15.10.06

O professor aborrecido em 7 lições, ou como emburrecermo-nos…


(excertos do discurso de John Taylor Gatto aquando da sua nomeação como «New York State Teacher of the Year» de 1991, segundo a tradução portuguesa do livro editado em 2003 pela Porto Editora com o título «Emburrecendo-nos cada vez mais»)


Ensinar significa coisas diferentes em lugares diferentes, mas sete lições são ensinadas universalmente desde Harlem a Hollywood Hills. Estas sete lições constituem um currículo nacional que é pago de muitas formas, mais do que as que consegue imaginar, por isso, não perde nada em saber como é.

(…)

A 1ª lição que eu ensino é a confusão. Tudo o que ensino está fora de contexto. Ensino o não relacionável de tudo. Eu ensino desconexões. Ensino demasiado: a órbita dos planetas, a lei dos grandes números, escravidão, adjectivos, desenho arquitectónico, dança, ginásio, canto coral, assembleias, convidados-surpresa, exercícios de salvamento, linguagens de computador, as noites de pais, dias de trabalho de equipa, programas desactualizados, reuniões de orientação com pessoas que os meus alunos podem não voltar a ver, testes padronizados, segregação etária ao contrário do que se passa no mundo externo…O que é que estas coisas têm a ver entre si?
Até mesmo nas melhores escolas, um exame pormenorizado do currículo e suas sequências revelarão uma falta de coerência, um grande número de contradições internas. Felizmente as crianças não têm palavras para definir o pânico e a fúria que sentem face às violações constantes da ordem natural e sequencial que lhes são impingidas como educação de qualidade. (..) É lançada a confusão nas crianças por muitos adultos estranhos, cada qual trabalhando por si, praticamente não se relacionando com os outros colegas, simulando a maior parte deles, um saber que não possuem.
(…) Eu ensino o não relacionável de tudo, uma fragmentação infinita, o oposto da coesão; o que faço está mais relacionado com a programação de televisão do que com a elaboração de um esquema ordenado. Num mundo onde a residência é só um fantasma, porque ambos os pais trabalham, ou por causa de muitas mudanças ou muitas trocas de emprego e muita ambição, ou porque qualquer outra coisa deixou toda a gente muita confusa para manter uma relação familiar estável, ensino os alunos a aceitar a confusão como o seu destino. Essa é a primeira lição que eu ensino.



A 2ª lição que eu ensino é a posição certa. Ensino que os alunos têm de ficar na turma a que pertencem. Não sei quem é que toma essa decisão, mas isso também não é o meu trabalho. As crianças são numeradas para que se alguma escapar possa ser devolvida à turma certa. Ao longo dos anos, a variedade de modos como as crianças são numeradas pelas escolas aumentou dramaticamente, até que se chegou ao ponto de ser difícil ver claramente os seres humanos debaixo do peso dos números que eles transportam. Numerar crianças é uma grande e vantajosa taerefa, no entanto, aquilo que esta estratégia pretende realizar engana. Nem sei como é que os pais, sem nenhuma discussão, permitem que isto seja feito aos seus filhos.
Em todo caos, isso não é o meu trabalho. O meu trabalho é manter as crianças nas salas de aula juntamente com outras crianças que têm também têm um número como elas. Ou, pelo menos, ajudá-las a suportar isto de bom grado. Se fizer bem o meu trabalhi, as crianças nem sequer se imaginam noutro lugar qualquer, porque ter-lhes-ei mostrado como invejar e temer as melhores turmas e como desprezar as turmas mais fracas. Debaixo desta disciplina eficiente, a turma autopolicia-se para que tudo funcione como está estipulado. Isso é a verdadeira lição de qualquer competição por equipas como é a escola. Aprendemos a conhecer o nosso lugar.
Apesar de as normas gerais das turmas estipularem que noventa e nove por cento das crianças estão na sua turma para ficar, ainda assim esforço-me explicitamnete em exortar as crianças para níveis mais altos de sucesso, sugerindo uma eventual transferência de uma turma mais elementars como recompensa. Lembro-lhes com frequência o dia em que um empregador os contratará com base em pontuações e resultados, embora a minha própria experiência diga que os empregadres são completamente indiferentes a tais coisas. Nunca minto completamente, mas apercibe-me de verdade e ensino são, no fundo, incompatíveis.


A 3ª lição que eu ensino é a indiferença. Ensino as crianças a não se preocuparem muito com nada, embora elas queiram demonstrar que o fazem. O modo como o faço é muito subtil. Faço-o, exigindo que estejam totalmente envolvidas nas minhas aulas, prendendo-lhes a atenção, competindo vigorasamente entre si para me agradar. É animador quando elas fazem isso; impressiona qualquer um, até mesmo a mim. Quando estou no meu melhor, planifico as aulas muito cuidadosamente, de modo a produzir estas manifestações de entusiasmo. Mas quando a campainha toca, ínsito que deixem tudo o que estávamos a fazer e prossigam depressa para o posto de trabalho seguinte. Elas ligam-se e desligam-se como um interruptor de luz. Nunca se consegue acabar nada de importante na minha turma, nem em qualquer outra turma que eu conheça. Os alunos nunca têm uma experiência completa, excepto no plano das recompensas.
Na verdade, a lição das campainhas é a de que nenhum trabalho vale a pena ser concluído, por isso, por que motivo nos havemos de preocupar muito com qualquer coisa?


A 4ª lição que eu ensino é a dependência emocional. Através de elogios e reprimendas, sorrisos e caretas, prémios, honras e humilhações, eu ensino as crianças a renderem a sua vontade à predestinada cadeia de comando. Podem ser concedidos ou recusados direitos por alguém com autoridade, sem direito a apelo, porque os direitos não existem dentro de uma escola – nem mesmo o direito de opinião, como declarou o Supremo Tribunal – a menos que as autoridades escolares o permitam. Como professor, eu intervenho em muitas decisões pessoais, permitindo aquelas que considero legítimas e iniciando um processo disciplinar para os comportamentos que ameacem o meu controlo. As crianças e os adolescentes estão constantemente a tentar afirmar a sua individualidade, mas a individualidade é uma contradição para as teorias sobre as turmas, uma maldição para todos os sistemas de classificação.


A 5ª lição que eu ensino é a dependência intelectual. Os bons alunos esperam que um professor lhes diga o que fazer. Eis a lição mais importante de todas: temos de esperar que outras pessoas, melhor preparadas do que nós, dêem significado às nossas vidas. O expert é que toma todas as decisões importantes; só eu, professor, posso determinar p que as minhas crianças têm de estudar, ou melhor, só as pessoas que me pagam podem tomar essas decisões, que eu depois confirmo. Se me dizem que a evolução é um facto e não uma teoria, eu transmito isso como me foi ordenado, castigando aqueles que resistem a aceitar o modo como é suposto pensarem. Este poder de controlo sobre o que as crianças pensarão permite-nos separar muito facilmente os alunos com sucesso dos alunos com insucesso.
As crianças bem sucedidas aprendem a pensar como lhes mando com um mínimo de resistência e a dose certa de entusiasmo. Das inúmeras coisas interessantes que há para estudar, eu decido quais as poucas que temos tempo para estudar, embora, na verdade, isto seja decidido pelos meus superiores sem rosto. As escolhas são deles – porque deveria eu discutir? A curiosidade não é importante para o meu trabalho, só a conformidade.
Os maus alunos contestam isto, evidentemente, embora lhes faltem os conceitos para saber p que é que estão a contestar, lutando por poderem decidir por eles próprios o que eu aprenderão e quando o aprenderão. (…)
As boas pessoas esperam que um especialista lhes diga o que fazer. Não é exagero dizer que toda a nossa economia depende do facto de esta lição ser bem aprendida. (…)
Não se precipite a votar numa reforma radical da escola, se quiser continuar a receber um salário no final do mês. Nós construímos um modo de vida que depende de as pessoas fazerem o que lhes é dito, porque não sabem dizer a si mesmas o que fazer. Esta é uma das maiores lições que eu ensino.


A 6ª lição que eu ensino é o condicionamento da auto-estima
. O nosso mundo não sobreviria por muito tempo a uma invasão de pessoas confiantes, por isso ensino que o auto-respeito de uma criança deveria depender da opinião de um especialista. As minhas crianças são constantemente avaliadas e julgadas.
(…) Embora algumas pessoas pudessem ficar surpreendidas com o pouco tempo ou reflexão que estes registos requerem, o peso cumulativo destes documentos aparentemente objectivos estabelece um perfil que condiciona as crianças a tomar certas decisões pessoais e outras decisões sobre o seu futuro, baseadas no julgamento casual de estranhos.


A 7ª lição que eu ensino é que ninguém se pode esconder. Ensino aos alunos que eles estão sempre sob vigilância, que cada um deles está a ser constantemente vigiados por mim e pelos meus colegas. Não têm nenhum espaço privado; não têm nenhum tempo privado.
(…) O significado da vigilância constante e da negação de privacidade consiste em não se poder confiar em ninguém, e que a privacidade não é legítima. A vigilância é um antigo imperativo (…) as crianças devem ser observadas de perto, se quisermos manter uma sociedade sob apertado controlo central. As crianças seguirão um tambor privado, se não as conseguirmos colocar numa banda de marcha uniformizada.




Sobre o autor do discurso reproduzido acima - John Taylor Gatto – pelo próprio:
(…)

Em termos teóricos e metafóricos, a ideia que comecei a explorar foi a seguinte: o ensino não é como a arte de pintar, onde, pela adição de material a uma superfície, uma imagem é sinteticamente produzida, mas sim como a arte de esculpir, onde, pela subtracção de material, é possível fazer emergir uma imagem já contida na pedra. É uma distinção crucial.
Por outras palavras, renunciei à ideia de que era um expert cujo trabalho era encher as pequenas cabeças com a minha especialidade e comecei a explorar o modo como poderia remover os obstáculos que impediam que o talento inerente das crianças se revelasse. Já não me sentia confortável em definir o meu trabalho como transmissão de saber a uma esforçada audiência de sala de aula. Embora eu continue até hoje nesses testes inúteis por causa da natureza do ensino institucional, sempre que me foi possível, quebrei com a pedagogia tradicional e reconduzi as crianças dos seus caminhos desviados para as suas próprias verdades privadas.
A sociologia das escolas públicas evoluiu de tal modo que uma premissa como a minha, ao difundir-se, põe em perigo toda a instituição. Prisioneiro de regras, qualquer professor que faça uma descoberta como a minha é, na pior das hipóteses, uma dificuldade para a ordem hierárquica (que desenvolveu defesas automáticas para isolar tais bacilos e, desse modo, neutralizá-los ou destruí-los); mas, uma vez livre destes constrangimentos, esta ideia poderia pôr em perigo as suposições centrais que permitem à escola institucional sustentar-se, tal como a falsa suposição de que é difícil aprender a ler, ou que as crianças resistem à aprendizagem e a muitas mais coisas. De facto, a própria estabilidade da nossa economia é ameaçada por qualquer forma de educação que possa mudar a natureza do produto humano que as escolas agora mostram: a economia sob a qual as crianças actualmente esperam viver e servir não sobreviveria a uma geração de jovens educados, por exemplo, para pensar criticamente.

(…)
(Excertos retirados do livro «Dumbing us down», em tradução portuguesa, «Emburrecendo-nos cada vez mais, o currículo oculto da escolaridade obrigatória» de John Taylor Gatto, edição da Porto Editora, 2003)
Para saber mais:

http://www.spinninglobe.net/dumbing.htm

http://www.johntaylorgatto.com/bookstore/dumbingdown.htm

http://www.infoshop.org/inews/article.php?story=2006gatto


No one in America today is better qualified to report on the true condition of our government education system than John Taylor Gatto, the now-famous educator who spent 26 years teaching in six different schools in New York City and quit because he could no longer take part in a system that destroys lives by destroying minds

In 1990 the New York “Senate named Mr. Gatto New York City Teacher of the Year. The speech he gave at that occasion, “The Psychopathic School,” amounted to a devastating indictment of public education (reprinted in BEL, May 1991, under the title “Why Schools Don’t Educate”).
In 1991 Mr. Gatto was named New York State Teacher of the Year, at which occasion he gave a speech, “The Seven-Lesson Schoolteacher,” so insightful of the wrong-headedness of public education that it will probably become a classic in educational literature

These two remarkable speeches, plus several others, including one entitled “We Need Less School, Not More,” were published in book form last year. And what a powerful book it is, only 104 pages long, readable in one or two sittings. With Outcome-Based Education being imposed on schools across America, we will get much more school, not less, and the content of that schooling will produce far more confusion than we already have

4 de Novembro vai ser o Dia Mundial de Acção Contra as Alterações Climáticas

legenda da figura - pegunta de um automobilista: porque é que o clima está a ficar tão estranho?


O próximo dia 4 de Novembro foi a data estabelecida pelas Organizações Não Governamentais para que todos se mobilizem a favor da nosso planeta.
Para a fixação dessa data não foi estranho o facto de dois dias depois se realizar em Nairobi (capital do Quénia) entre 6 e 17 de Novembro a Conferência Internacional sobre o Clima promovida pelas Nações Unidas.


Daí que várias organizações não governamentais tenham lançado o apelo para que no dia 4 de Novembro sejam realizadas múltiplas acções um pouco por todo o mundo para exigir medidas eficazes de luta contra as alterações climáticas, assim como manifestar as preocupações de todos os cidadãos relativamente ao aquecimento global. Poder-se-ão desenvolver as mais variadas acções, desde debates, exposições, manifestações, teatro de rua, animação com crianças, acções directas não-violentas, interpelações de políticos, etc, etc.

A Conferência de Nairobi será um momento importante para avaliar em que ponto se encontram as negociações internacionais relativas ao segundo período de aplicação do Protocolo de Quioto que começará em 2012.

As mensagens que deverão ser transmitidas reconduzem-se fundamentalmente a 3 pontos:

- é de extrema urgência que os políticos cheguem a acordo sobre um compromisso acerca do período pós-2012, uma vez que qualquer atraso pode resultar em tornar praticamente impossível a estabilização do clima

- os países industrializados devem implicar-se mais na aplicação de objectivos ambiciosos relativos à redução das suas emissões de gazes com efeito de estufa.

- esses países devem, além disso, ajudar os países em desenvolvimento a adaptar-se às consequências e efeitos já visíveis das alterações climáticas.



Precisamos , quanto antes, de pôr em causa o nosso modo de vida energívoro !


Consultar:


http://www.rac-f.org/rubrique.php3?id_rubrique=210

http://www.stopclimatechaos.org/66.asp

http://www.cooltheplanet.net/

http://www.globalclimatecampaign.org/



É preciso pôr em causa o nosso modo de vida energívoro !

14.10.06

Anarquismo na vida e obra de Eugene O'Neill



Texto de Pietro Ferrua, in Verve, nº 7, pg 226-243


Um estudo sistemático das atividades anarquistas do grande dramaturgo ainda não foi empreendido, que eu saiba [
1], porém existem muitos ensaios sobre ele e os dados colhidos permitem estabelecer uma trajetória se não completa pelo menos suficiente.

A mais pormenorizada das biografias interessantes para o nosso assunto é sem dúvida a do casal Gelb [2] , que chega quase a mil páginas, mas tem também duas obras de Sheaffer também oferecem uma grande quantidade de informação. Descobre-se assim que um dos primeiros contatos que O’Neill teve com anarquistas data de 1907, quando conheceu Benjamin Tucker e começou a freqüentar a livraria dele em Nova Iorque: The Unique Bookshop situada na Sexta Avenida. Eugene não tinha ainda vinte anos enquanto o pensador e escritor anarquista alcançara já os cinqüenta, com mais de trinta anos de experiências como propagandista, redator de periódicos, autor de ensaios. Foi através do Tucker que O’Neill travou conhecimento com a obra de Bacunin e Kropotkin, Proudhon e Tolstoi, Stirner e Nietzsche. Definiu-se então "anarquista filosófico" uma etiqueta pouco usada em outros países, mas que se tornou comum nos Estados Unidos e que eqüivale – ainda hoje – a "anarquista não-violento". Distinção necessária pois a opinião pública tende a misturar anarquismo e terrorismo. Para bem da verdade cabe reconhecer que naquela época a associação com Czolgosz (que tinha matado um Presidente) e Berkman (que atirara contra um capitalista inflexível e cruel contra operários grevistas) era comum. Quem apresentou O’Neill ao Tucker foi Paul Holliday, outro anarquista, irmão de Polly Holliday, gerente de um café boêmio no Greenwich Village, companheira de vida de outro militante ativo muito conhecido, Hippolyte Havel. O Paul foi um grande amigo de O’Neill até sua trágica morte poucos anos depois. Outro grande amigo anarquista (e futuro personagem de sua obra) foi Terry Carlin (verdadeiro nome Terence O’Carolan) que tinha a qualidade adicional de ser de origem irlandesa, como O’Neill. Companheiro de bebedeira o escritor nunca o renegou quando ficou famoso e passou a mandar-lhe cheques mensais para que nunca lhe faltasse a bebida. Os Gelb escrevem "O Carlin teve uma influência maior na filosofia de O’Neill do que qualquer outra pessoa". Não devemos estranhar isso, pois o Carlin foi admirado por escritores importantes como Jack London e Theodore Dreiser. Mais uma amizade importante – e que durou até o fim da vida- foi a com Saxe Commins (verdadeiro nome Cominsky) dentista que se tornou autor teatral, e sobrinho de Emma Goldman. A ele O’Neill se dirigiu para que lhe procurasse documentação sobre algumas personagens anarquistas em suas peças. Em gratidão pela hospitalidade recebida dele e de toda a família e por ter-lhe cuidado dos dentes de graça, O’Neill sugeriu sua contratação pela Random House, onde se tornou seu editor pessoal. O Saxe foi também quem manteve contatos indiretos entre O’Neill com as duas primeiras esposas e os filhos que dela teve. Qunado fugiu para a França onde vivia incógnito com Carlotta, que tornou-se sua terceira mulher, um dos poucos que sempre sabia onde ele se encontrava foi justamente o Commins. Aliás, O’Neill não era o único que o estimava pois tornou-se também amigo de Albert Einstein, que conheceu quando ambos ensinavam em Princeton.

Hippolyte Havel, anarquista europeu que veio aos Estados Unidos junto com Emma Goldman, que o conheceu em Londres, foi também admirado por Dreiser, inspirou o John Cage e deu vida a um dos personagens da peça The Iceman Cometh. O’Neill conservou algumas fotografias dele , uma das quais os reúne nos ensaios de uma peça para o Provincetown Theater.

A galeria de personagens anarquistas ao redor de O’Neill é muito rica e compreende ainda outro escritor da época: Hutchins Hapggod. Autor de An Anarchist Woman ele tinha se aposentado no Cape Cod e colaborara estreitamente com John Reed, Louise Bryant e outros nas encenações do Provincetown Theater.

Entre as mulheres pelas quais O’Neill talvez se apaixonou, emerge a figura de Dorothy Day, que mais tarde se converteu ao catolicismo sem abandonar o anarquismo e tornou-se co-fundadora do movimento Catholic Worker (uma derivação comunitária da filosofia personalista de Emmanuel Mounier), que ainda hoje existe e tantas páginas gloriosas acrescenta aos anais da luta contra a segregação racial, as guerras, o serviço miltar, o pagam,ento dos impostos ao Estado, etc…

Christine Ell, amante passageira do O’Neill, foi outra anarquista inspirada por Emma Goldman, e também tornar-se-á personagem teatral do autor. Não há muitos vestígios de encontros entre Emma Goldman e Eugene O’Neill, mas sabe-se que ele lia Mother Earth (na qual revista publicou um dos primeiros poemas antimilitaristas), frequentava as palestras do Ferrer Center, foi grande amigo de Lena Cominsky irmã da Emma) e de Stella Ballantine (sobrinha de Emma), de Mary Eleanor Fitzgerald (secretária do Provincetown Theater depois de ter trabalhado na redação de Mother Earth ). De Emma Goldman se sabe que conhecia as primeiras peças do O’Neill e fez palestras sobre elas. Apesar dos poucos contatos pessoais Emma foi uma grande fonte de inspiração, como veremos logo, em duas das peças que comentaremos.

Outro anarquista muito conhecido que ele pouco frequentou mas cuja personalidade, pensamento e ação inspiraram o O’Neill, que, anos depois, o declara numa carta, é o Alexander Berkman, Em data 29 de janeiro de 1927, numa carta de Hamilton, Bermuda, O’Neill escreve ao Berkman:"It is a long time since that night at Romany Marie but I am quite sure that you do not remember me better than I do you. I have a very clear picture of you in my mind to this day. I had had a very deep admiration for you for years and that meeting was sort of an unexpected fulfillment. As for my fame…and your infame, I would be willing to exchange a great deal of mine for a bit of yours. It is not so hard to write what one feels as truth. It is damned hard to live it."*

["Passou muito tempo desde aquela noite em Romany Marie mas estou muito certo de que você não se lembra de mim melhor do que eu de você. Tenho uma imagem nuito clara de você na minha mente desde então. Eu já tinha uma muito profunda admiração por você desde vários anos e aquele encontro foi um acontecimento inesperado. Em quanto á minha fama…e sua infámia, gostaria de trocar muita da minha por um pouco da sua. Não é tão difícil escrever o que se considera ser a verdade. Mas é muito difícil vive-la."

Essa admiração desenfreada por um homem então muito mais conhecido como homem de ação do que como teórico do anarquismo nos leva a notar que O’Neill não teve como amigos só inteletuais e artistas, anarquistas "filosóficos"mas frequentou também militantes sindicais. Um destes foi James Joseph Martin (dito Slim Martin), marinheiro e operário especializado, que era militante da IWW e a quem O’Neill pediu que o levasse a reuniões sindicalistas. O resultado foram pelo menos duas peças (The Personal Equation e The Hairy Ape) acabadas, publicadas e produzidas, e algumas outras só começadas e abandonadas por várias razões. Também tornou-se propagandista ativo quando passou anos navegando na marinha comercial.

Ser rodeado de amigos anarquistas, ter lido livros de autores anarquistas, assinar obras de conteúdo anarquista talvez não seja suficiente para traçar um retrato completo de uma pessoa. Foi o comportamento dele na vida pública e particular condizente com a ética anarquista? As lembranças dos que o freqüentaram durante a juventude dão a imagem de um bébado inveterado. Como tal é representado pelo menos em dois filmes nos quais ele tem um papel: Reds de Warren Beatty e Entertaining Angels de Michael Ray Rhodes. No primeiro ele é o amante de Louise Bryant e no segundo um amigo de Dorothy Day. Esta última, companheira de bebedeira antes de se tornar apóstola social e religiosa explica assim o vício do O’Neill: "Eu tinha a impressão que ele considerava beber como um ensaio para a morte. Bebia o uísque puro, de um só gole, não para ficar bêbado mas para ver se agüentava". Muitos anarquistas do século XIX consideravam o alcoolismo como uma das piores pragas sociais, como as drogas no século XX . A doutrina, a esse respeito, não é fixa e varia de país para outro e de uma geração a outra. Pode se deplorar a dependência de Eugene do alcool mas não usa-la como um argumento em contra dele (ele mesmo se deu conta que a bebida o destruia e acabou se tornando sóbrio) tomando em consideração que o pai e o irmão mais velho eram alcoólicos, em quanto a mãe tinha se tornado morfinómana desde o nascimento dele.

Mais repreensível, talvez, tenha sido seu comportamento de marido e de pai.Casou com a primeira mulher e sumiu logo depois deixando-a grávida. A Kathleen pediu e obteve o divórcio tres anos mais tarde. Foi só ao atingir a idade de doze anos que o filho conheceu o pai. Sua atitude para com a família não melhorou com o segundo casamento (núpcias de amor com bastante anos de convivência) do qual ele fugiu de repente, sem nenhuma explicação, ignorando os filhos durante anos. Foi assim que Oona casou com Charlie Chaplin, que tinha tres vezes a idade dela, mas representava justamente uma figura paterna que substituia o pae que ela nunca tinha tido.

Como conclusão provisória digamos que O’Neill praticou a solidariedade do anarquismo social fora de casa mas na família praticou mais o comportamento individualista á maneira de Nietzsche, seu autor de cabeceira. Nestas alturas cabe formular a pergunta: como é que O’Neill via a si mesmo?

Numa carta de 1939 a Bernard Cerf o dramaturgo escreve: "Diga ao Saxe que estou me reconvertendo a um anarquismo de aço". Isto foi nas vésperas da Segunda Guerra mundial, durante a qual ele compõe The Iceman Cometh que parecia ser um adeus ao anarquismo, mas não foi o caso, como vamos ver. Também disse:

"Time was when I was an active socialist, and, then, after that, a philosophical anarchist" [3]. Na última conferência de imprensa que ele deu em 1946 (isto é no fim de sua carreira quando já era famoso no mundo inteiro devido ás suas peças e ao Prêmio Nobel e poucos anos antes de morrer declara "sempre ter sido um anarquista filosófico"

A obra confirmará tudo isso.

O anarquismo na obra do autor

Traços do pensamento e da conduta anarquistas se encontram em vários personagens de muitas peças de O’Neill. Nalgumas delas os anarquistas são personagens centrais (que ás vezes se identificam com o autor e outras são baseados em pessoas existentes) ou assunto da obra. É de estranhar que – como já aconteceu com a vida- o seu teatro de cunho anarquista não tenha interessado os historiadores do anarquismo americano. Quem mais o cita - como era de se esperar – é o Paul Avrich que, em pelo menos duas de suas obras [4] o apresenta como frequentador do Centro Ferrer de Nova Iorque, colaborador ocasional de Mother Earth, amigo de vários companheiros, etc… confirmando tudo o que foi dito pelos Gelb e pelo Sheaffer, e acrescentando alguns pormenores. É bem provável que o Avrich volte a falar do assunto no próximo livro dele, dedicado ao Alexandre Berkman, que foi um dos "ídolos" e também o tradutor russo do O’Neill.

Na maior parte das peças O’Neill se fantasia de personagem expressando idéias antimilitaristas, anticapitalistas, pro-sindicalistas ou abertamente anarquistas. Junto a ele uma galeria numerosa de companheiros por ele conhecidos. admirados de longe ou de convivência direta.

Limitar-me-ei a examinar quatro das peças de mais importância para as idéias anarquistas.
A primeira das com forte conteúdo anarquistas é The Personal Equation, de 1915, há, como sempre no teatro de O’Neill, elementos autobiográficos combinados como elementos imaginários.

Entre os primeiros está Tom que pode ser o autor como fôra na realidade (devemos lembrar que ele navegou profisionalmente e ocupou empregos humildes nas estivas ) ou como ele teria desejado ser. Na peça há também conflitos entre pai e filho bastante parecidos aos que ele vivia com o próprio genitor, conhecido actor teatral. A crítica discorda sobre se o Hartman da peça corresponde a Sadakichi Hartman (que realmente existiu) ou não seria um psudónimo para Hippolyte Havel, o anarquista tcheco que aparecerá como Hugo Kalman na peça posterior The Iceman Cometh. Olga Tarnoff, o papel femenino mais importante, foi inspirado por Emma Goldman. Esta peça é inteiramente dedicada ao anarquismoe contém toda a problemática contemporanea: os desentendimentos entre as várias facções da esquerda (os socialistas confiando no processo eleitoral e os anarquistas na ação direta), a denúncia da exploração capitalista, o direito de greve, a oposição dos revolucionários á Primeira Guerra mundial que já tinha estourado na Europa e na qual a América está a ponto de participar, a dramática alternativa entre meios violentos e não-violentos de libertação social, a união livre ou o casamento, e assim por diante. Apesar disso não se trata de teatro de pura propaganda, mas de uma peça em quatro atos na qual são criadas situações dramáticas de alta tensão e credibilidade.
A primeira cena tem como fundo a sede de um sindicato da IWW onde as conversas se desenrolam no nível públiso (planos de greve) e no nível individual (a Olga que ama o Tom mas rejeita a idéia do casamento e da maternidade). O Tom, bastante parecido com O’Neill, acabou de perder o emprego por ter feito propaganda "subversiva"no lugar de trabalho. O segundo ato situa-se na casa de Thomas Perkins, mecánico de navíos, viuvo e pai do Tom. A empregada do Perkins o informa das más freqüentações políticas e sentimentais do filho. Na discussão que sobreveem entre pai e filho, este admite viver maritalmente com Olga porém sem estar casados. O Perkins desaprova. Eles discordam também sobre o uso da força nas reivindicações sociais e políticas. A posição do pai é que o Tom deveria não só abandonar Olga com a qual ele vive no pecado, mas também pedir desculpas aos dono da companhia por estar assistindo a reuniões anarcosindicalistas.

O terceiro ato acontece em Liverpool, em parte a bordo do navio S.Francisco – onde se encontram Thomas Perkins de serviço ás máquinas, o filho (escondido sob o nome de Tom Donovan) que se encarregaria de dinamitar os motores do navio se a reunião sindical que está tendo lugar não decreta a greve), e a Olga, fantasiada de homem, como se fizesse parte da tripulação. Os sindicalistas burocráticos, corrompidos pelos patrões, se declaram contra a greve e os anarquistas resolvem então passar á sabotagem. O companheiro que devia fornecer a dinamita, porém, foi preso e os grevistas terão que encontrar outra solução para impedir ao navio de zarpar. O Tom decide imobilizar os motores mas, para isto, tem que enfrentar o próprio pai. Nesse encontro terível, cada um procura proteger o outro, mas, ao mesmo tempo, desempenhar tarefas contrárias. O pai sem querer, atira contra o filho.

O ato seguinte advém num hospital. O pai, bem como a namorada, querem tomar conta do Tom, reduzido a uma existência vegetativa. Ele não pode se expressar, parece não reconhecer ninguém, e só repete frases como um papagaio. A Olga e o Perkins, depois de brigarem, chegam a um compromisso: ambos amam ele e tomarão conta do Tom e da criança que a Olga traz na barriga.

A peça conclui com o Tom, que mentalmente voltou á infância, repetindo o slogan: "Viva a Revolução!"

A moral resumida pela Olga (-Emma Goldman) é : "…lutamos e caímos frente ao poder da Sociedade, mas a revolução continua sobre nossos cadáveres. Vai adiante mesmo se talvez não o vejamos. Nós somos a ponte. O nosso sacrifício não é inútil. Nos é suficiente saber que estamos fazendo a nossa pequena parte e que as nossas pequenas vidas e pequenas mortes , apesar de tudo valem algo".

A segunda peça que examinarei é de 1922 e intitula-se The Hairy Ape. [5]. Está ambientada novamente, em meios anarcosindicalistas mas, desta vez, tem tons de comédia.Os dois protagonistas principais são membros da classe peoletária que se queixam de sua condição social.Fazem parte da tripulação de um navio e falam a giria dos marinheiros. Apesar da falta de cultura que revelam no decorrer dos acontecimentos, não lhes falta o sentido da dignidade humana. Além de serem explorados pelos donos do navio e apesar de sujos devido ao trabalho que exercem na barriga do navio, ao redor das máquinas e no meio do carvão, eles gostariam de ser considerados seres humanos e não animais, "macacos peludos" (nome da peça mas também insulto de visitantes ocasionais, como a filha do patrão). Feridos em sua honra, Yank, o mais primitivo, o mais violento mas, talvez, também o mais sensível deles, reclama vingança. Isto poderia se efetivar numa visita aos bairros elegantes e uma provocação na saída da missa do domingo, contra a mesma Mildred Douglas, filha do armador, que tão severa se mostrou com ele durante a visita ao navio. No bairro nobre da cidade, cheia de lojas de luxo onde se vendem jóias e casacos de pele cujo preço é assombroso, o Long e o Yank observam que uma família de trabalhadores ou de gente pobre e desempregada poderia viver um ano com o que os ricaços gastam comprando um desses objetos. A irritação do Yank cresce e o leva á inevitável agressão de classe. Acaba sendo preso, pois o lugar dele não é na frente das casas dos poderosos mas num calabouço. Durante sua prisão alguém lhe lê um artigo de jornal sobre os Wobblies. Assim são chamados os membros do sindicato Industrial Workers of the World. O recorte reproduz o discurso de um senador antirevolucionário que denuncia o anarcosindicalismo como sendo a maior chaga da nação. O Yank se sente atraído por esse movimento e decide aderir a ele. Na próxima folga ele visita a sede dos portuários da IWW. Bate na porta e os companheiros estranham este comportamento pois a particularidade deles é de deixarem a porta sempre aberta: é só empurrar e entrar. Pede admissão que é aceita logo sem nenhuma formalidade e pagando só uma moéda. O secretário sugere que ele leve um pacote de folhetos revolucionários mas o adverte ser prudente pois essa propaganda é considerada ilegal pelas autoridades. Mas não é propaganda que ele quer fazer senão ação direta, que ele associa a violência contra a propriedade. Os Wobblies começam a desconfiar desse desconhecido que aparece de repente e propõe dinamitar os estaleiros ou os navios de Mr. Douglas. Isso cheira a provocação. Assim o imobilizam e põem para fora.

Rejeitado por todos ele acaba se refugiando no jardim zoológico onde, depois de ter um diálogo incomunicável com um gorila, acaba entrando na gaiola dele, deixando livre o animal perplexo. Agora sim que pode ser considerado um verdadeiro "macaco peludo".
A linguagem é dura, a alegoria é pesada mas a moral da comédia é em favor de uma visão individualista.

A mais importante das peças, porém, é The Iceman Cometh que ele começa a escrever em 8 de junho de 1939 e finaliza em 26 de novembro do mesmo ano. Relê o texto, faz algumas mudanças e assina a versão final em 3 de janeiro de 1940. O assunto da peça é a validade ou não das teorias anarquistas. Para ilustrar o assunto ele se pauta em documentos e pede ao amigo de juventude Saxe Commins [6] que trabalha na editora Random House (empregp obtido por "imposição"de O’Neill) para lhe mandar a velha literatura anarquista. Recebe assim cópia de velhos periodicos dirigidos por Hippolyte Havel (anarquista tcheco escolhido como personagem da peça com o nome de Hugo Kalmar) e obras do Bacunin e do Kropotkin. Outro personagem anarquista é Larry Slade, inspirado por Terry Carlin (Terence O’Carolan) que foi outro amigo de juventude que o autor ajudou até o fim da vida. O terceiro, mas não último, anarquista seria Don Parritt, que se apresenta como tal. Na realidade, é um traidor que veio da Califórnia para Nova Iorque, sob o pretexto de estar envolvido num atentado mas que trabalha para a polícia, procurando provas para ajudar a prender os culpados do atentado contra o Los Angeles Time fato que, históricamente aconteceu.

O enredo leva o Don ao encontro do Larry por este ter sido o único que, quando era criança, sempre o tratou com carinho e o escutou como se fosse um adulto. O Larry, para o Don, é uma figura paterna e, talvez, seu verdadeiro pai ( foi amante de sua mãe). Mas o Don é torturado e mente mas acaba admitindo que traiu, para salvar a mãe, diz ele no começo. A mãe, Rosa (inspirada em parte por Gertire Vose e em parte por Emma Goldman) está presa. O filho acaba confessando que a denunciou por ciúme, pois ela o traia com as próprias idéias que colocava acima de seus deveres de mãe. No fim, revela ao Larry ter traído por dinheiro. Angustiado ele medita o suicídio, ao qual o Larry, sem compaixão, o empurra.

Devemos lembrar que na vida real, na época em que O’Neill frequentava a boêmia do Greenwich Village, ele tentara o suicídio num local muito parecido com o Hell Hole [7]. As discussões sobre anarquismo na peça são estéreis e negativas, mas deve-se considerar que os tempos em que este drama foi concebido que assiste a uma dupla derrota: a do sonho anarquista na Espanha de 1939 e o início da Segunda Guerra mundial. Contudo o anarquismo não é o único assunto da peça. Em primeiro lugar, numa polémica com o comunista Mike Gold (que lhe foi apresentado por Dorothy Day) que queria que ele escrevesse obras mais engajadas, O’Neill declarou:"quando um autor escreve propaganda ele cessa de ser artista e torna-se um político". Além disso, O’Neill sempre insistiu sobre os diversos níveis de escritura. Há quem considere que o elemento religioso, representado por Hickey, é fundamental na peça. De fato existe um breve estudo de Robert C Lee que toma em consideração os dois aspectos: "Evangelism and Anarchism in The Iceman Cometh". [8.

O’Neill foi criado católico e, apesar de ter renunciado á fé (deixou no textamento que não queria padres no enterro) escreveu muitas peças sobre personagens e assuntos religiosos. Há uma interpretação do Iceman… come se fosse uma "Última Céia" tendo doze personagens na mesa incluindo a um Judas. Discordo desta interpretação pois os personagens, se incluirmos as tres prostitutas e os dois policiais superam o número de doze. mas sobretudo por outra razão, que seria a presença de duas personagens excepcionais e positivas, que não fazem justamente parte da elenco da distribuição e que ninguém – que eu saiba – percebeu como sendo centrais no enredo. Uma seria a Evelyn, mártir de tipo cristão, a mulher que o Hickey mata, por ser tão boa, tão compreensiva, tão paciente, tão generosa, tão amorosa, que entende tudo e aceita tudo, e que o marido sente a necessidade de matar, para preserva-la, para não decepciona-la, para não machuca-la moralmente.

Outra é uma mártir laica, Rosa Parritt a mãe traída do Don. Ela encontra-se presa por idealismo, paga pelos erros dos outros, mantém viva a chama do ideal. É uma figura empolgante, a ser reverenciada e imitada.

O verdadeiro anarquismo, em suma , não é dos tres bébedos, um parasita, um preguiçoso e um traidor mas nessa bela figura de mulher. O Iceman Cometh soa pessimista só depois de uma leitura superficial. Pense-se aos "pipe dreams", isto é, aos "castelos no ar" (as utopias, os sonhos irrealizáveis) aos quais se alude amiúde. O próprio autor, numa entrevista declarou: "Bem, o que eu posso dizer é que se trata de uma peça sobre castelos no ar. A filosofia subjacente é que sempre resta ainda um sonho, um sonho final, qualquer seja o nível baixo ao qual se cai, no fim da garrafa, eu sei, pois eu mesmo vi…". O’Neill estava satisfeito com esta peça e disse: "é uma das melhores coisas que jamás fiz. De alguma maneira talvez a melhor".

Outros devem ter concordado com ele pois existem duas versões cinematográficas, uma de Sydney Lumet e outra de John Frankenheimer. Aliás temos duas provas contundentes de que o pessimismoi aparente de O’Neill não marcou o fim do anarquismo dele. A primeira é a entrevista já mencionada, que terá lugar anos depois de ter escrito a peça e poucos anos antes de sua morte, na qual ele reitera suas convicções anarquistas. A segunda está no fato que logo depois de ter concluído The Iceman Cometh ele dá início a outra obra de tema anarquista, e desta vez uma comédia, mostrando que nem abandonou as convicções ideológicas da juventude, e não aderiu ao pessimismo dos personagens da peça anterior.

A última obra que mencionarei nunca foi concluída, mudou de título mas é a que revela o profundo conhecimento que O’Neill tinha do anarquismo internacional, de seus pensadores bem como de seus militantes. É dedicada ao Errico Malatesta, agitador anarquista italiano mundialmente conhecido. Teria sido uma comédia mas com um fundo ético e político. Não só cronológicamente, mas também filosoficamente é uma continuação do Iceman Cometh . Não foi nunca encenada nem terminada, mas todo o trabalho de pesquisa, as anotações do autor e as cenas já compostas foram publicados postumamente. Dedicou mais de um ano a esta comédia e revisou constantemente o texto. O título inicial era The Visit of Malatesta passou a ser Malatesta seeks Surcease. [9]O nome escolhido para o personagem principal era "Cesare", depois mudado em "Enrico", se bem que na Itália, onde ele nasceu, a forma preferida é a de "Errico". A colocação temporal inicial era de 1912, mas a data foi adiantada para 1923 para poder justificar a fuga do Malatesta da ditadura fascista iniciada em 1922. Malatesta, na realidade, não pode visitar seus amigos americanos até a morte (em 1935) por se encontrar sob vigilância policial especial em Roma, por ordem expressa do Mussolini. O Malatesta porém esteve nos Estados Unidos mas em 1899. Há quem diga que O’Neill poderia tê-lo escutado naquela época, mas não há provas disso ter acontecido. Aliás O’Neill teria tido 11 anos.
A função do Malatesta e da peça mesma é de representar a ESPERANÇA que talvez tivesse sido sacudida pelo pessimismo aparente do Iceman Cometh. Outro intuito dele é lutar contra o alcoolismo que freia as energias revolucionárias dos militantes mas que também alimenta a cobiça daqueles companheiros italo-americanos da comédia que negligenciam o ideal para ganhar dinheiro imitando assim os capitalistas. O do alcoolismo é um problema que afligiu não só o movimnento, mas o próprio O’Neill, vítima desse fenómeno, como o foram o irmão maior e o pai, bem como muitos dos boêmios, anarquistas ou não, que ele frequentou na vida real. Aliás não há peça dele na qual não apareça algum bébedo.

Na "Visita do Malatesta", a mulher do Daniello chama-se Rosa, como já se chamava Rosa a mão presa do Don Parritt da peça anterior. Pouco importa saber se o nome "Rosa" se refere a Emma Goldman ou não. Um dito da época nos ambientes anarco-sindicalistas é uma das reivindicações que vai além das melhoras económicas: "Queremos pão, mas rosas também". A "Rosa"torna-se metáfora do amor, da solidariedade, do engajamento, da chama da revolução. No rascunho se prevê que o Malatesta acabará casando com uma das filhas do Daniello, Francina, que se gaba de ter se tornado "a rosa da paixão pela revolução".

Não me atrevo a atribuir ao O’Neill uma conclusão da peça, mas tudo leva a crer que seria uma confirmação do "sonho anarquista".

Por razões de saúde O’Neill abandona este projeto e vários outros previstos no seu jornal pessoal. Uma tremedeira constante, mal diagnosticada pelos médicos e nunca curada o acompanhará até o fim e , nos últimos dez anos ele viverá uma existência solitária, separando-se temporáriamente até da própria mulher (a terceira, a que mais amou) nunca renegando, porém, seus ideais anarquistas.

Pietro Ferrua


[
1] Cheguei a esta conclusão depois de consultar a bibliografia de "First Search"que contém informação sobre todos os livros existentes nas bibliotecas e também as teses de doutoramento.
[
2] Arthur and Barbara Gelb, ed. O’Neill (New York, Harper and Row, 1974, in-8°, 990p.)
[
3] Louis Sheaffer: O’Neill. Son and Artist (Boston e Toronto, Little-Brown & Co., 1973, in-8°, 750p.) e O’Neill. Son and Playright ( mesmo editor, 1968, in-8°, 543p.);
[
4] Gelb, op.cit., p.286 (tradução deste autor)
[
5] Ibid., p.387
[
6] Interview do Sunday Times de 1946
[
7] O Hell Hole da peça é uma combinação de tres locais realmente existentes no Greenwich Villagee que O’Neill e outros boêmios frequentavam durante od dois primeiros decênios do sécilo XX
[
8] Paul Avrich, Anarchist Voices (An Oral History of Anarchism in America), Princeton, University Press, 1995 e posteriormente em The Modern School Movement (Anarchism and Education in the United States), Princeton, University Press, 1980
[
9] "Notes for The Visit of Malatesta"in Eugene O’Neill. The Unfinished Plays, edited and annotated by Virginia Floyd, New York, Continuum, 1988, in-8°,xxviii-213pp.); a mesma é também autora do precioso ensaio Eugene O’Neill at Work: Newly Released Ideas for Plays (New York, Ungar, 1981, in-8°, xxxix-407pp.).

13.10.06

Teatros contra a guerra


http://www.thawaction.org/



THAW is an international network of theater artists responding to the United States' ongoing "War on Terror," aggressive and unilateral foreign policies, and escalating attacks on civil liberties in the US and throughout the world.



O Teatro do Tejo é membro de "Theaters Against War" (THAW), uma rede internacional de artistas de teatro profundamente empenhados nacriação de uma cultura pró-paz e que acreditam no teatro comoveículo para uma resposta contra a guerra e contra os ataques às liberdades civis.
A 5 de Outubro estreou Teatros de Guerra, o seu mais recente projecto.

Teatros de Guerra
O Monumento
de Colleen Wagner;


tradução de Cristina Bizarro;
encenação e interpretação, Cristina Bizarro e José Mora Ramos.

Em cena de 5 a 22 de Outubro ( às Quartas a Domingo às 21h30)

Na Casa d’Os Dias da Água
Rua D. Estefânia 175, 1000-154 Lisboa


Telefone: 213 140 352E-Mail:
info@osdiasdaagua.com

12.10.06

O número de vítimas no Iraque equivale a 4 Hiroshimas !



«Little boy» tinha uma potência equivalente a 15 kilotons de TNT e a sua explosão a 6 de Agosto de de 1945 terminou com a vida de 140.000 pessoas. Nunca até ali – e até aos nossos dias de hoje - uma bomba tinha por si só morto tanta gente e produzido efeitos tão letais. «Fat Man», a que caiu três dias mais tarde sobre Nagasaki, com um potência de 21 kilotons, produziu metade de vítimas mortais da primeira. A explosão anunciada na passada segunda-feira pelas autoridades da Coreia do Norte não alcançou sequer 1 kiliton de potência, embora a expectativa fosse a explosão de uma bomba de 4 kilitons. Este facto já está na origem de especulações de que a explosão não terá corrido bem, ou mesmo que não terá passado de uma fraude destinada a brandir a ameaça nuclear com recurso a simples explosivos químicos. Do regime grotesco do Querido Líder Kim Jong-il pode esperar-se tudo.

Ora desde o dia 20 de Março de 2003, dia em que as tropas norte-americanas invadiram o Iraque, já se produziram mais de 600.000 mortes naquele país árabe, segundo um relatório elaborado por uma equipe de investigadores norte-americanos e iraquianos que foi agora publicado pela prestigiada revista médica britânica The Lancet. O número de mortos pode todavia ainda ser maior uma vez que as margens de erro do estudo vão dos 400 a 900 mil mortos. O número de vítimas da guerra do Iraque equivale pois ao das vítimas mortais da guerra civil americana (1861-1865), correspondendo ainda a 4 vezes o número de vítimas do Holocausto de Hiroshima.

O inquérito realizado corrige e melhora os métodos de um outro anterior, realizado nos finais de 2004 que estimava em 100.000 o número de mortos no Iraque, a maior parte do efeito dos bombardeamentos norte-americanos. O primeiro inquérito publicado por aquela categorizada revista médica foi duramente criticado, mas os seus autores asseguraram que o método se ajustava plenamente ao que é utilizado em situações de catástrofes e de epidemias. Os números anunciados pelos Estados Unidos até Dezembro passado apontavam para 30.000 civis mortos, ou seja, 20 vezes menos que a estimativa da Lancet. O portal da net iraqbodycount.org, que só recolhe os dados de falecidos por morte violenta publicados pelos meios de comunicação, já fala de 50.000, bem menos do balanço que agora foi tornado público.

O número de mortes de Hiroshima e Nagasaki fizeram acabar coma guerra mundial no Pacífico. Tentou-se inclusivamente justificar aquela matança de civis inocentes invocando os benefícios da paz. Esse argumento não serve, porém, para a guerra do Iraque que, apesar das suas vítimas representarem 4 vezes as de Hiroshima, está longe de terminar, nem há perspectivar de acabar tão cedo, nem seuqer se sabe muito bem como há-de terminar. Os mortos foram numa primeira fase provocados pelos bombardeamentos norte-americanos; seguem-se depois os atentados com carros-bomba e os ataques e enfrentamentos sectários, incluindo a actividade de esquadrões de morte formados por polícias e militares das comunidades em conflito. Os sequestros, os desaparecimentos, assim como o funcionamento de cárceres e prisões privadas são o pão de cada dia no Iraque actual. Constamente aparecem montões de cadáveres de pessoas assassinadas com sinais de terem sido torturadas: 110 corpos foram decobertos nestas circunstâncias em Bagdad desde a última segunda-feira. No Iraque ninguém impõe a ordem nem a lei, senão nas áreas restritas das bases norte-americanas, britânicas e governamentais. A guerra civil cavalga alegremente por todo o território, por mais incómodos que isso possa causar ao governo norte-americano.

Toda esta matança não serviu para introduzir a democracia no Iraque e na região. E muito menos para evitar a proliferação de armas de destruição maciça que, de resto, Saddam não possuía, Os seus efeitos foram justamente os opostos: não há democracia na região e tem-se visto o que resta dela no Líbano e na Palestina. Iraque tornou-se, além disso, numa enorme fábrica de terrorismo mundial. E não faltam «estados-canalhas» que se apressam em abastecerem-se de armas de destruição maciça a fim de evitar que Bush faça com eles o que fez com Saddam Hussein. Toda a ásia sabe muito bem o perigo real que representa o teste nuclear de Pyongyang. Mas enquanto o Irque arde, a bombinha do Querido Líder é o dedo que os tontos olham quando aponta a lua.

Texto de Lluís Bassets,publicado no ElPaís de 12 de Outubro de 2006
retirado de:
www.elpais.es/
.
.
Pesquisadores americanos estimam que 655 mil iraquianos - o equivalente a 2,5% da população do país - tenham morrido como resultado da invasão americana em 2003.

O estudo da John Hopkins Bloomberg School of Public Health, a ser publicado nesta quinta-feira na revista médica britânica The Lancet, compara as taxas de mortalidade em 47 áreas do Iraque escolhidas aleatoriamente, antes e depois da intervenção militar dos Estados Unidos.

A grande maioria das mortes teria sido causada pela violência, sendo 56% delas provocadas por tiros, enquanto explosões e ataques aéreos seriam responsáveis por cerca de 14%.

Ainda de acordo com a pesquisa, 31% das mortes violentas poderiam ser atribuídas a ações das forças de coligação.
O total de vítimas calculado pelo estudo é bem maior os números que têm sido avançados pelos media.

11.10.06

Protesto Geral - Manifestação em Lisboa (12 de Outubro)


Protesto Geral em Lisboa, no dia 12 de Outubro

Lutando pela concretização de uma estratégia de desenvolvimento que melhore as condições de vida e de trabalho, o movimento sindical vai exigir, em Lisboa, no próximo dia 12 de Outubro, emprego com direitos, valorização da Administração Pública e das funções sociais do Estado, reforço da segurança social pública, respeito pelo mundo do trabalho, seja no sector privado, seja na Função Pública, incluindo, naturalmente, a área da Educação.


Não admitimos que nos roubem o futuro!

Activix Fest - filmes sobre globalização e consumismo




A segunda edição do Activix fest sera organizada em conjunto com o evento de Outubro da organizacao ambientalista SOP, "Alternativa existe".

O evento será composto por uma exposição de desenho e pintura, uma Jam session(sábado há noite) e uma sessão informativa sobre Desenvolvimento Sustentável incluindo alguns resultados de pesquisas cientificas feitas por elementos da SOP.

O activix Fest desta feita terá menos filmes, de modo a permitir um diálogo mais elaborado.

Sábado dia 14 : - "I" the film (www.ithefilm.com) - Estreia nacional e parte integra da tournée Europeia do filme produzido por Raphael Lyon and Andres Ingoglia, que segue o primeiro ano de um colectivo da indymedia em Buenos Aires durante o colapso da economia argentina no meio de um clima de caos , assassinatos e instabilidade politica.

- Enron-smartest guys in the room- Produção norte-americana que analisa detalhadamente o colapso da multinacional Enron. O filme ilustra brilhantemente a ideologia neo-liberal em acção.


Domingo dia 15 – Life and Debt – Decomentario que descreve o impacto da globalização neo-liberal na Jamaica, como exemplo de um pais subdesenvolvido.

- Surplus: Aterrorizados em ser consumidores – Decomentario dos suecos adbusters sobre diferentes perspectivas e absurdos consumistas.


Para alem destes filmes também podemos complementar as projecções com uma série de pequenos vídeos, conforme a vontade da audiência, de acções, protestos, entrevistas, etc.

As portas serão abertas a partir das 2.30 da tarde, mas convêm confirmar no nosso blog
www.activixfest.blogspot.com.
ou por mail na morada
activixfest@lycos.com


A sede da SOP e na seguinte morada:

- Associação Polivalente para a Promoção do Desenvolvimento Sustentável – SOP – Salvando O Planeta. Caminho da Asprela (Rua Professor Ricardo Alves), 25-27, 4200- 462 Porto. Ao lado do hospital São João (há metro perto,estacionamento e um mapa da zona no blog).

Apareçam e espalhem a palavra

Movimento dos atingidos por barragens: colóquio no Porto (13 de Out. às 16 h. na Fac. de Ciências)


DATA: 13 de Outubro - sexta-feira - 16h


LOCAL: Faculdade de Ciências da Universidade do Porto - Anfiteatro 003 Departamento de Matemática da Faculdade Ciências da UP


Uma delegação brasileira do Movimento dos Atingidos por Barragens(MAB) vai falar sobre os impactos sociais e ambientais das barragensno Brasil.

A iniciativa conta com a participação do Engenheiro Leonardo Bauer Maggio (coordenador do secretariado nacional do MAB) e Maria Auxiliadora Feitosa (responsável no estado de Rondonia emembro da Direcção Nacional do MAB).


O MAB é um movimento brasileiro que se tem destacado pela defesa eprotecção dos cidadãos prejudicados pela construção de barragenspelas hidroeléctricas brasileiras.

Toda a informação sobre este movimento pode ser encontrada no seu endereço:
www.mabnacional.org.br.




Afogados na mágoa

Todo este meu sofrimento
é causado por um projeto.
Uma laje de concreto
atacou o Rio Uruguai,
por vingança a água sai
afogando a natureza
até lá onde a onda vai.
Até meu lindo arvoredo
lá onde fazia meus versos
ficou tudo submerso,
morreu minha felicidade,
mesmo contra minha vonta
devendo tudo em
baixo da água
com o coração cheio de mágoa
eu me bandiei pra cidade.
Minha junta de boi manso,
me obriguei a chamar na faca.
A brasina, minha vaca,
não vejo mais no curral.
Meu cachorro policial,
com certeza já morreu ou então vive como eu
sofrendo do mesmo mal.

O Adão, o Antônio e o Ciqueira,
meus três primeiros vizinhos,
uns foram pra Carazinho,
outros pra Parobé,
Meus filho e minha mulher,
viviam sempre risonhos
Hoje andam tão tristonhos
nem ouvir meus versos quer.
Mas eu não perdi a esperança
De um dia organizar esta massa
e eleger alguém que faça
realmente um Brasil novo.
Que mate a fome do povo,
faça a Reforma Agrária e
devolva minha área
pra mim ser feliz de novo.

Autor: Celso Moretti

10.10.06

Contra a pena de morte

A WCADP (Coligação Mundial contra a Pena de Morte) organiza a 10 de Outubro de cada ano o Dia Mundial Contra a Pena de Morte, com o objectivo de mobilizar as populações em todo o mundo a levar a cabo acções contra a pena de morte.
Este ano o dia será dedicado à abolição da pena de morte nos países em África. A maioria dos países africanos já não aplica a pena de morte, mas a abolição deve ser alargada a todo o continente.

ACTUE!

Apoie o fim imediato da pena de morte, assinando o apelo dirigido pela WCADP aos Chefes de Estado e de Governo africanos.

Apelo:

www.abolition.fr/ecpm/french/petitionscoalitiongb.php?ref=11

www.abolition.fr/ecpm/index.php



A WCADP apela para:

• A abolição da pena de morte nas leis nacionais
• A ratificação do Segundo Protocolo Opcional para o Tratado Internacional sobre Direitos Políticos e Civis
• O apoio da União Africana e das Nações Unidas


Ler mais em:
http://www.amnistia-internacional.pt/index.php?nid=11




A Amnistia Internacional revelou hoje que existem mais de 20.000 pessoas no corredor da morte, a aguardar execução pelos seus próprios governos.



Na sua última análise anual sobre o uso da pena de morte a nível mundial, a Amnistia Internacional revelou que pelo menos 2148 pessoas foram executadas, em 22 países, em 2005 – 94% dos quais na China, Irão, Arábia Saudita e EUA – e 5186 foram condenados à morte em 53 países.
A organização acautelou que estes números são aproximados, dado o secretismo em torno desta questão. Muitos governos, como o da China, recusam a publicação de estatísticas oficiais completas sobre as execuções, ao passo que o Vietname rotulou as estatísticas e os relatórios sobre a pena de morte como confidenciais, sendo tratados como um "segredo de Estado".
Segundo Irene Khan, Secretária Geral da Amnistia Internacional, "os números sobre a pena de morte são verdadeiramente preocupantes: 20.000 pessoas contam os dias até que o Estado lhes tire a vida. A pena de morte é a negação dos direitos humanos, na sua forma mais irreversível. É normalmente aplicada de uma forma discriminatória, no seguimento de julgamentos injustos ou é aplicada por motivos políticos. Pode ser um erro irreversível quando há uma falha na justiça."
"A pena de morte não é instrumento dissuasor de crime. Os governos têm de se concentrar em desenvolver medidas efectivas contra a criminalidade, em vez de se basearem na ilusão de controlo dado pela pena de morte" disse Irene Khan, Secretária Geral da AI.
Apesar destes números chocantes, a tendência para a abolição continua a aumentar: o número de países que levam a cabo execuções, diminuiu para metade nos últimos vinte anos e tem mantido esta tendência nos últimos quatro anos. O México e a Libéria são os dois exemplos mais recentes de países que aboliram a pena de morte.
"Num mundo que continua a afastar-se do uso da pena de morte, é uma gritante anormalidade que a China, a Arábia Saudita, o Irão e os EUA continuam a sobressair pelo uso extremo desta forma de punição, sendo os países que mais executam pessoas a nível mundial.
Na China – o país que leva a cabo cerca de 80% das execuções mundiais – uma pessoa pode ser sentenciada e executada por mais de 68 ofensas criminais, incluindo crimes não violentos como a fraude fiscal, peculato ou crimes relacionados com droga.
Na Arábia Saudita, as pessoas são retiradas das suas celas e executadas sem terem conhecimento de que foram sentenciadas à morte. Outros são julgados e sentenciados à morte numa língua estrangeira, que não sabem ler ou escrever.
Nos EUA dois homens foram libertados do corredor da morte em 2005, após a prova da sua inocência.
O Irão foi o único país que executou menores em 2005. O Irão executou pelo menos oito pessoas por crimes que tinham cometido quando eram menores, incluindo dois jovens que tinham menos de 18 anos na altura da sua execução. Em Março de 2005, os EUA aboliram a pena de morte para jovens que tivessem cometido crimes enquanto menores, tendo sido até então um dos "líderes mundiais" desta prática.
Irene Khan refere que "o facto de os EUA - que eram o principal executor de delinquentes juvenis - terem acabado com esta prática, deveria ter passado uma mensagem clara aos países que continuam a executar crianças, que esta barbaridade deverá terminar. A Decisão do Supremo Tribunal dos EUA, de banir a execução de delinquentes juvenis, é um dos marcos no caminho para um dos mais notáveis feitos a nível de direitos humanos: a abolição global da pena de morte para menores."
Em certos países, o recurso à pena de morte pode ser perigosamente misturado com interesses económicos. Na China, muitos temem que os elevados lucros por detrás do transplante de órgãos dos executados, pode funcionar como um incentivo à manutenção da pena de morte.
Em muitos países a crueldade inerente a estar no corredor da morte é exacerbada por procedimentos desumanos. Na Bielorússia e Uzbequistão, nem os sentenciados nem as famílias são avisados da data de execução, impedindo-os de terem uma última oportunidade de se despedirem. O corpo do prisioneiro não é entregue aos familiares, nem são informados do local de enterro.
A Amnistia Internacional também sublinha as consequências mortíferas dos julgamentos injustos.
No Japão, várias pessoas foram condenadas à morte após tortura e "confissões forçadas" por crimes que não cometeram. As falhas do sistema judicial no Uzbequistão e na Bielorússia permitem vários erros judiciais. As execuções no Uzbequistão seguem-se a alegações credíveis de julgamentos injustos, tortura e maus tratos frequentemente para obter "confissões".
"O movimento contra a pena de morte está imparável. Em 1977, só 16 países tinham abolido a pena de morte para todos os crimes. Em 2005, esse número cresceu para 86.
A Amnistia Internacional continuará na sua campanha contra a pena de morte até que todas as condenações à morte sejam comutadas e a pena de morte seja abolida. Os direitos humanos são para todos, inocentes ou culpados. É por isso que a pena de morte tem de ser abolida globalmente.
Informação adicional
As informações da AI sobre a pena de morte cobrem o período de Janeiro a Dezembro de 2005. Na China as estatísticas apontam para 1770 executados, contudo os números reais serão indubitavelmente mais altos. Um perito chinês em legislação foi citado recentemente como tendo afirmado que os números verdadeiros relativos às execuções na China se aproximam dos 8000. O Irão executou pelo menos 94 pessoas e a Arábia Saudita executou 86. Os EUA executaram 60 pessoas.


Mais informação:


http://www.abolishdeathpenalty.org/

http://www.worldcoalition.org/bcoaljm01.html



Informação suplementar:

No próximo ano de 2007 irá realizar-se em Paris o 3º Congresso Mundial contra pena de morte ( entre 1 e 3 de Fevereiro de 2007). Será o momento em milheres de abolicionistas, do mundo inteiro, se reunirão para mostrar a todo o mundo a sua vontade de acabar com esta vergonha aplicada ainda por muitos Estados contra a dignidade humana.

USA, Reino Unido e Suíça são os países mais corruptos do mundo


As novas variáveis introduzidas pela Tax Justice Network sobre a corrupção no mundo permitem concluir que os países e as economias mais desenvolvidas são os agentes que mais beneficiam com o fenómeno da corrupção no mundo económico e financeiro.


Até agora a opinião pública mundial habituou-se a associar os grandes centros de corrupção a certos países da África subsahariana ou aos países e governos da América Latina, correspondendo assim a uma perspectiva enviesada acerca da natureza do fenómeno da corrupção e de quem seriam os seus principais agentes. Acontece que recentemente foi divulgado um estudo que revela que são países como a Suíça, o Reino Unido e os Estados Unidos da América aqueles cujos Estados mais favorecem a evasão e a gestão ilegal de capitais cujo montante se estima em 111 biliões de dólares em todo o mundo.

Por meio de instituições privadas baseadas nos seus territórios são assim desviados fundos para os chamados paraísos fiscais com a cobertura ou o beneplácito dos poderes públicos daqueles Estados. Ficou-se também a saber que os governos destes países lutam abertamente contra a adopção de leis fiscais internacionais que fixassem sanções aquelas operações financeiras ilegais que, apesar da sua ilegalidade, não têm sancionamento adequado. Operações de branqueamento de capitais deixa pois de ser fiscalizado com vantagens evidentes para os criminosos. Observou-se, além do mais, que as principais empresas privadas daqueles países se locupletam indevidamente, graças à comissão de vários delitos financeiros que, no entanto, nunca são investigados e ficam, definitivamente, impunes com evidente prejuízo para o erário público e a economia dos respectivos países.

Por ocasião de um ciclo de conferências realizadas no início do mês de Setembro passado e promovido pelo Grupo de Investigação de geografia Económica, John Christensen, elemento pertencente à Tax Justice Network apresentou o referido estudo sobre o estado da corrupção em todo o mundo, demonstrando com dados estatísticos a relação substantiva entre corrupção e a evasão e gestão ilegal de grandes capitais.

Este documento desloca a atenção que habitualmente incidia sobre a corrupção nos países do Terceiro Mundo para os países mais desenvolvidos ao concluir que são estes não só os principais beneficiários como os agentes activos da corrupção. Além disso, serve de contraponto aos relatórios anuais que são apresentados amiúde pela organização Transparência Internacional ( TI) que coloca sistematicamente nos seus rankings de corrupção os países pobres do Terceiro Mundo como os principais agentes de corrupção. Recorde-se que a TI assenta as suas listas na base de um índice de percepção da corrupção que é formulado com informações difíceis de serem verificadas e que são fornecidas por empresários e consultores, cuja identidade é desconhecida, e que supostamente operam no terreno, pelo que os seus interesses são objectivamente conflituantes com os sujeitos da matéria em estudo. Aliás, estes mesmos estudos lançam a sua atenção, quase que exclusivamente, às situações de enriquecimento ilegal no âmbito dos poderes públicos (excluindo sistematicamente as relações de protecção entre governos e agentes privados implicados na gestão de dinheiro sujo), dando especial ênfase aos fenómenos de suborno, tráfico de drogas e armas, contrabando de pessoas e bens. Práticas estas que são endémicas nos países subdesenvolvidos e que, no entanto, só são responsáveis anualmente por 35% da totalidade do dinheiro sujo.

A Tax Justice Network acrescenta, portanto, novos factores para a devida ponderação do fenómeno da corrupção da alta finança. Christensen privilegia, de resto, a questão da oferta na sua análise, mais do que na procura, como tradicionalmente acontecia. Ou seja, oferta de serviços de gestão financeira de dinheiro negro, assim como de pagamentos e subornos por parte de governantes de duvidosa imagem pública, em troca da adjudicação de contratos e prebendas para a exploração de recursos nacionais. Um fenómeno como este implica duas partes, a que paga para receber e a que simplesmente cobra, ainda que até agora só se falava da segunda, deixando de lado os pagadores dos subornos e os beneficiários destas actividades.

O estudo divulgado revela ainda que, para além dos enriquecimento ilegal registado nas instituições públicas, os montantes gerados pelas actividades comerciais e financeiras ilícitas representam anualmente cerca de 65% do fluxo total de dinheiro negro. Estas actividades incluem por exemplo a depreciação fraudulenta, preços abusivos de transferência, transacções falsas ou fraudulentas, assim como o uso de trusts, fundações e paraísos fiscais para lavar e desviar ilegalmente fundos, práticas estas que são exclusivas dos países desenvolvidos e que, para cúmulo, são aí publicitadas e promovidas às claras.


Texto redigido a partir de um artigo publicado no último número do jornal Diagonal, de autoria de Astor Diaz Simón

Mais info:

9.10.06

Filosofia radical





The Radical Philosophy Association
http://home.grandecom.net/~jackgm/RPA.html#links

Founded in 1982, Radical Philosophy Association members struggle against capitalism, racism, sexism, homophobia, disability discrimination, environmental ruin, and all other forms of domination.
We also oppose substituting new forms of authoritarianism for the ones we are now fighting. Our efforts are guided by the vision of a society founded on cooperation instead of competition, in which all areas of society are, as far as possible, governed by democratic decision-making.
We believe that fundamental change requires broad social upheavals but also opposition to intellectual support for exploitative and dehumanizing social structures.
Our members are from many nations and continue a variety of radical traditions including (but not limited to) feminism, phenomenology, Marxism, anarchism, post-structuralism, post-colonial theory and environmentalism.
Our efforts center on conferences and publications.
We consider the enterprise of radical philosophy inherently interdisciplinary and welcome persons not trained in philosophy


http://www.radicalphilosophy.org/

II Congresso Português de Literaturas Marginais

(Fac. Letras do Porto, 12 e 13 de Out. 2006)

Local: anfiteatro nobre da Fac. Letras do Porto

Entrada livre



12 de Outubro

9.30

Da Literatura e das literaturas marginais – Arnaldo Saraiva

10.15

Quaod loquimur transit: as verdades da oralidade e a verdade da escrita – Ria Lemaire

O Romanceiro tradicional português: estado da questão – Pere Ferre

Dicionário prático de provérbios portugueses – Gabriela Funk

Moderador: Francisco Topa


11.30

Panorama actual de los estúdios sobre la literatura popular en España – José Manuel Pedrosa


A crítica social na literatura popular: do cancioneiro oral à literatura de cordel e produção de poetas populares – João David Pinto Correia

Memória de polícias em Portugal: a utopia de um novo herói – Maria de Lurdes Sampaio

Moderador: Pedro Eiras


15.00

O que é marginal é bom – elogio das leituras periféricas dos temas centrais – Rui Zink

Hagiografia: un género marginal? El caso de santa Librada – Maria Eugenia Díaz

Os blogs e a alusão privada: o caso de Casmurro – Miguel Ramalhete


Moderador: Maria João Reynaud


16.15

Sessão de homenagem a Francisca Neuma Fechine Borges (m. 28 de Set. de 2006)

O Padre Cícero, o Santo Nordeste, preferido herói do cordel brasileiro – Ângela Birner

Os monstros e as margens – do folheto de cordel ao álbum de banda desenhada – Ana Margarida Ramos

Moda e teatralidade social na literatura de cordel portuguesa ( 1781-1789): contributo para uma definição do peralta - Marta Norton

Viagem a São Saruê, de Manuel Camilo dos Santos: algures entre a «bobagem» e a utopia – Sofia Araújo

Vozes femininas na música e na literatura – cantigas de mulheres na Paraíba – Socorro Lira

Moderador: Arnaldo Saraiva




13 de Outubro

9.30

Lindley Cintra e uma sua antologia inédita de lírica portuguesa tradicional – Maria Aliete Galhoz

O conto popular em Portugal : da marginalização à institucionalização – Rui Faria

O poeta popular Moreira da Silva entre o sonho e a realidade – Armando Zenhas

Cidade de Vidro em quadradinhos: Paul Auster adaptado por Karasik e Mazzucchelli – Helena Lopes

Moderador: José Carlos Miranda



11.15

Grandes e pequenos assuntos da nossa praça – Ana Paula Guimarães

A sátira em poetas populares e popularizantes – Carlos Nogueira

A retórica das adivinhas a partir de um corpus recolhido na região do Algarve – J. Ruivinho Brazão

Poesia experimental e ciberliteratura: por uma literatura marginal izada

Moderadora: Zulmira Santos


15.00

Assim seja. Da reza popular a Clarice Linspector – Pedro Eiras

«O sapo e a lavadeira» e um conto de Grimm – Isabel Cardigos

A narrativa policial portuguesa dos anos 30: Reinaldo Ferreira e a «novela policial» - Gianluca Miraglia

D. Maria da Glória, «Uma migalha na sala do universo» - estudo de um caso de reprodução de poesia oral popular – Tânia Moreira

Moderador: Ana Paula Coutinho Mendes



16.45

Da carpintaria do verso: sobre a obra de Joaquim Moreira da Silva - Francisco Topa

A lenda do terrorista agradecido – J.J. Dias Marques

Da mnemoteca à biblioteca do povo (Espanha, séc. XVIII-XIX) – Jean-François Botrel

Moderador: Maria Fátima Marinho


18.00
Encerramento

8.10.06

O trauma provocado pelos actos de repressão



As sequelas psicológicas e físicas resultantes das acções repressivas



A problemática ligada aos traumas provocados pelas acções repressivas dos agentes e dos corpos policiais a mando do aparelho de Estado e dos interesses dominantes tem vindo a ganhar importância crescente nas respectivas áreas científicas.
O caso mais recente e mais conhecido foi o da Ponte Aubonne, em 2003 na Suiça, onde a polícia cortou as cordas onde estavam suspensos dois activistas que pretendiam assim protestar contra a realização da cimeira do G-8 em Evian, e em que, na sequência do acto irresponsável da polícia, aqueles activistas quase que iam perdendo a vida.
Estes acontecimentos chamaram mais uma vez a atenção para o impacto dos traumas físicos e psicológicos dos activistas que venham a ser vítimas daqueles actos repressivos.

Recorde-se que em 2003 na Cimeira do G-8 em Evian ( França), um grupo de activistas bloqueou os delegados dos diferentes países ao provocar um engarrafamento em plena auto-estrada. Dois desses activistas, o inglês Martin Shaw e a alemã Gesine Wenzel, suspenderam-se com cordas de escalada na ponte de Aubonne em plena auto-estrada. Outros companheiros ficaram encarregados de proteger a corda, e outros ainda de gravar a acção de protesto. Foi então que a polícia de forma totalmente irresponsável decidiu fazer circular o trânsito e não contente com isso, foi ao ponto de cortar simplesmente as cordas sob que estavam suspensos aqueles activistas.
Martin Shaw caiu de uma altura de 23 metros de altura, enquanto Gesine foi salva in extremis por outra activista conseguiu segurar a corda cortada pela polícia. Martin sofreu graves traumatismos na coluna o que lhe trouxe sequelas que o impedem de desenvolver o trabalho que normalmente desenvolvia, e Gesine acabou por lhe ser diagnosticada stress pós-traumático.
No passado dia 6 de Setembro o Tribunal de Apelação suíço rejeitou o recurso que aqueles dois activistas interpuseram no tribunal do cantão suíço contra os polícias Claude Poget ( encarregado máximo daquela operação policial) e Michael Deis ( o polícia que cortou a corda) mostrando, a quem ainda duvidasse ,em que medida o valor da vida dos cidadãos ( neste caso, daqueles dois activistas) não era tão importante face a outros valores….
Estes acontecimentos chamaram a atenção mais uma vez para os efeitos da repressão e mostraram como o medo e a intimidação são os instrumentos privilegiados pelos poderosos para se imporem. Mais do que isso, mostram a necessidade de tratamento e acompanhamento das sequelas físicas e psicológicas que porventura tiverem provocado nos activistas intervenientes nas acções que são objecto da violência repressiva.
Daí a importância cada vez maior da aprendizagem de técnicas de preparação psicológica face a actos violentos de repressão que possam atingir-nos a nós próprios como aos companheiros próximos e que irão sentir necessidade de apoio, para o que nos devemos estar preparados. Intervenções adequadas e no tempo próprio poderão evitar traumas maiores e sequelas prolongadas.
Martin e Gesine, vitimas da repressão policial, têm vindo a criar, desde então, vários colectivos em diversos países, vocacionados para abordarem a relação entre a repressão e os traumas, e as maneiras destes serem convenientemente tratados


Antecipar-se ao trauma

Os traumas são causados pela instalação de um grande stress dentro do nosso cérebro. Desencadeia-o normalmente um acontecimento inesperado que leva o indivíduo a confrontar-se com uma iminente ameaça de morte ou de danos irreversíveis, o que provoca sentimentos de angústia e impotência difíceis de se controlar. As vítimas podem ser os implicados directos ou então testemunhas de acontecimentos. O stress provoca um subida de tensão na pessoa, demasiadamente violenta, que provoca uma situação em que a pessoa perde o auto-controle e se regista um estilhaçamento da personalidade. Sintomas de trauma poderão ser o desejo de fugir, ataques de pânico, sentimentos de cobardia, reacções corporais como tremores, problemas respiratórios, insónias, tendências a experimentar flash-backs, perdas de concentração e de memória, auto-medicação, recurso a drogas, tendência ao isolamento, sentimento de vazio e falta de entusiasmo ou, pelo contrário, hiper-excitação que leva mesmo a provocar dores físicas, e finalmente, dissociação, isto é, projecção num outro «eu» que também tenha passado por uma experiência de sofrimento.
Anteciparmo-nos aos traumas através de visualizações e «jogos de papéis» poderão ter uma função preventiva no desencadeamento dos traumas. É muito importante falarmos destes assuntos, verbalizarmos os nossos sofrimentos, e até escrever o que sentimos e tivemos que passar, fazê-lo periodicamente a fim de podermos avaliar a evolução dos danos, até que tudo esteja superado. O meio e o apoio que se receber é de crucial importância. Tanto mais que os danos sofridos devem sempre ser vistos como danos colectivos e nunca como de carácter individual. As pessoas afectadas não devem perder qualquer tipo de vínculo social com o seu meio. Quem com elas se relacionar devem saber escutá-las e evitar o estabelecimento de comparações banais, nem muito menos fazer qualquer tipo de culpabilização. Qualquer profissional que venha em sua ajuda deverá manter alguma relação de simpatia ou tolerância para com a acção das vítimas.

(o texto é uma adptação livre do artigo sobre a mesma matéria publicado pelo jornal Diagonal, na sua última edição)

Mais info:

www.activist-trauma.net

www.aubonnebridge.net


fotos -
http://www.aubonnebridge.net/down.php


The Aubonne Photostory -
http://www.aubonnebridge.net/slideshowen/index.html






O trauma resultante de actos violentos de repressão (em inglês):

We have seen that when we suffer a traumatic political experience such as the disappearance of a loved one, torture or fear, we need to integrate it into our lives. You can't put brackets around parts of your own life experiences. A person who has been tortured may try to forget it, or to live as if nothing had happened. But it's not possible: we need to integrate these experiences into our political projects and our lives.

Often external circumstances make this integration more difficult. Perhaps the family doesn't have space to talk about it; or repression forces us to flee and gives us no time to stop and face what has happened. Other times the attempts that a person or group has made to face the experience have not been fruitful, so the experience is denied, or conversely, becomes completely overwhelming.

So, we find ourselves with three possible responses to dealing with trauma of a political nature. We have called these responses "normality", "impossibility" and "reintegration".

Normality is characterised by the attempt to deny and repress the effects of the experience, and as a result, the experience itself. This type of attitude often leads to what we have called the "privatisation of pain"; that is to say that the experience is lived in an isolated way, with no space, alone or with others, to deal with the experience. The pain stays inside and it is very difficult to get it out and to share it with others.

Often the oppressive social context and the need to continue the struggle mean that the person the person thinks that it is better to try and forget what has happened, deny its impact, and keep moving forward.

They create blocks in their consciousness and in their relations with others, doing whatever possible to hide the combination of experiences and feelings produced by what happened.
Nonetheless, when the damage done is considerable, there is little point in trying to deny the experience and live a pretend normality. Denying and repressing feelings uses an immense amount of energy and over time the person has less and less energy for the task of rebuilding themselves and giving meaning to the experience.

It is a vicious circle, each denial demands more denials (to oneself and others) and each attempt to repress the feelings uses more and more energy.

This attitude of making yourself be strong is normal, and it can be very useful in some situations, for example when responding to immediate threats. Under torture a person needs to keep their defences up. After an attack much energy is needed to respond to the events, denounce what has happened, etc... However, over time this need to be strong becomes a problem.

There are various defence mechanisms that can be used to deny or repress an experience. These defence mechanisms are not ,in themselves, a bad thing. They are the attempts a person makes to keep going in a social environment that it is often repressive and closed. Nevertheless, over time these defence mechanisms consume a lot of energy. Instead of helping a person to keep going, in the long run they become a problem that weakens them.

Many of these mechanisms lead to isolation and avoidance; such as not wanting to relate to other young people because they remind you of murdered companions, not wanting to receive news as it revives past experiences, etc. This behaviour makes intimate relationships and social ties more difficult, and these things are vital to rebuilding lives and political projects.

Individual responses:Denial: nothing happened...Pretence: acting as if nothing happened.Actively covering up: e.g. inventing a past that has nothing to do with what happened.Distorted Rationalisation: I can't be afraid, i must be strong and forget what I feel.Avoidance: avoiding being around people or in certain situations.Repressing feelings.Not thinking about it.

It is not only individuals that use these defence mechanisms. Families and groups can also use them. A group may respond in this way to experience they have had as a group or to things that have happened to individuals within that group (for example a compañero captures and torured)[some of these group defence mechanisms can be found on the next page]

Forms of group responseLife goes on: not stopping for a minute, as a way of avoiding a "dangerous" conversation and eliminating space to think...The reign of silence: situations in which a topic is not talked about because teh group members prefer to avoid it (for example the disappearance of a family member). I kind of mutual "agreement" is reached to not talk about it.Pretending: Acting as is nothing had happened, although in private all the group members are aware of the situation.Delegating a memebr of the group as the "weak" one, or the only person affected. ("we're fine, it's Jose that's having a bad time...")

These mechanisms are attempts on behalf of the group to maintain a "pretended normality": to act as though nothing had happened. Over time these mechanisms make the group's structure more rigid. As relations within the group become more rigid it becomes harder to approach problems.

The rigidity of the group also brings an increase in tensions within the group which is often unspoken, but makes people snap at things that in other circumstances would be of little importance.

Impossibility is the situation where a person finds an experience so overwhelming that they feel they will never be able to move on. ("there's nothing I can do... they've broken me..") The person finds themself weakened by the conviction that it is impossible to assimilate it and rebuild thier life.

Often this situation arises after many failed attempts to move on. It is possible that the person has not been able to find the space to talk about it and they feel the are "broken".
Other times the attempts to approach the experience have been made when the person was very low and had little energy for the task. This produces the conviction that it is impossible. The person feels they are in a hole with no way of getting out.[on the next page we list some frequent situations]

Sometimes an entire family or group lives a situation of impossibility. They may find themselves "stuck", thinking always of what happened, those who absent, etc... living and overwhelming past. This means that they can't move forward in the present or project into the future, and they find themselves tied to the experience.

The third possible approach, which we have called reintegration, supposes a restructuring of a person or group's life and identity, taking into account the experience (torture, disappearances, persecution, etc.) and not denying it.

It is generally more effective to confront an experience and what it means to a person or their family and friends, than to pretend that nothing has happened. To make this kind of integration work it helps to share feelings with others; evaluate the current situation, project into the future, and perhaps look at what the experience has created.

One of the prerequisites for reintegration is to accept that the experience really happened and to understand its nature.

The second issue is "resocialising" the experience (understanding it, sharing and participating). This makes it possible to:Intergrate the experience and give it meaningOvercome victimisationRecover life and social action

The reintegration we are talking about is not, therefore, just an individual process. It is a group, family and collective process: a process of support.

Through the course of this book we talk about community in a broad sense, as an institution, a place where people live together, work together etc. Nevertheless, now we want to emphasise the community as a group of people who share their experiences and have a sense of mutlual solidarity. In this sense the community has an affectionate dimension, based on human relationships of mutual understandng and support.

The support that can make reintegration of the experience possible is based on rebuilding relations in the community. This support can be social (not leaving anyone alone...), material (improving the quality of life), emotional (making space to share intimate feelings), and political (an encounter with a deeply human and ideological sense).

7.10.06

Os inventores de doenças


Saiu do prelo um livro que deveria merecer a devida atenção. Tem como título «Os inventores de doenças» (ed. Âmbar, 2006) e o seu autor é Jorg Blech, jornalista científico de órgãos de comunicação como a revista Stern, e que trabalha actualmente em Der Spiegel, assim como no jornal Zeit. O livro pretende constituir-se como uma denúncia corajosa e bem documentada dos abusos praticados pela indústria farmacêutica em busca de mais lucro.
O autor revela-nos de que forma os grandes consórcios farmacêuticos se empenham em transformar-nos sistematicamente em doentes para grande proveito lucrativo das empresas.


Reproduzimos um breve excerto do livro:

Segundo Voltaire, a arte que os médicos praticam consiste em entreter o doente até que a natureza o cure. Actualmente, inverteu-se a conclusão do filósofo francês: a medicina moderna faz crer às pessoas que a natureza as ataca constantemente com novas doenças que só podem ser curadas pelos médicos.
(…)

Hoje em dia, as empresas farmacêuticas e os grupos de interesses médicos inventam as doenças: a doença transformou-se num produto industrial. Para tal, as empresas e as associações convertem os processos normais da existência humana em problemas médicos, «medicalizam» a vida. (…)
O desejo inato do homem em estar saudável é uma coisa natural. Mas os inventores de doenças alimentam esse desejo, utilizam-no para os seus próprios fins e tiram proveito disso de forma calculada.

(…)

Para poder manter o enorme crescimento dos anos anteriores, a indústria da saúde cada vez tem de tratar mais pessoas que, na realidade, estão saudáveis. Os grupos farmacêuticos que operam globalmente e as associações de médicos ligadas internacionalmente definem de novo a nossa saúde: os altos e baixos naturais da vida e os comportamentos normais são reciclados de forma sistemática em estados patológicos. As empresas farmacêuticas patrocinam a invenção de quadros clínicos completos, e conseguem assim novos mercaod s para os seus produtos.

(…)

«É fácil inventar novas doenças e novos tratamentos», constata o British Medical Journal. Muitos precoessos normais da vida – o nascimento, o envelhecimento, a sexualidade, a infelicidade e a morte – podem ser medicados.»(in Moynihan, R e Smith, R. «Too much medicine?», British Medical Journal, 324, pp 859-860, 2002)

(…)

O livro fala também de um movimento oposto. Um número considerável de médicos, a meu ver cada vez maior, revolta-se contra a nedicalização da vida exercida pela indústria e os seus colaboradores médicos. Para este grupi, a ética médica continua a ser mais valiosa que a sombria perspectiva de fazer passar as pessoas saudáveis por doentes.

(…)

No início do séc. XX, um médico chamado Knock foi o encarregado de tirar da cabeça das pessoas a ideia de saúde. Este francês criou um mundo onde só havia doentes: «Toda a pessoa sã é um doente que ignora que o é».
Knock começou a exercer numa aldeia montanhosa chamada Saint-Maurice. Os habitantes eram saudáveis e não iam ao médico. O antigo médico da aldeia, o empobrecido Parpalaid, tentou consolar o sucessor dizendo-lhe: «Aqui terá a melhor clientela que existe: deixá-lo-ão em paz». Mas Knock não estava disposto a conformar-se com isso.
Porém, como podia um principiante atrair ao consultório aquela gente cheia de vida? Que poderia receitar a pessoas saudáveis? Knock convenceu astuttamente o professore da povoação e conseguiu que este arengasse aos aldeões acerca dos supostos perigos que os seres vivos mais diminutos lhes faziam correr. Contratou o pregoeiro da aldeia e mandou-o anunciar que o médico convidava todos para uma consulta gratuita, para «limitar a inquietante propagação de oenças de todo o tipo que desde há alguns anos alastram pela nossa região, outrora tão sadia». A sala de espera ficou a abrrotar de gente.
Nas suas visitas, Knock diagnosticou sintomas estranhos e inculcou nos ingénuos aldeões a necessidade de um cuidado permanente. A partir de então, muitos dele ficaram de cama e a única coisa que tomavam, quando muito, era água.A aldeia parecia um hospital: pessoas saudáveis, só restavam as estritamente necessárias para cuidar dos doentes. O farmacêutico tornou-se um homem rico, tal como o dono da estalagem, cuja sala era utilizada com pleno rendimento, como hospital de campanha, aberto vinte e quatro horas por dia.
Todas as noites, Knock contemplava entusiasmado um mar de luzes: 250 quartos bem iluminados – segundo prescrição médica - , 250 termómetros embutidos nas cavidades corporais correspondentes, até darem as dez.». «Quase toda a luz me pertence», entusiasmava-se Knock. «Os que estão dormem na escuridão; não são importantes».

( excerto do livro de Jorg Blech, «Os Inventores de doenças», que remete por seu turno para a peça do escritor francês Jules Romains, «Knock ou o triunfo de medicina», estreada em 1923, e para o livro de L.Payer «Disease Mongers»(Os traficantes de doenças), editado em 1992)



Sintomaticamente o livro começa com uma citação de Aldous Huxley: « A medicina avançou tanto que já ninguém está são»