25.12.05

A mudança do clima


As delegações presentes na Conferência das Nações Unidas sobre a mudança climática que se realizou em Montreal de 28 de Novembro a 9 de Dezembro destinava-se a fazer um balanço provisório sobre a execução do Protocolo de Quioto que tem como objectivo baixar as emissões com efeito de estufa ( gaz carbónico e metano, GES) de 5,2% em 2012 em relação ao valores registados em 1990. Os debates incidiram ainda sobre as medidas a tomr no pós-Quioto.
Uma análise deste género tornou-se indispensável porquanto numerosos sinais confirmam que o clima da Terra já começou a mudar. A temperatura média mundial aumentou de 0,6 graus desde o início da era industrial ( isto é, 1861) por efeito do aquecimento induzido pelos GES. No norte do Canadá as consequências já se fazem sentir como mostram as modificações verificadas nos modos de vida d e dos Inuits e dos animais do Árctico. Nos Alpes assim como nos Andes os glaciares de montanha estão a derreter colocando em perigo as populações locai que se sentem assim privadas de um recurso precioso como é a água. Certas espécies de peixes do Atlântico migram para o norte e as aves mudam as datas de nidificação quando não decidem mesmo abandonar a sua tradicional migração.
Em França as mudanças são perceptíveis desde há 15 anos no domínio agrícola. A floração das árvores de fruto realiza-se cada vez mais cedo e a data das vindimas avançou cerca de 3 semanas ao longo dos últimos 50 anos.

Os responsáveis de todas estas mudanças são os gazes com efeito de serra emitidos na atmosfera devido às actividades humanas desde o ano de 1861. Resultados recentes do Épica ( European Program for Ice Coring Antárctica) mostram que a taxa destes gazes nunca foi tão elevada como agora, pelo menos, desde há 650.000 anos. A análise de minúsculas bolhas de gás presas no espesso gelo do pólo sul indica que a taxa de gás carbónico ficou limitado aos valores compreendidos entre 180 e 280 ppmv (partes por milhões em volume) durante milénios. Só durante os últimos 150 anos de actividade industrial é que se passou para os 380 ppmv. Quanto à taxa de metano, esta variou em média durante milénios entre 320 e 720 ppbv ( partes por biliões em volume), enquanto os valores actuais são de 1.700 ppbv.

Para limitar os danos resultantes do aquecimento global do clima, os países industrializados assim como os países em vias de industrialização devem modificar o seu modo de vida, consumindo de outra forma, e fazendo ainda apelo às energias renováveis bem como isolando as casas.
A China e a índia não podem ficar aparte desses esforços, tanto mais que a mudança climática e todo o cortejo de fenómenos a ela associado (chuvas diluvianas, secas, tempestades) afectarão duramente não só os países ricos como também os pobres. No ano de 2005 as catástrofes naturais – sismos, tsunamis, ciclones tropicais – causaram a morte a dezenas de milhar de pessoas na Ásia. A estação dos ciclones no Atlântico ultrapassou em número e em força ( e em destruições) os que se registaram no ano de 2004, que foi considerada já um mau ano.
A sociedade Munich Re, uma das mais importantes seguradoras do mundo, anunciou em Montreal que « conheceu durante o ano de 2005 as maiores perdas financeiras devidas a catástrofes naturais. As primeiras estimativas da empresa falam de uma perda de mais de 200 mil milhões de dólares, dos quais 70 mil milhões recaíram sobre valores que estavam no seguro. Em 2004 as catástrofes climáticas tinham tido um custo de 145 mil milhões de dólares.
Estes números mostram de modo insofismável que estamos em vias de passar do domínio das previsões para o das provas irrefutáveis.

Texto publicado no jornal Le Monde e da autoria de Christiane Galus

Acção de denúncia contra as empresas «dermopatéticas»….


O colectivo feminista galego «Mulheres Transgredindo» realizou ontem mais uma acção pública de denúncia contra as empresas que, sem escrúpulos, vendem perigosas ilusões às mulheres propondo-lhes cirurgias e operações estéticas miraculosas. A iniciativa consistiu numa manifestção em frente de uma dessas empresas situadas em Vigo e na distribuição de folhetos e comunicados, num dos quais se podia ler o seguinte:

Se me dizem:
- que não tenho tamanho suficiente
- que tenho peso a mais
- que tenho o cú gordo
- que pareço velha
- que tenho os peitos pequenos, caídos e flácidos
- que tenho barriga e celulite
- que tenho umas grandes orelhas
- que…que…que…

E se me aconselham:
- que não me preocupe
- que podem operar-me
- que vá a um centro especializado onde me transformarão em jovem
-que..que..que…

Mas se eu sei:

- que o meu corpo não é meu inimigo nem a causa da minha infelicidade
- que aquilo que é jovem varia segundo os modelos que são-nos impostos em cada época
- que uma cirurgia é toda uma operação e não um simples «coser e andar»
- que a anorexia é um problema bem sério
- que …que…que

É o momento para me interrogar:
A quem beneficiam esses conselhos? A quem lucra realmente com aquilo que podemos parecer? E quem, afinal, lucra com as nossas vidas e os nossos corpos?


Mais info:
http://mulheres.causaencantada.org/?q=node/22

O Big-Big Brother chegou à Grã-bretanha: o trajecto dos carros será vigiado


A Grã-Bretanha será o primeiro país do mundo em que, a partir do próximo ano de 2006, os movimentos de circulação de todos os automóveis serão permanentemente registados. Um nvo sistema de vigilância nacional guardará os registos durante dois anos.
Utilisando um rede de câmeras que podem automaticamente ler cada placa de matrícula que passar em frente delas, o plano em preparação visa desenvolver uma imensa base de dados sobre a circulação de veículos a fim de possibilitar que a polícia e os serviços de segurança possam analisar todo o seu trajecto.
A rede compreenderá milhares de cãemras em circuito fechado (CCTV) que serão transformadas a fim que possam ler as placas de matrículas quer de dia quer à noite nas autoestradas e nas
principais estradas do país, assim como nas cidades, portos e estações de serviços.
Já no próximo mês de Março uma base central de dados, instalada no sistema informático da polícia, permitirá registar os detalhes de 35 milhões de leituras de matrículas de viaturas em circulação. Os registos incluirão a hora, a data e o local preciso. As Câmaras serão controladas por satélites.
Prevê-se já o aumento da sua capacidade para 100 milhões de leitutas de matrículas.

O dia de Natal ( por Edgar Rodrigues)


Estamos diante de mais um dia de grandes contrastes, uma data que teve a sua origem na imperfeição do velho calendário, saído, como se sabe, dos solstícios, ou seja, das duas épocas do ano em que se registram alternadamente a mais longa noite e o maior dia.
A época da noite mais comprida é solstício de Inverno. E como, nos dois hemisférios, as estações são inversas, o que é o solstício de Inverno para o hemisfério norte é o solstício de verão para o hemisfério sul, e vice-versa.
Os antigos ignoravam que existisse uma parte da Terra onde houvesse o verão enquanto os europeus e asiáticos viviam o Inverno. Julgavam que o solstício de Inverno marcava a época da mais longa noite para a Terra inteira.
Nos seus mitos solares, faziam nascer o deus Sol no solstício de inverno, no momento em que os dias começavam a crescer. A sua juventude era no equinócio da primavera. No solstício de verão raiava em todo o esplendor da sua força, e depois do equinócio de Outono, na regressão da sua idade, envolvia-se num escuro invasor.
Entre os povos do Oriente, o sol nascente era representado por um menino no colo de uma Virgem celeste, a sua mãe. Os egípcios, em especial, celebravam todos os anos, no solstício de Inverno, o nascimento do pequeno Horus, filho da virgem Ísis, e a sua imagem era exposta, num presépio à adoração do povo.
A grande imperfeição do velho calendário romano, chamado de Numa, apesar das intercalações periódicas, feitas pelos padres, de um mês completo de tamanho variável, no tempo de Júlio César o ano estava atrasado mais de 60 dias da época em que devia ter início. O ditador chamou o astrónomo alexandrino Sosígenes para desfazer e corrigir a diferença.
Para este a duração do giro da Terra em volta do Sol era de 365 dias e 6 horas, dando então origem ao ano de 365 dias com a reserva de 6 horas excedentes para formar um tricentésimo sexagésimo sexto dia a juntar a cada 4 anos. Propunha ainda o começo do ano no solstício de Inverno. Mas César, para não chocar os demais habitantes romanos, preferiu que o 1º de Janeiro do ano da reforma Juliana fosse colocado não no solstício mesmo mas no dia da Lua nova imediata. Ora, nesse ano, a Lua recaía 8 dias depois do solstício de Inverno. Isso deu resultado a que, no calendário Juliano, o solstício correspondesse não ao 1º de Janeiro, mas a 25 de Dezembro.
O dia 25 de Dezembro tornou-se, então, no novo calendário imposto ao império romano, como data oficial da festa que celebrava um por toda a parte o nascimento do Sol, de Horus egípcio, do Mirtha persa, do Febo grego e romano, etc.
A Igreja ao sentar-se no trono imperial com Constantino, cerca de um século após a época de Júlio César, aproveitou a festa do solstício de Inverno, do menino Horus nos braços da Virgem Ísis para transformá-lo em festa do Natal, que se comemora até aos nossos dias das formas mais extravagantes, possíveis e imagináveis.

Mas não é disso que vou falar neste Natal.

Imaginei um Natal humanitário, sui-generis: sem poluição, sem violência, sem racismo, nem guerras, sem exploradores, sem explorados! Um Natal em que os homens e mulheres independentemente do sexo, da cor, do país de nascimento, da religião que professam, do tamanho, da força física, da inteligência, de credos políticos e ideológicos se dêem a mão como amigos, como irmãos, como iguais.

Um Natal em que os homens resolvam eliminar as armas químicas, bacteriológicas, atómicas, de hidrogénio; abandonar as pesquisas bélicas, desmilitarizar generais e soldados, derreter os tanques, as espingardas, as pistolas e metralhadoras, enfim, todas as armas e com essa matéria-prima fabricar ferramentas, máquinas agrícolas e industriais.

Um Natal com mágicos poderes para apagar todas as leis dos alfarrábios e dos cérebros, transformar os quartéis, seminários, igrejas e prisões em museus e escolas novas destinadas a educar, instruir e despertar a Humanidade só para praticar o bem. Abolir as cercas convencionais, conhecidas por fronteiras, acabar com as nacionalidades, os idiomas que separam, dividem e tornam os homens adversários, inimigos, gerando guerras.
Um Natal que eleja o Esperanto (língua universal) como elo de ligação e entendimento entre os seres humanos. Um Universo sem policias, juízes, advogados, funcionários burocráticos, comerciantes, banqueiros; livre de hierarquias, de homens e mulheres ligados só pelo Amor, associados em comunidades de afinidade, autogestionárias, de grandes famílias capazes de produzir (cada um fazendo o que sabe ou pode e recebendo o que precisa), até alcançar a igualdade de acesso a alimentos, vestuário, transporte, moradia e demais bens materiais, educação, ensino e lazer de forma a proporcionar a felicidade de todos.

Nesse Natal por mim imaginado um homem só valia um homem e como tal todos teriam iguais direitos e deveres. Não haveria lugar para o ódio, rancor, inveja, a ambição, a ganância, ninguém se escravizaria para acumular fortuna, porque o dinheiro e a propriedade privada não existiriam mais, haviam sido abolidos. Seria um Natal sem negociatas, sem ninguém para comprar e vender produtos, indulgências, armas para matar gente e comprar consciências, a boa vontade de funcionários, da assistência médica, dos servidores públicos, enfim, não haveria corruptores, corruptos, nem ladrões...

No meu Natal não existiria gente dormindo nas calçadas, debaixo dos viadutos, nos bancos dos jardins, pocilgas sem luz, sem ar, nem gente estragando alimentos que faltam a milhões de crianças e adultos, num mundo que teimam em proclamar de civilizado e cristão. Cheio de gente enganando-se, envenenando e matando mutuamente, robotizadas e alienadas, vivendo em permanente conflito com o Ser e o Parecer, cada um disputando o seu espaço vital, sempre aperfeiçoando estratégias, cada vez mais sofisticadas, para suplantar os menos audaciosos e os mais dependentes.

Seria um Natal sem leis, expressão da vontade dos conquistadores, enunciando como querem governar os seus súbditos e que os outros lhes obedeçam.

Um Natal onde a felicidade de um fosse a felicidade de todos!

Em suma, imaginei um Natal impossível enquanto os seres humanos teimarem em viver às custas dos seus semelhantes, implantando, para isso, sistemas políticos e religiosos capazes de convencer (por meios "divinos", jurídicos ou pancada) os menos inteligentes e os acomodados que desde que o mundo é mundo sempre existiram pobres e ricos...
Eu discordo!

A natureza tudo deu de graça aos homens, por isso ninguém pode negar a esse mesmo homem o direito à sua parcela neste mundo que também é seu, que é de todos nós!

Será um Natal utópico, dirão! Mas é o que pode imaginar hoje um ateu: Um Natal de Todos. Humanista, por isso belo

Edgar Rodrigues

24.12.05

Os crimes estatais


Os crimes estatais abrangem formas de criminalidade cometidas pelos Estados e pelos Governos na consecução de medidas ou decisões políticas no âmbito interno ou de política externa.

Os crimes estatais são uma das mais sérias e complexas formas de criminalidade por diversas razões. A primeira reside no facto do Estado deter o monopólio da violência o que significa que o Estado se encontra potencialmente em condições de violar maciçamente os direitos humanos quer dos seus próprios cidadãos quer dos cidadãos estrangeiros. A segunda razão está na circunstância do Estado ser hoje em dia a principal, senão a única, fonte de normas legais o que lhe confere uma posição privilegiada para conceptualizar e formalizar o que é e o que não é de natureza criminal.. Em terceiro lugar o controlo estatal das instituições e do pessoal do sistema criminal da justiça possibilita-o de atingir e neutralizar os seus inimigos sociais, políticos e económicos. Finalmente, e em último lugar, o Estado encontra-se numa posição estratégica para conceber o género de criminalidade que mais lhe interessa.

Até ao momento podemos classificar e subdividir os crimes estatais em 4 categorias:

a) os actos de criminalidade política, como por exemplo, a corrupção, a censura, a intimidação e as manipulações dos processos eleitorais

b) a criminalidade estatal associada às forças de segurança e policiais, como por exemplo os actos de guerra, os genocídios, a limpeza étnica e os actos de racismo e de discriminação racial, a tortura, o desaparecimento de pessoas, o terrorismo estatal e o assassinato.

c) A criminalidade estatal associada às actividades económicas através de práticas monopolísticas, atentados e violação à segurança e à saúde das pessoas e da população, assim como o conluio ou a colaboração ilegal com as grandes empresas, nomeadamente as multinacionais.

d) A criminalidade nos domínios social e cultural que envolve a prática material de danos e prejuízos às comunidades, o racismo institucional e o vandalismo cultural.


Apesar de existirem normas internacionais e mesmo do foro interno que protegem os cidadãos e regulam a acção estatal a verdade é que o poder resultante da soberania do Estado dificulta e impede frequentemente a necessária e devida protecção dos bens e das pessoas que são lesadas com os crimes cometidos pelos Estados ou pelos governos.

Para mais informações consultar:
Friedrichs, D.O. (ed.) (1998), State Crime, vol. 1 e 2, Aldershot, Grower

O perigo do domínio total sobre a Natureza



O socialismo não vale mais do que o capitalismo se se servir dos mesmos utensílios.
O domínio total do homem sobre a Natureza implica inevitavelmente um domínio do homem pelas técnicas de domínio.

Michel Bosquet, in Ecologia e Liberdade, 1977

21.12.05

As experiências de colectivos de advogados nos Estados Unidos ( «Law Commune»)


( Nota: Reprodução de um texto publicado no nº 7 da revista «Actes, cahiers de l’action juridique» e que foi incluído no livro «Justiça nos Estados Unidos», editado pela Centelha, na sua colecção «Direito e Sociedade» numa tradução de Manuela Leandro. Como o livro já se encontra esgotado, e de difícil consulta, julgamos útil a divulgação deste texto. )


O primeiro colectivo de advogados «Law Commune» - «Legal Collective » ou «Communal Law Firms» surgiu nos Estados Unidos do misto manifestação-repressão. Estava-se em Março de 1969 em Nova Iorque.
Um período de prisões em massa tinha-se seguido à agitação nas Universidades, o movimento contra a guerra no Vietname e as lutas dos negros que tinham abandonado as tácticas não violentas do período dos direitos civis.

Desde o Outono de 1968 que jovens juristas, estudantes de direito, escritores, organizadores e militantes do «Movement» - alguns dos quais tendo conhecido a prisão e o cárcere – buscavam uma solução para a carência de advogados tradicionais. Estes, com efeito, quando os manifestantes se lhes dirigiam para que os defendessem, litigavam a maior parte das vezes, tentando despolitizar a questão – o que não correspondia, de modo nenhum, aos desejos dos seus clientes.

Mas, fazer face à necessidade imediata da defesa dos militantes - «um militante na rua é mais útil do que um militante encarcerado» - não era a única preocupação dos fundadores desta comuna.

Numa análise mais profunda, o colectivo testemunhava o fim de uma ilusão – a que tinha levado ao aparecimento dos programas de assistência jurídica ( os «Legal-Services» e os «Public Defenders»)

Não existe nos Estados Unidos um sistema único e uniforme para assegurar aos pobres o acesso à justiça. Mas uma coexistência de estruturas e de diversas instituições de apoio judiciário. Pode-se encontrar lá, simultaneamente, o que tem sido a nossa assistência judiciária gratuita e apoio judiciário e , desde os anos de 1960, uma nova forma de instituição: «os Public Defenders» e os «Legal Services».
Este tipo de instituições podem ser financiadas, quer pelos fundos públicos ( Federais e do Estado), quer por fundos privados ( doações particulares, de empresas, de associações – tais como a American Bar Association – ou de fundações).

Neste sistema, os advogados são assalariados, empregados contratualmente a tempo inteiro para a defesa dos pobres.

Sem negar que este sistema representa um progresso considerável em relação a outras formas de assistência judiciária, uma vez que os pobres podiam, a partir de agora, obter o concurso e o apoio de advogados não apenas em casos de processo, mas de maneira contínua e preventiva, muitos jovens advogados que tinham sido «defensores públicos» faziam questão em denunciar os limites e insuficiências e, no fim de contas, a burla.

É certo que não se trata para eles de preconizar a política do pior e de recusar a defesa das reivindicações dos «Public Defenders» que lutam para obter melhores condições de trabalho e um funcionamento mais eficaz dessas instituições, mas parece-lhes ilusório acreditar que um aumento dos créditos concedidos a esses programas – que sofreram, aliás, severas restrições sob a administração de Nixon – possa resolver os problemas.

Pois, na realidade, esses programas não fazem senão institucionalizar a pobreza.

Tomar os meios pelos fins é, com efeito, recusar-se a reconhecer a desigualdade fundamental das relações económicas na sociedade capitalista.

«Nem advogados de ricos, nem advogados de pobres, recusamos ser gestores ou cúmplices de um sistema que reforça a visão de um direito separado de toda a realidade social, espécie Deus ex machina, agindo com toda a neutralidade»

O colectivo de advogados de Nova Iorque, e os que se fundaram em seguida, têm portanto, antes de mais, raízes, motivações, objectivos políticos.

Foi neste tecido político que seguidamente se enxertaram os considerandos propriamente jurídicos.

O colectivo resulta da vontade de apoiar a «nova esquerda», as organizações e os movimentos implicados na luta social e política. A «Law Commune » assenta na convicção de que as mudanças são necessárias na sociedade e que uma vez que o direito não é neutro, os advogados não poderiam ser simples técnicos do direito contentando-se em tratar individualmente e caso a caso os problemas, ignorando as raízes económicas e sociais da pobreza e da opressão.

É um desafio lançado a uma profissão conservadora, elitista, protectora, sobretudo, dos interesses das classes no poder.

É também um desafio lançado à ideologia jurídica tradicional, bem como ao sistema económico e político em vigor.

Está-se, portanto, a ver quais são os meios utilizados: defender os militantes, rejeitar o estatuto de advogado profissional – membros de uma elite e de uma confraria – investido de um saber especial, estabelecer uma nova forma de organização e de prática jurídica conforme aos seus fins.

A partir daqui, os colectivos de advogados norte-americanos conhecidos por «Law Commune» não são comparáveis ou assimiláveis aos escritores associados ou às «Law firms» de tipo tradicional. Trata-se de algo completamente diferente e, sobretudo, uma organização ideológica.

No domínio jurídico, quais são os objectivos definidos pelos iniciadores desta fórmula?

Se as «Law Commune » pretendem ser a arma jurídica dos grupos ou dos indivíduos que travam uma luta política ou social, o seu fim é, para além dessa missão, definir uma estratégia jurídica geral.

Importa quebrar a mística da lei, desvelar-lhe os mistérios, dissipar as suas obscuridades, explicar os seus modos de funcionamento e de intervenção, em resumo, desmistificá-la.

Os advogados dos colectivos tentam instituir relações de igualdade, de participação com os seus clientes, mesmo dentro dos seus escritórios. E não mais alimentar relações de autoridade, de hierarquia ou de subordinação.

«Tentámos criar novos tipos de relações com os nossos clientes. Não queremos servir-nos das nossas competências jurídicas para nos colocarmos numa posição dominante. Explicamos-lhes o que fazemos e porque é que o fazemos e esperamos que eles participem nas tomadas de decisões. Quando supomos que os nossos clientes se podem defender a eles próprios encorajamo-los a fazerem-no.»
( Nota: Nos Estados Unidos é sempre possível às partes num processo apresentarem-se elas próprias perante os tribunais. O concurso de um advogado nunca é obrigatório, qualquer seja a jurisdição).

Os colectivos de advogados têm, em primeiro lugar, tendência para apoiar juridicamente os indivíduos que, como eles, põem em prática o espírito comunitário, organizando-se em grupo de acção ou de defesa 8 por exemplo, associações de inquilinos, movimentos de libertação da mulher, comités de bairro, etc) ou que militem em formações políticas.

Os colectivos de advogados consideram-se como os auxiliares daqueles que lutam para obter maiores poderes de decisão e de controlo sobre a sua vida quotidiana.

«Apercebemo-nos rapidamente que era preciso seleccionarmos a nossa clientela», explica um dos membros do colectivo de advogados de Bóston; «quando fundámos o nosso colectivo, pretendíamos prestar serviços jurídicos de qualidade às pessoas que antes os não podiam obter, os abandonados, os marginais. Mas depressa apercebemo-nos de que isso era uma ratoeira na qual era muito fácil deixar-se cair; toda a gente tem necessidade de ser ajudada – ora, o que nós verdadeiramente queremos é utilizar as nossas qualificações profissionais para apoiarmos aqueles que se organizam colectivamente e estão implicados nas lutas políticas.»

No fim de contas, evidentemente, é entre os militantes políticos que os colectivos encontram os clientes mais aptos a compreenderem a apreciarem a sua organização.
Mas as relações com os grupos políticos são por vezes desencorajantes.

«A nossa experiência com as organizações políticas foi realmente frustrante porque, com efeito, os militantes vêm ver-nos porque nós somos advogados e não porque sejamos politicamente comprometidos. Tentamos agora ter relações mais políticas do que jurídicas com essas organizações.»

Certos clientes vêm consultar um advogado em especial, outros vêm pelo colectivo no seu conjunto; os colectivos tentam evitar a personalização das relações clientes-advogados.

«Visto que somos um colectivo, esperamos que os nossos clientes nos tratem como tal e sejam capazes de ter relações com qualquer membro do colectivo. É por isso que, quando os clientes fazem questão em contactar um advogado em particular para determinado processo, nós tentámos que, na vez seguinte, eles contactem um outro membro do colectivo.»

Sendo a gratuitidade a regra para os processos políticos, para sobreviver, os colectivos são levados a dedicarem-se também a causas não directamente ligadas aos combates políticos e ideológicos. O que representa para muitos, sobrecarregados com essas questões, uma frustração constante.

«Não pensamos que deva ser nossa obrigação ocuparmo-nos de todas as pessoas que connosco contactem e tentamos escolher os clientes de que nos queremos ocupar em função das nossas opções políticas.

Aquilo que, em termos ideais, gostaríamos de fazer era organizar o nosso trabalho de maneira a não estarmos assoberbados pelos problemas jurídicos para podermos ocupar-nos mais activamente de problemas políticos. Não queremos despender inutilmente a nossa energia em questões que, de facto, não nos interessam.

É certo que uma parte do nosso trabalho político compreende trabalho jurídico, mas gostaríamos de ter a possibilidade de nos dedicarmos mais ao trabalho político.»

O peso destas questões pagas é portanto muitas vezes mal suportado pelos membros do colectivo e é muitas vezes encarado como uma perda de energia e de tempo, que os afasta daquilo que eles consideram o seu verdadeiro trabalho.

Tentar conciliar as exigências políticas e as necessidades financeiras não é tarefa fácil, e certos colectivos que confundem por vezes moral e política, têm dificuldades em sobreviver.

Em geral, os colectivos recusam-se a defender os culpados de violação ( nota: nos USA regista-se uma violação em cada 10 minutos), os traficantes de droga, os racistas, as grandes sociedades capitalistas, os proprietários contra os inquilinos, e alguns não aceitam, nos divórcios, defender os maridos ( considerando-se que o homem beneficia de uma vantagem económica e social, sendo a relação de forças a seu favor), excepto se os cônjuges estão em total acordo. Os clientes «não políticos» que podem beneficiar do serviço de assistência judiciária e não o sabem são informados disso e orientados para esses serviços.

A reputação de bons advogados cobrando honorários razoáveis, não impede os colectivos de, quando os clientes podem pagar, cobrar honorários equivalentes aos praticados pelos escritórios tradicionais, os quais, de resto, não hesitam em enviar para as «Law Commune» aqueles clientes que consideram mais «bizarros».

No fundo, as questões típicas de que as «Law Commune» se ocupam são a defesa dos militantes, das objecções de consciência, dos prisioneiros, dos inquilinos com problemas com os seus senhorios e as questões de descriminação racial e sexual.

Alguns conseguiram aquilo com que os outros apenas sonham fazer: trabalhar com os sindicatos. É o caso de um colectivo de advogadas em Bóston, cuja actividade é essencialmente orientada para o mundo do trabalho e sobretudo para os trabalhadores que elas ajudam na criação de secções sindicais.

Mas os poderosos sindicatos não são normalmente seus clientes. E compreende-se porquê…

O colectivo de advogados considera iguais, todos os membros do colectivo. Nem a antiguidade, nem a experiência, nem os diplomas conferem privilégios. Todos os membros do colectivo, quer sejam advogados, estudantes ou secretários são trabalhadores jurídicos e têm voz igual nas decisões a tomar relativamente à política geral do conjunto, à escolha dos clientes, aos vencimentos de cada um e até a distribuição dos processos está sujeita a uma deliberação colegial.

Habitualmente é no decorrer de uma reunião semanal que as questões são debatidas e tratadas em comum. A organização surge deste modo como antídoto do síndroma individualismo/espírito de competição.

No sistema das « Law Communes» uma secretária pode ser mais bem paga do que um advogado – os vencimentos são fixados em função das necessidades e não de uma hierarquia social convencional. De qualquer forma, as remunerações são fixadas num máximo, sendo o excesso das receitas afectadas à luta política e ao desenvolvimento do colectivo e servindo para assegurar a defesa jurídica das causas políticas.

É assim que um dos colectivos de Nova Iorque investiu parte dos seus lucros na edição de um manual de militante «The bust book» - espécie de vademecum destinado a informar os militantes político das disposições legais de que se devem fazer valer e da estratégia a seguir no caso de serem presos.


Outros colectivos puderam destacar, a tempo inteiro, alguns dos seus membros para prestar o seu concurso gratuito, aquando da revolta da prisão de Áttica. Um outro colectivo decidiu proporcionar aos seus membros cursos de espanhol afim de poder ocupar-se com mais eficiências dos seus clientes portoriquenhos e mexicanos.

Os encargos sociais e as despesas profissionais são realmente suportadas pelo colectivo. Alguns colectivos vão mesmo ao ponto de reembolsar empréstimos feitos para estudos.

As sedes, sem decoração, com as paredes cobertas de cartazes políticos, estão em geral situadas em bairros abandonados pelas «law firms». Bairros populares, onde os colectivos podem verdadeiramente implantar-se para participarem na vida política.

Alguns colectivos – levando até ao fim aquilo que eles consideram como a sua lógica própria – formaram verdadeiras comunas: os seus membros vivem juntos.

Tais são, portanto os traços significativos de uma nova forma de organização e de prática jurídica nos Estados Unidos.

Serão os colectivos de advogados o esboço de uma fórmula para o futuro? Ou deverão ser considerados como epifenómenos? É difícil fazer um balanço.

Há colectivos que já soçobraram, nomeadamente o mais célebre de todos que foi o colectivo pioneiro em Nova Iorque logo no momento em que acabava de alcançar uma vitória retumbante com a absolvição de 21 membros d Partido dos Panteras Negras, contra os quais tinham sido feitas mais de uma centena de acusações.
Houve quem pretendesse que o vedetismo o tinha matado. Quanto aos próprios membros, atribuem a sua dissolução a uma dimensão desmedida que não lhes permitia já funcionar colectivamente de forma eficaz. Mas outros colectivos surgem.

É certo que num país onde a ideologia e o formalismo jurídico têm tanta importância, onde todos os problemas políticos só são postos ( e escamoteados) em termos jurídicos - a questão Watergate foi um exemplo flagrante – o isolamento dos colectivos é grande, tanto mais quanto não beneficiam do apoio de um verdadeiro movimento de oposição estruturado.

Nestas condições, assumir as contradições que atingem aqueles que vivem num regime que recusam, conduz muitas vezes muitos deles a porem problemas mais morais ou psicológicos do que políticos, e a confundirem comprometimento político e apostolado.

Mas não se contentando em esperar pelo «grande dia», os colectivos de advogados provam, desde já, que é possível organizarem-se e trabalharem de maneira verdadeiramente democrática.


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Nota de esclarecimento sobre o
Sistema Judicial nos Estados Unidos


Existem duas jurisdições ou sistemas:



A) As Jurisdições Federais


I – De Direito Comum ou de assuntos constitucionais, com 3 graus:

a) 100 tribunais distritais (US Districts Courts) com cerca de 300 juízes distritais que decidem sobretudo as questões relativas à Constituição, às leis federais, aos tratados, bem assim como nas questões relativas ao Estado federal ou entre os Estados e entre cidadãos de diferentes Estados.


b) 11 Tribunais de Recurso (US Courts of Appeal for the Circuit) com 80 juízes de círculo que decidem em recurso

c) O Supremo Tribunal, com 1 presidente ( The Chief Justice of US) e 8 Conselheiros ( Associates Justices)

II – De Excepção ou legislativos

Existem vários como:
- Os «US Courts of Claim» que regulam os conflitos entre os cidadãos e a administração federal

- Os US Customs Courts» que regulam as questões alfandegárias

- Os «United Court of Customs and patente appeals» que decidem em recursp os casos precedentes.



B) As Jurisdições de Estado

São formadas por quatro instâncias:

a) Juízes de Paz no campo e magistrados nas cidades que estão reunidos nos «Municipale Court» ( Direito Comum), «Family Court» (Direito de Família) e «Juvenile Court» ( Direito dos menores)

b) Vários Countys Courts em cada Estado e que são constituídos por um juiz único e um júri, e que julgam em primeira instância matéria civil ( direito das pessoas e dos bens) e matéria penal.

c) 1 ou 3 Superior Courts por cada Estado ( Juízes colegiais e júris) que julgam em recurso

d) 1 Supremo Tribunal por Estado ( juízes colegiais)

Só há liberdade a sério...



Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
Habitação, Saúde, educação

Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir


Sérgio Godinho

18.12.05

Petição para acusar a Administração Bush por crimes de guerra

Petition To Prosecute U.S. War Criminals:

PROSECUTION OF WAR CRIMES & WAR CRIMINALS:

We the undersigned, condemn the Bush Administration for it's illegal War on Iraq and the so-called War on Terror. We the undersigned, believe that the Bush Administration has no defense against violations of the War Crimes Act nor the Geneva Conventions, while administering the War on Iraq and Afghanistan, or the so-called War on Terror.

We the undersigned, do not recognize the Bush Administration's authority to conduct any illegal War, here or abroad, and refuse to support the War Criminals of the Bush Administration.

We the undersigned, demand that the Bush Administration must declare an end to the illegal occupation of Iraq forthwith, and demand an immediate withdrawal of all U.S. Troops, it's Mercenaries, it's Contractors and War Profiteers from the country of Iraq, immediately. Furthermore, we the undersigned, demand the immediate closure of all U.S. Military bases in Iraq, and that the U.S. Government shall be responsible for the toxic cleanup of all base closures, and that the stolen land shall be given back to the Iraqi people, forthwith.

We the undersigned, support and demand the immediate prosecution of the Bush Administration for War Crimes and Crimes Against Humanity, which are occurring in the War on Iraq and Afghanistan, in accordance with the Geneva Convention/s and Section 2441 [the War Crimes Act]. This includes, but is not limited to the illegal occupation of Iraq, the looting of Iraqi resources, the illegal dentention of Iraqi Citizens, the bombing and mass murder of Iraqi Citizens, torture, plus the outrages upon personal dignity and inhuman and degrading treatment of prisoners.

In addition, we the undersigned, demand that all War Profiteers of Iraq, including the Bush/Cheney families, arms manufacturers, contractors and mercenaries shall forthwith divest themselves of all assets and profits made by the illegal War on Iraq, and shall immediately return all assets and funds back to the U.S. Treasury.

Furthermore, we the undersigned, condemn the Bush Administration for violating human rights laws by abducting, interrogating, and detaining foreign nationals in secret overseas prisons, and demand that the U.S. Government's use of "extraordinary renditions", must end immediately.

In addition, we believe that the Bush Administration has no legal authority to exempt anyone, including alleged Taliban and Al Qaeda fighters or prisoners from the provisons of the Geneva Conventions.
We the undersigned, demand that Congress must immediately stop funding all overt and covert activies that are related to the War on Iraq and Afghanistan, and the so-called War on Terror.

In Addition: We the undersigned, demand that Congress stop funding all secret detention centers being run by the U.S. Federal Government, the C.I.A., or any of it's so-called mercenary/contractors, and that all secret prisons shall be shut down immediately.
We believe that the people of the world, Iraq and Afghanistan are due full reparations from the U.S. Government, for current, past and future damages that have been caused by the Bush Administration's so-called illegal War on Terror.

Click below to sign War Crimes Petition...

Para assinar esta petição sobre os crimes de guerra cometidos pela Administração Bush, clicar no seguinte link:

http://www.PetitionOnline.com/WarCrime/petition.html

Prisões Políticas Portuguesas (exposição de fotografia de Pedro Medeiros)


Encontra-se patente entre 29 de Outubro de 2005 e 29 de Janeiro de 2006 no Centro Português de Fotografia, situado na antiga Cadeia da Relação no Campo Mártires da Pátria, Porto, uma exposição de fotografias dePedro Medeiros (1969- ) sob o título «Voz do Silêncio: Prisões Políticas Portuguesas».
A Cadeia do Aljube, o Forte de Peniche, a Colónia Penal de Cabo Verde (conhecida mais prosaicamente pelo Tarrafal), e os Redutos Norte e Sul do Forte de Caxias são alguns dos locais que são convocados pelo autor nesta mostra.
Do desdobrável sobre a exposição respigámos o seguinte excerto, retirado do texto de apresentado assinado por Maria Manuela Cruzeiro, do Centro de Documentação 25 de Abril:

«Prender os opositores é ao mesmo tempo um acto de prepotência e uma clamorosa confissão de fraqueza. Por isso o confronto entre a vítima e o carrasco é o encontro fatal entre a fraqueza dos fortes e a força dos fracos»

17.12.05

Os brinquedos sexistas


O sexismo está presente em muitos dos nossos actos do quotidiano. Os seus estereótipos teimam em manter-se nas atitudes, mentalidades e estruturas sociais. A sua superação permitirá certamente a desmontagem de muitas estruturas de micro-poder que se impõem nas relações sociais.
Os brinquedos, na medida em que são excelentes veículos de valores e atitudes, constituem um dos meios mais privilegiado através dos quais o sexismo é reproduzido, muitas vezes de maneira imperceptível mas sempre com bastante força e que permite a perpetuação de preconceitos e modelos de comportamento discriminatórios. É o caso dos brinquedos que são associados a um ou a outro sexo e que geram mecanismos estereotipados de identidade sexual. Aos rapazes é-lhes incutido a vontade de domínio, enquanto para as raparigas está reservada a função de submissão.
Basta observarmos as centenas de brinquedos que se perfilam ao longo das prateleiras dos hipermercados para constatarmos uma permanente divisão sexual que se pretende assim reproduzir. Desde a divisão entre as cores azul ( para os rapazes) e o cor de rosa (para as raparigas) até ao género de brinquedos ( casas e bonecas para elas e comboios e carros para elas), passando pela parafernálias de super-heróis é toda uma vastíssima gama de dispositivos que são permanentemente actualizados no sentido de manter e reproduzir os estereótipos sociais ligados uma identidade sexual, presumida como fixa e inalterável, quando na verdade não passam de construções sociais que visam a manutenção de relações de poder e de valores e mentalidades conservadores.

Mal o rapaz e a rapariga saiam destes arquétipos sociais relativos à divisão sexual patriarcal mantida ao longo de séculos são imediatamente encarados com um olhar perscrutador de reprovação social, e objecto de cuidados correctivos de quem defende a velha ordem social.
Não poucas vezes são também incutidos valores que geram a homofobia, a submissão e uma atitude pró-activa relativamente à guerra, ao machismo, à submissão, obediência e docilidade. Consciente ou inconscientemente são transmitidas unilateralmente certas ideias-feitas sobre a «inevitabilidade» do casal heterossexual e do modelo familiar monoparental que explicam depois, no futuro, muitas das angústias e «desajustes» das personalidade em gestação relativamente aos modelos comportamentais impostos.
Para terminar toda essa formatação social de carácter unilateral que recai sobre as crianças e jovens importa, desde logo, dessacralizar os caducos padrões culturais que são utilizados e combater os respectivos métodos de execução.

Oferecendo brinquedos não-sexistas e jogos cooperativos ou que, pelo menos, não veiculem clichés sexistas, estamos a contribuir para a superação da velha ordem moral e o desmantelamento dos micro-poderes instituídos.

Contra os estereótipos, sejamos inventivos.

O espírito sinistro do catolicismo

Há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, há lá oculto, dissimulado, mas não inteiramente morto, um beato, um fanático ou um jesuíta! Esse moribundo que se ergue dentro de nós é o inimigo, é o passado. É preciso enterrá-lo por uma vez, e com ele o espírito sinistro do catolicismo de Trento.

Antero de Quental, in
Causas da decadência dos povos peninsulares, 27 de Maio de 1871

13.12.05

Manifesto anti-militarista


Não queremos colaborar com o exército fazendo o serviço militar, por entender que se o cumpríssemos estaríamos a afirmar valores como a violência cega, o machismo, a dominação e o poder, estaríamos a colaborar com a chamada «ordem económica internacional», converter-nos-íamos em consumidores de orçamentos astronómicos que, travando o desenvolvimento, desviam os recursos do planeta para a guerra e a destruição. Não queremos ser parte do exército porque não queremos ser instância imprescindível da dominação de umas nações sobre outras. Do domínio de umas pessoas sobre outras.

Excerto do Manifesto dos Insubmissos do Estado espanhol, 1989

Carta aos reis magos

Autora: Paula Fuertes (1º Bach. F)

Fonte: www.mujerpalabra.net

Aqueles dias eram os piores do ano – diziam os reis magos. Havia muito trabalho e as primeiras cartas começaram a chegar logo pelo dia 20.

Bonecas, carrinhos, jogos…

O tipo de brinquedos pedidos era sempre o mesmo só com a diferença que cada ano os seus custos aumentavam de forma incrível.

Baltasar mexia num monte de cartas. Ainda bem que a natalidade está a diminuir – dizia ele para si – sim, porque as crianças de hoje em dia são cada vez mais caprichosas…

De repente encontrou uma carta sem remetente. Pegou nela. Estava escrita em papel reciclado, e com letras cuidadosamente escritas

Abriu-a cuidadosamente, para não a estragar.

Dizia assim:

Queridos Reis Magos:

Este ano não foi um ano bom para mim. Esta Primavera, uns senhores de uniforme ocuparam o nosso país. Guiavam uns carros muito estranhos. No início, estavam só para ali, e nós perguntávamos porquê. Sempre pensei que o meu pai sabia responder, mas ele nunca disse nada. Em certas noites ouvia a minha mãe a chorar silenciosamente no quarto.

Certo dia começaram a ouvir-se sirenes e bolas de fogo começaram a cair do céu sem parar. Eu tive medo e sai da escola a correr para casa.

Quando cheguei a minha mãe chorava, mas desta vez o seu choro não ficava só no seu quarto, pois espalhava-se por toda acasa. O meu pai tinha morrido. Foi atingido por uma daquelas bolas de fogo que arrasavam tudo à volta.

Desde aquele momento nasceu dentro de mim um sentimento que me devora todos os dias, e palavras como VINGANÇA ou JUSTIÇA soam permanentemente nos meus ouvidos doridos. E ecoam com mais força que o barulho das sirenes, e é mais forte que as explosões.

Não queria sentir isso, porque só gostava de viver em paz e meu desejo é que tudo voltasse a ser como antes. Queria ver o meu pai quando voltasse da escola; queria jogar futebol com ele, e que me ajudasse quando eu começasse a namorar…

Mas nada será assim porque o meu pai nunca mais regressará por ter sido morto pela ambição dos ricos.

É assim, queridos reis Magos, que só lhes peço que toda a dor, todo o horror, medo e impotência que senti, ou que ainda sinto, seja também experimentada por aqueles que qualificaram esta guerra como justa e necessária.

Com carinho e – quem sabe – até ao próximo ano.

Amed.

Baltasar, depois de ler a carta , lançou-a para o fogo da lareira, ao mesmo tempo que olhava para Gaspar que o interrogava:

- O que foi? Mais um a pedir coisas impossíveis?

Ao que Baltasar replicou:
- Pois claro! As crianças, hoje em, dia têm cá cada capricho!

T.O.P.( sem título oficial pensado) – um colectivo de artistas recicladores


Foi recentemente fundado em Madrid um colectivo internacional de artistas recicladores.

O colectivo utiliza nas suas obras detritos e materiais usados como uma forma de crítica ao consumo exacerbado de bens materiais. Os princípios teóricos em que se baseia o seu trabalho são:

- dignificar os materiais residuais, usando-os como ponto de partida no processo criativo

-desenvolver projectos colectivos onde o espectador tenha a possibilidade de reflectir acerca do papel do consumidor dentro do sistema consumista em que vive, e nos quais possa participar de uma maneira activa, lúdica e crítica.

-Promover o colectivo enquanto iniciativa independente, que actua fora dos círculos elitistas da arte

- procurar mecanismos de financiamento para concretizar aqueles objectios recorrendo a organismos públicos, fundações ou empresas privadas

- apostar na produção artística com carácter multidisciplinar, abarcando aspectos que estejam fora da criação plástica como a música,o teatro, as acções de rua, a filosofia, a antropologia e a consciencialização ecológica.

-manter um carácter multicultural aberto a fimde lançar uma rede cosmopolita por onde circule tudo aquilo que denunciamos

- seguir uma linha de trabalho itinerante, como o melhor veículo para a divulgação na rua.

Mais info: www.stop05.tk

12.12.05

Alguns protagonistas de lutas ecologistas

Medha Patkar
Índia
Luta contra a barragem de Narmada
www.narmada.org

Mom Sakin
Cambodja
Destacou-se contra a desflorestação no Cambodja
www.globalwitness.org

Paul Watson
Canada
Conservacionista. Destacou-se na defesa dos golfinhos
http://www.seashepherd.org/news/media_050812_1.html


Gidon Bromberg
Israel
O seu lema é «Paz. Amor e água»
www.foeme.org

Odigha Odigha
Nigéria
Defensor da floresta
http://odighaodigha.8k.com/


Wangari Maathai
Quénia
Defensora da floresta
www.wangarimaathai.org

Isidro Baldenegro
Defensor da floresta
http://www.tierramerica.net/2004/0529/ppreguntas.shtml


Corneille Ewango
Republica Democrática do Congo
Defensor da biodiversidade
http://www.grist.org/news/maindish/2005/04/19/nijhuis-ewango/


Dener Giovanini
Brasil
Defensor dos animais selvagens
www.renctas.org.br

Biswajit Mohanty
Índia
http://www.rufford.org/rsg/Projects/BiswajitMohanty.html


Jean-Baptiste Chavannes
Haiti
Agrónomo e líder de um movimento camponês
http://www.theothernews.com/

Roy Sesana
Botswana
Indígena, defensor dos direitos dos bosquímanos
http://www.kalaharipeoples.org



Sheila Watt-Cloutier
Canada
Activista e defensora dos indígenas
http://www.thegreatwarming.com/localhero-interviewswcloutier.html
http://www.rollingstone.com/politics/story/_/id/8742369


Rigoberta Menchú
Guatemala
Defensora dos direitos do indígenas
www.frmt.org

Stephen Corry
Reino Unido
Activsta defendor dos direitos dos indígenas
www.survival.org

Stéphanie Roth
Roménia
Lutadora contra as minas
www.rosiamontana.org

Ka Hsaw Wa
Myanmar
Lutadora contra as minas
www.earthrights.org

Jean La Rose
Guiana
Lutadora contra as minas
http://www.goldmanprize.org/recipients/recipientProfile.cfm?recipientID=118



Alexis Massol-González
Porto Rico
Lutador contra as minas
www.casapueblo.org

Von Hernandez
Filipinas
Acitivista ecologista anti-incineradoras
http://www.grist.org/news/maindish/2003/04/15/antiburning/
http://www.goldmanprize.org/recipients/recipientProfile.cfm?recipientID=125



Zhao Hang
China
Activista que se destacou contra a poluição
www.sierraclub.org/globalwarming/cleancars


Rashida Bee
Índia
Conhecida activista que luta para que se faça justiça a propósito da catástrofe do Bhopal
www.bhopal.net

Michiko Ishimure
Japão
Activista conhecido pela luta contra a poluição provocado pelo mercúrio
http://www1.umn.edu/ships/ethics/minamata.htm



Kaicha Atakhanova
Cazaquistão
Bióloga e activista anti-nuclear
www.earthisland.org/cse

Eileen Kampakuta Brown
Austrália
Activista aborígene anti-nuclear
www.iratiwanti.org

Iouri Bandajevski
Activista anti-nuclear
www.comite-bandajevsky.org

Grigory Pasko
Activista anti-nuclear
www.index.org.ru/mayday/pasko_a.html

Aubrey Meyer
Reino Unido
Activista ecologista
http://www.gci.org.uk/main.html


John Adams
Estados Unidos
Advogado ecologista. Processou a Administração Bush por causa do aquecimento global do planeta
http://www.rollingstone.com/politics/story/_/id/8742348
http://www.commentarymagazine.com/Summaries/V62I1P80-1.htm


Arundhati Roy
Índia
Conhecida activista eco-feminista
http://website.lineone.net/~jon.simmons/roy/


Carlo Petrini
Itália
Fundador do movimento slow-food
www.slowfood.com

Nicanor Perlas
Filipinas
Activista ecologista e anti-globalização
www.cadi.ph


Serge Latouche
França
Economista e teorizador do decrescimento
www.decroissance.org

Edward Goldsmith
Reino Unido
Ecologista fundador da revista The Ecologist e da associação Survival
http://www.edwardgoldsmith.com/



Adam Wajrak
Polónia
Activista defensor da vida selvagem
www.gajanet.pl

José Bové
França
Fundador d Confederação Camponesa
http://www.confederationpaysanne.fr/index.php3


Laurie David
Estados Unidos
Jornalista eco-social
http://www.lauriedavid.com/


Robert Watson
Estados Unidos
Especialista em clamatologia
www.ipcc.ch

Mike Hands
Reino Unidos
The Rainforest Saver
http://www.theecologist.org/archive_detail.asp?content_id=424
www.rainforest.alliance.org


Ram Ouédraogo
Burkina Faso
Ecologista
www.ecolomagazine.bf

Pan Yue
China
Pan Yue
http://www.worldchanging.com/archives/002312.html


Claude martin
Suiça
www.wwf.org
http://www.euractiv.com/Article?tcmuri=tcm:29-117392-16&type=Interview


Klaus Toepfer
Alemanha
http://www.unep.org/Documents.Multilingual/Default.asp?DocumentID=43&ArticleID=3174&l=en
www.unep.org

Gerd Leipold
Alemanha
www.greenpeace.org

Raul Estrada Oyuela
www.unfccc.int

Camille Parmesan
www.pewclimate.org


(a lista foi realizada com base no dossier publicado no último nº do jornal francês Courrier International)

A Biblioteca Ideal ( por Raymond Queneau)


No início dos anos 50 o escritor Raymond Queneau inventariou com a ajuda de outros autores uma lista de 100 livros que lhe serviu de base para o seu livro Pour une Bibliothèque Idéale (Gallimard, 1956).
Reproduzimos abaixo essa lista, independentemente de estarmos de acordo ou não com ela, e o facto de não se encontar actualizada ( a data da sua elaboração é de 1956).
De qualquer forma, julgamos interessante como documento de trabalho e pista para leituras...furiosas.


1. Shakespeare, Teatro
2. A Bíblia
3. Proust, Em busca do tempo perdido
4. Montaigne, Ensaios
5. Rabelais, Os cinco livros
6. Baudelaire, As flores do mal
7. Pascal, Pensamentos
8. Molière, Teatro
9. J.-J. Rousseau, As Confissões
10. Stendhal, O Vermelho e o Negror
11. Platon, Diálogos
12. Stendhal, A Cartuxa de Parma
13. F. Villon, os Testamentos
14. Rimbaud, Obras poéticas ( incluindo as Illuminations)
15. Cardinal de Retz, Memórias
16. Tolstoi, Guerra e Paz
17. Saint-Simon, Memórias
18. Cervantes, Don Quixote
19. Racine, Teatro
20. Esquilo, Teatro
21. Dostoievsky, Os Irmãos Karamazov
22. Mallarmé, Poemas
23. La Fontaine, Fábulas
24. Goethe, Fausto
25. Apollinaire, Alcools
26. Flaubert, Educação Sentimental
27. Homero, Odissais
28. Corneille, Teatro
29. Dante, A Divina Comédia
30. Chateaubriand, Mémoires d’Outre-Tombe
31. Balzac, A Comédia Humana
32. Sófocles, Teatro
33. James Joyce, Ulysses
34. Laclos, As ligações perigosas
35. Swift, A viagens de Gulliver
36. Verlaine, Poemas
37. Flaubert, Madame Bovary
38. Rimbaud, Une Saison en Enfer
39. Descartes, Discurso do Método
40. Prévost, Manon Lescaut
41. Ronsard, Les Odes
42. Aristofanes, Teatro
43. Tácito, Anais e Histórias
44. Spinoza, Ética
45. Hoelderlin, Poemas
46. Gérard de Nerval, Les Filles du Feu (et les Chimères)
47. Defoe, Robinson Crusoe
48. Santo Agostinho, As Confissões
49. Lautréamont, Os cantos de Maldoror
50. Victor Hugo, Os Miseráveis
51. Lewis Carroll, Alice no país das Maravilhas
52. Musset, Comédias e Provérbios
53. Jules Renard, Journal
54. Homère, A Ilíada
55. Dostoievsky, O idiota
56. Emily Brontë, O monte dos vendavais
57. Dostoievsky, Os Possessos
58. Voltaire, Contos
59. W. Blake, Poemas
60. Dostoievsky, Crime e Castigo
61. Plutarque, Vida de homens ilustres
62. Mme de La Fayette, La Princesse de Clèves
63. Karl Marx, O Capital
64. Benjamin Constant, Adolphe
65. Beaumarchais, Teatro
66. Agrippa d’Aubigné, Les Tragiques
67. Alfred de Vigny, Les Destinées
68. Lorca, Poemas
69. Malraux, A Condição Humana
70. La Rochefoucauld, Máximas
71. La Bruyère, Les Caractères
72. Mme de Sévigné, Cartas
73. Littré, Dictionnaire de la Langue française
74. Jarry, Ubu roi
75. Valéry, Poemas
76. Pascal, Les Provinciales
77. T.E. Lawrence, O sete Pilares da Sabedorias
78. Mérimée, Nouvelles79. Valéry, Variété
80. Heraclito, Fragmentos
81. Marivaux, Teatro
82. V. Hugo, La Légende des Siècles
83. Kafka, Le Processo
84. Voltaire, Correspondência
85. Apollinaire, Calligrammes
86. André Gide, Journal
87. Andersen, Contos
88. Alexandre Dumas, Les Trois Mousquetaires
89. Casanova, Mémoires
90. As Mil e uma Noites
91. Conrad, Lord Jim
92. Novalis, Poesias e Fragmentos filosóficos
93. Nietzsche, Assim falava Zaratrusta
94. Claudel, Teatro
95. Tristan Corbière, Os amores amarelos
96. V. Hugo, Les Contemplations
97. Saint Jean de la Croix, La Nuit obscure de l’Âme
98. Gogol, As almas mortas
99. Virgile, A Eneida
100. Bernanos, Journal d’un Curé de Campagne

11.12.05

Contra os brinquedos de guerra


Se gostas de viver…, porquê então, jogar e brincar a matar os outros?

Quando falamos de violência de imediato vem à nossa mente as guerras, mortes, golpes militares, etc, mas há também aquela violência do quotidiano que nos aparece como se fosse normal e que se vai reproduzindo persistentemente.
O autoritarismo, a repressão, a exclusão assim como muitíssimas relações assimétricas resultantes das nossas sociedades machistas, adultocêntricas, homofóbicas e racistas, ilustram suficientemente aquela realidade.
A influência social dissemina-se por via da reprodução e transmissão social para todos os segmentos sociais, mas é nas crianças que ela se exerce com particular força até pela simples razão que aí se estabelece com bastante nitidez uma forte relação vertical.
Também quando os ensinamos a jogar ou a distrair-se não deixa de se exercer aquela influência social que conduz à reprodução social das ideias dominantes.
Desgraçadamente, quando pensamos em dar um brinquedo, o que cuidamos é saber se o seu destinatário irá ou não apreciar, e não nos lembramos que ele serve também para educar. Procuramos, por isso, em oferecer a última novidade tecnológica, o jogo da moda ou então o que estiver mais à mão.
Não prestamos atenção ao papel e função que o jogo ou o brinquedo podem assumir na sociedade e a muitos nem sequer reflectem sobre se aquele concreto brinquedo ( ou jogo) serve ou não para perpetuar um determinado modelo social. Ora se queremos mudar as nossas sociedades importa atender aos brinquedos que compramos para as crianças. É assim que os brinquedos bélicos iniciam a crianças numa atitude militarista inculcando-lhe hábitos e conotações de agressividade e violência. Através dos
brinquedos de guerra está-se a legitimar as instituições agressivas, já para não dizer que através daqueles se garante o contínuo rearmamento das sociedades.
Não é por via dos brinquedos de guerra que as crianças vão entender a realidade social da violência e da guerra. Apenas conseguem apreender estereótipos. E pior que isso, os brinquedos de guerra servem as mais das vezes para deformar e ocultar as verdadeiras causas das guerras e da violência social, ocultando ainda as suas consequências irreparáveis.
A ideia de ver o jogo como um ingrediente importante na formação infantil leva-nos à necessidade de procurar alternativas não violentas onde se promova e relações de cooperação e amizade, num processo mais abrangente que favoreça às crianças e aos jovens a perspectivação das relações sociais numa óptica diferente.
Com efeito, depende de nós todos saber qual é a sociedade que pretendemos.

Através dos brinquedos as crianças vão interiorizando e fazendo como seus os comportamentos sociais e os valores implícitos num jogo ou num brinquedo. Daí que não tenhamos dúvidas ao dizer que os brinquedos bélicos não são neutrais. Por seu intermédio pode ser perpetuado todo um sistema social baseado em modelos comportamentais competitivos, violentos, incentivadores de uma vontade de domínio como um fim em si mesmo. A violência torna-se então o árbitro das relações sociais: é o mais forte que triunfa, que tem sempre razão e a quem cabe o papel do bom da fita.
Os brinquedos bélicos são uma verdadeira iniciação ao modelo militar-machista prevalecente nas nossas sociedades. O rapazito descobre aos poucos que o seu futuro papel de homem é diferenciado do da mulher, procurando por conseguinte identificar-se com as figuras machistas do guerreiro.
Acontece que os brinquedos de guerra cumprem ainda a função de legitimar as instituições militares e repressivas, a cujo processo não é estranho a simplificação da divisão entre bons e maus.
Os videojogos mais não fazem que modernizar este esquema reprodutor de uma forma mais insidiosa e insolente.
Claro que há quem argumente que não se deve ocultar as realidades da violência social e das guerras. E não falta quem considere que os brinquedos bélicos respondem a uma necessidade das crianças em canalizar a sua agressividade.
A tais objecções há que alegar que os brinquedos de guerra, mais que a ajudar as crianças a entender a realidade, o que fazem realmente é ocultar as causas e as consequências daquele fenómeno.
Cabe também perguntar porque é que outras realidades sociais como os suicídios e a prostituição não fazem parte dos inúmeros jogos infantis, sabendo todos que são, ao lado da guerra e da violência social, factos civilizacionais incontornáveis.
Por outro lado, importa frisar que existem brinquedos muito mais adequados para orientar a criatividade natural da criança que não passam forçosamente pelos brinquedos de guerra. A tensão física poderá ser muito melhor compensada com exercícios corporais e outros movimentos.
Recorde-se que os brinquedos devem cumprir duas funções capitais, a saber: serem veículo de expressão da emotividade, imaginação e estado de espírito, e serem instrumento de aprendizagem de um determinado comportamento social. Sendo assim, a agressividade não deve ser eliminada, mas devendo antes garantir a sua livre expressão, através de um desenvolvimento positivo que não se reconduza à violação dos direitos dos outros nem ao seu domínio. Ou seja: a uma agressividade que não se traduza numa violência destrutiva.

A verdadeira razão para o desejo de ter brinquedos de guerra está na publicidade destilada ao jovem ou à criança indefesa.
Está pois nas nossas mãos estimular a posse e o uso dos brinquedos de guerra ou cortar o mal pela raiz, oferecendo brinquedos e jogos que tornem desnecessários objectos que promovam a guerra, a violência social e a dominação de uns sobre os outros.


MEMORANDUM
O Parlamento Europeu aprovou em 13 de Setembro de 1982 uma resolução sobreos brinquedos de guerra, alertando para a problemática

Imagine ( John Lennon, 1971)

Imagina que não há nenhum paraíso,
É fácil se tentares
Nenhum inferno por baixo de nós
Acima de nós só o céu
Imagina toda a gente Vivendo o momento presente

Imagina que não há países
Não é difícil fazê-lo
Ninguém para matar ou por quem morrer
Nem sequer religião
Imagina toda a gente
Vivendo a sua vida em paz

Imagina que não há propriedade
Pergunto-me se o consegues
Nenhuma necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagina toda a gente
Compartilhando o mundo inteiro

Decálogo da imbecilidade

- Pensar que a cor da pele faz de uns melhores do que outros

- acreditar que um ser humano tem mais valor se usar roupa de marca

- estar convencido que «homem» é sinónimo de humanidade

- pensar que os pobres são pobres porque querem

- vangloriar-se de ter prejudicado alguém igual ou inferior a si

- crer que os homens só pensam em sexo

- agir com base em preconceitos

- deixar-se ir pela corrente, repetindo e macaqueando o que está na moda

- estar convicto que ganhar é ser viril e ter desprezo pelos outros

- admirar e aspirar a repetir o modelo do «ganhador» em vez de saber confrontar-se com ele.

( adaptação feita a partir de um texto de Marcelo Colussi, in
www.rebelion.org )

Caça de tigres na Estremadura !!!


Segundo notícias a circular pela imprensa estão a ser organizados safaris domésticos nas herdades e nos cotos privados da Estremadura espanhola ao ponto de terem sido caçados tigres e leões que previamente tinham sido traficados e largados ali pelos organizadores e que serviriam de alvo à caça grossa de indivíduos sem escrúpulos.
Segundo as mesmas notícias alguns dos participantes foram identificados pela guarda civil espanhola, depois de já terem morto um tigre.
O turismo de ricos sempre foi depradatório...

7.12.05

No discurso de aceitação do Nobel, Harold Pinter pede que Blair vá a tribunal por crimes de guerra


No discurso que vai ser lido na cerimónia de entrega do Prémio no próximo Sábado, o escritor inglês Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005, pede com muita firmeza que o Primeiro-ministro inglês Tony Blair compareça no tribunal por crimes de guerra .

Ao longo das 5.000 palavras que compõem aquele discurso de aceitação, o dramaturgo britânico critica também ferozmente o governo norte-americano pelas prisões de Guantanamo e também a desestabilização que os norte-americanos desencadearam na Nicarágua nos anos de 1980.
.
Todavia, reserva as suas críticas mais cerradas para o Reino Unido pela sua atitude «patética» de apoio aos Estados Unidos.

O corajoso escritor, indefectível activista anti-militarista, chega mesmo a declarar textualmente: «A invasão do Iraque foi um acto de bandidos, um acto de terrorismo de Estado, demonstrando a mais completa indiferença para com a lei internacional».
E acrescenta: « A invasão foi uma acção militar arbitrária, baseada nma série de mentiras e de grosseiras manipulações dos media e da opinião pública…um claro exemplo da responsabilidade da força militar pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes»

Harold Pinter, de 75 anos, não poderá estar presente na cerimónia de entrega do Prémio Nobel de Literatura pela Academia Sueca em Estocolmo por causa do seu frágil estado de saúde, pelo que será substituído pelo seu editor. No entanto, o autor de «The Caretaker» e «The BorthdayParty» gravou o discurso num vídeo que será retransmitido naquela cerimónia.
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"How many people do you have to kill before you qualify to be described as a mass murderer and a war criminal? One hundred thousand? More than enough, I would have thought,"
(«Quantas pessoas terão de ser mortas antes daqueles políticos serem qualificados de assassinos de massa e de criminosos de guerra? Cem mil pessoas?»)
interroga-se o escritor a dado passo no discurso gravado.
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"Therefore it is just that Bush and Blair be arraigned before the international criminal court of justice. But Bush has been clever. He has not ratified the international criminal court of justice ...
But Tony Blair has ratified the court and is therefore available for prosecution. We can let the court have his address if they're interested: it is Number 10, Downing Street, London."
(«A justiça exige que Bush e Blair sejam presentes ao Tribunal Penal Internacional. Bush foi, no entanto, mais esperto ao não ter ratificado o tratado que institui aquele tribunal internacional. Mas o governo Blair ratificou, pelo que pode objecto de acusação. Podemos enviar ao Tribunal, desde já, o seu endereço se assim estiver interessado: é o nº 10 de Downing Street, London »)

Não à biometria ( por Giorgio Agamben)


(em apoio aos estudantes inculpados por terem destruído, no passado mês de Novembro, os dispositivos de biometria instalados no seu liceu, o filósofo Giorgio Agamben publicou no jornal Le Monde de 6 de Dezembro o texto que se segue, devidamente traduzido para português)

Quando no fim do século XIX, Galion começou as suas pesquisas sobre as impressões digitais na Inglaterra, e Bertllon, na França, inventou a fotografia judiciária para a identificação antropométrica ( termo da época), tais procedimentos estavam reservados exclusivamente para os criminosos reincidentes.
Hoje em dia perfila-se uma sociedade em que se propões aplicar a todos os indivíduos dispositivos que estavam, até ao momento, destinados aos delinquentes. Segundo um projecto que está em vias de ser aprovado a relação normal do Estado para com aqueles que Rousseau chamava os «membros do soberano» será a biometria, ou seja, a suspeita generalizada.
À medida que os indivíduos, sob a pressão da crescente despolitização das sociedades pós-industriais, se abstém de toda a participação política, cada vez mais são tratados como virtuais criminosos. O corpo político torna-se assim um corpo criminal.
Os perigos de uma tal situação são evidentes para todos salvo para aqueles que se recusam de ver. Já não bastou que as fotografias retiradas dos bilhetes de identidade e das cartas profissionais tivessem permitido às polícias nazis, dos países ocupados, identificar e registar os judeus e enviá-los para a deportação. O que é que se vai passar no dia em que um poder despótico disponha do registo biométrico de toda uma população?
Ora isto é tanto mais inquietante quanto os países europeus, depois de terem imposto o controle biométrico aos imigrantes, aprestam-se agora a impô-lo a todos os seus cidadãos. As razões securitárias invocadas a favor destas práticas odientas não se mostram convincentes pois que, se podem contribuir para impedir a reincidência, elas mostram-se inúteis para prevenir o primeiro delito ou um acto de terrorismo. Em contrapartida, ela são perfeitamente eficazes para o controle massivo dos indivíduos. No dia em que o controle biométrico seja generalizado e em que a videovigilância seja instalada em todas as ruas, toda a crítica e toda a dissidência serão impossíveis.
Os jovens estudantes que destruíram no passado dia 17 de Novembro os dispositivos biométricos na cantina do liceu de Gif-sur-Yvette mostraram, antes do mais, que se preocuparam bem mais com as liberdades públicas e a democracia do que aqueles que aceitaram e consentiram na instalação daqueles dispositivos.
Exprimo toda a minha solidariedade aos estudantes franceses e declaro publicamente que recusarei sujeitar-me a todo o controle biométrico e que, por isso, estou pronto a renunciar ao meu passaporte bem como de todo o documento de identificação

Revista Utopia; já saiu o nº 20 com um dossier sobre Artes & Anarquia


Já se encontra em distribuição o último número (nº 20) da revista Utopia, « revista anarquista de cultura e intervenção», editada pela Associação Cultural A Vida.
Além de um óptimo aspecto gráfico é de salientar o dossier «Artes & Anarquia», que ocupa grande parte do seu conteúdo, e que inclui textos sobre Teatro Anarquista, Os anarquistas no imaginário cinematográfico, e ainda sobre a arte e a sensibilidade anarquista. De destacar ainda um texto de Maria Luísa Malato Borralho intitulado «Não há Utopias Portuguesas?».
Refira-se que na contracapa da revista aparece uma citação do poeta António Maria Lisboa: » A Anarquia e a Poesia são uma obra de séculos e irrompe espontaneamente ou não irrompe» ( António Maria Lisboa, Abril de 1950)
Os pontos de distribuição da revista são os habituais, entre os quais se conta a Livraria Utopia, na Rua da Regeneração, 22, na cidade do Porto

Mais info:
www.utopia.pt

Transformar o mundo e Mudar a vida


«Transformar o mundo», disse Marx;
«mudar a vida», disse Rimbaud:
estas duas palavras de ordem são, para nós, uma só.

André Breton, in Discurso ao Congresso dos escritores, 1935

6.12.05

BELLA CIAO

( canto dos partisanos - resistentes anti-fascistas italianos - na II Guerra Mundial durante a ditadura de Mussolini)

Una mattina mi son svegliato
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
Una mattina mi son svegliato
e~ho trovato l’invasor.

Oh partigiano, portami via
O bella ciao, …
Oh partigiano, portami via
che mi sento di morir

E se io moio da partigiano
O bella ciao, …
E se io moio da partigiano
Tu mi devi seppellir

E seppellire lassu~in montagna
O bella ciao, …
E seppellire lassu~in montagna
Sotto l’ombra di~un bel fior.

E tutti quelli che passerano
O bella ciao, …
E tutti quelli che passerano
Te diranno: che bel fior.

E quest’è~il fiore del partigiano
O bella ciao, …
E questo’il fiore del partigiano
Morto per la libertà


Tradução:

Numa manhã me levantei
E o invasor encontrei

Ó partisano leva-me
Que me sinto a morrer

E se eu morrer, partisano
Deves enterrar-me
Enterrar-me lá no alto, no cimo da montanha
Sob a sombra de uma bela flor

E todos os que por lá passarem
Te dirão: que bela flor

É a flor do
partisano
Que morreu pela liberdade

330 desempregados todos os dias em Portugal


Ao contrário da tendência europeia, o desemprego em Portugal continua a crescer, pelo menos até 2007. Dados do Instituto Nacional de Estatística revelam uma subida de meio ponto percentual face ao segundo trimestre, situando-se nos 7,7 por cento. O que significa que o desemprego evoluiu, de Julho a Setembro, ao ritmo médio de 330 novos desempregados por dia.

"Prevê-se que a UE crie seis milhões de novos postos de trabalho entre 2005 e 2007." A perspectiva, radiosa, consta das previsões de Outono da Comissão Europeia e estriba-se na expectativa de um bom comportamento económico do espaço comunitário, que espera crescer 1,5 por cento este ano, 2,1 por cento em 2006 e 2,4 por cento em 2007.
Postas as coisas neste pé, Portugal parece fazer parte de outro universo. O desemprego está a crescer "sustentadamente" desde 2002 e, pelo menos até 2007, deverá subir ainda mais, ao arrepio da tendência europeia. A taxa do terceiro trimestre deste ano (2005) divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) deu um salto de meio ponto percentual face ao segundo trimestre, situando-se nos 7,7 por cento, a que corresponderão cerca de 430 mil desempregados, o que significa que o desemprego evoluiu, de Julho a Setembro, ao ritmo médio de 330 novos desempregados por dia (o chamado "desemprego registado", que contempla as inscrições nos centros de emprego do continente e regiões autónomas, ascendia em 31 de Outubro a 484.730 indivíduos.
Também nas previsões de crescimento, a economia portuguesa contraria a UE, devendo continuar até 2007 a crescer abaixo da média europeia, perfazendo um total de seis anos de empobrecimento face aos parceiros da União. Enfim, Portugal deixou, decididamente, de ser o "bom aluno" dos anos noventa, com a economia a crescer acima da média europeia e com baixas taxas de desemprego, para se constituir, no novo século, como o "patinho feio" e um dos fardos com que a União tem de carregar.

Correspondência entre Tolstoi e Gandhi


«Um exame(…) teve lugar, na primavera passada, numa das instituições femininas de Moscovo.O professor (…) e depois o padre presente interrogaram as raparigas sobre os Mandamentos, nomeadamente o sexto. Depois de qualquer resposta correcta a propósito deste último ( «Não matarás»), o padre fazia às vezes uma outra pergunta: o assassinato é sempre, em todas e quaisquer circunstâncias, proibido pela lei de Deus? E as pobres raparigas instruídas na mentira pelos mestres, deviam responder e respondiam assim: « Nem sempre. O assassinato é permitido na guerra e também para castigar os criminosos.» No entanto, uma delas, (…) respondeu peremptoriamente, muito comovida e corando: «O assassinato é sempre proibido, tanto pelo antigo Testamento como por Cristo; e não é só o assassinato, mas todo o mal cometido contra o próximo.» Foi então que o padre teve de se calar, porque a rapariga saíra vencedora.
( Tolstoi para Gandhi a 7 de Setembro de 1910)

«Permita-me que lhe chame a atenção para os acontecimentos que têm ocorrido no Transval, na África do Sul, de há três anos para cá.
Há nesse país uma colónia de indianos ingleses que forma uma população de cerca de treze mil habitantes. As leis privam de certos direitos esses hindus que trabalham há vários anos no Transval: preconceitos tenazes contra os homens de cor e mesmo contra os asiáticos, devidos, em relação a estes últimos, ao jogo da concorrência comercial.
Surgiram conflitos que atingiram o ponto culminante quando há três anos foi votada uma lei que atingia especialmente os trabalhadores vindos da Ásia (…) A submissão a tal lei, não podia estar de acordo, segundo penso, com o espírito da verdadeira religião. Alguns dos meus amigos e eu próprio acreditamos ainda completamente na doutrina da não-resistência ao mal.(…)Os indianos britânicos, a quem explicámos cabalmente a situação seguiram o nosso conselho de não se submeterem à legislação. (…) Cerca de duas mil e quinhentas pessoas deixaram-se prender, algumas já cinco vezes, em nome da sua consciência.»
(Gandhi para Tolstoi, a 1 de Outubro de 1909)