Um milhão de livros, 10 milhões de documentos e 14.000 peças artísticas perderam-se no Iraque como consequência directa da invasão, ocupação do país pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e exércitos de outros Estados.
Trata-se do maior cataclismo cultural desde que os descendentes de Gengis Khan vandalizaram Bagdad em 1258, nas palavras do investigador venezuelano Fernando Báez.
Ainda hoje há soldados norte-americanos ou polacos que roubam tesouros e os vendem nas fronteiras com a Jordânia ou o Kuwait, onde mercadores de arte sem escrúpulos pagam 57.000 dólares por uma tabuleta suméria, e as relíquias da antiga Mesopotâmia.
O inventário da destruição e a denúncia apresentada contra as tropas norte-americanas de ocupação mostram que estas violaram a Convenção de Haia de 1954 sobre a protecção do património cultural, tendo já custado a Fernando Báez a acusação de difamar os Estado Unidos e a recusa de ingressar neste país. Querem agora impedi-lo de entrar no Iraque para mais investigações. O acusado responde que já é tarde uma vez que possui suficientes provas (filmes, documentos e fotos) que hão-de comprovar com o tempo as atrocidades cometidas.
O autor de livros como «La destruccion cultural de Iraq» e «História Universal da la destrucción de los libros» acusa directamente os Estados Unidos de violarem a Convenção de Haia que obriga os beligerantes a proteger os bens culturais em caso de conflito armado. Tal violação acarreta sanções penais, e certamente por isso é que a Administração de Washington nunca mostrou interesse em assinar aquela Convenção, nem o Protocolo de 1999 que a actualizou. O problema é que não só são os Estados Unidos que a violaram, mas também os outros países que os acompanharam na guerra e ocupação do Iraque, alguns deles subscritores daquela Convenção.
Se é certo que, numa primeira fase, o saque se deveu a civis iraquianos, a verdade é que não só por omissão e negligência como por actos cometidos pelos seus soldados, os Estados Unidos são responsáveis pelos danos incalculáveis sofridos. E tudo isto apesar dos alertas lançados pela Unesco, pela Onu e pelo Instituto Oriental de Chicago ( e do seu principal assessor cultural, Martin Sullivan) para que se protegessem as bibliotecas, os museus e os locais de valor arqueológico.
Em Nassíria, em Maio de 2004, um ano após o fim ooficial das hostilidades, o exéricito norte-americano ao combater a milícia de Muqtada al-Sadr destruiu 40.000 manuscritos sagrados. E em Ur ( no sul do Iraque) os próprios soldados americanos, logo que souberam que Abraham teria nascido no local, resolveram retirar os ladrilhos antiquíssimos que serviam de decoração.
Alguns carabineiros italianos foram apanhados em Maio de 2004 quando tentavam exportar objectos e relíquias culturais roubadas pela fronteira do Kuwait. E também o Museu Britânico demonstrou que os soldados polacos destruira, as ruínas da antiga Babilónia, ao sul de Bagdad.
Mais recentemente descobriu-se que tropas polacas não hesitaram em entrar no Palácio de Nabucodonosor ( século VI antes de Cristo) com camiões pesados, e depois trataram de tapar os danos com areia de uma forma que tornará irrecuperável o piso original. Ainda por cima cavaram trincheiras na porta de Ishtar. Já para não falar dos inúmeros graffitis feitos pelos soldados nas paredes das ruínas e do Palácio proclamando «eu estive aqui» ou «amo Mary»!
Curiosamente um dos efeitos inesperados desta destruição cultural operada pelos exércitos capitaneados pelos Estados Unidos foi o regresso do representante americano à Unesco, que o ex-presidente Reagan decidira abandonar!!! Este regresso deve-se certamente à tentativa americana para ocultar ou atenuar as suas responsabilidades nas destruições já verificadas nos domínios artísticos, históricos e cultural.
Militares norte-americanos têm ajudado, entretanto, a polícia iraquiana a recuperar algumas peças roubadas como a Senhora de Warca, que é considerada a Mona Lisa da Mesopotâmia, um vaso onde se representa, pela 1ª vez na história da arte, o rosto humano com cerca de 5.000 anos de existência. De qualquer forma os prejuízos são incalculáveis. Só para se ter uma pálida ideia do acontecido basta referir que na Biblioteca de Bagdad foram queimados um milhão de livros, entre os quais edições antigas das Mil e Uma Noites, tratados matemáticos de Omar Khayan e obras de filosofia de Avicena e Averróis.
Dá mesmo vontade de dizer:
Os norte-americanos, inventores do livro electrónico, invadiram e ocuparam a antiga Mesopotâmia ( o Iraque actual), onde nasceu o livro, a história e a civilização, para arrasá-la.
12.2.05
Escolas Secundárias públicas perdem anualmente 17.000 alunos
No ano lectivo 98/99 estavam matriculados no ensino secundário público (incluindo o Ensino Recorrente, ou seja, nocturno) 342.908 estudantes.
No ano lectivo de 2001/02 registou-se uma queda para 300.000 matrículas, sendo que as projecções para este ano apontam para 278.500 inscrições.
Recorde-se que metade do universo total dos alunos matriculados, mais concretamente 44%, não concluem o ensino secundário.
No ano lectivo de 2001/02 registou-se uma queda para 300.000 matrículas, sendo que as projecções para este ano apontam para 278.500 inscrições.
Recorde-se que metade do universo total dos alunos matriculados, mais concretamente 44%, não concluem o ensino secundário.
Ler é... perigoso.
Toda a gente sabe que ler é tão perigoso como escrever. E é evidente que o contraste entre as letras impressas e o fundo branco provoca não poucos efeitos e faiscas como sejam:
- cultura
- espírito crítico
-educação
-inteligência
-amplitude de horizontes
-inconformismo
E, além disso, leva frequentemente as pessoas a não aceitarem nem estarem de acordo com projectos que as prejudiquem, e ao consequente desmascaramento dos políticos que os anunciam e que pretendem enganar os menos precavidos vendendo gato por lebre.
- cultura
- espírito crítico
-educação
-inteligência
-amplitude de horizontes
-inconformismo
E, além disso, leva frequentemente as pessoas a não aceitarem nem estarem de acordo com projectos que as prejudiquem, e ao consequente desmascaramento dos políticos que os anunciam e que pretendem enganar os menos precavidos vendendo gato por lebre.
11.2.05
15 paradoxos deste mundo
(por Eduardo Galeano)
«Há no mundo esfomeados e obesos. Os esfomeados alimentam-se de lixo nas lixeiras enquanto os obesos alimentam-se de lixo nos McDonalds»
1. Metade dos brasileiros é pobre ou muito pobre, mas o Brasil é também o segundo mercado mundial das canetas Montblanc, o país que está em nono lugar nas compras dos automóveis Ferrari, e em que as boutiques Armani de S.Paulo vendem mais que as de New York
2. Pinochet, o carrasco que matou o presidente socialista do Chile, presta homenagem à sua vítima cada vez que se refere ao «milagre chileno». Com efeito, ele nunca confessou, nem sequer os governos que lhe sucederam, que um tal «milagre» se deve ao cobre, a peça-mestra da economia chilena, que Allende nacionalizou e que até á data nunca mais foi privatizada.
3. Os nossos índios nasceram na América e não na Índia, tal como, de resto, a dormideira. O milho também nasceu na América e não na Turquia.Porém, a língua inglesa chama «turkey» à dormideira e os italianos chamam «granturco» ao milho.
4. O Banco Mundial cobriu de elogios a privatização da saúde publica na Zâmbia: «Trata-se de um modelo para a África. Agora não há filas de espera nos hospitais». O jornal The Zambian Post completou a ideia: «Agora não há filas de espera nos hospitais porque as pessoas passaram a morrer em casa»
5. Há quatro anos o jornalista Richard Swift foi aos campos do oeste do Ghana onde se produz cacau barato que é vendido para a Suiça. Na sua mochila, o jornalista tinha barras de chocolate. Os agricultores de cacau nunca tinham provado chocolate, e quando o saborearam ficaram encantados.
6. Os países ricos, que subsidiam a sua agricultura a um ritmo de 1 bilião de dólares por dia, proíbem no entanto os subsídios agrícolas aos países pobres.
7. Colheita record nas margens do Mississipi: o algodão norte-americano inunda o mercado e provoca a descida generalizado dos preços.
Colheita record nas margens do Níger: o algodão africano é de tal forma pouco rentável que nem vale a pena ser colhido.
As vacas do países do hemisfério norte ganham duas vezes mais que os agricultores do hemisfério sul. O montante de subsídios para cada vaca na Europa e nos EUA é duas vezes superior à soma de dinheiro que um agricultor dos países pobres ganha ao longo de um ano de trabalho.
Os produtores do sul estão desunidos face ao mercado mundial, ao passo que os compradores do norte impõem preços monopolistas. Desde o desaparecimento da Organização Internacional do Café em 1989, e com ela o sistema de quotas de produção, o preço do café caiu a pique. Na América Central, inclusivamente, quem quer que semeie café recolhe invariavelmente a fome. No entanto, não consta que, quem quer que beba café, tenha pago menos por isso.
8. Carlos Magno, criador da primeira grande biblioteca da Europa, era analfabeto
9. Joshua Slocum, o primeiro homem que deu a volta ao mundo à vela sozinho, não sabia nadar.
10. Há no mundo esfomeados e obesos. Os esfomeados alimentam-se de lixo nas lixeiras enquanto os obesos alimentam-se de lixo nos McDonalds. O progresso não pára. Rarotonga é a mais próspera das ilhas Cook, no Pacífico Sul com índices invejáveis de crescimento económico. Não obstante, mais saliente é ainda o crescimento da obesidade entre os jovens. Há 40 anos atrás, 11% do total de jovens eram gordos. Presentemente, são todos.
Similarmente a China, desde que aderiu àquilo que se chama de economia de mercado, viu o seu menu tradicional de arroz e legumes a ser substituído por hamburgers. O governo chinês, perante tais factos, não teve outra solução senão declarar guerra contra a obesidade que se tornou, entretanto, em autêntica epidemia nacional.
11. A mais famosa frase atribuída a D.Quixote ("Ladran, Sancho, la marque que nous montons") não consta na famosa obra literária de Cervantes; também não é Humphrey Bogart que diz a célebre frase que é associada ao filme Casablanca ("Play it again, Sam"); do mesmo modo, e ao contrário do que se julga, Ali Baba não é o chefe dos 40 ladrões, mas antes o seu inimigo; finalmente, Frankenstein não é o monstro que estamos habituados, mas sim o seu inventor involuntário.
12. À primeira vista, parece incompreensível; à segunda, também: onde o progresso é maior, mais horas as pessoas trabalham. A doença resultante do excesso de trabalho leva à morte. Em japonês é chamada a Haroshi. Entretanto, os japoneses estão prestes a incorporar uma outra palavra no dicionário da civilização tecnológica: karojsatsu é o nome dado aos suicidas por hiperactividade, que são cada vez mais frequentes. (…)
Legitimamente perguntar-se-á: para que servem as máquinas se elas não servem para reduzir o trabalho humano? (…)
13. Segundo os evangelhos, o Cristo nasceu quando Herodes era rei. Ora como Herodes morreu 4 anos antes da era cristã, Cristo terá nascido pelo menos 4 anos antes de Cristo. A noite de Natal é celebrada em muitos países com material bélico. Noite de paz, noite de amor: os petardos enlouquecem os cães e deixam surdos os homens e as mulheres de boa vontade. A cruz suástica, que os nazis identificaram com a guerra e a morte, era um símbolo de vida na Mesopotâmia, na Índia e na América.
14. Quando George W. Bush propôs cortar árvores para acabar com os incêndios florestais, ele não foi bem compreendido. O presidente parecia um pouco mais incoerente que o habitual. Mas de facto ele estava a ser consequente com as suas ideias. Existem remédios santos: para acabar com as dores de cabeça, é necessário decapitar o doente, tal como para salvar o povo iraquiano é preciso bombardeá-lo.
15. O mundo é um grande paradoxo que roda no universo imenso. A esta cadência não faltará muito que os proprietários do planeta proíbam a fome e a sede para que o pão e a água não faltem!
«Há no mundo esfomeados e obesos. Os esfomeados alimentam-se de lixo nas lixeiras enquanto os obesos alimentam-se de lixo nos McDonalds»
1. Metade dos brasileiros é pobre ou muito pobre, mas o Brasil é também o segundo mercado mundial das canetas Montblanc, o país que está em nono lugar nas compras dos automóveis Ferrari, e em que as boutiques Armani de S.Paulo vendem mais que as de New York
2. Pinochet, o carrasco que matou o presidente socialista do Chile, presta homenagem à sua vítima cada vez que se refere ao «milagre chileno». Com efeito, ele nunca confessou, nem sequer os governos que lhe sucederam, que um tal «milagre» se deve ao cobre, a peça-mestra da economia chilena, que Allende nacionalizou e que até á data nunca mais foi privatizada.
3. Os nossos índios nasceram na América e não na Índia, tal como, de resto, a dormideira. O milho também nasceu na América e não na Turquia.Porém, a língua inglesa chama «turkey» à dormideira e os italianos chamam «granturco» ao milho.
4. O Banco Mundial cobriu de elogios a privatização da saúde publica na Zâmbia: «Trata-se de um modelo para a África. Agora não há filas de espera nos hospitais». O jornal The Zambian Post completou a ideia: «Agora não há filas de espera nos hospitais porque as pessoas passaram a morrer em casa»
5. Há quatro anos o jornalista Richard Swift foi aos campos do oeste do Ghana onde se produz cacau barato que é vendido para a Suiça. Na sua mochila, o jornalista tinha barras de chocolate. Os agricultores de cacau nunca tinham provado chocolate, e quando o saborearam ficaram encantados.
6. Os países ricos, que subsidiam a sua agricultura a um ritmo de 1 bilião de dólares por dia, proíbem no entanto os subsídios agrícolas aos países pobres.
7. Colheita record nas margens do Mississipi: o algodão norte-americano inunda o mercado e provoca a descida generalizado dos preços.
Colheita record nas margens do Níger: o algodão africano é de tal forma pouco rentável que nem vale a pena ser colhido.
As vacas do países do hemisfério norte ganham duas vezes mais que os agricultores do hemisfério sul. O montante de subsídios para cada vaca na Europa e nos EUA é duas vezes superior à soma de dinheiro que um agricultor dos países pobres ganha ao longo de um ano de trabalho.
Os produtores do sul estão desunidos face ao mercado mundial, ao passo que os compradores do norte impõem preços monopolistas. Desde o desaparecimento da Organização Internacional do Café em 1989, e com ela o sistema de quotas de produção, o preço do café caiu a pique. Na América Central, inclusivamente, quem quer que semeie café recolhe invariavelmente a fome. No entanto, não consta que, quem quer que beba café, tenha pago menos por isso.
8. Carlos Magno, criador da primeira grande biblioteca da Europa, era analfabeto
9. Joshua Slocum, o primeiro homem que deu a volta ao mundo à vela sozinho, não sabia nadar.
10. Há no mundo esfomeados e obesos. Os esfomeados alimentam-se de lixo nas lixeiras enquanto os obesos alimentam-se de lixo nos McDonalds. O progresso não pára. Rarotonga é a mais próspera das ilhas Cook, no Pacífico Sul com índices invejáveis de crescimento económico. Não obstante, mais saliente é ainda o crescimento da obesidade entre os jovens. Há 40 anos atrás, 11% do total de jovens eram gordos. Presentemente, são todos.
Similarmente a China, desde que aderiu àquilo que se chama de economia de mercado, viu o seu menu tradicional de arroz e legumes a ser substituído por hamburgers. O governo chinês, perante tais factos, não teve outra solução senão declarar guerra contra a obesidade que se tornou, entretanto, em autêntica epidemia nacional.
11. A mais famosa frase atribuída a D.Quixote ("Ladran, Sancho, la marque que nous montons") não consta na famosa obra literária de Cervantes; também não é Humphrey Bogart que diz a célebre frase que é associada ao filme Casablanca ("Play it again, Sam"); do mesmo modo, e ao contrário do que se julga, Ali Baba não é o chefe dos 40 ladrões, mas antes o seu inimigo; finalmente, Frankenstein não é o monstro que estamos habituados, mas sim o seu inventor involuntário.
12. À primeira vista, parece incompreensível; à segunda, também: onde o progresso é maior, mais horas as pessoas trabalham. A doença resultante do excesso de trabalho leva à morte. Em japonês é chamada a Haroshi. Entretanto, os japoneses estão prestes a incorporar uma outra palavra no dicionário da civilização tecnológica: karojsatsu é o nome dado aos suicidas por hiperactividade, que são cada vez mais frequentes. (…)
Legitimamente perguntar-se-á: para que servem as máquinas se elas não servem para reduzir o trabalho humano? (…)
13. Segundo os evangelhos, o Cristo nasceu quando Herodes era rei. Ora como Herodes morreu 4 anos antes da era cristã, Cristo terá nascido pelo menos 4 anos antes de Cristo. A noite de Natal é celebrada em muitos países com material bélico. Noite de paz, noite de amor: os petardos enlouquecem os cães e deixam surdos os homens e as mulheres de boa vontade. A cruz suástica, que os nazis identificaram com a guerra e a morte, era um símbolo de vida na Mesopotâmia, na Índia e na América.
14. Quando George W. Bush propôs cortar árvores para acabar com os incêndios florestais, ele não foi bem compreendido. O presidente parecia um pouco mais incoerente que o habitual. Mas de facto ele estava a ser consequente com as suas ideias. Existem remédios santos: para acabar com as dores de cabeça, é necessário decapitar o doente, tal como para salvar o povo iraquiano é preciso bombardeá-lo.
15. O mundo é um grande paradoxo que roda no universo imenso. A esta cadência não faltará muito que os proprietários do planeta proíbam a fome e a sede para que o pão e a água não faltem!
10.2.05
Not in our name - Declaração contra a guerra e a repressão
Não Em Nosso Nome
Declaração contra a guerra e a repressão (Jan/2005)
"Nenhuma eleição, seja justa ou fraudulenta, pode legitimar guerras criminosas em países estrangeiros, torturas, violação total dos direitos humanos e o fim da ciência e da razão."
A nova declaração Não em Nosso Nome (www.nion.us) foi assinada por 10 000 pessoas e apareceu na Times a 23 de Janeiro de 2005.
A declaração foi assinada por conhecidas personalidades norte-americanas das artes, academia e política entre as quais Russell Banks, Judith Butler, Ramsey Clark, Noam Chomsky, John Cusack, Angela Davis, Daniel Ellsberg, Eve Ensler, Andre Gregory, Bill T. Jones, Barbara Kingsolver, Congressista Jim McDermott, Walter Mosley, James Stewart Polshek, Francine Prose, Wallace Shawn, Alice Walker, Immanuel Wallerstein, Cornel West, Howard Zinn
Agora que G.W.Bush foi investido num segundo mandato, que ninguém diga que o povo dos Estados Unidos consentiu em silêncio nesta vergonhosa coroação da guerra, da ganância e da intolerância. Ele não fala por nós. Ele não nos representa. Ele não actua em nosso nome.
Nenhuma eleição, seja justa ou fraudulenta, pode legitimar guerras criminosas em países estrangeiros, torturas, violação total dos direitos humanos e o fim da ciência e da razão.
Em nosso nome, o governo Bush justifica a invasão e ocupação do Iraque com pretextos grosseiramente falsos, causando destruição indescritível, horror, miséria e a morte de mais de 100.000 iraquianos. Ele manda a nossa juventude destruir cidades inteiras em nome das chamadas eleições democráticas, enquanto intimida e retira direitos de cidadania a dezenas de milhares de afro-americanos e outros eleitores na sua terra.
Em nosso nome, o governo Bush despreza tanto a lei internacional como a opinião mundial. Levou a cabo torturas e detenções sem julgamento por todo o mundo e propõe novas investidas aos nossos direitos à privacidade, à expressão e à associação na sua terra. Já despojou dos seus direitos Árabes, Muçulmanos e Sul-Asiáticos nos E.U., negando-lhes aconselhamento jurídico, estigmatizando-os e detendo-os sem motivo. Milhares foram deportados.
Enquanto são postos a circular novos "balões de ensaio" sobre invasões da Síria, Irão ou Coreia do Norte, sobre o abandono das Nações Unidas, sobre políticas de "detenção vitalícia", nós dizemos que em nosso nome não aceitamos que se cometam crimes contra nações ou indivíduos considerados como obstáculos no caminho do objectivo de supremacia mundial inquestionável.
Poderíamos imaginar há alguns anos que princípios básicos como a separação da igreja e do estado, os processos judiciais justos, a presunção de inocência, a liberdade de expressão e o habeas corpus seriam postos de lado tão facilmente? Agora, qualquer um pode ser declarado "inimigo a combater" sem reparação significativa, ou opinião independente, por um presidente que está a concentrar poderes no ramo executivo. O seu escolhido para o lugar de Procurador-Geral da República é o arquitecto legal da tortura que foi levada a cabo em Guantanamo, Afeganistão e Abu Ghraib.
O governo de Bush pretende impor uma versão política tacanha e intolerante de fundamentalismo Cristão como programa de governo. Já não sendo marinal ao poder, este movimento extremista aspira a despojar as mulheres dos seus direitos reprodutivos, a excluir da vida pública gays e lésbicas e reenviá-los para a clandestinidade. Pretende misturar experiência espiritual e verdade científica. Nós não vamos entregar aos extremistas o nosso direito a pensar. A SIDA não é um castigo de Deus. O aquecimento global é um perigo real. A evolução deu-se. Cada um deve ser livre de encontrar sentido e sustento em qualquer forma de crença espiritual ou religiosa por si escolhida. Mas a religião nunca pode ser obrigatória. Estes extremistas podem pretender construir a sua própria realidade, mas não lhe consentiremos que façam a nossa.
Milhões de nós trabalhámos, falámos, marchámos, recenseamo-nos, pagámos impostos, votámos, fizemos todo o possível por derrotar o governo de Bush nas últimas eleições. Foi um esforço massivo, produzindo nova energia, nova organização e novo empenhamento na luta pela justiça. Seria um terrível erro se deixássemos que o malogro de não termos conseguido impedir a reeleição de Bush, nos levasse ao desespero e à inacção. Pelo contrário, esta mobilização em grande escala de pessoas empenhadas num mundo mais justo, mais livre e mais pacífico tem de avançar. Não podemos nem iremos esperar até 2008. A luta contra o segundo governo de Bush tem de começar agora.
O movimento contra a guerra do Vietname nunca ganhou uma eleição presidencial. Mas bloqueou comboios de tropas, fechou centros de instalações, desfilou, falou às pessoas porta a porta -- e ajudou a acabar com uma guerra. O Movimento pelos Direitos Cívicos nunca se ligou a um candidato presidencial; sentou-se na rua, fez rodas pela liberdade, travou batalhas legais, encheu prisões e mudou a face de uma nação.
Temos de mudar a realidade política deste país mobilizando as dezenas de milhar que compreendem com a cabeça e com o coração que a "realidade" do regime de Bush não é senão um pesadelo para a humanidade. Isto requer coragem e criatividade, acções de massas e actos individuais de coragem. Temos de nos juntar sempre que pudermos e actuar sozinhos sempre que seja necessário.
Recebemos inspiração dos soldados que recusaram lutar nesta guerra imoral. Aplaudimos os bibliotecários que recusaram entregar as listas das nossas leituras, os alunos das secundárias que exigem que lhes ensinem a evolução, aqueles que trouxeram a público as torturas do exército dos E.U. e os protestos massivos que deram voz à oposição internacional à guerra do Iraque. Estamos ao lado de pessoas comuns que levam a cabo actos extraordinários. Tentamos criar uma comunidade de apoio aos actos corajosos de resistência. Estamos com as pessoas que em todo o mundo lutam todos os dias pelo direito a criar o seu próprio futuro.
É nosso dever impedir o regime de Bush de seguir este rumo desastroso. Acreditamos que a história nos julgará severamente se deixarmos de agir com decisão.
Mais de dez mil pessoas assinaram esta declaração.Entre os signatários iniciais encontram-se:
James Abourezk, antigo senador dos EU
Janet Abu-Lughod, professora emérita, New School
As`ad AbuKhalil, California State University, Stanislaus
Michael Albert
Edward Asner
Ti-Grace Atkinson
Michael Avery, presidente da National Lawyers Guild
Russell Banks
Amiri Baraka
Rosalyn Baxandall, administradora da American Studies/Media and Communications, State University of New York at Old WestburyMedea Benjamin, cofundador de Global Exchange and Code PinkPhyllis BennisLarry Bensky, Pacifica radioMichael BergJessica Blank and Erik JensenWilliam Blum, escritor, US foreign policySt. Clair BourneJudith Butler, escritora e professora, University of California at BerkeleyJulia Butterfly, directora de Circle of Life FoundationLeslie Cagan, coordenador nacional de United for Peace and JusticeKathleen & Henry ChalfantNoam Chomsky, MITRamsey Clark, antigo Procurador-Geral dos EUMarilyn Clement, coordenador nacional Campaign for a National Health Program NOWRobbie Conal, artistaPeter CoyoteJohn CusackAngela DavisDiane di Prima, poetRonnie Dugger, co-fundador de Alliance for DemocracyMichael Eric DysonNora Eisenberg, autora de War at Home and Just the Way You Want MeDaniel Ellsberg, ex-funcionário dos Departamentos de Defesa e do EstadoEve EnslerLawrence FerlinghettiCarolyn ForchéMichael FrantiBoo FroebelPeter GeretyJorie Graham, Harvard UniversityAndré GregoryJessica Hagedorn, escritoraSuheir HammadSam Hamill, Poets Against the WarDanny Hoch, argumentista/actorMarie HoweAbdeen M. Jabara, antigo president do American-Arab Anti-Discrimination CommitteeJim Jarmusch, produtorBill T. JonesRickie Lee JonesBarbara KingsolverC. Clark Kissinger, Refuse & Resist!Evelyn Fox Keller, Professora de História da Ciência, MITHans Koning, escritorDavid KornDavid C. KortenRabbi Michael Lerner, editor, TIKKUN magazine & Rabbi, Beyt Tikkun Synagogue , SFPhil Lesh, Grateful DeadStaughton LyndReynaldo F. Macías, administrador de National Association for Chicana & Chicano StudiesDave MarshMaryknoll Sisters, Western RegionJim McDermott, Membro do Congresso, State of WashingtonRobert Meeropol, director executivo de Rosenberg Fund for ChildrenAnn MessnerRobin Morgan, escritor e activistaWalter MosleyJill Nelson, escritorOdettaRosalind Petchesky, Distinto Professor de Ciências Políticas, Hunter College & the Graduate Center - CUNY
Jeremy Pikser, argumentista (Bulworth)Frances Fox Piven
James Stewart Polshek, arquitecto
William Pope LFrancine Prose
Jerry Quickley, poeta
Michael Ratner, presidente do Center for Constitutional Rights
David Riker, produtor
Larry Robinson, Presidente da Câmara de Sebastopol, CA
Stephen Rohde, advogado
Matthew Rothschild, editor, The Progressive magazine
Luc Sante
James Schamus
Roberta Segal-Sklar, director de comunicações de National Gay and Lesbian Task ForceF
rank Serpico
Wallace Shawn
Gregory Sholette
Zach Sklar
Peter Sollett
Starhawk
Tony Taccone
Alice Walker
Naomi Wallace
Immanuel Wallerstein
Leonard Weinglass
Peter Weiss, presidente Lawyers Committee on Nuclear Policy
Cornel West
C.K. Williams, poeta, Princeton University
Saul Williams
Krzysztof Wodiczko, director do Center for Advanced Visual Studies, MIT
Damian Woetzel, bailarino principal, New York City Ballet
David Zeiger, Displaced Films
Zephyr
Howard Zinn, historiador
Declaração contra a guerra e a repressão (Jan/2005)
"Nenhuma eleição, seja justa ou fraudulenta, pode legitimar guerras criminosas em países estrangeiros, torturas, violação total dos direitos humanos e o fim da ciência e da razão."
A nova declaração Não em Nosso Nome (www.nion.us) foi assinada por 10 000 pessoas e apareceu na Times a 23 de Janeiro de 2005.
A declaração foi assinada por conhecidas personalidades norte-americanas das artes, academia e política entre as quais Russell Banks, Judith Butler, Ramsey Clark, Noam Chomsky, John Cusack, Angela Davis, Daniel Ellsberg, Eve Ensler, Andre Gregory, Bill T. Jones, Barbara Kingsolver, Congressista Jim McDermott, Walter Mosley, James Stewart Polshek, Francine Prose, Wallace Shawn, Alice Walker, Immanuel Wallerstein, Cornel West, Howard Zinn
Agora que G.W.Bush foi investido num segundo mandato, que ninguém diga que o povo dos Estados Unidos consentiu em silêncio nesta vergonhosa coroação da guerra, da ganância e da intolerância. Ele não fala por nós. Ele não nos representa. Ele não actua em nosso nome.
Nenhuma eleição, seja justa ou fraudulenta, pode legitimar guerras criminosas em países estrangeiros, torturas, violação total dos direitos humanos e o fim da ciência e da razão.
Em nosso nome, o governo Bush justifica a invasão e ocupação do Iraque com pretextos grosseiramente falsos, causando destruição indescritível, horror, miséria e a morte de mais de 100.000 iraquianos. Ele manda a nossa juventude destruir cidades inteiras em nome das chamadas eleições democráticas, enquanto intimida e retira direitos de cidadania a dezenas de milhares de afro-americanos e outros eleitores na sua terra.
Em nosso nome, o governo Bush despreza tanto a lei internacional como a opinião mundial. Levou a cabo torturas e detenções sem julgamento por todo o mundo e propõe novas investidas aos nossos direitos à privacidade, à expressão e à associação na sua terra. Já despojou dos seus direitos Árabes, Muçulmanos e Sul-Asiáticos nos E.U., negando-lhes aconselhamento jurídico, estigmatizando-os e detendo-os sem motivo. Milhares foram deportados.
Enquanto são postos a circular novos "balões de ensaio" sobre invasões da Síria, Irão ou Coreia do Norte, sobre o abandono das Nações Unidas, sobre políticas de "detenção vitalícia", nós dizemos que em nosso nome não aceitamos que se cometam crimes contra nações ou indivíduos considerados como obstáculos no caminho do objectivo de supremacia mundial inquestionável.
Poderíamos imaginar há alguns anos que princípios básicos como a separação da igreja e do estado, os processos judiciais justos, a presunção de inocência, a liberdade de expressão e o habeas corpus seriam postos de lado tão facilmente? Agora, qualquer um pode ser declarado "inimigo a combater" sem reparação significativa, ou opinião independente, por um presidente que está a concentrar poderes no ramo executivo. O seu escolhido para o lugar de Procurador-Geral da República é o arquitecto legal da tortura que foi levada a cabo em Guantanamo, Afeganistão e Abu Ghraib.
O governo de Bush pretende impor uma versão política tacanha e intolerante de fundamentalismo Cristão como programa de governo. Já não sendo marinal ao poder, este movimento extremista aspira a despojar as mulheres dos seus direitos reprodutivos, a excluir da vida pública gays e lésbicas e reenviá-los para a clandestinidade. Pretende misturar experiência espiritual e verdade científica. Nós não vamos entregar aos extremistas o nosso direito a pensar. A SIDA não é um castigo de Deus. O aquecimento global é um perigo real. A evolução deu-se. Cada um deve ser livre de encontrar sentido e sustento em qualquer forma de crença espiritual ou religiosa por si escolhida. Mas a religião nunca pode ser obrigatória. Estes extremistas podem pretender construir a sua própria realidade, mas não lhe consentiremos que façam a nossa.
Milhões de nós trabalhámos, falámos, marchámos, recenseamo-nos, pagámos impostos, votámos, fizemos todo o possível por derrotar o governo de Bush nas últimas eleições. Foi um esforço massivo, produzindo nova energia, nova organização e novo empenhamento na luta pela justiça. Seria um terrível erro se deixássemos que o malogro de não termos conseguido impedir a reeleição de Bush, nos levasse ao desespero e à inacção. Pelo contrário, esta mobilização em grande escala de pessoas empenhadas num mundo mais justo, mais livre e mais pacífico tem de avançar. Não podemos nem iremos esperar até 2008. A luta contra o segundo governo de Bush tem de começar agora.
O movimento contra a guerra do Vietname nunca ganhou uma eleição presidencial. Mas bloqueou comboios de tropas, fechou centros de instalações, desfilou, falou às pessoas porta a porta -- e ajudou a acabar com uma guerra. O Movimento pelos Direitos Cívicos nunca se ligou a um candidato presidencial; sentou-se na rua, fez rodas pela liberdade, travou batalhas legais, encheu prisões e mudou a face de uma nação.
Temos de mudar a realidade política deste país mobilizando as dezenas de milhar que compreendem com a cabeça e com o coração que a "realidade" do regime de Bush não é senão um pesadelo para a humanidade. Isto requer coragem e criatividade, acções de massas e actos individuais de coragem. Temos de nos juntar sempre que pudermos e actuar sozinhos sempre que seja necessário.
Recebemos inspiração dos soldados que recusaram lutar nesta guerra imoral. Aplaudimos os bibliotecários que recusaram entregar as listas das nossas leituras, os alunos das secundárias que exigem que lhes ensinem a evolução, aqueles que trouxeram a público as torturas do exército dos E.U. e os protestos massivos que deram voz à oposição internacional à guerra do Iraque. Estamos ao lado de pessoas comuns que levam a cabo actos extraordinários. Tentamos criar uma comunidade de apoio aos actos corajosos de resistência. Estamos com as pessoas que em todo o mundo lutam todos os dias pelo direito a criar o seu próprio futuro.
É nosso dever impedir o regime de Bush de seguir este rumo desastroso. Acreditamos que a história nos julgará severamente se deixarmos de agir com decisão.
Mais de dez mil pessoas assinaram esta declaração.Entre os signatários iniciais encontram-se:
James Abourezk, antigo senador dos EU
Janet Abu-Lughod, professora emérita, New School
As`ad AbuKhalil, California State University, Stanislaus
Michael Albert
Edward Asner
Ti-Grace Atkinson
Michael Avery, presidente da National Lawyers Guild
Russell Banks
Amiri Baraka
Rosalyn Baxandall, administradora da American Studies/Media and Communications, State University of New York at Old WestburyMedea Benjamin, cofundador de Global Exchange and Code PinkPhyllis BennisLarry Bensky, Pacifica radioMichael BergJessica Blank and Erik JensenWilliam Blum, escritor, US foreign policySt. Clair BourneJudith Butler, escritora e professora, University of California at BerkeleyJulia Butterfly, directora de Circle of Life FoundationLeslie Cagan, coordenador nacional de United for Peace and JusticeKathleen & Henry ChalfantNoam Chomsky, MITRamsey Clark, antigo Procurador-Geral dos EUMarilyn Clement, coordenador nacional Campaign for a National Health Program NOWRobbie Conal, artistaPeter CoyoteJohn CusackAngela DavisDiane di Prima, poetRonnie Dugger, co-fundador de Alliance for DemocracyMichael Eric DysonNora Eisenberg, autora de War at Home and Just the Way You Want MeDaniel Ellsberg, ex-funcionário dos Departamentos de Defesa e do EstadoEve EnslerLawrence FerlinghettiCarolyn ForchéMichael FrantiBoo FroebelPeter GeretyJorie Graham, Harvard UniversityAndré GregoryJessica Hagedorn, escritoraSuheir HammadSam Hamill, Poets Against the WarDanny Hoch, argumentista/actorMarie HoweAbdeen M. Jabara, antigo president do American-Arab Anti-Discrimination CommitteeJim Jarmusch, produtorBill T. JonesRickie Lee JonesBarbara KingsolverC. Clark Kissinger, Refuse & Resist!Evelyn Fox Keller, Professora de História da Ciência, MITHans Koning, escritorDavid KornDavid C. KortenRabbi Michael Lerner, editor, TIKKUN magazine & Rabbi, Beyt Tikkun Synagogue , SFPhil Lesh, Grateful DeadStaughton LyndReynaldo F. Macías, administrador de National Association for Chicana & Chicano StudiesDave MarshMaryknoll Sisters, Western RegionJim McDermott, Membro do Congresso, State of WashingtonRobert Meeropol, director executivo de Rosenberg Fund for ChildrenAnn MessnerRobin Morgan, escritor e activistaWalter MosleyJill Nelson, escritorOdettaRosalind Petchesky, Distinto Professor de Ciências Políticas, Hunter College & the Graduate Center - CUNY
Jeremy Pikser, argumentista (Bulworth)Frances Fox Piven
James Stewart Polshek, arquitecto
William Pope LFrancine Prose
Jerry Quickley, poeta
Michael Ratner, presidente do Center for Constitutional Rights
David Riker, produtor
Larry Robinson, Presidente da Câmara de Sebastopol, CA
Stephen Rohde, advogado
Matthew Rothschild, editor, The Progressive magazine
Luc Sante
James Schamus
Roberta Segal-Sklar, director de comunicações de National Gay and Lesbian Task ForceF
rank Serpico
Wallace Shawn
Gregory Sholette
Zach Sklar
Peter Sollett
Starhawk
Tony Taccone
Alice Walker
Naomi Wallace
Immanuel Wallerstein
Leonard Weinglass
Peter Weiss, presidente Lawyers Committee on Nuclear Policy
Cornel West
C.K. Williams, poeta, Princeton University
Saul Williams
Krzysztof Wodiczko, director do Center for Advanced Visual Studies, MIT
Damian Woetzel, bailarino principal, New York City Ballet
David Zeiger, Displaced Films
Zephyr
Howard Zinn, historiador
As Farpas (excerto)
«O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As falências sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder a burguesia… explora. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. A intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada.»
( transcrição do início do primeiro livro das Farpas, escrito por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão e publicado no dia 17 de Junho de 1871)
( transcrição do início do primeiro livro das Farpas, escrito por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão e publicado no dia 17 de Junho de 1871)
A pedagogia de Montessori
Maria Montessori (1870-1952), foi a primeira médica italiana. Leccionou Higiene no Colégio das Mulheres de Roma e Antropologia, também em Roma, na Universidade, durante 4 anos, de 1904 até 1908. Montessori considerava o ensino do seu tempo monótono e repressivo. Pretendia criar ambientes de liberdade, capazes de permitirem a livre expressão das capacidades infantis. Funda a "Casa dei Bambini", (Casa das Crianças), a primeira em 1906, em Roma. Publica em 1909 Il Metodo della Pedagogia Scientifica, e em 1913 organiza em Roma o I Congresso Internacional do Método. O seu método de ensino espalhou-se rapidamente um pouco por todo o mundo.
Sete aspectos fundamentais balizam o método Montessori:
1º Promover o conhecimento científico da criança;
2º Estabelecer um ambiente de liberdade e respeito pela criança;
3º O ambiente educativo deve ser esteticamente belo;
4º A criança deve ser activa;
5º A criança deve poder auto-educar-se;
6º A criança deve corrigir-se, não cabendo a correcção ao professor;
7º O professor deve, essencialmente, observar.
Note-se que se lhe atribui a ideia da miniaturização do mobiliário.Existe material para a educação motriz, sensorial e da linguagem. Executam-se exercícios manuais simples como a jardinagem bem como a ginástica e movimentos rítmicos. O asseio pessoal é mantido.
Nos seus jardins, as crianças chegavam de manhã, comiam duas refeições, tomavam banho regularmente, tinham acesso a cuidados médicos. Ao fim da tarde, deixavam o jardim. Ao lembrarmos os aspectos fundamentais das propostas de Maria Montessori entendemos por que razão, durante um longo período do Século XX português, este tipo de propostas não teve aceitação, apesar de Luísa Sérgio ter escrito sobre ele, nos anos 20. Há poucos anos, em muitas aldeias portuguesas, as crianças não comiam duas refeições; hoje, tais fenómenos transferiram-se para as cidades. Mas isso é já outra questão.
Retirado de:
http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=3670
Sete aspectos fundamentais balizam o método Montessori:
1º Promover o conhecimento científico da criança;
2º Estabelecer um ambiente de liberdade e respeito pela criança;
3º O ambiente educativo deve ser esteticamente belo;
4º A criança deve ser activa;
5º A criança deve poder auto-educar-se;
6º A criança deve corrigir-se, não cabendo a correcção ao professor;
7º O professor deve, essencialmente, observar.
Note-se que se lhe atribui a ideia da miniaturização do mobiliário.Existe material para a educação motriz, sensorial e da linguagem. Executam-se exercícios manuais simples como a jardinagem bem como a ginástica e movimentos rítmicos. O asseio pessoal é mantido.
Nos seus jardins, as crianças chegavam de manhã, comiam duas refeições, tomavam banho regularmente, tinham acesso a cuidados médicos. Ao fim da tarde, deixavam o jardim. Ao lembrarmos os aspectos fundamentais das propostas de Maria Montessori entendemos por que razão, durante um longo período do Século XX português, este tipo de propostas não teve aceitação, apesar de Luísa Sérgio ter escrito sobre ele, nos anos 20. Há poucos anos, em muitas aldeias portuguesas, as crianças não comiam duas refeições; hoje, tais fenómenos transferiram-se para as cidades. Mas isso é já outra questão.
Retirado de:
http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=3670
Lutas sociais dos assalariados
Cerca de 70 trabalhadores das Confecções Oliveira & Borges,Lda de Vila das Aves no concelho de Santo Tirso iniciaram uma greve pelo pagamento dos seus salários em atraso e para denunciar a fuga do patrão que, desde o início de Fevereiro, se encontra em parte incerta.
Também os trabalhadores da Casa do Douro se manifestaram em Vila Real junto dos candidatos do PSD, quando este se dedicavam a fazer campanha eleitoral, protestando contra o não cumprimento de compromissos governamentais assumidos pelo governo PSD/PP relativos ao apoio e financiamento à Casa do Douro.
Médicos do Centro Hospitalar de Coimbra continuam em greve reivindicando o pagamento de horas extraordinárias em atraso.
Por sua vez os trabalhadores da Indesit realizaram uma concentração pública para denunciar o despedimento colectivo de 100 trabalhadores por esta empresa italiana sob pretexto de deslocalizarem as suas instalações para outros países.
Como se vê por estes exemplos, a luta dos trabalhadores assalariados pela defesa dos seus direitos ( direito ao trabalho e direito à remuneração) é uma constante face à desregulamentação neoliberal da actual fase do processo de acumulação do capital.
Também os trabalhadores da Casa do Douro se manifestaram em Vila Real junto dos candidatos do PSD, quando este se dedicavam a fazer campanha eleitoral, protestando contra o não cumprimento de compromissos governamentais assumidos pelo governo PSD/PP relativos ao apoio e financiamento à Casa do Douro.
Médicos do Centro Hospitalar de Coimbra continuam em greve reivindicando o pagamento de horas extraordinárias em atraso.
Por sua vez os trabalhadores da Indesit realizaram uma concentração pública para denunciar o despedimento colectivo de 100 trabalhadores por esta empresa italiana sob pretexto de deslocalizarem as suas instalações para outros países.
Como se vê por estes exemplos, a luta dos trabalhadores assalariados pela defesa dos seus direitos ( direito ao trabalho e direito à remuneração) é uma constante face à desregulamentação neoliberal da actual fase do processo de acumulação do capital.
A capital da Etiópia, Addis-Abeba, celebrou o culto de Bob Marley ao som de reggae
Cerca de 300.000 pessoas assistiram no Domingo passado (6/2/2005) ao concerto gigante organizado para festejar o 60º aniversário da morte em 1981 do músico jamaicano Bob Marley (1945-1981) que escolhera a Etiópia do Imperador Hailé Sélassié para a «Terra Prometida» dos descendentes de escravos africanos.
Para os rastas Hailé Sélassié, Imperador etíope, era o «Rei dos reis», leão conquistador da tribo de Judah, eleito de Deus, imperador da Etiópia, e considerado como o Messias negro.
Bob Marley desejava – a acreditar nas letras das suas canções e como afirma um dos princípios do movimento rastafariano, de que ele era o mais célebre adepto - participar no grande regresso dos descendentes de escravos à Etiópia, vista como a «Terra Prometida» africana, se um cancro não o tivesse ceifado aos 36 anos. Mas, talvez, hoje o cantor jamaicano não deixasse de se divertir pelas faustosas cerimónias organizadas para celebrar o 60º aniversário do seu desaparecimento na Meskel Square, a maior praça de Addis Abeba, capital dessa mítica Etiópia.
A praça imensa adequa-se bem aos concertos como este, e que a viúva do cantor, Rita Marley, decidiu organizar, convidando artistas da Jamaica, da Etiópia e de todo o continente negro, a fim de comunicar com o resto do mundo sob o tema da unidade de África (Africa Unite, segundo o título de uma sua célebre canção inserida no seu álbum mais politizado de 1979, Survival ). A iniciativa inclui ainda debates, exposições, projecções, e até uma partida de futebol que o músico era um ferrenho adepto.
Antes de ser um herói, Bob Marley fou um rebelde: esteve preso na prisões jamaicanas e teve de exilar-se depois de uma tentativa de assassinato. Mas também é verdade que admirava o Imperador da Etiópia, Hailé Selassié que, tal como todos os rastas, era visto como um deus vivo. O próprio Imperador visitará a Jamaica e, compadecido com as miseráveis condições de vida do povo, ofereceu terras etíopes a quem decidisse pôr em prática o mandamento do «regresso a África». A comunidade aí constituída não ultrapassou, no entanto, a fasquia dos mil, tendo sido sempre vista com desconfiança e antipatia pelas poderosas comunidades cristãs coptas e muçulmanas que sempre rejeitaram a pretensa divindade de Selassié, tal como o uso sacramental da marijuana, «a erva da sabedoria».
Bob Marley tornou-se entretanto um ícono mundial do Terceiro Mundo, com rentabilidade comercial assegurada que fez ( e continua fazendo) as delícias à indústria discográfica
Bob Marley era conhecido pelas suas atitudes machistas e violentas que, uma vez atingida a fama, levo-o a ir viver logo para uma mansão em Kingston longe da mulher e rodeado de amantes.
Rita Marley escreveu há alguns anos atrás uma autobiografia «No woman, no cry» que traduz bem todo o ambiente em que o casal vivia, e as características da personalidade difícil de Bob Marley.
Para os rastas Hailé Sélassié, Imperador etíope, era o «Rei dos reis», leão conquistador da tribo de Judah, eleito de Deus, imperador da Etiópia, e considerado como o Messias negro.
Bob Marley desejava – a acreditar nas letras das suas canções e como afirma um dos princípios do movimento rastafariano, de que ele era o mais célebre adepto - participar no grande regresso dos descendentes de escravos à Etiópia, vista como a «Terra Prometida» africana, se um cancro não o tivesse ceifado aos 36 anos. Mas, talvez, hoje o cantor jamaicano não deixasse de se divertir pelas faustosas cerimónias organizadas para celebrar o 60º aniversário do seu desaparecimento na Meskel Square, a maior praça de Addis Abeba, capital dessa mítica Etiópia.
A praça imensa adequa-se bem aos concertos como este, e que a viúva do cantor, Rita Marley, decidiu organizar, convidando artistas da Jamaica, da Etiópia e de todo o continente negro, a fim de comunicar com o resto do mundo sob o tema da unidade de África (Africa Unite, segundo o título de uma sua célebre canção inserida no seu álbum mais politizado de 1979, Survival ). A iniciativa inclui ainda debates, exposições, projecções, e até uma partida de futebol que o músico era um ferrenho adepto.
Antes de ser um herói, Bob Marley fou um rebelde: esteve preso na prisões jamaicanas e teve de exilar-se depois de uma tentativa de assassinato. Mas também é verdade que admirava o Imperador da Etiópia, Hailé Selassié que, tal como todos os rastas, era visto como um deus vivo. O próprio Imperador visitará a Jamaica e, compadecido com as miseráveis condições de vida do povo, ofereceu terras etíopes a quem decidisse pôr em prática o mandamento do «regresso a África». A comunidade aí constituída não ultrapassou, no entanto, a fasquia dos mil, tendo sido sempre vista com desconfiança e antipatia pelas poderosas comunidades cristãs coptas e muçulmanas que sempre rejeitaram a pretensa divindade de Selassié, tal como o uso sacramental da marijuana, «a erva da sabedoria».
Bob Marley tornou-se entretanto um ícono mundial do Terceiro Mundo, com rentabilidade comercial assegurada que fez ( e continua fazendo) as delícias à indústria discográfica
Bob Marley era conhecido pelas suas atitudes machistas e violentas que, uma vez atingida a fama, levo-o a ir viver logo para uma mansão em Kingston longe da mulher e rodeado de amantes.
Rita Marley escreveu há alguns anos atrás uma autobiografia «No woman, no cry» que traduz bem todo o ambiente em que o casal vivia, e as características da personalidade difícil de Bob Marley.
9.2.05
O nepotismo está no sangue dos young global leaders
No último Fórum económico mundial de Davos (2005) foram apresentados os futuros young global leaders que dirigirão num futuro não muito remoto os destinos do planeta. E quem são afinal estes promissores jovens dirigentes? Há que consultar a lista, mas uma simples amostra pode-nos elucidar e poupar tempo.
Então vejamos algumas dessas jovens apostas: comecemos por Jonathan Soros ( nada mais nada menos que o filho do multimilionário especulador George Soros); prossigamos com Miguel Forbes ( o pequeno rebento da família da conhecida revista de negócios Forbes); acrescentemos à lista Aditya Mittal ( o jovem filho de 25 anos do barão do aço Lakshmi Mittal), Tony O’Reilly Júnior ( o herdeiro de Sir Anthony O’Reilly, o conhecido magnate irlandês) e ainda Aerin Lauder ( neta do legendário Estée Lauder). Neste catálogo não podia faltar obviamente Nathaniel Rothschild ( filho querido de papá Lord Rothschild), nem sequer os descendentes reconhecidos das realezas da Noruega, Suécia e Holanda, entre outras.
Resta acrescentar que os autores de tal promissora selecção mundial foram Arthur O. Sulzberger (director do New York Times), que herdou a espinhosa tarefa do seu pai, e James Murdoch, descendente directo do conhecido patrão com o mesmo apelido do poderoso grupo de media, com tentáculos em muitos países.
http://www.younggloballeaders.org/
Então vejamos algumas dessas jovens apostas: comecemos por Jonathan Soros ( nada mais nada menos que o filho do multimilionário especulador George Soros); prossigamos com Miguel Forbes ( o pequeno rebento da família da conhecida revista de negócios Forbes); acrescentemos à lista Aditya Mittal ( o jovem filho de 25 anos do barão do aço Lakshmi Mittal), Tony O’Reilly Júnior ( o herdeiro de Sir Anthony O’Reilly, o conhecido magnate irlandês) e ainda Aerin Lauder ( neta do legendário Estée Lauder). Neste catálogo não podia faltar obviamente Nathaniel Rothschild ( filho querido de papá Lord Rothschild), nem sequer os descendentes reconhecidos das realezas da Noruega, Suécia e Holanda, entre outras.
Resta acrescentar que os autores de tal promissora selecção mundial foram Arthur O. Sulzberger (director do New York Times), que herdou a espinhosa tarefa do seu pai, e James Murdoch, descendente directo do conhecido patrão com o mesmo apelido do poderoso grupo de media, com tentáculos em muitos países.
http://www.younggloballeaders.org/
4.2.05
Arte contra os muros: Tijuana converte em arte o seu muro da vergonha
A cidade mexicana Tijuana, uma cidade na fronteira entre México e os Estados Unidos, vai marcar presença na ARCO (Feira internacional de Arte Contemporânea de Madrid) que se realiza anualmente e cuja edição de 2005 está prestes a abrir as portas (em 9 de Fevereiro)
Com efeito, as obras de 39 artistas da cidade de Tijuana serão expostas ao longo de 2,2 Km através de uma reprodução do muro que rodeará todo o recinto da Feira.
Recorde-se que o muro de Tijuana foi construído pelas autoridades norte-americanas para combater a imigração dos mexicanos e dos americanos do sul
Com efeito, as obras de 39 artistas da cidade de Tijuana serão expostas ao longo de 2,2 Km através de uma reprodução do muro que rodeará todo o recinto da Feira.
Recorde-se que o muro de Tijuana foi construído pelas autoridades norte-americanas para combater a imigração dos mexicanos e dos americanos do sul
Portugal tem a mão-de-obra mais barata…
Qual é o preço de 1/hora de trabalho assalariado?
Para que se saiba quanto se é explorado em Portugal, e como o rendimento é tão mal distribuído no nosso país, que também é o país onde se trabalha mais com maior número de horas de trabalho!!!!
O custo de trabalho em Portugal ascendia aos 8,13 euros/hora em 2000, o valor mais baixo entre os países da União Europeia. Os dados são do Eurostat.
Segundo um estudo do Eurostat, o custo médio horário da mão-de-obra na indústria e nos serviços variava, em 2000, entre os 8,13 euros em Portugal e os 28,56 euros na Suécia. A média europeia era de 22,70 euros/hora.
Depois de Portugal, os custos laborais mais baixos pertencem à Grécia (10,40 euros/hora), Espanha (14,22 euros/hora) e à Irlanda (17,34 euros/hora). Os custos mais elevados, por sua vez, ocorrem na Suécia e Dinamarca (ambos com 27,10 euros/hora) e na Alemanha (26,54 euros/hora).
O Eurostat salienta, ainda, que o custo de mão-de-obra em Portugal, durante o período em análise, chegou a ser mais barato do que em alguns países recentemente integrados na UE. O Chipre (10,74 euros/hora) e a Eslovénia (8,98 euros/hora) são dois exemplos apontados.
Porém,o custo médio por hora de trabalho dos países que acabaram de aderir à EU (República Checa, Eslováquia, Hungria, Eslovénia, Polónia, Malta, Chipre, Lituânia, Estónia, Letónia) situava-se nos 4,21 euros.
fonte: TSF
Para que se saiba quanto se é explorado em Portugal, e como o rendimento é tão mal distribuído no nosso país, que também é o país onde se trabalha mais com maior número de horas de trabalho!!!!
O custo de trabalho em Portugal ascendia aos 8,13 euros/hora em 2000, o valor mais baixo entre os países da União Europeia. Os dados são do Eurostat.
Segundo um estudo do Eurostat, o custo médio horário da mão-de-obra na indústria e nos serviços variava, em 2000, entre os 8,13 euros em Portugal e os 28,56 euros na Suécia. A média europeia era de 22,70 euros/hora.
Depois de Portugal, os custos laborais mais baixos pertencem à Grécia (10,40 euros/hora), Espanha (14,22 euros/hora) e à Irlanda (17,34 euros/hora). Os custos mais elevados, por sua vez, ocorrem na Suécia e Dinamarca (ambos com 27,10 euros/hora) e na Alemanha (26,54 euros/hora).
O Eurostat salienta, ainda, que o custo de mão-de-obra em Portugal, durante o período em análise, chegou a ser mais barato do que em alguns países recentemente integrados na UE. O Chipre (10,74 euros/hora) e a Eslovénia (8,98 euros/hora) são dois exemplos apontados.
Porém,o custo médio por hora de trabalho dos países que acabaram de aderir à EU (República Checa, Eslováquia, Hungria, Eslovénia, Polónia, Malta, Chipre, Lituânia, Estónia, Letónia) situava-se nos 4,21 euros.
fonte: TSF
3.2.05
A Exxon faz batota
A empresa norte-americana Exxon financia a campanha para descredibilizar o movimento ecologista e levantar dúvidas sobre a validade científica das conclusões relativas às alterações climáticas induzidas pela economia industrial. Desde 1998 a Exxon já destinou 12 milhões de dólares para esse efeito na esperança de retardar e impedir a ratificação pelos Estados Unidos do protocolo de Kyoto.
O cyberprojecto de Joch On Amy Balkien traduziu-se em construir um site que expusesse a toda a gente as ligações perigosas da Exxon com variadíssimos centros de decisão quer no mundo financeiro quer no mundo político, passando pelos media e gabinetes de peritos que elaboram os relatórios e pareceres técnicos destinados a avaliar o impacte ambiental das emissões de poluição atmosférica.
Consultar:
www.exxonsecrets.org
...e mais directamente:http://www.exxonsecrets.org/html/listorganizations.php
O cyberprojecto de Joch On Amy Balkien traduziu-se em construir um site que expusesse a toda a gente as ligações perigosas da Exxon com variadíssimos centros de decisão quer no mundo financeiro quer no mundo político, passando pelos media e gabinetes de peritos que elaboram os relatórios e pareceres técnicos destinados a avaliar o impacte ambiental das emissões de poluição atmosférica.
Consultar:
www.exxonsecrets.org
...e mais directamente:http://www.exxonsecrets.org/html/listorganizations.php
A nova arma de destruição maciça dos Estados Unidos: a manipulação do clima para fins militares
Manipulações do clima por parte do Exército dos Estados Unidos: o programa Haarp
A atenção que o Departamento de Defesa norte-americano está a dar ao arsenal das armas climáticas ainda não é objecto de debate e denúncia por parte da opinião pública internacional. E se é certo que a recusa firme por parte da Administração Bush em ratificar o Protocolo de Kioto tem sido criticada por todo o lado, a verdade é que o tema da manipulação e modificação do clima com fins militares não tem sido suficientemente escalpelizado, apesar de constituir hoje em dia uma verdadeira arma de destruição maciça.
A Força Aérea norte-americana tem capacidade de manipular o clima tanto para fins pacíficos como para fins militares. Isto inclui a capacidade para provocar inundações, furacões, secas. Nos últimos anos o Departamento de Defesa reservou grandes montantes para o desenvolvimento e aperfeiçoamento destes sistemas.
«A modificação do clima formará parte da segurança doméstica e internacional e poderá ser realizada unilateralmente. Pode ser utilizada ofensiva e defensivamente, ou para propósitos dissuasivos. A habilidade para gerar precipitações, neve, tormentas ou modificar o espaço exterior... ou a produção de climas artificiais tudo isso constitui parte de um conjunto de tecnologias que podem incrementar o conhecimento tecnológico, a riqueza e o poder dos Estados Unidos, e degradar os seus adversários. (US Air Force, emphasis added. Air University of the Use Air Force, AF 2025 final report, www.au.af.mil/au/2025)
É desnecessário dizer que o tema é tabu. Os analistas militares e os metereológos mantêm-se mudos. Fala-se muito do aquecimento global do planeta, mas nem uma palabra sobre o principal programa norte-americano da guerra climática: The High-Frequency Active Auroral Research Program (Haarp), com sede em Gokona, Alaska, e gerido conjuntamente pela Força Aérea e a Marinha de Guerra.
Este programa existe desde 1992. E é parte de uma nova geração de armas concebidas no âmbito da Iniciativa de Defesa Estratégica, e de que é responsável o Air Force Research Laboratory’s Space Vehicles Directorate. Trata-se de um conjunto de antenas com capacidade de criar modificações na ionosfera ( o nível superior da atmosfera)
Nicholas Begich, activista contra o programa HAARP descreve-o:
«É uma superpoderosa tecnologia de emissão de gazes de ondas radiais que elevam as aéreas da ionosfera concentrando um gás que aquece certas áreas…
Ondas electromagnéticas irrompen n aterra e afectam tudo, quer seres vivos ou nao» www.globalresearch.ca/articles/CHO201A.html)
O cientista de renome mundial, Dr. Rosali Bertell, refere-se ao HARRP como u gigante aquecedor que pode causar importantes alterações na ionosfera
Para Richar Williams, físico e consultor do David Sarnoff Laboratory, em Princeton, «o HARRP é um acto de barbárie; os efeitos do seu uso podem prolongar-se por muitos anos…»
Para além disso, o HARRP serve para alterar o sistema de comunicações e de radar do inimigo, pode ainda provocar apagões em regiões inteiras, interrompendo o fluxo de corrente de energia eléctrica.
A manipulação climática , segundo os observadores, pode ser a arma «preventiva» por excelência Tanto pode ser utilizada contra países inimigos como contra países amigos, sem o seu consentimento. Para além disso, quem possuir esse conhecimento técnico ( como fazer um ataque «climático») poderá usar essa «informação privilegiada» para obter proveitos próprios a nível económico e financeiro.
Resumo e excertos de um artigo de
Michael Chossudovsky
A atenção que o Departamento de Defesa norte-americano está a dar ao arsenal das armas climáticas ainda não é objecto de debate e denúncia por parte da opinião pública internacional. E se é certo que a recusa firme por parte da Administração Bush em ratificar o Protocolo de Kioto tem sido criticada por todo o lado, a verdade é que o tema da manipulação e modificação do clima com fins militares não tem sido suficientemente escalpelizado, apesar de constituir hoje em dia uma verdadeira arma de destruição maciça.
A Força Aérea norte-americana tem capacidade de manipular o clima tanto para fins pacíficos como para fins militares. Isto inclui a capacidade para provocar inundações, furacões, secas. Nos últimos anos o Departamento de Defesa reservou grandes montantes para o desenvolvimento e aperfeiçoamento destes sistemas.
«A modificação do clima formará parte da segurança doméstica e internacional e poderá ser realizada unilateralmente. Pode ser utilizada ofensiva e defensivamente, ou para propósitos dissuasivos. A habilidade para gerar precipitações, neve, tormentas ou modificar o espaço exterior... ou a produção de climas artificiais tudo isso constitui parte de um conjunto de tecnologias que podem incrementar o conhecimento tecnológico, a riqueza e o poder dos Estados Unidos, e degradar os seus adversários. (US Air Force, emphasis added. Air University of the Use Air Force, AF 2025 final report, www.au.af.mil/au/2025)
É desnecessário dizer que o tema é tabu. Os analistas militares e os metereológos mantêm-se mudos. Fala-se muito do aquecimento global do planeta, mas nem uma palabra sobre o principal programa norte-americano da guerra climática: The High-Frequency Active Auroral Research Program (Haarp), com sede em Gokona, Alaska, e gerido conjuntamente pela Força Aérea e a Marinha de Guerra.
Este programa existe desde 1992. E é parte de uma nova geração de armas concebidas no âmbito da Iniciativa de Defesa Estratégica, e de que é responsável o Air Force Research Laboratory’s Space Vehicles Directorate. Trata-se de um conjunto de antenas com capacidade de criar modificações na ionosfera ( o nível superior da atmosfera)
Nicholas Begich, activista contra o programa HAARP descreve-o:
«É uma superpoderosa tecnologia de emissão de gazes de ondas radiais que elevam as aéreas da ionosfera concentrando um gás que aquece certas áreas…
Ondas electromagnéticas irrompen n aterra e afectam tudo, quer seres vivos ou nao» www.globalresearch.ca/articles/CHO201A.html)
O cientista de renome mundial, Dr. Rosali Bertell, refere-se ao HARRP como u gigante aquecedor que pode causar importantes alterações na ionosfera
Para Richar Williams, físico e consultor do David Sarnoff Laboratory, em Princeton, «o HARRP é um acto de barbárie; os efeitos do seu uso podem prolongar-se por muitos anos…»
Para além disso, o HARRP serve para alterar o sistema de comunicações e de radar do inimigo, pode ainda provocar apagões em regiões inteiras, interrompendo o fluxo de corrente de energia eléctrica.
A manipulação climática , segundo os observadores, pode ser a arma «preventiva» por excelência Tanto pode ser utilizada contra países inimigos como contra países amigos, sem o seu consentimento. Para além disso, quem possuir esse conhecimento técnico ( como fazer um ataque «climático») poderá usar essa «informação privilegiada» para obter proveitos próprios a nível económico e financeiro.
Resumo e excertos de um artigo de
Michael Chossudovsky
2.2.05
A Insubmissão como obra de arte
Uma bem nutrida plêiade de autores, desde Nietzsche até Adorno, passando por Heidegger, Marcuse e Benjamin, não se cansaram de anunciar ao logo dos últimos cento e cinquenta anos a morte da arte. Não admira pois que os especialistas opinem hoje que a instituição artística atravessa a fase final do seu esgotamento, contando já com um certificado oficial de morte, ou que, pelo menos, se encontra já em adiantado estado de decomposição, o que não impede obviamente de continuar a haver artistas, críticos, teóricos de arte, revistas de arte, páginas, notícias e anúncios sobre arte, e até mesmo a continuação do funcionamento de faculdade e departamentos universitários de arte, procurados como nunca por uma enorme clientela, facto este que, de resto, não está ainda devidamente esclarecido... O anúncio antecipado da morte da arte não impede igualmente o uso sistemático e altissonante do termo “arte”, tanto para efeitos políticos ( veja-se a impressionante máquina de fazer dinheiro em que se tornou a Cultura) como para efeitos especulativos ( o negócio da arte), ou ainda como simples objecto de teorização.
Novidade marcante é, sem dúvida, utilizá-lo para efeitos de luta antimilitarista e crítica à guerra e ao complexo militar-industrial dominante. Na verdade, entre as novidades recentes do panorama artístico tem surgido um novo tipo de artista: o artista insubmisso militar. O caso mais conhecido foi o do estudante das Belas Artes que se declarou refractário e insubmisso ao Serviço Militar Obrigatório, ao Exército e a todo a máquina estatal de guerra invocando a favor da sua atitude motivos e razões do foro artístico, aproveitando até a ocasião para redigir um Manifesto Artístico Insubmisso, ao longo do qual argumentava e defendia a sua concepção da insubmissão à tropa e à guerra como obra de arte, recorrendo para tal a toda uma forte tradição artística insubmissa – Dada, Tzara, Duchamp, Beuys, Zaj,... – legitimada pela História da Arte, e ensinada inclusivamente nas Faculdades Estatais de Belas-Artes. Toda a sua alegação rematava com a invocação do Artigo 13º ( “É livre a criação intelectual, artística e científica”) e do Artigo 78º ( que dá ao Estado a incumbência de apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e colectiva), ambos da Constituição da República.
Claro está que a estratégia jurídico-argumentativa apresentada sofre de não poucas fraquezas face ao conteúdo e espírito do texto constitucional que noutras partes consagra injunções de teor e fins opostos aos que foram invocados, pelo que não foi difícil rebatê-los na decisão que veio a ser proferida pouco tempo depois.
Por outro lado a via escolhida para realizar a crítica antimilitarista não se nos afigura ter tido grande eficácia. Todos sabem a pouca receptividade dos militares e até do Estado a razões puramente artísticas para a fundamentação de atitudes e comportamentos. É certo que teve oportunidade para desmistificar certos preconceitos vulgares e muito comuns que estão na origem do Exército e do Estado ao recorrer a razões de ordem artística. Todavia, a luta antimilitarista só se mostrará consequente se tiver impacto junto de conjuntos significativos da população, o que nunca veio realmente a acontecer
Além do mais enveredar por uma “estratégia artística antimilitarista” envolve algum perigo na medida em que o raciocínio que aí se convoca é muito semelhante ao utilizado nas operações militares ( e já agora, o mesmo pensamento se poderá aplicar ao de “vanguarda artística”), se bem que dúvidas não subsistem que os inimigos mais persistentes dos militares não são propriamente os militares adversários mas sim os antimilitaristas.
Acerca do acto em si enquanto atitude que releva do foro artístico será necessário, como ponto prévio, elucidarmo-nos sobre se a arte existe, sobre o que é a arte, e ainda se é possível uma definição institucional da mesma.
Sustentar a insubmissão à tropa e à guerra em nome da arte sugere logo uma perspectivação da prática artística como desobediência, transgressão de normas e até de delito. E não há dúvidas que a arte do século XX nos oferece uma grande parentesco entre o impulso criativo e anticonvencional, antagónico à dimensão burguesa convencional estabelecida. Este parentesco encontra-se inclusivamente corroborado na moderna ideia segundo a qual a atitude não conformista é a condição prévia e indispensável para a criação artística.
Porém não nos iludamos: o anticonvencionalismo, o inconformismo, a desobediência, a insubmissão, o delito,etc, são sempre conceitos relativos a um determinado grupo de referência que, por consenso, define socialmente o conteúdo da norma e do desvio, pelo que uma desobediência relativamente a um grupo social ( dominante, por exemplo) poderá ser vista também como de obediência a outro grupo social ( dominado).
De qualquer forma o certo é que existem na História da arte sólidas referências, isto é, precedentes reconhecidos, que permitem encarar a criação artística não tanto como uma habilidade especial para gerir certos materiais e formas, mas como antinomia de toda e qualquer restrição e limitação. Nas palavras de Beuys “o artista e o delinquente são companheiros de caminhada, dispõem ambos de uma louca criatividade, e ambos carecem de moral...”
Evidentemente que não se trata aqui de atribuir a categoria artística a alguns bem conhecidos delitos ( como os crimes perfeitos, o dos colarinhos brancos, as falsificações refinadíssimas, as fugas de prisão...), nem é sequer intenção nossa parte trazer à colação os numerosos artistas que foram delinquentes ( Caravaggio foi um criminoso, Rimbaud e Verlaine são conhecidos pelas rixas em que se envolveram, e os primeiros dadaístas de Zurich famosos desertores da I Grande Guerra), trata-se sim de apurar se a arte supõe em si mesma alguma forma de insubmissão ou de delito. O caso de Egon Schiele, preso por ser considerado pornógrafo, a acção dos primeiros graffiters novaiorquinos alvo da perseguição da polícia, as galerias de arte processadas por imoralidade após as exposições de Mapplethorpe, as provocadoras exibições públicas da Action and Body Art na década de sessenta, o happening político de Maio 68, o Accionismo vienense e a sua luta anarquista por uma liberdade dionisíaca sem limites, o movimento Fluxus, a Anti-Arte, Zaj e o não-Zaj, e em grande medida de toda a corrente conceptualista ( desenvolvida desde Duchamp), representam todos eles o questionar da própria ideia de arte.
Reinstauradora do vínculo platónico entre moral e estética, será que a arte deve abandonar a complacência administrativa e avançar no caminho da crítica institucional tal como faz Hans Haacke que denuncia a experiência quotidiana capitalista, lançando as suas obras contra as instituições artísticas estabelecidas, e indústrias congéneres?
Inspirados nesta ideia numerosos artistas optaram por esta via ( bastará lembrar o caso de Wolf Vostell, Julien Blaine, Joel Hubaut, Patrice Loubier...) e que acabam justamente por reconhecer a natureza artística a uma acto como o de insubmissão antimilitarista.
Reticentes a uma concepção destas serão certamente as instituições estabelecidas como as academias, universidades, associações de críticos, museus, etc , circunstância essa que só dará razão a Gomez de la Serna quando este escreve “...as academias não têm nada a ver com a arte; constituem-se acima de tudo como recintos tétricos, repletos de chefes de língua de negócio”.
Chegamos assim a este ponto do problema: se as faculdades de arte não têm capacidade para dizer o que é a arte, então quem o pode fazer? A resposta óbvia é remeter para o próprio foro de cada indivíduo na hipótese de se considerar a arte como uma experiência eminentemente subjectiva e intransferível, e que dura enquanto acontece num determinado sujeito criador. Mas nesse sentido qualquer um pode ser artista, quer seja militar ou civil, oprimido ou opressor.
Mas se se busca uma resposta mais elaborada então as coisas complicam-se. E torna-se hoje ainda mais difícil descortinar alguma saída para esta questão depois de tantas evoluções a que se assistiu neste domínio no último século.
Novos enfoques sobre o assunto ( o que é a arte?) não vão faltar com o passar do tempo, mas hoje desgraçadamente temos de reconhecer que a arte é definida institucionalmente pelos...media! São estes, mais o dinheiro investido ( ou a investir) que definem institucionalmente a natureza artística de uma obra.
Por isso, um artista insubmisso militar que queira elevar o seu acto à categoria de arte não tem outro solução que não seja comprar um bom e apelativo anúncio televisivo, ou em algum outro meio audiovisual de massas...
Podemos concluir assim que a Arte a a Justiça têm algo de comum entre si : ambas são instituições fraudulentas.
A Arte por dissimular uma existência improvável ( quase impossível) nas actuais condições demotecnocráticas e hipertecnologizadas em que a própria realidade acabou por sucumbir às mãos de ficções tornadas realidade.
A Justiça não somente pelas disfuncionalidades congénitas de qualquer aparelho ou máquina judicial mas sobretudo pela contradição que se revela entre as suas leis e os fundamentos morais que pretensamente aquelas se apoiam, como ainda por sancionar justamente os indivíduos que ao avaliar criticamente a actuação do Estado, qual máquina de poder em potência e em acto, mais longe levam o seu direito de cidadania (1) ao exigir que o Direito Penal deste corresponda ao seu próprio fundamento originário , que é o de se constituir como um conjunto normativo que garanta tão só os requisitos mínimos para a convivência social, (2) assim como à recusa de se aglutinar a uma massa informe de indivíduos através da activa participação cívica e social.
Tradução livre ( e adaptada de um artigo de José Saborit Viguer publicada na Revista El Viejo Topo nº 96)
Novidade marcante é, sem dúvida, utilizá-lo para efeitos de luta antimilitarista e crítica à guerra e ao complexo militar-industrial dominante. Na verdade, entre as novidades recentes do panorama artístico tem surgido um novo tipo de artista: o artista insubmisso militar. O caso mais conhecido foi o do estudante das Belas Artes que se declarou refractário e insubmisso ao Serviço Militar Obrigatório, ao Exército e a todo a máquina estatal de guerra invocando a favor da sua atitude motivos e razões do foro artístico, aproveitando até a ocasião para redigir um Manifesto Artístico Insubmisso, ao longo do qual argumentava e defendia a sua concepção da insubmissão à tropa e à guerra como obra de arte, recorrendo para tal a toda uma forte tradição artística insubmissa – Dada, Tzara, Duchamp, Beuys, Zaj,... – legitimada pela História da Arte, e ensinada inclusivamente nas Faculdades Estatais de Belas-Artes. Toda a sua alegação rematava com a invocação do Artigo 13º ( “É livre a criação intelectual, artística e científica”) e do Artigo 78º ( que dá ao Estado a incumbência de apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e colectiva), ambos da Constituição da República.
Claro está que a estratégia jurídico-argumentativa apresentada sofre de não poucas fraquezas face ao conteúdo e espírito do texto constitucional que noutras partes consagra injunções de teor e fins opostos aos que foram invocados, pelo que não foi difícil rebatê-los na decisão que veio a ser proferida pouco tempo depois.
Por outro lado a via escolhida para realizar a crítica antimilitarista não se nos afigura ter tido grande eficácia. Todos sabem a pouca receptividade dos militares e até do Estado a razões puramente artísticas para a fundamentação de atitudes e comportamentos. É certo que teve oportunidade para desmistificar certos preconceitos vulgares e muito comuns que estão na origem do Exército e do Estado ao recorrer a razões de ordem artística. Todavia, a luta antimilitarista só se mostrará consequente se tiver impacto junto de conjuntos significativos da população, o que nunca veio realmente a acontecer
Além do mais enveredar por uma “estratégia artística antimilitarista” envolve algum perigo na medida em que o raciocínio que aí se convoca é muito semelhante ao utilizado nas operações militares ( e já agora, o mesmo pensamento se poderá aplicar ao de “vanguarda artística”), se bem que dúvidas não subsistem que os inimigos mais persistentes dos militares não são propriamente os militares adversários mas sim os antimilitaristas.
Acerca do acto em si enquanto atitude que releva do foro artístico será necessário, como ponto prévio, elucidarmo-nos sobre se a arte existe, sobre o que é a arte, e ainda se é possível uma definição institucional da mesma.
Sustentar a insubmissão à tropa e à guerra em nome da arte sugere logo uma perspectivação da prática artística como desobediência, transgressão de normas e até de delito. E não há dúvidas que a arte do século XX nos oferece uma grande parentesco entre o impulso criativo e anticonvencional, antagónico à dimensão burguesa convencional estabelecida. Este parentesco encontra-se inclusivamente corroborado na moderna ideia segundo a qual a atitude não conformista é a condição prévia e indispensável para a criação artística.
Porém não nos iludamos: o anticonvencionalismo, o inconformismo, a desobediência, a insubmissão, o delito,etc, são sempre conceitos relativos a um determinado grupo de referência que, por consenso, define socialmente o conteúdo da norma e do desvio, pelo que uma desobediência relativamente a um grupo social ( dominante, por exemplo) poderá ser vista também como de obediência a outro grupo social ( dominado).
De qualquer forma o certo é que existem na História da arte sólidas referências, isto é, precedentes reconhecidos, que permitem encarar a criação artística não tanto como uma habilidade especial para gerir certos materiais e formas, mas como antinomia de toda e qualquer restrição e limitação. Nas palavras de Beuys “o artista e o delinquente são companheiros de caminhada, dispõem ambos de uma louca criatividade, e ambos carecem de moral...”
Evidentemente que não se trata aqui de atribuir a categoria artística a alguns bem conhecidos delitos ( como os crimes perfeitos, o dos colarinhos brancos, as falsificações refinadíssimas, as fugas de prisão...), nem é sequer intenção nossa parte trazer à colação os numerosos artistas que foram delinquentes ( Caravaggio foi um criminoso, Rimbaud e Verlaine são conhecidos pelas rixas em que se envolveram, e os primeiros dadaístas de Zurich famosos desertores da I Grande Guerra), trata-se sim de apurar se a arte supõe em si mesma alguma forma de insubmissão ou de delito. O caso de Egon Schiele, preso por ser considerado pornógrafo, a acção dos primeiros graffiters novaiorquinos alvo da perseguição da polícia, as galerias de arte processadas por imoralidade após as exposições de Mapplethorpe, as provocadoras exibições públicas da Action and Body Art na década de sessenta, o happening político de Maio 68, o Accionismo vienense e a sua luta anarquista por uma liberdade dionisíaca sem limites, o movimento Fluxus, a Anti-Arte, Zaj e o não-Zaj, e em grande medida de toda a corrente conceptualista ( desenvolvida desde Duchamp), representam todos eles o questionar da própria ideia de arte.
Reinstauradora do vínculo platónico entre moral e estética, será que a arte deve abandonar a complacência administrativa e avançar no caminho da crítica institucional tal como faz Hans Haacke que denuncia a experiência quotidiana capitalista, lançando as suas obras contra as instituições artísticas estabelecidas, e indústrias congéneres?
Inspirados nesta ideia numerosos artistas optaram por esta via ( bastará lembrar o caso de Wolf Vostell, Julien Blaine, Joel Hubaut, Patrice Loubier...) e que acabam justamente por reconhecer a natureza artística a uma acto como o de insubmissão antimilitarista.
Reticentes a uma concepção destas serão certamente as instituições estabelecidas como as academias, universidades, associações de críticos, museus, etc , circunstância essa que só dará razão a Gomez de la Serna quando este escreve “...as academias não têm nada a ver com a arte; constituem-se acima de tudo como recintos tétricos, repletos de chefes de língua de negócio”.
Chegamos assim a este ponto do problema: se as faculdades de arte não têm capacidade para dizer o que é a arte, então quem o pode fazer? A resposta óbvia é remeter para o próprio foro de cada indivíduo na hipótese de se considerar a arte como uma experiência eminentemente subjectiva e intransferível, e que dura enquanto acontece num determinado sujeito criador. Mas nesse sentido qualquer um pode ser artista, quer seja militar ou civil, oprimido ou opressor.
Mas se se busca uma resposta mais elaborada então as coisas complicam-se. E torna-se hoje ainda mais difícil descortinar alguma saída para esta questão depois de tantas evoluções a que se assistiu neste domínio no último século.
Novos enfoques sobre o assunto ( o que é a arte?) não vão faltar com o passar do tempo, mas hoje desgraçadamente temos de reconhecer que a arte é definida institucionalmente pelos...media! São estes, mais o dinheiro investido ( ou a investir) que definem institucionalmente a natureza artística de uma obra.
Por isso, um artista insubmisso militar que queira elevar o seu acto à categoria de arte não tem outro solução que não seja comprar um bom e apelativo anúncio televisivo, ou em algum outro meio audiovisual de massas...
Podemos concluir assim que a Arte a a Justiça têm algo de comum entre si : ambas são instituições fraudulentas.
A Arte por dissimular uma existência improvável ( quase impossível) nas actuais condições demotecnocráticas e hipertecnologizadas em que a própria realidade acabou por sucumbir às mãos de ficções tornadas realidade.
A Justiça não somente pelas disfuncionalidades congénitas de qualquer aparelho ou máquina judicial mas sobretudo pela contradição que se revela entre as suas leis e os fundamentos morais que pretensamente aquelas se apoiam, como ainda por sancionar justamente os indivíduos que ao avaliar criticamente a actuação do Estado, qual máquina de poder em potência e em acto, mais longe levam o seu direito de cidadania (1) ao exigir que o Direito Penal deste corresponda ao seu próprio fundamento originário , que é o de se constituir como um conjunto normativo que garanta tão só os requisitos mínimos para a convivência social, (2) assim como à recusa de se aglutinar a uma massa informe de indivíduos através da activa participação cívica e social.
Tradução livre ( e adaptada de um artigo de José Saborit Viguer publicada na Revista El Viejo Topo nº 96)
1.2.05
OS LADRÕES DO TEMPO
Ano 20.311...
... no decorrer dos tempos a verdadeira natureza dos problemas ia-se revelando aos olhos alucinados da plebe.
Um dos descobrimentos mais marcantes foi, sem dúvida, o episódio dos “ladrões do tempo”:
Nos primeiros anos do 3º Milénio ( por volta de 2002) havia um grupo de indivíduos que tinham curiosamente a missão, ou a profissão, de fazer perder tempo aos demais. Havia-os de todas as categorias e género: eram os funcionários que faziam parar o tempo na burocracia do Estado, ou empresarial, até àqueles personagens cuja única missão era sair aos fins de semana para fazer perder tempo àqueles de também saíam para viver
...a missão destas pessoas era realmente fazer com que a vida livre em conjunto fosse impossível.
Estavam ainda na Internet, inundando de publicidade os diversos sites, fazendo impossível ler o correio electrónico, que chegavam ininterruptamente com aquele lixo, ou de outra forma qualquer, de tal modo que o resultado era uma sobredose de informação, completamente impossível de ser absorvida.
Estavam igualmente na rua, assaltando-te com panfletos publicitários, e todos os outros transeuntes, a quem abordavam sem parar de maneira a fazer-lhes perder tempo, e convertendo o contacto humano em algo artificial pelo uso de uma linguagem publicitária.
Parecia uma loucura pensar que estas pessoas estavam a trabalhar para o Sistema, mas a verdade é que, directa ou indirectamente, estavam-no a fazer
Eram pessoas que agiam sob as ordens de uma empresa que os havia contratado, e que se moviam com o objectivo de gerar a hipnose telepática da publicidade junto dos incautos
As empresas chegavam mesmo a publicar livros que eram convertidos em manuais de estudo nas escolas e nas universidades!
O resultado de tudo isto era um mundo inabitável, estranho, irreal, virtual
Acontecia o caso inclusivamente daquelas pessoas que queriam transformar o mundo, activistas da liberdade, e que passavam o seu tempo, encerrados, frente ao monitor, criando conteúdos web, muito ou pouco visitados, mas que eram exactamente os inputs da maquinaria e do complexo tecnológico industrial-capitalista..
Felizmente, pela mesma época, havia outras pessoas que se empenhavam em desertar deste sistema, regressando ao local , reinventando a convivialidade da cidade, exercendo o supremo direito de existir neste planeta, renunciando aos deus-dinheiro, e restabelecendo as relações naturais com a natureza, e que tentavam resgatar a fresca brisa da liberdade.
...e foram, estes últimos, os activistas que conseguiram transformar o mundo...
... no decorrer dos tempos a verdadeira natureza dos problemas ia-se revelando aos olhos alucinados da plebe.
Um dos descobrimentos mais marcantes foi, sem dúvida, o episódio dos “ladrões do tempo”:
Nos primeiros anos do 3º Milénio ( por volta de 2002) havia um grupo de indivíduos que tinham curiosamente a missão, ou a profissão, de fazer perder tempo aos demais. Havia-os de todas as categorias e género: eram os funcionários que faziam parar o tempo na burocracia do Estado, ou empresarial, até àqueles personagens cuja única missão era sair aos fins de semana para fazer perder tempo àqueles de também saíam para viver
...a missão destas pessoas era realmente fazer com que a vida livre em conjunto fosse impossível.
Estavam ainda na Internet, inundando de publicidade os diversos sites, fazendo impossível ler o correio electrónico, que chegavam ininterruptamente com aquele lixo, ou de outra forma qualquer, de tal modo que o resultado era uma sobredose de informação, completamente impossível de ser absorvida.
Estavam igualmente na rua, assaltando-te com panfletos publicitários, e todos os outros transeuntes, a quem abordavam sem parar de maneira a fazer-lhes perder tempo, e convertendo o contacto humano em algo artificial pelo uso de uma linguagem publicitária.
Parecia uma loucura pensar que estas pessoas estavam a trabalhar para o Sistema, mas a verdade é que, directa ou indirectamente, estavam-no a fazer
Eram pessoas que agiam sob as ordens de uma empresa que os havia contratado, e que se moviam com o objectivo de gerar a hipnose telepática da publicidade junto dos incautos
As empresas chegavam mesmo a publicar livros que eram convertidos em manuais de estudo nas escolas e nas universidades!
O resultado de tudo isto era um mundo inabitável, estranho, irreal, virtual
Acontecia o caso inclusivamente daquelas pessoas que queriam transformar o mundo, activistas da liberdade, e que passavam o seu tempo, encerrados, frente ao monitor, criando conteúdos web, muito ou pouco visitados, mas que eram exactamente os inputs da maquinaria e do complexo tecnológico industrial-capitalista..
Felizmente, pela mesma época, havia outras pessoas que se empenhavam em desertar deste sistema, regressando ao local , reinventando a convivialidade da cidade, exercendo o supremo direito de existir neste planeta, renunciando aos deus-dinheiro, e restabelecendo as relações naturais com a natureza, e que tentavam resgatar a fresca brisa da liberdade.
...e foram, estes últimos, os activistas que conseguiram transformar o mundo...
Anedotas sobre o “desenvolvimento”
Conto breve
Na minha terra levantava-me tranquilamente pela manhã. Não tinha que me preocupar com a roupa, até porque a minha casa estava rodeada pelas minhas chacras e pelos montes. Com toda esta paz, deixava-me ficar admirando toda a natureza que me envolvia enquanto a minha senhora preparava o fogo. Refrescava-me no rio e saía com a canoa para dar uma volta e tentar apanhar alguns peixes.
Sem preocupações com as horas, regressava a casa. A minha senhora recebia-me contente, preparava os pescados, dava-me a minha bebida favorita, e aquecia-me junto do fogo. Conversava-mos eu e a minha senhora, mais os nossos filhos até que a conversa acabasse. Ela ia para a chacra e eu subia, com o meu filho varão, o monte. Andando pelo monte, ensinava-lhe como é a Natureza, a nossa História, tudo isso segundo os ensinamentos dos nossos antepassados. Caçava-mos e regressava-mos contentes a casa com a carne do monte. A minha senhora recebia feliz, depois de se lavar e pintar. De seguida, comíamos até ficarmos satisfeitas.
Se queria descansar, descansava, se não, não o fazia, e ia visitar os vizinhos ou os meus artesanatos. Outras vezes chegavam parentes e tomava-mos bebidas juntos, contava-mos histórias, e se a noite corria bem, acabava-mos a noite a dançar.
Agora, com o desenvolvimento, as coisas mudaram. Há, agora, um horário matinal para trabalhar. Vamos trabalhar no arroz para os campos até muito tarde, e regressamos a casa sem nada. A minha senhora, quando regresso, põem-me um prato em cima da mesa com cara de poucos amigos. Quase não falamos. O meu filho vai à escola onde lhe ensinam coisas. Quando preciso de algo, tenho de ir ao mercado. O pouco que ganho vai todo para os transportes e para os comerciantes.
Quando vou trabalhar levo comigo uma latas de atúm para comer, mas o pior é que me dizeram que esta agricultura que fazemos está a acabar, e não demorarará muito a termos que ir para Lima à procura de comida nas lixeiras.
Quando estive na capital preocupei-me em saber como era a vida dos milionários e disseram-me então que eles tinham também uma casa isolada no meio de lindas paisagens campestres. E que se levantam cedo para admirar o panorama e banharem-se nas suas piscinas. Tomam tranquilamente o pequeno-almoço com a mulher e os filhos, os quais seguem a seguir para um Colégio onde aprendem as coisas que os padres lhes ensinam. O milionário-pai passa o dia a passear pela fazenda, vai à caça ou à pesca e, no seu regresso, encontra a mesa já posta e a sua mulher já preparada para o almoço. Dorme depois do almoço, ou então dedica-se a pintar, entregando-se outras vezes a pequenos entretenimentos. À tardinha sai ao encontro dos amigos nos bares, onde bebem e dançam até quando lhes apetece.
Depois disto pergunto-me: será que vou acabar a recolher comida nas lixeiras para que um ou dois milionários possam fazer a vida que nós fazíamos antes? Será isto “desenvolvimento”?
Andrés Nuningo
(líder do povo Huambisa)
(retirado de Ajoblanco nº 59, Janeiro de 1994)
Na minha terra levantava-me tranquilamente pela manhã. Não tinha que me preocupar com a roupa, até porque a minha casa estava rodeada pelas minhas chacras e pelos montes. Com toda esta paz, deixava-me ficar admirando toda a natureza que me envolvia enquanto a minha senhora preparava o fogo. Refrescava-me no rio e saía com a canoa para dar uma volta e tentar apanhar alguns peixes.
Sem preocupações com as horas, regressava a casa. A minha senhora recebia-me contente, preparava os pescados, dava-me a minha bebida favorita, e aquecia-me junto do fogo. Conversava-mos eu e a minha senhora, mais os nossos filhos até que a conversa acabasse. Ela ia para a chacra e eu subia, com o meu filho varão, o monte. Andando pelo monte, ensinava-lhe como é a Natureza, a nossa História, tudo isso segundo os ensinamentos dos nossos antepassados. Caçava-mos e regressava-mos contentes a casa com a carne do monte. A minha senhora recebia feliz, depois de se lavar e pintar. De seguida, comíamos até ficarmos satisfeitas.
Se queria descansar, descansava, se não, não o fazia, e ia visitar os vizinhos ou os meus artesanatos. Outras vezes chegavam parentes e tomava-mos bebidas juntos, contava-mos histórias, e se a noite corria bem, acabava-mos a noite a dançar.
Agora, com o desenvolvimento, as coisas mudaram. Há, agora, um horário matinal para trabalhar. Vamos trabalhar no arroz para os campos até muito tarde, e regressamos a casa sem nada. A minha senhora, quando regresso, põem-me um prato em cima da mesa com cara de poucos amigos. Quase não falamos. O meu filho vai à escola onde lhe ensinam coisas. Quando preciso de algo, tenho de ir ao mercado. O pouco que ganho vai todo para os transportes e para os comerciantes.
Quando vou trabalhar levo comigo uma latas de atúm para comer, mas o pior é que me dizeram que esta agricultura que fazemos está a acabar, e não demorarará muito a termos que ir para Lima à procura de comida nas lixeiras.
Quando estive na capital preocupei-me em saber como era a vida dos milionários e disseram-me então que eles tinham também uma casa isolada no meio de lindas paisagens campestres. E que se levantam cedo para admirar o panorama e banharem-se nas suas piscinas. Tomam tranquilamente o pequeno-almoço com a mulher e os filhos, os quais seguem a seguir para um Colégio onde aprendem as coisas que os padres lhes ensinam. O milionário-pai passa o dia a passear pela fazenda, vai à caça ou à pesca e, no seu regresso, encontra a mesa já posta e a sua mulher já preparada para o almoço. Dorme depois do almoço, ou então dedica-se a pintar, entregando-se outras vezes a pequenos entretenimentos. À tardinha sai ao encontro dos amigos nos bares, onde bebem e dançam até quando lhes apetece.
Depois disto pergunto-me: será que vou acabar a recolher comida nas lixeiras para que um ou dois milionários possam fazer a vida que nós fazíamos antes? Será isto “desenvolvimento”?
Andrés Nuningo
(líder do povo Huambisa)
(retirado de Ajoblanco nº 59, Janeiro de 1994)
Razão Sensível
A consulta a um dicionário permitirá encontrar uma definição de Razão como aquela faculdade do homem que lhe permite conhecer, raciocinar e agir, ou ainda como o conjunto de princípios da actividade de pensar que permita raciocinar bem, ou por outras palavras, o sistema de princípios a priori que rege o pensamento ( e que se opõe à experiência); havendo mesmo quem entenda a razão como o conhecimento natural, oposto ao que resulta da Revelação ou da fé, enfim, a razão seria o raciocínio conforme os factos.
Como se pode constatar existe grande ambiguidade no significado do termo, que aumentará ainda mais quando ficámos a saber que a razão pode evocar um ideal, uma atitude e um método.
A razão passa por ser efectivamente um dos «complexos culturais» mais ricos de sentido que é dado ao entendimento humano.
Vulgarmente opomo-la ao preconceito, mas podemos entendê-la como o conjunto de formas concretas de pensamento e acção consideradas como racionais, comummente utilizadas nas ciências, ou então é ainda possível pensar a razão como um valor, um ideal (concorrente porventura com outros valores). Como quer que seja torna-se indispensável ter em linha de conta o contexto em que a razão se concretiza, as estruturas e as funções para que esta vai servindo. Explicar, por exemplo, como e por que é que se chegou à ideia segundo a qual existe uma razão que subsiste e permanece face às transformações sociais e culturais.
Da tradição greco-latina podemos reter três ideias fundamentais a propósito da razão: 1º) A razão é vista como o raciocínio correcto, oposto ao conhecimento imperfeito e ilusório dos sentidos e à opinião que nasce da rotina; 2º) A distinção entre formas diferentes de razão como a «razão discursiva», isto é, o pensamento articulado através de um encadeamento de raciocínios, e a «razão intuitiva», capaz de captar as verdades ou as essências num único momento sem necessidade de um processo demonstrativo; 3º) A razão não teria para os antigos apenas uma função de conhecimento mas aplicar-se-ia igualmente à prática por via da sageza e da prudência. Para Aristóteles a virtude da prudência consistiria em alcançar aquilo que o homem pode realizar segundo os «cálculos da razão», os quais seriam comandados por uma regra ou um princípio que se tornou uma das expressões mais marcantes da sageza grega: a busca em todas as coisas do «juste milieu». Não se esqueça que Sócrates assimila o irracional ao mal, à ignorância, considerando o exercício da razão a condição primeira para a virtude.
Ora todo este pensamento grego acerca da razão só pode ser devidamente entendido se recordarmos que, entre outras variáveis que não cuidamos por ora, a sociedade grega vivia à base de uma massa de escravos que libertava os gregos, os homens livres, para o gosto e o culto deste conhecimento, desta forma de entender a razão.
Mas um aspecto que assumiu para a posteridade as maiores consequências foi justamente a distinção entre a razão discursiva e a razão intuitiva, associando-se normalmente o pensamento claro à primeira, e as formas de pensamento mais ou menos obscuros ao segundo. A isto não terá sido certamente estranho Platão quando qualificava de delírios as três formas de inspiração ( o amor, a divinização, a poesia ) e ligava-as à razão intuitiva. Na verdade, a partir de então não mais se deixou de privilegiar a razão discursiva.
A filosofia chama a si o estudo da história da razão humana opondo esta ao mito e à idade mítica (ou consciência mítica) que constituiria a pré-história da própria racionalidade, mas da maior importância para a configuração e a compreensão desta última.
Recorde-se que o mito é um símbolo que vale por si mesmo, onde a separação entre significante e significado não existe. Para o pensamento mítico o símbolo não se separa do concreto, do percebido, pois é uma inteligência que funciona por dados concretos que adquirem na narrativa mítica uma significação simbólica.
A dimensão do abstracto não existe na consciência mítica, cuja lógica está muito próxima da intuição sensível, a qual transforma por assim dizer as percepções em símbolos.
Inversamente, para a racionalidade abstractizante a intuição sensível, o concreto, é uma parte da realidade que será progressivamente abandonada para se passar a níveis de abstracção cada vez mais elaborados.
A interpretação do real pela consciência mítica realiza-se por construções simbólicas do mito que nasciam duma sabedoria concreta, sensível. Para Lévi-Strauss existem dois modos distintos de pensamento, correspondentes não a estados desiguais de desenvolvimento do espírito humano, mas a dois níveis estratégicos pelos quais o conhecimento aborda o real: um aproximativamente ajustado ao da percepção e da imaginação; o outro deslocado, onde a racionalização acaba por se traduzir num processo de afastamento contínuo do mundo sensível, e implicando uma separação nítida entre o objectivo e o subjectivo, que passam a constituir um dos desideratos resultantes dessa lógica racional. A ordem racional que se acabou por se tornar dominante assenta pois na separação clara entre o símbolo e a realidade; no afastamento e distinção entre a intuição sensível e o conceito abstracto; na cisão entre sujeito e objecto, entre o plano da subjectividade e da objectividade.
A racionalidade instaurada com a filosofia pós-socrática entra pois em ruptura com o mito, podendo dizer-se que em grande medida a história da evolução humana consiste nas diferentes estratégias de conhecimento do objecto por parte do sujeito.
E a razão discursiva, que se tornou dominante no pensamento ocidental, é um «dizer inteligível», «um discurso coerente» sobre os materiais fornecidos pela experiência - oposta a uma outra dimensão racional, mas com um estatuto subordinado, associada à criatividade, à construção de universos de sentido, de mundos possíveis que rompem com os dados imediatos.
Na história da razão ocidental relevam três momentos de destaque: a revolução socrática, a revolução cartesiana e a revolução idealista. Na primeira o homem torna-se o objecto de conhecimento através da razão, momento a partir do qual esta assume a maior importância para o desafio que é lançado pela radicalidade inquietante do real. Em Platão a razão surge naturalmente como faculdade que permite o conhecimento, ou seja, só racionalmente o homem pode avizinhar-se da realidade. Descartes funda o racionalismo moderno inspirando-se no modelo matemático para construir um conhecimento que não ofereça dúvida alguma a partir de uma verdade indiscutível, para o que teve de estabelecer uma dicotomia, que nunca mais abandonará a filosofia moderna, entre a «res cogitans» (coisa ou realidade pensante) e a «res extensa» ( coisa ou realidade material), isto é, postula uma separação radical entre a realidade espiritual e corpórea, comunicantes entre si apenas pela glândula pineal.
Esta separação radical entre espírito e matéria teve como consequência o facto dos filósofos e pensadores posteriores não mais deixarem de privilegiar um dos dois termos do binómio, ora afirmando o espírito como o verdadeiro real (idealismo), ora dando primazia à matéria (materialismo). Por outro lado, esta distinção entre objecto/ser levará posteriormente à tendência de se reduzir toda a realidade ao objecto, caindo-se no objectivismo, ou então à tendência de reduzir a realidade às estruturas subjectivas do ser.
Enquanto Descartes amplia o raio de acção da razão, Kant preocupa-se por seu lado em traçar os seus limites, isto é, esforça-se em estudar os elementos a priori do conhecimento, opostos à materialidade da intuição sensível. Procura encontrar os quadros do conhecimento que considera serem eles próprios uma definição do espírito enquanto faculdade de conhecimento. Opera a chamada «revolução coperniciana» ao colocar sob a dependência da estrutura dita «transcendental» do sujeito a percepção e o conhecimento dos objectos. No fundo, a racionalidade para Kant consiste em reconduzir à unidade das categorias do pensamento os elementos dispersos do real. A essa faculdade de síntese que permite a passagem das intuições sensíveis às experiências do sujeito pensante relativas aos objectos chama Kant raciocínio ( Verstand), reservando o termo razão (Vernunft) a um grau superior de síntese de conhecimentos. Sugere pois que a razão tende naturalmente ultrapassar a experiência, faz-nos-ia conhecer objectos de uma ordem superior, não presentes na nossa simples experiência. Note-se ainda que Kant refere-se a uma outra forma de razão, a chamada Razão prática, ligada à faculdade, não de conhecer os objectos, mas de gerar máximas de acção moral, e em que os seus postulados se impõem como imperativos categóricos, incondicionais, fazendo da Razão prática a origem, não do conhecimento, mas duma acção conforme o destino do homem.
Kant é o filósofo do Iluminismo que sugere a ideia da capacidade da razão natural ser capaz de conduzir os homens à ciência e à sabedoria. A razão deixa de ser a soma das ideias inatas (Descartes) para se confundir com uma actividade que trabalha os materiais sensíveis. a razão define-se menos como uma posse que como uma forma de aquisição dos dados da experiência.
Este optimismo pela razão é atenuado por Hegel ao descobrir o carácter histórico da razão: ela é a tomada de consciência de uma harmonia fundamental entre a verdade objectiva e os nossos pensamentos subjectivos, mas esta consciência é uma conquista obtida ao longo da história da humanidade. Para Hegel esta realização progressiva da razão efectua-se por um processo que ele designa por dialéctico e se consubstancia no movimento incessante que arranca da afirmação, passa à negação e conclui na negação da negação através de uma síntese provisória (tese-antítese-síntese). Escreve Hegel: “ A única ideia que a filosofia nos dá é a da Razão, a ideia segundo a qual a Razão governa o mundo e por consequência a ideia pela qual a história universal se desenrola racionalmente... A Razão é a substância, isto é, algo através do qual a realidade encontra o seu ser e a sua consistência. Ela é a infinita potência ... Um fim último domina a vida dos povos; a Razão está presente na história universal, não a razão subjectiva e particular, mas a Razão divina, absoluta.”
Esta arrogância da razão gera naturais reacções anti-racionalistas de que são exemplo as filosofias de Fichte, Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, Bergson; e correntes literárias como o Romantismo.
Fichte ao revalorizar o plano impulsivo do sujeito está a recuperar o homem total: o ser humano dotado de intelecto, mas também constituído pela afectividade, motora da acção. A vontade, e com ela, o plano instintivo e afectivo do ser humano voltam a ser tema central das reflexões posteriores.
Schopenhauer fala de uma radical contingência, de uma ausência de fundamentação racional, face a uma vontade infinita, devoradora de si mesma.
Kierkegaard arremete contra Hegel e a universalidade da razão, o mundo da necessidade imposto por essa mesma razão, em que a liberdade humana mais não é que a aceitação racional dessa necessidade. Ao invés, Kierkegaard conhece no homem um ser que goza da suprema glória de não estar pré-determinado, e que assim sofre a suprema angústia da possibilidade. O que domina no pensador dinamarquês é a existência do homem concreto, individual que nega, pela sua individualidade, a abstracção da Ideia. Não lhe interessa conceptualizar a existência, mas defrontar a realidade concreta em que se dá o drama singular, o transe dramático da possibilidade.
Nietzsche insere a razão e a sua história numa história mais geral que seria a história da moral. A finalidade de Nietzsche é mostrar como o homem dotado de razão é uma figura nascida em determinadas condições históricas e culturais, ligada ao aparecimento e sedimentação de certos valores e que, pos isso, o homem, antes de ser racional, é um ser moral. Deste modo, a razão e outros conceitos, devem ser concebidos como valores, criados por uma moral. Daí a urgência de uma genealogia da moral que se mostra como a única capaz de explicar em profundidade a essência da chamada racionalidade humana. O pensador alemão vai encontrar em Sócrates e na moral judaico-cristã a origem de todo o processo dicotómico entre as essências ou ideias por um lado, e o conhecimento instável aparente do mundo sensível, modelo de pensamento que acabará por se impor na cultura ocidental, um modelo que estabelece uma dualidade de realidades com valores diferentes.
A atitude romântica defende a primazia dos valores vitais sobre os valores intelectuais, entendendo por aqueles os que têm as suas raízes na vida biológica por oposição aos que resultam de uma imagem da nossa existência reflectida pela inteligência. Exalta-se o poder, o amor, a intuição (Bergson opõe esta última à inteligência das coisas inertes, que predominaria no reino das ciências). Promove-se um estilo de existência que valoriza a acção, a emoção e a paixão. No domínio do conhecimento a atitude romântica opõe ao modelo da razão abstracta e do método científico, o modelo de um saber directo e indecomponível.
A escola romântica recusa o pensamento do racionalismo iluminista ( a razão discursiva) ao valorizar a imaginação, a sensibilidade, a intuição, a singularidade do indivíduo.
Mas tudo isto não impede o desenvolvimento da ciência. Com efeito, se o séc. XVIII foi chamado o século das Luzes, o século XIX é conhecido pelo século das ciências. Na verdade, emergiram nessa época novas ciências, e vieram a obter-se novas descobertas técnicas e científicas. Amparado na visão determinista da razão científica o positivismo reforçou o cientismo e um conhecimento puramente racional. A Revolução industrial, com a consequente industrialização, acaba por impor um pensamento ao serviço dos números e do dinheiro. O século XIX concretiza as certezas da ciência positiva e actualiza o triunfo da era prometaica iniciada com o Renascimento. Prometeu, herói na antiga Ática, é conhecido por ter ensinado aos homens o saber que fundamenta a civilização: a arte de trabalhar, de construir, de curar. Trata-se de um titã que simboliza a revolta humana contra a tirania do real e da matéria. Acontece que o Prometeu dos tempos modernos, assoberbado pela obra feita e dominado por um poder sem freio, precipita-se para a sua própria queda.
A consciência ecológica é porventura o mais transparente sintoma deste sinal dos tempos. A razão e a ciência tantas vezes idolatrada recebem aceradas críticas e fala-se até de crise da razão. O vitalismo bergsoniano, o pragmatismo e a psicanálise freudiana mostram todo um mundo que se esconde por trás da razão omnipotente. As próprias guerras mundiais levam à interrogação sobre o poder auto-destruidor da razão, surgindo esta não poucas vezes associada à opressão. Aparece cada vez mais a urgência de reequacionarmos o papel e o lugar da razão no mundo real. Humanistas ( Sartre) e anti-humanistas ( estruturalismo, mas também Heidegger que vê o homem como «pastor do ser») defrontam-se numa realidade que é marcada cada vez mais pelo poder da tecnociência e do audiovisual.
A filosofia das ciências e a epistemologia entram em campo e assiste-se ao debate entre neopositivistas, a epistemologia Bachelardiana, o racionalismo crítico de Popper, a teoria Kuhniana dos paradigmas científicos e o anarquismo epistemológico de Feyerabend sobre a possibilidade, a validade e a operacionalidade da ciência, e com ela e razão, no conhecimento da realidade. Na conhecida obra de Feyerabend, “Adeus à Razão”, o autor, que reconhece uma certa paridade entre todos os tipos de aproximação ao real, assim como as várias estratégias metodológicas utilizadas para tal, escreve a dado passo: “...desenvolvamos uma nova espécie de conhecimento que seja verdadeiramente humano, não porque incorpore uma ideia abstracta de humanidade, mas pelo simples facto de que todos possam participar na sua construção, e utilizemos esse conhecimento para resolver os dois problemas mais graves que estão pendentes, o da sobrevivência e o da paz...”
Quanto às ciências sociais e humanas o panorama das ideias altera-se em pouco mais de vinte anos: o estruturalismo predominante não há muito tempo é substituído pelo individualismo (o indivíduo como actor de acção social ) e pelo irrupção do interaccionismo. A morte do homem anunciada por Foucault denuncia a própria construção socio-cultural ( e ideológica ) da ideia de homem, e com ele, da razão que o acompanha.
Este final do século reabilita a natureza e liga o homem a esta. Ao contrário da oposição clássica entre natureza e cultura, e da idealização do humano, Edgar Morin condena a “noção insular do homem, isolado da natureza e da sua própria natureza” e acrescenta: “...o que tem de morrer é a auto-idolatria do homem, que se admira a si próprio na imagem pretensiosa da sua própria racionalidade”
Max Weber, conhecido pelo seu estudo sobre a burocracia, prefere uma sociologia compreensiva a uma sociologia explicativa. Para ele o interesse das ciências sociais é justamente encontrar o sentido que as actividades sociais tomam para os próprios actores, e preconiza o estudo do comportamento individual e a significação subjectiva da acção.
Alfred Schutz e a análise fenomenológica que faz do mundo social assim como a metodologia proposta sobre a articulação entre o investigador e a vida quotidiana inspiram-se até certo ponto em Weber, procurando ir mais longe na pesquisa do sentido que o sujeito dá à sua acção.
Racionalidade no sentido sociológico do termo consiste justamente nas razões que levam um indivíduo a agir desta ou daquela maneira. Desta definição parte o individualismo metodológico para o seu estudo que se se traduz numa análise que pressupõe que todo o fenómeno social deve ser compreendido como o produto de acções individuais.
O sociólogo francês Maffesoli acrescenta no entanto a esta primazia da existência, à factualidade fractal e efémera das construções individuais, e consequente pluralismo cognitivo, a visão holística da sociedade, na medida em que a compreensão da sociedade repousa numa análise que saiba integrar as dimensões económicas, políticas, organizacionais, culturais, imaginárias e quotidianas. O causalismo e o quantitativo nas ciências sociais não devem obstaculizar ao estudo das actividades do quotidiano como sejam o sonho, o jogo, a teatralidade, os rituais, enfim, ao imaginário que povoa as experiências quotidianas dos homens concretos.
Aponta inclusivamente as premissas epistemológicas de um tratado de senso-comunologia, que pretenderia ser o resultado da sua pesquisa sociológica: 1) crítica ao dualismo esquemático ( por exemplo, entre o abstracto e o concreto); 2) formismo, uma vez que a sociolgia estuda as formas da vida social enquanto continentes receptivos a conteúdos diversos, e a formal é formante e não simplesmente formal; 3) sensibilidade relativista ; 4) pesquisa estilística e estetizante; 5) um pensamento libertário.
Obviamente que um saber quotidiano deste tipo requere e exige uma epistemologia e é, justamente, para este aspecto que Moisés de Lemos Martins chama a atenção no seu artigo publicado no nº37 da Revista Crítica das Ciências Sociais.
Gilbert Durand distingue duas correntes nas ciências sociais que rompem ambas com a sociologia positivista e que exploram domínios inexplorados: a primeira, que inspira toda a etnologia contemporânea, estuda os símbolos, os mitos e os ritos enfim do que se afasta das nossas sociedades, e tem em Roger Caillois o principal representante; a segunda debruça-se no que é mais comum da nossa vida actual, reabilitando o quotidiano, sendo o precursor desta corrente o sociológo alemão Georges Simmel que no início do século lançou-se na análise das futilidades como a moda, a fotografia, etc, e tem como actuais representantes nomes como Jacques Bril, Pierre Sansot, Michel Maffesoli (fundador duma estética sociológica, atenta às figuras do quotidiano, ao frívolo, ao efémero), todos eles saídos da Escola de Grenoble. Não muito longe destas correntes andam ainda a sociologia dita das “histórias de vida” (Ferraroti), e autores como Castoriadis (livro: L’Institution imaginaire de la société) e Balandier. Em todos estes autores como bem nota Durand “...um esforço para reencantar o mundo da pesquisa e o seu objecto (o «social» e o «societal» ), que tão desencantado está pelos conceptualismos, pelas rígidas dialecticas e pelos positivismos unidimensionais.(...) Doravante a sociologia quer-se figurativa, fundada no conhecimento ordinário do quotidiano, em que sujeito e objecto não são mais que um no acto de conhecer, e em que o estatuto simbólico da imagem se torna o modelo o paradigma”.
Pelo lado da filosofia, Wunenburger denuncia a lógica e o modelo de razão que tem prevalecido até aos nossos dias. Propugna uma lógica que aceite as contradições, os conflitos, as oposições, enfim, uma razão contraditória. E descobre duas linhas do pensamento contemporâneo que tentam superam a razão identitária clássica: uma que postula uma totalidade compósita, poliédrica, antagónica, holística; uma outra promove modos de pensar contraditórios e paradoxais.
Ainda do lado da filosofia temos a obra de Michel Onfray que recupera um certo hedonismo dos gnósticos licenciosos, dos livre-pensadores e dos libertinos eruditos para construir uma «Art de Jouir» a partir dos escombros da razão clássica e das verdades por ela proclamadas, não se cansando nunca de lembrar que Dionysos é o pai de Apolo.
Do nosso breve e muito resumido excurso pela história longínqua ( e recente ) da razão deriva a ideia de riqueza e complexidade do seu significado. Uma razão sensível não se deixa aprisionar pela razão e lógica abstracta e descarnada, antes pelo contrário alimenta-se e dirige-se para a vida , o quotidiano, a experiência e procura compreender a dimensão trágica da vida. Não se trata de uma razão asséptica, fria e distante do objecto que cura em apreender. Afinal, do que se trata, e outra coisa não seria possível, é de uma razão humana, demasiadamente humana.
Bibliografia consultada:
Durand, Gilbert - L’Imaginaire- ed. Hatier
Feyeraben, P. - Adiós a la razon - ed. tecnos
Granger, G.G. - La Raison - ed. PUF
Maffesoli, M. - O Conhecimento do quotidiano
A Conquista do presente
Aux creux des apparences, pour une éthique de l’esthétique
Onfray, M. - L’Art de Jouir - ed Livre de poche
Russ, J. - A Aventura do pensamento europeu - ed Terramar
Schutz, A. - Le chercheur et le quotidien - ed. Klincksieck
Wunenburger, J.J. - A Razão contraditória - ed. Instituto Piaget
Como se pode constatar existe grande ambiguidade no significado do termo, que aumentará ainda mais quando ficámos a saber que a razão pode evocar um ideal, uma atitude e um método.
A razão passa por ser efectivamente um dos «complexos culturais» mais ricos de sentido que é dado ao entendimento humano.
Vulgarmente opomo-la ao preconceito, mas podemos entendê-la como o conjunto de formas concretas de pensamento e acção consideradas como racionais, comummente utilizadas nas ciências, ou então é ainda possível pensar a razão como um valor, um ideal (concorrente porventura com outros valores). Como quer que seja torna-se indispensável ter em linha de conta o contexto em que a razão se concretiza, as estruturas e as funções para que esta vai servindo. Explicar, por exemplo, como e por que é que se chegou à ideia segundo a qual existe uma razão que subsiste e permanece face às transformações sociais e culturais.
Da tradição greco-latina podemos reter três ideias fundamentais a propósito da razão: 1º) A razão é vista como o raciocínio correcto, oposto ao conhecimento imperfeito e ilusório dos sentidos e à opinião que nasce da rotina; 2º) A distinção entre formas diferentes de razão como a «razão discursiva», isto é, o pensamento articulado através de um encadeamento de raciocínios, e a «razão intuitiva», capaz de captar as verdades ou as essências num único momento sem necessidade de um processo demonstrativo; 3º) A razão não teria para os antigos apenas uma função de conhecimento mas aplicar-se-ia igualmente à prática por via da sageza e da prudência. Para Aristóteles a virtude da prudência consistiria em alcançar aquilo que o homem pode realizar segundo os «cálculos da razão», os quais seriam comandados por uma regra ou um princípio que se tornou uma das expressões mais marcantes da sageza grega: a busca em todas as coisas do «juste milieu». Não se esqueça que Sócrates assimila o irracional ao mal, à ignorância, considerando o exercício da razão a condição primeira para a virtude.
Ora todo este pensamento grego acerca da razão só pode ser devidamente entendido se recordarmos que, entre outras variáveis que não cuidamos por ora, a sociedade grega vivia à base de uma massa de escravos que libertava os gregos, os homens livres, para o gosto e o culto deste conhecimento, desta forma de entender a razão.
Mas um aspecto que assumiu para a posteridade as maiores consequências foi justamente a distinção entre a razão discursiva e a razão intuitiva, associando-se normalmente o pensamento claro à primeira, e as formas de pensamento mais ou menos obscuros ao segundo. A isto não terá sido certamente estranho Platão quando qualificava de delírios as três formas de inspiração ( o amor, a divinização, a poesia ) e ligava-as à razão intuitiva. Na verdade, a partir de então não mais se deixou de privilegiar a razão discursiva.
A filosofia chama a si o estudo da história da razão humana opondo esta ao mito e à idade mítica (ou consciência mítica) que constituiria a pré-história da própria racionalidade, mas da maior importância para a configuração e a compreensão desta última.
Recorde-se que o mito é um símbolo que vale por si mesmo, onde a separação entre significante e significado não existe. Para o pensamento mítico o símbolo não se separa do concreto, do percebido, pois é uma inteligência que funciona por dados concretos que adquirem na narrativa mítica uma significação simbólica.
A dimensão do abstracto não existe na consciência mítica, cuja lógica está muito próxima da intuição sensível, a qual transforma por assim dizer as percepções em símbolos.
Inversamente, para a racionalidade abstractizante a intuição sensível, o concreto, é uma parte da realidade que será progressivamente abandonada para se passar a níveis de abstracção cada vez mais elaborados.
A interpretação do real pela consciência mítica realiza-se por construções simbólicas do mito que nasciam duma sabedoria concreta, sensível. Para Lévi-Strauss existem dois modos distintos de pensamento, correspondentes não a estados desiguais de desenvolvimento do espírito humano, mas a dois níveis estratégicos pelos quais o conhecimento aborda o real: um aproximativamente ajustado ao da percepção e da imaginação; o outro deslocado, onde a racionalização acaba por se traduzir num processo de afastamento contínuo do mundo sensível, e implicando uma separação nítida entre o objectivo e o subjectivo, que passam a constituir um dos desideratos resultantes dessa lógica racional. A ordem racional que se acabou por se tornar dominante assenta pois na separação clara entre o símbolo e a realidade; no afastamento e distinção entre a intuição sensível e o conceito abstracto; na cisão entre sujeito e objecto, entre o plano da subjectividade e da objectividade.
A racionalidade instaurada com a filosofia pós-socrática entra pois em ruptura com o mito, podendo dizer-se que em grande medida a história da evolução humana consiste nas diferentes estratégias de conhecimento do objecto por parte do sujeito.
E a razão discursiva, que se tornou dominante no pensamento ocidental, é um «dizer inteligível», «um discurso coerente» sobre os materiais fornecidos pela experiência - oposta a uma outra dimensão racional, mas com um estatuto subordinado, associada à criatividade, à construção de universos de sentido, de mundos possíveis que rompem com os dados imediatos.
Na história da razão ocidental relevam três momentos de destaque: a revolução socrática, a revolução cartesiana e a revolução idealista. Na primeira o homem torna-se o objecto de conhecimento através da razão, momento a partir do qual esta assume a maior importância para o desafio que é lançado pela radicalidade inquietante do real. Em Platão a razão surge naturalmente como faculdade que permite o conhecimento, ou seja, só racionalmente o homem pode avizinhar-se da realidade. Descartes funda o racionalismo moderno inspirando-se no modelo matemático para construir um conhecimento que não ofereça dúvida alguma a partir de uma verdade indiscutível, para o que teve de estabelecer uma dicotomia, que nunca mais abandonará a filosofia moderna, entre a «res cogitans» (coisa ou realidade pensante) e a «res extensa» ( coisa ou realidade material), isto é, postula uma separação radical entre a realidade espiritual e corpórea, comunicantes entre si apenas pela glândula pineal.
Esta separação radical entre espírito e matéria teve como consequência o facto dos filósofos e pensadores posteriores não mais deixarem de privilegiar um dos dois termos do binómio, ora afirmando o espírito como o verdadeiro real (idealismo), ora dando primazia à matéria (materialismo). Por outro lado, esta distinção entre objecto/ser levará posteriormente à tendência de se reduzir toda a realidade ao objecto, caindo-se no objectivismo, ou então à tendência de reduzir a realidade às estruturas subjectivas do ser.
Enquanto Descartes amplia o raio de acção da razão, Kant preocupa-se por seu lado em traçar os seus limites, isto é, esforça-se em estudar os elementos a priori do conhecimento, opostos à materialidade da intuição sensível. Procura encontrar os quadros do conhecimento que considera serem eles próprios uma definição do espírito enquanto faculdade de conhecimento. Opera a chamada «revolução coperniciana» ao colocar sob a dependência da estrutura dita «transcendental» do sujeito a percepção e o conhecimento dos objectos. No fundo, a racionalidade para Kant consiste em reconduzir à unidade das categorias do pensamento os elementos dispersos do real. A essa faculdade de síntese que permite a passagem das intuições sensíveis às experiências do sujeito pensante relativas aos objectos chama Kant raciocínio ( Verstand), reservando o termo razão (Vernunft) a um grau superior de síntese de conhecimentos. Sugere pois que a razão tende naturalmente ultrapassar a experiência, faz-nos-ia conhecer objectos de uma ordem superior, não presentes na nossa simples experiência. Note-se ainda que Kant refere-se a uma outra forma de razão, a chamada Razão prática, ligada à faculdade, não de conhecer os objectos, mas de gerar máximas de acção moral, e em que os seus postulados se impõem como imperativos categóricos, incondicionais, fazendo da Razão prática a origem, não do conhecimento, mas duma acção conforme o destino do homem.
Kant é o filósofo do Iluminismo que sugere a ideia da capacidade da razão natural ser capaz de conduzir os homens à ciência e à sabedoria. A razão deixa de ser a soma das ideias inatas (Descartes) para se confundir com uma actividade que trabalha os materiais sensíveis. a razão define-se menos como uma posse que como uma forma de aquisição dos dados da experiência.
Este optimismo pela razão é atenuado por Hegel ao descobrir o carácter histórico da razão: ela é a tomada de consciência de uma harmonia fundamental entre a verdade objectiva e os nossos pensamentos subjectivos, mas esta consciência é uma conquista obtida ao longo da história da humanidade. Para Hegel esta realização progressiva da razão efectua-se por um processo que ele designa por dialéctico e se consubstancia no movimento incessante que arranca da afirmação, passa à negação e conclui na negação da negação através de uma síntese provisória (tese-antítese-síntese). Escreve Hegel: “ A única ideia que a filosofia nos dá é a da Razão, a ideia segundo a qual a Razão governa o mundo e por consequência a ideia pela qual a história universal se desenrola racionalmente... A Razão é a substância, isto é, algo através do qual a realidade encontra o seu ser e a sua consistência. Ela é a infinita potência ... Um fim último domina a vida dos povos; a Razão está presente na história universal, não a razão subjectiva e particular, mas a Razão divina, absoluta.”
Esta arrogância da razão gera naturais reacções anti-racionalistas de que são exemplo as filosofias de Fichte, Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, Bergson; e correntes literárias como o Romantismo.
Fichte ao revalorizar o plano impulsivo do sujeito está a recuperar o homem total: o ser humano dotado de intelecto, mas também constituído pela afectividade, motora da acção. A vontade, e com ela, o plano instintivo e afectivo do ser humano voltam a ser tema central das reflexões posteriores.
Schopenhauer fala de uma radical contingência, de uma ausência de fundamentação racional, face a uma vontade infinita, devoradora de si mesma.
Kierkegaard arremete contra Hegel e a universalidade da razão, o mundo da necessidade imposto por essa mesma razão, em que a liberdade humana mais não é que a aceitação racional dessa necessidade. Ao invés, Kierkegaard conhece no homem um ser que goza da suprema glória de não estar pré-determinado, e que assim sofre a suprema angústia da possibilidade. O que domina no pensador dinamarquês é a existência do homem concreto, individual que nega, pela sua individualidade, a abstracção da Ideia. Não lhe interessa conceptualizar a existência, mas defrontar a realidade concreta em que se dá o drama singular, o transe dramático da possibilidade.
Nietzsche insere a razão e a sua história numa história mais geral que seria a história da moral. A finalidade de Nietzsche é mostrar como o homem dotado de razão é uma figura nascida em determinadas condições históricas e culturais, ligada ao aparecimento e sedimentação de certos valores e que, pos isso, o homem, antes de ser racional, é um ser moral. Deste modo, a razão e outros conceitos, devem ser concebidos como valores, criados por uma moral. Daí a urgência de uma genealogia da moral que se mostra como a única capaz de explicar em profundidade a essência da chamada racionalidade humana. O pensador alemão vai encontrar em Sócrates e na moral judaico-cristã a origem de todo o processo dicotómico entre as essências ou ideias por um lado, e o conhecimento instável aparente do mundo sensível, modelo de pensamento que acabará por se impor na cultura ocidental, um modelo que estabelece uma dualidade de realidades com valores diferentes.
A atitude romântica defende a primazia dos valores vitais sobre os valores intelectuais, entendendo por aqueles os que têm as suas raízes na vida biológica por oposição aos que resultam de uma imagem da nossa existência reflectida pela inteligência. Exalta-se o poder, o amor, a intuição (Bergson opõe esta última à inteligência das coisas inertes, que predominaria no reino das ciências). Promove-se um estilo de existência que valoriza a acção, a emoção e a paixão. No domínio do conhecimento a atitude romântica opõe ao modelo da razão abstracta e do método científico, o modelo de um saber directo e indecomponível.
A escola romântica recusa o pensamento do racionalismo iluminista ( a razão discursiva) ao valorizar a imaginação, a sensibilidade, a intuição, a singularidade do indivíduo.
Mas tudo isto não impede o desenvolvimento da ciência. Com efeito, se o séc. XVIII foi chamado o século das Luzes, o século XIX é conhecido pelo século das ciências. Na verdade, emergiram nessa época novas ciências, e vieram a obter-se novas descobertas técnicas e científicas. Amparado na visão determinista da razão científica o positivismo reforçou o cientismo e um conhecimento puramente racional. A Revolução industrial, com a consequente industrialização, acaba por impor um pensamento ao serviço dos números e do dinheiro. O século XIX concretiza as certezas da ciência positiva e actualiza o triunfo da era prometaica iniciada com o Renascimento. Prometeu, herói na antiga Ática, é conhecido por ter ensinado aos homens o saber que fundamenta a civilização: a arte de trabalhar, de construir, de curar. Trata-se de um titã que simboliza a revolta humana contra a tirania do real e da matéria. Acontece que o Prometeu dos tempos modernos, assoberbado pela obra feita e dominado por um poder sem freio, precipita-se para a sua própria queda.
A consciência ecológica é porventura o mais transparente sintoma deste sinal dos tempos. A razão e a ciência tantas vezes idolatrada recebem aceradas críticas e fala-se até de crise da razão. O vitalismo bergsoniano, o pragmatismo e a psicanálise freudiana mostram todo um mundo que se esconde por trás da razão omnipotente. As próprias guerras mundiais levam à interrogação sobre o poder auto-destruidor da razão, surgindo esta não poucas vezes associada à opressão. Aparece cada vez mais a urgência de reequacionarmos o papel e o lugar da razão no mundo real. Humanistas ( Sartre) e anti-humanistas ( estruturalismo, mas também Heidegger que vê o homem como «pastor do ser») defrontam-se numa realidade que é marcada cada vez mais pelo poder da tecnociência e do audiovisual.
A filosofia das ciências e a epistemologia entram em campo e assiste-se ao debate entre neopositivistas, a epistemologia Bachelardiana, o racionalismo crítico de Popper, a teoria Kuhniana dos paradigmas científicos e o anarquismo epistemológico de Feyerabend sobre a possibilidade, a validade e a operacionalidade da ciência, e com ela e razão, no conhecimento da realidade. Na conhecida obra de Feyerabend, “Adeus à Razão”, o autor, que reconhece uma certa paridade entre todos os tipos de aproximação ao real, assim como as várias estratégias metodológicas utilizadas para tal, escreve a dado passo: “...desenvolvamos uma nova espécie de conhecimento que seja verdadeiramente humano, não porque incorpore uma ideia abstracta de humanidade, mas pelo simples facto de que todos possam participar na sua construção, e utilizemos esse conhecimento para resolver os dois problemas mais graves que estão pendentes, o da sobrevivência e o da paz...”
Quanto às ciências sociais e humanas o panorama das ideias altera-se em pouco mais de vinte anos: o estruturalismo predominante não há muito tempo é substituído pelo individualismo (o indivíduo como actor de acção social ) e pelo irrupção do interaccionismo. A morte do homem anunciada por Foucault denuncia a própria construção socio-cultural ( e ideológica ) da ideia de homem, e com ele, da razão que o acompanha.
Este final do século reabilita a natureza e liga o homem a esta. Ao contrário da oposição clássica entre natureza e cultura, e da idealização do humano, Edgar Morin condena a “noção insular do homem, isolado da natureza e da sua própria natureza” e acrescenta: “...o que tem de morrer é a auto-idolatria do homem, que se admira a si próprio na imagem pretensiosa da sua própria racionalidade”
Max Weber, conhecido pelo seu estudo sobre a burocracia, prefere uma sociologia compreensiva a uma sociologia explicativa. Para ele o interesse das ciências sociais é justamente encontrar o sentido que as actividades sociais tomam para os próprios actores, e preconiza o estudo do comportamento individual e a significação subjectiva da acção.
Alfred Schutz e a análise fenomenológica que faz do mundo social assim como a metodologia proposta sobre a articulação entre o investigador e a vida quotidiana inspiram-se até certo ponto em Weber, procurando ir mais longe na pesquisa do sentido que o sujeito dá à sua acção.
Racionalidade no sentido sociológico do termo consiste justamente nas razões que levam um indivíduo a agir desta ou daquela maneira. Desta definição parte o individualismo metodológico para o seu estudo que se se traduz numa análise que pressupõe que todo o fenómeno social deve ser compreendido como o produto de acções individuais.
O sociólogo francês Maffesoli acrescenta no entanto a esta primazia da existência, à factualidade fractal e efémera das construções individuais, e consequente pluralismo cognitivo, a visão holística da sociedade, na medida em que a compreensão da sociedade repousa numa análise que saiba integrar as dimensões económicas, políticas, organizacionais, culturais, imaginárias e quotidianas. O causalismo e o quantitativo nas ciências sociais não devem obstaculizar ao estudo das actividades do quotidiano como sejam o sonho, o jogo, a teatralidade, os rituais, enfim, ao imaginário que povoa as experiências quotidianas dos homens concretos.
Aponta inclusivamente as premissas epistemológicas de um tratado de senso-comunologia, que pretenderia ser o resultado da sua pesquisa sociológica: 1) crítica ao dualismo esquemático ( por exemplo, entre o abstracto e o concreto); 2) formismo, uma vez que a sociolgia estuda as formas da vida social enquanto continentes receptivos a conteúdos diversos, e a formal é formante e não simplesmente formal; 3) sensibilidade relativista ; 4) pesquisa estilística e estetizante; 5) um pensamento libertário.
Obviamente que um saber quotidiano deste tipo requere e exige uma epistemologia e é, justamente, para este aspecto que Moisés de Lemos Martins chama a atenção no seu artigo publicado no nº37 da Revista Crítica das Ciências Sociais.
Gilbert Durand distingue duas correntes nas ciências sociais que rompem ambas com a sociologia positivista e que exploram domínios inexplorados: a primeira, que inspira toda a etnologia contemporânea, estuda os símbolos, os mitos e os ritos enfim do que se afasta das nossas sociedades, e tem em Roger Caillois o principal representante; a segunda debruça-se no que é mais comum da nossa vida actual, reabilitando o quotidiano, sendo o precursor desta corrente o sociológo alemão Georges Simmel que no início do século lançou-se na análise das futilidades como a moda, a fotografia, etc, e tem como actuais representantes nomes como Jacques Bril, Pierre Sansot, Michel Maffesoli (fundador duma estética sociológica, atenta às figuras do quotidiano, ao frívolo, ao efémero), todos eles saídos da Escola de Grenoble. Não muito longe destas correntes andam ainda a sociologia dita das “histórias de vida” (Ferraroti), e autores como Castoriadis (livro: L’Institution imaginaire de la société) e Balandier. Em todos estes autores como bem nota Durand “...um esforço para reencantar o mundo da pesquisa e o seu objecto (o «social» e o «societal» ), que tão desencantado está pelos conceptualismos, pelas rígidas dialecticas e pelos positivismos unidimensionais.(...) Doravante a sociologia quer-se figurativa, fundada no conhecimento ordinário do quotidiano, em que sujeito e objecto não são mais que um no acto de conhecer, e em que o estatuto simbólico da imagem se torna o modelo o paradigma”.
Pelo lado da filosofia, Wunenburger denuncia a lógica e o modelo de razão que tem prevalecido até aos nossos dias. Propugna uma lógica que aceite as contradições, os conflitos, as oposições, enfim, uma razão contraditória. E descobre duas linhas do pensamento contemporâneo que tentam superam a razão identitária clássica: uma que postula uma totalidade compósita, poliédrica, antagónica, holística; uma outra promove modos de pensar contraditórios e paradoxais.
Ainda do lado da filosofia temos a obra de Michel Onfray que recupera um certo hedonismo dos gnósticos licenciosos, dos livre-pensadores e dos libertinos eruditos para construir uma «Art de Jouir» a partir dos escombros da razão clássica e das verdades por ela proclamadas, não se cansando nunca de lembrar que Dionysos é o pai de Apolo.
Do nosso breve e muito resumido excurso pela história longínqua ( e recente ) da razão deriva a ideia de riqueza e complexidade do seu significado. Uma razão sensível não se deixa aprisionar pela razão e lógica abstracta e descarnada, antes pelo contrário alimenta-se e dirige-se para a vida , o quotidiano, a experiência e procura compreender a dimensão trágica da vida. Não se trata de uma razão asséptica, fria e distante do objecto que cura em apreender. Afinal, do que se trata, e outra coisa não seria possível, é de uma razão humana, demasiadamente humana.
Bibliografia consultada:
Durand, Gilbert - L’Imaginaire- ed. Hatier
Feyeraben, P. - Adiós a la razon - ed. tecnos
Granger, G.G. - La Raison - ed. PUF
Maffesoli, M. - O Conhecimento do quotidiano
A Conquista do presente
Aux creux des apparences, pour une éthique de l’esthétique
Onfray, M. - L’Art de Jouir - ed Livre de poche
Russ, J. - A Aventura do pensamento europeu - ed Terramar
Schutz, A. - Le chercheur et le quotidien - ed. Klincksieck
Wunenburger, J.J. - A Razão contraditória - ed. Instituto Piaget
31.1.05
A reinvenção do dinheiro ( o dinheiro local e os sistemas trocais)
Mónica Hargraves trabalhava no Reserva Federal prestando vassalagem diária ao sacrossanto dólar. O seu lema, como o de tantos outros conterrâneos, estava inscrito no reverso desses papéis verdes que são o bezerro de ouro do século XX: «In God We Trust» ( Cremos em Deus – que é como quem diz cremos na dívida pública, na economia global, no direito inalienável das multinacionais em dividirem entre si o bolo planetário).
Mas ao cabo de alguns anos, Mónica Hargraves acabou por se refugiar no bastião da «resistência local», nessa Ithaca de ressonâncias míticas que pouco ou nada têm a ver com a ideia que construímos dos Estados Unidos.
Em Ithaca teve que arranjar uns biscates por falta de negócio. Em Ithaca a população local cerrou fileiras para impedir o desembarque das grandes cadeias de hipermercados. O restaurante Moosewood e o mercado de produtos agrícolas acabaram por ser as principais atracções turísticas da cidade. Na verdade, os 30.000 habitantes de Ithaca têm o índice mais alto de associativismo dos Estados Unidos.
Até a prestigiosa Universidade de Cornell emprestou a Ithaca o seu prestígio intelectual. Uma década de gestão municipal à esquerda trouxe para as ruas da cidade o sentimento de que «vivemos em comunidade» . Entre os bosques e os lagos que rodeiam a cidade surgiu entretanto uma ecoaldeia que é considerada como «um modelo nacional de desenvolvimento sustentável». Já para não falar da força do movimento cooperativista e da agricultura biológica.
Mas o que chama mais atenção em Ithaca é o seu dinheiro local, colorido, que inventaram para – como dizem os seus habitantes - »controlar os efeitos sociais e ambientais do comércio».
«Aceiram-se HORAS de Ithaca» pode-se ler numa livraria local. E perante o espanto do visitante é possível ver um cliente a retirar da carteira uns bilhetes amarelos e laranjas que recordam, à falta de melhor imagem, os do Monopoly.
- Queres, em troca, dólares ou em HORAS? – pergunta a vendedora.
- Tanto faz – responde o cliente.
Mónica Hargraves a prófuga da Reserva Federal, é uma das artífices destas HORAS de Ithaca, herdeiras dos míticas LETS (Sistemas de Intercâmbio e de Comércio Local) que funcionam há décadas no Canadá, na Austrália e no Reino Unido.
As HORAS são mais que um simples instrumento de troca. São dinheiro contável e sonante reconhecido pelas próprias leis norte-americanas, que autorizam a emissão de bilhetes locais desde que sejam mais pequenos, tenham uma equivalência fixa com o dinheiro federal e sejam tributados.
Uma HORA vale pois o mesmo que 10 dólares, mas há bilhetes de 2 hras, de meia hora, de m quarto de gora e até de um oitavo de uma hora.
O dinheiro local é emitido por Conselho Assessor no qual estão representadas as forças vivas da cidade. E como garantia não há reservas de dólares ou lingotes de ouro; o único aval é o trabalho e as mercadorias de quem se compromete a aceitá-lo como sistema de troca.
A presumida inscrição no dólar – Cremos em Deus – é substituída pela inscrição «Cremos em Ithaca».
As figuras de Washington, Lincoln, Jackson e demais ídolos do império norte-americano foram simplesmente substituídos pelo que é mais representativo da idiossincrasia local. O papel utilizado nos bilhetes é de cañamo, dificílimo de falsificar, e no seu reverso pode-se ler em maiúsculas: Time is Money.
Mais abaixo, em letras miúdas, explica-se então ao portador a razão de ser das HORAS em Ithaca – que foram criadas «para estimular a economia local, reciclar a riqueza autóctone e criar novos postos de trabalho…Este dinheiro, que tem nas mãos, está assente no verdadeiro capital real: os nossos músculos, as nossas ferramentas e os nossos recursos naturais.»
«Em muito pouco tempo conseguimos criar uma vibrante economia local», orgulha-se em declarar Mónica Hargraves. «Cada ano movemos já uns 750.000 dólares em transacções efectuadas por meio das HORAS. E, para mais, este é um dinheiro que ficará sempre aqui, a circular e a gerar riqueza dentro da comunidade. As multinacionais, muito provavelmente, nunca o virão aceitar.»
As HORAS já são aceites em dezenas de lojas, cinemas e restaurantes. As HORAS circulam também no mercado agrícola e nas cooperativas. A Caixa de Aforro de Ithaca aceita HORAS como amortização dos empréstimos, e pode-se também pagar em HORAS o aluguer de um andar, a revisão do carro, a consulta de um advogado, dentista, médico, ou a simples tatuagem num braço.
A lista de pessoas que aceita o pagamento em dinheiro local é publicada mensalmente num boletim – o Hour Town - que rivaliza já com as Páginas Amarelas a quantidade enorme de serviços anunciados.
«Funcionamos de um modo muito simples», explica Paul Glover, fundador e caixeiro deste sistema de dinheiro local. « No fundo, o que fazemos eé reinventar o dinheiro: voltar a dar-lhe o sentido de uma ferramenta ao serviço da comunidade, antes que a especulação e a dívida pública terem desvirtuado o seu autêntico valor».
Glover está à frente do Conselho Assessor, e tem entre mãos a máquina de fazer bilhetes, que funciona ao ritmo dos negócios locais: « Quando o dono de uma loja, ou um profissional por conta própria, aceita o dinheiro local como forma de pagamento, recebe em troca duas HORAS do nosso Banco Central. Ao fim de 8 meses, sempre que mantenha o seu vínculo ao dinheiro local, receberá outra HORA grátis».
«É assim que se dá a emissão de bilhetes de forma gradual e continuada», acrescenta Glover.«O que estamos a criar é, nem mais nem menos, uma rede de intercâmbio, integrada por gente que confia nos seus vizinhos e nos recursos da comunidade. O nosso sistema é perfeitamente compatível como dólar. Nem sequer pretendemos extinguir o dinheiro federal, apesar de sentirmos orgulho cada vez mais por estarmos a retirar-lhe espaço de manobra.»
No princípio o Governo Federal observou algum receio quando, em 1991, viu a nascer esta alternativa ao dólar. Considerou-o pouco menos que um caso anedótico e sem projecção. Mas o movimento não parou e mais de sessenta vilas e cidades norte-americanas decidiram entretanto seguir o exemplo.
De Ohio ao Hawai, da Califórnia ao Texas, do Maryland a Massachusetts, todos podem encontrar com uma grande variedade de bilhetes alternativos ao dólar. Em Hot Springs chamam-lhe Mountain Money (dinheiro da montanha); em Bolinas, o nome é Sand Dollars (dólares de areia); já em Berkshires, a designação escolhida é Valley Dollars ( Dólares do vale).
Mas na grande maioria dos casos adoptou-se a designação de HORAS, e o fenómeno que começou nas comunidades agrícolas já se estendeu a bairros das grandes cidades como Detroit, Indianapolis e Santa Fe.
Em San António, Texas, funcionam desde há algum tempo as Community Hours, impulsionadas por um casal – Mary e Jim Lampkin – que convenceu os comércios locais da necessidade de se passar à acção contra a «acção destrutiva das multinacionais».
Em Santa Fe, Novo México, existe até uma versão bilingue dos bilhetes alternativos nos quais se pode ler: «As HORAS são um dinheiro apoiado pelo nosso tempo, pelo nosso esforço e desejo de nos apoiar uns aos outros.»
Uma das últimas comunidades a aderir ao dinheiro alternativo foi em Willimantic Connecticut. A unidade local chama-se City Bread ( Pão da Cidade) e em poucos menos de um ano estendeu-se por todo o comércio do centro histórico, que começou a renascer das cinzas depois da invasão dos shoppings centers.
Para Lewis Solomon, professor da Georgetown University e autor de vários livros sobre o boom do dinheiro local nos USA, «estamos perante um processo lógico que surge como resposta à economia global».
«Os cidadãos deram-se conta de que podem defender-se por si mesmos das forças destrutivas que ameaçam as suas comunidades», escreve Solomon. «O dinheiro autóctone é também uma maneira de injectar sangue novo nas sofridas economias locais sem necessidade de esperar pelos subsídios de Washington».
Solomon prognostica o florescimento do dinheiro local por todo o território americano que, poderá inclusivamente, a longo prazo, forçar uma reestruturação do sistema monetário central. Num futuro não está posto de parte a redefinição do que hoje entendemos por dinheiro.
Paul Glover, o inventor das HORAS, é mais peremptório: « Cada vez é maior a distância entre as duas economias –a do grande capital e a dos cidadãos. A primeira é representada pelo dólar. A segunda é a que nós reivindicamos com as HORAS e que se baseia no trabalho real e nos recursos da comunidade».
Glover lamenta a maré negra dos hipermercados, as cadeias de fast food e dos shoppings que alastram por esse mundo fora, com a conivência das próprias vítimas, que são os cidadãos, convertidos em consumidores clónicos.E acrescenta: «Não podemos ficar de braços cruzados vendo as multinacionais a vampirizar as economias locais e a destruir o planeta».
As HORAS são o antídoto necessário contra a globalização:«celebramos a cooperação e não a cobiça. Visamos a riqueza colectiva e não a especulação. O dinheiro local faz-nos sentir parte de um grupo de partilha dos mesmos recursos e dos mesmos interesses. Pensamos também na antiga utopia igualitária. Uma hora de trabalho vale exactamente o mesmo para todos: dez dólares».
Massachusetts é o Estado mais rico em dinheiro alternativo, desde que se tornou conhecido o caso de Frank Tortoriello,proprietário de um restaurante que precisava de uma imperiosa injecção de dinheiro. Como os bancos não lhe concediam qualquer empréstimo, Tortoriello teve a ideia de pedir crédito aos seus vizinhos e clientes. Emitiu os seus próprios bilhetes, os Deli Dollars, e vendeu-os s nove dólares por unidade. Recolhido o dinheiro e feitas as obras começou a devolver com juros o dinheiro emprestado sob a forma de bilhete onde dizia «Vale por dez dólares a hora do almoço ou do jantar».
A ideia de Tortoriello foi rapidamente seguida por outros comerciantes que assim garantiam fundos próprios. Por onde quer que se vá na região de Berkshires, a uns 250 km de Boston, encontramos uma variedade inimaginável de sistemas de trocas.
As iniciativas locais estão apoiadas pela Associação de Autoajuda para uma Economia Regional (SHARE). E a sede da emblemática Schumacher Society, que difunde as ideias do autor da obra Small is Beautiful, um clássico dos anos 60, encontra-se situada na região. Recorde-se que aquele autor preconizava uma espécie de «budismo económico» face à globalização.
Na Schumacher Society trabalham Bob e Susan Witt, dois dos pioneiros do dinheiro alternativo, e editores da revista especializada no tema, a Local Currency News.
«A melhor maneira de reconstruir não só a economia como ainda os laços comunitários é emitir os bilhetes alternativos à escala local», defende Susan. «O dinheiro adquire um valor insuspeitado, que vai muito para além do que está no objecto de troca Quem decide aceitá-lo sabe que não só está a contribuir para o seu enriquecimento pessoal como a contribuir para a comunidade».
Na própria capital do império, Washington, criou-se os «Time dollars», uma alternativa electrónica de dinheiro.
«Estamos a experimentar o ADN do dinheiro», explica o seu criador, Edgar Cahn.«Em vez de utilizarmos bilhetes, registamos todas as transacções no nosso banco electrónico. O tempo é a nossa unidade de troca, e o deve e haver mede-se apenas por horas trabalhadas.»
Os bancos electrónicos do Tima Dollars» apareceram depois em quase todas as grandes cidades americanas. Graças a este sistema uma mãe pode, por exemplo, pagar as facturas do médico fazendo umas horas de trabalho para outra mãe.
«A nossa sociedade tem muitíssimas necessidades por satisfazer e um sem número de recursos por aproveitar, diz Edgar Cahn. «Ora o dinheiro, tal como hoje concebemos, é incapaz de preencher essas lacunas…Na verdade, há um tipo de intercambio que não é satisfeito pelo comércio lucrativo: um intercambio de carácter moral, que sirva para a construção de um mundo mais justo e equitativo».
Em Nova Iorque apareceu já um grupo de intercambio constituído só por mulheres. Começaram por ser só duas, e agora já ultrapassam a centena.
Na era da moeda única europeia, na antesala daquilo que chamam a economia global, há quem navegue em direcção contrária, propondo um tipo de economia de andar por casa. Talvez a resposta mais cabal a um sistema viciado na especulação e na burocracia.
Texto de Carlos Fresneda
Publicado no Ajoblanco nº 110, Setembro de 1998
Consultar:
http://www.ithacahours.com/
http://www.schumachersociety.org/lcnews.html
http://www.ratical.org/many_worlds/cc/promiseOfLCs.html
http://www.coopamerica.org/individual/marketplace/IMMMcurr.htm
Mas ao cabo de alguns anos, Mónica Hargraves acabou por se refugiar no bastião da «resistência local», nessa Ithaca de ressonâncias míticas que pouco ou nada têm a ver com a ideia que construímos dos Estados Unidos.
Em Ithaca teve que arranjar uns biscates por falta de negócio. Em Ithaca a população local cerrou fileiras para impedir o desembarque das grandes cadeias de hipermercados. O restaurante Moosewood e o mercado de produtos agrícolas acabaram por ser as principais atracções turísticas da cidade. Na verdade, os 30.000 habitantes de Ithaca têm o índice mais alto de associativismo dos Estados Unidos.
Até a prestigiosa Universidade de Cornell emprestou a Ithaca o seu prestígio intelectual. Uma década de gestão municipal à esquerda trouxe para as ruas da cidade o sentimento de que «vivemos em comunidade» . Entre os bosques e os lagos que rodeiam a cidade surgiu entretanto uma ecoaldeia que é considerada como «um modelo nacional de desenvolvimento sustentável». Já para não falar da força do movimento cooperativista e da agricultura biológica.
Mas o que chama mais atenção em Ithaca é o seu dinheiro local, colorido, que inventaram para – como dizem os seus habitantes - »controlar os efeitos sociais e ambientais do comércio».
«Aceiram-se HORAS de Ithaca» pode-se ler numa livraria local. E perante o espanto do visitante é possível ver um cliente a retirar da carteira uns bilhetes amarelos e laranjas que recordam, à falta de melhor imagem, os do Monopoly.
- Queres, em troca, dólares ou em HORAS? – pergunta a vendedora.
- Tanto faz – responde o cliente.
Mónica Hargraves a prófuga da Reserva Federal, é uma das artífices destas HORAS de Ithaca, herdeiras dos míticas LETS (Sistemas de Intercâmbio e de Comércio Local) que funcionam há décadas no Canadá, na Austrália e no Reino Unido.
As HORAS são mais que um simples instrumento de troca. São dinheiro contável e sonante reconhecido pelas próprias leis norte-americanas, que autorizam a emissão de bilhetes locais desde que sejam mais pequenos, tenham uma equivalência fixa com o dinheiro federal e sejam tributados.
Uma HORA vale pois o mesmo que 10 dólares, mas há bilhetes de 2 hras, de meia hora, de m quarto de gora e até de um oitavo de uma hora.
O dinheiro local é emitido por Conselho Assessor no qual estão representadas as forças vivas da cidade. E como garantia não há reservas de dólares ou lingotes de ouro; o único aval é o trabalho e as mercadorias de quem se compromete a aceitá-lo como sistema de troca.
A presumida inscrição no dólar – Cremos em Deus – é substituída pela inscrição «Cremos em Ithaca».
As figuras de Washington, Lincoln, Jackson e demais ídolos do império norte-americano foram simplesmente substituídos pelo que é mais representativo da idiossincrasia local. O papel utilizado nos bilhetes é de cañamo, dificílimo de falsificar, e no seu reverso pode-se ler em maiúsculas: Time is Money.
Mais abaixo, em letras miúdas, explica-se então ao portador a razão de ser das HORAS em Ithaca – que foram criadas «para estimular a economia local, reciclar a riqueza autóctone e criar novos postos de trabalho…Este dinheiro, que tem nas mãos, está assente no verdadeiro capital real: os nossos músculos, as nossas ferramentas e os nossos recursos naturais.»
«Em muito pouco tempo conseguimos criar uma vibrante economia local», orgulha-se em declarar Mónica Hargraves. «Cada ano movemos já uns 750.000 dólares em transacções efectuadas por meio das HORAS. E, para mais, este é um dinheiro que ficará sempre aqui, a circular e a gerar riqueza dentro da comunidade. As multinacionais, muito provavelmente, nunca o virão aceitar.»
As HORAS já são aceites em dezenas de lojas, cinemas e restaurantes. As HORAS circulam também no mercado agrícola e nas cooperativas. A Caixa de Aforro de Ithaca aceita HORAS como amortização dos empréstimos, e pode-se também pagar em HORAS o aluguer de um andar, a revisão do carro, a consulta de um advogado, dentista, médico, ou a simples tatuagem num braço.
A lista de pessoas que aceita o pagamento em dinheiro local é publicada mensalmente num boletim – o Hour Town - que rivaliza já com as Páginas Amarelas a quantidade enorme de serviços anunciados.
«Funcionamos de um modo muito simples», explica Paul Glover, fundador e caixeiro deste sistema de dinheiro local. « No fundo, o que fazemos eé reinventar o dinheiro: voltar a dar-lhe o sentido de uma ferramenta ao serviço da comunidade, antes que a especulação e a dívida pública terem desvirtuado o seu autêntico valor».
Glover está à frente do Conselho Assessor, e tem entre mãos a máquina de fazer bilhetes, que funciona ao ritmo dos negócios locais: « Quando o dono de uma loja, ou um profissional por conta própria, aceita o dinheiro local como forma de pagamento, recebe em troca duas HORAS do nosso Banco Central. Ao fim de 8 meses, sempre que mantenha o seu vínculo ao dinheiro local, receberá outra HORA grátis».
«É assim que se dá a emissão de bilhetes de forma gradual e continuada», acrescenta Glover.«O que estamos a criar é, nem mais nem menos, uma rede de intercâmbio, integrada por gente que confia nos seus vizinhos e nos recursos da comunidade. O nosso sistema é perfeitamente compatível como dólar. Nem sequer pretendemos extinguir o dinheiro federal, apesar de sentirmos orgulho cada vez mais por estarmos a retirar-lhe espaço de manobra.»
No princípio o Governo Federal observou algum receio quando, em 1991, viu a nascer esta alternativa ao dólar. Considerou-o pouco menos que um caso anedótico e sem projecção. Mas o movimento não parou e mais de sessenta vilas e cidades norte-americanas decidiram entretanto seguir o exemplo.
De Ohio ao Hawai, da Califórnia ao Texas, do Maryland a Massachusetts, todos podem encontrar com uma grande variedade de bilhetes alternativos ao dólar. Em Hot Springs chamam-lhe Mountain Money (dinheiro da montanha); em Bolinas, o nome é Sand Dollars (dólares de areia); já em Berkshires, a designação escolhida é Valley Dollars ( Dólares do vale).
Mas na grande maioria dos casos adoptou-se a designação de HORAS, e o fenómeno que começou nas comunidades agrícolas já se estendeu a bairros das grandes cidades como Detroit, Indianapolis e Santa Fe.
Em San António, Texas, funcionam desde há algum tempo as Community Hours, impulsionadas por um casal – Mary e Jim Lampkin – que convenceu os comércios locais da necessidade de se passar à acção contra a «acção destrutiva das multinacionais».
Em Santa Fe, Novo México, existe até uma versão bilingue dos bilhetes alternativos nos quais se pode ler: «As HORAS são um dinheiro apoiado pelo nosso tempo, pelo nosso esforço e desejo de nos apoiar uns aos outros.»
Uma das últimas comunidades a aderir ao dinheiro alternativo foi em Willimantic Connecticut. A unidade local chama-se City Bread ( Pão da Cidade) e em poucos menos de um ano estendeu-se por todo o comércio do centro histórico, que começou a renascer das cinzas depois da invasão dos shoppings centers.
Para Lewis Solomon, professor da Georgetown University e autor de vários livros sobre o boom do dinheiro local nos USA, «estamos perante um processo lógico que surge como resposta à economia global».
«Os cidadãos deram-se conta de que podem defender-se por si mesmos das forças destrutivas que ameaçam as suas comunidades», escreve Solomon. «O dinheiro autóctone é também uma maneira de injectar sangue novo nas sofridas economias locais sem necessidade de esperar pelos subsídios de Washington».
Solomon prognostica o florescimento do dinheiro local por todo o território americano que, poderá inclusivamente, a longo prazo, forçar uma reestruturação do sistema monetário central. Num futuro não está posto de parte a redefinição do que hoje entendemos por dinheiro.
Paul Glover, o inventor das HORAS, é mais peremptório: « Cada vez é maior a distância entre as duas economias –a do grande capital e a dos cidadãos. A primeira é representada pelo dólar. A segunda é a que nós reivindicamos com as HORAS e que se baseia no trabalho real e nos recursos da comunidade».
Glover lamenta a maré negra dos hipermercados, as cadeias de fast food e dos shoppings que alastram por esse mundo fora, com a conivência das próprias vítimas, que são os cidadãos, convertidos em consumidores clónicos.E acrescenta: «Não podemos ficar de braços cruzados vendo as multinacionais a vampirizar as economias locais e a destruir o planeta».
As HORAS são o antídoto necessário contra a globalização:«celebramos a cooperação e não a cobiça. Visamos a riqueza colectiva e não a especulação. O dinheiro local faz-nos sentir parte de um grupo de partilha dos mesmos recursos e dos mesmos interesses. Pensamos também na antiga utopia igualitária. Uma hora de trabalho vale exactamente o mesmo para todos: dez dólares».
Massachusetts é o Estado mais rico em dinheiro alternativo, desde que se tornou conhecido o caso de Frank Tortoriello,proprietário de um restaurante que precisava de uma imperiosa injecção de dinheiro. Como os bancos não lhe concediam qualquer empréstimo, Tortoriello teve a ideia de pedir crédito aos seus vizinhos e clientes. Emitiu os seus próprios bilhetes, os Deli Dollars, e vendeu-os s nove dólares por unidade. Recolhido o dinheiro e feitas as obras começou a devolver com juros o dinheiro emprestado sob a forma de bilhete onde dizia «Vale por dez dólares a hora do almoço ou do jantar».
A ideia de Tortoriello foi rapidamente seguida por outros comerciantes que assim garantiam fundos próprios. Por onde quer que se vá na região de Berkshires, a uns 250 km de Boston, encontramos uma variedade inimaginável de sistemas de trocas.
As iniciativas locais estão apoiadas pela Associação de Autoajuda para uma Economia Regional (SHARE). E a sede da emblemática Schumacher Society, que difunde as ideias do autor da obra Small is Beautiful, um clássico dos anos 60, encontra-se situada na região. Recorde-se que aquele autor preconizava uma espécie de «budismo económico» face à globalização.
Na Schumacher Society trabalham Bob e Susan Witt, dois dos pioneiros do dinheiro alternativo, e editores da revista especializada no tema, a Local Currency News.
«A melhor maneira de reconstruir não só a economia como ainda os laços comunitários é emitir os bilhetes alternativos à escala local», defende Susan. «O dinheiro adquire um valor insuspeitado, que vai muito para além do que está no objecto de troca Quem decide aceitá-lo sabe que não só está a contribuir para o seu enriquecimento pessoal como a contribuir para a comunidade».
Na própria capital do império, Washington, criou-se os «Time dollars», uma alternativa electrónica de dinheiro.
«Estamos a experimentar o ADN do dinheiro», explica o seu criador, Edgar Cahn.«Em vez de utilizarmos bilhetes, registamos todas as transacções no nosso banco electrónico. O tempo é a nossa unidade de troca, e o deve e haver mede-se apenas por horas trabalhadas.»
Os bancos electrónicos do Tima Dollars» apareceram depois em quase todas as grandes cidades americanas. Graças a este sistema uma mãe pode, por exemplo, pagar as facturas do médico fazendo umas horas de trabalho para outra mãe.
«A nossa sociedade tem muitíssimas necessidades por satisfazer e um sem número de recursos por aproveitar, diz Edgar Cahn. «Ora o dinheiro, tal como hoje concebemos, é incapaz de preencher essas lacunas…Na verdade, há um tipo de intercambio que não é satisfeito pelo comércio lucrativo: um intercambio de carácter moral, que sirva para a construção de um mundo mais justo e equitativo».
Em Nova Iorque apareceu já um grupo de intercambio constituído só por mulheres. Começaram por ser só duas, e agora já ultrapassam a centena.
Na era da moeda única europeia, na antesala daquilo que chamam a economia global, há quem navegue em direcção contrária, propondo um tipo de economia de andar por casa. Talvez a resposta mais cabal a um sistema viciado na especulação e na burocracia.
Texto de Carlos Fresneda
Publicado no Ajoblanco nº 110, Setembro de 1998
Consultar:
http://www.ithacahours.com/
http://www.schumachersociety.org/lcnews.html
http://www.ratical.org/many_worlds/cc/promiseOfLCs.html
http://www.coopamerica.org/individual/marketplace/IMMMcurr.htm
30.1.05
Gandhi e o Dia da Não-Violência (30 de Janeiro)
O dia 30 de Janeiro foi proclamado Dia da Não-violência em homenagem a Gandhi cuja morte ocorreu justamente neste mesmo dia no ano de 1948. Trata-se de uma iniciativa não-governamental e independente no âmbito mais geral da educação para a paz, a solidariedade e o respeito pelos direitos humanos.
Mahatma Gandhi nasceu na Índia em 1869 e é considerado um dos principais expoentes do pacifismo e da luta não-violenta pelo respeito e realização dos direitos humanos e da justiça. Depois de ter estudado Direito na Inglaterra foi trabalhar para a África do Sul como advogado. Foi neste país que começaram as suas primeiras acções de protesto pacífico contra o sistema instituído baseadas na resistência pacífica e na não-cooperação com as autoridades. Ao fim de 20anos de luta, e depois de ter conseguido algumas melhorias para a comunidade indiana sedeada na África do Sul, decide ir viver para o seu país de origem - a Índia - e lutar pela sua independência face à Inglaterra, a potência colonizadora. Depois de muitas lutas e outras tantas detenções a Índia conquistou, ao fim de 40 sofridos anos e intemeratas lutas, a independência em 1947.
Os 4 principais pensamentos de Gandhi eram a verdade, o amor, a não-violência e a não-cooperação, aos quais se poderá ainda acrescentar a desobediência civil, e foi com eles que não só lutou contra os maus tratos e discriminações que os indianos sofriam na África do Sul como ainda foi através deles que obteve a independência da Índia.
Gandhi foi profundamente influenciado pelos livros sagrados da tradição religiosa hinduísta como o «Bhagavad-Gita» onde se ensina que a não-violência, a verdade, a simpatia entre os seres, o perdão, a força de vontade e a ausência de orgulho são as maiores virtudes do ser humano. Recebe também a influência do jainismo durante a sua infância, bem assim como o «Sermão da Montanha» bíblico. Finalmente foram também determinantes para a formação do seu pensamento as obras e vidas de H.D.Thoreau ( em especial, o seu livro sobre Desobediência Civil) e a pedagogia e os ensinamentos de Leon Tolstoi ( com o seu anarquismo cristão).
Outro aspecto importante em Gandhi era a dimensão espiritual. Defendia uma concepção aberta baseada na unidade essencial de tudo o que é ser vivo. O facto de considerar todas as religiões como mais ou menos verdadeiras está na base da sua mais profunda tolerância.
O pacifismo gandhiano está escorado numa filosofia e numa prática de libertação individual e social, bem como na reforma e mudança das estruturas sociais que oprimem o homem.
Recordemo-nos que os 3 grandes objectivos de Gandhi eram:
O desaparecimento da segregação que atingia os párias na Índia
A unidade e a irmandade entre todos os seres humanos, qualquer que fosse a sua religião, raça e casta, quer na índia quer no mundo.
A independência política da Índia deverá alcançar-se mediante procedimentos não-violentos de forma à edificação moral de todos e de maneira da transmitir um exemplo de fraternidade e paz.
O eixo central do pensamento de Gandhi é a Não-violência (Ahinsa) definida como: «A atitude de renúncia a matar e a causar danos aos outros seres por meio de pensamentos, palavras ou acções». Assim qualquer objectivo, por mais benéfico que seja, não justifica o uso de meios violentos ou contrários á moral.
Gandhi escreve: «A Não-violência é a maior força que existe à disposição do ser humano. É mais poderosa do que qualquer arma de destruição inventada pelo ser humano, e por mais sofisticada que seja.»
A este conceito de Não-violência, Gandhi acrescenta o da «Força da Verdade» (Satyagraha) cuja aplicação consiste na desobediência a determinadas leis consideradas injustas, mas ainda na aceitação disciplinada pelas sanções previstas pelo legislador, de forma a levar este à conclusão da ineficácia e insustentabilidade das suas próprias leis.
Os procedimentos e as formas de luta que defendia eram:
1- Manifestações pacíficas: diálogos, testemunhos, petições, marchas, jejuns, manifestações públicas, greves de fome, greves de zelo, orações e cooperação aberta com os mais oprimidos.
2- Não-cooperação através do boicote sistemático e na negação de colaborar com um regime ou com um sistema considerado como iníquo (Gandhi utilizou este procedimento contra tribunais, escolas e as instituições inglesas na Índia)
3- Desobediência civil por via da violação intencional, organizada, sistemática, pública e responsável das leis injustas
Segundo a concepção gandhiana o homem deve assumir plenamente a sua autonomia de ser livre e responsável: deve promulgar ele próprio as leis a que deve conformar os seus pensamentos, as suas palavras e acções (autónomo, vem do grego autos, ele próprio, e nomos, lei – ou seja, aquele que é regido pelas suas próprias leis), sem se remeter a qualquer autoridade exterior, seja ela religiosa, social ou política., que lhe ditaria a sua conduta.
É claro que essa autonomia comporta inevitavelmente a possibilidade de se enganar, mas só correndo esse risco é que o homem pode chegar à verdade. Para ele, o homem sincero não deixará de corrigir o erro quantas vezes forem necessários. Em contraste a isto, o homem que promete a obediência a uma autoridade exterior é que corre o risco de persistir no erro.
Aquele que procura a verdade deve convencer-se que está sempre na estrada e que nunca chegará ao fim do caminho. A verdade que ele apreende é sempre fragmentária, relativa e parcial, logo, imperfeita. É, por isso, que o homem nunca deve querer impor a sua verdade aos outros. A regra de ouro é a da tolerância mútua. Opor-se a um sistema injusto e atacá-lo, está correcto; mas opor-se ao seu autor e atacá-lo é tornar-se naquilo que ó o seu adversário, um agressor.
Gandhi não desconhece os instintos agressivos dos seres humanos, mas por isso mesmo escreve: «Enquanto animal, o homem é violento, mas enquanto espírito, ele é não-violento»
Coloca ainda a intrepidez à cabeça das virtudes do homem forte. Ser intrépido é não tremer frente ao perigo. «A intrepidez – escreve ele – revela que o indivíduo está liberto de qualquer receio exterior, seja ele o da doença, dos ferimentos físicos, da morte ou o de perder os seus bens»
Para testemunhar a verdade e para combater a injustiça, é preciso, antes do mais, que o homem supere o medo que o habita e o aconselha a permanecer ao abrigo de todo o perigo. «A força reside na ausência de receio», diz ele.
Gandhi pensa que a opressão sofrida pelos Indianos não deriva tanto da maldade dos Ingleses como da perfidez e injustiça do sistema colonial britânico. Consequentemente ele pretende combater esse sistema: « A nossa não-cooperação - afirma ele – não se dirige para os Inglese, mas no sistema que os Ingleses nos impuseram»
Assim, a luta não-violenta consiste em erradicar o mal sem eliminar o malfeitor: »Faço as coisas de modo a perseguir o mal onde quer que ele esteja, sem nunca molestar aquele que é responsável por ele», conclui.
Ao longo de toda a sua luta pela independência da índia, uma das principais preocupações da Gandhi foi não só combater a tutela do Império Britânico, mas permitir ao povo indiano governar-se a si próprio, sem recorrer aos mecanismos típicos de um Estado, único titular do poder de exercer violência sobre os cidadãos. Para ele, o melhor meio para resistir ao poder imperial dos ingleses é fazer com que os Indianos aprendam a governar-se sozinhos, isto é, a tornarem-se autónomos.
Links:
www.multimania.com/manco
www.mahatma.org.in
Leituras:
O Princípio da Não-Violência, Jean_Marie Muller, Edições do Intituto Piaget,1998
Gandhi l'insurgé, L'épopée de la marche du sel, Jean-Marie Muller (Albin Michel).
Mahatma Gandhi nasceu na Índia em 1869 e é considerado um dos principais expoentes do pacifismo e da luta não-violenta pelo respeito e realização dos direitos humanos e da justiça. Depois de ter estudado Direito na Inglaterra foi trabalhar para a África do Sul como advogado. Foi neste país que começaram as suas primeiras acções de protesto pacífico contra o sistema instituído baseadas na resistência pacífica e na não-cooperação com as autoridades. Ao fim de 20anos de luta, e depois de ter conseguido algumas melhorias para a comunidade indiana sedeada na África do Sul, decide ir viver para o seu país de origem - a Índia - e lutar pela sua independência face à Inglaterra, a potência colonizadora. Depois de muitas lutas e outras tantas detenções a Índia conquistou, ao fim de 40 sofridos anos e intemeratas lutas, a independência em 1947.
Os 4 principais pensamentos de Gandhi eram a verdade, o amor, a não-violência e a não-cooperação, aos quais se poderá ainda acrescentar a desobediência civil, e foi com eles que não só lutou contra os maus tratos e discriminações que os indianos sofriam na África do Sul como ainda foi através deles que obteve a independência da Índia.
Gandhi foi profundamente influenciado pelos livros sagrados da tradição religiosa hinduísta como o «Bhagavad-Gita» onde se ensina que a não-violência, a verdade, a simpatia entre os seres, o perdão, a força de vontade e a ausência de orgulho são as maiores virtudes do ser humano. Recebe também a influência do jainismo durante a sua infância, bem assim como o «Sermão da Montanha» bíblico. Finalmente foram também determinantes para a formação do seu pensamento as obras e vidas de H.D.Thoreau ( em especial, o seu livro sobre Desobediência Civil) e a pedagogia e os ensinamentos de Leon Tolstoi ( com o seu anarquismo cristão).
Outro aspecto importante em Gandhi era a dimensão espiritual. Defendia uma concepção aberta baseada na unidade essencial de tudo o que é ser vivo. O facto de considerar todas as religiões como mais ou menos verdadeiras está na base da sua mais profunda tolerância.
O pacifismo gandhiano está escorado numa filosofia e numa prática de libertação individual e social, bem como na reforma e mudança das estruturas sociais que oprimem o homem.
Recordemo-nos que os 3 grandes objectivos de Gandhi eram:
O desaparecimento da segregação que atingia os párias na Índia
A unidade e a irmandade entre todos os seres humanos, qualquer que fosse a sua religião, raça e casta, quer na índia quer no mundo.
A independência política da Índia deverá alcançar-se mediante procedimentos não-violentos de forma à edificação moral de todos e de maneira da transmitir um exemplo de fraternidade e paz.
O eixo central do pensamento de Gandhi é a Não-violência (Ahinsa) definida como: «A atitude de renúncia a matar e a causar danos aos outros seres por meio de pensamentos, palavras ou acções». Assim qualquer objectivo, por mais benéfico que seja, não justifica o uso de meios violentos ou contrários á moral.
Gandhi escreve: «A Não-violência é a maior força que existe à disposição do ser humano. É mais poderosa do que qualquer arma de destruição inventada pelo ser humano, e por mais sofisticada que seja.»
A este conceito de Não-violência, Gandhi acrescenta o da «Força da Verdade» (Satyagraha) cuja aplicação consiste na desobediência a determinadas leis consideradas injustas, mas ainda na aceitação disciplinada pelas sanções previstas pelo legislador, de forma a levar este à conclusão da ineficácia e insustentabilidade das suas próprias leis.
Os procedimentos e as formas de luta que defendia eram:
1- Manifestações pacíficas: diálogos, testemunhos, petições, marchas, jejuns, manifestações públicas, greves de fome, greves de zelo, orações e cooperação aberta com os mais oprimidos.
2- Não-cooperação através do boicote sistemático e na negação de colaborar com um regime ou com um sistema considerado como iníquo (Gandhi utilizou este procedimento contra tribunais, escolas e as instituições inglesas na Índia)
3- Desobediência civil por via da violação intencional, organizada, sistemática, pública e responsável das leis injustas
Segundo a concepção gandhiana o homem deve assumir plenamente a sua autonomia de ser livre e responsável: deve promulgar ele próprio as leis a que deve conformar os seus pensamentos, as suas palavras e acções (autónomo, vem do grego autos, ele próprio, e nomos, lei – ou seja, aquele que é regido pelas suas próprias leis), sem se remeter a qualquer autoridade exterior, seja ela religiosa, social ou política., que lhe ditaria a sua conduta.
É claro que essa autonomia comporta inevitavelmente a possibilidade de se enganar, mas só correndo esse risco é que o homem pode chegar à verdade. Para ele, o homem sincero não deixará de corrigir o erro quantas vezes forem necessários. Em contraste a isto, o homem que promete a obediência a uma autoridade exterior é que corre o risco de persistir no erro.
Aquele que procura a verdade deve convencer-se que está sempre na estrada e que nunca chegará ao fim do caminho. A verdade que ele apreende é sempre fragmentária, relativa e parcial, logo, imperfeita. É, por isso, que o homem nunca deve querer impor a sua verdade aos outros. A regra de ouro é a da tolerância mútua. Opor-se a um sistema injusto e atacá-lo, está correcto; mas opor-se ao seu autor e atacá-lo é tornar-se naquilo que ó o seu adversário, um agressor.
Gandhi não desconhece os instintos agressivos dos seres humanos, mas por isso mesmo escreve: «Enquanto animal, o homem é violento, mas enquanto espírito, ele é não-violento»
Coloca ainda a intrepidez à cabeça das virtudes do homem forte. Ser intrépido é não tremer frente ao perigo. «A intrepidez – escreve ele – revela que o indivíduo está liberto de qualquer receio exterior, seja ele o da doença, dos ferimentos físicos, da morte ou o de perder os seus bens»
Para testemunhar a verdade e para combater a injustiça, é preciso, antes do mais, que o homem supere o medo que o habita e o aconselha a permanecer ao abrigo de todo o perigo. «A força reside na ausência de receio», diz ele.
Gandhi pensa que a opressão sofrida pelos Indianos não deriva tanto da maldade dos Ingleses como da perfidez e injustiça do sistema colonial britânico. Consequentemente ele pretende combater esse sistema: « A nossa não-cooperação - afirma ele – não se dirige para os Inglese, mas no sistema que os Ingleses nos impuseram»
Assim, a luta não-violenta consiste em erradicar o mal sem eliminar o malfeitor: »Faço as coisas de modo a perseguir o mal onde quer que ele esteja, sem nunca molestar aquele que é responsável por ele», conclui.
Ao longo de toda a sua luta pela independência da índia, uma das principais preocupações da Gandhi foi não só combater a tutela do Império Britânico, mas permitir ao povo indiano governar-se a si próprio, sem recorrer aos mecanismos típicos de um Estado, único titular do poder de exercer violência sobre os cidadãos. Para ele, o melhor meio para resistir ao poder imperial dos ingleses é fazer com que os Indianos aprendam a governar-se sozinhos, isto é, a tornarem-se autónomos.
Links:
www.multimania.com/manco
www.mahatma.org.in
Leituras:
O Princípio da Não-Violência, Jean_Marie Muller, Edições do Intituto Piaget,1998
Gandhi l'insurgé, L'épopée de la marche du sel, Jean-Marie Muller (Albin Michel).
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