12.1.09

Histórica mobilização na Noruega com paralização dos transportes contra o massacre dos palestinianos em Gaza pelo exército sionista de Israel


Nos últimos dias registaram-se grandes mobilizações de repúdio pelos crimes contra a humanidade perpetrados pelo exército de Israel contra a população palestiniana de Gaza. Mas onde essa moblização atingiu maiores proporções foi na Noruega com manifestações em muitas cidades norueguesas: Oslo ( 40.000 manifestantes), Stavanger, Sandnes, Fredrikstad, Trondheim, Hamar, Sortland, Namsos, Arendal, Norheimsund, Mosjøen, Bergen, Sarpsborg, Tønsberg, Harstad, Tromsø, Kristiansand, Notodden, Vadsø, Mo i Rana, Alta, Kirkenes, Røros, Volda, Halden, Gjøvik, Lillehammer, Selbu.

Além disso, no passado dia 8 de Janeiro de 2009, todos os comboios da Noruega, bem como tramways e metro de Oslo pararam por dois minutos respondendo a um apelo à greve política do Sindicato dos Ferroviários Noruegueses e do Sindicato dos Trabalhadores do metro de Oslo, com vista a protestar contra a invasão israelita de Gaza.

Paralelamente várias organizações e sindicatos noruegueses lançaram uma nova campanha pelo abandono de todos os investimentos noruegueses em Israel. A União dos Trabalhadores e Empregados do Comércio pediu a cada um de seus membros para solicitar ao seu empregador que este retire os produtos israelitas das suas lojas. A Confederação dos Sindicatos Noruegueses, que agrupa um quinto da população norueguesa, condenou os bombardeamentos israelitas e a invasão de Gaza, e apelou à participação nas manifestações.

Por seu turno, a Igreja Norueguesa protestou contra a invasão de Gaza por Israel. Também 22.000 membros do Facebook norueguês exigiram a expulsão da Noruega do embaixador israelita. Esse site que organizou a petição foi atacado por hackers sionistas mas já está a funcionar de novo.

Recorde-se que dois médicos noruegueses encontram-se em Gaza e têm enviado para o exterior informações sobre a situação vivida pela população palestiniana sob os bombardeamentos israelitas.
No fim da manifestação registaram-se alguns confrontos com a polícia.

http://frontlinjer.no/

http://www.lo.no/



11.1.09

O Maio de 68 em Portugal ( texto de Eduarda Dionísio)


Texto que acompanha a exposição sobre os cartazes de 68 na Alemanha, patente no Instituto alemão de Lisboa, e foi retirado de:

Maio de 68 em Portugal
Autora do texto: Eduarda Dionísio

1. Em Portugal, quando se diz «Maio de 68» pensa-se na França, melhor dizendo, Paris, talvez mesmo só Quartier Latin, sinónimo de Sorbonne. No gueto em que vivíamos, a França era o «lá fora» mais conhecido e mais «contactável», via emigração (mais de 300 mil em 1968, o dobro em 1971), exílios, deserções da guerra colonial, e via língua (mais ensinada nas escolas do que hoje) e cultura – da liberdade e da «resistência» na II Guerra Mundial.

2. Quando o(s) Maio(s) eclodiram em vários pontos da Europa (e não só), Portugal era uma ditadura e tinha quase 40% de analfabetos. Havia três cidades com universidades, frequentadas por menos de 0,5% da população. Foi em Setembro desse ano que o poder passou de Salazar para Marcello Caetano. Última fase de uma ditadura a que se chamou «primavera». Mas a polícia política e a censura apenas mudaram de nome e continuámos sem direito de reunião, de manifestação e de greve.

3. Portanto, o «terreno» do(s) Maio(s) não existia em Portugal. E os «mal-estares» mais comuns eram outros. Gerado(s) nas e pelas democracias aqui desconhecidas (e por alguns ambicionadas), esse(s) Maio(s) foram vistos pelos poucos que dele(s) souberam sobretudo como «coisa de outros». «Impossível» aqui. Que estranho ser o «aborrecimento» (como o Le Monde de 30/4/68 sugeria) – e não a fome, a tortura e a censura – a «originar» uma «revolução»!...
Que duvidoso ser uma elite – os estudantes – a desencadear uma «desordem» que faria «o poder cair na rua»! Aqui queria-se simplesmente «mais gente» a estudar, o que quereria dizer «outro regime», e não «outra escola».


4. Seria preciso esperar seis anos para a súbita mudança de regime fazer o país inteiro viver um tempo que teve semelhanças (ampliadas) com as formas de libertação, de desconstrução e construção que o(s) Maio(s) de 68 tinha(m) experimentado (com outras razões e resultados) noutros lugares: perder o medo («ousar lutar, ousar vencer»), tomar o destino nas suas próprias mãos, tomar a palavra e ter voz, ocupar o espaço público (sem o desligar do espaço privado), transformar o quotidiano, inverter as hierarquias, viver a vida com os outro(independentemente da classe social e do sexo). E sem fazer decorrer os gestos do que se tinha lido (ou não) nos livros, sem procurar a «justeza» nas «teorias». Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 (pelo menos até 25 de Novembro de 1975), os poucos que tinham vivido o Maio de 68 «lá fora» (e regressado) e aqueles (não muitos) que se tinham entusiasmado por ele (pelas suas práticas e imagens, produtos culturais e artísticos, consequências políticas e sociais), que tinham experimentado um pouco as suas «novidades», as suas «rupturas», tiveram mais «instrumentos» disponíveis para falar, agir e construir do que aqueles que lhe tinham passado ao lado. Mesmo que não se reivindicassem «seguidores» ou «herdeiros» de Maio de 68.
Foi assim que este surpreendente país «a mexer» foi visitado por muitos «soixanthuitards» de várias nações e línguas, «turistas» numa época, em parte sua, com três tempos misturados dentro deles: saudade dum passado em que tinham sido actores, entusiasmo por um presente em que outros o estavam a ser, esperança num futuro em que gostariam de voltar a sê-lo. Houve conversas, trocas. E muitos documentários foram feitos por «esses estrangeiros».
A «participação» e a «autogestão», que pareceriam agora menos contraditórias e menos recuperáveis, foram os dois grandes «centros de interesse».

5. Se 1968 não tinha sido referência nem «lição» para grande parte dos que mudaram a vida em 74-75 – na rua e em casa, nos sindicatos e outras organizações, nas escolas, nas fábricas, nos campos, nas instituições, nas igrejas – com uma determinação, sabedoria e imaginação até ali insuspeitadas, não se pode esquecer que muita coisa tinha mudado, nos movimentos de estudantes e na oposição ao regime, entre duas grandes «crisesestudantis»: a de 1962 e a de 1969, ambas violentamente reprimidas. A luta dos estudantes de 62 foi sobretudo contra um diploma legal que restringia ainda mais a «liberdade dos estudantes» e a «autonomia universitária». Não punha em causa a «Universidade», o «Saber», a «função daEscola», o que aconteceria na luta de 69. Iniciada em Coimbra, quase um ano depois de Maio de 68, arranca
com a tentativa de o presidente da Associação dos Estudantes «tomar a palavra» numa cerimónia presidida pelo Presidente da República. O discurso dos estudantes não era admitido. Foi preciso forçar a entrada.Do «protesto» ia-se passando à «contestação». Em Coimbra, um dos grupos de 69 chamava-se, aliás, «os contestas»…
Será arriscado dizer que esta «crise» foi uma «repercussão» de Maio de 68. Mas em 69, pelo menos nas universidades, aumentou a discussão nos grupos e entre grupos, a decisão no local, as «ocupações» dos lugares, e até o humor. Mudaram assuntos, autores de referência (Gramsci, Reich, Gorz, Poulantzas…), formas de expressão e de organização, em que as «bases» contavam. Entretanto, tinha havido Praga.
Também a composição da oposição à ditadura era outra a partir de meados da década de 60, sobretudo entre osestudantes. Tinham surgido vários pequenos movimentos maoistas, trotskistas, católicos, e sem «identificação» no nome, com práticas e discursos bem distintos do até então hegemónico «centralismo democrático» do PCP. A greve da Carris de 68 (uma excepção, claro) uns anos antes também não podia ter sido a que foi: os autocarros e eléctricos circulavam, mas sem cobrar bilhetes. E se não se tratou, na campanha eleitoral de Outubro de 69, de «ser realista, pedindo o impossível», falou-se em «fazer recuar a fronteira do possível».

6. Nos primeiro anos 70 foi marcante o movimento «Todo o poder aos cursos», em oposição à pesada, controlada e controlável estrutura associativa tradicional: sistemática «crítica do saber» e da «função social da escola», ocupação com «cursos livres» das faculdades paralisadas. E houve os NEIP (Núcleos de Estudantes de Intervenção Política) que não pertenciam a qualquer partido e que iriam dar em 74 ao MES (Movimento de Esquerda Socialista).
No Sindicato dos Professores, nascido do 25 de Abril, uma corrente heterogénea punha em causa a escola e lutava pela «autonomia» e «ligação ao meio»: «Pelo poder das escolas» obteve, na Grande Lisboa, 35% de votos em 74, quando, em muitos sindicatos, o PC parecia «intocável». Corrente herdeira de «aprendizagens estudantis» pós-68, mais do que do «anarco-sindicalismo» que a ditadura e o PC tinham destruído há muito tempo.

7. Quarenta anos depois, ninguém dirá que vários governantes, deputados e destacados dirigentes partidários foram os que imaginaram e fizeram estas lutas, passadas e apagadas, e que o autor e apresentador (na televisão pública) de um programa semanal, que se diz «de História», foi o Ministro da Educação que as reprimiu em 1969.

Eduarda Dionísio é uma escritora e dramaturgista portuguesa cuja actividade passa pela escrita, pela pintura, pelo teatro, pelo ensino e pela imprensa.

La Commune, de Peter Watkins, é o filme que vai ser exibido na livraria-bar Gato Vadio no dia 15 de Jan. às 21h30 com entrada livre


“La Commune” (Paris 1871), de Peter Watkins, 2000.

"Hoje em dia, um realizador que recusa submeter-se à ideologia da cultura de massas, baseada no desprezo pelo público, que não quer adoptar uma montagem frenética composta por estruturas narrativas simplistas, de violência, de ruído, de acções incessantes — em suma, que não aceita a forma única, ou o que eu chamo de "monoforma", este realizador não pode filmar em condições decentes. É impossível".

São palavras do cineasta Peter Watkins (nascido em 1937), que apontam as dificuldades que enfrenta para realizar os seus projectos e que revelam uma crítica aos lugares-comuns e ao logro do cinema mercadoria.

La Commune, foi filmado nos estúdios de Montreuil — um subúrbio da periferia de Paris — com mais de cem actores, na maioria amadores.

Para Peter Watkins, La Commune é uma maneira de se opor à máquina embrutecedora. O filme começa com um plano-sequência, mostrando o local da filmagem após a última cena e informando que ele foi rodado durante treze dias. Os actores apresentam-se e apresentam o seu personagem.

O dispositivo de filmagem, a estética sóbria e teatral e o procedimento de narração são extremamente explícitos. Ao longo do filme o espectador é sempre remetido para a sua condição de espectador e estimulado à reflexão crítica.
"Espero," reafirma Peter Watkins, "que La Commune seja uma ferramenta de aprendizagem que ajude a dissecar e a questionar as convenções do cinema e da televisão. Assim, os textos dos cartazes, das legendas, bem como a minha determinação de não respeitar uma duração pré-estabelecida independentemente do assunto, estão lá para desafiar o mecanismo dos media audiovisuais."
Rua do rosário, 281 – Porto
telefone: 22 2026016
Clicar por cima das imagens para ampliar e ler em detalhe



A Comuna de Paris foi o primeiro governo popular de inspiração libertária da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular face à invasão do Império alemão
.

A história moderna regista algumas experiências de regimes comunais, impostos como afirmação revolucionária da autonomia face ao poder central e da prática da democracia directa. A mais importante delas - a Comuna de Paris - veio no bojo da insurreição popular de 18 de Março de 1871. Durante a guerra franco-prussiana, as províncias francesas elegeram para a Assembleia Nacional uma maioria de deputados monarquistas francamente favorável à capitulação face à Prússia. A população de Paris, no entanto, opunha-se a essa política. Thiers, elevado à chefia do Gabinete conservador, tentou esmagar os insurrectos. Estes, porém, com o apoio da Guarda Nacional, derrotaram as forças legalistas, obrigando os membros do governo a abandonar precipitadamente a capital francesa, onde o comité central da Guarda Nacional passou a exercer sua autoridade. A Comuna de Paris - considerada a primeira República Proletária da história - adoptou uma política de carácter socialista e libertário, baseada nos princípios da Primeira Internacional.

O governo revolucionário foi formado por uma federação de representantes de bairro (a guarda nacional, uma milícia formada por cidadãos comuns). Uma das suas primeiras proclamações foi a "abolição do sistema da escravidão do salário de uma vez por todas".

Foram realizadas eleições, mas obedecendo à lógica da democracia directa em todos os níveis da administração pública. Em 40 dias de governo revolucionário, a Comuna de Paris introduziu mais reformas do que todos os governos nos dois séculos anteriores:

O trabalho nocturno foi abolido;

Fábricas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas;

Residências vazias foram desapropriadas e ocupadas;

Todos os descontos sobre o salário foram abolidos;

A jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas;

Os sindicatos foram legalizados;

Instituiu-se a igualdade entre os sexos;

Projectou-se a autogestão das fábricas (mas não foi possível implantá-la);

Testamentos, adopções e a contratação de advogados se tornaram gratuitos;

O casamento tornou-se gratuito e simplificado;

A pena de morte foi abolida;

O Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado;

A educação tornou-se gratuita, secular, e obrigatória. Escolas nocturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto;

O serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos;

Os artistas passaram a auto-gerir os teatros e editoras;

O salário dos professores foi duplicado; etc…

Congresso sobre a guerrilha antifranquista galega (na Universidade da Corunha a 15,16 e 17 de Jan.): Recuperar a memória dos guerrilheiros galegos




O Congresso realiza-se na Reitoria da Universidade e está coordenado por Bernardo Máiz, Emilio Grandío e Eliseo Fernández.
Mais de vinte investigadores, entre os que se destacam Harmut Heine, Secundino Serrano, Bernardo Maiz ou Emilio Grandío irão abordar na cidade galega da Corunha entre os dias 15 e 17 de Janeiro a historia da resistência galega à ditadura franquista, especialmente a que se verificou nos anos quarenta e cinquenta: as guerrillas.

O congreso coincide com o centenário do nascimento do lendário guerrilheiro galego, Benigno Andrade García 'Foucellas', e terá lugar no Paraninfo da Universidade da Coruña, na Maestranza.
Haverá um programa cultural paralelo com Miro Casabella e A Quenlla. A iniciativa de realização do Congresso é da Comisión pola Recuperación dá Memoria Histórica da Coruña, e a assitência é aberta e gratuita a todos os interessados.

Programa

Xoves, 15 de xaneiro

19.15. Conferencia: Hartmut Heine. Visión de conxunto da guerrilla galega

21:00 Actuación de Miro Casabella. Actuación de Xosé Taboada/Eva Otero (Gaita e violonchelo).

Venres, 16 de xaneiro

10.30.
Bernardo Máiz Vázquez. A lexislación represiva ata a creación do TOP
Xosé Luis Rodríguez Pardo. Do TOP e do xuizo aos 23 de Ferrol

11.45.
Emilio Grandío Seoane. A primeira resistencia. A Coruña, 1936
Xoan Carlos Garrido Couceiro. Os do monte 1936-1939 (Os primeiros)
Xulio Prada Rodríguez. Os primeiros fuxidos ourensáns

16.30.
Bechir Yazidi. El exilio de los republicanos en África del Norte
Javier Rodríguez. La guerrilla en el nordeste de León
Alejandro Rodríguez Gutiérrez. A guerrilla no Bierzo: Manuel Girón Bazán

19.00.
Francisco Xavier Redondo Abal. As fontes documentais para o estudio da guerrilla antifranquista galega no Arquivo Histórico do PCE
Carlos Nuevo Cal. A represión contra a guerrilla na Mariña lucense

Sábado, 17 de xaneiro

10.00.
Carlos Reigosa. Vidas cruzadas, vidas paralelas
Carlos Parrado. "Curuxás": a guerrilla antifranquista na terra de Melide e a Ulloa
Fernando Vidal Collazo A guerrilla na Costa da Morte bergantiñán
Manuel Pazos. A guerrilla na bisbarra de Ordes: 1936-1952

12.15.
Eliseo Fernández Fernández. O anarquismo galego e a resistencia antifranquista: unha historia esquecida.
Uxío Breogán Diéguez Cequiel. A resistencia armada e o nacionalismo galego
Víctor Santidrián Arias. O PCE e a guerrilla

16.30 Proxección "A Illa de Chelo" (57´)

17.30 Intervención de guerrilleiros e enlaces da guerrilla

19.00 Conferencia de clausura. Secundino Serrano. A guerrilla antifranquista española: unha visión de conxunto

20.30 Actuación do grupo A QUENLLA

Debate sobre os anarquismos no Instituto Franco-Português de Lisboa (15 de Janeiro às 21h30, no âmbito dos encontros com o Le Monde Diplomatique)

Encontros com o Le Monde Diplomatique

15 de Janeiro, 21h30, no Insituto Franco-Portugais (IFP )

Debate sobre os anarquismos: «Os anarquismos (no bicentenário de Proudhon)»

Com
J.M. Carvalho Ferreira (revista Utopia),
José Neves (historiador),
Júlio Henriques (tradutor),
Miguel Serras Pereira (tradutor)
e Rui Tavares (historiador)

Lugar:
Institut Franco-Portugais
Morada: Avenida Luís Bívar, 91 / 1050-143 Lisboa
Tel: (+351) 21 311 14 00
Email:
infos@ifp-lisboa.com

Pela mão de Marx: Mercado, Estado e Sociedade Civil no Século XXI (Diálogo entre Fernando Rosas e Boaventura de Sousa Santos na F. E. de Coimbra)

Seminário
Pela mão de Marx: Mercado, Estado e Sociedade Civil no Século XXI
Diálogo entre Fernando Rosas e Boaventura de Sousa Santos


16 de Janeiro 2009, 17:00, Sala Keynes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

De Marx a Gramsci: hegemonia, memória e o regresso da política
Fernando Rosas

Para uma concepção pós-abissal do Marxismo
Boaventura de Sousa Santos



Apresentação
No século XXI, a obra de Karl Marx afirma a sua actualidade como um caminho para analisar a natureza do desenvolvimento capitalista em suas contradições e antagonismos, nos marcos da “mundialização do capital com dominação financeira”. Difunde-se a perspectiva do“renascimento de Marx”, ampliando o pensamento crítico no entendimento do actual cenário de crises e
instabilidades.

Uma questão central – imperativo histórico do nosso tempo – é a potencialidade do pensamento marxista apontar alternativas para além do capital, em delinear vias de emancipação social no mundo em que vivemos.

Neste sentido da transformação do sistema do capital, Antonio Gramsci destaca-se, no interior do marxismo, pela originalidade e amplitude de suas concepções, enriquecendo a tradição revolucionária com novos instrumentos teóricos e alternativas de acção política. A concepção de hegemonia gramsciana permite configurar a Política como campo decisivo de embates,articulando direcção ideológica e domínio como via de revolução em nosso tempo.

Este Seminário procura avançar na discussão do potencial do marxismo para responder a questões que nos desafiam no cenário contemporâneo. As instigantes análises de Boaventura de Sousa Santos e Fernando Rosas abrem amplos horizontes para o debate, delineando caminhos de investigação para vislumbrar distintos sentidos das lutas emancipatórias. É um momento singular de avanço na construção do pensamento crítico pela”mão de Marx”, a trilhar caminhos abertos pelo diálogo entre dois pensadores que, acima de tudo, assumem o desafio do nosso tempo histórico da (Re)invenção da Emancipação Social

Notas biográficas
Fernando Rosas, historiador português, é doutorado em História Económica e Social Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1990). É professor catedrático e presidente do Instituto de História Contemporânea (IHC) da mesma universidade. Recentemente, coordenou o Congresso Internacional de Karl Marx, promovido pelo IHC, assinalando os 150 anos dos “Grundrisse”. Ao longo de sua trajectória académica, seu interesse, enquanto investigador, voltou-se para a História do Estado Novo e é, hoje, unanimemente considerado um dos maiores especialistas portugueses neste período histórico. Fernando Rosas é, actualmente Deputado, pelo Bloco de Esquerda, da Assembleia – Geral da República Portuguesa, integrando a Comissão de Defesa Nacional e Negócios Estrangeiros.

Boaventura de Sousa Santos, Doutorado pela Universidade de Yale (JSD, 1973), é Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É Director do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. Temas de pesquisa: Epistemologia, sociologia do direito, teoria pós-colonial, democracia, interculturalidade, globalização, movimentos sociais, direitos humanos. Os seus livros têm sido publicados em português, inglês, italiano, espanhol, alemão e francês. www.boaventuradesousasantos.pt

Cartazes de 68 na Alemanha: política, pop e afri-cola ( exposição de cartazes no Goethe Institut de Lisboa)


A exposição “Política, Pop e Afri-Cola – Cartazes de 68 na Alemanha”, produzida pelo Deutsches Plakatmuseum (Museu Alemão do Cartaz), abrange, na versão itinerante do Goethe-Institut, uma escolha de 28 cartazes subordinados a três temas: Política e Sociedade, Arte e Cultura e Música.

Tal como noutras épocas, também em 1968 o cartaz foi utilizado para expor publicamente reivindicações políticas. A geração de 68 soube fazê-lo com imensa graça e fantasia, também porque a oposição não parlamentar não dispunha de praticamente nenhuns outros meios de comunicação social. O aspecto inovador consistiu no facto de que nas contra-culturas juvenis, que se desenvolveram a partir do movimento de protesto, os cartazes se transformaram em superfícies de projecção para convicções comuns.

Quarenta anos decorridos, a publicação de livros e edições especiais de revistas evocou os acontecimentos, tendo o aniversário merecido também a atenção da rádio e da televisão. O mais tardar desde a década de 80, o ano de 1968 é considerado como um ponto de viragem na História alemã do pós-guerra. 1968 modificou profundamente a compreensão dos sexos, provocando a dissolução das estruturas familiares tradicionais, bem como a democratização de vastos sectores da sociedade. Os movimentos contra a energia nuclear e de solidariedade para com o Terceiro Mundo, bem como o movimento ambientalista, têm aí o seu secreto ponto de partida.

Entretanto, a maioria dos autores dos artigos e contributos sobre o tema pertence a uma geração mais nova, que já não chegou a viver esse tempo. Esta geração observa os acontecimentos a partir de uma distância histórica, assumindo, em parte, uma atitude crítica em relação às transformações então despoletadas. 1968 começa a tornar-se História. É nesse contexto que exposições que confrontam o visitante com imagens autênticas da época podem contribuir para o aprofundar da discussão, oferecendo àqueles que lá não estiveram um sempre útil ponto de apoio.



«Tudo começou com os anúncios psicadélicos dos hippies, e de repente o cartaz tornou-se uma finalidade em si. Actualmente, nos EUA são comprados 1 milhão de cartazes por mês. Na Europa já se fazemsentir os sintomas da febre dos posters. Os mais conhecidos desenhadores de artes gráficas e artistas independentes estão, todos eles, a ser arrastados por essa vaga de fundo»1.

Quem escreveu isto foi o jornalista suíço Manuel Gasser na Primavera de 1968. Gasser refere uma função completamente nova dos cartazes. «Ao cobrirem-se completamente as paredes de um quarto (ou de todo um apartamento) com cartazes, o que se pretende é criar um clima artístico global, um ambiente capaz de expressar, de uma forma espontânea e imediata, a orientação intelectual da pessoa que ali vive».

Toda a chamada Geração de 68 foi apanhada pela febre dos cartazes. Trata-se portanto de jovens que em 1968 tinham entre 16 e 29 anos. Toda essa geração, com os estudantes à cabeça, tinha começado por se revoltar contra os pais e professores. Não tardou muito porém que os jovens reivindicassem direitos de co-gestão nas universidades e nas empresas e começassem a denunciar as estruturas autoritárias na economia e na sociedade. A crescente politização do protesto juvenil culminou na exigência de um novo e radical questionamento do passado
nacional-socialista. Mas nem só os estudantes exigiram insistentemente o fim da guerra do Vietname.

Tal como noutras épocas, também em 1968 o cartaz foi utilizado para expor publicamente reivindicações políticas. A geração de 68 soube fazê-lo com imensa graça e fantasia, também porque a oposição não parlamentar não dispunha de praticamente nenhuns outros meios de comunicação social. O aspecto inovador consistiu no facto de que nas contraculturas juvenis, que se desenvolveram a partir do movimento de protesto, os cartazes se transformaram em superfícies de projecção para convicções comuns.

Aquilo a que Gasser chamou a “febre dos cartazes” da Geração de 68 foi, na realidade, um fenómeno que se desenvolveu lentamente e ao longo de vários anos. Por outro lado, todos os conteúdos abordados no contexto da criação de cartazes durante a década de 60 tiveram consequências e repercussões que ultrapassam largamente a data concreta de 1968. O mesmo aliás é válido para os acontecimentos políticos desse ano. Assim, no âmbito dos processos globais de transformação da sociedade que estão na sua origem, a sociologia fala dos «longos Anos 60», referindo-se ao período que dista entre 1958 e 1970. Na História política, pelo contrário, aponta-se, e com razão, para o 2 de Junho de 1967, a data da morte do estudante Benno Ohnesorg, em Berlim, como tendo constituído o início de uma nova fase na confrontação política no pós-guerra. Contudo, parece-nos correcto utilizar o ano de 1968 como cifra sempre que queremos falar das transformações políticas e sociais dos Anos 60. Esse ano marcou sem dúvida um ponto alto, até porque foi então que a dimensão global do fenómeno se tornou visível para todos2. Os protestos estudantis não ocorreram apenas na Alemanha ocidental, mas em muitas metrópoles espalhadas por todo o mundo. Na cidade do México, dez dias antes de começarem os Jogos Olímpicos do Verão, foram mortos, durante manifestações, mais de 500 estudantes pelos soldados governamentais, enquanto em Praga as tropas do Pacto de Varsóvia puseram fim à chamada “Primavera de Praga”. Acontecimentos como o assassínio do militante pelos direitos cívicos Martin Luther King ou o atentado que vitimou o candidato à presidência Robert Kennedy fazem realçar esse ano no contexto dosdesenvolvimentos globais. Em Maio de 1968 Paris foi agitada por uma gravíssima revolta estudantil e uma greve geral dos trabalhadores solidários paralisou o país durante semanas a fio. Por essa altura as ruas de Paris foram inundadas por centenas de cartazes provenientes do Atelier Populaire, fundado em Maio de 68 por trabalhadores, estudantes e artistas
na Academia das Artes da Sorbonne.

Mas 1968 foi também o ano da mudança. Em França os protestos acalmaram finalmente, depois do governo sob o presidente de Gaulle ter mandado evacuar as universidades e fábricas ocupadas e dos gaullistas terem ganho as eleições para o parlamento em finais de Junho. Na Alemanha Ocidental, por sua vez, o final dos protestos espontâneos de massas começou a adivinhar-se logo após a votação pelo Bundestag das leis de emergência, a 30 de Maio, com uma consequente fragmentação da esquerda política em partidos de quadros. Em Abril de 68, dois incêndios provocados em centros comerciais deram a entender que o protesto contra um Estado considerado totalitário tinha entrado numa nova fase, que anos mais tarde iria culminar no terrorismo de uma minoria.

Quarenta anos decorridos, a publicação de livros e edições especiais de revistas evocou os acontecimentos, tendo o aniversário merecido também a atenção da rádio e da televisão. O mais tardar desde a década de 80, o ano de 1968 é considerado como um ponto de viragem na História alemã do pós-guerra. 1968 modificou profundamente a compreensão dos sexos, provocando a dissolução das estruturas familiares tradicionais, bem como a democratização de vastos sectores da sociedade. Os movimentos contra a energia nuclear e de solidariedade para com o Terceiro Mundo, bem como o movimento ambientalista, têm aí o seu secreto ponto de partida.

Entretanto, a maioria dos autores dos artigos e contributos sobre o tema pertence a uma geração mais nova, que já não chegou a viver esse tempo. Esta geração observa os acontecimentos a partir de uma distância histórica, assumindo, em parte, uma atitude crítica em relação às transformações então despoletadas. 1968 começa a tornar-se História. É nesse contexto que exposições que confrontam o visitante com imagens autênticas da época podem contribuir para o aprofundar da discussão, oferecendo àqueles que lá não estiveram um sempre útil ponto de apoio.
Notas:
1 Graphis Jg. 24 (1968), Revista 135, pág.52
2 W. Kraushaar, Die transatlantische Protestkultur, em : “1968 al Mythos, Chiffre und Zäsur”, Hamburgo 2000,
pág. 53-80.
1968. Das Jahr, das die Welt veränderte, Köln 2005

Produzida pelo Deutsches Plakatmuseum (Museu Alemão do Cartaz), a exposição abrange, na versão itinerante do Goethe-Institut, uma escolha de 28 cartazes subordinados a três temas: Política e Sociedade, Arte e Cultura e Música



Política, Pop e Afri-Cola
Cartazes de 68 na Alemanha
Exposição
01.12.2008 - 31.03.2009
Goethe-Institut em Lisboa
Entrada livre
+351 2188245-10
info@lissabon.goethe.org
Retirado de:

Mulheres em cena na cibercultura: a escrita dos blogs e as reconfigurações das (inter)subjectividades( seminário no CES, dia 13 de Jan. às 17h.30)

Seminário do Núcleo de Estudos Culturais Comparados no CES ( Centro dos Estudos Sociais) em Coimbra:

Mulheres em cena na cibercultura: a escrita dos blogs e as reconfigurações das (inter)subjectividades

Por Marilda Ionta

13 de Janeiro de 2009, 17:30, Sala de Seminários do CES

Apresentação
Este seminário busca problematizar e traçar alguns eixos de reflexão sobre a amizade e a subjetividade na atualidade a partir de um espaço interativo e um tipo peculiar de escritura que emerge com a expansão da cultura digital – os weblogs. Essa modalidade de comunicação das chamadas "sociedade de controle" tem ocasionado mudanças nas experiências de amizade e na noção de interioridade, privacidade e intimidade. Entretanto, as relações intersubjetivas mediadas pelas novas tecnologias parecem não alterar a política de amizade da modernidade centradas na igualdade, semelhança e proximidade. Essa política foi denunciada pelos filósofos da diferença como portadora do germe que suprime a alteridade, o conflito e as multiplicidades em benefício do consenso e da fusão inoculando reações identitárias xenófobas.

Nota biográfica
Marilda Inota é professora de História da Universidade Federal de Viçosa. Membro do núcleo de Estudo de Género da UFV e do grupo de pesquisa da Universidade Estadual de Campinas em Género, Sexualidade e Subjectividade na Antiguidade e na Pós-Modernidade

A construção do género e as ciências sociais (comunicação de Maria do Mar Pereira no CES, em Coimbra, dia 14 de Jan. às 17h.)

14 de Janeiro de 2009, 17:00, Sala de Seminários do CES (Centro de Estudos Sociais) em Coimbra

Estudando género, fazendo género: as ciências sociais e a construção do género enquanto objecto de investigação e fenómeno social

Resumo:
Nesta comunicação partirei das observações de uma etnografia com jovens numa escola em Lisboa para formular um conjunto de questões sobre a conceptualização do género nas ciências sociais em Portugal. De que formas, e com base em que pressupostos, construímos o género como objecto de estudo? Como é que esses pressupostos modelam as nossas observações e conclusões?
Argumentarei que os diferentes recursos teóricos, analíticos e metodológicos que usamos para pensar o género não são instrumentos neutros – são narrativas com características específicas que constroem o género de forma particular, não só enquanto objecto mas também como fenómeno social. Salientarei a necessidade de assumir uma postura reflexiva face aos modos como nas ciências sociais se “faz” género, de forma a evitar que a nossa investigação reforce e legitime inadvertidamente os dualismos, essencialismos e determinismos que deve ser seu objectivo problematizar.

Nota biográfica: Maria do Mar Pereira está a preparar um doutoramento no Gender Institute da London School of Economics (LSE), com uma tese sobre a institucionalização dos Estudos sobre as Mulheres, Estudos de Género, Estudos Feministas em Portugal. É licenciada em Sociologia pelo ISCTE. Tem realizado investigação sobre a negociação do género entre jovens, narrativas sobre masculinidade e paternidade, e representações de género nos média, e produziu várias publicações e comunicações sobre estes temas. É docente no curso "Practising Interdisciplinarity in European Gender Studies", uma parceria de seis universidades europeias, e mantém uma participação activa em movimentos feministas a nível local e internacional

Ciclo Cultural de Conferências Musicais sobre o romantismo portuense

A Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP) acolhe, no Salão Nobre, de 16 de Janeiro a 19 de Junho de 2009, um ciclo cultural de Conferências Musicais do "Romantismo Portuense" organizado conjuntamente com a Universidade do Porto e a Juventude Musical Portuguesa do Porto.
Sendo cada qual dedicada aos respectivos músicos, vistos no seu tempo e ambiente, e profusamente ilustrada pela execução de obras, sejam para canto ou variado instrumental, de sua composição.

A Música no Porto Romântico é um projecto que pretende valorizar a música na cidade do Porto numa das épocas áureas da actividade musical da cidade (Sociedade de concertos, Orpheon Portuense, Teatro Bacquet, Teatro São João, etc.) e simultaneamente das menos conhecidas
Pretende-se promover junto do grande público a contextualização espaço artístico-cultural, social e histórico do Romantismo Portuense.


Ciclo de conferências musicais:

. 16 de Janeiro - Visita à família Ribas

. 13 de Fevereiro - Visita à família Arroyo

. 13 de Março - Visita ao casal Dubini e filhos

. 17 de Abril - Visita aos irmãos Napoleão e a seus pais

. 22 de Maio - Visita a Miguel Ângelo Pereira e família

.19 de Junho - Visita a Cyriaco de Cardoso e a seu Pai

A primeira conferência do Ciclo intitulada: "Visita à família Ribas" terá lugar no próximo dia 16 de Janeiro, pelas 21h30. Com os seguintes conferencista e intérpretes:

João-Heitor Rigaud, conferencista
Jorge Salgado Correia, flauta
Afonso Fesch e Lourenço Macedo Sampaio, violino
Mário Carreira, guitarra
Rosgard Lingardsson e Cândido Fernandes, piano


Preço do Bilhete:
. Estudantes: 3€
. Público em geral: 5€

10.1.09

Uma tradição revolucionária e filosófica (texto de Daniel Colson no dossier sobre o anarquismo na edição francesa de Janeiro do Le Monde Diplomatique)




Tradução para português do texto de Daniel Colson, que faz parte do dossier sobre o anarquismo, incluído na edição de Janeiro de 2009 do jornal Le Monde Diplomatique, mas que não surge na edição em papel, só estando acessível no website daquele jornal francês



Durante muito tempo a ligação entre filosofia e o anarquismo pareceu desfeita. Dizia-se que o anarquismo tinha desaparecido de cena após o desastre da guerra civil espanhola. Além disso, e ao contrário do marxismo, o pensamento libertário nunca teria construído uma filosofia digna desse nome – donde o desinteresse pelos filósofos e, por consequência, pelas instâncias académicas.

O anarquismo nasce em meados do século XIX, em simultâneo com o marxismo, e a partir de preocupações similares – a questão social e os movimentos operários – mas seguindo modalidades práticas e teóricas claramente distintas. A sua gestação releva de dois processos diferentes. Há, desde logo, uma perspectiva teórica e política que lhe confere o seu principal conceito: a anarquia, considerada como um valor positivo, simultaneamente para dar conta da realidade do mundo e, de forma aparentemente surpreendente, para dizer ao mundo, a viver sob o signo da dominação e da exploração do homem pelo homem, que se pode emancipar, afirmar a liberdade e a igualdade de todos, e que Pierre-Joseph Proudhon chama de anarquia positiva. A originalidade deste nascimento liga-se à circunstância de que não depende de um único teórico, contrariamente ao que se passa com o marxismo, mas de diversas e múltiplas posições e autores, eles próprios, muito diferentes entre os seus pontos de vista, que se lêem entre si, e que se reconhecem mutuamente, mas sem haver concertação nem a constituição de um grupo, nem ainda a sua subordinação à autoridade ou à influência de um deles.

De todos eles, Proudhon é, sem dúvida, o mais conhecido. Foi ele que, pela primeira vez em 1840, na sua obra «O que é a propriedade?» se refere positiva e teoricamente de forma determinante à ideia de anarquia. Deve-se também a ele a produção da obra mais consequente. Ao lado dele, é necessário igualmente citar Max Stirner, cuja obra O Único e a sua Propriedade ( de 1845) se tornará uma das referências posteriores do anarquismo que estava em vias de nascer. Outros nomes foram o médico Ernest Coeurderoy ( 1825-1862), o pintor Joseph Déjacque (1822-1864), e com certeza, Mikhail Aleksandrovitch Bakounine (1814-1876), um antigo e atípico hegeliano de esquerda que, em poucos anos, não somente contribuiu de forma determinante para o desenvolvimento do pensamento libertário, em oposição ao marxismo, como para o nascimento do anarquismo operário.

O segundo berço do anarquismo, do ponto de vista da filosofia, encontra-se paradoxalmente aonde ninguém pensaria: nas práticas operárias e revolucionárias que, sob formas muito diversas, e durante pouco mais de meio século, da I Internacional ao esmagamento da revolução espanhola em Maio de 1937, emergiram na maior parte dos países em vias de industrialização, em França, em Espanha, na Itália, mas também na Rússia, nos Países Baixos, nos Estados Unidos, Brasil e Argentina.

Dos operários relojoeiros da Federação jurassiana à poderosa Confederação Nacional do Trabalho (CNT) espanhola, com permanentes renascimentos, apesar de esporádicos e de curta duração em razão da sua radicalidade, o certo é que estes movimentos permanecem pouco conhecidos. Acabaram todos por desaparecer, no momento em que mais se desenvolviam, por efeito dos golpes sucessivos resultantes da I Grande Guerra Mundial, da violenta reacção dos diversos fascismos e de outros regimes militaristas que se impuseram um pouco por todo o mundo ao longo dos anos de 1920-1930, e finamente devido ainda à versão do «comunismo» que emergiu à sombra da ditadura estatal na Rússia.


Foi preciso esperar pelos acontecimentos de Maio de 68 e, de um modo mais geral, no último quartel do século XX para que o projecto e o pensamento libertário renascessem das cinzas. E também aí por efeito de um duplo impulso. Por um lado, pelos movimentos e os modos de reivindicação e acção ( autogestão, assembleias gerais, lutas anti-autoritárias) que ao longo desses anos marcaram numerosos países; e por outro, no plano filosófico, por efeito de uma constelação de abordagens teóricas originais e diversificadas, desde Jean Braudillard a Gilles Deleuze, passando por Michel Foucault, Jacques Derrida, Fénix Guattari e outros.

Por via daquilo que se poderia definir como um Nietzscheismo de esquerda assiste-se ao aparecimento de um pensamento emancipador que foi capaz de vacilar cinquenta anos da hegemonia marxista à esquerda. Foi assim possível dar um sentido ao anarquismo, mostrar a sua dimensão teórica – através de um imenso corpus de textos, opúsculos, tratados, muitos deles inéditos e heteróclitos, de difícil acessibilidade e, em parte, dados por perdidos ( Bakounine) - bem como, e de modo surpreendente, graças a um conjunto de movimentos e de experimentações libertárias, em especial de natureza operária, cuja importância só lentamente se começa a entender. Esta convergência entre mobilizações operárias e um nietzscheismo de esquerda, e foi justamente denunciado pelos seus inimigos sob o termo de «pensamento 68», apresenta 3 características singulares:

Em primeiro lugar ,a separação, a autonomia e a distinção. Ou seja, a capacidade dos oprimidos em tornarem-se senhores, no seu «próprio senhor», como dizem os sindicalistas libertários, baseando-se em si próprios e nos seus movimentos para fazer mudar o mundo. Num livro póstumo, De la capacite politique des classes ouvrières ( então lido e relido pelos militantes operários), e em termos eminentemente nitzscheanos, Proudhon explica: «A separação que eu recomendo é a própria condição de vida. Distinguir-se, definir-se é ser; da mesma forma que confundir-se, deixar-se absorver, é perder-se. Que a classe operária não se esqueça que é necessário, acima de tudo, sair da tutela, que actue de hoje em diante e exclusivamente por ela e para ela própria» (« La séparation que je recommande est la condition même de la vie. Se distinguer, se définir, c’est être ; de même que se confondre et s’absorber, c’est se perdre. Que la classe ouvrière se le tienne pour dit : il faut avant tout qu’elle sorte de tutelle et qu’elle agisse désormais exclusivement par elle-même et pour elle-même )

Na sua luta pela emancipação os diferentes movimentos do anarquismo operário consideram efectivamente que nada têm a pedir pois o que pretendem é «ser tudo» ( como dizem as palavras da Internacional). Buscam algo de inteiramente novo e que ninguém lhes pode dar pois só eles a podem fazer nascer.

O segundo ponto de convergência entre o nietzscheismo de esquerda e o anarquismo operário está no federalismo e no pluralismo. É conhecida a concepção nietzscheana da vontade de poder, concebida sob a forma de uma pluralidade de pulsões, de forças e desejos. Conhece-se menos a maneira original como os diferentes movimentos operários deram corpo ao conceito de «força colectiva» de Proudhon, esse composto de potencialidade, resultante de conflitos e da associação de uma multidão de tendências diferentes e contraditórias.

À vontade de poder de Nietzsche, concebida sob a forma de «complexo de forças em vias de se unir e desunir, de associar-se e dissociar-se», como escreve Michel Haar, respondem assim, um pouco por todo o mundo, e durante mais de meio século, a tensão, o equilíbrio e a multiplicidade de práticas e de modos de organização baseados no federalismo, na livre associação, na afinidade, no contrato sempre revogável. Mas também na intensa e movimentada vida dos processos de massa, em que cada ser – indivíduo, grupo, sindicato, comuna, união ou federação …- disponha de completa autonomia, e da possibilidade de operar uma secessão.

A estas duas primeiras convergências, para além dos tempos e dos mares, entre o anarquismo prático e o pensamento de Nietzsche, mas também de Gottfried Wilhelm Leibniz, de Baruch Spinoza, d’Alfred North Whitehead e de muitos outros, podemos acrescentar um terceiro encontro, porventura o mais importante: a acção directa e a rejeição pela representação. Para o anarquismo, tal como para Nietzsche, por exemplo, é preciso ir para além das mentiras e dos enganos da representação política ou social que os movimentos libertários incansavelmente denunciaram, e cuja armadilha e ingenuidade Pierre Bourdieu analisou.

Como Nietzche e com Bourdieu o anarquismo pretende ir à raiz da dominação e desvendar os mecanismos da representação simbólica e da linguagem. Lá onde Deus, a ciência e os discursos enviesados pretendem confundirem-se com o Estado, esse «cão hipócrita», como denuncia Nietzsche, «que gosta de discorrer para fazer crer que a sua voz sai do ventre das coisas». Lá onde, como nos explica Victor Grifuelhes, um dos responsáveis da CGT francesa, anterior a 1914, «a confiança no Deus do padre, e a confiança no poder dos políticos, o sindicalismo substitui pela confiança em si, na acção directa»

Exprimindo as suas potencialidades revolucionárias no contexto particular dos anos de 1960 e 1970, o pensamento de Maio de 68 não se contenta a dar sentido a esse anarquismo passado, que lhe fornece as razões da sua própria radicalidade. Ele vais mais longe na medida em ajuda a inscrevê-lo numa tradição filosófica muito mais vasta, oculta nas estruturas da ordem real ou imperial. Como Nietzsche alguns anos mais tarde, o anarquismo nasceu algures na Europa. Tal como ele que se surpreende ao «escrever tão bons livros» e encontrar as suas ideias em Leibniz e Spinoza, a ideia anarquista pode por seu turno dar sentido ao conjunto da história humana, dos escravos revoltados de Spartacus aos ismaelitas reformadores do século XII persa, dos «turbantes amarelos do taoísmo chinês do século II a.C. aos hussitas checos do século XV.

O anarquismo não é uma filosofia, nem um programa político, ou até um modelo de funcionamento social e económico. Através das suas múltiplas faces, e da sua forma de ecoar, o que o constitui, algures, antigamente, e no interior de uma multitude de práticas diferentes, o projecto libertário afirma-se como uma relação ao mundo que difere radicalmente das práticas , dos códigos, das percepções e das representações existentes. Substitui-las a favor de uma recomposição da totalidade daquilo que são, enquanto vida quotidiana, as práticas políticas e sociais, as criações artísticas, a ética e o exercício do pensamento, que mais não são que ocasiões para exprimir e repetir cada qual a ideia que as liga todas entre si.

Número de Janeiro da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique já está nas bancas‏



Editorial
O dinheiro
por Serge Halimi

Na altura em que a questão do «regresso ao Estado» está a ser levantada quase por toda a parte, como podemos nós deixar de perguntar nos que interesses ele serve? A corrupção política também assume formas que a lei não sanciona.

Há um ano, em Janeiro de 2008, o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair foi recrutado pelo banco norte-americano JPMorgan Chase como conselheiro a tempo parcial. Um tempo parcial correctamente remunerado: 1 milhão de libras esterlinas por ano (1,06 milhões de euros). Acaso podemos imaginar que a JPMorgan teria concedido semelhante sinecura a Tony Blair se este, quando residia no n.º 10 da Downing Street, tivesse tomado medidas execradas pelos bancos para, por exemplo, evitar um colapso financeiro? E terá sido por mero acaso que Gerhard Schröder se tornou, em Março de 2006, por 250 000 euros anuais, conselheiro de uma empresa de oleodutos, filial da Gazprom, por ele próprio apadrinhada no tempo em que foi chanceler da Alemanha? Um dos seus camaradas sociais-democratas declarou nessa altura, mordaz: «Não posso deixar de considerar um pouco indigno que um estadista se mostre tão obcecado pelo dinheiro».

É agora a vez de George W. Bush preparar a sua próxima carreira. Já fazemos uma pequena ideia do que ela será: «Farei alguns discursos, só para encher os meus velhos cofres. Não sei quanto pede o meu pai – é entre 50 000 a 75 000 [dólares por «conferência»] –, e Clinton também ganha muito dinheiro» [1]. A tal ponto que o antigo presidente democrata vai ter que apresentar a uma comissão de ética do Departamento de Estado a lista de quem lhe paga os discursos. Desse modo, ninguém poderá suspeitar que Hillary Clinton dirija a política externa dos Estados Unidos para enriquecer sub repticiamente os clientes do marido…

Em Julho passado, o semanário Le Point, cuja especialidade não consiste em hostilizar Nicolas Sarkozy, deu a público algumas das mais garridas declarações do presidente francês, que terá detalhado os seus projectos da seguinte maneira: «Portanto, eu, que em 2012 estarei com 57 anos, não volto a candidatar-me. E quando vejo os muitos milhões que o Clinton arrecada, eu cá vou encher os bolsos! Faço isto agora durante cinco anos e depois ponho-me a fazer massa como o Clinton. Cento e cinquenta mil euros por conferência!» [2]. Após a jogada da presidência, a jogada das conferências.

Vender conselhos, ganhar dinheiro a fazer discursos, sim senhor. Mas o estadista também pode tornar-se patrão de uma grande empresa. Ter sido ministro das Finanças não é a pior maneira de lá chegar. E de mamar, depois, no seio da «mãe-Estado», quando ela sacia, com dinheiros públicos, os bancos privados em falência. Robert Rubin, influente conselheiro económico de Barack Obama, bem o sabe, por ter passado da presidência do banco Goldman Sachs para o Ministério das Finanças, e, posteriormente, do Ministério das Finanças para a direcção do Citigroup.

Thierry Breton, ministro francês da Economia, Finanças e Indústria entre 2005 e 2007, fez quanto pôde para que a fiscalidade sobre os altos rendimentos passasse a ser mais «atractiva». As vantagens dessa iniciativa foram depois por ele directamente apreciadas, visto que, sendo agora presidente da empresa de serviços informáticos Atos, após um ano ao serviço do banco Rothschild, – onde encontrou Gerhard Schröder… – o ex-ministro vai auferir, segundo ele próprio confessou, «um salário anual fixo de 1,2 milhões de euros, podendo uma parte variável ir até 120 por cento do fixo em função de objectivos atingidos, cujo valor máximo, no entanto, eu desejei que ficasse nos 100 por cento. A isso acrescenta-se a atribuição de 233 000 stock-options no fim de 2009, no fim de 2010 e no fim de 2011». Sublinhando Thierry Breton: «No caso de as minhas funções cessarem, pedi para não beneficiar de qualquer pára-quedas dourado» [3]. A crise impõe sacrifícios a todos.

Quando o poder constitui, ora a etapa necessária de uma carreira lucrativa no mundo dos negócios, ora o refúgio de homens de dinheiro à procura de um segundo fôlego, será razoável continuar a esperar que os principais responsáveis pela crise assumam a parte que lhes cabe na resolução dos danos causados?


Notas
[1] Jim Rutenberg, «In Book, Bush Peeks Ahead to His Legacy», The New York Times, 2 de Setembro de 2007.
[2] «Sarko off», Le Point, Paris, 3 de Julho de 2008. Segundo um jornalista do diário Le Monde, Sarkozy tinha anunciado três anos antes: «Posso exercer como advogado, posso ganhar dinheiro. (…) Primeiro exerço como presidente, depois como advogado» (Philippe Ridet, Le Président et moi, Albin Michel, Paris, 2008, p. 149).
[3] Les Echos, Paris, 16 de Dezembro de 2008.


O medo e a esperança, por Sandra Monteiro

[...] Se há algo que a actual crise económica e financeira desmascara é o fracasso do neoliberalismo como garante de liberdade de escolha para os cidadãos. A opção por uma vida em paz, com uma saúde equilibrada, uma alimentação adequada, uma habitação digna, uma educação de qualidade, um emprego que seja fonte de realização pessoal e com condições que permitam planear férias, ter filhos ou até adoecer, para não falar da protecção aos mais idosos, não é efectivamente uma opção que possa ser hoje levada à prática por grande parte da humanidade. [...] >>>>


Dossiê «A esquerda e o poder»

Esquerda plural e clareza das alternativas, por André Freire
[...] Em Portugal, quando se fala de cooperação entre as esquerdas, geralmente as várias forças acusam se mutuamente. Para justificarem a quase impossibilidade de entendimentos, os socialistas acusam as forças à sua esquerda de sectarismo e de fazerem do PS o seu principal adversário. Por seu lado, também para justificarem a quase impossibilidade de entendimentos, os bloquistas (e os comunistas) acusam o PS de executar políticas de direita e daí o obstáculo quase intransponível para se firmarem acordos. [...]

Diz-me como o exerces..., por António Abreu
[...] O exercício do poder e a relação com o ser se de esquerda ocorre também noutras instâncias que não apenas nos órgãos de poder político. Exerce se nos partidos, nas associações e noutras situações, por eleição dos membros que os constituem, com mandato outorgado, de forma mais ou menos explícita e por um determinado período. Para já não falar nas empresas e outros organismos públicos. Também nestas circunstâncias não é indiferente ser se ou não «de esquerda» quer pelo programa de acção adoptado quer pelo estilo do desempenho. [...]

Poder fazer, fazer o poder, por Daniel Oliveira
[...] É hoje evidente que é nas políticas económicas e sociais de Estado que a esquerda está obrigada a assentar as suas alternativas. O anti estatismo militante, nas condições actuais, seria um aliado natural do Estado mínimo neoliberal. Seria um erro histórico. E se é no Estado e nas estruturas transnacionais de Estados que pode estar a resposta deste momento, é na participação no poder de Estado democrático que a esquerda pode operar importantes transformações que invertam o acumular de derrotas das últimas três décadas. [...]

Alguns lugares-comuns sobre o poder, por José Neves
[...] O início de 2009 encontra nos diante de uma bifurcação. Mas esta bifurcação não é entre dizer sim ou não a uma formulação genérica de «poder» que simplesmente esconde a redução da política ao Estado. A questão não é saber se nos sujamos com o poder, mas sim como fazemos política e com que poder é que nos sujamos.


Outros artigos

A crise e o futuro, por João Ferreira do Amaral
Foi o economista americano Irving Fisher que num artigo de 1933 afirmou que as depressões económicas começavam com um sobre endividamento e prosseguiam com uma deflação. Talvez seja exagero a generalização. Mas podemos certamente dizer que os problemas de crédito desencadearam a actual crise. [...]
Sobre este tema, leia no sítio Internet do jornal, inédito e em acesso livre, o artigo de Gerald Epstein,
«A crise financeira global: evitar uma Grande Depressão e parar o actual Ciclo Destrutivo».

Ligações perigosas na Ásia Meridional, por Graham Usher
Na Azad Caxemira – parte da Caxemira ocupada pelo Paquistão –, as forças de segurança encerraram desde 7 de Dezembro de 2008 um campo de treino ligado ao grupo islamita paquistanês Lashkar e Taiba (LeT). O governo paquistanês interditou também a Jamaat ud Dawa (JuD), a «fundação caritativa» do LeT que as Nações Unidas colocaram na lista das organizações terroristas. Foram encerradas cem instalações e detidos cinquenta dirigentes, entre os quais os comandantes do grupo islamita, Zaki ur Rehman Lakhvi e Zarrar Shah, e ainda Hafiz Saeed, fundador deste movimento e «emir» da JuD. [...]

Mergulho no coração da Índia muçulmana, por Wendy Kristianasen
Surpresa em Nova Deli: pouco mais de uma semana após os atentados de Bombaim, o Partido do Congresso, que chefia a coligação governamental, reforçou se em três dos cinco estados onde estavam a decorrer eleições parciais, entre os quais o da capital. Foi uma vitória com que ninguém contava, de tal modo este partido parecia ter ficado gasto por quatro anos de poder, fragilizado pela crise económica e financeira e desacreditado pelos sangrentos acontecimentos de Novembro. [...]

Está Obama prisioneiro dos «falcões» no Iraque?, por Gareth Porter
[...] A narrativa da forma como Obama veio a perder todo o controlo efectivo sobre a política iraquiana constitui uma lição magistral sobre a natureza do poder no que diz respeito a um dossiê sensível para o Estado maior militar e para os seus aliados civis. Está feita a demonstração da fragilidade do sistema democrático de Defesa face à influência dominante dos militares americanos e dos seus aliados, quando eles estão unidos e determinados a impor os seus pontos de vista.

«Aos bancos, dão dinheiro... aos jovens, dão balas», por Valia Kaimaki
[...] A revolta teve origem em múltiplos factores, dentre os quais a repressão policial constituiu apenas o mais evidente; Alexis não foi, aliás, a primeira vítima da polícia, foi a mais jovem. O fértil húmus da sublevação residiu, obviamente, na crise económica, que atingiu duramente a Grécia antes mesmo de a tempestade mundial ter feito sentir os seus efeitos. Mas à crise económica juntou se uma crise política profunda, ao mesmo tempo sistémica e moral. Provocada pela falta de transparência na acção dos partidos e dirigentes políticos, esta última teve como resultado a falta de confiança em todas as instituições estatais. [...]

Em Chicago, a luta sindical compensou, por Peter Dreier
[...] Calmamente, os operários organizaram a ocupação. Instituíram comités encarregados da limpeza das instalações e da manutenção da segurança, a fim de prevenirem qualquer acidente. Um cartaz afixado na cafetaria recordava que o álcool, a droga e os cigarros estavam proibidos. Instalados na fábrica em que alguns deles trabalhavam há dezenas de anos, os operários exigiram que o Bank of America e a direcção da Republic Windows encontrassem uma solução, pois enquanto não lhes fosse assegurado o pagamento das indemnizações e as férias pagas, eles não sairiam dali. Alguns começaram até a falar de uma possível recuperação da fábrica em regime de autogestão. [...]

Cuba à procura de um modelo socialista renovado, por Janette Habel
[...] Não se sabe se a geração histórica que ocupa ainda os postos chave pode reformar o que ela mesma construiu ou se, amedrontada com as mudanças, vai tomar o partido do imobilismo. De facto, a direcção actual não é mais jovem que a precedente: ela é mesmo… mais velha. Alguns pensam que são precisos novos actores para que as transformações sejam credíveis. Entre aqueles para quem o tempo está contado e aqueles para quem o tempo urge, a história ainda não fez a sua escolha.

Dossiê «Os anarquistas»

Denominações de origem pouco controladas, por Jean-Pierre Garnier
Durante muito tempo, as palavras «anarquista» e «libertário» foram indissociáveis para os militantes, inseridos ou não em organizações epónimas, que as reivindicavam para definir o seu posicionamento no campo político ou, mais exactamente, fora dele e em ruptura com ele sempre que esse posicionamento pudesse confundir se com o panorama politiqueiro. [...]

O infrequentável Pierre-Joseph Proudhon, por Edward Castleton
[...] Nos seus últimos escritos, antes de morrer em 19 de Janeiro de 1865, Proudhon chegou mesmo a denunciar a inutilidade das candidaturas proletárias. A classe operária deveria romper com as instituições «burguesas», criar associações com base no princípio da mutualidade e institucionalizar a reciprocidade. Em suma, inventar uma «democracia operária». [...]

Contra o sufrágio universal, cadernos inéditos de Proudohn
[...] Foi o sufrágio universal e directo que matou a República; foi a turba, após ter abandonado e traído os seus representantes, que a si mesma atribuiu um dono; se já não bastou a experiência de 1799 e 1804, de mim não dependerá que não baste a de 1852, antecedida pela experiência dos séculos. [...]

Uma indocilidade contagiosa, por Claire Auzias
Um dos paradoxos do anarquismo, e não o mais pequeno, é o facto de ser ao mesmo tempo um modesto movimento social e um poderoso vector de imaginários. É bem conhecida, em França, pelo menos, a canção de Léo Ferré que diz dos anarquistas: «Não há um em cada cem, e todavia existem». [...]

Encontro Nacional de Educação Ambiental - XVI Jornadas da ASPEA - no Porto a 30 e 31 de Janeiro

Cartaz elaborado por David Almeida, aluno do 12º do Curso Técnico de Artes Gráficas da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça


As Jornadas são um espaço privilegiado de partilha e de troca de experiências. Aproveite uma das seguintes modalidades para apresentar o trabalho realizado por si ou pela sua instituição:
a. Apresentando poster ou banca (a colocar na altura das Jornadas)
b. Coordenando uma oficina com um carácter eminentemente prático – 1h30 (entregar proposta até 2 de Dezembro e resumo de 1 página a4 até 20 de Dezembro)
c. Apresentando uma comunicação livre – 10 minutos (entregar proposta até 2 de Dezembro e resumo de 1 página a4 até 20 de Dezembro)
d. Enviando fotos para a apresentação de Foto-experiências (entregar fotos digitais até 10 Janeiro)

www.aspea.



A Associação Portuguesa de Educação Ambiental ( ASPEA) é uma associação sem fins lucrativos fundada em 1990, tem como objectivo principal o desenvolvimento da Educação Ambiental no ensino formal e não formal. Para levar a cabo este objectivo, várias estratégias/acções são levadas a efeito pelos membros da sua direcção e pelos seus sócios, nomeadamente:

• uma conferência anual para professores e outros técnicos interessados na Educação Ambiental; • seminários e cursos de formação contínua de professores e de monitores de ambiente;
• redes de escolas, fomentando a cooperação nacional e internacional;
desenvolvimento de recursos pedagógicos;
• organização de saídas de campo e programas de verão para crianças/jovens;
• cooperação com as autarquias;
• divulgação das suas actividades e da educação ambiental em revistas da especialidade e através de apresentação de comunicação e participação em conferências nacionais e internacionais;
• edição de boletim semestral.

Outras ligações sobre educação ambiental:

EnvironmentalEducation Network :http://www.envirolink.org/enviroed/

INEE (International Network in Environmental Education): http://www.eco.org/

Relato da concentração em Lisboa de repúdio e denúncia pelo massacre da população de Gaza pelo exército de Israel

Fotos e texto retirado do jornal Mudar de Vida

Depois de, no dia 5, perto de 400 pessoas se terem reunido no largo de São Domingos, em Lisboa, para denunciar a agressão de Israel a Gaza, hoje, dia 8, concentraram-se a partir do fim da tarde em frente da embaixada israelita mais de meio milhar de manifestantes que acusaram de assassinas as autoridades de Israel e reafirmaram “Palestina vencerá”.

Mais de cem organizações – sindicais, políticas, cívicas, de intervenção social – deram apoio à iniciativa desde que, numa conferência de imprensa realizada nos últimos dias de Dezembro e numa reunião unitária que juntou diversas organizações, foram anunciados os propósitos comuns de condenar a agressão israelita e defender os direitos do povo palestiniano.

Na concentração de hoje, intervieram representantes do Comité de Solidariedade com a Palestina, do Movimento Democrático de Mulheres, do Movimento pelos Direitos do Povo Palestiniano (MPPM), do Tribunal-Iraque, da CGTP e do Conselho da Paz (CPPC).

No final, foi lida e aprovada por aclamação uma moção que condena a agressão e os apoios dados pelos EUA e pela UE, e em que é exigida ao governo português uma completa mudança na política cúmplice que tem seguido até aqui. Publicamos de seguida o texto da moção que será entregue na embaixada israelita em Lisboa e encaminhado aos órgãos de poder portugueses.

Foi ainda feito um apelo a todos os presentes para que se mantenham atentos e dispostos a novas acções, não só na capital mas também por todo o país, em face da grave situação em Gaza e da deterioração da situação internacional a que a persistência das acções militares israelitas pode conduzir.

Moção aprovada na concentração

Nós, as cidadãs e cidadãos portugueses e as organizações presentes em concentração diante da embaixada de Israel em Lisboa no dia 8 de Janeiro de 2009,

Denunciamos o ataque de Israel a Gaza como um crime de guerra e um crime contra a humanidade.
Denunciamos o apoio dos EUA pela voz do seu presidente Bush como um incentivo ao massacre.
Denunciamos o silêncio do presidente eleito Barack Obama como uma inadmissível condescendência com o terrorismo israelita.
Denunciamos a cínica diplomacia da UE como cúmplice da política de terrorismo de Estado levada a cabo por Israel e pelos EUA.
Denunciamos a inoperância do Conselho de Segurança da ONU em resultado do boicote sistemático da delegação dos EUA.
Denunciamos a recusa do governo português em condenar a política israelita, bem como o seu alinhamento com as posições dos EUA e da UE.

Estamos do lado dos palestinianos, reconhecendo nas suas diversas organizações de resistência os legítimos representantes de um povo que quer ser livre numa pátria independente.
Estamos contra a política terrorista e racista de Israel, que coloniza territórios usurpados pela forças das armas, que despreza por sistema as resoluções da ONU que lhe são desfavoráveis, que constitui uma ameaça para a segurança mundial por ser uma potência nuclear ilegal.
Estamos com os cidadãos do mundo árabe e muçulmano e com os cidadãos israelitas que se manifestam contra os massacres, com as pessoas de todos os países e de todos os continentes que se indignam, saem à rua e dizem: basta de crimes!

Exigimos o fim do ataque a Gaza.
Exigimos o fim do bloqueio israelita que faz de Gaza um campo de concentração.
Apelamos à Assembleia-Geral da ONU para que ultrapasse a inoperância do Conselho de Segurança e imponha o fim imediato da agressão, condenando Israel pelos crimes que está a cometer e cometeu nos últimos 60 anos.
Instamos o Presidente da República e a Assembleia da República a condenarem Israel pelos seus actos.
Exigimos que a base das Lajes não seja usada para efeitos de apoio militar e logístico a Israel.
Exigimos que o governo português reveja por completo a sua posição política, condenando claramente a operação militar de Israel e defendendo nas instâncias internacionais medidas que obriguem Israel a retirar as tropas e a desmantelar os colonatos dos territórios palestinianos ocupados.

Viva a resistência do povo da Palestina.

Lisboa, 8 de Janeiro de 2009


As afirmações mais corajosas de Marinho Pinto, actual bastonário da Ordem dos Advogados


Marinho Pinto foi eleito Bastonário da Ordem dos Advogados exactamente há um ano e, ao longo de 2008, proferiu afirmações de crítica e de denúncia, muito contundentes. Para fixar:

"Há pessoas que ocupam cargos de relevo no Estado português que cometem crimes impunemente"
DN, 27 Janeiro 2008

"Um dos locais onde se violam mais os direitos dos cidadãos em Portugal, é nos tribunais"
SIC Notícias, 27 Junho 2008

"98% dos polícias à noite estão nas suas casa. É preciso haver polícias na rua à noite fardados"
Público, 27 Junho 2008

"Há centenas ou milhares de pessoas presas [em Portugal] por terem sido mal defendidas" Público, 27 Junho 2008

"Vale tudo, seja quem for que lá esteja, desde magistrados a outros juristas, não se pode falar em justiça desportiva, mas em prevalência manifesta de interesses e de poderes"
RTP, 08 Julho 2008

"Eu não discuto com sindicatos. Os sindicatos querem é mais dinheiro e menos trabalho"
RTP, 10 Julho 2008

"Alguns magistrados pautam-se nos tribunais portugueses como os agentes da PIDE se comportavam nos últimos tempos do Estado Novo"
RTP, 10 Julho 2008

"Estão-se a descobrir podres que eram inimagináveis há meia dúzia de meses. E não é por efeito da crise. É por efeito da lógica do próprio sistema. Parece que o sistema financeiro só funciona com um pé do lado de lá da legalidade"
JN, 28 Dezembro 2008

"Uma senhora que furtou um pó de arroz num supermecado foi detida e julgada. Furtar ou desviar centenas de milhões de euros de um banco ainda se vai ver se é crime"
JN, 28 Dezembro 2008

"Pelos vistos, nenhum banco pode ir à falência"
Público, 30 Dez 2008
in JN

A apresentação pública do livro «Vale do Côa,uma paisagem de liberdade», um roteiro das aldeias da região, realiza-se hoje em Cidadelhe, Pinhel




10 anos da Arte do Côa como Património da Humanidade

Hoje, 10 de Janeiro, realiza-se a apresentação pública do livro «Vale do Côa, uma paiagem de liberdade» , que pretende constituir-se um roteiro de visita às aldeias do PAVC ( Parque Arqueológico do Vale Côa) e ao Vale do Côa. A sessão decorrerá em Cidadelhe, Pinhel, pelas 15h.

Note-se que esta iniciativa faz parte do conjunto de actividades que o PAVC tem organizado para celebrar os 10 anos da classificação do Vale do Côa como Património da Humanidade pela Unesco.

O programa abriu no passado dia 3 de Dezembro (dia em que foi decidida oficialmente pela UNESCO a classificação), com a conferência “A Arte do Côa, o Parque Arqueológico e o Museu do Côa”, pela directora do Parque Arqueológico, Alexandra Sousa Lima, em Vale de Afonsinho, no concelho Figueira de Castelo Rodrigo. No mesmo dia decorreu também, mas na sede do PAVC, em Vila Nova de Foz Côa, um encontro científico de investigadores da área da Arqueologia Experimental, com o objectivo de lançar novos projectos de investigação na região e com parcerias internacionais.
Registou-se ainda no passado mês de Dezembro o lançamento do livro “O Paradigma Perdido. Vale do Côa e a Arte Paleolítica de Ar Livre em Portugal”, do arqueólogo António Martinho Baptista.

O encerramento das comemorações está marcado para o dia 15, com a inauguração da exposição “De Foz Côa a Siega Verde”, uma iniciativa do PAVC e da Junta de Castela e Leão, na sede do PAVC e em Siega Verde (Espanha).
Siega Verde é candidato a Património da Humanidade como extensão do Vale do Côa: o Governo espanhol e a Junta de Castela e Leão candidataram as gravuras rupestres de Siega Verde a Património Cultural da Humanidade da UNESCO, como extensão do Vale do Côa. Assim sendo, e considerando os dois espaços arqueológicos e criando-se uma região transnacional, poder-se-á formar a maior rota e o maior centro mundial de arte paleolítica ao ar livre.
Siega Verde, no Águeda, um afluente do Douro, é o mais importante e denso conjunto de arte paleolítica ao ar livre em Espanha, podendo ser considerado um prolongamento do Côa.
Link
Texto da Wikipedia sobre as gravuras rupestres do Côa: ver aqui

Região do Vale do Côa: ver aqui

Museu da pastorícia, na freguesia do Salgueiro, Fundão

Foto retirada do blogue: http://casadasbestas.blogspot.com/


Localizado numa casa tradicional recuperada, da aldeia do Salgueiro, concelho do Fundão, o Museu da pastorícia é um espaço dedicado à memória pastoril.

O Núcleo Museológico da Pastorícia tem como objectivo principal reunir patrimónios ligados a um quadro relacional económico e cultural desde sempre presente na humanidade: o trato dos homens com os animais.

Pretende-se conjugar dimensões patrimoniais diversificadas quer quanto ao tempo e espaço, quer quanto às matérias, contribuindo, deste modo, para uma definição mais objectivada do que se entende por “cultura pastoril” na sociedade contemporânea.
Enraizado a um território específico, este pequeno núcleo museográfico reforça a ligação e o reencontro entre as pessoas e as comunidades ao mundo e às paisagens da pastorícia. Um mundo que a partir das memórias das durezas de antanho se revisita hoje, com imaginação e sonho em contínuos reflexos temporais e (i)materiais.


Desde o presente mês de Janeiro o núcleo museológico apresenta a exposição: “O Pastor e o artesão José dos Santos - matérias sonoras”. A exposição estará patente até Abril de 2009.


Links sobre pastorícia:

Ecomuseu da pastorícia na Itália:

Sobre a transumância:
http://www.transhumance.org/