10.10.06

Contra a pena de morte

A WCADP (Coligação Mundial contra a Pena de Morte) organiza a 10 de Outubro de cada ano o Dia Mundial Contra a Pena de Morte, com o objectivo de mobilizar as populações em todo o mundo a levar a cabo acções contra a pena de morte.
Este ano o dia será dedicado à abolição da pena de morte nos países em África. A maioria dos países africanos já não aplica a pena de morte, mas a abolição deve ser alargada a todo o continente.

ACTUE!

Apoie o fim imediato da pena de morte, assinando o apelo dirigido pela WCADP aos Chefes de Estado e de Governo africanos.

Apelo:

www.abolition.fr/ecpm/french/petitionscoalitiongb.php?ref=11

www.abolition.fr/ecpm/index.php



A WCADP apela para:

• A abolição da pena de morte nas leis nacionais
• A ratificação do Segundo Protocolo Opcional para o Tratado Internacional sobre Direitos Políticos e Civis
• O apoio da União Africana e das Nações Unidas


Ler mais em:
http://www.amnistia-internacional.pt/index.php?nid=11




A Amnistia Internacional revelou hoje que existem mais de 20.000 pessoas no corredor da morte, a aguardar execução pelos seus próprios governos.



Na sua última análise anual sobre o uso da pena de morte a nível mundial, a Amnistia Internacional revelou que pelo menos 2148 pessoas foram executadas, em 22 países, em 2005 – 94% dos quais na China, Irão, Arábia Saudita e EUA – e 5186 foram condenados à morte em 53 países.
A organização acautelou que estes números são aproximados, dado o secretismo em torno desta questão. Muitos governos, como o da China, recusam a publicação de estatísticas oficiais completas sobre as execuções, ao passo que o Vietname rotulou as estatísticas e os relatórios sobre a pena de morte como confidenciais, sendo tratados como um "segredo de Estado".
Segundo Irene Khan, Secretária Geral da Amnistia Internacional, "os números sobre a pena de morte são verdadeiramente preocupantes: 20.000 pessoas contam os dias até que o Estado lhes tire a vida. A pena de morte é a negação dos direitos humanos, na sua forma mais irreversível. É normalmente aplicada de uma forma discriminatória, no seguimento de julgamentos injustos ou é aplicada por motivos políticos. Pode ser um erro irreversível quando há uma falha na justiça."
"A pena de morte não é instrumento dissuasor de crime. Os governos têm de se concentrar em desenvolver medidas efectivas contra a criminalidade, em vez de se basearem na ilusão de controlo dado pela pena de morte" disse Irene Khan, Secretária Geral da AI.
Apesar destes números chocantes, a tendência para a abolição continua a aumentar: o número de países que levam a cabo execuções, diminuiu para metade nos últimos vinte anos e tem mantido esta tendência nos últimos quatro anos. O México e a Libéria são os dois exemplos mais recentes de países que aboliram a pena de morte.
"Num mundo que continua a afastar-se do uso da pena de morte, é uma gritante anormalidade que a China, a Arábia Saudita, o Irão e os EUA continuam a sobressair pelo uso extremo desta forma de punição, sendo os países que mais executam pessoas a nível mundial.
Na China – o país que leva a cabo cerca de 80% das execuções mundiais – uma pessoa pode ser sentenciada e executada por mais de 68 ofensas criminais, incluindo crimes não violentos como a fraude fiscal, peculato ou crimes relacionados com droga.
Na Arábia Saudita, as pessoas são retiradas das suas celas e executadas sem terem conhecimento de que foram sentenciadas à morte. Outros são julgados e sentenciados à morte numa língua estrangeira, que não sabem ler ou escrever.
Nos EUA dois homens foram libertados do corredor da morte em 2005, após a prova da sua inocência.
O Irão foi o único país que executou menores em 2005. O Irão executou pelo menos oito pessoas por crimes que tinham cometido quando eram menores, incluindo dois jovens que tinham menos de 18 anos na altura da sua execução. Em Março de 2005, os EUA aboliram a pena de morte para jovens que tivessem cometido crimes enquanto menores, tendo sido até então um dos "líderes mundiais" desta prática.
Irene Khan refere que "o facto de os EUA - que eram o principal executor de delinquentes juvenis - terem acabado com esta prática, deveria ter passado uma mensagem clara aos países que continuam a executar crianças, que esta barbaridade deverá terminar. A Decisão do Supremo Tribunal dos EUA, de banir a execução de delinquentes juvenis, é um dos marcos no caminho para um dos mais notáveis feitos a nível de direitos humanos: a abolição global da pena de morte para menores."
Em certos países, o recurso à pena de morte pode ser perigosamente misturado com interesses económicos. Na China, muitos temem que os elevados lucros por detrás do transplante de órgãos dos executados, pode funcionar como um incentivo à manutenção da pena de morte.
Em muitos países a crueldade inerente a estar no corredor da morte é exacerbada por procedimentos desumanos. Na Bielorússia e Uzbequistão, nem os sentenciados nem as famílias são avisados da data de execução, impedindo-os de terem uma última oportunidade de se despedirem. O corpo do prisioneiro não é entregue aos familiares, nem são informados do local de enterro.
A Amnistia Internacional também sublinha as consequências mortíferas dos julgamentos injustos.
No Japão, várias pessoas foram condenadas à morte após tortura e "confissões forçadas" por crimes que não cometeram. As falhas do sistema judicial no Uzbequistão e na Bielorússia permitem vários erros judiciais. As execuções no Uzbequistão seguem-se a alegações credíveis de julgamentos injustos, tortura e maus tratos frequentemente para obter "confissões".
"O movimento contra a pena de morte está imparável. Em 1977, só 16 países tinham abolido a pena de morte para todos os crimes. Em 2005, esse número cresceu para 86.
A Amnistia Internacional continuará na sua campanha contra a pena de morte até que todas as condenações à morte sejam comutadas e a pena de morte seja abolida. Os direitos humanos são para todos, inocentes ou culpados. É por isso que a pena de morte tem de ser abolida globalmente.
Informação adicional
As informações da AI sobre a pena de morte cobrem o período de Janeiro a Dezembro de 2005. Na China as estatísticas apontam para 1770 executados, contudo os números reais serão indubitavelmente mais altos. Um perito chinês em legislação foi citado recentemente como tendo afirmado que os números verdadeiros relativos às execuções na China se aproximam dos 8000. O Irão executou pelo menos 94 pessoas e a Arábia Saudita executou 86. Os EUA executaram 60 pessoas.


Mais informação:


http://www.abolishdeathpenalty.org/

http://www.worldcoalition.org/bcoaljm01.html



Informação suplementar:

No próximo ano de 2007 irá realizar-se em Paris o 3º Congresso Mundial contra pena de morte ( entre 1 e 3 de Fevereiro de 2007). Será o momento em milheres de abolicionistas, do mundo inteiro, se reunirão para mostrar a todo o mundo a sua vontade de acabar com esta vergonha aplicada ainda por muitos Estados contra a dignidade humana.

USA, Reino Unido e Suíça são os países mais corruptos do mundo


As novas variáveis introduzidas pela Tax Justice Network sobre a corrupção no mundo permitem concluir que os países e as economias mais desenvolvidas são os agentes que mais beneficiam com o fenómeno da corrupção no mundo económico e financeiro.


Até agora a opinião pública mundial habituou-se a associar os grandes centros de corrupção a certos países da África subsahariana ou aos países e governos da América Latina, correspondendo assim a uma perspectiva enviesada acerca da natureza do fenómeno da corrupção e de quem seriam os seus principais agentes. Acontece que recentemente foi divulgado um estudo que revela que são países como a Suíça, o Reino Unido e os Estados Unidos da América aqueles cujos Estados mais favorecem a evasão e a gestão ilegal de capitais cujo montante se estima em 111 biliões de dólares em todo o mundo.

Por meio de instituições privadas baseadas nos seus territórios são assim desviados fundos para os chamados paraísos fiscais com a cobertura ou o beneplácito dos poderes públicos daqueles Estados. Ficou-se também a saber que os governos destes países lutam abertamente contra a adopção de leis fiscais internacionais que fixassem sanções aquelas operações financeiras ilegais que, apesar da sua ilegalidade, não têm sancionamento adequado. Operações de branqueamento de capitais deixa pois de ser fiscalizado com vantagens evidentes para os criminosos. Observou-se, além do mais, que as principais empresas privadas daqueles países se locupletam indevidamente, graças à comissão de vários delitos financeiros que, no entanto, nunca são investigados e ficam, definitivamente, impunes com evidente prejuízo para o erário público e a economia dos respectivos países.

Por ocasião de um ciclo de conferências realizadas no início do mês de Setembro passado e promovido pelo Grupo de Investigação de geografia Económica, John Christensen, elemento pertencente à Tax Justice Network apresentou o referido estudo sobre o estado da corrupção em todo o mundo, demonstrando com dados estatísticos a relação substantiva entre corrupção e a evasão e gestão ilegal de grandes capitais.

Este documento desloca a atenção que habitualmente incidia sobre a corrupção nos países do Terceiro Mundo para os países mais desenvolvidos ao concluir que são estes não só os principais beneficiários como os agentes activos da corrupção. Além disso, serve de contraponto aos relatórios anuais que são apresentados amiúde pela organização Transparência Internacional ( TI) que coloca sistematicamente nos seus rankings de corrupção os países pobres do Terceiro Mundo como os principais agentes de corrupção. Recorde-se que a TI assenta as suas listas na base de um índice de percepção da corrupção que é formulado com informações difíceis de serem verificadas e que são fornecidas por empresários e consultores, cuja identidade é desconhecida, e que supostamente operam no terreno, pelo que os seus interesses são objectivamente conflituantes com os sujeitos da matéria em estudo. Aliás, estes mesmos estudos lançam a sua atenção, quase que exclusivamente, às situações de enriquecimento ilegal no âmbito dos poderes públicos (excluindo sistematicamente as relações de protecção entre governos e agentes privados implicados na gestão de dinheiro sujo), dando especial ênfase aos fenómenos de suborno, tráfico de drogas e armas, contrabando de pessoas e bens. Práticas estas que são endémicas nos países subdesenvolvidos e que, no entanto, só são responsáveis anualmente por 35% da totalidade do dinheiro sujo.

A Tax Justice Network acrescenta, portanto, novos factores para a devida ponderação do fenómeno da corrupção da alta finança. Christensen privilegia, de resto, a questão da oferta na sua análise, mais do que na procura, como tradicionalmente acontecia. Ou seja, oferta de serviços de gestão financeira de dinheiro negro, assim como de pagamentos e subornos por parte de governantes de duvidosa imagem pública, em troca da adjudicação de contratos e prebendas para a exploração de recursos nacionais. Um fenómeno como este implica duas partes, a que paga para receber e a que simplesmente cobra, ainda que até agora só se falava da segunda, deixando de lado os pagadores dos subornos e os beneficiários destas actividades.

O estudo divulgado revela ainda que, para além dos enriquecimento ilegal registado nas instituições públicas, os montantes gerados pelas actividades comerciais e financeiras ilícitas representam anualmente cerca de 65% do fluxo total de dinheiro negro. Estas actividades incluem por exemplo a depreciação fraudulenta, preços abusivos de transferência, transacções falsas ou fraudulentas, assim como o uso de trusts, fundações e paraísos fiscais para lavar e desviar ilegalmente fundos, práticas estas que são exclusivas dos países desenvolvidos e que, para cúmulo, são aí publicitadas e promovidas às claras.


Texto redigido a partir de um artigo publicado no último número do jornal Diagonal, de autoria de Astor Diaz Simón

Mais info:

9.10.06

Filosofia radical





The Radical Philosophy Association
http://home.grandecom.net/~jackgm/RPA.html#links

Founded in 1982, Radical Philosophy Association members struggle against capitalism, racism, sexism, homophobia, disability discrimination, environmental ruin, and all other forms of domination.
We also oppose substituting new forms of authoritarianism for the ones we are now fighting. Our efforts are guided by the vision of a society founded on cooperation instead of competition, in which all areas of society are, as far as possible, governed by democratic decision-making.
We believe that fundamental change requires broad social upheavals but also opposition to intellectual support for exploitative and dehumanizing social structures.
Our members are from many nations and continue a variety of radical traditions including (but not limited to) feminism, phenomenology, Marxism, anarchism, post-structuralism, post-colonial theory and environmentalism.
Our efforts center on conferences and publications.
We consider the enterprise of radical philosophy inherently interdisciplinary and welcome persons not trained in philosophy


http://www.radicalphilosophy.org/

II Congresso Português de Literaturas Marginais

(Fac. Letras do Porto, 12 e 13 de Out. 2006)

Local: anfiteatro nobre da Fac. Letras do Porto

Entrada livre



12 de Outubro

9.30

Da Literatura e das literaturas marginais – Arnaldo Saraiva

10.15

Quaod loquimur transit: as verdades da oralidade e a verdade da escrita – Ria Lemaire

O Romanceiro tradicional português: estado da questão – Pere Ferre

Dicionário prático de provérbios portugueses – Gabriela Funk

Moderador: Francisco Topa


11.30

Panorama actual de los estúdios sobre la literatura popular en España – José Manuel Pedrosa


A crítica social na literatura popular: do cancioneiro oral à literatura de cordel e produção de poetas populares – João David Pinto Correia

Memória de polícias em Portugal: a utopia de um novo herói – Maria de Lurdes Sampaio

Moderador: Pedro Eiras


15.00

O que é marginal é bom – elogio das leituras periféricas dos temas centrais – Rui Zink

Hagiografia: un género marginal? El caso de santa Librada – Maria Eugenia Díaz

Os blogs e a alusão privada: o caso de Casmurro – Miguel Ramalhete


Moderador: Maria João Reynaud


16.15

Sessão de homenagem a Francisca Neuma Fechine Borges (m. 28 de Set. de 2006)

O Padre Cícero, o Santo Nordeste, preferido herói do cordel brasileiro – Ângela Birner

Os monstros e as margens – do folheto de cordel ao álbum de banda desenhada – Ana Margarida Ramos

Moda e teatralidade social na literatura de cordel portuguesa ( 1781-1789): contributo para uma definição do peralta - Marta Norton

Viagem a São Saruê, de Manuel Camilo dos Santos: algures entre a «bobagem» e a utopia – Sofia Araújo

Vozes femininas na música e na literatura – cantigas de mulheres na Paraíba – Socorro Lira

Moderador: Arnaldo Saraiva




13 de Outubro

9.30

Lindley Cintra e uma sua antologia inédita de lírica portuguesa tradicional – Maria Aliete Galhoz

O conto popular em Portugal : da marginalização à institucionalização – Rui Faria

O poeta popular Moreira da Silva entre o sonho e a realidade – Armando Zenhas

Cidade de Vidro em quadradinhos: Paul Auster adaptado por Karasik e Mazzucchelli – Helena Lopes

Moderador: José Carlos Miranda



11.15

Grandes e pequenos assuntos da nossa praça – Ana Paula Guimarães

A sátira em poetas populares e popularizantes – Carlos Nogueira

A retórica das adivinhas a partir de um corpus recolhido na região do Algarve – J. Ruivinho Brazão

Poesia experimental e ciberliteratura: por uma literatura marginal izada

Moderadora: Zulmira Santos


15.00

Assim seja. Da reza popular a Clarice Linspector – Pedro Eiras

«O sapo e a lavadeira» e um conto de Grimm – Isabel Cardigos

A narrativa policial portuguesa dos anos 30: Reinaldo Ferreira e a «novela policial» - Gianluca Miraglia

D. Maria da Glória, «Uma migalha na sala do universo» - estudo de um caso de reprodução de poesia oral popular – Tânia Moreira

Moderador: Ana Paula Coutinho Mendes



16.45

Da carpintaria do verso: sobre a obra de Joaquim Moreira da Silva - Francisco Topa

A lenda do terrorista agradecido – J.J. Dias Marques

Da mnemoteca à biblioteca do povo (Espanha, séc. XVIII-XIX) – Jean-François Botrel

Moderador: Maria Fátima Marinho


18.00
Encerramento

8.10.06

O trauma provocado pelos actos de repressão



As sequelas psicológicas e físicas resultantes das acções repressivas



A problemática ligada aos traumas provocados pelas acções repressivas dos agentes e dos corpos policiais a mando do aparelho de Estado e dos interesses dominantes tem vindo a ganhar importância crescente nas respectivas áreas científicas.
O caso mais recente e mais conhecido foi o da Ponte Aubonne, em 2003 na Suiça, onde a polícia cortou as cordas onde estavam suspensos dois activistas que pretendiam assim protestar contra a realização da cimeira do G-8 em Evian, e em que, na sequência do acto irresponsável da polícia, aqueles activistas quase que iam perdendo a vida.
Estes acontecimentos chamaram mais uma vez a atenção para o impacto dos traumas físicos e psicológicos dos activistas que venham a ser vítimas daqueles actos repressivos.

Recorde-se que em 2003 na Cimeira do G-8 em Evian ( França), um grupo de activistas bloqueou os delegados dos diferentes países ao provocar um engarrafamento em plena auto-estrada. Dois desses activistas, o inglês Martin Shaw e a alemã Gesine Wenzel, suspenderam-se com cordas de escalada na ponte de Aubonne em plena auto-estrada. Outros companheiros ficaram encarregados de proteger a corda, e outros ainda de gravar a acção de protesto. Foi então que a polícia de forma totalmente irresponsável decidiu fazer circular o trânsito e não contente com isso, foi ao ponto de cortar simplesmente as cordas sob que estavam suspensos aqueles activistas.
Martin Shaw caiu de uma altura de 23 metros de altura, enquanto Gesine foi salva in extremis por outra activista conseguiu segurar a corda cortada pela polícia. Martin sofreu graves traumatismos na coluna o que lhe trouxe sequelas que o impedem de desenvolver o trabalho que normalmente desenvolvia, e Gesine acabou por lhe ser diagnosticada stress pós-traumático.
No passado dia 6 de Setembro o Tribunal de Apelação suíço rejeitou o recurso que aqueles dois activistas interpuseram no tribunal do cantão suíço contra os polícias Claude Poget ( encarregado máximo daquela operação policial) e Michael Deis ( o polícia que cortou a corda) mostrando, a quem ainda duvidasse ,em que medida o valor da vida dos cidadãos ( neste caso, daqueles dois activistas) não era tão importante face a outros valores….
Estes acontecimentos chamaram a atenção mais uma vez para os efeitos da repressão e mostraram como o medo e a intimidação são os instrumentos privilegiados pelos poderosos para se imporem. Mais do que isso, mostram a necessidade de tratamento e acompanhamento das sequelas físicas e psicológicas que porventura tiverem provocado nos activistas intervenientes nas acções que são objecto da violência repressiva.
Daí a importância cada vez maior da aprendizagem de técnicas de preparação psicológica face a actos violentos de repressão que possam atingir-nos a nós próprios como aos companheiros próximos e que irão sentir necessidade de apoio, para o que nos devemos estar preparados. Intervenções adequadas e no tempo próprio poderão evitar traumas maiores e sequelas prolongadas.
Martin e Gesine, vitimas da repressão policial, têm vindo a criar, desde então, vários colectivos em diversos países, vocacionados para abordarem a relação entre a repressão e os traumas, e as maneiras destes serem convenientemente tratados


Antecipar-se ao trauma

Os traumas são causados pela instalação de um grande stress dentro do nosso cérebro. Desencadeia-o normalmente um acontecimento inesperado que leva o indivíduo a confrontar-se com uma iminente ameaça de morte ou de danos irreversíveis, o que provoca sentimentos de angústia e impotência difíceis de se controlar. As vítimas podem ser os implicados directos ou então testemunhas de acontecimentos. O stress provoca um subida de tensão na pessoa, demasiadamente violenta, que provoca uma situação em que a pessoa perde o auto-controle e se regista um estilhaçamento da personalidade. Sintomas de trauma poderão ser o desejo de fugir, ataques de pânico, sentimentos de cobardia, reacções corporais como tremores, problemas respiratórios, insónias, tendências a experimentar flash-backs, perdas de concentração e de memória, auto-medicação, recurso a drogas, tendência ao isolamento, sentimento de vazio e falta de entusiasmo ou, pelo contrário, hiper-excitação que leva mesmo a provocar dores físicas, e finalmente, dissociação, isto é, projecção num outro «eu» que também tenha passado por uma experiência de sofrimento.
Anteciparmo-nos aos traumas através de visualizações e «jogos de papéis» poderão ter uma função preventiva no desencadeamento dos traumas. É muito importante falarmos destes assuntos, verbalizarmos os nossos sofrimentos, e até escrever o que sentimos e tivemos que passar, fazê-lo periodicamente a fim de podermos avaliar a evolução dos danos, até que tudo esteja superado. O meio e o apoio que se receber é de crucial importância. Tanto mais que os danos sofridos devem sempre ser vistos como danos colectivos e nunca como de carácter individual. As pessoas afectadas não devem perder qualquer tipo de vínculo social com o seu meio. Quem com elas se relacionar devem saber escutá-las e evitar o estabelecimento de comparações banais, nem muito menos fazer qualquer tipo de culpabilização. Qualquer profissional que venha em sua ajuda deverá manter alguma relação de simpatia ou tolerância para com a acção das vítimas.

(o texto é uma adptação livre do artigo sobre a mesma matéria publicado pelo jornal Diagonal, na sua última edição)

Mais info:

www.activist-trauma.net

www.aubonnebridge.net


fotos -
http://www.aubonnebridge.net/down.php


The Aubonne Photostory -
http://www.aubonnebridge.net/slideshowen/index.html






O trauma resultante de actos violentos de repressão (em inglês):

We have seen that when we suffer a traumatic political experience such as the disappearance of a loved one, torture or fear, we need to integrate it into our lives. You can't put brackets around parts of your own life experiences. A person who has been tortured may try to forget it, or to live as if nothing had happened. But it's not possible: we need to integrate these experiences into our political projects and our lives.

Often external circumstances make this integration more difficult. Perhaps the family doesn't have space to talk about it; or repression forces us to flee and gives us no time to stop and face what has happened. Other times the attempts that a person or group has made to face the experience have not been fruitful, so the experience is denied, or conversely, becomes completely overwhelming.

So, we find ourselves with three possible responses to dealing with trauma of a political nature. We have called these responses "normality", "impossibility" and "reintegration".

Normality is characterised by the attempt to deny and repress the effects of the experience, and as a result, the experience itself. This type of attitude often leads to what we have called the "privatisation of pain"; that is to say that the experience is lived in an isolated way, with no space, alone or with others, to deal with the experience. The pain stays inside and it is very difficult to get it out and to share it with others.

Often the oppressive social context and the need to continue the struggle mean that the person the person thinks that it is better to try and forget what has happened, deny its impact, and keep moving forward.

They create blocks in their consciousness and in their relations with others, doing whatever possible to hide the combination of experiences and feelings produced by what happened.
Nonetheless, when the damage done is considerable, there is little point in trying to deny the experience and live a pretend normality. Denying and repressing feelings uses an immense amount of energy and over time the person has less and less energy for the task of rebuilding themselves and giving meaning to the experience.

It is a vicious circle, each denial demands more denials (to oneself and others) and each attempt to repress the feelings uses more and more energy.

This attitude of making yourself be strong is normal, and it can be very useful in some situations, for example when responding to immediate threats. Under torture a person needs to keep their defences up. After an attack much energy is needed to respond to the events, denounce what has happened, etc... However, over time this need to be strong becomes a problem.

There are various defence mechanisms that can be used to deny or repress an experience. These defence mechanisms are not ,in themselves, a bad thing. They are the attempts a person makes to keep going in a social environment that it is often repressive and closed. Nevertheless, over time these defence mechanisms consume a lot of energy. Instead of helping a person to keep going, in the long run they become a problem that weakens them.

Many of these mechanisms lead to isolation and avoidance; such as not wanting to relate to other young people because they remind you of murdered companions, not wanting to receive news as it revives past experiences, etc. This behaviour makes intimate relationships and social ties more difficult, and these things are vital to rebuilding lives and political projects.

Individual responses:Denial: nothing happened...Pretence: acting as if nothing happened.Actively covering up: e.g. inventing a past that has nothing to do with what happened.Distorted Rationalisation: I can't be afraid, i must be strong and forget what I feel.Avoidance: avoiding being around people or in certain situations.Repressing feelings.Not thinking about it.

It is not only individuals that use these defence mechanisms. Families and groups can also use them. A group may respond in this way to experience they have had as a group or to things that have happened to individuals within that group (for example a compañero captures and torured)[some of these group defence mechanisms can be found on the next page]

Forms of group responseLife goes on: not stopping for a minute, as a way of avoiding a "dangerous" conversation and eliminating space to think...The reign of silence: situations in which a topic is not talked about because teh group members prefer to avoid it (for example the disappearance of a family member). I kind of mutual "agreement" is reached to not talk about it.Pretending: Acting as is nothing had happened, although in private all the group members are aware of the situation.Delegating a memebr of the group as the "weak" one, or the only person affected. ("we're fine, it's Jose that's having a bad time...")

These mechanisms are attempts on behalf of the group to maintain a "pretended normality": to act as though nothing had happened. Over time these mechanisms make the group's structure more rigid. As relations within the group become more rigid it becomes harder to approach problems.

The rigidity of the group also brings an increase in tensions within the group which is often unspoken, but makes people snap at things that in other circumstances would be of little importance.

Impossibility is the situation where a person finds an experience so overwhelming that they feel they will never be able to move on. ("there's nothing I can do... they've broken me..") The person finds themself weakened by the conviction that it is impossible to assimilate it and rebuild thier life.

Often this situation arises after many failed attempts to move on. It is possible that the person has not been able to find the space to talk about it and they feel the are "broken".
Other times the attempts to approach the experience have been made when the person was very low and had little energy for the task. This produces the conviction that it is impossible. The person feels they are in a hole with no way of getting out.[on the next page we list some frequent situations]

Sometimes an entire family or group lives a situation of impossibility. They may find themselves "stuck", thinking always of what happened, those who absent, etc... living and overwhelming past. This means that they can't move forward in the present or project into the future, and they find themselves tied to the experience.

The third possible approach, which we have called reintegration, supposes a restructuring of a person or group's life and identity, taking into account the experience (torture, disappearances, persecution, etc.) and not denying it.

It is generally more effective to confront an experience and what it means to a person or their family and friends, than to pretend that nothing has happened. To make this kind of integration work it helps to share feelings with others; evaluate the current situation, project into the future, and perhaps look at what the experience has created.

One of the prerequisites for reintegration is to accept that the experience really happened and to understand its nature.

The second issue is "resocialising" the experience (understanding it, sharing and participating). This makes it possible to:Intergrate the experience and give it meaningOvercome victimisationRecover life and social action

The reintegration we are talking about is not, therefore, just an individual process. It is a group, family and collective process: a process of support.

Through the course of this book we talk about community in a broad sense, as an institution, a place where people live together, work together etc. Nevertheless, now we want to emphasise the community as a group of people who share their experiences and have a sense of mutlual solidarity. In this sense the community has an affectionate dimension, based on human relationships of mutual understandng and support.

The support that can make reintegration of the experience possible is based on rebuilding relations in the community. This support can be social (not leaving anyone alone...), material (improving the quality of life), emotional (making space to share intimate feelings), and political (an encounter with a deeply human and ideological sense).

7.10.06

Os inventores de doenças


Saiu do prelo um livro que deveria merecer a devida atenção. Tem como título «Os inventores de doenças» (ed. Âmbar, 2006) e o seu autor é Jorg Blech, jornalista científico de órgãos de comunicação como a revista Stern, e que trabalha actualmente em Der Spiegel, assim como no jornal Zeit. O livro pretende constituir-se como uma denúncia corajosa e bem documentada dos abusos praticados pela indústria farmacêutica em busca de mais lucro.
O autor revela-nos de que forma os grandes consórcios farmacêuticos se empenham em transformar-nos sistematicamente em doentes para grande proveito lucrativo das empresas.


Reproduzimos um breve excerto do livro:

Segundo Voltaire, a arte que os médicos praticam consiste em entreter o doente até que a natureza o cure. Actualmente, inverteu-se a conclusão do filósofo francês: a medicina moderna faz crer às pessoas que a natureza as ataca constantemente com novas doenças que só podem ser curadas pelos médicos.
(…)

Hoje em dia, as empresas farmacêuticas e os grupos de interesses médicos inventam as doenças: a doença transformou-se num produto industrial. Para tal, as empresas e as associações convertem os processos normais da existência humana em problemas médicos, «medicalizam» a vida. (…)
O desejo inato do homem em estar saudável é uma coisa natural. Mas os inventores de doenças alimentam esse desejo, utilizam-no para os seus próprios fins e tiram proveito disso de forma calculada.

(…)

Para poder manter o enorme crescimento dos anos anteriores, a indústria da saúde cada vez tem de tratar mais pessoas que, na realidade, estão saudáveis. Os grupos farmacêuticos que operam globalmente e as associações de médicos ligadas internacionalmente definem de novo a nossa saúde: os altos e baixos naturais da vida e os comportamentos normais são reciclados de forma sistemática em estados patológicos. As empresas farmacêuticas patrocinam a invenção de quadros clínicos completos, e conseguem assim novos mercaod s para os seus produtos.

(…)

«É fácil inventar novas doenças e novos tratamentos», constata o British Medical Journal. Muitos precoessos normais da vida – o nascimento, o envelhecimento, a sexualidade, a infelicidade e a morte – podem ser medicados.»(in Moynihan, R e Smith, R. «Too much medicine?», British Medical Journal, 324, pp 859-860, 2002)

(…)

O livro fala também de um movimento oposto. Um número considerável de médicos, a meu ver cada vez maior, revolta-se contra a nedicalização da vida exercida pela indústria e os seus colaboradores médicos. Para este grupi, a ética médica continua a ser mais valiosa que a sombria perspectiva de fazer passar as pessoas saudáveis por doentes.

(…)

No início do séc. XX, um médico chamado Knock foi o encarregado de tirar da cabeça das pessoas a ideia de saúde. Este francês criou um mundo onde só havia doentes: «Toda a pessoa sã é um doente que ignora que o é».
Knock começou a exercer numa aldeia montanhosa chamada Saint-Maurice. Os habitantes eram saudáveis e não iam ao médico. O antigo médico da aldeia, o empobrecido Parpalaid, tentou consolar o sucessor dizendo-lhe: «Aqui terá a melhor clientela que existe: deixá-lo-ão em paz». Mas Knock não estava disposto a conformar-se com isso.
Porém, como podia um principiante atrair ao consultório aquela gente cheia de vida? Que poderia receitar a pessoas saudáveis? Knock convenceu astuttamente o professore da povoação e conseguiu que este arengasse aos aldeões acerca dos supostos perigos que os seres vivos mais diminutos lhes faziam correr. Contratou o pregoeiro da aldeia e mandou-o anunciar que o médico convidava todos para uma consulta gratuita, para «limitar a inquietante propagação de oenças de todo o tipo que desde há alguns anos alastram pela nossa região, outrora tão sadia». A sala de espera ficou a abrrotar de gente.
Nas suas visitas, Knock diagnosticou sintomas estranhos e inculcou nos ingénuos aldeões a necessidade de um cuidado permanente. A partir de então, muitos dele ficaram de cama e a única coisa que tomavam, quando muito, era água.A aldeia parecia um hospital: pessoas saudáveis, só restavam as estritamente necessárias para cuidar dos doentes. O farmacêutico tornou-se um homem rico, tal como o dono da estalagem, cuja sala era utilizada com pleno rendimento, como hospital de campanha, aberto vinte e quatro horas por dia.
Todas as noites, Knock contemplava entusiasmado um mar de luzes: 250 quartos bem iluminados – segundo prescrição médica - , 250 termómetros embutidos nas cavidades corporais correspondentes, até darem as dez.». «Quase toda a luz me pertence», entusiasmava-se Knock. «Os que estão dormem na escuridão; não são importantes».

( excerto do livro de Jorg Blech, «Os Inventores de doenças», que remete por seu turno para a peça do escritor francês Jules Romains, «Knock ou o triunfo de medicina», estreada em 1923, e para o livro de L.Payer «Disease Mongers»(Os traficantes de doenças), editado em 1992)



Sintomaticamente o livro começa com uma citação de Aldous Huxley: « A medicina avançou tanto que já ninguém está são»

Bocage: o eterno irreverente




"Reclama o teu poder e os teus direitos

Da Justiça despótica extorquidos."
(Bocage)


Bocage foi um poeta pré-romântico português e é conhecido por seu estilo rebelde e satírico e considerado o maior poeta da língua no século XVIII. Filho de um advogado sem recursos e de mãe francesa.
Foi preso ao divulgar o poema Carta a Marília (1797), passou meses nas masmorras da Inquisição.


Auto-retrato ( de Bocage, 1765-1805)

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.






Alguns sonetos que lhe são atribuídos e que fazem parte das suas «Poesias Eróticas, Burlesca e satíricas»


Soneto Napoleónico


Tendo o terrível Bonaparte à vista,
Novo Aníbal, que esfalfa a voz da Fama,
"Ó capados heróis!" (aos seus exclama
Purpúreo fanfarrão, papal sacrista):


"O progresso estorvai da atroz conquista
Que da filosofia o mal derrama?..."
Disse, e em férvido tom saúda, e chama,
Santos surdos, varões por sacra lista:


Deles em vão rogando um pio arrojo,
Convulso o corpo, as faces amarelas,
Cede triste vitória, que faz nojo!


O rápido francês vai-lhe às canelas;
Dá, fere, mata: ficam-lhe em despojo
Relíquias, bulas, merdas, bagatelas.

( Este soneto foi escrito na ocasião em que o exército francês comandado por Bonaparte invadira os estados eclesiásticos (1797),chegando quase às portas de Roma, e ameaçando o solo pontifício. O verso nono: "Delas em vão rogando um pio arrojo," envolve uma espécie de equívoco, ou como hoje se diria um calemburgo [ou trocadilho]; porquePio VI era o papa, que então presidia na "universal igreja de Deus". )




Soneto do Juramento

Eu foder putas?... Nunca mais, caralho!
Hás de jurar-mo aqui, sobre estas Horas:
E vamos, vamos já!... Porém tu choras?
"Não senhor (me diz ele) eu não, não ralho":


Batendo sobre as Horas como um malho,
"Juro (diz ele) só foder senhoras,
Das que abrem por amor as tentadoras
Pernas àquilo, que arde mais que o alho".

Co'a força do jurar esfolheando
O sacro livro foi, e a ardente sede
O fez em mar de ranho ir soluçando...

Ah! que fizeste? O céu teus passos mede!
Anda, herético filho miserando,
Levanta o dedo a Deus, perdão lhe pede!



Soneto do prazer efémero

Dizem que o rei cruel do Averno imundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para meter do cu na aberta greta
A quem não foder bem cá neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras
,Senão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto já; que é curta a idade,
E as horas do prazer voam ligeiras!




Soneto de todas as putas


Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:


Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.



Soneto do epitáfio


Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:


Não quero funeral comunidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".







Breve biografia

Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765. Neto de um Almirante francês que viera organizar a nossa marinha, filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária, que um ambiente familiar propício incentivou. Aos 16 anos assentou praça no regimento de infantaria de Setúbal e aos 18 alistou-se na Marinha, tendo feito o seu tirocínio em Lisboa e embarcado, posteriormente, para Goa, na qualidade de oficial.


Na sua rota para a Índia, em 1786, a bordo da nau "Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena", passou pelo Rio de Janeiro, onde se encontrava o futuro Governador de Goa.Nesta cidade, teve oportunidade de conhecer e de impressionar a sociedade, tendo vivido na Rua das Violas, cuja localização é actualmente desconhecida.

Em Outubro de 1786, chegou finalmente ao Estado da Índia. A sua estadia neste território caracterizou-se por uma profunda desadaptação. Com efeito, o clima insalubre, a vaidade e a estreiteza cultural que aí observou, conduziram a um descontentamento que retratou em alguns sonetos de carácter satírico.

Nomeado, na qualidade de segundo Tenente, para Damão, de imediato reagiu, tendo desertado. Percorreu, então, as sete partidas do mundo: Índia, China e Macau, nomeadamente. Regressou a Portugal em Agosto de 1790. Na capital, vivenciou a boémia lisboeta, frequentou os cafés que alimentavam as ideias da revolução francesa, satirizou a sociedade estagnada portuguesa, desbaratou, por vezes, o seu imenso talento. Em 1791, publicou o seu primeiro tomo das Rimas, ao qual se seguiram ainda dois, respectivamente em 1798 e em 1804. No início da década de noventa, aderiu à "Nova Arcádia", uma associação literária, controlada por Pina Manique, que metodicamente fez implodir. Efectivamente, os seus conflitos com os poetas que a constituíam tornaram-se frequentes, sendo visíveis em inúmeros poemas cáusticos.

Em 1797, Bocage foi preso por, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".

Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado". Naquele ano foi finalmente libertado.

Em 1800, iniciou a sua tarefa de tradutor para a Tipografia Calcográfica do Arco do Cego, superiormente dirigida pelo cientista Padre José Mariano Veloso, auferindo 12.800 réis mensalmente.

A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara. Em 1805, com 40 anos, faleceu na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral. Foi sepultado na Igreja das Mercês.

A literatura portuguesa perdeu, então, um dos seus mais lídimos poetas e uma personalidade plural, que, para muitas gerações, incarnou o símbolo da irreverência, da frontalidade, da luta contra o despotismo e de um humanismo integral e paradigmático.


A Época em que Viveu Bocage

Bocage viveu numa época de crise evidente. A economia era frágil, o ouro do Brasil esvaía-se no luxo desenfreado da Corte, o erário público era delapidado pelas despesas abissais da marinha e do exército. As amplas e radicais reformas encetadas pelo Marquês de Pombal foram sistematicamente subvertidas. O povo indigente gemia a sua impotência.


Em França, vivia-se um período extremamente conturbado. A revolução tinha varrido a nobreza, Luís XVI e Maria Antonieta foram decapitados e os ventos que apregoavam os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade faziam-se ouvir com fragor. Os centros de convívio lisboeta eram palco de subversão, discutia-se acesamente nos cafés e nos botequins as vicissitudes da revolução francesa, criticava-se abertamente o poder e a situação política nacional, imprimiam-se "papéis sediciosos", aguardava-se com ansiedade os livros revolucionários que chegavam a Portugal pelos portos de Setúbal e de Lisboa.


Devido à impotência da rainha D. Maria I, que enlouquecera, o poder estava amplamente concentrado nas mãos do Intendente, Diogo Inácio de Pina Manique, político que instaurou um autêntico estado policial, velando pela "ordem", proibindo livros dos filósofos franceses iluministas - Diderot, Voltaire, Rousseau, entre outros -, vigiando portos, disseminando agentes pelos cafés, os "Moscas", que, discretamente, identificavam os "fautores da subversão", os críticos mais acérrimos da política portuguesa.


Em 1790, Bocage regressa a Portugal na sequência de uma estada agitada pelo Oriente. Para trás ficara uma experiência marcante em contacto com culturas díspares como a brasileira, a moçambicana, a indiana, a chinesa e a macaense. Os ideais de solidariedade social implícitos na revolução que se consolidava em França exerciam sobre ele um apelo inelutável.


Em Lisboa, nos dez anos subsequentes, levou uma vida de boémia, de franco convívio com o "bas-fond" da cidade. A sua peculiar experiência de vida, a irreverência, a extroversão, a emotividade, a frontalidade, a ironia, a percepção aguda da realidade e o imenso talento que o caracterizavam, de imediato, lhe granjearam um séquito de admiradores incondicionais. No "Botequim das Parras", no "Café Nicola" e noutros lugares de encontro dos noctívagos lisboetas, Bocage foi rubricando críticas aceradas aos múltiplos problemas nacionais, ao despotismo de Pina Manique, ao ambiente de suspeição em que se vivia, à natureza do regime e à ausência dos direitos humanos mais elementares.

Por outro lado, nesta fase da sua vida, Bocage, para além da poesia lírica, compôs poemas de carácter satírico contemplando pessoas do regime, tipos sociais e o clero, facto que não agradou obviamente ao poder. Poemas como "Liberdade, onde estás? Quem te demora?", "Liberdade querida e suspirada", "Pavorosa Ilusão da Eternidade" ou um outro em que faz explicitamente o louvor de Napoleão, paradigma da revolução francesa, e a crítica do Papa conduziram-no à prisão, por crime de lesa-majestade. No Limoeiro, vivendo em condições infra-humanas, moveu as suas influências e beneficiou da amizade do ministro José de Seabra da Silva e da sua popularidade. Três meses mais tarde, era entregue à Inquisição, já sem o poder discricionário que outrora tivera, sob a acusação de impiedade. Dos cárceres da Inquisição passou para o Mosteiro de S. Bento, como comprova o respectivo "Dietário", referente a 1798:

"A 17 do presente mês de Fevereiro foi mandado para este Mosteiro pelo Tribunal do Santo Ofício o célebre poeta Manoel Maria Barbosa du Bocage, bem conhecido nesta corte pelas suas Poesias e não menos pela sua instrução. Tinha sido preso pela Intendência, e ele reclamara para o Santo Ofício, onde esteve até ser mandado para este Mosteiro."

No mesmo livro, no capítulo relativo ao mês de Março, é mencionado o facto de o Abade do Mosteiro ter recebido uma carta do Tribunal do Santo Ofício, dando por finda a reclusão do poeta, por determinação de sua Majestade, e exigindo a sua transferência para o Hospício das Necessidades. Tudo leva a crer que o escritor fora tratado com excessiva brandura no Mosteiro de S. Bento, incompatível com a "reeducação" que Pina Manique animosamente prescrevera.


A 22 de Março de 1798, Bocage deu entrada no Hospício das Necessidades, em regime de vigilância apertada, sem poder, segundo ofício de Pina Manique, "sair fora sem nova ordem, nem comunicar com pessoa alguma de fora, à excepção dos Religiosos Conventuais (... ), andando em liberdade no mesmo Hospício, sem que venha abaixo às Portarias e à mesma Igreja, e nas horas de recreação poderá ir à Cerca na companhia dos Religiosos e Conventuais e assistir no Coro a todos os ofícios". Acrescentava ainda o ditador: (... ) O Príncipe nosso Senhor espera que com estas correcções que tem sofrido tornará em si e aos seus deveres, aproveitando os seus distintos talentos com os quais sirva a Deus nosso Senhor, a S. Majestade e ao Estado, e útil a si, dando consolação aos seus verdadeiros amigos e parentes, que o vejam entrar em si verdadeiramente, abandonando todos os vícios e prostituições em que vivia escandalosamente."

Pouco durou esta reclusão. Mais uma vez o seu carisma e o seu reconhecido talento prevaleceram. Porém, a saga de Bocage com a Inquisição reacendeu-se em 1802, tendo sido aberto novo processo por denúncia feita por Maria Theodora Severiana Lobo que o acusava de pertencer à Maçonaria. Por falta de provas e provavelmente devido à saúde fragilizada do escritor, o referido processo, que pode ser consultado na Torre do Tombo, foi arquivado.

Um último aspecto é digno de menção: a censura perseguiu Bocage durante toda a sua vida. Muitos versos foram cortados, outros ostensivamente alterados, poemas houve que só postumamente viram a luz do dia. Compreende-se plenamente o seu anseio desesperado: "Liberdade, onde estás? Quem te demora?"

Sublinhe-se que em Agosto de 1790 , quando ele chegava a Lisboa, também aqui se começa a ouvir o eco da revolução francesa de 1789. A liberdade era o hino que se cantava às escondidas por toda a parte, porque a polícia estava cada vez mais intransigente. 0 poeta cantou logo contra o despotismo, chamando-lhe sanhudo, inexoravel, monstro que em pranto, em sangue a furia ceva, mas que não tyranisa do livre coração a independencia, e compôs muitos sonetos em honra da liberdade.


Eram estes os sentimentos políticos de Bocage e de todos os sócios da Nova Arcádia, salvas poucas excepções. Nem escapava ao influxo o padre José Agostinho de Macedo, ex-frade graciano, amigo do vate no seu regresso ao país, mais tarde seu declarado inimigo, e por fim reconciliado com ele no período curto da fatal doença que o prostrou.
A Nova Arcádia, chamava-se uma sociedade de poetas daquela época, para onde Bocage entrara em 1791, tomando o nome pastoril de Elmano Sadino, e contra a qual se indispôs em 1793. Em todo o tempo que durou esta guerra com os seus colegas, levantada por vaidades de poetas e de literatos, jogaram-se as mais acerbas sátiras e vibraram-se epigramas os mais frisantes. 0 Dr. Luís Correia do Amaral França, o Abade de Almoster, Joaquim Franco de Araújo Barbosa, e Caldas Barbosa foram os mais atingidos nesta polémica poética. Com José Agostinho de Macedo ainda a luta se tornou mais acesa.

0 forte despotismo da época não podia deixar de. perseguir a quem possuía sentimentos liberais, e Bocage era pouco acautelado na manifestação das suas crenças políticas e. religiosas. No ano de 1797 foram denunciados à intendência da polícia, como escritos pelo poeta, uns papeis ímpios, sediciosos e satíricos, que apareciam clandestinamente com o título de Verdades duras, e continham entre outras coisas a epístola Pavorosa illusão da eternidade. Bocage soube-o, e tentou fugir, mas foi preso a 10 de Agosto do referido ano, a bordo da corveta Aviso, que se destinava a partir para a Baía.
Nas suas odes pinta o infeliz poeta os dissabores por que passou, a entrada no Limoeiro, como ali o apalparam, o segredo em que foi lançado, as perguntas que lhe fizeram, finalmente, tudo quanto sofreu até à transferência, por solicitação de amigos e protectores, em 7 de Novembro, para os cárceres da inquisição. E tão rápido aí andaram com o processo, que a 17 de Fevereiro de 1798 dava entrada no mosteiro de S. Bento da Saúde, de Lisboa, e a 22 de Março passava ao hospício de Nossa Senhora das Necessidades dos clérigos de S. Filipe Nery. Os frades do Oratório com facilidade o doutrinaram, pois que em poucos meses ficou desfrutando outra vez a liberdade, que alcançou por lhe não terem encontrado no processo motivos de condenação, e também devido à protecção do ministro José de Seabra e Silva. Uma beata, Maria Teodora Severiana Lobo Ferreira, denunciou-o mais tarde, em 23 de Novembro de 1802, ao Santo Ofício como pedreiro livre, mas o processo apenas principiado não teve seguimento.



5.10.06

Será que estamos a formar uma geração de atadinhos e … amorfos ?


Como informação prévia e de grande utilidade para esta matéria registamos com regozijo a edição pela Editora Deriva (www.derivadaspalavras.blogspot.com/ do livro «Formação da mentalidade submissa» do Professor Vicente Romano, catedrático de Comunicação Audiovisual, jubilado em 2005, da Universidade de Sevilha, e cuja sessão pública de lançamento do livro está marcada para o próximo dia 20 de Outubro ( às 21.30), na cidade do Porto, no Foyer do auditório da biblioteca Almeida Garrett, e no dia seguinte (21 de Outubro, às 18 h.) na Livraria Letra Livre ( Calçada do Combro, ) com a presença do autor, e ainda do jornalista Rui Pereira e da médica Isabel do Carmo


O presente post inspira-se, entretanto, no artigo da jornalista Hara Marani da revista norte-americana Psychology Today (www.psychology.com), intitulado «A nation of wimps» e num artigo publicado num dos últimos números da revista Notícias Magazine que retomou o tema.



« - Deixem-me…!» - gritou a criança que, mais tarde, confessou ao psicólogo, que o que mais desejava na vida era que os pais arranjassem outro hobby para além dela.

(…)

«Há miúdos com quem vale muito mais a pena preocuparmo-nos – crianças pobres sem recursos nem oportunidades», frisa o psicólogo e professor David Anderegg. E outro psicólogo, Robert Epstein, acrescenta: «Pomos demasiado enfoque nos nossos próprios filhos. É tempo de começarmos a preocupar-nos com todas as crianças»

(…)

«Os telemóveis tornam o cérebro ainda mais preguiçoso. Deixa de ter de antecipar as situações: no momento, logo se vê»

(excertos do artigo publicado na Notícas Magazine do passado 10 de Setembro)



A jornalista Hara Marani, depois de consultar diversos autores e ter observado as reacções e os comportamentos dos jovens em geral, não tem dúvidas em afirmar que actualmente os pais e os educadores andam a criar e a formar uma geração de atadinhos ( «a nation of wimps»).
Apesar de todos os avanços nos mais variados campos científicos Hara Maradi acabou por concluir que os jovens estão menos autónomos, mais dependentes, habituam-se a ter tudo ao alcance de um clic e não se predispõem para as actividades que requerem esforço e desafio pessoas, enredados que estão num manto de proteccionismo paternal e de conformismo social que, em vez de lhes aumentar a auto-estima, os tornam amorfos e temerosos a qualquer contrariedade ou desafio que se lhes depara pela frente, quando os não lançam periodicamente em depressões e angústias relativamente inexplicáveis.

O panorama é tão negro e a descrição tão convincente que a jornalista portuguesa Isabel Stiwell da revista «Notícias magazine», que acompanha aos Domingos os maiores jornais do país, «Diário de Noticias» e «Jornal de Notícias», ao retomar o assunto, vai chegando à conclusão que «…talvez, que não vinha mal nenhum ao mundo se decidisse partir de vez a loja de porcelanas em que transformou a educação do seu filho».


Sintetizamos algumas ideias retiradas deste último artigo:


1)As crianças precisam de se sentirem infelizes.
A infelicidade, as frustrações, as tristezas e as desilusões são tanto ou mais importantes para as crianças e os jovens que só assim podem avaliar e prepararem-se para a vida que têm pela frente, com alegrias e dissabores

2) As crianças precisam de experimentar erros e falhanços.
Ao errar está-se também a aprender, e é através de falhanços e derrotas que elas sabem avaliar as suas possibilidades, sem a muleta dos adultos.

3) Sem perseverança não há resultados.
Estes miúdos superprotegidos, criados em estufas, não só são avessos ao risco como nunca têm a sensação de que vale a pela o esforço e a persistência, cujo prémio é a satisfação máxima de podr dizer «eu fui capaz sozinho de fazer isto»

4) Eles não são frágeis
Eles não nascem frágeis, mas depressa se transformam em tal se pais demasiado protectores os convencerem de que ao voltar de cad esquina está um leão pronto a devorá-los, e que sem a mão do pai ou da mãe para os guiar o mundo é um local muito,mas mesmo muito perigoso

5) «Queria tanto que os meus pais tivessem outro hobby para além de mim»
Foi o que declarou uma adolescente de 15 anos ao psicólogo David Anderegg. É o que dá quando consideramos cada filho como o nosso grande investimento e a nossa grande e única fonte de felicidade !!!

(…)

Aos professores que, em vez de serem funcionários cinzentões, são verdadeiros mestres da vida…


Como hoje é o dia do professor nada melhor que um pequeno gesto simbólico dedicado a todos aqueles ( e aquelas) professores (as) que, em vez de funcionários públicos cinzentões, são verdadeiros «mestres» inspiradores para os seus estudantes.

Por isso reproduzimos a poesia escrita de uma professora de Português no fim de mais um ano lectivo, e os comentários que se seguiram dos seus alunos e que podem ser consultados aqui
.
E poucos serão aqueles que conseguirão ver a ligação do 25 de Abril e os anos de alegria (1974 e 1975) que se seguiram com o esforço inspirador de toda uma geração de professore(a)s que à sua maneira tentam transmitir o vírus e o gosto pela leitura e pela reflexão crítica, porque um outro mundo é possível. Contra ventos e marés...




"Parece que foi há 2 dias,
Ainda estar calor,
Que a turma entrava animada
Numa sala com mais cor.
Daniela tinha a bola
Que lhe fugia pelo chão
Falou-se logo em teatro
E quem o fez foi o João.
A Sara sentava-se à frente
A guardar-me a papelada
Que eu disrtraidamente
Deixava na mesa espalhada.
Falámos das escolas primárias
Que não frequentamos debalde
E a que mais chamou a atenção
Foi a escola de Ramalde
(Sem falar no Taralhão)
A Catarina Alexandra
Nossa grande imperatriz
Trouxe-nos uma fotografia
De uma escola feliz.
Lá estava o Fábio, o João
A Lisete e a Vanessa
Na escola sem condições
Onde davam trambolhões,
Fabricavam ilusões
E brincavam muito e sem pressa.
A Lisete conservou
Seu estilo bem humorado
Mesmo nas fases mais "quentes"
Com testes/trabalhos iminentes,
Seu rosto não está carregado.
Muitos nem queriam pensar
Nas aulas de português
Havia poesia para estudar
E se falaria de Pedro e Inês.
A Catarina Isabel,
Que queria ser engenheira,
Era das que dispensava
Aprofundar as palavras
À poética maneira.
E muitos livros passaram
Pelas mãos e pelas mentes
Dos que na aula estavam
De corpo e alma presentes.
Houve teatro, sim senhor,
E não entrou o João,
Mas a Teresa, que interveio
Fez um grande figurão.
Começava para a Beatriz
A cosmética do talco
Para parecer velha ou feia,
Inclemente ou tirana
(Lembram-se da Juliana?)
Sempre que pisava o palco.
Ah, essa representação
Da obra queirosiana
Que nem estava no programa
Mas que a todos fez cantar
A todos? Nem todos cantam
Porque, as vezes, da alegria
Qualquer triste desconfia
E nem quer acreditar.
Ana Lidia e Isabel
Leram bem, no certo tom
O que deu para colmatar
Aquelas falhas sem par
Que constatámos no som.
Ana Lidia foi Caeiro
Esse poeta pastor,
Parte de um Pessoa inteiro
Na sala descolorida.
Apareceu no mês de Abril
E com ele ideias mil
Lembrando que a poesia
Se é palavra também é vida.
Se falharam as ideias
E se comprometeu a arte
Na altura de a mostrar,
É bom que tenhamos presente
Que as falhas "fazem parte"
E que são um patamar
Para seguirmos em frente.
Vanessa fez o cartaz
Da assombrosa caravela,
Que nos serviu de cenário.
Um dia também foi ela
Que ilustrou azuladamente
A capa escura do diário.
Vanessa da letra pequena
Dificil de tão miudinha,
Mas esse troféu, convenhamos,
Ela não o leva sozinha
Sua amiga, Marta Melo
Tem letra tão leve e subtil
Que, para o ler, a professora
Tem de acender luzes mil.
Marta Melo, a do sorrir
Modera Vidas que, a seu lado,
Procura sempre intervir
Para brincar um bocado.
Que progressos os deste rapaz!
Para ele um prémio Nobel!
Graças a ele, que é capaz
Mas também à Marta e ao Manuel
O amigo das ciências
( uma anáfora, esrão a ver?)
Contagiou-lhe o apetite
E vontade de saber.
O baile de finalista
Desta vez vai ser marcante!
Terá la um cientista
De raciociono brilhante.
Lá estará também a Claudia,
Que já tem lugar marcado.
E nessa noite tão bela,
Claudia será Cinderela
Do seu principe encantado.
E depois do bailarico
Os exames vão chegar,
Uma etapa necessária
Para a outro porto atracar.
Medicina vai abrir
Suas portas de par em par
Quando, Ana Luisa, a sorrir
Se for lá apresentar.
Ao porto de Medicina
Outros barcos vão chegar
Por exemplo, o da Filipa,
Só que irá mais devagar.
A Alice na sua barca
Ao cais de Hipócrates vai atracar
Alice tem de ter calma,
Deixar ir a caravela...
É altura de lembrar
Que "Quando Deus fecha uma porta,
Abre sempre uma janela".
Alice, qual Blimunda
Com olhar especial
Como a Marta, mais atrás
Que quer e vai ser capaz
De, mais dia menos dia,
Estudar radioterapia.
A vida flui assim,
Vós partis, eu fico aqui.
E apesar de cansada
Ouço a música tocada
Por um Scarlatti em mim.
Baixinho, pergunta assim:
Valeu a pena?
E apesar de cansada,
A minha voz sussurrada,
Responde: Sim."

Dulce Vilas Boas

(professora de Português)


Comentários dos e das alunas:

Um muito obrigado Professora, por ter deixado a sua marca nestes 3 anos que passamos juntos, por nos ter mostrado o outro lado das letras, por nos ter emocionado com a sua capacidade de guardar cada pedacinho nosso, e pode ter a certeza que do nosso lado não esqueceremos a sua dedicação e o seu carinho. E não existe Adeus, mas um "até já", porque o a Terra é redonda e encontrar-nos-emos ao virar da esquina.


Ao fim de 3anos posso admitir que esta prof me marcou. Nao so pela paixao com que nos transmitia aqilo que sabe, mas tambem por todos os momentos passados...Obrigadu professora por tudo o que fez por nos...Ate breve


pDx crer piu... esTa sTora fOi do meLhor... AxUh k ate me fex gUxtar maix de portuGues k tenhu tantas difiCuldades...=)oBrigaDuh sTora pLa paCiência pra nOx atuRar..."Até jah" - como diSSe a VaneSSa..


Se a terra é redonda... nao tem eskinas! :P Mas acabaremos todos por nos encontrar, disso nao tenho dúvidas!!!Obrigada stora


ObRiGadu proFessora por Tudo o que Nos deu..Ate dou poR mim a Ler poesia.. ;)Ate Ja...


oh pa, xegadinha de um estagio, depois do Baile d Finalistas, o cansaço fisico nao deixa a mente trabalhar muito bem. Gostava de deixar um comentário grande e lindo lindo, como esta stora merece. Mas fica, de uma forma, sucinta, um obrigado pelas sensações saudáveis, que fazia cresccer dentro de nós, quando transportava nas suas palavras a emoção de um poema de que gostava, a cada aula. Sensações que, aos poucos, nos foram ajudando a tornar pessoas melhores, mais sensíveis e mais abertas ao mundo. Sensações que incomodavam, tipo cócegas de mãe... :paté já, claro!!!!


Pois é... Dei por mim com lagrimas a escorrer-me pela face quando li o texto da stora mesmo ja o tendo ouvido da boca dela uma vez... E as lágrimas que ela tb deixou escapar mostraram que este não é apenas um texto que fica para a posteridade no nosso "berço", tem muito sentimento em si... Sei bem que nunca vou esquecer a pessoa que me ensinou a gostar de poesia e que me deixou com a vontade de escrever sempre mais qualquer coisinha em todos os trabalhos! À stora Dulce um muito obrigada por tudo e termino assim com uma pequena parte de um texto que ela mesma me deu a conhecer e que sempre me lembra o mesmo, "12º3": "Não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas elouqueceria se morressem todos os meus amigos!" F.P.Bejo enorme... e "até já"


Já passei pelos comentários a este texto pelo menos umas três vezes e continuo a não saber o que dizer, assim como não soube quando a stora o leu na aula.Para além de demonstrar a sua excelente memória (quem é que se lembra de a Dani entrar na sala com a bola?) a stora também demontrou que sabe escrever poesia tão bem como qualquer poeta que já lemos na aula, e este poema tem muito mais sentido do que qualquer outro, porque tem um pouquinho das nossas vidas lá dentro, é um pouquinho "nosso".Assim, sem mais comentários, o poema está lindo, e só espero que a stora tenha poderes de vidente ;pAté sempre...


Há profs dos quais já nem nos lembramos do nome, outros que acabaram por ser "indiferentes", no entanto, há tb aqueles que nos marcam, que nos mudam um pouco, e a stora Dulce foi uma delas! Quem é que ñão admira a forma cm ela vibra cm as palavras, a forma como consegue brincar c elas e contagiar-nos tb um pouco?Foi um prazer tê-la como professora, e este texto, é um pequeno pedaço que nos deixou, um pedaço de nós que tb nós lhe deixamos, e ao voltar a lê-lo, é difícil n deixar uma lágrima escapar, pk pessoas assim, são difíceias de encontrar. Nós? Tivemos a sorte de a ter ao longo do nosso caminho, e com ela, e graças a ela, mts caminhos mais irão surgir!Até já stora!



3.10.06

Marcha dos professores e educadores ( Pr.Marquês de Pombal, 5 de Outubro)



Não fiques em casa

MARCHA de PROFESSORES E EDUCADORES

(Pr. Marquês de Pombal - a partir das 15 horas)

Todos à rua

Contra a proposta do Ministério de liquidação do Estatuto da Carreira Docente

Pelo serviço publico de educação

Por uma educação de qualidade para todos

Maria vai com as outras ( próximas actividades)

No novo espaço «Maria vai com as outras», na cidade do Porto estão programadas as seguintes actividades para os próximos dias:

4 de outubro de 2006
Viagem à Roma Antiga - festival de Baco, o deus do vinho e da alegria
(a partir das 22h30)
Música, alegria e outras bebidas...


6 de outubro
a partir das 22h03,
aparece com a tua poesia, com os teus escritos, com os teus livros... partilha o que gostas, o que lês, o que escreves.
Uma noite mal dita....


http://maria-vai-com-as-outras.blogspot.com/

2.10.06

Geo-engenharia: a tentação de arrefecer artificialmente o planeta para contrariar o aquecimento global


Nota A) A concentração do gás carbónico (CO2) na atmosfera passou de 280 partes por milhão (ppm) antes da era industrial para 380 ppm hoje em dia. Estima-se que ela se situará entre 540ppm e 970 ppm por volta do ano 2100.

Nota B) A temperatura média aumentou de 0,8 ºC ao longo do último século, mas o aumento foi de 0,6 ºC nas últimas três décadas, segundo o Goddar Intitute for Space Studies da NASA

Nota C) Consultar o departamento de geo-engenharia da Universidade de Berkeley
http://ce.berkeley.edu/geo


Entrevista com o climatólogo Edouard Bard

Pergunta - Para contrariar o aquecimento global, os climatólogos falam agora de «arrefecer» artificialmente a Terra. Isto é sério ?

Edouard Bard - Sim, infelizmente. Diversas hipóteses estão a ser encaradas. Algumas são muito prospectivas, como o envio de um enorme espelho a meio caminho entre a Terra e o Sol. Tal faria diminuir a luz da terra. Outras são menos futuristas, como as experiências de fertilização dos oceanos de partículas de ferro: este elemento favoreceria a fotossíntese – logo, a absorção do carbono – pelo filoplancton. Diminuindo assim a concentração do gás carbónico responsável pelo «efeito de estufa». Poder-se-á também imaginar injectar partículas muito pequenas ou aerossóis na alta atmosfera para que elas arrefecessem parcialmente os raios solares. Tudo isso faria, teoricamente, baixar as temperaturas médias…No entanto, a realidade é bem mais complicada.

P – A tentação de modificar intencionalmente o clima é uma novidade?

Edouard Bard – Não. Isso chama-se «geo-engenharia». Mas este campo de pesquisa manteve-se tabu durante muito tempo na comunidade científica por uma razão simples: difundir a ideia junto dos políticos, dos empresários e do público de que bastaria pôr em funcionamento certos dispositivos para servir de remédio ao aquecimento global é perigoso. Isso levaria à falsa ideia que se poderia injectar sem cessar o carbono na atmosfera terrestre. Ora tais dispositivos de geo-engenharia não devem ser senão um último recurso, em caso de agravamento brutal e imprevisto da situação climática.
Porém, certos climatólogos pensam que é chegada a hora de começar a trabalhar sobre uma tal eventualidade. Para avaliar os numerosos riscos e incertezas e sobretudo para não fazer crer que se trata de uma solução milagrosa.

P – Qual é a solução de resfriamento mais provável?

Edouard Bard – O dispositivo de que mais se fala há décadas foi o que foi adoptado por Paul Crutzen, prémio Nobel de química. Com a ajuda de balões, por exemplo, procurar-se-ia injectar dióxido de enxofre na estratosfera que se transformaria de seguida em minúsculas partículas de sulfato. Estes aerossóis reflectiriam então parcialmente os raios solares durante anos.
As consequências de um tal efeito-écran puderam ser estudadas a seguir às grandes erupções vulcânicas – como as do El chichon em 1982 e do monte Pinatubo em 1991. Estes vulcões projectaram dióxido de enxofre que se transformaram numa camada de aerossóis. No Pinatubo o efeito foi um abaixamento médio das temperaturas do solo de cerca de 0,5 ºC durante dois anos. Mas atenção: estes valores não mostram a complexidade dos fenómenos observados.

P – Quais são os riscos?

Edouard Bard – No Verão seguinte à erupção do Pinatubo um arrefecimento foi observado em quase todas as regiões do mundo. No Inverno seguinte, arrefecimentos acentuados foram registados no mar do Labrador, no Médio Oriente e no Norte de África, ao passo, que, paradoxalmente, se observou um aquecimento na Europa do Norte…Imagine-se a intensa actividade diplomática que se tornaria necessária antes da concretização de tais soluções.

Pergunta – Podem-se explicar os efeitos colaterais não controlados?

Edouard Bard – A injecção de aerossóis perturbaria um fenómeno chamado de oscilação árctico que provocaria aquecimentos locais no Inverno em certas regiões, e o esfriamento se concentraria noutras. Assim no Inverno seguinte à erupção do Pinatubo a descida de temperatura das águas do mas Vermelho levou à mistura de águas de superfície e à subida de elementos nutritivos. O resultado foi uma proliferação de algas que asfixiaram os corais. Efeitos no crescimento de plantas terrestres foram também detectados à escala mundial.
Com todos esses dispositivos de geo-engenharia não é só a atmosfera que fica em jogo, mas o sistema climático no seu conjunto, isto é, corre-se o risco de se dar um efeito de dominó de grande complexidade. Prever e avaliar os efeitos colaterais à escala mundial exige, antes de tudo, um trabalho científico considerável que envolva climatólogos, oceanógrafos, geólogos, astrónomos, biólogos, agrónomos, etc.
Além disso, caso esta solução venha a ser encarada por ser menos arriscada, mesmo assim torna-se difícil avaliar as consequências em cadeia de uma manipulação em grande escala.
Imaginemos o cenário: o carbono absorvido é transferido para o fundo do oceano. Uma parte desta matéria orgânica vai logicamente oxidar, consumindo o oxigénio dissolvido nas águas do mar. Podem então formar-se zonas anoxicas, isto é, desprovidas de oxigénio, em certas regiões do oceano. Bactérias capazes de degradar os nitratos desenvolver-se-iam o que produziria um gás, o protozido de azoto (N20) que se escaparia para a atmosfera. Tal teria consequências desastrosas para o ambiente uma vez que se trata de um gás com efeito de estufa muito mais poderoso que o CO2

P – Apesar de reticentes, muitos climatólogos mostram-se derrotistas e pensam que tais procedimentos irão ser adoptados. Qual é a sua opinião?

Edouard Bard – Temos que ver como funciona a diplomacia climática. Numerosos colegas meus mostram-se pessimistas sobre a eficácia das medidas que visam a redução das emissões. Mesmo na Europa, a vontade de desenvolver, rapidamente e em grande escala, alternativas ao petróleo e ao carvão, deixa muito a desejar. Os empresários e os políticos têm as cartas na mão. Se os países do Norte não mudarem de atitude acerca das mudanças climáticas, eu temo bem que não haverá grandes hipóteses de escaparmos, daqui a algumas décadas, à adopção de medidas extremas.

Texto publicado no jornal Le Monde de 1 de Outubro de 2006

O Panfleto

«Deverá ser o panfleto a forma literária de uma época como a nossa. Vivemos tempos de paixões políticas acesas, em que os meios de livre expressão se apresentam cada vez mais raros, e reina a mentira organizada a uma escala até hoje nunca vista. Para colmatar as lacunas da História, afigura-se o panfleto o utensílio ideal.»

George Orwell, The Collected Essays, Journalism and Letters
(selecção de PCD)


Retirado de:
http://frenesi-livros.blogspot.com/

Petição de apoio às vitimas da Biblioteca de Celorico de Basto


Retirado de:
http://bibliotecarioanarquista.blogspot.com/

A biblioteca de Celorico de Basto vive momentos dramáticos com o tsunami documental provocado pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. «Passámos aqui momentos muito difíceis no tempo das “Escolhas do Marcelo” e pensámos que o pior já tinha ido», contou-nos a bibliotecária, ainda em estado de choque.
«Contudo quando hoje chegámos à biblioteca e vimos mais um camião TIR carregado de Directivas Comunitárias, Assentos e Acórdãos do STJ e do Tribunal Constitucional, jurisprudência do Supremo Tribunal da República Federal Alemã, a colecção completa I, II e III séries (1958-1988) da revista “Pateta” e ainda o vasto espólio da família Otto Von Bismmark [amigos do professor de Cascais] de literatura Russa em neerlandês, voltámos a entrar em pânico».
Visitámos o Pedro da catalogação que ainda se encontra na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Braga. «Fiquei assim depois de ter sido obrigado a catalogar mais de 2.000 volumes do Boletim Oficial das Comunidades em letão» contou-nos. «Não volto a pisar aquela biblioteca nem morto!...», disse-nos na cama enquanto imitava o som do colibri.
À margem deste processo corre em simultâneo uma petição no sentido de sensibilizar as autoridades nacionais para a necessidade de transferir o aterro sanitário (ainda em fase de projecto) de Souselas precisamente para Celorico de Basto. Ficamos a aguardar mais informações sobre o assunto.Nota: para os cibernautas estrangeiros estamos a falar de um ilustre e mediático professor de direito e comentador de jogos de futebol em Portugal, que resolveu doar compulsivamente livros e documentação variada à biblioteca pública da sua terra, para grande terror dos seus funcionários e leitores.

1.10.06

Encontro radical de mulheres (Escanda, 21-24 de Set.)








Mulheres inspiradoras e trangressoras


Cerca de cem mulheres de bairros e povos de diversos países, principalmente da Europa e da América do Norte, participaram no Encontro Radical de Mulheres no espaço autogestionário de ESCANDA ( nas Astúrias) entre os passados dias 21 e 24 de Setembro.

As organizadoras propunham-se reunir «mulheres que estivessem envolvidas ou interessadas na política radical». Ou seja, mulheres que levassem a efeito «práticas de base e anti-hierárquicas, fora das estruturas políticas tradicionais, e cujo objectivo fosse procurar formas não reformistas de resistir à opressão». As participantes no encontro eram pois activistas que lutam em diversas frentes, e em distintos espaços, dentro e fora do feminismo, e que tratam de responder à pergunta: «Porque precisamos de invocar o género nos nossos colectivos e movimentos anticapitalistas?»
Uma participante do Reino Unido falou da necessidade de lutar em dois sentidos, um dentro dos próprio movimentos anticapitalistas, e outro no âmbito da sociedade em geral: «Parece que os movimentos anticapitalistas ocultam a luta das mulheres, como se a luta sobre o género fosse uma coisa da década de 70, ou como a opressão das mulheres nas suas variadas formas fosse já algo superado, qualquer coisa já resolvido que não merece a pena ser alvo de atenção».
A iniciativa de realizar o encontro em Escanda partiu de um colectivo de Brighton de dedicado à autogestão dos problemas de saúde das mulheres. O certo é que o tema era limitativo e as presentes na reunião viram-se confrontadas com as propostas de discussão vindas de todas as participantes como o do mito do amor, o trauma sofrido por activistas e a necessidade da sua recuperação, a medicina natural, a ejaculação feminina, a imigração e o racismo, a violência sexual e a justiça de género, história da lutas das mulheres, o patriarcado e capitalismo, ginecologia autogestionada, as diferentes formas que podem assumir as relações, a mudança climática e o colapso ecológico, capitalismo e luta global de classes, apoio a presas, tácticas de acção directa, etc…
Mas para além dos debates, partilha de habilidades, e criação de redes de luta…também existiu tempo e espaço para o relaxe, para o jogo e a conversa, festas e noites com microfone aberto, visionamento de filmes, actuações espontâneas e improvisos, seguindo sempre a filosofia «faz tu mesmo». Realizaram-se ainda oficinas de carícias, de solidariedade entre mulheres e sobre construção sustentável.

Relações de poder

Durante o fim de semana que durou o encontro destacou-se como preocupação comum das mulheres participantes o estudo das relações de poder que se estabelecem entre as mulheres. No workshop sobre solidariedade entre as mulheres emergiu com muita força esta temática: «Acho que muitas vezes fixamo-nos nas relações de poder homem-mulher e a verdade é que temos de entender como funcionam as relações de patriarcado entre as mulheres. Estas relações podem assumir diversas dimensões, tais como a competência, o fantasma do homem, ou a interiorização da opressão», refere Emma, activista da Women No Borders.
Deste encontro resultou um grupo de participantes que se mostraram interessadas em trabalhar o tema.

(o texto anterior foi retirado do jornalDiagonal)


Reproduzimos em seguida, em castelhano, o texto de convocação para o encontro:

Con este encuentro queremos reunir a mujeres involucradas, o interesadas, enpolítica radical. Con radical queremos decir una política autogestionada debase que trabaje fuera de las estructuras políticas tradicionales, quepretenda ser no jerárquica y que busque formas no reformistas para resistirla opresión.
Queremos juntarnos para discutir nuestras visiones y estrategias sobre losprincipales asuntos políticos con los que nos encontramos. Este encuentro esun espacio y una oportunidad para compartir las teorías y las prácticas,para conocernos y conocer los direntes antecedentes y contextos políticos,pata hablar, para aprender colectivamente, para imaginar estrategias nuevas,construir relaciones duraderas y posibles redes y campañas en común.
Queremos debatir sobre temas como inmigración, exclusión, racismo, trabajosexual y compartir experiencias de trabajo con estos temas de varios países.
Queremos hablar sobre luchas ecológicas, luchas obreras y apoyo a lasmujeres presas.
Queremos hablar sobre la dimension de género en cuanto a la clase, raza y violencia. Queremos hablar sobre feminismo, políticas queer y transgénero, y sobre como tomar y mantener control sobre nuestros cuerpos, nuestra salud ynuestra reproducción.
Queremos hablar sobre la sexualidad, el sexo,relaciones de pareja con todos los sexos y géneros.
Queremos explorar lasolidaridad entre mujeres: ¿qué es? ¿la necesitamos? Y si sí, ¿cómo lo hacemos?

Esperamos que la gente pueda compartir habilidades y experiencias en accióndirecta, mantenimiento de bicis, construcción de juguetes sexuales,auto-defensa, tecnología y software, medios independientes y alternativas,salud autogestionada y remedios con hierbas, maternidad, proyectos de vidaalternativa y centros sociales, cómo organizar encuentros e impartir buenostalleres y mucho más.

También queremos que el encuentro nos dé la oportunidad para relajarnos,socializar y jugar en un entorno increíble. Podemos proyectar películas,compartir recursos e historias, cantar, bailar y tener fiestas.

Tenemos cuatro días y un océano de experiencias y habilidades; lo queterminemos haciendo con todo aquello depende mucho de quién viene y quiereayudar a facilitar talleres, de los deseos e inquietudes, así que hacédnoslosaber.
Dónde?
Casa Escanda, Ronzon, Pola de lena, Asturias, España.

Escanda es un espacio internacional autónomo, situado desde 2003 en la viejaaldea de Ronzon, rodeado de una gran huerta ecológica y manzanares. Es uncolectivo rural con un gran interés en educación popular e intercambio dehabilidades, energías renovables y sostenibilidad, entre muchas otras cosas.Escanda es un espacio para experimentación y desarrollo de formas deorganización alternativas a los del capital y el estado
Quién?
El espacio de este encuentro es exclusivamente para mujeres (incluyendotransgéneros) que ya tienen algun afinidad con política y práctica radical.Vendrán mujeres de toda Europa y de donde sea que alcancen nuestros redes..Estamos invitando mujeres individuales y mujeres de campañas, proyectos ymovimientos específicos. Desafortunadamente sólo tenemos espacio einfraestructura para acomodar 60 mujeres. Por eso, esperamos que esteencuentro sea un trampolín para más encuentros e iniciativas a largo plazo.
Cómo?
Habra espacio para dormir en Escanda, en las casas o en tiendas en losmanzanares. También hay un albergue en el pueblo donde se puede dormirgratis. La comida va a ser vegetariana o vegana. Todo el encuentro seráautogestionado, es decir, las tareas de cocinar, limpiar y mantenimientoserán responsabilidades de todas. Los idiomas de trabajo seran castellano einglés. Por cualquier duda o sugerencia sobre idiomas, traer tus hij@s,otras habilidades o lo que sea, por favor contacta con nosotras.
Interesada?
Si tú o tu grupo estáis interesadas en venir, por favor, dínoslo lo antesposible, ya que hay plazas limitadas para el encuentro. Por favor, rellenael formulario de inscripción en esta página web.Si estás involucrada en un grupo o proyecto, te pediremos que escribas unpárrafo introductorio sobre vuestro trabajo político para ponerlo en la webpreviamente al encuentro.Colgaremos textos y otros recursos que la gente puede mirar y leer en elapartado "Lecturas".
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Programa preliminar:
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Queremos que los talleres sean oportunidades para que la gente que estáinvolucrada en proyectos similares pueda juntarse y compartir experiencias,estrategias y habilidades. El programa está abierto a vuestras sugerencias,aquí debajo está lo que hemos pensado hasta el momento.
Si quieres contribuir o ayudar a facilitar cualquiera de estos talleres, porfavor háznoslo saber.
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Debates
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* Historia de la salud feminista
* Relaciones y sexo - "El Mito del Amor"
* Historia de las luchas y encuentros feministas
* Género y clase
* Apoyo a mujeres presas
* Violencia de género
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Compartiendo experiencias y nuestro trabajo político, reflexiones colectivas
* Mujer y Acción Directa
* Organización de encuentros (logística, idioma, cocina)
* Organización de encuentros y talleres
* Vida alternativa y centros sociales
* Eco-activismo
* Migración, género y anti-racismo
* Prostitución/trabajo sexual
* Queer y políticas transgénero
* Políticas reproductivas, campañas pro-aborto, etc
* Medios alternativos
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Compartiendo habilidades e información
* Medicina a través de las plantas
* Mantenimiento de bicicletas
* Taller de DJ
* Juguetes sexuales
* Maternidad y activismo
* Mujeres y cosas técnologicas (algunas ideas son: introducción básica aldiseño de páginas web, compartir ficheros, colgar materiales en la web,copiar, piratear, etc. Necesitamos gente con este tipo de habilidades!)
* Habilidades de acción directa (planear acciones, tipos de acciones, etc)
* Aborto autónomo* Embarazo y parto autónomos
* Autodefensa de mujeres
* Autostop, hurtos, skipping, okupación and general blags
* Masturbación y eyaculación femenina
* Body mapping exercises
* Introducción a la teoría anticapitalista
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Definiendo estrategias
* Pensamientos e ideas sobre cómo trabajamos con hombres
* Solidaridad entre mujeres - ¿Cómo lo hacemos? (Competitividad entremujeres, cómo afrontar el sexismo)
* Creando redes, apoyando las luchas de cada una
* Moviéndonos hacia delante: ¿Reuniones regionales y el encuentro del añoque viene?