23.4.07

Desliguem a televisão ( semana de 23 a 29 de Maio)


SEMANA SEM TELEVISÃO (23 a 29 de Maio)



Apaguem a televisão, porque há muitas coisas bonitas para fazer...


Vídeo da Adbuster




Vídeo da semana sem televisão ( em francês)





O produto final que sai formatado pela televisão




Outro vídeo muito bom. Imperdível!
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Texto divulgado pelo GAIA a propósito da Semana sem televisão
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Em Portugal vemos, em média, cerca de quatro horas diárias de televisão. Somos dos maiores consumidores do mundo. Em 95,6% dos lares nacionais existe pelo menos um aparelho, e 70,6% deles possui dois televisores, a maior percentagem de entre os países membros analisados pelo Observatório Europeu do Audiovisual, entidade que fornece estes dados.
O problema não está então em vermos TV mas na quantidade que vemos e também na qualidade que não vemos.
Sobre a quantidade, há estudos que indicam que a televisão aumenta a depressão, a ansiedade e diminui a auto-estima. Está também provado que aumenta a demência e a obesidade; já para não falar do facto das crianças que estiverem mais expostas à TV serem habitualmente mais propensas à violência. Sobre a qualidade, todos sabemos que há bons e maus programas e como isso é relativo, portanto, o que importa ter em mente é que a televisão é uma verdadeira indústria que, como tal, quer vender produtos (telenovelas, programas de entretenimento, noticias, publicidade...) e cativar a maior audiência possível, uma vez que o êxito dessa indústria se mede em quantos minutos da nossa vida ela consegue roubar.

Esta campanha internacional (www.tvturnoff.org), promovida pela AdBusters desde 1999, e em Portugal pelo GAIA a partir de 2005, propõe uma semana de pausa e reflexão sobre/sem televisão.

Dia 23 de Abril as 18h00 o grupo Artactiv@ e o GAIA estão a organizar uma performance de rua sobre este mesmo tema que terá início na Praça da Batalha, Porto.

GAIA - Grupo de Acção e Intervenção Ambienta
http:/gaia.org.pt/

Workshop de Teatro do Oprimido ( na Fac. de Letras do Porto - 26 e 27 de Abril)


WORKSHOP DE TEATRO DO OPRIMIDO


O Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no âmbito do Curso de Especialização em Animação e Mediação Cultural, promove, nos próximos dias 26 e 27 de Abril, um Workshop de Teatro do Oprimido orientado por JOSÉ SOEIRO.


PAPEIS, INTERACÇÃO E MUDANÇA SOCIAL


Horário e Local:
• dia 26 de Abril - das 10h00 às 12h30 // das 13h30 às 19h30 - Sala de Reuniões FLUP
• dia 27 de Abril - das 10h00 às 12h30 // das 13h30 às 16h30 - Sala 306 A/B FLUP

Preço: 15 Euros*

Inscrições no Departamento de Sociologia

Folheto Informativo e Ficha de Inscrição


*A entrada é livre, mas sujeita a inscrição, para os alunos inscritos no Curso de Especilaização em Animação e Mediação Cultural

Para mais informações contactar:

Departamento de Sociologia
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Via Panorâmica, s\n, 4150-564 Porto
Tel. 22 60 77 100/ Fax 22 60 77190
Email: ds@letras.up.pt

A noite dos livros em Madrid

No território do Estado espanhol a festa do livro tem vindo a ganhar um impacto social único: por todo o lado organizam-se exposições, debates , feiras e as mais variadas iniciativas com o objectivo de promover e animar as pessoas para a leitura. Destaque especial vai para Madrid e Barcelona.

Madrid realiza este ano pela segunda vez a chamada Noite dos Livros ( 23 de Abril), durante a qual as livrarias estão abertas até à meia-noite e oferecem um desconto significativo aos livros vendidos. Para além disso, cerca de 6.000 escritores e artistas participam em tertúlias, conferências e concertos nas livrarias e cafés ao longo de todo o dia e parte da noite. Este ano participam, por exemplo, Jostein Gaarder, Gamoneda, Sophie Auster, etc. Está ainda programada para este dia a leitura contínua do D.Quixote desde as 18 horas de hoje e que se prolongará por 45 horas.
Mais info: aqui , aqui



O dia de Sant Jordi ( livros em troca de rosas) em Barcelona

No dia do patrono da Catalunha, Sant Jordi, já vem sendo habitual as mulheres oferecerem um livro aos homens, e receberem em troca uma rosa.
Neste dia os livreiros estendem as suas bancas nas ruas e fazem promoções e outros actos de divulgação e animação cultural em torno do livro. Os autores não deixam também de marcar presença.
Ver:

Os livros são feitos para serem lidos!


«O verbo ler deriva de verbo latino que significa colher; o homem que lê é como um colhedor de frutos. Ler é pois, antes de tudo, um alimento»
CACÉRÈS, Geneviève, La lecture



«Os livros são feitos para serem lidos, por isso é que os emprestamos, para que eles continuem o seu caminho, e não os encontremos mais. Devem circular e nunca estarem inertes»
August Stindberg



Porquê ler os clássicos? (Ítalo Calvino)

A leitura de um clássico deve oferecere-nos alguma surpresa em relação à imagem que dele tínhamos. Por isso, nunca será demais recomendar a leitura directa dos textos originais, evitando o mais possível a bibliografia crítica, comentários, interpretações. A escola e a universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão; mas fazem tudo para que se acredite no contrário. Existe uma inversão de valores muito difundida segundo a qual a introdução, o instrumental crítico, a bibliografia são usados como cortina de fumo para esconder aquilo que o texto tem a dizer e que só pode dizer se o deixarmos falar sem intermediários que pretendam saber mais do que ele.





Os dez direitos do leitor são:

1)O direito de não ler.
2)O direito de pular páginas.
3)O direito de não terminar um livro.
4)O direito de reler.
5)O direito de ler qualquer coisa.
6)O direito de amar os "heróis" dos romances..
7)O direito de ler em qualquer lugar
8)O direito de ler uma frase aqui e outra ali
9)O direito de ler em voz alta
10)O direito de não falar do que se leu.
( Daniel Pennac, 1944, Como um Romance)


O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivência entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que as nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade.
(Daniel Pennac)


Consultar:


Consultar ainda as seguintes fontes : 1, 2

Os Livros do Carmo e da Trindade" de 23 a 29 de Abril

Informação obtida via:
http://luradoslivros.wordpress.com/

No próximo dia 23 de Abril comemora-se o Dia Mundial do Livro. Neste mesmo dia, em pleno Largo Trindade Coelho, ao Bairro Alto, inaugura-se a iniciativa Os livros do Carmo e da Trindade.

Graças ao facto de esta venda ser ao ar livre, pensámos que deveríamos proporcionar algo de diferente aos nossos leitores. Assim, para além de termos convidado editores, livreiros e alfarrabistas, entrámos em contacto com a florista Pequeno Jardim e com a BIOCOOP para que esta venda tenha flores e produtos de agricultura biológica à disposição dos seus visitantes. Contudo, como ainda não estávamos inteiramente satisfeitos, resolvemos planear animações de rua e eventos de índole cultural que decorressem em paralelo.
Esperemos que desfrute ao máximo deste evento.


Horário de funcionamento

Segunda, terça, quinta e sexta – das 15h às 23h
Quarta (feriado) e sábado – das 10h às 23h
Domingo – das 10h às 15h


Programação de outras actividades

- Exposição dos trabalhos artísticos de três capistas famosos
Câmara Leme, Pavia e Manuel Lapa
Onde
Clube Português de Artes e Ideias
Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 29 – 2

Quando
Dias úteis das 10h às 18h

Entrada livre

- Leitura do Sermão da Sexagésima de Padre António Vieira
Com a participação de José Manuel Mendes, actor do Teatro da Cornucópia

Onde
Igreja de S. Roque, no Largo Trindade Coelho

Quando
Sexta, 27 de Abril, às 21h00

Entrada livre
- Visita ao interior do Teatro da Trindade

Onde
Teatro da Trindade

Quando
Sábado, 28 de Abril, às 11h

Entrada livre – Inscrições na livraria das Edições Cotovia
Rua Nova da Trindade, 24

- Teatro de Robertos Português

Espectáculo de rua "Teatro D.Roberto"

Onde
Largo Trindade Coelho

Quando
Sábado, 28 de Abril, às 16h

Entrada livre

- Grupo de batuque Finka Pé

Onde
Largo Trindade Coelho

Quando
Sábado, 28 de Abril, às 18h

Entrada livre

Participantes

& etc
Antígona – Editores Refractários, Lda
Artes e Letras
Assírio & Alvim
Avelar Machado
Averno
BIOCOOP – Produtos de Agricultura Biológica
Bizantina
Castro e Silva
Clube Português de Artes e Ideias
Fenda
Frenesi
Guimarães Editores
Livros Cotovia
Nova Eclética
Olissipo
Pequeno Jardim
Relógio D'Água Editores
Supico & Sousa
Vendaval

22.4.07

Retrato social de Portugal nas últimas décadas ( série de documentários-video)

Nota prévia: apesar de todas as reservas que levantamos à figura de proa e reponsável máximo desta série de documentários sobre as mudanças sociais registadas em Portugal, um trabalho encomendado da RTP ao coveiro da Reforma Agrária em Portugal, o certo é que nunca é demais proporcionar à população em geral os elementos, as informações e os dados para que estejamos em posição de analisar a História contemporânea do país. E se consideramos que isto não é propriamente sociologia, não negamos que pode ter virtualidades para abrir os olhos a muita gente, mostrar a historicidade da nossa sociedade...


Retrato social de Portugal nas últimas décadas

As grandes transformações sociais


As mudanças sociais verificadas em Portugal ao longo das últimas quatro décadas foram profundas e mais rápidas do que na maioria dos países europeus. Em certos casos, como na demografia, certas mudanças, medidas através dos indicadores sociais clássicos, ultrapassaram os valores médios dos países vizinhos.

A emigração, a guerra colonial, uma revolução política e social, a fundação do Estado democrático, a descolonização, uma contra-revolução, a adesão à União Europeia e a imigração foram alguns dos acontecimentos ou fenómenos históricos que marcaram estas quatro décadas e que resultaram ou aceleraram mudanças sociais profundas.

O sentido geral destas mudanças sociais foi o da aproximação dos padrões de vida europeus. Os indicadores demográficos, sociais e económicos portugueses parecem-se, cada vez mais, com os dos membros da União Europeia. Ainda há sinais relevantes que traduzem uma história específica, diferenças permanentes, um atraso real e circunstâncias especiais.

Mas nada permite afirmar hoje, como seria possível há poucas décadas, que Portugal mais parecia um país de outro continente. Os domínios do social e do económico foram mais dinâmicos do que o do político. Ainda a sociedade parecia imutável, nos anos sessenta, por causa do imobilismo político, e já as forças sociais, económicas e culturais registavam mudanças profundas, invisíveis à primeira vista.

A mudança política de 1974, a mais visível e a mais dramática, acelerou as mudanças sociais em curso. Mas foi ela própria preparada por aquelas. As mudanças sociais foram permanentes e contínuas. E começaram antes de 1974. A própria integração europeia, cujo início é costume datar de 1977, com a candidatura à Comunidade, ou de 1986, com a adesão efectiva, começou muito antes: com a emigração e o turismo dos anos sessenta, com a fundação da EFTA em 1959/60 e com o desenvolvimento das relações económicas e empresariais dos anos setenta.

As mudanças sociais e demográficas podem ser mais profundas do que as políticas, mas estas são mais perceptíveis, aparentemente mais radicais e têm um efeito acelerador. Removidos, com a democracia e a integração europeia, os obstáculos políticos, a mudança social e económica prosseguiu, depois de 1974, a um ritmo ainda mais rápido. Em todo este processo de mudanças rápidas ou graduais, invisíveis ou dramáticas, assistiu-se a uma permanente oscilação entre factores internos e externos. Mas sublinha-se a importância predominante dos factores externos: a emigração, o turismo, o comércio externo, os investimentos estrangeiros, os costumes, as modas, a ciência, a técnica, as artes, as mentalidades, a religião, etc.

Em certas situações, as sociedades não têm, dentro de si, forças, dinâmicas e dimensão suficientes para gerar uma mudança social acelerada. Sobretudo nos casos de sociedades pequenas, fechadas ao exterior, politicamente autoritárias, culturalmente viradas para si próprias, dotadas de insuficientes elites e com uma reduzida expressão das classes médias. Como era o caso de Portugal. Gradualmente exposto ao mundo exterior, mesmo contra ou apesar da vontade dos dirigentes políticos, o país encetou processos de mudança não programados. A abertura ao exterior terá sido a mais importante causa e consequência das transformações ocorridas.

Mas a sociedade não se limitou a digerir ou assimilar passivamente as influências externas. Pelo contrário, foi atravessada por acontecimentos e movimentos próprios, através dos quais teve de resolver os seus problemas atávicos, ultrapassar contradições, dirimir conflitos, encontrar as suas soluções e adaptar-se a novas situações. No que revelou uma notável plasticidade. Não era, com efeito, fácil, libertar-se um país de tanto quanto o condicionou durante décadas: a ignorância e a reverência; a delação e o medo; o autoritarismo e a repressão. Ao mesmo tempo que se separava de África e se voltava para a Europa; e que sacudia o paternalismo e criava uma República de cidadãos.

Ao fim de quarenta anos de uma quase correria, a sociedade, tão diferente do que era, encontra, não obstante, velhas questões. Mesmo se menor, a pobreza relativa de Portugal não deixa de ser causa das maiores ansiedades da população e dos seus dirigentes. Vivendo numa sociedade aberta de informação e conhecimento, de modas e de padrões de comportamento cosmopolitas, os portugueses partilham, as expectativas e as aspirações dos países mais desenvolvidos do mundo. Mas não têm, na sua economia, na sua cultura e na sua sociedade, capacidades suficientes para as satisfazer e concretizar.

As suas deficiências de organização, de formação técnica, de cultura, de produtividade, de rendimento económico e de eficácia dos serviços públicos são fonte de desequilíbrio e de frustração. Os portugueses habituaram-se, há séculos, a comparar-se com os europeus. E, apesar de muitas vezes resignados, não se conformam com os resultados das comparações: por mais depressa que andem, continuam muito atrás. Para um país que já foi pioneiro, é um pesadelo permanente.

É esta consciência do atraso que ajuda a alimentar a mitologia de uma identidade nacional muito especial. A de um país diferente, na dimensão, na glória passada e no carácter. A de um povo que, para se manter, deveria resistir à mudança e ao exterior. E, no entanto, o país moveu-se. A ponto de ficar um país como os outros.


Causas e efeitos da mudança
O que explica a rapidez das mudanças? Em primeiro lugar, o atraso inicial em que o país se encontrava. De certo modo, “queimaram-se etapas”, dado que os factores de mudança, sobretudo os externos, eram já dos novos tempos (comércio externo, turismo, emigração, etc.).

Portugal não era um “país subdesenvolvido” típico do Terceiro Mundo, onde os factores de mudança podem não ter grande impacto. Portugal encontrava-se já num estado de desenvolvimento capaz de absorver as influências externas e de, num primeiro momento, reagir e aproveitar o estímulo dos países e das economias mais avançadas. Segundo, o facto de alguns acontecimentos históricos terem acelerado a mudança, como por exemplo a guerra colonial, a revolução política, a descolonização e a integração europeia. Em terceiro lugar, as elites portuguesas (reduzidas, relativamente pobres e pouco cultas) já conheciam as possibilidades do mundo mais moderno.

Os portugueses (elites, classes médias, emigrantes, técnicos, etc.) tinham aspirações e expectativas muito acima das possibilidades que o país lhes oferecia. A mudança rápida tem, só por ser rápida, implicações e consequências. Representa uma espécie de “atalho”, na medida em que se podem saltar etapas de desenvolvimento e crescimento. Condiciona a solidez do desenvolvimento (aquilo a que os economistas contemporâneos gostariam de chamar “sustentação”). Na verdade, o que de mais evidente se revela é a falta de preparação, de ordenamento e de planeamento. As escolas superiores e as universidades, por exemplo, cresceram muito rapidamente em dez ou vinte anos (em unidades e instituições, em número de estudantes e de professores, em número de cursos, etc.). Acontece que, para esse crescimento, não havia edifícios, salas, professores, cursos, técnicos, laboratórios, etc., em condições, com qualidade e experiência suficientes. Foi necessário construir à pressa, recrutar docentes (desqualificados) à pressa, criar instituições à pressa, estabelecer “numerus clausus” com o único objectivo de limitar o acesso depois de verificado o excesso.

O resultado está à vista: ensino de má qualidade, cursos e diplomas desqualificados, desperdício de recursos, multiplicação de cursos e instituições, investigação muito deficiente, deficiente ligação das escolas à sociedade e às empresas, etc. O paralelo pode ser estabelecido com outras áreas e sectores de actividade. A urbanização rápida, acompanhada de especulação, de corrupção, de falta de experiência no ordenamento urbano, de ausência de hábitos e tradições de envolvimento colectivo no ordenamento, etc., criou a desordem urbana que hoje caracteriza as áreas metropolitanas de Lisboa, Porto, Setúbal e outras.

O crescimento económico dos anos sessenta e setenta criou oportunidades inéditas em Portugal e conduziu ao aparecimento de empresas e negócios, sem, todavia, bases suficientes: de capital, tradição, experiência, organização da produção, regras de comportamento entre patrões e trabalhadores, métodos de trabalho com o mercado, etc. O que contribuiu para que aquele crescimento económico notável repousasse sobretudo na força de trabalho barata, com reduzido investimento. O crescimento económico rápido, a mudança social rápida e a expansão rápida dos sistemas fizeram-se com reduzido sentido de acumulação e consolidação. Nos anos de crescimento europeu, Portugal cresceu sempre mais do que os outros. Mas, nos anos de estagnação e recessão (ou de choques, como os do petróleo), Portugal sofreu as consequências muito mais marcadamente.

A “nação” é a mesma. Pela cultura e pelo património; pela língua e pela memória; pelos valores e pelos mitos; pelas referências históricas e culturais; pelo sentimento de pertença e pela herança dos antepassados. Mas a sociedade é muito diferente. Mesmo se há costumes que se mantém. Há ainda traços especiais que criam a ilusão de que a mudança foi pouca. Por exemplo, o sentimento de atraso diante dos países europeus. A obsessão com a comparação com os outros povos mais desenvolvidos. A síndrome de fidalgo arruinado: a sensação de que Portugal foi, noutros tempos, um “grande país” e uma “nação desenvolvida”, tendo conhecido nos últimos dois ou três séculos um processo de regressão relativa. A desilusão contemporânea é motivada pelo abrandamento do progresso e do melhoramento.

Dos anos sessenta aos noventa, as melhorias foram constantes e muito significativas, em todos os domínios (emprego, rendimentos, qualificações, educação, saúde, cultura, comunicação, etc.). A partir dos anos noventa, surgiram regressões, estagnação, abrandamento e sobretudo o sentimento de esgotamento. Ainda por cima com a perda de ritmo relativamente aos países europeus. Nasceu a incerteza. Nasceu a dúvida. Os períodos de recessão ou de estagnação que se seguem a períodos de crescimento e desenvolvimento têm efeitos psicológicos muito profundos. Quem conheceu melhores tempos, quem viveu ritmos de progresso muito marcados, sente-se ameaçado pelo abrandamento, pelo esgotamento; sente que pode perder o que ganhou.

Há quarenta ou cinquenta anos alguns traços marcavam fortemente a sociedade: país pequeno, pobre, periférico e fechado. A pequenez manteve-se (eventualmente agravada pela descolonização). A pobreza também (mesmo se muito reduzida). A periferia também (mas esbatida pelas novas características das sociedades modernas, com a rapidez das comunicações, as estradas e auto-estradas, a globalização). O carácter fechado é que foi radicalmente alterado. Os factores externos tiveram decisiva influência: tornaram relativos os efeitos da pequenez; estimularam o crescimento económico, o que aliviou consideravelmente a pobreza; reduziu e esbateu as implicações da periferia; e provocou a abertura da sociedade. Na verdade, ainda hoje a sociedade sofre os efeitos desses traços ainda patentes: pequenez, pobreza e periferia. A pobreza dos portugueses é, por um lado, criada (Jorge de Sena: “Empobreceram-nos”!). Mas, por outro, tem origens de facto. As capacidades agrícolas são fracas, os solos estão cansados e são pobres e ácidos e chove de modo pouco propício à actividade agrícola. As capacidades pecuárias, por via do clima e da actividade agrícola, são reduzidas. Não existem recursos naturais nem matérias-primas próprias das eras industriais: carvão, ferro e outros minérios; nem da civilização de altos consumos energéticos: petróleo e recursos hidroeléctricos.

De certo modo pode dizer-se que o sentido geral de evolução da sociedade e da demografia (e da economia ou da cultura...) foi o de aproximação dos padrões de vida e comportamento dos europeus mais desenvolvidos, assim como da sociedade americana (neste caso, sobretudo nos aspectos económicos e culturais, menos na demografia). Qualquer que seja o ponto de vista ou de observação, o mais provável é que os indicadores de evolução portuguesa revelem essa aproximação. Por exemplo: mortalidade, fecundidade, dimensão das famílias, integração das mulheres na população activa, expansão do sistema escolar, aumento dos rendimentos familiares, terciarização, declínio das actividades agrícolas, abrandamento relativo das actividades industriais, desenvolvimento do Estado de protecção social, etc.

Em todos estes aspectos, a evolução rápida de Portugal foi sempre no sentido de se aproximar dos padrões europeus. No entanto, cada país, cada sociedade, em cada momento, faz esse caminho à sua maneira, com características próprias. O caso da integração das mulheres na sociedade pública e na economia é revelador deste duplo ponto de vista. Por um lado, passou-se em Portugal exactamente o que se passou nos outros países ocidentais. Por outro lado, os traços específicos foram reais: mais tarde no tempo; mais rápido; motivado directa e imediatamente pela emigração dos homens para a Europa e pela guerra colonial que retirava umas centenas de milhares de homens das actividades produtivas. Nação velha e Estado antigo. Povo com indelével sentimento de identidade e de independência. Povo com permanente sentido do seu passado e de uma grandeza pretérita. Gente com a sensação, desde finais do século XVIII e inícios do século XIX, de um atraso crónico e crescente relativamente aos outros países vizinhos.

O atraso económico, social, político e cultural dos portugueses é, há muito, um dos traços do património mental colectivo. Sociedade tradicionalmente muito hierarquizada e centralizada. O essencial da economia e da sociedade dependia do Estado central. Este (monarca ou Administração Pública) raramente conheceu rivais (senhores, príncipes, autarquias, empresas, grupos económicos, instituições) que desafiassem o seu poder. O poder central em Portugal teve sempre muito pouco contrapesos ou moderadores. A Igreja (a mais forte instituição fora do Estado) esteve, na maior parte do tempo moderno (século XVIII para cá), ligada ao Estado: foi um fiel parceiro. Quando assim não foi (em parte Pombal, os Liberais do século XIX, a 1ª República), estava afastada ou dominada pelo Estado. Hierarquias sociais muito rígidas e verticais ligadas a sistemas de patrocinado de Estado (aliança de poderes locais pessoais ou autárquicos ao Estado central).

Autoria: António Barreto; Produção: Rui Branquinho; Realização: Joana Pontes; Pesquisa Documental: Maria João Silva; Director de Som:Marcelo Tavares e Armanda Carvalho; Pós-Produção Audio: Paulo Mendes; Assistente de Produção: Marta Tavares; Fotografia: João Ribeiro; Música: Rodrigo Leão



Episódio 1 - ver aqui
Gente diferente: Quem somos, quantos somos e onde vivemos

Os portugueses são hoje muito diferentes do que eram há trinta anos. Vivem e trabalham de outro modo. Mas sentem pertencer ao mesmo país dos nossos avós. É o resultado da história e da memória que cria um património comum. Nascem em melhores condições, mas nascem menos. Vivem mais tempo. Têm famílias mais pequenas. Os idosos vivem cada vez mais sós.

Episódio 2 - ver aqui
Ganhar o pão: O que fazemos

O trabalho mudou muito nestas últimas décadas. A maioria dos portugueses trabalha nos serviços. Poucos trabalham na agricultura e ainda menos nas pescas. Muitos emigraram. As mulheres são metade das pessoas que trabalham, o que é uma grande diferença com o passado recente. Com a integração europeia, a economia portuguesa fez uma grande mudança. Todos vivem melhor, mas há muitas empresas que não conseguiram adaptar-se às novas condições
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Mudar de vida: O fim da sociedade rural

A sociedade contemporânea, urbana, era ainda há pouco tempo rural. Mudou muito depressa. Muitos portugueses emigraram, a maior parte saiu das aldeias e foi viver para as cidades e para o litoral. O campo está despovoado. As cidades cresceram. As estradas aproximaram as regiões. Nas áreas metropolitanas, organizou-se uma nova vida quotidiana. Há mais conforto dentro das casas, mas as condições de vida nas cidades são difíceis.
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Nós e os outros: Uma sociedade plural

Há quarenta anos, havia só um povo, uma etnia, uma língua, uma cultura, uma religião e uma política. Hoje, Portugal é uma sociedade plural. Primeiro a emigração e o turismo, depois a democracia, finalmente os imigrantes estrangeiros, fizeram de Portugal uma sociedade aberta. Falam-se todas as línguas, reza-se a todos os deuses, há todas as convicções políticas. Os Portugueses aprendem a viver com os outros


Episódio 5 - ainda não disponibilizado
Cidadãos
Com a sociedade aberta, a democracia, a integração europeia e o crescimento económico, os Portugueses são hoje cidadãos plenos pela primeira vez na sua história. Têm os direitos políticos e sociais e as respectivas garantias. As mulheres são iguais aos homens. Mas a justiça, que deveria acompanhar este progresso e adaptar-se à nova sociedade, tem dificuldades em garantir os direitos dos cidadãos.


Episódio 6 - ainda não disponibilizado
Igualdade e conflito: As relações sociais

As famílias portuguesas têm hoje mais rendimentos e mais conforto. Em vinte ou trinta anos, o bem-estar melhorou mais que nos cem anteriores. Cresceram as classes médias. Desenvolveu-se a sociedade de consumo de massas. O comércio, as modas, a escola, a televisão e a cultura fazem uma sociedade onde todos parecem iguais. Mas subsistem diferenças muito importantes de classes, de poder económico, de geração, de sexo e de região.


Episódio 7 - ainda não disponibilizado
Um país como os outros: A formação de uma sociedade europeia

Portugal já não se distingue, na Europa, como o país da ditadura, da pobreza e do analfabetismo. Embora ainda atrasado, os Portugueses são hoje cidadãos livres e têm acesso aos grandes serviços do Estado de Protecção Social. A educação, a segurança social e a saúde são para todos. Mas ainda há insuficiências, corrupção e desperdício. E deficiências na saúde, na educação, na segurança social e na justiça.
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www.rtp.pt/wportal/sites/tv/portugal_retrato/index.shtm

Festival de Reggae - Roots & Culture ( dias 21 e 24 de Abril)


O festival de Reggae do Porto realiza-se este ano em sintonia com as celebrações do 2º aniversário do Portal do Reggae. A valorização e a propagação da música Reggae Portuguesa são dois factores fundamentais que se inserem nos principais ideais deste festival. Mais que um festival ou aniversário, este evento pretende unir pessoas e culturas em torno da música, da música com mensagem de positividade. Este ano, com algum esforço, esta grande festa será dedicada às crianças mais necessitadas, que não têm um lar ou até mesmo uma família, receitas deste festival revertem a favor da comunidade Aldeias S.O.S Crianças de Portugal. Mais que uma ajuda vinda do fundo do coração, este é um alerta de grande importância, pois a criança simboliza o nosso futuro, simboliza paz e amor, aspectos fundamentais para a sobrevivência do ser humano e do mundo.


Nesta edição, ao contrário do ano passado, este evento irá decorrer em dois dias, o primeiro (21 Abril), será especialmente dedicado aos concertos nacionais, destacando-se a pré-apresentação do novo álbum dos Terrakota, e as actuações de Quaiss Kitir, Human Chalice e Stepacide.

A segunda parte do Festival Roots & Culture 07 será especialmente dedicada à cultura Deejaying/Tosting e soundsystem. Decorrerá no dia 24 de Abril e contará com a participação de grandes artistas tais como Conscious Fiyah (Alemanha), Wadada Prince (Angola/Pt), OneSun Soundsystem, Portaldoreggae Soundsystem, Masko e outros convidados especiais…

Apareçam porque a festa vai ser de arromba...;)





José Afonso, 20 anos depois

As palavras, as músicas e as imagens de José Afonso, o poeta e o cantor que se inspirou no quotidiano do povo e se bateu com ele pela liberdade e pela justiça.

Foi também professor, e nessa condição dizia ele que «queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes o espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais.»






Tributo a José Afonso



Concerto



Consultar ainda:

Asociação José Afonso: http://www.aja.pt/

O nosso post aqui no blogue

Ciclo «Música e Revolução» na Casa da Música

Está prevista para os próximos dias a realização na Casa da Música ( na cidade do Porto) de um conjunto de iniciativas e de concertos subordinado ao tema «Música e Revolução». O prgrama é o seguinte ( não dispensa a consulta ao website da Casa da Música):

Quarta 25 Abril 2007
19:00
A Música e a Revolução de Zeca Afonso
Conferência por Eduardo Raposo Canto de Intervenção 1960-1974 resulta de uma Tese de Mestrado defendida na Universidade Nova de Lisboa e publicada pelo Museu República e Resistência e, posteriormente, pelo Público [2005].

Quarta 25 Abril 2007
21:00, Sala 2
Drumming Grupo de Percussão
José Afonso é um nome indissociável da canção de intervenção em Portugal e inspira obras de vários compositores portugueses, responsáveis pelos arranjos para percussão e voz de alguns dos seus mais célebres temas.

Quinta 26 Abril 2007
22:00, Sala 2
Frei Fado dEl Rei
Os Frei Fado d'El Rei apresentam em estreia absoluta na Casa da Música o seu quarto disco, Senhor Poeta, que constitui uma homenagem a José Afonso na comemoração dos vinte anos da sua morte.



Sábado 28 Abril 2007
Sala 2
Conserv. do Porto - 90 Anos «Águas Mil»
Espectáculo pluridisciplinar, cruzando diferentes meios de expressão - a música, a palavra, a imagem, o movimento - num registo aberto, à procura de diagonais entre conceitos contíguos: a Revolução, a Liberdade, o Novo. ABRIL.


21:00, Sala Suggia
ONP 28 Abril 2007 Coral Lisboa Cantat Coral de Letras da U. P.
Este é um concerto raro pela grandiosidade que representa. As duas obras em programa assinalam momentos de revolução social que marcaram a história da humanidade: a Revolução Francesa e a Revolução de Outubro.


Domingo 29 Abril 2007
12:00,

Sala Suggia
Garcia Lorca foi considerado «mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver». A 19 de Agosto de 1936 foi assassinado pelos nacionalistas com um tiro na nuca e atirado para um poço na Serra Nevada sem direito a julgamento.


22:00,

Sala Suggia
A colaboração entre a Casa da Música e a Associação José Afonso, que se manifesta na exposição multimédia e numa conferência, não encerra sem um grande concerto de homenagem por parte de dois grupos ligados ao Jazz e à música improvisada.


Segunda 30 Abril 2007
22:00, Sala Suggia
José Mário Branco «Mudar de Vida»
José Mário Branco recria o seu último trabalho discográfico Resistir é Vencer num espectáculo especialmente concebido para a Casa da Música e integrado no ciclo «Música e Revolução».



Actividade regular:
Qui 5 Abr 2007 a Seg 30 Abr 200710:00
Música e Revolução - Tributo a José Afonso
Neste ciclo dedicado às músicas que alimentaram revoluções - e àquelas que as celebraram - José Afonso surge como uma figura central da canção de intervenção portuguesa.

Mais informação:
http://www.casadamusica.com/default.aspx

"Por teu livre pensamento", histórias de 25 ex-presos políticos portugueses (fotografias de João Pina)

Exposição de fotografia no Centro Português de Fotografia, instalado no edifício da antiga Cadeia da Relação, localizada no Campo Mártires da Pátria, no centro da cidade do Porto
A exposição «Por teu livre pensamento» reúne o trabalho fotográfico de João Pina, desenvolvido durante o período de entrevistas efectuadas a ex-presos políticos portugueses, presentes no livro com o mesmo título.

Reproduz-se o texto de apresentação da exposição:

As 55 provas aqui trazidas a público exibem os fotografados enquadrados em locais associados à sua própria história de resistentes antifascistas ou, em alternativa, em locais relacionados com a actividade que presentemente desenvolvem.Este trabalho acaba também por constituir um verdadeiro roteiro da memória, de pessoas e locais marcantes em todo o contexto da luta revolucionária, mas mais do que ex-presos políticos fotografados em diferentes enquadramentos, no trabalho de João Pina estão representadas quatro décadas de luta contra a ditadura e, em somatório, mais de 104 anos de encarceramento de portugueses que repartem o “crime” de ter pensado de forma diferente da instituída e de terem ousado agir de acordo com essas convicções.

A relação entre a fotografia e a preservação da memória é óbvia e de fácil constatação. No entanto, não se pode deixar de recomendar uma observação mais atenta de alguns pormenores que poderão escapar a um olhar menos precavido.Atente-se que, enquanto alguns dos retratados conseguem esboçar um sorriso quando, perante a câmara de João Pina, acederam recriar as célebres fotos de frente-perfil-três quartos que davam um rosto às fichas e cadastros da PIDE, para outros, mais de 30 anos após a queda do regime que os enclausurou e torturou, os traumas e hábitos causados pelas duras experiências a que estiveram submetidos parecem ainda não estar ultrapassados. Tal é facilmente constatável com um mero exercício de comparação das expressões adoptadas por muitos destes ex-presos políticos perante os “fotógrafos” da polícia política com as assumidas na produção deste trabalho, expressões fechadas que muitas das vezes, tinham por objectivo dificultar uma posterior identificação quando lograssem voltar a conquistar a liberdade.

Como co-autor do projecto «Por teu livre pensamento» tive naturalmente o privilégio de acompanhar o João Pina ao longo de parte substancial do trabalho agora exibido. Fui assim testemunha privilegiada do firme empenho e da paixão que coloca no seu trabalho, características que já lhe valeram a obtenção de merecidos reconhecimentos na área da fotografia. Neto de presos políticos, bisneto do “fotógrafo oficioso” a quem se devem as imagens que ainda hoje permitem documentar qualquer trabalho sobre o sinistro campo do Tarrafal, mais do que fechar um ciclo, este projecto aponta um rumo para o que pode ser feito pela preservação e transmissão da memória às gerações que não conheceram a ditadura.
Que não se esqueça para que não volte a acontecer.

Rui Galiza
***

Biografia de João Pina

Nascido em Lisboa, Portugal em Novembro de 1980, João Pina descobriu a sua paixão pela fotografia muito cedo. Começou a trabalhar como fotógrafo publicando regulamente aos 18 anos.
No ano de 2001, começou a documentar a vida de ex-presos políticos portugueses e estendendo actualmente esse projecto à escala mundial. Em 1987 visita pela primeira vez a ilha de Cuba e, desde o ano de 2002, iniciou um projecto fotográfico no ultimo regime comunista do mundo ocidental, aonde tem regressado com regularidade na esperança de ser um observador privilegiado nas mudanças sócio-politicas que venham a acontecer.
Desde 2004, após concluir o “One year certificate on Photojournalism and Documentary Photography” no International Center of Photography em Nova Iorque, tem desenvolvido grande parte do seu trabalho em países da América Latina onde pretende, durante o ano de 2007, estar a viver em permanência.
Pertence aos colectivos Kameraphoto (Europa) e Veras Images (EUA).Vencedor por quarto vezes de 1º’s prémios no Prémio Visão Fotojornalismo – 2003 (notícias) 2003 (Espectáculo) 2004 (Espectáculo) 2006 (Retrato).

Estado Novo contra a sedução ( exposição a ver na Galeria Sargadelos, no Porto)


A Galeria Sargadelos (Porto), assinala o 33º aniversário do 25 de Abril, com a exposição “O Pecado não Mora ao Lado: o Estado Novo contra a Sedução”.


A mostra, concebida pela Biblioteca-Museu da República e Resistência (Lisboa), evoca os costumes, a moda, os hábitos, a moral e o erotismo, na sociedade portuguesa, durante a ditadura.


Até 10 de Maio, na rua Mouzinho da Silveira, 294, Porto.


Da informação que nos enviou o Museu: “Deus nos defenda de que as nossas filhas enveredem por este último caminho de histeria colectiva. O rock and roll (…) deve ficar para além das fronteiras onde a dignidade, a pureza dos costumes a integridade da mulher são um exemplo para o mundo.” (In Crónica Feminina)


21.4.07

Cruel exploração dos trabalhadores na indústria de brinquedos na China

A batalha selvagem para conquistar as crianças e os jovens consumidores norte-americanas

As condições de trabalho nas indústrias de brinquedo da China, onde são produzidos 80% dos brinquedos vendidos nos países ocidentais, são descritas como "chocantes" numa investigação independente que serviu de base para o livro The Real Toy Stor.
De acordo com o estudo, conduzido por Eric Clark, autor do livro , os trabalhadores chineses das indústrias de brinquedos chegam a trabalhar 100 horas por semana e, frequentemente, trabalham por muitas semanas sem ter um dia de folga.
"É uma indústria indecente", afirma Clark, um jornalista inglês que conduziu as investigações.
Pelos cálculos do autor, os trabalhadores chineses ficam com apenas 1,6% do valor final do produto.
A indústria de brinquedos movimenta cerca de 30 biliões de dólares por ano. Existem actualmente mais de 150 mil diferentes tipos de brinquedo no mercado e cerca de 40% desse total é formado por brinquedos novos lançados no mercado a cada ano.
Eletrónicos
De acordo com Clark, num ano, o presidente da indústria de brinquedos Mattel ganhou mais do que a soma dos salários dos 11 mil trabalhadores nas suas fábricas na China.
Nos Estados Unidos, as duas maiores companhias de brinquedo do mundo, Mattel e Hasbro, produzem mais de um terço dos brinquedos vendidos no mundo, o equivalente a 10 biliões de dólares por ano.
Clark também destaca o facto de que o público infantil migra cada dia mais cedo para eletrónicos como o iPod ou videogames em vez de optar por brinquedos tradicionais como bonecas e carrinhos.
Como uma forma de recuperar os consumidores perdidos para a indústria de eletrónicos, os fabricantes de brinquedos tradicionais começaram a adoptar uma postura mais agressiva para vender seus produtos:"As empresas convencem algumas pessoas a passarem-se por crianças nas conversas eletrónicas e convencer as outras crianças a adquirir novos brinquedos", diz o jornalista.

A história do sexo ( série de 5 episódios do canal História)

Ao longo dos séculos, a sexualidade têm sido enaltecida com orgulho e por outro lado obsessivamente reprimida; inspirou artistas, desencadeou escândalos, e dividiu a sociedade como nenhum outro tema alguma vez o fez.
Esta série do Canal História, conta-nos a fascinante história do sexo, sem contenções nem tabus revelando a natureza humana.


Episódios:
1. Civilizações Antigas
2. O Mundo Oriental
3. A Idade Média
4. De D. Juan à Rainha Vitória
5. O Século XX


A História do Sexo é a História da Civilização.

1. O sexo no mundo antigo


A partir do momento em que o primeiro casal se juntou e se deitou, o sexo começou a influenciar a História - tal como a História começou a configurar e a definir o sexo. Sabemos como viveram as civilizações passadas, como idolatraram, lutaram
e morreram. A questão mais intrigante, no entanto, permanece: como elas se amaram?

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2. O sexo no mundo oriental

Iluminação espiritual através do sexo? Há mais de dois mil anos apareceram, na China, no Japão e na Índia, filósofos que associavam a ... all » sexualidade à espiritualidade. Através dessas crenças, os homens e as mulheres do mundo oriental descobriram que o sexo não representava somente um prazer, mas também significava a transcendência da mortalidade humana. Uma viagem às terras do exótico Oriente vai nos mostrar as gueixas, os livros de bolso chineses e as acrobacias sexuais do "Kama Sutra".

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3. O sexo na Idade Média

A Idade Média está repleta de histórias de cavaleiros corajosos, trovadores apaixonados, monges libidinosos e damas palacianas. A sua busca ... all » pelo amor redefiniu os conceitos de sexualidade, das ligações eróticas e do romance, deixando ao mundo um poderoso legado que até hoje tem impacto sobre as relações íntimas. "



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4. O sexo de dom Juan à rainha Vitória

Das orgias pervertidas do marquês de Sade às tábuas divisórias de nossos austeros pais. Das frígidas esposas vitorianas à idade dourada da prostituição e da pornografia. Do fim do século XVII até o ano de 1900, a sexualidade humana quebrou as regras da Igreja, dando origem a uma oscilação entre os freqüentes extremos políticos da repressão e do excesso.

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5. O sexo no século XX

A sexualidade continua a se desenvolver a passos incertos, em grande parte devido às inovações do século XX, tais como o cinema, o automóvel, a pílula e a Internet. O que é único acerca deste século é que o sexo está por todo lado; e suas imagens, também. Não é possível voltar atrás e colocar o gênio de volta na lâmpada. A caixa de Pandora está aberta!


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Os táxis da tortura

Novo livro:
A verdadeira história dos voos da CIA – Os táxis da tortura" , por Trevor Paglen e A. C. Thompson, editado pela Campo das Letras, Porto, 2007



Uma cidade chamada Smithfield

A pequena cidade de Smithfield fica a meia hora de distância de Raleigh, na Carolina do Norte. A cidade fica aninhada entre inúmeros hectares de pinheiros altos e esguios e as correntes lânguidas e lamacentas do rio Neuse. Aqui, a empresa Aero Contractors opera às claras. A Aero faz trabalhos para a CIA e muitos dos seus funcionários vivem na cidade. Pode-se dizer que Smithfield é uma cidade da empresa e estamos interessados em a observar de perto.

À medida que avançamos em direcção à cidade, com cerca de doze mil habitantes, localizada no condado rural de Johnston, as placas que ilustram um certo etos regional começam a acumular-se, umas atrás das outras. Um bar chamado The Last Resort, situado nos arredores da cidade, está adornado com bandeiras confederadas. Vêem-se memoriais de guerra por todo o lado. O tribunal do condado, fechado nesta Sexta-feira Santa, está adornado com cinco destes memoriais e, adicionalmente, com placas que comemoram duas batalhas diferentes da Guerra Civil. Do outro lado da rua, a Riverside Coffee Company exibe uma carta emoldurada de agradecimento dos elementos de uma companhia do Exército estacionada em Fort Bragg, nas proximidades. À medida que nos embrenhamos na cidade, vemos cartazes e placas de néon que proclamam, uma e outra vez, que Jesus é o Senhor, que Ele salva, e que a condenação eterna está sempre a alguns passos de distância. Vêem-se igrejas por todo o lado.

Mas as coisas por vezes correm mal na Terra do Senhor: os romances e os filmes de terror estão cheios de lugares-comuns sobre cidades pequenas. Nessas histórias, as cidades pequenas muitas vezes escondem um segredo profundo e aterrador. E, apesar de aquilo que acontece no aeroporto do Condado de Johnston não ser o mesmo que no filme de terror Children of the Corn, não está muito longe disso. Smithfield, tal como muitas cidades pequenas, alberga algumas coisas sobre as quais é melhor não falar.

Estamos interessados no que se passa no aeroporto local. O aeroporto do Condado de Johnston é um pequeno aeroporto regional, nos arredores de Smithfield. É pouco mais do que uma pista ao lado de um pequeno conjunto de hangares, caravanas e barracas. A maior parte dos aviões aqui estacionados são pequenos aviões a hélice Cessna pilotados por entusiastas locais da aviação. Mas a Aero Contractors, Ltd., também opera fora do aeroporto. Dirige as suas operações a partir de uma reduzida área situada a sul da pista, ao fundo de uma rua lateral chamada Charlie Day Memorial Drive. (O nome da rua sugere o negócio da Aero Contractors: Charlie Day era um mecânico da empresa de fachada da CIA, Air America.) Enquanto algumas empresas de fachada, como a Premier Executive Transport Services, são efectivamente proprietárias dos táxis da tortura da CIA, a Aero Contractors é uma das empresas que os controla e os põe a voar.

E, portanto, este pequeno aeroporto rural no coração do Condado Johnston é a última paragem de inúmeros voos de entrega de prisioneiros da CIA. Um dos mais infames aviões de tortura, o Gulfstream V, conhecido como o Expresso da Baía de Guantánamo, teve como base principal este aeroporto ao longo de cinco anos. Uma pequena frota de aviões com turbopropulsores, de fabrico espanhol, da marca Casa, e que foram vistos em todo o mundo, também aqui estão estacionados. Um Twin Otter, com o número de cauda N6161Q e operado pela Aero, efectua voos regulares até aos campos de treino da CIA, em Camp Peary. A Aero Contractors opera igualmente o infame Boeing Business Jet 737 a partir de um aeroporto próximo, situado em Kinston, na Carolina do Norte.



* * *
Walt e Allyson Caison são das poucas pessoas que vivem no Condado de Johnston que se disponibilizam para falar sobre as operações da CIA no aeroporto local. Mostram-se extremamente loquazes relativamente a este tema e são muito críticos. Na medida em que são cristãos profundamente empenhados, os Caison sentiram-se bastante perturbados quando, em Maio de 2005, o programa noticioso 60 Minutes apresentou uma reportagem sobre o caso de Khaled El-Masri. El-Masri é um cidadão alemão que foi raptado enquanto passava férias na Macedónia; acabaria por ser transportado para uma prisão secreta da CIA no Afeganistão e torturado. O programa 60 Minutes implicara a Aero Contractors e o aeroporto do Condado de Johnston no seu desaparecimento e posterior tortura. Apesar de os pilotos e pessoal da Aero que viviam na comunidade dos Caison provavelmente não terem raptado terroristas suspeitos na rua, e provavelmente também não terem sido eles a aplicar qualquer tipo de tortura, tinham, conforme sabemos, tripulado os aviões de transporte. E Walt e Allyson sabiam que os pais dos amigos dos seus filhos tinham transportado prisioneiros encapuçados, drogados e algemados para algumas das prisões mais secretas da guerra contra o terrorismo. Mais ainda, estes voos regressavam sempre a Smithfield; a base principal dos táxis da tortura situava-se nas traseiras da casa dos Caison.

Walt, um psicólogo de meia-idade, com um bigode farfalhudo e olhos gentis, há muito que tinha conhecimento daquilo que se passava no aeroporto. Ouvira falar pela primeira vez sobre a Aero Contractors enquanto escuteiro numa saída em que fora acampar com o filho. Certa noite, já muito tarde, em torno da fogueira, um dos outros pais tinha abordado a questão da "operação dirigida pela CIA no aeroporto". Walt não insistira no assunto, receando ofender o conservadorismo arreigado do outro indivíduo. A presença da CIA em Smithfield era um segredo conhecido de todos, disse Walt: "Todas as pessoas na cidade sabiam há anos que havia ali uma companhia de aviação que realizava operações para a CIA". [1]

"Analiso esta situação a partir de uma perspectiva baseada na fé, o que está certo, está certo", disse-nos Allyson. [2] Os Caison entendiam que a sua fé continha uma mensagem de justiça, uma obrigação de fazer frente à injustiça e de tratar as outras pessoas com decência, independentemente do que elas tivessem feito. Era difícil imaginar algo mais anticristão do que fazer desaparecer e torturar pessoas, pensavam eles. Mas a presença da Aero no condado, já para não falar do trabalho em que a empresa estava envolvida, não era um tema de discussão pública, disseram-nos. As poucas conversas que se verificavam entre os vizinhos dos Caison e a congregação da igreja revolviam em torno de saber se a Bíblia autorizava a tortura. Várias pessoas na igreja dos Caison tinham absoluta certeza que sim. Para tal, indicavam que, no Livro da Revelação, Deus ordenara aos enxames de gafanhotos que torturassem os descrentes.

Para Walt e Allyson Caison, falar sobre desaparecimentos e tortura no Condado de Johnston é menos abstracto do que nas páginas do Washington Post ou do The New York Times, Falar contra a tortura em Smithfield é falar, literalmente, contra as acções dos vizinhos. Todas as pessoas em Smithfield se conhecem, conhecem os vizinhos e os vizinhos dos seus vizinhos. E a Aero é o maior empregador da região. Para os Caison, falar connosco sobre tortura era semelhante a acusar as pessoas da sua cidade de participarem numa conspiração satânica. Além disso, havia fortes razões para evitar qualquer tipo de divergência. Disseram-nos que o conselho de administração da Aero é composto pelos líderes religiosos e empresariais da cidade, advogados e outros elementos proeminentes da pequena comunidade. O sacerdote da igreja dos Caison fazia parte do conselho, tal como muitos dos "membros mais respeitados da comunidade" de Smithfield, disse Allyson.



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O gestor adjunto da Aero Contractors, que dirige efectivamente a empresa, é um indivíduo chamado Bob Blowers. E, tal como muitas das pessoas envolvidas no programa de entrega extraordinária de prisioneiros, tem afirmado que a Aero Contractors não tem absolutamente ligação nenhuma com a CIA, muito menos com torturas e desaparecimentos. Quando a imprensa local começou a colocar questões sobre a Aero, Blowers insistiu que a empresa era uma companhia de aviação de voos charter genéricos e que não tinha qualquer ligação com o transporte de suspeitos de terrorismo por todo o mundo. "Operamos aqueles aviões internamente", disse ele ao Smithfield Herald. "Nenhum dos nossos funcionários foi ao estrangeiro… na verdade não sei por que motivo se verifica toda esta agitação". [3] No entanto, quando o The New York Times deu seguimento jornalístico à peça do programa 60 Minutes, Blowers reconheceu uma ligação ao governo: "Temos vindo a fazer negócios com o governo desde há muito tempo, e uma das razões para isso é o facto de não falarmos sobre o assunto". [4] Em 2006, Blowers deixou de falar com os meios de comunicação social. "Já se agitaram o suficiente as águas", disse Lamar Armstrong, o advogado da empresa, declinando os nossos pedidos de uma entrevista.

Mas a repetida insistência de Blowers quando afirma que a empresa é uma empresa de aviação de voos charter perfeitamente normal é fortemente contrariada pelos registos da empresa na Administração Federal de Aviação, e pelas histórias contadas por ex-pilotos. Por exemplo, numa carta de 30 de Novembro de 2001 do registo da FAA sobre o Boeing Business Jet 737 (o avião que transportou Khalid El-Masri, Binyam Mohammed e inúmeros outros prisioneiros para a rede de câmaras de tortura da CIA e outras prisões secretas) Blowers escreveu à Administração Federal de Aviação solicitando que fosse atribuído um número de registo à Premier Executive Transport Services.

Os documentos de manutenção do Expresso da Baía de Guantánamo também têm as marcas de Blowers: numa carta de Janeiro de 2005 para a FAA, Blowers escreveu que "o número de registo no G-V que operamos mudou para N44982" (acrescentámos o itálico). Outras cartas e documentos nos ficheiros da FAA reiteram o facto de a Aero operar vários aviões da CIA. [5] E as informações descobertas nos ficheiros da FAA são corroboradas, tal como muitas outras provas, pelos registos de voo dos aviões. Quer o Expresso da Baía de Guantánamo tenha transportado algum infeliz prisioneiro até Cabul ou dignitários de serviços secretos estrangeiros a reuniões em Washington, os registos de voo mostram sempre que os táxis da tortura regressaram a Smithfield.

O problema das tentativas de Bob Blowers de "negação plausível" é que a sua versão da "negação" simplesmente não é plausível.



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A Aero Contractors é apenas uma das mais recentes encarnações da história das linhas aéreas secretas da CIA. Na verdade, a agência controla aviões praticamente desde que existe. Começou com uma empresa chamada Civil Air Transport (CAT), constituída em 1946 por Claire Chennault, Whiting Willauer e Thomas G. Corcoran. A intenção deles era usar a companhia para apoiarem os nacionalistas chineses, já que se iniciava a guerra civil na China. Chennault era um general americano reformado com uma longa história na China; liderara os Flying Tigers (pilotos voluntários americanos que lutavam em defesa dos chineses contra os japoneses) e a Décima Quarta Esquadra da Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial. A CAT ganhava dinheiro principalmente no apoio prestado às operações paramilitares dos nacionalistas chineses. Nos seus primeiros anos, a CAT transportou militares, abastecimentos, diplomatas e executou outras missões em nome das forças em retirada de Chiang Kai-shek. No entanto, em 1949, a CAT começara a implodir, empurrada de um lado pelas fortunas cada vez menores dos nacionalistas e, do outro, pela inflação esmagadora da economia chinesa. Para sustentar a empresa, Chennault propôs ao Departamento de Estado que começasse a apoiar as forças nacionalistas no sul da China e a fornecer assistência aos guerrilheiros chineses. Chennault calculava que a entrada de dólares norte-americanos ajudaria à sobrevivência da empresa. Mas quando o Departamento de Estado recusou o plano de Chennault, o seu sócio, Thomas Corcoran, colocou-o em contacto com a Secção de Coordenação de Política da CIA, cuja designação deliberadamente vaga permitia esconder a sua função como ramo das acções secretas da CIA. Frustrada por ter de depender da força aérea militar americana e britânica para as suas operações, a CIA apercebeu-se do enorme potencial que teria se controlasse os seus próprios bens aéreos e, a 1 de Novembro de 1949, Corcoran assinou um acordo com a agência. A CAT recebeu quinhentos mil dólares para financiar uma nova base na Tailândia e para mudar a sede para Hong Kong; recebeu igualmente um adiantamento de duzentos mil dólares para conceder acesso prioritário à CIA nas operações da companhia aérea. A entrada do dinheiro da CIA, no entanto, não resolveu os problemas financeiros da CAT e, depois de recorrer sucessivamente à agência para obter fundos adicionais, a empresa acabaria por ser absorvida pela CIA. [6]

Ao longo da década seguinte, o crescente ramo paramilitar da CIA serviu-se de aviões e pilotos da CAT para expandir as suas guerras secretas: primeiro na China, depois na Coreia, depois no Vietname, em Dien Bien Phu. Em meados da década de 1950, as operações da CAT tinham começado a disseminar-se por todo o mundo, em paralelo com o alcance cada vez mais global da CIA. Na América Central, o co-fundador da CAT, Thomas Corcoran, ajudou a convencer a CIA a levar a cabo uma guerra secreta contra o líder eleito da Guatemala, Arbenz Guzmán. Além do seu papel na CAT, Corcoran era também funcionário de um gigante da agricultura, a United Fruit, uma empresa com sede nos EUA e com uma forte intervenção sobre as exportações agrícolas da América Central. Quando Guzmán ameaçou nacionalizar as plantações da United Fruit, a CIA interveio para pôr fim ao "comunismo" de Guzmán e, em seu lugar, instalou uma série de ditadores brutais. [7]

À medida que crescia o programa de acções secretas, também acontecia o mesmo à dimensão da sua frota de aviões "civis". Em finais da década de 1950 e no início da década de 1960, a agência remodelou a CAT, transformando-a na actualmente famosa Air America. A Air America acabaria por operar uma das maiores frotas de aviões civis do mundo, com 167 aviões, oito mil funcionários e muitas outras empresas subsidiárias dedicadas integralmente à manutenção da frota da Air America. [8]

Outras empresas controladas pela CIA seguiram os passos da Air America: a agência comprou uma empresa chamada Southern Air Transport passando a operá-la a partir da Florida, [9] e criou uma outra companhia aérea, a Intermountain Aviation, em Marana, no Arizona. [10] Os nomes destas empresas tornar-se-iam sinónimos de guerras secretas em todo o mundo: o nome da Intermountain Aviation ficou ligado ao assassinato de Patrice Lumumba e à ascensão do arquiditador Mobutu Sese Seko no Congo; o nome da Air America era quase sinónimo das vastas e semi-secretas guerras no Laos. E, décadas mais tarde, uma Southern Air Transport reconfigurada tornar-se-ia representativa do apoio ilegal da administração Reagan aos Sandinistas, do escândalo Irão-Contras e dos boatos persistentes de operações de contrabando de droga efectuadas pela CIA. [11]

As companhias de aviação da CIA foram praticamente encerradas na década de 1970. Depois de investigações do Congresso lideradas pelo Senador Frank Church e pelo membro da Câmara dos Representantes Otis Pike terem revelado que a CIA estivera envolvida em inúmeras actividades ilegais, incluindo a espionagem de cidadãos americanos, a tentativa de assassinato de líderes mundiais e o apoio à entrada ilegal nos escritórios do Partido Democrata no Watergate Hotel, a agência recebeu ordens de, entre outras coisas, vender os aviões da Air America um por um e, adicionalmente, de vender toda a Southern Air Transport. [12]

Mas a capacidade aérea da agência não seria anulada durante muito tempo. Em vez de a CIA deter empresas proprietárias, como a Air America, mudou de táctica, conseguindo alcançar o poderio aéreo através do recrutamento de uma rede de companhias de aviação charter independentes que mantinham contratos de exclusividade com a agência. A Aero Contractors, juntamente com outras empresas, como a Summit Aviation, a Corporate Air Services, a St. Lucia Airways e a Tepper Aviaton, são as empresas da geração seguinte, que preencheram o vazio deixado pelo desaparecimento da Air America. [13]



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Para lançar a Aero Contractors, a CIA recorreu a um antigo piloto da Air America chamado Jim Rhyne, uma figura conhecida nos círculos da espionagem e que passara as décadas de 1960 e 1970 a pilotar aviões para a agência, transportando sem alarido homens e materiais de e para o sudeste asiático durante a guerra do Vietname. Rhyne actuara como responsável máximo pelas operações da Air America no Laos, onde perdera uma perna durante um tiroteio. Pelas suas contribuições para o esforço de guerra, os Boinas Verdes tinham concedido a Rhyne uma boina honorária, e a CIA concedera a Rhyne a Intelligence Star e a Intelligence Cross, duas das suas mais importantes medalhas. [14]

Depois de ter conseguido atrair com sucesso Rhyne para iniciar a Aero Contractors em 1979, a CIA deu-lhe instruções para que encontrasse um aeroporto discreto, a não mais de três horas de distância de voo de Washington D. C. e que pudesse servir como base de operações. Segundo um antigo piloto da Aero, que pediu para não ser identificado, após a dissolução da Air America, os responsáveis da CIA disseram a Rhyne que "Precisamos de pôr novamente esta coisa em acção. Procura um local para nós". Na procura desse local, "Jim andava simplesmente de um lado para o outro em busca de aeroportos e instalações, tentando encontrar um local que permitisse apoiar as nossas necessidades", recordou o antigo piloto. Rhyne era do Sul, da Geórgia, e tencionava instalar a base da nova empresa algures abaixo da linha Mason-Dixon. Smithfield cumpria os requisitos estipulados por Rhyne: situava-se no Sul e era razoavelmente próxima de Washington. Além disso, o aeroporto era especialmente atractivo porque não tinha qualquer torre de controlo, o que significava que as operações da companhia não estariam vulneráveis aos olhares de soslaio do pessoal do aeroporto. [15]

E, na verdade, até há pouco tempo, a empresa conduziu os seus negócios com poucas investigações dos cidadãos de Smithfield. "Ninguém investigou muito profundamente", disse-nos o antigo piloto. "É apenas uma pequena cidade adormecida. Pareceu-me extremamente retrógrada".

Grande parte do trabalho que o piloto desenvolveu para a Aero era de rotina: "Noventa e nove por cento dos voos serviram apenas para transportar pessoas de um lado para o outro. Eram efectivamente coisas bastante mundanas... principalmente na Ásia Central e na América do Sul. Dedicávamo-nos aos transportes, ao aspecto logístico", explicou ele. [16]

Mas a história da Aero Contractors, tal como a de outras companhias de aviação controladas pela agência, é uma história de operações confidenciais e guerras secretas. Durante o tempo que passou na companhia, o piloto com quem falámos ajudou a CIA a efectuar ataques surpresa contra narcotraficantes na América Latina, normalmente aos comandos de bimotores com turbopropulsores. Também voou de e para o Tajiquistão, na década de 1990, transportando operacionais da agência encarregados de recuperar mísseis Stinger aos senhores da guerra afegãos. (Depois de a União Soviética se ter retirado do Afeganistão, a CIA tentou recuperar todos os mísseis Stinger, armas de alta tecnologia que são disparadas por um homem com um dispositivo colocado sobre o ombro, e que os EUA tinham distribuído aos mujahedin durante a ocupação soviética.)

Após o 11 de Setembro, a nossa fonte disse-nos que a Aero Contractors duplicou imediatamente de dimensão: "A companhia ligou-se simplesmente a uma espécie de oleoduto de dinheiro. Passaram de treze pilotos para vinte e cinco ou trinta, de um dia para o outro... Transportavam pessoas de e para Guantánamo". [17] Com esta entrada de dinheiro, a Aero expandiu a sua frota de aviões. A companhia assumiu o controlo de vários aviões de carga CASA, fabricados em Espanha e com turbopropulsores, que foram registados numa empresa de fachada denominada Devon Holding na Leasing, Inc. Passou ainda a controlar o Boeing Business Jet 737. A Aero já controlava aquele que se tornaria o Gulfstream V, Expresso da Baía de Guantánamo, antes do 11 de Setembro. [18]

Quando tomou posse do Boeing Business Jet 737, a Aero viu-se forçada a expandir a sua localização para além do Condado de Johnston, porque o seu aeroporto base era demasiado pequeno para receber o 737. A Aero rapidamente iniciou a construção de um hangar com cerca de dois mil metros quadrados no Kinston Jetport, no vizinho Condado de Wayne, onde o Business Jet viria a ficar normalmente instalado. [19]



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As revelações sobre o envolvimento da Aero no programa de entrega extraordinária de prisioneiros atraíram muitas atenções indesejadas para o condado ("levantaram poeira", nas palavras do advogado da Aero), mas seria exagerado afirmar que as revelações sobre a participação da Aero provocaram uma profunda crise espiritual no Condado de Johnston. É difícil saber se o silêncio de Smithfield sobre as actividades da Aero Contractors é resultado do medo, do conformismo ou de uma genuína apatia.

Quando alguns activistas da região do Triângulo da Carolina do Norte começaram a protestar em Smithfield, Allyson e Walt Caison foram dos poucos residentes locais que se juntaram aos manifestantes. Mas a decisão de Allyson de assumir uma atitude activa implicou ramificações mais imediatas no que diz respeito à posição que ocupa na comunidade fortemente unida do que para os manifestantes de fora da cidade. "Parece-me que estou realmente a arriscar mais porque sou agente imobiliária", disse-nos ela. O seu sustento depende da reputação que tiver entre os vizinhos, muitos dos quais trabalham para a Aero. Desde que decidiu assumir uma posição contra a Aero, ela e Walt já estiveram presentes em piquetes no aeroporto e manifestaram a sua raiva a executivos e membros do conselho de administração. Durante uma Peregrinação pela Paz e pela Justiça na Semana Santa, uma marcha que durou vários dias e percorreu vários condados, os manifestantes levaram consigo cruzes de madeira e pararam no aeroporto para rezar pelas vítimas da tortura patrocinada pela CIA, assim como pelas almas dos próprios indivíduos que praticavam os actos de tortura. Allyson foi a única residente no condado a participar. Levava consigo um cartaz em que afirmava, "aero, fora do condado de johnston". [20]

Enquanto saíamos da cidade, ficámos impressionados pela forma estranha como é possível aproximarmo-nos tanto dos voos de entrega de prisioneiros. Smithfield não é seguramente nada difícil de encontrar. E o que aqui acontece não é certamente um grande segredo: conforme descobrimos, estava escondido à vista de todos.

Notas
1- Entrevista com Allyson e Walt Caison, Smithfield, Carolina do Norte, 13 de Abril de 2006.
2- Ibid.
3- Entrevista com Jordan Cooke, 14 de Abril de 2006. Ver também Jordan Cook, "Aero Denies CIA Flight", The Herald (Smithfield – Clayton – Cleveland), 11 de Março de 2005.
4- Scott Shane, Stephen Grey e Margot Williams, "CIA Expanding Terror Battle Under Guise of Charter Flights", New York Times, 31 de Maio de 2005.
5- Ver ficheiros da Administração Federal de Aviação sobre o Boeing Business Jet N4476S, número de série 33010; e ficheiros da FAA para o N4476S, Gulfstream V, número de série 581.
6- Ver John Prados, President's Secret Wars (Chicago: Ivan R. Dee, 1996), pp. 62-64. Ver também William Leary, Perilous Missions (University: University of Alabama Press, 1984).
7- Ver John Prados, President's Secret Wars, pp. 98-106. Ver também Nick Cullather, Secret History: The CIA's Classified Account of its Operations in Guatemala 1952-1954 (Stanford: Stanford University Press, 1999).
8- Prados, p. 231.
9- Ibid., p. 184.
10- Kevin O'Brien, "Interfering with Civil Society: CIA and KGB Covert Political Action during the Cold War", International Journal of Intelligence and Counterintelligence, 1995, Vol. 8, Edição 4.
11- Ver, por exemplo, Peter Dale Scott e Jonathan Marshall, Cocaine Politics (Berkeley: University of California Press, 1998), p. 18.
12- Prados, pp. 324-325.
13- Ver Prados, pp. 374-375. Ver também Lawrence E. Walsh Firewall (Nova Iorque: Norton, 1997), pp. 74-75. Para a Tepper Aviation, ver Ted Gup, The Book of Honor (Nova Iorque: Doubleday, 2000), p. 330.
14- Para uma breve história sobre a carreira de Jim Rhyne na Air America, ver Ted Gup, The Book of Honor, pp. 245-246.
15- Entrevista com antigo piloto da Aero Contractors.
16- Ibid.
17-- Ibid.
18- Registos na FAA e de segurança de voo para o N168D, N4476S e outros aparelhos.
19- Sam Atkins, "Global TransPark Board Approves Operating Budget", Goldsboro News-Argus, 23 de Junho de 2004.
20- Ibid. Ver também Monica Chen, "Protest Ends in Arrests", The Herald (Smithfield – Clayton – Cleveland), 22 de Novembro de 2005.

[*] Autores de "A verdadeira história dos voos da CIA – Os táxis da tortura" , Campo das Letras, Porto, 2007, 184 pgs., ISBN: 978-989-625-150-5. O presente texto é o Capítulo 2 do livro.


Pedagogia Libertária versus Pedagogia Autoritária

Autor do texto: José Maria Carvalho Ferreira


1.Questões de índole metodológica e epistemológica no discurso narrativo dos especialistas da pedagogia, na generalidade dos casos, esta aparece quase sempre associada a uma visão circunscrita à utilização de um conjunto de métodos e técnicas relacionadas com o sistema educacional. É interpretada e aplicada como meio de aperfeiçoamento do comportamento humano, nos domínios físico e cognitivo, de forma a potenciar a sua capacidade de assimilação do conhecimento. Inscrita num modelo educacional racional-instrumental, a pedagogia serve fundamentalmente para melhorar os processos de aprendizagem cultural e socializar os indivíduos e grupos que vivem nas instituições escolares.

Hoje, no entanto, a pedagogia tornou-se num fim em si mesmo. Como conjunto de técnicas e métodos de acção e intervenção sobre o comportamento humano, revela-se, cada vez mais, uma disciplina com um objecto científico e um objecto de observação autónoma e específica. Esta evolução leva a que os pedagogos e especialistas afins transformem a pedagogia num objecto de compra e venda, com conceitos e metodologias próprias. Embora mantenha laços de indissolubilidade com o ser humano e a sociedade, tende a funcionar como um mero instrumento de adaptação racional dos seres humanos aos desígnios das instituições escolares, do Estado e do mercado.

Estamos, sem dúvida, em presença de um fenómeno complexo, cujos contornos científicos e metodológicos, por vezes, é difícil determinar. Em primeiro lugar, porque temos dificuldade em discernir com exactidão as fronteiras e autonomia específica do objecto científico e do objecto de observação da pedagogia. Em segundo lugar, porque enquanto conjunto de técnicas e métodos aplicados ao comportamento humano, é difícil circunscrever a sua função exclusivamente no indivíduo, prescindindo de a relacionar com toda a envolvência cultural, política, social e económica. Desse modo, não podemos restringir a análise à unidade focal professor/aluno, sem analisarmos a instituição escolar no seu todo. Mas, ao fazê-lo, somos constrangidos a perceber a instituição escolar como um sistema aberto e, logicamente, como uma realidade interdependente e em interacção com a sociedade global. Em terceiro lugar, essas relações entre a instituição escolar e a sociedade global obrigam-nos a pensar e analisar a racionalidade que está subjacente à pedagogia vigente, tendo presente os conteúdos e as formas da assunção estruturante que releva do instituinte e do instituído. Finalmente, contemporaneamente, persiste uma grande dificuldade em descortinar o sentido e a lógica de uma pedagogia que se ideologiza como espontânea, criativa e livre, quando, na maioria dos casos, ela não é mais do que um fenómeno de castração do ser humano ao serviço da racionalidade instrumental do mercado e do Estado.


O facto de estarmos em presença de um fenómeno complexo, de forma alguma devemos inibir-nos perante o mesmo. Ao tentar confrontar a essência das teorias e experiências pedagógicas de características libertárias com a pedagogia vigente de natureza autoritária, conseguimos clarificar esse dilema. Por serem duas pedagogias contrastantes, ao analisar o conteúdo e as formas mais representativas da pedagogia libertária que procuraram e/ou procuram superar a natureza negativa da pedagogia autoritária capitalista, isso permitir-me-á percebê-la e analisá-la de forma dicotómica: de um lado, a individualidade, a liberdade, a espontaneidade e a criatividade do indivíduo a constituir-se num projecto de vida integrado, do outro, a instrumentalidade da racionalidade do mercado, do Estado, do poder e da autoridade a agirem e a intervirem sobre o comportamento do indivíduo de forma tutelar e separada .


Para evitar cair em generalizações fáceis e abusivas, vejo-me constrangido a restringir o meu objecto de análise ao contexto geográfico da Europa ocidental, onde o capitalismo atingiu maior desenvolvimento. Se bem que o modelo pedagógico de características autoritárias esteja disseminado à escala mundial, não é possível visualizá-lo de forma padronizada e consistente, já que temos que ter presente o carácter discrepante dos níveis de desenvolvimento económico, político, cultural e social dos diferentes países. Pela homogeneidade civilizacional e grau de estruturação histórica da instituição escolar e da pedagogia, parece-nos mais aconselhável essa opção metodológica.


Da mesma forma que delimitámos a amplitude geográfica do objecto de análise, somos também obrigados a reduzir a sua dimensão histórica. O fenómeno pedagógico, nesse sentido, não será analisado desde os primórdios históricos da humanidade, mas a partir do momento a que se assiste a uma correlação estreita entre o advento histórico do processo de laicização, industrialização e urbanização das sociedades da Europa ocidental e a institucionalização do ensino enquanto actividade autónoma separada dos meios tradicionais que o ministravam: família, igreja e corporação .


Uma vez estabelecido o quadro epistemológico e metodológico do texto, importa, agora, referir que numa primeira fase abordarei sumariamente os conteúdos e formas mais representativas das teorias e experiências pedagógicas de características autoritária e libertária que emergiram desde a 1ª revolução industrial. De seguida, tentarei formular as tendências contemporâneas do fenómeno pedagógico que se observam no quadro das sociedades capitalistas mais desenvolvidas da Europa ocidental. Finalmente, como conclusão, procurarei construir um conjunto de hipóteses virtuais e reais que se apresentam à pedagogia libertária.

2. Pressupostos da pedagogia autoritária capitalista

Fénelon (1) personifica com alguma expressividade as características da pedagogia autoritária que prevalecia na Europa ocidental no período histórico da reforma e do renascentismo. O seu Tratado da Educação das Meninas permite-nos não só compreender o peso histórico da influência da religião cristã no processo de aculturação das crianças e dos adultos, como, ainda, perceber a função de uma pedagogia autoritária baseada na discricionaridade da autoridade do clero e dos perceptores sobre as crianças. As técnicas e métodos pedagógicos utilizados para ensinar as crianças não só permitiam a utilização de violências físicas (vergastadas, réguadas, castigos corporais e psíquicos diferenciados, etc.,), como também funcionavam no sentido da omissão e a castração da intelectualidade e sexualidade da criança através da redução da pedagogia aos desígnios de uma ordem social fundamentada nos condicionalismos do poder divino.

Para Fénelon "todas as crianças gostam de histórias. É necessário tirar partido dessas disposições naturais. Mas que se tenha cuidado em só lhes contar histórias instrutivas. As da Biblia são as melhores, porque a par do interesse que despertam, formam as bases da religião (.). O ensino religioso, mas histórico, deve começar pela distinção entre a alma e o corpo e o conhecimento dum Deus todo-poderoso, criador e conservador do Universo (.). Por esse meio preparam-se as crianças para a leitura do Evangelo e da palavra de Deus" (2). É uma pedagogia autoritária no sentido em que a razão, a liberdade e a espontaneidade criativa das crianças são coarctadas desde a infância. Por outro lado, as tipologias relacionais da transmissão de conhecimentos polarizavam-se em formas de autoridade e dominação arbitrárias do clero, pais e perceptores sobre as crianças e até sobre os adultos.

Quando em meados do século XVIII irrompe o processo de industrialização e de urbanização das sociedades situadas na Europa ocidental, o ensino e, logicamente, a pedagogia são objecto de uma reestruturação progressiva. Os múltiplos saberes - saber fazer, saber viver e saber ser – são constrangidos a um processo de adaptação funcional sob efeito da laicização e do individualismo fomentados pelo progresso e a razão. O incremento das funções e tarefas ligados à gestão e governação do Estado e dos grandes aglomerados urbanos, a proliferação de actividades socio-económicas relacionadas com os sectores industrial, comercial, agricola, assim como os transportes e as comunicações, desenvolveram de forma gigantesca as necessidades de qualificação da mão-de-obra dos diferentes grupos sócio-profissionais. Dessa realidade emerge uma nova racionalidade instrumental baseada num novo tipo de ensino e pedagogia.

Tratava-se, desde de então, de deixar o ensino escolástico e livresco sem articulações com a razão, a ciência, a tecnologia e o mundo do trabalho. Os processos de aprendizagem dos múltiplos saberes passaram a ser determinados progressivamente pelos ditames da racionalidade empresarial e estatal . O mundo da produção, consumo e distribuição de mercadorias exigia um tipo de conhecimentos que não se adequava mais a um saber contemplativo da ordem divina.

Rousseau ao escrever a seu livro Emílio (3) enunciava já algumas das premissas que a educação e a pedagogia devia assumir no sentido de uma adaptação da actividade espiritual e intelectual dos seres humanos às experiências da vida e aos diferentes ofícios.

Para ele, a pedagogia e a educação deveria transformar as crianças em adultos a partir de um processo de aculturação naturalista e científico. As diferentes fases evolutivas da criança até atingir a idade adulta passavam, previamente, por um conhecimento das virtualidades físicas do corpo humano, de seguida, por um conhecimento baseado na razão, para, finalmente, instrumentalizar-se na aquisição de conhecimentos ligados às exigências de execução de tarefas e funções correlacionados com a actividade económica de então.

Com Durkheim (4), a educação e a pedagogia assumiam fundamentalmente uma função de cientificidade. A aprendizagem de um conhecimento científico e laico deveria estar em consonância perfeita com as exigências da divisão do trabalho social das sociedades industrializadas e urbanizadas. As implicações da organização científica das empresas, das novas tecnologias, dos novos materiais e energias potenciaram não só exigências de conhecimentos humanos ao nível dos procedimentos operatórios das tarefas e funções, como inclusivé traduziu-se em novas exigências de conhecimentos no plano da adaptação física e ergonómica dos seres humanos em relação ao mundo do trabalho. Acresce a esses factos, a crescente complexidade do tecido sócio-cultural e político das sociedades de então em termos da pressão demográfica, migrações populacionais, anomia social, gestão e governação dos grandes aglomerados urbanos e do Estado. A socialização desta realidade levou a um processo de institucionalização e organização das relações sociais baseados num sistema de representatividade formal. Por esta via, a socialização do comportamento humano traduziu-se também na proliferação da exigência de novos conhecimentos.

Desde os finais do século XIX assistiu-se a um desenvolvimento progressivo desse tipo de conhecimentos em paralelo com a criação de outros que, entretanto, emergiram. Depreende-se desse contexto histórico, a assunção da evolução das características da educação e da pedagogia de tipo autoritário capitalista. Se no tempo de Rousseau (1712-1778) o advento da laicização e do individualismo tinham permitido que a educação e a pedagogia evoluissem no sentido naturalista e racional, no tempo de Durkheim (1858-1917), a industrialização e urbanização das sociedades capitalistas desenvolvidas da Europa ocidental deram origem à transformação da educação e da pedagogia autoritária num sentido racional-instrumental e laico. O Estado passa a assumir uma função de legitimidade científica para ministrar os diferentes graus de ensino (básico, secundário e universitário) e simultaneamente tutela a sua institucionalização pelas diferentes instituições e organizações de carácter privado e público.

A institucionalização progressiva da escolarização do sistema social, nos diferentes graus de ensino de forma a corresponder às novas necessidades do conhecimento humano, introduziu uma série de dilemas aos sistema educacional e pedagógico autoritário.

Em primeiro lugar, o tipo de educação e pedagogia ministrada pela Igreja, família e corporação não consegue satisfazer a procura agregada de conhecimentos de carácter científico e técnico que as novas qualificações do factor trabalho e o desenvolvimento cultural do ser humano exigiam(5). O ensino de massa, conforme a exigência dos valores da cidadania nos parâmetros da democracia burguesa, conjugados com a descodificação de linguagens complexas de carácter tecnológico e científico não se coadunavam mais com os conhecimentos humanos ministrados pela Igreja, a família e as corporações.

Por esses motivos, as relações polares entre pais/filhos na família, teólogos/leigos na Igreja e mestres/aprendizes nas corporações, que serviam de suporte a todo o sistema educacional e pedagógico tradicional, vão ser objecto de uma desintegração progressiva.

O carácter secular e público da instituição escolar ao evoluir para uma crescente dependência do Estado e do mercado, obrigou a uma reestruturação dos fenómenos educacional e pedagógico de características autoritárias. A partir de então tratava-se não de instruir e socializar a criança de forma a transformá-la num adulto e de a identificar com a ordem social vigente e o poder divino subjacente, mas de desenvolver sobretudo um tipo de ensino que possibilitasse transformar radicalmente as virtualidades físicas e cognitivas do ser humano numa função de produção e de consumo de bens e serviços de natureza mercantil capitalista. É esta racionalidade instrumental e utilitarista baseada no interesse e na competitividade pela apropriação de riqueza que as expectativas racionais dos indivíduos vão ser objecto de uma estruturação ontológica específica.
No domínio da pedagogia desenvolvem-se métodos e técnicas que potenciem a percepção do conhecimento num sentido competitivo e hierárquico. A relação entre professor/aluno pressupõe uma autoridade desigual relativamente às virtualidades de criatividade e liberdade de acesso ao conhecimento. O processo de aprendizagem de conhecimentos passa, desse modo, por formas de dominação nas relações estabelecidas entre professor/aluno. A essência ontológica dos alunos, nos planos cognitivo, psíquico e físico, é reduzida a uma função de passividade e subalternidade criativa, na medida em que a dinamização da criatividade e da espontaneidade relacionados com os múltiplos saberes é determinada hierarquicamente por aqueles que têm o poder e a autoridade sobre as questôes pedagógicas: Estado, instituições escolares, professores e diferentes especialistas da pedagogia. Doravante o corpo, o espírito e a mente dos alunos e dos professores são objecto de experiências laboratoriais, de aprendizagens sócio-cognitivas e formação científica no sentido de um aperfeiçoamento crescente das suas virtualidades, de forma a potenciarem relações hierárquicas de dominação do professor sobre os alunos no processo de aprendizagem de conhecimentos.

Esta pedagogia passa a estar articulada com uma educação que obedece a uma lógica de estratificação e de mobilidade social confinada aos ditames do Estado e do mercado. No quadro da sociedade capitalista, o rendimento, a propriedade, o "status", o poder, etc., não são usufruidos e apropriados de igual modo pelos diferentes grupos e classes sociais que constituem essa sociedade. Pela dominação e hierarquização que essa realidade encerra, os diferentes grupos sociais e classes sociais passam a dispôr de capacidades e possibilidades pedagógicas e educacionais reguladas pela competividade e concorrência do mercado, pela legitimidade institucional imposta pelo Estado e o constrangimento das relações sociais de produção capitalistas.

Neste quadro, os estratos sociais desfavorecidos, em função das suas capacidades e possibilidades económicas, sociais, políticas e culturais, tendem a reproduzir a sua condição-função, o que leva a serem preteridos no acesso ao desenvolvimento educacional e pedagógico de características autoritárias. Em última instância, o modelo educacional e pedagógico autoritário que se desenvolve durante o século XX serve fundamentalmente para reproduzir a estratificação social e a mobilidade social baseada na desigualdade económica, social, política e cultural (6).

No âmbito das teorias autoritárias há, no entanto, uma outra perspectiva que tende a analisar os indivíduos como função de racionalidade a optimizar no mercado (7). Nesta assunção, os constrangimentos estruturais e institucionais do Estado e do mercado capitalista nunca poderão inviabilizar, em absoluto, as expectativas racionais dos indivíduos no campo educacional e pedagógico.

Integrados numa lógica de acção social pautada pela percepção da análise de custo-benefício, os indivíduos são capazes, por si só, de desenvolver o seu potencial físico e cognitivo de forma a melhorarem as suas "perfomances" no quadro da mobilidade e da estratificação social . A ideologia burguesa da plena cidadania e a função positiva da democracia representativa optimizam-se plenamente, já que, nesta perspectiva, pode-se passar de burguês a operário, de ministro a sacerdote, etc., e "vice-versa", bastando somente que os indivíduos maximizem as suas expectativas racionais nos sistemas educacional e pedagógico vigentes.

No fundo, todas as experiências e as teorias identificadas com as características da educação e pedagogia autoritária capitalista apontam para uma condição-função homológica do ser humano em termos das suas capacidades e possibilidades sócio-cognitivas e físicas. Baseiam-se numa educação e pedagogia que procura formar, treinar, domesticar, desenvolver e aperfeiçoar o indivíduo desde o seu nascimento até à morte (8), permitindo-lhe funcionar como objecto de aperfeiçoamento sistemático no acesso ao conhecimento, mas constrangindo-o sempre a assumir um carácter competitivo, concorrencial, hierárquico e castrador. Obedece a uma racionalidade instrumental que é bem visível nas interdependências e complementaridades que as instituições escolares mantêm com o Estado ,o mercado e os múltiplos locais de trabalho e vida quotidiana em geral. Ou seja, o indivíduo forma e treina o seu físico e a sua mente nas instituições escolares de maneira a evoluirem posteriormente como padrão de comportamento tipificado de papéis e profissões que a sociedade e o mercado lhes permitem exercer. ~

Todo o periodo histórico do século XIX até à década de sessenta do século XX fundamentou-se na difusão de uma racionalidade instrumental do ser humano, enquanto "homo educandus," integrado e funcionalizado prioritariamente nos parâmetros da ordem económica burguesa autoritária. No entanto, não podemos deixar de observar e analisar as tipologias de saber fazer, de saber viver e saber ser que se reportam aos sistemas cultural. político e social. Nestes domínios, a educação e a pedagogia limitaram-se a socializar e a modelar as funções cognitivas e físicas dos indivíduos de forma a codificarem e descodificarem as linguagens que emergem nas instituições escolares em termos das relações entre grupos sociais e relações interpessoais confinadas aos processos de socialização dos indivíduos, aos conflitos de poder e aprendizagem de conhecimentos.

Em síntese, a educação e pedagogia autoritária capitalista assumem formas e conteúdos, cuja homologia espacio-temporal é muito representativa nos "modus vivendi" das instituições escolares, da família, do Estado, dos locais de lazer, da fábrica , do campo, do escritório e da praça pública, etc. Trata-se sobretudo de relações e de interacções sociais orientadas e presididas sempre por bases desiguais e hierárquicas, onde predomina, por um lado, a dominação, a exploração do homem pelo homem e, por outro, a mutilação da liberdade, da espontaneidade, da responsabilidade e criatividade dos indivíduos. Uma relação e uma interacção social estruturada entre os que sabem e os que não sabem (professor/aluno); entre os que decidem e os que acatam as decisões sobre as questões educacionais e pedagógicas (funcionários/professores/alunos); entre os que detém o poder de emitir ordens, controlar e punir e os que obedecem, são controlados e punidos sobre questões relacionadas com a espontaneidade e liberdade criativa do corpo e da mente dos indivíduos (professores/funcionários/alunos); entre os que orientam e institucionalizam valores, ideias, ideologias e crenças e os que são coagidos a assumi-los (sociedade/Estado; organizações/instituições; professores/funcionários/alunos); e, enfim, entre os grupos sociais dominantes que detém o poder, o prestígio e a riqueza e os grupos sociais dominados que deles são desprovidos (classes e grupos sociais /professores/funcionários/alunos).

Toda a educação autoritária se baseia na difusão de um conhecimento cuja eficiência e eficácia se mede por dar corpo e forma a essa realidade social estratificada desigualmente. Toda a pedagogia autoritária tem por objectivo nuclear desenvolver e aplicar um conjunto de técnicas e de métodos capazes de aperfeiçoar, treinar e formar as virtualidades sócio-cognitivas e físicas do ser humano como função de produção e de reprodução da sociedade vigente. A pedagogia autoritária é, desse modo, uma função de adaptação dos indivíduos que se enquadra no processo de aculturação dos indivíduos em relação à assimilação dos múltiplos saberes que relevam dos imperativos educacionais da evolução da sociedade capitalista no contexto geográfico da Europa ocidental e no resto do mundo.

3. Pressupostos da pedagogia libertária Como fenómeno de reacção às contradições e limitações do modelo autoritário capitalista, no período histórico em análise, desenvolveram-se na Europa ocidental experiências e teorias libertárias no campo educacional e pedagógico.

Essas experiências e teorias, embora tenham uma abrangência geográfica e social muito reduzidas, demonstram, no entanto, um conjunto de virtualidades potenciadoras de uma educação e de uma pedagogia que pretende ser, em princípio, a negação do modelo precedentemente analisado. Importa, pois, compreender e explicitar a pedagogia e a educação de caraccterísticas libertárias enquadradas em práticas sociais e humanas presididas pelos valores da solidariedadade, da liberdade, da autogestão, da espontaneidade e da criatividade integradas num todo social harmónico. Estes são os denominadores comuns das experiências e teorias mais representativas que se enquadram na educação e pedagogia libertária.

Os fundamentos desta perspectiva, em primeiro lugar, radicam no facto de que as experiências e as teorias mais representativas não separam arbitrariamente a educação e a pedagogia do todo social em que se integram. Subsiste entre a pedagogia, a educação e a sociedade uma relação de interdependência e de complementaridade sistemática, o que implica correlacionar as funções de adaptação e de integração entre as partes (pedagogia e educação) e o todo (a sociedade).
Em segundo lugar, essas experiências e teorias emergiram enquanto fenómenos de crítica radical da sociedade vigente e visualizavam a implementação de um modelo de sociedade libertária, na qual a educação e a pedagogia subentendiam relações sociais e práticas humanas identitárias entre indivíduos e grupos que interagem nas instituições escolares. Os objectivos são a extinção das relações de dominação e de exploração que subsistem entre professores, alunos e funcionários e que trabalham e vivem nas instituições escolares, de forma a permitir que a espontaneidade, a liberdade, a criatividade e a responsabilidade natural dos indivíduos pudessem emergir para configurações sociais integradas num modelo autogestionário de características libertárias. A educação e a pedagogia não se separam da vida no sentido estrito do termo e dessa forma o acesso aos processos de aprendizagem de conhecimentos não tinham limites de qualquer espécie, quer aqueles relacionados com o organismo humano nas suas múltiplas dimensões, quer aqueles relacionados com o conhecimento da natureza e da sociedade.
Na Europa ocidental, as experiências históricas e as teorias que emergiram desde os finais do século XVIII até aos nossos dias foram várias. Por questões de síntese no âmbito deste texto, limitar-me-ei a enunciar os postulados teóricos centrais que foram comuns à maioria dos autores anarquistas - William Godwin (1756-1836), Max Stirner (1800-1856), Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), Miguel Bakounine (1814-1876), Paul Robin (1837-1912), Pedro Kropotkine (1842-1921), Sebastien Faure (1859-1909) (9) - e a sumariar as experiências históricas mais representativas que ocorreram nesse período até aos nossos dias.

A questão da liberdade como expressão genuina da criatividade e de espontaneidade dos indivíduos no processo de aprendizagem dos conhecimentos sempre teve e tem uma grande relevância para a maioria dos autores anarquistas. William Godwin ao escrever Investigações sobre a Justiça Política em 1793 e o Investigador em 1797 dá-nos uma visão crucial para compreender a essência de uma pedagogia e de uma educação alicerçada na liberdade dos indivíduos. Para Godwin o problema central da pedagogia e da educação não se confina à transformação do aluno num adulto sujeito aos desígnios autoritários do Estado e do professor. A liberdade do indivíduo não deve ser sujeita a nenhuma restrição, salvo aquelas que vão no sentido da mutilação da criatividade e espontaneidade natural dos indivíduos. A experiência da vida nas suas múltiplas manifestações comportamentais deverá servir como base essencial para um desenvolvimento livre e espontâneo dos indivíduos no processo de aprendizagem cultural (10). Nenhum Estado ou outro tipo de autoridade moral (professor, Deus, etc.,) poderia pedagogicamente sobrepôr-se aos desígnios soberanos do aluno como ser essencialmente livre e criador. Para conquistar essa liberdade e felicidade criadora é preciso que o ser humano, desde criança, ganhe o hábito e o método de aprender por si mesmo, sem depender de quaisquer tutela moral, política ou religiosa.

Para Godwin, qualquer projecto de educação nacional revelava-se contraproducente. A escola pública (tão cara a muitos socialistas e republicanos laicos) sob tutela de um governo nacional e do Estado encarregar-se-ia, em todas as circunstâncias, de difundir um tipo de ensino e de pedagogia que cerceava inevitavelmente a liberdade e a criatividade dos indivíduos e reforçava, simultaneamente, o poder do Estado e das suas instituições.

Max Stirner, embora não tivesse uma visão tão globalista e integrada como Godwin, pensou a educação e a pedagogia como um hino de criatividade e liberdade circunscritos à soberania absoluta do indivíduo face a todos os poderes ou autoridades exteriores ao mesmo (11). Nesta assunção, o indivíduo, ao assumir-se como uma função de soberania relativamente ao outro ou aos outros instituidos em instituições de diferentes tipos e no Estado, só assume a criatividade e espontaneidade plena nos planos educacional e pedagógico, quando usufrui do máximo de liberdade e de individualidade. A figura do pedagogo, do professor e/ou do funcionário administrativo das instituições escolares revelam-se, por tais motivos, instrumentos de negação da liberdade e da individualidade dos seres humanos. A existência de um processo de aprendizagem de conhecimentos de incidência social , nestes termos, só poderia estruturar-se numa sintese única e indivísível: a emergência de uma sociedade hipoteticamente anarquista. Só o ser humano, enquanto entidade ontológica única,poderia evoluir para uma soberania de indivíduos livres que construiam e desenvolviam pedagogias e educações múltiplas, mas simultaneamente passíveis de se integrarem numa mesma síntese societária anarquista.

Um dos outros elementos centrais das teorias anarquistas reporta-se à perspectiva
autogestionária e integrada da pedagogia e da educação. Por um lado, o fenómeno da educação e da pedagogia só é passível de entendimento se o contextualizarmos no âmbito da sociedade global, por outro, só através do desenvolvimento de uma sociabilidade e socialização de carácter fraternal e solidário permitir-nos-ia falar verdadeiramente de uma educação e de uma pedagogia libertária. A auto-organização e auto-responsabilização dos indivíduos no processo de aprendizagem de conhecimentos não somente deveria enquadrar-se numa acção social criativa e espontânea, mas também tendo presente os valores e as finalidades últimas da emancipação dos indivíduos numa perspectiva autogestionária e integrada.

Proudhon foi um dos autores que maior preocupação teve relativamente a esta questão central. Esse facto deriva, em parte, das suas análises sobre o federalismo, o mutualismo, o sindicalismo revolucionário e a autogestão. A ordem social e económica que defendia num sentido de uma sociedade libertária construia-se basicamente a partir do trabalho e dos trabalhadores livres e emancipados. A educação e a pedagogia inscrevia-se nesta orientação primacial e funcionavam como o motor de aprendizagem dos conhecimentos necessários a toda actividade económica, profissões, ofícios e vida cultural e social em geral. Este carácter integrado da educação passava por um processo de socialização fundamentado na autogestão. A partir dos múltiplos locais de trabalho, das escolas de diferentes tipos e graus de ensino, etc., os indivíduos deveriam auto-organizar-se de forma a que o processo de aprendizagem de conhecimentos estivesse correlacionado com a sua vida quotidiana e estivesse identificado com os processos de decisão e transmissão de conhecimentos baseados em relações sociais fraternas e solidárias .

Para Proudhon, o ensino ministrado pelo sistema de educação burguês limitava-se a reproduzir um tipo de conhecimentos que embrutecia e desenvolvia atavismos comportamentais nos trabalhadores, transformando-os em máquinas obedientes e escravas da lógica exploradora e opressiva do Estado e da burguesia. Na medida em que considerava o trabalho como fonte criadora da ordem social e económica da sociedade futura, o seu projecto educacional e pedagógico está muito ligado ao mundo do trabalho. Para libertar o trabalho do jugo da opressão e da exploração capitalista e estatal, numa sociedade libertária, a instrução e a educação dos trabalhadores assumia uma importância capital.

Na perspectiva de Proudhon, as diferentes escolas públicas e privadas não deveriam estar desligadas da experiência, do raciocínio científico, dos locais de trabalho e da vida quotidiana em geral (12). A integração do ensino intelectual e manual numa síntese criativa humana permitiria a sua inserção espacio-temporal em todas as actividades sociais, económicas, políticas e culturais. Para a consecução desse objectivo, haveria três modalidades para ministrar a instrução e a educação: pelos pais nas suas famílias e domicílios, pelas escolas privadas em obediência aos seus particularismos, profissionais, ideológicos e geográficos e, ainda, as escolas públicas com uma abrangência social alargada e baseada em pressupostos federalistas.

As relações entre professores e alunos inscreviam-se num quadro estrutural autogestionário, mutualista e federativo. A auto-organização da educação e da pedagogia baseava-se em pressupostos de solidariedade e fraternidade o que, em princípio, inviabilizaria todo o tipo de relações hierárquicas traduzidas em tipos de autoritarismo e de dominação entre professores e alunos. Os professores dependiam das comunas ou federações distribuidas por departamentos e provincias. A escola pública, nas suas múltiplas funções de instrução e de educação, enquadrava-se organicamente numa sociedade global descentralizada e federalista, opondo-se, dessa forma, às concepções centralistas e monopolistas do ensino tutelado pelo Estado. Pedagogicamente, a escola modelo para Proudhon é a "escola-oficina" que permitia um processo de aprendizagem de conhecimentos politécnicos. A politecnia era uma pedagogia que permitia um acesso ao conhecimento dos diferentes ofícios, através da experiência e da racionalidade científica e simultaneamente de relações sociais espontâneas e simples, sem hierarquias e autoridades morais exteriores ao indivíduo e ao colectivo a que pertencia.

Bakounine não foi de forma alguma um autor profícuo na análise do fenómeno educacional. A razão fundamental dessa assunção radica na expressividade da sua luta pela transformação radical da sociedade capitalista e, ainda, devido ao facto de analisar a questão da educação e da pedagogia no quadro da sociedade libertária futura. Neste sentido, a sua visão colectivista do anarquismo embora estivesse pautada pela liberdade, a criatividade e espontaneidade dos indivíduos, a sua inserção nos parâmetros da sociabilidade e socialização humana transcritas em tipologias interactivas e relacionais de características solidárias e fraternas, leva-nos a interpretar o fenómeno educacional e pedagógico como algo que se integra e adapta aos desígnios de emancipação social, económica, política e cultural da sociedade libertária. Assim sendo, a criatividade e espontaneidade dos indivíduos como a sua liberdade e responsabilidade transcende o quadro de aprendizagem de conhecimentos na qual se inscreve o fenómeno pedagógico e educacional (13). Mais do que privilegiar a análise das relações polares professor/aluno, para Bakounine haveria que abolir o Estado e as relações sociais capitalistas a nível de toda a sociedade e, logicamente, o tipo de autoridade hierárquica e dominação que emerge na instituição escolar,. Neste amplo sentido, a tipologia das relações sociais anarquistas encarregar-se-iam de estruturar de uma forma livre, espontânea, responsável e criativa a inserção dos indivíduos na sociedade e nas suas unidades constituintes.

A educação, tal como a pedagogia, inscrevia-se neste quadro típico relacional e interactivo dos indivíduos, daí que em termos de processo de aculturação sócio-cognitivo e físico dos indivíduos não pudesse ser objecto de uma aprendizagem de conhecimentos diferente daquela que ocorria em toda a sociedade libertária.

Kropotkine sempre viu o fenómeno educacional e pedagógico como uma função crucial na formação dos jovens, como também o conceptualizou no sentido da emancipação dos trabalhadores (14). O conhecimento da vida, da natureza e da sociedade esteve sempre no centro das suas preocupações . Esse conhecimento permitiria destruir os factores que condicionavam a inteligência humana de percepcionar e interpretar científica e racionalmente os fenómenos que observava, mas também permitiria ao ser humano construir-se como ser individual e ser social emancipado de poderes e autoridades exteriores à sua identidade intrínseca.

A educação e a pedagogia libertária, nesse sentido, diferentemente da pedagogia e educação burguesa, deveria actuar de forma a que subsistisse sempre uma identidade entre tudo aquilo que se aprende e os requisitos inquestionáveis da emancipação individual e social: isto é, a aprendizagem de um conhecimento traduzido na potenciação da liberdade, da criatividade, da espontaneidade, da fraternidade e solidariedade humana .

Assim, tal como era importante formar jovens de forma a torná-los responsáveis e activos enquanto agentes de transformação radical da sociedade capitalista, para Kropotkine , a pedagogia e a educação libertária deveria desenvolver-se em sintonia com a assimilação de um conhecimento compatível com as necessidades de produção, de distribuição e consumo de bens e serviços inerentes ao funcionamento de uma sociedade libertária. A aprendizagem desse conhecimento deveria basear-se na realidade experimental dos múltiplos aspectos da vida quotidiana e do trabalho e fundamentar-se num equilíbrio ecológico de características identitárias com a natureza e seus elementos constitutivos. Nestes parâmetros, as comunidades pedagógicas e educacionais de Kropotkine enquadravam-se numa perspectiva de relações sociais fraternas e solidárias entre professores e alunos, eliminando-se os fenómenos relacionais interpessoais presididos pela dominação e exploração do homem pelo homem.

As experiências pedagógicas e educacionais libertárias que consideramos mais representativas, e que passamos de seguida a descrever, não devem ser vistas como qualquer prova de desvalorização em relação a todas as outras que omito. Esta omissão decorre, em primeiro lugar de opções metodológicas e epistemológicas, como enunciei logo de início neste texto e também porque há que referenciar aquelas que assumiram maior força simbolica no quadro da perspectiva libertária.

No campo das experiências libertárias, aquela que foi realizada por Paul Robin no orfanato de Cempuis (França), entre 1880 e 1894, foi dinamizada no sentido de dar uma formação integral às crianças nos domínios psíquico, físico e mental (15). Esta experiência, embora estivessse enquadrada institucionalmente no sistema escolar público da França, fundamentou-se numa perspectiva educacional e pedagógica libertária que Paul Robin protagonizou durante toda sua vida de professor. Os constrangimentos estruturais e institucionais impostos pelo meio ambiente dessa experiência não impediu que o orfanato de Cempuis reorientasse a educação e a pedagogia no sentido das crianças viverem o espaço-tempo da escola num clima de liberdade, de criatividade e de espontaneidade. A educação física, intelectual e moral constituiam as bases de formação das crianças, desde a infância até à adolescência. O corpo era sujeito e objecto de uma aprendizagem baseada em conhecimentos naturais e espontâneos e eram conjugados com jogos lúdicos.

A alimentação fundamentava-se em práticas naturalistas e actividades de lazer acompanhados de um diálogo de aproximação e de identidade com a natureza. A educação intelectual estava intimamente relacionada com a vida quotidiana dos alunos e professores, evitando-se o abuso de um ensino livresco e escolástico. No plano da educação moral estimulava-se, no aluno, a defesa de valores que se orientavam por princípios humanistas e emancipalistas, procurando-se incutir no espírito das crianças o sentido lógico da liberdade e da fraternidade entre os indivíduos. A relação entre professores e alunos inseria-se num esquema pedagógico de igualdade na discussão e explicação de todos os fenómenos estudados. A coeducação e a relação de liberdade e de igualdade entre rapazes e raparigas foi também estimulada. A experiência educacional e pedagógica de Paul Robin, em Cempuis, teve o seu epílogo em 1894, porque, em última instância, era demasiada radical para a época e punha em perigo a essência da educação e pedagogia burguesa de carácter autoritário. Não admira, portanto, que tivesse soçobrado perante os ataques difamatórios que sofreu da Igreja e do sistema escolar vigente.

Sebastien Faure pode ser enquadrado no campo das experiências educacionais e pedagógicas mais representativas no meio libertário, pese embora a sua obra e vida estar muito ligada aos meios anarquistas mais como intelectual e militante de grande envergadura. Na sua perspectiva de luta por uma sociedade anarquista, a educação e a pedagogia assumiam uma função estruturante de crucial importância para a emancipação das massas trabalhadoras. O projecto educacional e pedagógico de Sebastien Faure, por esse motivo, não podia circunscrever-se nos parâmetros e condicionalismos da educação e pedagogia burguesa, mas integrar-se plenamente nos objectivos e estratégias da revolução social (16). Embora seguindo, em grande parte, os passos de uma educação integral preconizada por Paul Robin nos planos intelectual, moral e físico, diferentemente deste, no entanto, fundamentou a construção de uma escola libertária apoiada em princípios e práticas autogestionárias, sem depender da tutela institucional e pedagógica estatal.

Nestes termos, em 1904, sob auspícios de Sebastien Faure é criada uma escola denominada A Colmeia, em Rambouillet (França). Em Rambouillet, não só foi dinamizado uma aprendizagem de conhecimentos manuais e intelectuais numa perspectiva integrada, como, ainda, todo esse conhecimento estava harmonicamente correlacionado com as necessidades de produção, de consumo e de educação da cooperativa integral A Colmeia. Na medida em que persistia uma interligação entre produção, consumo e educação, os aspectos organizacionais e pedagógicos eram estabelecidos mediante decisões e relações sociais de características autogestionárias e libertárias.

A criatividade, liberdade e espontaneidade dos alunos e professores permitia-lhes uma auto-organização e uma auto-responsabilização no processo de aprendizagem dos múltiplos saberes que estavam intimamente associados e, simultaneamente, orientavam o comportamento dos diferentes cooperantes no sentido da aprendizagem de conhecimentos integrados, opondo-se à separação entre trabalho manual e intelectual e à descontinuidade espacio-temporal entre os momentos de aprender e os de trabalhar.

Para os anarquistas e sindicalistas revolucionários que aspiravam libertar as massas trabalhadoras da exploração e a opressão exercida pelo Estado e a burguesia, ao criarem uma cooperativa estruturada em princípios e práticas autogestionárias e libertárias, significava criar as condições básicas para educá-las, de forma a extinguir essa realidade negativa e desenvolveram a sua luta no sentido da revolução social. Estava-se, portanto, a desenvolver uma experiência autogestionária em que as massas trabalhadoras tinham um espaço de manobra estratégica para dinamizarem um projecto educacional e pedagógico de características populares.

A liberdade, a criatividade e a espontaneidade existentes entre alunos, professores e restantes cooperantes ao permitirem uma aprendizagem de conhecimentos numa perspectiva integral, desenvolviam profecientemente o intelecto, o físico e a moral das crianças. Em termos pedagógicos acentuava-se a autonomia e a liberdade das crianças, privilegiava-se o estudo das diferentes ciências numa perspectiva racionalista e prescindia-se da classificação dos alunos em moldes hierarquizados. A cooeducação fundamentava-se numa base igualitária nas relações sociais estabelecidas entre rapazes e raparigas. Na medida em que esta experiência decorria, em grande parte, das capacidades e possibilidades humanas e financeiras de Sebastien Faure e do sindicalismo revolucionário francês da época, com a crise social e económica proveniente das mazelas da primeira guerra mundial, A Colmeia teve que fechar as suas portas em princípios de 1917.

Francisco Ferrer foi sem dúvida alguma uma figura proeminente no domínio da luta por uma educação e pedagogia de essência libertária. Através da sua acção persistente criou um modelo de Escola Moderna que teve grandes repercussões históricas na Espanha e, em menor grau, noutras partes do mundo: Brasil, Portugal, Suissa, Holanda, etc. Com intenções explícitas de lutar contra a ignorância e o analfabetismo endémico que perpassava a Espanha, Francisco Ferrer ao desenvolver a sua perspectiva racionalista e laica de ensino, depressa encontrou grandes resistências e oposição por parte da Igreja Católica que tinha uma influência clerical hegemónica sobre o sistema educacional e pedagógico espanhol.

Propriamente dito, a experiência da Escola Moderna teve o seu início, em Barcelona, no ano de 1904, e generalizou-se de seguida em outros locais na Espanha. Para além de seguir alguns dos passos educacionais e pedagógicos que Paul Robin tinha já desenvolvido em Cempuis, a estratégia e os objectivos da Escola Moderna enquadravam-se num regime de coeducação de crianças,com rapazes e raparigas em situação de igualdade , e na alfabetização de adultos.
Sem pôr em causa a sua essência libertária, o que singularizava, porém, a força da acção da Escola Moderna era o seu carácter laico e racional (17). Em uma sociedade, como era o caso da Espanha de então, modelada espiritual e físicamente pelo poder despótico do ensino clerical da Igreja Católica, criar e dinamizar um projecto educacional e pedagógico libertário por todas as regiões de Espanha, revelava-se, no mínimo, um perigo e uma afronta para todos os poderes instituídos: Estado, burguesia e Igreja. No fundo, era um tipo de escola que procurava fazer da educação e da pedagogia um instrumento de desenvolvimento humano das crianças e dos adultos numa perspectiva racionalista e ateia e simultaneamente criar as bases emancipalistas das classes trabalhadoras e do povo em geral.

Pelos constrangimentos em que decorria, a integração da educação moral e física não atingiram o mesmo nível de desenvolvimento das experências que ocorreram em Cempuis e Rambouillet. Deverá, ainda, sublinhar-se que os seus objectivos de educação popular foram custeados pelos pais dos alunos e/ou pelos próprios alunos adultos, mas sempre em função das suas capacidades financeiras específicas.

Com o fusilamento de Francisco Ferrer em 1909, em Barcelona, sob as ordens de Afonso XIII, a experiência libertária da Escola Moderna sofreu um rude golpe nas suas aspirações de expansão. Após esse acontecimento trágico, o projecto de Francisco Ferrer foi-se desintegrando progressivamente. Porém, isso não impediu que a sua força simbólica no campo das experiências pedagógicas e educacionais libertárias deixasse rastos para sempre no imaginário colectivo anarquista, quer em Espanha, quer no resto do Mundo.

A revolução espanhola, de 1936-1939, revelou-se uma experiência no campo pedagógico e educacional libertário que não podemos desprezar. Em primeiro lugar, porque ela foi realizada no quadro das contingências de uma transformação radical da sociedade capitalista espanhola. Em segundo lugar, porque os constrangimentos e os condicionalismos da sociedade global em relação ao funcionamento interno das instituições escolares eram menos relevantes.
O projecto educacional e pedagógico apresentado pela CNT (Confederação Nacional do Trabalho) no Congresso de Saragoza, em Maio de 1936, é bastante elucidativo a esse respeito. É certo que o projecto educacional e pedagógico consubstanciado na Escola Nova Unificada só foi implementado após o início da revolução espanhola, em Julho de 1936, e, em grande medida, não teve os efeitos práticos que o Congreso de Saragossa pretendia. Isso, porém, não invalida que, na região da Catalunha e outras regiões onde a CNT tinha uma certa influência, fosse implementado um processo de aprendizagem de conhecimentos pautado pela força estruturante da liberdade, da criatividade e espontaneidade dos alunos, professores e restantes pessoas que estavam integrados no projecto autogestionário de educação e pedagogia libertária (18).

O insucesso relativo desta experiência, em grande medida, deve-se ao epílogo da revolução espanhola em 1939 e também porque o funcionamento quotidiano da Escola Nova Unificada foi perpassado por um conjunto de contradições e conflitos resultantes das alianças realizadas pela CNT com os diferentes sindicatos que estavam sob tutela dos partidos socialista, comunista e republicano.

Mesmo sabendo que existiram e existem um conjunto de experiências libertárias no campo da educação e da pedagogia, pelas diferentes partes do planeta, não gostaria porém de fazer uma pequena referência a alguns exemplos que se enquadram, de certo modo, nas suas virtualidades. Refiro-me, concretamente, às experiências de Alexander Sutherland Neil, iniciada em 1921, Summerhill (Inglaterra) (19), às Comunidades Escolares de Hamburgo (20), iniciadas em 1919 na Alemanha, durante a vigência da Republica de Weimar e, finalmente, ao projecto educacional e pedagógico desenvolvido pelo Colectivo Paideia em Mérida (Espanha) desde há vários anos (21).

Não obstante saber das diferenças subsitentes entre essas experiências que foram objecto de análise, todas elas, no entanto, procuraram e procuram extinguir ou superar os factores que estão na base dos constrangimentos e na negação da emergência de um projecto educacional e pedagógico fundamentado na liberdade, espontaneidade, criatividade e responsabilidade dos indivíduos, sem que para tal haja necessidade de amos ou senhores ou de qualquer poder ou autoridade exteriores a esse projecto.

4. Actualidade da pedagogia autoritária e hipóteses históricas para a pedagogia libertária

Como enunciei no início do texto, a pedagogia e a educação são impossíveis de separar mecanicamente do contexto global de que fazem parte e onde ocorrem: a sociedade global. Este carácter de interdependência e de complementaridade sistemática entre as diferentes realidades permite-nos compreender e interpretar, com maior rigor e verdade, os conteúdos e formas que a pedagogia e a educação autoritária capitalista assume, nos nossos dias, na Europa ocidental. Se fizermos da instituição escolar o nosso objecto de observação científico, somos constrangidos, inevitavelmente, a analisar três aspectos essenciais: 1) que tipo de ensino é ministrado pelas instituições escolares?; 2) que relações sociais e tipologias interactivas emergem no quadro do funcionamento interno das instituições escolares?; 3) que tipos de articulações e adaptações existem entre a instituição escolar, o Estado, o mercado, empresas e outras instituições que fazem parte da sociedade?

Assim quando, hoje, tentamos descortinar o tipo de ensino que é ministrado pelas diferentes instituições escolares, torna-se, quase impossível, analisá-lo exclusivamente como expressão genuina dos interesses e necessidades dos indivíduos e grupos que o asssimilam, nem conseguimos vivê-lo e pensá-lo como algo neutral ou abstracto. Na generalidade dos casos, o tipo de ensino ministrado reflecte as necessidades de desenvolvimento cultural dos indivíduos que compõem uma dada sociedade e, por outro lado, serve de padrão de instrução e de veiculação de saberes múltiplos que se adequam à produção e reprodução da sociedade em que o mesmo se insere. Em face desta realidade, existe um tipo de educação que tem por função o desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos e, por outro lado, a função de aprendizagem sócio-cultural, polí;tica e económica no quadro de uma sociedade específica.

No entanto, quando nos reportamos à esssência racional e instrumental da educação relacionada com um tipo de ensino que é ministrado nas escolas, liceus e universidades dos países capitalistas desenvolvidos da Europa ocidental, depressa nos apercebemos que estamos a referenciar uma educação bem específica. Nesta óptica, o que persiste como modelo educacional está basicamente identificado como o desenvolvimento dos indivíduos nos domínios sócio-profissional, do poder, do "status", da propriedade e da apropriação e usufruto de bens e serviços sob as mais variadas formas. O ensino nos seus diferentes graus hierarquiza e legitima institucionalmente todos os indivíduos que se integrarão numa função de saber em determinado grupo sócio-profissional, ao mesmo tempo que isso lhes possibilita uma contrapartida do exercício desse saber corporizado num sistema de recompensas políticas, sociais, económicas e culturais. Por essa via podem mobilizar-se e integrar-se na escala hierárquica da estratificação social da sociedade .

Esta identidade racional-instrumental, que existe entre o tipo de ensino ministrado x=saber do indíduo x=profissão x= lugar na escala da estratificação social x, está, no entanto, a sofrer uma grande transformação. Nem o tipo de ensino coincide exactamente com as necessidades funcionais e de regulação do mercado, do Estado e da sociedade em geral, como inclusivé o que se aprende nas escolas, liceus e universidades não se identifica com a maioria das expectativas racionais e instrumentais dos indivíduos nos múltiplos domínios da sua articulação com vida de todos os dias na sociedade. Não funcionando plenamente este tipo de ensino racional-instrumental, assiste-se ao desenvolvimento de fenómenos que originam a desintegração social .

A desedequacção persiste com cerca de 30 milhões de desempregados na Comunidade Económica Europeia que, entretanto, tinham sido alfabetizados pelo sistema escolar mas não encontraram aplicabilidade prática no mundo do mercado do trabalho .

Esta tendência do modelo educacional autoritário capitalista demonstra-nos que nem o Estado, nem o mercado, nem a sociedade capitalista conseguem socializar e regular com a eficácia requerida o tipo de ensino que é dinamizado pelas diferentes instituições escolares públicas e privadas. Estas, em contrapartida, são, cada vez mais, meros reservatórios para estruturar a integração social de indivíduos marginalizados e desocupados. Mais do que ministrar um tipo de ensino para promover e desenvolver culturalmente os indivíduos, trata-se antes de socializar e controlar indivíduos em espaços fechados, durante um certo número de horas, de forma a impedir que se tornam agentes de marginalidade e de desintegração social.


Para agravar a disfuncionalidade da racionalidade instrumental da educação autoritária capitalista, com a emergência de novos desafios ao sistema educacional vigente impostos pelas novas tecnologias, a crise ambiental, a pressão demográfica, a marginalidade social e a desintegração social, etc., assiste-se à exigência de novos conhecimentos cujas linguagens complexas e sofisticadas são muito difíceis de descodificar. Os múltiplos saberes que estão correlacionados com essas novas exigências de conhecimento humano são, no entanto, paradoxais para o sistema educacional autoritário capitalista. Isso ocorre porque, em grande medida, muitas das manifestações críticas que a sociedade capitalista atravessa são o resultado lógico da aplicabilidade concreta da educacção racional-instrumental subsistente. Nas circunstâncias, dinamizar novos conhecimentos ao ser humano de forma a superar a actual crise corporizada no ambiente, marginalidade social, desintegração social e pressão demográfica, etc., revela-se paradoxal, já que foi o processo de aculturação racional-instrumental dos indivíduos que está na base dessa crise.

A partir do momento que nos situamos na análise da educação e da pedagogia, estamos, quase sempre, a compreender e interpretar as instituições escolares na lógica do seu funcionamento interno. Em termos sócio-culturais e políticos, essa realidade interna é fundamentalmente um espaço de interacção social e de significados simbólicos para os professores, alunos e funcionários. É uma realidade atravessada por uma intervenção social de significados simbólicos que se consubstancia em tipologias interactivas e relações sociais padronizadas que põem em acção, jogos e formas de poder, atitudes, valores e conflitos diferenciados.


Desse contexto emergem relações sociais padronizadas que são legitimadas institucionalmente pela sociedade e o Estado em que as instituições escolares operam. Os valores e as ideologias da sociedade traduzem-se, por outro lado, em normas e regras prescritivas que orientam e sancionam um comportamento humano padronizado de todos aqueles que integram as instituições escolares. Desse modo, toda a pedagogia e a educação é objecto de uma socialização traduzida em papéis e funções específicas do professor, do aluno e do funcionário que foram, na ocorrência, legitimados e formalizados previamente pelas instituições tutelares do Estado e da sociedade. Há, portanto, níveis hierárquicos de autoridade formal que determinam à partida quem pode e deve exercer o poder dentro da instituição escolar. As tarefas e funções do professor, a partir do momento que obedecem a uma lógica normativa e prescritiva, leva a que o seu papel se traduza numa função de discricionaridade pedagógica e educacional de tipo autoritário nas relações que têm com oa alunos. Embora inscritos num outro plano relacional, o mesmo poderemos afirmar em relação aos papéis que decorrem da autoridade formal dos quadros administrativos superiores, os professores e os funcionários subalternos das instituições escolares. Mesmo sendo relações sociais vinculadas por diferenças de estatutio sócio-profissional, entre os vários grupos subsistem modalidades de acção e de intervenção mediatizadas pela autoridade hierárquica formal legitimada pela instituição escolar.

As relações sociais entre alunos e funcionários também passam por mecanismos relacionais de poder. É no poder de decisão burocrático-administrativo que se observa expressivamente o poder dos funcionários sobre os alunos e, muitas vezes, sobre os próprios professores. As relações de poder entre professores, alunos e funcionários, na medida em que são atravessados por fenómenos de dominação, geram um conjunto de conflitos quando os processos comunicacionais e de decisão relacionados com a aprendizagem de conhecimentos ocorrem nas instituições escolares. É evidente que o exercício do poder formal legitima um tipo de autoridade que se manifesta na aplicação de uma pedagogia autoritária. A codificação e a descodificação das linguagens inerentes aos múltiplos saberes veiculados pelos professores, e que são objecto de percepção por parte dos alunos, não permitem que as potencialidades cognitivas e físicas dos alunos se exprimam num clima de liberdade, criatividade, espontaneidade e responsabilidade. Por outro lado, a emergência de fenómenos de contestação e de avaliação do conteúdo e formas das mensagens transmitidas pelo professor dificilmente ocorrerão porque não lhes é permitido reequacionar ou sequer reformular erros ou distorsões durante o processo de aprendizagem de conhecimentos.

A força constrangedora da autoridade formal do professor observa-se também nas atitudes e valores que veiculam. Nestes aspectos, a função do professor resume-se a ministrar uma educação que decorre e é prescrita por um conjunto de ideias, crenças e valores institucionalizados pelo Estado e a sociedade. Os múltiplos saberes veiculados pelo sistema educacional são orientados por um conjunto de ideologias e valores dominantes que se traduzem em atitudes inquestionáveis e intransigentes por parte do professor em relação a qualquer constestação ou interrogação dos alunos sobre o conteúdo e as formas como as matérias são ministradas.

Os fenómenos de reacção contra esta pedagogia autoritária capitalista implicou a emergência de conflitos intragrupais e intergrupais e, logicamente, o aparecimento de grupos informais nas instituições escolares. Esses grupos embora não sejam legitimados pela estrutura da autoridade formal das escolas, vão, no entanto, buscar a sua razão de ser a opções de acção colectiva confinadas a interesses especificos e a reivindicações junto daqueles que detêm a autoridade e o poder formal. Professores, alunos e funcionários podem, desse modo, interagir num sentido de exercício de uma autoridade e poder que é legitimado pela forma como se estabelecem as relações de poder entre as estruturas formais e informais e a força estruturante das relações sociais de tipo informal em relação às relações sociais de tipo formal nas instituições escolares.


Depreendemos as razões da emergência de conflitos e de relações sociais de tipo informal como formas de reacção e de adaptação ao funcionamento interno das instituições escolares baseadas numa pedagogia e educação autoritária. Pelo facto de nunca questionarem essa realidade negativa em profundidade, não admira que ao longo da história, e mais recentemente, tenham surgido um conjunto de pedagogias com a finalidade de superar as contradições da pedagogia autoritária capitalista. A antipedagogia, a pedagogia institucional, a pedagogia terapêutica e a dinâmica de grupo, entre outras, como pedagogias inovadoras, até agora, mais não têm feito do que tentar aperfeiçoar essa pedagogia e essa educação, sem todavia pôrem em causa a sua essência autoritária e opressiva e a própria sociedade e Estado que lhes dão corpo e forma (22).

Em presença das diferentes tendências que estruturam as sociedades capitalistas desenvolvidas da Europa ocidental, denota-se que o processo de aculturação dos indivíduos, com a emergência histórica das novas tecnologias no campo da informática, electrónica, rádio, televisão, rádio e imprensa, foi drasticamente modificado. A aprendizagem de conhecimentos e da cultura em geral pulverizou-se e estrutura-se numa polivalência funcional que não é mais passível de organizar e institucionalizar nos estritos limites e fronteiras das instituições escolares clássicas.

As capacidades e possibilidades de transmitir informação é gigantesca e os processos de inovação no que toca a aprendizagem de conhecimentos modificou-se substancialmente. O processo de aculturação dos indivíduos num sentido mais global, por esta via, vai também ser objecto de grandes mudanças, na medida em que o conteúdo e as formas de codificação e descodificação das linguagens deixam de ser personificados por linguagens corporizadas em observações e comunicações humanas directas e passam a ser mediatizadas por artefactos tecnológicos sofisticados, o que subverte os processos cognitivos de aprendizagem de conhecimentos nos planos educacional e pedagógico.


A mediação funcional dos novos meios de comunicação que podem ser objecto de utilização no acesso à informação e ao conhecimento relacionado com os múltiplos saberes potenciou e transformou as capacidades e possibilidades relacionais dos indivíduos a todos níveis: gestão e controlo das mensagens recebidas e emitidas; velocidade e distâncias espacio-temporais e seus significados simbólicos através das mensagens recebidas e emitidas; heterogeneidade e sínteses sócio-culturais das mensagens transmitidas; mudanças no processo de percepção cognitiva e adaptações diferenciadas do corpo e da mente humana, etc.


Em função destas tendências, o processo de aculturação dos indivíduos ultrapassou as fronteiras do quadro institucional e funcional das instituições escolares clássicas e transformam as próprias funções de controlo e de regulação do Estado e do mercado em relação ao fenómeno pedagógico e educacional. As tendências actuais constrangem ao aparecimento de novas instituições e organizações, cuja função crucial consiste em protagonizar uma difusão importante do conhecimento racional-instrumental autoritário capitalista: televisão, imprensa, rádio, empresas de formação, instituições e organizações de produção e difusão cultural, de lazer, etc. Este facto, leva a que as relações e as interacções sociais ligadas aos fenómenos educacional e pedagógico reestruturem o poder e a autoridade daqueles que ensinam e daqueles que são ensinados. As relações clássicas polares professor/aluno, embora ainda sejam importantes, vão sendo progressivamente substituidas por relações multipolares inscritas em códigos de linguagens com significados diferenciados e múltiplas qualificações sócio-profissionais.

Em presença deste quadro tendencial da pedagogia e educação autoritária capitalista, as hipóteses históricas de uma perspectiva libertária são sempre passíveis de equacionar a duas dimensões:

1)como função integrada numa sociedade hipoteticamente anarquista e;
2) como hipótese de desenvolvimento de experiências radicais no próprio contexto da evolução da sociedade capitalista. Pela sua natureza tendencial e virtualidades reais, interessa-nos mais construir as alternativas mais credíveis a partir da segunda dimensão.

Nestes termos, em primeiro lugar, as virtualidades da pedagogia e da educação libertária têm um valor simbólico no imaginário colectivo dos seres humanos que em si próprio, é inquestionável em qualquer tipo de sociedade. Como escolha radical, ao alicerçar uma sociedade baseada num processo de aculturação dos indivíduos, tendo como base os pressupostos da liberdade, espontaneidade, criatividade e responsabilidade humana, sempre houve e haverá pessoas que vão integrar acções individuais e colectivas que se inscreverão numa luta pela emancipação social e individual em termos integrados e autogestionários.


Em segundo lugar, as próprias contradições e condicionalismos da pedagogia e educação autoritária capitalista tendem a evoluir para uma desintegração social, cuja crise assumirá proporções inauditas. As contingências e constrangimentos dessa crise levarão a uma necessidade de encontrar soluções credíveis para a sua superação. Em confronto com as múltiplas alternativas pedagógicas e educacionais de características autoritárias e mesmo daquelas que se inscrevam em pressupostos de não-directividade e na dinâmica de grupo, a pedagogia e a educação libertária tem grandes possibilidades, porque as outras têm extrema dificuldade em superar a crise do modelo educacional e pedagógico vigente. Ora, neste domínio, pela originalidade que personifica nos domínios da auto-reflexão e da auto-organização, a perspectiva libertária pode ser estruturada com viabilidade em contextos autogestionários e cooperativos, desde que tenha em atenção os fenómenos de adaptação e de reacção impostos pelas outras realidades institucionais e organizacionais escolares e pela própria sociedade global.

Finalmente, o projecto educacional e pedagógico libertário pode ser visto como uma base de alternativa mais ampla face à realidade de anomia e de desintegração social que subsiste na articulação das comunidades locais e regionais com os sistemas de representatividade formal corporizadas na centralização e burocratização do Estado, nos grandes aglomerados urbanos e na própria sociedade. Enquanto projecto de vida autogestionário e comunitário integrado, a possibilidade de construir projectos educacionais e pedagógicos numa perspectiva libertária nos espaços comunidades locais e regionais, seria sem dúvida um bom antídoto para começar a superar as contradições e antagonismos que persistem no modelo educacional e pedagógia autoritário capitalista.

* José Maria Carvalho Ferreira Professor do ISEG-Universidade Técnica de Lisboa
NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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(8) SPRINTHALL, Norman e SPRINTHALL, Richard, Psicologia educacional - uma abordagem desenvolvimentista, Lisboa, McGraw-Hill, 1993.
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(12) PROUDHON, Joseph-Pierre, De la justice dans la révolution et dans l'église, Paris, Librairie de Granier Frères, 1858.
(13) BAKUNIN, Miguel, Obras completas (5 tomos), Madrid, La Piqueta, 1979.
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(15) RAYNAUD, J. e AMBAUVES, G., L'éducation libertaire, Paris, Spartacus, 1978.
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(17) RAYNAUD, J. e AMBAUVE, G., ob. cit.,
(18) LEVAL, Gaston, Espagne libertaire, Paris, Ed. du Cercle/Ed. de la Tête de Feilles, 1971.
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(20) SKIDELSKY, Robert, ob. cit.,
(21) LUENGO, Josefa Martin, "Colectivo Paideia - experiências en torno de um ensino novo e antiautoritário" in Antítese, nº8, Fevereiro-Maio, Almada, 1988.
(22) RESWEBER, Jean-Paul, Pedagogias novas, Lisboa, Teorema, 1988.