12.12.05

A Biblioteca Ideal ( por Raymond Queneau)


No início dos anos 50 o escritor Raymond Queneau inventariou com a ajuda de outros autores uma lista de 100 livros que lhe serviu de base para o seu livro Pour une Bibliothèque Idéale (Gallimard, 1956).
Reproduzimos abaixo essa lista, independentemente de estarmos de acordo ou não com ela, e o facto de não se encontar actualizada ( a data da sua elaboração é de 1956).
De qualquer forma, julgamos interessante como documento de trabalho e pista para leituras...furiosas.


1. Shakespeare, Teatro
2. A Bíblia
3. Proust, Em busca do tempo perdido
4. Montaigne, Ensaios
5. Rabelais, Os cinco livros
6. Baudelaire, As flores do mal
7. Pascal, Pensamentos
8. Molière, Teatro
9. J.-J. Rousseau, As Confissões
10. Stendhal, O Vermelho e o Negror
11. Platon, Diálogos
12. Stendhal, A Cartuxa de Parma
13. F. Villon, os Testamentos
14. Rimbaud, Obras poéticas ( incluindo as Illuminations)
15. Cardinal de Retz, Memórias
16. Tolstoi, Guerra e Paz
17. Saint-Simon, Memórias
18. Cervantes, Don Quixote
19. Racine, Teatro
20. Esquilo, Teatro
21. Dostoievsky, Os Irmãos Karamazov
22. Mallarmé, Poemas
23. La Fontaine, Fábulas
24. Goethe, Fausto
25. Apollinaire, Alcools
26. Flaubert, Educação Sentimental
27. Homero, Odissais
28. Corneille, Teatro
29. Dante, A Divina Comédia
30. Chateaubriand, Mémoires d’Outre-Tombe
31. Balzac, A Comédia Humana
32. Sófocles, Teatro
33. James Joyce, Ulysses
34. Laclos, As ligações perigosas
35. Swift, A viagens de Gulliver
36. Verlaine, Poemas
37. Flaubert, Madame Bovary
38. Rimbaud, Une Saison en Enfer
39. Descartes, Discurso do Método
40. Prévost, Manon Lescaut
41. Ronsard, Les Odes
42. Aristofanes, Teatro
43. Tácito, Anais e Histórias
44. Spinoza, Ética
45. Hoelderlin, Poemas
46. Gérard de Nerval, Les Filles du Feu (et les Chimères)
47. Defoe, Robinson Crusoe
48. Santo Agostinho, As Confissões
49. Lautréamont, Os cantos de Maldoror
50. Victor Hugo, Os Miseráveis
51. Lewis Carroll, Alice no país das Maravilhas
52. Musset, Comédias e Provérbios
53. Jules Renard, Journal
54. Homère, A Ilíada
55. Dostoievsky, O idiota
56. Emily Brontë, O monte dos vendavais
57. Dostoievsky, Os Possessos
58. Voltaire, Contos
59. W. Blake, Poemas
60. Dostoievsky, Crime e Castigo
61. Plutarque, Vida de homens ilustres
62. Mme de La Fayette, La Princesse de Clèves
63. Karl Marx, O Capital
64. Benjamin Constant, Adolphe
65. Beaumarchais, Teatro
66. Agrippa d’Aubigné, Les Tragiques
67. Alfred de Vigny, Les Destinées
68. Lorca, Poemas
69. Malraux, A Condição Humana
70. La Rochefoucauld, Máximas
71. La Bruyère, Les Caractères
72. Mme de Sévigné, Cartas
73. Littré, Dictionnaire de la Langue française
74. Jarry, Ubu roi
75. Valéry, Poemas
76. Pascal, Les Provinciales
77. T.E. Lawrence, O sete Pilares da Sabedorias
78. Mérimée, Nouvelles79. Valéry, Variété
80. Heraclito, Fragmentos
81. Marivaux, Teatro
82. V. Hugo, La Légende des Siècles
83. Kafka, Le Processo
84. Voltaire, Correspondência
85. Apollinaire, Calligrammes
86. André Gide, Journal
87. Andersen, Contos
88. Alexandre Dumas, Les Trois Mousquetaires
89. Casanova, Mémoires
90. As Mil e uma Noites
91. Conrad, Lord Jim
92. Novalis, Poesias e Fragmentos filosóficos
93. Nietzsche, Assim falava Zaratrusta
94. Claudel, Teatro
95. Tristan Corbière, Os amores amarelos
96. V. Hugo, Les Contemplations
97. Saint Jean de la Croix, La Nuit obscure de l’Âme
98. Gogol, As almas mortas
99. Virgile, A Eneida
100. Bernanos, Journal d’un Curé de Campagne

11.12.05

Contra os brinquedos de guerra


Se gostas de viver…, porquê então, jogar e brincar a matar os outros?

Quando falamos de violência de imediato vem à nossa mente as guerras, mortes, golpes militares, etc, mas há também aquela violência do quotidiano que nos aparece como se fosse normal e que se vai reproduzindo persistentemente.
O autoritarismo, a repressão, a exclusão assim como muitíssimas relações assimétricas resultantes das nossas sociedades machistas, adultocêntricas, homofóbicas e racistas, ilustram suficientemente aquela realidade.
A influência social dissemina-se por via da reprodução e transmissão social para todos os segmentos sociais, mas é nas crianças que ela se exerce com particular força até pela simples razão que aí se estabelece com bastante nitidez uma forte relação vertical.
Também quando os ensinamos a jogar ou a distrair-se não deixa de se exercer aquela influência social que conduz à reprodução social das ideias dominantes.
Desgraçadamente, quando pensamos em dar um brinquedo, o que cuidamos é saber se o seu destinatário irá ou não apreciar, e não nos lembramos que ele serve também para educar. Procuramos, por isso, em oferecer a última novidade tecnológica, o jogo da moda ou então o que estiver mais à mão.
Não prestamos atenção ao papel e função que o jogo ou o brinquedo podem assumir na sociedade e a muitos nem sequer reflectem sobre se aquele concreto brinquedo ( ou jogo) serve ou não para perpetuar um determinado modelo social. Ora se queremos mudar as nossas sociedades importa atender aos brinquedos que compramos para as crianças. É assim que os brinquedos bélicos iniciam a crianças numa atitude militarista inculcando-lhe hábitos e conotações de agressividade e violência. Através dos
brinquedos de guerra está-se a legitimar as instituições agressivas, já para não dizer que através daqueles se garante o contínuo rearmamento das sociedades.
Não é por via dos brinquedos de guerra que as crianças vão entender a realidade social da violência e da guerra. Apenas conseguem apreender estereótipos. E pior que isso, os brinquedos de guerra servem as mais das vezes para deformar e ocultar as verdadeiras causas das guerras e da violência social, ocultando ainda as suas consequências irreparáveis.
A ideia de ver o jogo como um ingrediente importante na formação infantil leva-nos à necessidade de procurar alternativas não violentas onde se promova e relações de cooperação e amizade, num processo mais abrangente que favoreça às crianças e aos jovens a perspectivação das relações sociais numa óptica diferente.
Com efeito, depende de nós todos saber qual é a sociedade que pretendemos.

Através dos brinquedos as crianças vão interiorizando e fazendo como seus os comportamentos sociais e os valores implícitos num jogo ou num brinquedo. Daí que não tenhamos dúvidas ao dizer que os brinquedos bélicos não são neutrais. Por seu intermédio pode ser perpetuado todo um sistema social baseado em modelos comportamentais competitivos, violentos, incentivadores de uma vontade de domínio como um fim em si mesmo. A violência torna-se então o árbitro das relações sociais: é o mais forte que triunfa, que tem sempre razão e a quem cabe o papel do bom da fita.
Os brinquedos bélicos são uma verdadeira iniciação ao modelo militar-machista prevalecente nas nossas sociedades. O rapazito descobre aos poucos que o seu futuro papel de homem é diferenciado do da mulher, procurando por conseguinte identificar-se com as figuras machistas do guerreiro.
Acontece que os brinquedos de guerra cumprem ainda a função de legitimar as instituições militares e repressivas, a cujo processo não é estranho a simplificação da divisão entre bons e maus.
Os videojogos mais não fazem que modernizar este esquema reprodutor de uma forma mais insidiosa e insolente.
Claro que há quem argumente que não se deve ocultar as realidades da violência social e das guerras. E não falta quem considere que os brinquedos bélicos respondem a uma necessidade das crianças em canalizar a sua agressividade.
A tais objecções há que alegar que os brinquedos de guerra, mais que a ajudar as crianças a entender a realidade, o que fazem realmente é ocultar as causas e as consequências daquele fenómeno.
Cabe também perguntar porque é que outras realidades sociais como os suicídios e a prostituição não fazem parte dos inúmeros jogos infantis, sabendo todos que são, ao lado da guerra e da violência social, factos civilizacionais incontornáveis.
Por outro lado, importa frisar que existem brinquedos muito mais adequados para orientar a criatividade natural da criança que não passam forçosamente pelos brinquedos de guerra. A tensão física poderá ser muito melhor compensada com exercícios corporais e outros movimentos.
Recorde-se que os brinquedos devem cumprir duas funções capitais, a saber: serem veículo de expressão da emotividade, imaginação e estado de espírito, e serem instrumento de aprendizagem de um determinado comportamento social. Sendo assim, a agressividade não deve ser eliminada, mas devendo antes garantir a sua livre expressão, através de um desenvolvimento positivo que não se reconduza à violação dos direitos dos outros nem ao seu domínio. Ou seja: a uma agressividade que não se traduza numa violência destrutiva.

A verdadeira razão para o desejo de ter brinquedos de guerra está na publicidade destilada ao jovem ou à criança indefesa.
Está pois nas nossas mãos estimular a posse e o uso dos brinquedos de guerra ou cortar o mal pela raiz, oferecendo brinquedos e jogos que tornem desnecessários objectos que promovam a guerra, a violência social e a dominação de uns sobre os outros.


MEMORANDUM
O Parlamento Europeu aprovou em 13 de Setembro de 1982 uma resolução sobreos brinquedos de guerra, alertando para a problemática

Imagine ( John Lennon, 1971)

Imagina que não há nenhum paraíso,
É fácil se tentares
Nenhum inferno por baixo de nós
Acima de nós só o céu
Imagina toda a gente Vivendo o momento presente

Imagina que não há países
Não é difícil fazê-lo
Ninguém para matar ou por quem morrer
Nem sequer religião
Imagina toda a gente
Vivendo a sua vida em paz

Imagina que não há propriedade
Pergunto-me se o consegues
Nenhuma necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagina toda a gente
Compartilhando o mundo inteiro

Decálogo da imbecilidade

- Pensar que a cor da pele faz de uns melhores do que outros

- acreditar que um ser humano tem mais valor se usar roupa de marca

- estar convencido que «homem» é sinónimo de humanidade

- pensar que os pobres são pobres porque querem

- vangloriar-se de ter prejudicado alguém igual ou inferior a si

- crer que os homens só pensam em sexo

- agir com base em preconceitos

- deixar-se ir pela corrente, repetindo e macaqueando o que está na moda

- estar convicto que ganhar é ser viril e ter desprezo pelos outros

- admirar e aspirar a repetir o modelo do «ganhador» em vez de saber confrontar-se com ele.

( adaptação feita a partir de um texto de Marcelo Colussi, in
www.rebelion.org )

Caça de tigres na Estremadura !!!


Segundo notícias a circular pela imprensa estão a ser organizados safaris domésticos nas herdades e nos cotos privados da Estremadura espanhola ao ponto de terem sido caçados tigres e leões que previamente tinham sido traficados e largados ali pelos organizadores e que serviriam de alvo à caça grossa de indivíduos sem escrúpulos.
Segundo as mesmas notícias alguns dos participantes foram identificados pela guarda civil espanhola, depois de já terem morto um tigre.
O turismo de ricos sempre foi depradatório...

7.12.05

No discurso de aceitação do Nobel, Harold Pinter pede que Blair vá a tribunal por crimes de guerra


No discurso que vai ser lido na cerimónia de entrega do Prémio no próximo Sábado, o escritor inglês Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005, pede com muita firmeza que o Primeiro-ministro inglês Tony Blair compareça no tribunal por crimes de guerra .

Ao longo das 5.000 palavras que compõem aquele discurso de aceitação, o dramaturgo britânico critica também ferozmente o governo norte-americano pelas prisões de Guantanamo e também a desestabilização que os norte-americanos desencadearam na Nicarágua nos anos de 1980.
.
Todavia, reserva as suas críticas mais cerradas para o Reino Unido pela sua atitude «patética» de apoio aos Estados Unidos.

O corajoso escritor, indefectível activista anti-militarista, chega mesmo a declarar textualmente: «A invasão do Iraque foi um acto de bandidos, um acto de terrorismo de Estado, demonstrando a mais completa indiferença para com a lei internacional».
E acrescenta: « A invasão foi uma acção militar arbitrária, baseada nma série de mentiras e de grosseiras manipulações dos media e da opinião pública…um claro exemplo da responsabilidade da força militar pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes»

Harold Pinter, de 75 anos, não poderá estar presente na cerimónia de entrega do Prémio Nobel de Literatura pela Academia Sueca em Estocolmo por causa do seu frágil estado de saúde, pelo que será substituído pelo seu editor. No entanto, o autor de «The Caretaker» e «The BorthdayParty» gravou o discurso num vídeo que será retransmitido naquela cerimónia.
.
"How many people do you have to kill before you qualify to be described as a mass murderer and a war criminal? One hundred thousand? More than enough, I would have thought,"
(«Quantas pessoas terão de ser mortas antes daqueles políticos serem qualificados de assassinos de massa e de criminosos de guerra? Cem mil pessoas?»)
interroga-se o escritor a dado passo no discurso gravado.
.
"Therefore it is just that Bush and Blair be arraigned before the international criminal court of justice. But Bush has been clever. He has not ratified the international criminal court of justice ...
But Tony Blair has ratified the court and is therefore available for prosecution. We can let the court have his address if they're interested: it is Number 10, Downing Street, London."
(«A justiça exige que Bush e Blair sejam presentes ao Tribunal Penal Internacional. Bush foi, no entanto, mais esperto ao não ter ratificado o tratado que institui aquele tribunal internacional. Mas o governo Blair ratificou, pelo que pode objecto de acusação. Podemos enviar ao Tribunal, desde já, o seu endereço se assim estiver interessado: é o nº 10 de Downing Street, London »)

Não à biometria ( por Giorgio Agamben)


(em apoio aos estudantes inculpados por terem destruído, no passado mês de Novembro, os dispositivos de biometria instalados no seu liceu, o filósofo Giorgio Agamben publicou no jornal Le Monde de 6 de Dezembro o texto que se segue, devidamente traduzido para português)

Quando no fim do século XIX, Galion começou as suas pesquisas sobre as impressões digitais na Inglaterra, e Bertllon, na França, inventou a fotografia judiciária para a identificação antropométrica ( termo da época), tais procedimentos estavam reservados exclusivamente para os criminosos reincidentes.
Hoje em dia perfila-se uma sociedade em que se propões aplicar a todos os indivíduos dispositivos que estavam, até ao momento, destinados aos delinquentes. Segundo um projecto que está em vias de ser aprovado a relação normal do Estado para com aqueles que Rousseau chamava os «membros do soberano» será a biometria, ou seja, a suspeita generalizada.
À medida que os indivíduos, sob a pressão da crescente despolitização das sociedades pós-industriais, se abstém de toda a participação política, cada vez mais são tratados como virtuais criminosos. O corpo político torna-se assim um corpo criminal.
Os perigos de uma tal situação são evidentes para todos salvo para aqueles que se recusam de ver. Já não bastou que as fotografias retiradas dos bilhetes de identidade e das cartas profissionais tivessem permitido às polícias nazis, dos países ocupados, identificar e registar os judeus e enviá-los para a deportação. O que é que se vai passar no dia em que um poder despótico disponha do registo biométrico de toda uma população?
Ora isto é tanto mais inquietante quanto os países europeus, depois de terem imposto o controle biométrico aos imigrantes, aprestam-se agora a impô-lo a todos os seus cidadãos. As razões securitárias invocadas a favor destas práticas odientas não se mostram convincentes pois que, se podem contribuir para impedir a reincidência, elas mostram-se inúteis para prevenir o primeiro delito ou um acto de terrorismo. Em contrapartida, ela são perfeitamente eficazes para o controle massivo dos indivíduos. No dia em que o controle biométrico seja generalizado e em que a videovigilância seja instalada em todas as ruas, toda a crítica e toda a dissidência serão impossíveis.
Os jovens estudantes que destruíram no passado dia 17 de Novembro os dispositivos biométricos na cantina do liceu de Gif-sur-Yvette mostraram, antes do mais, que se preocuparam bem mais com as liberdades públicas e a democracia do que aqueles que aceitaram e consentiram na instalação daqueles dispositivos.
Exprimo toda a minha solidariedade aos estudantes franceses e declaro publicamente que recusarei sujeitar-me a todo o controle biométrico e que, por isso, estou pronto a renunciar ao meu passaporte bem como de todo o documento de identificação

Revista Utopia; já saiu o nº 20 com um dossier sobre Artes & Anarquia


Já se encontra em distribuição o último número (nº 20) da revista Utopia, « revista anarquista de cultura e intervenção», editada pela Associação Cultural A Vida.
Além de um óptimo aspecto gráfico é de salientar o dossier «Artes & Anarquia», que ocupa grande parte do seu conteúdo, e que inclui textos sobre Teatro Anarquista, Os anarquistas no imaginário cinematográfico, e ainda sobre a arte e a sensibilidade anarquista. De destacar ainda um texto de Maria Luísa Malato Borralho intitulado «Não há Utopias Portuguesas?».
Refira-se que na contracapa da revista aparece uma citação do poeta António Maria Lisboa: » A Anarquia e a Poesia são uma obra de séculos e irrompe espontaneamente ou não irrompe» ( António Maria Lisboa, Abril de 1950)
Os pontos de distribuição da revista são os habituais, entre os quais se conta a Livraria Utopia, na Rua da Regeneração, 22, na cidade do Porto

Mais info:
www.utopia.pt

Transformar o mundo e Mudar a vida


«Transformar o mundo», disse Marx;
«mudar a vida», disse Rimbaud:
estas duas palavras de ordem são, para nós, uma só.

André Breton, in Discurso ao Congresso dos escritores, 1935

6.12.05

BELLA CIAO

( canto dos partisanos - resistentes anti-fascistas italianos - na II Guerra Mundial durante a ditadura de Mussolini)

Una mattina mi son svegliato
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
Una mattina mi son svegliato
e~ho trovato l’invasor.

Oh partigiano, portami via
O bella ciao, …
Oh partigiano, portami via
che mi sento di morir

E se io moio da partigiano
O bella ciao, …
E se io moio da partigiano
Tu mi devi seppellir

E seppellire lassu~in montagna
O bella ciao, …
E seppellire lassu~in montagna
Sotto l’ombra di~un bel fior.

E tutti quelli che passerano
O bella ciao, …
E tutti quelli che passerano
Te diranno: che bel fior.

E quest’è~il fiore del partigiano
O bella ciao, …
E questo’il fiore del partigiano
Morto per la libertà


Tradução:

Numa manhã me levantei
E o invasor encontrei

Ó partisano leva-me
Que me sinto a morrer

E se eu morrer, partisano
Deves enterrar-me
Enterrar-me lá no alto, no cimo da montanha
Sob a sombra de uma bela flor

E todos os que por lá passarem
Te dirão: que bela flor

É a flor do
partisano
Que morreu pela liberdade

330 desempregados todos os dias em Portugal


Ao contrário da tendência europeia, o desemprego em Portugal continua a crescer, pelo menos até 2007. Dados do Instituto Nacional de Estatística revelam uma subida de meio ponto percentual face ao segundo trimestre, situando-se nos 7,7 por cento. O que significa que o desemprego evoluiu, de Julho a Setembro, ao ritmo médio de 330 novos desempregados por dia.

"Prevê-se que a UE crie seis milhões de novos postos de trabalho entre 2005 e 2007." A perspectiva, radiosa, consta das previsões de Outono da Comissão Europeia e estriba-se na expectativa de um bom comportamento económico do espaço comunitário, que espera crescer 1,5 por cento este ano, 2,1 por cento em 2006 e 2,4 por cento em 2007.
Postas as coisas neste pé, Portugal parece fazer parte de outro universo. O desemprego está a crescer "sustentadamente" desde 2002 e, pelo menos até 2007, deverá subir ainda mais, ao arrepio da tendência europeia. A taxa do terceiro trimestre deste ano (2005) divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) deu um salto de meio ponto percentual face ao segundo trimestre, situando-se nos 7,7 por cento, a que corresponderão cerca de 430 mil desempregados, o que significa que o desemprego evoluiu, de Julho a Setembro, ao ritmo médio de 330 novos desempregados por dia (o chamado "desemprego registado", que contempla as inscrições nos centros de emprego do continente e regiões autónomas, ascendia em 31 de Outubro a 484.730 indivíduos.
Também nas previsões de crescimento, a economia portuguesa contraria a UE, devendo continuar até 2007 a crescer abaixo da média europeia, perfazendo um total de seis anos de empobrecimento face aos parceiros da União. Enfim, Portugal deixou, decididamente, de ser o "bom aluno" dos anos noventa, com a economia a crescer acima da média europeia e com baixas taxas de desemprego, para se constituir, no novo século, como o "patinho feio" e um dos fardos com que a União tem de carregar.

Correspondência entre Tolstoi e Gandhi


«Um exame(…) teve lugar, na primavera passada, numa das instituições femininas de Moscovo.O professor (…) e depois o padre presente interrogaram as raparigas sobre os Mandamentos, nomeadamente o sexto. Depois de qualquer resposta correcta a propósito deste último ( «Não matarás»), o padre fazia às vezes uma outra pergunta: o assassinato é sempre, em todas e quaisquer circunstâncias, proibido pela lei de Deus? E as pobres raparigas instruídas na mentira pelos mestres, deviam responder e respondiam assim: « Nem sempre. O assassinato é permitido na guerra e também para castigar os criminosos.» No entanto, uma delas, (…) respondeu peremptoriamente, muito comovida e corando: «O assassinato é sempre proibido, tanto pelo antigo Testamento como por Cristo; e não é só o assassinato, mas todo o mal cometido contra o próximo.» Foi então que o padre teve de se calar, porque a rapariga saíra vencedora.
( Tolstoi para Gandhi a 7 de Setembro de 1910)

«Permita-me que lhe chame a atenção para os acontecimentos que têm ocorrido no Transval, na África do Sul, de há três anos para cá.
Há nesse país uma colónia de indianos ingleses que forma uma população de cerca de treze mil habitantes. As leis privam de certos direitos esses hindus que trabalham há vários anos no Transval: preconceitos tenazes contra os homens de cor e mesmo contra os asiáticos, devidos, em relação a estes últimos, ao jogo da concorrência comercial.
Surgiram conflitos que atingiram o ponto culminante quando há três anos foi votada uma lei que atingia especialmente os trabalhadores vindos da Ásia (…) A submissão a tal lei, não podia estar de acordo, segundo penso, com o espírito da verdadeira religião. Alguns dos meus amigos e eu próprio acreditamos ainda completamente na doutrina da não-resistência ao mal.(…)Os indianos britânicos, a quem explicámos cabalmente a situação seguiram o nosso conselho de não se submeterem à legislação. (…) Cerca de duas mil e quinhentas pessoas deixaram-se prender, algumas já cinco vezes, em nome da sua consciência.»
(Gandhi para Tolstoi, a 1 de Outubro de 1909)

4.12.05

9º Festival de Cinema Luso-Brasileiro( 4 -11 Dez.)


Começa hoje a 9ª edição do Festival de Cinema Luso-Brasileiro e que se prolongará até ao dia 11 no auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, a escassos 30 Km a sul da cidade do Porto.
Trata-se de um festival promovido pelo cineclube local e que pretende dar visibilidade a um cinema distinto da produção comercial e do cinema de entretenmento.
Poderão ser vistos filmes dos cineastas brasileiros Kiko Goifman, Kleber Mendonça Filho e Christian Caselli, Roberto Gervitz ( «Jogo Subetrrâneo»), Sérgio Bianchi («Quanto vale ou é por quilo?»), Marcelo Gomes ( « Cinema, aspirinas e urubus»), Marco Martins («Alice») e Margararida Gil («Adriana»).
Alvo de homenagem serão os cineastas José Álvaro Morais ( em relação ao qual se prevê o relançamento do livro « Reinos desancantados:um olhar sobre a obra de José Álvaro Morais» da autoria de Saguenail) e o realizador brasileiro Carlos Reichenbach, conhecido pela sua irreverência dentro da cultura underground.


Mais info:

1.12.05

Um fim de semana (2,3,4 de Dez.) de debates, expo e música no Porto

2,3,4 Dez. - um fim de semana de debates, expo e música no Porto
organizado pela Assoc. «Abril em Maio»
.
Em novembro é de Abril e Maio que me lembro
.

Fim de semana de debates, intervenções, grupos de discussão, filmes, exposições, música e bancas na Faculdade das Belas-Artes ( à Av. Rodrigues de Freitas, junto ao Jardim de S. Lázaro), no Porto, durante os dias 2, 3 e 4 de Dezembro, numa iniciativa da Associação «Abril em Maio».
.
.
o que é isso de democracia?

arte e Política

como fazer recuar as fronteiras do possível?

se houver pão, o vinho e as rosas que se lixem?

a cultura é uma arma dos ofendidos ou uma indústria da consolação?

a arquitectura que temos está para a rua como os desígnios do céu para as toupeiras

a preguiça não é o objectivo maior de uma sociedade evoluída?

a escola não tem sido o instrumento de perpetuação das desigualdades sociais?

a propriedade não é um roubo?

se se está mais perto de um hospital não se tem mais hipóteses de se ficar doente?

não é quando se ouve falar de violência que se saca de um projecto cultural de bairro?

se se tolera o belicismo expansionista não é por lhe confiarmos a tarefa de defender o nosso belo modo de vida?

PROGRAMA

6ª feira (2 de Dez.)
17h. Abertura das exposições e bancas

18 h. Projecção de I PAISAN, de Giuseppe Morandi, com a presença do autor, de Peter Kammerer e Eduarda Dionísio

21h. Lançamento do jornal PREC, Põe, Rapa, Empurra, Cai

21.30h. Ana Deus canta dois temas de Kitchner

22 h. Arte e Política: com intervenções de Ângelo de Sousa, João Fernandes, Manuel António Pina, Rui Madeira

24h. Concertos e cantorias no Senhorio

Sábado ( 3 de Dez.)
14h. Arte e Política: grupos de discussão com Regina Guimarães, Pedro Rodrigues, e Saguenail.

16.30 h. António Preto mostra e comenta a exposição de poesia visual

17.30 COMO FAZER RECUAR AS FRONTEIRAS DO POSSÍVEL? Intervenções de António Maria Sousa, Giuseppe Morandi, Peter Kammerer, Saguenail

21.30h. Projecção do «O ÇUL VERÃO», antologia de imagens de 74/75 montadas por Amarante Abramovici, Tiago Afonso e Vítor Ribeiro
22h. QUE FRONTEIRAS DO POSSÌVEL? Grupos de discussão com António Preto, Rui Canário, Susana Mendes

24h. Concertos e cantorias no Senhorio

Domingo ( 4 de Dez.)
14h. O QUE É ISSO DE DEMOCRACIA? Intervenções de Gianfranco Azzali, Jean-Pierre Garnier, Madureiro Pinto

17h. O QUE É ISSO DE DEMOCRACIA? Grupos de discussão com Inês e Teresa Mendes, João Veloso, Renato Roque.

Mais info:
http://abrilemmaio.no.sapo.pt/

http://abrilemmaio.no.sapo.pt/Programa%20Porto%2005.htm

O Rali Lisboa-Dakar é um atentado ao nosso planeta e à consciência humana

Rali Lisboa-Dakar? Não, obrigado.



Hordas de carros, camiões e motas (240 motos, 188 automóveis, 80 camiões e 240 veículos de assistência) vão invadir, mais uma vez, ecossistemas frágeis ao longo de todo um percurso que vai partir, este ano, de Lisboa até chegar a Dakar, capital do Senegal, em plena África subsariana. Trata-se de um rali automóvel que espelha bem o modelo de sociedade consumista em que vivemos e que é responsável pela dissipação e esbanjamento de recursos.

Esta ocasião serve geralmente para que uma multidão de veículos todo-o-terreno, altamente poluidores, sejam lançados agressivamente a toda a velocidade por terras desconhecidas, e sejam objecto de uma estranha veneração mediática, quase que mitificados, numa operação propagandística com forte impacte e indutora, junto da população em geral, de comportamentos despesistas e contrários ao desenvolvimento sustentável.
Mas um tal Rali é duplamente chocante quando pensamos nas múltiplas carências que atingem o continente africano, que será atravessado por aquelas hostes motorizadas, numa deplorável atitude de arrogância e indiferença para com o sofrimento alheio. Uma caravana de engenhos motorizados rutilantes, atravessando os países mais desfavorecidos de África, é bem a triste imagem da «civilização» depredadora e injusta em que os países do Norte se revêem.

Não é, por isso, de todo extemporâneo, interrogarmo-nos sobre a razão de ser do ralli:

Será aceitável um evento deste género quando milhares de africanos se lançam desesperadamente, muitas vezes, numa viagem sem regresso, nos difíceis caminhos da emigração clandestina para os países europeus?

Será aceitável o desperdício de centenas de milhar de litros de combustível numa empresa que só serve para glorificar a rapacidade dos construtores de automóveis?

Será aceitável fomentar os padrões e atitudes próprios de uma mentalidade que se alimenta de valores como a velocidade, a agressividade e o risco na estrada, o poder e o domínio da máquina?

Será, enfim, aceitável tudo isto quando a África se afunda em fome, doença, má-nutrição e guerras?

Pelo facto de terem começado a encontrar uma viva contestação, os organizadores do Rali Paris-Dakar decidiram no ano passado transferir o ponto de partida para Barcelona. Mas também aqui vieram a deparar com críticas muito fortes que levou o governo da Catalunha a desinteressar-se pelo evento. Os promotores não tiveram outro remédio que ir bater a outra porta,. Encontraram então o apoio incondicional das figuras inefáveis que dão pelo nome de Santana Lopes ( então, primeiro-ministro) e Carmona Rodrigues ( enquanto presidente da autarquia) para que a cidade de Lisboa passasse a ser o ponto de saída.
É preciso não esquecer que, desde o seu aparecimento em 1979, este Rali já provocou mais de 30 mortos e que muitos poucos governos dos países europeus autorizariam a sua realização no seu território pelos efeitos catastróficos que provocaria no ambiente e em muitos outros domínios, sem esquecer os elevados riscos humanos que comportaria.

Como é possível assistirmos a este espectáculo indigno sem nos revoltarmos?

É altura de denunciar e pedir a supressão deste infeliz espectáculo, montado, todos os anos, pelos construtores de automóveis sem consciência ambiental e, ainda menos, cívica e planetária.


Já em 1988 René Dumont, o conhecido agrónomo e ecologista francês, dizia:
« Este Rallye é indecente. Comparo-o a um bando de estroinas que organizam uma bagunça, não na casa deles, mas que se permitem fazê-lo na casa de pobres, sem sequer partilhar com eles a patuscada(…) Ora a verdadeira aventura está, sim, na luta contra a fome” ( René Dumont)

O Rali Lisboa-Dakar é obsceno, indecente, e uma pouca-vergonha…

…porque percorre terras africanas atingidas pela fome, a seca, a sida, o sobre-endividamento, a corrupção, e as ditaduras

…porque em 15 dias o rallye gasta o equivalente ao orçamento para a saúde num país como o Mali, onde as carências e as necessidades são mais que muitas

…porque as multinacionais, não contentes de explorar o subsolo, os recursos naturais, e a mão-de-obra barata dos países pobres, querem para cúmulo explorar as suas paisagens e as suas belíssimas imagens, num desprezo completo pelo sofrimento dos africanos

…porque promove o todo-poderoso automóvel num momento onde se fazem sentir as consequências negativas das mudanças climáticas

…porque se realiza numa altura em que os preços do petróleo não param de crescer, dando indícios de uma cada vez maior carência energética

…porque passa por países onde os habitantes mal conseguem obter víveres para a sua alimentação diária

…porque arranca num país como Portugal onde o desemprego, a precariedade, a pobreza e os maus resultados financeiros constituem um vivo contraste a face ao luxo e desperdício de toda uma caravana motorizada , onde predominam os veículos 4x4

…porque não deixa de se assemelhar-se a uma empresa neo-colonial.

…porque os outros países europeus não quiseram carregar em si a imagem negativa que a sua promoção e realização tem gerado

…porque a vida humana dos portugueses, as paisagens alentejanas e algarvias e a nossas terras não devem servir para um turismo motorizado, inimigo da natureza e da vida humana

Calar a nossa indignação é ser cúmplice deste abuso da indústria automóvel.

Encontro para ofertas gratuitas e doações públicas


Desde há 3 anos para cá, centenas de participantes reúnem-se na Pont-Marie, na cidade de Paris, à volta de um ideia muito simples: oferecer gratuitamente ( sem esperar nada em troca), aos desconhecidos que por ali passem, objectos domésticos, que os doadores desejam doar.
Os interessados encontram-se muito simplesmente, sem medo do «outro» nem a pensar em dinheiro e no valor monetário dos objectos.
É claro que os transeuntes ficam surpreendidos ao receber presentes imprevistos, oferecidos por desconhecidos. Outros sentem-se intimidados ao abordar desconhecidos que ali passam, tal é a estranheza que sentem pelo acto de «doar coisas» a estranhos.
Todavia, cada vez mais pessoas têm aparecido às convocatórias para partilhar esta ideia muito simples.
Outras cidades, além de Paris, têm também organizado reuniões em pleno espaço público com o mesmo objectivo: Brest, Toulouse, Marselha, Perpignan, Montpelier, Palermo, na Suíça, …
Este ano a reunião das doações e ofertas públicas («Grand Don») em Paris comemora-se pela terceira vez e foram convidados todos os interessados para o acto de oferta pública e festiva que se realizará no próximo dia 17 de Dezembro à 15 horas na Pont-Marie

Mais informação:
http://granddon.free.fr


Nota Importante:
Esta iniciativa insere-se na linha dos usos e costume e de um modo de vida, estudado por antropólogos e etnólogos, existente em muitas sociedades comunitárias, baseado nas doações e ofertas entre os seus elementos. Infelizmente, tais hábitos foram substituídos pela mercantilização crescente das relações sociais por via da introdução do dinheiro como intermediário económico.
Existem já vários estudos e investigações que tratam daquela realidade, que perdeu a importância com a penetração das estruturas capitalistas nas relações sociais das nossas sociedades, e que se perverteu com a «caridadezinha» e os «presentes» comerciais
O autor que mais dedicou atenção a esta faceta da vida das comunidades foi o sociólogo e etnólogo Marcel Mauss.

Fui para os bosques viver ( Thoreau)


Fui para os bosques porque desejava deliberadamente viver, enfrentar apenas os factos essenciais da vida, e ver se poderia aprender o que ela tinha para ensinar, em vez de, quando estivesse para morrer, descobrir que não tinha vivido.Não desejava viver o que não era vida, viver é algo de precioso; não desejava igualmente praticar a renúncia, a não ser que fosse absolutamente necessário. Queria viver e, profundidade e sugar toda a medula da vida, viver com tanto vigor e de modo tão espartano que conseguisse desbaratar tudo o que não fosse a vida, cortar uma larga trilha de trigo e ceifá-lo raso, empurrar a vida contra uma esquina; reduzi-la aos seus termos mais humildes, e, se eles provassem ser escassos, apreender a inteira e genuína mesquinhez dela, e apregoar a sua mesquinhez ao mundo; ou se ela fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de apresentar um relato verdadeiro dela na minha próxima excursão. É que a maioria dos homens, parece-me, encontram-se numa estranha incerteza acerca dela, se ela pertence ao diabo ou a Deus, e concluíram um pouco apressadamente que a principal finalidade do homem neste mundo é «glorificar Deus e gozá-lo para sempre»

Henry David Thoreau
In Walden


O que me tenho vindo a preparar para dizer é que na natureza selvagem reside a preservação do mundo…A vida consiste em vida selvagem. O mais vivo é o mais selvagem. Não estando ainda subjugado pelo homem, a sua presença retempera-o…Quando quero re-criar-me a mim próprio, procuro o mais sombrio bosque, o pântano mais espesso e, para o citadino, o mais triste. Entro aí como num lugar sagrado, num Sanctum sanctorum. Aí está a força, o tutano, da Natureza.
Em resumo, todas as boas coisas são selvagens e livres.

H.D. Thoreau,
in «Thoreau’s visions: the major essays»

Dois mitos que mantêm a Pobreza

Por Vandana Shiva

Do cantor de rock Bob Geldof ao político inglês Gordon Brown, o mundo parece de repente estar cheio de pessoas de alta nível com intenções de erradicar a pobreza. Jeffrey Sachs não é um mero "benfeitor", mas um dos economistas líderes do mundo e chefe do Earth Institute e responsável na União Europeia pelo comité que promove o desenvolvimento rápido de países. Quando Sachs lançou o livro "O Fim da Pobreza",todo a imprensa lançou a notícia, sendo inclusive matéria de capa da Revista Times. Acontece, simplesmente, que existe um problema com o manual do fim da pobreza de Sachs. Ele não entende de onde vem a pobreza, e encara-a como um pecado original. "Há algumas gerações atrás, quase todo o mundo era pobre" diz ele e acrescenta: "A Revolução Industrial promoveu novos ricos, mas muitos no mundo foram deixados para trás." Essa é uma história totalmente falsa da pobreza. Os pobres não são aqueles "deixados para trás", são aqueles que foram roubados. A riqueza acumulada pela Europa e América do Norte é amplamente baseada nas riquezas retiradas da Ásia, África e América Latina. Sem a destruição da rica indústria têxtil indiana, sem a posse do mercado de especiarias, sem o genocídio das tribos americanas, sem a escravidão da África, a Revolução Industrial não resultaria em novos ricos para a Europa ou América do Norte. Foi essa possessão violenta sobre os recursos e mercados do Terceiro Mundo que geraram a riqueza do Norte e pobreza do Sul.

Dois dos grandes mitos económicos do nosso tempo permitem que as pessoas neguem esse elo intimidador e espalhem concepções erróneas sobre o que é a pobreza.
Primeiro, a responsabilidade sobre a destruição da Natureza e a habilidade das pessoas em cuidar de si mesmas são colocadas não no crescimento industrial e na economia colonialista, mas nessas mesmas pessoas. A pobreza foi instituída como uma das causas da destruição do meio ambiente. A doença então é oferecida como cura: o crescimento económico futuro resolveria os problemas da pobreza e do declínio ambiental. Essa é a mensagem-chave da análise de Sachs.
O segundo mito é que existe um consenso que se você consome o que você produz, você não produz de verdade, pelo menos economicamente falando. Se eu produzo o meu próprio alimento, e não o comercializo, quer dizer que não contribuo para o PIB e portanto não contribuo para o "crescimento". As pessoas são consideradas pobres por comerem o seu próprio alimento e não aquele que é comercialmente distribuído como "junk food" e que é vendido por empresas de agronegócio mundiais. São vistas como pobres se viverem em casas feitas por elas mesmas com materiais ecologicamente bem ambientados como o bambu e o barro ao invés de casas de tijolo e cimento. São vistas como pobres se usarem acessórios manufacturados feitos de fibras artesanais no lugar das sintéticas. A vida de subsistência, em relação à qual o rico do ocidente interpreta como pobre, não significa necessariamente menos qualidade de vida. Ao contrário, a sua economia natural baseada em subsistência garante uma alta qualidade de vida – se mensurarmos o acesso à comida e água de boa qualidade, à oportunidade de vida de subsistência, uma robusta identidade cultural e social e um sentido à vida das pessoas. Por esses pobres não dividirem nenhum dos benefícios percebidos pelo crescimento económico, são considerados como aqueles "deixados para trás".

Essa falsa distinção entre os factores que criam possibilidades e aqueles que criam pobreza está no centro da análise de Sachs. Por isso, as suas prescrições irão agravar e aumentar a pobreza ao invés de acabar com ela. Conceitos modernos de desenvolvimento económico, que Sachs enxerga como a "cura" para a pobreza, já foram utilizados apenas em pequenas partes da história da humanidade.
Durante séculos os princípios de subsistência permitiram às sociedades de todo o planeta sobreviver e até mesmo prosperar. Nessas sociedades os limites da natureza foram respeitados guiando os limites do consumo humano. Quando o relacionamento da sociedade com a natureza é baseado na subsistência, a natureza existe como forma de riqueza comum. Ela é redefinida como "recurso" apenas quando o lucro torna-se o princípio organizador da sociedade estabelecendo um imperativo de desenvolvimento e destruição de tais recursos pelo mercado. Contudo, muitos de nós escolhem esquecer e negar isso.
Todas as pessoas em todas as sociedades dependem da Natureza. Sem água limpa, solo fértil e diversidade genética, não é possível a sobrevivência da humanidade. Hoje o desenvolvimento económico está a destruir estes bens comuns, resultando na criação de uma nova contradição: o desenvolvimento priva aqueles que mais dizemos ajudar de suas tradições com a terra e do valor da subsistência, forçando-os a sobreviver num mundo de crescente erosão.
Um sistema baseado no crescimento económico, sabemos hoje, cria triliões de dólares de super lucro para corporações enquanto condena biliões de pessoas à pobreza. E a pobreza não é, como sugere Sachs, o estado inicial do progresso humano do qual todos saímos. A pobreza é o estagio final da queda de uma pessoa quando um lado desenvolvido destrói o sistema ecológico e social que manteve a vida, a saúde e a subsistência de pessoas e do próprio planeta ao longo de eras. A realidade é que as pessoas não morrem por falta de aquisições monetárias, elas morrem pela falta de acesso às riquezas de bem comum. Aqui também, Sachs erra ao dizer: "Num mundo de abundância, 1 bilião de pessoas estão tão pobres que as suas vidas correm perigo."
Os povos indígenas na Amazónia, as comunidades na montanhas dos Himalaias, camponeses de toda a parte cujas terras não foram apropriadas, cuja água e biodiversidade não foram destruídas pela agroindústria geradora de débito, são ecologicamente ricos, mesmo ganhando menos que $1,00 dólar por dia. Por outro lado, as pessoas são pobres se tiverem que comprar as suas necessidades básicas a altos preços não importando quanto ganhem. Veja-se o caso da Índia: por causa do dumping sobre os alimentos e fibras mais baratos feito pelas nações desenvolvidas e pela diminuição das protecções de mercado decretadas pelo Governo, os preços na agricultura da Índia estão caindo, significando que os camponeses do país estão perdendo $26 biliões de dólares ao ano. Impossibilitados de sobreviver sob essas novas condições económicas, muitos camponeses agora foram golpeados pela pobreza e milhares cometem suicídio todo o ano. Em diversos locais do mundo, o acto de beber água foi privatizado de uma forma que agora as grandes corporações podem lucrar 1 trilião de dólares por ano vendendo um recurso essencial aos pobres que antes eram gratuitos.
Sendo assim os $50 biliões de ajuda humanitária do Norte para o Sul são apenas um décimo dos $500 biliões que são sugados na outra direcção através de parcelas de pagamentos e outros mecanismos injustos da economia global imposta pelo Banco Central e pelo FMI. Se realmente estamos dispostos a acabar com a pobreza , temos que estar dispostos a dar fim ao sistema que cria a pobreza tomando as riquezas de bem comum, a subsistência e os ganhos.
Antes de fazermos a pobreza uma parte da história, precisamos entender correctamente a história da pobreza. Não é o quanto as nações ricas podem dar, nem tão pouco o quanto menos podem levar.

Vandana Shiva

Texto publicado em The Ecologist (July/August 2005)
www.theecologist.org


Vandana Shiva é fisica e uma destacada activista ambiental da Índia. Fundadora da Navdanya, um movimento pela conservação da biodiversidade e pelo direito de camponeses e agricultores. Diretora do Research Foundation for Science, Technology and Natural Resource Policy.

Os números da globalização capitalista


9 milhões de pessoas morrem de fome todos os anos, apesar de existirem recursos suficientes para alimentar mais de 12 mil milhões de indivíduos.

9 milhões são igualmente o número de milionários que vivem nos Estados Unidos, país a que pertence a empresa Microsoft que no passado ano de 2004 obteve lucros no valor de 12 mil milhões de dólares.

Os 200 homens mais ricos do mundo possuem tanto que 2 mil e trezentos milhões de indivíduos

Cada vaca da União Europeia recebe 3 euros de subsídios por dia, enquanto 46% dos africanos vivem com menos de 1 euro por dia.

No ano de 2003 o branqueamento de dinheiro foi da ordem dos 500 mil milhões a 1 bilião de euros.

500 mil milhões de dólares é o montante médio das despesas publicitárias dos países ricos.

100.0000.000.000 é o orçamento militar anual de todos os países do mundo

MANIFESTO DOS 37


Aos 37 anos, José Mário Branco escreveu o "FMI". Aos 37 anos, apetece-me dizer com os situacionistas que "nada queremos de um mundo no qual a garantia de não morrer de fome se troca pelo risco de morrer de tédio"(1).
Apetece-me dizer com André Breton que "a ideia de revolução é a melhor e mais eficaz salvaguarda do individuo"(2).Apetece-me estar com a subversão. Com a crítica radical à ditadura do consumível, da mercadoria, do quantitativo, do défice.Apetece-me estar do lado da liberdade, da liberdade absoluta contra a ilusão da liberdade de compra e venda, da sobrevivência, da "sobrevida" que substitui a vida, do quotidiano insuportável, do tédio.Apetece-me estar com os poetas malditos. Com Rimbaud, com Baudelaire, com Nietzsche, com Sade, com Lautréamont a infernizar tudo quanto é direitinho, conforme às normas, castração.Apetece-me estar contra todas as formas de autoridade, opressão e dominação.
Apetece-me estar do lado da rebelião.Apetece-me dizer que já pouco acredito nos partidos, mesmo nos de esquerda. Que lutar por lugares dentro da democracia burguesa é aceitar como irreversível a democracia burguesa e, portanto, afastar totalmente do horizonte a revolução, mesmo que se continue a falar na construção da sociedade socialista. E não há transições pacíficas para o socialismo. Como escreve António José Forte (3):"Que diálogo pode haver entre o condenado à morte e o carrasco que o conduz ao patíbulo?".Apetece-me dizer que acredito na poesia e no amor como formas subversivas. Que acredito em actos provocatórios, em agitações espontâneas que ridicularizem o instituído, no terrorismo poético. Que a criatividade é o último reduto da rebelião.
.
António Pedro Ribeiro,
Frente Nietzscheana Revolucionária.
.
(1)- Raoul Vaneigem, "A Arte de Viver para a Geração Nova".
(2)- "La Révolution Surrealiste, nº4".
(3)- António José Forte, "Uma Faca nos Dentes".

O Imperialismo Simbólico


Em todos os países avançados patrões, altos funcionários internacionais, intelectuais de projecção nos media e jornalistas do top estão de acordo em falar uma estranha novilíngua cujo vocabulário, aparentemente sem origem, circula por todas as bocas: "globalização", "flexibilidade", "governabilidade" e "empregabilidade", "underclass" e "exclusão", "nova economia" e "tolerância zero", "comunitarismo", "multiculturalismo" e os seus primos "pós-modernos", "etnicidade", "minoridade", "fragmentação", etc.
A difusão dessa nova vulgata planetária - da qual se encontram notavelmente ausentes "capitalismo", "classe", "exploração", "dominação", "desigualdade" e tantos outros vocábulos decisivamente revogados sob pretexto de obsolência ou de uma presumível falta de pertinência- é produto de um imperialismo apropriadamente simbólico.

Pierre Bordieu

28.11.05

Mercado Negro ( 28 de Nov. a 3 de Dez.) de livros alternativos, na cooperativa Árvore



Realiza-se a 5ª edição do Mercado Negro do livro alternativo na Escola Artística e Profissional Árvore, ao Passeio das Virtudes, na cidade do Porto, entre os dias 28 de Novembro a 3 de Dezembro, entre as 15h. e 20h.

Atenção à zona de roubo, onde será possível «roubar» um livro numa compra superior a 35 euros.

Mais informação:
http://edicoes-mortas.blogspot.com/

Como defender-se das agressões da publicidade


A publicidade é uma actividade extremamente agressiva pelo que importa adoptar-nos algumas precauções a fim de não sermos vítimas fáceis do seu assédio, agressividade e intrusão.
Para tanto bastará alguns gestos simples que podem ser seguidos por qualquer indivíduo.Por exemplo :
- cortar o som da TV quando começar o período dedicado às mensagens publicitárias. Gozar as delícias do silêncio.
- recusar os folhetos publicitários distribuídos na rua e na caixa de correio
- voltar ao contrário todos os papéis e os sacos de plástico que contenham mensagens publictárias
- retirar as marcas das roupas que se adquirir
- nunca utilizar nem se referir a nomes de marcas

Quando não houver possibilidade de nos furtarmos à publicidade, então pôr-se a reflectir e a interrogarmo-nos a si mesmo :
- Terei necessidade disto ?
- Terão as pessoas em geral necessidade disto ?

Finalmente pôr-se a pensar sobre o não-dito, sobre o que está oculto na mensagem publicitária, assim como nas consequências sociais e ambientais da produção daquele produto em concreto

27.11.05

Desmantelemos as grandes superfícies comerciais (1)


Por cada emprego precário (por ex., 1 emprego com contrato a prazo) que criam, as grandes superfícies comerciais eliminam 5 empregos definitivos ( de duração ilimitada)


O sistema da grande distribuição nasceu e prosperou à sombra de políticas catastróficas. Por interesse inconfessados e por uma questão ideológica. Cabe-nos rejeitar um tal sistema desumano.

O modelo da grande distribuição em Portugal nasceu no início dos anos 80 com um atraso considerável relativamente ao seu aparecimento nos restantes países europeus que se deu regra geral no período do pós-guerra.
Foi mais concretamente na época cavaquista que as grandes superfícies se instalaram no mercado português e, quais eucaliptos comerciais, começaram a desertificar e a controlar todo o circuito comercial à sua volta. Desde então, Portugal entrou definitivamente na depredadora sociedade de consumo ( e do desperdício). Desaparece o comércio de proximidade e começam as peregrinações aos shoppings. Pululam também as «rapariguinhas do shopping» e multiplicam-se os multiplexes com pipocas e filmes de Hollywood.
Entretanto, a actividade comercial concentra-se nas mãos de uns poucos ( muito poucos) prejudicando os produtores, os fornecedores e iludindo os consumidores. Tudo isto sob o beneplácito dos politiqueiros à frente da máquina estatal e das autarquias, e em nome do suposto «crescimento económico»do país e da região.
Tanto mais que se constrói por artes e magias a ideia que as grandes superfícies criam emprego. A verdade é que, pelos estudos realizados até à data, conclui-se que por cada emprego a prazo ( isto é, um emprego precário) criado numa grande superfície são destruídos 5 empregos definitivos.
O modelo organizacional das grandes superfícies é bem revelador da globalização capitalista e da sua natureza profundamente desumana. Por via dele opera-se a cativação das riquezas, a concentração do poder, a destruição do tecido económico e social existentes, a intensificação da agricultura intensiva, produtivista e industrial, encorajando-se a deslocalização da produção para os países onde se explora mais a mão de obra, incluindo o trabalho infantil.
Pior que tudo, o modelo comercial das grandes superfícies erige-se como modelo único, pronto a ser exportado, mas que, na verdade, constitui uma autêntica arma de destruição maciça para os países que têm uma fraca segurança social ( como é o caso de Portugal), relativamente aos países com maior desenvolvimento, e onde as empresas construtoras das grandes superfícies se foram inspirar.
Os políticos foram os grandes responsáveis por esta implantação que destruiu e danificou sectores económicos inteiros. Só para darmos um pequeno exemplo sintomático do que aconteceu basta referir que o chamado comércio itinerante quase que desapareceu. Assim, em vez de uma carrinha ir abastecer 200 clientes, temos agora 200 carros individuais a virem a abastecer-se às grandes superfícies.
Além disso, não é verdade que os preços sejam compensadores no comércio das grandes superfícies. Só uma fortíssima campanha publicitária ( para isso mesmo é que serve a publicidade) é que induz as pessoas a acreditar que os preços dos hipermercados ficam mais em conta que o consumo de produtos locais.
É o expansionismo das grandes superfícies que explica o facto de um camponês desaparecer em cada 3 minutos ( na ex-Europa a quinze), sacrificado aos altos interesses do produtivismo industrial que tudo arrasa desde que o suposto «crescimento económico» fique saciado pelas estatísticas falaciosas. Privilegia-se uma agricultura intensiva, produtivista, estandardizada e subvencionada em prejuízo da agricultura camponesa local.
Há cada vez mais conselhos a verem o seu comércio local a definhar e desaparecer, levando à ruína os comerciantes independentes ( pequenos e médios comerciantes) substituídos pela grande superfície comercial, anónima e toda-poderosa.
Para travar esta lógica é necessário apostar em construir redes associativas e cooperativas locais que reúnam à sua volta os agricultores, os consumidores e os comerciantes independentes para melhor satisfazerem os interesses sociais de todos contra a intrusão do grande comércio capitalista.
A publicidade e os políticos não se cansam de matraquear-nos com o slogan de que é preciso baixar os preços para relançar o consumo e, desta forma, o próprio crescimento. Mas ignoram, ou fazem por isso, que as «nossas compras são os nossos empregos», e que por aquela via o mais certo é que o crescimento e o consumismo seja feito à custa da precarização dos nossos emprego, o abaixamento dos nossos salários, e quando não, baseado fundamentalmente em importações de países onde as condições de vida são muito péssimas e infra-humanas.
A malfadada directiva Bolkenstein só poderá vir piorar a situação permitindo a dessocialização do trabalho em larga escala, em nome da sacrossanta livre concorrência!!!
Importa re-apropriarmo-nos dos nossos próprios consumos, privilegiando e preferindo a troca (ou, então, em alternativa, a venda) directa, assim como os mercados e o comércio de proximidade, protagonizado por comerciantes independentes dos grandes jogos económico-financeiros, e no respeito por uma ética eco-social que defenda o ambiente e se inspire nos valores da igualdade e da solidariedade.

Um outro mundo é possível. Mas não apenas por palavras. Urge a construção de associações e cooperativas que promovam uma economia solidária e ecologicamente sustentável.
.
.
(1) Para evitar qualquer interpretação mais precipitada importa esclarecer que a expressão que serve de título ao texto foi retirada de um artigo publicado numa das recentes edições do jornal francês «La Décroissance».
Rejeitamos como princípio, como sempre, o uso de qualquer meio de carácter violento na luta política, e defendemos convictamente a criação de circuitos e redes alternativos à grande distribuição comercial que é representada pelas grandes superfícies, com vista à sua completa superação e substituição pelo comércio de proximidade.

Bocas anti-fachos


Porque é que os fachos ficam tão contentes quando terminam um puzzle em 3 meses?
-Porque na caixa indicava um prazo entre 3 a 5 anos.

Porque é que os ataúdes dos fachos têm buracos?
-Para que as larvas e as moscas venham vomitar cá fora.

O que fazer para que um facho esteja alegre no Sábado à noite?
-Contar-lhe uma anedota na segunda-feira anterior.

Para que é que os fachos têm um neurónio a mais do que os cavalos?
-Para que não caguem durante os desfiles.

Porque é que os fachos não podem dizer «entrou por um ouvido e saiu-me pelo outro»?
-Porque o som não se propaga no vazio.

Quando demora um facho a morrer por efeito de um tiro na cabeça?
- Mais ou menos 7 ou 8 horas, dependendo de quanto tempo a bala demora até encontrar o cérebro.

Porque é que os caixões dos fachos têm duas asas em cada lado?
- Da mesma maneira que existem caixotes de lixo com duas pernas e dois braços.

Sou, para quem não saiba,… a anarquia!


Nasci com a primeira Revolta. Insubmissa, desgrenhada, irreverente e bela, construí-me a mim mesma. Desde as entranhas do meu corpo partiu a primeira blasfémia contra o opressor. Neguei-me a ser submetida, dirigida e apadrinhada. Transformei-me em apóstata, e logo me acusaram de herege. Fui logo ali condenada, mas as minhas asas de fénix levaram-me para longe das fogueiras e cadafalsos. Acabei por atravessar oceanos e continentes. No caminho encontrei servidões, fome, jugo e parlamentos. Ouvi poucas desculpas e mil lamentos. Experimentei o desespero. Cavei fundo uma trincheira onde me barriquei com sonhos, crianças loucas e poetas náufragos. Atravessei Espanha por volta de 1936. Parei, olhei à esquerda, depois à direita e vi caras sujas em limpos uniformes salpicados com o sangue dos povos em nome da "justiça", da dialéctica e de outras quinta-essências. Deu-me raiva ver aquela cena, e desde aí - confesso - nunca deixei de imprecar contra os tronos, invectivar os governos, troçar das pátrias, e sofrer com a dor do mundo.
Habito agora a humanidade inteira, jovial, livre e rebelde . Não me resigno nem rezo, e aqui deixo, para quem me quiser encontrar, a minha residência permanente: vivo lá aonde se resiste às tiranias, aos pequenos e grandes poderes, e a toda a autoridade ilegítima.

Sou, para quem ainda não saiba (nem me conheça),…

... a anarquia.


Versão em castelhano:


Nací con la primera revuelta insumisa, inquieta, desgreñada Me construí a mi misma desnuda, bella, irreverente. Desde mis huesos inermes partió la primera blasfemia hacia el creador... Me negué a ser sometida, dirigida, apadrinada. Me transformé en apóstata fui acusada de irreligión. Fui condenada, pero mis alas eran de fénix, y en raudo abandoné las hogueras y atravesé los océanos... Vi yugos por dondequiera, calambres y hambre, parlamentos y lamentos, aprendí la desesperación. Cavé con las uñas una trinchera de sueños y me embriagué con esa pandilla de niños locos, poetas náufragos allá en España del treinta y seis... Miré a la izquierda, miré a la derecha y vi rostros sucios ocultos tras limpios uniformes vertiendo la sangre de los pueblos en nombre de la justicia, la dialéctica y otras empalagosas quintaesencias... Y tomé la rabia Y la afilé y lancé truenos contra los tronos, enemiga de los gobiernos, enemiga de las patrias, enemiga del dolor. Abrazo al mundo, vivo y no ruego, amo y resisto sus tiranías.

Soy la Anarquia!!!

24.11.05

Dia sem compras ( 26 de Nov. de 2005)


O Dia sem Compras ( Buy Nothing Day) uma iniciativa tomada há já alguns anos atrás, e com alguma repercussão, do colectivo que edita a revista Adbusters vai acontecer novamente este ano um pouco por todo o lado, muito especialmente nas sociedades industrializadas que se têm mostrado serem também «sociedades do desperdício». Por isso é que a criação de um «dia sem compras» é extremamente oportuna para lançar a reflexão e a discussão sobre o consumismo desenfreado das sociedades contemporâneas.

Em Portugal a iniciativa é promovida pela Associação ecologista Gaia.
Consultar:
http://gaia.org.pt/semcompras/
http://gaia.org.pt/semcompras/menu.html

Acções previstas para o próximo dia 26 de Novembro:

NO PORTO:
Concentração na rua de Santa Catarina (a partir das 16h) numa acção de sensibilização com intervenção cultural e distribuição de material.
.
VídeoForum às 21h30 no Espaço 555, na cidade do Porto (Vídeo + Fórum de Discussão Filme: The Corportation )

EM LISBOA:
Périplo por alguns dos maiores centros comerciais da Grande Lisboa (Dança, distribuição de panfletos sobre consumo responsável e outras surpresas.)Ponto de encontro: Pavilhão de Portugal às 10.30 no dia 25 de Nov.

Tertúlia - Hábitos de Consumo e Responsabilidade Ambiental e Social ( projecção de file e conversa) na Escola Secundária Leal da Câmara, Rio de Mouro10.00 h - 11.30 h no dia 25 de Nov.

Breve Sociologia do Consumo

A sociedade de consumo consiste num modelo de sociedade em que o consumo é manipulado pelas empresas, despertando necessidades artificiais, incitando à aquisição excessiva , fomentando o desperdício e originando desequilíbrios económicos e sociais.

A crescente concentração das empresas, e a emergência de grandes organizações nas sociedades contemporâneas, conferem aos vendedores de bens de consumo um grande poder económico e influência social, assim como uma posição contratual determinante sobre a outra parte contratante, o comprador.

A situação mais comum dos consumidores é a da ignorância sobre as condições do mercado e sobre a real situação dos bens e serviços adquiridos. A publicidade piora ainda as coisas quando exagera certas qualidades dos produtos para tentar seduzir os potenciais interessados. Por isso se diz que o consumidor é a parte mais fraca no contrato de compra e venda, e a necessidade de superar esta debilidade com legislação e campanhas de defesa do consumidor.


O consumo é simultaneamente um facto social e económico.
Existem factores sociais e económicos que o influenciam.
O principal factor económico é o rendimento. Segundo a «lei psicológica fundamental» de Keynes, quando o rendimento aumenta, as despesas para consumo aumentam também, mas menos que proporcionalmente, enquanto a poupança vai aumentar mais que proporcionalmente.

Em 1867, Ernst Engel, especialista em Estatística, demonstrou que o aumento do rendimento provoca uma modificação na estrutura do consumo. Assim seria possível distinguir 3 categorias de bens:
- os bens «inferiores»,cujo consumo desce à medida que aumenta o rendimento
- os bens «normais» cujo consumo aumenta à medida que o rendimento aumenta,mas proporcionalmente menos
-os bens «superiores» cujo consumo aumenta mais que proporcionalmente ao aumento do rendimento.

A estrutura do consumo varia conforme a composição demográfica do agregado familiar: quanto mais numerosa for a família, maior é o peso das despesas de consumo para a alimentação.

A idade dos elementos que compõem cada agregado familiar constitui também um factor que influencia a estrutura de consumo: uma família com uma média de idades elevada tem tendência a privilegiar as despesas da alimentação, saúde e habitação, em prejuízo das despesas para o lazer e transporte.

A localização da habitação do agregado familiar influencia também a respectiva estrutura de consumo. As famílias urbanas gastam mais nas despesas de lazer e transportes que as famílias rurais.

O sociólogo J. Baudrillard mostrou como o acto de consumir é um acto eminentemente simbólico: o consumidor não compra um bem unicamente para satisfazer uma necessidade, mas para afirmar a sua vinculação a um determinado grupo ( ou classe) social que lhe serve de referência. Sendo assim, podemos dizer que o consumo faz parte do processo de comunicação social através do qual os indivíduos comunicam uns aos outros o seu status, a sua personalidade.


Outro sociólogo, Pierre Bourdieu, associa o acto de consumir à noção de habitus ( trata-se de um conceito que se refere aos padrões de comportamento interiorizados pelos elementos de um determinado meio social). Os indivíduos têm gostos e preferências que aos seus olhos parecem ser o mais natural possível, mas que são na realidade o resultados de padrões comportamentais interiorizados que o indivíduo recebeu do meio social em que está inserido.

Em 1899 o sociólogo Thorstein Veblen demonstrou o aspecto ostentatório do acto de consumir. Para ele, o consumo ostentatório não é exclusivo das classes dominantes, mas estas servem-se deste meio para exporem socialmente a sua riqueza e ociosidade ( "sinais exteriores de riqueza").


Segundo outro autor, Duesenberry, o consumo evolui em razão da existência de um duplo efeito: um efeito de demonstração ( que consiste, no essencial, num efeito de diferenciação) e um efeito de imitação.
As camadas sociais mais baixas procuram imitar o consumo das camadas sociais mais altas, as quais procuram por sua vez novos modos de consumo a fim de poderem afirmar a sua diferença social relativamente às camadas sociais baixas. Exemplo: cada vez que o desporto das camadas altas se democratiza, estas optam por uma nova modalidade desportiva a fim de se distinguirem das camadas baixas.


Certamente que o indivíduo dispõe de uma certa margem de livre escolha, mas os seus gostos e preferências são determinados em grande parte pelo meio e cultura do grupo social em que se insere. Com efeito, o acto de consumir não serve unicamente para satisfazer uma necessidade individual, ele serve igualmente para responder a uma necessidade social: mostrar aos outros o grupo ( ou a classe) social a que se pertence.


A partir de 1950 o fenómeno do consumo nos países industrializados sofreu profundas transformações, tendo aparecido o chamado consumo de massas, ao qual não é alheio o aumento do poder de compra das populações destes países graças à melhoria substancial do seu nível de vida.
Estas transformações acompanham as mudanças registadas nos circuitos de distribuição: do comércio tradicional e de proximidade passou-se para o comércio dos centros comerciais e dos hipermercados localizados nas periferias das grandes cidades.

A crise económico dos anos de 1973 e seguintes, derivado do 1º choque petrolífero, travou esta evolução, tendo o seu impacte sido diferente conforme as camadas sociais.

Certos autores defendem que o consumo, entretanto, de um acto social e simbólico se tornou com os anos um acto mais racional.

No século XIX o consumo das famílias operárias era muito diferente das famílias ricas e abastadas. Mas com o crescimento demográfico, a emergência da cultura de massas e dos mass media a tendência recente têm sido no sentido da homogeneização e uniformização do consumo. Esta uniformização incide tanto em regiões geograficamente distantes, como entre classes e grupos sociais distintos. Várias razões explicam esta tendência: o recurso sistemático ao crédito, a influência da publicidade, a produção em série, etc


Não obstante esta uniformização a verdade é que o consumo continua a ser heterogéneo conforme os meios sociais e as culturas de cada contexto social. Se a posse de determinados bens se massificou, não é menos verdade que novos factores de diferenciação social irromperam no consumo, como a marca, o tipo do objecto, o preço, etc.

O coeficiente orçamental da alimentação continua a ser maior nas famílias operárias que nas famílias ricas.. Estas gastam mais no lazer, na educação e em bens de luxo que as primeiras.

O dia sem compras ( buy nothing day) e a oniomania

Uma das taras características de um certo modo de vida é aquilo que, em linguagem psiquiátrica, se designa por oniomania, isto é, a tendência obsessiva para fazer compras. Trata-se, com efeito, de um dos legados das nossas sociedades contemporâneas. Tendência essa que, de resto, ameaça expandir-se e transformar-se num síndroma social do consumismo compulsivo e larvar das futuras relações sociais se não atalharmos a tempo a evolução de tudo transformar em valor de troca os bens e serviços da mais variada natureza.
Ao contrário do século XIX em que a preocupação maior dos economistas era como produzir em mais quantidade, o principal motivo de apreensão dos actuais responsáveis empresariais prende-se em encontrar os meios e as estratégias que melhor garantam o crescimento das despesas por parte dos consumidores de forma a assegurar a continuidade do ciclo económico da produção-rendimento-despesa, para o que contam com os mais variados instrumentos, de uma sofisticação e eficácia jamais vista.
Acontece que esta “modernização económica” releva mais de um eufemismo de linguagem do que propriamente de um verdadeiro processo de desenvolvimento social e humano uma vez que a um tal processo “modernizador” está presente um fervor religioso em tudo submeter aos diktats imperativos da razão económica senão mesmo do deve-e-haver contabilístico, ignorando completamente todos os outros aspectos da vida social e humana. A “doxa” económica e contabilística converteu-se hoje efectivamente em dogma indiscutido e indiscutível a que, sem hesitação, prestam vassalagem as élites arrastando consigo a massa informe das nossas sociedades .
As sociedades de consum0 - que também, sintomaticamente, são conhecidas por sociedades do desperdício - constituem um modelo social e económico que tem sido objecto de estudos e análise pelas mais variadas áreas científicas, desde a antropologia até à economia, passando pela sociologia, psicologia social, ecologia, etc, e graças aos quais tem sido possível a compreensão e a crítica da sua lógica interna e dos respectivos dispositivos de funcionamento.
Paralelamente a tomada de consciência dos consumidores da sua função económica e do seu papel face aos interesses empresariais levou à verificação de quanto era frágil a sua posição no jogo de interesses em presença. Daí à acção de defesa dos direitos e interesses do consumidores e respectiva consciencialização para o consumo responsável foi um pequeno passo, logo dado, em 1º lugar, nos países onde se regista maior nível cultural e participação das pessoas na vida pública, mas rapidamente propagado para os demais países. Emerge então o movimento consumerista destinado a sensibilizar os próprios consumidores para as múltiplas implicações que o acto de consumo envolve, desde logo,as consequências de carácter ambiental, mas também de ordem económica, social, cultural,etc. Aliás, um outro movimento precedente tinha tido um papel pioneiro na defesa e consciencialização dos consumidor: falamos, como não podia deixar de ser, do cooperativismo (em especial, das cooperativas de consumidores) que, constituiu na sua face inicial, uma viva esperança, alimentada pelos espíritos mais lúcidos da época, contra o poder abusivo das empresas e os efeitos danosos provocados pela mão cega do mercado.
Já mais perto de nós no tempo surgiram novas iniciativas e movimentos como é o caso do comércio justo que são tentativas de criar circuitos comerciais paralelos de forma a satisfazer quer os interesses dos consumidores como inclusivamente dos próprios produtores, muitos deles do mundo subdesenvolvido que são, literalmente, espoliados pelas grandes cadeias de comercialização dos seus produtos e das suas matérias-primas. Tudo isto vem a desaguar numa nova ética do consumidor, mais exigente em termos ambientais, sociais e económicos.
A última iniciativa para alertar as consciências individuais foi a promoção do Buy Nothing Day por ONGs internacionais como forma de relançar o debate e a reflexão acerca da problemática relacionada com o consumo desenfreado. O próximo dia 26 de Novembro foi justamente escolhido para marcar a nível internacional o dia sem compras. Apesar do carácter simbólico, esta iniciativa não deixa de ter um interesse redobrado se constituir um momento para a consciencialização dos indivíduos para o estado actual do planeta e da humanidade, de que o fenómeno consumista é, infelizmente, um triste sinal. Cabe a todos nós assumir a sua quota de responsabilidade nessa situação e retirar daí as suas devidas consequências.
Um Dia Sem Compras é um dia em que sabemos apreciar as coisas do mundo que não têm preço.

20.11.05

Subcontratados, explorados, irregulares e roubados (a triste sorte dos trabalhadores portugueses em Espanha)


O despertador toca às 5 da manhã de 2ª feira na casa de António Fernandes da Silva, operário de construção civil, na cidade do Porto. Os seus 53 anos e a crise económica portuguesa obrigaram-no a colocar-se sob a direcção de uma empresa subcontratada para a construção de um grande centro comercial em Vigo, para onde se dirige numa carrinha da empresa, com os seus companheiros de trabalho, em cada 2ª feira. Esperam-no duas de viagem , outras 11 de jornada laboral, cinco dias de convívio com outros operários portugueses num pequeno apartamento da cidade galega e um salário que não chega aos 1.500 euros.
António, porém, não se queixa. É que, depois de uma camada de cimento que o endurece, mais o seu farto bigode, lembra-se dos seus colegas que continuam a trabalhar em Portugal com metade do dinheiro que actualmente ganha. E também não se importa muito que os trabalhadores espanhóis a trabalhar na mesma obra ganhem quase o dobro que ele, quando desabafa: « Em Portugal há muito pouco emprego e dinheiro. Lá muitos operários não ganham mais que o salário mínimo, de 374,70 euros, enquanto aqui ganha-se o mínimo».
António é só um entre dezenas de portugueses que trabalham na obra que se está a construir nas margens da Gran Via da cidade de Vigo e em cuja empreitada participam 9 empresas subcontratadas portuguesas. Dos quase 50.000 trabalhadores portugueses inscritos na Segurança Social espanhol, segundo o Ministério do trabalho português, a grande maioria trabalha em empresas subcontratadas no sector da construção civil. No passado mês de Julho estavam registados 48.463 emigrantes regulares, quase 10% a mais que no anterior mês de Abril, apesar de tudo indicar que esse número seja muito maior se contarmos os irregulares.
Na Galiza, por exemplo, os trabalhadores registados não ultrapassam os 5.000, mas segundo Javier Dongil, secretário da Acción Sindical das CCOO da região, podem na realidade alcançar os 30.000, incluindo os trabalhadores temporários, que cruzam diariamente a fronteira para trabalhar em Espanha e que regressam à noite para as suas casas.
Os sindicatos lusos calculam que haja cerca de 12.000 portugueses trabalhando de forma clandestina sem contrato nem segurança social no território do Estado espanhol. «É quase impossível quantificar, mas existem zonas inteiras de Portugal em a maioria da população masculina cruza a fronteira para trabalhar», diz-nos Albano Ribeiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e Obras públicas do Norte. E, caso não se faça nada, esse número irá aumentar, ao esclarecer: «Nos próximos meses de Janeiro e Fevereiro vão ficar no desemprego outros 6.000 operários portugueses.»
Exploração, abusos, comissões, subcontratados, piores salários, trabalhos mais perigosos, jornadas laborais intermináveis…Tudo isto aparece frequentemente nos media portugueses quando se referem à emigração lusa para Espanha. E que veio à luz do dia com muito mais desde o acidente de Almuñécar ( Granada) no passado dia 7.
«Não é nenhuma casualidade que, dos seis mortos, cinco eram portugueses», diz Ribeiro que, depois de um périplo por Espanha, para visitar centenas de obras onde trabalham operários portugueses, denunciou a situação generalizada de irregularidades, de precariedade, de subcontratação irregular, fraude, evasão, sinistralidade e morto que caracteriza o sector da construção civil espanhol.
Ribeiro explica como funciona esse submundo em que vivem «pelo menos 60% dos 20.000 operários temporários» que trabalham desde há dois anos em Espanha, por causa da crise portuguesa: « As máfias de engajadores (comissionistas) contratam-nos aqui como se fossem trabalhar em Portugal, mas anunciando salários mais atraentes. Cada engajador tem centenas de trabalhadores a seu cargo e ficam com cerca de 35% do salário, com o pretexto de pagar custos de deslocação e manutenção. Eles próprios encarregam-se de cobrar junto das empresas espanholas, que pagam salários próximos aos trabalhadores espanhóis, distribuindo aos trabalhadores português o montante acordado depois de terem descontado para si próprios aquela percentagem.». Feito o descontos, os trabalhadores acabam por receber apenas pouco mais que o salário sectorial que é habitualmente pago em Portugal, e que é de 496 euros.«Um trabalhador espanhol que esteja a trabalhar nos andaimes durante 8 horas ao longo de cinco dias ganha 1.400 euros. Os português, em contrapartida, têm que trabalhar 12 horas diárias, incluindo Sábado, para ganhar o mesmo.». Muitos trabalham de sol a sol, fazendo tarefas para as quais nem sempre estão capacitados.
Estas redes mafiosas «não têm nem sede nem escritórios, nem registo legal, nem valor imobilizado, nem muito menos apresentam qualquer declaração ao Fisco». Segundo o Sindicato, conseguem ganhar fortunas em muito pouco tempo e operam entre Espanha, França e Portugal. «Quando têm problemas com alguém transferem os operários para outro país», adianta. Apesar de serem fantasmas, estes engajadores seriam fáceis de detectar, nas palavras de Albano Ribeiro .
O dirigente sindicalista crê que tudo isso é um reflexo da ilegalidade em que vive o sector da construção civil português: «Das 20.000 empresas de construção a metade não cumpre com as suas obrigações fiscais.»
Recorde-se que a actividade de intermediação laboral está proibida por lei que obriga as empresas que deslocam mão de obra a comunicar a chegada de trabalhadores às autoridades laborais da região onde aqueles vão trabalhar, obrigando ao respeito pelas tabelas salariais, normas de segurança e horários de trabalho vigentes.
O problema é que as inspecções de trabalho não podem comprovar nada disso, se o empregador não tiver comunicado que tem trabalhadores a seu cargo em determinada obra !!!


A nova emigração portuguesa

Portugal é, no momento actual, um dos grandes fornecedores de mão de obra barata para as empresas espanholas, tal como acontecia nos anos 60 com Portugal e Espanha relativamente aos países como França e Alemanha.
Ainda hoje vivem em França cerca de 788.603 portugueses, e 200.000 na Inglaterra.
A emigração portuguesa não se limita já ao sector agrícola ou de construção. Segundo dados recentes, 20% dos licenciados portugueses trabalham fora do país. E os números globais ainda são mais impressionantes: existem cerca de 4,8 milhões de portugueses ou descendentes ( note-se que Portugal tem 10 milhões de habitantes) repartidos pelos cinco continentes: 1.386.292 pessoas na Europa; 2.993.127 na América; cerca de 300.000 em África; 30.000 na Ásia e mais de 55.000 na Oceânia.
A crise económica e as profundas desigualdades estão na origem da nova vaga de emigração portuguesa para o estrangeiro, com destino desta vez para território espanhol. Uma emigração que vai encontrar trabalhos precários, perigosos e normalmente subcontratados.

Tradução de grande parte de um texto originalmente publicado no jornal El País de 10 de Novembro de 2005 de autoria de Pablo Campos e Miguel Mora.

O preço do «progresso» da China é a sobre-exploração dos trabalhadores


A china regista presentemente um saldo positivo no seu comércio externo que não pára de aumentar. Este ano crescerá 50 % relativamente ao ano passado ( 2004) atingindo o valor de 48.000 milhões de dólares.
Mas há dados que importa divulgar, até para servirem de reflexão para uso caseiro. Na verdade, 50% das exportações chinesas procedem de empresas com capital estrangeiro, ou seja, são empresas resultantes de investimento estrangeiro ou muito simplesmente de empresas deslocalizadas de outros países que procuram a China para se instalarem por causa da inexistência e desrespeito pelos direitos laborais que caracteriza o capitalismo chinês.
Jornadas de trabalho com duração de 15 horas, semana de 7 dias de trabalho, baixo salários, obrigação de horas extra, remunerações em falta ou muito simplesmente não pagas, condições insalubres de trabalho, proibição de conversas, videovigilância, alojamento em dormitórios construídos nas instalações da própria empresa, retenção de documentos pessoais e limitação na circulação dos trabalhadores são realidades vulgares na China actual, especialmente entre os 140 milhões de emigrantes que deixaram as zonas rurais para virem trabalhar nas orlas industriais do litoral. Sem esquecer, evidentemente, a terminante proibição imposta pelo governo e Estado chinês na constituição de sindicatos independentes.
Li Qiang, que está à frente da «China Labour Wath», afirma: «A China está apostada numa política de crescimento económico independentemente dos custos humanos. Tem uma abundante oferta de mão de obra, cujos salários baixos são artificialmente mantidos e, num sistema em que as vidas são tão baratas, não surpreende que os lucros sejam elevados»

Os motins nos subúrbios nas últimas décadas


Breve lista dos últimos motins nos subúrbios das cidades industrializadas:

- Watts, subúrbios de Los Angeles, em 1965, durante o período de expansionismo económico norte-americano. A causa imediata foi a morte de um negro de 21 anos e que originou 10 dias de tumultos com 34 mortes.

-Soweto, Àfrica do Sul, em 1976, em pleno período de apartheid sul-africano. A causa imediata foi a decisão governamental de obrigar os jovens negros a estudar o afrikaan, a língua da minoria branca. Nos tumultos desencadeados a polícia mata uma criança de 13 anos e morrem 23 pessoas.

-Brixton, Grã-Bretanha, em 1981, durante o governo de Thatcher, por motivo da política governamental contra as minorias antilhesa e indiana que reivindicavam sair da situação de pobreza em que viviam. Durante os tumultos morreram 9 pessoas e outras 50 ficaram feridas.

-South Central, um bairro pobre de Los Angeles, em 1992, por motivo de um espancamento de polícias a um motorista negro, filmado por um vídeo amador que provocou um revolta generalizada ao grito «Não pode haver pez sem justiça» e de que resultará em 55 mortos e 2.000 feridos.

-Subúrbios de Paris, Novembro de 2005

Madalena:desfeito o último tabu do cristianismo


Um livro saído recentemente de Juan Árias, «La Magdalena, el último tabu del cristianismo» ataca um dos pilares do cristianismo, o poder masculino. E fá-lo tratando de uma figura feminina, Madalena.
A imagem tradicional de Madalena que a Igreja Católica difundiu ao longo de séculos era que se tratava de uma mulher pecadora pública ( leia-se, prostituta) e que se convertera quando conheceu o fundador do cristianismo, enquanto este comia na casa de um fariseu. Durante séculos, a hierarquia eclesial não hesitou em manipular esta figura a seu bel prazer de forma a transmitir uma imagem arquetípica de mulher segundo as conveniências da Igreja Católica.
Ora o que Juan Árias nos apresenta é antes uma apaixonada história de amor entre Jesus e Madalena que levou, inclusivamente, os apóstolos a se escandalizarem e ocultarem uma tal relação. Jesus era, afinal, casado com Madalena – o que é hoje aceite como consensual - e que explica, aliás, o facto de quando se produz a ressurreição Jesus preferir comunicá-la a Madalena do que à sua própria mãe. Nota ainda o autor que os evangelistas nunca em momento algum apresentam a figura de Jesus como exemplo de celibato.Madalena foi realmente uma peça importantíssima nos primeiros tempos do cristianismo e o conhecimento que começamos ter dela constituirá sem dúvida uma verdadeira revolução no machismo eclesiástico da Igreja Católica