar o que resta da natureza ou em prevenir riscos para a sobrevivência da vida. A exploração e a depredação da natureza levada a cabo pelo homem chegou a tal ponto que só uma inflexão e uma verdadeira mudança de atitude ( política, económica e individual) para com o meio ambiente poderá dar resposta à evolução suicidária deste capitalismo predatório.

Assim, e ao contrário do que defendem os conservacionistas, os ecologistas afirmam claramente que são imprescindíveis e fundamentais mudanças no modelo económico «produtivista» e industrial de forma a alterar substancialmente a relação entre o homem e a natureza que foi seguida até agora, e que implica necessariamente profundas mudanças na forma como a sociedade está organizada e se estrutura economicamente. Só assim será possível recentrar o homem dentro da natureza, e não concebê-lo como inimigo e dominador-explorador da natureza, superando algumas dualidades cartesianas e a ideologia dominante da razão economicista e produtivista.

Por isso mesmo é que os ecologistas contestam o darwinismo e a defendem o mutualismo, isto é, a teoria de afirma a interdependência de todas as coisas.
O fundador da economia, o liberal Adam Smith, assim como o famoso Malthus, acompanham Darwin nacrença comum que e competição e «a luta pela sobrevivência» são a tendência natural entre os seres vivos, e que explicaria o progresso industrial, tecnológico e humano.

Ora o pensamento ecologista desenvolveu-se em grande medida como reacção a esta perspectiva. Considerar a competição como a força ubíqua que explica a evolução das espécies e a estrutura da biosfera é certamente um exagero. Daí a necessidade de uma visão holística e eco-sistémica que supere as concepções mais reducionistas, responsáveis pela multiplicação de especialistas que quanto mais afunilam o seu conhecimento especializado mais denunciam a sua incapacidade de entenderem a complexidade sistémica da vida.

Poema-Cigano

Nós, ciganos, temos uma só religião: a da liberdade
Em troca desta renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à glória
Vivemos cada dia como se fosse o último
Quando se morre, deixa-se tudo: um miserável carroção como um grande império
E nós cremos que nesse momento é muito melhor ser cigano do que rei.
Nós não pensamos na morte. Não a tememos – eis tudo.
O nosso segredo está no gozar em cada dia as pequenas coisas que a vida nos oferece
e que os outros homens não sabem apreciar; uma manhã de sol, um banho na torrente, o contemplar de alguém que se ama
É difícil compreender estas coisas, eu sei
Nasce-se cigano.
Agrada-nos caminhar sob as estrelas.
Contam-se estranhas histórias sobre ciganos
Diz-se que lemos nas estrelas e que possuímos o filtro do amor
As pessoas não acreditam nas coisas que não sabem explicar-se
Nós, pelo contrário, não procuramos explicar as coisas em que acreditamos.
A nossa vida é uma vida simples, primitiva: basta-nos ter por tecto o céu, um fogo para nos aquecer e as nossas canções quando estamos tristes.

Vittorio Pasqualle Spatzo (poeta cigano)

A sociedade industrial ameaça...a noite e as estrelas!!!

Para a maior parte da população dos países industrializados, e para uma boa fatia da população mundial a Via Lactea tornou-se invisível a olho nu!!! A responsabilidade pelo facto cabe inteiramente à poluição luminosa das nossas mega-cidades e à profusão de fontes artificiais de iluminação que tornam invisíveis as estrelas! Quem as quiser observar tem de se deslocar para o campo e a montanha, e mesmo assim a proliferação da luz eléctrica ( basta recordarmo-nos da rápida e fácil venda de materiais de iluminação para uso privado) ameaça perigosamente a observação do céu celestial, além de constituir um verdadeiro foco de perturbação para a fauna.

Para mais informações consultar o site da International Dark-Sky association:

www.darksky.org

2 livros a ler

O primeiro livro a ler, sem demoras, é “Portugal, Hoje - O Medo de Existir” (edição da Relógio de Água) do filósofo contemporâneo português José Gil que nos fala do medo “…de existir, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver...” A isto não é estranho, claro está, a grande noite ditatorial que entravou a sociedade portuguesa.
O autor, a dado passo do livro, escreve: “vive-se e pensa-se pequeno, a pequenez é a negação do excesso, e a nossa maneira de "estar certo" ou "ser certinho" - o nosso "justo meio". (...) Não vemos mais longe do que a ponta do nariz, quer dizer, mais longe do que as nossas fronteiras, a nossa região, a nossa cidade, a nossa família e, por fim, mais longe do que os limites do nosso corpo. Não vemos mais longe do que a vida imediata, colados a um falso presente sem passado”.


O outro é a biografia do livre pensador renascentista Giordano Bruno de autoria de Francesca Caroutch com o título “O Homem do Fogo” (edição Ésquilo), que foi condenado à morte na fogueira pela Inquisição clerical por ter ousado questionar a ideologia religiosa dominante e defender uma concepção holística do mundo, na sua pluralidade, sem centro nem periferia. E é com o mesmo arrojo que defende a sua visão do mundo que se dirige aos seus juízes:
“…Vós, que pronunciais essa sentença estareis, porventura, mais assustados do que eu, que a cumprirei…”
O pensamento de Bruno era holista, naturalista e espiritualista. Entre as suas ideias especulativas, destaca-se a percepção de uma sabedoria que se exprime na ordem natural, onde todas as coisas estão interligadas e se interrelacionam de maneira mais ou menos subtil (holismo); a pluralidade dos mundos habitados, sendo a Terra apenas mais um de vários planetas que giram em volta de outros sistemas, etc. Por tudo isso, por essa ousadia em pensar, Bruno - que estava séculos à frente do seu tempo - pagou um alto preço. Mas sua coragem serviu de mola e incentivo ao progresso científico e filosófico posterior.
Fiel aos seus ideais, mártir da liberdade de pensamento, Giordano Bruno morre queimado na pira da Inquisição em 1600, na cidade de Roma. Ridicularizou os milagres de Cristo e outras dogmas católicos, como a aceitação da virgindade de Maria. Antes de morrer cospe no crucifixo.

1.3.05

Forests forever

www.forests-forever.com

É um website dedicado às florestas e aos bosques de todo o mundo, desde a Califórnia até às massas florestais da Nova Zelândia, passando pelas selvas da Costa Rica e as coníferas da Europa Central.
Contém links, fotos, e informações várias sobre os bosques e florestas.

O Big Brother é italiano? As escutas telefónicas em Itália chegaram ao ponto máximo possível!!!

O principal operador italiano dos telemóveis, Tim, comunicou que não está em condições de assegurar mais escutas telefónicas requisitadas pelo Estado italiano (isto é, a polícia e congéneres) ) uma vez que o nº de escutas telefónicos em curso atingiu o limite de saturação, o que quer dizer que só na rede daquele operador 5.000 telefones estão submetidos a escutas telefónicas neste momento. Os responsáveis daquele operador de telefones móveis em Itália pediram, entretanto, à polícia e aos procuradores para moderarem a suas requisições.
Diz-se, entretanto, que os outros operadores, Vodafone e Wind, não estão longe de conhecer os mesmos problemas.
Não há muito tempo o ministro italiano do interior reconheceu que o número de escutas telefónicas não param de aumentar com os anos: 32.000 em 2001, 45.00 em 2002, 77.000 em 2003, mais de 100.000 telefones sob escuta em 2004.
Com estes números a Itália está em primeiro lugar nos países em que mais se recorre às escutas telefónicas: 72 cidadãos em cada 100.000 habitantes têm as suas comunicações telefónicas interceptadas




A feitiçaria capitalista do «progresso»...e como desenfeitiça-lo!

Acabou de sair em França o livro da conhecida química e cientista belga Isabelle Stengers e de Philippe Pignarre, “ La sorcellerie capitaliste,pratiques de désenvouetement” ( “A feitiçaria capitalista, práticas de desenfeitiçamento” ), editado pelas edições La Découverte, cahiers libres.

O capitalismo é um sistema que permanentemente se reinventa e que têm conseguido encerrar os seus críticos em alternativas infernais ( a subida dos salários provocaria o aumento do desemprego…).


Como será possível ficarmos menos expostos e menos vulneráveis a este autêntico sistema-feiticeiro.

Uma questão serve de ponto de partida para a abordagem à actual realidade: não será que certas noções, vulgarmente partilhadas por muitos de nós, como é, por exemplo, a crença vulgar, e socialmente aceite, na ideia do «progresso» - não será que tais «ideias feitas» deverão ser postas em causa?

Denunciando os impasses dos partidos da esquerda assim como as insuficiências do movimento altermundialista de crítica à globalização capitalista, os autores formulam uma concepção que pretende desenvolver e promover um anticapitalismo pragmático


A luta dos chapeleiros contra as máquinas capitalistas

( o luddismo em versão portuguesa)


Em 1891, António José de Oliveira Júnior, antigo operário, criou uma fábrica de chapéus de pêlo: Oliveira & Palmares.

No entanto ainda em 1910 o fabrico de chapéus em S. João da Madeira continua a ser feito pelas mãos dos operários. "Só a partir da crise provocada pela 1ª Guerra Mundial a indústria é orientada doutra forma. As empresas introduzem máquinas e, para tal, é necessário construir instalações adequadas e concentrar o pessoal nas fábricas. O crescimento da indústria levou alguns industriais a investirem na mecanização para assim poderem responder à solicitação comercial, para se afirmarem no mercado.

Para adquirir as máquinas os industriais deslocaram-se à Belgica e França. No fim do século outros países da Europa (França, Alemanha, Inglaterra, Itália) começam a exportar e há nova crise em Portugal. Esta é agravada pela dependência das matérias primas. Os operários temendo a perda juntam-se aos patrões para, junto do governo conseguirem alguns benefícios. Em 1892 criou-se uma pauta aduaneira que favorecia a indústria nacional (1986,Mónica,pág.64).

Segue-se um período de desenvolvimento a que se segue também um período conturbado com greves, por parte dos operários que temiam que as máquinas lhes tirassem o emprego.
As máquinas roubavam-lhes o saber e, com ele o poder.


Os operários chapeleiros, constituíam um grupo operário altamente qualificado. Maria Filomena Mónica, chama-lhes a aristocracia operária. Controlavam todo o processo de fabrico. Sem eles, não havia chapéus (1986,Mónica,op. cit.).

A mecanização permitiu que outros mais dóceis os viessem substituir. O autor de Unhas Negras - João da Silva Correia- narra como os gerentes das fábricas conseguiram acalmar os operários com a promessa de que não ficariam sem trabalho. Embora as máquinas dispensassem homens, como houve aumento na procura do produto e, consequentemente, aumento na produção de chapéus não foi necessário recorrer ao despedimento.

Após várias crises os chapeleiros não conseguem vencer a mecanização. Era muito difícil numa época em que o progresso era o futuro, segundo a análise do estudo feito por Maria Filomena Mónica.

http://www.cmsjm.pt/museu_industria_chapelaria/jornadas/comunicacoes/clotilde_oliveira1.htm



Vietnamitas processam empresas químicas norte-americanas por causa do «agente laranja»

Um tribunal de Nova York decidirá proximamente sobre a procedência de uma acção apresentada por cidadãos vietnamitas contra 37 empresas químicas norte-americanas que directa ou indirectamente produziram o chamado «agente laranja). A acção judicial denuncia a conexão entre as deformações congénitas apresentadas ainda na actualidade por muitos jovens e recém-nascidos que, nascem sem olhos nem braçis, por efeito do «agente laranja» existente nos produtos desfolhantes que o Exército norte-americano espalhou pelas selvas vietnamitas durante toda a guerra do Vietname.

Os 100 anos do mítico IWW (Industrial Workers of the World)



A histórica organização sindicalista norte-americana, IWW ( Industrial Workers of the World), celebra este ano o seu centenário. Fundada em 1905 a IWW foi um importante meio de luta para muitos trabalhadores norte-americanos e o «terror» para as elites empresariais e políticas dos Estados Unidos, que tudo fizeram para neutralizar a sua força e o seu potencial organizativo. Estão previstas várias iniciativas para marcar a data.

Informações: www.iww.org

28.2.05

Dumping social e dumping ambiental

Fala-se em dumping social quando os preços baixos dos bens resultam do facto das empresas produtoras estarem instaladas em países onde não são cumpridos os direitos humanos mais elementares, assim como direitos dos trabalhadores internacionalmente reconhecidos, nomeadamente aqueles que estão previstos pela Organização Internacional do Trabalho, pelo que os custos sociais da mão-de-obra são extremamente baixos permitindo consequentemente uma descida artificial dos preços produzidos em condições laborais ilegítimas e que vão contra a dignidade humana.


Fala-se em dumping ambiental quando os preços baixos dos bens resultam do facto das empresas suas produtoras estarem instaladas ( ou terem-se instalado) em países cuja legislação não exige o cumprimento de normas de defesa do ambiente, nem seguem os habituais padrões de qualidade do ambiente existentes nos países desenvolvidos, pelo que tais empresas economizam custos ao não efectuarem investimentos no domínio ambiental a que estariam obrigadas se estivessem instaladas em países desenvolvidos.

Escusado é dizer que tanto o dumping social como o dumping ambiental constituem as razões mais fortes ( e frequentes) para a deslocalização das empresas, isto é, a transferência das suas instalações de fabrico e produção de uns países onde os direitos dos trabalhadores, a qualidade de vida e o ambiente são melhor salvaguardados para outros países onde tal não acontece.


A prática do dumping está pois relacionada com a situação na qual produtos de um determinado país são introduzidos no comércio de outro país a um preço inferior ao valor ( preço) que seria normal se fossem respeitadas as normas laborais e ambientais. Assim o preço do bem importado é inferior ao preço do bem se este fosse fabricado no país cumpridor daquelas normas.

O dumping representa, por si mesmo, uma prática prejudicial e condenável, estando vinculado com outras práticas desleais de comércio como o underselling e o preço predatório.

A bicicleta é subversiva!

A bicicleta é subversiva! Quem diria?...


(tradução livre do texto sob o título” Vicissitudes das bicicletas” de Fernando Buen Abad Dominguéz e editado em www.barriocarmen.net)

Apesar de marginalizadas pela cultura do automóvel, as bicicletas não desistem de se afirmarem nas sociedades ocidentais contemporâneas. É certo que não poucas vezes desempenham a função de simples brinquedo, há muito tempo guardado no mundo dos sonhos infantis, que é oferecido como prenda no Natal, por ocasião de outras festas…ou então, como simples artefacto desportivo capaz das maiores façanhas olímpicas ou de simples e relaxantes passeios matinais.
Espantosamente acabam sempre por ficar estacionadas nos mais estranhos lugares, talvez como recordação de uma certa culpa por uma vida e uma ginástica perdida. Mas a verdade é que a bicicleta contém todo um outro potencial nas específicas circunstâncias das nossas cidades em termos de distância, clima e educação. Na realidade, nas condições económicas, políticas e culturais que as sucessivas crises nos lançaram, assim como por imperativos de ordem ecológica, urbanística e de saúde pública, a bicicleta bem pode ser a resposta e solução para um sem número de problemas relacionados com os transportes.
Na balança das vantagens e inconvenientes das bicicletas move-se naturalmente toda a força de inércia que prende as pessoas anónimas a determinadas variáveis difíceis de se alterar. Mas não é menos verdade que na balança movem-se poderosíssimas inércias artificiais engendradas por projectos económico-ideológicos empenhados a impedir o desenvolvimento da mais barata solução do problema económico e social que é o transporte. Com efeito, o custo e as vantagens da bicicleta deixam os outros tipos de veículos a milhas de distância. O que a torna perigosa e subversiva.
Enquanto as grandes empresas de automóveis se embriagam com records de vendas dos seus veículos, e os políticos mancomunados com os empreiteiros se afadigam a esventrar as terras construindo auto-estradas, estradas principais e secundárias, a bicicleta aguarda a sua vez para pôr em cheque uma estrutura económica e social em vias de se desmoronar.

O maior desafio da bicicleta não é no entanto, só de carácter técnico ou económico. Ela enfrenta ainda o poderoso fetiche publicitário que converteu o automóvel em símbolo do status social, isto é, da condição social do seu proprietário ou usuário. Enfrenta pois o poder ideológico de um sinal de classe.
Por mais esforços que se façam a ideia da democratização do transporte automóvel e do desenvolvimento do transporte público têm minado o potencial da bicicleta, sem negar evidentemente as vantagens de um e do outro.
É bom que se note, porém, desde que Blanchard e Masurier idealizaram a sua Celerífiro em 1779, antecedente da bicicleta moderna, mais os contributos de Macmillan em 1839, até às bicicletas de carbono ultraligeiras para funções com alto rendimento, passando pelos tandem, side cars, triciclos, etc,etc, a procura de sistemas de transporte com custos baixos e com maiores benefícios inquestionáveis para a saúde, nunca parou. Imagine-se até que, recentemente, alguém inventou com algum laivo surrealista, bicicletas fixas com um só roda para efeitos de ginástica pessoal e de beleza física.

Com as suas vantagens e benefícios a frágil bicicleta questiona e interpela o urbanismo, a arquitectura, os programas políticos e até, pasme-se, a moral. Não foram poucas as objecções moralistas quando as mulheres pretenderam também andar de bicicleta Para os olhos dos conservadores da época era algo de obsceno ver uma mulher montada num meio de locomoção, desenvolvendo movimentos musculares a bordo de uma simples bicicleta.

Virtualmente todo o espaço pode ser utilizado por uma bicicleta, sem necessidade de reservar vias especiais para o seu uso. Desgraçadamente não existe qualquer regulamentação ou legislação que favoreça o uso da bicicleta. E isto apesar das virtualidades socializadoras que a bicicleta pode encerrar entre os seus utilizadores. Com efeito, a bicicleta estimula o passeio, facilita a circulação e o acesso a zonas saturadas de tráfico automóvel, diminui radicalmente os custos energéticos, os custos em estacionamentos e parkings, e elimina toda a burocracia que gira em torno do todo-poderoso carro. No fundo, a bicicleta é perigosa.

Uma boa bicicleta envolve sempre, pelo menos, duas pessoas. Uma cultura da bicicleta mobilizaria a história. Com tracção humana.

Consultar mais em :
www.barriocarmen.net/fernandobuenabad

A essência da guerra ( por Orwell)

«A essência da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas do produto do trabalho humano. A guerra prefigura a forma ideal de despedaçar, de lançar na estratosfera ou de afundar nos abismos marítimos produtos que, de outro modo, poderiam servir para dar às massas um conforto excessivo, e por conseguinte, a longo prazo, torná-las extremamente lúcidas. Mesmo que o armamento não chegue a ser de facto destruído, o seu fabrico, ainda assim, ocupa, na prática, forças de trabalho sem nada produzir que possa ser consumido.
Se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vivem embrutecidos pela pobreza, instruir-se-iam e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenhava qualquer função, e acabariam com ela.»

George Orwell, 1984,ed. Antígona

Cuidado! As palavras enganam....

Cuidado! As palavras enganam: ocultam a realidade...

Sim, é preciso ter cuidado com as palavras. As palavras podem induzir muitas vezes a enganos e levar a interpretações erróneas. Exemplos?

Por exemplo:

E se, afinal, os liberais no governo e no poder, em vez da Ordem Social que tanto gostam de falar, fossem os verdadeiros defensores da Desordem Social?
E se os anarquistas, apesar do aparente significado de anarquia ser sinónimo de desordem, serem eles realmente os arautos da Ordem Social?

E se os militares de todos os exércitos fossem os verdadeiros terroristas, aqueles que semeiam o perigo e a ameaça de terror sobre países e populações indefesas, enquanto os supostos terroristas, e acusados como tal, mais não fossem que simples campónios a defenderem, com machados e enxadas tecnologicamente actualizadas, as suas terras e os seus valores ancestrais?

E se os verdadeiros professores e pedagogos já não se encontrassem hoje nas escolas a ensinar alunos, mas antes nos balneários e nos relvados dos estádios a prepararem afanosamente os seus pupilos para serem cada vez melhores em cada semana, em cada prova e em cada teste que semanalmente os jogadores tiverem que se submeter? Enquanto nas escolas o que existem são sim autênticos treinadores e adestradores que domesticam os jovens na disciplina social da competição e do individualismo selvagem do mercado de trabalho?

E se aos que actualmente chamamos de desportistas não fossem aqueles que nós vemos na Sport TV, mas antes exímios actores do Espectáculo semanal e lucrativo , enquanto os verdadeiros desportistas, em vez de se encontrarem nos relvados, estão antes nas praias, nos jardins, nas ruas?

E se aquilo a que chamamos TV é, afinal, de contas uma verdadeira fábrica de cidadãos apáticos e estúpidos, tão sofisticada e tão poderosa, que mal a conseguimos associar à indústria e à produção em série, enquanto os recintos em que foram instaladas as modernas e tecnologicamente avançadas indústrias são verdadeiros parques tecnológicos de entretenimento para quem circular, dentro deles, diariamente.

E se os padres e moralistas fossem, afinal, os verdadeiros pecadores da imoralidade, enquanto as mulheres endiabradas e todos os homens acusados de blasfémia e que são condenados à excomunhão são os verdadeiros sacerdotes da Religião Celestial do Sublime, um ideal que todo o ser humano pretende alcançar?

Por tudo isso é que preciso, talvez, uma Revolução nas Palavras como condição prévia para a Revolução Social

27.2.05

As primeiras lutas ecológicas em Portugal

Apresenta-se a seguir uma breve listagem das primeiras lutas ecológicas que se travaram em Portugal:


*-As lutas travadas pelos agricultores e pela população local contra o projecto do complexo da Refinaria de Sines - elaborado pelo Gabinete da Área de Sines que reunia à época a nata dos tecnocratas do país - e a consequente urbanização e destruição dos ecossistemas locais e todo o habitat da região.
Tratava-se de um projecto gigantesco e megalómano aprovado pelo Governo fascista de Caetano em 20/4/1971
No jornal de Beja "O Camponês" escrevia-se no início de 1975: "Centenas e centenas de hectares das melhores terras com hortas, pomares e arrozais estão ao abandono há mais de 2 anos pela expropriação feita pelo Gabinete da Área de Sines. Camponeses, muitos dos quais com mais de 60 anos, que sempre e durante toda a sua vida trabalharam a terra, foram obrigados a deixá-la e procurar o sustento em trabalho como a construção civil, que está fora das suas possibilidades. Camponeses pobres, forçados pela chantagem e a pressão contínua, que os obriga a vender as suas terras por preços que não lhes permite adquirir sequer uma habitação condigna"

* As lutas das populações ribeirinhas do Rio Alviela, desde 1969, contra a sua poluição e a intoxicação alimentar de que são vítimas e a criação da C.L.P. A. (Comissão de Luta Contra a Poluição do Alviela) em Julho de 1973

* A contestação contra a eucaliptização da Serra da Ossa levada a cabo pela empresa de celulose Socel

* As lutas e contestação popular contra a poluição provocada pela celulose de Cacia e da poluição do Rio Vouga ( em 1958 500 habitantes de Cacia fizeram um abaixo-assinado).

* A contestação em 1973 da população de Constância e da Praia do Ribatejo contra a instalação da fábrica de Celulose Caima Pulp na confluência do Zêzere e do Tejo

* A contestação dos pescadores do Estuário do Sado contra a crescente poluição marítima

* Contestação popular da aldeia de Runa, Torres Vedras, antes do 25 de Abril, contra a a poluição do seu rio Sizandro.

* Contestação do povo de Maceirinha, Leiria, contra as poeiras de cimento que caíam ininterruptamente sobre as casas e a população vindas da fábrica de Cimento situada naquela localidade

*Contestação popular contra o complexo cimenteiro da vila de Souzelas, nos arredores de Coimbra

*Contestação popular contra a poluição por arsénico na Mina do Pintor em Nogueira do Cravo, entre Oliveira de Azeméis e S. João da Madeira

* Contestação luso-galega contra a celulose planeada para o município de Toén, Pontevedra nas margens do Rio Minho

* Contestação da população do Barreiro à poluição atmosférica provocada pelas industrias instaladas no concelho, com um abaixo-assinado de 1971

*Luta popular anti-nuclear em15 de MARÇO DE 1976 em Ferrel, Peniche, contra uma projectada central nuclear, luta prosseguida em 28 de Março de 1976 quando é criada a CALCAN ( Comissão de Apoio à Luta contra a Ameaça Nuclear)

Como é que os capitalistas se mantêm no Poder...ou como é que o Poder político-económico se reproduz.

Breve explicação sociológica sobre a Reprodução Social


As sociedades estão estratificadas em classes sociais de tal modo que se pode falar em pirâmide social, uma vez que a maior parte da população encontra-se na base da pirâmide, enquanto apenas um pequeno número de pessoas fazem parte da elite económica e política que governa a sociedade.

Perguntar-se-á então como é possível que esta estrutura de classes se mantenha ao longo do tempo sabendo que a maioria da população se encontra subordinada, se não mesmo submetida a um pequeno grupo de governantes.

A resposta é dada pela sociologia.


Com efeito, a classe dominante, que é minoritária, governa a sociedade e só se mantém graças à ideologia (= conjunto de ideias) dominante que consegue impor a todos os restantes elementos da sociedade. É essa ideologia dominante que explica e legitima o poder da elite económica e política.

Por exemplo: o antigo poder dos reis só se conseguia manter e reproduzir-se ao longo de séculos uma vez que a sua ideologia era interiorizada pelas classes inferiores, que faziam suas as idéias que lhe eram transmitidas e incutidas: nesse caso a explicação que era vendida às pessoas era que o rei é o soberano por efeito de um poder natural ou sobrenatural.

E as pessoas interiorizavam resignadamente essa ideologia dominante.

Hoje em dia passa-se a mesma coisa, apenas se mudou a fonte de legitimidade do poder.

Assim, só na medida em que a classe dominante consegue convencer as classes inferiores que só ela ( a classe dominante) pode ter poder económico e político, estará ela em condições de se manter no topo da pirâmide social.

Actualmente, a fonte de legitimidade que se pretende incutir para legitimar e justificar o poder das classes dominantes é o fato destas terem capital (= é a posse de capital que legitima o poder da elite económica) ou de terem sido eleitas democraticamente (= é o número de votos que confere legitimidade aos governos, sem cuidar evidentemente se os votos são ou não resultado de uma decisão esclarecida)


Esses critérios de legitimação para se ter poder económico ( = ter capital) e político (= ter votos) são perfeitamente arbitrários e aleatórios - sim, porque quem me garante que é quem tem mais dinheiro ou quem tem votos que está em melhores condições para governar????

E porque não mudar o critério para quem tem mais inteligência?
Ou para quem tenha mais músculos?
Ou para quem saiba fazer melhores poemas?


Só no dia em que as classes inferiores não aceitarem engolir resignadamente essa ideologia dominante é que a legitimidade política e económica das classes dominantes entrará em crise.

Nesse dia, provavelmente, qualquer outro grupo social que queira conquistar o poder terá que, simultaneamente, impor a sua ideologia, convencendo a população da base da pirâmide social da sua legitimidade em apoderar-se do poder.

Nesse momento aparecerá uma nova ideologia dominante, para servir de base e cimento à também nova classe dominante.


Há ainda , evidentemente, a hipótese libertária de cada um tomar em mãos a sua própria vida em cooperação com os seus e a natureza.

24.2.05

Viver sem telemóvel, para salvaguardar o silêncio e a reflexão

Resistir às falsas urgências e temporalidades da vida moderna;
pela defesa do silêncio, da espera e para reinventar novos modos de vida alternativos à toda poderosa velocidade moderna.


Entrevista com o sociólogo Francis Jauréguiberry, sociólogo, investigador e professor na Universidade de Pau, França.


P -Qual é razão do seu interesse relativamente às pessoas não-utentes do telemóvel?

R – Sempre estive interessado em acompanhar e estudar todos aqueles que revelam uma vontade e um comportamento de resistência aos modos e às injunções sociais. Hoje em dia, perante a injunção generalizada de que tudo é comunicacional, alguns pessoas, em pouco número, é certo, mas de uma maneira muito significativa, rejeitam cair nessa tendência e nessa moda.

P – Nem todos os não utentes são pessoas idosas, é verdade?

R – Sim, é justamente isso que é extremamente interessante. Ao contrário de uma visão tecnicista que faz dos não utentes do telemóvel pessoas retrógradas, incapazes de acompanhar as inovações, eu tenho encontrado indivíduos que estão perfeitamente integrados no espírito dos tempo presente, que têm vidas muito activas, e que não sofrem de qualquer espécie de tecnofobia, tanto mais que muitos deles têm e utilizam os computadores ligados à Internet. Ora o que se passa é que é preciso ter algo mais que a simples vontade para rejeitar a posse e o uso de um telemóvel. A motivação tem de ser, pelo menos, muito forte. Aliás, não é propriamente o telemóvel, enquanto objecto, que é recusado por essas pessoas, mas sim a temporalidade que ele implica. Com efeito, para essas pessoas a paragem, o silêncio, a espera e o diferimento não são, de todo, aspectos negativos. Com o seu procedimento essas pessoas acabam por reintroduzir uma outra dimensão temporal ligada à maturação, à reflexão e á meditação. Muitos deles receiam que a imposição da urgência, da imediatidade venham a matar a imaginação, tal como a conversa da treta poderá substituir a troca recíproca. Não querem prejudicar o compasso de espera. E há até quem diga que o telemóvel não passa de um poderoso meio de controle. E isso não só a nível profissional como ainda na própria esfera pessoal.


P – O que é que se sabe acerca das consequências psicológicas dos telemóveis?

R – É difícil responder. Estou actualmente a fazer um estudo na Califórnia sobre os chamados «burn out», isto é, todos os que se vão abaixo por efeito de uma vida demasiado apressada, cheia de stress, e que encaram o seu dia-a-dia como se fosse um combate permanente. Certamente que não terá sido o telemóvel que esteve na origem daquele desenlace, mas foi, sem dúvida, um instrumento perfeito daquela vida conturbada que viveram. Curiosamente, quando essas pessoas se vão abaixo, elas cortam com o telemóvel. E para sair dele é indispensável retirarmo-nos do ritmo temporal, isto é, da temporalidade que ele é um simples espelho, e substituí-la por uma sincronia universal em busca de uma união em tempo real de todos os ramos da grande rede. É preciso aprender a seleccionar, a dizer não, a aceitar a solidão e o silêncio. Dá para pensar o facto de serem as pessoas que renunciam ao telemóvel, aquelas que atraem e são motivo dos nossos estudos.


(tradução da entrevista publicada no Le Monde2 de 19 de Fevereiro de 2005)

Uma montanha de lixo sepulta duas aldeias na Indonésia

Segundo uma notícia enviada ontem pela agência de notícias Reuters uma aldeia indonésia ficou soterrada depois de uma avalanche de lixo que se terá desprendido de uma enorme lixeira existente junto de duas pequenas povoações na província indonésia de Java Ocidental, e causado pelo menos 40 mortos e outro tantos desaparecidos.

O Exército espanhol recruta estrangeiros imigrantes por falta de interesse dos espanhóis na tropa

A partir do próximo mês de Abril imigrantes estrangeiros entrarão nas fileiras do exército espanhol nas Astúrias por manifesta falta de interesse revelado pelos jovens espanhóis em alistarem-se face à falta de efectivos que o Exército espanhol está sentindo segundo as palavras do general chefe da Região militar do Noroeste de Espanha, Juan Yague Martinez del Campo. O mesmo general revelou que mais imigrantes estrangeiros serão contratados nos meses seguintes para fazer face às necessidades de pessoal das Forças Armadas espanholas. Refira-se ainda que o Exército de terra na nossa vizinha Espanha conta actualmente com 49.00 elementos, muito abaixo dos 68.000 profissionais que deveria ter segundo a programação militar.

(informação veiculada pela Voz das Astúrias)

23.2.05

O conceito de «Desenvolvimento sustentável»

(origem e significado)

Nos anos 1980, surgiu um novo conceito que pretende defender o meio ambiente, ao mesmo tempo em que inscreve o homem no centro das suas preocupações.
O termo "desenvolvimento sustentável" teria sido utilizado explicitamente pela primeira vez no Building a sustainable Society, o manifesto do partido ecológico da Grã-Bretanha, escrito por Lester Brown, do Worldwatch Institute, em 1981. Seis anos depois, em 1987, a Comissão mundial sobre o meio ambiente e o desenvolvimento - presidida pelo Primeiro-Ministro da Noruega, Gro Harlem Brundtland - popularizou a ideia em seu relatório Our Common Future (O futuro de todos nós). Mas foi apenas em 1992 que os governos do mundo inteiro oficializaram o conceito de desenvolvimento sustentável, durante a Cúpula da Terra - Eco 92, realizada no Rio de Janeiro (Brasil). Em Agosto de 2002, a África do Sul recebe a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável. Por ocasião da maior conferência organizada em nome das Nações Unidas, a comunidade internacional pretende fazer o balanço do estado do Planeta e dos seus habitantes, dez anos depois dos compromissos assumidos no Rio, e definir as políticas públicas globais para as quais esses compromissos podem ser implementados em escala internacional. Se devemos o conceito de desenvolvimento sustentável em grande parte a Lester Brown, este baseou-se, para construí-lo, nas propostas que Ignacy Sachs e Maurice Strong tinham elaborado, nos anos 1970, para o que eles chamaram na época de "eco-desenvolvimento". Sachs e Strong propunham, assim, uma abordagem voluntarista a fim de realizar simultaneamente desenvolvimento económico, equidade social e prudência ecológica. Nessa perspectiva, a intervenção institucional parecia fundamental, pois ela devia assumir acções destinadas a controlar a utilização dos recursos, a empregar técnicas "limpas" de produção, e a privilegiar as necessidades ao invés das procuras nos hábitos de consumo.Strong presidiu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Stockholm, 1972), mas a ideia não chegou a firmar-se, especialmente devido à rejeição pelos países industrializados e os seus lobbies económicos, de um eventual controle de suas actividades. Foi o Clube de Roma que conseguiu fazer-se ouvir, particularmente através da publicação do relatório Os Limites do Crescimento, no qual argumentava que o mundo já tinha alcançado todo o crescimento necessário para proporcionar uma vida confortável e satisfatória aos seres humanos. Ele desaconselhava, assim, que se privilegiasse políticas orientadas para o crescimento, o Planeta não tendo capacidade para absorver maiores desenvolvimentos nesse sentido... Mas a Conferência foi finalmente encerrada com um compromisso a favor da preservação da natureza e da criação de várias agências nacionais e internacionais - dentre elas o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) - que permitissem atingir esse objectivo.O conceito de desenvolvimento sustentável foi popularizado e integrado na linguagem das Nações Unidas graças ao Relatório Brundtland, de 1987. Esse Relatório formulava a definição do conceito mais conhecida e ainda largamente aceite actualmente: "um desenvolvimento que responde às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de responder às suas". Ele estabelece também sete acções estratégicas a serem implementadas a fim de alcançá-lo: (i) aprofundar e melhorar o crescimento;
(ii) satisfazer as necessidades essenciais em termos de emprego, de alimentação, de energia, de água e de salubridade;
(iii) manter a taxa demográfica num nível sustentável;
(iv) conservar e valorizar os recursos naturais;
(v) reorientar a tecnologia para gerenciar os riscos; e (vi) integrar o meio ambiente e a economia aos processos de decisão.Em 1992, durante a Rio 92 - dirigida por Maurice Strong - esse projecto de desenvolvimento foi finalmente oficializado como cenário e eixo da política pública global. Nessa ocasião, a comunidade internacional, pela voz do maior número de Chefes de Estado e de Governos já reunido até então, adoptou principalmente uma declaração política enumerando 21 princípios que estabelecem os direitos e deveres das nações na continuidade do desenvolvimento humano e do bem-estar. Trata-se da Agenda 21, acompanhada de um plano de acção que visa fazer do desenvolvimento um procedimento social, económica e ecologicamente durável. Esse plano de acção constitui um programa que "reflecte um consenso mundial e um compromisso político no nível mais elevado da cooperação em matéria de desenvolvimento e de meio ambiente" (Agenda 21, Preâmbulo, Parágrafo 1,3).Três dimensões devem ser levadas em conta em toda estratégia de desenvolvimento sustentável:
(1) uma estratégia desse tipo pensa em termos propriamente "humanos": ela escolhe a equidade inter-estatal e inter-geracional.
(2) ela supõe também o reconhecimento de que as capacidades da economia industrial em satisfazer as necessidades humanas são limitadas pela natureza. Para que o desenvolvimento seja durável, é essencial que os recursos disponíveis sejam bem administrados, a fim de que se possa continuar a satisfazer as necessidades a longo prazo. Por este motivo,
(3) os esforços de desenvolvimento sustentável implicam a avaliação dos efeitos das actividades económicas sobre o meio ambiente, e deve buscar meios de financiamento e de melhoria das técnicas industriais que permitem preservar os recursos naturais.A chave do sucesso depende também da aplicação de três princípios que correspondem a cada uma das dimensões:
(i) o princípio de solidariedade entre as populações do mundo e entre gerações presentes e futuras; (ii) o princípio de precaução, que parte da constatação de que a Terra não sendo um laboratório, é obrigada a tomar medidas preventivas ou de abstinência quando os efeitos de uma acção sobre o meio ambiente não são conhecidos;
(iii) o princípio de participação do conjunto dos actores na tomada de decisões colectivas.Na Rio 92, a comunidade internacional também aprovou o princípio das responsabilidades comuns mais diferenciadas, em virtude do qual todos os países do mundo são responsáveis pela saúde do Planeta, mas têm papéis diferentes a desempenhar a esse respeito. Os países desenvolvidos, responsáveis pelo modelo dominante de desenvolvimento, devem fazer evoluir os seus modos de consumo e de produção, e transferir recursos, tecnologias "limpas" e capitais aos países em desenvolvimento (PED), de modo que estes possam encontrar por si mesmos o caminho para um desenvolvimento sustentável. Os PED, em contrapartida, devem aceitar transformar as suas economias e os seus modos de produção poluentes, apesar do custo elevado que isso possa significar.O conceito de desenvolvimento sustentável introduziu um sentimento de novidade na cena geo-política e intelectual internacional. De facto, a busca do desenvolvimento era tradicionalmente concebida como um esforço de industrialização e de mercantilização da economia, único modo de permitir às sociedades entrar na modernidade, melhorar as condições de vida dos seus membros, e dar aos seres humanos a possibilidade de controlar seu destino. Por seu lado, o desenvolvimento sustentável integra todas as dimensões da vida social, relacionando-as com o meio ambiente natural no qual elas se inserem. Essa abordagem integrada propõe, além disso, um diálogo intercultural susceptível de reconciliar os diferentes modelos de desenvolvimento, que desse modo se torna uma escolha política que as sociedades farão democraticamente e em coerência com suas próprias concepções sociais. O desenvolvimento sustentável - também definido de modo amplo - parece englobar o próprio sentido da vida. De facto, a agenda do desenvolvimento sustentável tornou-se tão vasta que se pode perguntar o que poderia ficar de fora dela. Debaixo desse guarda-chuva, vêm-se actualmente abordadas questões tão díspares quanto o papel das mulheres na sociedade moderna, o comércio internacional, a água potável, a redução da dívida externa, a desertificação e a desflorestação, a redução da pobreza ou a defesa dos Direitos Humanos e dos valores democráticos...


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