22.12.06

A batalha do Cambedo(1946) e a solidariedade galego-portuguesa anti-franquista


A BATALHA DO CAMBEDO


Foi em 20 de Dezembro de 1946 que se travou a batalha entre guerrilheiros galegos anti-franquistas, que actuavam na fronteira contra o regime do caudilho, e a GNR, PIDE e exército português na aldeia raiana de Cambedo, Trás-os-Montes, com alguns mortos de parte a parte e que revelou a coragem e o heroísmo dos anti-fascistas. São excertos do excelente livro, já citado anteriormente, Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes de Bento da Cruz, editora Âncora, 2003.

Vejamos o que se passou no Cambedo na madrugada de 20 de Dezembro de 1946. Antes de mais é preciso tentar compreender como é que a presença dos guerrilheiros naquela povoação chegou ao conhecimento das autoridades.


A título de simples curiosidade, transcrevo a versão dada pelo guerrilheiro asturiano Manuel Zapico Terente. Diz ele: «Chegámos a Casaio. Ali soubemos que uma tal Remédios, conhecida do Girón, se passara ao serviço da polícia e fora a causadora da morte do guerrilheiro Bernardino e de um outro na fronteira portuguesa, perto de Chaves.» Também Francisco Martínez López (Quico), se refere a este episódio e acrescenta que, gorada a operação que ali os levara, os guerrilheiros assaltaram os armazéns da empresa e distribuíram todos os víveres pelos trabalhadores a quem explicaram quem eram e os ideais por que lutavam. Acabou tudo numa grande festa, com os trabalhadores a cantar a Internacional e aos vivas aos guerrilheiros e à República. A guarda-civil, que estava perto e foi avisada do que se estava a passar, não se atreveu a intervir. Propriamente da empresa, para além de algumas armas que encontraram, os guerrilheiros não trouxeram nada. Nem uma peseta 1).


A tal Remédios trabalhava na lavaria de uma exploração de volfrâmio. Mas, quando os guerrilheiros, chefiados por Manuel Girón, lá chegaram, ela tinha desaparecido... Decorria o ano de 1951. A imprensa da época (1946) dá-nos outra versão. Que após os crimes cometidos em Barroso por «uma quadrilha de bandoleiros espanhóis e portugueses que actuavam na raia seca, uns quatro elementos da pide, disfarçados de contrabandistas e negociantes do «mercado negro», se infiltraram, com a colaboração da guarda-republicana, entre as populações raianas, na mira de localizar os «meliantes» 2).


No entanto, e no meu fraco entender, a fonte mais fidedigna e de maior interesse para o encadeamento dos sucessos relacionados com a repressão aos guerrilheiros antifranquistas na zona fronteiriça de Trás-os-Montes durante o ano de 1946, são os arquivos da GNR. Aí encontramos uma: «Cópia da Nota Confidencial Nº.2, de 11 de Março de 1946, (como se vê, muito anterior aos crimes cometidos em Barroso ) expedida pela Rp. Adjunta do CG da GNR.
Para conhecimento de V. Exa. e execução transcrevo o despacho de S. Exa. o GCG exarado num ofício, dirigido a este comando pelo Ministro do Interior.
Continuam a verificar-se actos de banditismo nas regiões fronteiriças de Trás-os-Montes. As autoridades espanholas solicitam a cooperação das portuguesas e o Governo Português interessa-se pelo assunto.»



De seguida a nota indica as aldeias suspeitas e acrescenta:


«Compete ao Bat. 4 limpar essas zonas. ... Solicitar-se-á a cooperação da Guarda Fiscal, da PIDE e outros elementos. ..."Máximo segredo"...Não utilizar o telefone. ... «Contar com a colaboração de toda a Guarda-civil do Comando de Orense».


E agora chamo a atenção para o último parágrafo da referida Nota Confidencial: Deve-se contar que, em caso de encontro, os bandidos se defendem bem, pois são guerrilheiros profissionais (itálico meu) dextros em toda a espécie de ciladas e ardis. O GCG confia absolutamente no valor e desembaraço das forças do Bat. 4, designadamente da 6ª. e 7ª. Companhias – o 2º. Comandante Geral - (a) Rogério Tavares -Coronel.»


Nas primeiras páginas deste trabalho, ao referir-me à suposta protecção dada às carreiras, tive oportunidade de me referir à hipocrisia da GNR durante a ditadura. Aqui está mais uma prova dessa hipocrisia. Em público, nunca a GNR admitiu que os «espanhóis» refugiados em Trás-os-Montes durante o ano de 1946, fossem «guerrilheiros». Nas «notas internas» reconhecia que eles eram «guerrilheiros profissionais» e recomendava «cautela» com eles.


A 15 de Março o Comando de Bragança responde a esta Nota Confidencial do dia 11, dizendo que «Nada se fez por não constar haver na área do Posto de Vinhais foragidos espanhóis ou salteadores portugueses.» E acrescenta:


«Houve, é certo, desde fins de 1943 uma quadrilha conhecida por Os Cucos, que actuando em colaboração com elementos espanhóis foragidos da Guerra Civil de Espanha, praticavam assaltos à mão armada na região de Vinhais. Desde então essa quadrilha, composta de oito indivíduos, tem sido alvo de uma perseguição sem tréguas e teve o seguinte destino (cito os seus nomes porque alguns deles, como o Cuco , Liró , e os irmãos Veiga figuram em documentos de autoridades espanholas, que os conhecem e que certamente se regozijarão com a sua captura): 1 -António dos Santos, o Cuco e 2 - seu irmão Manuel; 3 -José Gomes Júnior, o Chuche ; 4- António Augusto Pais, o Mofra ; 5 -António Veiga, o irmão do Boina s; 6 -Silvério Veiga; 7 – João Manuel, o Boina s; 8- Manuel dos Santos, o Liró .»


Segundo a mesma fonte, tiveram o seguinte fim: o Cuco, o Liró, o Chuché, o Boinas e seu mano António, foram todos presos durante o ano de 1943 e metidos na cadeia de Vinhais, donde se evadiram por duas vezes: uma por arrombamento do soalho, outra por serração das grades. Presos pela terceira vez, foram transferidos para Chaves. O irmão do Cuco, o Manuel, morto pela GNR no acto da captura. Silvério Veiga, preso pelas autoridades espanholas.


Para este êxito, e à semelhança do que atribuíam aos guerrilheiros, também a GNR recorreu a ardis: praças disfarçadas de raparigas de campo, outras de camponeses de foice, pau, chapéu de palha e sacola como se fossem segadores. Citam, embora o não identifiquem, um guerrilheiro que concebeu um esconderijo na parede à qual recostou a cama. Quando a GNR aparecia, ele passava do leito para o esconderijo e a mulher fingia-se doente. Um dia os guardas prenderam a mulher e encaminharam-se com ela para Vinhais. O guerrilheiro saiu-lhes ao caminho e apresentou-se.


«As regiões fronteiriças portuguesas estão limpas de bandidos» – concluía o comandante da GNR de Bragança. As autoridades espanholas insistiam e provavam que não. E como o «Governo Português se interessava pelo assunto», a GNR resolveu actuar.


«Quartel em Bragança, 29 de Abril de 1946.
O Comandante da Companhia
Herculano São Boaventura de Azevedo, Capitão
ORDEM A
1 - Situação – Notícias vindas de Espanha dão como certa a existência de bandidos na Região da Lomba do Concelho de Vinhais, nomeadamente nas povoações de Pinheiro Novo e Pinheiro Velho.
2 -Os bandidos são guerrilheiros profissionais, bem armados, dextros em todas as espécies de ciladas e ardis, a quem o terreno favorece e devem encontrar-se, além das povoações já referidas, nas de Cisterna, Vilarinho da Lomba, Sernande, Edroso e Carrascal, situado a N da foz da Ribeira que fica a 1300 m a SO da povoação de Contim.»



A mesma ordem manda concentrar todas as forças da GNR do distrito de Bragança, no lugar de Seixas, Vinhais, na madrugada do dia 30 de Abril de 1946.


Nos dias seguintes o comandante elabora um relatório a dar conta dos resultados desta batida feita de colaboração com a Guarda-Civil, que guarneceu a fronteira do lado espanhol. Diz que a diligência teve início de madrugada e terminou às 18 horas do dia 1 de Maio de 1946, sempre debaixo de chuva. Que bateram todas as povoações e ribeiras da região e não encontraram nada. E a modos de justificativo, acrescenta:


«A maior parte da população presta-se a encobri-los, não sei se por receio, se por ganância, ou se por qualquer outra circunstância, mas em qualquer dos casos dão sempre o carácter de humanidade. Assim, nenhuma dúvida tenho de que o facto de ter sido nulo o resultado da batida, não se justifica que amanhã não se encontrem na região citada foragidos, pois passam com toda a facilidade a fronteira e, então, podem agora estar em Espanha e muito pouco tempo depois em Portugal. Todavia estes não serão capturados pelos processos de batidas até agora usados, pela muita facilidade que têm em se deslocarem em terrenos quase inacessíveis e de serem informados, mesmo à última hora, de qualquer movimento de tropas.»


Por um relatório do comandante da Batalhão 4 ficamos a saber que no mesmo dia 1 de Maio de 1946, se realizou idêntica diligência na região de Chaves.


Diz o relatório:
«Esta batida começou a ser preparada em 11 de Março, em colaboração com a Guarda-Fiscal, a PIDE e Guarda-Civil espanhola que foi quem marcou o dia que mais lhe convinha – 1 de Maio. No dia 30 de Abril findo concentrei em Chaves o pessoal dos postos de Santa Marta de Penaguião, Sabrosa, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas, Vidago, Montalegre, Boticas e Valpaços, com o qual, reunido aos elementos do Posto de Chaves, se constituíram dois Pelotões comandados pelos tenente Álvaro Henriques Antunes e alferes José Maria de Mota Freitas, comandantes das Secções de Chaves e Vila Real, respectivamente.
O pelotão do tenente Álvaro foi enviado para o Mosteiro e região compreendida entre o rio Rabaçal e Travancas: S. Cornélio, Dadim, Bolideira; o do Alferes Mota de Freitas para o Cambedo, Couto de Ervededo, S. Caetano, Bustelo e região compreendida entre o rio Tâmega e os limites do concelho de Montalegre.
Prenderam, no Couto, o espanhol Sérgio Bramonde, o Vicente, por se encontrar indocumentado; em Bustelo, um português condenado em Montalegre por roubo. Do resto, mais nada. Tudo bem.



Pelos habitantes da região foi dito que não têm aparecido por ali espanhóis indesejáveis a não ser um de nome Salgado, (o Juan) o qual assassinou um guarda-fiscal há meses. Mas que esse mesmo já há muito não consta que por aqui apareça, parecendo-lhes que deve estar em Espanha.» Que eu saiba, esta batida de 1 de Maio, a qual, pelos dados de que dispomos, mobilizou mais efectivos e teve maior envergadura do que a de 20 de Dezembro do mesmo ano, não suscitou grandes parangonas na imprensa, nem tempos de antena na rádio. E a diferença é esta. A de 1 de Maio não deu em nada. A de 20 de Dezembro deu em quatro mortos e alguns feridos. E deu porquê? O Juan se precipitou. Se, em vez de sair para a rua aos tiros, se esconde e se deixa estar quieto, o mais provável é que o resultado da segunda tivesse sido igual ao da primeira. Por estes elementos respigados nos arquivos da GNR, que estão longe de ser exaustivos, ficamos a saber que as autoridades de um e de outro lado da raia estavam a par, da presença dos guerrilheiros nas regiões fronteiriças, desde princípios de 1946 3). Não vejo onde caiba a denúncia da tal Remédios. Também me parece pouco provável que as autoridades tivessem conhecimento da concentração dos guerrilheiros no Cambedo, ou, mais propriamente, no monte das Choias, a que o Demétrio se referiu 4).



O certo é que, nessa madrugada do dia 20 de Dezembro, uma sexta--feira, os moradores do Cambedo acordaram estremunhados com todos os cães da aldeia a ladrar a rebate à porta dos pátios. Assomaram às janelas e viram guardas-republicanos por todos os cantos e esquinas.
Era o prelúdio da famigerada Batalha do Cambedo, cujas sequelas ainda hoje perduram.
Três dos cinco agentes da PIDE que nela tomaram parte, Hélder Cordeiro Alves, Otelo Puga e Vasco Guerra, enviaram, logo nos dias 22, 23 e 26 respectivamente, relatórios ao comando daquela corporação, todos eles a dizer que fizeram e aconteceram, de modo a encarecer o peixe aos olhos dos superiores.



Deles me sirvo para uma tentativa de encadeamento cronológico das contas deste rosário de sangue e lágrimas.


Como atrás se disse, logo após os sucessos de Negrões, PIDE, GNR e Guarda-Fiscal bateram os concelhos de Montalegre, Chaves, Valpaços e Vinhais à cata do que eles taxavam de «bandoleiros» ou «malfeitores» e de quem os apoiava e iam fornecendo o que conseguiam apurar ao comandante da Companhia da GNR de Vila Real. Este, quando se julgou suficientemente esclarecido, marcou o dia 20 de Dezembro para o início das diligências.
Às zero horas desse dia concentraram-se no posto de Chaves uns duzentos guardas-republicanos vindos do Porto, da Régua e de Vila Real.



O comandante dividiu-os em grupos e destinou um para cada uma das seguintes povoações: Nantes, Mosteiró de Cima, Sanfins de Castanheira, Sanjurge, Couto e Cambedo.
Partiram às três da madrugada.



O do Cambedo era chefiado pelo alferes Mota de Freitas. Nele iam integrados os pides Otelo Puga e Joaquim Alves, aquele vindo do Porto e este a prestar serviço no posto de Vila Verde da Raia.
Até Vilarelho, foram de camião. Daqui para a frente, a butes.
Chegaram às seis. O alferes Mota de Freitas postou o pessoal à entrada e à saída da povoação, na frente e nas traseiras das casas suspeitas, a saber: a da Escolástica, a do Adolfo, a do Mestre, a do Silvino e a da Engrácia.
Mas o pessoal de que dispunha não chegava para as encomendas. Na da Engrácia, a primeira à direita de quem entra no povoado, no sentido sul-norte, ficou apenas o pide Otelo Fuga de vigia à porta da rua e um guarda-republicano nas traseiras.
Pelas sete horas, o alferes Mota de Freitas e o pide Joaquim Alves, vêm comunicar que está tudo apostos para um ataque surpresa ao romper o dia.



Eles nisto, ouvem-se tiros nas traseiras da casa da Engrácia. Acodem todos ao local.
Otelo Puga vangloria-se de, e passo a citar «por intuição defensiva, fi-lo, por nossa felicidade, recuando e de pistola-metralhadora aperrada. Pelo que, depressa me apercebi de que dois indivíduos, com carabinas em bandoleira e com pistolas na mão, fugiam por entre umas pilhas de achas de pinho, que se encontravam a cerca de trinta metros de nós, juntas a umas medas de palha, num quinteiro defronte da casa de onde tinham partido os primeiros tiros».



Desfecha-lhes uma rajada. Os fugitivos atiram-se ao chão e ripostam.
Mota de Freitas, Joaquim Alves e o guarda-republicano entrincheiram-se atrás de uma parede e atiram também.



Nisto, a palha começa a arder e um dos fugitivos tenta a fuga. Joaquim Alves e o guarda-republicano lançam-se-lhe no encalço.
Otelo Puga continua a metralhar e sítio onde o outro se atirara ao chão, não fosse ele alvejar os colegas pelas costas.



Num gesto rápido, o primeiro fugitivo volta-se e mete dois tiros numa perna ao Joaquim Alves. O guarda-republicano recua e protege-se. Os outros acodem. Como o segundo fugitivo não tugisse nem mugisse, avançam para ele. Não encontram ninguém. Acorrem a prestar os primeiros socorros ao Joaquim Alves.


Mota de Freitas aproveita para despachar um estafeta ao Couto pedir a comparência das forças para ali destacadas e um outro a Chaves a comunicar ao comandante da Companhia o ocorrido e a pedir o envio de mais forças.
Otelo Puga obriga a Engrácia a abrir a porta e a fornecer a identidade dos fugitivos. Ela jura que, lá de casa, não saíra ninguém. Prendem-na 5).



Neste interim, grande alarido lá para a coroa do povo. Mota de Freitas envia dois guardas-republicanos a ver o que se passa.
Eles estugam o passo, rua acima. À curva da capela deparam com um grupo quase bíblico: um camponês com um macho pela arreata; um outro em cima do macho, escachapernado na albarda, com uma garotita nos braços; em redor, populares aos gritos.



Os GNRs interceptam-nos e inquirem. Falam todos ao mesmo tempo. Que a garota está ferida. Que é preciso levá-la ao hospital.
E mostram a perna da menina (6) com a tíbia e o perónio fracturados e expostos, envoltos numa toalha ensanguentada.



E o homem da arreata, pai da menina, explica. Estava ele a aparelhar o macho debaixo da varanda, quando uma saraivada de balas varreu a casa, a toda a largura. Ele cosera-se instintivamente com um poste de pedra. O macho fugira, espavorido. Mas a menina, que estava na varanda a atirar migalhas de pão às pitas, no suflagrante de se recolher dentro da cozinha, tombara na soleira da porta.


Os guardas duvidam. A casa atingida ficava bem à coroa do povo, a uns duzentos metros ou mais da casa da Engrácia, donde se haviam disparado os únicos tiros.
Os populares insistem na urgência de levar a menina ao hospital, antes que se escoe em sangue.
Os guardas-republicanos deixam passar o trio do macho. Os outros que fossem para casa.
Havia ordens de, genericamente, deter todos aqueles que tentassem entrar ou sair da aldeia. Mas este era um caso imprevisto.



Levam os dois camponeses e a menina ao comandante. Este reúne o estado-maior. Discutem demoradamente o assunto. Por fim acordam deixar, por especial favor, prosseguir a enferma e os dois acompanhantes caminho de Chaves, a umas três horas de jornada pedestre.
E com isto se derretem uns cinquenta minutos, findos os quais se ouvem tiros lá para a fronteira, a cerca de um quilómetro de distância, costa arriba.



A operação Cambedo havia sido montada de súcia entre as autoridades portuguesas e espanholas. Mota de Freitas sabia que a raia estava guardada por um forte contingente de guardas-civis. Conjecturou logo que os fugitivos (nessa altura ainda se supunha que fossem dois) haviam esbarrado nas armas espanholas e retrocedido. Ordena a um grupo de guardas-republicanos que bata a colina subjacente à fronteira.


E que os outros não descurem as entradas e saídas da povoação.
Acabavam de evacuar o pide Joaquim Alves, vem de lá, do fundo de um ribeiro que flanqueia o Cambedo pelo poente, no sentido norte-sul, o eco de um tiro. Mota de Freitas envia um GNR a saber o que se passa. O emissário vai a passo e regressa a correr, todo alvoroçado. Que um dos fugitivos fora morto. Quedam todos entre espantados e surpreendidos. No fundo ninguém ia a contar com mortes.



Mota de Freitas pergunta se alguém conhece o defunto. Todos o conheciam. Era o Juan, ou Facundo .
Neste comenos, chegam os vinte guardas-republicanos que haviam sido destacados para o Couto, sob o comando do sargento Meireles. Pelas onze horas principia a revista às casas. A primeira é a da Engrácia. Não topam nada de especial.




Passam à do João Valença, do outro lado da rua. Encontram o José Barroso, filho da Engrácia, deitado numa cama a fingir que ressona. Perguntam-lhe por que razão está a dormir em casa da vizinha, em vez de estar em casa da mãe. O rapaz não atina com uma resposta satisfatória. Prendem-no e passam à frente. Pelas treze horas, iam as buscas por alturas do quartel da guarda-fiscal, ouve-se de novo o ladrar duma pistola-metralhadora. Voltam-se todos para as bandas de onde os latidos tinham vindo. Vêem um guarda-republicano a tropeçar nas próprias pernas, olhos esbugalhados, lívido, sem fala. Rodeiam-no. Ele aponta o pátio da Albertina. Gagueja. Que haviam entrado três. Dois ficaram lá. Ele salvara-se por milagre.


E quem havia atirado? Não vira. Mas parecera-lhe que os disparos haviam saído de um palheiro.
Os guardas-republicanos e o pide ainda operacional quedam a olhar uns para os outros, atónitos, incrédulos, hesitantes. E agora?



Eis que chegam, vindos de Chaves, os guardas que haviam sido destacados para Nantes, sob o comando do tenente Santos. Com eles vinha o pide Vasco da Rocha Guerra. Parlamentam. Alguém levanta a hipótese de os sitiados se apoderarem das armas, ou mesmo das fardas, dos guardas mortos. Que fazer?


Prudentemente, por largo, a coberto de paredes e árvores, cercam um quarteirão de três casas que parecem comunicar umas com as outras.
A dada altura, assoma uma cabeça a uma janela. Otelo Fuga intima o curioso a recolher-se, se não quer ser alvejado. O curioso recolhe a cabeça, estende o braço e chispa fogo.
«Mais uma vez fui bafejado pela sorte...» – deixou escrito o Puga, muito ufano pela esperteza de se ter protegido com a umbreira de uma porta. Os outros protegem-se também. O caso estava a ficar sério.



Na bagagem dos recém-chegados de Chaves vinham algumas granadas de mão e bombas incendiárias. O tenente Santos manda incendiar o palheiro. Os engenhos são lançados. O palheiro, porém, resiste. Avançam as granadas de mão. Falham também. Então obrigam o Manuel Bárcia a incendiar o palheiro - «e em meia hora tudo ficou reduzido a cinzas, restando apenas de pé as paredes».7)


Já no pleno uso da língua, o guarda milagrosamente escapo, acusa uma das donas de casa de lhes ter dito que podiam entrar à vontade, que, ali, não estava ninguém. Trata-se de Manuela Garcia Álvarez, irmã do Demétrio e mulher do Manuel Bárcia. Prendem-na. Ela defende-se dizendo que não mentira. Que, em sua casa, não estava ninguém. Se houve tiros e mortes, isso foi no pátio da sua prima e vizinha Albertina Tiago. Perguntam-lhe pelo número de bandoleiros . Ela responde que ignora.


Obrigam de novo o Manuel Bárcia, como familiar e amigo dos espanhóis, a ir buscar os dois guardas mortos e respectivas armas.


Ele, de início, recusa. Ante a ameaça de fuzilamento, obedece.
Mas demora. Arrastar um cadáver ainda quente, de mais a mais de um guarda-republicano, não é tarefa agradável, nem fácil. Gritam-lhe que se mexa. Mas ele não tem pressa nenhuma.
Por fim aparece à cancela, às arrecuas, com o morto sopesado pelos sovacos, nádegas, pernas e botas a varrer o cisco do chão.
- Para aqui! - gritam-lhe detrás da esquina.



Ofegante, o Bárcia alija o cadáver no sítio indicado. Identificam-no. Trata-se do soldado de 1ª. classe do posto da GNR de Chaves, José Joaquim, de 34 anos, solteiro, natural da freguesia da Sé, Lamego. Está crivado de balas de alto a baixo 8).


Gritam de novo ao Mestre que se despache. Mas ele não se dá por achado. De vez em quando alija o cadáver e limpa o suor da testa ao canhão da véstia. Por fim, com um arranco de desespero e revolta, arrasta o outro cadáver para a rua principal, onde o comandante e respectivos lugar-tenentes o aguardam, cosidos com as paredes. Identificam-no: José Teixeira Nunes, 37 anos, natural da freguesia de Oliveira, Amarante, casado e pai de três filhos menores. Apresenta, na região posterior do tronco, nove orifícios correspondentes à entrada de outras tantas balas de calibre 9, disparadas à queima-roupa 9). Tratam de despachar os dois mortos para Chaves. O tenente Santos aproveita para pedir a comparência do comandante da Companhia e o envio de mais granadas.





Enquanto isto, o tiroteio continua. Impossibilitados de sair de casa, pessoas e animais desesperam. Assustadas, as crianças choram. Espavoridas, as aves fogem das árvores e as galinhas das eiras. Incomodados pelas bombas e pelos tiros, os cães uivam, incessantemente. Apreensivos e tristes com a morte dos dois companheiros, os guardas só desejam uma coisa, que os espanhóis se rendam e o tiroteio acabe. Mas eles não se renderam, tarde fora, até a noite cair.
Para evitar que eles se aproveitem das trevas para se evadirem, os sitiantes incendeiam duas medas de palha situadas defronte da casa da Albertina, do outro lado da rua.
Neste meio tempo, arribam os guardas-republicanos que haviam sido destacados para Sanfins de Castanheira, sob o comando do tenente Antunes. Com eles, o pide Hélder Cordeiro Alves 10).
Trazem dois projectores eléctricos. Colocam-nos de modo a iluminar as traseiras da casa da Albertina.



Entretanto, noite dentro, vão chegando: o comandante da Companhia, capitão Alexandre Medeiros; um destacamento da PSP do Porto, e, com ele, o pide Vitorino Antero Alves; um pelotão de Caçadores 10, de Chaves, especializado em morteiros de campanha.
Instalam o comando no quartel da guarda-fiscal, casa de loja e sobrado, com duas janelas. A do norte dá para uma travessa de três metros de largura. Do outro lado ficam duas cancelas contíguas. A primeira de acesso ao eido do Manuel Bárcia; a segunda ao quinteiro da Adelaide Teixeira, de onde, a espaços, vêm rajadas de pistola-metralhadora.
O comandante em campo ordena a um agente da PSP, vindo do Porto, que arremesse granadas de gás lacrimogéneo sobre o «covil dos bandoleiros» cujo número toda agente calcula serem seis ou mais.



Mas o vento pica do norte e vira o feitiço contra o feiticeiro. Desistem. A noite, sem lua, está gelada. Uns sopram às mãos, outros batem os pés no chão. Há quem, sorrateiramente, deslize para dentro dos pátios, dos estábulos, dos palheiros e se recoste às paredes, armas em descanso.
No quartel da guarda-fiscal há uma braseira. Os maiorais avivam as brasas e trocam opiniões. Todos concordam em que eles não têm qualquer hipótese. Ou se rendem ou morrem. É tudo uma questão de tempo.
Dos habitantes do Cambedo, raro é aquele que consegue pregar olho. Pelas cinco horas, o palheiro incendiado extingue-se de todo.



O comandante recorre de novo a um PSP perito em foguetes luminosos. Estes, porém, chegam ao fim e o dia não há meio de romper. Então o pide Vitorino Aires oferece-se para incendiar outra meda de palha existente no local. O comandante aceita o alvitre. Mas a tarefa não é fácil, dado que o alvo fica no raio de acção das balas inimigas. O Vitorino aproxima-se o mais que pode e lança um fachuco de palha embebido em petróleo. Com tão boa fortuna que a meda se incendeia.


A aurora encontra o Cambedo transformado em campo de batalha: quartel-general, elementos de ligação entre os vários sectores, tendas de campanha, trem de abastecimentos, apoios logísticos, posto de primeiros-socorros.
Aperta-se o cerco à antiga morada da família Bárcia, agora subdividida em três facções autónomas: a do Mestre , a da sua irmã Adelaide, casada com um guarda-fiscal de nome Octávio (11) e a da sua prima Albertina: todas elas contíguas e comunicantes entre si pelos respectivos quinteiros. 12)



O pide Vitorino Aires, um agente da PSP e um guarda-republicano conseguem entrar nos baixos da casa da Albertina. Mas ao tentarem subir ao primeiro piso, ouvem zunir as balas rente às orelhas e põem o corpinho a salvo.
Então o comandante manda evacuar todas as casas em volta do quarteirão dos Bárcia, que vai ser bombardeado.



Os soldados de Caçadores 10 instalam-se num morro rochoso sobranceiro à povoação, a uns cento e cinquenta metros para nascente, e despejam uns trinta morteiros sobre o alvo.
A folhas tantas, aparece um homem de pistola-metralhadora em punho em cima dum telhado. Os artilheiros apontam-lhe os canhões. O homem desaparece. Os morteiros calam-se. O silêncio no quarteirão é tão profundo e prolongado que todos se convencem de que os bandoleiros estão todos mortos.



Aperta-se de novo o cerco. O pide Vitorino Aires e três polícias adiantam-se para o reconhecimento. São recebidos a tiro e recuam. Felizmente para eles, sem mazela de maior. Apenas um pequeno arranhão na face do pide, causado por uma pequena lasca de pedra que saltou sob o impacte de uma bala. À vista disto, o comandante manda alargar de novo o cerco. E os morteiros recomeçam.


A dado momento, grande alarido do outro lado da rua. O comandante manda fazer sinal aos soldados para suspenderem o bombardeamento e acorrem todos a ver o que era. Um rebo, que um morteiro fizera saltar de um muro, atingira um agente da PSP no peito.
Correm com ele em charola para o posto médico.
Reata-se o bombardeamento.
Ao cabo de uns setenta morteiros despejados sobre o quarteirão, dele não restam mais que ruínas fumegantes 13).



É tempo de apalpar de novo o terreno. Ansiosos por mostrar serviço e subir na hierarquia, os pides estão sempre na brecha. Vitorino Aires, acolitado por um grupo de agentes da PSP e guardas-republicanos mais afoitos, entra no pátio da Albertina e descarrega uma rajada de pistola-metralhadora contra uma porta que ainda se encontra intacta e fechada. Como ninguém responde, avança para ela.


De chofre, vem detrás da porta uma descarga traiçoeira. O pide dá um corcovo instintivo para o lado e corre para trás de uma parede (14) . Sente um arrepio na perna esquerda. Levanta a perna da calça para ver o que era. Uma bala que lhe varara a coxa de lado a lado, logo acima do joelho. «Olha que sorte!» -suspira ele, ao reparar em mais cinco buracos no sobretudo... Como certos animais que se encarniçam à vista de sangue, volta à carga, desta feita contornando o muro pelo lado de fora, não fosse o diabo tecê-las. Repara num rombo de morteiro na parede, que se lhe afigura no enfiamento da porta donde havia sido alvejado. Mete o cano da pistola-metralhadora no buraco e despeja o carregador.
Enquanto aguarda resposta, ouve alguém gritar:
- Lá vai um!



Volta-se e enxerga um indivíduo a fugir em direcção ao monte. Lança-se-lhe no encalço. Mas já um guarda-republicano traz o homem catrafilado pela gola do casaco. Apenas um pacífico habitante do Cambedo que, aterrorizado com tanto morteiro e tanto tiro, dera às de Vila Diogo.
Como a perna continuasse a sangrar, o pide requisita uma toalha e atalha. Os camaradas levam-no, quase à força, ao posto de primeiros-socorros. Um médico faz-lhe o primeiro tratamento e aconselha a evacuação para o hospital de Chaves. O ferido jura que não sai do Cambedo sem se vingar. E volta ao campo de operações.
Mas eis que a perna se lhe inteiriça e recusa a andar. Embora contrariado, o Vitorino Aires consente na evacuação 15).



A esse tempo, já os agentes da PSP especializados em bombas incendiárias haviam conseguido lançar fogo ao que restava do palheiro e afins. Do montão de ruínas restam apenas um lagar e um pequeno forno intactos, a poucos metros um do outro. Conseguem colocar metralhadoras no enfiamento dessas dependências. Estabelece-se um pingue-pongue de tiro vai, tiro vem, que parece nunca mais ter fim.


Pelas dezasseis horas surge, ao cimo das escadas da casa contígua à da Albertina, um sujeito de certa idade. Prendem-no. É Primitivo Garcia Justo, pai do Demétrio. Enquanto o interrogam, o ataque ao lagar e ao forno intensifica-se. Descargas de metralhadora, granadas de mão, bombas incendiárias, disparos de carabina. Os espanhóis vão respondendo. Parcimoniosamente, como quem poupa munições. Até que se calam de vez. Os atacantes suspendem o fogo e aguardam, prudentemente.


Nisto, aparece à boca do forno um lenço branco. Pouco depois sai o Demétrio, de mãos no ar. Primeiro algemam-no. Depois esbofeteiam-no. Perguntam-lhe pelos companheiros. Responde que lá dentro está só o cadáver do seu camarada Garcia, que se tinha suicidado.






Notas:
1) - Citados por Santiago Álvarez in "Memória da Guerrilha", Edicións Xerais de Galícia, 1991, pp 97 e seguintes.
2) - «Por determinação superior, encontrava-me desde o dia 26 de Outubro passado, na região de Vinhais, Chaves e Montalegre» - pide Hélder Cordeiro Alves, « in Relatório sobre o que se passou no Cambedo». Segundo o pide Vasco da Rocha Guerra declarou no Tribunal Plenário do Porto, «o sargento Prieto, da guarda-civil espanhola, colaborou com as autoridades portuguesas na captura dos elementos do bando.»
3 - A 14 de Junho de 1946, o capitão Herculano São Boaventura, comandante do Quartel de Bragança, envia um ofício ao Sr. Comandante do Batalhão n.º 4 da GNR do Porto, onde diz: «Há indicações de que na região da Lomba, do concelho de Vinhais, nomeadamente nas áreas de Sernande e Contim, estão aparecendo refugiados espanhóis e bandidos do mesmo país que auxiliados por um ou dois larápios portugueses permanecem naquela zona;» De seguida solicita carta branca para utilizar o camião afecto a «esta sub-unidade» na caça aos ditos refugiados.
Um outro ofício oriundo do Quartel da GNR do Porto, com data de 17 de Setembro de 1946, manda louvar os soldados da 7.ª Companhia em serviço no Posto de Vinhais, Alfredo Augusto, Aleixo Fernandes e Cândido Augusto Pires «porque conseguiram descobrir e capturar, no dia 28 do mês findo, o chefe da quadrilha, um foragido espanhol, que resistiu, conseguindo dominá-lo depois de o terem ferido gravemente numa perna, tendo-o levado para o hospital de Bragança… onde lhe foi amputada a perna direita...» «O ataque foi feito nas margens do rio Rabaçal, junto à povoação de Sernande...» «O preso vai ser entregue à Polícia de Vigilância.» Este ofício, que nem sequer identifica o preso, vem provar que ainda há muita coisa que nós ignoramos a respeito dos guerrilheiros e da repressão que lhes foi movida.
4) - Correu, por essa altura, não sei com que fundamento, o boato de que os guerrilheiros teriam agendado para o dia 21 o assalto ao palacete do senhor Domingos Veiga Calvão, em Vilela Seca.
5) - Interrogada a 21 de Janeiro de 1947, na PIDE do Porto, a Engrácia manteve-se numa negativa inexpugnável: «Que nesse dia não se encontrava qualquer indivíduo na sua residência.» «Mais uma vez aconselhada a dizer tudo o que sabe sobre o assunto, visto já estar provado que não está dizendo a verdade, respondeu: Que nada mais tem a dizer. E mais não respondeu.» Inquirida de novo em 6 de Fevereiro, acabou por admitir que na noite de 19 para 20 de Dezembro, o Juan dormira lá em casa.
6) - Silvina Fernandes Feijó, felizmente ainda viva, mas infelizmente ainda a manquejar da
, muito embora os peritos médicos a «dessem (ao fim de cento e dezoito dias de doença e impossibilidade de trabalhar) por completamente curada dos ferimentos descritos no exame directo deles não tendo resultado qualquer aleijão ou deformidade»...
7) - Depoimento do pide Otelo Fuga, no Plenário do Porto.
8) - Segundo o relatório da autópsia, umas treze ao todo.
9) - Do relatório da autópsia.
Para além deste dois, foram ainda feridos, com maior ou menor gravidade, cinco soldados da GNR, três dos quais, Jaime Ernesto Alves Leite, atingido por dois tiros num ombro, António Matias, a quem uma bala levou duas falanges do indicador direito e José da Fonseca Nunes, com escoriações no tórax e fractura duma costela por ter caído abaixo dum muro, foram para ao hospital de Chaves.
10) - «Em toda a parte de Castanheira, nomeadamente em Mosteiro, Sanfins, Santa Cruz e Cimo da Vila, foram revistadas todas as casas suspeitas nada sendo encontrado, mas foram feitas prisões dos indivíduos acusados de serem cúmplices dos malfeitores.», deixou escrito o Hélder.
11) - Após estes sucessos, o guarda-fiscal Octávio Augusto, a prestar serviço no posto do
Cambedo, foi transferido para o Gerês, onde acabou por se suicidar.
12) - Alguns relatórios afirmam, não sei com que fundamentos, que os guerrilheiros tinham feito buracos nas paredes meeiras de modo a transitarem de uma para as outras.
13) - A casa da Albertina Tiago foi a que mais sofreu com os bombardeamentos. Ainda hoje se encontra em ruínas.
14) - Manuel Afonso Pinho, do Cambedo, esclareceu no Tribunal Plenário do Porto, «que o agente Aires foi ferido em frente da adega do Bárcia e não da Albertina.» 15) - Ao cabo de quinze dias de convalescença, os médicos deram o Vitorino Aires como completamente curado do ferimento, do qual não resultou qualquer deformidade ou aleijão


retirado de:
http://osbarbaros.org/

John Lennon tinha uma «visão revolucionária» ( segundo o FBI)


Depois de uma batalha legal de 23 anos, professor da Califórnia consegue a divulgação total de relatório dos serviços secretos norte-americanos sobre Lennon



As últimas dez páginas de um longo relatório secreto do FBI sobre John Lennon foram ontem tornadas públicas e mostram que, afinal, não havia nenhum segredo explosivo por revelar.Durante anos, a não divulgação dos documentos alimentou complexas especulações, havendo quem imaginasse que os documentos tinham dados comprometedoras para o ex-Beatle, como o envolvimento directo em organizações revolucionárias.


Agora que o dossier foi divulgado - depois de uma batalha legal de 25 anos -, os documentos confirmam na essência o que já se sabia: Lennon era de esquerda e contra a guerra do Vietname.


Há alguns pormenores novos sobre as suas ligações a grupos de esquerda em Londres no início dos anos 70, mas nada que mostre que o músico era visto pelas autoridades como "uma ameaça séria", disse ao Los Angeles Times o historiador californiano Jon Wiener, da Universidade da Califórnia, que iniciou a batalha jurídica para a divulgação do dossier.


Compiladas em 1971-1972, as notas do FBI dizem que o ex-Beatle teria uma "visão revolucionária" e que as provas estavam nas suas canções. Também mostram que nunca apoiou financeiramente qualquer grupo político, mesmo que tenha sido convidado a fazê-lo e contam que dois "proeminentes militantes de esquerda" britânicos "cortejaram" Lennon na esperança de que ele viesse a financiar uma "livraria de esquerda em Londres", mas que Lennon não lhes deu dinheiro.


"Hoje podemos ver que o argumento da "segurança nacional" que o FBI tem feito nestes 25 anos eram absurdos. O dossier de Lennon no FBI é um caso clássico de excessivo segredo do governo", disse Wiener citado pela Reuters.


Algumas das informações foram expurgadas, sendo ocultadas por tinta preta, uma medida prevista na lei Freedom of Information Act usada para exigir a divulgação dos documentos, explicou ontem o gabinete de imprensa do FBI. As excepções contemplam razões como a segurança nacional, protecção de agentes infiltrados ou identidade de terceiros.


Os documentos confirmam que Lennon foi investigado em 1971-1972 pelos serviços secretos por causa das suas actividades políticas. Jon Wiener dizia ontem, com ironia: "Duvido que o Governo de Tony Blair vá lançar uma iniciativa militar contra os EUA em retaliação."


Em 1980, quando Lennon foi assassinado em Nova Iorque, Wiener começou a sua odisseia judicial. Durante os 20 anos em que o caso esteve na justiça, obteve algumas vitórias. Em 1997, conseguiu a divulgação de mais de 200 páginas dos arquivos, publicadas num livro em 2000, onde, segundo o autor, era atestado que o Presidente americano Richard Nixon pretendia exigir um teste de drogas a Lennon para o deportar e assim travar as suas actividades pacifistas.


Fonte: Publico

Dois tribunais mandam pagar aulas de substituição como horas extraordinárias

Professores que já taparam "furos" poderão exigir o mesmo, se houver mais três sentenças idênticas

Depois dos protestos de professores e alunos, a polémica em torno das aulas de substituição continua.

Os tribunais administrativos e fiscais de Castelo Branco e de Leiria deram razão a duas reclamações apresentadas por docentes que exigiram às suas escolas o pagamento destas actividades como trabalho extraordinário. As sentenças contrariam o entendimento do Ministério da Educação (ME) de que a substituição de docentes que faltam não tem de ser remunerada de forma extraordinária.A controvérsia começou em 2005, quando o ME aprovou um despacho que obrigava as escolas a organizar os horários dos professores de forma a que, em caso de falta, imediatamente outros docentes assegurassem a ocupação dos alunos. Em clubes temáticos, salas de estudo ou aulas de substituição, por exemplo. Para isso deviam ter em cada hora uma espécie de bolsa de docentes disponíveis.O problema é que as aulas de substituição previstas no Estatuto da Carreira Docente, que continua em vigor, são consideradas "serviço docente extraordinário".

Assim entendem os sindicatos e assim consideraram os juízes que assinaram estas sentenças, de 30 de Outubro e 14 de Dezembro. Já o ME sempre considerou que as substituições só deveriam ser pagas como horas extraordinárias se asseguradas por docentes da mesma disciplina do colega que falta. E se o professor substituto seguisse o plano de aulas. Por todo o país foram vários os docentes que, a partir do momento em que começaram a fazer substituições, exigiram o pagamento dessas horas. Os sindicatos afectos à Fenprof apoiaram alguns desses processos em tribunal e estas são as primeiras duas sentenças que se conhecem, explica Mário Nogueira, dirigente do Sindicato dos Professores da Região Centro. Umas delas "já transitou em julgado, pelo que é definitiva".

De acordo com o Código de Processo nos Tribunais Administrativos, se houver mais três decisões no mesmo sentido sobre casos "perfeitamente idênticos", todos os professores que tiverem feito substituições poderão requerer a extensão da sentença, ou seja, exigir ao ME o pagamento de horas extraordinárias.Segundo as regras definidas pela tutela, todos os professores dos 2.º e 3.º ciclos e do secundário devem ter na sua componente não lectiva de estabelecimento (trabalho na escola que não dar aulas) uma parte dedicada a actividades de substituição.

Os argumentos e a lei

Os dois professores em causa apresentaram a primeira reclamação, junto dos conselhos executivos das escolas, no início do passado ano lectivo e interpuseram recurso hierárquico para o ME. Perante o indeferimento, num dos casos, do secretário de Estado Valter Lemos e a ausência de resposta noutro, ambos recorreram aos tribunais, invocando o que está escrito no Estatuto da Carreira Docente.
O Tribunal Administrativo e Fiscal de Castelo Branco teve a mesma leitura do estatuto: "A substituição de docentes pela ausência de curta duração é expressamente prevista como "serviço docente extraordinário"." E serviço docente "não se resume e confina ao conceito de leccionar", lê-se na sentença.
O Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria rebate ainda outro argumento do ministério, que considerou que o trabalho só pode ser considerado extraordinário e pago como tal, se for um "serviço ocasional e praticado de forma esporádica".
Ora, defende o ME, se o cumprimento das aulas de substituição se integra na componente não lectiva, se faz parte das 35 horas de trabalho semanais a que todos os professores estão obrigados e se é comunicado no início do ano lectivo, então não pode ser pago como serviço extraordinário.
Diz o Tribunal de Leiria que a substituição só acontece quando falta um professor, pelo que é "sempre ocasional e esporádica". E que não é o facto de estar inscrita no horários dos professores que muda o que determina o Estatuto da Carreira Docente. As sentenças obrigam o ME a pagar 87 euros num caso (relativo a duas substituições) e 67 noutro (por quatro substituições).


Fonte: aqui

18.12.06

Haverá vida fora dos centros comerciais...?

( questionário para consumidores compulsivos e adictos às mercadorias)

( atenção: leia atentamente e responda com as mãos limpas de compras)



1 – Quantas crianças de outros países estarias disposto a sacrificar para comprares um telemóvel ou trocar o teu por um melhor?

a) Mais de 3 não me agrada
b)Até 10, mas só se me garantissem as melhores performances do aparelho e um ano de chamadas grátis
c) Tudo dependeria da marca
e) Os que fossem necessários, desde que eu nada soubesse.


2 – Acreditas sinceramente que haja vida fora do centro comercial?

a) Sim, mas apenas uma vida infra-humana, rudimentar
b) A verdade é que a ciência ainda não chegou a nenhum resultado conclusivo sobre esse assunto.
c) Sim, claro que existe, mas felizmente os nossos mísseis estão prestes a acabar com essas estranhas formas de vida, que existem fora dos centros comerciais.
d) Quando estou a fazer compras nunca faço perguntas, nem me interrogo.



3 – Segundo um recente estudo nos próximos 50 anos haverá que reduzir a população mundial em 4.350 milhões de pessoas caso queiramos manter o nosso actual nível de crescimento e consumo. Quais os critérios que se deveriam adoptar para seleccionar as pessoas afectadas com esta redução?

a)Por sorteio
b) Segundo o poder de compra: desempregados e pessoas criativas consomem infelizmente muito pouco.
c) Sobre essa matéria quem deve decidir são os mais racionais e desinteressados, isto é, a Europa e os EUA.
d) O mercado, pois é ele que deve encarregar-se de fazer essa selecção.



4 – O que é que gostas mais no Museu da Arte Antiga, em Lisboa?

a) As sanduíches da cafeteria
b) A possibilidade de lá se poderem comprar postais
c) O facto do museu fazer recordar-ma a IKEA
d) Não sei, porque não o frequento. Prefiro andar pelos parques de diversões.


5 – Se se demonstrar que o crescente consumo no Ocidente de carne, água, petróleo, cosméticos, electrodomésticos, computadores, telemóveis, etc, está a pôr em perigo a sobrevivência do planeta, o que é que estás disposto a renunciar:

a) ao planeta Terra
b) a dar prendas ao meu sobrinho
c) a ler essas más notícias
d) Confio que os nossos governos saibam tomar a tempo as medidas necessárias


6 – Na hipótese das queixas das multinacionais que se lamentam pelo facto de não lhes ser possível interromper os programas e os filmes transmitidos pelas televisões a fim de passar os seus anúncios publicitários, nem utilizar as obras clássicas da pintura e da escultura como suportes para a sua publicidade, vierem a ser atendidas pelos governos, que parte do corpo da Gioconda deveria a Coca-Cola ou a Nike utilizar para os seus anúncios?

a) na frente
b) nos peitos
c) nos ombros
d) acho que a Gioconda bem poderia passar a ser uma criação da Coca Cola.



7 – Por que coisas deixarias de lutar, arriscar a vida, renunciar à tua felicidade pessoal, à tua disponibilidade de tempo, abdicar dos teus princípios, sujeitares-te a humilhações infligidas pelo teu chefe ?

a) Admitiria isso em troca de um aparelho de Tv com ecrã de plasma
b) Admitira isso em troca do último modelo da Nokia
c) Fazer as figuras ridículas do costume nos concurso de televisão
d) Por coisas dessas aceitaria também lançar bombas



8 - O que levarias para uma ilha deserta?

a) O cartão do El Corte Inglês
b) O próprio El Corte Inglês
c) Os saldos de Janeiro
d) Uma pistola para que não me roubem o cartão do El Corte Inglês


9 – Uma das vantagens da nossa época é que permite não só consumir os objectos como também as imagens desses mesmos objectos; ou seja, é possível contemplar a morte de um palestiniano ou de um filipino por via de um estupendo aparelho de televisão ou através de um monitor de gama alta, como inclusivamente visioná-la em directo. Enquanto consumidor quais são as modalidades de morte alheia que mais aprecias?

a) As mortes provocadas por bombardeamentos
b) As mortes provocadas pela fome e por catástrofes naturais
c) As mortes resultantes de torturas
d) Pela televisão todas as mortes me parecem bonitas.



10 – De que populações do mundo gostas mais de consumir as contínuas imagens de mortes?

a) Dos africanos
b) Dos latino-americanis
c) Dos árabes e muçulmanos em geral
d) Dos todos por igual: não sou racista,



11 – O que é que há de comum entre um livro, uma mulher, um hambúrguer, um carro e umas sapatilhas de marca?

a) que os cinco são objectos
b) que os cinco são comestíveis
c) que os cinco podem ser adquiridos com cartão de crédito
d) Nunca compraria um livro


12 – Segundo estudos recentes os consumidores portugueses gastam em cada minuto pouco menos de meio milhão de euros, regista-se também um crescente consumo em cosméticos e em pornografia via Internet, sem esquecer o atraente e promissor turismo sexual. Qual deve ser o papel reservado aos portugueses no futuro?

a) Devemos melhorar na área do turismo sexual, pois a prostituição infantil salva da fome muitas famílias do terceiro mundo.
b) Por patriotismo, os portugueses deviam redobrar o seu consumo em perfumes e cosméticos.
c) Os desempregados portugueses deveriam gastar mais de forma a melhorar o nosso ranking mundial
d) Não se deverá misturar consumo com a política.



13 – Beatriz de Orleáns, representante de Christian Dior, explica porque é que um bolso de seda dessa marca custa 2.790 dólares: quem os faz são crianças que recebem 14 cêntimos de dólar por hora. Achas que vale a pena pagar esse preço para adquirir aquele produto?

a) As crianças sempre podiam receber um pouco menos
b) Podia-se ensinar-lhes a trabalhar também com os pés
c) As crianças merecem o nosso sacrifício
d) Demonstrar que se é rico nunca sai caro.



14 - Achas correcto que um pequeno carro custe pouco mais de 6.500 euros, enquanto as paisagens montanhosas, o céu estrelado e a cor azul continuem grátis?

a) Se essas coisas não se compram, então é porque não valem nada
b) Preferia que tais coisas só pudessem ser pagas pelos ricos.
c) Entre um céu estrelado e um carro sempre há diferenças: o céu estrelado deveria ser mais barato.
d) Privatizar a cor vermelha sempre seria muito rentável e uma decisão que revelaria boa gestão



15 – Quais são as imagens que mais o angustiam, quando pensa no futuro da Humanidade?

a) Uma televisão apagada
b) O Modelo e o Continente de portas fechadas
c) O desaparecimento dos anúncios publicitários
d) Tenho a certeza que Bill Gates resolverá qualquer problema que surja
e) Quando faço compras, nunca penso no futuro da Humanidade.




Este questionário faz parte de uma iniciativa da companhia teatral CONSERVAS, de Barcelona e que organiza o festival InnMotion

(adaptação livre para português de um texto de Santiago Alba Rico, publicado no jornal Diagonal de 5 de Dezembro de 2006)



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17.12.06

Já saiu mais um número da Adbusters (revista contracultural)

O número referente aos meses de Janeiro e Fevereiro de 2007 da conhecida revista canadiana Adbusters já chegou aos quiosques portugueses. Trata-se de mais uma edição do maior interesse e cuja leitura vivamente aconselhamos.
Desta vez o tema geral são as grandes ideias que vão marcar o próximo ano de 2007. Reproduzimos a seguir o índice deste número

The Big Ideas of 2007

THE REVOLUTION WILL BEGIN WITH A TEXTBOOK – Ecological economist Tom Green on why two new textbooks have the power to change the world.

BELIEVERS & DECEIVERS – Cognitive dissonance and the psychology of US power at play on the global political stage, by Deborah Campbell.

THE GREAT URBAN OUTDOORS – David Nicholson-Lord's take on how affluence and self-indulgence are steering us away from the natural world.

MY FIRST RIOT – A tale of race, rebellion, and amateur theatrics in a California prison, by Saint James Harris Wood.


Outros artigos:

Japan's Neocons, by Eric Johnston

Tourist Tibet, by David Kootnikoff

Brazil's Landless Pioneers, by Wilson McCourtney

First World Fascismo, by Adbusters Staff

Consultar:
http://www.adbusters.org/the_magazine/

Livros novos na livraria Pulga

Por intermédio do seu blogue soubemos que já se encontram nos escaparates das casas da especialidade as edições mais recentes da livraria Pulga (sito no Centro comercial Itália, Rua Júlio Dinis, 752-1º dto, loja 70, Porto), a saber:


" Manual do Desempregado", de Liberato

“ Saloon”, de A. Pedro Ribeiro

“Teatro d’Abjecção”, de A. Dasilva Ó

“Inscrições na Lápide”, de Fernando Morais


Do prefácio deste último (“Inscrições na Lápide”, de Fernando Morais) retiramos este excerto:


“ Esta é uma história de amor e traição. Vive-se num momento de turbilhão revolucionário. Estamos em Paris, Maio de 1968, eternizado pela tomada das ruas pelo movimento estudantil revoltado contra a vida manietada, contra a guerra imperialista contra o nivelamento conformista, pelos lazeres de uma sociedade de plástico. Jovens que ergueram barricadas que se organizaram solidários para que o poder de decisão sobre as suas próprias vidas lhes fosse restituído.A ordem vigente acolheu-os com a repressão violenta das forças policiais militarizadas. O confronto sangrento paralisou toda uma nação. Solidária, outra geração ergueu a voz face à barbárie. Intelectuais e operários, os pais que viam a sua descendência, nas ruas, brutalizada pelos cães da guerra. Estava constituído um novo movimento urdido no diálogo e na acção revolucionária. Já não se tratava apenas de fazer voar as pedras da calçada. Havia debates na Sorbonne, mas também nas avenidas e nas esquinas de Paris amotinada contra a intolerância dos que se agarram ao poder a todo o custo (mesmo o da vida humana). Por toda a França discutia-se o futuro, a autogestão, os caminhos da emancipação dos gestos quotidianos, a autoridade de cada indivíduo em expressar-se consoante a sua verdade.Estes foram alguns dos factos. A História encarregou-se de mastigá-los, digeri-los à imagem de outras conveniências que não as motivações originais do movimento revolucionário de 68. Conveniências de "objectos culturais" a serem consumidos, roupas de marca, compêndios e livros, anúncios para a venda de automóveis: "sejam razoáveis, exijam o impossível".”

( excerto do prefácio DE AUTORIA DE J.C.JERÓNIMO PAULO BERNARDINO RIBEIRO)

Para mais informação consultar o bloque da livraria

Boicote aos produtos e marcas dos Estados Unidos da América

Declaração pública de vontade pessoal em boicotar os produtos e as marcas dos Estados Unidos da América


O mundo confronta-se com o grave problema do aquecimento global, mas apesar disso o principal agente contaminador, que é simultaneamente a maior potência militar do mundo, e que se auto-proclama como o «super-polícia» global, faz orelhas moucas face aos apelos para a redução das suas emissões de CO2.
O mundo inteiro já se manifestou por várias vezes a favor de uma solução pacífica no Iraque, e não obstante a potência ocupante persiste em não abandonar o território que ilegitimamente invadiu e mantém ocupado.
À arrogância global dos Estados Unidos da América que podemos nós fazer? De que maneira podemos gritar um «basta!» e colocar um ponto final a tanto sofrimento e a tanta rapina por parte da única super-potência?

A resposta passa por aquilo que os propagandistas costumam chamar «o tácito apoio emocional», isto é, aquilo que se pode chamar «a marca nacional». Lançamos pois um apelo mundial para que toda a gente em todo o mundo boicotem os produtos com marca norte-americana: que ninguém vá a qualquer McDonalds, nem compre produtos Nike, e nem muito menos frequente os cinemas com filmes realizados em Hollywood. Que os parques Disney espalhados pelos 4 cantos do mundo fiquem vazios. Que ninguém perda um minuto com as televisões Fox, CNN e MTV. E se recuse a abastecerem-se em qualquer estação da gasolina Esso, Texaco ou Chevron. Esqqueçam-se que Pepsi, Coca-Cola,Gap e Starbucks existem.
Onde quer que estejas no mundo abstém-te de adquirires produtos com marca e proveniência dos EUA.

Quando fazes uma declaração pessoal de boicote aos produtos com marca EUA estás a fazer, para todos os efeitos, uma declaração pública, que se há-de juntar ao clamor internacional que pouco a pouco por todo o lado se está a levantar contra a actual política dos Estados Unidos da América e que tantas vítimas humanas e prejuízos está a causar. Não te esqueças também de te manter a par das acções de protesto que continuamente são lançadas em diversos países a propósito do esgotamento dos recursos petrolíferos, da comida rápida e plastificada, do desrespeito e dos abusos laborais que amiúde se praticam, e das manipulações mediáticas que infelizmente se tornaram o pão nosso de cada dia.

Vivemos num momento histórico crucial em que são necessárias mais do que nunca mobilizações e de acções de todos nós, os seres humanos vivos e activos. Não duvides da possibilidade de mudarmos este estado de coisas. O movimento contra a guerra do Iraque mobilizou milhões de pessoas por todo o mundo. Porque não podem esses mesmos milhões de manifestantes boicotarem igualmente os produtos com marca EUA,influenciando assim os decisores políticos e económicos daquela grande potência político-militar?

Estás pronto para entrares nesta onda de boicote aos produtos com marca EUA, e celebrar a tua libertação face à cultura comercial norte-americana?
Procedendo assim podes estartambém a contribuir para a derrocada de um império ilegítimo e depravador de vidas e recursos naturais.


Compromisso e declaração pública

Porque sou um dos milhões de pessoas que estão contra a guerra do Iraque;

Porque os Estados Unidos da América já mostraram que não escutam a opinião pública mundial;

E porque os símbolos dos Estados Unidos são as suas empresas e as suas marcas;

Eu, abaixo-assinado, declaro publicamente a minha vontade de boicotar as marcas americanas enquanto os Estados Unidos ocuparem o Iraque e enquanto a única super-potência mundial não der ouvidos ao clamor geral por justiça social, liberdade e igualdade, assim como respeito pela mãe-natureza.


Assinatura,
.......

16.12.06

Os heróis do nosso tempo!

Rachel Corrie
Estudante universitária,pacifista norte-americana, 23 anos
Assassinada em Março de 2003 por um bulldozer israelita em Gaza quando a máquina se preparava para demolir mais uma casa palestiniana


Todos os que dedicaram a sua vida aos outros
nunca serão esquecidos!



O criminoso Estado de Israel mata, destrói e fere impunemente...

Selecção de livros pela Livraria Letra Livre

«Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas»
Mário Quintana (poeta brasileiro)


Acabamos de receber uma newsletter da Livraria Letra Livre com uma selecção de livros que vale a pena ler e oferecer:


Potlatch. Boletim da Internacional Letrista. Fenda. 18,00


Terrorismo de Estado na Rússia: A Guerra da Tchetchênia. Achiamé.10,00?

Marx Versus Stirner. Daniel Joubert. Insomniaque. 9

O Espírito da Comédia. Antonio Escohotado. Antígona. 15,00

A Abrangência do Zunzun. PREC. 7,50

Dicionário das Mulheres Rebeldes (Edição ampliada). Ana Barradas. Ela por Ela. 26,50

A Moral Anarquista. P. Kropotkin. Sílabo. 7,50

Utopias Piratas. Peter L. Wilson. Conrad. 15,00

A Formação da Mentalidade Submissa. Vicente Romano. 18,00

História Geral dos Piratas. Capitão Johnson. Cavalo de Ferro. 22,50

Manual Filosófico do Individualista. Han Ryner. Achiamé. 6,00

La Mémoire et Le Feu. Portugal: L´Envers du Décor de L´Euroland. Insomniaque. 10,00

(10% de desconto em todos os títulos)

Para outros livros disponíveis consultar:

www.letralivre.com

Livraria Letra Livre
Calçada do Combro, 1391200-113
Lisboa

O ódio à democracia, novo livro de Jacques Rancière


Quando actualmente a democracia é exportada pela força das armas por aqueles que ainda há pouco tempo condenavam os horrores totalitários enquanto os revolucionários recusavam essas aparências em nome de uma democracia real que haveria de chegar, Jacques Rancière propõe ao leitor reencontrar a força subversiva sempre nova, e sempre ameaçada, da ideia democrática através de um notável trabalho de reflexão e questionamento de grande rigor e agradável leitura.
Partindo de Platão e das origens gregas da política o autor chega ao dias de hoje para demonstrar que o que suscita o novo andemocratismo é, afinal, o escândalo que sempre representou o «governo do povo», ou seja o escândalo da própria política e da igualdade dos homens.
.
.
Da introdução (escrita por Diogo Pires Aurélio):

«Rancière ... afirma que a política só existe verda­dei­­­­ramente quando o reino da liberdade se afir­ma fren­te ao reino da necessidade e a democracia irrom­pe como desafio ao que é natural ou social­men­te dado. Concorde-se ou não, essa ideia tem, pe­lo me­nos, a virtude de se expor aqui como um assom­broso exercício de inteligência e, ao mesmo tempo, como uma moldura onde cabe o essencial daquilo que, so­bre esta matéria, habitualmente se dispersa na socio­logia ou refracta na filosofia política.»

Sobre a obra e o autor

Quarenta anos passaram desde que Rancière assinou, com Louis Althusser et Etienne Balibar, Lire le Capital. Tinha, então, vinte e cinco anos. O terramoto de Maio de 68 destituiu perante ele um texto que se tornara inoperante e, com mais humildade, o fez procurar nos arquivos a via seguida pelos próprios proletários. Daí resultaram La Nuit des prolétaires (Fayard 1981) [A Noite dos Proletários] e Le Maître ignorant (Fayard, 1987) [O Mestre Ignorante] * e a descoberta de que a política já não é a luta pelo poder mas uma «partilha do sensível», um afrontamento das maneiras de ver e de organizar o real, um cenário onde se tornam visíveis coisas que de outro modo não se veriam: a sorte desigual que é proporcionada a uns e a outros a coberto da desigualdade. Retornando à origem grega da política para reencontrar as razões do escândalo que a democracia continua à provocar, Rancière publica a seguir Courts voyages au pays du peuple (Le Seuil, 1990) [Pequena viagem ao País do Povo], La Mésentente (Galilée, 1995) [O Desentendimento] e Le Partage du sensible (La Fabrique, 2000) [A Partilha do Sensível] * e um certo número de livros de estética. A política tem a ver com a beleza, e o saber com a poética, na sua atitude comum em «produzir obra» redesenhando o mondo. Daí a dissensão, a raiva mesmo, de Jacques Rancière contra o consenso e a negação da política e da democracia. Não haveria mais nada a esperar da história? Não mais que antes, poisa a história não faz nem promete nada: são as novas radicalidades que inventam as políticas dos novos tempos …

Sobre o autor

Nascido em 1940, Jacques Rancière é professor emérito do departamento de filosofia da universidade de Paris VIII. A sua escrita tem-se manifestado principalmente nas áreas da história, da filosofia, da estética e da política. Autor, entre outras obras, de: La Nuit des prolétaires (1981), La Mésentente. Politique et philosophie (1995), Aux bords du politique (1998) e Le Partage du sensible. Esthétique et politique (2000). O Ódio à Democracia é o seu primeiro livro traduzido em Portugal.

www.mareantes.com


Tomem Lá os Números!

Por Artur Queiroz

Sócrates é proto-fascista e o seu projecto para Portugal é ainda mais risível que o de Salazar. Só agora começa a ficar claro que o Bloco Central é uma união nacional com apoio nos banqueiros e especuladores financeiros.

O salário médio em Portugal é de 645 euros (pouco mais de 129 contos). Em Espanha o salário médio é de 1208 euros (cerca de 242 contos). Em Portugal, o limiar da pobreza, segundo as contas da União Europeia, está nos 387 euros (77 500 escudos). No Luxemburgo, quem ganha 1928 euros (mais de 386 contos) está no limiar da pobreza. Em Espanha, esse limiar está nos 725 euros, muito mais que um salário médio em Portugal. Um pobrezinho em Espanha é um remediado em Portugal.
Ministros, deputados e gestores públicos portugueses ganham ao nível do Reino Unido, Alemanha e Luxemburgo. Além dos salários têm mordomias principescas que podem em certos casos colocá-los no topo da União Europeia. Algumas medidas de cosmética tomadas por este Governo reduziram a dimensão do escândalo. Havia políticos e gestores públicos que ganhavam a dois, três e mais carrinhos. E havia quem acumulasse reformas milionárias ou juntasse a essas reformas salários de topo. Isto para não falar da regra contratual, ainda em vigor, que dá direito a muitos anos de reforma, mesmo que os felizes contemplados apenas tenham cumprido uns meses de trabalho efectivo.
A taxa efectiva de desemprego em Portugal ultrapassa os 10% e todos os meses são destruídos mais de mil postos de trabalho. Só uma percentagem ínfima de trabalhadores tem acesso ao Fundo de Desemprego. Os desempregados reais são mais de 500 000. A esse número temos de acrescentar outros tantos portugueses que trabalham sem direitos, sem contratos e sem o salário mínimo. O desemprego afecta mais as mulheres. A Região Norte é a mais afectada. Lisboa e Alentejo estão nas posições seguintes. Eis os números do paraíso Sócrates.
Antigos ministros das Finanças são hoje líderes de opinião e aparecem nos órgãos de Informação e dar palpites sobre a situação económica e financeira que eles criaram e propondo soluções que não puseram em prática quando eram governantes. Alguns ex-ministros e ex-dirigentes partidários do Bloco Central são comentadores encartados nas televisões, nas rádios e na Imprensa. São responsáveis pelo desastre mas falam de cátedra como se tivessem alguma moral para opinar ou alguma ciência para ensinar. Figuras como Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira, Medina Carreira, Miguel Beleza, Daniel Bessa ou Jorge Coelho estão permanentemente a dar receitas políticas e económicas como se nada tivessem a ver com o desastre. Os seus antigos assessores são a tropa de choque nos meios de Informação.
O presidente da República, quando era líder do PSD e Primeiro-Ministro, fez engordar a Função Pública até ao absurdo. Bastava ter um cartão do partido “laranja” para aceder a um cargo de funcionário público. Os governos do Partido Socialista fizeram o mesmo. A competição entre PS e PSD era ver quem metia mais comissários políticos na Administração Central e Local. Hoje os autores do crime dizem que há funcionários a mais. Como não é crível que se descartem dos correligionários, vamos ter uma Função Pública igual à do tempo de Salazar. Qualquer dia impõem aos novos candidatos a assinatura de uma declaração de fidelidade ao Bloco Central com activo repúdio do comunismo e de tudo quanto não seja da cor. José Sócrates é proto-fascista e o seu projecto para Portugal é ainda mais risível que o de Salazar. Só agora começa a ficar claro que o Bloco Central é uma união nacional com apoio nos banqueiros e especuladores financeiros. E para já não se vislumbra quem faça frente a estas hordas insaciáveis de dinheiro e mordomias. Mas não há mal que sempre dure.

15.12.06

Nunca duvides da capacidade em mudar o mundo!


Nunca duvides da capacidade de um pequeno grupo de indivíduos, reflexivos e comprometidos, em mudar o mundo; na realidade, esta foi a única maneira de se conseguir isso até agora .
Margaret Mead (1901- 1978)

Margaret Mead (antropóloga)

Antropóloga norte-americana nascida em Philadelphia, Pensilvannia, famosa pela forte personalidade e pelo rigor científico. Graduou-se (1923-1929) na Universidade de Colúmbia, em Nova York, onde estudou com o antropólogo Franz Boas (1858-1942), e trabalhou no Museu Americano de História Natural (1926-1969). Além de uma pesquisa de campo (1925), sobre a adolescência em Samoa, estudou os povos ágrafos da Oceania e complexas sociedades contemporâneas e foi pioneira na utilização da fotografia para documentação de pesquisa etnográfica. Seu interesse concentrou-se em vários aspectos da psicologia e da cultura, inclusive a infância e a adolescência, o condicionamento cultural do comportamento sexual, o carácter nacional e a mudança cultural. Casou-se com Gregory Bateson (1904-1980), filho do famoso geneticista inglês William Bateson (1861-1926), quando empreendiam uma famosa pesquisa junto aos nativos da ilha de Bali (1936-1939), da qual resultaria Balinese Character (1940), um marco na história da antropologia, da antropologia visual em especial. Separaram-se (1951), guardando, todavia, uma recíproca admiração e cumplicidade intelectual até suas mortes, ambas de câncer. Com Gregory escreveu 23 livros, entre eles Coming of Age in Samoa (1928), Growing Up in New Guinea (1930), Sex and Temperament in Three Primitive Societies (1935), Photographic Analysis (1942) e Male and Female (1949). Publicou também, uma autobiografia (1972) e foi eleita presidenta da Associação Americana para o Progresso da Ciência (1973). Morreu em New York.


Margaret Mead revolucionou a antropologia ao torná-la popular e ao alcance dos leigos. O seu objectivo era dar às pessoas comuns uma ferramenta para entender seu lugar no mundo. Ela demonstrou que os papéis sexuais eram determinados pelas expectativas sociais e provou a importância das relações raciais para a conservação da espécie. Mas seus estudos inovadores, registrados em livros como Coming of Age in Samoa (1928), sempre criaram polémica. Segundo os críticos, os dados das pesquisas da antropóloga eram selectivos e suas conclusões simplistas. A cientista foi considerada uma aventureira sexual pelos conservadores. Sem se preocupar com os ataques, ela acreditava que o objectivo da antropologia era melhorar a raça humana. Para isso, defendia que o mundo moderno tinha muito o que aprender com outras civilizações. Em inúmeros livros e artigos, escreveu sobre os direitos da mulher e contra o racismo e o preconceito sexual.
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Mais info:

Indígenas do Calaári ganham batalha legal pelas terras ancestrais

Indígenas do Calaári ganham batalha legal pelas terras ancestrais.O Tribunal Supremo do Botswana isentou, porém, o Governo da obrigação de fornecer água a estes descendentes dos primeiros habitantes da África Austral
Os indígenas nómadas do deserto do Calaári, caçadores e recolectores de alimentos que há mais de 20 mil anos sobrevivem nas planícies do centro do Botswana, vão poder regressar às suas terras ancestrais de onde foram expulsos há quatro anos, graças a uma deliberação do Supremo Tribunal.
O colectivo de juízes decidiu ontem a favor dos nativos, considerando a expulsão "ilegal" e "inconstitucional" por dois votos contra um - este último emitido pelo presidente do tribunal, Maruping Diboleto, para quem o caso não tinha base para ser julgado por as terras em causa serem propriedade do Governo.
A "grande vitória" celebrada pelos basarwa ou bushmen (bosquímanos) traz porém um sabor amargo: o Governo não fica obrigado a fornecer serviços básicos, como água, aos que decidam regressar às suas terras na Reserva Central de Caça do Calaári.
Os basarwa apelaram ao tribunal, acusando o Governo de lhes ter cortado os fornecimentos de água, alimentos e serviços sanitários e de os ter afastado dos tradicionais territórios de caça, entre 1997 e 2002, com o propósito de proceder à extracção de diamantes e outros minérios. Perto de dois mil bosquímanos foram reagrupados em campos construídos no exterior da reserva.As autoridades do Botswana rejeitam as acusações e argumentam que os indígenas (descendentes dos primeiros habitantes da África Austral) já tinham abandonado os seus costumes tradicionais há muitos anos, perdendo assim o direito ao território.
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Expulsos pelos diamantes
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A porta-voz do ramo francês da associação Survival International (organização não governamental de defesa dos povos indígenas que apoiou a demanda judicial dos basarwa), Magalie Rubino, defende que os nativos do Calaári foram expulsos para abrir caminho à mineração de diamantes - a exportação mais lucrativa do país.
Rubino apontou directamente o dedo à De Beers, maior empresa mundial do sector e principal parceira do Governo do Botswana na exploração daquelas pedras no país. "É ingénuo sequer pensar que os diamantes não têm nada a ver com o caso", denunciou, citada ontem pelo diário francês Libération.
A activista aproveitou para rebater o argumento de que o modo de vida agro-pastoral dos bushmen é prejudicial ao ambiente e à vida selvagem da reserva, que fora apresentado pelas autoridades do Botswana para justificar a expulsão. "Nenhum dos especialistas que consultámos no terreno registaram deteriorações do meio ao longo de dez anos, tão pouco o desaparecimento de qualquer espécie animal", afirmou.
Rubino sublinhou a importância de uma decisão favorável dos juízes, "reconhecendo o direito dos povos indígenas a um território e subsolo, conforme aprovado em Junho de 2006 pelo Conselho dos Direitos Humanos".O Governo do Botswana alega que os activistas ocidentais, que ganharam o apoio do carismático arcebispo sul-africano Desmond Tutu, herói do movimento anti-apartheid, têm vindo a romantizar o modo de vida dos indígenas. E argumenta que a vida dos basarwa na reserva é uma "armadilha de pobreza" que impede a sua integração e nega o acesso à educação e cuidados de saúde.

Fundador das Creative Commons em Portugal


Lawrence Lessig, fundador das licenças de propriedade intelectual designadas por Creative Commons (CC), é o principal orador do encontro que se realiza amanhã na Universidade Católica, em Lisboa, sobre este novo regime de direitos de autor. O primeiro debate público no país sobre este tema vai analisar a expansão das CC a nível internacional, a sua utilização em Portugal e o estado da propriedade intelectual na sociedade do conhecimento. A par de Lawrence Lessig, intervirão também o professor de Linguística do MIT, Shigeru Miyagawa, representando uma instituição que generalizou a utilização das licenças CC nos trabalhos científicos produzidos, bem como os responsáveis por áreas específicas de aplicação. Músicos, artistas plásticos e académicos portugueses participam também no debate. Portugal adoptou as licenças CC no dia 13 de Novembro.
Este regime de propriedade intelectual visa responder às possibilidades abertas com o desenvolvimento da Internet, sobretudo por permitir a partilha de conhecimento de uma forma considerada simples e flexível. Os últimos números das CC calculam que tenham sido atribuídas mais de 500 milhões de licenças nos 34 países em que estão disponíveis.

Fonte: Público

Regulamento Reach ( Registo, Avaliação e Autorização de Produtos Químicos )

Parlamento Europeu aprova o regulamento Reach

Se há legislação que tenha implicações em quase tudo, da roupa aos cosméticos, dos automóveis ao mobiliário, esse é o caso do novo regulamento sobre os produtos químicos, ontem aprovado pelo Parlamento Europeu e que deverá entrar em vigor em Junho de 2007. Chegam assim ao fim as negociações sobre um dos dossiers mais complicados e mais ambiciosos de sempre da União Europeia.

A partir de meados do próximo ano, os produtores e importadores de produtos químicos terão de fornecer informações sobre as substâncias que utilizam, fazer o seu registo e requerer autorização para o seu uso. Esta é a principal determinação do regulamento Reach, que, na sigla inglesa, significa Registo, Avaliação e Autorização de Produtos Químicos.

Em nome da saúde e do ambiente, os eurodeputados aprovaram o Reach, por 539 votos a favor, 98 contra e 24 abstenções, concluindo um processo que começou há 11 anos e que movimentou poderosos interesses. A Europa é líder mundial em termos de indústria química, mas é também no espaço europeu que os defensores dos consumidores e do ambiente mais conseguem fazer ouvir a sua voz.

O processo esteve à beira de falhar, pois o Parlamento Europeu e o Conselho defendiam posições opostas em diversos pontos do regulamento. Uma maratona negocial no início de Dezembro conseguiu evitar que os eurodeputados chumbassem o documento, o que provavelmente levaria a que o Reach tivesse de voltar à estaca zero.

Uma das grandes divisões entre o Parlamento e o Conselho dizia respeito ao princípio da substituição, isto é, a obrigação dos produtores e importadores encontrarem alternativas para os produtos mais perigosos. Ficou estabelecido que os industriais terão de apresentar um "plano de substituição" para as que oferecem maiores riscos.

Uma das grandes novidades introduzidas pelo Reach é que, a partir de agora, caberá à indústria provar que as substâncias que usam são seguras. Até agora, eram as autoridades públicas que tinham de demonstrar a nocividade dos produtos.

Será criada uma Agência Europeia das Substâncias Químicas, com sede em Helsínquia, que avaliará que as empresas estão a aplicar o regulamento. Será criado um registo central para as cerca de 30 mil substâncias abrangidas pelo Reach. O processo de registo decorrerá ao longo dos próximos anos e começará por aquelas consideradas mais perigosas para a saúde e o ambiente.

Número baixo de substâncias testadas

Das mais de 100 mil substâncias existentes no mercado europeu, apenas as que foram introduzidas depois de 1981 - cerca de 3000 - é que foram testadas. Vários estudos indicam que o contacto com estas substâncias é responsável pelo aumento de casos de alergias, asma, cancros e infertilidade.
"Esta aprovação coloca em vigor uma legislação essencial para proteger a saúde pública e o ambiente contra os riscos colocados pelas substâncias químicas sem pôr em causa a competitividade europeia", disse Josep Borrel, presidente do Parlamento.
Os riscos para a competitividade europeia e o perigo de deslocalização de empresas foram os grandes argumentos da indústria química contra o Reach, assim como as questões de propriedade intelectual - devido à partilha de dados sobre as substâncias - e os custos do processo. Os defensores da legislação contrapunham com os custos que os Estados têm em cuidados de saúde e sublinhavam que a busca de produtos menos perigosos potenciaria a inovação na Europa.
"Queremos livrar-nos dos produtos químicos mais perigosos, ao mesmo tempo que incentivamos a inovação e o desenvolvimento da União Europeia", reafirmou ontem Guido Sacconi, que foi relator do Reach no Parlamento Europeu.

Mas as críticas ao Reach vêm também da parte dos ambientalistas, que gostariam de ver uma legislação mais ambiciosa, que evitasse que os compostos químicos mais perigosos entrassem no mercado.A indústria não deixou de lamentar a burocracia que o Reach implicará, mas afirma-se disponível para apoiar as instituições europeias de forma a que o regulamento se torne operacional.

É a percentagem de produtos químicos existentes no mundo produzidos pela indústria química europeia, o que gera 1,7 milhões postos de trabalho.

23.000
É o número de empregos que a indústria química gera em Portugal. Por cada trabalhador neste sector, existem outros cinco em empresas que lidam com estas substâncias e necessitam delas

2,3
Mil milhões de euros é o custo calculado pela Comissão Europeia para que a indústria química europeia adopte as regras do Reach. No entanto, conta que sejam poupados 50 mil milhões em despesas de saúde em 30 anos, devido à redução do número de cancros, doenças da pele e respiratórias


O que é o Reach?


Para quê este programa?
O regulamento Reach, que na sigla inglesa significa Registo, Avaliação e Autorização de Produtos Químicos, estabelece novas regras para o uso e comercialização de produtos químicos, que obrigarão os produtores e importadores a fornecer informações sobre as substâncias que utilizam, a promover o seu uso seguro e a substituir progressivamente as mais perigosas por alternativas mais seguras.

Qual o seu objectivo?
Atingir um maior nível de protecção ambiental e da saúde humana, para um maior conhecimento e um maior controlo sobre os produtos químicos existentes no mercado.

Quando entra em vigor?
Junho de 2007


Como funcionará?
As empresas que fabricam e importam produtos químicos terão de avaliar os riscos decorrentes da sua utilização e devem tomar as medidas necessárias para gerir todos aqueles que identificarem. O sistema irá uniformizar os critérios de aplicação de mais de 30 mil substâncias químicas utilizadas pela indústria europeia num período de 11 anos, e prevê a criação de uma Agência Europeia dos Produtos Químicos, que irá gerir a base de dados, coordenar os processos de avaliação e as autorizações aos Estados-membros.

O que é que tem de ser registado?
Todos os produtos químicos produzidos ou importados em quantidades superiores a uma tonelada têm de ser registados na Agência Europeia de Produtos Químicos, o que irá abranger cerca de 30 mil substâncias.

Os compostos químicos nos produtos do dia-a-dia, como no vestuário, também devem ser registados?
Sim, porque artigos como sapatos ou têxteis contêm substâncias químicas e algumas delas podem ser prejudiciais para a saúde humana e ambiente.

O que será feito em relação às substâncias de alto risco?
As empresas que produzam as substâncias chamadas CMR (cancerígenas, mutagénicas e tóxicas para a reprodução) - calculadas entre 2500 e 3000 - só terão autorização de uso se forem desenvolvidos planos de substituição. Se as alternativas não existirem, os produtores terão de propor planos de investigação e de desenvolvimento.

A autorização de uso é ilimitada?
Não, as autorizações têm um tempo-limite para permitir que os podutos químicos mais perigosos sejam substituídos.

Todas as substâncias químicas devem obrigatoriamente ser registadas?
Não. Alguns óleos, ácidos gordos, minerais e minérios, gás natural, petróleo bruto e carvão, pilhas e acumuladores, ferro, celulose, vidro, gases nobres, óleos animais e vegetais, metais e ligas metálicas, produtos cosméticos, pesticidas e produtos farmacêuticos estão excluídos. As substâncias para investigação e desenvolvimento estão isentas de registo.

Em quanto tempo será possível registar todas as substâncias abrangidas pelo Reach?
As substâncias que se encontram já disponíveis no mercado serão gradualmente incluídas no Reach. As produzidas em maior volume ou com propriedades perigosas, especialmente as CM
R, serão registadas em primeiro lugar. Quem produz mais de mil toneladas por ano ou que produz mais de uma tonelada anual de CMR tem um prazo de três anos. A quem produz entre 100 e mil toneladas serão dados seis anos e entre um e 100 toneladas terá 11 anos.

Fonte. Público

Aldeias de xisto


Já estão em vias de recuperação algumas aldeias que se distinguem pela particularidade de apresentarem como material de construção dominante o xisto. O programa iabrange entre 15 a 20 aldeias localizadas na zona do Pinhal Interior, com uma especial incidência na Serra da Lousã e do Açor.

Trata-se de um programa gerido pela Comissão de Coordenação da Região Centro, que tem uma filosofia em tudo idêntica ao já conhecido programa das Aldeias Históricas que permitiu num passado recente a reabilitação de 10 aldeias da Região Centro. Os critérios de selecção de aldeias a integrar esta rede, não são apenas a dominância do xisto na construção das casas, mas também a tipologia da aldeia, do âmbiente e da paisagem onde se inserem.

As intervenções a realizar nestas aldeias terão várias vertentes: ao nível de coberturas e fachadas; infrastruturas básicas (saneamento, abastecimento de água, reformulação das linhas eléctricas e telefónicas que passarão ser subterrâneas); reformulação dos espaços públicos, com novo mobiliário urbano, colocação de calçada nas ruas e melhor iluminação.

No concelho de Góis foram quatro as aldeias escolhidas para fazerem parte desta rede: PENA, Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira. Prevê-se que estas aldeias fiquem integradas numa estrada panorâmica que as ligará ao Trevim (ponto mais alto da Serra da Lousã), Santo António da Neve e a outras aldeias situadas na vertente oposta da Serra, que também farão parte desta rede (como é o caso do Coentral e Candal).

Ainda não tendo saído do papel ou de meras apresentações de cariz político, espera-se que deste programa resulte em primeiro lugar e antes de tudo a melhoria das condições de vida das populações locais. São afinal essas pessoas e os seus antepassados que mantiveram até hoje intactas nessas aldeias uma vivência e a ruralidade que hoje em dia o Turismo começa a procurar e a valorizar. Sem elas, ou com a sua discordância, a preservação de pedras de nada valerá pois ..... as pedras até podem ter uma história, mas alma é coisa que nunca terão.



14.12.06

Campanha por um eco-natal


Na nossa sociedade, o Natal adquire contornos de uma verdadeira fúria consumista onde os valores que a ele presidem se encontram já distantes do seu significado original.
Para além da deturpação de uma festa originalmente filiada nos valores da partilha, fraternidade e amor, esse consumo excessivo possui aos mais diversos níveis – nomeadamente ecológico e social – repercussões extremamente nefastas, onde se pode referir por exemplo, entre outros, as toneladas de resíduos inutilmente produzidos ou a exploração de milhares de crianças em países pobres que fabricam os brinquedos dos nossos filhos. Particular destaque adquire ainda o desaparecimento de inúmeras espécies selvagens dos seus habitates naturais devido a um crescente e criminoso tráfico de espécies animais.
Na realidade, o actual padrão e nível de consumo dos países desenvolvidos, levado a um extremo de inconsciência no período natalício, têm-se reflectido no Ambiente com consequências preocupantes: alterações climáticas, perda de biodiversidade, extinção de espécies, poluição da água e do ar, entre outros. Embora estes problemas sejam globais, não se pode deixar de referir que é nos países subdesenvolvidos que estes têm maior impacto, países cujas populações pouco ou nada beneficiam com a exploração dos seus recursos e que estão na sua grande maioria confinados a um nível de pobreza extremo. E o contributo destes países para o fenómeno do consumismo também é marginal se comparado com os níveis de consumismo dos países normalmente designados de desenvolvidos.
O GAIA – Grupo de Acção e Intervenção Ambiental, no âmbito das iniciativas internacionais associadas ao DIA SEM COMPRAS, coloca à disposição um site original com dicas e conselhos preciosos para que possamos evitar, ao contrário do que normalmente e ainda que de forma inconsciente fazemos, participar na destruição do ambiente, na exploração de trabalhadores e na feroz alienação comercial; para que todos, e também o nosso planeta, possamos celebrar um Natal realmente Eco-lógico e de acordo com o seu espírito original.
Ver:

13.12.06

Eva Luna


"Me llamo Eva, que quiere decir vida, según un libro que mi madre consultó para escoger mi nombre.

Nací en el último cuarto de una casa sombría y crecí entre muebles antiguos, libros en latín y momias humanas, pero eso no logró hacerme melancólica, porque vine al mundo con un soplo de selva en la memoria. Mi padre, un indio de ojos amarillos, provenía del lugar donde se juntan cien ríos, olía a bosque y nunca miraba al cielo de frente, porque se había criado bajo la cúpula de los árboles y la luz le parecía indecente..."
(Eva Luna, livro da escritora chilena Isabel Allende)


Há livros que nos marcam. Este é certamente um deles. Apesar de o ter lido, sofregamente, há anos atrás, em apenas dois dias...

Em 1988, Isabel Allende apresenta-nos Eva Luna, num livro com o mesmo nome que conta a vida aventureira de uma rapariga pobre latino-americana, que encontra amizade, amor e algum sucesso através do seu poder de contar histórias.
Neste livro, a acção desenrola-se com Rolf Carlé, refugiado europeu, jornalista e amante de Eva Luna. Deitado com Eva Luna, ele pede-lhe para lhe contar uma história. "Sobre quê?, ela pergunta".
"Conta-me uma história que nunca tenhas contado a ninguém. Inventa-a para mim". E assim ela faz, dando a Rolf Carlé e ao leitor vinte e três vibrantes e encantadoras demonstrações da sua arte.
Nestas histórias, podemos encontrar camponeses e pessoas abastadas, guerrilhas e videntes, grandes belezas e tiranos. Aqui, encontramos Clarisa, "nascida antes da electricidade chegar à aldeia, que viveu para ver a cobertura televisiva do primeiro astronauta a levitar na lua, e morreu de espanto quando o Papa faz uma visita e conhece na rua homossexuais vestidos de freiras; El Cápitan, que levou quarenta anos a pedir em casamento a sua companheira de dança; Horácio Fortunato, dono de um circo, cujo encontro com uma mulher estrangeira o força a mudar as suas rudes maneiras quando a tenta cortejar; Maurizia Rugieri, que abando o seu marido e o seu filho para ir viver com um estudante de medicina, transformando a vida de ambos numa ópera que ela própria encena; Nicholas Vidal que "soube sempre que uma mulher lhe iria custar a vida" mas que nunca suspeitou que seria a mulher do Juiz Hidalgo; Raid Halbi, que mais uma vez põe à disposição da população de Água Santa, a sua preocupação e a sua sabedoria…


Isabel Allende cita Sherazade e "As mil e uma noites" antes de começar a contar a história de "Eva Luna". Ela é escrita em primeira pessoa, como uma autobiografia, pela própria Eva, que luta contra a pobreza, as dificuldades e o cepticismo numa América Latina dominada por ditadores.
E a autora explica sua preferência por mulheres que anotam suas memórias para que não sejam apagadas pelo tempo. "Minha mãe foi o guia de minha infância. Talvez por isso seja mais fácil escrever sobre as mulheres. Ela deu-me um caderno para anotar a vida na idade em que outras meninas brincavam de bonecas", diz Isabel.


Há livros que nos marcam. Outros que nos divertem, que nos entretêm. Outros ainda que nos mudam e com os quais aprendemos. “Contos de Eva Luna” é um desses livros, uma obra inolvidável que tem o dom de cativar quem se aventura pela riqueza das suas páginas, recheadas até à última linha de uma criatividade incomensurável.

Somos convidados a viajar pelo mundo, visitando desde recônditas aldeias índias na floresta Amazónica, até buliçosas cidades europeias, passando pelas gélidas paisagens de brancura do sul da Argentina. Assistimos a um desfile de personagens surpreendentes, todas elas partilhando de um sentimento comum: o amor. Vamos de encontro a camponeses e pessoas abastadas, guerrilheiros e videntes, conquistadores e tiranos.


Como definir os “Contos de Eva Luna”? Um agrupado de histórias seria justo, mas ainda assim insuficiente. Talvez uma colectânea de sublimes aventuras, ou ainda um emaranhado de narrativas que extravasam a vulgaridade, fantásticas e verosímeis, simultaneamente. Cada um deles vive de uma simbiose entre fantasia e a realidade: fantásticas porque as personagens são desenhadas pela autora, reais porque têm por matéria-prima um sentimento que existe, indubitavelmente.

Esta obra converte o leitor num devorador de peripécias. Preso desde a primeira página, tenta descortinar um fim para uma história que desde logo se apresenta como irresistível. Deixa-se enredar, vivendo as derrotas e conquistas dos protagonistas. Somos cúmplices de Allende, na medida em que sonhamos com o nos narra, escrevendo mentalmente o fim de que muitas vezes carece. Um livro que não nos “corta as asas”, que nos atribuiu a responsabilidade de rematarmos, a bel-prazer, o destino das personagens que nele intervêm.

Nota biográfica:
Isabel Allende (Lima, 2 de Agosto de 1942) é uma jornalista e escritora chilena nascida no Peru e actualmente radicada nos Estados Unidos da América. Uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 80. Sua obra é marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que em 1973 derrubou o governo de seu tio, o presidente Salvador Allende (1908-1973).
Escreveu A casa dos espíritos (1982) e ganhou reconhecimento de público e crítica. A obra é filmada em 1993 por Bille August, tendo como Portugal a servir de cenário, com Jeremy Irons e Meryl Streep.





12.12.06

Luís Sepúlveda, autor de «O Velho que lia romances de amor»

«O velho que lia romances de amor» é um livro de Luís Sepúlveda que o dedica a Chico Mendes, o activista ecologista assassinado pelos madeireiros.


Luis Sepúlveda nasceu Ovalle, no Chile, em 1949. Reside actualmente em Gijón, na Espanha, após viver entre Hamburgo e Paris.Membro activo da Unidade Popular chilena nos anos setenta, teve de abandonar o país após o golpe militar de Pinochet.Viajou e trabalhou no Brasil. Uruguai, Paraguai e Peru.
Viveu no Equador entre os índios Shuar, participando numa missão de estudo da UNESCO. Sepúlveda era, na altura, amigo de Chico Mendes, herói da defesa da Amazónia. Dedicou a Chico Mendes O Velho que Lia Romances de Amor, o seu maior sucesso.
Perspicaz narrador de viagens e aventureiro nos confins do mundo, Sepúlveda concilia com sucesso o gosto pela descrição de lugares sugestivos e paisagens irreais com o desejo de contar histórias sobre o homem, através da sua experiência, dos seus sonhos, das suas esperanças.

Alguns livros de Luís Sepúlveda editados em português:


As Rosas de Atacama
Contos Apátridas
Diário de um Killer Sentimental
O General e o Juiz
História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar
Histórias do Mar
Mundo do Fim do Mundo
Nome de Toureiro
O Velho que Lia Romances de Amor
Patagónia Express
Os Piores Contos dos Irmãos Grim
O poder dos sonhos
Uma História Suja


Na contracapa do seu último livro editado em português, O Poder dos Sonhos, pode-se ler o seguinte:

"Por todo o lado encontrei magníficos sonhadores, homens e mulheres que porfiadamente acreditam nos seus sonhos. Mantêm-nos, cultivam-nos, multiplicam-nos. Eu, humildemente, à minha maneira, também fiz o mesmo”
“Sonhamos que é possível outro mundo e tornar realidade esse outro mundo possível”, afirma Luis Sepúlveda, e esta não é apenas uma declaração de intenções.
Como é seu hábito, o escritor chileno usa o seu talento de narrador para denunciar o estado de inquietação do país que ama e que o viu nascer, do país onde escolheu viver e do mundo inteiro em geral. O empenho cívico que o incita a acusar a veiculação de informação corrompida, a condenar “o indigno atoleiro que hoje é o Iraque”, a criticar a guerra e a mostrar a sua indignação pelas vítimas da tortura ou do “friendly fire” possui a mesma profunda raiz humana com que recorda as companheiras e companheiros dos afortunados anos de Salvador Allende e com que homenageia os amigos de sempre.
É portanto um forte sentimento de humanidade o que une as histórias e reflexões aqui reunidas, sempre pontuadas por uma convicta e apaixonada participação no destino dos marginalizados, dos esquecidos e das vítimas

Mas possivelmente o livro que lhe granjeou mais visibilidade terá sido «O velho que lia romances de amor» que narra uma história marcada pelo desrespeito do homem pelo Mundo que o envolve, uma barbárie que Luís Sepúlveda não se cansa de denunciar, e que o escritor dedica ao seu amigo Chico Mendes, ecologista assassinado há anos atrás.
Ao longo desta narrativa e no seio da floresta amazónica chilena, José Bolívar Proaño descobre uma paixão por livros que falam de amor, comparável apenas à sua admiração pela selva onde vive.


Excerto de uma entrevista de Luís Sepúlveda

F.C: ¿Cuál fue la idea que generó esta novela que ha sido leída por todos nosotros,"Un viejo que leía novelasde amor"?
L.S: La verdad es que yo tuve la tremenda suerte de poder convivir, durante siete meses, con los indios shuar en la Amazonia ecuatoriana. Fue una convivencia muy intensa que significó una completa transformación de mi concepción del mundo. Hay un montón de esquemas que se fueron al carajo. Entendí, por ejemplo, que aquella frase que decía “el hombre es el supremo transformador de la naturaleza” allí no tenía validez plena. Entendí, incluso, que ciertos análisis respecto a la forma de vida “primitiva” eran absolutamente desacertados en su apreciación de cómo es la gente y por qué es de esa manera. Bueno, salí de allí con la idea de escribir un gran canto de amor a la Amazonia, pero un canto de amor a esa Amazonia trágica, y devastada, que se desarrollaría a través de las peripecias y vivencias de un personaje. Esa fue la idea central y durante casi diez años esa novela estuvo dando vueltas en mi cabeza, puesto que tenía mucho miedo de escribirla. Miedo no en el sentido de no ser fiel, sino que temía que el producto final resultara una suerte de invitación para que intrusos, que nada tienen que ir a buscar a la Amazonia, se fueran a meter allá. No quería ser una especie de agente de turismo que invitara a futuros depredadores a una zona que es tremendamente frágil. Realmente la fragilidad del entorno amazónico es increíble; basta, a veces, con un mínimo accidente o una intromisión de agentes externos para que todo el equilibrio ecológico se desmorone.

F.C: ¿Qué tipo de relación recuerda haber establecido con los shuar. Por ejemplo, se proveía su comida; era un sujetoautónomo dentro de la selva, o no?
L.S: Para ellos fuí primero un absoluto estorbo. Llegué como parte de una expedición de la UNESCO que tenía como fin “hipotético” determinar el impacto de los procesos de colonización en la población shuar. Pero en realidad era un miserable eufemismo, porque la expedición, si bien es cierto estaba patrocinada por este organismo, la financiaba TEXACO. Entonces, en el fondo era un miserable censo que había que hacer para determinar cuántos indios quedaban y cuál sería la mejor forma de expulsarles de allí, porque se suponía que en ese territorio había mucho petróleo. Pero la misma selva se encargó de defenderse; todos los miembros de la expedición sufrieron picaduras de insectos y enfermaron. Y no sé por qué, inexplicablemente, yo fuí el único que se quedó allí sin sufrir daños de consideración; no sé por qué no me pasó nada. Pude haber regresado a Iquitos o a Guayaquil, pero pensé que tenía la única oportunidad de mi vida para conocer realmente ese mundo, pensé ¡qué diablos!, ya estaba ahí... Decidí, entonces, quedarme y las primera fases de la relación, te repito, fueron de una absoluta indiferencia respecto de los shuar hacia mí y de una dependencia total.

F.C: ¿Lo ayudaban por algún tipo de conmiseración, de pena... ?
L.S: Exacto, un forma de caridad. "Si a este tipo no lo alimentamos se va a morir, porque no sabe cazar, no sabe pescar, no sabe seleccionar los frutos comestibles de los otros". Me dejaban de comer, me dejaban de beber... Y lentamente se fue dando una forma mínima de comunicación, hasta que finalmente me aceptaron, pero siempre como a un minusválido. Hubo un cambio real cuando ya empecé a aprender los rudimentos del idioma shuar y fuí capaz de comunicarme en su propio idioma. Recuerdo que fue una experiencia inolvidable por su capacidad transformadora. Ellos son grandes contadores de historias. Todos los días, en las tardes, en torno al fogón, hay una rememoración de la historia y de las experiencias que va de generación en generación. Las mismas historias se vuelven a repetir, se van completando y ritualizando.

F.C: Como parte de la memoria del pueblo...
L.S: Como parte de la memoria colectiva. Llegó el momento en que fui capaz de decir en su idioma shuar: "yo también quiero decir algo". De ahí vino una aceptación más plena, me incorporaron al grupo social. Pero siempre dejándome muy claro que yo no era de ahí y que algún un día tenía que irme. Fue una experiencia muy rica y determinante en mi formación personal.

F.C:¿ Su relación con Chico Méndes le ayudó, de alguna forma, a valorar la experiencia con los shuar y, en consecuencia, la posiblidad de escribir una novela como “Un viejo que leía novelas de amor”?
L.S: A Chico Méndes lo conocí circunstancialmente. Yo era el corresponsal de una revista alemana y un día me mandaron a cubrir un gran evento de sindicalistas que se realizaba en Brasil, después de largos años en los que el movimiento sindical estuvo prácticamente paralizado. A dicho encuentro llegó Chico Méndes. Congeniamos desde los primeros días; me interesó el trabajo que realizaba con los seringueiros(1); intercambiamos muchas opiniones, me gustó su punto de vista: defendía la posibilidad de una convivencia entre indios y blancos en la selva, y hablaba de un frente común de los habitantes amazónicos contra las transnacionales. (Y entre los habitantes amazónicos él incluía a los indios y a los blancos que también eran capaces de vivir valiéndose armónicamente de los recursos que la selva podía entregar). Chico empezó también a levantar un proyecto que era muy político; que era incluso atentatorio contra los Estados existentes en América Latina y en la región, amazónica. El sostenía la necesidad de que la humanidad reconociera que los pueblos de esa zona debían ser considerados como preservadores de esa enorme riqueza natural y que como tal merecían un trato especial. Recuerdo acompañarle a Nueva York, sede de la famosa reunión del Banco Mundial, en donde un discurso muy improvisado de Chico logró torcerle la mano a los banqueros, a esa gran mafia y, por primera vez, condicionaron un préstamo al gobierno brasilero a que se detuviera la construcción de la Transamazónica, a que se detuviera, por lo menos parcialmente, el proceso de deforestación de la selva. Con Chico hablé mucho de esta novela; le contaba mis miedos. y del temor que tenía de que el producto final fuera como una postal...

F.C. Que fuera “plástica”, que fuera falsa...
L.S: Exacto. Chico era un tipo muy elemental, pero tenía una enorme sensibilidad. Era el clásico ejemplo del autodidacta que se forma de manera multidisciplinaria. Chico era un gran lector de poesía, aunque era incapaz muchas veces de leer racionalmente un periódico. Era un extraordinario lector de poesía, capaz de comprender la sutileza de un poema. En ocasiones, sin embargo, había que explicarle veinte veces lo que era un documento redactado en jerga técnica, pero era un tremendo lector, por ejemplo, de la obra de Hemingway.

F.C: Tengo entendido que esta novela se publicó primero en una editorial española, en Jucar, antes de publicarse en alemán, como traducción.
L.S: Sí, la novela dió una vuelta muy curiosa. Primero, obtuvo un premio muy importante en España, el “Tigre Juan de Novela”. Es de mucho prestigio y el jurado que lo otorga es muy riguroso (cosa muy rara en los premios literarios). Parte del premio era la publicación en una editora asturiana que es Jucar, pero no pasó absoltutamente nada, porque en España el centralismo es muy fuerte y lo que no ocurre en Madrid o en Barcelona, simplemente no ocurre. Hubo un par de críticas en prensa local (gallega, austuriana, del país Vasco), pero fuera de eso, nada. Luego aparece una edición chilena en el año 1990; es curiosamente es muy mala, son libros que se desarman enteros apenas uno los abre, pero un par de ejemplares fueron a dar a manos de un editor alemán, uno de los grandes -Fischer Verlag- quienes se pusieron en contacto conmigo para ver como era la situación de derechos de publicación. La tradujeron y de ahí empezó todo, porque obtuvo unas extraordinarias críticas en Alemania. Se transformó en un fenómeno de ventas, lo que significó mi incorporación a un mundo que yo desconocía absolutamente.

F.C: ¿A qué cree se deba que,- en diferentes mercados, con diferentes tradiciones literarias, con variadas visiones de lo que es Latinoamérica- la novela tenga ese impacto tan avasallador que arropa y crea contínuamente nuevos lectores?
L.S: Creo que los lectores que no son de habla de hispana encontraron por fin una novela que les estaba hablando de una Latinoamérica que no es solamente papaya y salsa. Que estaba mostrando un entorno, no desde un punto de vista de la referencia histórica, sino que les contaba una historia de hoy y les estaba mostrando un ambiente amenazado, un mundo como es.