15.8.05

O tempo dos beatniks



Os beatniks surgem nos Estados Unidos no final da década de 50, tendo como pano de fundo o «maccarthismo». Rapazes e raparigas – jovens, muito jovens – que recusam o império do terror, da produção, do consumo.
À guerra fria, à chantagem da bomba atómica, à miragem da opulência, ao modelo do homem do «sistema», respondem com um «não» que tanto tem de instintivo como radical.
São poetas, romancistas, dramaturgos – todos eles heréticos. Não acreditam no modelo da racionalidade científica que lhes é proposto pela Universidade, pelo mundo dos negócios e pela classe política. Pelo contrário, preferem a abordagem espiritual, a visão, a imaginação. Não acreditam no homem produzido em série, moldado pelas sociedades de progresso e de destruição, tanto a Leste como a Ocidente: optam pelo indivíduo, pela integridade humana, pela protecção a todo o ser vivo. Não acreditam na diferença entre o sistema capitalista e o sistema socialista, já que para eles os modos de produção, os meios de controlo, a ordem científico-burocrática não conhecem fronteiras geográficas nem ideológicas. Um exemplo pessoal –embora esta geração só queira julgar com base na experiência – que funciona igualmente como um sintoma: Ginsberg é expulso de Cuba por ter defendido a causa homossexual, sendo posteriormente acusado de droga, em Nova Iorque.
Ingénuos, utopistas, irresponsáveis – que dizer destes indivíduos que encarnam o espírito de Maio? A rejeição do racionalismo não provocará a erupção do irracionalismo delirante, a espiritualidade, o misticismo desmobilizador? A valorização do indivíduo não implicará a ruptura com o mundo, o autismo colectivo, o isolamento na fruição de um prazer egoísta? Não servirá a identificação do funcionamento social no Leste e no Ocidente para travar as lutas, encobrir o inimigo principal e encorajar o «statu quo»? Existem alguns riscos, é um facto. Há ainda o perigo dos desvios de que falaremos adiante. Mas, para além destes riscos, no interior dos próprios riscos, subsistem os preciosos germens da subversão. O grito de Allen Ginsberg é também o de todo o indivíduo que tenta resistir à ameaça de normalização. O silêncio de Burroughs é também a arma do guerrilheiro que se prepara para fazer descarrilar o comboio. As palavras proferidas por Kerouac são exactamente aquelas que milhões de homens e mulheres ousarão dizer e repetir, ao longo dos dez anos seguintes.
A explosão dos anos 60 é impensável sem o contributo dessa geração que prepara o terreno para uma certa «revolução cultural» e para algumas «práticas de rupturas» sociais. O essencial é destruir a consciência propagada pelos meios de comunicação social de massas. Criar uma nova consciência. Pôr termo ao primado do factor económico, do centralismo, da hierarquia. Foi dentro deste espírito que se travaram no século XX, nos Estados Unidos ( e noutros países) lutas sem precedentes contra o racismo ( Movimento dos Direitos Cívicos), contra a desigualdade ( Movimento dos Direitos Sociais), contra o sistema de reprodução ( Movimento Estudantil) e até contra alguns aspectos do imperialismo ( Movimento contra a guerra do Vietname).

1960: O que diziam os heréticos

Ginsberg: «O nosso passado recente é a história de uma vasta conspiração para impor à humanidade um nível único de consciência mecânica e para destruir todas as manifestações exclusivas da nossa sensibilidade. A supressão da individualidade contemplativa é praticamente total»
Burroughs: «É preciso eliminar a máquina, agora que ela nos prestou o serviço de mostrar os perigos do controlo. Sou decididamente hostil à Ciência, porque sinto que a conspiração está prestes a impor o universo científico como o único universo real. Os cientistas são os drogados da realidade. Necessitam sempre de exercer o seu domínio sob qualquer coisa de real.»
Corso: «Recusamos a enfiar o colete-de-forças dos princípios morais legados pelos nossos pais, feito à base de fragmentos e de restos, cosido com a superstição de uma mitologia primitiva. Somos muitos. Faremos ouvir a nossa voz, com vista a alterar as leis que governam os nossos pretensos países civilizados. Por todo o lado, essas leis implantam polícias secretas, campos de concentração, de opressão, de escravidão, guerras e mortes.»

A Revolução Cultural

Ginsberg: «Aproxima-se uma verdadeira revolução nas relações humanas. Os indivíduos devem tomar de assalto os meios de comunicação e os postos de controlo. As técnicas utilizadas pelos poetas para transformar o mundo das artes podem facilmente ser aplicadas às centrais telefónicas, aos postos emissores de rádio, ao serviço de controle de informação, aos centros de escuta, ás mais ínfimas ramificações da vasta rede que cobre com a sua teia de aranha, as partes mais civilizadas do Mundo.»

Snyder: «A sabedoria é o conhecimento do espírito de amor e clareza que se esconde por detrás das angústias e das agressões suscitadas pelo ego. A meditação é a penetração na psique para que cada um possa constar tudo isso. A moralidade consiste em exteriorizar essa sabedoria na vossa forma de viver, através do exemplo pessoa e de uma acção responsável, a fim de atingir finalmente a verdadeira comunidade de todos os seres humanos.»

Ginsberg: « A humanidade precisa de um tipo de revolução que se proponha recuperar as zonas cerebrais inutilizadas, alargar o domínio da consciência, torná-la, assim, capaz de comunicar mais profundamente do que no nosso actual sistema de comunicação pré-histórico e estabelecer uma forma de contacto cerebral com todo o universo.»

Burroughs: « É preciso fazer a revolução cultural. A emancipação sexual é um elemento com o mesmo peso que a luta contra a censura. O sistema não pode deixar de endurecer e tornar-se fascista ou, pelo contrário, ceder cada dia mais terreno.É aí que devemos intervir. Tudo o que posso dizer é que, no curso da História, as armas mais poderosas foram sempre as novas formas de consciência e que a revolução fundamental só pode ser o resultado de uma evolução. A inquisição e o poder da Igreja durante a Idade Média não foram derrubados por meio de uma acção revolucionária directa. O seu domínio desfez-se porque foram ultrapassados pela evolução da consciência humana.»

1980: o ataque de todos os ângulos contra a tradição libertária

O elo de ligação entre estes opositores escritores ou militantes – empenhados em percursos múltiplos, paralelos, e até mesmo compartimentados, reside numa certa identidade de análise: a opressão tem múltiplas formas, sendo irredutível a uma única dimensão; é de natureza política, policial, económica, social, cultural e ideológica, etc. O objectivo não é a tomada do poder do Estado –o que asseguraria da melhor maneira a renovação das elites – mas a criação de uma nova sensibilidade, só ela capaz de transformar as estruturas fundamentais. O ideal da Revolução ( que, segundo a expressão de Burroughs, não é senão «circum-volução» nas suas encarnações históricas) dá lugar à vontade concreta de emancipações de carácter imediato, plural e quotidiano. Lutas desencadeadas, não à escala nacional ou internacional, mas local. Uma estratégia de conjunto baseada em tácticas descentralizadas.
Muito há a dizer acerca dos limites, da ambiguidade, das contradições de semelhante projecto. O balanço crítico está por fazer. Contudo, não é um balanço dessa natureza que hoje assistimos, antes à deformação metódica de uma concepção do mundo e à desvalorização sistemática de uma sensibilidade que, a julgar pela violência das suas reacções, incomoda a fracção mais «pura» da esquerda, tanto em França como nos Estados Unidos.
A rejeição da visão libertária, uma das mais importantes tradições populares, é sintomática do crescimento do vasto movimento conservador que atravessa o mundo em crise. Assistimos ao reforço do autoritarismo de direita e do sectarismo da esquerda.
Não é de espantar o ataque feito à direita. A tradição libertária é anti-autoritária, anti-hierárquica, anti-centralista, enquanto a tradição conservadora dominante, quer em França, quer nos Estados Unidos, é autoritária, hierárquica e centralizadora: o federalismo americano corresponde ao centralismo francês e o recente descomprometimento do Estado, de um e do outro lado do Atlântico, não constitui qualquer ameaça à realidade do poder do Estado. Nos anos 60, a tradição libertária contribui marcadamente para o forte arranque democrático caracterizado pela explosão das reivindicações igualitárias, mas também pelas várias modalidades de reivindicação: mobilização de massas, acções directas, lutas conduzidas à margem dos partidos, dos sindicatos e de outras organizações institucionais.
Ao encorajar a participação directa, estes meios fazem vacilar o sistema representativo tradicional, minam o poder do Estado, aumentando a crise de autoridade. Torna-se, então, necessário travar esses «excessos de democracia» e, parafraseando Samuel Huntington, um dos ideólogos do neo-conservadorismo americano, estabelecer «os limites desejáveis à extensão indefinida da democracia política». O equilíbrio não assenta na restauração da autoridade através de «hierarquia, da avaliação e da riqueza»?


A aliança dos neoconservadores e dos neo-estalinistas

As críticas às ideias e ao pensamento libertário dos beatniks provêm quer da direita neoconservadora quer da esquerda clássica neo-estalinista.

A descentralização,o anti-estatismo e o associativismo são conceitos de esquerda. E existe, sem dúvida, uma corrente minoritária de direita favorável a estes princípios, mas tal será suficiente para ignorar a poderosa tradição anarco-sindicalista norte-americana ( a realidade das suas lutas, a importância das suas vitórias) e anular os laços entre a tradição libertária e a tradição marxista?

Costuma-se também dizer que as práticas libertárias dos anos 60 são recuperáveis, permitindo até aos liberais o reforço de uma ordem baseada na permissividade, na modernidade e no mundialismo. Os libertários seriam, portanto, os aliados objectivos dos liberais! É evidente que, hoje em dia, o controlo social depende mais do que nunca do alargamento dos espaços das pseudo-liberdades e Marcuse foi o primeiro a denunciar as inúmeras manifestações de «tolerância repressiva». Mas como é possível aceitar a identificação caricatural das práticas libertárias dos anos 60 com os seus desvios, levados a cabo, nos anos 70, pelos estrategos de um reformismo new-look?

Aliás, como não detectar nas teorias desses defensores do Estatismo uma contradição – ingénua ?, demagógica?, táctica? – no reconhecimento de determinadas formas de descentralização? Finalmente como escapar à inquietação provocada pela retórica dos centralizadores, que mascaram o seu autoritarismo sob a capa do discurso da regionalização?

A nova sensibilidade, representada pelos libertários beatniks, provém dos Estados Unidos, estando, portanto, marcada pelo estigma do capitalismo. A sua principal manifestação seria a «nova esquerda americana» dos anos 60, caracterizada pela sua afeição apolítica, que exerce atracção junto dos grupos sociais «ideologicamente mais fracos» recém chegados à política. Lutar contra esta sensibilidade libertária seria assim lutar contra o imperialismo americano e a favor da verdadeira política de massas. Contra o mundialismo dos capitalistas e a favor do nacionalismo dos trabalhadores. O Estado nacional, democraticamente reestruturado, aparece como o único obstáculo à recomposição do capitalismo… Eis o que defendem os corifeus da Esquerda pró-estatal. Estadistas de todos os países, uni-vos! Nessa luta sem tréguas, levada a cabo contra a tradição libertária, acabamos por perguntar a nós próprios se o conluio tão estrondosamente denunciado entre libertários e liberais não se situará preferencialmente entre os liberais neoconservadores e os neo-estalinistas.

Os desvios dos anos 70

Os riscos de desvio da ideologia libertária são, contudo, reais, sobretudo numa época marcada pela desvalorização sistemática da coisa pública e pela sobrevalorização do domínio privado. Assiste-se à aceleração de um duplo processo histórico: à queda do homem público e à ascenção do homem privado. A erosão do sector público está associada ao aparecimento do Romantismo, que vem perturbar o equilíbrio clássico entre o público e o privado. E a exploração do sector privado está relacionada com o aparecimento de uma produção de massas destinada a satisfazer as necessidades individuais. Hoje em dia, a estabilidade social assenta claramente neste duplo movimento de desenvolvimento público e de desenvolvimento privado.
Travadas numa perspectiva de libertação global, mas a partir de práticas individuais, as lutas de emancipação inspiradas pelos libertários dos anos 60 estão longe de ter conseguido ultrapassar os objectivos meramente pessoais, de se terem conseguido organizar em acções eficazes e de terem conseguido opor uma resistência efectiva a esse vasto processo de privatização. Não é sem alguma ironia que se chega à conclusão que a luta contra o homem do «sistema» tenha dado origem a um novo modelo cultural – o de um Narciso perfeitamente mesquinho, isolado do mundo exterior ou, pelo contrário, perfeitamente integrado. E não é de todo impossível estabelecer uma filiação, degradada é certo, entre o ideal narcisista de análise de um «eu» fragmentado e o ideal «beat-nik» (Nota: segundo Norman Mailer o termo beatnik foi forjado em San Francisco e resulta da fusão de beat, expressão do jazz que significa ritmo, com o sufixo nik, que é um diminutivo pejorativo em indiche) de exploração de um espaço individual e colectivo infinito.
O exemplo do mais espectacular desvio é o de Jerry Rubin, um dos líderes do Movimento Estudantil de Berkeley, em 1965, e o principal organizador da marcha sobre o Pentágono contra a guerra do Vietname, em 1968. Presentemente, Rubin lamenta-se no mais completo delírio egocêntrico: «Durante cinco anos», recorda orgulhosamente na sua autobiografia, «de 1971 a 1975, experimentei pessoalmente EST, a Gestalt terapia, a bioenergia, a massagem, o jogging, a dança moderna, a meditação, o controle espiritual Silva, a acupunctura, a terapia sexual, a terapia reichiana, a «More House» - um verdadeiro curso de nova consciência. Aplicava-me desde as sete horas da manhã, com uma curiosidade e uma energia sem limites».
O desvio não se limita a alguns desvios. A América dos anos 70 foi contaminada por esta procura de bem-estar meramente pessoal. A tomada de consciência individual, por si e para si ( «self-awareness» ou auto-conhecimento), torna-se em pouco anos a nova panaceia nacional. O objectivo a atingir é o «contacto» consigo mesmo; a relação com o mundo, com a natureza, com os outros; a «paz interior» que isola do barulho e da fúria. Mas os promotores desta nova indústria da crença do «eu» não visam apenas melhorar a saúde individual e a qualidade de vida. Eles vêem nas suas práticas a chave do progresso social, a solução para os problemas sociais, nacionais e até internacionais. Considera que os seus métodos permitem uma «profunda politização» do indivíduo e uma abordagem mais global. É, ainda, Jerry Rubin que encarna isto ao declarar: « A visão implica a luta, e a visão psíquica, a harmonia. Em síntese, posso criar harmonia na luta e permanecer harmonioso enquanto luto.»


A questão no início dos anos 80

Os desvios da ideologia libertária são indiscutíveis. Igualmente incontestáveis são as desinformações que lhe são infligidas pelas novas ideologias autoritárias. Uma questão surge: quais as possibilidades de acção da tradição libertária no contexto da nova ordem que surge após a crise de 1973-74? NO decorrer dos anos 60, apoiada de alguma modo por um crescimento económico sem precedentes, a tradição libertária contribuiu para fazer recuar o «maccarthismo» e fazer progredir a consciência ( e, consequentemente, a condição) dos homens e mulheres. Mas qual o seu papel, num contexto de estagnação, de inflação e de desemprego, em que o centro de gravidade se desloca da esfera nacional para a mundial, das classes proletárias para as nações proletárias e em que técnicas de controlo social atingem graus de sofisticação impensáveis?
O possível impacte da tradição libertária depende da ausência de sectarismo. A nostalgia de 68 é tão absurda quanto ineficaz. A complexidade social impossibilita o recurso a simplificações e a exclusivismos. O momento já não é de certezas. A nostalgia jacobina, também ela, é ineficaz e absurda. A única conquista do poder do Estado é tão pouco satisfatória quanto a mera transformação das estruturas mentais. As tradições antagonistas devem enriquecer-se e procurar atingir um equilíbrio entre si. Estas condições prévias devem impor-se pela sua evidência.
Numa análise mais precisa e imediata, qual o contributo da leitura dos poemas, dos romances, dos ensaios da geração beatnik? Em primeiro lugar, a consciência quase profética das novas formas de controle social: é a revelação, com muitos anos de avanço, daquilo que, hoje em dia, se designa por «sociedade informatizada», «armadilhas liberticidas do computador», etc. Por outro lado, um modelo de estratégia ( contra o inimigo, utilizar a arma do inimigo ) e um registo de estratégia: a retórica, o discurso da publicidade e, contra esses discursos, a arma das palavras, a frase, o poema, a escrita. De igual forma, o sentimento de que a subjectividade não está inelutavelmente virada para si própria, mas funciona como uma condição prévia para a acção; a subjectividade pode e deve ser subversiva. Para retomar a fórmula particularmente feliz empregada por Marcuse num dos seus últimos textos, « a subjectividade rebeldes prepara um dos aspectos da libertação: o da existência de indivíduos solidários, tanto ao nível da acção como no plano da sensibilidade».

Autor: Pierre Dommerges, in Magazine Littéraire nº157, Fevereiro de 1980

Monte da Verdade (Monte Verità, Ticino, Alpes,1906)


Em 1906, Ida Hofman e Herny Oedenkoven, fundadores do Monte Verità ( Monte da Verdade) afirmaram que « perante o facto das relações humanas estarem dominadas pelo egoísmo, as aparências, o luxo e a mentira», era « necessário mudar as nossas vidas para uma forma mais natural e saudável de existência»Por essa razão fundaram o Monte Verità em Ticino, no coração italiano dos Alpes Suíços.
Rapidamente os intelectuais europeus mostraram interesse pelo projecto e deram-lhe o seu apoio.Nomes como Jung, Eliade, Otto Hesse, Kropotkin, Gross, Steiner, Arp, Joyce, Rilke, Mann, Frisch, Klee, Brecht, Stefan George; Duncan e muitos outros, entre os quais vegetarianos, nudistas, teósofos, anarquistas, literatos e utopistas cheios de vontade e em busca da verdade passaram pelo Monte Verità.

« Numa realidade onde as relações humanas estão dominadas pelo egoísmo, o luxo, as aparências e a mentira, e conscientes dessa condição através das doenças do corpo e do espírito que nos assaltam, decidimos mudar as nossas vidas para uma forma mais natural e saudável de existência»
(Ida Hofman, Henry Oedenkoven, fundadores do Monte Verità, 1906)


Quando perguntaram ao médico anarquista Raphael Friedeberg como é que estava a sua mulher, a teósofa Emy Lenz, ele respondeu, sarcástico: « A organizar um sindicato teosófico»

Em 1900, sob o ambiente histórico e filosófico da Europa do período da pré-guerra, aparece a singular história da realização de uma utopia que tomou o nome de Monte Verità. Singular não só pelo seu alcance mas também pela radicalidade das suas propostas iniciais, e pela atracção que exerceu sobre inumeráveis artistas e pensadores, inclusivamente pelo facto de ter preparado o terreno para a criação do Círculo de Eranos, o qual teve como expoentes figuras como Carl G. Jung, Rudolf Otto, Karl Kerenyi, Joseph Campbell, Mircea Eliade, Gilbert Durand, Gershim Scholem, Henry Corbin e Gerardus van der Leeuw.

Na região sul dos Alpes suíços, o Ticino, localizam-se vários lagos da Suíça italiana, entre eles o Lago Maggiore, imponente pela sua extensão e por se achar encravado no coração dos Alpes. Chegar às aldeias ribeirinhas do lago é como aterrar numa espécie de oásis, no meio de uma paisagem tropical, cujos grandes picos se reflectem na superfície brilhante dos lagos. No século XIX, várias povoações estabeleceram-se ao seu redor, entre elas a comunidade de Ascona. A região está dotada de um clima subtropical muito diferente das temperaturas extremas do resto da Suiça. A riqueza mineral é enorme e dá ao lugar um magnetismo especial que propicia o aparecimento de inumeráveis lendas. A região adquiriu um prestígio de paraíso terrestre, quase mágico. E rapidamente começou a receber refugiados políticos e pensadores que fugiam da atribulada vida das grandes cidades europeias, ao que contribuía a tradicional neutralidade Suiça face aos conflitos do resto da Europa.


O fim do idealismo alemão, o aparecimento do materialismo, o pensamento de Nietzsche e as teorias de Freud pareciam unir-se na luta contra a filosofia positivista que ganhava força com a industrialização: ordem e progresso unidos sob a batuta da ciência.

Recorde-se que o anarquismo tinha ganho raízes em Ascona desde que em 1869 o célebre anarquista russo Bakunine tinha vindo residir para aqui como refugiado político.
Também pouco tempo depois começaram a chegar outros refugiados com projectos distintos, como o de fundar um convento laico com o nome de Fraternitas, por iniciativa de teósofos como Alfredo Pioda e Franz Hartmann, justamente nas montanhas de Ascona, que receberiam então, mais tarde, o nome de Monte Verità.

Em Novembro de 1900, Ida Hofmann(feminista, anarquista, professora de piano nascida na Áustria em 1864), Henry Oedenkoven(n.1875-m.1935), Gustav Gräser, Lotte Hattemer, Karl Gräser y Jenny Hofmann decidem criar uma comunidade autárquica e libertária que os afastasse da civilização. Chamaram ao seu projecto Cooperativa Vegetariana Monte Verità. Escolheram Ascona porque descobriram que na região residiam grupos isolados que viviam quase que em clandestinidade. Além disso, discordavam profundamente do rumo que as sociedades ocidentais estavam a tomar. Decidiram então adoptar a chamada «terceira via», conhecida na Alemanha como «Lebensreform» ou Reforma da vida, que tinha como antecedente o pensamento de Bernstein. Muitos jovens da burguesia europeia que não desejavam transformações profundas na economia sentiram-se atraídos por este projecto. Tal foi o caso do casal Ida Hofmann e Henry Oedenkoven, ela professora e, ele, jovem herdeiro. Também as ideias de Karl Graser influenciaram o grupo. Graser preconizava que as reformas de vida se deviam inspirar no Émile de Rousseau, bem como na ideia de Tolstoi, para quem o homem deve seguir aquilo que a sua consciência determina.
O irmão de Karl, o poeta e pintor Gustav Graser, com 21 anos, e a irmã de Ida, Jenny, foram os dois elementos mais radicais de todo o grupo. Gustav tinha pertencido a vários círculos boémios da Alemanha. Mais tarde, Hermann Hesse converter-se-ia num dos seus discípulos.

A Reforma de vida para aquela comunidade baseava-se numa dieta vegetariana estrita, na prática do nudismo, mesmo durante as intempéries, no amor livre, formas de vida simples e naturais, assim como na reforma de vestir e da escrita. Tratava-se, fundamentalmente, numa proposta de vida anti-citadina, uma espécie de contra-mundo que procurava o regresso à natureza.
No desenho utópico do Monte Verità e do seu projecto de vida comunitário valorizava-se a busca de uma pureza espiritual, da mesma maneira em que Rousseau via o regresso à natureza como um reencontro com o sagrado e com toda a forma de bondade e felicidade. Renunciava-se a toda e qualquer relação com o mundo civilizado. Para isso era indispensável a criação de um habitat natural, a renúncia à roupa, ao soutien e aos espartilhos, substituindo-as por túnicas simples de linho, camisas largas, calças semicurtas e sandálias ( alguns preferiam andar descalços). A vida comunitária, um regime de vida natural e os movimentos mutualistas constituíam uma tríada indissolúvel.

Ida e Henry viam no uso do capital para lançar o projecto Monte Verità como um mero instrumento, sempre com a ideia de que as futuras gerações pudessem satisfazer as suas necessidades apenas com os recursos da natureza. Durante um único ano, os fundadores construíram com as suas próprias mãos cabanas à base de madeira, pedra e cal, trabalhando entre as 11 e as 13 horas diárias, vestidos com roupas muito simples ou, então, completamente despidos. Lavraram a terra, semearam jardins e hortas, plantaram árvores de fruta e cultivaram vinhas. Construíram ainda canalizações artesanais e instalações eléctricas com a ajuda de trabalhadores locais. Hoje em dia, ainda se podem observar estas cabanas rústicas: a Casa Selma, a Casa Aida e a famosa Casa dei Russi, onde, em 1905, nela habitaram vários estudantes russos e que serviu de alojamento a Lenine, Trotsky e Kropotkine.

Ida Hofmann e Henry Oedenkoven pensavam que a auto-consciência bastava para criar uma comunidade livre e capaz de viver em harmonia. Porém, a coexistência de pensamentos tão heterogéneos como o anarquismo, o teosofia e o naturismo, ainda que tivessem pontos comuns, acabou por gerar alguns confrontos insuperáveis. Inicialmente, parecia que as divergências incidiam sobre coisas meramente práticas, como seja renunciar ao uso de electricidade ou de aquecedores. Porém, para os irmãos Graser coisas como estas tinham um significado decisivo no que respeita a uma autêntica transformação da vida. Para eles, Ida e Henry violavam os princípios da comunidade quando decidiam aproveitar as riquezas derivadas do capitalismo, ao mesmo tempo que afirmavam que este sistema era a causa dos males sociais.

Apesar de toda a sua ingenuidade, o projecto era assombroso por todo o seu arrojo e convicção. É fácil imaginar que para os anarquistas a prática vegetariana era insossa e absurda. Nas suas memórias, o anarquista Erich Musham recorda: «Depois de ter trabalhado toda a manhã na construção e só ter comido pão e uma maçã, sentia-me a desfalecer, pelo que fui descansar. Henry Oedenkoven perguntou-me então porque é que não continuava a trabalhar tal como os ouros; acabamos por ter uma altercação e ele gritou: “podes ir-te embora; não se perde nada”. Logo que cheguei ao centro de Ascona pedi um bife e um copo de vinho, que me souberam como nunca.»

Os primeiros anos do Monte Verità, até 1905, foram os mais radicais. Com o tempo agravaram-se os problemas financeiros e acentuou-se a divisão entre os vários elementos. Por essa altura, o local era habitado de maneira regular por cerca de 40 pessoas.

Ida e Henry optaram por comercializar a Casa de Cura, que até ali havia servido só para os residentes, transformando-o num sanatório privado com serviço aberto ao público. Uma tal decisão originou enormes divergências e constituiu o ponto de ruptura. Para os anarquistas, Monte Verità tinha-se transformado numa experiência social isolada protagonizada por burgueses excêntricos à procura da «terceira via». Prevaleceu então o grupo de teósofos e naturistas, mas, apesar de vários anarquistas terem abandonado o projecto, a verdade é que não deixaram de o influenciar.
Em 1905 construíram-se as casas maiores e o sanatório vegetariano, que foi baptizado como Sociedade Vegetariana do Monte Verità. A Casa Centarl tornou-se no centro de reunião de toda a comunidade e do sanatório; tinha cantina, sala de música, sala de jogos, assim como espaços com sol e ar para terapias naturais. A Casa Annatta foi construída a partir do conceito teosófico de casa-alma; conservada ainda hoje, o seu exterior parece-se com um paralelepípedo rematado com ângulos rectos de madeira, e por dentro é constituído por formas orgânicas e ondulantes que harmonizam com ângulos arredondados dos tectos, das portas e das janelas.
Um lendário personagem do Monte Verità foi o médico anarquista Dr. Raphael Friedeberg, que atraiu, a partir de 1905, uma colónia de outros anarquistas. Tinha sido militante do Partido Social-Democrata Alemão, e pensou em Ascona como o local ideal para criar uma comunidade anarco-reformista baseada no conceito criado por ele mesmo: o psiquismo histórico. Esta ideia postulava que a libertação do indivíduo podia dar-se a partir de uma edução não coerciva, livre do dogmatismo sócio-religioso da burguesia. Friedeberg desenvolveu a medicina natural ao longo de 35 anos, e nunca deixou de polemizar com a medicina científica, apesar da fama e do prestígio desta.

Outros anarquistas ligados ao Monte Verità foram Erich Musham Fritz Brupbacher, Kropotkine, Ernst Frick, o boémio psicanalista Johanes Nohl, o psicanalista austríaco Otto Gross, que procurou fundar no Monte Verità um matriarcado naturista e comunista.

Erich Müsham tornou-se, no entanto, num crítico ferrenho da comunidade. Para ele havia uma terrível contradição no objectivo de criar uma colónia autárquica inspirada em princípios comunistas. Quando observava a convivência no grupo, alertava: «Todas as colónias comunistas que não se apoiem numa orientação revolucionária socialista terminarão no fracasso, sobretudo quando os laços que unem os participantes são tão insignificantes como os princípios vegetarianos.»


Em 1909 Monte Verità contava cerca de 200 residentes e um número aproximado de opiniões. A maioria eram seguidores do teosofismo, enquanto uma parte minoritária estava próxima do antroposofismo de Rudolf Steiner. Ainda que Ida e Henry não fossem teosóficos, partilhavam também o interesse pela mitologia e reencontro das religiões orientais, sobretudo o hinduísmo e budismo.

A criação em 1910 da Escola da Nova Vida, dirigida por Rudolf von Laban e da sua ajudante Mary Wigman, trouxe ao Monte Verità uma fase de grande ebulição artística; a escola estava próxima da ideia da reforma do corpo e do espírito que preconizava Hofmann. Nesses anos o dadaísmo não deixou de marcar presença com a chegada de Hans Arp e da sua mulher Sophie Taeureb.


Os habitantes de Ascona deram aos monteveritanos o nome de «balabiott», que significa «dançam nus». Alguns velhos habitantes recordam: «Aqueles nórdicos (alemães, suíços, holandeses, ingleses) faziam festas durante noites inteiras, e durante as quais dançavam despidos uma espécie de dança árabe.» Entrar no Monte Verità era proibido para as crianças e jovens de Ascona; para os adultos, aquele local era para os loucos, endiabrados, monstros, seres sujos que viviam em pequenas cabanas como carneiros.
Apontadas com ainda maior temor eram as mulheres que não eram poupadas a adjectivos: « a endiabrada», «a puta», «a cabra negra», «a impúdica».
O Município acabou por proibir as pessoas em circular em Ascona com «minifraldas» porque os «balabiott», quando desciam ao povoado, traziam túnicas largas atadas á cintura, e quando não havia ninguém em redor desatavam-nas deixando à vista as pernas e o corpo.

O Período Expressionista

Não é difícil imaginar que foram as crises financeiras e as rupturas entre os residentes que levaram Ida Hofman e Henry Oedenkoven a abandonar o projecto. Em 1920 decidiram viajar para o Brasil e venderam a propriedade a um triunvirato formado pelos pintores Hugo Wilkens, Max Bethke e Werner Ackerman. Outros artistas mantiveram por lá, entre eles Hans Arp e a sua mulher. Outros dadaístas chegaram, entretanto: Hans Ball, Hans Richter e Richard Hulsenbeck.

Em 1924, os novos donos reinauguraram Monte Verità com uma grande festa que durou mais de meia semana. O princípio do vegetarianismo foi abandonado como norma, podendo os veritanianos deliciar-se com pratos esquisitos, tomar champanhe e andar despidos pelos jardins.
A esta nova etapa que pressupõe uma arte mais dinâmica se chamou o período «expressionista», durante o qual o lugar foi palco de múltiplas exibições de arte, teatro, dança e música com um sentido carnavalesco.

A era do Barão von der Heydt

Perante nova crise financeira em 1926, o Monte Verità foi comprado pelo Barão Eduard von der Heydt, banqueiro, coleccionista e mecenas. O centro naturista converteu-se então ao grande capital. Conhecidos arquitectos da Bauhaus transformaram o sanatório num hotel que funciona ainda hoje.
Monte Verità tornou-se assim o templo das colecções de arte oriental e ocidental do Barão. Mas a prática do nudismo não foi abandonada até à doação do local ao Cantão de Ticino, depois da morte do Barão em 1964.


Monte Verità constituiu-se num espaço de sincretismo religioso que anos depois frutificou por via do Círculo de Eranos, centro de estudos mitológicos fundado pela holandesa Olga Fröbe-Kapteyn, teósofa próxima de Annie Besant e do hindu Krishnamurti.
Fröbe-Kapteyn tinha chegado a Monte Verità em 1924, onde se começou por interessar pelo estudo das religiões orientais. Entabulou amizade com o mitólogo Rudolf Otto, a quem propôs a tarefa de analisar as religiões do Oriente e do Ocidente. Por isso é que, a partir de 1927, se realizaram congressos anuais no Monte Verità, onde estiveram presentes prestigiados estudiosos das religiões. Em 1933, o psicanalista C.G. Jung foi convidado a participar nesses encontros, tendo a sua colaboração prolongado até ao ano de 1951. Graças aos seus estudos durante esses anos Jung reafirmou a sua tese acerca da necessidade de encontrar os arquétipos e as estruturas simbólicas. O resultado de todos esses congressos e encontros constitui um enorme contributo para a hermenêutica simbólica da cultura.

Ao falar de Eranos e dos compromissos de Mircea Eliade com o animismo, o chamanismo e a simbologia alquímica, George Steiner afirma: «Aonde é que, senão em Ascona, se podia tratar de tais temas, de receber o privilégio de uma erudição que fosse a mistura de mais alta qualidade e de uma galhofeira gravidade platónica-nietzscheana?»

A pesar de todos os encontros e desencontros, em Monte Verità refugiaram-se, por curtas e longas temporadas, mais de 600 almas. Muitos deles eram escritores, pintores, músicos, bailarinos e filósofos que não quiseram deixar de passar por esse mágico lugar.

Talvez fosse oportuno recordar algumas dessas figuras que por lá viveram: Hans Arp, Hans Ball, Richter, Hermann Hesse, James Joyce, Rainer María Rilke, Thomas Mann, Max Frisch, Paul Klee, Eduard Toller, Bertolt Brecht, Stefan George, Georg Kaiser, Mary Wigman, Von Laban, Isadora Duncan.

Com o tempo, Monte Verità tornou-se num hotel de luxo, num museu e centro cultural que não deixa de guardar zelosamente a sua história. Não obstante, qual vestígio de outros tempos, é possível ver ainda, ao longo das suas ruas, velhos artistas com barbas e cabelos compridos que fazem lembrar a contracultura dos anos sessenta.

O fim da utopia?

Diz E.M.Cioran em «História e Utopia»:

« O que mais me surpreende é que, sendo a sociedade o que é, alguns se tenham esforçado em conceber outra, diferente. De onde vem tanta ingenuidade ou tanta loucura?(…) Para conceber uma verdadeira utopia, para esboçar, com convicção, o desenho da sociedade ideal, é imprescindível uma certa dose de ingenuidade, e até de tontice…»

Para Cioran ao homem só lhe resta ruminar o vazio da sua existência. Esse é o seu presente e nele não entram utopias.
A função dos utópicos foi denunciar os prejuízos e as calamidades provocados pela propriedade privada. Coube-lhes também estimular o fascínio do impossível para que não se caia num estado de esclerose e de ruína.
Hoje as utopias refugiaram-se no imaginário literário que se tem encarregado de as resguardar e de gerar novas utopias e antiutopias

Nota:
Ida Hoffmann, foi autora de obras tais como "A Contribution to the Female Question" (Uma Contribuição à Questão Feminina); "The Importance of True Theosophy" (A Importância da Verdadeira Teosofia); sendo esta última em italiano; compilou algumas notas conhecidas como "Notes Towards the Promotion of the Vegetarian Lifestyle" (Notas para a Promoção do Estilo de Vida Vegetariano); e também escreveu junto com Henri Oedenkoven um livro em alemão sobre o Monte Verità..


Tradução de:
El cielo en la tierra — Marcela Sánchez
http://www.jornada.unam.mx/2001/mar01/010325/sem-monte.html


Mais infos e fotos:
http://www.colloquia.ch/fr/colloques/monte.htm
http://www.fileane.com/espagnol/monta_verita_espanol.htm
http://home.nordnet.fr/~jgrosse/int/reves.htm
http://www.fileane.com/espagnol/monta_verita_espanol.htm

14.8.05

Rolling Stones mandam à merda os neoconservadores americanos



O conhecido grupo de rock Rolling Stones acaba de gravar um novo disco que terá o título «The Bigger Bang», a sair no próximo mês de Setembro. Até aí nada haveria de especial, excepto o facto do novo disco dos Rolling Stones incluir um tema com aceradas críticas aos neoconservadores norte-americanos chamando-lhes hipócritas e caracterizando-os com cabeças cheias de merda. Com efeito na canção com o título «Sweet Neo Com» pode-se ler/ouvir:

«You call yourself Christian, I call you hypocrite / You call yourself patriot, well I think you're full of shit»
(você diz-se cristão, mas eu chamo-vos hipócritas/vocês dizem-se patriotas, bom penso que sois um monte de merda
).

Like a Rollins Stone ( de Bob Dylan)



A canção Like a Rolling Stone, de Bob Dylan, ficou em primeiro lugar numa sondagem para escolher os ícones do rock e do cinema que mudaram o mundo, e que acaba de ser publicada no número especial destinado a comemorar as cem edições da revista britânica de música e cinema Uncut.

Músicas, filmes que mudaram o mundo no inquérito realizado pela revista Uncut:
1- Bob Dylan – Like a Rolling Stone
2 – Elvis Presley – Heartbreak Hotel
3- The Beatles – She loves you
4 – The Rolling Stones – I can´t get no satisfaction
5 – Laranja mecânica – filme realizado por Stanley Kubrick
(…)
7 - David Bowie . The rise and Fall of Ziggy Stardust
8 - Taxi Driver
9 – Sex Pistols – Never Mind the Bollocks Here’s the sex pistols



Like a Rolling Stone ( letra e música de Bob Dylan)

Once upon a time you dressed so fine
You threw the bums a dime in your prime, didn't you?
People'd call, say, "Beware doll, you're bound to fall"
You thought they were all kiddin' you
You used to laugh about
Everybody that was hangin' out
Now you don't talk so loud
Now you don't seem so proud
About having to be scrounging for your next meal.

How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

You've gone to the finest school all right, Miss Lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody has ever taught you how to live on the street
And now you find out you're gonna have to get used to it
You said you'd never compromise
With the mystery tramp, but now you realize
He's not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes
And ask him do you want to make a deal?

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all come down and did tricks for you
You never understood that it ain't no good
You shouldn't let other people get your kicks for you
You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a Siamese cat
Ain't it hard when you discover that
He really wasn't where it's at
After he took from you everything he could steal.

How does it feel
How does it feelT
o be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Princess on the steeple and all the pretty people
They're drinkin', thinkin' that they got it made
Exchanging all kinds of precious gifts and things
But you'd better lift your diamond ring, you'd better pawn it babe
You used to be so amused
At Napoleon in rags and the language that he used
Go to him now, he calls you, you can't refuse
When you got nothing, you got nothing to lose
You're invisible now, you got no secrets to conceal.

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Tradução:

Era uma vez, você vestia-se tão bem

Dava esmola aos mendigos quando estavas na maior
Não foi?
As pessoas chamavam, dizendo “Cuidado boneca
Você está arriscando-se a cair”
Você achou que todos eles estavam brincando com você
Você costumava rir de
Todos os que andavam a vadiar
Agora você não fala tão alto
Agora você não parece tão orgulhosa
De ter que lutar pela sua próxima refeição

Como se sente?
Como se sente?
Por estar sem um lar?
Como uma completa estranha?
Como uma pedra que rola?

Você frequentou a melhor escola
Muito bem, Senhorita Solitária
Mas você sabe que você apenas estava lá a fazer de corpo presente
E ninguém jamais lhe ensinou
Como viver nas ruas
E agora você descobre (que)
Você vai ter que se acostumar com isso
Você dizia que jamais condescenderia
Com o vagabundo misterioso, mas agora você percebe
Que ele não tinha álibis
Enquanto você olha fixamente para o vácuo dos seus olhos
E pergunta, quer fazer negócio?

Como se sente?
Como se sente?
Por estar por sua conta?
Sem nenhuma direcção para casa
Como uma estranha?
Como uma pedra que rola?

Você nunca se virou para ver as carrancas
Dos equilibristas e dos palhaços
Enquanto todos eles chegavam
E faziam truques para você
Você jamais entendeu que isso não é bom
Você não deveria deixar as outras pessoas
Divertir-se no seu lugar
Você antigamente cavalgava o cavalo cromado
Com o seu diplomata
Que carregava no ombro um gato siamês
Não é difícil quando você descobre que
Ele realmente não era tudo que aparentava ser
Depois que ele levou de você tudo o que podia roubar?

Como se sente?
Como se sente?
Por estar por sua conta?
Sem nenhuma direcção para casa
Como uma completa estranha?
Como uma pedra que rola?

Princesa no campanário e todas as pessoas bonitas
Estão todas bebendo e pensando que estão por cima
Trocando presentes caros e coisas
Mas é melhor você surripiar o seu anel de brilhante
É melhor você penhorá-lo,
Você antigamente era tão divertida
Com o Napoleão de trapos e a linguagem que ele usava
Vá para ele agora, ele chama-a, você não pode recusar
Quando você não tem nada, você não tem nada a perder
Você está invisível agora
Você não tem mais segredos a ocultar

Como se sente?
Como se sente?
Por estar por sua conta
Sem nenhuma direcção para casa
Como uma completa estranha?
Como uma pedra que rola?

Nota:
Rolling Stone = (pedra que rola) vem da expressão ‘uma pedra que rola não carrega limo’ (a rolling stone carries no moss).
Uma vez que o limo somente se dá em local sedimentado, a metáfora sugere uma pessoa que não tem paradeiro certo e que geralmente não fica muito tempo em lugar algum.
Em português, costuma-se dizer que uma pessoa assim ‘não tem raiz’, substituindo a metáfora da pedra pela da planta.

13.8.05

Camões, defensor dos pobres



«Nem, Camenas, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar ao Rei no oficio novo,
a despir e roubar o pobre povo»

«Nem quem acha que é justo e que é direito
Guardar-se a lei do Rei severamente
E não acha que é justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente»

(versos extraídos do Canto VII dos Lusíadas)


«Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino e ao povo caridade
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade;
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e vã severidade:
Leis em favor do Rei se estabelecem,
As em favor do povo só perecem

(versos extraídos do Canto IX dos Lusíadas)

O dogma da infalibilidade do Papa e as manipulações que foram feitas para ser aprovado



O concílio da infalibilidade do Papa foi manipulado para consagrar o absolutismo papal.

O Concílio Ecuménico Vaticano I, o concílio que consagrou a infalibilidade do Papa, não foi verdadeiramente livre. Pior: foi manipulado. Esta é a conclusão que chega o historiador e investigador suíço, padre Augustin B. Hasler num seu livro que já correu mundo.

Anunciado põe Pio IX, em Junho de 1867, e convocado solenemente pela bula «Aeternis Patris», de 29 de Junho de 1868, o Concílio abriu solenemente em 8 de Dezembro do ano seguinte. De acordo com a bula convocatória, o Concílio destinava-se a analisar «os males da sociedade contemporânea», mas não havia qualquer referência ao problema da infalibilidade.
De qualquer modo, a questão andava na mente de todos nos anos que precederam a realização do Concílio e se os mais conservadores esperavam a confirmação do «Syllabus» ( 4 de Dezembro de 1864) e a proclamação da infalibilidade papal em sentido teocrático, os liberais defendiam a inoportunidade desta definição e tinham esperança na aceitação das ideias modernas, concretizada numa reforma do Direito Canónico e numa ampla descentralização eclesiástica.
Seja como for, a constituição «Pastor Aeternus», com todos os seus complexos problemas relativos ao primado romano e à infalibilidade do seu magistério, só veio a ser aprovada e proclamada na quarta sessão solene do Concílio, exactamente na véspera do conflito entre a França e a Prússia. O Concílio, por sua vez, havia de ser suspenso pela bula «Posquam Dei Munere», de 20 de Outubro de 1870, no dia em que Vítor Manuel tomou a cidade de Roma.

Um Papa castigador

Não é segredo para ninguém que alguns padres conciliares ( a maioria, evidentemente, liderada por Mons. Dupanloup, bispo de Orleães) se manifestaram, desde sempre, numa linha anto-infalibilista. A pergunta que hoje se põe é no sentido de saber se todos os que votaram a favor do dogma da infalibilidade o fizeram de acordo com a sua consciência e em liberdade.
As investigações feitas pelo padre Hasler levam a concluir que o Concílio foi manipulado.
O que se passou com o patriarca grego melquita de Antioquia, Gregório II, anti-infalibilista, por exemplo, é sintomático. Durante uma audiência papal, quando se inclinava para beijar o sapato de Pio IX, o Papa, inesperadamente, colocou-lhe um pé na cabeça e disse, com uma certa energia: «Gregório, cabeça dura; Gregório, cabeça dura!».
Também o cardeal Gustav A. Hohenlohe-Schillingsfuerst se viu em situação semelhante. Durante uma audiência, Pio IX não hesitou e, quando se aproximou dele, puxou-lhe a orelha e interrogou-o: «Porque não amas o Papa que é tão teu amigo?»
O historiador e investigador, padre Augustin B. Hasler, estudou na Suiça, na Alemanha e em Roma, sendo chamado depois para dirigir uma secção no Secretariado para a União dos Cristãos. Foi esta experiência no Vaticano que permitiu consultar muitos arquivos e documentos, levar a cabo a pesquisa sobre o processo que levou à definição e consagração do dogma da infalibilidade papal, em Maio-Julho de 1870. A provas que fornece levam a conclusão que os membros conciliares não agiram livremente.
Mas quem era Pio IX? Tratava-se de um homem culturalmente simples e não muito preparado do ponto de vista teológico. Para além disso, estava velho ( tinha 78 anos), o que levava uns a dizer que «era um velho transformado em menino», enquanto outros o viam como um velho convencido de que era um «iluminado», obcecado pela ideia de que Deus o iluminava e o guiava.
Segundo certos testemunhos Pio IX voltara a ter sintomas de epilepsia que o atormentara entre os 17 e 29 anos.
Intransigente na sua posição, Pio IX defendia em absoluto o dogma da infalibilidade e, não hesitou nos meios para impor a sua vontade. A constituição sobre a dogma do primado e da infalibilidade papal foi votada em 13 de Julho de 1870 na congregação e, em 18 do mesmo mês, na sessão solene. Na primeira tinham-se registado 451 votos a favor, 88 contra e 62 «com reserva», mas já na sessão solene dos 535 votantes, os votos a favor foram 535 !
A infalibilidade do papa estava decidida e a Igreja Católica transformava-se numa monarquia absolutista e… infalível.
De acordo com o dogma eclesial o Papa é infalível, mas nem por isso as suas decisões são contestadas e discutíveis mesmo no seio do catolicismo…

(texto escrito com base num artigo publicado no «O Jornal» de 3de Fevereiro de 1978)

O SAAL foi o 25 de Abril nos bairros das cidades



O 25 de Abril é uma data histórica para Portugal. O que nem todos sabem é que o SAAL representou o 25 de Abril nos bairros das cidades portuguesas e que ganhou um relevo especial na cidade do Porto, onde se terá desenvolvido e ganhado mais raízes. Constituiu inclusive uma experiência que mereceu o estudo e a referência em textos e obras sobre arquitectura e urbanismo escritos em vários pontos do mundo.

A sigla SAAL significa «Serviço Ambulatório de Apoio Local», tendo este organismo sido criado pouco depois do 25 de Abril pelo então secretário de Estado da Habitação, Arq. Nuno Portas, como forma de responder às necessidades habitacionais das classes populares, e que foi dirigido pela socióloga Maria Proença. O programa SAAL inspirou-se em experiências similares da qual a mais conhecida é o movimento dos «pobladores» do Chile do tempo de Salvador Allende.
O SAAL propunha-se apoiar as iniciativas dos próprios moradores que viviam em más condições de habitação e que, por iniciativa própria, normalmente por via de Comissões de Moradores e/ou de Cooperativas de Habitação, procuravam construir casas com condições de habitabilidade dignas. Para tal careciam certamente de apoio técnico e financeiro que lhe era prestado pelos serviços e técnicos do SAAL que estava estruturado em brigadas técnicas de intervenção cuja missão era a de acompanharem de perto, juntamente com os interessados, todo o processo de construção ou de reconstrução de habitações. Uma vez que o acompanhamento era feito em articulação com as pessoas e no próprio local o apoio prestado será designado de «ambulatório» que nada tinha a ver com «o trabalho de gabinete».

Foi graças a estes condimentos que se desencadeou um considerável movimento de moradores em Portugal nos anos de 1974 e 1975 com vista à melhoria das suas condições de alojamento.
O SAAL ganhou um ímpeto especial na cidade do Porto. Quando o SAAL foi extinto em 1976 pelos governos apostados na recuperação capitalista, tinham sido elaborados naquela cidade nortenha projectos que envolviam cerca de 16.442 famílias, ou seja, 60.366 habitantes. Já estavam em fase de construção 320 fogos, enquanto 1.752 estavam prestes a iniciar as obras.
O SAAL foi criado em 31/7/1974 e extinto em 31/10/76, tendo, durante a sua existência, sido lançados um total de 170 operações em todo o país, envolvendo 41.665 famílias, encontrando-se em construção à data do seu desaparecimento 2.259 fogos.

O SAAL tornou-se um perigo, e por isso foi extinto pelas forças direitistas que se apossaram do poder político depois do 25 de Novembro de 1975. E o perigo radicava justamente na enorme eficiência revelada pelas equipas técnicas e os moradores, organizados em comissões de moradores e associações de bairro, na resolução dos problemas que afligiam os moradores pobres das cidades portuguesas.
A dinâmica revelada pelo movimento de moradores só tinha paralelo com o movimento sindical, mas permitiu quebrar muitos estereótipos organizativos prevalecentes, segundo os quais era fundamentalmente nos locais de produção que se podiam organizar os trabalhadores. O SAAL mostra que, também a propósito das questões habitacionais, foi possível construir uma lúcida consciência social por parte das camadas mais pobres da sociedade.
E se a social-democracia, aliada à forças reaccionárias da direita, conseguiu aniquilar a rede orgânica do SAAL, substituindo por organismos estatais de mais fácil controle, o certo é que o SAAL ficou na história, e é hoje recordado e é motivo de atenção e estudo, em todo o mundo, nos fóruns e nas escolas de arquitectura e de urbanismo contemporâneo

12.8.05

Os direitos humanos não são um obstáculo, mas um garante para a segurança das pessoas


A Amnistia Internacional apela ao governo inglês para que respeite os direitos humanos, e os coloque o centro de toda a política de segurança interior, no seguimento do discurso de Blair no passado dia 5 de Agosto aonde anunciou um preocupante pacote de medidas que ameaça princípios e direitos fundamentais.
Qualquer medida a ser tomada devem ser baseadas nos direitos humanos e não na sua derrogação e violação, declara a Amnistia Internacional.
Mais info :
http://www.amnesty.org

Após as guerras preventivas, surgem as detenções preventivas !!!



Blair prepara-se para criar tribunais secretos

Blair prepara-se para criar tribunais para suspeitos de terrorismo. Juízes especiais decidirão por quanto tempo os suspeitos permanecerão na prisão.
O governo britânico estuda a criação de tribunais antiterroristas secretos para avaliar a situação de suspeitos de terrorismo, sem necessidade destes serem formalmente acusados. Os Juízes de tais tribunais podem aceder às escutas telefónicas feitas pelos serviços de espionagem, cujo poder probatório é habitualmente rejeitado pelos tribunais comuns, a fim de avaliarem da situação de tais suspeitos. O projecto de Blair prevê ainda a figura de «advogados defensores especiais» que podem aceder às provas, mas sob a condição de não as revelar aos detidos.
O projecto foi divulgado no passado dia 9 de Agosto pelo jornal The Guardian, depois de Blair ter anunciado um pacote de medidas securitárias que presumivelmente serviriam para combater o terrorismo.
As críticas nãos se fizeram esperar. Roger Smith, director de uma organização de juristas, declarou que o recurso a «prisões preventivas» e a prática de manter uma pessoas em prisão sem dar a conhecer nenhuma acusação formal representaria um enorme perigo, interrogando-se: como pode uma pessoa defender-se se não sabe de que é acusada?

Marcha contra as prisões em massa (2 milhões de presos nos USA)

No próximo dia 13 de agosto são esperados milhares das pessoas na marcha em D.C. contra as prisões em massa que não param de crescer nos E.U.A.
Milhares das pessoas provenientes de todos os cantos dos EUA são esperados numa marcha numa " Jornada pela Justiça " em direcção ao Capitólio. Muita coisa mudou desde 1963, ano em que se realizou uma marcha semelhante, mas esta marcha ainda tem tudo a ver com as reivindicações de então, nomeadamente o racismo patente dos encarceramentos e prisões em todos os Estados Unidos.


O E.U.A. é o maior Estado carcereiro do mundo: 22 por cento da população prisional do mundo inteiro enontra-se nos Estados Unidos, apesar do total dos seus habitantes só representar ao redor de 4,6 por cento da população do mundo. Nos EUA, do total dos homens negros com 20/30 anos, um em cada oito está preso, em contraste, só um em cada 63 homens brancos nas mesmas faixas de idade. Curiosamente segundo as estaísiticas do Departamento de Justiça mostram que de 1994 a 2003, os crimes violentos cairam mais de 33 por cento e os crimes de propriedade cerca de 23 por cento.

Desta vez as famílias e amigos de mais dos dois milhões de pessoas actualmente em prisão nos E.U.A., juntamente com activistas a favor da justiça, vão expressar a sua oposição ao que é conhecido como o complexo industrial carcerário (PIC), uma rede que pára de se expandir entre instituições estatais, indivíduos bem colocados, e corporações empresariais que lucram com os encarceramentos em massa.

Os grupos aderentes vão desde os dos amigos das pessoas encarceradas até colectivos que defendem a concepção de um mundo sem prisões.

Este alinhamento sem precedentes de organizações e grupos só mostra o consenso existente sobre nas críticas sobre política carcerária levada a cabo pelo Estado e pelas grandes empresas que obtêm enormes lucros com as prisões em massa.

A Adminsitração Bush prossegue e reforça esta política de encarceramento em massa aumentando as desigualdades sociais entre comunidades, e lançando ainda mais achas para o racismo nas prisões norte-americanas, em vez de combater aquelas assimetrias e apoiando as pessoas em dificuldades.

Não faltam certamente clivagens entre os reformistas e abolicionistas. Os primeiros criticam os últimos pelo facto de darem primazia a críticas sistémicas e não se preocuparem com as consequências concretas do encarceramento nas pessoas atingidas, tanto a violência estatal como interpessoal que é exercida nos indivíduos encarcerados. Por seu turno, os abolicionistas não deixam de alertar para a necessidade de uma teoria política e uma visão geral do problema, nomeadamente a crítica ao PIC. Mas para além destas divergências e debates existem muitos pontos comuns entre uns e outros, sobretudo a necessidade de políticas sociais como forma de prevenir a delinquência.

Conferencia sobre prisões e penologia na Tasmânia em 2006




Vai-se realizar na Tasmânia, Austrália uma Conferencia internacional sobre as prisões e penologia, sob o tema The Politics of Imprisonment, Contemporary Forms of Penal Custom, Post Carceral Resettlement and others.

Tasmania is an ideal place to discuss punishment. It used to be called Van Dieman's Land, and was the place where most of the original convicts were sent from England from 1788 until the 1850's. It was the ultimate as a penal colony, was almost entirely a prison, and changed its name to avoid the historic shame. It had penal settlements where convicts were tortured - all well documented. And the convict responses are very special learning experiences, still valid today.
Mais info:
http://www.justiceaction.org.au/ICOPA/icopa_XI.html



ICOPA XI Hobart, Tasmania. 7-11th of February 2006
The agenda and the form of the conference is now open. Papers can be submitted by emailing: icopa@justiceaction.org.au
The following are themes to be explored and expanded at the conference:
* The Politics of Imprisonment Northern Ireland, Palestine and the Middle East, (Post) Colonial Justice Nigeria and West Africa, South Africa: ANC , Brazil, USA, Canada.
* Contemporary Forms of Penal Custom Human Rights & Imprisonment: a Global Perspective, International trends, Imprisonment of Women, Marionization and Political Dissent in the USA, Refugee and Immigration Prisons, Prisons under Occupation.
* Post Carceral Resettlement Organising Inside: Prisoners' resistance and the Outside Community, Writing and Art as Resistance, Barriers to Reintegration, Surveillance, Organising in the Community - Exprisoners' Organisations, Convict Criminology.
* Action Now Proposals for the future.
* Registration and Workshop participation To register for the conference or express interest in participation, please use the following - email form.
We will be linking with the ANZSOC criminology conference happening from 7-9th of February 2006 in Tasmania. They haven't finalised the program yet, but do plan to have four plenary sessions around the theme of Human Rights:
* Prisoners and Human Rights
* Refugees and Human Rights
* State Crime and Human Rights
* Terrorism, Racism and Human Rights
More info:

Parentes de soldados mortos acampam às portas do rancho texano de Bush

As mães de vários soldados norte-americanos mortos no Iraque acamparam às portas no rancho do presidente Bush em Crawford, Texas, no termo de uma longa marcha, e preparam-se para assim se manter o tempo que for necessário até serem recebidas por Bush. Os familiares presentes são apoiados por cerca de 50 militantes pacifistas que também estão presentes. Uma das mães presentes, Cindy Sheeds não tem ilusões acerca da possibilidade de serem recebidas por Bush, mas acredita que com esta iniciativa outras mães e parentes de vítimas da guerra se mobilizem.

Pentágono manda produzir novas minas antipessoais


O Pentágono planeia voltar a produzir minas antipessoais para o que já aprovou a proposta de financiamento de 13000 milhões de dólares para o projecto de desenvolvimento e fabrico de uma nova espécie de minas antipessoais designadas por Spider, assim como para outro tipo de minas que recebeu o nome de «Intelligent Munitions System» que estarão prontas em 2008.
De acordo com a Human Rights Watch (HRW), que acabou de denunciar este projecto, morrem no mundo por semana 500 pessoas resultantes da deflagração de minas antipessoais, a maior parte civis. Nos últimos anos formou-se um certo consenso internacional para banir as minas antipessoais que esta decisão da Administração Bush vem a contrariar.

Nagasaki: 70.000 mortos em 3 segundos


Nagasaki, cidade habitada maioritariamente por católicos, por efeito da evangelização realizada por portugueses e espanhóis, foi o alvo da segunda bomba atómica lançada pelos Estados Unidos contra a população civil há 60 anos atrás, em 8 de Agosto de 1945, e que matou 70.000 pessoas em 3 segundos.
Com a morte de 2.748 pessoas em Nagasaki, durante o ano passado, o número total de vítimas resultante do bombardeamento norte-americano só sobre a cidade de Nagasaki

Sobreviventes, e actuais habitantes de Nagasaki comemoraram o acontecimento no local onde a bomba caiu, que estava inicialmente destinada para a cidade de Kokura.. Antes das cerimónias foi celebrada uma missa, em memória das 137.000 vítimas falecidas, na reconstruída catedral Urakami que era em 1945 a maior igreja católica do Extremo Oriente e que foi reduzida a escombros

A bomba atómica que caiu sobre Nagasaki era de plutónio, com características muito diferentes da bomba lançada sobre Hiroshima, tendo servido para o Exército norte-americano testar o impacte e o efeitos mortais quer de uma quer da outra bomba sobre a população civil daquelas duas cidades.

7.8.05

Declaração formal de guerra poética para tomar o céu por assalto


O surrealismo está vivo e lança-se à acção.

Leia-se e multiplique-se

Considerando:

a) que cada dia que passa são cada vez mais as perversões esclavagistas dos Impérios e dos seus cúmplices

b) que a miséria cresce, o crime cresce, a injustiça cresce, as ameaças crescem

c) que está em marcha um ataque armado imperial para cancelar definitivamente a liberdade

d) que somos reféns das ditaduras financeiras, bancárias, clericais, massmediáticas, legalóides, politiqueiras e moralistas

e) que não temos descanso nem nos deixam respirar

f) que pretendem usurpar-nos a vida e a esperança

g) que semearam com mortos os nossos sonhos e vigílias

h) que o medo inunda as noites e dias com noticiários, embargos judiciais e moral policial

i) que o terror tem cotação nas bolsas

j) que estamos acorrentados aos fios da consciência

k) que a podridão e a pouca vergonha desfilam triunfalmente pelas avenidas da impunidade

l) que a democracia fica desfigurada com a mais despudorada campanha nacionalista, fascista e patrioteira

m) que converteram o trabalho numa carnificina

n) que arrastamos pelas ruas as nossas depressões e cansaços como alma escondidas nas sombras elípticas dos abutres

o) que a fome nos tira lascas 365 vezes por minuto

p) que a humilhação goza de perfeita saúde

q) que o desemprego é um grande negócio

r) que tudo é ainda passível de piorar

s) que isto já não é assunto de caciques

t) que somos o alvo

u) que eles fabricam cada dia mais e melhores armas

v) que se votarmos neles seremos então seus

w) que não há tempo a perder. Que a consciência do nosso atraso não é suficiente

x) que o nosso trabalho, tal como está, faz-nos cada vez mais escravos e mais miseráveis

y) que eles estão organizados e se preparam para nos dar o golpe final

z) que não basta unirmo-nos… é preciso organizarmo-nos revolucionarmente




PROMULGAMOS A…

Real Declaração Universal

Dos Direitos da Revolução Permanente

( e as suas permanente obrigações)


I. Todos os seres humanos podem, devem e precisam de ser revolucionários. A partir de hoje será obrigação e direito de todos executar pelo menos três acções revolucionárias diárias contra qualquer sinal de escravidão física e mental.

II. Será reconhecida como revolucionária toda aquela acção organizada que contribua directa ou indirectamente, objectiva ou subjectivamente, para dar por terminado o modo esclavagista e de exploração criado pelo capitalismo imperial.

III. Esta declaração propõe o amor e a poesia como formas supremas da revolução. Toda a indiferença face à revolução será considerado como delito de lesa-majestade

IV. A mansidão, docilidade e inactividade complacentes para com o capitalismo serão consideradas indecentes e imorais

V. Está proibida qualquer revolução na solidão. ( salvo casos excepcionais ou extremos). É dever e direito de toda a pessoa, que se respeite, construir a revolução acompanhado. É mais produtivo, mais seguro e mais saboroso.

VI. Será propósito de cada acto de amor honesto e quotidiano converter-se em revolução que liberte corpos e espíritos para uma vida digna, dentro do possível, ainda que não pareça.

VII. É prerrogativa e obrigação da humanidade contribuir para a construção de uma grande frente única revolucionária ( a Revolução Mundial) que será com a maior brevidade convertida num poema colectivo para a redistribuição equitativa da felicidade e justiça. Tudo isto está nas nossas mãos, isto é, de todos nós.

VIII. É certo que não basta ser rebelde, mas há que começar por alguma coisa. Quando começar a grande revolução mundial, o que só acontecerá quando toda a opressão, escravatura e exploração estejam desterradas, manter-nos-emos revolucionários para não nos transformarmos no seu contrário.

IX. É preciso que a revolução se expresse por todas as áreas da vida. Por isso, daqui para diante, será necessário sermos revolucionários nos sonhos e no descanso, nos jogos e nos trabalhos, pública e em privado. Será prerrogativa de todo o revolucionário produzir beijos revolucionários, abraços revolucionários, carícias revolucionárias. Ciência, artes, filosofias e ofícios revolucionários. Não há desculpas para não se amar em revolução crescente e postergar um minuto que seja os mandatos do desejo.

X. Esta declaração é uma declaração de guerra contra toda a hegemonia da razão sobre os instintos e vice-versa. É uma declaração contra a separação entre a consciência e o inconsciente. É uma declaração de guerra contra a separação entre o espírito e o corpo. É uma declaração de guerra contra a separação do trabalho intelectual e o trabalho manual. É uma declaração de guerra contra a separação entre a riqueza material e os povos que a produzam. Contra a propriedade privada.

XI. Esta declaração é uma declaração de guerra contra a apatia, a desorganização, a depressão, a mediocridade, a sujidade, a miséria, a corrupção, os saldos amargos, a austeridade para tantos, a abulia, as doenças, as deficiências, os atrasos, as desigualdades, os maus tratos, a intranquilidade, a insónia, a impotência, a frigidez, o bom comportamento, as atitudes burguesas, a desnutrição, o abandono, a solidão e a tristeza.

XII. A partir de agora é obrigatória a revolução que fecunde alegria para todos, o bem estar material e emocional, o sexo criativo, lúdico e amoroso, o trabalho não alienante, a paz entusiasta, a vontade de rir-se sem ser por motivos estúpidos, a amizade contundente, o amor louco e tudo quanto a nossa consciência exigir para satisfazer as necessidades, pessoais e colectivas, para aproximarmo-nos daquilo que todos sonhamos como um mundo melhor, que é um mundo sem exploração, feito por e para uma humanidade renovada. E isso não é impossível.

XIII. É inaceitável ser-se indiferente a esta declaração.

XIV.

«Não será o medo à loucura que nos obrigará a baixar as bandeiras da imaginação»


Autor: Fernando Buen Abad Domíngueztradução para português de um original de Fernando Buen Abad Domínguez, sob o título CARTAS DESDE EL SURREALISMO Nº 5 que se encontra em:
www.barriodelcarmen.net

Quando os Estados Unidos se preparavam para invadir Portugal

Algum tempo depois do 25 de Abril e face ao desencadeamento de um processo revolucionário que se lhe seguiu o governo norte-americano acompanhava de perto o desenrolar dos acontecimentos em Portugal, até pelo facto do país ser um membro fundador da aliança militar que é a Nato.
Numa primeira fase enviou observadores ( serviços secretos) para o terreno, isto é, para Portugal. Toda a gente sabia ,por exemplo, que o embaixador americano em Lisboa era um alto funcionário da Cia, em «comissão de serviço» em Portugal, cujo trabalho foi, de resto, reconhecido quando anos mais tarde esse mesmo Embaixador chegou à Chefia da Agência Nacional de Segurança (vulgo, CIA) dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo o governo americano abria os cordões à bolsa e criava linhas de financiamento para as forças contra-revolucionárias portuguesas. É graças aos dólares americanos e aos marcos alemães que é criada a UGT, a actual central sindical social-democrata. São criados também jornais contra-revolucionários e até mesmo de direita mais extremista, com a ajuda dessas verbas disponibilizados pelas agências de informação dos serviços governamentais, com o claro objectivo de desinformar e intoxicar a população contra o «papão comunista» e o «perigo da anarquia».
Como tais operações não fossem suficientes para travar a dinâmica revolucionária em Portugal os Estados Unidos começaram a recorrer à força armada para abafar a revolução portuguesa.
Surgiram assim várias redes terroristas de carácter contra-revolucionário patrocinadas na sombra pelos serviços secretos americanos.
Mas como isso não chegasse o governo norte-americano começou seriamente a pensar numa intervenção militar no território português para que deu ordem para a realização por mais de duas vezes durante ano de 1975 de manobras militares da Esquadra da Nato que simularam inclusivamente desembarques nas praias atlânticas do Alentejo.
Afinal não foi necessário desembarque nem invasão. Os homens de mão dos americanos estiveram á altura da encomenda que lhes tinha sido ordenada.
Assim se explica que o golpe militar reaccionário do 25 de Novembro de 1975 que veio a instaurar a Recuperação Capitalista tenha tido como centro de operações a base aérea da Nato em Cortegaça, perto de Ovar.
Daí partiriam as ordens e os aviões que vieram a intimidar e atacar as força revolucionárias que exigiam transformações profundas na organização social no sentido de criar uma sociedade socialista, tal como se encontra ainda na actual Constituição da Republica Portuguesa, mas que não passa de letra morta para os nossos políticos e governantes para os quais a Lei e a Constituição só devem ser seguidas e respeitadas quando estiverem ao serviço dos interesses da classe dominante dos capitalistas e aos americanos.

Os zapatistas



Autor do texto:
Boaventura de Sousa Santos

Saio da cidade do México num momento em que a classe política e os movimentos e organizações sociais reflectem sobre a última declaração política do movimento zapatista, a Sexta Declaração da Selva Lacandona. É uma declaração importante para o México, a América Latina e, em geral, para os cidadãos que em todo o mundo lutam contra a exclusão social e aspiram a uma renovação da vida política democrática. Trata-se de um texto escrito num estilo desconcertantemente simples, dirigido à «gente simples e humilde» e em termos que esta entenda, pleno de ironia e carregado de imagens que apelam à experiência vivida das classes populares. E este é um primeiro aspecto a salientar, já que uma das manifestações da crise da política do nosso tempo reside na opacidade dúplice do discurso político dominante, um discurso que nega o que faz (submeter-se aos imperativos do capitalismo global) para fazer o que nega (deixar de estar ao serviço do bem estar dos cidadãos).

A declaração está dividida em cinco partes: o que somos; onde estamos; como vemos o mundo; como vemos o nosso país, o México; o que vamos fazer. Destaco nela três aspectos principais. O primeiro consiste na opção mais inequívoca do que nunca, pela acção política pacífica: «o que vamos fazer no México e no mundo, vamos fazê-lo sem armas, com um movimento civil e pacífico». Está aberta, pois, a possibilidade de o movimento zapatista vir a integrar o Fórum Social Mundial (cuja carta de princípios exclui a luta armada) o que, em meu entender, seria bom para ambos. É certo que, no seguimento dos encontros «intergalácticos» promovidos pelos zapatistas na década de noventa, são propostos agora novos «encontros intercontinentais» e são mesmo avançadas datas prováveis, mas nada disto parece colidir com a entrada em força no FSM.

O segundo aspecto é que a intervenção zapatista não é feita contra a política, mas antes contra «esta política que não serve, e não serve porque não toma em conta o povo, não o escuta, não faz caso dele, só se aproxima dele quando há eleições e já nem sequer quer votos, pois bastam as sondagens para dizer quem ganha». Contra uma democracia representativa de baixa intensidade, propõe-se uma democracia de alta intensidade, que combine a democracia representativa com a participativa, pressionando os partidos a partir «de baixo», ou seja, através de uma forte mobilização social e política, uma campanha nacional para a construção de outra forma de fazer política», de um programa de luta nacional e de esquerda que esteja para além dos processos eleitorais. Esta mobilização deixa de se dirigir exclusivamente aos povos indígenas, a base social originária dos zapatistas, para incluir todos os explorados e excluídos: operários, camponeses, jovens, mulheres, deficientes, micro-empresários, reformados, homossexuais e lésbicas, crianças, emigrantes, etc. Trata-se, pois de organizar um vasto movimento social rebelde e pacífico.

O terceiro aspecto a salientar é que a luta social e acção política de base têm de ser, não apenas intersectoriais, mas também transnacionais. A globalização neoliberal, ao globalizar os processos de exclusão social, cria também as condições para organizar globalmente a solidariedade, solidariedade, antes de tudo, com os povos latino-americanos, mas também com todos os outros povos do mundo. Eis, em pleno estilo zapatista, como se dirigem aos povos europeus: «...e queremos dizer aos irmãos e irmãs da Europa Social, ou seja, a que é digna e rebelde, que não estão sós. Que nos alegram muito os seus grandes movimentos contra as guerras neoliberais. Que seguimos com atenção as suas formas de organização e de luta para aprender com elas. Que estamos a ver os modos como apoiá-los nas suas lutas e que não vamos mandar euros pois logo se desvalorizarão dada a desordem na União Europeia. Mas talvez lhes vamos mandar artesanato e café para que o comercializem e tirem disso algum proveito para as suas lutas.»

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Sexta Declaración de la Selva Lacandona
I, II, III

Alexandre Vieira, director d’«A Batalha», jornal da CGT


Quando se reconhece que está por fazer a história dos últimos cem anos, com os acontecimentos que derivaram do surto da industrialização e das suas consequências sociais e políticas, a I República e o reinado sombrio do salazarismo, é preciso conhecer e revelar o valor e o papel que desempenhou nessa época o movimento operário e sindicalista. Deste modo a História não aparecerá somente feita pelas personalidades políticas ombreando apenas com poetas, literatos e cientistas mas também por outras figuras que marcaram essa nova expressão democrática, o movimento operário, que muito contribuiu para a transformação da sociedade portuguesa.

Alexandre Vieira, operário gráfico, cujo centenário do seu nascimento se completou a 11 de Setembro de 1980, foi uma notável figura marcante nos grandes acontecimentos que caracterizaram a I República e os anos posteriores como militante sindicalista e na acção que o movimento sindical revolucionário desempenhou na melhoria e elevação da condição operária e da sua intervenção nessa evolução.
Nasceu no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, em Setembro de 1880 e, em breve, vai com os pais para Viana de Castelo onde, aos 10 anos, começou como aprendiz de latoeiro. Aos 15 anos de idade, na sua passagem por Coimbra, inicia a aprendizagem de tipógrafo, condição profissional que jamais abandonaria e seguiu sempre com paixão e orgulho.
Por esse tempo, bastante convulso, pelas consequências da crise de 91, dos problemas coloniais e do processo de industrialização, o movimento operário que já vinha dos meados do século a afirmar o valor e a presença operária no processo de produção, mas condicionado a um reformismo que a hegemonia do Partido Socialista patrocinava como indispensável ao papel político que julgava poder realizar segundo a dialéctica marxista, viu surgir novas concepções revolucionárias inspiradas na experiência da Primeira Internacional.
Alexandre Vieira, trabalhando nas artes gráficas, além dos contactos com essas movimentações, começou a privar com leituras de carácter social e naturalmente a formar uma personalidade que cedo se vem a afirmar. Com 23 anos de idade ele dirige, em Viana de Castelo, o jornal «O Lutador»,órgão local da Federação das Associações Operárias.
Não tarda a aparecer em Lisboa onde se fixou definitivamente, filiando-se na Associação dos Compositores Tipográficos.
As grandes lutas operárias na Europa e as suas contingências iam produzindo uma experiência. A social-democracia, que se gerara nos votos do Congresso de Haia de 1872, propostos pelos postulados de Marx, entrava no parlamentarismo e no terreno resvaladiço do constitucionalismo burguês, ao mesmo tempo que os movimentos operários mais amadurecidos se iam inspirando no princípio que, para além das reivindicações económicas imediatas, se abrangia a própria socialização dos meios de produção, e seriam, portanto, os próprios sindicatos os instrumentos válidos dessa socialização.
O movimento das Bolsas de Trabalho em França toma, por inspiração anarquista de Pelloutier, da crítica marxista de Lagardelle e Berth e da crítica sorelliana, uma notável autonomia. Formulava-se, na teoria e na prática, o sindicalismo revolucionário, e em 1906 constitui-se a CGT estruturada na célebre carta de Amiens.
A influência cultural francesa transporta para Portugal, pelo veículo da literatura anarquista , o sindicalismo revolucionário que ensaiava.
Alexandre Vieira, que privava nos meios libertários, com Emílio Costa, Pinto Quartin, Campos de Lima, Neno Vasco, Adolfo Lima e Aurélio Quintanilha, integra-se na proposta revolucionário do sindicalismo e torna-se um dos seus mais activos militantes e propagandistas depois da célebre conferência de Emílio Costa sobre o tema «Acção directa e acção legal».
Em 1908, animando a crítica e a experiência sindicalista transposta para as associações de classe de tipo profissional, começa a publicar-se o diário sindicalista «A Greve», redigido, composto, impresso e vendido por um grupo de militantes entre os quais estava Alexandre Vieira como seu director, coadjuvado por Pinto Quartin, anarquista, e Fernandes Alves, socialista.
O jornal durou apenas seis meses e Vieira viria a confessar «se bem que o novo jornal defendesse com vivacidade os trabalhadores, manda a verdade que se diga que fez uma medíocre divulgação do Sindicalismo» ( in «Para a História do Sindicalismo em Portugal», A. Vieira, col. Seara Nova,pág.30)
Esta confissão é um dos traços do seu carácter. Vieira era um homem íntegro, duma extraordinária lealdade, sem dogmatismos, praticando uma amizade firma com todos; se discordava não se irritava e até seria capaz de contemporizar, o que o levou também muitas vezes a posições de certo modo ambíguas quer quando se definiu a influência anarco-sindicalista quer depois do aparecimento do Partido Comunista, e do dissimulado grupo dos «Partidários da ISV», encontrando-se muita vez no meio com o seu ramo de oliveira.

Em Novembro de 1910, ainda na euforia da implantação da República, algo parecido ao 25 de Abril, surge o novo semanário «O Sindicalista», também com a direcção e colaboração de Alexandre Vieira, para substituir «A Greve».
Marcando claramente uma posição e doutrinação sindicalista revolucionária, «O Sindicalista» veio desenvolver uma nova dinâmica sindical e despertar nas classes trabalhadoras um espírito novo de autonomia e da sua missão histórica, a marcar a sua presença e identidade própria na evolução da sociedade portuguesa e nos acontecimentos que agitam a I República e, depois, durante o período fascista.
Alexandre Viera teve uma notável intervenção e perseverante acção na evolução sindical a começar na Casa Sindical. Gérmen da futura central sindical.

A fundação da União Operária Nacional

Em Maio de 1914 o Congresso Operário Nacional, realizado em Tomar, toma decididamente a posição sindicalista e constitui a União Operária Nacional. Alexandre Vieira teve grande intervenção nos debates e resoluções que suplantaram a influência socialista, tendo no final sido eleito secretário-geral da Comissão Executiva. Nos acidentados anos que se seguem, que a guerra vem agravar, com as suas crises, tumultos e agravamento das condições de vida da população e o conturbado perído sidonista a UON demonstra uma capacidade de resposta da posição sindicalista.
Esta será a grande afirmação da geração de A. Vieira, em que se evidenciou sempre com a sua presença e capacidade de acção e de reflexão.

Esta força que nascia e se afirmava carecia, portanto, duma voz equivalente à sua presença. Exactamente quando na serra do Monsanto sucumbia a aventura duma pretendida restauração monárquica, breves dias após, começa a publicar-se em Lisboa o diário operário e sindicalista «A Batalha», dirigido por Alexandre Vieira.

O que o jornal «A Batalha» representava pela acção dos que o lançaram é que tendo sido uma iniciativa arrojada, mesmo temerária, apenas igualada pelo sindicalismo espanhol, não soçobrou e desempenhou a sua importante missão, ser a voz dos trabalhadores que só o terror amordaçou para não voltar hoje a ser repetida como iniciativa do movimento sindical.
A projecção que o jornal teve, e que ainda se repercute, foi em muito, obra de Vieira. A sua acção como jornalista operário, já experimentado como autodidacta, afirma-se e notabiliza-se na orientação do jornal como na formação do seu quadro redactorial, exclusivamente composto de operários militantes, alguns ainda jovens, tendo assumido uma nova categoria na Imprensa como jornal de combate, ideológico, crítico, cultural e informativo do quotidiano, sendo por isso, e pela sua tiragem, um dos principais do país.
Quase sempre os governantes respondem aos grandes problemas ou conflitos com a prisão dos militantes sindicais. Várias vezes Vieira, como tantos outros, estanciou no Limoeiro, no governo civil e até no forte de Elvas. Quando da célebre bomba do Carmo, em 1911, A. Vieira e os companheiros da redacção de «O Sindicalista» foram presos, o jornal publicou-se indicando como local e sede da redacção e da administração, a cadeia do Limoeiro.
Alexandre Vieira como todos os militantes sindicalistas da época foram impressionados pela revolução de 1917 e manifestaram-se de maneiras diferentes. Vieira acolheu-a e guardou sempre aquela simpatia inicial, mas não alterou a sua posição sindicalista nem se dispôs a críticas ou louvores.
Os polémicos debates desencadeados pelos maximalistas, a formação da Federação Maximalista e do seu órgão «A Bandeira Vermelha», primeiro as reflexões, depois, a crítica aos anarquistas, decorreram sem que Vieira tomasse posição. Mesmo depois do Partido Comunista aparecer, e se ampliarem os debates polémicos, A. Vieira mostra-se inalterável, acolhendo todos com a mesma amizade, a mesma bonomia, porfiando na convicção dum sindicalismo autónomo e apto à gestão sindical da produção e na formação duma sociedade socialista, um sindicalismo da carta de Amiens, reafirmado ainda em 1925 numa pequena polémica em «A Batalha».
Paternal, contemporizador, sem pretender elaborar quaisquer sínteses, solução de compromisso ou miscelânea, deixou-se ficar um tanto à parte, e todos contemplava com o seu sorriso aberto, a sua palmada no ombro do amigo conservando amizades com os outros.
De formação libertária, tendo convivido e colaborado com muitos anarquistas, nunca se afirmou como tal, conservando o essencial de não aceitar a ideia de Partido nem do Estado como construtor do socialismo. Nessa posição rigidamente sindical tropeçou algumas vezes em várias ambiguidades que uma leitura unilateral do sindicalismo pode conduzir.
Por influência dos seus amigos do grupo dos Partidários da ISV em 1928, Vieira foi convidado a participar em Moscovo num Congresso da Internacional Sindical Vermelha, como «delegado fraternal», isto é, convidado, e aceitou.
No relato da sua missão publicado num livro cujo título é bastante inexpressivo -«Delegacia a um congresso sindical» - relata-nos com agrado os convívios de camaradagem e asa solenidades a que assistiu ou algumas impressões da vida quotidiana. Não entrou no debate dos principais problemas do movimento internacional quando o estalinismo já dominava.
Não obstante, um certo tipo de neutralismo, Vieira sintetizava toda a grandeza dum movimento e uma corrente de pensamento e de acção, que no dédalo das contradições da época, continuava a afirmar, pela sua autonomia e pelo conteúdo de ideias, a sua missão histórica que entre nós alterou positivamente a condição operária.
Quando se preparava o Congresso Confederal da Covilhã e constava da sua ordem de trabalhos a adesão da CGT à Internacional anarco-sindiacalista, a Associação Internacional dos Trabalhadores, a que o pequeno núcleo dos partidários da ISV se opunha, Alexandre Vieira adopta uma posição neutralista e leva o Sindicato dos Compositores Tipográficos a propor ao Congresso a neutralidade internacional da CGT.
Vieira criou grandes amizades para além dos quadros sindicais e conviveu com grandes figuras da intelectualidade que o apreciavam pelas suas notáveis qualidades de inteligência e de acção, colaborando em muitas publicações.
Depois de ter sido chefe da tipografia da «Seara Nova». E quando Jaime Cortesão e Raul Proença assumiram a direcção da Biblioteca Nacional, Vieira – sempre operário gráfico de que se orgulhava – foi com eles para chefiar a tipografia. Quando a tempestade reaccionários os afastou, Vieira, na defesa das regalias do pessoal gráfico, teve polémicas com o director, o dr. Fidelino de Figueiredo, e como este o ofendesse, pela primeira vez na sua vida, agrediu-o. Quando foi julgado em tribunal rodearam-no numerosos amigos de variados quadrantes.
A sua acção estendeu-se para além do movimento sindical. Teve grande actividade na Universidade Popular Portuguesa, conjuntamente com Bento Caraça, Dias Amado, Avelino Cunhal, José Carlos de Sousa, e Augusto Carlos Rodrigues. Foi também um dos organizadores da Associação dos Inquilinos Lisbonenses, dando-lhes boa parte da sua colaboração.
Infatigável militante, persistente jornalista, homem de pensamento e de acção duma geração que revolveu Portugal, Alexandre Vieira morreu com 93 anos, sempre com a mesma grandeza de espírito e duma bondade singela, em Março de 1974, não chegando, por escassos dias, a ver a queda de um regime a que ele permanentemente se opôs.

(Texto de autoria de Emídio Santana, publicado em «O Jornal» de 12/9/1980)


Bibliografia de Alexandre Vieira:
= Em volta da minha profissão subsídios para a história do movimento operário no Portugal continental – edição de autor, 1950
=Como se corrigem provas tipográficas – noções úteis para quem manda executar impressão às tipografias. De colaboração com Gonçalves Piçarra – Edição da Albagráfica, Lda, Lisboa 1951
=Figuras gradas do Movimento Social Português – Edição do autor, Lisboa 1959
=Delegacia a um Congresso Sindical – Lisboa, 1960
= Para a História do Sindicalismo em Portugal – edição da Seara Nova, 1970

6.8.05

Não houve um, mas dois Holocaustos (Auschwitz e Hiroshima)



Fala-se correntemente do holocausto nazi que perseguiu e matou milhões de judeus. A sua denúncia tornou-se moeda corrente. E muito justamente. Ao ponto de um filósofo como Adorno ter tido necessidade de levantar a questão de como educar após Auschwitz, ou seja, a necessidade de toda e qualquer educação não ignorar o que o homem foi capaz de fazer a outro homem, e construir resistências para que tal não volte a acontecer.
Mas o simbolismo da bomba atómica e o risco nuclear, representado pelo acto gratuito que foi o lançamento pelos Estados Unidos - paradigma societário das democracias ocidentais e do mundo dito civilizado - de bombas atómicas contra populações civis em 1945, e a consequente carnificina, exigem que se fale de um segundo Holocausto, o de Hiroshima.
E deste vez o dedo acusador vai para o desvario da razão científica, para a arrogância do militarismo tecnológico e, em última análise, para a suposta superioridade civilizacional do modelo das democracias ocidentais - como os Estados Unidos da América gostam de se auto-representar - e cujo presumido ascendente moral é definitivamente manchado pelo sangue, morte e ameaça do apocalipse atómico

.
Não por acaso este outro holocausto é objecto de mutismo cúmplice e censura, como se a vergonha tivesse ainda dificuldade em dizer por palavras a sua própria condição. O manto de quase silêncio que rodeia ainda o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima mostra que ainda está tudo por fazer. Que a liberdade humana é uma conquista permanente, e que os poderes não olham a meios para imporem a sua verdade.
Que a racionalização moderna, representada pelas tecno-ciências, tantas vezes proclamada como panaceia, afinal, não é o garante para a felicidade humana, e que guarda nela os germens da destruição planetária.
No meio de tudo isto, cabe aos indivíduos concretos resistirem com estoicismo e lucidez para bem da Humanidade e do planeta, defenderem a vida contra todas as racionalizações fechadas, contra todas as doutrinas dogmáticas e todos os poderes que arrogantemente e por interesses inconfessados, se querem suplantar ao livre fluir da vida, espontânea, bela e selvagem. Pois só ela tem legitimidade de nos surpreender com a dor da morte e a alegria de um sorriso súbito de contentamento, luminosamente imprevisível.

Edições apalavrados



«Apalavrados: seres humanos comprometidos por um pacto de honra, valor, ideal, sangue ou princípio. No caso presente das artes, banda de poesia, trupe de saltimbancos, grupo de amigos, paralelos ou comuns, ligados por todas as áreas vivas ou por viver. podem ser poucos ou muitos, alguns ou todos, sós ou acompanhados, são os que estiverem na hora da luz e da revelação»

As edições apalavrados, com o apoio e cortesia do colectivo «silêncio da gaveta», inauguraram a sua primeira colecção de livros, sob a designação de «cobras incompletas», e para o seu início nada melhor que dar à estampa um volume de poesias de Joaquim Castro Caldas , com o título «há»

Desistam da ideia de procurar o livro nos escaparates das livrarias, e muitos menos nos saldos das feiras dos livros. São livros clandestinos, vendidos à sorrelfa pela cidade, nos bares e esquinas onde ainda esteja erguida alguma réstia de inteireza humana.

Do conjunto de poesias coligidas, seleccionamos o seguinte excerto:


(…)
há poetas como padeiros
por isso fermentam ambos
à hora a que os sinos
se avisam uns aos outros
para não soarem simultâneos

há marés para os afagos
se os vinhos mais sagrados
se bebem na rua puros
nobres desencantados
quando partem barcos
se devolvem os sorrisos

há vadios que nos tecem
companhia no desespero
à hora a que os medos
no dia em que os lábios deixam vestígio soltos
e em sangue os violinos
pela noite vão fingindo
que ainda são amados


há também as paixões
que escorregam como o frio
quem se morde por dentro
o que se morre em segredo
e por isso é pela ausência
que se vê um amigo

Autor: Joaquim Castro Caldas, em «há»

Spartacus, e a luta dos escravos pela liberdade, transposta para o cinema



Spartacus foi um escravo que liderou a mais importante revolta, no século I a.C., contra os romanos e o poder imperial de Roma. Os seus objectivos eram a liberdade e o reconhecimento da sua condição humana, tendo conseguido a adesão de milhares de escravos para a sua luta que só foi esmagada depois de várias tentativas do poder imperial que teve de mobilizar os seus principais cabos de guerra e recursos militares para abafar a revolta.

Spartacus é também o título do romance histórico de 1952, do escritor e dramaturgo norte-americano Howard Fast (1914-2003), que foi perseguido e vítima da campanha anti-comunista levada a cabo pelo senador McCarthy pelo facto de Fast ser militante do Partido Comunista., e que levou inclusivamente à retirada dos seus livros das bibliotecas pública norte-americanas.

O romance passou para o cinema pela mão do realizado Stanley Kubrick e com base no argumento de outra vítima da lista negra do maccarthismo, Dalton Trumbo, um dos famosos «dez de Hollywood» marginalizados durante aquela época.
Fast é autor de dezenas de livros e novelas, tendo escrito ainda policiais sob o pseudónimo de E.V.Cunningham. Veio a abandonar o Partido Comunista como protesto pela invasão do Exército vermelho da Hungria em 1956.

História

Desde o século II a.C. as revoltas e fugas dos escravos intensificaram-se, ainda que de forma esparsa se possa dizer a resistência de escravos sempre constituiu uma constante ao longo do período romano. Existem fugas massivas de escravos em Tito Lívio, Apiano e Cícero. Mas estas formas de resistência passiva transmutou-se também sob uma outra maneira mais ofensiva, a resistência activa. E não faltam sinais de repressões contra revoltas e insurreições de escravos. As constantes guerras romanas absorviam os cidadãos disponíveis e entregavam aos escravos a tarefa de produzir. Estes eram em número cada vez maior e serviam para tudo, inclusive para espectáculos. A sua utilização intensiva torna-se imprescindível para a subsistência da plutocracia romana.
Não se esqueça ainda da grande divisa do poder para entreter as massas ociosas: «dêem-lhes pão e circo».
Na Sicília, o celeiro de Roma onde era intenso o trabalho de escravo, foi o palco de duas grandes revoltas de escravos: a primeira cerca de 134 a 132 a.C.,chefiada por Enus ( de origem síria) e Cleon (da macedónia) conseguiu reunir uma força de 60.000 homens, e a segunda provavelmente de 104 a 101 a.C., dirigida pelo sírio Salvius e pelo macedónio Artenion, ambas esmagas a sangue pelas legiões romanas.
Sublinhe-se duas coisas. Primeiro, a aversão da plebe em relação aos escravos, isto é, a própria classe inferior da hierarquia romana alimentava rancor e ódio aos escravos; estes eram aos seus olhos, os estrangeiros, os estranhos que punham em xeque a ordem estabelecida e o seu estatuto plebeu. Segunda, a luta dos romanos contra os escravos era humilhante: combatê-los era rebaixar-se, uma vez que os escravos não eram homens, não tinham o estatuto humano para os cidadãos livres. E se era assim para os escravos, as coisas pioravam com os gladiadores, vistos como sub-escravos, pois eram treinados para o espectáculo com as bestas no recintos romanos.
Spartacus, de origem trácia, foi para Roma como prisioneiro de guerra e acabou por ser vendido ao proprietário de uma escola de gladiadores, onde se registou por volta de 73 a.C. a revolta e a fuga de vários gladiadores, entre os quais se contava Spartacus, Crixus e Oenamaus, estes últimos escravos celtas, para as encostas do Vesúvio, onde se instalaram, e para onde começaram a chegar escravos e plebeus que se juntavam aos rebeldes. E um pouco por todo o lado estalavam revoltas de escravos. O exército que Roma mandou sob as ordens do preto Claudius fora derrotado o que contribuiu para aumentar ainda mais o prestígio de Spartacus e que lhe permitiu reunir cerca de 120 a 200 mil homens, que não era propriamente um exército pois era muito diversos os grupos étnicos ( Gauleses, celtas, germânicos, trácios, etc) e os interesses que nele se reuniam. Uma legião enviada por Roma não teve melhor sorte, e os rebeldes conquistaram toda a Itália meridional. Logo, de seguida, e face à derrota dos romanos, Spartacus decide marchar para norte em direcção a Roma a fim de aproveitar a desorganização dos vencidos. As tropas romanas que encontrava foram derrotadas, o que permitiu Spartacus atingir Módena. Mas em vez de investir sobre Roma decidiu voltar para trás, ocupou Túrio e proclamou-o porto livre, elaborando aí leis que constituíam à época uma verdadeira revolução política, ao ponto de terem sido suprimidos o uso do ouro e da prata, e introduzido um estilo de vida simples, logo parecido com o dos espartanos, e muito diferente da organização social romana. Como não tiveram êxito as negociações com os piratas do Mediterrâneo, para os transportarem para a Sícilia, e como não conseguiram lançarem-se ao mar nas improvisadas jangadas construídas para o efeito, as gentes de Spartacus viram a breve trecho sitiadas pelas tropas romanas comandadas por Crassus que mais uma vez tinham sido enviadas para abafar a insurreição. Conseguiram desenvencilharem-se mais uma vez, mas as desuniões e decisões irreflectidas começaram a precipitar os acontecimentos e Spartacus acabou por ser derrotado ao fim de oito meses e outras tantas legiões. Os escravos insurrectos sobreviventes foram crucificados como Cristos por terem lutado pela sua liberdade.

(texto elaborado com base no artigo sobre Spartacus de Joaquim Palminha Silva, publicado no nº 170 da revista História, Novembro de 1993)