18.7.05

O que é o poder popular?

(texto de Miguel Serras Pereira, publicado na revista Vida Mundial de 24 de Julho de 1975)


«…a tomada de poder aparece-nos como sendo a transformação das suas formas de exercício e distribuição de sentidos, muito mais do que a simples transferência de uns para outros detentores…»
( Miguel Serras Pereira, ver texto a seguir )



Na medida em que este poder se opõe a outras formas de organização política de uma formação política, ele não pode ser definido pelo conteúdo ( intenções, etc) ou ideologia dos órgãos de poder político. Já se vê que não há, de um modo geral, poder que se diga antipopular – poder que se não diga ao serviço do povo, e que pelo bem do povo, pela posse de uma interpretação privilegiada dos verdadeiros interesses populares, se não pretenda justificar. Não se podendo, pois, de uma decisiva, distinguir o poder popular, na sua diferença, pela orientação do poder – esse é o erro ou sofisma de uma crítica oportunista como a de Bettelheim ao capitalismo de Estado russo na sua feição pós-Estaline -, teremos de o definir pela forma de exercício, pelo seu funcionamento. Assim, para retomar a questão russa como exemplo, é absurdo ( absurdo de todos os reformismos que, como é norma, não dizem o seu nome, o que permite qualificá-los como oportunismo) dizer que o poder político, sob a direcção de Estaline, seguia uma linha proletária, sendo por isso socialista, ao passo que o mesmo poder foi preenchido com uma linha política – a do Partido Comunista da União Soviética – classista após a morte do velho ditador, mediante a transformação da composição da sua direcção. Correcto será dizer que, tanto antes como depois de Estaline, mau grado todas as importantes diferenças e alterações, o poder não era proletário nem popular, pois não era exercido nem pelo proletariado propriamente dito nem pelo conjunto das massas trabalhadoras, mas antes em seu nome por um bloco social, ele próprio diferenciado e co as suas contradições internas, sintetizado pelo Partido e pela cúpula do Estado, que entre si dividia as diversas funções sociais de direcção, monopolizando o poder de coacção e os meios de violência organizada e institucional.
Para o que aqui nos interessa, portanto, o poder popular definir-se-á pelo exercício e pelo funcionamento. Este tipo de definição é o único que não só permite conceber uma alternativa revolucionária para o Estado classista e para a superação da superação entre os produtores e os meios de produção como permite estabelecer a sua existência e julgar das suas condições materiais de possibilidade. O poder popular será assim o exercício directamente pelo povo trabalhador e pelos seus aliados, constituindo um bloco revolucionário: democracia directa, formas cooperativas e autogestionárias, visando a superação do político e do económico pela sua desparticularização radical.
Antes de retomarmos e concluirmos este breve artigo de definição do poder popular, tarefa que bom seria ver objecto de uma batalha de produção ideológica, temos, por força das circunstâncias que de certo modo o provocam, de deter-nos um instante ainda, como já na anterior semana fizemos (cf. Poder Popular: consagração e equívocos), sobre o documento-guia. Da sua rápida confrontação com o tecto de Vasco Gonçalves, da não menos rapidamente obtível constatação da ausência de referências ao exercício do poder popular sobre a direcção da economia e, indirectamente, da leitura das razões que João Martins Pereira apresentou para se demitir do seu cargo governamental, de outras coisas ainda, talvez as principais, que não se vão repetir aqui e que ainda não estão clarificadas no ambiente amalgamado das horas convulsas que vivemos a nível político, podemos concluir que, tomando à letra o documento, com ele o MFA ou se engana ou nos engana. Em qualquer caso, o que queremos dizer é que a adopção de resoluções sobre o poder popular, por razões de Estado e na subordinação à força pelo menos arracional dessas razões, priva de ser o poder de que se fala ao privá-lo da sua soberania. Um poder segundo é um poder subjugado (fisicamente apenas ou física e ideologicamente também) e/ou um poder na oposição, um contrapoder contra o poder primeiro.
Se o poder popular implica a transformação da forma estatal do poder político e a sua colectivização material (dos meios de violência, das instâncias executivas e deliberativas), então vemos que a permanência do velho aparelho de Estado e por maioria de razão o reforço que dele se pretende, a sua estabilização, como é a ideia-chave do texto de Vasco Gonçalves, não só significa e permite aferir o atraso do poder popular como contra o desenvolvimento das suas condições de conquista da soberania trabalha e age. Com efeito, para além de ser um poder constituído ou herdado (como é o caso) em virtude de uma expropriação generalizada ( é o poder que as massas não têm), o Estado é um poderoso agente de segregação de camadas privilegiadas que às antigas se substituem, um poderoso agente de cristalização de novos blocos dominantes, um poderoso agente da reconversão da crise agudizada da sociedade de classes. Deste poder de Estado tem o poder popular, enquanto não lograr a sua transformação total. que se ir emancipando desde o começo e radicalmente.
É certo que outras ideias-chave, que não a de Vasco Gonçalves, permitirão uma leitura (que é sempre de natureza produtiva) com consequências diversas do documento-guia. A discussão de que ele tem sido objecto demonstra bem até que ponto a sua interpretação é uma dimensão de afrontamento e luta política. Mas o texto, com a letra que é a casa do seu espírito, existe, e a menos que ela seja falsificada, levanta, para além de todas as interpretações, problemas que estas têm servido para silenciar e para obscurecer o apuramento do seu conteúdo político.

Democracia Directa e Autogestão

NO debate político entre partido, entre reformistas e revolucionários, gradualistas e golpistas, com ou sem princípios, tudo isto dependendo do ponto de onde são observados - nesse debate temos um recalcado comum, um impensado cuja existência se denega: o problema da autogestão ou da gestão colectiva e igualitária da actividade directamente produtiva ou geralmente laboral.
Deixando de parte os partidos que, de um ponto de vista direitista, como o PS, se opuseram ao documento-guia, temos que quase todos os outros se reclamam, por virtude de interpretações diversas do documento, considerado como um forte avanço para a democracia directa ,para o tal poder popular. E, todavia, não se compreende bem, não se compreende mesmo nem bem nem mal o que possa ser tal democracia directa, tal poder popular, sem a transformação das relações de poder nos locais de trabalho, trabalho forçado, locais que são núcleos hierarquizantes, dominantes e sistematizadores das relações sociais de produção. Com efeito, se o âmbito da produção, no sentido um pouco restrito de actividade económica em sentido amplo, for excluído, furtado pelo poder a esta democracia directa, a este poder conselhista de que fala e contra os discursos do parlamentarismo se justifica como eminentemente democrático – não teremos democracia directa nem democracia nenhuma. Se, porém, democracia directa tivermos, então não se vê que objectivos de contestação e governo autónomo mais prioritários aos trabalhadores se podem pôr do que aquelas condições de existência que como tais os definem, pela exploração do salariato, e que não podem deixar de ser transformados na primeira linha de uma batalha anticlassista da produção.
A luta contra a hierarquia salarial e disciplinar nas empresas, a rotatividade dos cargos directivos particulares que transitoriamente subsistirem, o ataque rápido contra a divisão do trabalho e a unicidade das funções individuais, pela redução dos técnicos enquanto tais a um papel consultivo, a extinção da diferenciação entre dirigentes, concebedores e executantes, tudo isto parece uma luta a travar, desde já, com palavras de ordem como:
Por um salário único nacional (ou regional); Pela igualdade absoluta das condições de assistência; Por uma produção de riqueza e não de lucro; pela dissolução do exército e pelas milícias populares; pela soberania dos conselhos populares locais e de trabalhadores de empresa, etc.

Contra Representação

Um propósito de democracia directa é o do fim da representação e do princípio da delegação permanente, fundamentos do poder político classista moderno, com alienação definitiva da autoridade das massas populares. Mas nem por um momento a representação parlamentar da democracia ou vanguardista do socialismo (desta os exemplos clássicos são as concepções dos PCs, da esquerda maoísta, e um exemplo recente, português, de via original, é o aludido texto de Vasco Gonçalves), se esses modos de significar a apreender a realidade social fossem exclusivos de uma classe dominante e dois ou três grupos minoritários obtidos por recrutamento policial ou clerical menor, mantendo-se a classe operária e o conjunto dos assalariados puros e alheios a tais representações. Daí o podermos falar, sacrificando ao sempre pouco ocultador jargão oficial, de revolução cultural.
Se a crise da «humanidade», como se dizia, não é, ao contrário do que pensava Trotsky e os estalinistas que o perseguiam, a crise da sua direcção revolucionária, mas se, pelo contrário, a questão da revolução reside na passagem de uma qualquer direcção particular à colectivização da direcção e à sua dessubjectivação, também, por conseguinte, então a tomada de poder aparece-nos como sendo a transformação das suas formas de exercício e distribuição de sentidos, muito mais do que a simples transferência de uns para outros detentores, ideologicamente representada esta transferência como alteração dos conteúdos ou do reino dos fins visado.

O Bloco Histórico e o Poder Popular

Parece ser útil abordar aqui a questão, sempre magna, da aliança de classes para a constituição daquilo a que Gramsci chamava «bloco histórico» e que podemos chamar, por mor de clareza, bloco revolucionário. A necessidade de constituição deste bloco surge como justificação para todos os oportunismos, reformismos, tendo-se revelado escolho insuperável dos partidos ditos revolucionários de tipo vanguardista. Estes partidos pensam, com efeito, que este bloco se construirá, deve ser construído, em torno de um enunciação de objectivos políticos conciliados, capazes de mobilizar em torno dos assalariados da indústria as demais camadas exploradas e oprimidas de uma população nacional.
Na perspectiva do poder popular, pelo contrário, a tónica será posta de outra maneira. O bloco revolucionário constitui-se no próprio exercício das assembleias e outros órgãos locais em que a solidariedade de interesses, a comunidade de poder (deliberação e execução) é um facto e em que a concertação é directamente possível e não objecto de uma interpretação expropriadora do poder central. O modo, citado recentemente na TV, pelo qual as comissões de moradores do Porto resolveram o caso da expropriação dos terrenos e casas de habitação com perfeita salvaguarda dos rendimentos dos senhorios pobres é exemplar e dispensa grandes desenvolvimentos especulativos e conceptuais. A própria integração, desde a base, dos elementos não operários ou mesmo não assalariados nas comissões de moradores, nas cooperativas locais, nos órgãos, em suma, do poder popular, é a sua integração no bloco revolucionário, determinando, melhor do que o fará qualquer programa, a correcta dinâmica que u processo revolucionário deve seguir para encontrar a sua via e se desenvolver. A prevalência, directa e de facto, que não delegada ou presumida pela existência de um partido (único, já se sabe) da classe operária e por cima dela depositário da sua verdade, dos assalariados na direcção e dinamização do processo será garantida pela existência paralela das comissões de trabalhadores de empresa e pela gestão colectiva da economia.

Um Pluralismo radical

O radical pluralismo do poder popular ressalta com evidência necessária e cremos que suficiente das definições anteriores. Também aqui este pluralismo se distingue pelo seu carácter real e resultante das próprias formas do poder popular, que superam largamente aquele pluralismo representado elos partidos de ordem distante e que mais não fazem, do que impor ao conjunto dos cidadãos uma escolha que é sempre a da mesma relação relativamente a um poder que não detêm. Os órgãos de poder popular são, num sentido, apartidários. Noutro, serão mesmo antipartidários na medida em que são órgãos supremos do poder e na medida em que os partidos a que estamos habituados é como órgãos supremos de um poder diferente e antagónica natureza que se definem. Não quer, porém, isto dizer que, noutro sentido outros partidos, outra qualidade de partidos não possa ressurgir no interior do poder popular: correntes de opinião organizadas, grupos de animação e proposta, alternativas para as questões que se deparam para deliberação e resposta das comissões e conselhos. Alguns destes grupos serão mesmo mais avançados do que outros e poderão ser ditos de vanguarda. A diferença essencial está em que o poder lhes não pertence e em que eles não representam de modo privilegiado qualquer classe ou bloco revolucionário, menos ainda são o seu estado-maior ou órgãos de um poder exercido em seu nome mediante a liquidação do poder real daqueles cujo nome é evocado e representado. O poder colectivo e os colectivos são o poder. Outro não há que seja popular.

Miguel Serras Pereira, texto publicado na revista Vida Mundial nº 1871, de 24/7/1975

Relator da ONU denuncia novas formas de tortura


O relato especial da ONU sobre tortura, Manfred Nowak, afirmou que a incomunicabilidade prolongada, a existência de lugares secretos de detenção, e os desaparecimentos forçados podem ser considerados em si mesmos como actos de tortura.

Alojamento em Madrid


O Cats’ hostel é um albergue de Madrid com preços a 16 euros em habitação múltipla e 19 euros em quarto para duas pessoas.

Mais info:
www.catshostel.com
www.hostelworld.com
www.europefamoushostels.com
www.pensionesconencanto.com

Greve da Função Publica


Diversos sectores da Função Pública ( como na saúde, recolha de lixo, transportes e serviços, finanças e tribunais, segurança social9 realizaram no dia 15 uma greve para protestar contra asmedidas lesivas para os seus direitos tomadas pelo governo.

Documentário sobre Luiz Pacheco


«Chamo-me Luiz Pacheco. Fui escritor, escrevi em jornais. Agora sou um fantasma». É assim que Luiz Pacheco se apresenta num documentário acabado de ser produzido sobre a sua vida e obra, realizado por António José de Almeida, e que vais passar no canal 2 da RTP no próximo 22 de Julho.
Recorde-se que Luiz Pacheco, actualmente acamado num lar, foi autor de vários livros de carácter surrealizante ( exemplo: «O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor» de 1970, além de ter fundado uma editora ( Contraponto) e ter sido o responsável pela edição de figuras importantes da literatura portuguesa e estrangeira
.

Despedimentos na Coksribas


A coksribas, empresa granuladora de cortiça,situada em S.Paio de Oleiros despediu 13 dos seus 82 trabalhadores, comunicou a Comissão de Trabalhadores que acusa administração de uma gestão danosa

15.7.05

Os pobres não são culpados pela degradação do ambiente


Os pobres são muitas vezes acusados de serem os principais responsáveis pela degradação ambiental, quando a verdade é que eles só interferem no seu meio mais próximo. O impacte ecológico dos ricos, cujo estilo de vida depende do conjunto dos recursos do planeta, é muito mais importante e com efeitos catastróficos.

Inverno após Inverno abrem as casas e os restaurantes de caridade com uma clientela cada vez maior. Os burgueses – dizia-se no inicio do século – lamentam os pobres que se arrastam pelas ruas. Hoje, graças ao progresso técnico, eles lamentam a sorte dos pobres pela TV. Tanto mais que a pobreza perdura, estende-se e até viaja: deixou de ser uma especificidade dos países pobres. Tem, no entanto, características comuns, a começar por aquela a que se refere Georg Simmel no seu trabalho pioneiro (Sociologia, 1908): a pobreza não pode ser definida de forma substantiva, dado tratar-se de uma construção social baseada na relação de assistência («Não é a falta de meios que torna alguém pobre. Sociologicamente falando, a pessoa pobre é o indivíduo que recebe assistência por ter falta de meios»)

A tragédia dos bens comuns

A questão da pobreza é imensa e não será abordada neste artigo senão a partir de uma particular abordagem, a das relações entre pobreza, desenvolvimento e ambiente. Não se falará pois de toda a importante literatura que se debruça sobre a pobreza e as suas relações com as desigualdades. De qualquer modo, quem queira aprofundar os seus conhecimentos sobre a matéria poderá consultar os trabalhos fundamentais de Robert Castell e de Serge Paugam. Se Castel trata a pobreza em termos de «insegurança social» e Paugam através da «desqualificação social», nenhum deles valorizou por agora a ligação entre a pobreza e o ambiente. Trata-se de uma abordagem particular, ainda muita distante dos discursos científicos sobre a pobreza. Desde a Conferência de Estocolmo de 1972, várias vozes se levantaram para fazer dos pobres os principais responsáveis pela degradação dos ecossistemas. O libelo acusatório foi formalizado pelo Banco Mundial em 1993 sob o título «environmental connexion». A demografia seria «galopante», a dos pobres ainda maior que a dos ricos; por força da sua precariedade, os pobres estariam directamente dependentes dos recursos naturais renováveis que seriam assim sobre-explorados segundo dinâmicas ditas de «tragédia dos bens comuns», título de um artigo do biologista Garett Hardin publicado em 1968. Resultaria daí uma degradação acelerada dos ecossistemas. A sobrevivência do planeta, segundo os defensores de um malthusianismo básico, reconduzir-se-ia à população manter um nível demográfico compatível com «a capacidade de carga do planeta», e estimada por eles em 500 a 600 milhões de habitantes, contra os 6 mil milhões actuais. A solução consistia, segundo G.Hardin, a bloquear as migrações internacionais, assim como à esterilização das mulheres pobres após o seu segundo filho.
Ainda que tais concepções tenham sido objecto de críticas radicais, entre outras por Hervé Le Brás, a verdade é que continuaram a ser difundidas e a legitimar o fecho à circulação e deslocamento das populações pobres sob o pretexto da defesa da natureza. A tese da «demografia galopante» e da bomba demográfica» faz pois o seu curso. Em 1995 Amartya Sen contradiz essa argumentação num texto publicado na revista Esprit. Demografia e ambiente encontravam correlacionados numa curva em U: fracas densidades de população, com baixo nível de capital, traduziam-se pela degradação ambiental. Uma vez atingido certo nível de degradação, e sob a condição da população não ter emigrado nem desaparecido, a curva invertia-se e todo o crescimento da população traduzia-se num ordenamento do ambiente.
O que se passa hoje? O Relatório Bruntland que define oficialmente o desenvolvimento sustentável sublinha claramente que um mundo desigual não pode ser sustentável. Todavia, o número dos mais pobres aumentou e a sua miséria não pára de se acentuar desde os anos 60. Para o Banco Mundial a pobreza define-se por um rendimento diário igual ou inferior a 1 dólar: assim definida, a pobreza atingiria cerca de 1,3 mil milhões de indivíduos. Por seu lado, o PNUD ( Programa das nações Unidas para o desenvolvimento) recordava em 1999 que os 20% mais ricos possuíam 86% da riqueza mundial, e constituíam 93% dos utilizadores da Internet contra 0,2% para os 20% mais pobres. No decurso dos últimos 35 anos o fosso dos rendimentos entre os cinco países mais ricos e os cinco países mais pobres mais que duplicou.
Para melhor se entender a reflexão sobre o desenvolvimento, a pobreza e o ambiente, impõe-se um regresso à história do pensamento nas ciência sociais.

As Ciências Sociais e a pobreza

Gunnar Myrdal, analista da pobreza na índia, elaborou em 1968 uma teoria dos «círculos viciosos da pobreza» numa célebre obra, Asian Drama. Uma fraca dotação de recursos, um fraco nível de formação e de capital disponível geram pobreza que, por sua vez, se traduz numa fraca capacidade de poupança que levaria a um fraco nível de investimento e falta de formação. A pobreza aparece aqui como uma consequência mecânica de uma má distribuição de cartas. A solução estaria em transformar os círculos viciosos em círculos virtuosos, por injecção de capital e através da formação. O economista John Kenneth Galbraith, impressionado também pela Índia onde fora embaixador, ensaia uma «teoria da pobreza em massa». Próximo de G. Myrdal no diagnóstico das causas da pobreza, afasta-se dele, no entanto, com uma original análise das causas da sua persistência. Para ele existiria uma cultura de «acomodação» à pobreza, como se os pobres não encarassem qualquer possibilidade de escapar à sua condição. Reforçada pelas normas sociais, esta acomodação está na base da existência do que se chama um «um equilíbrio de pobreza». A saída da pobreza não é possível só pelo crescimento económico; ela implica atacar a cultura da acomodação, pela formação e favorecimento da evolução das normas sociais.
Os trabalhos do economista J.K.Galbraith, ligam-se aos do sociólogo Arthur Lewis, inventor da «cultura da pobreza». S. Paugam resumiu magistralmente este conceito: «A cultura da pobreza é toda uma adaptação e uma reacção dos pobres à sua posição marginal numa sociedade de classes estratificada, altamente individualizada e capitalista. Ela representa uma esforço para fazer face aos sentimentos de desespero que nascem quando os pobres compreendem até que ponto é improvável que consigam ter sucesso tal como se entende segundo os valores e os objectivos da sociedade no seio da qual eles vivem.» E acrescenta: «(…) A cultura da pobreza não é só uma adaptação a um conjunto de condições objectivas da sociedade no seu conjunto. Uma vez existente, ela tem tendência a perpetuar-se de geração em geração em razão do efeito que tem sobre as crianças. Quando as crianças afectadas atingem a idade dos 6 ou 7 anos elas já assimilaram em geral os valores e os hábitos da sua subcultura e não estão psicologicamente equipados para aproveitar plenamente a evolução ou os progressos susceptíveis de se produzirem ao longo a sua vida.»
Depois de A. Lewis, Pierre Bourdieu publicou a sua conhecida obra «La Misère du Monde», uma recolha de entrevistas que constitui um verdadeiro diagnóstico, ainda actual, sobre a matéria incluindo o papel do Estado, das elites, dos media, das ideologias, tudo isso analisado com grande minúcia tal como os factos económicos e sociais que constituem o seu contexto.

Pobreza, economia, ambiente

Partha Dasgupta e A. Sem vão operar uma ruptura profunda na maneira de conceber a pobreza e as sua origem. Ambos definem a pobreza como uma privação de direitos. P.Dasgupta fala de destituição, da colocação de alguém em estado de não poder decidir. O progresso no entendimento da pobreza e as modalidades para a sua redução resultaram, para muitos, dos contributos de A.Sen, prémio Nobel da economia e do PNUD que retomaram conceitos como capacity, que é mal traduzida pelo termo capacidade. Trata-se das potencialidades realizáveis de um indivíduo, que se reduzem a pouca coisa em situação de pobreza. Para A. Sem como para o PNUD a pobreza é desde logo a tradução de uma ausência de direitos ou ainda de insegurança, ou mais precisamente, de inseguranças. Insegurança económica num contexto de globalização e de ajustamento estruturais que reduzem as despesas na saúde e educação e condenam um grande número de assalariados ao desemprego, tal como a crise asiática e argentina se encarregaram de mostrar. A globalização gera uma instabilidade local no sistema que os pobres são as primeiras vítimas. A competição mundial leva os Estado a reduzir a segurança do emprego e aumentar a flexibilidade. Insegurança no acesso aos bens públicos como a saúde, educação, justiça, administração agrava ainda mais a pobreza. Os pobres são susceptíveis de beneficiar das acções públicas e privadas de natureza caritativa, mas continuam a ter um acesso incerto aos serviços de base que andam normalmente associados à cidadania. Nos países que beneficiaram de ajustamentos estruturais, a «verdade dos preços» na saúde, educação ou justiça tornou estes bens públicos de difícil ou mesmo de acesso impossível aos mais pobres. Para medira a pobreza e a riqueza sobre a mesma escala que não seja monetária, A. Sem e o PNUD criaram um indicador de desenvolvimento humano (IDH) que toma em conta o rendimento, a saúde, a educação e a esperança de vida. Um tal indicador mostra bem que a pobreza não se reduz a uma falta de dinheiro. O Kerala, um Estado indiano muito pobre, tem um IDH muito próximo do da França ( cerca de 0,8 no 11º lugar na lista, numa Índia que se situa no 132º lugar).
P.Dasgupta desenvolveu, por seu turno, a análise económica das ligações entre pobreza, economia e ambiente. Pondo a nú a inanidade dos discursos que fazem do crescimento a panaceia milagrosa para a pobreza, ele refere que, para além do capital produzido, dos saberes e competências, a «riqueza» inclui também os ecossistemas. O lugar do ambiente na análise da pobreza é aqui bem definido: « Os activos naturais localmente disponíveis são da maior importância para os pobres(…) Não há para eles nenhuma outra fonte de bens que não os seus recursos naturais locais. Pelo contrário, para os ricos ecoturistas, há sempre qualquer outra coisa, algures. A distância entre necessidade e luxo é enorme e é determinada pelo contexto.». Ao invés de muitos economistas, e de G. Hardin, P. Dasgupta coloca o acento sobre as ligações entre a natureza, os modos de apropriação e a pobreza. Ele sublinha os efeitos devastadores da destruição das formas de apropriação colectiva sobre a situação dos mais pobres e constata que esta destruição é frequentemente devida aos Estados e às organizações internacionais.
A análise de Marx sobre as consequências dos «enclosures» no norte da Inglaterra a partir do fim do século XVI têm ainda validade para os nossos dias: o fechamento de espaços, a evicção das terras, até agora comuns, produzem a miséria de sempre, o êxodo e conflitualidades.

Recursos renováveis e globalização

Os pobres estão dependentes dos recursos renováveis ao seu alcance, ao passo que os ricos estão dependentes dos recursos renováveis de todo o planeta. O impate dos pobres sobre o ambiente é directamente observável, enquanto o dos ricos é mediado pelo comércio internacional: e é significativo que cálculos recentes mostram que o impacte ecológico ( «a pegada ecológica») cresce de forma exponencial em conexão com a subida de rendimentos.
Por todo o lado observam-se conflitos sobre o acesso e uso de recursos naturais, renováveis ou não, que até podem conduzir a guerras, como nos mostra a guerra do Iraque. A observação pormenorizada deixa pensar que o peso da demografia, ainda que real, é ligeiro se compararmos com um mau governo, a ausência de definições dos regimes de apropriação e os controles de acesso. Os conflitos são-nos apresentados com várias razões: os de carácter étnico, religioso e político. Mas quem olhar mais de perto para um atlas dos conflitos no mundo pode concluir que esta tipologia se liga mais ao modo de expressão do conflito do que à sua natureza. Dois em cada três conflitos são de natureza ambiental. Os problemas relativos ao acesso e partilha das vantagens no caso dos recursos genéticos situam-se neste quadro. O continente africano é bem uma ilustração disso mesmo. Conflitos sobre os recursos arrastam êxodos, miséria, desenraizamento, sofrimentos, tumultos civis e golpes militares. Muitos dos emigrantes que atravessam o Mediterrâneo, pondo em perigo a sua vida, são já refugiados ecológicos.
A fragilização, ou seja, a destruição dos direitos de acesso e uso abate-se sobre os meios rurais. Segundo a ONU a pobreza está geralmente concentrada nas zonas rurais. «Ainda que seja difícil estabelecer uma comparação do meio rural e a pobreza do meio urbano, estima-se que cerca de 75% dos pobres do mundo vivam nos campos dos países em desenvolvimento. Num bom número de países o crescimento económico e a redução da pobreza observados recentemente dizem respeito essencialmente às cidades, aumentando ainda mais o fosso entre meio rural e meio urbano. O fenómeno da urbanização não faz senão aumentar a proporção dos pobres em meio urbano, mas prevê-se que em 2025, 60% da população mundial desfavorecida ainda viva em meio rural.»
A secularização dos direitos de acesso aos recursos constitui o elementos essencial de uma tomada de controle do presente por parte dos mais pobres. E sem dominar o seu presente, não há discussão possível sobre o longo prazo.
Podemos tentar uma definição da pobreza em ligação com a do desenvolvimento sustentável. A pobreza é a ausência do controle sobre o seu presente, isto é, a impossibilidade de decidir sobre o seu próprio futuro; em estado de miséria, as pessoas confessam «que não mais pertencem».
Isto é uma outra faceta do conjunto de inseguranças. Inseguranças económica, social, e até física.; insegurança no acesso aos bens públicos da saúde, justiça e educação. E para os rurais a insegurança dos direitos ao acesso e uso dos recursos renováveis, desde logo, a terra. Estas insegurança múltipla são a carga pesada dos mais pobres: geram ansiedade permanente que fragiliza ainda os mais frágeis, e que as teorias geralmente ignoram.

O Vínculo social e dívida mútua

Para fazer face a estas inseguranças e a esta angústia, os mais pobres tendem a criar vínculos socais, a inserirem-se em redes de solidariedade fundadas sobre dívidas mútuas. Trabalhos do Centre Léon-Walras da universidade de Lyon mostraram que as pessoas a receber o rendimento mínimo endem a assumir as despesas cujo resultado previsível é a sua inserção num grupo. Já Rabelais, em Tiers Livre ( do ano 1546) considerava a dívida como o fundamento do vínculo social. A dívida mútua, que é mais do simples reciprocidade, tem por resultado uma espécie de seguro mútuo: vou em ajuda daquele que me ajudou. Somos incapazes, a maior parte de nós, conceber um mundo sem seguros, tal é a forma como estamos protegidos, quando nos levantamos pela manhã. Às classes sociais sobrepõem-se diferentes classes de seguros.
Esta noção de dívida mútua, cara a Rabelais, merece igualmente ser tomada para qualificar as relações entre os homens a propósito do ambiente e especialmente do mundo vivo. Os seres humanos não podem estar separados do resto do mundo: nós fazemos parte integrante dele, evoluímos quotidianamente, sem darmos conta, em estreita interacção com outros organismo vivos, para a nossa alimentação, roupa, ferramentas, medicamentos. Criamos condições de vida ( ou de morte) para as outras espécies vivas, num grande jogo de interacções entre organismo como é o sistema vivo do planeta. Lutar contra a pobreza consiste em restituir aos mais pobres os elementos de controle do seu presente, para que seja de novo possível a construção de futuros. Isto implica sair da lógica dos seguros, que reproduzem o estatuto de pobre tal como define G.Simmel, para construir lógicas de cidadania .No mundo desenvolvido, Philippe Van Parijs propôs, há já duas décadas, instituir um «rendimento universal de cidadania» que substituiria todas as prestações sociais existentes e seria distribuído a todo o país, aos cidadãos sem recursos. As mais fortes críticas são de carácter moralizante argumentando que um tal rendimento seria uma incitação a não trabalhar, e não por acaso os críticos falam insidiosamente de «alocação» e não de «rendimento», a primeira ligada à assistência e a segunda traduzindo-se num direito.
Durante a primeira metade do século XIX um vivo debate teve lugar a propósito do salário de subsistência. Confrontavam-se duas posições. A primeira sustentava que os operários gastavam os seus rendimentos em álcool e o seu tempo com os filhos, aumentando a corte de miseráveis, pelo que havia que baixar ao máximo possível porque – dizia-se – a «fome era o aguilhão do trabalho». Ao que os opositores respondiam que só alimentados e pagos decentemente, e tendo a possibilidade de sustentar os seus filhos, podiam os operários ser produtivos. Este ponto de vista prevaleceu, mas os argumentos são recorrentes com actual discussão sobre o rendimento universal de cidadania. Um delegado de um grande país da OCDE apresentou como argumentou contra o apoio financeiros às colectividades locais subsaharianas a ideia que «a fome era mãe do rigor», ao que um delegado africano respondeu com um provérbio dos povos do Sahara: « Só quem conheceu a fome conhece o gosto dos alimentos».
Na espécie humana a persistência e o aumento da miséria levam-nos a perguntar em que medida os ricos têm ainda necessidade dos pobres, em que medida os percepcionamos como interdependentes.
No recente filme «Le Cauchemar de Darwin» (de Hubert Sauper) é-nos mostrado como as relações entre miséria social e modo de exploração dos ecossistemas, assim como a interdependência entre, por uma lado, os ecossistemas e os grupos sociais locais, e por outro, o mercado mundial e as guerras regionais. Uma espécie introduzida num grande lago africano destrói a diversidade dos pequenos peixes que, até então, viviam ali, e gera uma actividade industrial que não traz nenhuns benefícios à população. Os aviões que transportam o produto para a Europa, voltam cheios de armas para alimentar os conflitos.
Hoje, mais do nunca, a pobreza como a sobrexploração dos ecossistemas são filhas da riqueza, e a penúria, a doença e a violência, filhas da opulência. Ora se assim for, então as soluções são possíveis. Nos países pobres, como aconteceu em Madagáscar, a lei de Novembro de 1996 sobre «gestão local securizada» dos recursos organizou o transfert do controle dos direitos de acesso e uso para as comunidades rurais, no quadro dos contratos entre estas e o Estado, sobre uma base voluntária. Mais ou menos bem aplicada, suscitando apoios e críticas, esta lei tinha ( e tem sempre) por objectivo a secularização dos direitos da natureza para as populações locais, e um controle das suas condições ecológicas de existência. A União internacional para a conservação da natureza, que esteve na origem da «estratégia mundial para a conservação da natureza», insistia desde 1982 sobre a interdependência entre conservação e condições de vida das populações locais. A UICN esteve na origem de numerosos projectos que, na sua evolução tenderam a reconhecer a necessária restituição de direitos, cara a A.Sen. Todavia, sem ilusões, há que reconhecer que a pobreza e a miséria parecem ter hoje um futuro à sua frente, enquanto os programas que pretendem erradicá-las não surtem efeito. Enquanto a interdependência entre a opulência e a miséria não seja claramente percepcionada nos países ricos, não é possível ser optimista.



Bibliografia:

R. Castel, Les Mètamorphoses de la question sociale. Une chronique du salariat, Fayard, 1995
R. Castel, L’Insécurité sociale. Qu’est-ce qu’être protégé ?, Seuil, 2003
Serge Paugam, La Disqualification, Puf, 2000
Serge Paugam, Les Formes élementaires de la pauvreté, Puf,2005

A.Sen, «Il n’y a pas de bombe démographique», Esprit, Novembre 1995
A. Sen Inequality Reexamined, Harvard University Press, 1992

O. Lewis, Culture of poverty, Scientific American, 1966

Partha Dasgupta, An Inquiry into Well_Being and Destitution, Oxford University Press, 1993
Partha Dasgupta, Valuation and Evaluation, Measuring the quality of life and evaluating policy, University of Cambridge, 1999


(texto de Jacques Weber, economista e antropólogo, director do Instituto francês da biodiversidade, IFBI, e publicado no hors-série nº 49, Juillet-Août 2005 da revista Sciences Humaines)

Liberdade para Leonard Peltier, índio norte-americano preso há 24 anos

Um dos dirigentes da insurreição dos índios americanos de Wounded Knee em 1973, e que participou em inúmeras lutas contra o genocídio praticado contra o seu povo e contra a espoliação das terras tribais promovida pelo governo federal dos Estados Unidos, encontra-se há décadas na prisão a cumprir pena perpétua de prisão.
No início dos anos 70 o governo norte-americano fixou como objectivo desestabilizar e neutralizar o Movimento dos Índios Americanos (American Indian Movement, AIM) tal como tinha feito já com os Panteras Negras ( Black Panthers). De Fevereiro a Maio de 1973 os índios mais tradicionalistas e o AIM ocuparam o sítio de Wounded Knee localizado na reserva índia de Pine Ridge ( no Dakota do Sul) com a finalidade de protestar contra o regime de terror instaurado pelo corrupto presidente tribal Dick Wilson e pelos seus acólitos da milícia paramilitar privada que recebiam secretamente sofisticadas armas e munições do FBI. No final da ocupação, e ao contrário dos compromissos que tinha assumido com os ocuantes, o governo norte-americano procede a prisões massivas e arbitrárias tentando ceifar a liderança da AIM recorrendo a expedientes fabricados. Aumenta a tensão e as violências entram num espiral imparável. No dia 26 de Junho de 1975 um tiroteio desencadeia-se depois de dois agentes do FBI terem entrado ilegalmente numa propriedade de Pine Ridge onde se encontrava um acamapamento da AIM. Os dois agentes do FBI, juntamente com um jovem índio, acabam por morrer. Leonard Peltier, militante da AIM, é então inculpado pelas mortes dos agentes e acaba por ser condenado a duas penas perpétuas, apesar de não se ter encontrado prova nenhuma sobre a sua culpabilidade.
Há 24 anos que Leonard Peltier clama a sua inocência, e não pára de receber apoios, por todo o mundo, das mais diversas personalidades que exigem a sua libertação. Escreve um livro, «Escritos da prisão. O combate de índio», traduzido já em várias línguas, e no qual Peltier, apesar de privado de liberdade, continua o combate em nome dos povos índios norte-americanos em prol da justiça.
Mais info:

As Pedagogias Novas (ou pedagogias activas)


Contrariamente aos modelos pedagógicos baseados em concepções transmissivas do saber, onde a tarefa do aluno consiste na aplicação de um saber transmitido pelo professor, as pedagogias activas (pedagogia Freinet, pedagogia institucional, e GFEN) pretendem não tanto a apropriação de saberes do outro mas antes a construção dos seus próprios conhecimentos.
Como e sob que forma a reflexão sobre as diferentes práticas e teorias em matéria de educação poderá desembocar numa diferentes orientação do grupo educativo (turma, por exemplo)?

Um pouco de história

No fim do século XIX, Jules Ferry consagrou a escola obrigatória, laica e gratuita. Em 1899 é criado em Genebra a Secção Internacional das Escolas Novas com o objectivo de estabelecer relações de apoio científico entre as diferentes escolas novas.
Já na época quer os pedagogos quer o movimento operário nascentes se revoltavam contra a acção da Igreja e do Estado ( recordemos Ferrer, Paul Robin e Sébastien Faure). Os sindicatos organizavam, por seu turno, aulas à noite, universidades populares, tertúlias…Aparece depois a 1 Grande Guerra que acabou por ser um verdadeiro balde de água fria sobre todo o movimento operário e o internacionalismo. Foi necessário esperar pelo pós-guerra para o ressurgir do movimento pedagógico da Educação Nova.


Em 1921 é criada a Liga Internacional para a Educação Nova que passa a constituir um ponto de encontro das várias secções dos diferentes países e cujo objectivo era:
-preparar e ajudar a criança a realizar na sua vida a supremacia do espírito
- respeitar a individualidade da criança
- dar livre curso aos interesses inatos da criança
-reforçar o sentimento da responsabilidade individual e social
- fazer desaparecer a competição egoísta e substitui-la pela cooperação
-praticar a coeducação dos sexos
-preparar o futuro cidadão (…) como ainda tornar o ser humano consciente da sua dignidade de homem.

Em 1929 a secção francesa adopta a designação de GFEN e passa a ter como finalidades a difusão das ideias da Educação Nova e preparar os congressos internacionais.
No seio da GFEN desenvolvem-se cooperativas escolares graças à acção de Roger Cousinet e Célestin Freinet. A GFEN participa em numerosas comissões de trabalho e interpela a Frente Popular. As suas actividades cessam durante a guerra.

Os combates políticos

Os anos 30 são anos de fortes tensões sociais devido, por um lado, ao avanço do fascismo, e por outro, às expectativas criadas com o governo da Frente Popular assim como com a Revolução Espanhola. A derrota das democracia e o início da guerra vão interromper a acção dos movimentos emancipatórios. Será preciso esperar por 1945 para ver a retomada destas iniciativas e encontrarmos aplicações concretas nascidas no seio dos comités de resistência. Mas a situação está longe de ser a ideal apesar de nunca terem deixado de surgir grupos cujo objectivo era melhorar a sociedade por via da melhoria do indivíduo, através da construção de novas relações.

A Pedagogia Freinet

Célestin Freinet (1896-1966) é um dos pioneiros. Em 1920 é professor em Bas-sur-Loup onde começa a experimentar novas técnicas para os seus alunos ( trabalho de grupos, passeios de descoberta, etc).
A verdadeira revolução aparece com a tipografia na escola. Toda a pedagogia Freinet se baseia neste suporte. O trabalho cooperativo é necessário no momento da utilização da máquina. Assim como na escolha dos textos a imprimir. A distribuição das tarefas faz-se durante as reuniões da cooperativa. A escrita dos textos é feita em atelier de escrita livre. A leitura e a escolha dos textos são feitos colectivamente. A difusão e envio dos jornais impressos exigem a criação de outros ateliers, com a consequente estruturação escolar.
Para Freinet trata-se de realizar uma pedagogia do trabalho. O seu empenho político mostra a determinação em estar com os filhos das classes populares.
Em 1948 é fundado em Dijon o Instituto cooperativo da Escola Moderna que passa a ter como objectivo divulgar as técnicas Freinet. Tais técnicas assentam fundamentalmente dos seguintes princípios:
- A expressão, a comunicação e a criação em todos os níveis, sejam eles o dos textos livres, da correspondência escolar, das conferências organizadas pelos jovens, seja no uso de técnicas radiofónicas e cinematográficas…
- A autonomia, a responsabilização e a cooperação tanto ao nível da vida do grupo educativo como na distribuição das tarefas, no emprego do tempo e nas realizações.
- Aprendizagens personalizadas através de fichas autocorrectivas, e outros documentos que o grupo possa criar para a sua biblioteca de trabalho.
- A actividade experimental em matéria científica e tecnológica. O jovem constrói os seus saberes, através do seu exercício.
- O método natural e as saídas para actividades na natureza que partem sempre das vivências dos próprios jovens a fim que estes as possam trabalhar e adquirir novos conhecimentos.

A Pedagogia Institucional

Nos anos 60 e 70, e face aos bloqueios da escola-caserna nas cidades, surge uma cisão no movimento Freinet, visto como demasiadamente apegado às escolas de bairro. Surge então a Pedagogia Institucional graças ao encontro de Fernand Oury e Aida Vasquez. A Pedagogia Institucional reclama-se da pedagogia Freinet (correspondências, jornal escolar, cooperativa, conselho) acrescentado todo um trabalho em matéria de psicologia dos pequenos grupos, recorrendo à sociologia, psicanálise e desenvolvimento da personalidade.
Os responsáveis da Pedagogia Institucional recorrem à análise da práticas e de comportamentos (as monografias) e apoiam-se numa grelha triconceptual:
- as técnicas inspiradas em Freinet
- a dinâmica de grupos e os contributos da psicologia social
- a psicanálise e os trabalhos de Lacan, Dolto, Freud, etc


Porém, a Pedagogia Institucional diferencia-se claramente da pedagogia Freinet nos vários modos organizacionais:
- a utilização de meios que permitam a passagem a níveis de conhecimento e comportamento social
- o papel dos conselhos de jovens que gerem todos os problemas da vida colectiva, incluindo os conflitos.
-o papel do professor que chama a si o direito de veto quanto às decisões do conselho
- os tempos de uso da palavra que garantem um retorno do grupo sobre si mesmo ( diálogos pela manhã ou balanços do dia)
- a institucionalização de actividades ( ou serviços) geridos pelos jovens.


Ao fim e ao cabo o institucional é uma estrutura elaborada pela colectividade, tendendo à manutenção da sua existência, e assegurando o funcionamento de trocas de natureza muita diversa.

Na própria Pedagogia Institucional sobrevêm posteriormente uma cisão entre os que ficam ligados à psicologia e à psicanálise, virados essencialmente para o ensino especializado; e aqueles que defendem uma prática autogestionária.

O GFEN na actualidade

Foi nos anos 60-70 que se assiste a uma redefinição do seu campo de acção. Partindo da experiência de um conjunto de escolas do 20º bairro (arrondissement) de Paris, e graças ao trabalho desenvolvido pelo casal Bassis, o GFEN acaba por se definir como sócio-construtivista.
O jovens constrói o seu saber em confronto com o outro. Ele desenvolve acções que lhe permite apreender o sentido daquilo que ele próprio aprende. A realização de sessões de aprendizagem é feita mediante uma fase de questionamento colectivo, e uma outra de pesquisa individual, que convergem depois em colocar em comum as respectivas experiências através da confrontação de ideias. O importante não é tanto o resultado, quanto a tentativa.

A actual GFEN resume o seu programa e o seu desafio com um lema: todos capazes, todos investigadores, e todos criadores. Quem se reclama do GFEN apoia-se numa metodologia baseada em:
- tentativas de auto-socio-construção em todos os domínios
- projectos de alunos que mobilizam os esforços e dão sentido às aprendizagens
- os conselhos de alunos que gerem a vida colectiva, e estabelecem as regras de vida.


As 3 correntes apoiam-se em instituições, no sentido dado ao termo pela Pedagogia Institucional - caderno de acções, conselho, projectos, lugar à palavra, afixação das tarefas e seu tempo, regras de vida, tomada de decisões, organização cooperativa, trabalho de grupo e individual, debates, investigação e ensaio, direito ao erro, respeito por todos – e inspiram-se em trabalhos da pedagogia, da sociologia e da psicologia. Mas não deixam de ter importantes diferenças quer no seu historial, nas suas respectivas definições ( escola activa, moderna ou nova; centro de interesses, projectos) quer nas suas prioridades.

Importante é não esquecer o contexto histórico em que se enquadram estes movimentos a fim de não se perder de vista as implicações destas pedagogias no ambiente social e político envolvente. Não é certamente por acaso que todos os grupos da Educação Nova se referem à cidadania e às implicações sociais que estão subjacentes às suas propostas. A isso também não é estranho todos os movimentos que apostam na cooperação tais como o OCCE, os CEMEA, as associações e redes de cidadãos, as universidades populares, escolas experimentais e alternativas.

Os pressupostos

A educação nova desenvolve as suas práticas com base em pressupostos, assim como em determinadas representações sobre a educação, o seu papel e o seu funcionamento.

Um pessoa em construção

A criança não chega à escola sem nada consigo. Ele já vêm impregnado por tudo o que viveu antes da escola e por tudo o que vive fora do tempo escolar, o que implica que o professor o considere como um ser em transformação, que se constrói todo os dias de maneira diferente.

As metodologias que o professor escolhe para ajudar a criança a construir-se são importantes, para que mais tarde ela possa ter confiança em si mesma, e seja capaz de investir toda a sua individualidade nas tarefas solicitadas sem receio de fracasso.
«A escola deve ser um meio protegido em que as crianças constroem relações de qualidade com as outras crianças e adultos. Quando se sentem reconhecidos, tomam consciência que se vão tornando cada vez mais adultos, e vão aprendendo, as crianças vão ganhando confiança neles próprios e logo experimentam o prazer de virem à escola»
Tudo isso implica que no grupo educativo e na escola existam adultos responsáveis que aspiram a formar «indivíduos capazes de inovar em lugar de travar o passo às novas gerações, e com espírito inventivo e criador, verdadeiros descobridores».

Princípios de base são comuns a todas as Pedagogias Novas: reconhecer cada crianças como um pessoa; dar a cada criança espaço e o reconhecimento que ela tem necessidade para se desenvolver; permitir à criança ser responsável e actor da sua vida em torno da comunidade educativa.

No grupo educativo ( na turma, por exemplo) deve haver um espírito que permita às crianças de se construir a si mesmas, através de um percurso pessoal, na medida em que cada qual evolui de modo diferentes segundo o estádio em que se encontra (conferir Piaget). A crianças deve ter a possibilidade de aprender a aprender de forma a que a construção da criança e do saber se façam ao mesmo tempo. Isto significa que o professor deve adaptar regularmente os saberes que pretende que a criança construa, permitindo que a criança se situe na sua construção e no seu desenvolvimento individual.

Todas as crianças são capazes

Trata-se antes de mais de fazer uma aposta no futuro e na capacidade das crianças. Todos sabem, desde as investigações de Bourdieu, que as desigualdades sociais constituem outros tantos factores de desigualdades escolares: as classes populares falham quando as classes favorecidas possuem os instrumentos conceptuais e culturais próprios da escola. A escola assenta numa violência simbólica e cultural sobre as crianças provenientes destas categorias sociais. Ao invés desta tendência, a Educação Nova defende uma lógica de sucesso para todos.

O que significa ter sucesso

Não significa avaliar as crianças segundo uma norma única mas levar em conta o seu trajecto e a sua evolução
. Se o critério do sucesso é o domínio da cultura burguesa, certamente que muitas crianças encontrarão à partida um handicap. Mas se o sucesso é saber posicionar-se enquanto individuo na colectividade, sabendo defender as suas ideias, com base na sua própria cultura, então está tudo por definir. Sublinhe-se ainda que a dimensão temporal, evolutiva, é importante. É preciso levar em conta a evolução da criança. Algumas delas adquirem certas noções menos rapidamente que outros, mas isso não tem grande relevância.

Os interesses das crianças

É preciso, em segundo lugar, partir das vivências das crianças, da sua cultura de origem, qualquer que ela seja ( estrangeira ou operária). Partir dos centros de interesse das crianças, valorizar os elementos que se considera interessantes
na cultura dos pais, associando estes à vida da turma (do grupo educativo) convidando-os regularmente, eis uma prática que permite a integração da criança e não a coloca em conflito com a instituição escolar. É completamente falso pensar que as crianças não tenha, nenhum interesse especial. Ora trata-se de as deixar emergir.

Uma aposta pascaliana

A aposta é sobre a capacidade de todos nós em melhorarmo-nos e disponibilizar os meios para que tal seja possível. Daí a necessidade de lançarmos sempre um olhar sobre a criança como alguém capaz.
Não o rejeitar ou o categorizar como alguém a quem não há mais nada a fazer. O uso de contratos de trabalho individuais, de projectos individuais ou colectivos, permitirão dar à criança a sensação de progressão e de sucesso. Para um será não incomodar os seus colegas; para outro, compreender a multiplicação; para um terceiro será conseguir exprimir-se melhor. Cada qual tem objectivos em função da situação em que se encontra. Claro que existem aulas colectivas para todos avançarem, mas nada de uniformizações. Além disso, actividades de remediação serão realizadas assim como se organizarão grupos de entre ajuda.

A criança constrói-se com os outros

A criança como o adulto tem necessidade do outro para existir, pois é graças à imagem que o outro me envia que eu posso construir-me a mim próprio, identificar-me como um indivíduo, e como um ser social.

Há vários modos para aprender a utilizar o outro para se construir. Na escola isso acontece no meio de grupo educativo. É vivendo com o outro que a criança compreende a necessidade de regras colectivas para reger o grupo. A criança aprende pouco a pouco, pela cooperação, a confrontar-se com o outro, depois a afirmar a sua pessoa ao mesmo tempo que aprende a trabalhar em comum para se enriquecer. O grupo permite aprender a falar, exprimir ideias, a dar opiniões, argumentar e mostrar o seu desacordo. É graças ao outro que a criança aprende a situar-se e a exercer a cidadania.

O papel do professor

O professor é o que institui a sua turma ( grupo educativo), as regras, o funcionamento geral cujas regras são definidas pelos alunos no seio das instituições: conselhos, ateliers, balanços, etc. Ele é o garante de um espaço privilegiado de encontro, de confrontação, de troca. A nível legal, ele é o responsável de tudo o que tem a ver com a segurança, a aquisição de conhecimentos definidos pelos programas. Ele não se desresponsabiliza, mas coloca o seu poder na colectividade de indivíduos. E, como indivíduo, tem uma palavra a dizer, a fazer valer. O que prescinde é de ser o dono da palavra relativamente às crianças.

As tentativas

O professor realiza tentativas para a construção do saber. Tem toda uma preparação atrás de si para poder mobilizar. Mas uma boa ficha de preparação não basta: a maneira como se comporta é fundamental. Deve criar as condições para cada um possa confrontar-se com a problemática em causa, as suas realidades e as suas contradições.
O ambiente de trabalho, a organização do espaço e dos tempos são o seu domínio, e todos sabem quanto o domínio do espaço e do tempo são um verdadeiro poder naquilo que induzem como relações sociais.

Dar sentido

O professor desempenha pois um papel no ambiente da turma. Quebrando relações de competição, instaurando relações cooperativas, fazendo emergir problemas, os não-ditos, e lançando-os para o debate, o professor coloca os seus alunos numa dinâmica de cidadania e de respeito para com os outros. As crianças não são colocadas no índex. Fazem parte integrante dos projectos da turma
. Aprendem de outra maneira, ao ver a utilidade daquilo que aprendem, e aplicando as aprendizagens na sua vida real, compreendem o sentido dos saberes adquiridos. O professor tem uma função a desempenhar ao nível da concepção do saber. Deve colocar a criança numa dinâmica de construção activa ( aprender por si, verdadeiramente, e não para agradar aos outros, ou por obrigação)
O professor avalia, com o aluno, o trabalho realizado, assim como as dificuldades encontradas. Encaram ambos as sequências a dar a partir daí. Também aqui o professor tem um importante papel ao encarregar-se de abrir as pistas desconhecidas da criança.

Transmitir valores

O professor é portador de valores e, mesmo quando ele deixa a escolha aos alunos, ele deve fazer valer o seu ponto de vista quando as discussões se virarem para soluções injustas de exclusão ou punições humilhantes. Se o professor segue práticas diferentes, é porque há outras concepções sobre o indivíduo e do seu lugar na sociedade. Ele não entende que as crianças reproduzam aquilo que ele condena. Se quiser fazer evoluir as coisas, ele procura durante as reuniões pedagógicas, de leitura, e nos grupos de opinião, elementos de reflexão e práticas que possa partilhar com os seus alunos.
Ele deve estar sempre em busca de novos elementos, ousar testá-los. Com certeza, que pouparia trabalho se refugiasse atrás de práticas com garantia de «sucesso». Toda a experimentação é desestabilizante e é ela que é portadora de ensinamentos. Ele questiona os apriorismos. Claro que é necessário tempo para que as inovações se institucionalizem e encontrem as suas regras de funcionamento. O ensino tem de aguentar-se, apesar das dificuldades e eventuais fracassos. Não se pode estar sempre a inovar.
O professor deve perturbar as crenças estabelecidas, mas nunca criar insecurizar os seus alunos.
Deve, no momento oportuno, fornecer as ferramentas que os alunos podem ou não aproveitar.

Construir saberes

Na construção do saber, o professor tem um lugar central, não porque tudo gira à sua volta, mas por causa da sua disponibilidade e apoio que pode dar.

Não se aprende o que lhes foi dito e repetido. É preciso testar, colocar questões, lançar-se numa pesquisa individual ou colectiva para que elementos novos possam ser integrados na nossa concepção do mundo.
O professor não tem solução a dar mas ajuda à problematização e fornece os instrumentos conceptuais e materiais para a sua resolução.

Aprender é inventar

Não se trata de transmitir directamente a boa resposta, mas favorecer as pesquisas, as trocas verbais e procedimentais, ajudar os alunos a colocar hipóteses, a testá-las, fazer observações, argumentar e explicar.

Ou seja, «eu procuro, logo aprendo



( texto publicado no Le Monde Libertaire de 17 de Junho de 2004)


Bernard Werber, escritor de ciência e da anarquia (A Revolução das Formigas)


Define a sua concepção de vida com base nos quatro ás :

-autodidacta, já que prefere aprender sozinho um saber que sente falta

-agnóstico, pois não tem nenhuma certeza sobre a existência de Deus, o que o leva a prosseguir a investigação

-autónomo, na medida em que não se sujeita a nenhuma doutrina ou filosofia, defendendo que cada qual deve ter a sua própria opinião a partir da sua experiência quotidiana

-anarquista, porque o homem deve ser livre e sentir-se responsável sem ter necessidade de governo, de polícia, de superstições ou de recompensas.

Bernard Werber faz parte de uma associação, Arbre des Possibles ( Árvore dos Possíveis) onde desenvolve os seus projectos de investigação e de divulgação científica. Nalgumas das suas obras de ficção encontramos um personagem, Isidore Katzenberg, que é considerado por muitos o seu duplo.

Consultar:

www.arbredespossibles.free.fr
http://www.bernardwerber.com/


Mais Info:

J'arrive à trouver une définition de ma démarche. Ce sont les 4 A. AUTODIDACTE: J'apprends tout seul, par la lecture des ouvrages de mon choix et en discutant avec des amis qui détiennent un savoir qui me manque. AGNOSTIQUE: je n'ai aucune certitude. Je pense que ce qui disent je sais qu'il y a un dieu, se trompent car il n'y a pas de preuve de son existence. Je pense que ceux qui sont athés et qui disent je sais qu'il n'y a pas de dieu se trompent aussi. Car il n'y a pas de preuve de son absence. En fait on n'en sait rien et c'est justement cette ignorance qui nous pousse à nous renseigner et à explorer. AUTONOME: je ne depend d'aucune philosophie, maitre à penser, groupe intellectuels ou dogme. Je crois que chacun doit se faire sa propre opinion a partir de son expérience personnelle qui n'est comparable à aucune autre. ANARCHISTE: l'idéal de l'homme est d'être libre, responsable de lui même. Sans qu'il ait besoin de gouvernement, de police, de superstitions, de récompenses ou punitions. Sans qu'il ait besoin qu'on lui indique ce qu'il doit faire. Mais cela demande un civisme et une éducation parfaite. Pour l'instant ce n'est pas possible. Mais il faut préparer le terrain pour qu'un jour (même si c'est dans mille ans), on y arrive

1996: Publication de "La révolution des fourmis". Je cherche une méthode pour réussir une révolution douce non violente, sans spectaculaire, pour changer les mentalités et sortir du système des castes. Internet me semble l'outil pour y parvenir. Je mets au point le concept de VMV (recherche de la voie de moindre violence) et d'Arbre des futurs. Plus le concept de "Infraworld", le jeu où les pièces sont douées du libre arbitre

Nos EUA são vendidos 16,6 milhões de carros por mês


Os carros tornaram-se um monstro de culto nos Estados Unidos da América.Por isso é que os Estados Unidos consomem tanta gasolina como o resto do mundo ( 550 mil milhões de litros de gasolina foram consumidos nos EUA em 2003), calculando-se que em cada ano que passa são consumidas mais 10 mil milhões de litros de gasolina.
A gasolina é barata: 10 cêntimos por litro (0,48 dólares o galão), nada comparável com o os 0,98 dólares de uma garrafa de água de meio litro..
Praticamente não existem carros utilitários. São todos carros imponentes que precisam de muito combustível e têm uma tonelagem absurda.
São os Chevrolets k1500 Suburban que consomem 18 litros aos 100.
São os Ford D-354, chamados King Ranch Virshon, com 425 cavalos de potência
São as pick-up Ford F-359, artilhadas …
E muitos deles são apenas para fazerem o trajecto de casa ao local de trabalho…

Biblioteca no centro social do Barredo ( Porto)

No centro social do Barredo, na Travessa do Barredp, freguesia de S. Nicolau, Porto, existe uma biblioteca pública ao serviço da comunidade, com livros para todos os gostos e computadores.
www.esbarredo.pt

Casa sacerdotal luxuosa prestes a abrir no Porto


O faustoso edifício que está em acabamentos e prestes a ser inaugurado numa zona central da cidade do Porto, na Rua D. Manuel II, em frente ao Palácio de Cristal, albergará a chamada Casa Sacerdotal do Porto.
O espaço é grandioso, de luxo e um verdadeiro exemplo de um hotel de luxo com 5 ( ou mais) estrelas pejada de suites. Pelo nome que lhe deram ( Casa Sacerdotal) conclui-se que se destina a sacerdotes reformados.

Quem veja o edifício não se contém de espanto tal é a grandiosidade do edifício, com todas as mordomias de um hotel para pessoas abastadas. Custa a acreditar que se trata de um edifício da Igreja Católica para os seus sacerdotes, mas é verdade.

Pudessem todos os reformados viver naquelas condições e não haveria a miséria e pobreza que se conhece e aflige tantos idosos.

Mas o pior é que um edifício igualzinho, com o máximo luxo e fausto, e para os mesmos fins, acabou de ser inaugurado em Braga !!!

E ainda pregam eles as virtudes da modéstia com a bíblia na mão («passa mais depressa um camelo pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino dos Céus»)

Vá-se lá fiar nos bispos e cardeais…

14.7.05

Bruno Latour: é preciso repensar a ecologia política

Entrevista a Bruno Latour

Para você tem sentido distinguir a ecologia científica e ecologia política?

Bruno Latour – Se por ecologia política se entender as associações de defesa da natureza e os partidos chamados «verdes», a resposta é evidentemente sim. Há uma enorme diferença entre os especialistas das terras amazónicas, os modelizadores californianos do clima e os amadores da pesca como as militantes da associação francesa Eaux et rivières. Agora se considerarmos que os temas estudados – terras, climas, poluição, recursos de peixes – são comuns, a diferença já não é tão necessária, uma vez que é evidente que todos debates e problemáticas carecem de todas as formas de ecologia que acabam por se ligar. No meu entender, o que é necessário é redefinir os termos «ecologia», «política» e «científico».

No seu livro «Políticas da Natureza» propõe reconsiderar a questão da ecologia política porque julga que ela tem sido mal colocada. De forma algo provocadora, você parece que defende que ela não tem propriamente como objectivo a defesa da natureza. Porquê? O que é que então ela pretende?

Bruno Latour – Não, não é uma provocação, mas uma evidência : a natureza não é um ser que se encontraria no mundo – ou antes, na qual nós, os humanos, teríamos de nos inserir. A natureza ( toda a história das ciências, das mentalidades e todas a antropologia nos mostra isso) é um modo histórico de pensarmos as nossas relações com os objectos e relações políticas entre nós. Como Philippe Descola mostra num livro que será ditado no próximo Outono, «La Nature des cultures», a maior parte das civilizações não conhecem ou não têm necessidade da noção de natureza. Esta noção só emerge no século XVII como um meio de definir a matéria, as leis do universo e um certo vazamento das actividades políticas. Tal corresponde esquematicamente ao empirismo dos filósofos como John Locke. Esta definição da natureza supõe que existiria, para além da vida política, uma espécie de tribunal de apelo para o qual se poderia apelar para arbitrar os conflitos intermináveis entre os humanos. Isso é muito perigoso pois confere-se aos factos estabelecidos pelas ciências exactas o poder de curto-circuitar a vedação necessária à vida pública. A natureza Seia um meio de curto-circuitar a política. Quando a ecologia política se começa a formar durante o século passado da natureza , ela reutiliza esta definição ( que é preciso «salvar», em vez de a «dominar») sem repensar ou sem se aperceber que ela foi feita, desde o início, para tornar mais difícil a abordagem das controvérsias que os humanos mantêm entre si a propósito das coisas que lhes dizem respeito. É este reemprego, este erro de casting se se pode dizer, que eu chamo, citando Karl Marx, a «doença infantil da ecologia». Nenhuma provocação, portanto. O que é surpreendente, pelo contrário, é ver como os partidos verdes se definem relativamente a certo tipo de objectos – os antigos seres que pertencem à natureza modernizadora: os campos, as vacas, os pássaros, etc – quando eles têm o meio mais poderoso para modificar todas as relações entre humanos e não-humanos, mas com uma outra definição das ciências ( sociais, em especial a economia, mas também as ciências «naturais») e da política. Ecologizar as práticas, como diz Isabelle Stengers, nada tem a ver com o «ocupar-se das coisas da natureza» ou o de «salvar a terra mãe». É toda uma renovação tão profunda da vida pública, tal como foi o marxismo no seu tempo.

Porque é que a ecologia política nos conduz a repensar a elação da democracia com as ciências?

Bruno Latour – É preciso distinguir a prática das ciências – instrumentos, laboratórios, experiências, colecções – e o uso político de uma certa teoria de conhecimento produzida pelos empiristas e seus seguidores. Enquanto prática, as ciências têm uma «ecologia» muito complexa que se começa a conhecer melhor. Nada disso tem a ver com o uso que lhe foi dado quando se começou a dizer: «A democracia é para os humanos, mas os factos, os objectos, as coisas são para as ciências».Esta distribuição de poderes –porque se trata de poderes de repartição de tarefas – torna muito difícil o exercício da democracia. Torna-se pois difícil cortar o cordão entre a prática das ciências e a filosofia do conhecimento que, de algum modo, as raptou para suspender o trabalho do que designo por «composição» política.

Rejeitando a clivagem entre a esfera política e a esfera científica, voc~e opõe-se ao cientismo e à polícia dos experts. Qual deve ser então o papel dos cientistas nas decisões políticas?

Bruno Latour - Os experts ( especialistas) não são investigadores. O expert é um ser híbrido, monstruoso, encarregado de fazer simultaneamente a pesquisa, mas sem a dura escola da controvérsia sábia, assim de explorar consensos, sem no entanto passar ela dura escola da composição política. Tornamo-los muito infelizes ao mergulhá-los numa espécie de injunção paradoxal. Creio que seria preferível retirar-lhes a função de expert e modificar completamente a repartição de poderes ( é preciso não esquecer que se trata de poderes). A minha solução consiste em fazer colaborar para 4 tarefas diferentes quer os sábios e os políticos, quer os militantes e eleitos ( a que acrescentaria os artistas e os juristas): essas 4 tarefas são as da perplexidade, consulta, hierarquia e instituição. Não há aí nada de extravagante. Se repararmos nós somos no nosso apartamento simultaneamente bombeiros, electricistas e pintores trabalhando tudo dentro da mesma casa. Ora é exactamente isso que se passa com a ecologia. Seria errado dizer aos bombeiros para tratare, de uma casa, e aos pintores de outra. Não teria sentido. Não há investigadores sobre factos, e políticos sobre valores. Se repararmos nas terras, nos peixes, nos climas, nos rios, todos eles são objectos comuns que se nos atravessam, e devemos aplicar as diversas competências destes colectivos ( os militantes não têm as mesmas competências que os especialistas de ecotoxicologia, nem as dos eleitos têm as dos pescadores) às mesmas tarefas.

Para você será necessário repensar os colectivos de forma a incluir os não-humanos nas discussões ecológicas e nas tomadas de decisões?

Bruno Latour – Mas Há mil maneiras para se fazer isso. Acabo de abrir na Alemanha uma grande exposição sobre «A coisa pública» («Making Things Public», ver
http://makingthingspublic.zkm.de/ ). Christelle Gramaglia e Jean-Pierre Le Bourhuis fizeram lá uma instalação muito significativa: de um lado temos as discussões nas comissões locais de água acerca da poluição nos rios; aí só encontramos os humanos «clássicos» se assim posse dizer, mas o que fazer para saber se o que é dito do rio é exagerado, urgente, superficial ou alarmista? Ora é preciso que para além dos humano, se faça «falar» o rio. Existem pequenos crustáceos que servem aos cientistas de sentinelas para avaliarem sobre o estado do rio na condição de os mantermos e torná-los capazes de se exprimirem. Ora se estes crustáceos se encontram em condições de entrar nas comissões em que se discute o futuro do rio, então porque havemos de separar os humanos políticos de um lado, e os não-humanos apolíticos do outro. Uma tal separação é absurda.
Outro exemplo da mesma exposição é realizada por Mauz e Didier Demorcy sobre a política de reintrodução do lobo nos Alpes: se olharmos para a paisagem bucólica, ela corresponde à antiga natureza, se assim se pode dizer, isto é, à que parece estar «fora» da política. Mas se olharmos mais de perto apercebemo-nos que cada elementos da paisagem ( o parque para os carneiros, a distribuição dos chalets, etc) encontra-se inteiramente dependente das controvérsias sobre a coabitação entre espécies.
Ora se há um problema de coabitação generalizado no planeta, talvez seja tempo dos politólogos, os sociólogos… se aperceberem que as ligações entre humanos e não-humanos significam estarmos na mesma sociedade, ou no mesmo colectivo, como eu costumo chamar. A política gira à volta das «coisas», e isso é a ecologia, pouco importa que seja científica ou política, uma vez que as competências de uns e ouros se devem aplicar sobre os mesmos objectos, ou antes, sobre as mesmas temáticas. Lembremo-nos que conservamos na palavra «república» esta sabedoria que não é nova: na «república» existe a partícula «res» que quer dizer coisa. Ora a ecologia não faz mais que nos recordar esta simples realidade, que os politólogos se tinham esquecido: que as coisas são estudadas pelos sábios, modificadas pelos tecnólogos, assumidas pelos militantes e apreciadas pelos amadores, e todo esse bazar deve tornar-se público. Mas para compor o público à volta destas coisas, é preciso mudar a nossa filosofia e as nossas ciências sociais


Bruno Latour é filósofo e sociólogo. É dos mais importantes nomes da sociologia das ciências.
Bibliografia:
La Science en action.Introduction à la sociologia des sciences, 1989
Politiques de la nature. Comment faire entrer les sciences en démocratie, 1999
Un monde pluriel mais commun, 2003


( entrevista retirada do hors-série nº 49, Luillet-Août 2005 da revista Sciences Humaines)

Cronologia da tomada de consciência ecológica (algumas datas)

1972 – pela primeira vez é posto em causa o princípio do crescimento ilimitado enquanto modelo de crescimento. O relatório «The limits of growth» (os limites do crescimento) é o resultado da reflexão de um grupo conhecido sob o nome de «Clube de Roma»
Neste mesmo ano é criado o partido verde na Nova Zelândia, o Values Party

1973 – Primeira crise do petróleo, na sequência do embargo da OPEP. É criado nesse ano o PNUE ( Programa das Nações Unidas para o Ambiente), fixando a sua sede em Nairobi (Quénia)

1974 – O francês René Dumond é o primeiro candidato ecologista a apresentar-se a umas eleições presidenciais, tendo recebido 337.800 votos.
Dois investigadores descobrem que os CFC são responsáveis pela diminuição do ozono na estratosfera.

1976 – Explosão numa fábrica química em Seveso.A libertação de cloro e dioxinas envenenam cerca de 700 pessoas mas sem fazer vítimas mortais.
A Unesco cria uma rede de reservas da biosfera

1977 – Grande manifestação antinuclear em França contra a central nuclear Superphénix. Dos enfrentamentos com a polícia resulta a morte de Vital Michalon.
Aprova-se uma moratória antinuclear no Quebeque.

1978 – É criado no Canadá o primeiro Ministério do Ambiente
A Áustria decide abandonar a energia nuclear.
O barco Amoco Cadiz larga 200.000 toneladas de petróleo nas costas da Bretanha

1979 – Convenção de Bona sobre a preservação das espécies migratórias.
Realização da conferência mundial sobre o clima em Genebra
Acidente nuclear em Three Mile Island ( nos Estados Unidos) leva à suspensão da construção das centrais nucleares naquele país.
S. Francisco de Assis é indicado pela Igreja Católica como patrono dos ecologistas

1980 – Criação do Partido verde alemão.
A ONU proclama a década da água potável
A UINC e a WWF referem-se pela primeira vez à noção de «desenvolvimento sustentável»
Resolução da Comissão baleeira internacional no sentido de reduzir as cotas na pesca à baleia

1981 – A plataforma petrolífera Itoc One despeja durante longos 5 meses mais de 700.000 toneladas de petróleo no Golfo do México.
Realização pela ONU de uma Conferência sobre as fontes de energias renováveis

1982 – A Assembleia Geral das Nações Unidas adopta a Carta Mundial da Natureza

1984 – Uma fábrica de produtos químicos em Bhopal ( Índia) provocam a morte de milhares de pessoas
Resolução da Comissão económica da ONU: reduzir 30% das emissões de dióxido de enxofre

1985 – Realização pela ONU de uma Conferência sobre a protecção da camada de ozono.
Conferências da OCDE sobre resíduos perigosos em Basileia, e sobre chuvas ácidas em Paris.

1986 – Incêndio e explosão na central nuclear de Tchernobyl
Em Basileia 30 toneladas de produtos químicos são lançados no Reno
Interrupção total da caça comercial às baleia

1987 – A Comissão mundial sobre o ambiente e o desenvolvimento publica o Relatório Brundtland « O nosso futuro pertence-nos»
Assinatura por 24 países do Protocolo de Montreal sobre a protecção da camada de ozono. O seu objectivo é reduzir 50% das emissões de CFC até 1999

1988 – Conferência da ONU sobre o ambiente em Oslo.
Inundações no Bangladesh com 25 milhões de deslocados. A desarborização dos Himalaias é apontada como causa responsável.
Realiza-se em Hamburgo um Congresso Internacional sobre o clima e sobre as consequências das catástrofes climáticas nos países desenvolvidos.

1989 – O petroleiro Exxon Valdez verte 40.000 toneladas de petróleo nas costas do Alaska.
Os Verdes recolhem 10.000.000 votos nas eleições europeias e são eleitos 30 deputados ecologistas para o Parlamento de Strasbourg.
Realização de uma conferência sobre poluição atmosférica em Noordwijk (Holanda) com o objectivo de estabilizar as emissões de CO2 até ao ano 2000.
Declaração de Vancouver acerca da sobrevivência no século XXI

1991 – Protocolo de Madrid. 26 países decidem que durante 50 anos não haverá desenvolvimento no Antárctico.

1992 – Cimeira da Terra no Rio de Janeiro. Assinatura da Convenção sobre a Diversidade biológica.

1994 – A Convenção sobre as mudanças climáticas do Rio é ratificada por 50 países.
Convenção em Paris sobre a desertificação.

1997 – Conferência do Conselho da Terra para analisar as decisões tomadas na Cimeira do Rio.
Realização do Rio+5, uma sessão especial da ONU sobre o ambiente.
Cimeira de Quioto sobre as mudanças climáticas

1998- Conferência de Paris sobre água e o desenvolvimento durável
Conferência de Buenos Aires sobre as mudanças climáticas.

2000 – Directiva comunitária da EU tendente a uma harmonização da gestão da água na Europa

2002 – Terceira Cimeira da Terra e Joanesburgo, na África do Sul

2004 – A Rússia ratifica o protocolo de Quioto, permitindo assim a sua entrada em vigor.
Adopção de um plano de acção europeu em matéria de agricultura biológica: 21 pontos são adoptados a favor de uma política mais favorável à agricultura biológica

2005 – A UNESCO organiza em Paris uma Conferência Internacional sobre a biodiversidade.
Em 16 de Fevereiro entre em vigor e tem força de lei o Protocolo de Quioto para os 128 países que o ratificaram.

(esta cronologia está longe de ser completa, mas serve para acompanharmos o processo de sensibilização e tomada de consciência das questões ligadas ao ambiente)

Indicadores do desenvolvimento sustentável


Como construir os indicadores do desenvolvimento sustentável

(Nota: um indicador é uma variável que serve para dar conta de uma realidade.
Já um índice faz a síntese de vários indicadores
)

Uma política de desenvolvimento sustentável não pode fazer-se sem indicadores.
Ora para os autores da Agenda 21 – o programa que resultou da Conferência do Rio de 1992 – os indicadores existentes ( Produto Nacional Bruto, Produto Interno Bruto, etc) são incapazes de avaliar a sustentabilidade de uma política de desenvolvimento. Na continuação dos indicadores sociais que irromperam no domínio das políticas públicas em meados dos anos 60, a procura de indicadores de desenvolvimento regressou em força nos últimos tempos.
Entre as tentativas visando superar ou, pelo menos, completar o PIB, existe uma com certo sucesso. É o índice de desenvolvimento humano (IDH) proposto pelo Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento (PNUD). As outras ficaram entre os iniciados e ainda não encontraram legitimidade para um eventual uso.

Quais são esses indicadores?

IDH (índice do Desenvolvimento Humano) combina 3 indicadores de base: a esperança de vida à nascença, o rendimento e o nível de educação

Índice de bem-estar económico sustentável (índex of sustainable economic welfare, Isew) é um índice monetário que corrige o PIB tendo em conta as contribuições negativas ( custos sociais e ambientais ligados às desigualdades de rendimentos, à poluição, aos ruídos sonoros, às perdas nos ecossistemas naturais; à diminuição dos recursos não-renováveis; à erosão da camada de ozono, etc) e positivas ( trabalho doméstico e despesas públicas de educação e de saúde)

Indicador do progresso real (genuine progress indicator, GPI) derivado do Isew, mas ao qual junta as contribuições positivas dos beneméritos, dos bens de consumo sustentáveis e das infraestruturas de transportes, e que subtrai os custos suplementares como os das fracturas familiares, do desemprego, e perda dos tempos livres, etc

Indicador do bem-estar económico e social de Lars Osberg e Andrew Sharpe que consiste numa média ponderada de 4 indicadores sintéticos sobre os fluxos de consumo, as riquezas (económico, humano e ambiental), as desigualdades e a insegurança económica

Índice de bem-estar humano (human weel-being índex, HWI), proposto pelo economista Robert Prescott_Allen, composto de indicadores relativos à saúde e à vida familiar (estabilidade da família), ao rendimento e grau de satisfação das necessidades de base, à economia, ao nível de educação e meios de comunicação, direitos políticos e cívicos, paz ou conflito armado, criminalidade e equidade

Cada um destes indicadores combina 4 tipos de abordagem: o primeiro consiste em dar uma parte variável aos 3 pilares do desenvolvimento sustentável ( o económico, o social e o ambiental), o segundo diz respeito aos recurso e a sua duração; o terceiro é centrado sobre o humano, e reflecte o bem estar; o quarto define as normas e os procedimentos que permitem avaliar toda acção social a respeito do desenvolvimento sustentável.

Histórias de uma trabalhadora na Era de Informação


Quando da implantação em massa de robots e de computadores nas actividades produtivas em geral, os optimistas consideraram que os efeitos seriam positivos para os trabalhadores. A realidade, no entanto é muito diferente.

O surgimento das máquinas ferramenta de controle numérico computorizadas, robots e redes de computadores nas industrias, gerou muitas expectativas. As pessoas mais optimistas, desvalorizando a função objectiva de uma empresa capitalista, logo viram apenas sinais positivos.
Seguiu-se uma onda de especulações sobre como o futuro dos trabalhadores seria radioso doravante. As máquinas iriam substituir o trabalho humano penoso e enfadonho. Os trabalhadores passariam a exercer funções muito mais criativas, em ambientes mais agradáveis, com horários de trabalho menores e mais flexíveis e, sobretudo, melhor remunerados.
Isso tudo seria possível pelo vertiginoso aumento da produtividade que, como todos “sabem” sempre reverte em benefício de… toda a sociedade! O elementar facto de que os ganhos em função desses aumentos de produtividade são apropriados pelas empresas, e não pelos empregados parecia ser um mero detalhe de pouca importância.
Para os economistas, administradores de empresas e profissionais de informática, a realidade logo ficou clara. Os objectivos da automação eram respectivamente: cortar o maior número possível de empregados e extrair o máximo de trabalho da mão-de-obra restante nas unidades industriais.
Mas, para se alcançar esses objectivos era necessário um novo sistema de gestão, capaz de compatibilizar os novos equipamentos com os recursos humanos. A isso se prestavam perfeitamente os conceitos desenvolvidos no Japão, mais especificamente, o sistema concebido pelo engenheiro Eiji Toyoda e o seu especialista em produção Taichi Ohno nas instalações da Toyota.
Dessas técnicas, hoje bastante conhecidas, nasceram os processos de reestruturação e reengenharia da produção, largamente utilizados em todo o mundo. Dele também deriva o conceito de produção “enxuta”, das vantagens da terciarização e da flexibilização das relações de trabalho. A este novo paradigma, seguindo Manuel Castells, chamamos de capitalismo informacional.
As consequências da utilização combinada das novas tecnologias de informação e telecomunicações e dessas técnicas de gestão de pessoal podem ser brevemente sintetizadas:
1) A automação elimina empregos, em quantidade assustadora, nos níveis intermediários da hierarquia. Os empregados “sobreviventes” aos processos de reengenharia, tanto os operários quanto os executivos, passam a serem pressionados a aceitar aumentos progressivos de sua carga de trabalho.
2) Embora o desemprego possa não se manifestar nos níveis mais baixos, as condições de trabalho em geral deterioram-se. Os trabalhadores são obrigados a um ajustamento às velocidades de produção dos robots, muito mais exigentes do que a linha de produção “taylorista/fordista” tradicional.
3) O nível de instrução dos trabalhadores decresce continuamente com o aumento da “inteligência” das máquinas e das interfaces “amigáveis”.
Para mostrar como isso ocorre na prática, citaremos o depoimento de uma trabalhadora que passou dois anos a trabalhar no Japão, o berço dessas novas ideias e de longe o país que mais as utiliza.

Escolhemos a narrativa dessa pessoa por duas razões:
Em primeiro lugar porque sua experiência de trabalho foi junto a linhas de produção automatizadas e executando as mesmas tarefas que seus colegas japoneses, e não como acontece com muitos imigrantes que se aventuram nos EUA e Europa, que acabam executando tarefas específicas, justamente onde a nova automação está quase ausente (restaurantes, hotéis, serviços de manutenção, limpeza, etc).
A segunda razão é que se trata de pessoa com um alto nível intelectual, tanto mais que as suas narrativas são extraídas de um trabalho académico da sua autoria, cujo objectivo é exactamente uma análise do “toyotismo”.(1)
Segundo reconhece a autora: “A automatização é considerada o primeiro elemento desse modelo. Trata-se da utilização de máquinas capazes de parar automaticamente quando surgem problemas. Assim o trabalhador que até então era treinado para desenvolver o seu trabalho numa única máquina pode ser responsabilizado por várias, o que diminuiria a quantidade de trabalhadores necessários numa linha de montagem, onde a autora teve experiência de trabalho, como relata a seguir”.
A narração da autora inicia-se, como era de se esperar, pelas dificuldades do próprio processo de deixar o seu país e enfrentar uma realidade totalmente desconhecida, o Japão. Note-se que o novo capitalismo informacional não reduz significativamente a procura de empregos de baixa qualificação.
A autora relata que a certa altura, “a ala feminina do grupo é submetida a um teste com trinta cálculos matemáticos, com a informação de que quem resolvesse todos os trinta cálculos em cinco minutos seria indicada para a vaga daquele dia. A autora conseguiu resolver vinte e oito dos cálculos no tempo que foi estipulado e por isso foi levada a uma fábrica da Suzuki na cidade de Kosai para uma entrevista”.
Isso levar-nos-ia a concluir que se valoriza bastante o nível de ensino, principalmente a preparação básica em ciências exactas, já que o trabalho é junto a equipamentos altamente sofisticados. Mas, após repetir o teste na fábrica da Suzuki, a autora acaba por ser recusada, e o motivo foi que:
“a fábrica não aceitava secretárias, enfermeiras e professoras, pois, a função (trabalhar no sector de reposição de peças) exigia que se desse 15 mil passos por dia, e para a empresa se certificar que o funcionário estava dentro das normas era colocado um marcador na perna – na altura do tornozelo – e segundo eles, pelo porte físico, ela não conseguiria desenvolver a função”.
Perguntar-se-á então: e o teste de matemática não serviu para nada? É simples. Uma pessoa capaz de realizar cálculos sob pressão (trinta cálculos em cinco minutos), está apta a tomar decisões simples, como escolher e contar peças codificadas, por exemplo, na velocidade exigida pelas linhas de montagem dirigidas pelos robots.
Prossegue a autora: “No dia seguinte, candidatei-me a outra vaga, desta vez uma fábrica que produzia fechaduras para carros da Mitsubishi. Ao chegar recebo o uniforme e fui levada à linha de montagem. Não houve nenhum treino, apenas orientações de como realizar a tarefa”.
Devemos notar que isso seria impensável numa fábrica tradicional. Além disso, a autora “durante os primeiros dias trabalhou muito preocupada em dar conta da produção exigida (950 peças por dia), as dificuldades eram grandes, pois, jamais havia visto ou executado tal função”. Como é possível que uma indústria espere que um funcionário atinja metas ambiciosas de produção sem nenhum treino e sem “jamais ter visto ou executado tal função?”
A resposta está em que, como dissemos, as novas tecnologias estão longe de necessitar de empregados com melhor nível cultural e mesmo qualquer experiência anterior. As “interfaces amigáveis” permitem que tarefas complexas sejam executadas por pessoas sem nenhuma qualificação.
Prossegue a autora: “Ao terceiro dia de trabalho, a tentativa para tentar conseguir acompanhar o ritmo das máquinas, criou-me problemas de saúde o que obrigou a ecarregada a levá-la para a enfermaria, sob o olhar reprovador do chefe e dos colegas de linha. Neste dia ficou a saber que uma colega havia tentado suicidar-se, tão grande era o sofrimento pelo qual passava, pois além da adaptação ser difícil, havia a agravante de estar no emprego já por vários dias sem confirmação de trabalho”.
Isso comprova o que também afirmamos: O segredo da espectacular “produtividade” do capitalismo informacional não está somente na tecnologia mas sim na sua combinação com técnicas, às vezes brutais, de exploração da mão-de-obra.
Depois disso, a autora conseguiu transferir-se para outra fábrica e ao cabo de um mês estava a trabalhar num departamento de controle de qualidade. Devemos lembrar que nas fábricas tradicionais, esse era um cargo altamente qualificado, mas a autora relata uma realidade bem diferente:
“As peças eram dispostas num aparelho que através de um computador verificava a sua perfeição ou seu o defeito. A actividade era tão mecânica que apesar do entendimento da língua japonesa ser pouco e de informática ainda menos, a autora foi capaz de realizá-la sem maiores problemas”.
Ou seja, o “controle de qualidade” na realidade era feito pelo computador e a trabalhadora limitava-se a observar os resultados num monitor de vídeo. Resumindo, ela não passava de um auxiliar humano da máquina. Nas suas conclusões a autora nota que:
“A experiência como operária subcontratada tornou possível ver bem de perto que a única diferença entre os trabalhadores, ainda que isso seja despercebido para muitos deles, são as mercadorias que produzem. Não fosse assim, não haveria diferença de uma fábrica para outra. Em todas que a autora teve oportunidade de trabalhar ou apenas conhecer, como era de se esperar, as actividades sempre seguiam a mesma linha, extremamente repetitivas e exaustivas, onde o trabalho se encontra totalmente alienado”.
Isso ocorre porque as novas tecnologias são flexíveis. Ao contrário das máquinas mais antigas, os robots e computadores podem ser programados para executar tarefas diferentes sem alterar praticamente nada as suas características. O mesmo acaba por acontecer para as pessoas que trabalham com eles.
Com esse relato, podemos passar a ter uma visão prática do que até então abordávamos apenas em teoria. Longe do paraíso das jornadas de trabalho flexíveis e do trabalho criativo e de alto nível intelectual, a nova realidade da classe trabalhadora pode ser sintetizada na visão da fabrica do futuro como descrita por Fabio Kazuo Ocada, citado pela autora: “[...] por todos os lados sirenes piscam e os ruídos ensurdecedores da estrutura de metal em funcionamento misturam-se com a música sintética [...] A primeira impressão chega a lembrar um sofisticado parque de diversões, a segunda impressão sugere a imagem do inferno”. (2)
Notas:
(1) FUTATA, Marli Delmônico de Araújo. Breve análise sobre o toyotismo: modelo japonês de produção – Revista Espaço Acadêmico – Nº 47 – Abril de 2005.
Disponível em:
http://www.espacoacademico.com.br/047/47cfutata.htm

(2) OCADA, Fabio Kazuo. Trabalho, sofrimento e migração internacional: o caso dos brasileiros no Japão. In: ANTUNES, Ricardo e SILVA, Maria Aparecida Moraes. O avesso do trabalho. 1ª. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
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(texto retirado da net)

A maior empresa do mundo é a Wal-Mart


A revista Fortune publicou a sua lista anual das maiores empresas mundiais.A tabela ordenada com base nas rceitas do ano anterior conta com 176 empresas norte-americanas. Nas 10 maiores há 4 petrolíferas, 4 fabricantes de automóveis, um retalhista e um conglomerado, a General Motor.
A Wal-Mart fechou o ano de 2004 com receitas de 287,9 mil milhões de dólares, e um lucro de 10,26 mil milhões de dólares.

71% dos alunos do 9ºano chumbaram a Matemática


Saíram os resultados do novos exames do 9º anos e os dados não podiam ser mais reveladores: 71% dos alunos do 9ºanos (num total de 84.980 alunos) reprovaram à disciplina no exame de Matemática, mas como a nota de exame tem um peso de 25% a maior parte os alunos passou para o ano seguinte( ou seja, 74% recebeu a aprovação)
Na disciplina de Português 77% dos que fizeram exame obtiveram classificação positiva.