
Mas foi em 1971 que, e apesar da ditadura, se produziu em Portugal a 1ª grande edição do Festival Vilar de Mouros, e o até então maior festival de sempre no país. O clima de paz, amor e liberdade fez com o que o Vilar de Mouros de 71 fosse considerado, tanto para a critica nacional como para a internacional, como o Woodstock português.
Nos fins-de-semana entre os dias 31 de Julho a 15 de Agosto de 71 cerca de 20 mil pessoas (números não oficiais), oriundas de vários pontos da Europa, assistiram às actuações de Elton John e Manfred Mann (que actuaram no fim-de-semana de 7 e 8 Agosto, “dedicado aos jovens”), os nacionais Quarteto 1111, Pentágono, Sindikato, Chinchilas, Contacto, Objectivo, Bridge, Beartnicks, Psico, Mini-Pop, Pop Five Music Incorporated, Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro, Celos, Banda da Guarda Nacional Republicana, Coral Polifónico de Viana do Castelo e o Grupo de Bailado Verde Gaio, abarcando assim o tradicional, o fado, o rock e o pop.
Tal como o Woodstock, o Vilar de Mouros acabou também em grande prejuízo para a organização (cerca de 1000 contos). Só Elton John, que ocupava o segundo lugar do top de vendas de singles em Portugal, recebeu 600 contos, um valor elevadíssimo para a altura. O único subsídio que existiu foi dado pelo Secretariado Nacional de Informação (30 contos).Os outros patrocínios prometidos falharam. Ao todo foram gastos cerca de 2500 contos pagos pela família Barge.
A PIDE e um pelotão de 45 homens da GNR do Porto estiveram presentes no festival mas numa atitude discreta. Registou-se uma única intervenção caricata da PIDE que confundiu a soprano Elisette Bayam com uma imigrante clandestina. Ao contrário das forças policias, a Igreja posicionou-se contra o evento e pedia aos pais que não deixassem os seus filhos ir ao festival por ser organizado por pessoas de “leste”. A família Barge acabou inclusivamente por ser “excomungada”.
No dia 7 de Agosto de 1971, num Sábado cheio de sol, e 2º fim-de-semana de festival, centenas de jovens dirigiram-se a Vilar de Mouros. Com mochilas às costas e à boleia caminhavam em busca de musica “diferente”. Como em Woodstock as estradas encheram-se de carros impedindo a circulação e nos campos verdejantes de Vilar de Mouros ergueu-se uma “aldeia de lona” onde campistas “tocaram viola, cantaram, dançaram e respiraram ar livre”.
A ordem de entrada em palco dos grupos portugueses foi decidida aleatoriamente. Os Sindicato de Edmundo Falé, Jorge Palma e Rão Kyao iniciaram o festival mas a sua actuação, com musicas de 10 minutos, não agradou ao publico. Seguiram-se os Celos, Pop Five Incorporated, Psico e os Bridge, considerados “um dos maiores espectáculos da noite”. Seguiram-se os muito aguardados Quarteto 1111 - que cantaram em inglês para evitar a censura -, os Pentágono - que iriam actuar com Paulo de Carvalho que desistiu de participar quando soube que a banda iria ganhar 30 contos e ele somente 6 – e os Objectivo. Por fim, os muito aguardados Manfred Mann, protagonistas de um concerto de escassos 45 minutos e muito pouco entusiasmante.
O 2º dia dedicado à Música Moderna respeitou os horários e às 17Horas o Quarteto 1111 apresentavam-se pela 2ª vez em palco com uma actuação mais convicta do que a da véspera. Parece essa ter sido também uma característica do festival. As bandas portuguesas actuaram melhor no 2º dia, fruto da sua inexperiência e “falta de rodagem”. Mas o momento alto da noite estaria a cargo do “showman” Elton John. O artista mais caro do festival, O cabeça de cartaz. O publico ficou extasiado mas mesmo assim não exteriorizou o seu entusiasmo. O que deveria ter sido um encore, à 1ª saída (e afinal única) de Elton John, transformou-se em fim. Sem perceber o que era, o público não manisfestou vontade de “um regresso”.
A apatia do público foi a característica dominante do festival. Os jovens não estavam habituados a terem liberdade. Nunca uma tão grande massa de gente se reunira para um evento cultural. A censura e a possível repreensão estavam sempre iminentes. O amadorismo das bandas portuguesas e os longos intervalos entre as actuações também provavelmente contribuiram para essa “apatia”.
“ (...) o pessoal delirou, cantou, dançou, sussurrou (para evitar ouvidos inquisidores), excedeu-se de cabeças recolhidas (enganando olhares indiscretos), dormiu espojado para as estrelas, curou a ressaca, lavou-se no rio e esperou, sem saber, por Abril” (António Amorim).
Texto original e pesquisa de Alexandra Sumares, retirados daqui































