12.8.05

Nagasaki: 70.000 mortos em 3 segundos


Nagasaki, cidade habitada maioritariamente por católicos, por efeito da evangelização realizada por portugueses e espanhóis, foi o alvo da segunda bomba atómica lançada pelos Estados Unidos contra a população civil há 60 anos atrás, em 8 de Agosto de 1945, e que matou 70.000 pessoas em 3 segundos.
Com a morte de 2.748 pessoas em Nagasaki, durante o ano passado, o número total de vítimas resultante do bombardeamento norte-americano só sobre a cidade de Nagasaki

Sobreviventes, e actuais habitantes de Nagasaki comemoraram o acontecimento no local onde a bomba caiu, que estava inicialmente destinada para a cidade de Kokura.. Antes das cerimónias foi celebrada uma missa, em memória das 137.000 vítimas falecidas, na reconstruída catedral Urakami que era em 1945 a maior igreja católica do Extremo Oriente e que foi reduzida a escombros

A bomba atómica que caiu sobre Nagasaki era de plutónio, com características muito diferentes da bomba lançada sobre Hiroshima, tendo servido para o Exército norte-americano testar o impacte e o efeitos mortais quer de uma quer da outra bomba sobre a população civil daquelas duas cidades.

7.8.05

Declaração formal de guerra poética para tomar o céu por assalto


O surrealismo está vivo e lança-se à acção.

Leia-se e multiplique-se

Considerando:

a) que cada dia que passa são cada vez mais as perversões esclavagistas dos Impérios e dos seus cúmplices

b) que a miséria cresce, o crime cresce, a injustiça cresce, as ameaças crescem

c) que está em marcha um ataque armado imperial para cancelar definitivamente a liberdade

d) que somos reféns das ditaduras financeiras, bancárias, clericais, massmediáticas, legalóides, politiqueiras e moralistas

e) que não temos descanso nem nos deixam respirar

f) que pretendem usurpar-nos a vida e a esperança

g) que semearam com mortos os nossos sonhos e vigílias

h) que o medo inunda as noites e dias com noticiários, embargos judiciais e moral policial

i) que o terror tem cotação nas bolsas

j) que estamos acorrentados aos fios da consciência

k) que a podridão e a pouca vergonha desfilam triunfalmente pelas avenidas da impunidade

l) que a democracia fica desfigurada com a mais despudorada campanha nacionalista, fascista e patrioteira

m) que converteram o trabalho numa carnificina

n) que arrastamos pelas ruas as nossas depressões e cansaços como alma escondidas nas sombras elípticas dos abutres

o) que a fome nos tira lascas 365 vezes por minuto

p) que a humilhação goza de perfeita saúde

q) que o desemprego é um grande negócio

r) que tudo é ainda passível de piorar

s) que isto já não é assunto de caciques

t) que somos o alvo

u) que eles fabricam cada dia mais e melhores armas

v) que se votarmos neles seremos então seus

w) que não há tempo a perder. Que a consciência do nosso atraso não é suficiente

x) que o nosso trabalho, tal como está, faz-nos cada vez mais escravos e mais miseráveis

y) que eles estão organizados e se preparam para nos dar o golpe final

z) que não basta unirmo-nos… é preciso organizarmo-nos revolucionarmente




PROMULGAMOS A…

Real Declaração Universal

Dos Direitos da Revolução Permanente

( e as suas permanente obrigações)


I. Todos os seres humanos podem, devem e precisam de ser revolucionários. A partir de hoje será obrigação e direito de todos executar pelo menos três acções revolucionárias diárias contra qualquer sinal de escravidão física e mental.

II. Será reconhecida como revolucionária toda aquela acção organizada que contribua directa ou indirectamente, objectiva ou subjectivamente, para dar por terminado o modo esclavagista e de exploração criado pelo capitalismo imperial.

III. Esta declaração propõe o amor e a poesia como formas supremas da revolução. Toda a indiferença face à revolução será considerado como delito de lesa-majestade

IV. A mansidão, docilidade e inactividade complacentes para com o capitalismo serão consideradas indecentes e imorais

V. Está proibida qualquer revolução na solidão. ( salvo casos excepcionais ou extremos). É dever e direito de toda a pessoa, que se respeite, construir a revolução acompanhado. É mais produtivo, mais seguro e mais saboroso.

VI. Será propósito de cada acto de amor honesto e quotidiano converter-se em revolução que liberte corpos e espíritos para uma vida digna, dentro do possível, ainda que não pareça.

VII. É prerrogativa e obrigação da humanidade contribuir para a construção de uma grande frente única revolucionária ( a Revolução Mundial) que será com a maior brevidade convertida num poema colectivo para a redistribuição equitativa da felicidade e justiça. Tudo isto está nas nossas mãos, isto é, de todos nós.

VIII. É certo que não basta ser rebelde, mas há que começar por alguma coisa. Quando começar a grande revolução mundial, o que só acontecerá quando toda a opressão, escravatura e exploração estejam desterradas, manter-nos-emos revolucionários para não nos transformarmos no seu contrário.

IX. É preciso que a revolução se expresse por todas as áreas da vida. Por isso, daqui para diante, será necessário sermos revolucionários nos sonhos e no descanso, nos jogos e nos trabalhos, pública e em privado. Será prerrogativa de todo o revolucionário produzir beijos revolucionários, abraços revolucionários, carícias revolucionárias. Ciência, artes, filosofias e ofícios revolucionários. Não há desculpas para não se amar em revolução crescente e postergar um minuto que seja os mandatos do desejo.

X. Esta declaração é uma declaração de guerra contra toda a hegemonia da razão sobre os instintos e vice-versa. É uma declaração contra a separação entre a consciência e o inconsciente. É uma declaração de guerra contra a separação entre o espírito e o corpo. É uma declaração de guerra contra a separação do trabalho intelectual e o trabalho manual. É uma declaração de guerra contra a separação entre a riqueza material e os povos que a produzam. Contra a propriedade privada.

XI. Esta declaração é uma declaração de guerra contra a apatia, a desorganização, a depressão, a mediocridade, a sujidade, a miséria, a corrupção, os saldos amargos, a austeridade para tantos, a abulia, as doenças, as deficiências, os atrasos, as desigualdades, os maus tratos, a intranquilidade, a insónia, a impotência, a frigidez, o bom comportamento, as atitudes burguesas, a desnutrição, o abandono, a solidão e a tristeza.

XII. A partir de agora é obrigatória a revolução que fecunde alegria para todos, o bem estar material e emocional, o sexo criativo, lúdico e amoroso, o trabalho não alienante, a paz entusiasta, a vontade de rir-se sem ser por motivos estúpidos, a amizade contundente, o amor louco e tudo quanto a nossa consciência exigir para satisfazer as necessidades, pessoais e colectivas, para aproximarmo-nos daquilo que todos sonhamos como um mundo melhor, que é um mundo sem exploração, feito por e para uma humanidade renovada. E isso não é impossível.

XIII. É inaceitável ser-se indiferente a esta declaração.

XIV.

«Não será o medo à loucura que nos obrigará a baixar as bandeiras da imaginação»


Autor: Fernando Buen Abad Domíngueztradução para português de um original de Fernando Buen Abad Domínguez, sob o título CARTAS DESDE EL SURREALISMO Nº 5 que se encontra em:
www.barriodelcarmen.net

Quando os Estados Unidos se preparavam para invadir Portugal

Algum tempo depois do 25 de Abril e face ao desencadeamento de um processo revolucionário que se lhe seguiu o governo norte-americano acompanhava de perto o desenrolar dos acontecimentos em Portugal, até pelo facto do país ser um membro fundador da aliança militar que é a Nato.
Numa primeira fase enviou observadores ( serviços secretos) para o terreno, isto é, para Portugal. Toda a gente sabia ,por exemplo, que o embaixador americano em Lisboa era um alto funcionário da Cia, em «comissão de serviço» em Portugal, cujo trabalho foi, de resto, reconhecido quando anos mais tarde esse mesmo Embaixador chegou à Chefia da Agência Nacional de Segurança (vulgo, CIA) dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo o governo americano abria os cordões à bolsa e criava linhas de financiamento para as forças contra-revolucionárias portuguesas. É graças aos dólares americanos e aos marcos alemães que é criada a UGT, a actual central sindical social-democrata. São criados também jornais contra-revolucionários e até mesmo de direita mais extremista, com a ajuda dessas verbas disponibilizados pelas agências de informação dos serviços governamentais, com o claro objectivo de desinformar e intoxicar a população contra o «papão comunista» e o «perigo da anarquia».
Como tais operações não fossem suficientes para travar a dinâmica revolucionária em Portugal os Estados Unidos começaram a recorrer à força armada para abafar a revolução portuguesa.
Surgiram assim várias redes terroristas de carácter contra-revolucionário patrocinadas na sombra pelos serviços secretos americanos.
Mas como isso não chegasse o governo norte-americano começou seriamente a pensar numa intervenção militar no território português para que deu ordem para a realização por mais de duas vezes durante ano de 1975 de manobras militares da Esquadra da Nato que simularam inclusivamente desembarques nas praias atlânticas do Alentejo.
Afinal não foi necessário desembarque nem invasão. Os homens de mão dos americanos estiveram á altura da encomenda que lhes tinha sido ordenada.
Assim se explica que o golpe militar reaccionário do 25 de Novembro de 1975 que veio a instaurar a Recuperação Capitalista tenha tido como centro de operações a base aérea da Nato em Cortegaça, perto de Ovar.
Daí partiriam as ordens e os aviões que vieram a intimidar e atacar as força revolucionárias que exigiam transformações profundas na organização social no sentido de criar uma sociedade socialista, tal como se encontra ainda na actual Constituição da Republica Portuguesa, mas que não passa de letra morta para os nossos políticos e governantes para os quais a Lei e a Constituição só devem ser seguidas e respeitadas quando estiverem ao serviço dos interesses da classe dominante dos capitalistas e aos americanos.

Os zapatistas



Autor do texto:
Boaventura de Sousa Santos

Saio da cidade do México num momento em que a classe política e os movimentos e organizações sociais reflectem sobre a última declaração política do movimento zapatista, a Sexta Declaração da Selva Lacandona. É uma declaração importante para o México, a América Latina e, em geral, para os cidadãos que em todo o mundo lutam contra a exclusão social e aspiram a uma renovação da vida política democrática. Trata-se de um texto escrito num estilo desconcertantemente simples, dirigido à «gente simples e humilde» e em termos que esta entenda, pleno de ironia e carregado de imagens que apelam à experiência vivida das classes populares. E este é um primeiro aspecto a salientar, já que uma das manifestações da crise da política do nosso tempo reside na opacidade dúplice do discurso político dominante, um discurso que nega o que faz (submeter-se aos imperativos do capitalismo global) para fazer o que nega (deixar de estar ao serviço do bem estar dos cidadãos).

A declaração está dividida em cinco partes: o que somos; onde estamos; como vemos o mundo; como vemos o nosso país, o México; o que vamos fazer. Destaco nela três aspectos principais. O primeiro consiste na opção mais inequívoca do que nunca, pela acção política pacífica: «o que vamos fazer no México e no mundo, vamos fazê-lo sem armas, com um movimento civil e pacífico». Está aberta, pois, a possibilidade de o movimento zapatista vir a integrar o Fórum Social Mundial (cuja carta de princípios exclui a luta armada) o que, em meu entender, seria bom para ambos. É certo que, no seguimento dos encontros «intergalácticos» promovidos pelos zapatistas na década de noventa, são propostos agora novos «encontros intercontinentais» e são mesmo avançadas datas prováveis, mas nada disto parece colidir com a entrada em força no FSM.

O segundo aspecto é que a intervenção zapatista não é feita contra a política, mas antes contra «esta política que não serve, e não serve porque não toma em conta o povo, não o escuta, não faz caso dele, só se aproxima dele quando há eleições e já nem sequer quer votos, pois bastam as sondagens para dizer quem ganha». Contra uma democracia representativa de baixa intensidade, propõe-se uma democracia de alta intensidade, que combine a democracia representativa com a participativa, pressionando os partidos a partir «de baixo», ou seja, através de uma forte mobilização social e política, uma campanha nacional para a construção de outra forma de fazer política», de um programa de luta nacional e de esquerda que esteja para além dos processos eleitorais. Esta mobilização deixa de se dirigir exclusivamente aos povos indígenas, a base social originária dos zapatistas, para incluir todos os explorados e excluídos: operários, camponeses, jovens, mulheres, deficientes, micro-empresários, reformados, homossexuais e lésbicas, crianças, emigrantes, etc. Trata-se, pois de organizar um vasto movimento social rebelde e pacífico.

O terceiro aspecto a salientar é que a luta social e acção política de base têm de ser, não apenas intersectoriais, mas também transnacionais. A globalização neoliberal, ao globalizar os processos de exclusão social, cria também as condições para organizar globalmente a solidariedade, solidariedade, antes de tudo, com os povos latino-americanos, mas também com todos os outros povos do mundo. Eis, em pleno estilo zapatista, como se dirigem aos povos europeus: «...e queremos dizer aos irmãos e irmãs da Europa Social, ou seja, a que é digna e rebelde, que não estão sós. Que nos alegram muito os seus grandes movimentos contra as guerras neoliberais. Que seguimos com atenção as suas formas de organização e de luta para aprender com elas. Que estamos a ver os modos como apoiá-los nas suas lutas e que não vamos mandar euros pois logo se desvalorizarão dada a desordem na União Europeia. Mas talvez lhes vamos mandar artesanato e café para que o comercializem e tirem disso algum proveito para as suas lutas.»

________
Sexta Declaración de la Selva Lacandona
I, II, III

Alexandre Vieira, director d’«A Batalha», jornal da CGT


Quando se reconhece que está por fazer a história dos últimos cem anos, com os acontecimentos que derivaram do surto da industrialização e das suas consequências sociais e políticas, a I República e o reinado sombrio do salazarismo, é preciso conhecer e revelar o valor e o papel que desempenhou nessa época o movimento operário e sindicalista. Deste modo a História não aparecerá somente feita pelas personalidades políticas ombreando apenas com poetas, literatos e cientistas mas também por outras figuras que marcaram essa nova expressão democrática, o movimento operário, que muito contribuiu para a transformação da sociedade portuguesa.

Alexandre Vieira, operário gráfico, cujo centenário do seu nascimento se completou a 11 de Setembro de 1980, foi uma notável figura marcante nos grandes acontecimentos que caracterizaram a I República e os anos posteriores como militante sindicalista e na acção que o movimento sindical revolucionário desempenhou na melhoria e elevação da condição operária e da sua intervenção nessa evolução.
Nasceu no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, em Setembro de 1880 e, em breve, vai com os pais para Viana de Castelo onde, aos 10 anos, começou como aprendiz de latoeiro. Aos 15 anos de idade, na sua passagem por Coimbra, inicia a aprendizagem de tipógrafo, condição profissional que jamais abandonaria e seguiu sempre com paixão e orgulho.
Por esse tempo, bastante convulso, pelas consequências da crise de 91, dos problemas coloniais e do processo de industrialização, o movimento operário que já vinha dos meados do século a afirmar o valor e a presença operária no processo de produção, mas condicionado a um reformismo que a hegemonia do Partido Socialista patrocinava como indispensável ao papel político que julgava poder realizar segundo a dialéctica marxista, viu surgir novas concepções revolucionárias inspiradas na experiência da Primeira Internacional.
Alexandre Vieira, trabalhando nas artes gráficas, além dos contactos com essas movimentações, começou a privar com leituras de carácter social e naturalmente a formar uma personalidade que cedo se vem a afirmar. Com 23 anos de idade ele dirige, em Viana de Castelo, o jornal «O Lutador»,órgão local da Federação das Associações Operárias.
Não tarda a aparecer em Lisboa onde se fixou definitivamente, filiando-se na Associação dos Compositores Tipográficos.
As grandes lutas operárias na Europa e as suas contingências iam produzindo uma experiência. A social-democracia, que se gerara nos votos do Congresso de Haia de 1872, propostos pelos postulados de Marx, entrava no parlamentarismo e no terreno resvaladiço do constitucionalismo burguês, ao mesmo tempo que os movimentos operários mais amadurecidos se iam inspirando no princípio que, para além das reivindicações económicas imediatas, se abrangia a própria socialização dos meios de produção, e seriam, portanto, os próprios sindicatos os instrumentos válidos dessa socialização.
O movimento das Bolsas de Trabalho em França toma, por inspiração anarquista de Pelloutier, da crítica marxista de Lagardelle e Berth e da crítica sorelliana, uma notável autonomia. Formulava-se, na teoria e na prática, o sindicalismo revolucionário, e em 1906 constitui-se a CGT estruturada na célebre carta de Amiens.
A influência cultural francesa transporta para Portugal, pelo veículo da literatura anarquista , o sindicalismo revolucionário que ensaiava.
Alexandre Vieira, que privava nos meios libertários, com Emílio Costa, Pinto Quartin, Campos de Lima, Neno Vasco, Adolfo Lima e Aurélio Quintanilha, integra-se na proposta revolucionário do sindicalismo e torna-se um dos seus mais activos militantes e propagandistas depois da célebre conferência de Emílio Costa sobre o tema «Acção directa e acção legal».
Em 1908, animando a crítica e a experiência sindicalista transposta para as associações de classe de tipo profissional, começa a publicar-se o diário sindicalista «A Greve», redigido, composto, impresso e vendido por um grupo de militantes entre os quais estava Alexandre Vieira como seu director, coadjuvado por Pinto Quartin, anarquista, e Fernandes Alves, socialista.
O jornal durou apenas seis meses e Vieira viria a confessar «se bem que o novo jornal defendesse com vivacidade os trabalhadores, manda a verdade que se diga que fez uma medíocre divulgação do Sindicalismo» ( in «Para a História do Sindicalismo em Portugal», A. Vieira, col. Seara Nova,pág.30)
Esta confissão é um dos traços do seu carácter. Vieira era um homem íntegro, duma extraordinária lealdade, sem dogmatismos, praticando uma amizade firma com todos; se discordava não se irritava e até seria capaz de contemporizar, o que o levou também muitas vezes a posições de certo modo ambíguas quer quando se definiu a influência anarco-sindicalista quer depois do aparecimento do Partido Comunista, e do dissimulado grupo dos «Partidários da ISV», encontrando-se muita vez no meio com o seu ramo de oliveira.

Em Novembro de 1910, ainda na euforia da implantação da República, algo parecido ao 25 de Abril, surge o novo semanário «O Sindicalista», também com a direcção e colaboração de Alexandre Vieira, para substituir «A Greve».
Marcando claramente uma posição e doutrinação sindicalista revolucionária, «O Sindicalista» veio desenvolver uma nova dinâmica sindical e despertar nas classes trabalhadoras um espírito novo de autonomia e da sua missão histórica, a marcar a sua presença e identidade própria na evolução da sociedade portuguesa e nos acontecimentos que agitam a I República e, depois, durante o período fascista.
Alexandre Viera teve uma notável intervenção e perseverante acção na evolução sindical a começar na Casa Sindical. Gérmen da futura central sindical.

A fundação da União Operária Nacional

Em Maio de 1914 o Congresso Operário Nacional, realizado em Tomar, toma decididamente a posição sindicalista e constitui a União Operária Nacional. Alexandre Vieira teve grande intervenção nos debates e resoluções que suplantaram a influência socialista, tendo no final sido eleito secretário-geral da Comissão Executiva. Nos acidentados anos que se seguem, que a guerra vem agravar, com as suas crises, tumultos e agravamento das condições de vida da população e o conturbado perído sidonista a UON demonstra uma capacidade de resposta da posição sindicalista.
Esta será a grande afirmação da geração de A. Vieira, em que se evidenciou sempre com a sua presença e capacidade de acção e de reflexão.

Esta força que nascia e se afirmava carecia, portanto, duma voz equivalente à sua presença. Exactamente quando na serra do Monsanto sucumbia a aventura duma pretendida restauração monárquica, breves dias após, começa a publicar-se em Lisboa o diário operário e sindicalista «A Batalha», dirigido por Alexandre Vieira.

O que o jornal «A Batalha» representava pela acção dos que o lançaram é que tendo sido uma iniciativa arrojada, mesmo temerária, apenas igualada pelo sindicalismo espanhol, não soçobrou e desempenhou a sua importante missão, ser a voz dos trabalhadores que só o terror amordaçou para não voltar hoje a ser repetida como iniciativa do movimento sindical.
A projecção que o jornal teve, e que ainda se repercute, foi em muito, obra de Vieira. A sua acção como jornalista operário, já experimentado como autodidacta, afirma-se e notabiliza-se na orientação do jornal como na formação do seu quadro redactorial, exclusivamente composto de operários militantes, alguns ainda jovens, tendo assumido uma nova categoria na Imprensa como jornal de combate, ideológico, crítico, cultural e informativo do quotidiano, sendo por isso, e pela sua tiragem, um dos principais do país.
Quase sempre os governantes respondem aos grandes problemas ou conflitos com a prisão dos militantes sindicais. Várias vezes Vieira, como tantos outros, estanciou no Limoeiro, no governo civil e até no forte de Elvas. Quando da célebre bomba do Carmo, em 1911, A. Vieira e os companheiros da redacção de «O Sindicalista» foram presos, o jornal publicou-se indicando como local e sede da redacção e da administração, a cadeia do Limoeiro.
Alexandre Vieira como todos os militantes sindicalistas da época foram impressionados pela revolução de 1917 e manifestaram-se de maneiras diferentes. Vieira acolheu-a e guardou sempre aquela simpatia inicial, mas não alterou a sua posição sindicalista nem se dispôs a críticas ou louvores.
Os polémicos debates desencadeados pelos maximalistas, a formação da Federação Maximalista e do seu órgão «A Bandeira Vermelha», primeiro as reflexões, depois, a crítica aos anarquistas, decorreram sem que Vieira tomasse posição. Mesmo depois do Partido Comunista aparecer, e se ampliarem os debates polémicos, A. Vieira mostra-se inalterável, acolhendo todos com a mesma amizade, a mesma bonomia, porfiando na convicção dum sindicalismo autónomo e apto à gestão sindical da produção e na formação duma sociedade socialista, um sindicalismo da carta de Amiens, reafirmado ainda em 1925 numa pequena polémica em «A Batalha».
Paternal, contemporizador, sem pretender elaborar quaisquer sínteses, solução de compromisso ou miscelânea, deixou-se ficar um tanto à parte, e todos contemplava com o seu sorriso aberto, a sua palmada no ombro do amigo conservando amizades com os outros.
De formação libertária, tendo convivido e colaborado com muitos anarquistas, nunca se afirmou como tal, conservando o essencial de não aceitar a ideia de Partido nem do Estado como construtor do socialismo. Nessa posição rigidamente sindical tropeçou algumas vezes em várias ambiguidades que uma leitura unilateral do sindicalismo pode conduzir.
Por influência dos seus amigos do grupo dos Partidários da ISV em 1928, Vieira foi convidado a participar em Moscovo num Congresso da Internacional Sindical Vermelha, como «delegado fraternal», isto é, convidado, e aceitou.
No relato da sua missão publicado num livro cujo título é bastante inexpressivo -«Delegacia a um congresso sindical» - relata-nos com agrado os convívios de camaradagem e asa solenidades a que assistiu ou algumas impressões da vida quotidiana. Não entrou no debate dos principais problemas do movimento internacional quando o estalinismo já dominava.
Não obstante, um certo tipo de neutralismo, Vieira sintetizava toda a grandeza dum movimento e uma corrente de pensamento e de acção, que no dédalo das contradições da época, continuava a afirmar, pela sua autonomia e pelo conteúdo de ideias, a sua missão histórica que entre nós alterou positivamente a condição operária.
Quando se preparava o Congresso Confederal da Covilhã e constava da sua ordem de trabalhos a adesão da CGT à Internacional anarco-sindiacalista, a Associação Internacional dos Trabalhadores, a que o pequeno núcleo dos partidários da ISV se opunha, Alexandre Vieira adopta uma posição neutralista e leva o Sindicato dos Compositores Tipográficos a propor ao Congresso a neutralidade internacional da CGT.
Vieira criou grandes amizades para além dos quadros sindicais e conviveu com grandes figuras da intelectualidade que o apreciavam pelas suas notáveis qualidades de inteligência e de acção, colaborando em muitas publicações.
Depois de ter sido chefe da tipografia da «Seara Nova». E quando Jaime Cortesão e Raul Proença assumiram a direcção da Biblioteca Nacional, Vieira – sempre operário gráfico de que se orgulhava – foi com eles para chefiar a tipografia. Quando a tempestade reaccionários os afastou, Vieira, na defesa das regalias do pessoal gráfico, teve polémicas com o director, o dr. Fidelino de Figueiredo, e como este o ofendesse, pela primeira vez na sua vida, agrediu-o. Quando foi julgado em tribunal rodearam-no numerosos amigos de variados quadrantes.
A sua acção estendeu-se para além do movimento sindical. Teve grande actividade na Universidade Popular Portuguesa, conjuntamente com Bento Caraça, Dias Amado, Avelino Cunhal, José Carlos de Sousa, e Augusto Carlos Rodrigues. Foi também um dos organizadores da Associação dos Inquilinos Lisbonenses, dando-lhes boa parte da sua colaboração.
Infatigável militante, persistente jornalista, homem de pensamento e de acção duma geração que revolveu Portugal, Alexandre Vieira morreu com 93 anos, sempre com a mesma grandeza de espírito e duma bondade singela, em Março de 1974, não chegando, por escassos dias, a ver a queda de um regime a que ele permanentemente se opôs.

(Texto de autoria de Emídio Santana, publicado em «O Jornal» de 12/9/1980)


Bibliografia de Alexandre Vieira:
= Em volta da minha profissão subsídios para a história do movimento operário no Portugal continental – edição de autor, 1950
=Como se corrigem provas tipográficas – noções úteis para quem manda executar impressão às tipografias. De colaboração com Gonçalves Piçarra – Edição da Albagráfica, Lda, Lisboa 1951
=Figuras gradas do Movimento Social Português – Edição do autor, Lisboa 1959
=Delegacia a um Congresso Sindical – Lisboa, 1960
= Para a História do Sindicalismo em Portugal – edição da Seara Nova, 1970

6.8.05

Não houve um, mas dois Holocaustos (Auschwitz e Hiroshima)



Fala-se correntemente do holocausto nazi que perseguiu e matou milhões de judeus. A sua denúncia tornou-se moeda corrente. E muito justamente. Ao ponto de um filósofo como Adorno ter tido necessidade de levantar a questão de como educar após Auschwitz, ou seja, a necessidade de toda e qualquer educação não ignorar o que o homem foi capaz de fazer a outro homem, e construir resistências para que tal não volte a acontecer.
Mas o simbolismo da bomba atómica e o risco nuclear, representado pelo acto gratuito que foi o lançamento pelos Estados Unidos - paradigma societário das democracias ocidentais e do mundo dito civilizado - de bombas atómicas contra populações civis em 1945, e a consequente carnificina, exigem que se fale de um segundo Holocausto, o de Hiroshima.
E deste vez o dedo acusador vai para o desvario da razão científica, para a arrogância do militarismo tecnológico e, em última análise, para a suposta superioridade civilizacional do modelo das democracias ocidentais - como os Estados Unidos da América gostam de se auto-representar - e cujo presumido ascendente moral é definitivamente manchado pelo sangue, morte e ameaça do apocalipse atómico

.
Não por acaso este outro holocausto é objecto de mutismo cúmplice e censura, como se a vergonha tivesse ainda dificuldade em dizer por palavras a sua própria condição. O manto de quase silêncio que rodeia ainda o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima mostra que ainda está tudo por fazer. Que a liberdade humana é uma conquista permanente, e que os poderes não olham a meios para imporem a sua verdade.
Que a racionalização moderna, representada pelas tecno-ciências, tantas vezes proclamada como panaceia, afinal, não é o garante para a felicidade humana, e que guarda nela os germens da destruição planetária.
No meio de tudo isto, cabe aos indivíduos concretos resistirem com estoicismo e lucidez para bem da Humanidade e do planeta, defenderem a vida contra todas as racionalizações fechadas, contra todas as doutrinas dogmáticas e todos os poderes que arrogantemente e por interesses inconfessados, se querem suplantar ao livre fluir da vida, espontânea, bela e selvagem. Pois só ela tem legitimidade de nos surpreender com a dor da morte e a alegria de um sorriso súbito de contentamento, luminosamente imprevisível.

Edições apalavrados



«Apalavrados: seres humanos comprometidos por um pacto de honra, valor, ideal, sangue ou princípio. No caso presente das artes, banda de poesia, trupe de saltimbancos, grupo de amigos, paralelos ou comuns, ligados por todas as áreas vivas ou por viver. podem ser poucos ou muitos, alguns ou todos, sós ou acompanhados, são os que estiverem na hora da luz e da revelação»

As edições apalavrados, com o apoio e cortesia do colectivo «silêncio da gaveta», inauguraram a sua primeira colecção de livros, sob a designação de «cobras incompletas», e para o seu início nada melhor que dar à estampa um volume de poesias de Joaquim Castro Caldas , com o título «há»

Desistam da ideia de procurar o livro nos escaparates das livrarias, e muitos menos nos saldos das feiras dos livros. São livros clandestinos, vendidos à sorrelfa pela cidade, nos bares e esquinas onde ainda esteja erguida alguma réstia de inteireza humana.

Do conjunto de poesias coligidas, seleccionamos o seguinte excerto:


(…)
há poetas como padeiros
por isso fermentam ambos
à hora a que os sinos
se avisam uns aos outros
para não soarem simultâneos

há marés para os afagos
se os vinhos mais sagrados
se bebem na rua puros
nobres desencantados
quando partem barcos
se devolvem os sorrisos

há vadios que nos tecem
companhia no desespero
à hora a que os medos
no dia em que os lábios deixam vestígio soltos
e em sangue os violinos
pela noite vão fingindo
que ainda são amados


há também as paixões
que escorregam como o frio
quem se morde por dentro
o que se morre em segredo
e por isso é pela ausência
que se vê um amigo

Autor: Joaquim Castro Caldas, em «há»

Spartacus, e a luta dos escravos pela liberdade, transposta para o cinema



Spartacus foi um escravo que liderou a mais importante revolta, no século I a.C., contra os romanos e o poder imperial de Roma. Os seus objectivos eram a liberdade e o reconhecimento da sua condição humana, tendo conseguido a adesão de milhares de escravos para a sua luta que só foi esmagada depois de várias tentativas do poder imperial que teve de mobilizar os seus principais cabos de guerra e recursos militares para abafar a revolta.

Spartacus é também o título do romance histórico de 1952, do escritor e dramaturgo norte-americano Howard Fast (1914-2003), que foi perseguido e vítima da campanha anti-comunista levada a cabo pelo senador McCarthy pelo facto de Fast ser militante do Partido Comunista., e que levou inclusivamente à retirada dos seus livros das bibliotecas pública norte-americanas.

O romance passou para o cinema pela mão do realizado Stanley Kubrick e com base no argumento de outra vítima da lista negra do maccarthismo, Dalton Trumbo, um dos famosos «dez de Hollywood» marginalizados durante aquela época.
Fast é autor de dezenas de livros e novelas, tendo escrito ainda policiais sob o pseudónimo de E.V.Cunningham. Veio a abandonar o Partido Comunista como protesto pela invasão do Exército vermelho da Hungria em 1956.

História

Desde o século II a.C. as revoltas e fugas dos escravos intensificaram-se, ainda que de forma esparsa se possa dizer a resistência de escravos sempre constituiu uma constante ao longo do período romano. Existem fugas massivas de escravos em Tito Lívio, Apiano e Cícero. Mas estas formas de resistência passiva transmutou-se também sob uma outra maneira mais ofensiva, a resistência activa. E não faltam sinais de repressões contra revoltas e insurreições de escravos. As constantes guerras romanas absorviam os cidadãos disponíveis e entregavam aos escravos a tarefa de produzir. Estes eram em número cada vez maior e serviam para tudo, inclusive para espectáculos. A sua utilização intensiva torna-se imprescindível para a subsistência da plutocracia romana.
Não se esqueça ainda da grande divisa do poder para entreter as massas ociosas: «dêem-lhes pão e circo».
Na Sicília, o celeiro de Roma onde era intenso o trabalho de escravo, foi o palco de duas grandes revoltas de escravos: a primeira cerca de 134 a 132 a.C.,chefiada por Enus ( de origem síria) e Cleon (da macedónia) conseguiu reunir uma força de 60.000 homens, e a segunda provavelmente de 104 a 101 a.C., dirigida pelo sírio Salvius e pelo macedónio Artenion, ambas esmagas a sangue pelas legiões romanas.
Sublinhe-se duas coisas. Primeiro, a aversão da plebe em relação aos escravos, isto é, a própria classe inferior da hierarquia romana alimentava rancor e ódio aos escravos; estes eram aos seus olhos, os estrangeiros, os estranhos que punham em xeque a ordem estabelecida e o seu estatuto plebeu. Segunda, a luta dos romanos contra os escravos era humilhante: combatê-los era rebaixar-se, uma vez que os escravos não eram homens, não tinham o estatuto humano para os cidadãos livres. E se era assim para os escravos, as coisas pioravam com os gladiadores, vistos como sub-escravos, pois eram treinados para o espectáculo com as bestas no recintos romanos.
Spartacus, de origem trácia, foi para Roma como prisioneiro de guerra e acabou por ser vendido ao proprietário de uma escola de gladiadores, onde se registou por volta de 73 a.C. a revolta e a fuga de vários gladiadores, entre os quais se contava Spartacus, Crixus e Oenamaus, estes últimos escravos celtas, para as encostas do Vesúvio, onde se instalaram, e para onde começaram a chegar escravos e plebeus que se juntavam aos rebeldes. E um pouco por todo o lado estalavam revoltas de escravos. O exército que Roma mandou sob as ordens do preto Claudius fora derrotado o que contribuiu para aumentar ainda mais o prestígio de Spartacus e que lhe permitiu reunir cerca de 120 a 200 mil homens, que não era propriamente um exército pois era muito diversos os grupos étnicos ( Gauleses, celtas, germânicos, trácios, etc) e os interesses que nele se reuniam. Uma legião enviada por Roma não teve melhor sorte, e os rebeldes conquistaram toda a Itália meridional. Logo, de seguida, e face à derrota dos romanos, Spartacus decide marchar para norte em direcção a Roma a fim de aproveitar a desorganização dos vencidos. As tropas romanas que encontrava foram derrotadas, o que permitiu Spartacus atingir Módena. Mas em vez de investir sobre Roma decidiu voltar para trás, ocupou Túrio e proclamou-o porto livre, elaborando aí leis que constituíam à época uma verdadeira revolução política, ao ponto de terem sido suprimidos o uso do ouro e da prata, e introduzido um estilo de vida simples, logo parecido com o dos espartanos, e muito diferente da organização social romana. Como não tiveram êxito as negociações com os piratas do Mediterrâneo, para os transportarem para a Sícilia, e como não conseguiram lançarem-se ao mar nas improvisadas jangadas construídas para o efeito, as gentes de Spartacus viram a breve trecho sitiadas pelas tropas romanas comandadas por Crassus que mais uma vez tinham sido enviadas para abafar a insurreição. Conseguiram desenvencilharem-se mais uma vez, mas as desuniões e decisões irreflectidas começaram a precipitar os acontecimentos e Spartacus acabou por ser derrotado ao fim de oito meses e outras tantas legiões. Os escravos insurrectos sobreviventes foram crucificados como Cristos por terem lutado pela sua liberdade.

(texto elaborado com base no artigo sobre Spartacus de Joaquim Palminha Silva, publicado no nº 170 da revista História, Novembro de 1993)

5.8.05

Breve história das armas radioactivas

no 60º aniversário do crime de Hiroshima


Breve resumo da história do armamento nuclear, onde se mostra como o planeta está sendo sujeito a uma radioactividade artificial com terríveis consequências para a saúde humana e todo o nosso património genético.

O texto, cujo autor é Alfredo Embid, foi publicado no nº22 ( Júlio-Agosto-Septiembre de 2005) da edição castelhana da revista The Ecologist.


A primeira proposta de utilizar armas radioactivas tem data de 30 de Outubro de 1943. Encontra-se num memorando secreto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, hoje desclassificado. Estava dirigido ao director do Projecto Mannhattan, general Leslie R. Groves, por 3 dos físicos mais importantes do projecto, Dr. James B. Conan, A.H. Compton e H.C. Urey, que apresentaram as suas recomendações enquanto membros do subcomité executivo S-1, sobre o «uso da materiais radioactivos como arma militar».
Propunham utilizar aerossóis de urânio na guerra contra a Alemanha nas zonas em que se pretendia que ficassem inabitáveis, assim como para dizimar as tropas inimigas. Reconheciam que as partículas atravessariam as máscaras anti-gás, além de irem contaminar o ar, a água e os alimentos. O documento referia-se ainda à toxicidade e afirmava que não haveria forma de eliminar, ou de tratar as doenças que provocaria.
As primeiras bombas atómicas foram o resultado do projecto secreto que recebeu o nome de Manhattan. Nele participaram empresas como Dupont, Westinghouse, Union Carbide, Tenesse Eastman, etc. O seu objectivo inicial, servir de arma de dissuasão ao nazismo, perdeu-se com a capitulação da Alemanha em 12 de Maio de 1945, mas a verdade é que o projecto prosseguiu.

Rendição Inicial

Em Junho de 1945, ao dia seguinte da queda de Okinawa, o imperador japonês pedia ao governo soviético para receber o princípe Konoye em Moscovo a fim de tratar da rendição incondicional do Japão. O próprio general McArthur reconhecia, à época, que «os japoneses estão exaustos, que o imperador do Japão pretende assinar um armistício e que o golpe final se poderia produzir num prazo de semanas por via de armas convencionais.»
Apesar do Japão se preparar para declarar a sua rendição incondicional, os Estados Unidos decidem lançar dois tipos de bombas atómicas:
- em 6 de Agosto sobre Hiroshima (uma bomba com urânio 235), provocando 200.000 vítimas
-em 9 de Agosto sobre Nagasaki ( uma bomba de plutónio) com 100.000 vítimas.

Existem 3 razões que explicam este comportamento criminoso, desnecessário, para ganhar uma guerra que, naquele momento, já estava ganha. Em primeiro lugar, servia para rentabilizar um projecto de havia custado dois biliões de dólares e que mobilizou 150.000. Em segundo lugar, para experimentar novos tipos de armas (por isso mesmo, foram lançados dois diferentes tipos de bombas). Em terceiro, servir de ameaça para os então «aliados» russos, assim como para todo o mundo.

O chefe dos serviços de Saúde norte-americanos declarou que os efeitos radiológicos da bomba desapareceriam após 24 horas, mas a verdade é que ainda hoje eles persistem!
Einstein qualificou a iniciativa de «suicídio cósmico»

Em 1946 iniciaram-se os ensaios nucleares norte-americanos nas ilhas Bikini.
A então recém-criada CEA (Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos) veio a público dizer que tal não era motivo de preocupação. Segundo eles, « a radioactividade era completamente inofensiva para as pessoas, pois ficaria localizada num zona e os resíduos seriam lançados para a estratosfera pela força da explosão e nela permaneceriam até se perder a sua perigosidade.»
Certamente que a explosão leva as partículas para a estratosfera…mas para estendê-las por todo o planeta. E quanto à perigosidade, ou seja, à radioactividade, essa perde-se ao cabo de um certo tempo…de milhões de anos.

Alguns dos mais prestigiados cientistas que trabalharam para a Comissão de Energia Atómica norte-americana, John FGofman, Karl Morgan, THomas Mancuso e Alice Stewart foram, inclusivamente, ameaçados, quando decidiram demonstrar que a agência governamental mentia, uma vez que as baixas doses de radiação não deixam de ser perigosas.

Bombas veneno

Em 1950 é anunciada a produção de bombas-veneno, explosivos convencionais com partículas radioactivas muito finas, o que constitui a continuação do projecto de 1943 e um antecedente das modernas armas radioactivas.
No dia 1 de Março de 1954, no Pacífico, realizou-se uma explosão de uma bomba de 15 megatoneladas de hidrógeneo, chamada Bravo, equivalente a 1.000 bombas de Hiroshima. Os habitantes das ilhas Bikini não foram evacuados, pelo que hoje em dia continuam a sofrer os seus efeitos, como demonstra um estudo que recentemente se publicou do Instituto Nacional do Cancro, onde se reconhece que os cancros duplicaram mais de 50 anos depois dos ensaios nucleares.
Em 1955 realiza-se em Genebra a primeira conferência mundial sobre «os átomos para a paz», propondo-se a produção de energia civil «barata» para alimentar a indústria militar, tal como tinha sido sugerido por Monsanto. As explosões militares passam a chamaram-se «explosões pacíficas».

Em 1957 é formada a Fundação da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) como extensão do lobby nuclear militar-industrial.
Em 1957 é assinado um acordo entre a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a AIEA, no qual a OMS se compromete a não fazer estudos, nem publicar relatórios ou conclusões sobre temas relacionados com a contaminação radioactiva sem o acordo (isto é, a autorização) da AIEA que, não contente com isto, impõe a presença de elementos da sua máxima confiança nos comissões da OMS.
Em 30 de Outubro de 1961 dá-se a mais poderosa explosão provocada pelo homem, equivalente a 3.000 bombas de Hiroshima.

Durante as décadas seguintes foram realizados testes e ensaios a céu aberto por vários países, entre os quais os Estados Unidos e a Rússia.
Curiosamente o clube dos países com armas nucleares era constituído, de início, por Estados Unidos, Grã-Bretanha, Rússia, França e China, que são também os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
A este sinistro grupo juntou-se-lhes mais tarde países como a Índia, o Paquistão, a África do Sul e Israel, não obstante este último nunca ter reconhecido que possuía este tipo de armas.
O país que, entretanto, renunciou às armas nucleares foi a África do Sul, que teve o mérito de as desmantelar, e que nem por isso foi alguma vez atacada, o que só demonstra como o desarmamento unilateral é possível.
Dos 511 ensaios nucleares realizados na atmosfera, estratosfera e debaixo da água foram libertados 100.000 quilos de plutónio 238,239, 240 e 241 entre os anos de 1945 e 1980.
Mas, na realidade, o número de testes e ensaios foi muito maior se tivermos em conta os ensaios subterrâneos. Calcula-se cerca de 2.055 o seu número total entre os anos de 1945 e 1998.
Note-se ainda que dos elementos libertados pelas explosões, o plutónio é apenas um deles.

Urânio empobrecido

O termo urânio empobrecido (UE) foi inventado pelo lobby militar-industrial a fim de sugerir que não é perigoso.
As munições levam cabeças radioactivas, que não são só de urânio empobrecido.
Só nos Estados Unidos o departamento de Energia reconhecia ter nos anos 90 um stock de 720.000 toneladas de UE armazenadas, sem saber muito bem o que fazer delas…a não ser reciclá-las em armamento ou para servir de contrapeso aos aviões.
Trata-se de um material muito duro, pelo que as munições que o utilizam acabam por se aguçar à medida que penetram nos objectivos para onde são lançadas.
Além disso, são altamente inflamáveis, originando temperaturas de 1.00 a 3.000 graus.
Em suma, uma autêntica maravilha para destruir tanques, bunkers e literalmente «queimarem» vivos os seus alvos humanos.
São conhecidos os casos de vítimas iraquianas que, pura e simplesmente, foram volatilizadas, dentro dos refúgios civis em Bagdad por efeito de bombas apetrechadas com urânio empobrecido.
Acontece que estas «maravilhosas» armas têm um pequeno problema: são radioactivas.
Após as explosões, transformam-se em aerossóis, em invisíveis partículas da ordem dos micra ( uma milésima de milímetro). Em projécteis relativamente pequenos, calcula-se que entre uns 40 a 70% do urânio se vaporiza. O resto converte-se em fragmentos que se corroem, libertando mais lentamente o urânio no meio envolvente. Mas nas bombas e mísseis 100% do urânio vaporiza-se com o impacto, o que pode significar 1,5 toneladas nas bombas maiores. O tamanho das partículas faz com que sejam respiráveis, e que seja impossível limpá-las. Pior ainda, que possam vogar no ar indefinidamente.

Máscaras, para quê?

A especialista em mineralogia Leuren Moret confirma que as máscaras não protegem os soldados uma vez que deixam passar as partículas mais finas de urânio. O intenso calor gerado converte-as em partículas cerâmicas insolúveis. Acumulam-se nos tecidos e excretam-se lentamente na urina ou permanecem para sempre no corpo. Emitem radiações alfa ( para além de radiações beta e gama) muito perigosas quando bombardeiam as células a partir de dentro dos tecidos.
Os efeitos nocivos desta irradiação interna já estão descritos no manual de protecção nuclear desde os anos 50 de autoria do comandante Maurice Eugene André, especialista do exército belga em guerra nuclear.
Foram, entretanto, publicados dezenas de trabalhos científicos posteriores que confirmam estes perigos para a saúde dos seres humanos. Realizaram-se testes destas armas desde os anos 70 em Porto Rico, Okinawa, Coreia do Sul, Grécia, Turquia, Canada, Inglaterra, Alemanha, França, Estados Unidos. Os primeiros testes destas armas de combate não foram feitos no Iraque em 1991, mas sim em 1973. o exército israelita utilizou secretamente armas com urânio empobrecido, fornecidas pelos Estados Unidos, na guerra do Sinai contra o Egipto, segundo o que afirma Frank Sauer, sargento do exército norte-americano e observador militar da ONU em Israel. Em 1974, o exército norte-americano reconheceu oficialmente que utilizava urânio empobrecido nas suas munições.
Em 1990 um relatório da Autoridade da Energia Atómica do Reino Unido (UKAEA) enviado ao governo britânico advertia:«Se 50 toneladas de poeira residual de UE ficarem na região do Iraque poderiam registar-se meio milhão de cancros adicionais até ao final do século (2000)».

Adeus ao tabu

Em 1991 o tabu da utilização de armas radioactivas foi definitivamente desmontado com o ataque ao Iraque. Reconheceu-se, oficialmente, o seu uso:
- nos aviões A10, conhecidos por «assassinos de carros»
-nos helicópteros Apache
-Tanques Abrahams M1
-Falanx CIWS e os M60 da Marinha
Assim como nos carros de outros países, tais como:
- nos A1MA ( da Grã-Bretanha)
-nos AMX10, e AMX30 ( da França)
Estas munições contêm como máximo 4,8 kg de UE ( nos tanques M1)
Recordemos que nada justificava a guerra, já que os iraquianos se mostraram dispostos a sair do Kuwait, e, no final, até saíam incondicionalmente. Mas, tal como em Hiroshima, havia que testar as novas armas. As quantidades de UE utilizadas no Iraque vão das 325 toneladas admitidas pelo Pentágono …às 900 toneladas, segundo a opinião de alguns cientistas. Posteriormente, os fabricantes de armas promoveram-nas graças às imagens da guerra conseguindo vendê-las a, pelo menos, 29 países.
O Dr. Gunther, presidente da associação humanitária da Cruz Amarela e ex-colaborador do Prémio Nobel da Paz Albert Sweitzer, teve o mérito de ter sido o primeiro a alertar sobre os perigos das munições designadas falsamente de urânio empobrecido. Por isso é que foi detido. O crime de que foi acusado era o de ter enviado para a Alemanha um par de casquilhos dos milhares com que as crianças iraquianas brincavam. Quando me encontrei com ele no Congresso de Hamburgo, Gunther padecia de cancro mas não desistia de lutar, denunciando aqueles crimes durante a Conferência. Em 1992, a pedido do ex-procurador e ex-ministro de Justiça dos Estados Unidos, Ramsey Clark, formou-se um tribunal que condenou os principais políticos e militares responsáveis pela Guerra do Golfo de 1991 por crimes de guerra contra a Humanidade.

Sem informações sobre os riscos

Todos os militares afectados, que conheci, coincidem que não receberam informações sobre os riscos que corriam. Foi o caso, por exemplo, de Hervé Desplats do exército francês, como a sargento-enfermeira do exército norte-americano Carol Picou que costumava conduzir um camião-hospital; como o oficial-médico britânico Ray Bristow que nem sequer pôs os pés no Iraque; como o comandante Doug Rokke, que foi encarregado de retirar do Iraque os veículos atingidos por «tiros amigos», e cujos resultados de análises lhe foram ocultados durante dois anos…
- em 1993 utilizaram-se armas radioactivas na Somália segundo o Centro da Informação berlinense para a Segurança Transatlântica, BITS. Um telex de Washington aos médicos militares norte-americanos alertava-los para o facto
- em 1994 utilizaram-se na Bósnia, Jugoslávia, mas ainda não foi reconhecido o seu uso
- em 1996 foi votada uma resolução por uma comissão da ONU durante a sua sessão nº 48, condenando o uso de armas com urânio empobrecido.
- em 1999 no Kosovo, utilizaram-se 34 toneladas de urânio, disparadas fundamentalmente por aviões A-10, apesar de tal uso não ser oficialmente reconhecido.

Baixas depois da guerra

Nos finais de 1999 começaram a morrer soldados espanhóis que tinham estado na Jugoslávia. Durante os anos seguintes à Guerra do Golfo as provas dos veteranos daquela guerra foram sistematicamente falsificadas. Aos militares doentes era-lhes diagnosticada stress pós-traumático. Os médicos utilizavam métodos fraudulentos para ocultar e não reconhecer que os soldados tinham sido contaminados.
Mas no fim do século passado os soldados afectados pelo Síndroma do Golfo ascendiam a cerca de 250.000. dos quais mais de 11.000 já tinham morrido.
Isto contrastava com a rápida vitória com que se pretendia neutralizar o «síndroma do Vietname»:só tinha havido uma centena de baixas sobre os 700.000 militares envolvidos nas operações.
Para além disso, houve também contaminação da mulheres, uma vez que o urânio também se elimina por via do esperma, produzindo um ardor referido por muitas delas.
E a contaminação estendeu-se aos próprios filhos: um estudo do Governo norte-americano sobre 251 veteranos…informou que 67% apresentavam graves enfermidades ou anomalias congénitas.: ausência de olhos, orelhas, órgãos, más formações e outras disfunções. Noutros estudos demonstrou-se que os veteranos da Guerra do Golfo tinham dois a três vezes mais filhos com deformidades. Por sua vez os estudos do professor de Bioquímica alemão Albrecht Schott acerca dos veteranos das guerras do Golfo, Bósnia e Kosovo… mostrava, que tinham 14 vezes mais anormalidades nos seus cromossomas.
O coronel Asaf Durakovic, doutor em medicina e especialista do Pentágono em contaminação radioactiva, fez o que, como médico, outros colegas não fizeram por estarem obrigados a minimizar o Síndroma do Golfo: atendeu os soldados veteranos, apesar das ameaças de que foi objecto. Assim detectou a presença de radioactividade na urina 9 anos depois do doente ter estado exposto. Mais: detectou U236 na urina e nos órgão dos veteranos da Guerra do Golfo. Trata-se de uma prova inquestionável que as munições utilizadas não continham só urânio empobrecido, já que o urânio 236 não faz parte do urânio empobrecido. Foi ameaçado, sofreu vexames e atentados e acabou por ser expulso do exército, mas, felizmente, criou o Centro de Investigação do Urânio (UMC), e em 26 de Outubro de 2000 apresentou os seus trabalhos e conclusões em Bruxelas.
Em 2001,mais de 40 países tinham munições radioactivas nos seus arsenais. Em 17 de Janeiro de 2001 o Parlamento Europeu votou uma resolução para aprovar uma moratória respeitante às armas de urânio empobrecido. 394 deputados votaram a favor, 60 contra e 106 abstiveram-se. Em Janeiro de 2001 encontrou-se U236no sul do Iraque, 10 anos depois de acabado o primeiro conflito. Em 18 de Janeiro de 2001 o programa da cadeia ARD da TV pública alemã revelou que se havia encontrado plutónio no Kosovo, o demonstra mais uma vez que se usava urânio empobrecido nas munições. O fraudulento atentado de 11 de Setembro de 2001 foi a desculpa para o início de novas guerras radioactivas. Em Outubro começa a guerra contra o Afeganistão ocultando a natureza das munições que estavam a ser utilizadas, ao mesmo que se intoxicava a população com a fraudulenta epidemia de anthráx nos Estados Unidos. E as campanhas prosseguiram em Dezembro. Ao mesmo tempo que nos distraiam com o fraudulento vídeo de Bin Laden, os Estados Unidos saiam unilateralmente do Tratado de Anti- mísseis Balísticos que sempre garantia alguma contenção no uso de armas nucleares desde que fora assinado em 1972 com a ex-URSS.

Sem reconhecimento…

No Afeganistão nunca se reconheceu que se tivesse utilizado o urânio empobrecido. Na Conferência de Praga subordinado ao tema «os factos sobre urânio empobrecido» de 24 e 25 de Novembro de 2001, o investigador Dali Williams apresentou provas de que muito provavelmente se utilizaram mísseis e bomba de grande tonelagem com urânio no Afeganistão. Termos como munições penetrantes, com cabeça munidas de «metal denso» escondem que são munições radioactivas. Em Janeiro de 2002 Rumsfeld admitiu por fim que havia contaminação radioactiva no Afeganistão, mas lançou as culpas para os talibãs, apesar de toda agente saber que não tinham meios para isso. Em Março de 2002 um relatório convencional do programa ambiental das Nações Unidas detectou partículas de plutónio, U236, na Sérvia e Montenegro, reconhecendo que continuava a existir contaminação radioactiva no ar anos depois da guerra na Jugoslávia.
Em Março de 2002 realizou-se em Bagdad um congresso sobre as consequ<~encias da guerra e do embargo ao Iraque. Numerosos trabalhos que foram disponibilizados pela pediatra Collette Moulaert, da Associação belga Médicos para o Terceiro Mundo, demonstravam o aumento de mortes, especialmente de crianças, por doenças malignas, imunitárias e más-formações congénitas.
Em Dezembro de 2002 um primeiro trabalho feito no terreno do UMRC, dirigido pelo coronel Assaf Durakovic, detectava no Afeganistão vapores importantes de radioactividade. Em 2003, sucessivas missões do UMRC, com base em amostras de urina, terra e água…encontraram altíssimos níveis de radioactividade e a presença de U236 em todas as amostras recolhidas naquele país.
No ano de 203 um grupo de 30 cientistas do mais alto nível publicam um importante trabalho sobre os efeitos das baixas doses de radiação e denunciam as insuficiências e os erros dos estudos oficiais num relatório científico muito crítico.
Apesar das massivas manifestações de protesto, os Estados Unidos voltaram a atacar o Iraque em 2003 . Desta vez a contaminação foi muito mais grave por vários motivos: diferentemente da primeira guerra, onde as batalhas se deram no deserto, aqui as munições radioactivas foram despejadas também nos perímetros urbanos. Foram também usadas munições radioactivas nos mísseis como se pode observar no impacte do bombardeamento à TV iraquiana segundo as análises feitas. Nesta guerra de 2003 estima-se que se utilizaram 2.200 toneladas de material radioactivo.

O Vírus da Babilónia

No Verão de 2003 os soldados norte-americanos começaram a padecer de doenças estranhas e a morrer. Atribuiu-se inicialmente a um pretenso vírus da Babilónia. Nalguns, depois de terem sido declarados indemnes de contaminação radioactiva, veio-se a encontrar a radioactividade na urina mediante investigações independentes.
Em Outubro de 2003 o autor deste texto participou na Conferência de Hamburgo sobre as armas de urânio. Particularmente impressionantes foram as intervenções dos médicos iraquianos Dra Jenan Hassan e Dr. Jawad Al Ali, que apresentaram as suas arrepiantes estatísticas que demonstram aumentos exponenciais de cancro e más-formações com abundantes provas gráficas. Nos finais de 2003 os soldados USA repatriados por enfermidade e causas não ligadas aos combates ascendiam a 20.000. Em Dezembro de 2004 realizou-se em Tóquio a última sessão do tribunal popular internacional sobre crimes de guerra no Afeganistão onde os Estados Unidos foram condenados. Em Fevereiro de 2004 o Dr. Keith Baverstock, especialista em radioactividade da OMS, director do relatório sobre contaminação no Iraque na primeira guerra, revelou,10 anos depois, que a OMS tinha censurado o seu trabalho, e denunciou a sua dependência à AIEA e advertiu dos riscos para as gerações futuras. Em Agosto de 2004 celebrou-se em Nova Iorque o tribunal popular presidido pelo ex-procurador geral do estado e ex-ministro de Justiça, Ramsey Clark, contra a administração Bush por crimes de guerra no Iraque, assim como por crimes contra a Humanidade. Nos finais de 2004, dois estudos do UMRC sobre a terra, a água e as pessoas no Iraque demonstram mais uma vez que as armas utilizadas não eram só urânio empobrecido.
À contaminação radioactiva das novas armas há que somar a contaminação dos ensaios nucleares, e ainda a das centrais nucleares civis.

Todos nós devemos estar conscientes que o lobby militar-industrial continua a contaminar-nos radioactivamente desde há 60 anos. Continuam também a ocultar-nos, com a cumplicidade dos organismos sanitários, que uma das principais causas do aumento das doenças como o cancro, alterações imunitárias e outras… é nada mais que a radioactividade artificial. Continuam a deteriorar impunemente o nosso património genético de forma irreversível e para sempre, com o conluio dos meios de comunicação. Espero que não com a tua, amigo leitor.

Alfred Embid

Texto publicado no nº22 ( Júlio-Agosto-Septiembre de 2005) da edição castelhana da revista The Ecologist

O nascimento do puro terror

(reprodução de um artigo publicado na edição de 5 de Agosto de 2005 do jornal britânico The Guardian. O seu autor é Geoffrey Wheatcroft)

The birth of 'mere terror'


Hiroshima wasn't uniquely wicked. It was part of a policy for the mass killing of civilians At the time, there was little immediate sense that something utterly extraordinary had happened, or that life had changed for ever. After August 6 1945, popular newspapers wrote half nervously and half exultantly about the coming of the "atomic age", but the most widespread reaction was mere thankfulness that the war was over.
It was argued then, and still sometimes is, that the bombing of Hiroshima 60 years ago tomorrow, and of Nagasaki three days later, was justified by the Japanese surrender, obviating the need for an invasion of Japan which would have meant huge casualties. That may not even be true, though the debate among military historians remains unresolved.
By the summer of 1945, Japan was already prostrate. Not only were Japanese armies being driven out of the Pacific islands and Burma, American bombers were wrecking the cities of Japan and, in one of the most successful campaigns of the whole war, submarines of the US navy had done to Japan what German U-boats had never managed to do to England, by completely destroying its shipping. Some American admirals believed then and ever after that surrender was a matter of time, and not much of it, and a strong suspicion persists of an ulterior motive by Washington, wanting to end the war with Japan quickly before Soviet Russia joined in.
In any case, that argument begs the profoundest questions of ends and means. In the shadow of the mushroom cloud, few people addressed them, or grasped the enormity of what had been done. Two who did were very remarkable men writing from entirely disparate perspectives: Dwight Macdonald, an American radical atheist, and Monsignor Ronald Knox, a conservative English Catholic.
Once an active Trotskyist, Macdonald was evolving from revolutionary socialism to pacifist anarchism, as reflected in Politics, the brilliant magazine he published from 1944 to 1949. His response to the news from Hiroshima was unequivocal. "This atrocious action places 'us', the defenders of civilisation, on a moral level with 'them', the beasts of Maidanek. And 'we', the American people, are just as much and as little responsible for this horror as 'they', the German people."
After the two cities were destroyed, Knox was about to propose a public declaration that the weapon would not be used again, when he heard the news of the Japanese surrender. Instead he sat down and wrote God and the Atom, an astonishing book, neglected at the time and since, but as important for sceptics as for Christians.
An outrage had been committed in human and divine terms, Knox thought. Hiroshima was an assault on faith, because the splitting of the atom itself meant "an indeterminate element in the heart of things"; on hope, because "the possibilities of evil are increased by an increase in the possibilities of destruction"; and on charity, because - this answers those who still defend the bombing of Hiroshima - "men fighting for a good case have taken, at one particular moment of decision, the easier, not the nobler path".

That was finely put, by both writers, but there was more to it: should Hiroshima really be seen as uniquely wicked or cataclysmic? However horrific, it may be that it was not so very different in degree, or even in kind, from what had gone before.

In 1939 the British government had entered the war with high protestations of virtue. Neville Chamberlain told parliament: "Whatever be the lengths to which others may go, His Majesty's government will never resort to the deliberate attack on women and children, and on other civilians for the purposes of mere terrorism." By the end of the war, the British had resorted to enough "mere terrorism" to destroy most of the cities of Germany and many of their inhabitants, 100,000 of them children.

This grew out of the exigencies of war and was one of those changes that take place without anyone's really reflecting, or even noticing. And yet it was an immense development. If you had told any Englishman a hundred years ago - not only a pacifist but an army officer - that before the century was out warfare would largely consist of killing civilians, he would have thought you were insane.

But that was what happened. During the recent Kosovo "war", a French officer asked bitterly if this was to be the first war in history in which only civilians were killed, and yet we had long since begun to go down just that road. It is sobering to compare the 300,000 British uniformed servicemen who died in 1939-45 with the 600,000 German civilians killed.

Making war on civilians took a further turn in the Far East, and not only because of the Japanese army's own atrocities towards conquered peoples. Before August 1945, very many Japanese had already been killed by "conventional" bombing. On one night in Tokyo in March, American bombers killed 85,000 civilians - more than would die at Nagasaki - and at least 300,000 were incinerated in great fire raids over the following months.

And so it was that, as Evelyn Waugh put it when writing about Knox's book in 1948: "To the practical warrior the atom bomb presented no particular moral or spiritual problem. We were engaged in destroying the enemy, civilians and combatants alike. We always assumed that destruction was roughly proportionate to the labour and material expended. Whether it was more convenient to destroy a city with one bomb or a hundred thousand depended on the relative costs of production." Hiroshima was but one more step.

However noble Macdonald and Knox's may now seem, it is only fair to point out that one was a conscientious objector living in New York and the other a priest living in a country house in Shropshire.

Their consciences might not have been so acute if they had been in uniform, fighting or about to fight against Japan. To put it in personal family terms, apart from one uncle I never knew who had been killed in Bomber Command (and for all Macdonald's rhetorical flourish, I don't think that he, or even the crew of Enola Gay, were war criminals to be compared to death camp guards); two other uncles had recently been released from German prison camps; and my father, a Fleet Air Arm pilot, was training a new squadron destined for the Japanese war where he had already served. I have never asked any of them, but I imagine that their immediate reaction to the news that August was pure relief. I imagine mine would have been in their place.

Where Macdonald was surely right was to say that nuclear weapons - or what President Harry Truman called "the greatest achievement of organised science in history" - had rendered obsolete the very concept of material, scientific "progress". As the great and heroic Simone Weil had said before her death two years earlier, the evil in modern war was now the technical aspect itself rather than political factors. Everything that has happened since has only confirmed that truth.

Geoffrey Wheatcroft's most recent book is The Strange Death of Tory England


Os Estados Unidos têm, fora do seu território, 70.000 pessoas presas



Os Estados Unidos mantêm cerca de 70.000 pessoas presas fora do seu território, acabou de denunciar a Amnistia Internacional que garante que a prisão de Guantánamo não é mais que a ponta do iceberg.
No seu relatório, a AI divulga, em pormenor, os casos de Salah Nasser Salim Ali e de Muhammad Faraj Ahmed Basmillah, dois iemenitas residentes na Indonésia. Em 2003, foram detidos pelos Estados Unidos e mantidos numa prisão secreta na Jordânia durante 18 meses. A AI assinala que, durante esse tempo, os detidos estiveram acorrentados, sem ver a luz solar e sem poder contactar familiares e advogados. Ambos relataram como foram torturados durante 4 dias por agentes secretos jordanos, antes de serem enviados, de avião, para uma prisão subterrânea, onde ficaram durante 6 meses. A seguir foram transferidos para um centro penitenciário gerido por oficiais norte-americanos e onde tinham que ouvir música ocidental durante 24 horas seguidas. Foram, então, interrogados por norte-americanos.
Face aos elementos recolhidos a AI conclui que os Estados Unidos estão a usar «técnicas psicológicas para obter informação»
Não suficiente com tudo isto, aqueles iemenitas acabaram por ser entregues às autoridades do Iémen com a condição de ficarem presos, mesmo sem qualquer acusação.

Fonte: JN de 4/8/2005

4.8.05

Ode à Liberdade

Quero-te, como quero ao ar e à luz
Porque não sou a ovelha do rebanho,
Nem vendi ao pastor a alma e a grei;
E onde não haja mais do que o redil,
És tua a minha pátria e a minha Lei.

Leva-me onde as estradas me pertençam.
Porque as vozes viris que me conduzem
Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;
Porque eu não temo as livres solidões,
Onde habitam os ventos e as estrelas.

Leva-me ao teu sopro, éter divino,
Porque me queima a sede das alturas
E o meu amor se oferece sem limite;
E és tu que abres as asas aos condores,
É tu que ergues os astros ao zénite.

Toma-se nas tuas mãos de Sagitário,
Faze de mim o arco retesado
Pelo teu braço e a tua força inquieta,
Pois, quando o meu desejo atinge o alvo,
És tu o impulso que dispara a seta.

É lá, sempre mais longe, além do Outono,
Nos limites do mundo conhecido,
Em plena selva e onde há que abrir a senda,
Que eu quero devorar os frutos novos
E erguer à beira de água a minha tenda

Torna-me ágil e ardente, alma do Fogo,
Porque tu és a inspiradora inquieta
Dos bailados da morte e da alegria;
E eu prefiro ao aprisco a vida heróica,
A que devora o ser, mas alumia.

Queima-me, embora custes, quando negas,
Quer o ódio fanático dos bonzos,
Quer o ciúme vil dos fariseus.
Sou dos que amam demais a Divindade
Para poder acreditar num deus

Não és a flor da beira do caminho.
Bem sei que é preciso conquistar-te
A cada novo dia e duro preço.
Por ti tenho sofrido quantos os homens
Podem sofrer. Por isso te mereço.

Por ti sofri os transes da agonia,
Desde a fome da alma no deserto
Ao pão que, por amargo, se recusa.
E, náufrago da grande tempestade,
Cá vou sobre a Jangada da Medusa!

Gerou-te, lentamente, com revolta
E dor, a consciência dos escravos;
Renasces mais perfeita a cada idade;
E, sempre, com as dores cruéis do parto,
Dá-te de novo à luz a Humanidade.

Querem mãos assassinas sufocar-te
Nas entranhas maternas. Mas em vão.
Virás como a torrente desprendida,
Porque és o sopro e a lei da Criação
E não há força que detenha a Vida

Autor: Jaime Cortesão (1884-1960)

John Hersey, repórter em Hiroshima


Coube a John Hersey (1914-1993), jornalista e escritor norte-americano, fazer a reportagem mais pungente das consequências da explosão da bomba atómica em Hiroshima que veio a ser publicada em 1946 no New Yorker e que teve um enorme impacte pelo realismo e como testemunho humano daquele acontecimento.

John Hersey foi correspondente de guerra das revistas Time e Life, tendo os seus artigos uma larga aceitação que lhe valeu, de resto, vários prémios no campo do jornalismo e da literatura. Destacou-se também como pacifista e uma concepção humanista contra a arrogância da tecnologia. Mas o seu trabalho escrito mais contundente foi, sem dúvida, sobre Hiroshima, aonde chegou na Primavera de 1946, e que foi publicado pela primeira vez no New Yorker, mas que foi rapidamente reproduzido por várias publicações tal era a força documental do texto.

Essa reportagem está editada em português sob o título «Hiroshima», nas edições Antígona.
O livro inclui ainda um capítulo posterior escrito pelo próprio John Hersey, cronologia, e um comentário assinado por Júlio Henriques.

Padre nosso nuclear

O Senhor teve pena do seu servo
E ele rezou, agradeceu
Com um rosário de electrões muito bonitos nos seus círculos,
Ave-Marias em eclipse:
Padre nosso que estais nos céus
E nos deste o escudo do ozone
E o fósforo nas ondas domar
E em nós a água e o carbone

O Senhor teve pena do seu servo
E guiou a mão de Becquerel
E pôs um raminho de polónio
Ao peito de Madame Curie,
Mas veio o Diabo e queimou tudo
Num cogumelo venenoso
E imitou o chumbo no plutónio
Em honra de Plutão, já se vê…
Cobrem-se todos com a mesma manta,
O Diabo atómico pinta a manta.

Padre nosso que estais nos céus,
Diz o servo de Deus molecular,
Seja feira a vossa vontade
No computador e no radar,
Na ribose entre as proteínas,
No café sem açúcar da manhã

Sem planta nem margarinas
Quando os pobres se erguem da enxerga
Para a serapilheira dos sacos
Dizendo à vida: Rai’s te parto!
Mas Deus perdoa a quem tem o ozone
E o bem-aventurado de Franklin
Ousado no tecto dos ricos
Como a cegonha nas almearas.
Qual raio! O quê! Se esta manhã
Os Carregadores de Pernambuco
Têm uma partida a despachar,
E quem é que há-de alombar
Se um raio mesmo os fulminar?

Padre nosso que estais nos céus…
O meu rosário é tão bonito
Com os seus bugalhos de França
E a Ave-Maria da Polónia,
Rezado nos encontros Solvay:
Pai Nosso, diz Niels em Copenhagen
Para dizer Amen em Cavendish,
Santa Maria da Polónia
Já Notre Dame no Pasteur:
Tudo terras cristãs como Portugal, oh douler!


Autor: Vitorino Nemésio (1901-1978)

3.8.05

Chegamos ao último estádio da selvajaria ( editorial de Camus em 8/8/45)



Nos dias seguintes ao lançamento da bomba atómica sobre Hiroxima, e no meio do coro e estupefacção dos bobos habituais da corte, só uma voz se levantou contra a carnificina em que se tinha transformado o mundo moderno. Essa voz foi Albert Camus, que escreveu, pelo seu próprio punho, logo o editorial do dia 8 de Agosto de 1945 do jornal Combat, para onde trabalha e escrevia.
É esse texto que reproduzimos em tradução para português
:

O último estádio da selvajaria

O mundo é o que é, isto é, pouca coisa. É o que se conclui desde ontem depois da formidável concertação orquestrada pela rádio, jornais e agências de informação a propósito da bomba atómica. Ficamos a saber, no meio de comentários entusiastas, que qualquer cidade pode ser completamente arrasada por uma bomba do tamanho de uma bola de futebol. Os jornais americanos, ingleses e franceses não hesitam em dissertar sobre o futuro, o passado, os inventores, os custos, a vocação pacífica e os efeitos para as guerras, as consequências políticas e até o carácter independente da bomba atómica. Nós preferimos resumir tudo isso numa só frase: a civilização mecânica acaba de alcançar o último estádio da selvajaria. Iremos ter de escolher, num futuro mais ou menos próximo, entre o suicídio colectivo ou a utilização inteligente das conquistas científicas.
É-nos permitido pensar que há qualquer coisa de indecente quando se celebra uma descoberta que está ao serviço da mais formidável força de destruição que o homem alguma vez deu mostras. Num mundo entregue à mais destruidora violência, incapaz de qualquer controle, indiferente à justiça e à simples felicidade dos homens, ninguém se espanta, salvo por idealismo impenitente, da ciência se consagrar ao assassínio colectivo.
Estas descobertas devem registadas, comentadas tal como elas são, anunciadas ao mundo para que o homem tenha uma justa ideia do seu destino. Mas acompanhar estas terríveis revelações por uma literatura pitoresca ou humorística é, simplesmente, insuportável.
Já não se respirava lá muito bem neste mundo torturado. Temos agora uma nova angústia, que nos é proposta, e que tudo indica ser definitiva. Oferece-se à humanidade, sem dúvida, a sua última oportunidade. E isso bem pode ser o pretexto para uma edição especial. Mas poderia antes servir de motivo para alguma reflexão e muito silêncio.
Existem, de resto, outras razões para acolher com reservas a antecipação do romance que os jornais nos propõem. Quando vemos o redactor diplomático da Agência Reuter a anunciar que ficam caducos os tratados ou ultrapassadas as decisões que foram adoptadas em Postdam, salientar que é indiferente que os russos estejam em Koenigsberg ou a Turquia nas Dardanellas, não podemos deixar de desconfiar deste belo concerto de boas intenções, tão estranhas elas se mostram face à imparcialidade da ciência.
Entendamo-nos. Se os japoneses capitularem depois da destruição de Hiroxima por efeito da intimidação, não deixaremos de nos regozijar. Mas perante uma notícia tão grave como essa, recusamos a tirar outra conclusão que não seja a necessidade de lutar energicamente a favor de uma verdadeira sociedade internacional em que as grandes potências não tenham direitos superiores aos das pequenas e médias nações, e em que a guerra, calamidade tornada definitiva por efeito da inteligência humana, não dependa mais dos apetites ou das doutrinas de um ou de outro Estado.
Face às perspectivas terríveis que se abrem à humanidade apercebemo-nos melhor como a paz é o único combate que vale a pena travar. Não se trata de um pedido, mas de uma ordem que os povos devem dirigir aos seus governos, a ordem de escolher definitivamente entre o inferno e a razão.
.
Albert Camus, em editorial ( sem título) publicado no jornal Combat de 8 de Agosto de 1945.

O mito de Sísifo e a revolta como justificação da existência humana (Camus)


Será que a vida, por mais absurda que seja, vale a pena ser vivida? Esta é a questão que o mito de Sísifo nos coloca, e que o filósofo e escritor Albert Camus (1913-1960) retomou para mostrar que a revolta é a base e a justificação para a existência humana.


O mito de Sísifo tem algo a ver com o desespero. Mas Albert Camus deu do mito uma leitura luminosa em 1942 com a sua conhecida obra que reactualização o mito. Nela o filósofo fala-nos desse absurdo que nasce da consciência do carácter maquinal da nossa vida, e que estamos condenados a recomeçar sempre do início, ou quase.
Casa-trabalho e trabalho-casa eis a nossa rotina e a nossa miserável vida, um martírio que parece não ter fim. E, não obstante, essas aparências, Camus clama bem alto que a vida vale a pena ser vivida. No seu Sísifo ele mistura a consciência lúcida do fardo que estamos condenados a carregar com uma atitude de orgulho: « Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhecedor de toda a sua condição miserável, não deixa de pensar nela e a sua clarividência, se é um tormento, é também a sua vitória.»
Para Camus o homem ultrapassa o absurdo do seu miserável destino por via da sua lucidez, da consciencialização e revolta contra a sua condição.
«Sentir a vida, sentir a revolta é viver o máximo possível», escreve ele.
Nesse momento, Sísifo volta a ser o senhor da vida, esta deixa de ser o retrato do desespero para se tornar no desafio humano, na maior grandeza que um homem pode viver: revoltar-se.


História do mito

Sísifo foi castigado por Zeus a permanecer nos Infernos (Hades) para sempre a tentar rolar uma enorme rocha por uma encosta acima mas que acabava sempre por cair sobre ele e voltar ao ponto de partida, de forma que os trabalhos recomeçavam indefinidamente. O castigo aplicado devera-se a várias faltas imputadas a Sísifo. Segundo Homero ele fora condenado à Morte porque simplesmente amava demasiado a vida, o que lhe valera as iras dos deuses que o condenariam a um trabalho inútil nos Infernos.

A criatividade artística e a poiêsis


Tradução para português de um texto introdutório ao nº 11 da revista Réfractions dedicado ao tema da criatividade e da poiêsis, sob o título de

Criatividade, inventividade, poiêsis

«O Homem é um trabalhador, isto é, criador e poeta»
(L´homme est un travailleur, c’est-à-dire créateur et poète)
Proudhon

«A poesia deve ser feita por todos»
(La poesie doit être faite par tous)
Lautréamont


O nosso propósito não é fazer uma crítica da arte e dos artistas, até porque outros, antes de nós, já o fizeram (os dadaístas, surrealistas, situacionistas,etc).
Procuramos simplesmente re-colocar o «fazer» dos artistas no campo geral da criatividade e da inventividade sociais, enfim, no «fazer» ( a poiêsis) que é própria de cada indivíduo.
Afirmamos que todo o ser humano traz em si um pensamento inventivo, um imaginário, um potencial de criatividade, que é variável conforme as pessoas, mas que é aniquilado, esmagado, esterilizado quando se constroem estatutos particulares de fechamento, isto é, quando se encerra um inventor numa qualquer especialidade.
O campo social, para nós, deverá ser o lugar por excelência da actividade do imaginário. De tal modo que a nossa vida possa inventar-se a si própria no dia-a-dia, por ocasião de um qualquer encontro, mesmo quando fazemos amor; e que ela pode elevar-se à altura de uma obra de arte por um trabalho sobre si. Diremos com Fernand Pelloutier que pretendemos ser «amantes apaixonados da própria cultura».
A nossa crítica dirige-se à separação, similarmente à fragmentação das tarefas do trabalho em cadeia, e isso em relação a qualquer obra, qualquer que ela seja.
Da mesma maneira que criticamos o trabalho quando é assalariado, assim também criticamos a arte quando ela é mercantil, para podermos privilegiar a actividade gratuita e generosa. Dir-nos-ão que «é preciso viver». Sim, sem dúvida, mas não de qualquer maneira. Será que viver é embrutecer-se num trabalho imbecil em troca da integração medíocre e precária na sociedade do capital? Nem sequer o ter sucesso pode satisfazer a nossa razão de viver.
Viver da sua arte, da sua caneta, das suas traduções ou do seu saber em tal ou tal actividade pode-se discutir.
A profissão de carrasco, mesmo quando este se mostrar hábil, não é odiosa? E quanto ao cientista, quando ele participa em obras de destruição? E que dizer do ofício de político, profissional do poder e das falsas promessas?
Ao invés, é dificilmente contestável colocar em causa a necessidade da prática profissional do médico, do bombeiro, do arquitecto; e é certamente impossível chegar à unanimidade quanto ao valor de uma obra de arte. E quanto à utilidade social dela, o que dizer?
O operário, e os artesãos, serão mais ou menos competentes e eficazes; mas apreciar uma produção artística releva da subjectividade de cada um e da sua cultura.
Importa, pois, não limitar a criatividade à arte nem opor a arte à vida quotidiana, ao trabalho e a toda actividade social; isso seria aceitar a separação, se bem que, na sociedade actual, o trabalho é essencialmente alienante e não favorece em nada a criatividade.
Esta separação, que é possível verificar, não é senão uma consequência do estado actual da sociedade hierarquizada e injusta como é a nossa, e que queremos revolucionar, mas que o capitalismo sabe gerir melhor que ninguém, contrariando as nossas lutas. Apesar da criatividade e a inventividade estarem submersas em todo o lado e prestes a explodir na cara do capital e do Estado, estes estão sempre prontos a desviá-las, pervertê-las e a canalizá-las em seu proveito. O operário, do nível mais baixo da escala social, que saiba economizar a sua força e que saiba inventar uma melhor maneira de fazer, verá rapidamente o seu gesto recuperado pelo capital.
Aliás, a separação reenvia-nos ao individualismo quando cada um fica separado dos outros ( logo, vulnerável a toda a manipulação do poder).
Cercado, paralisado, asfixiado, desapropriado ou somente anestesiado, o imaginário, se não estiver completamente morto, pode sempre renascer e libertar-se a todo o momento. A explosão social surpreendeu já por várias vezes os seres mais prevenidos e cautos.
No campo social invadido pelo desespero e enfado emerge de forma abrupta e imprevista movimentos de revolta que ninguém esperava; beneficiando de algum vazio efémero do Estado, de uma crise que paralisa os nós do poder, de uma brecha aberta, uma capacidade organizativa levanta-se e mostra todas as suas potencialidades. A imaginação toma então o poder, segundo a conhecida expressão de Maio 68.
O imaginário pode tomar os caminhos mais inesperados. Assim acontece com o frenesim criativo os artistas da arte dita «bruta» que se lançam de corpo perdido nas realizações mais estranhas, ou quando, nos hospitais psiquiátricos, os doente se esquecem de tomar os medicamentos e começam a desenvolver actividades «artísticas» que não estão limitadas ao ganha pão do dia-a-dia.
O projecto anarquista de uma sociedade traz em si a recusa dessa separação: cabe a nós abolir o que esteriliza o pensamento e apouca os homens e as mulheres.
Se é mais valorizado ser o orador que escutamos do que aquele que vai limpar a sala; e ainda que o ego do artista se satisfaça com os aplausos e as encomendas, o anarquista, porque traz em si um novo mundo, não pode pactuar com esta repartição de papéis, como se fosse para a eternidade ( Conferir a tripartição de Dumézil).
O que queremos pois fortalecer é a inventividade, a criatividade, o «fazer», a obra, a poiêsis, que se manifestam não só naquilo que se convencionou chamar artes plásticas, como a pintura, escultura, música, canto e teatro, mas em todos os actos da vida quotidiana, mesmo no nível produtivo ( na actividade humana que alguns identificam com o trabalho) e até ao nível da sociabilidade do ser humano. Também aí se pode manifestar a inventividade.
São designados de artistas todos aqueles que, no tempo presente, conseguem viver da sua arte. Todos os outros são lançados para a categoria de «malditos».
A utilidade social do artista não está aqui em questão. A arte não deve «servir» nenhuma ideologia ou poder: se assim fosse estaria a negar a sua liberdade absoluta. Porque a arte é actividade libertária por excelência; é uma pura procura, que aparentemente parece inútil; é uma janela aberta sobre o desconhecido, uma aventura, um descobrimento…
Os artistas, outrora anónimos, confundiam-se com os artesãos, mas acabaram, por ganhar autonomia, o que cavou um fosso entre eles e o resto da sociedade. A especialização instala-se aqui, tal como no resto da sociedade. Logo a seguir a sua produção passa a ser reconhecida como mercadoria mais do que um simples jogo gratuito e expressão do prazer do indivíduo…
Criticamos pois as noções de arte e de artista na medida em que representam actividades que separam e que trazem nelas aquilo que criticamos ao capitalismo, o que leva à valorização exagerada dos criadores, e subsequente desvalorização para os que observam, que ouvem e lêem, em suma, os que consomem as produções «artísticas» ou «literárias» e que se julgam incapazes, impotentes, ou então, pouco hábeis, para se expressarem intelectual e plasticamente.
Não se trata, no entanto, de preconizar um igualitarismo primário de qualidades. Não contestámos que existam indivíduos mais dotados que outros para esta ou aquela actividade. Trata-se sim de colocar as coisas no seu lugar.
O fenómeno da separação não é exclusivo do artista: também o cirurgião se vai tornando no grande professor, e o cozinheiro, do mesmo modo, converte-se no «mestre de cozinha» com direito a estatuto financeiro. E o mesmo acontece com o escritor, apoiado pela sua editora, apostada em transformá-lo em best-seller.
Porque é que temos de reduzir a inventividade à arte? As ideias de criatividade e de inventividade permitem-nos escapar muito melhor às noções de estetismo, de belo, de feio para exprimir o que nos surpreende e nos emociona.
A própria ciência, quantas vezes posta ao serviço da destruição, não dispensa estas qualidades da imaginação e da inventividade.
O trabalho, tal como o entendemos, não está obrigatoriamente associado à exploração de quem produz. O trabalho quando se apresenta naquilo que ele tem de desagradável passa a ser, certamente, uma necessidade a partilhar por todos. Trata-se, pois, não tanto de criticar os artistas consagrados ou em vias de o ser, que celebrar, valorizar, e identificar estas qualidades nos outros e que os preconceitos sociais normalmente negligenciam. No fundo, trata-se de explorar a efervescência criativa e, no final, inventar uma vida a vir.
Não nos interessa sequer definir ou delimitar o que se deve entender por essas duas palavra - inventividade e criatividade – que não deixam de ser fundamentalmente actividades humanas, sem que com isso queiramos levantar uma barreira inultrapassável entre o nosso mundo e o mundo animal.
O que gostaríamos realmente de dizer eram coisas como: «belo como formar um sindicato! Bela como uma roda de bicicleta” Bela como uma assembleia geral de um conselho operário ou de um comité de autogestão! Belo como um campo lavrado! Belo como foi a Comuna de Paris», etc, etc.

A nossa ambição tem por fim nada menos
que re-encantar o mundo
recusando reduzir ao estado de mercadoria
os produtos da inventividade
e da criatividade humanas.
Queremos exaltar uma poesia sem limites

Mas quem dirá o que asfixia a criatividade? Quem é que a libertará? Quem é que a favorece mais, o indivíduo ou a sociedade? Uma obra é conseguida quando dá vontade ao outro de inventar na sua própria esfera de acção? E a liberdade criativa faz reviver uma outra liberdade no espírito de quem a observa?
Quanto ao que favorece a criação apontamos duas atitudes que, à primeira vista parecem inconciliáveis, pelo menos, ao mesmo tempo.
Por um lado, o trabalho liberto, o conhecimento e a cultura, a aquisição do saber-fazer com o tempo, o jeito da mão ( a facilidade de fazer), etc.
Por outro, a inactividade e o tempo livre quando eles ocupam lugar no inconsciente que encontra a solução que o consciente, demasiadamente ocupado, não consegue encontrar.
Parece importante deixar certas obras incompletas, abertas, com um vazio, um espaço que convoque o inesperado a fim nascer o encontro criativo.
E se, depois desta reflexão, quisermos ainda falar de «obra de arte» é porque consideramos que ele pode ser um estímulo à liberdade de empreender uma outra coisa.

(Texto de André Bernard, e Philippe Garnier, responsáveis do número temático da revista Réfractions, nº11, dedicado à «Créativité, inventivité, poiêsis», e que foi publicado no nº 1315, 10/4/2003, do Le Monde Libertaire )

2.8.05

Os filmes de Hollywood sobre a bomba A sempre foram manipulados e censurados



Um livro editado há alguns anos atrás, «Hiroshima in América; Fifty Years of Denial» de Robert Lifton e Greg Mitchell, mostra como o cinema norte-americano, que tem a sua capital em Hollywood, tentou sempre sonegar e manipular os acontecimentos relacionados com o lançamento da Bomba Atómica sobre Hiroxima em 1945.

Os filmes norte-americanos que foram objecto de pressões e censura foram «The Beginning or the End» ( dirigido por Norman Taurog, para a MGM), «Above and Beyond» ( de Norman Frank e Melvin Panamá, com data de 1953) e «Fat Man and Little Boy» ( de Roland Joffé).
As pressões sobre os responsáveis do primeiro filme foram tantas e tão fortes, a censura tão exigente, ao ponto de ter havido uma interferência directa da Casa Branca, que o filme – que pretendia ser uma abordagem sobre as consequências negativas do lançamento da bomba - acabou por mostrar o Presidente Truman, e o general Leslie Groves, responsável do Projecto Manhattan, não como os responsáveis de uma mortandade, mas os salvadores de meio milhão de americanos… O governo norte-americano foi mesmo ao ponto de exigir ao realizador a inclusão de falsidades no enredo cinematográfico como o lançamento antecipado de panfletos com avisos aos civis sobre os ataques dos bombardeiros, assim como mirabolantes ataques a partir do solo contra aqueles aeronaves que transportavam a bomba atómica.
O segundo pretendia contar a versão oficial do treino da tripulação do bombardeiro norte-americano cuja missão fora a de lançar a 1ª bomba atómica na história da Humanidade. Apesar de querer reproduzir a versão oficial do governo norte-americano, mesmo assim a produção e a realização do filme foi acompanhada de perto por mandatários governamentais que zelaram por o filme expor a sua versão.
Já o filme de Roland Joffé, feito há poucos anos, fala das reservas dos cientistas, entre eles a de robert Oppenheimer, sobre o uso da bomba atómica para fins militares contra o Japão.

O primeiro filme a colocar na tela a imagem do cogumelo atómico foi «First Yank in Tokyo», concluído em 1945.

Fora dos Estados Unidos não tem faltado filmes a tratar dos acontecimentos:
- do Japão são os filmes «Sinos de Nagasaki» e «Rapsódia em Agosto», ambos de Akira Kurosawa, e ainda o filme «Chuva Negra», de Shorei Imamura;
- da Grã-bretanha são os filmes «Fail-Safe» (1964) de Sydney Lumet, «War Game» (1967), semidocumentário de Peter Watkins, «Testament» (1983) de Lynne Littman, e «Desert Blom» (1986) de Eugene Corr;
- da França existe o clássico «Hiroxima, Meu amor» de Alain Resnais.

Mas a obra maior que constitui uma grande sátira antimilitarista e à bomba atómica lançada pelos norte-americanos é o filme imperdível de Stanley Kubrick, realizado na Inglaterra em 1964, «Dr. Strangelove or how a learned to stop worrying and Love the Bomb» ( na tradução portuguesa, «Doutor EstranhoAmor»)

Um filme que os militares, generais e soldados, assessores e informadores ao serviço da máquina da morte que é a guerra, deviam ver para se envergonharem…antes de atingirem a reforma e os remorsos comecem a pesar na consciência