10.6.05

A Criança e o Estado




Introdução

O tema que nos propomos tratar ao longo deste trabalho são as relações que o Estado tem mantido com o mundo das crianças.


Metodologias

No presente trabalho exploram-se algumas pistas de acesso ao estudo multidisciplinar entre as ciências sociais, fornecidas pelo discurso jurídico sobre a criança e que nos obrigou a lançar mão de algumas metodologias sociológicas e outros tantos instrumentos teóricos fornecidos por concepções macroscópicas em domínios vários que vão desde a Retórica, a Sociologia do Direito, a Antropologia do Direito, a Filosofia do Direito e do Estado, até à Teoria Sociológica e às Sociologias Especializadas.
João Ferreira de Almeida e J. Madureira Pinto (1976) distinguem técnicas documentais e não documentais em ciências sociais. Nas primeiras separam as de teor clássico, que se caracterizam por uma análise qualitativa em profundidade, das técnicas modernas, de características quantitativas e extensivas cujo objecto de estudo são um vasto campo de estudo. Aquelas são alvo de críticas cerradas pela sua tendencial subjectividade, pelo que são habitualmente complementadas pelas segundas, que revestem normalmente duas modalidades: a semântica quantitativa ( estudo do vocabulário por processos estatísticos) e análise de conteúdo (estudo, já não de vocábulos, mas de significações e de materiais significantes em geral). Note-se que a quantificação não garante só por si a validade da pesquisa, nem se pode desconhecer as virtualidades da análise qualitativa. A análise do conteúdo veio a ser definida como uma “técnica de investigação que permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados para o seu contexto” ( Krippemdorf citado em Vala, 1986), o que exige a maior explicitação de todos os procedimentos utilizados. “O material sujeito à análise de conteúdo é concebido como o resultado de uma rede complexa de condições de produção, cabendo ao analista construir um modelo capaz de permitir inferências sobre uma ou várias dessas condições de produção. Trata-se da desmontagem de um discurso e da produção de um novo discurso através de um processo de localização-atribuição de traços de significação, resultado de uma relação dinâmica entre as condições de produção do discurso a analisar e as condições de produção da análise” (Vala, 1986).
Recorde-se que a questão metodológica nas ciências sociais não é das mais fáceis desde o declínio do positivismo, o que é tanto mais paradoxal quanto é certo que tinha sido o próprio positivismo-empirismo que mais tinha aprofundado a matéria. A reflexão metodológica encetada então conduziu à distinção entre campo teórico substantivo, campo analítico e campo de observação; ao pluralismo metodológico ( uso articulado de métodos qualitativos e quantitativos, e das várias técnicas de investigação); e ao exercício da reflexividade ( “ a ciência torna-se reflexiva sempre que a relação «normal» sujeito-objecto é suspensa e, em seu lugar, o sujeito epistémico analisa a relação consigo próprio, enquanto sujeito empírico, com os instrumentos científicos de que se serve, com a comunidade científica em que se integra e, em última instância, com a sociedade nacional de que é membro”), com duas orientações distintas ( uma reflexividade mais subjetivista, e outra mais objectivista, e em que na primeira se procura tornar explícitos os pré-juízos, os valores do sujeito epistémico, como fazem W. Mills, H. Becker, G. Myrdal, A. Gouldner, Boaventura S. Santos, e em que na segunda se questiona já não o sujeito, mas os instrumentos teóricos que utiliza, como faz, por exemplo, Bourdieu, e muitos trabalhos sobre sociologia da sociologia). ( Santos,1989)
Será com estes parâmetros metodológicos que nos abalançamos a levar a cabo a análise das relações entre o Estado e a criança, mormente através do discurso legislativo que aquele tem produzido na última centúria. Dadas as características do presente texto não se cuida agora em aprofundar e esclarecer questões de metodologia. Esta secção serve apenas para dar alguma consistência científica a um trabalho a que se quer dar alguma seriedade e não apenas aos imperativos do dever académico cumprido.


O Estado



«Sem fé, sem lei, sem rei», era ssim que no século XVI o Ocidente falava dos povos indígenas, caracterizando desta volta a sociedade primitiva. Inversamente, toda a sociedade não primitiva teria um aparelho estatal (Clastres, 1974). Sociólogos e antropólogos têm demonstrado que existe poderes que não se confundem com os do Estado, sendo possível encontrar sociedades sem Estado, em relação às quais é estranho qualquer ideia da instituição de um poder político acima da sociedade. Óbviamente que tal facto não impedia que tais sociedades não desconhecem as noções de autoridade e de coerção, até pela razão simples de os respectivos líderes e chefes estarem revestidos de um prestígio, de um carisma e de dons especiais que se concretizava na irradiação de uma autoridade dificilmente contestada. Como quer que seja, certo é que as investigações antropológicas, etnológicas e históricas levam-nos à conclusão que o Estado nem sempre existiu.
A História tem mostrado como terá sido a génese do Estado moderno. Este, como poder político institucionalizado, começa a esboçar-se no seio da sociedade feudal do século XIII e XIV em reacção contra o poder senhorial e eclesiástico. Enquanto no regime feudal subsistiam vínculos e laços individualizados, a máquina estatal moderna assenta em instituições. Logo aí se pode descortinar a diferenciação entre a autoridade ( fundada na instituição) e o indivíduo que a exerce, que pode ser assim regularmente substituído sem lesão de maior para a conservação daquela. O Poder deixa de estar incorporado em individualidaes para se construir com base em estruturas jurídicas explícitas regulando as relações públicas e privadas. “No Estado, o Poder é institucionalizado no sentido em que é transferido da pessoa dos governantes que não mais o têm, para o Estado que se torna o único detentor do Poder” (Burdeau, 1970). Defende-se aqui uma concepção continuísta do Estado.
A edificação do Estado moderno é feita seguindo linhas evolutivas aparentemente dispersas, desde a institucionalização até à centralização do aparelho estatal, passando pela especialização dos próprios agentes e funcionários, até convergirem na emergência do Estado moderno e à transferência para o Rei dos diversos vínculos de natureza feudal.
Aparece então uma estrutura durável e soberana, a quem é outorgada a autoridade suprema, e que exclui toda a subordinação e a concorrência de qualquer autoridade potencial, assistindo-se à identificação de cada estrutura estatal a uma comunidade etno-linguística que lhe era subjacente, vindo a culminar no Estado-nação.
Para Maquiavel o princípe ( figura de Soberania ) tem uma relação de transcendência com o seu principado, está acima da lei, e a sua acção não tem limites morais a não ser os critérios de eficácia.
Já para Hobbes a teoria sa soberanis absoluta liga-se à ideia de um «contrato» ( visão contratualista do Estado ), concebido como forma de abandonar um «estado de natureza» insustentável e, assim, fundar voluntáriamente uma organização social.
O livre arbítrio do soberano é progressivamente substituído pela ideia de que a realidade social não é aleatória, devendo o soberano «ilustrado» conhecer as leis que regem os comportamentos das populações, pelo que as leis deixam de ser imperativos morais, mandamentos divinos, para se transformarem em leis científicas, em regularidades necessárias.
Henri Lefebvre, na sua conhecida obra “De l’État”, escreve: “O Estado realizou aquilo que nenhuma religião e igreja conseguiram fazer: conquistar o mundo, alcançar a universalidade, ou pelo menos, a generalidade, e assumir, tal como o mercado, a qualidade planetária”.
A concepção classista do Estado perspectiva-o dentro de um sistema económico dado - o capitalismo -, aparentemente separado da sociedade, podendo revestir-se de diversas formas, mas sempre indexado aos superiores interesses de uma classe, sem nunca perder aquela natureza classista apesar das vicissitudes históricas no transcurso da evolução socio-histórica. Na terminologia marxista o Estado e as superestruturas política e jurídica têm a função ideológica, e de controle formal, ajustada às exigências da classe social dominante, estando assim identificado com a racionalidade instrumental da infra-estrutural socio-económica. Neste quadro são conhecidas as teses funcionalistas (Ralph Miliband, Paul Sweezy) e as teses estruturalistas ( Poulantzas) sobre o Estado.
Claus Offe critica ambas as perspectivas por só examinarem as determinações externas à actividade estadual, e nenhuma delas tratar os mecanismos internos do Estado. O conceito que o cientista político alemão utiliza - os «mecanismos selectivos» - serve-lhe para identificar três funções básicas dentro do aparelho estatal: 1) selecção negativa, a fim de excluir sistematicamente da actividade estatal os interesses anticapitalistas; 2) selecção positiva, pela qual se selecionará a política que favoreça os interesses do capital no seu conjunto; 3) selecção de «mascaramento» para manter a aparência da neutralidade de classe da máquina estatal. Offe ocupa-se então em estudar o carácter contraditório que estes mecanismos vão assumindo. Demonstra, por exemplo, que muitas estruturas relevantes na selecção negativa ( tais como os rígidos procedimentos burocráticos, e as defesas constitucionais e ideológicas da propriedade privada ) são entraves para o desenvolvimento de mecanismos selectivos que garantam uma produção do Estado ao serviço dos interesses gerais do capital ( Wright, Gold, Lo, 1985).
Boaventura Sousa Santos identifica o Estado com o Pilar da Regulação no projecto sócio-cultural da modernidade, que é subdividido em três períodos: capitalismo liberal (onde se contrapões a sociedade ao Estado ); capitalismo organizado (onde se assiste ao aprofundamento e relacionamento do Estado com o mercado através da progressiva regulamentação dos mercados, o que acrescido com as intervenções várias dará origem ao designado Estado-Providência); capitalismo desorganizado ( onde a fraqueza externa do Estado motivada pela transnacionalização da economia e do capital, é compensada pela frenética actividade institucional e burocrática do Estado e do reforço do seu autoritarismo). O resultado é uma desregulação global da vida económica, social e política que, no entanto, sublinha aquele autor, na esteira de Offe, coexiste com uma atmosfera espessa de rigidez e de imobilidade ao nível global da sociedade ( Santos, 1994).
Julgamos mais que oportuna esta referência ao Estado pois somos da opinião que se torna imprescíndivel a elaboração de uma Teoria do Estado e da Educação na esteira do outros autores preconizam ( Morrow, Torres, 1997), e por arrastamento, uma qualquer abordagem acerca da criança não pode ser realizada sem a sua contextualização e o enfoque que a organização estatal reserva ao mundo infantil, sob pena de mutilação insustentável. A hipertrofia da função educativa do Estado moderno, conduzindo-o a tomar a iniciativa de dar resposta ao aumento da procura do ensino, além da sua instalação em muitos domínios da vida social, reforça ainda mais a necessidade de questionamento das relações entre o Estado e as crianças. Falar destas, do seu lugar na sociedade, da história da concepção social sobre a criança, sem se referir explicítamente à intervenção do Estado na matéria, dada a importância que este tem vindo a ganhar, seria certamente condenar a investigação sociológica.
Talvez não seja despropósito lembrar a concepção hegeliana do Estado, e a legitimidade que dela arranca do Estado como educador por excelência da sociedade: “ O Estado é a realidade em acto da ideia moral objectiva, o espírito moral como vontade substancial revelada, clara para si mesma, porque se conhece, se pensa e se realiza no que sabe, porque sabe” ( segundo tradução livre do texto original).
Mas a verdade, porém, é que o Estado não é uma constante histórica, mas antes o produto de uma evolução histórica. Actor do sistema social, o Estado está ligado à história deste sistema, o qual por sua vez não se encontra menos associado à própria história do Estado. Um dos contributos primeiros para uma sociologia do Estado foi-nos legado por Marx. Este examina com minúcia o aparecimento das estruturas burocráticas «reais», o Estado constituinte que se torna em «potência real e o seu próprio conteúdo». Analisa as trajectórias estatais em países como a Inglaterra, a França, a Prússia, os Estados Unidos, para rematar que, apesar da diversidade das formas que se revestiu essa trajectória, a máquina estatal em todas elas assenta na moderna sociedade burguesa. Refere-se ao Estado bonapartista como aquela específica forma estatal que gozaria de maior autonomia face à sociedade. Mas nunca deixa de nomear o «o governo moderno como um comité que gere os negócios gerais da classe burguesa», os seja, o objectivo do Estado confunde-se com o do capitalismo.
Durkheim analisou o desenvolvimento das sociedades em função da divisão do trabalho, na linha do organicismo prevalecente no séc. XIX que via na divisão do trabalho o princípio esplicativo da história das sociedades, que se desenvolveriam à maneira dos sistemas biológicos, através de uma especialização incessante que levava a que cada orgão assumisse cada qual uma função específica. É certo que Durkheim se afasta do organicismo mais estreito ao mostrar como a divisão do trabalho não deixa de implicar o aparecimento de novas estruturas, e por conseguinte, de novas formas de poder. Daí afirmar “...que quanto mais as sociedades se desenvolvem, mais o Estado se desenvolve, as suas funções se tornam mais numerosas, penetram mais e mais em todas as funções sociais, que ele acaba por concentrar e unificar ele mesmo. O progresso da centralização é paralelo ao da civilização”. Durkheim formula pois uma concepção evolucionista da transformação das sociedades e de como a necessária divisão do trabalho conduz inelutavelmente à aparição do Estado., segundo leis idênticas.
É conhecida a interpretação que ele faz da história dos sistemas sociais: nas sociedades que não conhecem a divisão do trabalho, a solidariedade derina de uma forte coerção externa exercida pelo costume, pela religião e pelo conjunto das representações colectivas, sendo esta solidariedade mecânica resultado pois de um forte controle social. Mas à medida que aumenta a densidade social, assiste-se a uma indispensável divisão do trabalho que favorece a eclosão de uma solidariedade organica, derivada da divisão funcional das tarefas, ou seja, da interdependencia dos actores. Neste contexto, as representações colectivas diminuem de peso e intensidade, o mesmo se passa com o controle social, ao passo que o Estado se desenvolve como um organismo distinto do todo!
Inspirando-se em Tocqueville, Durkheim traça a história do Estado como força única de centralização, mostrando como o Estado se implantou progressivamente ao longo de todo o território numa rede cada vez mais complexa substituindo-se aos organismos pre-existentes entretanto assimilidos no aparelho estatal. Na sua actividade normal, o Esatdo deve exercer várias funções, porquanto é ele o orgão de reflexão, de deliberação. “A função essencial do Estado, para Durkheim, é pensar” . O Estado aparece-nos como o orgão por excelência da Racionalidade. Adverte-nos todavia para o crescimento excessivo do Estado, que pode levar este a pretender dominar o conjunto social: “ uma sociedade composta de uma poeira de individuos indiviualizados que um Estado hipertrofiados pretenda englobar e encerrar, constituiria uma verdadeira monstruosidade sociológica”. O despotismo estatal seria criado por uma sociedade de massas profundamente atomizada, em que nenhuma outra entidade limitava o poder das instituições estatais.
Weber é o primeiro autor a encarar os fenómenos politicos como factos particulares dotados de uma lógica própria e de uma história específica. Mais que os meios de produção ou a divisão do trabalho, o que realmente influencia o sistema social são os seus meios de administração, estudando a natureza e o tipo de dominação, de subordinação, de autoridade e de poder. Recorre ao método analítico para construir tipologias, distinguindo três tipos de dominação legítima, que não se sucedem uns aos outros mas que serviriam para reconhecer as sociedades históricamente determinadas. A «dominação carismática» assenta nas qualidades excepcionais de uma personagem, tratado como se fosse um «enviado de Deus», um Fuhrer. A «dominação tradicional» apoia-se no carácter sagrado do que é transmitido para a nova geração, e exterioriza-se normalmente pelo poder patrimonial do senhor que controla a sua administração, chamando a si os seus serventuários, remunerando-os ou atribuindo-lhes um título. Contra isto ergueu-se a «dominação legal» do Estado cujo esteio, e instrumento, principal constitui a administração burocrática. A instituição estatal separa-se da sociedade , diferencia-se e institucionaliza-se, recorrendo à violência legítima e à administração. O Estado deve remunerar os seus funcionários a fim que estes se identifiquem com a sua função e se distanciem do seu vínculo social. A burocracia apresenta-se como uma organização no seio da qual os actores ocupam funções adequadas às suas competências segundo critérios meritocráticos.
A sociologia do estado contemporânea de inspiração durkheimiana baseia-se na dissociação entre o campo das relações sociais privadas e o da autoridade publica, pelo que o Estado originaria um espaço público distinto, detendo a sua própria legitimidade assim como as condições do seu funcionamento autónomo. O Estado assume-se como organizador de relações de autoridade pública; como uma colectividade humana regida por relações de cidadania; dotado de mecanismos impessoais e permanentes, superando os grupos locais e familiares como fontes de domínio. Historicamente, a construção estatal revela-se como um aspecto particular do processo mais geral de racionalização. Nesta linha situam-se autores como Smelser e Parsons para quem o aparecimento do Estado se liga ao processo de diferenciação do sistema político relativamente aos outros sistemas sociais, podendo-se inclusive vê-lo como o elemento integrador priviligiadso na medida em que será capaz de harmonizar todos as diferenciações exigidas pelo precesso de modernização, o que reforça por sua vez a importância e autoridade do Estado que se vê assi revestido de importante um capital de poder.
O paradigma funcionalista não se revelou satisfatório. Amitai Etzioni refere que mais do que o resultado de uma cisão e diferenciação, o que realmente se verifica é a unificação das funções por intermédio do Estado segundo um processo de epigénese. O nascimento do Estado corresponderia à criação e unificação de poder, e não à cisão dos poderes detidos pelas estruturas políticas pré-estatais que coexistiriam anteriormente de modo atomizado.
Todo o debate sociológico em torno do Estado e a sua convocação para estas linhas tem a virtualidade de chamar a atenção para o lugar central que aquele ocupa nas sociedades contemporâneas, e sem a reflexão do qual não será possível a análise dos fenómenos sociais.
Boaventura Sousa Santos defende a chamada teoria da dialectica negativa do Estado capitalista que se consubstancia na ideia segundo a qual “a função política geral do Estado consiste em dispersar as contradições sociais e as lutas que elas suscitam de modo a mantê-las em níveis tensionais funcionalmente compatíveis com os limites estruturais impostos pelo processo de acumulação e pelas reacções sociais de produção em que ele tem lugar. Não se trata, portanto, de resolver (superar) as contradições sociais ao nível da estrutura profunda da formação social em que elas se produzem, mas antes de as manter em estado de relativa latência mediante acções dirigidas às tensões, problemas, questões sociais por que as contradições se manifestam ao nível da estrutura de superfície da formação social. Para tal são accionados, através, sobretudo, do direito, diferentes mecanismos de dispersão ( mecanismos de socialização, integração, trivialização, neutralização, repressão e exclusão). A grande diversidade destes mecanismos confere ao direito o seu grande dinamismo e complexidade (...) e essa heterogeneidade e essa complexidade da praxis jurídica revelam-se no facto de a legalidade capitalista ser constituída por três componentes estruturais básicos - a retórica, a burocracia e a violência - que se articulam segundo modos característicos. Cada um destes elementos constitui uma forma de comunicação e uma estratégia de tomada de decisão. A retórica baseia-se na produção de persuasão e de adesão voluntária através da mobilização do potencial argumentativo de sequências e artefactos verbais e não verbais, socialmente aceites. A burocracia baseia-se na imposição autoritária através da mobilização do potencial demonstrativo do conhecimento profissional, das regras formais gerais, e dos procedimentos hierarquicamente organizados. A violência baseia-se no uso ou ameaça da força física.” (Santos,1982)

A Construção Social da Criança

Aponta-se o estudo pioneiro de Philippe Ariès sobre “A Criança e a Vida Familiar no Antigo Regime”, editado em 1960, como referencial primeiro na análise sobre as concepções socio-históricas sobre a infância. Defende ele a tese segundo a qual a especificidade da criança só se autonomizou como fase distinta da idade adulta a partir dos finais do século XVII, especialmente do século XVIII, nas classes superiores da sociedade, sobretudo por via de uma certa individualização no vestuário, na linguagem, etc - em contraste com a época medieval em que predominava a ideia da criança como um adulto em miniatura, vivendo, trabalhando, divertindo-se no meio dos adultos. Constata ainda que, nas classes populares, a antiga concepção de infância se tem mantido até à actualidade. A inexistência de uma autonomia do mundo infantil não significava, porém, o desamparo e desprezo pelas crianças, mas antes a sua incorporação precoce no mundo adulto.
A emergência da sociedade burguesa vai a par do aparecimento do interesse pela educação infantil, traduzida numa necessidade de separação em relação à sociedade dos adultos, defendida aliás por pedagogos, moralistas e médicos - e que Ariès designa por “uma espécie de quarentena”. A partir de então, a protecção e a formação da criança, reconhecidas como necessárias, vão passar a recorrer a instituições específicas, escalonadas por níveis etários, recorrendo-se a doseamento, variável conforme os meios e objectivos, de ingredientes aparentemente contraditórios, a ternura e a severidade. Ariès fala de uma tendência para a privatização da vida familiar, em contraponto ao modelo da família alargada vigente na Idade Média.
Outro historiador da infância, com influencia no mundo anglo-saxónico, Lloyde de Mause, sugere que quanto mais recuarmos na história mais probabilidade teremos de encontrar o infantícidio, o abandono, a violência, o terror sobre as crianças. “A evolução para atitudes e condutas reveladoras de sensibilidade. reconhecimento e valorização das crianças é explicada por Mause no quadro daquilo que ele designa por teoria psicogenética da História. Aparentada ao método psicanalítico, tal teoria sustenta que cada geração acciona uma capacidade de retroceder à idade psíquica dos filhos e que, revivendo a ansiedade própria dessa idade, procura proporcinar uma melhor experência do que aquela que teve então.” (Pinto,1997).
Supomos, no entanto, que só contribuições vindas de outras áreas poderão dilucidar e aprofundar esta evolução.
Em contrapartida, sabemos o que pensavam Locke e Rousseau sobre as crianças: embora partindo de pressupostos diferentes, ambos reconheciam a necessidade da intervenção dos adultos no processo de formação das crianças, e a necessidade de uma especial atenção sobre a criança. Condorcet, no lastro da Revolução Francesa, institui desde logo a instrução pública através da escola laica, obrigatória para as crianças.
Freud destrói a imagem idílica da criança e mostra a importância da frustração e do recalcamento para a vida social. Curioso é o facto de a maior parte dos estudiosos da infância pouco ou nada dizerem sobre o contributo de Freud tal é obsessão de salvar a ideia de criança que alimentam lá no fundo. E isto apesar de Freud inaugurar toda uma nova época da contemporâneidade...
George Herbert Mead, fundador do interaccionismo, procurou estudar os processos pelos quais se desenvolve a criança em interacção entre o seu eu (self) e o do outro, e a importância que aí se reveste a dimensão da alteridade na construção de si próprio.
Em suma: “As mudanças de sensibilidade que se começam a verificar a partir da Renascença tendem a diferir a integração no mundo adulto cada vez para mais tarde, e a marcar, com fronteiras bem definidas, o tempo da infância, progressivamente ligado ao conceito de aprendizagem e de escolarização. Importa, no entanto, sublinhar que se tratou de um movimento extremamente lento, inicialmente bastante circunscrito às classes mais abastadas.” (Pinto, 1997).
A esta maior consideração pela criança sucedeu recentemente, ainda segundo Ariès, um «malthusianismo hedonista» em que a criança é encarada como um obstáculo a um melhor desenvolvimento dos individuos e do casal. O fenómeno da emancipação da mulher, o novo estatuto por esta adquirido com a sua entrada em larga escala no mercado do trabalho, e consumismo e produtivismo como apanágio do nosso sistema social não deverão ser certamente estranhos àquela evolução registada nos últimos tempos.
Chamboredon e Prévot (1982) mostram como as funções conferidas ao período pré-escolar têm evoluído desde as funções de espera e lazer para funções de socialização, preparação escolar e desenvolvimento intelectual.
Defendem ainda que a descoberta da primeira infância como «sujeito cultural» se deve ao dsenvolvimento e difusão dos conhecimentos psicológicos, e à descoberta da importância daquela idade para a constituição da personalidade. Este novo olhar surtiu efeitos vários como a criação de um mercado específico para a infância, dispositivos pedagógicos próprios e a redefinição do papel pedagógico da mãe.



O Discurso Estatal sobre a Criança

Na impossibilidade de reunirmos todo o acervo legislativo relacionado directa ou indirectamente à criança, tarefa ciclópica e desproporcionada para os fins em vista, considerámos útil e recomendável seleccionar alguns diplomas legais, desde a 1ª República, que pela sua simbologia pudessem ser representativos desse tal discurso estatal sobre a criança.

* Decreto de 29/3/1911 - Reestrutura o ensino primário, definição das linhas gerais de orientação e valorização da escola infantil

*Lei de Protecção à Infância de 11/5/1911 (LPI)

*Programa publicado no Diário do Governo de 25/8/1911 - Define os programas e regras de funcionamento do ensino infantil

*Decreto 2887 de 5/12/1916 - compilação de toda a legislação sobre o ensino primário infantil

*Decreto 12/7/1918 - Centralização da Administração do ensino

*Decreto 6137 de 29/9/1919 - Regulamentação das escolas infantis

*Decreto 6156 de 13/10/1919 - Regulamenta a escola infantil criada em Vila do Conde

*Decreto 10.767 de 15/5/1925 - Organização Judiciária de menores

*Decreto 14.498 de 29/10/1927 - Regulamenta o trabalho de menores e das mulheres


*Decreto 15.162 de 5/3/1928 - Medidas de direito criminal aplicadas a menores


*Decreto 16.037 de 15/10/1928 - Reestrutura o ensino normal

*Constituição Política de 1933

*Decreto 25.311 de 10/5/1935 - Aprova os programas das Escolas do Magistério Primário e Infantil

*Decreto 26.893 de 15/8/1936 - Aprova o Estatuto da Obra das Mães para a Educação Nacional OMEN)

*Decreto-lei 28.081 de 9/10/1937 - Determina o fim do ensino infantil público

*DL 30.135 de 14/12/1939 - Cria a Escola Normal Social para formar assitentes de serviço social que devem trabalhar em instituições com finalidades educativas

*Lei 1928 de 15/5/1944 - Regulamenta o estauto da Saúde e Assistência

*DL 35.108 de 7/11/1945 - Regulamenta a lei anterior

*DL 37.545 de 8/9/1949 - Estauto do Ensino Privado

*DL 44.288 de 20/4/1962 - OTM

*DL 47.727 de 23/5/1967 - modifica o DL anterior

*Lei 5/73 de 25/7/1973 - Reforma do sistema educativo (Reforma Veiga Simão)


*Constituição de 1996


*Lei 5/77 de 1/2/1977 - Cria a rede de educação pré-escolar do Ministério da Educação

*Despacho de 9/5/1978 - Define normas das amas legalizadas

*DL 314/78 de 27/10 - OTM

*DL 196/79 de 18/1/1979 - Bases legais do ensino particular e cooperativo

*DL 542/79 de 31/12/1979 - Define o Estatuto dos Jardins de Infância

*DL 401/82 de 23/9 - Regime especial para jovens delinquentes

*DL 90/83 de 16/2 - Centros de detenção para jovens

*DL 158/84 de 17/5/1984 - Criação de creches familiares

*Despacho Normativo 5/85 de 18/1/1985 - explicita os princípios do diploma anterior

*Divisão da Educação Pré-Escolar- Normativos - Recomendações aos educadores - 1/10/1986

*Lei 46/86 de 14/10/1986 - Lei de Bases do Sistema Educatino

*Divisão de Educação Pré-Escolar - Normativo de 13/3/87 - Criação de Jardins de Infância

*DL 286/89 de 29/8/89 - concretiza medidas no âmbito da LBSE

*DL 139-A/90 de 28/4/90 - Estatuto da Carreira dos educadores de Infância e dos Professores do Ensino Básico e Secundário

*Dec. Pres. Rep. nº49/90 de 12/9 - Ratifica a Convenção sobre os Direitos da Criança assinada em Nova Iorque em 26/1/90

Não pretendendo ser nem mais ou menos exaustivos na pesquisa sobre o discurso estatal sobre a criança podemos, no entanto, lançar algumas pistas para uma grelha de análise a partir de alguns normativos que reputarmos de alguma representatividade ao longo da produção legislativa que directa ou indirectamente diga respeito à criança.
Começando pelo Decreto de 25/8/1911 que define os programas e regras de funcionamento do ensino infantil, repare-se como se trata significativamente de um decreto dimanado do Ministério do Interior, no âmbito da sua Direcção Geral de Instrução Pública. E talvez valha a pena transcrevê-lo para inferirmos da filosofia que subjaz às suas palavras:
“As escolas infantis tem por missão tomar o filho à mãe apresentando-o mais tarde ao professor primário forte, robusto, alegre, equilibrado nas suas faculdades, apto para receber a semente da verdadeira instrução.
Não se trata nesta idade da preocupação de armazenar conhecimentos, mas de aperfeiçoar os instrumentos, de adquirir, precisos, conscientes e perduráveis.
Todo o fim, pois, das escolas infantis deve estar no robustecimento do organismo, na educação dos orgãos dos sentidos e no desenvolvimento das faculdades intelectuais das crianças, segundo as leis naturais do desenvolvimento humano, enriquecendo as faculdades infantis, hora a hora, dia a dia, progressivamente, com um considerável número de conhecimentos justos, precisos e verdadeiros.
(...) princípios destinados a servir de guia para à professora para a respectiva organização dos seus programas:
Bases para o programa de educação física
(...)
Educação dos orgãos dos sentidos
(...)
Desenvolvimento da habilidade manual
(...)
Desenvolvimento dos orgãos da fala
(...)
Desenvolvimento dos sentimentos morais. o sentimento da solidariedade
(...)
Desenvolvimento do sentimento do respeuito e da disciplina
(...)
Desenvolvimento da inteligência
(...)
Contar até 100 - soma e subtracção
(...)
Ensino da língua materna
(...)”
Dentro do seu articulado propiamente dito podemos encontar a orientação segundo a qual “os processos de ensino serão exclusivamente intuitivos” Artigo 3º) ; “sómente dos 6 aos 7 anos as crianças poderão receber lições mais metodizadas, não podendo todavia estas ter mais de 20 minutos de duração e sendo sempre separadas por cantos populares e patrióticos, jogos ou qualquer outra diversão, não esquecendo jamais que nas escolas infantis é brincando que a criança se educa”; “Na visita às escolas, observará o inspector (....) se o professor prepara convenientemente as lições de maneira a colher os resultados que o Estado e as famílias esperam do ensino”

Deste conteúdo é possível já retirar algumas ideias-fortes do Estado Democrático-liberal da 1ª República Portuguesa. Acentua-se a importância e o valor da educação física e dos sentidos, e a moldagens dos sentimentos. No fundo, pretende-se marcar precocemente a personalidade da criança para, mais tarde, ela poder ser um cidadão útil à República. O recurso a mecanismos intuitivos nesse processo, e na aprendizagem a ser efectuada, deve ser entendido como um dispositivo refinado alternativo à violência física e à propaganda grosseira não deixando de contituir um investimento potenciado na modelagem da personalidade precoce da criança.
Recorde-se que J. Varela (1991), na esteira de outros autores, e sob inspiração foucaultiana, chama a atenção para a importância da «ortopedia pedagógica» ou para a «cultura somática» que se depreeende de muitos dispositivos pedagógicos utilizados nas escolas e na educação.
O Decreto 2.887 de 5/12/1916 compila toda a legislação existente sobre o ensino infantil e primário, distinguindo-os ambos, e diferenciando o segundo em 3 categorias: elementar ( 3 anos), complementar ( 2anos), superior (3 anos). O ensino infantil é pensado para servir de apoio e de preparação para o ensino primário ( Conferir Artigos 5º e 6º), e segundo o Artigo 12º “ Todo o ensino primário deve ser essencialmente prático, utilitário e quanto possível intuitivo”, acrescentando-se no Art. 13º que “Os agentes deste ensino terão em vista que o fim da escola primária consiste em habilitar o homem para a luta da vida, ministrando uma educação que tenda substancialmente a esse fim”. Cardona (1997) faz notar que apesar da ligação que a 1ª República efectua entre a escola infantil e família, a ênfase é justamente pensar aquela em função das futuras aprendizagens. Nota ainda que o objectivo primeiro de toda a política educacional dos governos republicanos é a instrução o que bem se compreende dado os objectivos desenvolvimentistas perfilhados pelos políticos republicanos e considerável atraso socio-cultural da população portuguesa com percentagens altíssimas de analfabetismo. O Saber e a Instrução não são pois um fim em si mesmos mas com objectivos perfeitamente utilitários em prol do desenvolvimento económico.
O Decreto 6.137 de 29/9/1919 reforça as orientações anteriores e reforça a inspiração Montessoriana nos métodos preconizados ao fazer-lhe uma referêcia explícita no Artigo 16º e ao proclamar que a “professora deverá reduzir a sua acção à simples missão de guia, directora, intérprete, que formule questões, que estabelece problemas, esclarece erros, corrige desvios...” ( Artigo 14º).
Outro aspecto que reputamos de não menor significado diz respeito aos cuidados com a higiene e a referência constante a esta nos documentos oficiais. Sobre este tema e a função que o saber médico tem assumido na implementação de dispositivos de controle social sobre as crianças leia-se o texto de Ferreira e Rocha ( 1994).
Tanto a pedagogia perfilhada como as políticas educacionais seguidas pela República Parlamentar-Liberal sofreram um inflexão substancial a partir da Ditadura Militar e mais especialmente da institucionalização do Estado Novo corporativo.
A partir de então a educação começa a funcionar essencialmente como uma garantia para o estado, na defesa da “obsessiva prioridade dada à manutenção da ordem social e à preservação da identidade/independência nacional” (Stoer,1986)
Na Constituição de 1933 refere-se que o ensino deve ser orientado para os princípios tradicionais da religião católica, sendo a família considerada como base primeira da educação. E logo um Decreto de 1934 aprova os estatutos da Obra das Mães para a Educação Nacional (OMEN) que, entre outras finalidades, se define passe a ser responsável pela educação infantil e pré-escolar, em complemento da acção familiar. Ergue-se então uma concepção de educação de infância de natureza essencialmente assistencial e de conteúdos paternalistas, enquanto na educação em geral se assiste ao reforço da doutrinação ideológica ao serviço do Estado Novo, de que é prova o conteúdo dos livros únicos adoptados nos vários níveis de ensino como demonstra notavelmente a obra de Bivar(1971)
A Lei de Protecção à Infância (LPI) promulgada em 11 de Maio de 1911 visa, segundo os seus termos, a prevenir os males sociais que podem conduzir à perversão ou ao crime, os menores de 16 anos, ou comprometer a sua vida ou saúde, mas também a remediar os efeitos desses males. Para tal fim, eram criados tribunais especiais - as tutorias da infância - e a Federação Nacional dos Amigos e Defensores das crianças( que reúne todas as instituições, públicas ou particulares, de protecção à infância, assim como instituições de propaganda, de educação preventiva, de educação reformadora e de patronato) .Este diploma inaugura o moderno discurso jurídico-estatal de menores. A partir de então o delinquente que não tiver completado 16 anos está sujeito a este regime específico. Se a criança tiver até 9 anos a LPI não a considera delinquente, limita-se a entregá-la aos pais, ao tutor ou a uma instituição de assistência. A partir daquela idade introduz-se uma ideia de tratamento sobre o menor, nunca dissociando-se o castigo do fim educador que deve presidir ao processo. Prevêm-se ainda medidas diferenciadas conforme a gravidade do delito e a idade do menor. O Decreto nº 10.767 de 15 de Maio de 1925 altera e completa o diploma anterior. Não obstante a mudança política verificada, o sistema legal manteve-se inalterado no essencial. Nesse lapso de tempo a atenção recaiu na preparação do pessoal quer para magistrados, polícias quer para agentes de assistência e vigilância social, preceptores e educadores dos Serviços prisionais e dos serviços jurisdicionalizados dos menores.
O direito criminal de menores foi substancialmente reformado com a Organização Tutelar de Menores aprovada pelo Decreto lei nº 44.288 de 20 de Abril de 1962 que pretendia eliminar os vestígios da concepções punitivas e repressivas que ainda se mantinham no direito de menores, apesar de todas as proclamações de carácter preventivo e tutelar da LPI. Afastavam-se todas as ideias de responsabilidade moral, de reprovação social e castigo. Assim, a repreensão é transformada em admoestação; a liberdade vigiada, em liberdade assistida; a multa, em desconto no rendimento auferido; a detenção, em recolha em centro de observação; o internamento nos reformatórios ou nas colónias correccionais, em internamento em instituto de reeducação.
Nota-se, em suma, uma evolução de uma filosofia penal repressiva para uma outra de natureza preventiva, propedêutica, assistencial e educativa.
A OTM em vigor, aprovada pelo DL nº 314/78 de 27 de Outubro acentua o carácter protector e educativo que se pretende imprimir à jurisdição tutelar.
São quatro os aspectos que deverão merecer atenção na leitura e análise da legislação: 1) A ininputabilidade do menor; 2) o interesse jurídico a proteger ( o da segurança e paz social ou o do menor mesmo que inadaptado; 3) A influência estigmatizadora das instituições tutelares e penais, que longe de estarem preparadas, ainda reforçam o estigma do delinquente menor; 4) Incumprimento dos fins sancionatórios quando aplicados aos menores ( Molina,1988). Na posse destas linhas de análise não é difícil constatarmos a ineptidão do regime legal vigente e a indispensabilidade de uma pesquisa interdisciplinar sobre a matéria e a procura de soluções dentro desse âmbito, que não apenas no estreito quadro técnico-jurídico, o que requer uma visão holística como ainda uma adequada preparação do pessoal.

A Construção Estatal da Criança

Ao longo do presente trabalho observamos as relações do Estado com a criança por intermédio do discurso estatal por excelência, como é a produção legislativa, a partir da implantação da 1ª República até aos nossos dias. Não se tratou óbviamente de uma pesquisa exaustiva, mas antes de um levantamento das concepções e das ideias prevalecentes mantidas pelo Estado sobre a criança. E a esse propósito verificámos que as mudanças políticas arrastam consigo alterações no discurso e nas orientações adoptadas sobre aspectos particulares do mundo da infância. No entanto, a concepção geral sobre a criança e o seu papel no mundo social dos adultos não se alterou substancialmente, quando muito o que se assistiu foi ao reforço dos mecanismos estatais na consecução das medidas e finalidades relativas à criança. Os trabalhos de Ariès e outros sobre a construção socio-histórica da criança foram-nos úteis para situar as condições emergentes de como os adultos e a sociedade em geral tratam a infância na contemporâneidade. Por outro lado, os contributos da sociologia do Estado permitiram-nos desocultar o sentido e significado da organização estatal face ao seu discurso legislativo.
Nenhumas dúvidas nos oferecem que ainda haveria muito para escalpelizar sobre o tema. Mesmo as abordagens como a de Ariès não se mostram completamente satisfatórias. Quanto às teorias sobre o Estado é conhecido o debate sempre inacabado sobre a matéria. A referência a estas matérias neste trabalho serve sobretudo para contextualizar o assunto e caracterizar o tipo de abordagem, ou seja, a grelha analítica de que nos servimos para a respectiva teorização.
Nem o Estado é inocente, nem somos dos que pensam que as crianças o sejam. O paternalismo e o pedocentrismo são duas atitudes só aparentemente contrastantes. Ambas partem de partis-pris que carecem da devida justificação e, pior ainda, de duvidosa utilidade. A realidade é demasiadamente complexa para se compaginar com explicações de carácter monista jogando com uma única variável e à base de perspectivas simples e unilaterais. O que aparentemente é útil e vantajoso para a criança pode vir a revelar-se altamente manipulatório e regressivo. O assistencialismo, e sobretudo algumas das mais modernas concepções, de natureza fenomenológica, revelam-se à luz de uma análise mais exigente, profundamente perigosas ao postular um mundo infantil mirífico, pretensamente homogéneo, pronto a ganhar um direito de cidadania perfeitamente retórico e por demais perigoso para não dizer contraproducente.
Poder-nos-íamos por ventura questionar se muita da atenção dada às crianças não responderá mais às necessidades psicológicas dos adultos e até às exigências sociais e económicas do mundo social dos adultos, e não tanto ao reconhecimento da si ngularidade de ser criança. Na verdade, a hipervalorização retórica sobre as crianças a que hoje assistimos tanto por parte das pessoas em particular ( em especial pelas mulheres), como pela sociedade em geral ( através principalmente do Estado ) não terá tanto a ver com um recente “lugar ao sol” conquistado pela infância ( desmentido, aliás, pelo urbanismo, pelos produtos mediáticos até aos simples horários escolares...) mas com dispositivos psicológicos ( e sociais) dos adultos que procuram na retórica e nos mil e um cuidados ministrados às crianças paliativos para frustrações da mais variada ordem, desde mecanismos de sublimação libidinal, à rotina estupidificante do consumismo de massa, ao trabalho alienado e não-criativo, ao mal-estar civilizacional que se apoderou das sociedades desenvolvidas, tudo isto conjugando-se no sentido de virar as pessoas para as crianças e procurarem nelas um qualquer mundo perdido, uma qualquer bondade natural que lhes é recusada pelas condições socio-culturais , psicológicas e económicas em que vivem. Se anteriormente as crianças eram vítimas de desprezo e prepotência dos adultos, agora são o alvo sublimatório - seria a hipótese a trabalhar - da moderna civilização economicista.
O Estado paternalista, que vive proclamadamente acima dos cidadãos, e vela pela sua segurança e protecção, garante de uma dada ordem social e económica, não poderá deixar nestas circunstâncias de produzir toda um retórica benemérita a favor das crianças, não só com finalidades económico-sociais ao assegurar a reprodução da força de trabalho, mas ainda ao ser veículo de um discurso legislativo e de medidas políticas e administrativas aparentemente em prol da infânica - ainda que com nuances várias conforme as várias formas de poder político (Estado democrático liberal, Estado fascista, Estado democrático-social ) - está também a reproduzir uma determinada visão social ( e se se quiser, cultural ) da infância, porventura a mais elaborada e proficiente dentro dos limites permitidos pela formação socio-económica dominante. Uma visão a que não repugna até a concessão de um «direito de participação» e «direitos de cidadania» e que serão tanto mais rebarbativos quanto maior for sua formulação retórica.
Com efeito, a consideração estatal da criança como cidadão procura indexar àquela um lugar no mundo social dos adultos e implicítamente a negar a diferença e singularidade do mundo da infância. Face aos estreitos limites dos meios legitimadores e enunciadores do seu próprio discurso, é vedado ao Estado postular a criança de outra maneira que não seja em termos de cidadania, ou seja, segundo determinadados fundamentos e outros tantos enunciados que são privativos da própria filosofia do Estado , do Direito e da Sociedade, a que não são estranhos as condições sociais, históricas e económicas existentes.
Livros como o de Philippe Meyer ( “L’enfant et la raison d’État”), de J. Donzelot (“La Police des familles”), Vicente Romano (“La formación de la mentalidade sumisa”), Alberto Oliverio (“ Como nasce um conformista”) . são trabalhos teóricos de maior valia que contribuirão certamente para uma perspectivação interdisciplinar multifocal sobre o modo como o Estado articula a questão da infância, como um e outro se relacionam, e como a sociedade entretece tudo isto.
Pensamos pois que a construção estatal da criança, apesar de algumas virtualidades que se reconhece na protecção à infância, concentra em si uma perspectiva enviesada, que oscila entre o paternalismo e um progressivo pedocentrismo retórico, mas desconhece a criança em concreto. Isto como se o Estado pretendesse para salvar a mítica «idade de ouro» da infância matar a criança que vive dentro de cada «cidadão»!...




Bibliografia

Almeida, João F.; Pinto, J. Madureira - A Investigação nas Ciências Sociais -Ed. Presença, Lisboa, 1976
Badie, B.; Birnbaum, P. _ Sociologie de l’État - Grasset, Paris,1979
Bivar, Maria de Fátima - Ensino Primário e Ideologia - D. Quixote,1971
Cardona, M.J. - Para a História da Educação de Infância em Portugal, O discurso oficial (1834-1990) - ed. Porto Editota, 1997
Chamboredon, J. C.; Prévot - O Ofício de Criança , in Sociologia da Educação II (org. Sérgio Graça, S. Stoer) - ed. Livros Horizonte1982
Fernandes, Rogério - O pensamento ppedagógico em Portugal, ICP, 1978
Ferreira,M.; Rocha, C.- Alguns Contributos para a compreensão da construção médico-social da infância em Portugal, in “Educação, Socieade & Culturas” nº2/1994
Gersão, Eliana - Tratamento Criminal de Jovens Delinquentes - Coimbra, 1968
Henriques, M.O. L. - Organização Tutelar de menores - ed. Porto Editora, 1979
Meyer, Philippe - L’enfant et la raison d’État- Ed. Seuil,1977
Molina, Jesús V. - Processo de Inadaptación Social - ed. Popular, 1988
Mónica,F. - Educação e sociedade no Portugal de Salazar - Ed. Presença, 1978
Pinto, Manuel - A Infância como construção social, in “As crianças, contextos e Identidades” - ed. Centro de Estudos da Criança, Un. do Minho, 1997
Santos, B. S. - O Direito e a Comunidade: as transformações recentes da natureza do poder do Estado nos países capitalistas avançados, in Revista Crítica das Ciências Sociais nº 19, 1982
Santos, B. S. - Introdução a uma Ciência Pós-Moderna - Ed. Afrontamento, Porto, 1989
Stoer, S. - Educação, e Mudança Social - ed. Afrontamento, 1986
Varela,J. - El Cuerpo de la infância, in Sociedade, Cultura y educacion (vários)- Universidade Complutense, Madrid, 1991
Vala, Jorge - A Análise de Conteúdo, in Augusto Santos Silva, José Madureira Pinto, “Metodologias das Ciências Sociais”, Ed. Afrontamento, Porto,1986
Autor do texto: AAS

Matilde, a espalha-brasas



Matilde, a espalha-brasas é o título português para o filme realizado em 1996 por Dan DeVito (que, também participa nele a título de actor), e uma adaptação para cinema que teve como base um dos contos do conhecido escritor inglês de literatura infanto-juvenil, Roald Dahl.
O filme merece bem o seu visionamento por todos os públicos, independentemente da sua idade. Com efeito, levantam-se nele várias e importantes questões que podem servir para debate e reflexão, desde a problemática mais geral das relações entre adultos e crianças até à omnipresença da TV nas nossas casas, com tudo o que isso representa de infantilização senão mesmo de imbecilidade, passando por outros aspectos do moderno quotidiano citadino ( fast-food, automóvel, dinheiro, etc) sem nunca perder os condimentos necessários para cativar os espectadores mais novos.
Nos comentários feitos a propósito deste filme os seus autores referem-se a uma obra que retrata a solidariedade entre crianças perante adversidades várias, como as punições injustas e arbitrárias impostas por adultos, resultado de frustrações e recalcamentos sofridos anteriormente.

O filme fala-nos da Matilde e a sua família. Enquanto aquela adora ler, aprender, divertir-se e sonhar, já os outros elementos da família (pai, mãe, irmãos) não outra coisa que não em ganhar dinheiro ( mesmo por vias fraudulentas), ver TV (especialmente os seus programas mais idiotas), ir aos mega-restaurantes ou então alimentar intrigas através de conversas banais .
Quando, finalmente, o seu pai decidiu mandá-la para a escola, Matilde irá encontrar duas figuras diametralmente opostas: Miss Trunchbull, a directora da escola, autoritária, autoritária, que odeia crianças, e para a qual a escola ideal seria a que não as tivesse, e Miss Honey, a sua professora, com quem estabelece uma relação de cumplicidade, e que se mostra afectuosa e pedagogicamente próxima das crianças e dos alunos.

O filme, ao mesmo tempo que é divertido e de entretenimento, leva-nos a reflectir sobre problemas sérios do mundo actual. Daí ser uma óptima proposta pedagógica e, simultaneamente, uma obra-prima de um grande escritor inglês, Roald Dahl.

A Identidade dos contrários


Sonho que sou louco, e na minha loucura
Sou mais sensato que num sonho
Ou acordado, com medo que me tenham por louco
Meus companheiros de sonho

Meu bom senso é diária loucura,
Para um mundo em vigília que atribui
Mais vigília e atenção mais funda
À razão do que a razão possui

Sonho é minha vida diária, cada dia
Simula e dissimula até loucura
E razão serem ambas semelhantes,
E eu ajo enquanto sonho.

No sonho, o bom senso e a loucura,
Na loucura, o sonho e o dia a dia
Ligados, entre si todos semelhantes:
Sonhando ou acordado, sou louco e sou sensato

Edouard Roditi ( na tradução de Herberto Helder, in “ As Magias”)

7.6.05

Como o dinheiro nos põe loucos…



A maneira como o dinheiro funciona hoje em dia é absolutamente ridícula. Põe-nos uns contra os outros, e faz com que os ricos se tornem mais ricos, enquanto todos os demais empobrecem.
Para entender como isso acontece, imaginemos que o mundo humano consiste tão só em dois amigos e um banco, e que para poder comprar comida, pagar as rendas e fazer comércio entre eles, ambos os amigos precisam de dinheiro que só o banco pode criar.

O banco ( que é uma terceira entidade, com muito dinheiro) cria 20 euros e dá 10 euros a cada um dos amigos. A única coisa que lhes pede em troca é que eles devolvem 11 euros cada um no ano seguinte. Como ambos os amigos precisam de dinheiro para comer, aceitam de bom grado aquelas condições.

Prometem até ( uma vez que o banco assim o exige) que se forem incapazes de devolver os 11 euros no ano seguinte, aceitarão que o banco fique com alguma das suas propriedades como forma de pagamento.

O problema é que se torna completamente impossível devolverem ambos os 11 euros cada um, já que o banco só criou 20 euros, não sendo possível existir mais dinheiro para além daquele que foi criado. Assim, a única maneira dos dois amigos devolverem os 11 euros é um deles ir buscar ao outro amigo o euro extra, a que são obrigados a devolver. Ora isso leva a que um dos amigos fique só com 9 euros, impedindo-o de pagar a sua dívida de 11 euros.

Os dois amigos acabam por ficar inimigos, tentando cada qual desesperadamente conseguir dinheiro um do outro a fim de evitar ceder ao banco algum ( ou todos) dos seus bens. Como quer que seja, algum deles ficará sempre a perder, e o banco ( a entidade com muito dinheiro, e que é a única que cria dinheiro) acaba por ficar com os bens.

Esta é, basicamente, a maneira como funciona a banca, e o sistema bancário e financeiro, o que faz com que os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Mais sobre dinheiro:
http://ud.lir.be/tiki-index.php?page=Money

retirado da tradução castellana da revista polémica
http://usuarios.lycos.es/polemica/

.
( este texto foi traduzido a partir de um post que apareceu no Indymedia Madrid)

Portugal é dos países mais pobres dos 25 da União Europeia

A riqueza média por habitante em Portugal, em 2004, foi a mais baixa da Zona Euro e uma das mais baixas dos 25 países membros da União Europeia. Portugal foi mesmo ultrapassado pelo Chipre e pela Eslovénia.
Segundo o Eurostat, a riqueza por habitante ( medida em paridades de poder de compra) em Portugal era a 17ª da EU a 25, com um PIB por habitante (em PPC) de apenas 73& da média dos 25, ou seja, representava pouco mais de dois terços da riqueza média produzida pelos países da EU.
As paridades de poder de compra (PPC) são uma moeda virtual que considera os níveis de preços domésticos e as taxas de câmbio, tornando comparáveis alguns indicadores económicos, como o PIB por habitante.
Espanha regista um nível de riqueza de 98% da média da EU e a Alemanha de 109%, mas é o Luxemburgo o país mais bem colocado com uns 123% acima da média europeia. Os países pior colocados foram a Letónia (43%), Polónia (47%) e a Lituânia (48%).

Mais de 40 suspeitas de formação de cartéis em Portugal


Foi anunciado que o organismo público que fiscaliza em Portugal as regras da concorrência ( a alta autoridade para a concorrência) está a investigar mais de 40 suspeitas de cartelização. Recorde-se que os cartéis são acordos entre empresas para fazer subir os preços no mercado, restringir a produção, investimentos e aumentar os lucros à custa dos consumidores.

Taxas ( e maior controle por satélite) sobre os carros


O governo britânico anunciou que está a estudar a imposição de taxas sobre a circulação automóvel para descongestionar o trânsito, medida benemérita se não se traduzisse por um reforço da vigilância totalitária sobre os movimentos dos cidadãos, uma vez que as taxas nas auto-estradas ( 2 euros/Km) e nas estradas ( 50 cêntimos/km) será feita com recurso a tecnologia de identificação dos veículos por satélite e ainda por via de micro-ondas.

Rio de Onor, aldeia dividida pela fronteira, tenta unir-se

O projecto para unir Rio de Onor ( em Portugal) e Riohonor de Castilha ( Estado espanhol) para a formação de uma única aldeia designada por aldeia europeia marca passo há anos.
O projecto foi discutido com toda a população em praça pública,mas não há maneira de avançar.
O que se pretende é unir ambas as partes, aproveitando o secular espírito comunitário da aldeia, dividida artificialmente pela fronteira entre o Estado português e o Estado espanhol.
Rio de Onor tem merecido atenção por parte de antropólogos por ter mantido durante séculos os usos e costumes comunitários, fazendo subsistir uma cultura rural comunit
ária

Forças Desarmadas


Forças desarmadas é o título de um documentário sobre o antimilitarismo, os grupos antimilitaristas e a objecção de consciência realizado por Anna Masllorens e Mariona Ortiz e integrado no programa informativo Línea 900 da TVE, televisão pública espanhola, que foi emitido no passado dia 14 de Maio, e que a TVE Internacional retransmitiu na semana passada. Poucos privilegiados tiveram oportunidade de ver este excelente programa, mas era óptimo que a televisão pública portuguesa tivesse imaginação e engenho suficiente para fazer algo de semelhante.
O documentário é constituído por reportagens sobre várias acções directas não-violentas levadas a efeito por grupos antimilitaristas, intervalados com entrevistas e filmagens de reuniões de preparação para aquelas acções. Fala-se ainda da objecção fiscal e da objecção científica como outras modalidades mais recentes para contestar a militarização nos mais variados domínios da sociedade.
Dois activistas históricos da não-violência e da objecção de consciência do Estado espanhol, Pepe Beúnza e Arcadi Oliveres, são igualmente entrevistados.

Criar rumores e boatos é a última moda dos publicitários


Nos Estados Unidos as empresas especializadas em criar e manipular rumores não param de aumentar e florescer. A mais importante conta já com 76.000 voluntários benévolos que se encarregam de incitar quem quer que seja a comprar jean, livros, salsichas.

A cena faz lembrar alguma situação delirante de um programa cómico. No dia 4 de Julho de 2004, Festa Nacional nos USA, um batalhão de 2.000 indivíduos participou no maior segredo numa gigantesca campanha de promoção. Aos vizinhos, a colegas de trabalho, aos parentes e familiares, todos eles tentaram convencer acerca dos méritos e vantagens de uma certa variedade de salsichas da marca Al Fresco, que tinha contratado os serviços da BzzAgent, uma empresa de marketing criada três nãos antes e especializada nos rumores públicos do diz-que-se-diz.
O resultado foi uma subida de 100% das vendas em certos estabelecimentos comerciais. « Esta nova técnica – a propaganda comercial por via dos rumores - parece-se mais com uma situação paranóica de um romance de ficção científica e que descrevem um futuro onde as empresas se tornam tão poderosas que conseguem vencer exércitos inteiros para se infiltrarem nos domicílios familiares», escreveu o jornalista Rob Walker no New York Times do passado 5 de Dezembro de 2004.
Desde há um tempo para cá, esta forma discreta do porta-a-porta tornou-se uma moda. Al Fresco, assim como outras marcas e empresas como a Penguin, a Estée Lauder, Lee, Weight Watchers, Kelloggs, Air Train Airways, Coca-Cola, os sapatos Jonston & Murphy, recorreram à BzzAgent para lançar uma campanha de boatos e rumores favoráveis a um certo produto, seja ele um perfume, uns jeans, um dentífrico, uma marca de café, ou um simples livro. A tiragem do primeiro romance de um jovem autor, Frog King, de Adam Davies, esgotou em três meses, graças à efervescência, curiosidade e interesse orquestrados nas livrarias nova-iorquinas, nos fóruns de discussão, etc.
Mais pessoal que o marketing viral propagado por via tecnológica ( e-mails,nos forums de discussão, etc) esta nova técnica de marketing é muito mais insinuante, comparada com as tradicionais técnicas como as estafadas reuniões Tupperware.

A empresa BzzAgente conta com um dezena de funcionários permanentes e de 76.000 voluntários qualificados. A estes evangelistas das marcas comerciais acrescem por semana um milhar de suplentes, recrutados via Internet, maioritariamente estudantes, reformados e assalariados, que depois de se inscreverem, recebem por e-mail uma lista de actividades a realizar.
No caso das salsichas Al Fresco pedia-se, por exemplo, para sugerir a sua compra a um desconhecido com que se cruzasse num talho; sugerir ainda aos organizadores de um piquenique a sua inclusão na merenda, ou finalmente que se elogiasse o produto em pleno jantar de amigos.
No caso dos livros, é aconselhado pelo BzzAgente, a sua exposição nos transportes públicos ou de enviar comentários para a Amazon.
Outras empresas já desenvolvem o mesmo tipo de marketing. A multinacional Procter & Gambler criou o seu departamento de marketing verbal para as marcas destinadas a um público adolescente.
O criador da BzzAgente, Mark Hugues, declarou sem qualquer rebuço:
«A publicidade clássica está ultrapassada se ela não leva as pessoas e a imprensa a falar sobre o produto. Os Estados Unidos gastam hoje, em cada ano, mais dinheiro em marketing – algo como 234 mil milhões de dólares – que o total do Produto Interno Bruto do México». No seu livro, com o título «Buzzmarketing», ele resume a sua filosofia: «O rumor e o boato representa um meio alternativo cuja eficácia está na própria credibilidade do mensageiro»
Mas, o mais incrível, é que os mensageiros não são remunerados. Eles apenas acumulam pontos que poderão a partir de certo montante serem trocados por…presentes!

Fonte: Le Monde de 4/3/2005

6.6.05

O currículo oculto dos manuais escolares



Os manuais escolares constituem apenas uma parte do que se aprende nas escolas – uma vez que nelas também se aprendem coisas tão impregnantes como a obediência, a imobilidade, a forma competitiva de nos relacionarmos com os outros, quantas vezes sob a capa da cooperação etc – mas a verdade é que são uma boa ( e amarga ) amostra das categorias e dos esquemas mentais que se pretende socializar junto das gerações mais novas, esquemas e atitudes essas que vão estar, mais tarde, na origem das opiniões e da visão do mundo dos actuais jovens.


Apesar dos manuais serem apenas uma fonte, entre outras, de formação escolar e educativa, eles são bem representativos do que o Estado, e com ele, as ideias dominantes numa dada sociedade, pretende difundir e impor aos alunos. Para agravar mais as coisas, não é raro encontrarmos pessoas para as quais o conteúdo dos manuais escolares assume um carácter de verdade absoluta e inquestionável !!!
Encontramos, desde logo, em muitos senão mesmo todos manuais um rasgado e incondicional elogio à tecnologia, e pouca e mesmo nenhuma referência aos seus aspectos negativos. Pretende-se passar a ideia que será a tecnologia a resolver os problemas presentes e nunca se enfatiza a necessidade de transformação das estruturas sociais e dos convencionalismos dominantes.
Muitos grupos sociais tornam-se completamente invisíveis a quem leia a maior parte dos manuais escolares portugueses. Desde os homossexuais até às mulheres domésticas, passando pela terceira idade e pelos operários, muitos grupos sociais e profissionais são suprimidos ou é o mesmo que não existissem à face da terra, tudo isso numa estratégia discursiva que visa consagrar os grupos e elementos que sejam importantes para o mercado, os com papel activo segundo a retórica dominante.
Ignoram-se e desprezam-se igualmente as culturas e práticas locais que, como não se revestem de natureza depredatória, são encaradas as mais das vezes como …atrasadas.
A natureza, a terra e a vida mostram-se sempre como actividades subordinadas à economia e ao mercado. Prevalece uma lógica produtivista. A ecodependência das sociedades humanas é permanentemente uma ilustre desconhecida para os livros escolares, e passa-se ao lado da natureza insustentável dos actuais processos económico-sociais. Celebram-se, por exemplo, os transportes rápidos, e a longa distância, sublimando-se explícita e sub-repticiamente os valores ligados velocidade custe o que custar.
Pior ainda é o profundo e marcado etnocentrismo que todos ou quase todos os manuais dão mostras evidentes, qualquer que seja o nível escolar para que foram destinados.
A história é convertida numa história dos Estados e do poder, com mapas e fronteiras amiúde, relegando para um plano secundário as histórias das culturas e a dinâmica social.
Perpassa em todos esses livros uma noção linear da evolução que acaba por sublimar, invariavelmente, as virtudes da modernidade, esquecendo-se de referir o quanto de barbárie esta mesma modernidade tem engendrado.
As soluções políticas e individuais são sempre de natureza individualista. Parece que não há decisões estruturais a assumir. Fazem-se recomendações e conselhos para o indivíduos, mas não se denunciam as soluções tecnocráticas e lucrativas tomadas pelas autoridades para as sociedades capitalistas.
E passam em branco muitas das áreas fundamentais da nossa vida, desde a educação sexual até à realidade, muito bem escondida, do vil e rentável negócio de armas e do domínio do complexo militar-industrial., passando pela repressão e controle dos cidadãos, a exploração económica, as mentiras e a manipulação mediática, etc,etc.

No fundo, os manuais escolares não preparam nem para o presente, nem muito menos para o futuro. Ignoram ou fazem por ignorar as grandes linhas que movem o mundo e a civilização actual. Servem antes para legitimar um modo de vida adequado às realidades sociais do sistema económico dominante, mas insustentável a curto prazo.
Não falamos, obviamente, dos erros científicos e metodologias discutíveis que pululam nos vários livros de texto editados em concorrência por várias editoras a preços proibitivos, que custam os olhos da cara a muitas famílias. Tudo para bem da reprodução social do capitalismo depredatório.

Activismo e espiritualidade ( Starhawk)


«Muitos activistas desconfiam da religião e da espiritualidade, frequentemente por muitas e boas razões. Mas cada um de nós que estamos empenhados neste trabalho tem qualquer coisa de sagrado – no sentido em que, qualquer que seja isso, não significa conforto ou prazer, mas que determina todos os nossos outros valores, e em que estamos dispostos a assumir riscos para o servir. Não precisa de deus nem de deusas ou de divindade alguma, mas pode consistir muito simplesmente na crença na liberdade, no sentimento que experimentamos quando estamos debaixo de uma sequóia, ou quando observamos uma pássaro a atravessar o céu, ou ainda quando lutamos pela verdade e pelas crianças. O que quer que ela seja, essa coisa alimenta-nos e dá-nos força. Para aqueles activistas que se identificam com uma prática espiritual, é chegado o momento de a pôr em prática, a sério. Para todos os outros, talvez valha a pena de guardar um pouco mais de tempo para se perguntar: «porque faço eu isto? O que é que é mais importante para mim? O que é que me dá forças?»

A resposta poderá ser grande ou nobre, modesta ou banal, a música hip hop ou o grafitti. Pouco importa, mas fazei dela a vossa prioridade. Praticai-la todos os dias ou, pelo menos, regularmente. Trazei-a convosco durante as acções em que vos empenhais. Deixai-a reforçar a vossa energia quando estais desencorajado.

Temos necessidade de vós todos nesta luta prolongada. E cuidar-vos é certamente um meio de preservar um dos recursos mais preciosos do movimento.

Não há nada onde ir se lá ainda não estivermos. Se mantivermos esperança e visão. Se ousarmos marchar com coragem e agir ao serviço daquilo que amamos, as barreiras, que encontrarmos, cederão, como a polícia cedeu aquando da nossa marcha para Washington. O caminho não e balizado, nem cartografado. Isso transmite um sentimento de estranheza, mas trata-se de um sentimento vivificante, um sentimento de risco, mas também um sentimento de liberdade. Nascemos para trilhar essa caminho, e os grandes poderes da vida e da criatividade marcham connosco para um futuro viável»

Excerto de «Só a poesia», texto publicado no livro «Parcours d’une Altermondialiste» de Starhawk, na edição francesa de «Empêcheurs de penser en rond»

Nota: Starhawk é uma conhecida activista anti-globalização, feiticeira neo-pagã, autora de diversos textos e de livros que nos falam da resistência anticapitalista não-violenta e da prática espiritual.
Starhawk esteve recentemente em Paris onde debateu com os activistas e as feministas francesas as suas teses e as práticas que rotagonizou nos Estados Unidos, de onde é originária.

Mais info:
www.starhawk.org
http://paris.indymedia.org/article.php3?id_article=37090

Esperanto na Internet



Para aceder a múltiplos sites, a recursos vários, conversar e ler textos e livros, além de poder aprender e fazer um curso na língua internacionalista como o Esperanto pode ir a:

O Congresso dos Vagabundos ( Stuttgart, 1929)



No fim dos anos 20, número de desempregados e sem-abrigo não parava de crescer na Alemanha. Muitos jovens partiam pelas estradas na esperança de encontrar emprego e pão. No caminho encontravam operários, artesãos e vagabundos que se tratavam todos entre si como «companheiros». Os desempregados citadinos, entre os quais se encontravam elementos politizados e outros que se interessavam por arte, passaram a conviver com os vagabundos.
Aparece então em 1927 o primeiro número da revista dos vagabundos «Der Kunde» ( «O Companheiro»), editado pelo escritor Gregor Gog, que vivia numa cabana de madeira, construída por ele mesmo, nos arredores de Stuttgart. Tinha a intenção de fundar uma «Confraria dos Vagabundos» internacional a fim de superar a atomização e a passividade dos sem-pátria. Com esse objectivo é que Gregor Gog lança um convite aos vagabundos para um encontro internacional em Stuttgart para a semana do Pentecostes de 1929. Compareceram cerca de 300 pessoas que se reuniram entre 21 e 23 de Maio no jardim da juventude livre-pensadora, atrás da Escola das Artes Aplicadas situada em Killesberg, Stuttgart. As autoridades locais tudo fizeram para silenciar a iniciativa, mas a imprensa não deixou de fazer reportagens circunstanciadas e publicar fotografias. Gregor Gog abriu o «Congresso». Falaram, em seguida, o pintor Hans Hammelrath, o agitador comunista Rudolf Geist, o advogado Philip Heinz, o professor exilado Karl Roltsch e o pastor Jakob Weidemann. Seguramente que para os operários presentes os discursos pareceram muito longos e algo solenes. Apesar de não terem ultrapassado poucas centenas de participantes, o encontro foi um sucesso. A vagabundagem fazia parte dos sinais do tempo que passava, e a imprensa não hesitou em relatar o acontecimento. Tanto mais que não se via solução para a crise social, e as autoridades tradicionais iam sofrendo forte erosão, o que permitiu um certo efeito «mobilizador». Começavam, enfim, a organizar-se, aqueles que se tinham tornado nómadas. Discutiam ao longo do dia, entre si, e apresentavam orgulhosamente os primeiros documentos de uma cultura específica, «não sedentária». Simultaneamente, na Casa das Artes Hirrlinger,situada no nº 7 da Gartenstrasse, em Stuttgart, abria uma Exposição de arte dos vagabundos.
Nos três anos seguintes, a miséria eo desemprego cresceram ainda mais. Não existiam 70.000, mas antes uns 500.000 sem-abrigos que levavam por toda a Alemanha uma vida de errância. Quando os nazis chegaram ao poder, uma das primeiras promessas foi metê-los em ordem. Deportaram os «Sinti» e os «Roms» (ciganos), declarados «racilamente inferiores», para os campos e mataram mais de 400.000. Quanto aos operários e vagabundo «arianos» obrigaram-nos pela força a sedentarizaram-se e a trabalharem. Ao mesmo tempo, centenas de anticonformistas, opositores políticos e judeus foram perseguidos, mortos ou obrigados a exilarem-se. Ao fim e ao cabo, o Estado nazi cujo objectivo deliberado era acabar com tudo o que era anti-social e criminal, acabou por se mostrar o Estado mais anti-social e criminoso da história alemã.
No ano de 1981 houve uma tentativa de retomar o «Congresso dos Vagabundos» de 1929, mas a ideia fracassou. Entretanto, o desemprego, a mendicidade e os sem-abrigo não pararam de aumentar. Há de novo mais de 100.000 pessoas na rua e ao longo das estradas. A ideia abortada de retomar aquela iniciativa, realizada no fim da República de Weimar, não tinha nada de nostálgico. A questão era antes de tentar encontrar formas eficazes de comunicação e organização susceptíveis de superar o isolamento e o desespero. Não se tratava de pôr limites à miséria, mas sim de a equacionar a partir de razões económicas. E de dizer aos políticos para inventarem outra coisa que não seja apenas o habitual reforço da polícia.

(tradução do texto publicado na revista Marginales, nº 3-4 , Hiver 2004, editado pela Agone, num número monográfico sobre «Les dépossédés,figures durefus social»)



Ecologistas e crianças acampam na Quinta Marques Gomes para a defender



Ecologistas e crianças responderam à convocatória do Terra Vivente ( ex-Terra Viva), associação de ecologia social, e durante este fim de semana estiveram acampados na Quinta Marques Guedes na zona ribeirinha de Gaia, no Canidelo, já perto da foz do rio Douro, onde está prevista a construção de uma mega urbanização promovida pela empresa Espírito Santo Fundos Imobiliários, e que por mais incrível que pareça já recebeu o acordo da Câmara de Gaia, apesar da construção prevista vir a destruir uma mancha verde insubstituível e trazer mais cimento para as encostas do rio Douro e contrariar inclusivamente o Plano Director Municipal, que terá de ser suspenso, caso contrário a urbanização prevista seria ilegal.

Enfim, mais uma negociata entre imobiliárias e autarquias…

5.6.05

Para uma ecopolis

Notas para uma estratégia de ecopolis

Por Jacinto Rodrigues

1. METODOLOGIA

A primeira reflexão metodológica é a necessidade de pensar em termos interdisciplinares e transdisciplinares nas intervenções urbanas. A abordagem deve ser integrada. Os vários elementos: a componente das energias, da produção, da circulação, dos consumos e da reciclagem, interagem uns nos outros. Assim, as questões naturais, técnicas e sociais são sistémicas e só podem ser abordadas segundo o pensamento da complexidade.Essa abordagem deve ser mais profiláctica do que terapêutica. A cidade deve ser entendida como um eco-sistema. Tal perspectiva exige sair da visão ?modernista? da cidade mega-máquina e procurar enquadrar a urbe como a expressão eco-sistémica da ligação da sociedade como componente da Biosfera. Este é o sentido lato com que se deve entender a paisagem antrópica.A cidade como mega-máquina é dissipativa, consumista e contaminante. Tem como matriz o ?Shoping Center?.A eco-polis, cidade como eco-sistema regenerativo, funciona num processo integrado entre civilização, eco-técnica e biosfera.

2. CONCEPÇÃO DA PAISAGEM

Assim, a estrutura construída, o processo de urbanização, deve enquadrar-se na paisagem mais global e articular-se na cidade-região/cidade-natureza. Como corolário deste ponto de vista procura-se então, em vez do uso de energias fósseis que levam ao esgotamento dos recursos naturais, criar uma produção de energias renováveis e eliminar uma produção com materiais poluentes e energias não limpas, evitando os resíduos contaminantes e tóxicos. Os lixos deveriam ser recicláveis, permitindo assim a substituição do metabolismo linear, próprio das máquinas, em metabolismo circular ou regenerativo dos seres vivos. Esta é toda a diferença existente entre um entendimento da cidade como máquina ou da cidade como ?ecosistema?.

3. MULTIFUNCIONALIDADE

A monofuncionalidade, ou seja, a separação das actividades urbanas, característica dos zonamentos da cidade-máquina ?moderna?,deve dar lugar a uma interacção onde os mesmos elementos podem constituir respostas multifuncionais.Isto é particularmente importante no que diz respeito à relação entre paisagem natural e edificação. As árvores e os arbustos, a reorganização do planeamento vegetal em geral, e também a reorganização hidrológica, constituem factores não apenas susceptíveis de embelezamento estético mas de bioclimatização e de biodepuração.

4. BIO-CLIMATIZAÇÃO E BIO-DEPURAÇÃO

O verde urbano, através de corredores verdes, jardins e bosques urbanos, deve ter uma função ecológica decisiva para a bioclimatização e biodepuração.Muito do lixo orgânico, resultante dos consumos urbanos, pode ser reciclado como fertilizante para hortas e bosques. Recorde-se o exemplo de Curitiba em que os fertilizantes orgânicos entregues pelos cidadãos, permitem a troca com produtos agrícolas criados nas hortas municipais.Também a renaturalização dos rios não é apenas uma questão de estética.Hoje conhecem-se bem os fenómenos da fito-depuração dos sistemas de lagunagem, da meandrização e das pequenas cascatas como factores de melhoria na qualidade da água.

5. ENERGIAS RENOVÁVEIS

As energias renováveis devem ser tratadas como uma questão central do ecodesenvolvimento. Devem ser utilizadas duma forma integrada e essencialmente numa escala regional. Por exemplo: mini-centrais que articulem várias energias complementares (solar/ eólica/ hídrica/ biogás, etc.) podem responder muito melhor do que estruturas gigantes monoenergéticas. A escala construtiva comunitária oferece também vantagens sobre o uso de protótipos energéticos à escala familiar. Todas estas estruturas devem inserir-se numa malha policêntrica do território, capaz de o cobrir, energeticamente, com o máximo de descentralidade e complementaridade.

6. BIO-CONSTRUÇÃO

A edificação deve pautar-se por uma legislação com preocupações ecológicas claras. O uso de materiais não poluentes, as preocupações pelos sistemas solares passivos, a articulação com a bioclimatização gerada pela eco-paisagem, devem ser um factor chave. A própria disposição espacial pode valorar o aproveitamento energético.O exemplo francês pode ser implementado como processo pedagógico. O programa denominado construção de alta qualidade ambiental (H.Q.C.) estabelece concursos especiais na base de soluções ecológicas através da escolha de materiais não poluentes e soluções energéticas alternativas.As edificações públicas, em particular as escolas e centros de formação cultural devem tornar-se experiências exemplares. Quando funcionam segundo o preceito da eco-construção, favorecem comportamentos e atitudes que são as melhores soluções para uma verdadeira educação ambiental.A construção bioclimática exige novas formas, novos materiais, novos processos de implantação topológica. Estas novas morfologias complexas são dispositivos catalizadores duma outra civilização.

7. AGRICULTURA E INDÚSTRIA ECOLÓGICA

Em articulação com a actividade construtiva e também em função de outras actividades como a industrial, deveria proceder-se a uma eco-agricultura que complementarizasse a abertura de novos postos de trabalho às exigências simultâneas da agricultura e indústria numa base ecológica. Um exemplo que me parece interessante estudar é o do incentivo da cultura do cânhamo que foi uma cultura historicamente conhecida no Norte, Centro e Sul de Portugal, nomeadamente quando era aplicado no fabrico das velas e do cordame para os barcos à vela, desde o séc. XVI. Tem a seguinte particularidade: é uma produção agrícola de fácil manutenção, beneficia os solos e permite, para além da tecelagem, o fabrico de papel e outros materiais. Acontece ainda que, através de processos recentes, esta planta está a ser utilizada na bioconstrução. Também a transformação tecnológica do bambú chinês ?miscanthus? poderá vir a possibilitar uma articulação entre a actividade agrícola e a bioconstrução.São também possíveis outro tipo de actividades agrícolas (permacultura, agricultura biodinâmica) capazes de promover agro-pecuárias ecológicas.

8. TRANSPORTES ALTERNATIVOS

Os transportes públicos não poluentes deveriam constituir uma alternativa à invasão do trânsito urbano.Com os corredores verdes, para além da função depuradora, criam-se circuitos pedonais e ciclovias que poderão permitir conexões entre várias zonas.As passarelas constituem atravessamentos fáceis, permitindo logradouros por onde se espraiam paisagens urbanas.Os centros da cidade, em particular os centros históricos, são avessos ao uso de automóveis.No estado actual, os veículos são poluentes e constituem uma oposição ao uso de hortas urbanas e espaços públicos de lazer e cultura.

9. PARTICIPAÇÃO CONSCIENTE DAS POPULAÇÕES

A prática do urbanismo numa perspectiva ecológica deverá ter em conta a mobilização das populações na detecção dos problemas e sua resolução.Assim, o eco-urbanismo é, antes de tudo, desígnio estratégico sujeito às múltiplas interacções surgidas ao longo dum percurso que deve ser entendido como processo permanente embora com faseamentos nos objectivos mas que serão sempre sujeitos a constantes avaliações e retroacções.A ?investigação-acção? e o ?trabalho de projecto? são as práticas sociais que melhor se coadunam com esta filosofia. A mobilização consciente da população é decisiva. Volto ainda à experiência de Curitiba: Nalguns festivais culturais, encontros de cinema, teatro ou música promovidos pela municipalidade dessa cidade brasileira, a entrada dos espectáculos é paga com garrafas usadas ou papel para reciclar. Este tipo de mobilização pela positiva é uma forma educativa que sendo alheia a qualquer processo administrativo-repressivo, liga as aspirações às necessidades, promove solidariedade e cooperação num clima social, lúdico e festivo tão necessário à participação popular nos objectivos de interesse público.Através desse processo, a população vai tomando consciência da problemática ecológica e o planeador deixa de ter a arrogância dum tecnocrata autoconvencido dum qualquer ?modelo? estático e ?ad eternum...?.Assim, o eco-urbanismo é um caminho que se faz caminhando, parafraseando o poeta Machado.No entanto, qualquer intervenção deve ser reflectida e inserida numa óptica projectiva, futurante, pois os dispositivos topológicos são, por natureza, resistentes à mudança. E quando se constroem dispositivos errados, estes funcionam como travão às mudanças, podendo mesmo transformar-se em mecanismos de reprodução de hábitos opostos à necessária e permanente metamorfose social.

Jacinto Rodrigues, in A Página

Retirado de
http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=3160

7m2 per capita de espaço verde no Porto



Na cidade do Porto, em 2002, segundo dados oficiais, existiam 86Km de ruas arborizadas e calculava-se em 7m2 per capita de espaços verdes.

20 cidades têm mais de 10 milhões de habitantes




É verdade! Existem actualmente 20 megacidades com uma população de mais de 10 milhões de humanos. Assustador, não é?
Mais: nessas cidades, e em geral em todas elas, a população urbana consome 30 vezes mais em bens alimentares que as populações rurais!!!

Agricultura urbana: uma alternativa de sustentabilidade

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), a produção agrícola em cidades é um fenômeno crescente no mundo, principalmente nos países em desenvolvimento, onde a possibilidade de acesso aos alimentos é muito desigual e o sistema de abastecimento inadequado. A FAO define agricultura urbana como aquela referente ao cultivo dentro das cidades; já a agricultura peri-urbana é aquela praticada em unidades periféricas, ao redor das cidades. Ambas são realizadas principalmente por ex-camponeses, trabalhadores da terra que, devido ao êxodo rural, vieram para os centros urbanos em busca de emprego. Ao produzir alimento para seu próprio consumo, esses moradores também reforçam sua renda ao vender o excedente da colheita, proporcionando à comunidade local maior acesso a alimentos de qualidade e a preços mais baixos.

As espécies produzidas na horticultura têm alto rendimento, fornecendo até 50 kg/m² do vegetal fresco por ano, dependendo da tecnologia aplicada. Também possuem ciclo de produção curto – várias espécies podem ser colhidas em até 60 dias após o plantio, atendendo rapidamente às necessidades emergenciais de alimento às famílias, seja para sua alimentação ou para a venda, que resulta em renda para cobrir outros gastos.

Em cidades como São Paulo, as hortas urbanas têm sido alternativa para uma alimentação mais saudável e barata. Locais como a Av. Radial Leste, uma das mais movimentadas da capital, abrigam hortas que alimentam dezenas de famílias de baixa renda. Essa atividade está prevista no Plano Diretor do município, pois, além de combater a fome e promover a inclusão social, contribui para a melhoria das condições ambientais, possibilitando a ocupação de terrenos vazios, que ao invés de acumular mato e lixo, são tratados e cultivados, fornecendo alimento fresco e sem agrotóxicos. A lei permite redução do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) aos donos dos locais escolhidos, e estimula a formação de cooperativas de agricultores das hortas urbanas e a venda dos produtos cultivados de forma orgânica, ou seja, sem o uso de agrotóxicos.

A agricultura urbana contribui também para melhorar muitos outros aspectos da vida nos centros urbanos. No que diz respeito à segurança alimentar, o consumo de maior quantidade de alimento e o frescor dos alimentos perecíveis que realçam seu sabor mostram, segundo estudos de caso, que as crianças pertencentes às famílias produtoras possuem diferencial nutricional superior às outras de famílias pobres não-produtoras. Além disso, fortalece a organização comunitária e a economia solidária, valoriza a cultura e o conhecimento popular sobre plantas e tipos de plantio, ocupa idosos e desempregados e garante alimentos de boa qualidade e variedade.

A actividade também contribui para a melhoria do meio ambiente: aumenta a permeabilidade do solo, reduz erosões, substitui terrenos ociosos que antes teriam a destinação à especulação imobiliária ou a degradação ambiental. Sua utilização para a produção em bases agroecológicas (sem agrotóxicos nem fertilizantes) de baixo custo, por meio de planos participativos, promove a educação alimentar, a diversificação e valorização da cultura alimentar local, o fortalecimento da agricultura familiar e contribui para o abastecimento urbano, gerando instrumentos de inclusão social.

Em Cuba, as hortas urbanas ganharam nova dimensão após o fim da URSS, principal fornecedor de agrotóxicos e fertilizantes químicos para o país. A falta desses produtos obrigou o país a partir para a produção orgânica, sem pesticidas e usando adubo verde. A quantidade de alimentos produzida nas hortas aumentou de 40 mil toneladas em 1995 para 115 mil toneladas em 1998. A agricultura urbana em Havana produziu, em 1999, 65% de todo o arroz consumido no país e 46% dos vegetais frescos. Além do aumento da produção de alimentos, esses agricultores observaram que o ataque de pragas diminuiu significativamente devido à diversidade de plantas cultivadas.

Ao utilizar adubo orgânico, a agricultura urbana também incrementa os processos de reciclagem. Mais da metade dos resíduos produzidos pelas cidades são orgânicos, provenientes de restos de alimentos que podem ser transformados em adubo verde com o uso de composteiras. Assim, uma solução simples e de baixo custo dá sustentabilidade ao processo, produzindo alimentos e reutilizando os resíduos na produção de mais alimentos.

(texto retirado da net)

Metropolis

Metropolis é o título de um célebre filme de um dos mais importantes realizadores de cinema, Fritz Lang. Fala-nos das cidades da era industrial e do seu cenário dantesco, diabólico mesmo.

Neste dia mundial do ambiente dedicado às «cidades verdes», porque não realçar o contraste falando das megacidades profundamente alteradas pela actividade industrial e pela civilização tecno-burocrática que destrói a natureza e envenena o relacionamento entre os seres vivos.

Deixamos aqui uma breve sinopse do filme.

No ano de 2026, uma enorme, caótica e melancolicamente bela Metropolis é o cenário de uma história que mistura luta de classes, romance e um robots, tendo como pano de fundo a discussão sobre a técnica e o seu pelo homem, assim como uma reflexão sobre os modos de produção desencadeados pela Revolução Industrial, e como eles podem determinar de maneira funesta o futuro da humanidade.

Metropolis é uma cidade grandiosa e futurista onde convivem e se antagonizam duas classes bem definidas: os ricos e poderosos, que desfrutam das belezas e do fausto da superfície da cidade, e os operários, que vivem num mundo subterrâneo, abaixo do nível das máquinas, responsáveis, em última instância, pelo funcionamento e sobrevivência de toda a estrutura. Oprimidos pelos poderosos de Metropolis, massacrados pela rotina desumanizante da indústria, os operários são cuidadosamente escondidos do olhar de todos.

Joh Fredersen, um faraó moderno, o nazi Chefe de Metropolis, governa-a como se os trabalhadores não existissem, eles estão lá para simplesmente manter as engrenagens a funcionar, são até menos importantes para ele, que as próprias máquinas. Joh descobre que os operários estão preparando algo, quando começa a encontrar bilhetes aparentemente indecifráveis entre eles. Enquanto isso, o seu filho Freder Fredersen, desfruta das maravilhas de Metropolis, sem tomar conhecimento do que acontece nos subterrâneos, até que, um dia, aparece no "Jardim dos Prazeres", uma mulher, Maria, que levara os filhos dos operários para conhecerem o "andar de cima" da cidade. Freder apaixona-se por Maria, ela própria filha de um operário, o que o leva aos subterrâneos à sua procura.

Ao penetrar nesse universo totalmente estranho, Freder aterroriza-se com a situação miserável dos operários frente às máquinas. Ele presencia um acidente em que alguns trabalhadores, pelo cansaço, caem dentro de uma espécie de fornalha e tem até uma alucinação, onde a máquina se transforma num monstro que literalmente engole os homens. Revoltado, Freder vai falar com seu pai, que, sem se abalar, apenas decreta que é assim que as coisas são e continuarão sendo. Mais tarde, Freder aventura-se novamente nos subterrâneos, mais uma vez em busca de Maria. Ele vê um operário em verdadeira luta contra uma máquina indecifrável, semelhante a um relógio, e percebe que ele não aguenta mais e vai acabar sucumbindo ao poder da sua antagonista. Freder troca, então, de roupas e de identidade com o trabalhador, e assume o seu lugar perante a máquina. Essa cena é uma das mais impressionantes do filme. Freder sente na pele o peso de dez horas de trabalho pesado.

Vê-se, entretanto, uma casa sinistra, para onde Joh se dirige. Nela vive Rotwang, um cientista e inventor. Joh espera que Rotwang possa decifrar o enigmático bilhete que foi descoberto entre os trabalhadores. Mas o cientista tem algo mais fantástico para mostrar ao Chefe de Metropolis: um robot em forma de mulher, um operário perfeito, que jamais se revoltará contra a sua condição. Tudo o que ele precisará agora é de uma "alma", ou de uma aparência humana.

Rotwang decifra o bilhete que é um mapa para as catacumbas, onde os trabalhadores, sob a liderança de Maria, se reúnem para discutir sua situação e os meios para se libertarem da dupla opressão que sofrem. Joh e Rotwang assistem a uma dessa palestras, assim como Freder.

Maria é carismática, consegue liderar os operários e fala-lhes sobre um mediador, que virá para amenizar a situação de exploração . Após o discurso, Freder declara-se a Maria.
Joh, no entanto, tem planos mais diabólicos: dar ao robot as feições de Maria e programá-lo para incitar os trabalhadores à destruição das máquinas, o que acarretaria a inundação da cidade dos operários e seria um pretexto perfeito para a substituição final dos homens pelas máquinas.


Rotwang sequestra Maria e realiza a transformação, numa cena memorável, de efeitos surpreendentes. Freder não encontra sua amada e volta para a superfície. O robot, sob a aparência de Maria, acaba por convencer os operários a partirem para a luta, a destruírem quem os oprime, a máquina, é claro, não os senhores por trás delas. Como num transe, eles partem, em hordas enfurecidas, contra os aparelhos e a cidade subterrânea começa a encher de água.

Maria consegue escapar da casa de Rotwang e, juntamente com Freder, salvam as crianças - o futuro de Metropolis - da inundação. Os trabalhadores, ao perceberem o grande erro que haviam cometido, destruindo as máquinas, voltam-se contra a falsa Maria e queimam-na "viva". Nesse momento, a capa de pele que revestia o robot desaparece e eles percebem, atónitos, que não se tratava da verdadeira Maria.
Joh fica desesperado ao não encontrar o filho e descobre que este está no telhado da catedral de Metropolis, em luta com Rotwang, que acaba caindo de lá e morrer


Com a destruição do "cientista louco" e de sua "criação demoníaca", todos podem ser "felizes para sempre" e os operários descobrem que Freder, o herói romântico, ingénuo e idealista é o mediador profetizado por Maria. Ele será o intermediário entre a "cabeça" - os senhores de Metropolis - e as "mãos" - os trabalhadores.

O próprio Fritz Lang dizia que não gostava desse final, excessivamente meloso e romântico. Ao que parece, ele foi convencido pela sua esposa e guionista Thea Von Habour a dar um tom conciliatório ao desfecho do filme.


Poema do lavrador de palavras aos políticos

Poema do lavrador de palavras aos políticos
( letra e canção de Pedro Barroso)


não me perguntem coisas daquelas que eu não creia
não me perguntem coisas daquelas que não sei
remeto para os senhores as decisões do mundo
tais como governar, fazer decretos lei

no meio da tempestade no meio das sapiências
se poeta nasci, poeta morrerei
nem homem de gravata nem homem de ciências
apenas de mim próprio, e pouco, serei rei

das decisões do mundo lerei o que entender
que dentro de mim mesmo às vezes nasce um rio
e é esse desafio que nunca hei-de esquecer
e é essa a diferença que faz o meu feitio

mas digam por favor de onde nasce o sol
que eu basta-me o calor - para lá me voltarei
e saibam já agora que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam por favor se o céu inda nos cobre
e bastará o azul
que em ave me tornei

mantenham com cuidado as árvores e estradas
pr'a gente poder ver, p'ra gente circular
que eu basta-me saúde e o sonho tão distante
e a boca perturbante que tu me sabes dar

e a festa de viver e o gozo e a paisagem
desta curva do Tejo, soprando a brisa leve
e na tranquilidade assim desta viagem
parar-se o tempo aqui, eterno, fresco e breve

que eu voo por toda a parte mas noutro horizonte
e vivo as coisas simples e rio-me da ambição
e ao fim de tanto ver, escolherei um monte
de onde assistirei, sorrindo, ao vosso enfarte

da ânsia de possuir, da ânsia de mostrar,
da ânsia da importância, da ânsia de manda

re digam por favor de onde nasce o sol
que eu basta-me o calor - para lá me voltarei
e saibam já agora que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam por favor se o céu inda nos cobre
e bastará o azul
que em ave me tornei


www.pedrobarroso.com