22.1.06

Ibsen, o realismo e a crítica social


A propósito do centenário da morte de Ibsen, notável dramaturgo norueguês que exerceu uma grande influência nos autores e nos activistas sociais do fim do século XIX, aparecerá brevemente no Pimenta Negra um ou mais textos sobre a relação de Ibsen e os teóricos e as ideias libertárias

Ver:
http://www.ibsen2006.no/?id=83
http://www.ibsenworldwide.info/
http://www.noruega.org.pt/ibsen/ em português



Os quatro dramas que Ibsen publicou nos anos de 1877-82, 'Os Pilares da Sociedade', 'Uma Casa de Bonecas', 'Espectros' e 'Um Inimigo do Povo' são caracterizados como dramas realistas contemporâneas ou dramas de problematização social. Basicamente, existem quatro aspectos destas peças que justificam uma tal descrição:

1. Fazem de problemas sociais o tema em debate. 2. Têm uma perspectiva crítica relativamente à sociedade. 3. A acção decorre num ambiente contemporâneo. 4. Apresentam pessoas e situações comuns.

Problemas em debate

O crítico literário dinamarquês Georg Brandes (1842-1927) foi o grande pioneiro do avanço do realismo nos países nórdicos. Em 1871, Brandes realizou uma série de prelecções na Universidade de Copenhaga sob o título 'As Principais Correntes na Literatura do Século XIX' (publicado em seis volumes em 1872-90). Nesta obra, o crítico literário avança com o seguinte manifesto para uma nova forma de literatura que deverá ser de crítica social e realista:
«Que a literatura nos nossos dias está viva é visível pelo facto de apresentar problemas para debate. Assim, por exemplo, George Sand coloca em discussão a relação entre os dois sexos, Byron e Feuerbach a religião, Proudhon e Stuart Mill a propriedade, e Turgenev, Spielhagen e Emile Augier as doenças na sociedade. Que a literatura não apresente nada para debate é igual a estar em vias de perder todo o significado».

Os representantes do realismo de crítica social na Noruega – Ibsen, Bjørnson, Lie, Garborg, Kielland e Skram – receberam inspiração de Brandes. Nos quatro dramas acima mencionados da autoria de Ibsen voltamos a deparar-nos com diversos problemas sociais que Brandes usa como exemplos na citação. A relação entre os sexos é tema de debate em 'Uma Casa de Bonecas' e 'Espectros', e as características problemáticas de males prevalentes na sociedade são debatidos em 'Os Pilares da Sociedade' e 'Um Inimigo do Povo' (moralidade social, tirania da maioria, considerações de índole comercial versus considerações gerais de nível social, considerações ambientais, etc.).

Perspectiva de crítica social

Nestes dramas realistas Ibsen era impiedoso na sua demanda por desmascarar o lado negativo da sociedade, a hipocrisia e a falsidade, o uso da força e o comportamento manipulativo, tendo o autor efectuado exigências incansáveis a favor da sinceridade e da liberdade. A verdade, a emancipação, a realização pessoal e a liberdade do indivíduo são os termos chave. Em 'Os Pilares da Sociedade', Lona Hessel tem a última palavra e conclui dizendo que «o espírito da verdade e o espírito da liberdade – são eles os pilares da sociedade». Em 'Espectros', Ibsen aponta uma luz crítica aos pilares que suportam a sociedade burguesa, o casamento e o Cristianismo, e utiliza tabus típicos, o incesto, as doenças venéreas e a eutanásia. Este facto fez com que o autor e os que partilhavam das suas ideias se tornassem figuras controversas no seu tempo. As suas obras geraram controvérsias violentas ou furor absoluto. A partir de um ponto de vista posterior, é possível observar a enorme importância de algumas destas obras para diversos movimentos sociais. Praticamente não existe, em quase todas as culturas do mundo, uma outra obra literária que tenha significado tanto para a libertação da mulher como 'Uma Casa de Bonecas'.

Perspectiva contemporânea

A acção em todos os dramas que Ibsen escreveu, incluindo 'Os Pilares da Sociedade', decorre na sociedade contemporânea (daí a designação dramas contemporâneos). Os representantes da literatura realista exigiram a si mesmos que deviam ir para o seu próprio tempo e deixar-se marcar por ele. Os dramas históricos no estilo nacional-romântico estavam fora de moda. Os deuses e heróis clássicos, os imperadores romanos e os reis de potências mundiais foram substituídos por pessoas «como nós». O decorrer da acção nestes dramas iria carregar a marca dos tempos.
As primeiras anotações de Ibsen para 'Uma Casa de Bonecas' (datadas de 19 de Outubro de 1878) têm o cabeçalho «Notas para a tragédia contemporânea». O termo «tragédia contemporânea» é expressivo. O projecto de Ibsen nesta peça é aplicar a forma clássica da tragédia a um material moderno. A nível formal, Ibsen não se envolve em experimentações radicais em 'Uma Casa de Bonecas'. Por exemplo, as três unidades clássicas mantêm-se, bem como as unidades de tempo, espaço e acção. O que há de novo é o material de conflito moderno, a temática daquilo que decorre em palco.
Pessoas e situações comunsNuma carta dirigida ao teatrólogo sueco August Lindberg, que estava em vias de encenar 'Espectros' em Agosto de 1883 (a sua representação com estreia em Helsingborg a 22 de Agosto de 1883 foi a primeira nos países nórdicos e na Europa), Ibsen escreveu:
«A linguagem deve soar natural e o modo de expressão tem de ser característico de cada uma das pessoas na peça. Como é evidente, nenhuma pessoa se expressa da mesma maneira que outra. A este respeito muita coisa pode ser corrigida durante os ensaios, que é quando mais facilmente se repara no que não nos soa natural e espontâneo, tendo de ser, portanto, alterado uma e outra vez, até as falas atingirem uma forma de credibilidade e realismo total. O efeito da peça depende, em grande medida, da sensação que o público tenha de que está sentado a ouvir o que se passa na vida real».
Ibsen preocupava-se muito com o facto de que, nos seus dramas contemporâneos, o público no teatro (e os leitores) fosse testemunha de cadeias de eventos que poderiam muito bem ter-se passado na vida de cada um. Esta circunstância requeria que as personagens dos dramas do autor falassem e se comportassem de forma natural e que as situações tivessem o cunho do quotidiano. As personagens já não podiam falar em verso, como em 'Brand' e 'Peer Gynt'. Os monólogos, apartes e modos afectados de falar (como em 'Os Guerreiros de Helgeland') foram postos de parte. O drama realista iria criar a ilusão da realidade reconhecível.

Texto da autoria de Jens-Morten Hanssen / ibsen.net


Cronologia

1828 Henrik Johan Ibsen nasce a 20 de Março em Stockmannsgården, Skien. Pais: Marichen (nascida Altenburg) e Knud Ibsen, comerciante.

1835 O pai tem de desistir do negócio. As propriedades são leiloadas. A família muda-se para Venstøp, uma quinta em Gjerpen.

1843 Crisma na igreja de Gjerpen. A família muda-se para Snipetorp, em Skien.Ibsen sai de casa dos pais a 27 de Dezembro.

1844 Chega a Grimstad a 3 de Janeiro para ser aprendiz de Jens Aarup Reimann, farmacêutico.

1846 Tem um filho ilegítimo com Else Sophie Jensdatter, uma das criadas de Reimann.

1847 Lars Nielsen torna-se proprietário da farmácia, mudando-se para instalações maiores.

1849 Ibsen escreve Catilina.

1850 Vai para Cristiânia estudar para o exame de admissão à universidade. A peça Catilina é publicada sob o pseudónimo Brynjolf Bjarme. Edita o jornal da Associação de Estudantes Samfundsbladet e o semanário satírico Andhrimner.Primeira encenação de uma obra de Ibsen na história. A peça em um acto The Burial Mound é representada no Teatro de Cristiânia a 26 de Setembro.

1852 Muda-se para Bergen para começar a dirigir produções teatrais no Teatro Det norske. Faz uma viagem de estudo a Copenhaga e a Dresden.

1853 Primeira representação de A Noite de São João.

1854 Primeira representação de The Burial Mound numa versão revista.

1855 Primeira representação de Lady Inger.

1856 Primeira representação de The Feast at Solhoug.Fica noivo de Suzannah Thoresen.

1857 Primeira representação de Olaf Liljekrans. É nomeado director artístico do Kristiania Norske Theater.

1858 Casa com Suzannah Thoresen a 18 de Junho. Primeira representação de Os Guerreiros de Helgeland.

1859 Escreve o poema «Paa Vidderne» («Vida nas Terras Altas») e o ciclo de poemas «I illedgalleriet» («Na Galeria de Arte»). Nasce o seu filho Sigurd a 23 de Dezembro.

1860 Escreve Svanhild, um esboço de A Comédia do Amor.

1861 Escreve o poema «Terje Vigen».

1862 O Kristiania Norske Theater vai à falência. Ibsen parte numa viagem de estudo ao vale de Gudbrandsdalen e à região ocidental do país para estudar folclore.A Comédia do Amor é publicada (primeira representação no Teatro de Cristiânia a 24 de Novembro de 1873). É nomeado consultor do Teatro de Cristiânia.

1863 A peça Os Pretendentes é publicada.Escreve o poema «En broder i nød» («Um Irmão em Pobreza»).

1864 Os Pretendentes é representado pela primeira vez no Teatro de Cristiânia. Parte para Itália e vive em Roma durante quatro anos.

1865 Escreve The Epic Brand. Revê o texto, apresentando-o com o título Brand. 1866 Brand é publicado e é um sucesso. É atribuído a Ibsen um dos estipêndios estatais para artistas.

1867 Publica A Comédia do Amor numa versão revista.Escreve e publica Peer Gynt (Primeira representação no Teatro de Cristiânia a 24 de Fevereiro de 1876). 1868 Muda-se para Dresden, onde a família vive durante sete anos. 1869 The League of Youth é publicada e representada pela primeira vez no Teatro de Cristiânia. Ibsen participa numa reunião sobre ortografia escandinava em Estocolmo. Vai para o Egipto e está presente na abertura do Canal do Suez. 1870 Escreve o poema «Ballongbrev til en svensk dame» («Carta balão a uma senhora sueca»).

1871 Publica uma compilação de poemas (Digte) pela primeira e última vez.

1872 É escrita uma grande parte de Imperador e Galileu.

1873 Conclui e publica Imperador e Galileu.Faz parte de um júri internacional de arte na exposição mundial em Viena.

1874 Visita a Noruega (Cristiânia). Vai para Estocolmo.Publica Lady Inger numa nova versão.

1875 Publica Catilina numa nova versão.Muda-se para Munique, onde vive durante três anos.Escreve o poema «Et rimbrev» («Uma carta em rima»). 1877 Escreve Os Pilares da Sociedade, encenado pela primeira vez no Det Kongelige Teater (Teatro Real) em Copenhaga.Recebe um doutoramento honoris causa pela Universidade de Uppsala.

1878 Muda-se de novo para Roma e permanece nessa cidade durante sete anos, com a excepção de diversos tempos de interregno. 1879 Escreve e publica Uma Casa de Bonecas, que é representado pela primeira vez no Det Kongelige Teater (Teatro Real) em Copenhaga.
1881 Escreve e publica Espectros (encenado no teatro Aurora Turner Hall em Chicago a 20 de Maio de 1882).

1882 Escreve e publica Um Inimigo do Povo (primeira representação no Teatro de Cristiânia a 13 de Janeiro de 1883).

1883 Publica The Feast at Solhoug numa nova edição.

1884 Escreve e publica O Pato Bravo (primeira representação no Den Nationale Scene em Bergen a 9 de Janeiro de 1885). 1885 Visita a Noruega (Cristiânia, Trondhjem, Molde e Bergen).Muda-se para Munique e lá permanece durante seis anos.

1886 Escreve e publica Rosmersholm (primeira representação no teatro Den Nationale Scene a 7 de Janeiro de 1887).

1887 Passa o Verão no norte da Jutelândia (em Sæby). Continua para Gotemburgo, Estocolmo e Copenhaga.

1888 Escreve e publica A Dama do Mar (primeira representação realizada no Hoftheater em Weimar e no Teatro de Cristiânia no mesmo dia, 12 de Fevereiro de 1889).

1889 Último Verão em Gossensass. Conhece Emilie Bardach.

1890 Escreve e publica Hedda Gabler (primeira encenação no Residenztheater em Munique a 31 de Janeiro de 1891).

1891 Regressa à Noruega e instala-se em Cristiânia. Conhece Hildur Andersen.

1892 Escreve e publica O Construtor (primeira produção realizada no Lessingtheater em Berlim a 19 de Janeiro de 893). Sigurd Ibsen casa com Bergliot Bjørnson.

1894 Escreve e publica O Pequeno Eyolf (representado pela primeira vez no Deutsches Theater em Berlim a 12 de Janeiro de 1895).

1895 Muda-se para o apartamento na esquina entre Arbiensgate e Drammensveien em Cristiânia e aí permanece pelo resto da vida.

1896 Escreve e publica João Gabriel Borkman (primeira representação simultânea dos teatros Det svenske Teater (Suécia) e Det finske Teater (Finlândia) em Helsingfors a 10 de Janeiro de 1897).

1898 70º aniversário - celebrações em grande escala em Cristiânia, Copenhaga e Estocolmo.

1899 Escreve e publica Quando Despertamos de Entre os Mortos (primeira encenação no Hoftheater em Estugarda a 26 de Janeiro de 1900).

1900 Tem a primeira trombose.

1906 Morre a 23 de Maio.

Texto da autoria de ibsen.net

Fórum Social Mundial de 2006


A sexta edição do Fórum Social Mundial (FSM), que este ano é policêntrico, acabou de abrir as suas portas em Bamako ( Mali), decorrendo entre 19 e 23 de Janeiro, transferindo-se depois a partir do dia 24 para Caracas para terminar no mês de Março em Karachi, uma vez que o sismo de Cachemira abalou profundamente todo o Paquistão, impediu a sequência temporal prevista e forçou ao adiamento da reunião a fim de não prejudicar os esforços de ajuda às vítimas.
Esta diversificação espacial do FSM responde ao duplo objectivo de acentuar a sua vocação como resposta global às grandes questões actuais, além do confessado propósito de reivindicar a especificidade dos problemas e as eventuais soluções nos diversos contextos geopolíticos. Em sintonia com estas preocupações, a reunião de Bamako centar-se-á sobre as questões da migrações e do meio ambiente, em Caracas será a vez da atenção recair sobre o imperialismo e a militarização do planeta, enquanto em Karachi se insistirá na desmontagem do sistema de castas e do patriarcado, na linha do que aconteceu, de resto, há dois anos atrás por ocasião do FSM de Mumbai.
Para além destas metas gerais, o policentrismo do presente Fórum aponta a necessidade de ir mais longe do que da simples área eurolatinoamericana, que tem prevalecido até agora, a fim de realçar a importância de outras regiões e continentes, como a Ásia e a África, em especial esta última que, não obstante as enormes potencialidades que possui, se transformou na terra maldita do planeta – vejam-se os recentes filmes-denúncia como o The Constant Gardener ( O Fiel Jardineiro) sobre a vilania da indústria farmacêutica e o The Lord of War ( que denúncia o tráfico de armas).
O próximo FSM que terá lugar em 2007 em Nairobi ( Quénia) e actual Fórum em Bamako com os seus 30.000 participantes e mais de 2.500 actores colectivos podem e devem contribuir para transformar o destino miserável a que o continente africano tem sido refém.
Claro que a multiplicação dos Fóruns e o seu policentrismo presta-se a algumas acusações como o risco de se tornarem em clubes de viagens políticas ou de Féria internacional de uma sociedade civil circulante como se referem Ignacio Ramonet e Gustave Massiah. Mas a dinamização dos movimentos sociais é a melhor defesa contras as guerras de Bush e o totalitarismo do império norte-americano e das suas multinacionais. Sem esquecer que num momento de re-nacionalização das políticas dos Estados e de demagogias nacionalistas o que faz falta são trincheiras protectoras e causas alternativas.
Quando o fim de trabalho para todos, com a precarização laboral e a desqualificação sindical que arrasta consigo, turvou o horizonte simbólico de uma sociedade mais justa e socialmente mais comprometida, o que há a fazer é procurar outros mitos para enraizar as esperanças colectivas. E se o integralismo nacionalista tem assumido a função referencial para o qual contribuiu a globalização de quase todos os processos mais determinantes, assim como o fenómeno migratório exacerbou a exigência de um pertença grupal, que vai muito para além do territorial até à consagração de solidariedades extraterritoriais com a emergência de comunidades transnacionais, o que há a fazer é encontrar as melhores formas de o defrontarmos.
A rigidez institucional dos sistemas políticos afastou os cidadãos, e sempre que estes querem sair deste jugo da partidocracia ao manifestarem-se nas ruas, são logo taxados de populistas.
Por isso é que é cada vez mais premente encontrarmos alternativas ao mercado das multinacionais e ao sistema da partidocracia, bem como a uma política capitalista de corrupção e depredatória dos recursos naturais, convocando os cidadãos à participação popular.

O FSM do Mali abriu com um multitudinária manifestação que mostrou a força e variedade da sociedade civil do Mali, em especial das populações do Sahra, estando presente muitas e variadas ONGs de todo o mundo.


FSM do Mali-
http://www.fsmmali.org/

FSM -
http://www.wsf2006.org/

FSM de Caracas -
http://www.forosocialmundial.org.ve/

21.1.06

Críticas e alternativas às 5 monoculturas em que assentam as sociedades ocidentais

( teses de Boaventura Sousa Santos)

Nas suas últimas obras, o sociólogo, jurista e activista ( impulsionador da criação dos Fóruns Sociais Mundiais, como o de Porto Alegre) Boaventura Sousa Santos - que tem tentado pensar e reflectir sobre o conteúdo e as formas de uma globalização contra-hegemónica, a partir de baixo, isto é, arrancando dos movimentos sociais - ensaia uma original abordagem sobre o que ele designa por sociologia das ausências e a sociologia das emergências, onde faz uma crítica contundente às cinco monoculturas sobre que assenta as sociedades ocidentais:

- a monocultura do saber que crê que o único tipo de saber é o saber rigoroso ( e que tem levado ao chamado epistemicídio de outros saberes)

- a monocultura do progresso, do tempo linear que entende a história como uma direcção de sentido único

- a monocultura da naturalização das hierarquias fundadas em factores como os da etnia, classe social, género, e que considera os fenómenos como inscritos na natureza das coisas, e por conseguinte, imodificáveis.

- a monocultura do universal como o único critério válido, à margem dos contextos, pelo que se considera que o oposto ao universal – o vernáculo – carece de validade, além de que o global prevaleceria sobre o local

- a monocultura da produtividade que define a realidade humana pelo critério do crescimento económico enquanto objectivo racional inquestionável, e critério esse que se aplica ao trabalho humano, mas também à natureza, encarada como objecto de exploração e depredação. Quem não produzisse estava condenado.


Ora contra estas cinco monoculturas, construções da modernidade ocidental, Boaventura Sousa Santos propõe as correspondentes respostas e alternativas, a saber:

A ) Contra a monocultura do saber científico, propõe a ecologia dos diferentes saberes, através do necessário diálogo e da não menos necessária confrontação entre si


B) Contra a monocultura e a lógica do tempo linear que, no fundo, não passa de uma secularização do judaísmo e do cristianismo, propõe a ecologia das temporalidades, em que se valoriza positivamente as distintas temporalidades como formas de viver a contemporaneidade, sem se estabelecer hierarquias ou juízos de valor sobre elas.

C) Contra a monocultura da classificação social, que tenta identificar diferença com desigualdade, propõe a ecologia dos reconhecimentos, que busca uma nova articulação entre ambas noções que dê lugar às «diferenças iguais»

D) Contra a monocultura do universal, como único critério válido, propõe a ecologia das trans-escalas, que valoriza o local como tal, situando-o fora da globalização hegemónica

E) Contra a monocultura produtivista da ortodoxia capitalista, que dá prioridade aos objectivos da acumulação sobre os da distribuição, propõe a ecologia das produções e das distribuições sociais
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Lutar contra o esquecimento…


Sempre que tenhas uma dúvida, põe em acção o seguinte esquema mental: lembra-te da cara da pessoa mais pobre e débil que tenhas visto ao longo da tua vida e interroga-te se o passo que vais dar será da alguma utilidade para ela.

Maratma Gandhi

A diferença entre os países do Norte e do Sul…


Palavras de um trabalhador de calçado nos Estados Unidos:

- Trabalho dezasseis horas por dia para um dos maiores fabricantes de calçado. E pagam-me 50.000 dólares à semana.


Palavras de um trabalhador de calçado na Indonésia:

- Trabalho dezasseis horas por dia para um dos maiores fabricantes de calçado. E pagam-me 15 dólares à semana.


Comentários, para quê…???
O que é preciso é agir para que as coisas comecem a mudar.
O que é preciso é lutar pela justiça e liberdade, aqui e agora!

O Produto Interno Bruto não mede o mais importante…


O Produto Interno Bruto não mede a saúde das nossas crianças, a qualidade da sua educação, nem a alegria dos seus jogos. Não mede nem a beleza da nossa poesia, nem a força dos nossos casamentos. O PIB é indiferente tanto à decência das nossas fábricas como à segurança das nossas ruas. Não mede o nosso saber nem a nossa educação, nem o nosso talento, nem a nossa coragem, nem a nossa compaixão (...). Na realidade, o PIB mede tudo excepto aquilo que faz com que a vida valha a pena ser vivida..
Robert Kennedy

"Vivemos numa sociedade consumista porque a escola educa para esses valores"

Já saiu o nº de Janeiro do jornal A Página ( jornal dos professores, dedicado a temas educativos e não só…)
Para ver o índice e ler os textos do último jornal A Página:
http://www.apagina.pt/arquivo/FichaDeJornal.asp?ID=152
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Reflectir na escola sobre o consumo responsável

Maria González Reyes tem 28 anos, é professora do ensino secundário e trabalha com o colectivo madrileno “Consume Hasta Morir” (Consome Até Morrer), um grupo que integra a organização não governamental espanhola de âmbito nacional “Ecologistas en Acción”.
Em parceria com os restantes elementos do grupo, divulga pelas escolas espanholas uma iniciativa já com raízes na América do Norte - nomeadamente no Canadá, onde tudo começou – mas ainda pouco conhecida na Europa: a contra-publicidade, isto é, a satirização da publicidade como ferramenta educativa para reflectir sobre o consumo responsável.Nesta entrevista, procuramos saber mais sobre este tema e de que forma pode ser trabalhado na escola. Para uma informação mais completa pode-se consultar o site,
www.consumehastamorir.com


Que papel joga hoje a publicidade na educação das crianças e dos jovens?
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A publicidade constitui actualmente um meio educativo por excelência. Diariamente, entre publicidade televisiva, cartazes nas ruas, anúncios nas rádios ou logótipos nas roupas, visualizamos cerca de três mil impactos publicitários. Isto faz da publicidade uma ferramenta educativa e socializadora indiscutível, cuja linguagem extremamente eficaz, baseada em imagem e texto, nos impele a comprar os mais variados produtos e a formar a actual sociedade de consumo que hoje caracteriza o modelo de desenvolvimento neoliberal.
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Qual é o segredo por trás dessa estratégia?
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A publicidade funciona como uma espécie de metáfora a que chamamos “espelho publicitário”, isto é, como uma mensagem na qual nos vemos reflectidos, onde há sempre algo ou alguém com quem nos identificamos. Desta forma, tendemos a pensar que há sempre alguma coisa que ainda não temos e que nos faz falta.
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Um universo onde as crianças e os jovens serão provavelmente mais influenciáveis do que os adultos…
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A publicidade toca a todos de maneira diferente, já que há estratégias para todo o tipo de públicos. Quando nos perguntam nas escolas qual o tipo de publicidade que consideramos mais perigosa, costumamos dizer que é, sobretudo, aquela que nos agrada. Os adolescentes têm perfeita consciência da influência da publicidade nos seus gostos pessoais, mas assumem que as coisas funcionam assim e que não há volta a dar-lhe. As crianças, porém, já não têm essa capacidade.
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Concorda com a ideia de que hoje em dia a publicidade já não vende tanto os produtos mas sobretudo marcas e modos de vida?
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Sim, e isso acontece sobretudo desde os anos 80, altura em que se passou a distinguir a venda de produtos da criação e do consumo de marcas. Desde essa altura que a estratégia publicitária tem caminhado no sentido de nos sentirmos sentimentalmente identificados com um produto associado a um conceito. Um anúncio da Coca-Cola, por exemplo, já não se limita a vender o produto mas antes de mais um sentimento positivo e uma atitude em relação à vida, ou seja, cria um sentimento e uma identidade de pertença. É através desta estratégia que as crianças e os jovens se sentem desde pequenos identificados com a ideia de uma marca, mantendo-se, em princípio, fiéis a ela ao longo da vida.
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Partindo da sua experiência como professora, de que forma considera que a escola encara esta questão?
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Eu creio que hoje em dia vivemos numa sociedade consumista porque a escola educa para os mesmos valores que se difundem no exterior dela. Por vezes afirma-se que a escola já não tem a mesma função educadora de outrora porque existem meios complementares como a televisão, os meios de comunicação social, a família, que assumem tanto ou mais importância do que a própria escola. Pessoalmente discordo dessa ideia, porque essa é a forma mais fácil de se legitimar o actual sistema socioeconómico. Se os professores tivessem uma formação inicial de carácter mais crítico, que permitisse não apenas transmitir conhecimentos mas educar para o pensamento, estou convencida de que a sociedade poderia evoluir de forma diferente.
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Como pode a escola educar para a contra-publicidade?
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A publicidade é basicamente uma mensagem unidireccional à qual não temos oportunidade de responder. Se algum anúncio ofende a minha condição de mulher ou de professora, por exemplo, eu não tenho qualquer hipótese de contestá-la. A contra-publicidade é uma forma de podermos questionar as mensagens que nos são transmitidas através dos mais diversos meios, e é esse tipo de trabalho que o nosso colectivo tem vindo a trabalhar. Para isso recorremos exactamente o mesmo tipo de estratégia utilizada na publicidade, desmontando o seu conteúdo e fazendo os alunos reflectir sobre ele.
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Como é realizado esse trabalho na sala de aula?
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Em primeiro lugar analisamos os anúncios juntamente com os alunos, procurando saber que tipo de mensagem nos estão a procurar passar. Habitualmente procuramos publicidade cujo conteúdo possa ser percepcionado como manipulador ou que veicule uma mensagem sexista ou classista. Desta forma conseguimos que a publicidade seja vista de uma perspectiva crítica e não passiva, como nos habituamos a vê-la diariamente. É muito importante não iniciar esta primeira fase do trabalho com marcas conhecidas, que eventualmente lhes possam estar próximas, porque dessa forma é muito provável que os alunos não queiram ouvir. A melhor forma de iniciar esta abordagem é através de publicidade com menor impacto, que funcione apenas como meio para que os alunos se apercebam dos seus mecanismos de produção e possam desmontá-lo de forma a abordar os aspectos que os influenciam directamente no consumo.Uma vez analisados os anúncios, os alunos são convidados a realizar contra-anúncios, ou seja, a procurar um determinado elemento ou característica que considerem criticável e a reinventá-lo de forma a satirizar uma determinada mensagem.
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Que meios utilizam para fazer este trabalho?
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A forma mais acessível de chegar às escolas é utilizar recortes de anúncios retirados de jornais ou de revistas e trabalhar a partir deles. É também possível fazê-lo através de anúncios de rádio, utilizando exactamente o mesmo método, mas recorrendo à linguagem sonora e auditiva, o que também resulta bem. Outra possibilidade é o vídeo, mas raramente recorremos a ele porque consideramos que neste tipo de iniciativa devem ser utilizadas ferramentas de trabalho que cheguem ao maior número possível de pessoas.
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A técnica que privilegiam não limitará esta actividade à disciplina de educação visual?
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Não, pelo contrário. Este tipo de trabalho pode ser feito no âmbito de qualquer disciplina. É uma boa forma não só de abordar a educação crítica para o consumo, mas também de aumentar a motivação para os conteúdos das diferentes disciplinas. Pela minha experiência, esta actividade constitui igualmente uma excelente maneira de incluir todo o tipo de alunos, desde os habitualmente participativos aos mais desinteressados.
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Como reagem eles a esta proposta?
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Este tema funciona muito bem com os adolescentes porque a publicidade cativa-os de uma forma particular. Como nesta idade já não gostam que os enganem ou que lhes contem “histórias”, quando se dão conta das subtilezas que estão por trás da publicidade passam a encará-la de um modo diferente. Além disso, atraio-os a oportunidade de conhecer as técnicas que se utiliza na sua realização e de a refazer na sua própria perspectiva.
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E os professores? Qual é habitualmente a sua receptividade?
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Os professores têm, geralmente, uma atitude diferente, porque esta é uma forma de eles próprios questionarem o seu modelo individual de vida, faltando-lhes por vezes uma posição crítica. Muitos deles desenvolvem um trabalho extraordinário, reinventando diariamente a sua profissão, mas falta ainda que reflictam um pouco mais sobre o consumo responsável e a possibilidade de outro modelo de sociedade.
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Entrevista conduzida por Ricardo Jorge Costa


Retirado de:
http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=4334

20.1.06

O nosso maior problema é a obediência civil !



A desobediência civil não é o nosso problema.
O nosso problema é, sim, a obediência civil!

O nosso problema está na multidão de pessoas que em todo o mundo obedecem às ordens dos líderes governamentais e que por isso foram ( e continuam a ir) para a guerra, onde morrem milhões de seres humanos por causa dessa obediência…

O nosso problema está em que em todo o mundo as pessoas são obedientes perante a pobreza e a fome, perante a estupidez, a guerra e a crueldade.

O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões ficam cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões governam o país.
Esse é que é o nosso problema!

Howard Zinn

«Eu não sou um moderado», manifesto eleitoral de Dario Fo

Manifesto eleitoral de Dario Fo, candidato às eleições autárquicas para a Câmara da cidade de Milão pela Unione (coligação de centro-esquerda)

(nota: Dario Fo é escritor e dramaturgo italiano, mundialmente conhecido, que recebeu já diversos prémios, entre os quais o Prémio Nobel da Literatura há alguns anos atrás)

Se buscais um moderado, tende cuidado quando estiverdes a votar em mim
Porque comigo corre-se perigo!
Mas será quereis um autarca moderado?
Um moderado é forte com os débeis e fraco com os fortes.
O moderado finge resolver os problemas sem os enfrentar!
O moderado faz vista grossa face à especulação imobiliária.
O moderado retira os inquilinos das suas casas no centro
Para depois revender a casas aos magnatas da especulação
O moderado transforma as periferias em guettos
O moderado aceita uma escola para ricos e outra para pobres.
O moderado deixa que as cidades se tornem cada vez mais tristes
E entusiasma-se com os arranha-céus,
Onde não se vê crianças a brincar nem gente a pedalar bicicletas
O moderado receia desiludir os cidadãos poderosos
E não dá a palavra aos que não têm voz
O moderado nunca mudará nada.
O moderado não resolverá o problema da contaminação
de Milão, nem salvará os pulmões das crinaças de 5 anos.
O moderado não os libertará do tráfego,
nem sequer do milhão de automóveis que, com a sua engrenagem,
transformou a cidade numa autêntica câmara de gás.
Hoje, ao que parece, não ser um moderado é um defeito ou um delito;
Ou então um privilégio dos jovens.
Mas faltam muitos,muitos anos…para se chegar a ser verdadeiramente jovem!
Milão, se a minha música te soa demasiadamente forte,
então isso apenas quer dizer que estás a tornar-te demasiadamente velha.
Não há moderado que tenha feito história,
assim como não há moderado que tenha ganho um Nobel.
Eu não sou moderado!
Serei sempre um autarca que arisca.
Porque acredito que o risco da mudança é a única resposta
Correcta para quem aposte o seu voto num projecto para Milão.
Se decidires votar em mim, estais a arriscar-vos muito…
Estais a arriscar-vos a viver num cidade melhor!


Para ver o texto original em italiano:
www.beppegrillo.it/
Para mais informação sobre a campanha eleitoral de Dário Fo:
www.dariofo.it/

( a tradução foi feita para o português a partir do texto em castelhano publicado em
www.rebelion.org )

Memória Subversiva - filme a ver em Braga ( 20 de Jan.)

Às 18 horas na livraria Centésima página, na cidade de Braga, será feita a apresentação do último número da revista "Coice de Mula".

19.1.06

Carta da Ecopedagogia


Os princípios orientadores da ecopedagogia:

1 – O planeta é encarado como uma única comunidade

2 – A Terra é tratada como uma mãe e um organismo vivo em evolução

3 – A necessidade de uma nova consciência que saiba o que é sustentável, apropriado e que faça sentido para a nossa existência.

4 – Desenvolver a ternura para com essa casa. O nosso endereço é a Terra.

5 – Defende a justiça socio-económica. A Terra é um grande pobre, o maior de todos os pobres.

6 - A ecopedagogia é uma pedagogia biófila que promove a vida, e fomenta que as pessoas se envolvam, se comuniquem, compartilhem entre si, problematizem, relacionem-se e entusiasmem-se

7 – Supõe uma concepção de conhecimento que só admite ser integral na condição de ser compartilhado

8 - Apela ao caminhar com sentido ( na vida quotidiana)

9 – Inspira-se numa racionalidade intuitiva e comunicativa, isto é, afectiva e não meramente instrumental

10 – Preconiza uma cultura da sustentabilidade através da ecofirmação, apontando uma exigência: ampliar o nosso ponto de vista.


( o movimento pela ecopedagogia apareceu com o 1º Encontro Internacional da Carta da Terra na perspectiva da Educação, organizado pelo Instituto Paulo Freire em 23-26 de Agosto de 1999 na cidade de São Paulo, Brasil, assim como do I Fórum Internacional sobre Ecopedagogia que teve lugar na Faculdade de Psicologia e das ciências da Educação da Universidade do Porto entre os dias 24 e 26 de Março de 2000)

Consultar:
http://www.ufmt.br/revista/arquivo/rev21/moacir_gadotti.htm



Ecopedagogia – o que é?

Trata-se de uma pedagogia orientada para a aprendizagem do sentido das coisas a partir da vida quotidiana, tendo como objectivo a promoção de sociedades sustentáveis.
O conceito de ecopedagogia, criado por Francisco Gutiérrez, pesquisador do pensamento de Paulo Freire na Costa Rica, segue os princípios da “Carta da Terra”, adoptado pela ONU com o mesmo valor da “Declaração dos Direitos Humanos”. A “Carta da Terra” foi aprovada por um fórum da sociedade civil, com representantes de todos os povos, e, por isso, conseguiu o status de documento da “cidadania planetária”.
A ecopedagogia trabalha com a fundamentação teórica dessa “cidadania planetária” cuja ideia é dar sentido para a acção dos homens enquanto seres vivos que compartilham com as demais vidas a experiência do planeta Terra. Ou seja, constitui-se um verdadeiro movimento político e educativo cujo projecto é mudar as actuais relações humanas, sociais e ambientais. A promoção das sociedades sustentáveis e a preservação do meio ambiente depende, de acordo com a ecopedagogia, de uma consciência ecológica e a formação dessa consciência depende da educação


Universidades Populares


Herdeiras da tradição do movimento operário, as universidades populares vão reaparecendo um pouco por todo o lado, com essa designação ou outra qualquer. Assumem normalmente uma dupla missão: oferecer uma formação a todos, em especial àqueles que não puderam aceder ao ensino superior, assim como construir um saber crítico contra as ideias dominantes.
Uma das suas limitações prende-se com o facto dos seus frequentadores serem actualmente elementos das classes médias e serem poucos os que provêem das camadas mais exploradas e oprimidas das sociedades capitalistas.

Em França as Universidades Populares estão a atravessar um momento de autêntico renascimento senão mesmo de florescimento de tal modo que podemos encontrá-los nas principais cidades francesas. Todas, ou quase, oferecem cursos gratuitos ou por montantes extraordinariamente módicos a todos os interessados. Calcula-se que sejam cerca de 100 o número de Universidades Populares actualmente existentes em França, as quais envolvem por volta de 110.000 pessoas.

O filósofo Michel Onfray contribuiu decisivamente para esta nova vaga das Universidades Populares ao criar em 2002 a Universidade Popular de Caen, em que tenta retomar o espírito das Universidades Populares, aproveitando ainda das experiências recentes dos chamados café-filosóficos.

Pretende-se, segundo aquele autor, propor um saber alternativo ao «pensamento único neoliberal».

O aumento de interesse e a demonstração de um desejo para se cultivar, sem ter a pretensão em adquirir qualquer diploma, explica o sucesso e o impacte das Universidades Populares.

A Associação das Universidades populares de França (AUPF) faz parte da Associação Europeia de Educação de Adultos (EAE, em inglês) e abrange associações de 35 países europeus, totalizando 45 milhões de auditores.
Ver:
www.u-p.asso.fr

Algumas direcções de Universidades Populares em França:

UP du Berry : www.upberry.org

UP de Romans-sur-Isère : http://accesromans.com

UP de l’agglomération valentinoise : upaval@wanadoo.fr

UP Savoie Mont-Blanc : www.upsavoie-mb.fr

UP de Gennevilliers : http://universite-populaire92.org

UP du Rhin (Mulhouse) : www.u-p.asso.fr

UP de Belfort : www.ideeup.org

L’UP de Bretagne occidentale : www.univ-brest.fr/fc/ep

Les universités d’Attac : www.local.attac.org

Le Secours populaire : www.secourspopulaire.fr

L’Université pop du Lieu unique à Nantes : www.lelieuunique.com

A rede da Universidades Populares em que participa Michel Onfray:

UP d’Avignon : www.upavignon.org

UP de la région Picardie : http://unipop.pic.free.fr

A criminologia anarquista



O anarquismo é uma das correntes do pensamento político mais difíceis de definir e conceptualizar por várias razões, uma das quais é a não existência de uma ideologia anarquista sistematizada e uniforme, a que se deve acrescentar o facto do anarquismo ser frequentemente objecto de permanentes deformações pelos seus opositores. Daí que se prefira concebê-lo mais como um movimento onde convergem um certo número de filosofias, algumas convicções e práticas de acção que emergiram como reacção ao aparecimento e consolidação do Estado-Nação e do capitalismo ao longo dos últimos séculos, se bem que num passado remoto já tenham surgido autores e pensamentos de natureza anarquista.
Um dos traços comuns a todos os anarquistas é a afirmação de que o Estado é uma entidade coerciva, punitiva, opressiva, corruptora e destrutiva. Formas de vida alternativas como o apoio mútuo, a cooperação voluntária segundo formas não-autoritárias, não-coactivas, não-hierárquicas são normalmente preconizadas e promovidas pelos autores anarquistas.

Algumas das principais ideias anarquistas foram desenvolvidos por autores como Max Stirner (1806-1856), Proudhon ( 1814-1876), Bakunine (1814-1876), Kropotkine (1842-1921) e Emma Godman (1869-1940).
Em geral, os princípios por eles defendidos não conceptualizam nenhuma sociedade caótica e desordenada, mas antes uma forma de aprofundamento e expansão da ordem social que passa por dispensar a presença ( e a omnipotência ) do Estado. Uma tal ordem social maximizará as liberdades individuais, encorajando ainda o associativismo voluntário e a auto-regulação. Outro dos traços importantes do pensamento anarquista é a ideia da substituição das formas monopolísticas do capitalismo e da propriedade privada pela posse colectiva dos bens.

Segundo criminologistas de filiação anarquista, como Jeff Ferrell, não se pode falar de uma criminologia anarquista propriamente dita pois tal seria uma contradição nos termos. Todavia, os escritos de Pete Kropotkine sobre a lei e o Estado constituem referências-chave para a construção de uma criminologia anarquista.
Kropotkine sustenta que as leis são inúteis e nocivas, provocando a criminalidade em massa e várias patologias sociais. As leis que protegem a propriedade privada e os interesses do Estado são responsáveis por dois terços a três quartos de todos os crimes. O principal objectivo da legislação criminal, que é punir e prevenir os crimes, acaba por não conseguir o seu objectivo e, pior que isso, degrada a sociedade ao alimentar os piores instintos humanos como a obediência, o conformismo passivo e o reforço vicioso da dominação estatal.
Kropotkine insiste que a maioria dos crimes desaparecerão no dia em que deixar de existir a propriedade privada, e ainda quando as necessidades humanas e a cooperação substituírem a ânsia do lucro e a competição concorrencial como princípios organizadores da vida social.. Formas alternativas de relacionamento social como a solidariedade social, a justiça e a inclusão social mostram-se mais adequadas do que o sistema estatal de justiça criminal ou o chamado «primado da lei» para responder e contrariar os comportamentos anti-sociais.

Jeff Ferrell, um autor que se tem dedicado a estas matérias, escreve a propósito da existência de uma criminologia anarquista:

«At its best, anarchism and the process of justice that flows from it constitute a sort of dance that we make up as we go along, na emerging swirl of ambiguity, uncertainty, and pleasure. Once you dive into the complex rhythms of human interaction and the steps that you and others invent in response. So, if you want centainty or authority, you might want to sit this one out. As for the rest os us: start the music.»
Jeff Ferrell, in «Anarchy against discipline»,
in Journal of Criminal Justice and Popular Culture, 3 (4)


Em suma, a teoria anarquista consiste:
- numa profunda crítica à lei, ao poder e ao estado
- na defesa de relações sociais não-coercivas
- em formas alternativas de resolução de conflitos como a auto-composição de interesses e que não passem tanto quanto possível pela intervenção de entidades terceiras, estranhas à disputa
- em intervenções de carácter político que se mostrem adequadas para um mundo complexo e fragmentado

Para mais informação:

Ferrell, Jeff (1995) «Anarchy against discipline», in JOurnal of Criminal Justice and Popular Culture, 3 (4)

Ferrel, K. (1999) «Anarchist criminology and social justice», in B.A. Arrigo (ed.) Social Justice/Criminal Justice. Belmont, CA, Wadsworth

Kropotkine, P (1996) «Law and Authority», in J. Muncie, E. McLaughlin and M. Langam (eds), Criminological Perspectives: a Reader. London, Sage

Tifft, L.L. (1979) «The coming re-defitions of crime: Ana anarchist perspective», Social Problems, 26

18.1.06

A insurreição operária do 18 de Janeiro contra a ditadura fascista de Salazar



O 18 de Janeiro de 1934 foi um dia histórico na história do movimento operário e da luta e resistência contra a Ditadura fascista de Salazar por ter sido nessa data que se registou um movimento grevista insurreccional operário e camponês contra a política salazarista de cerceamento das liberdades e direitos dos trabalhadores e das suas associações sindicais, e que visava igualmente o derrube daquele regime, movimento esse que teve impacte especial na Marinha Grande onde os operários vidreiros conseguir tomar a localidade, desafiando e resistindo às forças da repressão que foram lançadas contra os trabalhadores.

Todas as correntes do movimento operário participaram, destacando-se no entanto os militantes da CGT, a maior confederação sindical anarco-sindicalista durante o período da I República ( 1910-1926) e que ofereceu uma resistência persistente contra a fascistização dos sindicatos e da sociedade portuguesa, não obstante a repressão e a perseguição que se abateu sobre si e os seus dirigentes e militantes.
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Recorde-se que o movimento operário de 18 de Janeiro de 1934, foi uma acção desencadeada pelas organizações operárias contra a fascização dos sindicatos que a ditadura fascista de Salazar queria obrigatoriamente vincular ao sindicalismo fascista. Para isso havia sido elaborado o decreto 23.050 de Setembro de 1933, que obrigava à dissolução e encerramento dos Sindicatos Nacionais e à sua agregação compulsiva ao Corporativismo até ao dia 31 de Dezembro desse ano de 1933.
As Associações Sindicais de classe reagiram preparando uma greve geral. Secretamente, preparava-se também uma insurreição armada visando o derrube da ditadura, que viria a falhar, revestindo-se numa grave e pesada derrota para o operariado e suas organizações de classe.
Foi na Marinha Grande que o 18 de Janeiro de 1934 teve o seu expoente máximo, pelo cumprimento total das missões previamente atribuídas ao operariado local. Foi tomado o posta da Guarda Nacional Republicana, a estação dos Correios e a então ainda vila isolada por cortes das comunicações terrestres e telefónicas.
Embora efemeramente, os operários foram senhores absolutos da então ainda não cidade, tendo reaberto o seu sindicato.
Com a chegada de meios militares de Leiria, seriam derrotados, presos na Trafaria (margem esquerda do rio Tejo junto à sua foz) e, posteriormente,, deportados cerca de quarenta operários vidreiros, primeiro para Angra do Heroísmo (Açores) e alguns para o campo de concentração do Tarrafal, tristemente celebrizado por "campo da morte lenta" com processos trazidos da Alemanha fascista.
Desses deportados da Marinha Grande, três morreriam no degredo: António Guerra, Augusto Costa e Francisco da Cruz.
Nessa madrugada de 18 de Janeiro de 1934 deflagraram outros focos de rebelião contra o regime fascista, como o descarrilamento de um combóio em Santa Iria da Azóia (perto de Lisboa), rebentamento da central eléctrica de Coimbra e bombas em Silves (Algarve) e Barreiro (perto da Trafaria), em acções sem grande coordenação que provocaram centenas de prisões entre dirigentes associativos e sindicais.

Greve a 100% paralisa os portos portugueses( e europeus)


Os portos portugueses estiveram completamente paralisados nos dois últimos dias ( 16 e 17 de Janeiro) com uma adesão à greve de 100% dos respectivos estivadores. A greve de dois dias, que foi convocada a nível europeu para todos os portos europeus ( mais de 100 portos), destina-se a protestar contra a proposta da Comissão Europeia que prevê a liberalização do trabalho portuário, permitindo por exemplo que as tripulações dos navios possam fazer cargas e descargas. A adesão dos trabalhadores em todos os portos europeus foi também muito grande, e a paralisação foi seguida de forma generalizada por todoa a Europa, segundo informações veiculadas pela imprensa.

Vamos cantar as Janeiras

Natal dos simples

Letra e música: José Afonso
In: Cantares de Andarilho;

Vamos cantar as janeiras

Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

11 milhões de americanos não sabem ler ou escrever

Mais de onze milhões de americanos não conseguem ler e escrever em inglês e cerca de trinta milhões só conseguem assinar documentos, revela uma estudo sobre alfabetização conduzido pelo governo americano. O estudo foi realizado pelo Centro Nacional de Estatísticas em Educação, que usou meios como jornais, horários de autocarro e formulários de impostos para efectuar o levantamento.O estudo considerou que sete milhões de adultos (3%) se situam no nível mais baixo da literacia básica, sendo que outras quatro milhões de pessoas (2%) não realizaram as provas porque não falavam inglês.

16.1.06

É urgente parar o massacre do Paris-Dakar, agora rebaptizado Lisboa-Dakar



Cada ano que passa o rali habitualmente conhecido por Paris-Dakar e que este ano foi rebaptizado por Lisboa-Dakar, é motivo de extensas e sucessivas reportagens em tudo o que é órgão de comunicação social, com a TV à frente, como não podia deixar de ser. Vêem-se os bólides e as potentes máquinas a atravessar paisagens de sonho, mas quase nunca se fala nem se vêem as populações locais, e muito menos as crianças que todos os anos morrem por baixo daquelas viaturas de todo o terreno…e que têm transformado aquelas terras num cemitério de carcaças de viaturas como constituem uma ameaça constante para a integridade física das populações indígenas.

Este ano, mais uma vez, registaram-se mais 3 perdas humanas, a de um concorrente ( o motard australiano Andy Caldecott ) e de dois habitantes locais, uma delas a de uma criança de 10 anos ( Boubacar Diallo) .

Curiosamente os organizadores e a imprensa só falam da morte dos concorrentes, mas quase nunca das mortes de civis locais, sobretudo, das crianças!!! E a verdade é que são os próprios pilotos das máquinas assassinas que confessam não levantarem o pé do acelerador quando atravessam aldeias ou zonas povoadas.

Oficialmente ( segundo os organizadores) o rali já conta com 25 mortes desde que foi criado. Acontece que nessa estatística não se incluem os habitantes locais que já faleceram em consequência desta intolerável intromissão da indústria motorizada em terras africanas. Caso isso acontecesse os números seriam já bem mais redondos…

A realização do rali não só tem causado a morte de pessoas, como representa bem a arrogância europeia e a civilização do desperdício.
Face a este massacre há que exigir a supressão desta infeliz e triste operação publicitário-mediática das poderosas empresas automobilísticas.

Petição a pedir a supressão do rali Paris-Dakar ( ou Lisboa-Dakar, qualquer que seja o seu nome):

http://www.gopetition.com/online/7725.html

A contracultura socrática



«Não me interessam as coisas que interessam à maioria: ganhar dinheiro, possuir uma casa confortável, uma posição civil ou militar prestigiada e todas as outras actividades, cargos políticos, sociedades secretas, organizações partidárias que normalmente têm lugar na nossa cidade.»
Sócrates, segundo Platão


«Sócrates sustentava que o objectivo da vida humana é buscar a verdade da natureza das coisas tal como elas são, e não como são interpretadas pelo pensamento convencional…Como um flautista Hamelín, Sócrates foi um agitador da juventude, acusado pelas cabeças e mentes conservadoras de fazer o perigoso jogo de ridicularizar toda a autoridade perante um círculo de jovens impressionáveis e de subtrair ao Estado a estabilidade da tradição…o efeito de inquietação que suscitava junto da juventude e a sua crítica permanente eram coisas intoleráveis para qualquer ordem estabelecida»
Timothy Leary

Manual do manifestante

livro em castelhano de José António Pérez

Com base na conhecida frase de Albert Camus para quem «o homem rebelde é o homem informado», José António Pérez escreve mais um excelente livro contendo importantes e preciosas informações para activistas e manifestantes.
Recorde-se que o mesmo autor já tinha publicado outros livros como « Manual práctico para desobediência civil» ( em 1994) ou o «Diccionario del paro y otras misérias de la globalizacion» ( de 2002) e, no qual se pode ler, entre outras coisas, a propósito da pobreza que esta «não é um estado natural do ser humano, mas antes uma instituição social estabelecida pelas estruturas do poder»

Este Manual del manifestante vem em ajuda a todos quantos não se ficam no remanso do sofá e vêem para rua manifestar a sua indignação e revolta contra a injustiça dos poderosos.