30.10.10

Economia Sem Muros é o livro a ser lançado no CES-Lisboa no dia 2 de Nov. às 17h30


Lançamento de livro A Economia Sem Muros
2 de Novembro de 2010, 18h30, CES-Lisboa,


Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro, 65

A sessão contará com a presença dos organizadores e coordenadores do livro, Vítor Neves e José Castro Caldas, e Pedro Lains (Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa)

A economia é um mecanismo dotado de leis naturais que não devem ser transgredidas, ou a economia é uma construção social e política? A economia é um assunto apenas para economistas, ou deve dizer respeito a todos?

A “Economia Sem Muros”, livro recentemente publicado na colecção CES-Almedina, reunindo contribuições de investigadores com diversas proveniências disciplinares, interroga-se quanto à natureza da economia e do conhecimento económico. São “velhas” questões, mas que continuam actuais e sem uma resposta consensual. “A Economia Sem Muros” pretende precisamente contribuir para clarificar os termos do debate. Um debate para o qual todos estão convidados.

A Economia como ciência atravessa actualmente um período de profunda transformação. Em causa está a forma como o "económico" é pensado e a sua relação com o "político", o "moral", o "social" e o "ambiental". O que é (e não é) "económico"?



O que é (e deve ser) a Economia como saber ou ciência? A Economia limita-se (e deve limitar-se) a interpretar ou descrever a realidade ou constrói ela própria a realidade que ao mesmo tempo descreve? O que significa "pensar como um economista"?


O que une um grupo de estudiosos numa profissão autónoma chamada "Economia" e os distingue de outros que também se dedicam a analisar a "economia"? Podem os economistas aprender com abordagens provenientes de outros domínios disciplinares? O que aprendemos com a história da disciplina?


Este livro é o resultado da procura de respostas para estas questões por parte de economistas e outros cientistas sociais portugueses

Introdução
À procura de sentido(s) para a Economia Vítor Neves e José Castro Caldas

SECÇÃO I - A Economia à procura do seu objecto


1. O "económico" e o "economicismo"
João Ferreira do Amaral

2. O que é afinal o "económico"? A Economia como ciência moral e política
Vítor Neves

3. Economia e crematística dois mil anos depois
José Castro Caldas

4. Facetas da heterodoxia: da orto-negação à hetero-afirmação.
Espaços de diálogo e de reconstrução
Carlos Pimenta

SECÇÃO II - Racionalidade económica: descrição, prescrição ou construção?

5. De ciência da escolha à ciência do comportamento:
por onde anda o indivíduo na Economia?
Ana Costa

6. Modelos racionais de comportamentos irracionais: Uma RI-análise
Mare Seholten

7. Terá chegado o tempo dos arquitectos e designers económicos?
Ana Cordeiro Santos

8. Motores, fotos, quimeras e monstros: quão performativa é a ciência económica?
Rafael Marques

9. É a economia, estúpido, vs. é a dádiva, estúpido. Reflexões de um antropólogo
sobre o ensino da Antropologia a futuros economistas
Filipe Reis

SECÇÃO III - Construindo pontes no passado

10. A Economia em tempo de crise: desafios a uma ciência com história
José Luis Cardoso

11. Do "eterno retorno" da História da Economia Política ou dos "fins" da Economia?
Joaquim Feio

12. Os instrumentos e usos dos economistas
Tiago Mata

Epílogo

Uma ciência indisciplinar: A cidade dos economistas
José Reis

Lançamento do livro Uma ciência de rosto humano, em memória da activista eco-social Paula Tavares ( no dia 3 de Nov. no Instituto Superior Técnico)



Realiza-se no dia 3 de Novembro às 17h30 no Instituto Superior Técnico de Lisboa o lançamento do Livro: "Uma Ciência de Rosto Humano", em memória de Paula Tavares.

A Paula Tavares era uma jovem e brilhante bióloga, com uma carreira académica e científica no Instituto Superior Técnico já iniciada, e uma empenhada activista social e ambiental na luta ecológica e pelos direitos sociais, que viu a sua vida interrompida por um lamentável acidente de viação, há cerca de um ano.
Doutorada em biologia, Paula Tavares era investigadora em questões ambientais e autora de inúmeras publicações nas suas áreas de interesse: Biodiversidade, indicadores de qualidade ambiental, indicadores de alterações ambientais, ecotoxicologia, entre outros. Paula era extremamente activa em defesa da soberania alimentar dos povos e alertando para os perigos ambientais e sociais da produção de alimentos transgénicos nos campos

A sua energia, empenho, amizade e camaradagem serão certamente relembrados através deste livro, que será lançado no próximo dia 3 de Novembro no Salão Nobre do Inst. Sup. Técnico, sublinhado as causas em que se empenhou, sempre com um grande respeito pelos seus colegas.

Um artigo da Paula Tavares:

Agostinho da Silva e o antipoder

"Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno."
Agostinho da Silva, in Diário de Alcestes

Excelente filme animado sobre a necessidade de mudarmos o paradigma da educação


Conferência Internacional da educação crítica (International Conference on Critical Education)


Conferência Internacional sobre a educação crítica
(INTERNATIONAL CONFERENCE ON CRITICAL EDUCATION)
realiza-se a 12 e 16 Julho de 2011, em Atenas, Grécia
Aceitam-se, entretanto, inscrições para participantes, assim como contribuições escritas de interessados em apresentarem os seus textos

Organização das revistas:
JOURNAL OF CRITICAL POLICY EDUCATIONAL STUDIES (UK)
CULTURAL LOGIC (USA/CANADA)
KRITIKI (GREECE)
RADICAL NOTES (INDIA)

Conference and Local Organizing Committee Coordinators:
Dave Hill, (Middlesex University, UK)
Peter McLaren, (UCLA, USA)
Kostas Skordoulis, (University of Athens, Greece)

Keynote Speakers:
Dave Hill, (Middlesex University, UK), Peter McLaren, (UCLA, USA), Ravi Kumar (Jamia Milia Islamia University, Delhi, India).

Participants should submit an abstract of 300 words by: 15 December 2010.
Notification of acceptance of paper presentation by: 15 January 2011.
Full papers should be submitted by: 30 May 2011.
The papers will be peer reviewed and published in the Conference Proceedings.

Conference Fee
The Conference fee is 300 Euros.
Participation of unemployed, and of colleagues from the third world is free/ no fees.

The Journal for Critical Education Policy Studies is a free e-journal published by The Institute for Education Policy Studies (IEPS)
http://www.jceps.com/

Institute for Education Policy Studies
http://www.jceps.com/
http://www.ieps.org.uk/

29.10.10

Uma Aventura Sinistra é um novo blogue colectivo de professores sobre a educação


O ex-blogue A Sinistra Ministra ressurge agora com um novo título, mas com a mesma pertinência do anterior: escalpelizar, denunciar e criticar a política educativa implementada pelo actual governo sócretino.
Sob a designação sugestiva de Uma Aventura Sinistra, o novo blogue reúne um conjunto significativo de professores que nunca deixaram de intervir na sociedade, mas em especial, em matéria de educação. É, aliás, o próprio blogue que diz ao que vem:
«Um blogue sobre esta saga catastrófica que são as políticas educativas em Portugal»
Esperemos que tenha a mesma receptividade que o seu antecessor.


Consultar sem moderação:

Semana de acção Lisboa 2010 / Week of Action against NATO in Lisbon (15-24 Nov.) - Call to Action

Come to Lisbon. Protest against the NATO summit in Portugal
Para além do site http://antinatoportugal.wordpress.com/ surgiu agora um novo website dedicado exclusivamente à semana de acção não violenta contra a guerra e contra a NATO, a decorrer entre 15 e 21 de Novembro, em Lisboa:


Semana de acção Lisboa [17-24 Nov]

A contestação à cimeira da NATO em Lisboa divide-se em quatro eixos fundamentais:
Uma contra-cimeira
Uma Praça da Paz (em local a designar)
Uma manifestação
Acções de desobediência não violenta

Apelamos a todos os amantes da paz e da liberdade e a todos os inimigos da NATO e da guerra para que utilizem toda a sua criatividade para, nos dias à volta da cimeira do senhores da guerra, em Lisboa, com acções não violentas, desmascararem a NATO, as suas guerras, os seus interesses e os seus beneficiários.

A partir do dia 17 de Novembro, há acções preparadas para as ruas de Lisboa. Nesse dia e em todos os seguintes haverá um ponto e uma hora de encontro. Aí, serão apresentadas as ideias de acção por quem as tiver. As outras pessoas serão convidadas a juntarem-se ás acções propostas.

A localização do ponto de encontro deverá ser comunicada na véspera, através duma notícia publicada no Indymedia (
http://pt.indymedia.org ). Estará também disponível no Posto de Informações da PAGAN para esses dias, situado na Rua do Salitre, 139 – 1º andar).

Mantém-te atento e vai preparando as tuas cenas.









Week of Action against NATO in Lisbon (15-24 Nov.) - Call to Action

The Anti-NATO activities are based in four main axis:

- A Counter Summit
http://www.no-to-nato.org/wp-content/uploads/program-nato-counter-summit
- Peace Square (place to be confirmed)
- One big demo
http://www.pazsimnatonao.org/2010/09/22/manifestacao-20-novembro/
- Non Violent Desobedient Actions

We call all the peace and freedom lovers and we call all the enemies of war and NATO to use their criativity in order to unmask NATO, its wars, interests and profiteers through non violent actions on the days of the summit of the War Lords, in Lisbon.

From November 17th onwards, there will be some prepared actions for the streets of Lisbon. On that day and on all the following days, there will be a meeting point and a meeting hour. There is where people can present their ideas for action. The others will be invited to join in any of the proposed actions.

The exact location of the meeting point will be revealed on the day before, through a post in the Indymedia (
http://pt.indymedia.org ). The same information will also be available in our InforPoint - Rua do Salitre, 139 – 1º andar).

Keep updated and start preparing your ideas.


Come to Lisbon.

Protest against the NATO summit in Portugal

From 19 to 21 November the NATO summit will take place in Lisbon, with Obama, the best known of the leaders, present.

The stated objective of the summit is the adoption of a new Strategic Concept – the seventh this the foundation of NATO – and with it, the ratification of the actions of NATO in the last years, especially in Afghanistan and Somalia; the more precise definition of NATO's actions in the coming years, especially in relation to Iran; and to guarantee the cohesion of its member states under the strict obedience to the decisions of the Pentagon.

The instruments included in this new Strategic Concept are, among others, the growing militarisation of the member states of NATO; the strengthening of military power, in spite of the recession and the impoverishment of the people on both sides of the Atlantic; the banalisation of the use of war as a way to control resources – especially energy – and their transport routes; the contempt for public opinion, which defends peaceful means for the solution of international problems; a return to the nuclear threat; and the growing expansion of its area of interventions.

Never has the war effort undertaken by the governments of NATO countries proven to be so inadequate to the real military threats to these countries; but not so surprising given the difficulties of the populations – unemployment, wage freeze, increased retirement age and reduced access to health and social support.

The Portuguese governments has threatened all those who question NATO, its activities and its existence, as criminals and prepares a real stage of siege and the suspension of freedoms and safeguards that exist in democratic societies.

In this framework, a broad coalition of organisations not only of the NATO countries decided to converge in Lisbon during the NATO summit to express their protest in front of this house of warlords, despite the threat of the Portuguese government, which simply echoes the words of command from Washington and Brussels.

During the NATO summit the following will take place in Lisbon:

  • a counter-summit, where dangers and disadvantages of NATO actions, and more, the danger inherent in the existence of NATO, will be exposed;
  • A demonstration open to all who want to peacefully demonstrate the need for the abolition of NATO, and for a world without wars and military threats;
  • Civil disobedience actions to promote the cause of peace and local awareness for the war policy conducted by NATO, particularly in Afghanistan.
  • All to Lisbon, to demand an end to NATO
  • All to Lisbon, to demonstrate the rejection of militarism
  • All to Lisbon, to fight for the withdrawal of NATO from Afghanistan
  • All to Lisbon, to demand a world of peace and renunciation of States to resort to war.

Ocupar Abril, Tomar de Assalto o mês de Maio é o novo projecto do núcleo do Norte da Associação José Afonso e aberto à adesão de todos os interessados

Clicar sobre a imagem para ler em detalhe o texto de cima

Associação José Afonso

Noite de Inquietação sobre a Nato na secção do Norte da Associação José Afonso (hoje à noite, às 21h30)



Associação José Afonso

27.10.10

A austeridade assimétrica e o Estado belicista ( texto de André Freire)

André Freire Nasceu em Lisboa a 25 de Abril de 1961. Fez a sua licenciatura em Sociologia, em 1995, na instituição onde actualmente é Professor Auxiliar no Departamento de Sociologia, e Investigador – o ISCTE. Prosseguiu os seus estudos numa outra instituição onde também é Investigador – o ICS-UL. Foi no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que tirou o seu Mestrado em Ciências Sociais, em 2000, e o seu Doutoramento, quatro anos mais tarde, também em Ciências Sociais: Sociologia Política.
André freire publicou vários livros e artigos sobre opinião pública, atitudes políticas, comportamentos políticos e eleitorais, sistemas eleitorais, elites políticas e sistemas partidários. Os seus artigos foram publicados, entre outras, em revistas académicas como Análise Social, Sociologia, European Journal of Political Research, West European Politics, The Journal of Legislative Studies, Portuguese Journal of Social Science.

Biografia:
www.cies.iscte.pt/investigadores/ficha.jsp?pkid=5&a=-816410170&subarea=doutorados



A austeridade assimétrica e o Estado belicista
Por André Freire
Texto publicado no jornal Público de 25 de Outubro de 2010

Muitos portugueses encaram esta austeridade como profundamente (!) assimétrica, injusta e até ilegítima

Sob a pressão dos mercados internacionais e dos neoliberais que dominam a Europa, a que se somam os nossos erros e as fragilidades da nossa economia, somos mais uma vez (a enésima desde 2002) confrontados com a necessidade de mais austeridade para reduzir o défice orçamental e a dívida pública. Vale a pena recordar como chegámos aqui e reflectir sobre se existiriam alternativas às soluções de austeridade que nos estão a ser propostas e, em caso afirmativo, quais seriam elas.

Com a crise do subprime, falou-se muito num regresso do Estado, numa falência do capitalismo desregulado, etc. A desregulação dos mercados de capitais tinha estimulado investimentos ruinosos, virtuais do ponto de vista da geração de riqueza mas muito concretos nas suas consequências. Infelizmente, conto-me entre os que já na altura consideraram que, sem a afirmação de alternativas, rapidamente voltaríamos ao mesmo (PÚBLICO, 21/4/2008). Durante a crise, o Estado regressou em força para salvar os bancos e minimizar as consequências sociais da sua irresponsabilidade: resvalaram de novo os défices e as dívidas. Salvas as sociedades financeiras com injecções maciças de dinheiro público, chegou a hora de pagar a factura. Mais uma vez, serão os assalariados a fazê-lo. Em vários países da Europa, muitos deles apontados no passado como o paradigma de sucesso a emular (o Reino Unido e o seu socioliberalismo da "terceira via", a Irlanda, a Islândia, etc.), vemos idênticos problemas de endividamento e duríssimos programas de austeridade. O Governo cometeu muitos erros e irresponsabilidades do ponto de vista financeiro, que estão com certeza também por detrás desta nossa crise, mas temos de reconhecer que o facto de a crise afectar tantos países da Europa (do Sul e não só) indica que a explicação não pode passar só pelos erros de Sócrates. Naturalmente, há ainda, e acima de tudo, as fragilidades da nossa economia, subjacente ao nosso gravíssimo défice comercial: uma especialização centrada no "trabalho intensivo" e que nos tornou um dos países mais prejudicados com o alargamento da UE a leste e com a liberalização mundial do comércio.

Recordada a genealogia da crise, e dando por adquirida a necessidade de responder com urgência à pressão dos mercados internacionais e da Europa, será que poderia existir pelo menos uma austeridade menos assimétrica do que a que nos propõem (e que mesmo assim aceitasse, nos limites do possível, o enquandramento internacional)? Recorde-se que as soluções que nos estão a propor assentam sobretudo no corte dos vencimentos dos funcionários públicos, no aumento do IVA e do IRS e nos cortes nos serviços públicos e nas prestações sociais. Haveria alternativas, sim, se tivéssemos simultaneamente um PS menos socioliberal e uma esquerda radical (BE e PCP) mais predisposta a firmar compromissos e a aceitar o enquadramento internacional. Ou seja, haveria alternativa se os orçamentos do PS em minoria não tivessem de ser sempre negociados à direita. Vejamos alguns exemplos cruciais.

Primeiro, poder-se-ia cortar menos no Estado social, cortando mais no Estado belicista: segundo o Stockholm International Peace Research Institute (http://www.sipri.org/), com 2 por cento de despesas militares face ao PIB, em 2008, Portugal gasta mais do que o conjunto dos países europeus (UE 26 + 3: Islândia, Noruega e Suíça): média de 1,59 por cento; esta posição portuguesa é recorrente, 1989-2008. Porém, em plena crise, o Governo não só avança com a compra de dois submarinos (caríssimos!), apesar de o vendedor estar a falhar redondamente em matéria de contrapartidas, como, além disso, não parece disposto a pô-los já à venda como sugeriu o economista Silva Lopes e está a propor o BE. Para grandes males, grandes remédios... Mais, em plena crise e com brutais sacrifícios pedidos à população, o mesmo Governo avança com a compra de carros de combate (5 milhões de euros) para a cimeira da NATO. Parece que caminhamos mesmo do Estado social para o Estado belicista...

Segundo, os patrões queixam-se muito de que pagam impostos muito elevados, mas a verdade é que, como cabalmente demonstrou João Ramos de Almeida, uma grande parte das empresas pura e simplesmente não paga impostos: 30 a 40 por cento das empresas, entre 1997 e 2007 (PÚBLICO, 9/8); e sabemos porquê: além dos benefícios fiscais, a dedução de toda a espécie de custos como prejuízos leva a que, durante anos a fio, grande parte das (grandes e pequenas) empresas ficticiamente não dê lucros (PÚBLICO, 9/8 e 13/10). Neste capítulo, as medidas propostas pelo Governo são de uma tibieza confrangedora, fazendo jus à ideia de uma austeridade profundamente assimétrica (PÚBLICO, 31/9 e 1/10).

Terceiro, o Governo devia reduzir drasticamente os pedidos de pareceres e estudos externos, mobilizando ao invés não só a própria administração mas também as universidades públicas: combateria o subaproveitamento do sector público e a drenagem sistemática de recursos.

Quarto, é preciso equidade nos sacrifícios que se pedem às pessoas, caso contrário estas consideram-nos ilegítimos: por exemplo, ninguém percebe que pessoas que estão ainda no activo estejam simultaneamente a receber uma ou mais reformas (ver José Vítor Malheiros, PÚBLICO, 12/10 e 19/10). Estão nesta situação vários políticos, a começar pelo mais alto magistrado da nação, e também vários dos economistas (pelo menos todos os que passaram pela administração do Banco de Portugal) que amiúde nos vêm dizer que é preciso reduzir os salários dos portugueses porque nós (não eles, claro) ganhamos muito... Porque nada disto tem sido feito, muitos portugueses (nos quais me incluo) encaram esta austeridade como profundamente (!) assimétrica, injusta e até ilegítima. Já para não falar dos seus efeitos recessivos, mas isso é também um problema europeu e a sua análise terá de ficar para um próximo artigo.

Público, 25.10.2010

Memórias de uma imprensa bem-comportada ( texto de José Vítor Malheiros)

Memórias de uma imprensa bem-comportada
Por José Vítor Malheiros

Esta crise seria uma ocasião excelente para os media provarem a sua utilidade

Os jornalistas realizam diferentes tarefas e preenchem diferentes funções sociais. Uma dessas tarefas consiste em produzir e difundir notícias. Outra função consiste em alimentar o debate de ideias no seio da sociedade.

Porém, aquilo que, aos meus olhos, é a função essencial do jornalista é o que se chama vulgarmente a “fiscalização dos poderes” e a que os anglo-saxónicos chamam de forma mais colorida a função de watchdog – servir de cão de guarda das liberdades cívicas, revelar as actividades de todos os poderes e de todos os poderosos e denunciar abusos.

Esta é a função que só os media levam a cabo de forma independente e constitui o coração do ethos jornalístico. Isto não quer dizer que não possa haver uma organização não-mediática que funcione dessa forma. Mas a prossecução desse objectivo de forma independente – sem qualquer agenda predefinida, sem defender interesses particulares – é a marca de água da actividade jornalística.

Tivemos há dias um exemplo de grande impacto do que pode ser esta fiscalização dos poderes com a publicação pelo site WikiLeaks de milhares de casos de abusos perpetrados pelas tropas americanas e iraquianas no Iraque.

Curiosamente, o líder do WikiLeaks, Julian Assange, não só não se considera um jornalista como recusa com veemência o rótulo, que considera “ofensivo”. Porquê? Porque Assange pensa que a esmagadora maioria da imprensa, premeditadamente ou não, não só não fiscaliza os poderes como colabora activamente com eles, escamoteando ou maquilhando as suas práticas mais criticáveis.

Um exagero? Talvez. Mas vale a pena, no actual panorama de crise e recessão, quando todos os portugueses têm uma lista de perguntas que gostariam de ver respondidas pelo Governo (sobre as empresas que não pagam impostos, sobre os impostos da banca, sobre a nacionalização do BPN, a política fiscal, o real funcionamento da economia, as razões para o optimismo com que nos regalaram nos últimos dois anos) podemos perguntar-nos a quantas dessas perguntas os media conseguiram responder. Ou quantos nomes foram responsabilizados. Ou quais foram as denúncias que vimos nas páginas dos jornais e nos ecrãs dos noticiários. Existem pequenas excepções singulares, mas contam-se pelos dedos de uma mão.

No geral, a imprensa limita-se a reproduzir os discursos existentes na cena política ou económica. Claro que isso significa citar o Governo e a oposição, os patrões e (esporadicamente) os sindicatos, mas a verdade é que isso é dramaticamente insuficiente. Mais do que saber qual é a mensagem que os protagonistas querem transmitir, o que os cidadãos gostariam de ter é um retrato fiel da situação.

Esta crise seria uma ocasião excelente para os media provarem a sua utilidade – para além do consabido “este disse, aquele disse”. Todos gostaríamos de saber o que aconteceu de facto com o PEC I e II. Quais são as contas reais do país. O que está a acontecer com as parcerias público-privadas (os factos e não as leituras ideológicas). Com as empresas que não pagam impostos. Com o off-shore da Madeira, com as mil e tal fundações privadas que recebem dinheiro dos nossos impostos, com os privilegiados que acumulam pensões e salários, etc. A verdade é que a maioria dos media se encontra ou acantonada num confortável conformismo ou numa quase paralisia imposta por uma draconiana redução de despesas, que impede qualquer actividade de investigação. Só que, sem essa investigação, sem essa função irreverente de watchdog, os media apenas repetem as versões que interessam aos poderes.

Sobrevivem, mas isso não é vida. A crise que os media estão a atravessar não é alheia a esta situação. Os media parecem empenhados em provar a sua irrelevância, sem perceberem que é esse o caminho que os está a levar à cova.

José Vítor Malheiros – “Público” 26 Out 2010

Documentário em francês sobre os anarquistas de hoje em dia

Diversamente do slogan punk «No Future», e dos messiânicos crentes dos amanhãs que cantam, os anarquistas de hoje em dia não formam uma geração adiada.

Eles procuram viver a anarquia no seu dia-a-dia, de forma pragmática, por via das relações inter-pessoais e no interior de grupos de afinidade, colectivos e associações, nos quais desenvolvem e seguem os princípios anti-hierárquicos e anti-autoritários que estão na base do seu ideário.

No documentário francês que se segue acompanhamos a vida quotidiana de alguns activistas anarquistas, Miriam, Rachel, Nicolas e Frédéric, todos eles procurando levar à prática as ideias e a revolta.

Sérgio Godinho é o poeta convidado da próxima sessão das Quintas de Leitura (amanhã, dia 28/10, no teatro do Campo Alegre, Porto)

Clicar por cima da imagem para ler em detalhe


Sérgio Godinho é o Poeta convidado da 108ª sessão ( dia 28 de Outubro) das "Quintas de Leitura", ciclo poético que se desenvolve já há alguns anos.

Relembramos que o espectáculo, intitulado "O sangue por um fio", para além de Sérgio Godinho conta com Isabel Fernandes Pinto, Rute Miranda e Miguel Ramos a lerem poemas do livro que dá nome à sessão, publicado em 2009 pela editora Assírio & Alvim.

Anabela Mota Ribeiro conversará com o Autor sobre este pequeno grande livro onde, segundo ela, "muitas coisas são ditas com uma exactidão e precisão de lâmina".

Tiago Manuel, responsável pela imagem da sessão, também participará nesta viagem de "fora para dentro dos olhos", surpreendendo-nos e emocionando-nos com as suas imagens microscópicas de corpos dissecados.

O habitual momento de performance será assinado pela "repetente" Sónia Baptista. Uma visão sensível e inesperada do universo poético de Sérgio Godinho.

A abrir a sessão, cumplicidades musicais pelo Ensemble Vocal Pro Musica - mais de 40 elementos em cena -, superiormente dirigido pelo maestro José Manuel Pinheiro.

http://quintasdeleitura.blogspot.com/


Teatro do Campo Alegre
Rua das Estrelas, s/n
4150-762 Porto


Informações e reservas:
226063000 - bilheteira
Horário:
Segunda: 14h00- 22h30
Terça a Sexta: 13h00-22h30
Fim-de-semana : 15h00-22h30
bilheteira@tca-porto.pt

Magusto solidário, concertos e danças tradicionais na Associação de Moradores de Massarelos ( dia 29 de Out., a partir das 20h.)




SEXTA FEIRA 29 de Outubro/ 20H00 - MAGUSTO SOLIDÁRIO
Local: Associação de Moradores de Massarelos, Rua D.Pedro V, nº 2, Porto
(junto ao rio Douro)

O CARDÁPIO para a festa contará com: Castanhas, Vinho Doce, Vinho maduro corrente, Cerveja, uma grande variedade de salgados, doces, quiches saborosas (normais e vegetarianas), bolos e muito mais, e tudo a 1€!

É a "festa da Castanha" com boa...
música e muito "conbíbio" à mistura!!!

A acompanhar a ementa relembramos o belo do Workshop às 20h00 e a participação solidária das mais simpáticas bandas:

* Capagrilos (um trio de malta muito catita que se juntou à pouco tempo para nos darem o que de melhor há na fusão do Folk),

* Elementos, o grupo que combina na perfeição a viagem pelo experimental, o folk e a World Music;

* Comvinha Tradicional, a "old school" do Folk por excelência, uns verdadeiros "Senhores" no fazer e no tocar o que há de Tradicional, sempre acompanhados daquela boa disposição que lhes é tão conhecida;

* e finalmente Pé na Terra, esse grande grupo que se prepara para o lançamento do novo álbum e com os quais é impossível ficar quieto! ;)

Os simbólicos 5€ para assistirmos a estas QUATRO bandas revertem na sua totalidade para a causa, bem como toda a receita obtida da comida e da bebida!!!

Contamos convosco fazer o maior magusto tradicional do Porto!

Concentração/Vigília de protesto contra as medidas de austeridade em frente à Ass. da República ( dia 3 de Novembro)


CONCENTRAÇÃO/VIGÍLIA DE PROTESTO CONTRA AS MEDIDAS DE AUSTERIDADE
Local:FRENTE À ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010 15:30

Dia 3 de Novembro será votado em Assembleia da República o OE que deixará a maioria dos portugueses em graves dificuldades financeiras.

Não vamos permitir que nos puxem a corda que há muito trazemos presa ao pescoço em silêncio, como cordeiros mansos.

Vamos juntar o nosso protesto frente à Assembleia da República, dia 3 de Novembro, numa vigília/concentração, com início a partir das 15.30H.

Porque não nos podemos calar.

Porque não podemos aceitar a morte lenta a que nos condenam.

Porque não nos podemos acomodar.

Tragam as vossas vozes, a vossa indignação e a vossa imaginação.

Assembleia da República
Palácio de São Bento, R. da Imprensa à Estrela, 1249-068 LISBOA


http://www.facebook.com/#!/event.php?eid=122363297820765

26.10.10

Apresentação no Porto (dia 27 de Out) e Braga (dia 28) do livro Noente Paradise da cantora galega Ugia Pedreira que dará um concerto na Casa da Música


Ugia Pedreira, cantora galega, dá um concerto, juntamente com a sua banda, Marful, na Casa da Música no Porto, no dia 29 de Outubro às 22h.

Entretanto, no dia 27 de Out. ( 4ª feira), na Livraria Leitura (Rua de Ceuta 88, Porto), Ugia Pedreira apresentará o seu livro Noente Paradise, editado pela Através Editora, e que constitui o primeiro poemário daquela cantora galega.

A mesma apresentação repetir-se-á no dia 28 de Out. em Braga, em colaboração com o Centro de Estudos Galegos da Universidade do Minho.









O livro-CD Noente Paradise é um dos primeiros da colecçom ATRAVÉS DAS LETRAS. Quem procurar um poemário encontrará, se calhar, um livro de cançons. Se procurar cançons, é possível que se surpreenda ao ler um poemário ou um manual de baile, explica Martázul Busto, ao tempo que aclara que Noente Paradise é «um híbrido». Em sua opiniom, Ugia Pedreira «atirou ao público, desde antes dos remotos tempos de Chouteira, voz e olhadas, mesmo sinais. Agora atira-se ela sem mediaçom».

Pedreira é umha artista polifacética. Tem musicado espectáculos teatrais, dirigido centros de folque com nomes cambiantes (aCentral), gerido, produzido, ordenado, desenhado... Com Noente Paradise cobre um espaço ainda nom explorado, o do papel. A cantora resgata as retóricas que arrouparam músicas eclécticas, marfulianas, nordestinas ou matraqueiras e acrescenta-lhes cantigas ainda nom musicadas, isto é, poemas à procura de melodias, recolhidos no CD que acompanha o livro.

É Noente Paradise «umha viagem polos mares do norte desde a entranha. Noente está nas praias do interior, segundo se passa por Cuba e se volta, sempre, a Galiza, à repetiçom da quotidiania delirante», conta Martázul Busto. «O paraíso está no vaivém contínuo da palavra ao som e do som ao texto».

Numha recente entrevista, Pedreira explica que no novo título da ATRAVÉS EDITORA há letras que compujo para grupos musicais e projetos como Nordestin@s, Marful, Descarga ao Vivo, GalegoZ, a Matraca Perversa... Segundo ela própria conta, «desde a adolescência fum escrevendo cançons ou poemas que fôrom tocados pola música». Perguntada acerca de se escrever poemas e cançons é o mesmo, a cantora reconhece que «interpreto e canto as minhas cançons-poemas. Como autora deles/as, é o espaço mais natural».

Nazaré contra a guerra, contra a NATO (colóquio no salão Mar Alto, dia 30 de Outubro às 16h.)


Sessão / Colóquio
Nazaré Contra a Guerra, Contra a NATO

Sábado, 30/10/2010 - 15:00

Local: Salão Mar-Alto, Nazaré

Colóquio sobre Mário Castelhano, uma vida militante pela liberdade, realiza-se no dia 30 de Out. às 16h. na Biblioteca-Museu República e Resistência


A Biblioteca Municipal República e Resistência e o Centro de Estudos Libertários promovem um Colóquio sobre Mário Castelhano.

A primeira sessão será no dia 30 deste mês pelas 16:00 h.

Local:
Câmara Municipal de Lisboa
Biblioteca-Museu República e Resistência
Rua Alberto de Sousa, 10 A, 1600-002 Lisboa
Telefone: 21 780 27 60
Fax: 21 780 27 88




Intervenções:
“Sindicalismo nos anos de promessa, controversias e repressão”, por Paulo Guimarães


“Resenha biográfica de Mário Castelhano”, por Luís Garcia e Silva




MÁRIO CASTELHANO
Mário Castelhano nasceu em Lisboa, em 1896 e faleceu no Tarrafal, Cabo Verde, a 12 de Outubro de 1940. Foi um destacado militante anarco-sindicalista dos anos 20 e 30. De origem modesta, começou a trabalhar aos 14 anos na Companhia Portuguesa dos Caminhos-de-Ferro, participado nas greves de 1911, 1918 e 1920, vindo a ser despedido pela sua participação na organização destas últimas greves. Passou então a ocupar-se em actividades de escrituração no Sindicato de Ferroviários de Lisboa, na Federação Ferroviária e na Confederação Geral do Trabalho. Membro da comissão executiva da Federação Ferroviária, ficou com o pelouro das relações internacionais e a responsabilidade de redactor-principal do jornal A Federação Ferroviária. Dirigiu também os jornais O Ferroviário e O Rápido. Participou na reorganização do Conselho Confederal da CGT, após o 28 de Maio de 1926, de onde saiu eleito responsável do novo secretariado e redactor-principal de A Batalha. Após a tentativa insurreccional de Fevereiro de 1927, a repressão policial acentuou-se, a CGT é ilegalizada e o jornal A Batalha assaltado, vindo Mário Castelhano a ser preso em Outubro do mesmo ano e deportado no mês seguinte para Angola, onde ficou dois anos. Em Setembro de 1930, foi enviado para os Açores e em Abril de 1931, para a Madeira, participando na insurreição desta ilha contra o Governo. Com a derrota deste movimento, foge da ilha, embarcando clandestinamente no porão do navio Niassa. Em 1933, estava de novo à frente do secretariado da CGT e faz parte do grupo que organiza o 18 de Janeiro de 1934. Preso a 15 de Janeiro, três dias antes do movimento, é condenado pelo Tribunal Especial Militar a 16 anos de degredo. Embarcou em Setembro de 1934, com destino à Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, e em Outubro de 1936, para o campo de concentração do Tarrafal, onde morreu. Foi condecorado postumamente com a Ordem da Liberdade.
Manuel Loff, Sofia Ferreira
Biografia retirada de: AQUI

Excerto do livro O segredo das prisões atlânticas, da autoria de Acácio Tomás de Aquino, onde se dá conta das condições que deram origem, no Tarrafal, ao agravamento de saúde e consequente morte de Mário Castelhano, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho e Director do jornal A Batalha (órgão da CGT). Decorria o ano de 1940.


MORREU MÁRIO CASTELHANO


Mário Castelhano, desde o seu internamento na Fortaleza de São João Baptista na Ilha Terceira, nos Açores, vinha sofrendo dos intestinos, mas como em Angra o médico assistente não recusava receitar especialidades farmacêuticas necessárias ao tratamento dos presos doentes ali enclausurados, a doença do Mário não se agravou.
Assim que foi internado no Campo de Concentração do Tarrafal, quer pela deficiente alimentação quer pela falta de medicação adequada para atenuar ou curar a sua enfermidade, lentamente o seu mal foi-se agravando, até que, nos primeiros dias de Outubro de 1940, Mário Castelhano baixa à enfermaria com febre intestinal.
Ao fim de vários dias, como a dieta a que estava sujeito não o alimentasse convenientemente, o médico Esmeraldo Pratas Pais receitou-lhe outra dieta, como melhor alimentação no seu entender: papas de farinha.
Assim que o Mário começou a ingerir esta nova dieta, o seu estado de saúde agravou-se ainda mais.
Como eu nessa altura estivesse atravessando uma crise de dores no lumbago, crise que frequentemente me imobilizava, e desejando a todo o custo que o director soubesse do estado em que se encontrava o Mário, expus ao camarada Manuel Pessanha o meu desejo, para que ele transmitisse ao Rosinha, então criado do director, e este assim fez. O Rosinha transmitiu o caso à mulher do director, dizendo-lhe que o Mário já o tinha salvado da morte, assim como outros camaradas, exaltando as suas qualidades, e que naquele momento estava muito mal.
O director assim que a sua mulher lhe transmitiu o que se passava com o Mário, chamou a Rosinha, para que lhe explicasse melhor o assunto. Ao mesmo tempo pergunta-lhe quem teria sido o preso que lhe dera esse recado. O Rosinha, por engano, segundo afirmou, em vez de citar o nome do Pessanha disse-lhe que fora Tomás de Aquino.
O director, durante o pouco tempo do seu reinado, manifesta para comigo uma certa aversão, sem eu saber o motivo, mas vai imediatamente à Vila e traz o médico consigo, a fim de assistir ao que me desejava dizer, e ouvir o que eu lhe dissesse.
Já depois de ter tocado o recolher, abriram a porta da caserna e um guarda chama por mim e indica-me para ir ao portão falar ao director.
Quando cheguei, o director mandou-me encostar a um dos fortins, o que me fez desconfiar que alguém ali se encontrava escondido.
- Então o que se passa com o Mário Castelhano?
Apesar de não ter sido quem falara ao Rosinha a propósito da doença do Mário, não tive dúvidas em lhe responder, como se de facto fosse a minha pessoa que o tivesse feito.
- Senhor director, é um facto incontestável que o Mário Castelhano, desde que o médico lhe receitou papas de farinha como dieta, o seu estado de saúde agravou-se consideravelmente!
- Mas o que são essas ampolas de comer?- pergunta-me.
O Rosinha em vez de dizer ampolas bebíveis disse de comer.
- Deve ser engano, senhor director, eu falei ao Rosinha foi em ampolas bebíveis e não de comer. Tais ampolas bebíveis creio que são aconselháveis para as infracções intestinais!
Com azedume interpela-me:
- Mas o que é que você percebe de medicina? Você está a chamar assassino ao médico?
- Eu não lhe estou a chamar assassino. Eu, mais os meus camaradas do acampamento, estamos dispostos a comprar os medicamentos necessários para salvar o Mário, caso a farmácia da Colónia não os tenha!
- Mas quem é que lhe disse que as papas lhe faziam mal? Volta o director a interrogar-me em termos de censura.
- São todos os componentes do acampamento. Especialmente os que acompanham mais de perto a evolução da sua doença!
- Diga lá um nome? E apresta-se para registar.
- Sou eu um deles; disse-lhe peremptoriamente.
O director mandou chamar o enfermeiro Virgílio de Sousa. Percebendo a sua intenção, interpus:
- Senhor director, eu não disse que fosse ele!
O guarda não chegou a chamar o Virgílio, porque ele logo quis admoestar:
- Você, há tempos, quando foi marcar a casa junto à minha residência, fez lá um comentário desagradável à minha pessoa... Você queria era já uma tareia!
Voltando-se para o guarda, ordena-lhe:
- Leva já este sacana para a "Frigideira".
Quando regressei de lá baixei á enfermaria, e assim que o médico viu que eu já podia pôr-me de pé, o director mandou formar os presos e chama por mim e o Virgílio de Sousa.
Na presença do médico, o director começa por enaltecer as qualidades dele, a quem estava confiada a vigilância da nossa saúde, para depois desdenhar miseravelmente da dignidade e da competência profissional do abnegado enfermeiro Virgílio de Sousa. A meu respeito, com desdém aludiu a que eu, profissionalmente, nem servente de pedreiro era.
Dali segui para a "Frigideira".
Daí a dois dias, a 12 de Outubro de 1940, morre o Mário Castelhano, nos braços do nosso camarada Américo Martins Vicente, o que nos causou profunda consternação.
Alguns camaradas, supondo que teria havido uma provocação por parte do Rosinha para me prejudicar, fizeram um inquérito, sendo ouvidos o Pessanha, o Rosinha e eu. Verificou-se que nada houve em desabono do Rosinha.
Com a perda do camarada Mário Castelhano, não só a Organização Libertária Prisional, como também a organização anarco-sindicalista perdeu um dos seus melhores elementos.
Mário Castelhano foi um dos militantes mais prestigiosos do movimento operário, carácter íntegro, dotado de uma inconfundível tolerância, mas energicamente combativo em todos os momentos cruentos da luta contra a tirania. Defensor acérrimo e convicto das suas ideias anarco-sindicalistas, pelas quais sempre denodadamente combateu, foi várias vezes preso e várias vezes deportado.
Foi secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho, Director do jornal A Batalha, órgão da CGT, e colaborador activo do movimento revolucionário e grevista do 18 de Janeiro de 1934. Faleceu vítima da infecção intestinal, sem qualquer assistência médica.
Os camaradas que nessa altura estavam no serviço de saúde, Virgílio de Sousa, Leonildo Assunção Felizardo, Silvino Leitão, Fernando Costa e Américo Martins Vicente, este como doente crónico, e sempre um abnegado auxiliar, tentaram por todos os meios ao seu alcance arrancar às garras da morte o moribundo Mário Castelhano, mas toda a sua boa vontade, saber e dedicação foram baldados, em consequência da falta de medicamentos, sonegados criminosamente pelo famigerado médico carcereiro Esmeraldo Pratas Pais.
A estes quatro camaradas atrás citados, como a outros que mais tarde se incorporaram no serviço de saúde, não podemos deixar de registar o nosso mais vivo reconhecimento pelo seu inexcedível e abnegado afã na assistência aos muitos doentes prostrados nos leitos e aos que necessitavam dos seus cuidados permanentes.
Continuam os castigos acintosos com pretextos forçados ou insignificantes.
Alpedrinha é castigado com três dias por discutir com um guarda por causa de um púcaro de água.
Os presos voltam a usar o cabelo comprido. Domingos Tavares, Gabriel Pedro e Francisco Miguel são castigados, respectivamente, com seis, quatro e dois dias por não tirarem o chapéu ao guarda Velhinho, e Manuel Gomes por não ouvir a ordem de "Tirar chapéus" é castigado com 10 dias. Damásio Pereira é punido com quatro dias por conduzir a cama para o depósito de doentes sem autorização do guarda.
O guarda Carlos Silva é agredido pelo director por ele participar do seu criado Rosinha, mas entretanto este e Tomás Garcia passam duas noites na "Frigideira".
O guarda Teixeira apreende um par de botas que José de Almeida estava fazendo sem autorização, sendo castigado com 10 dias, e António Gonçalves Saleiro "Viana" também com 10 dias por tentar encobrir, e é agredido na secretaria.
Jacinto Vilaça baixa à enfermaria com uma biliosa".

De Caras, filme de Tiago Afonso sobre Camilo Mortágua, vai ser apresentado hoje à noite na Casa da Achada às 21h30


De Caras - apresentação do filme de Tiago Afonso sobre Francisco Mortágua
Hoje, 3ª feira, 26/10/2010, às 21:30
Local: Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, Lisboa

Projecção e apresentação do filme De Caras (2010, 75 min.), a partir de uma longa entrevista com Camilo Mortágua, com a presença do realizador, Tiago Afonso, e do entrevistado.

«Arrasta-se há mais de três anos aquilo a que eu chamava o projecto LUAR. Hoje apresento-o na Casa da Achada com o título “De Caras”. O que começou por ser uma investigação e conjunto de entrevistas à volta da Liga Unida de Acção Revolucionária centrou-se numa só personagem: Camilo Mortágua.

Filme de enorme simplicidade formal, trata-se de um depoimento montado no qual a personagem fala sobre o seu percurso desde o início dos anos sessenta até aos dias de hoje tendo como momentos essenciais as acções da organização antifascista e a aventura da Torre Bela, ocupação e consequente autogestão da herdade dos duques de Lafões, que se transformou num dos ícones do PREC por ter sido registado em filme pelo recém falecido realizador alemão Thomas Harlan.

A segunda dimensão do filme, ao nível da imagem, são desenhos feitos por PAM a partir do depoimento, sendo que apenas um ou outro tem características de ilustração. A maioria tende para a dispersão. Trata-se de interpretações subjectivas de palavras bastante objectivas.

Desde o início que entendo que o sítio ideal para apresentar pela primeira vez este projecto é a Casa da Achada - Centro Mário Dionísio, não só por certas afinidades políticas, mas também por ter sido com estas pessoas (Mário Dionisenses) que dei os meus primeiros passos na descoberta da história recente, mas forçosamente esquecida por muitos deste nosso malfadado país à beira mar encostado.»

Tiago Afonso

25.10.10

Fotos das manifestações e da contestação social em França


Não à Reforma

Escutai a Cólera do Povo






No cartaz pode-se ler:

A mãe sexagenária diz para a filha adolescente:
-Na tua idade já eu trabalhava!

E diz a filha adolescente para a mãe:
- Eu, quando tiver a tua idade, ainda estarei a trabalhar!







A polícia em moto para acompanhar os camiões de gasolina




O amor face à força policial





Assembleia Geral de estudantes numa Faculdade de Paris


Bloqueio na entrada de uma escola secundária