5.3.07

Contra as Bases Militares Estrangeiras

Pela Abolição do Militarismo

Conferência Internacional contra as Bases Militares Estrangeiras, organizada pela Rede Mundial «No-Bases» (International Network for the Abolition of Foreign Military Bases) entre 5 a 9 de Março em Quito, no Equador


Activistas, académicos e políticos de todas as regiões do mundo empenhados a favor da paz estão neste momento reunidos em Quito e Manta, no Equador, entre os dias 5 a 9 de Março a propósito da realização da Conferência Internacional pela Abolição das Bases Militares Estrangeiras espalhadas pelos quatros cantos do mundo.

95% das bases militares instaladas em território de outros países pertencem aos Estados Unidos da América, e os restantes 5% à França, ao Reino Unido, Índia e outros países. Apesar do ponto principal da reunião incida sobre a presença militar do exército norte-americano em muitos países do mundo, o objectivo da reunião é mais vasto e pretende analisar o «papel das bases militares estrangeiras e outras formas de presença militar estrangeira dentro da estratégia de dominação mundial e os seus impactos sobre a população e o meio ambiente.»


Outro objectivo da Conferência é formalizar e fortalecer a rede mundial «Não às Bases» que é integrada por 300 organizações civis de todo o mundo e que nasceu no seio do Fórum Social Mundial.«Esta é a primeira vez que a Rede articulada a nível electrónico se reúne fisicamente para potenciar a luta contra as bases a nível local e a nível global. Num mundo globalizado é necessário debater como uma Rede global põe fortalecer uma rede local e vice-versa e como se pode dar a articulação das lutas e resistências», afirma Anabel Estrella, coordenadora da Conferência.

A tarefa desta Rede de activistas é gigantesca se se tomar conta que os protestos pacíficos visam desafias a política belicista dos Estados Unidos, esse gorila das mil libras, como lhe chama o conhecido intelectual Noam Chomsky. Nesse desafio estam implicados milhões de pessoas de todo o lado que têm levado à organização e à realização de multitudinárias marchas e mobilizações contra a Guerra nos últimos 5 anos, desde que começou a Guerra do Iraque. Algumas dessas figuras estarão presentes na Conferência como é o caso da norte-americana Cindy Sheeham, do filipino Walden Bello, da mexicana Ana Esther Ceceña, de Lidesey Collen, da australiana Hannah Middletom, da professora portoiquenha Deborah Santana, do grego Athansios Pafílis.



A ideia é aquilatar da dimensão das bases militares estrangeiras no mundo. Dados já adiantados mostram-nos que em 2005 existiam 735 bases militares dos Estados Unidos distribuídas pelos cinco continentes. Essas bases representam um valor aproximado de 127.000 milhões de dólares. O total de pessoal militar residente nessas Bases totalizará 1.840.062, que é apoiado por 473.306 funcionário civis do Departamento de Defesa e 230.328 funcionário locais. Além disso, o Pentágono é o maior latifundiário do mundo uma vez que as suas Bases ocupam 12 milhões 726 mil e 669 hectares


Note-se que essas 735 Bases não incluem os chamados Postos avançados de Operações ou os Centros de Segurança Cooperativa, resultantes de acordos de acesso e cooperação assinados com os governos servis dos Estados Unidos e cujo número se eleva a mais de 1.000 locais em todo o planeta. A presença militar não consiste apenas em soldados armados, mas disfarça-se frequentemente sob a capa de missões de ajuda humanitária, missões médicas, missões de construção de escolas, etc.


Na América Latina a base Howard no Panamá foi desmantelada e substituída por outras quatro bases: Compalapa em El Salvador, Reina Beatriz em Aruba, Hato Rey em Curazao y Manta no Ecuador. EM porto Rico existe a de Vieques, nas Honduras há a base de Soto Cano/palmerolas. A estas há a acrescentar a base de Guantánamo que os Estados Unidos ocupam na ilha de Cuba e que se tornou muito conhecida por nela estarem detidos alguns dos chamados inimigos dos Estados Unidos e sobre eles se praticar múltiplas formas de tortura e experiências. A isto deve-se acrescentar 17 radares distribuídos por diversos países latino-americanos como Peru e Colômbia.


A Conferência terminará com uma grande Marcha que sairá de Quito em direcção a Manta onde simbolicamente se realizará um acto público contra a bases norte-americana instalada na cidade, cujo porto foi inteiramente militarizado em prejuízo dos pescadores, para além da sua tradicional tranquilidade ter sido completamente destruída com a chegada dos militares norte-americanos em 2000.

Nota: Os dados foram recolhidos em «737 U.S. Military Bases = Global Empire», escrito por Chalmers Johnson


Para consultar o programa da Conferência e as dezenas de oradores que irão intervir:
http://www.no-bases.net/

Ver ainda:
http://alainet.org/active/15986
http://www.ecuador.indymedia.org/es/index.shtml




As Populações não querem Bases militares estrangeiras nas suas terras

OUTRO MUNDO É POSSÌVEL…se disseres BASTA às Bases Militares Estrangeiras!



Another World is possible if we say “Enough” to the foreign bases implemented around the world due to the negative political, environmental, social and cultural impacts.




The members of the International Organizing Committee (IOC) of the International Conference for the Abolition of Foreign Military Bases, Herbert Docena from Focus on the Global South from Philippines, Andrés Thomas from Democracy Now in USA; Corazón Fabros Valdez from Philippines, member of the International Organizing de Filipinas, integrante del IOC; Lina Cahuasquí, from the Ecuador No Bases Coalition, held a press conference to inform on the main objectives of the No Bases Conference. More than 400 participants from 50 countries will be participating in the Conference that will take place in Quito and Manta from March 5-9.



There are more than 1.000 foreign military bases around the world. The US, Russia, China, the UK and Italy have foreign military bases. Most of them belong to the US. According to official figures, there are 737 US bases in different countries. This does not include the secret military bases, such as the 4 installed in Iraq. In Germany there are 81 US bases and 37 in Japan.



Military bases are used in Iraq for destruction and death. Philippines had military bases in the US for more than 100 year to attack Vietnam and other countries. In this country, one of the most important effects was on human rights and democracy. US supported dictator Marcos with huge amounts of money in exchange of keeping the foreign military bases. Without the support, such a long dictatorship would not have been possible. Only after 1992, after occupation, we see the contamination.



We oppose to the invasion in Iraq and Afghanistan. We rejected the plans to install new bases in these countries and to attack Iran. In Iraq, the negative effect in terms of military and death have been possible, by the installed foreign military bases in that country. Vieques, in Puerto Rico, was contaminated with heavy, chemical metals and with nuclear (Uranian reduced) remainders that effected the water, the human beings and the atmosphere.



In Ecuador, what was offered by the US didn't take place or had negative results. The action has been limited to improve the runway while infantile prostitution, the birth of non-recognized children, and the number of unwished pregnancies have increased. The United States has exceeded their functions when intercepting and sink boats with migrantes. From the base of Manta the boats with drugs are intercepted and they fight the guerrilla.



The national bases opened to joint activities do not escape to being catalogued as foreign bases. In Asia, concretely in Japan and the Philippines, the United States has taken part fixing the accesses to the bases. In exchange for this, the United States can use those accesses and store ordnance. This has been possible by a bilateral agreement to use specific places, nevertheless, the United States uses any place of the Philippines for the joint military maneuverses.



Several bases are presented like places of cooperation and interchange, but these sites maintain communications equipment and are used to spy, as it happens in New Zealand.



In spite of the described panorama, the present world-wide frame of fight against the foreign military bases inspires and gives energy to us. In Italy more than 100 thousand people marched out to express that they will not longer accept the violation of the sovereignty of Italy. We celebrated that the Puerto Rican town has chosen a non-violence active way for the closing of Vieques, after 60 years of American military presence, and is demanding the decontamination and the return of earth.



Ecuador said no to a proposal of the United States to install another military base in the island of Baltra in Galápagos, Panama obtained the exit of the Navy military of the United States. We also celebrated the cease of joint military maneuverses in Uruguay, Argentina and Brazil.



The international Community is here to support the Ecuadorian town in its fight against the base of Manta, as well as to request the support of this town in the fight against the bases of the world. The position of the Ecuadorian Government inspires us to close the base of Manta. But also we are worried about the pressure that exerts the United States on the Ecuadorian Government in order to maintain it. We know that the paper of the Government of Ecuador is the key. We invited president Rafael Correa to our Conference so that the delegates can take the message to their countries that yes it is possible forsmall countries of the South like Ecuador, to defend the peace and the sovereignty, and to say "no" to the United States.



The people who will participate in this Conference that will be held from the 5 to the 9 of March, come, practically, of all the continents. From Greece, the world-wide Secretary of the World-wide Council for peace will come; Brazil will be presented by Socorro Robles. We will count on the presence of Sindy Sheehan, mother of one of the soldiers who died in Iraq.



The Conference reunites,not only activists, but also parlamentarians of Europe, Brazil and Venezuela. The Conference wants to analyze the impacts that the presence of foreign bases causes and to emphasize the local fights anywhere in the world. For that reason on the first day of the Conference, the activists of the social movements will share their fights, achievements and also certain failures. On the second day, we will plan the strategies to continue with our actions. Here in Quito the conference will finish with a great cultural festival, in which a campaign of solidarity for the definitive closing of the base of Manta will be sent. In the city of Manta we will spread what happens in the military base, and fight against its presence. In this city the Conference will be closed with another cultural festival.



Quito 2 of March of 2007

Communication Team

The International Conference for the Abolition of Foreign Military Bases

Contact: Edgar Andrade

Solidarity Forever - Sempre solidários

Solidarity Forever é uma canção que foi escrita pelo músico e activista sindical Ralph Chaplin em 1915 no âmbito da actvidade sindical do IWW (International Workers of World), usando a música de Julia Ward em Battle hymn of the Republic.

Mais tarde é retomada por Pete Seeger como tributo a todos os trabalhadores que se sacrificaram na luta por um mundo melhor.



When the Union's inspiration through the workers' blood shall run,
There can be no power greater anywhere beneath the sun.
Yet what force on earth is weaker than the feeble strength of one?
But the Union makes us strong.


Solidarity forever!
Solidarity forever!
Solidarity forever!
For the Union makes us strong.

Is there aught we hold in common with the greedy parasite
Who would lash us into serfdom and would crush us with his might?
Is there anything left to us but to organize and fight?
For the Union makes us strong.

[chorus]


It is we who plowed the prairies; built the cities where they trade;
Dug the mines and built the workshops; endless miles of railroad laid.
Now we stand outcast and starving, 'midst the wonders we have made;
But the Union makes us strong.

[chorus]

All the world that's owned by idle drones is ours and ours alone.
We have laid the wide foundations; built it skyward stone by stone.
It is ours, not to slave in, but to master and to own,
While the Union makes us strong.

[chorus]

They have taken untold millions that they never toiled to earn,
But without our brain and muscle not a single wheel can turn.
We can break their haughty power; gain our freedom when we learn

That the Union makes us strong.


[chorus]


In our hands is placed a power greater than their hoarded gold;
Greater than the might of armies, magnified a thousand-fold.
We can bring to birth a new world from the ashes of the old.
For the Union makes us strong.

[chorus]



L'Affiche Rouge ( Aragon)

Letra de Aragon
Musica e voz de Léo Ferré


Vous n’avez réclamé ni gloire ni les larmes
Ni l’orgue ni la prière aux agonisants
Onze ans déjà que cela passe vite onze ans
Vous vous étiez servis simplement de vos armes
La mort n’éblouit pas les yeux des Partisans

Vous aviez vos portraits sur les murs de nos villes
Noirs de barbe et de nuit hirsutes menaçants
L’affiche qui semblait une tache de sang
Parce qu’à prononcer vos noms sont difficiles
Y cherchait un effet de peur sur les passants

Nul ne semblait vous voir Français de préférence
Les gens allaient sans yeux pour vous le jour durant
Mais à l’heure du couvre-feu des doigts errants
Avaient écrit sous vos photos MORTS POUR LA FRANCE
Et les mornes matins en étaient différents

Tout avait la couleur uniforme du givre
A la fin février pour vos derniers moments
Et c’est alors que l’un de vous dit calmement
Bonheur à tous Bonheur à ceux qui vont survivre
Je meurs sans haine en moi pour le peuple allemand

Adieu la peine et le plaisir Adieu les roses
Adieu la vie adieu la lumière et le vent
Marie-toi sois heureuse et pense à moi souvent
Toi qui vas demeurer dans la beauté des choses
Quand tout sera fini plus tard en Erivan

Un grand soleil d’hiver éclaire la colline
Que la nature est belle et que le cœur me fend
La justice viendra sur nos pas triomphants
Ma Mélinée ô mon amour mon orpheline
Et je te dis de vivre et d’avoir un enfant

Ils étaient vingt et trois quand les fusils fleurirent
Vingt et trois qui donnaient le cœur avant le temps
Vingt et trois étrangers et nos frères pourtant
Vingt et trois amoureux de vivre à en mourir
Vingt et trois qui criaient la France en s’abattant







Leo Ferre- L'affiche rouge

A merda do prof. Martelo

Mão amiga enviou-me esta história que partilho agora aqui. Leiam e riam-se.


O famoso comentador da TV, Marcelo Rebelo de Sousa, seguia a bordo de um avião, de Lisboa para o Porto. Ao seu lado, reparou num garoto de uns 10 anos, de óculos com ar sério e compenetrado. Assim que o avião descolou, o garoto abriu um livro, mas Marcelo Rebelo de Sousa puxou conversa.

- Ouvi dizer que o voo parece mais curto se conversarmos com o passageiro do lado. Gostarias de conversar comigo?
O garoto fechou calmamente o livro e respondeu:
- Talvez seja interessante. Qual o tema que o Sr. gostaria de discutir?
- Ah, que tal política? Achas que devemos reeleger Pedro Santana Lopes ou dar uma chance a José Sócrates?
O garoto suspirou e replicou: - Pode ser um bom tema, mas antes preciso de lhe fazer uma pergunta.
- Então manda! - Encorajou MarceloRebelo de Sousa.
- Os cavalos, as vacas e os cabritos comem a mesma coisa, certo? Pasto, ervas, rações. Concorda?
- Sim. - Disse MarceloRebelo de Sousa.
- No entanto, os cabritos excrementam bolinhas, as vacas largam placas de bosta e os cavalos grandes bolas... Qual é arazão para isto?
Marcelo Rebelo de Sousa pensou por alguns instantes, mas confessou que não sabia a resposta...E o garoto concluiu:
- Então como é que o senhor se sente qualificado para discutir quem deve governar Portugal, se não entende de merda nenhuma?

Pedro pedreiro ( Chico Buarque)



Pedro pedreiro penseiro
esperando o trem
Manhã parece, carece
de esperar também para o bem
de quem tem bem
de quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem,
esperando aumento
desde o ano passado
para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem



FUNERAL DO LAVRADOR
(João Cabral de Melo Neto, voz de Chico Buarque)

Pau de arara ( Vinicius de Morais)

Pau de Arara
( letra de Vinicius de Morais, e voz de Zélia Barbosa)


Eu um dia cansado que tava
da fome que eu tinha
eu não tinha nada
que fome que eu tinha ,
que seca danada no meu Ceará
eu peguei e juntei
um restinho de coisas que eu tinha :
duas calças velhas e uma violinha
e num pau de arara
toquei para cá.
E de noite eu ficava na praia de Copacabana
zazando na praia de Copacabana
dançando o chachado pras moças olhá

Virgem Santa
que a fome era tanta
que nem voz eu tinha
Meu Deus quanta moça
que fome que eu tinha

Mais fome que tinha no meu Ceará
puxa vida que num tinha uma vida
pior do que a minhaque vida danada , que fome que eu tinha
zazando na praia pra lá e pra cá
quando eu via toda aquela gente
no come que come
eu juro que eu tinha saudades da fome
da fome que eu tinha no meu Cearà
e ai eu pegava e cantava
e dançava o xaxado
e só conseguia porque no xaxado
a gente só pode mesmo se arrastá.

Virgem Santa
que a fome era tanta
qu'inté parecia que mesmo xaxado
meu corpo subia
igual se tivesse querido voar.

Vou-me embora pró meu Ceará
porque lá tenho um nome
aqui não sou nada
sou só Zé com fome
sou só Pau de Arara
nem sei mais canto
vou picar minha mula
vou antes que tudo rebente
porque estou achando que o tempo está quente
pior do que antes não pode ficar.

Mais de 120 mil trabalhadores nas ruas de Lisboa em protesto contra o Governo Sócrates

Face ao silenciamento quase absoluto a que a grande manifestação da CGTP realizada no passado dia 2 de Março foi votada pelos media torna-se imperioso dar notícia desse acontecimento que revela o descontentamento e o grau de contestação que se vai espalhando pelo país fora face à política liberal do governo Sócrates e que atinge os mais pobres e carenciados.
Na verdade não é só a política de saúde e a política educativa que geram revolta e insatisfação junto da população mas toda a orientação governativa que, sob o pretexto da contracção orçamental, vai tomando as mais variadas medidas lesivas do bem estar dos trabalhadores portugueses.



http://www.cgtp.pt/index.php


Manifestação da CGTP foi provavelmente "a maior de todos os tempos"


A concentração nacional convocada pela CGTP, sob o lema “Juntos pela mudança de políticas”, entupiu as principais artérias de Lisboa. Aderiram ao protesto mais de 120 mil pessoas de todo o país, no que foi o maior número de manifestantes em dois anos do Governo liderado por José Sócrates. As críticas mais fortes visaram as políticas seguidas pelo Executivo socialista nas áreas da saúde e da educação.


A manifestação concentrou, durante quatro horas, trabalhadores dos sectores público e privado, que encheram as ruas e pararam o trânsito, do Saldanha aos Restauradores, e da Av. da Liberdade até junto à Assembleia da República, por onde passaram 120 mil pessoas, segundo afirmou ao PÚBLICO a PSP no local.Contudo, a organização do protesto referiu a presença de entre 130 mil a 150 mil manifestantes, o que supera a concentração realizada também pela Intersindical no passado dia 12 de Outubro – juntou na capital entre 80 mil e cem mil pessoas.


A dar voz a todos os protestos esteve o secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, que, em frente à Assembleia da República, quando ainda muitos manifestantes estavam na Avenida da Liberdade, proferiu o discurso de encerramento da concentração nacional, que terminou já depois das 18h30, com a aprovação de novas manifestações a concretizar durante a presidência portuguesa da União Europeia.


Descontentamento pelas condições de vida e de trabalho


Carvalho da Silva considerou, no final, que a manifestação foi provavelmente "a maior de todos os tempos" e um grande protesto contra as políticas seguidas pelo Governo, acrescentando que, mais uma vez, os trabalhadores portugueses se mobilizaram para mostrar o descontentamento pelas actuais condições de vida e de trabalho.O desemprego, a precariedade laboral, o aumento do custo de vida e a formação profissional foram as principais questões abordadas pelo sindicalista no seu longo discurso.


.Às 14h30, a hora marcada para o início da concentração, já se encontravam milhares de trabalhadores do sector privado no Saldanha – os da Administração Pública reuniram-se à mesma hora nos Restauradores, juntando-se depois a meio da Avenida da Liberdade –, mas a longa marcha de alguns quilómetros começou apenas uma hora depois.


“Com razão protestamos e lutamos por políticas socialmente justas”, podia ler-se num cartaz transportado por manifestantes de Leiria, enquanto, ali ao lado, Domingos Rodrigues, de Setúbal, “dirigente sindical a tempo inteiro”, tentava começar a coordenar-se com os outros homens da organização do protesto.


“Tenho estado sempre ao lado da luta dos trabalhadores. Há ainda centenas de autocarros a entrar em Lisboa”, disse Domingos Rodrigues, quando eram 14h40, mostrando-se satisfeito com a multidão à sua volta e com o número de pessoas esperado.


“O custo de vida aumenta, o povo não aguenta”


Entre a música de José Afonso que ecoava das inúmeras colunas de som, os incessantes bombos e as palavras de ordem entoadas sempre contra o Governo – “O custo de vida aumenta, o povo não aguenta” ou “Direitos conquistados não podem ser roubados” –, o reformado José Guerreiro, 71 anos, quis que o seu protesto também fosse ouvido: “Este Sócrates não aguenta muito tempo, é só a determinação que o aguenta”.


“A saúde faz imensa falta à população. Estão a atacá-la de uma maneira estúpida”, vincou José Guerreiro, que fez questão de sublinhar – “escreva aí” – que foi preso político antes do 25 de Abril de 1974 durante oito anos, em Peniche e Lisboa.


Já para António Vinhas, um professor de Coimbra, de 54 anos, as questões relativas à educação são as mais preocupantes, nomeadamente o “encerramento arbitrário de escolas”. O docente considerou ainda que “o Ministério da Educação está cheio de burocratas que não sabem nada de ensino”.

4.3.07

VI Encontro Internacional de Poetas (Coimbra 24 a 27 de Maio)


"I am large. I contain multitudes."
Walt Whitman

VI Encontro Internacional de Poetas


"Poesia e Violência"


Coimbra, 24-27 Maio 2007 (FLUC/CES)


O VI Encontro Internacional de Poetas conta já com a presença confirmada do/as seguintes poetas:


Alemanha- Zehra Çirak (http://www.juergen-walter.com)


Angola- Chó do Guri


Brasil- Claudia Roquette-Pinto- Márcio-André (http://www.confrariadovento.com)


Cabo Verde- José Luís Tavares




Chile/Holanda- Myriam Dias-Diocaretz


China - Xiao Kaiyu


Cuba- Pedro Marqués de Armas


Espanha - Alexandre Nerium - Helena Villar- Jesús Munárriz- Miro Villar - Ramiro Fonte - Xesús Rábade Paredes


EUA- C. D. Wright - Forrest Gander- Joan Retallack - John Taggard- Stephen Rodefer



Holanda- Arjen Duinker


Irlanda- Eiléan ní Chuilleanóin - Macdara Woods


Israel- Yitzhak Laor



Palestina- Faiha Abdulhadi- Mourid Barghouti


Perú- Ch’aska Anqa Ninawaman- Roxana Crisólogo (http://www.roxanacrisologo.com)


Portugal- Alberto Pimenta- António Jacinto Pascoal- Feliciano de Mira- Gastão Cruz- João Rasteiro- Regina Guimarães- Sandra Guerreiro


Reino Unido- Jonathan Morley- Maggie O’Sullivan (http://www.maggieosullivan.co.uk)


S. Tomé e Príncipe- Conceição Lima


A informação dos presentes estará em permanente actualização e a Organização apresentará em breve a lista completa dos poetas convidados e também o programa do evento. A Comissão Organizadora.



Mais info:




Os Urban Center e a gestão informada e participada da cidade

SEMINÁRIO

Os Urban Center e a gestão informada e participada da cidade.

GIOVANNI ALLEGRETTI, arquitecto(CES e Università degli Studi di Firenze).

INTRODUÇÃOJosé António O. Bandeirinha, arquitecto(CEARQ e Departamento de Arquitectura da FCTUC)7

de Março de 2007, 18:00h.

Local: Departamento de Arquitectura da FCTUC, Sala T2, Colégio das Artes, Largo de D. Dinis


Organização: CEARQ, CES (Núcelo de estudos de Democracia, Cidadania Multicultural e Participação)

Apoio: ProUrbe, Associação Cívica de Coimbra


http://www.darq.uc.pt/estudos/inicio.html

Para Além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes

Conferência na Faculdade de Economia de Coimbra em
6 de Março de 2007, 15:00h,
Sala Keynes - Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Entrada livre - Inscrição

Programa

15h00 - Abertura

15h10
"Para Além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes"Boaventura de Sousa Santos (CES/FEUC)

16h00 – 16h30
Para Além do Pensamento Abissal: comentários a partir das Ciências Sociais e Humanas António Sousa Ribeiro (CES/FLUC) Margarida Calafate Ribeiro (CES) Paula Meneses (CES)

16h30 - 17h – Intervalo

17h – 17h45
Para Além do Pensamento Abissal: comentários a partir do Direito Joaquín Herrera Flores (Universidad Pablo Olavide, Sevilha, Espanha) Conceição Gomes (CES) João Pedroso (CES/FEUC) Cecília MacDowell dos Santos (CES/University of San Francisco)

17h45 - 19h - Debate

Moderação da Conferência: António Sousa Ribeiro (CES/FLUC)

Com o apoio dos Núcleos do CES "Estudos do Estado, do Direito e da Administração", "Estudos de Democracia, Cidadania Multicultural e Participação", e "Estudos Culturais Comparados".


Resumo:

O pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal. Baseia-se em linhas radicais que dividem a realidade social em dois universos distintos: o universo "deste lado da linha" e o universo "do outro lado da linha". A divisão é tal que "o outro lado da linha" desaparece enquanto realidade, torna-se inexistente, e é mesmo produzido como inexistente. Tudo aquilo que é produzido como inexistente é excluído de forma radical porque permanece exterior ao universo que a própria concepção aceite de inclusão considera como sendo o Outro. Deste modo, a característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade de uma co-presença dos dois lados da linha. O "outro" lado da linha abissal é um universo que se estende para além da legalidade e ilegalidade, para além da verdade e da falsidade (crenças ininteligíveis, idolatria, magia). Juntas, estas formas de negação radical produzem uma ausência radical, a ausência de humanidade, a sub-humanidade moderna. Assim, a exclusão torna-se simultaneamente radical e inexistente, uma vez que seres sub-humanos não são considerados sequer candidatos à inclusão social [1]. A humanidade moderna não se concebe sem uma sub-humanidade moderna [2]. A negação de uma parte da humanidade é sacrificial, na medida em que constitui a condição para a outra parte da humanidade se afirmar enquanto universal[3) .

O meu argumento nesta comunicação é que esta realidade é tão verdadeira hoje como o era no período colonial. O pensamento moderno ocidental continua a operar mediante linhas abissais que dividem o mundo humano do sub-humano, de tal forma que princípios de humanidade não são postos em causa por práticas desumanas. As colónias representam um modelo de exclusão radical que permanece actualmente no pensamento e práticas modernas ocidentais tal como acontecia no ciclo colonial. Hoje, como então, a criação e ao mesmo tempo a negação do outro lado da linha fazem parte integrante de princípios e práticas hegemónicos. Hoje, como então, a impossibilidade de uma co-presença entre os dois lados da linha continua a ser absoluta. Hoje, como então, a civilidade legal e política deste lado da linha baseia-se na existência da mais absoluta incivilidade do outro lado da linha. Actualmente, Guantánamo representa uma das manifestações mais grotescas do pensamento legal abissal, da criação de um outro lado da linha enquanto um não-território em termos legais e políticos, um espaço impensável para o primado da lei, dos direitos humanos e da democracia. Porém, seria um erro considerá-lo uma excepção. Há muito Guantánamos, desde o Iraque à Palestina e a Darfur. Mais do que isso, existem milhões de Guantánamos nas discriminaçãoes sexuais e raciais quer na esfera pública, quer na privada, nas zonas selvagens das mega-cidades, nos guetos, nas sweatshops, nas prisões, nas novas formas de escravatura, no tráfico ilegal de órgãos humanos, no trabalho infantil, e na prostituição.

O primeiro ponto do meu argumento é que a tensão entre regulação e emancipação continua a coexistir com a tensão entre apropriação e violência, ao ponto de a universalidade da primeira tensão não ser questionada pela existência da segunda. Em segundo lugar, argumento que as linhas abissais continuam a estruturar o conhecimento e a legalidade modernos. Por fim, o meu terceiro ponto é de que estas duas linhas abissais são partes constitutivas das próprias relações e interacções políticas e culturais de origem ocidental no sistema mundial moderno. Resumindo, a cartografia metafórica das linhas globais sobreviveu à cartografia literal das linhas de amizade que separavam o Velho do Novo Mundo. A injustiça social global está, desta forma, intimamente ligada a uma injustiça cognitiva global. Por isso, a luta pela justiça social global tem de ser também uma luta pela justiça cognitiva global. Para conseguir ter sucesso, esta luta necessita de um novo pensamento: um pensamento pós-abissal.

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[1] Na verdade, a suposta exterioridade do outro lado da linha é consequência da sua dupla pertença ao pensamento abissal: enquanto fundador e ao mesmo tempo enquanto negação desse fundamento.
[2] Fanon denunciou esta negação de humanidade com uma lucidez inexcedível. O extremismo dessa negação constitui o fundamento que leva Fanon a defender a violência como uma dimensão intrínseca à revolta anti-colonial. O contraste entre o pensamento de Fanon e de Gandhi a este respeito, ainda que partilhando a mesma luta, deve ser objecto de uma reflexão cuidadosa, particularmente porque foram dois pensadores-activistas muito importantes do último século.
[3] Esta negação fundadora permite, por um lado, que tudo o que é possível se torne uma possibilidade de tudo, e por outro, que a criatividade celebratória do pensamento abissal trivialize tão facilmente o preço da sua própria destruição.



http://www.ces.uc.pt/misc/papa.php

As desigualdades sociais e a desvalorização dos diplomas


Texto retirado de Jornal universitário de Coimbra A Cabra (06/02/2007)

Autor:
Elísio Estanque
estanque@fe.uc.pt

A actual convulsão do mercado de trabalho e a crescente precariedade no emprego, induzidas pela globalização da economia, recolocaram de novo as desigualdades sociais no centro das preocupações. E a desvalorização dos títulos académicos, no quadro das mudanças em curso no ensino superior, insere-se nesse processo.
Durante o século passado, e sobretudo desde o pós-Guerra, o desenvolvimento tecnológico e a modernização do sistema produtivo elegeram as qualificações – e portanto os diplomas escolares – como critério decisivo de recrutamento de funcionários e técnicos nas mais diversas áreas da administração e do mercado de trabalho, fazendo assim engrossar a nova "classe média" ou os, também designados, empregados de "colarinho branco". O alargamento do ensino público e a crescente democratização do acesso à universidade, em particular devido à acção do Estado providência nas sociedades democráticas mais avançadas, instituíram o ensino superior como uma plataforma fundamental de mobilidade social ascendente.
Em Portugal este processo ocorreu, como se sabe, num período bem mais recente do que noutros países, e ainda assim permeado por múltiplas contradições e insuficiências. Durante muito tempo o acesso a um diploma universitário permitiu, no nosso país, aceder com relativa facilidade a um emprego qualificado, com o correspondente estatuto social, e, além disso, o próprio diploma "universitário" constituía em si mesmo um importante símbolo de status. Isto, enquanto o acesso à universidade era exclusivo das elites.
A formação escolar, lado a lado com a situação socioprofissional e o nível de rendimento, constituem os três critérios basilares de definição do "estrato" ou "classe social" a que se pertence. Mas é preciso notar, por um lado, que as condições "de partida" (ou seja, a classe de origem) são muitas vezes determinantes da posição que se consegue alcançar, quer no nível educacional quer em todos os outros indicadores de status, desde logo porque a própria família, as suas posses e por vezes até o nome, é em si mesma um elemento importante na definição do prestígio e das oportunidades de cada um. Por outro lado, a importância de um dado recurso – por exemplo o diploma de "licenciatura" – é tanto maior quanto mais ele for escasso, e portanto, vai-se desvalorizando à medida que se massifica. É nesse sentido que se pode dizer que as desigualdades sociais não se fundam apenas em diferenças gradualistas, mas sim numa lógica de classe que perpetua os privilégios de umas à custa da exclusão ou exploração de outras.
Num cenário como o actual, em que o grau de licenciatura está a tornar-se acessível a uma parte significativa dos jovens portugueses (embora apenas a uma minoria dos filhos da classe baixa), o acesso aos diplomas académicos mais elevados e exigentes obedece à mesma lógica selectiva. O grau de licenciatura vem perdendo valor distintivo à medida que o título de "Dr" se banaliza. Quer isto dizer que a disputa em torno dos títulos escolares é expressão das contradições estruturais e dos conflitos de classe que continuam em vigor na nossa sociedade. Mesmo quando estes se esbatem no plano político continuam muito vivos no plano simbólico. Assim, a tendência será para que as famílias das elites pressionem no sentido de criar condições para que os seus filhos alcancem graus de mestrado e doutoramento e frequentem as escolas mais exigentes (e mais caras). Não se trata aqui de uma estratégia intencional, mas de um processo social que objectivamente cria novas e sucessivas barreiras, de modo a que atravessá-las seja sempre mais difícil. Desde logo, porque subir mais um patamar no ensino superior exige uma despesa incomportável para as classes baixas – além de ser impossível por razões económicas, em geral não chega sequer a ser percepcionado como necessidade – e, depois, porque os critérios de selecção para os bons empregos obedecem aos mesmos valores das próprias elites e tendem, portanto, a fazer prevalecer a defesa dos seus interesses específicos.
Como afirmou recentemente o conhecido sociólogo Ralf Dahrendorf, mesmo aqueles (poucos) que chegam às elites pelo seu talento fecham as portas atrás de si logo que tenham alcançado o seu status. "os que lá chegaram por ‘mérito’ passam a querer ter tudo o resto – não apenas poder e dinheiro, mas também a oportunidade de decidir quem entra e quem fica de fora". Assim, pode dizer-se que a retórica da "meritocracia" não passa, regra geral, disso mesmo, nomeadamente no acesso ao emprego de um jovem recém formado. Em vez disso, parecem cada vez mais fortes as redes informais e o "capital social", o que remete directamente para a questão das influências que a família de origem possui. Muito embora a formação superior e o diploma avançado seja um requisito fundamental, ele exige como complemento decisivo, não apenas o mérito e o conhecimento, mas sim conhecer quem vai abrir a porta. Como dizem os ingleses «the important is not what you know, but who you know». E isto é também uma questão "de classe".

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http://boasociedade.blogspot.com)

Apresentação do novo livro de A. Pedro Ribeiro - Saloon


A. Pedro Ribeiro lançou ontem o seu novo livro de poesia na Livraria Pulga , Saloon, editado pelas Edições Mortas.. A sessão contou com intervenções poéticas e experimentalistas do autor, do editor António Oliveira, e dos "diseurs" João Tiago e Luis Carvalho.

Vocalista da banda Mana Calorica & Las Tequillas participou em inúmeras performances, sessões de poesia e espectáculos teatrais e musicais em vários lugares, bares, tascos e saloons do país.

O livro tem nova apresentação marcada para o Púcaros Bar, também no Porto (à Alfândega) no dia 7, quarta, pelas 23,30 horas.


Saloon narra também a história dos bares e da noite na cidade, das mulheres que amamos e que passam por nós, do sexo que tarda a vir ou vem logo, da prostituição, das bailarinas, dos "barman", das personagens da noite, da antiga liberdade. Tem igualmente um lado místico/messiânico, retoma, em três ou quatro poemas, o dada/surrealismo da Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro mas não renega a revolta pura em textos como Porto 2001 ou A Arder.
O livro é vendido na «A Pulga, a minha querida livraria», para onde podem ser dirigidas quaiquer pedidos.

Morreu o escritor João Alfacinha da Silva, dito Alface

Retirado de:
http://frenesi-livros.blogspot.com/


«Sou um escritor, um desempregado de longa duração» ( Alface)


Reprodução de uma sua entrevista dada a maria joão Seixas e publicada em 2005 no jornal Público


Registado como João Alfacinha da Silva, no Alentejo que o viu nascer, foi mais tarde alcunhado por um colega de liceu, já na orla da capital, e transmutou-se em – Alface. Bem lhe deve ter sabido a nova e abonada graça, mantidos o verde e o vegetal dos radicais próprios, porque logo a adoptou. Até hoje.Assim passou a assinar tudo o que escreve e é a esse nome que responde, em trato íntimo ou mais formal. Pratica um humor desmanchado, sempre à margem das convenções do dia e guarda prudentes distâncias da crista das ondas locais. No que respeita à sua prosa ficcional pertence, de há alguns anos, à família dos autores publicados por uma editora especificamente singular – a Fenda; autor e editor espelham nesta relação o jogo, mais que operacional, da mão e da luva. Encaixam-se como poucos e é de crer que muito se divirtam pelo correr da aventura de dar forma publicável à obra, até que as páginas impressas surjam nas bancas e possam atingir o anónimo leitor (invariavelmente picado pelo chiste dos títulos), sujeito então a reagir com risos e risinhos, uma ou outra gargalhada, alguns sorrisos. O tom geral de cada livro é acidulado, por vezes desconfortável, já que o registo narrativo e a intenção que nele se pressente, vem ditado por uma lupa irónica, que observa o tempo e o lugar dos intervenientes na acção por ângulos onde a complacência não tem direitos adquiridos. Alface inventa para as suas personagens um "modus" de existir que só a moldura caricatural, onde as inscreve, consente adoçar. Mas, como se exige ao bom tempero de uma salada, são as gotas de limão ou o fio de vinagre que realçam o gosto dos verdes vegetais e assim conseguem entreter o nosso paladar. O seu último romance é digno da leitura de qualquer alfacinha, particularmente no mês de Junho, ainda para mais neste ano da graça do Senhor com eleições autárquicas. A percorrer as páginas lá se encontra (entre muitas outras idiossincrasias da cidade e do seu governo) o reconhecimento afectivo de um bairro, o som coreografado das marchas, o cheiro a sardinhas, a evocação do mais popular de todos os santos… O título não ilude: Cá Vai Lisboa. – M.J.S.

Maria João Seixas – Alface, diz-me quem és.
João Alfacinha da Silva – Hoje? Hoje, acho que sou o rapaz do trapézio voador, uma atracção do circo; sou um escritor, um desempregado de longa duração. Nasci no Alentejo, em Montemor-o-Novo, onde vivi a infância e parte da adolescência; vim para o Liceu de Oeiras, donde transitei, por desígnio familiar, para Direito; por ali andei três anos, mais pelo bar de Letras do que pelas aulas da minha faculdade, acumulando com o experimentar de Lisboa à noite, mais os copos e as brincadeiras adjacentes; depois desisti e ainda estive cerca de um ano numa outra bizarria chamada ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), onde à época abundavam católicos progressistas e seminaristas com grandes sapatos. Também não tive jeito para aquilo. Achei graça, a posteriori, ver que o meu calvário académico coincidia com o do general Eanes, que também andou em Direito e no ISPA. Entretanto, tive de começar a trabalhar, primeiro no jornal República e depois, por convite do Álvaro Guerra, fui escrever para televisão, para uns programas produzidos pelo João Martins – o Ensaio e o Impacto; a seguir a uma desavença com o produtor, o Guerra, o Zé Nascimento, os irmãos Matos Silva e eu rompemos com essa colaboração e decidimos criar uma nova cooperativa de cinema; ainda processámos o antigo patrão, mas o nosso advogado, que era o Marcelo Curto, com o rebentar do 25 de Abril andava mais virado para a revolução do que para o nosso processo e só com alguma ajuda do Galveias Rodrigues é que a Cinequipa conseguiu aguentar-se; entrei por essa altura para a antiga Emissora Nacional, onde conheci pessoas muito curiosas, o Herberto Helder e outras, de quem me tornei amigo. Fui continuando a escrever textos para rádio e televisão, até que me chateei com uma fase muito "militante" que atravessou a RTP durante um certo tempo e saí da Cinequipa; mantive-me durante 20 anos na rádio, já chamada Rádio Comercial, colaborando episodicamente em jornais e televisão. Casei e tenho duas filhas; a mais velha é pintora e designer gráfica e a outra é bailarina, a estudar de momento em Bruxelas; já sou avô. Quando saí da rádio, por volta de 92, fiz uma daquelas idiotias que muitos eram tentados a fazer – imaginei que poderia sobreviver como free-lancer.Ainda não referiste outra tentação, a da escrita ficcional, que nunca mais te abandonou e que já tinha feito surgir, pelas voltas do percurso que acabas de alinhar, alguns livros de tua autoria.Pois. Em 1977 publiquei, em parceria com Manuel da Silva Ramos (regressado de um exílio em França), o primeiro livro de uma trilogia de ficção, Os Lusíadas, editado pela Assírio & Alvim; o segundo, As Noites Brancas do Papa Negro, é de 82 e o terceiro, Beijinhos, saiu em 96 (um editado pela Regra do Jogo, outro pela Fenda). Esta trilogia, a que demos o nome genérico de «Tuga», era uma espécie de meditação ficcional sobre Portugal: Os Lusíadas correspondiam ao movimento de expulsão, à descoberta, à saída para o mundo; As Noites Brancas… referem-se ao estar lá fora, a um tempo de pousio e Beijinhos é o adeus, o rebarrigar outra vez, ditado pelo fim do Império, pelo acabar da aventura planetária, com o consequente regresso à fonte matricial de retornados e emigrantes. Escrevi ainda dois livros de contos, já sozinho. O primeiro – Cuidado com os Rapazes (que vai ser reeditado este ano) – motivou até uma história que se tornou famosa, com Pedro Santana Lopes, à época presidente do Sporting: a editora e eu decidimos fazer sair, para efeitos de marketing, um autocolante que dizia apenas – «Cuidado com os rapazes», e que foi enviado dentro de envelopes brancos, pelo correio, para uma série de nomes e moradas; era um teaser promocional, barato e simples, mas ele veio para a televisão dizer que andava a ser ameaçado e que ia entregar o caso à PJ para, através da análise de impressões digitais, tentar localizar os autores; mandei-lhe o livro e uma carta a explicar o que era aquilo e a história morreria por ali, não fora a glosa de alguns comentadores de serviço; enfim, a coisa não lhe correu lá muito bem. Escrevi ainda uma série de livros juvenis – Um Pai Porreiro Ganha Muito Dinheiro; Uma Mãe Porreira É Prá Vida Inteira; Filhos Assim Dão Cabo De Mim; Avó Não Pise o Cocó; A Prima Fica por Cima. Trata-se de uma história dividida em cinco livros, com as mesmas personagens, que veio depois a sair no Círculo de Leitores, num só volume, com o título Uma Família Sem Mestre. O segundo livro de contos chama-se O Fim das Bichas, e leva um subtítulo irónico – «O fim das bichas é o princípio das filas». Em 2004 saiu o meu primeiro romance a solo: Cá Vai Lisboa.


Para além da literatura, outras colaborações (umas mais episódicas do que outras) têm ocupado a tua vida, como atrás referiste – para a rádio, televisão e jornais. Consegues apontar como preferencial, para a escrita que praticas, algum destes três meios?
Talvez a escrita para televisão. Passei por uma experiência engraçada, que foi coordenar durante um ano um grupo de argumentistas de telenovelas, na NBP, para a TVI. Tenho pena que o género não seja mais bem feito, porque acho o formato muito engraçado, em termos de agilidade da escrita; é um sucedâneo do "roman feuilleton", dos folhetins, no fundo é uma linguagem televisiva, mas contemporânea, de coisas que vêm do tempo da Maria Cachucha. Também não tive muito jeito, ou paciência, para continuar por ali e, se calhar, o meu lado elitista entrou em colisão com aquela maneira de escrever, porque havia coisas que me custavam a engolir.

O teu lado elitista?!!
É o gostar de imaginar que a literatura, no seu melhor, é para pouca gente. Sou muito ligado à forma de escrever, prezo muito uma escrita com dinamite dentro, exigente de um ponto de vista formal. O que escrevo tem de me agradar a mim, seja romance, argumento ou diálogos de novela. Como a escrita é o que verdadeiramente me dá prazer e como em literatura não gosto, de facto, de muitas coisas, torna-se complicado aceitar um determinado número de soluções.

É território onde não fazes concessões?
Já fiz menos – os meus primeiros livros (escritos em parceria) eram mais radicais, ao nível de uma linha joyceana de trabalhar as palavras ao limite, quase na ordem da antileitura; depois, já a escrever a solo, os livros foram ficando mais "legíveis", digamos assim. Como não escrevo ficção por dinheiro (não está dito em lado nenhum que tenha de ganhar dinheiro com a literatura), esse é o meu espaço de liberdade, onde só faço aquilo que quero; ora a escrita de televisão, rádio e jornais, é necessariamente uma escrita de compromisso, para o grande público, em funil aberto, ao passo que a literatura pode funcionar para nichos de afinidades e sensibilidades electivas. Não tenho a presunção, seria incapaz, de assumir uma lógica de best-seller.

Segues as vendas dos teus livros?
A Fenda é uma casa pequena, marginal, que funciona ao arrepio de alguma lógica comercial, e nisso é uma editora quase suicidária. Publica obras que não cabe na cabeça de ninguém publicar. O Vasco Santos é um editor único – tanto publica coisas inacreditavelmente boas, que podem passar despercebidas, como não resiste a dizer que sim a um amigo que escreveu não sei quê e lá fica o armazém cheio de livros que não vendem; também não é de fazer o follow-up mediático dos livros, está fora dos sistemas de promoção. Esse lado quase clandestino da editora agrada-me muito. Talvez seja uma ideia discutível ou romântica, mas acho que a melhor literatura é uma coisa para pouca gente. Para a muita gente há muitos livros, muitos deles estimáveis, mas os verdadeiramente bons são para poucos. Será um tique classista, mas para mim alguns dos melhores prazeres são para raros, embora admita que a comoção a ver uma telenovela seja tão legítima como a de ver um filme do Kubrick. Não há mensurabilidade para a emoção ou para o sentido do prazer que as pessoas sentem; a mim ocorre-me, por exemplo, comover-me com coisas pífias – não digo que me comova desalmadamente com Música no Coração, mas já me aconteceu com filmes de fraca qualidade, uns livros menos bons, alguns momentos colectivos, comover-me absolutamente. Se calhar com coisas que não merecem.

E quem é que define o merecimento de que falas?
Que pretensão te assiste para dizeres "Comovi-me com isto, mas isto não merece a minha comoção"?Acho que nalgumas coisas tu consegues topar o truque de que são compostas; no cinema, por exemplo, é frequente isso acontecer ou, na escrita, onde também consegues dar-te conta das costuras de fabrico. Mas, independentemente das artimanhas, por vezes não deixas de ser tocado por um conjunto de emoções, digamos, primárias, pouco elaboradas ou imediatistas. A adesão que as pessoas têm ao futebol é dessa ordem – quando foi a festa do Benfica, o meu clube, não fui para a rua, mas estive até às quatro e tal da manhã a ver aquilo tudo na televisão. E chorei. Este tipo de sentimento é muito humano e mais do que legítimo; se cerebralizarmos as emoções deste género, elas não resistem, de tão simplistas que são. Mas… há um escritor polaco de quem gosto muito, Gombrowicz, que resume isto melhor: «Quanto mais inteligente, mais estúpido.» Ou seja, uma excessiva elaboração intelectual mata a humanidade que é desejável não deixar morrer em nós. Passa-se o mesmo com a culinária, não há prato hiper-elaborado da cozinha francesa, sustentado por um grande aparato teórico, que possa competir com o sabor refinadíssimo de uns secretos de porco preto salpicados com umas pedrinhas de sal. A simplicidade é de uma grande exigência e credora de um imenso saber. É a mãe da criação.


Começaste por falar no simplismo manhoso que reveste certas obras; dizes-te elitista, embora confesses emocionar-te por vezes com coisas de menor merecimento; afirmas que o melhor é para poucos e louvas a simplicidade, que só o melhor pode reflectir. Queres dizer tudo isto de outro modo, mais claro?
Digo que me perturba um bocado que algumas análises teóricas maculem o prazer que eu possa experimentar, por exemplo, a ler Melville, ou Emilio Salgari, ou outra coisa qualquer. Acho que há uma virgindade dos sentidos, sobretudo no campo artístico, a que dou grande valor. Das poucas coisas que justificam a existência, pelo menos a minha, é o ter alguma sensibilidade artística; não a tenho em todas as áreas, porque há matérias a que sou imune – se a escultura não me toca, já a arquitectura tem coisas que me deslumbram (lembro-me de ter ficado banzado com alguns edifícios tremendos de Hong Kong e hei-de ir ao Porto ver a Casa da Música); na pintura posso não reagir a muita coisa (sou um autodidacta, embora tenha ao lado a minha mulher, que é uma excelente pintora), mas comovo-me com o Turner e fico passado com o Kitaj, um americano que vive em Londres e que trabalha muito em relação com o cinema e com a sensualidade da sua experiência pessoal em prostíbulos catalães. Ou seja, as coisas demasiado complicadas, talvez por falta de informação, passam-me ao lado, como algum do cinema contemporâneo, mais rebuscado, mesmo a nível do argumento, que me deixa indiferente.

Já deste a entender que gostas cada vez mais de narrativas claras, com personagens bem definidas, a dar corpo consistente às histórias que habitam. Cumpres isso naquilo que fazes (passada a fase inicial do que escreveste em parceria com Silva Ramos)?
A escrita que hoje faço, individualmente, é uma escrita ligada a duas ou três paranóias que me são caras: a história (temos de agarrar as pessoas com uma boa história), que deve vir bem escrita, não se pode desleixar o aspecto formal (conheço muito boas histórias muito mal escritas); o sentido de humor, de que gosto particularmente em literatura (não sou pela anedota e pelo óbvio); a força da escrita, isto é, para mim a escrita tem de ser contundente, eficaz (a moleza das frases e personagens enjoa-me).


Se eu não tivesse lido o Cá Vai Lisboa, como é que me "venderias" a história, de forma a conquistares uma nova leitora?
Comecemos pela origem da história. Trabalhei, como já sabes, numa produtora de televisão com o Nicolau Breyner, e um dia disse-lhe que tinha uma ideia para uma sitcom que podia ter piada: um clube gay, em Alfama, resolve candidatar-se a representar o bairro nas Marchas dos Santos Populares. O Nicolau atirou-se ao ar: «Lá estás tu com as tuas maluqueiras, ninguém pega nisso.» Deixei passar, escrevi um bocadinho e depois, quando saí das telenovelas, enfiei-me durante três meses na casa que ainda tenho em Montemor e, até como processo de regeneração, escrevi aquilo de enfiada – levantava-me às 7 da manhã e só parava quando já não havia luz do dia. Foi muito duro, até porque era Inverno, a casa é grande, sem aquecimento central… Foi agreste, mas eu precisava daquele tratamento de choque. É possível que no livro se note alguma dessa violência, sempre presente no processo de recuperação do gosto pela escrita. Voltando à história – peguei numa situação hipotética, mas não tão distante da realidade quanto possa parecer: um presidente da câmara (personagem de ficção mas se calhar com alguns traços de anteriores presidentes da Câmara de Lisboa), que apoiava tudo o que era minorias e, no caso, um grande entusiasta da inserção num santuário do marialvismo lisboeta de um clube gay, patrocina a sua existência em Alfama; este clube tem na história uma função muito benemerente, entre outras actividades organiza aulas para meninas, meninos e adultos, o que faz com que, a pouco e pouco, as boas gentes do bairro o aceitem; a coisa começa a dar para o torto quando o autarca é posto perante a evidência daquele desejo de o clube ficar com a representação de Alfama no cortejo das Marchas (uma coisa é patrocinar a existência de um clube assim, outra é haver uma entorse à lógica das Marchas Populares) e tenta tudo para boicotar o projecto. Há muitos mortos neste livro, mesmo que não se dê tanto assim por eles; há também uma reconversão sexual de lésbicas e gays que deixam de o ser, embora alguns voltem a sê-lo no correr da história, o que é uma espécie de metamorfose um bocado pícara. O livro faz, no fundo, um retrato satírico, penso que imaginativo e bem-disposto, de tradições lisboetas ligadas à mitologia do "bom povo" bairrista: um concurso de lançamento de sardinha (em vez da malha), de sardinha, sim, mas da espanhola, que essa não terá outra serventia que não seja para tal finalidade; a existência de uma associação musical, a Associação 25 do Corrente, etc. Não existe nele uma verdadeira denúncia da corrupção autárquica, mas há um certo gozo em relação ao que, no fundo, é o poder discricionário de alguém que se crê um pequeno rei num pequeno microcosmos, no caso Lisboa e um bairro popular. O que é que o livro tem mais? Acho que alguma agilidade, que pode ser um bocado chocante, em considerar a comunidade gay. Tenho para mim que cada um faz com o seu corpo aquilo que lhe apetece, mas as pessoas gay talvez não achem muita graça ao livro, talvez pensem que o que lá está escrito é liberalidade a mais, é desrespeitar a justa luta dos gay pela dignificação do seu estatuto, essas tretas que são a homogeneização de comportamentos. Ignoro se passarei por homofóbico, acho que não o sou, só que achei graça à ideia de meter uma comunidade gay dentro de um sítio que não tem pontos de identificação com ela e que só pode aceitá-la até um certo limite, o limite do possível. Como a hipocrisia é o grande cimento nacional, o limite desse possível é o "desde que não incomode". Quando passa a incomodar, não há aceitação da diferença que resista.


O livro correu bem, em termos de crítica e vendas?
Acho que o livro correu bem, atendendo ao facto de ser uma pequena edição e à dificuldade da Fenda de gerir uma lógica comercial de promoção. Por um lado, tive reacções positivas de muitas pessoas, que o acharam divertido, refrescante, diferente do que por aí anda. As pessoas reagem bem ao descaro presente no livro, ao chamar os bois pelos nomes. A nível da comunicação social também saíram coisas simpáticas na imprensa, rádio e televisão, mas abro uma pequena ressalva em relação ao suplemento literário do jornal Público, que até agora não publicou uma linha sobre aquilo. Poderia especular sobre as razões da abstinência, presumindo alguma incomodidade em afrontar a temática e a escrita, politicamente incorrectas, mas não vale a pena, não me apetece fazer o exercício.


O que se escreveu e falou sobre o teu livro pegou no lado de possíveis semelhanças com personalidades reais, nomeadamente dirigentes autárquicos?
Sim, aqui e ali houve referências à possibilidade de se apontar ao executivo de Santana Lopes, o que não colhe, porque se trata realmente de personagens de ficção, com ganchos muito ténues de inspiração directa na vida da cidade. Não tenho qualquer pretensão regenerativa da classe política, para a qual me estou verdadeiramente nas tintas. Penso de resto que, com a mania, provinciana e muito portuguesa (sobretudo dos que se reclamam de cosmopolitismo!), de se achar que o que vem lá de fora é que é bom, não me repugnaria nada mandar vir um Delors, mesmo um Helmut Kohl, e até aproveitar o Scolari (e o Fernando Pinto, da TAP, como sugeriste) para integrarem os vários patamares do poder executivo que dirige o país, acumulando com funções que porventura exerçam no momento.

Que avaliação fazes da literatura portuguesa contemporânea?
Não muito satisfatória, devo confessar. Temos bons autores, bons poetas e bons romancistas, mas, no conjunto, não me parece uma literatura muito potente. Se pensares no que nos chega da América do Norte e do Reino Unido (e não é só uma questão de escala ou de língua dominante), temos mesmo de baixar a bolinha.

Eu não sinto que deva baixar qualquer bolinha em relação à poesia portuguesa! Nessa matéria, peço meças ao grande mundo com total tranquilidade.
Terás razão, o defeito é capaz de ser meu, leio pouco poesia. Dos mais antigos gosto dos trovadores, claro, de Camões, Bocage, Cesário, Nobre, Botto e, dos mais próximos, leio com gosto o Grabato Dias, o Herberto, o Sena, o Pimenta, o Nemésio, o O’Neill, algumas coisas do Armando Silva Carvalho, do Gusmão, do Franco Alexandre… Mas sou da prosa, a mim é a prosa que me enche as medidas. Acho graça a certas coisas da Agustina, mas não tenho saco para o Saramago, ou para o Lobo Antunes, por exemplo. Li recentemente dois belos livros – A Escola do Paraíso, do Rodrigues Miguéis, e Apenas uma Narrativa, do António Pedro, uma obra pequenina e notável. Carrego sempre a sensação de que ler um grande livro me impede de ler outros livros menores. Sabes o que me seduz na prosa? O que me comove e atrai é o compromisso (que lhe deve presidir) entre a ética, a forma e uma certa demência fundadora do universo da escrita. A prosa, mais do que a poesia, desafia Deus.


Se calhar, por seres um prosador, desconfias da dimensão de mistério, que é o que preside à criação do poeta.
Talvez.

Lês e escreves todos os dias?
Nem pensar, lavo os dentes, tomo banho, como e durmo todos os dias, mas só escrevo e leio quando estou para aí virado. A literatura não me é uma canga, tem de me apetecer, tem de me dar prazer e, no meu caso, preciso de tempo para repensar o que fazer a seguir, para ser surpreendido; tenho de duvidar muito de mim, pôr em causa a minha capacidade de escrever e, superando esses impasses, superar-me e atirar-me à bendita página branca; tenho de saber enfrentar o exercício de aprendizagem e coragem que a literatura exige. Abomino aquela técnica das reproduções à Warhol, essa espécie de comboio mecânico para servir a clientela e facturar sem descanso. De regresso à tua questão, não pertenço à família dos danados, dos obcecados com a escrita e a leitura. Nem me sinto obrigado a viver da ficção, esta escrita ficcional que pratico é a minha Gorongoza, uma reserva de vida selvagem e doméstica. É óbvio que aceito encomendas e gosto de corresponder, quando pedem que escreva para jornais ou para outra coisa qualquer – já fiz publicidade, já fui conselheiro sentimental com uma coluna própria, acho que só me falta escrever obituários. Há que fazer pela vida.


Dá-me uma palavra de eleição.
Ai! Creio que o "ai" (com exclamação, reticências ou a seco) é a palavra que melhor resume esta pátria e os filhos dela e, dando-lhe uns jeitinhos na entoação, aquela que nos pode levar mais longe. A todo o lado. E quem diz "ai", diz "ui", até porque os tempos vão de mais ais. Não?

[in Público, 26 de Junho, 2005; foto: exercício de cor por PCD sobre fotografia de Pedro Cunha (Público)]

Francisco Fanhais, cantor solidário

Francisco Fanhais nasceu em 1941, na Praia do Ribatejo. Com 10 anos entrou para o seminário de Santarém. Depois irá para os seminários de Almada e Olivais, onde termina o curso de Teologia. Em 1964 foi ordenado padre e em 1969, como professor de Moral começou a interessar-se sobre a realidade à sua volta. As aulas eram no Barreiro, terra onde ele conhece José Afonso que o incentivará a cantar contra o regime.
Participou no programa de Televisão "Zip-Zip" e gravou o seu primeiro disco intitulado "Cantilenas". Em 1970 gravou e editou o seu disco "Canções da Cidade Nova", com arranjos de Thilo Krassman. As músicas deste disco são de sua autoria e as letras de consagrados poetas, como Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre e António Aleixo.
"Cantata de Paz", com letra de Sophia e o famoso refrão "Vemos, Ouvimos e Lemos, Não Podemos Ignorar", torna-se um dos hinos de resistência ao regime derrubado em Abril de 74. Deste disco fazem ainda parte outros temas, tais como "Quadras do Poeta Aleixo", "Porque", "Canto do Ceifeiro"e "Canção da Cidade Nova". Esta última canção, com poema de Francisco Melro, é inspirada num tema bíblico. A música de Fanhais é uma música simples, mas eficaz, na senda dos "baladeiros", movimento a que ficaram associados muitos dos cantores que usavam a canção para denunciar as injustiças.
José Afonso escreve uma "Dedicatória"na contracapa do LP, que reza assim: "Tu que cantas, Defronte, De faces atentas, e Seguras, Faz do teu Canto, Uma funda, Nesse lugar, Entre outras mãos mais fortes, E mais duras, Te estenderei, A Minha mão fraterna. Canta Amigo". Este disco seria reeditado em CD, no ano de 1998 e o seu título seria alterado para "Dedicatória", com o manuscrito da dedicatória de José Afonso a servir de capa.
Em 1971 Fanhais parte para França, porque estava proibido de cantar, de exercer o sacerdócio e de leccionar nas escolas oficiais. Torna-se militante da LUAR e só regressa a Portugal após o 25 de Abril de 74.
Em 1975 colabora nas campanhas de dinamização cultural do MFA, juntamente com José Afonso e outros cantores e participa na gravação do disco "República", gravado ao vivo por José Afonso, na Itália, disco esse que é uma das maiores raridades no panorama discográfico português.
Em 1984 vai viver para Alvito, no Baixo Alentejo e dedica-se ao ensino de Educação Musical em escolas oficiais. Participa, como convidado, no disco "Ao Vivo no Coliseu" de José Afonso, onde faz coros na bonita canção "Natal dos Simples". Em 1993 regressa ao palco para, conjuntamente com Manuel e Pedro Barroso, apresentar o espectáculo "Encontro", efectuados em Portugal e em França.
No dia 10 de Junho de 1995 é agraciado com a Ordem da Liberdade pelo Presidente da República, Mário Soares. Continua a cantar, sempre que lhe pedem, em escolas e, sobretudo, em Festas do 25 de Abril ou em homenagens a José Afonso.
Quando lhe perguntam
pela vida responde que tem "dois filhos, dois discos, muitas árvores e muitos amigos



3.3.07

É cientificamente falso que estamos predeterminados para a violência e a guerra


Mais do que nunca é oportuno e actual divulgar um texto histórico sobre o carácter adquirido dos comportamentos violentos e a guerra como facto social e não biológico. Trata-se de uma declaração elaborada por uma equipa interdisciplinar de 20 cientistas de diferentes proveniências e que estiveram reunidos em Sevilla sob a égide da UNESCO no ano de 1986 por ocasião do Ano Internacional da Paz

DECLARAÇÃO SOBRE A VIOLÊNCIA

É cientificamente INCORRECTO:

«… que tenhamos herdado a tendência para fazer a guerra»

«…que o comportamento violento se encontra geneticamente programado na natureza humana»

«…que a guerra tem a sua origem no instinto ou qualquer outra motivação simples»


Na convicção de que é nossa responsabilidade manifestarmo-nos, a partir das nossas áreas científicas a que cada um pertence, sobre as mais perigosas e destrutivas actividades da espécie, a violência e a guerra; reconhecendo que a ciência é um produto cultural humano que não é definitivo nem é capaz de tudo abranger; e, agradecendo, desde já, o apoio às autoridades sevilhanas e aos representantes da Comissão Espanhola da UNESCO; nós, os abaixo-assinados, cientistas de todo o mundo e especialistas de diversas ciências relevantes, depois de reunidos chegamos à seguinte Declaração sobre a Violência. Serve esta para impugnar um certo número de pretensas descobertas biológicas, inclusive, em algumas das nossas áreas científicas, e que tem servido para justificar a violência e a guerra. Uma vez que estas supostas descobertas contribuíram para a criação de uma atmosfera de pessimismo nos dias de hoje, propomos que esta rejeição, aberta e devidamente ponderada, contribua significativamente para o Ano Internacional da Paz.

O uso incorrecto das teorias científicas e de certos dados para justificar a violência e a guerra não constitui novidade, tendo sido invocado desde o advento da ciência moderna. Por exemplo, a teoria da evolução foi usada não só para justificar a guerra como também para legitimar o genocídio, o colonialismo e a eliminação dos mais fracos.

Elaboramos a nossa declaração em cinco pontos. Estamos conscientes que existem muitos outros aspectos sobre a violência e a guerra aos quais se poderiam aplicar, de um modo frutífero, os conhecimentos das nossas disciplinas, mas limitemo-nos aqui àquilo que consideramos primacial e o mais importante.

É CIENTIFICAMENTE INCORRECTO dizer que herdamos dos nossos antepassados animais a tendência para fazer a guerra. Ainda que as lutas sejam frequentes em todas as espécies animais, são poucos os casos de destruição por acção de grupos organizados, e em nenhum se inclui o uso de instrumentos preparados como são as armas. Quanto ao facto dos predadores se alimentarem de outras espécies, tal não deve ser equiparado à violência entre as espécies. A guerra é um fenómeno humano peculiar que não acontece entre os demais animais.

A circunstância de a guerra se ter transformado tão radicalmente com o passar do tempo, mostra que é um produto cultural. A sua conexão biológica tem lugar, essencialmente, através da linguagem, a qual possibilita a coordenação entre os grupos, a transmissão da tecnologia e o uso de ferramentas. A guerra é biologicamente possível, mas não é inevitável, como evidenciam as suas variações no tempo e no espaço. Existem culturas que não desencadearam guerras durante centenas de anos e existem outras que se lançaram em frequentes lutas numas épocas, e não noutras.

É CIENTIFICAMENTE INCORRECTO dizer que no decurso da evolução humana houvesse uma selecção de comportamentos agressivos em maior medida do que outros comportamentos. Em todas as espécies estudadas o estatuto dentro do grupo adquire-se pela aptidão em cooperar e cumprir funções sociais relevantes para a estrutura do próprio grupo.

O «predomínio» implica vínculos sociais e filiações, e não é simplesmente um assunto de posse e uso de maior força física, ainda que possa implicar comportamentos agressivos. Ali onde um comportamento agressivo se impôs artificialmente nos animais por efeito da selecção genética, rapidamente se produziram indivíduos hiperagressivos; tal facto mostra que a agressão não foi seleccionada em condições naturais. Quando tais animais hiperagressivos, criados experimentalmente se encontram num grupo social, ou bem que afectam a sua estrutura social ou são expulsos para fora dela. A violência não está no nosso legado evolutivo nem nos nossos genes.

É CIENTIFICAMENTE INCORRECTO dizer que os humanos possuem um «cérebro violento». Se temos um sistema nervoso capaz de actuar violentamente, este não automaticamente activado por estímulos externos ou internos. Tal como nos primatas superiores, e diferentemente do que ocorre com os outros animais, o nossos processos nervosos superiores filtram tais estímulos antes de serem realizados. Não existe nada na nossa neurofisiologia que nos obrigue a reagir violentamente.

É CIENTIFICAMENTE INCORRECTO dizer que a guerra tem a sua origem no «instinto» ou em qualquer outra motivação simples. O aparecimento da guerra moderna implica um processo que vais desde os factores emocionais e motivacionais – chamados às vezes «instintos» - até aos factores cognoscitivos. A guerra moderna implica o uso institucional de características pessoais, tais como a obediência, sugestibilidade ou idealismo, técnicas sociais como a linguagem, e considerações racionais como o cálculo de custos/benefícios, a planificação e o processo de informação. A tecnologia da guerra moderna empolou os traços associados com a violência, tanto na formação de combatentes como na preparação do apoio à guerra entre a população em geral. Como resultado desse empolamento, tais características são com frequência interpretadas como causas e não como consequências do processo.

Concluímos afirmando que a biologia não condena a humanidade à guerra, e que a humanidade pode libertar-se da escravidão do pessimismo biológico e equipar-se com a confiança necessária para realizar as tarefas de transformação necessárias para este Ano Internacional da Paz e os anos vindouros. Apesar dessas tarefas serem principalmente institucionais e colectivas, baseiam-se também na consciência dos participantes individuais, para o que pessimismo e optimismo são factores essenciais. Assim como as guerras nascem nas mentes dos homens, assim também a paz começa nas nossas mentes. A mesma espécie que inventou a guerra é capaz de inventar a paz. A responsabilidade é de cada um de nós.

Sevilha, 16 de Maio de 1986


Assinado por

DAVID ADAMS, Psicología, Wesleyan University, Middletown (CT), EU. S.A. Barnett, Etología, The Australian National University, Canberra, Australia.

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