13.10.10

Manifesto dos economistas aterrorizados

Philippe Askenazy (CNRS, Ecole d'économie de Paris),
Thomas Coutrot (Conselho Científico da Attac),
André Orléan (CNRS, EHESS, Presidente da AFEP),
Henri Sterdyniak (OFCE)
Tradução de Nuno Serra, revisão de João Rodrigues.


Manifesto dos economistas aterrorizados

Crise e Dívida na Europa:

10 falsas evidências, 22 medidas em debate para sair do impasse



Introdução

A retoma económica mundial, que foi possível graças a uma injecção colossal de fundos públicos no circuito económico (desde os Estados Unidos à China) é frágil, mas real. Apenas um continente continua em retracção, a Europa. Reencontrar o caminho do crescimento económico deixou de ser a sua prioridade política. A Europa decidiu enveredar por outra via, a da luta contra os défices públicos.

Na União Europeia, estes défices são de facto elevados – 7% em média em 2010 – mas muito inferiores aos 11% dos Estados Unidos. Enquanto alguns estados norte-americanos com um peso económico mais relevante do que a Grécia (como a Califórnia, por exemplo), se encontram numa situação de quase falência, os mercados financeiros decidiram especular com as dívidas soberanas de países europeus, particularmente do Sul. A Europa, de facto, encontra-se aprisionada na sua própria armadilha institucional: os Estados são obrigados a endividar-se nas instituições financeiras privadas que obtêm injecções de liquidez, a baixo custo, do Banco Central Europeu (BCE). Por conseguinte, os mercados têm em seu poder a chave do financiamento dos Estados. Neste contexto, a ausência de solidariedade europeia incentiva a especulação, ao mesmo tempo que as agências de notação apostam na acentuação da desconfiança.

Foi necessário que a agência Moody baixasse a notação da Grécia, a 15 de Junho, para que os dirigentes europeus redescobrissem o termo “irracionalidade”, a que tanto recorreram no início da crise do subprime. Da mesma forma que agora se descobre que a Espanha está muito mais ameaçada pela fragilidade do seu modelo de crescimento e do seu sistema bancário do que pela sua dívida pública.

Para “tranquilizar os mercados” foi improvisado um Fundo de Estabilização do euro e lançados, por toda a Europa, planos drásticos – e em regra cegos – de redução das despesas públicas. As primeiras vítimas são os funcionários públicos, como sucede em França, onde a subida dos descontos para as suas pensões corresponderá a uma redução escondida dos seus salários, encontrando-se o seu número a diminuir um pouco por toda a parte, pondo em causa os serviços públicos. Da Holanda a Portugal, passando pela França com a actual reforma das pensões, as prestações sociais estão em vias de ser severamente amputadas. Nos próximos anos, o desemprego e a precariedade do emprego vão seguramente aumentar. Estas medidas são irresponsáveis de um ponto de vista político e social, mas também num plano estritamente económico.

Esta política, que apenas muito provisoriamente acalmou a especulação, teve já consequências extremamente negativas em muitos países europeus, afectando de modo particular a juventude, o mundo do trabalho e as pessoas em situação de maior fragilidade. A longo prazo, esta política reactivará as tensões na Europa e ameaçará por isso a própria construção europeia, que é muito mais do que um projecto económico. Supõe-se que a economia esteja ao serviço da construção de um continente democrático, pacífico e unido. Mas em vez disso, uma espécie de ditadura dos mercados é hoje imposta por toda a parte, particularmente em Portugal, Espanha e Grécia, três países que eram ditaduras no início da década de setenta, ou seja, há apenas quarenta anos.

Quer se interprete como um desejo de “tranquilizar os mercados”, por parte de governantes assustados, quer se interprete como um pretexto para impor opções ditadas pela ideologia, a submissão a esta ditadura não é aceitável, uma vez que já demonstrou a sua ineficácia económica e o seu potencial destrutivo no plano político e social. Um verdadeiro debate democrático sobre as escolhas de política económica deve pois ser aberto, em França e na Europa. A maior parte dos economistas que intervém no debate público, fazem-no para justificar ou racionalizar a submissão das políticas às exigências dos mercados financeiros. É certo que, um pouco por toda a parte, os poderes públicos tiveram que improvisar planos keynesianos de relançamento da economia e, por vezes, chegaram inclusive a nacionalizar temporariamente os bancos. Mas eles querem fechar, o mais rapidamente possível, este parêntese. A lógica neoliberal é sempre a única que se reconhece como legítima, apesar dos seus evidentes fracassos. Fundada na hipótese da eficiência dos mercados financeiros, preconiza a redução da despesa pública, a privatização dos serviços públicos, a flexibilização do mercado de trabalho, a liberalização do comércio, dos serviços financeiros e dos mercados de capital, por forma a aumentar a concorrência em todos os domínios e em toda a parte…

Enquanto economistas, aterroriza-nos constatar que estas políticas continuam a estar na ordem do dia e que os seus fundamentos teóricos não sejam postos em causa. Mas os factos trataram de questionar os argumentos utilizados desde há trinta anos para orientar as opções das políticas económicas europeias. A crise pôs a nu o carácter dogmático e infundado da maioria das supostas evidências, repetidas até à saciedade por aqueles que decidem e pelos seus conselheiros. Quer se trate da eficiência e da racionalidade dos mercados financeiros, da necessidade de cortar nas despesas para reduzir a dívida pública, quer se trate de reforçar o “pacto de estabilidade”, é imperioso questionar estas falsas evidências e mostrar a pluralidade de opções possíveis em matéria de política económica. Outras escolhas são possíveis e desejáveis, com a condição de libertar, desde já, o garrote imposto pela indústria financeira às políticas públicas.

Procedemos de seguida a uma apresentação crítica de dez postulados que continuam a inspirar, dia após dia, as decisões dos poderes públicos em toda a Europa, apesar dos lancinantes desmentidos que a crise financeira e as suas consequências nos revelam. Trata-se de falsas evidências, que inspiram medidas injustas e ineficazes, perante as quais expomos vinte e duas contrapropostas para debate. Cada uma delas não reúne necessariamente a concordância unânime dos signatários deste manifesto, mas deverão ser levadas a sério, caso se pretenda resgatar a Europa do impasse em que neste momento se encontra.

Falsa evidência n.º 1:

OS MERCADOS FINANCEIROS SÃO EFICIENTES

Existe hoje um facto que se impõe a todos os observadores: o papel primordial que desempenham os mercados financeiros no funcionamento da economia. Trata-se do resultado de uma longa evolução, que começou nos finais da década de setenta. Independentemente da forma como a possamos medir, esta evolução assinala uma clara ruptura, tanto quantitativa como qualitativa, em relação às décadas precedentes. Sob a pressão dos mercados financeiros, a regulação do capitalismo transformou-se profundamente, dando origem a uma forma inédita de capitalismo, que alguns designaram por “capitalismo patrimonial”, por “capitalismo financeiro” ou, ainda, por “capitalismo neoliberal”.

Estas mudanças encontraram na hipótese da eficiência informacional dos mercados financeiros a sua justificação teórica. Com efeito, segundo esta hipótese, torna-se crucial desenvolver os mercados financeiros e fazer com que eles possam funcionar o mais livremente possível, dado constituírem o único mecanismo de afectação eficaz do capital. As políticas obstinadamente levadas a cabo nos últimos trinta anos seguem esta recomendação. Trata-se de construir um mercado financeiro mundialmente integrado, no qual todos os actores (empresas, famílias, Estados, instituições financeiras) possam trocar toda a espécie de títulos (acções, obrigações, dívidas, derivados, divisas), em qualquer prazo (longo, médio e curto). Os mercados financeiros assemelharam-se cada vez mais ao mercado “sem fricção”, de que falam os manuais: o discurso económico convertera-se em realidade. Como os mercados se tornaram cada vez mais “perfeitos”, no sentido da teoria económica dominante, os analistas acreditaram que doravante o sistema financeiro passaria a ser muito mais estável que no passado. A “grande moderação” – o período de crescimento económico sem subida dos salários, que os Estados Unidos conheceram entre 1990 e 2007 – parecia confirmá-lo.

Apesar de tudo o que aconteceu, o G20 persiste ainda hoje na ideia de que os mercados financeiros constituem o melhor mecanismo de afectação do capital. A primazia e integridade dos mercados financeiros continuam por isso a ser os objectivos finais da nova regulação financeira. A crise é interpretada não como o resultado inevitável da lógica dos mercados desregulados, mas sim como um efeito da desonestidade e irresponsabilidade de certos actores financeiros, mal vigiados pelos poderes públicos.

A crise, porém, encarregou-se de demonstrar que os mercados não são eficientes e que não asseguram uma afectação eficaz do capital. As consequências deste facto em matéria de regulação e de política económica são imensas. A teoria da eficiência assenta na ideia de que os investidores procuram (e encontram) a informação mais fiável possível quanto ao valor dos projectos que competem entre si por financiamento. Segundo esta teoria, o preço que se forma num mercado reflecte a avaliação dos investidores e sintetiza o conjunto da informação disponível: constitui, portanto, um bom cálculo do verdadeiro valor dos activos. Ou seja, supõe-se que esse valor resume toda a informação necessária para orientar a actividade económica e, desse modo, a vida social. O capital é, portanto, investido nos projectos mais rentáveis, deixando de lado os projectos menos eficazes. Esta é a ideia central da teoria: a concorrência financeira estabelece preços justos, que constituem sinais fiáveis para os investidores, orientando eficazmente o crescimento económico.

Mas a crise veio justamente confirmar o resultado de diversos trabalhos científicos que puseram esta proposição em causa. A concorrência financeira não estabelece, necessariamente, preços justos. Pior: a concorrência financeira é, frequentemente, destabilizadora e conduz a evoluções de preços excessivas e irracionais, as chamadas bolhas financeiras.

O principal erro da teoria da eficiência dos mercados financeiros consiste em transpor, para os produtos financeiros, a teoria usualmente aplicada aos mercados de bens correntes. Nestes últimos, a concorrência é em parte auto-regulada, em virtude do que se chama a “lei” da oferta e da procura: quando o preço de um bem aumenta, os produtores aumentam a sua oferta e os compradores reduzem a procura; o preço baixa e regressa, portanto, ao seu nível de equilíbrio. Por outras palavras, quando o preço de um bem aumenta, existem forças de retracção que tendem a inverter essa subida. A concorrência produz aquilo a que se chama “feedbacks negativos”, forças de retracção que vão em sentido contrário ao da dinâmica inicial. A ideia da eficiência nasce de uma transposição directa deste mecanismo para o mercado financeiro.

Mas neste último caso a situação é muito diferente. Quando o preço aumenta é frequente constatar não uma descida mas sim um aumento da procura! De facto, a subida de preço significa uma rentabilidade maior para aqueles que possuem o título, em virtude das mais-valias que auferem. A subida de preço atrai portanto novos compradores, o que reforça ainda mais a subida inicial. As promessas de bónus incentivam os que efectuam as transacções a ampliar ainda mais o movimento. Até ao acidente, imprevisível mas inevitável, que provoca a inversão das expectativas e o colapso. Este fenómeno, digno da miopia dos “borregos de Panurge”1, é um processo de “feedbacks positivos” que agrava os desequilíbrios. É a bolha especulativa: uma subida acumulada dos preços que se alimenta a si própria. Deste tipo de processo não resultam preços justos mas sim, pelo contrário, preços inadequados.

O lugar preponderante que os mercados financeiros ocupam não pode, portanto, conduzir a eficácia alguma. Mais do que isso, é uma fonte permanente de instabilidade, como demonstra de forma clara a série ininterrupta de bolhas que temos vindo a conhecer desde há vinte anos: Japão, Sudeste Asiático, Internet, mercados emergentes, sector imobiliário, titularização. A instabilidade financeira traduz-se assim em fortes flutuações das taxas de câmbio e da Bolsa, que manifestamente não têm qualquer relação com os fundamentos da economia. Esta instabilidade, nascida no sector financeiro, propaga-se a toda a economia real através de múltiplos mecanismos.

Para reduzir a ineficiência e instabilidade dos mercados financeiros, avançamos com quatro medidas:

Medida n.º 1: Limitar, de forma muito estrita, os mercados financeiros e as actividades dos actores financeiros, proibindo os bancos de especular por conta própria, evitando assim a propagação das bolhas e dos colapsos;

Medida n.º 2: Reduzir a liquidez e a especulação destabilizadora através do controle dos movimentos de capitais e através de taxas sobre as transacções financeiras;

Medida n.º 3: Limitar as transacções financeiras às necessidades da economia real (por exemplo, CDS unicamente para quem possua títulos segurados, etc.);

Medida n.º 4: Estabelecer tectos para as remunerações dos operadores de transacções financeiras.

Falsa evidência n.º 2:

OS MERCADOS FINANCEIROS FAVORECEM O CRESCIMENTO ECONÓMICO

A integração financeira conduziu o poder da finança ao seu zénite, na medida em que ela unifica e centraliza a propriedade capitalista à escala mundial. Daí em diante, é ela quem determina as normas de rentabilidade exigidas ao conjunto dos capitais. O projecto consistia em substituir o financiamento bancário dos investidores pelo financiamento através dos mercados de capitais. Projecto que fracassou porque hoje, globalmente, são as empresas quem financia os accionistas, em vez de suceder o contrário. Consequentemente, a governação das empresas transformou-se profundamente para atingir as normas de rentabilidade exigidas pelos mercados financeiros. Com o aumento exponencial do valor das acções, impôs-se uma nova concepção da empresa e da sua gestão, pensadas como estando ao serviço exclusivo dos accionistas. E desapareceu assim a ideia de um interesse comum inerente às diferentes partes, vinculadas à empresa. Os dirigentes das empresas cotadas em Bolsa passaram a ter como missão primordial satisfazer o desejo de enriquecimento dos accionistas. Por isso, eles mesmos deixaram de ser assalariados, como denota o galopante aumento das suas remunerações. De acordo com a teoria da “agência”, trata-se de proceder de modo a que os interesses dos dirigentes estejam alinhados com os interesses dos accionistas.

Um ROE (Return on Equity ou rendimento dos capitais próprios) de 15% a 25% passa a constituir a norma que impõe o poder da finança às empresas e aos assalariados e a liquidez é doravante o seu instrumento, permitindo aos capitais não satisfeitos, a qualquer momento, ir procurar rendimentos noutro lugar. Face a este poder, tanto os assalariados como a soberania política ficam, pelo seu fraccionamento, em condição de inferioridade. Esta situação desequilibrada conduz a exigências de lucros irrazoáveis, na medida em que reprimem o crescimento económico e conduzem a um aumento contínuo das desigualdades salariais. Por um lado, as exigências de lucro inibem fortemente o investimento: quanto mais elevada for a rentabilidade exigida, mais difícil se torna encontrar projectos com uma performance suficientemente eficiente para a satisfazer. As taxas de investimento fixam-se assim em níveis historicamente débeis, na Europa e nos Estados Unidos. Por outro lado, estas exigências provocam uma constante pressão para a redução dos salários e do poder de compra, o que não favorece a procura. A desaceleração simultânea do investimento e do consumo conduz a um crescimento débil e a um desemprego endémico. Nos países anglo-saxónicos, esta tendência foi contrariada através do aumento do endividamento das famílias e através das bolhas financeiras, que geram uma riqueza assente num crescimento do consumo sem salários, mas que desemboca no colapso.

Para superar os efeitos negativos dos mercados financeiros sobre a actividade económica, colocamos em debate três medidas:

Medida n.º 5: Reforçar significativamente os contra-poderes nas empresas, de modo a obrigar os dirigentes a ter em conta os interesses do conjunto das partes envolvidas;

Medida n.º 6: Aumentar fortemente os impostos sobre os salários muito elevados, de modo a dissuadir a corrida a rendimentos insustentáveis;

Medida n.º 7: Reduzir a dependência das empresas em relação aos mercados financeiros, incrementando uma política pública de crédito (com taxas preferenciais para as actividades prioritárias no plano social e ambiental).

Falsa evidência n.º 3:

OS MERCADOS SÃO BONS JUIZES DO GRAU DE SOLVÊNCIA DOS ESTADOS


Segundo os defensores da eficiência dos mercados financeiros, os operadores de mercado teriam em conta a situação objectiva das finanças públicas para avaliar o risco de subscrever um empréstimo ao Estado. Tomemos o exemplo da dívida grega: os operadores financeiros, e todos quantos tomam as decisões, recorreram unicamente às avaliações financeiras para ajuizar sobre a situação. Assim, quando a taxa exigida à Grécia ascendeu a mais de 10%, cada um deduziu que o risco de incumprimento de pagamento estaria próximo: se os investidores exigem tamanho prémio de risco é porque o perigo é extremo.

Mas há nisto um profundo erro, quando compreendemos a verdadeira natureza das avaliações feitas pelos mercados financeiros. Como não é eficiente, o mais provável é que apresente preços completamente desconectados dos fundamentos económicos. Nessas condições, é irrazoável entregar unicamente às avaliações financeiras a análise de uma dada situação. Atribuir um valor a um título financeiro não é uma operação comparável a medir uma proporção objectiva, como por exemplo calcular o peso de um objecto. Um título financeiro é um direito sobre rendimentos futuros: para o avaliar é necessário prever o que será o futuro. É uma questão de valoração, não uma tarefa objectiva, porque no instante t o futuro não se encontra de nenhum modo predeterminado. Nas salas de mercado, as coisas são o que os operadores imaginam que venham a ser. O preço de um activo financeiro resulta de uma avaliação, de uma crença, de uma aposta no futuro: nada assegura que a avaliação dos mercados tenha alguma espécie de superioridade sobre as outras formas de avaliação.

A avaliação financeira não é, sobretudo, neutra: ela afecta o objecto que é medido, compromete e constrói um futuro que imagina. Deste modo, as agências de notação financeira contribuem largamente para determinar as taxas de juro nos mercados obrigacionistas, atribuindo classificações carregadas de grande subjectividade, contaminadas pela vontade de alimentar a instabilidade, fonte de lucros especulativos. Quando baixam a notação de um Estado, as agências de notação aumentam a taxa de juro exigida pelos actores financeiros para adquirir os títulos da dívida pública desse Estado e ampliam assim o risco de colapso, que elas mesmas tinham anunciado.

Para reduzir a influência da psicologia dos mercados no financiamento dos Estados, colocamos em debate duas medidas:

Medida n.º 8: As agências de notação financeira não devem estar autorizadas a influenciar, de forma arbitrária as taxas de juro dos mercados de dívida pública, baixando a notação de um Estado: a sua actividade deve ser regulamentada, exigindo-se que essa classificação resulte de um cálculo económico transparente;

Medida n.º 8 (b): Libertar os Estados da ameaça dos mercados financeiros, garantindo a compra de títulos da dívida pública pelo BCE.

Falsa evidência n.º 4:

A SUBIDA ESPECTACULAR DAS DÍVIDAS PÚBLICAS É O RESULTADO DE UM EXCESSO DE DESPESAS


Michel Pébereau, um dos “padrinhos” da banca francesa, descrevia em 2005, num dos seus relatórios oficiais ad hoc, uma França asfixiada pela dívida pública e que sacrificava as suas gerações futuras ao entregar-se a gastos sociais irreflectidos. O Estado endividava-se como um pai de família alcoólico, que bebe acima das suas posses: é esta a visão que a maioria dos editorialistas costuma propagar. A explosão recente da dívida pública na Europa e no mundo deve-se porém a outra coisa: aos planos de salvamento do sector financeiro e, sobretudo, à recessão provocada pela crise bancária e financeira que começou em 2008: o défice público médio na zona euro era apenas de 0,6% do PIB em 2007, mas a crise fez com que passasse para 7%, em 2010. Ao mesmo tempo, a dívida pública passou de 66% para 84% do PIB.

O aumento da dívida pública, contudo, tanto em França como em muitos outros países europeus, foi inicialmente moderado e antecedeu esta recessão: provém, em larga medida, não de uma tendência para a subida das despesas públicas – dado que, pelo contrário, desde o início da década de noventa estas se encontravam estáveis ou em declínio na União Europeia, em proporção do PIB – mas sim à quebra das receitas públicas, decorrente da debilidade do crescimento económico nesse período e da contra-revolução fiscal que a maioria dos governos levou a cabo nos últimos vinte e cinco anos. A longo prazo, a contra-revolução fiscal alimentou continuamente a dilatação da dívida, de recessão em recessão. Em França, um recente estudo parlamentar situa em 100.000 milhões de euros, em 2010, o custo das descidas de impostos, aprovadas entre 2000 e 2010, sem que neste valor estejam sequer incluídas as exonerações relativas a contribuições para a segurança social (30.000 milhões) e outros “encargos fiscais”. Perante a ausência de uma harmonização fiscal, os Estados europeus dedicaram-se livremente à concorrência fiscal, baixando os impostos sobre as empresas, os salários mais elevados e o património. Mesmo que o peso relativo dos factores determinantes varie de país para país, a subida quase generalizada dos défices públicos e dos rácios de dívida pública na Europa, ao longo dos últimos trinta anos, não resulta fundamentalmente de uma deriva danosa das despesas públicas. Um diagnóstico que abre, evidentemente, outras pistas para além da eterna exigência de redução da despesa pública.

Para instaurar um debate público informado acerca da origem da dívida e dos meios de a superar, colocamos em debate uma proposta:

Medida n.º 9: Efectuar uma auditoria pública das dívidas soberanas, de modo a determinar a sua origem e a conhecer a identidade dos principais detentores de títulos de dívida e os respectivos montantes que possuem.

Falsa evidência n.º 5:

É PRECISO REDUZIR AS DESPESAS PARA DIMINUIR A DÍVIDA PÚBLICA

Mesmo que o aumento da dívida pública tivesse resultado, em parte, de um aumento das despesas públicas, o corte destas despesas não contribuiria necessariamente para a solução, porque a dinâmica da dívida pública não tem muito que ver com a de uma casa: a macroeconomia não é redutível à economia doméstica. A dinâmica da dívida depende de vários factores: do nível dos défices primários, mas também da diferença entre a taxa de juro e a taxa de crescimento nominal da economia.

Ora, se o crescimento da economia for mais débil do que a taxa de juro, a dívida cresce mecanicamente devido ao “efeito de bola de neve”: o montante dos juros dispara, o mesmo sucedendo com o défice total (que inclui os juros da dívida). Foi assim que, no início da década de noventa, a política do franco forte levada a cabo por Bérégovoy – e que se manteve apesar da recessão de 1993/94 – se traduziu numa taxa de juro durante muito tempo mais elevada do que a taxa de crescimento, o que explica a subida abrupta da dívida pública em França neste período. Trata-se do mesmo mecanismo que permite compreender o aumento da dívida durante a primeira metade da década de oitenta, sob o impacto da revolução neoliberal e da política de taxas de juro elevadas, conduzidas por Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

Mas a própria taxa de crescimento da economia não é independente da despesa pública: no curto prazo, a existência de despesas públicas estáveis limita a magnitude das recessões (“estabilizadores automáticos”); no longo prazo, os investimentos e as despesas públicas (educação, saúde, investigação, infra-estruturas…) estimulam o crescimento. É falso afirmar que todo o défice público aumenta necessariamente a dívida pública, ou que qualquer redução do défice permite reduzir a dívida. Se a redução dos défices compromete a actividade económica, a dívida aumentará ainda mais. Os comentadores liberais sublinham que alguns países (Canadá, Suécia, Israel) efectuaram ajustes brutais nas suas contas públicas nos anos noventa e conheceram, de imediato, um forte salto no crescimento. Mas isso só é possível se o ajustamento se aplicar a um país isolado, que adquire novamente competitividade face aos seus concorrentes. Evidentemente, os partidários do ajustamento estrutural europeu esquecem-se que os países têm como principais clientes e concorrentes os outros países europeus, já que a União Europeia está globalmente pouco aberta ao exterior. Uma redução simultânea e maciça das despesas públicas, no conjunto dos países da União Europeia, apenas pode ter como consequência uma recessão agravada e, portanto, uma nova subida da dívida pública.

Para evitar que o restabelecimento das finanças públicas provoque um desastre social e político, lançamos para debate duas medidas:

Medida n.º 10: Manter os níveis de protecção social e, inclusivamente, reforçá-los (subsídio de desemprego, habitação…);

Medida n.º 11: Aumentar o esforço orçamental em matéria de educação, de investigação e de investimento na reconversão ecológica e ambiental...tendo em vista estabelecer as condições de um crescimento sustentável, capaz de permitir uma forte descida do desemprego.

Falsa evidência n.º 6:

A DÍVIDA PÚBLICA TRANSFERE O CUSTO DOS NOSSOS EXCESSOS PARA OS NOSSOS NETOS

A afirmação de que a dívida pública constitui uma transferência de riqueza que prejudica as gerações futuras é outra afirmação falaciosa, que confunde economia doméstica com macroeconomia. A dívida pública é um mecanismo de transferência de riqueza, mas é-o sobretudo dos contribuintes comuns para os rentistas.

De facto, baseando-se na crença, raramente comprovada, de que a redução dos impostos estimula o crescimento e aumenta, posteriormente, as receitas públicas, os Estados europeus têm vindo a imitar os Estados Unidos desde 1980, adoptando uma política sistemática de redução da carga fiscal. Multiplicaram-se as reduções de impostos e das contribuições para a segurança social (sobre os lucros das sociedades, sobre os rendimentos dos particulares mais favorecidos, sobre o património e sobre as cotizações patronais), mas o seu impacto no crescimento económico continua a ser muito incerto. As políticas fiscais anti-redistributivas agravaram, por sua vez, e de forma acumulada, as desigualdades sociais e os défices públicos.

Estas políticas de redução fiscal obrigaram as administrações públicas a endividar-se junto dos agregados familiares favorecidos, através dos mercados financeiros, de modo a financiar os défices gerados. É o que se poderia chamar de “efeito jackpot”: com o dinheiro poupado nos seus impostos, os ricos puderam adquirir títulos (portadores de juros) da dívida pública, emitida para financiar os défices públicos provocados pelas reduções de impostos… Por esta via, o serviço da dívida pública em França representa 40.000 milhões de euros, quase tanto como as receitas do imposto sobre o rendimento. Mas esta jogada é ainda mais brilhante, pelo facto de ter conseguido convencer a opinião pública de que os culpados da dívida pública eram os funcionários, os reformados e os doentes.

O aumento da dívida pública na Europa ou nos Estados Unidos não é portanto o resultado de políticas keynesianas expansionistas ou de políticas sociais dispendiosas, mas sim o resultado de uma política que favorece as camadas sociais privilegiadas: as “despesas fiscais” (descida de impostos e de contribuições) aumentaram os rendimentos disponíveis daqueles que menos necessitam, daqueles que desse modo puderam aumentar ainda mais os seus investimentos, sobretudo em Títulos do Tesouro, remunerados em juros pelos impostos pagos por todos os contribuintes. Em suma, estabeleceu-se um mecanismo de redistribuição invertido, das classes populares para as classes mais favorecidas, através da dívida pública, cuja contrapartida é sempre o rendimento privado.

Para corrigir de forma equitativa as finanças públicas na Europa e em França, colocamos em debate duas medidas:

Medida n.º 12: Atribuir de novo um carácter fortemente redistributivo à fiscalidade directa sobre os rendimentos (supressão das deduções fiscais, criação de novos escalões de impostos e aumento das taxas sobre os rendimentos…);

Medida n.º 13: Acabar com as isenções de que beneficiam as empresas que não tenham um efeito relevante sobre o emprego.

Falsa evidência n.º 7:

É PRECISO ASSEGURAR A ESTABILIDADE DOS MERCADOS FINANCEIROS PARA PODER FINANCIAR A DÍVIDA PÚBLICA

Deve analisar-se, a nível mundial, a correlação entre a subida das dívidas públicas e a financeirização da economia. Nos últimos trinta anos, favoráveis à liberalização total da circulação de capitais, o sector financeiro aumentou consideravelmente a sua influência sobre a economia. As grandes empresas recorrem cada vez menos ao crédito bancário e cada vez mais aos mercados financeiros. Do mesmo modo, as famílias vêem uma parte cada vez maior das suas poupanças ser drenada para o mercado financeiro (como no caso das pensões), através dos diversos produtos de investimento e, inclusivamente, em alguns países, através do financiamento da sua habitação (por crédito hipotecário). Os gestores de carteiras que tentam diversificar os riscos procuram títulos públicos como complemento aos títulos privados. E encontram-nos facilmente nos mercados, em virtude de os governos terem levado a cabo políticas similares, que conduziram a um relançamento dos défices: taxas de juro elevadas, descida dos impostos sobre os altos rendimentos, incentivo maciço à poupança financeira das famílias para favorecer a capitalização através da poupança reforma, etc.

Ao nível europeu, a financeirização da dívida pública encontra-se inscrita nos tratados: com Maastricht, os Bancos Centrais ficaram proibidos de financiar directamente os Estados, que devem encontrar quem lhes conceda empréstimos nos mercados financeiros. Esta “repressão monetária” acompanha a “liberalização financeira” e gera exactamente o contrário das políticas adoptadas após a grave crise da década de 30; politicas de “repressão financeira” (drásticas restrições à liberdade de movimento dos capitais) e de “liberalização monetária” (com o fim do regime do padrão-ouro). Trata-se de submeter os Estados, que se supõe serem por natureza despesistas, à disciplina dos mercados financeiros, que se supõe serem, por natureza, eficientes e omniscientes.

Como resultado desta escolha doutrinária, o Banco Central Europeu não tem por isso legitimidade para subscrever directamente a emissão de obrigações públicas dos Estados europeus. Privados da garantia de se poderem financiar junto do BCE, os países do sul tornaram-se presas fáceis dos ataques especulativos. De facto, ainda que em nome de uma ortodoxia sem fissuras, o Banco Central Europeu – que sempre se recusou a fazê-lo – teve de comprar, desde há alguns meses a esta parte – obrigações de Estado à taxa de juro do mercado, de modo a acalmar as tensões nos mercados de obrigações europeu. Mas nada nos diz que isso seja suficiente, caso a crise da dívida se agrave e as taxas de juro de mercado disparem. Poderá então ser difícil manter esta ortodoxia monetária, que carece, manifestamente, de fundamentos científicos sérios.

Para resolver o problema da dívida pública, colocamos em debate duas medidas:

Medida n.º 14: Autorizar o Banco Central Europeu a financiar directamente os Estados (ou a impor aos bancos comerciais a subscrição de obrigações públicas emitidas), a um juro reduzido, aliviando desse modo o cerco que lhes é imposto pelos mercados financeiros;

Medida n.º 15: Caso seja necessário, reestruturar a dívida pública, limitando por exemplo o seu peso a determinado valor percentual do PIB, e estabelecendo uma discriminação entre os credores segundo o volume de títulos que possuam: os grande rentistas (particulares ou instituições) deverão aceitar uma extensão da maturidade da dívida, incluindo anulações parciais ou totais. E é igualmente necessário voltar a negociar as exorbitantes taxas de juro dos títulos emitidos pelos países que entraram em dificuldades na sequência da crise.

Falsa evidência n.º 8:

A UNIÃO EUROPEIA DEFENDE O MODELO SOCIAL EUROPEU

A construção europeia constitui uma experiência ambígua. Nela coexistem duas visões de Europa que não ousam contudo enfrentar-se abertamente. Para os social-democratas, a Europa deveria dedicar-se a promover o modelo social europeu, fruto do compromisso obtido após a Segunda Guerra Mundial, a partir dos princípios que o mesmo consubstancia: protecção social, serviços públicos e políticas industriais. A Europa deveria, nesses termos, ter erguido uma muralha defensiva perante a globalização liberal, uma forma de proteger, manter vivo e fazer progredir o modelo social europeu. A Europa deveria ter defendido uma visão específica sobre a organização da economia mundial e a regulação da globalização através de organizações de governação mundial. Como deveria ter permitido aos seus países membros manter um elevado nível de despesas públicas e de redistribuição, protegendo a sua capacidade de as financiar através da harmonização da fiscalidade sobre as pessoas, as empresas e os rendimentos do capital.

A Europa, contudo, não quis assumir a sua especificidade. A visão hoje dominante em Bruxelas e no seio da maioria dos governos nacionais é, pelo contrário, a de uma Europa liberal, cujo objectivo está centrado em adaptar as sociedades europeias às exigências da globalização: a construção europeia constitui nestes termos a oportunidade de colocar em causa o modelo social europeu e de desregular a economia. A prevalência do direito da concorrência sobre as regulamentações nacionais e sobre os direitos sociais no Mercado Único permitiu introduzir mais concorrência nos mercados de bens e de serviços, diminuir a importância dos serviços públicos e apostar na concorrência entre os trabalhadores europeus. A concorrência social e fiscal permitiu por sua vez reduzir os impostos, sobretudo os que incidem sobre os rendimentos do capital e das empresas (as “bases móveis”) e exercer pressão sobre as despesas sociais. Os tratados garantem quatro liberdades fundamentais: a livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais. Mas longe de se restringir ao mercado interno, a liberdade de circulação de capitais foi alargada aos investidores do mundo inteiro, submetendo assim o tecido produtivo europeu aos constrangimentos e imperativos da valorização dos capitais internacionais. A construção europeia configura-se deste modo como uma forma de impor aos povos as reformas neoliberais.

A organização da política macroeconómica (independência do BCE face às estruturas de decisão política, Pacto de Estabilidade) encontra-se marcada pela desconfiança relativamente aos governos democraticamente eleitos. Pretende privar completamente os países da sua autonomia tanto em matéria de política monetária, como de política orçamental. O equilíbrio orçamental deve ser forçosamente atingido, banindo-se qualquer política deliberada de relançamento económico, pelo que apenas se pode participar no jogo da “estabilização automática”. Ao nível da zona euro, não se admite nem se concebe nenhuma política conjuntural comum, como não se define qualquer objectivo comum em termos de crescimento ou de emprego. As diferenças quanto à situação em que se encontra cada país não são tidas em conta, pois o Pacto de Estabilidade não se comove nem com as taxas de inflação nem com os défices nacionais externos; os objectivos fixados para as finanças públicas não contemplam a especificidade da situação económica de cada país membro.

As instâncias europeias procuraram impulsionar reformas estruturais (através das Grandes Orientações de Política Económica, do Método Aberto de Coordenação ou da Agenda de Lisboa), com um êxito muito desigual. Como o método de elaboração destas instâncias não é democrático nem mobilizador, a sua orientação liberal jamais poderia contemplar as políticas decididas a nível nacional, atendendo às relações de força existentes em cada país. Esta orientação não pôde assim alcançar os sucessos incontestáveis que teria, de outro modo, legitimado. O movimento de liberalização económica foi posto em causa (com o fracasso da Directiva Bolkestein); tendo alguns países tentado nacionalizar as suas políticas industriais, ao mesmo tempo que a maioria se opôs à europeização das suas políticas fiscais e sociais. A Europa Social continua a ser um conceito vazio de conteúdo, apenas se afirmando vigorosamente a Europa da Concorrência e a Europa da Finança.

Para que a Europa possa promover verdadeiramente o modelo social europeu, colocamos à discussão duas medidas:

Medida n.º 16: Pôr em causa a livre circulação de capitais e de mercadorias entre a União Europeia e o resto do mundo, renegociando se necessário os acordos multilaterais ou bilaterais actualmente em vigor;

Medida n.º 17: Substituir a política da concorrência pela “harmonização e prosperidade”, enquanto fio condutor da construção europeia, estabelecendo objectivos comuns vinculativos tanto em matéria de progresso social como em matéria de políticas macroeconómicas (através de GOPS: Grandes Orientações de Política Social).

Falsa evidência n.º 9:

O EURO É UM ESCUDO DE PROTECÇÃO CONTRA A CRISE


O euro deveria ter funcionado como um factor de protecção contra a crise financeira mundial, uma vez que a supressão da incerteza quanto às taxas de câmbio entre as moedas europeias eliminou um factor relevante de instabilidade. Mas não é isso que tem sucedido: a Europa é afectada de uma forma mais dura e prolongada pela crise do que o resto do mundo, por factores que radicam nas opções tomadas no processo de unificação monetária.

Após 1999, a zona euro revelou um crescimento económico relativamente medíocre e um aumento das divergências entre os seus Estados membros em termos de crescimento, inflação, desemprego e desequilíbrios externos. O quadro de política económica da zona euro, que tende a impor políticas macroeconómicas semelhantes a países com situações muito distintas ampliou assim as disparidades de crescimento entre os Estados membros. Na generalidade dos países, sobretudo nos maiores, a introdução do euro não suscitou a prometida aceleração do crescimento. Para outros, o euro trouxe crescimento, mas à custa de desequilíbrios dificilmente sustentáveis. A rigidez monetária e orçamental, reforçada pelo euro, concentrou todo o peso do ajustamento no trabalho, promovendo a flexibilidade e a austeridade salariais, reduzindo a componente dos salários no rendimento total e aumentando as desigualdades.

Esta trajectória de degradação social foi ganha pela Alemanha, que conseguiu gerar importantes excedentes comerciais à custa dos seus vizinhos e, sobretudo, dos seus próprios assalariados, impondo uma descida dos custos do trabalho e das prestações sociais que lhe conferiu uma vantagem comercial face aos outros Estados membros, incapazes de tratar de forma igualmente violenta os seus trabalhadores. Os excedentes comerciais alemães limitaram portanto o crescimento de outros países. Os défices orçamentais e comerciais de uns não são senão a contrapartida dos excedentes de outros… O que significa que os Estados membros não foram capazes de definir uma estratégia coordenada.

A zona euro deveria, de facto, ter sido menos afectada pela crise financeira do que os Estados Unidos e o Reino Unido, pois as famílias da zona euro estão nitidamente menos dependentes dos mercados financeiros, que são menos sofisticados. Por outro lado, as finanças públicas encontravam-se em melhor situação; o défice público do conjunto dos países da zona euro era de 0,6% do PIB em 2007, contra os quase 3% dos EUA, do Reino Unido ou do Japão. Mas a zona euro padecia já então de um agravamento profundo dos desequilíbrios: os países do Norte (Alemanha, Áustria, Holanda, países escandinavos), comprimiam a massa salarial e a procura interna, acumulando excedentes externos, ao passo que os países do Sul e periféricos (Espanha, Grécia, Irlanda) revelavam um crescimento vigoroso, impulsionado pelas baixas taxas de juro (relativamente à taxa de crescimento), acumulando todavia défices externos.

A crise financeira começou, de facto, nos Estados Unidos, que trataram imediatamente de accionar uma política efectiva de relançamento orçamental e monetário, dando início a um movimento de restauração da regulação financeira. Mas a Europa, pelo contrário, não soube empenhar-se numa política suficientemente reactiva. De 2007 a 2010, o impulso orçamental ficou-se timidamente nos cerca de 1,6% do PIB na zona euro, sendo de 3,2% no Reino Unido e de 4,2% nos EUA. As perdas na produção causadas pela crise foram nitidamente mais fortes na zona euro do que nos Estados Unidos. Na zona euro, a agudização dos défices precedeu portanto qualquer política activa, comprometendo os seus resultados.

Simultaneamente, a Comissão Europeia continuou a aprovar procedimentos contra os países em défice excessivo, a ponto de em meados de 2010 praticamente todos os Estados membros da zona euro estarem sujeitos a esses procedimentos. A Comissão obrigou então os Estados membros da zona euro a regressar, até 2013 e 2014, a valores percentuais de défice inferiores a 3%, independentemente da evolução económica que pudesse verificar-se. As instâncias europeias continuaram portanto a exigir políticas salariais restritivas e a regressão sistemática dos sistemas públicos de reforma e de saúde, com o risco evidente de mergulhar o continente na depressão e de suscitar tensões entre os diferentes países. Esta ausência de coordenação e, fundamentalmente, de um verdadeiro orçamento europeu, capazes de suportar uma solidariedade efectiva entre os Estados membros, incitaram os agentes financeiros a afastar-se do euro, preferindo especular abertamente contra ele.

Para que o euro possa proteger realmente os cidadãos europeus da crise, colocamos em debate três medidas:

Medida n.º 18: Assegurar uma verdadeira coordenação das políticas macroeconómicas e uma redução concertada dos desequilíbrios comerciais entre os países europeus;

Medida n.º 19: Compensar os desequilíbrios da balança de pagamentos na Europa através de um Banco de Pagamentos (que organize os empréstimos entre países europeus);

Medida n.º 20: Se a crise do euro conduzir à sua desintegração, e enquanto se aguarda pelo surgimento de um orçamento europeu (cf. infra), instituir um regime monetário intra-europeu (com moeda comum do tipo “bancor”), que seja capaz de reorganizar a absorção dos desequilíbrios entre balanças comerciais no seio da Europa.

Falsa evidência n.º 10:

A CRISE GREGA PERIMITIU FINALMENTE AVANÇAR PARA UM GOVERNO ECONÓMICO E UMA VERDADEIRA SOLIDARIEDADE EUROPEIA

A partir de meados de 2009 os mercados financeiros começaram a especular com as dívidas dos países europeus. Globalmente, a forte subida das dívidas e dos défices públicos à escala mundial não provocou (pelo menos ainda) uma subida das taxas de juro de longo prazo: os operadores financeiros estimam que os bancos centrais manterão, por muito tempo, as taxas de juro reais a um nível próximo do zero, e que não existe um risco de inflação nem de incumprimento de pagamento por parte de um grande país. Mas os especuladores aperceberam-se das falhas de organização da zona euro. Enquanto que os governantes de outros países desenvolvidos podem sempre financiar-se junto do seu Banco Central, os países da zona euro renunciaram a essa possibilidade, passando a depender totalmente dos mercados para financiar os seus défices. Num só golpe, a especulação abateu-se sobre os países mais frágeis da zona euro: Grécia, Espanha, Irlanda.

As instâncias europeias e os governos demoraram a reagir, não querendo dar a ideia de que os países membros tinham direito a dispor de um apoio ilimitado dos seus parceiros, e pretendendo, ao mesmo tempo, sancionar a Grécia, culpada por ter mascarado – com a ajuda da Goldman Sachs – a amplitude dos seus défices. Porém, em Maio de 2010, o BCE e os países membros foram forçados a criar com urgência um Fundo de Estabilização, capaz de indicar aos mercados que seria dado um apoio sem limites aos países ameaçados. Em contrapartida, estes deveriam anunciar programas de austeridade orçamental sem precedentes, que os condenam a um recuo da actividade económica no curto prazo e a um longo período de recessão. Sob pressão do FMI e da Comissão Europeia, a Grécia é forçada a privatizar os seus serviços públicos e a Espanha obrigada a flexibilizar o seu mercado de trabalho. E mesmo a França e a Alemanha, que não são vítimas do ataque especulativo, anunciaram medidas restritivas.

Contudo, globalmente, a oferta não é de nenhum modo excessiva na Europa. A situação das finanças públicas é melhor do que a dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha, deixando margens de manobra orçamental. É por isso necessário reabsorver os desequilíbrios de forma coordenada: os países excedentários do Norte e do centro da Europa devem encetar políticas expansionistas (com o aumento dos salários e das prestações sociais), tendo em vista compensar as políticas restritivas dos países do Sul. Globalmente, a política orçamental não deve ser restritiva na zona euro, tanto mais que a economia europeia não se aproxima do pleno emprego a uma velocidade satisfatória.

Mas, infelizmente, os defensores das políticas orçamentais automáticas e restritivas encontram-se hoje em posição reforçada na Europa. A crise grega fez esquecer as origens da crise financeira. Aqueles que aceitaram apoiar financeiramente os países do Sul querem impor, em contrapartida, um endurecimento do Pacto de Estabilidade. A Comissão e a Alemanha pretendem obrigar todos os países membros a inscrever o objectivo de equilíbrio orçamental nas suas constituições e vigiar as suas políticas orçamentais por comissões de peritos independentes. A Comissão quer impor aos países uma longa cura de austeridade para que se regresse a uma dívida pública inferior a 60% do PIB. Se existe algum avanço em matéria de governo económico europeu, é um avanço em direcção a um governo que, em vez de libertar o garrote das finanças, pretende impor a austeridade e aprofundar as “reformas” estruturais, em detrimento das solidariedades sociais em cada país e entre os diversos países.

A crise oferece de mão beijada, às elites financeiras e aos tecnocratas europeus, a tentação de pôr em prática a “estratégia do choque”, tirando proveito da crise para radicalizar a agenda neoliberal. Mas esta política tem poucas hipóteses de sucesso, uma vez que:

● A diminuição das despesas públicas comprometerá o esforço necessário, à escala europeia, para assegurar despesas futuras (investigação, educação, prestações familiares), apoiar a manutenção da indústria europeia e para investir nos sectores do futuro (economia verde);

● A crise permitirá impor reduções drásticas nas despesas sociais, objectivo incansavelmente perseguido pelos paladinos do neoliberalismo, comprometendo perigosamente a coesão social, reduzindo a procura efectiva, empurrando as famílias a poupar para as suas reformas e a sua saúde junto das instituições financeiras, responsáveis pela crise;

● Os governos e as instâncias europeias recusam-se a estruturar a harmonização fiscal, que permitiria um necessário aumento de impostos sobre o sector financeiro, sobre o património e sobre os altos rendimentos;

● Os países europeus terão de implementar, por um longo período, políticas orçamentais restritivas que vão afectar fortemente o crescimento. As receitas fiscais diminuirão e os saldos públicos apenas registarão ligeiras melhoras. Os rácios de dívida irão degradar-se e os mercados não ficarão tranquilos;

● Face à diversidade de culturas políticas e sociais, nem todos os países europeus se poderão ajustar à disciplina de ferro imposta pelo Tratado de Maastricht; nem se ajustarão ao seu reforço, que actualmente se prepara. O risco de activação de uma dinâmica generalizada de recusa deste reforço é real.

Para avançar no sentido de um verdadeiro governo económico e de uma verdadeira solidariedade europeia, propomos para discussão duas medidas:

Medida n.º 21: Desenvolver uma verdadeira fiscalidade europeia (taxa de carbono, imposto sobre os lucros, etc.) e um verdadeiro orçamento europeu, que favoreçam a convergência das economias para uma maior equidade nas condições de acesso aos serviços públicos e serviços sociais nos diferentes Estados membros, com base nas melhores experiências e modelos;

Medida n.º 22: Lançar um vasto plano europeu, financiado por subscrição pública a taxas de juro reduzidas mas com garantia, e/ou através da emissão monetária do BCE, tendo em vista encetar a reconversão ecológica da economia europeia.

Conclusão

DEBATER A POLÍTICA ECONÓMICA, TRAÇAR CAMINHOS PARA REFUNDAR A UNIÃO EUROPEIA

A Europa foi construída, durante três décadas, a partir de uma base tecnocrática que excluiu as populações do debate de política económica. A doutrina neoliberal, que assenta na hipótese, hoje indefensável, da eficiência dos mercados financeiros, deve ser abandonada. É necessário abrir o espaço das políticas possíveis e colocar em debate propostas alternativas e coerentes, capazes de limitar o poder financeiro e preparar a harmonização, no quadro do progresso dos sistemas económicos e sociais europeus. O que supõe a partilha mútua de importantes recursos orçamentais, obtidos através do desenvolvimento de uma fiscalidade europeia fortemente redistributiva. Tal como é necessário libertar os Estados do cerco dos mercados financeiros. Somente desta forma o projecto de construção europeia poderá encontrar uma legitimidade popular e democrática de que hoje carece.

Não é evidentemente realista supor que os 27 países europeus decidam, ao mesmo tempo, encetar uma tamanha ruptura face ao método e aos objectivos da construção europeia. A Comunidade Económica Europeia (CEE) começou com seis países: do mesmo modo, a refundação da União Europeia passará inicialmente por um acordo entre alguns países que desejem explorar caminhos alternativos. À medida que se tornem evidentes as consequências desastrosas das políticas actualmente adoptadas, o debate sobre as alternativas crescerá por toda a Europa. As lutas sociais e as mudanças políticas surgirão a ritmos diferentes, consoante os países. Os governos nacionais tomarão decisões inovadoras. Os que assim o desejem deverão adoptar formas de cooperação reforçadas para tomar medidas audazes em matéria de regulação financeira, de política fiscal e de política social. Através de propostas concretas, estenderemos as mãos aos outros povos para que se juntem a este movimento.

É por isso que nos parece importante esboçar e debater, neste momento, as grandes linhas das políticas económicas alternativas, que tornarão possível esta refundação da construção europeia.

1 N.T.: Imitar os outros, perdendo todo o sentido crítico.

11.10.10

Redução dos salários dos funcionários públicos é inconstitucional ( consultar Acordão do Tribunal Constitucional nº 141/02)




Acórdão do Tribunal Constitucional nº 141/02
"(...)
Nestes termos, decide-se:

a. declarar, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade da norma constante do artigo 11º da Lei nº 2/92, de 9 de Março (Lei do Orçamento do Estado para 1992), na medida em que operou uma redução da remuneração global auferida por pessoal por ela abrangido e que se encontrava já em exercício de funções à data da sua entrada em vigor, por violação do princípio da confiança, ínsito no princípio do Estado de direito democrático, consagrado no artigo 2º da Constituição;

b. declarar, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade da norma constante do artigo 9º da Lei nº 30-C/92, de 28 de Dezembro (Lei do Orçamento do Estado para 1993), na medida em que manteve a referida redução da remuneração global auferida pelo mesmo pessoal antes da entrada em vigor da Lei nº 2/92. "


http://w3.tribunalconstitucional.pt/Acordaos/Acordaos02/101-200/14102.htm

Jornadas Anarquistas e Anarco-Sindicalistas (debate, palestras, canções, bancas de informação, trilhas) - 15,16 e 17 de Outubro no Porto

Jornadas Anarquistas e Anarco-sindicalistas -15 a 17 de Outubro-Porto
Local: Terra Viva - R. Caldeireiros, 213, Porto

JORNADAS ANARQUISTAS E ANARCO-SINDICALISTAS 1
5-16-17 Outubro -PORTO

PROGRAMA

15 Outubro (sexta-feira)

- 19.00h - ABERTURA: Boas-vindas aos colectivos e pessoas participantes -Apresentação dos objectivos das Jornadas - Informações adicionais sobre logística (espaços para bancas informativas, refeições, dormidas, etc.)

- 19.30h - DEBATE: “RAÍZES E LEGADO DO ANARQUISMO E ANARCO-SINDICALISMO EM PORTUGAL – UON , CGT, UAP, FARP, etc…”

- 20.30h - JANTAR

- 21.30h - vídeo “Memória Subversiva” (de J. Tavares) seguido de DEBATE: “ACTUALIDADE DO ANARQUISMO E DO ANARCO-SINDICALISMO: PRESERVAR AS RAÍZES – AGARRAR O PRESENTE”

16 Outubro (sábado)

- 10.00h - TRILHA PEDESTRE DA MEMÓRIA LIBERTÁRIA DO PORTO

- 12.30h – ALMOÇO

- 14.30h - DEBATE: “A REVOLUÇÃO SOCIAL COMO PROCESSO (Experiências históricas, reflexões, vídeos, textos, etc.)”

- 16.00h - Pausa p/ café

- 16.15h - DEBATE: “OS MOVIMENTOS SOCIAIS E @S ANARQUISTAS EM PORTUGAL HOJE – possíveis estratégias de ligação aos meios laborais e populares”

- 18.30h - DEBATE E EXPERIMENTAÇÕES: “ANIMAÇÃO ANARQUISTA - RECUPERAÇÃO DAS “VELADAS SOCIAIS”, TEATRO INVISÍVEL, CANTO E ANIMAÇÃO DE RUA, etc.”

- 20.00h - JANTAR

- 21.00h - vídeo “THE TAKE” (ocupação de fábricas e autogestão na Argentina) seguida de DEBATE: “AUTOGESTÃO E COOPERATIVISMO em contexto capitalista” – com alguma informação também sobre a discussão deste tema na última Conferência da AIT/IWA, em León, organizada pela CNT-E, em Agosto.

17 Outubro (domingo)

- 10.00h – vídeo “ARTE E ANARQUIA” seguido de DEBATE: “ARTE/S E COMPROMETIMENTO SOCIAL REVOLUCIONÁRIO D@S ARTISTAS”

- 11.30h - DEBATE: “EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO E PEDAGOGIA ANARQUISTA – contributos recentes sobre o tema” (experiências educativas formais e informais: círculos de estudos, universidades populares, proj. REGRALL, grupos escolares, etc…)

- 13.00h - Almoço

- 14.30h - “OS CEM ANOS DA CNT em Espanha e no Mundo” - apresentação de vídeos, depoimentos de companheir@s da CNT, etc.
DEBATE: “ANARQUISMO E ANARCO-SINDICALISMO - COMPLEMENTARIEDADE OU OPOSIÇÃO?”

- 18.00h - Espaço exclusivo para a EXPOSIÇÃO E DIVULGAÇÃO DE “MEDIAS “(SITES, PUBLICAÇÕES, EDITORAS) sobre ANARQUISMO E ANARCOSINDICALISMO (c/intercâmbio e apresentações informais - iniciativas e projectos) - poderá funcionar em simultâneo com a realização das jornadas ou em horário especial

- 19.30 - JANTAR CONJUNTO DE DESPEDIDA, CONVÍVIO INFORMAL, TROCA DE CONTACTOS, ETC.

1ª Circular (em PDF)
http://www.freewebs.com/aitbas/Docs/JORNADAS.Porto2010.pdf
Textos para introdução aos temas dos debates (em PDF)
www.freewebs.com/aitbas/Docs/textos.inicia.JORN.ANARQ.e.an.sindic

Organização da iniciativa:

AIT - Secção Portuguesa SOV.AIT-SP – Porto CESL (Círculo de Estudos Sociais Libertários) - Porto + outros colectivos e indivíduos libertários

NATO para quê? – Conferência no ISCTE em Lisboa (6 e 17 de Outubro)



NATO: urgência em debater

Nos próximos dias 19 e 20 de Novembro Lisboa vai receber uma cimeira da NATO. Importante, sem dúvida, mais ainda, desde que está confirmada a visita do presidente dos EUA, Barack Obama, à capital portuguesa. Entretanto, e para lá das câmaras, dos holofotes e do tapete vermelho, para lá do impacte mediático, o que está em causa é um novo conceito estratégico de alargamento do espaço de actuação da Aliança Atlântica a todo o planeta.

É esta a situação perigosa que vai ser definida em Novembro. E é por causa dela que a CULTRA e a rede europeia Transform! organizam em conjunto um encontro a 16 e 17 de Outubro no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) uma série de conferências intitulada «NATO PARA QUÊ?». A iniciativa tem o apoio do International Coordinating Commitee No to War No to NATO (ICCNWNN).


Durante estes dois dias a história da Aliança Atlântica criada no pós-Guerra, a sua actuação e os seus palcos – do Irão ao Iraque, dos Balcãs à Palestina ao Afeganistão – serão debatidos por especialistas, portugueses e estrangeiros de diversas áreas: jornalistas, historiadores, deputados, sociólogos, activistas. Walter Baier, coordenador da rede europeia Transform! e Gilbert Achcar, escritor, activista e especialista em questões internacionais são algumas das presenças a registar.
Um dos pontos altos será, certamente, a presença e o testemunho de Mariam Rawi – é esse o seu nome «oficial» - militante da Associação Revolucionária das Mulheres Afegãs (RAWA). Esta voz do Afeganistão irá falar da sua experiência pessoal, da situação da população e das mulheres, em particular, antes e depois do regime talibã, no seu país, e do papel da NATO, na vida política local mas também no quotidiano popular daquele país árido e montanhoso: o Afeganistão, que, pelas razões mais duras, há vários anos continua a encher páginas de jornais e noticiários (onde, muitas vezes, se oculta o carácter agressivo e dominador da presença da NATO).

A política portuguesa, desde a Guerra Colonial ao contexto presente também vai ser tema de debate. Nesta série de debates mais geral. E urgente.

Às 18 e 30 de sábado, dia 16, haverá, ainda, um momento cultural: Sylvie Rocha, João Meireles e Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos, irão ler textos de Fiama Hasse Pais Brandão, Boris Vian (numa tradução de Nuno Júdice), Jorge de Sena, Fernando Assis Pacheco, Harold Pinter e Paul Éluard (com tradução de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade).


NATO PARA QUÊ?
ISCTE (Edifício II)ISCTE Edifício II - série de conferências

16 DE OUTUBRO

10h- Portugal e a NATO (da Guerra Colonial ao Afeganistão)
João Paulo Guerra (jornalista)
Manuel Loff (historiador, FL - Universidade do Porto)
10h - As prioridades da política externa portuguesa e o papel das intervenções militares
Fernando Rosas (deputado e historiador, IHC - Universidade Nova de Lisboa)
Teresa Cravo (investigadora, CES - Universidade de Coimbra)
11h30 - Os primórdios: a NATO nos Balcãs
Carlos Santos Pereira (jornalista)
11h30 - Irão: a próxima guerra da NATO?
Miguel Portas (deputado europeu)
Walter Baier (Transform!)
13h - ALMOÇO
14h30 - A NATO e o(s) novo(s) conceitos estratégicos
José Manuel Pureza (deputado e professor, CES - Universidade de Coimbra)
16h30 - O imperialismo depois da Guerra Fria
Gilbert Achcar (professor, Universidade de Londres)

17 DE OUTUBRO

10h - A política externa de Obama: a guerra sem fim
Sandra Monteiro (directora do Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa)
Mário Tomé (coronel na reserva)
10h - A guerra do Afeganistão e o conflito geoestratégico na Ásia Central
Luís Leiria (jornalista)
Reiner Braun (ICCNWNN)
11h30 - Palestina
José Goulão (jornalista)
Alan Stoleroff (sociólogo, ISCTE)
11h30 - Iraque: da mentira ao impasse
Jorge Costa (jornalista)
Arielle Dennis (ICCNWNN)
13h - ALMOÇO
14h30 - Sessão de encerramento: há vida fora da NATO?
Francisco Louçã (deputado e professor, ISEG - Lisboa)
Mariam Rawi (militante da RAWA - Associação Revolucionária das Mulheres Afegãs)

O novo conceito estratégico da Nato é o tema da conversa com Reiner Braun que se realiza na livraria-bar Gato Vadio no próximo dia 14 de Out.



O novo conceito estratégico da NATO
Conversa com Reiner Braun

Quinta-feira, 14 de Outubro, 21h30
Rua do Rosário, 281 - Porto
Entrada Livre


Org: Pagan (
http://antinatoportugal.wordpress.com/quem-somos/ )


Em Novembro de 2010, a NATO realizará uma cimeira em Lisboa para definir o seu novo conceito estratégico. O grupo de peritos formado para pensar este novo paradigma da Aliança Atlântica, onde pontificava Madeleine Albright, já fez sair um texto de recomendações, no qual a palavra "desarmamento" não aparece.

Baseado nesse documento, Reiner Braun, co-presidente do Comité de Coordenação Internacional da Coligação No to War No to Nato, vem ao Porto desmontar o significado das palavras de Madeleine Albright: "A Aliança deve ser versátil e flexível neste período de incertezas no século XXI".

Reiner Braun falará em inglês e, infelizmente, não dispomos de sistema de tradução simultânea.

10.10.10

Acção de rua no Porto com um general da NATO e a preciosa ajuda do destacamento local da Clown Army



Discurso do General ( a ouvir a partir dos 2m.36s do video)


Calma! Calma! Somos tropas amigas! Servimos no exército da NATO e matamos para vossa segurança!

Assassinamos crianças de longe para dar prosperidade às tuas! Matamos quem for preciso para garantir que nunca faltará gasolina ao teu carro!

Mataremos todos os que tentarem fugir dos extremos climáticos a que o teu nível de vida os condena!

Deteremos qualquer tentativa de alterar esta mistura perfeita de opulência e desgraça!

Por tudo isto, estaremos em Lisboa em Novembro, para decidirmos o futuro do planeta.

Seremos os donos e senhores de toda a vida na Terra, com a vossa ajuda!
Mantenham-se, pois, serenos e apáticos. Só assim poderemos concretizar os nossos objectivos.

Vida Longa à Guerra!
Vida Longa à NATO!

9.10.10

Nato = Morte eram as palavras de uma faixa exibida hoje no alto da Torre dos Clérigos no Porto


No dia 9 de outubro 2010 a PAGAN - Plataforma Anti-Guerra Anti-NATO, em resposta ao apelo internacional para exigir o cessar-fogo no Afganistão, e nove anos depois do início dessa guerra, colocou uma faixa na torre dos clérigos onde se lia NATO=MORTE


Torre dos Clérigos exibe repúdio pela guerra no Afeganistão

NATO = MORTE foi a mensagem lançada esta tarde na torre mais emblemática do Porto, numa faixa que pretendeu mostrar repúdio pela guerra que a NATO promove há nove anos no Afeganistão.

Nove anos depois do início duma guerra imoral e ilegal mesmo à luz dos seus próprios estatutos, a NATO vem a Lisboa, nos dias 19 e 20 de Novembro, definir o novo Conceito Estratégico, ou seja, assinar a passagem a letra de lei da morte do carácter defensivo da aliança militar.

Lisboa, assistirá, assim, ao parto burocrático da NATO como guarda avançada dos vencedores do capitalismo, com carta branca para assassinar sempre que os seus interesses estejam em perigo.

Nove anos depois do início desta nova NATO que em Novembro se pretende ratificar, não quisemos deixar de responder ao apelo internacional para um dia de acção global pelo cessar-fogo no Afeganistão.

PAGAN - Plataforma Anti-Guerra, Anti-Nato
http://antinatoportugal.wordpress.com/




Porque somos contra a NATO

A NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) foi criada em 1949 como uma organização militar para a defesa colectiva em relação à União Soviética Esse papel é sublinhado no artigo 5 do tratado e afirma que o ataque armado a um dos membros é considerado como um ataque a todos os membros.

A NATO foi fundada pelos EUA, Canadá e 10 estados europeus, incluindo Portugal. Juntaram- se, depois, Grécia, Turquia e Alemanha Ocidental. Quando esta última aderiu, em 1955, a União Soviética e os países de Leste reagiram, formando o Pacto de Varsóvia.
Para os EUA, a Europa funcionava como defesa avançada, fora do continente americano. A União Soviética fazia o mesmo com a Europa de Leste. Com o fim da guerra-fria, em 1989, e o posterior desmantelamento da URSS, o inimigo comum desaparecia. Desde essa altura, a NATO, que deveria desaparecer com o inimigo, tem-se legitimado através duma série de vagas ameaças potenciais.

Nos anos 90, com a guerra civil na Jugoslávia, a NATO encontrou um novo papel: operações humanitárias. Em 2001, o 11 de Setembro deu-lhe outra razão para existir: a “guerra contra o terrorismo”. Hoje, para além de manter a Europa como posto de defesa avançado, os EUA conseguem, através da NATO, ter o continente europeu como plataforma para incursões no Médio Oriente, Ásia Central e África, a partir das suas bases militares e da utilização de infraestruturas para o transporte das suas tropas.

Para a Europa, a importância da NATO ainda assenta, para alguns estados membros, no seu papel de defesa colectiva e, para outros, é o instrumento através do qual eles podem ter um papel mais preponderante na cena política mundial. Outros ainda vêem a Aliança Atlântica como forma de influenciar a política dos EUA e delimitarasuatendênciaparaounilateralismo.
Na realidade, o que a NATO significa, para nós, europeus, é que, neste momento, estamos em guerra. As bombas não estão a cair na Europa.

Estão a cair a vários quilómetros de distância, no Iraque e no Afeganistão. No entanto, a guerra começa aqui: a Europa serve como rampa de lançamento para intervenções militares em todo o mundo. Sem a utilização da logística das suas bases europeias, os EUA nunca conseguiriam ter invadido o Iraque. A NATO não é uma alternativa ao unilateralismo dos EUA. É o que o torna possível.

A NATO é responsável por dois terços dos gastos militares mundiais. Os seus potenciais inimigos têm registos bastante mais modestos: 6,3% (China) e 3,9% (Rússia). E os inimigos flutuantes, dos quais devemos ter medo a cada dia, ainda são mais comedidos: 0,5% (Irão).

Na Cimeira de Lisboa, em Novembro próximo, deverá ser assumida uma visão de futuro que passa por uma NATO com objectivos globais e com membros de todo o mundo, o que, a acontecer, a transformará numa aliança militar mundial. Ou seja, se houver um conflito no Pacífico, a Europa está automaticamente envolvida.

Lisboa será palco de outras decisões e, tudo indica, que os objectivos da aliança serão alargados, de forma a incluir a segurança energética. Isto significa que a NATO passará a estar disponível para utilizar a força militar, onde quer que seja, desde que considere, por exemplo, que o abastecimento de petróleo ou gás possa estar em perigo.

A possibilidade de serem utilizadas tropas para repor a ordem pública em caso de levantamentos populares, para impedir a entrada de refugiados e para substituir as forças civis de imposição da ordem onde quer que queiram, nomeadamente em território europeu, deverá ser outro assunto da Cimeira de Lisboa.

8.10.10

Acções de rua em Lisboa e Porto pelo Fim da Guerra do Afeganistão




Quando passam 9 anos de duração da Guerra do Afeganistão, a Plataforma Anti-guerra Anti-NATO participará, no âmbito de um apelo internacional a favor do fim da Guerra do Afeganistão, num Dia Internacional de Acção por um cessar fogo no Afeganistão, estando a programar acções de rua em Lisboa e no Porto.


http://antinatoportugal.wordpress.com/


http://www.endafghanistanwar.com/




Our Call to Action ( 7-10 de Outubro de 2010)

As we approach the ninth anniversary of the disastrous invasion and occupation of Afghanistan, we call for decentralized international days of action October 7-10 to bring U.S. and NATO troops home. We call for a ceasefire, negotiations and the withdrawal of foreign forces.

The U.S.-NATO phase of the Afghan War has been predictably deadly and counterproductive since the beginning. Even U.S. military leaders now concede that there is no military solution to what is at its core an Afghan civil war. Yet, in an era defined by the highest levels of unemployment since the Great Depression of the 1930s, instead of investing in job creation and provision of essential social services, our governments are flushing colossal amounts of taxpayers’ money down the drain of a futile, murderous and destructive war.

Rather than “winning hearts and minds”, the war and long-term foreign military occupation have alienated the Afghan people and fueled deepening and increasingly widespread armed resistance by local communities and the fractured Taliban. A new civilian UN mandate in Afghanistan is needed to create and develop human security. A growing majority of Afghans no longer see U.S. and NATO forces as liberators. Instead, they see Western occupiers as the primary cause of their insecurity and suffering and want them to leave. As the international press reports, “a drumbeat is starting to sound across Afghanistan in favor of talking to the Taliban”.

Instead of the promised peace and security, Afghans are suffering an ever-growing civilian death toll. The corruption of the increasingly unpopular U.S.-imposed warlord/Karzai government, which controls little more than the capital Kabul, is now infamous. The 2010 presidential election has been universally condemned as a fraud. Massive increases in poppy cultivation have further corrupted the Karzai government, warlords and the Taliban, who use the drug trade to maintain their privileges and finance the continuing civil war. By allying with minority non-Pashtun warlords to overthrow the Taliban in 2001 and making them the foundation of the Karzai government, the majority Pashtuns were further alienated from the rulers in Kabul. And, with the exception of Kabul, the values shared by warlords and the Taliban have meant few or no changes for women.

We therefore call for decentralized international days of nonviolent action October 7-10 urging a ceasefire, Afghan and international negotiations, and the urgent withdrawal of all foreign military forces from that beleaguered nation. With actions from vigils, banner drops, conferences and meetings with government officials to teach-ins, demonstrations and civil disobedience, we can move our governments to end this catastrophic war.

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Comunicado da PAGAN, Plataforma Anti-Guerra Anti-Nato

Afeganistão: 9 anos de guerra

Um minuto já seria demais



Já dura há 9 anos a guerra que o Pentágono e a Nato programaram para o Afeganistão, ainda antes do 11 de Setembro de 2001.

São 9 anos de destruição. Anos em que a área abrangida não tem parado de se alargar, do Afeganistão para o Paquistão e, mais recentemente, com réplicas no Quirguizistão e no Tadjiquistão.

São 9 anos com deslocações em massa de populações pobres, de vítimas colaterais dos bombardeamentos da NATO, com aviões tripulados e outros “inteligentes” dirigidos a partir de consolas instaladas nos EUA.

São 9 anos de engrandecimento do negócio do ópio, a favor dos senhores da guerra e do alastramento da toxicodependência a 800000 afegãos.

São 9 anos de esforços de controlo pelos EUA das vias de transporte de petróleo e gás e que se revelam como um fracasso militar e estratégico.

São 9 anos de gastos brutais com a guerra, com os contratos para a produção de armamentos e com empresas de serviços militares. Gastos tanto mais condenáveis quando se oneram os povos com desemprego, cortes salariais, degradação dos cuidados de saúde.

Portugal participa nessa guerra e, a despeito do empobrecimento colectivo a que se assiste, o governo desencadeou uma verdadeira orgia de compras de armamento (submarinos, carros de combate e anti-motim, aviões); sem olhar ao deficit público ou ao crescimento da dívida.

Retirada imediata de tropas estrangeiras do Afeganistão!

Extinção da NATO!

Cancelamento por Portugal de todas as compras de equipamentos militares!

PLATAFORMA ANTI-GUERRA ANTI-NATO

Debate sobre Guerra, Paz e Não-Violência ( dia 12 de Outubro, às 18h.)


Realiza-se no próximo dia 12 de outubro, pelas 18h., um encontro-debate na Sala da Orquestra da Universidade Católica Portuguesa (Foz), sito na Rua Rua Diogo Botelho, 1327, sobre o tema da Guerra, Paz e Não-Violência, e que pretende assinalar o pré-lançamento do livro

PEREGRINAÇÃO ÀS FONTES, de LANZA DEL VASTO
(obra disponível a partir de 30 de novembro de 2010)

O debate sobre
GUERRA, PAZ E NÃO VIOLÊNCIA


partirá de apresentações iniciais de

Jorge Leandro Rosa, um dos fundadores da ALOOC, Associação Livre de Objectoras e Objectores de Consciência; investigador no Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens da Universidade Nova de Lisboa, Professor Associado na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, profundo conhecedor do pensamento de Lanza del Vasto, a cujas conferências em Portugal assistiu no final dos anos 1970

Jorge Teixeira da Cunha, Professor na Universidade Católica Portuguesa, Porto, teólogo, sacerdote e assistente da Comissão Diocesana de Justiça e Paz, autor de livros na área da bioética, entre os quais Bioética breve, de 2002, e de artigos em várias temáticas, incluindo, por exemplo, A teologia moral, a tolerância e o pluralismo ético

Mário Brochado Coelho, advogado, com numerosas intervenções cívicas ao longo da vida, autor de dois livros fundamentais para a compreensão da questão angolana (Em Defesa de Joaquim Pinto de Andrade e Lágrimas de Guerra (diário da guerra de Angola); agraciado em 2006 com a Ordem da Liberdade pelo Presidente da República

Pedro Jorge Pereira, autor do livro Be the Change you want to see (inspirado numa frase célebre de Gandhi, e escrito em português, apesar do título), animador do forum electrónico Mahatma Gandhi, activista no domínio ecológico, social, alimentar, dos direitos dos animais numa perspectiva altermundialista e não violenta


Ouça também aqui cítara indiana tocada por Franklin Pereira, que tem tocado e gravado cítara indiana desde há algumas décadasem Portugal, e tem estudado continuadamente esse instrumento,nomeadamente, por diversas vezes, com mestres indianos na Índia

A organização é das Edições Sempre-em-Pé
www.sempreempe.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=68

7.10.10

O Grande Casino Europeu ou como a dívida privada da especulação financeira é convertida em dívida pública para benefício da Banca !

Como é que a economia-casino europeia converte as dívidas privadas resultantes da especulação financeira em dívida pública para benefício do sistema financeiro capitalista:

Vídeo explicativo em castelhano da Campanha contra a Europa do Capital, da Guerra e das Crises.


Jornada Mundial pelo trabalho digno (World Day for Decent Work)


A Confederação Sindical Internacional (CSI) realiza hoje, 7 de Outubro de 2010, uma Jornada Mundial pelo Trabalho Digno. Esta jornada tem como objectivos centrais:

- O combate às medidas de austeridade, pelo crescimento e postos de trabalho dignos, enquanto condições essenciais para ultrapassar a crise e pôr fim à pobreza;
- A defesa de serviços públicos de qualidade para uma vida digna, e contra a sua destruição em nome da consolidação fiscal;
- Que o sector financeiro pague os danos que causou e seja obrigado a servir a economia real e as reais necessidades humanas.

A CGTP-IN associou-se a esta Jornada Mundial e aos seus objectivos fundamentais.


Não à introdução de portagens nas Scuts - jornada de luta no dia 8 de Outubro


DIA 8 DE OUTUBRO, VAMOS DIZER NÃO ÀS PORTAGENS

No passado Sábado, dia 25 de Setembro, realizou-se na Senhora da Hora, Matosinhos, o 1º Encontro Nacional das Comissões de Utentes Contra as Portagens nas SCUT.

Foi uma reunião muito participada, onde foi analisada a situação actual, designadamente o anúncio, pelo Governo, da implementação de portagens nas SCUT do Norte Litoral, Grande Porto e Costa da Prata.

Os argumentos que o Governo apresenta não correspondem à Verdade, pois os critérios constantes do Programa do Governo não se mostram cumpridos, quer no que respeita aos indicadores socioeconómicos, quer quanto à existência de alternativas.

Também se concluiu que se este processo chegou aqui, com várias datas anunciadas a não se concretizarem e com o Governo a oferecer isenções pontuais, numa verdadeira confusão, mas com prazo limitado, até 30 de Junho de 2012, foi porque houve luta e luta muito intensa.

Agora, e mais uma vez, temos motivos acrescidos para voltar à luta, para reafirmarmos que temos razão, para gritarmos NÂO ÀS PORTAGENS!

Vamos fazer uma GRANDE JORNADA DE LUTA CONTRA AS PORTAGENS NO PRÓXIMO DIA 8 DE OUTUBRO!

http://www.naoasportagensnasscuts.com/

http://www.naoasportagensnasscuts.com/



O movimento ”Naturalmente… Não às Portagens na A28” assumiu a defesa desta causa por entender que havia um vazio em Viana do Castelo, relativamente a este assunto.
Por isso conscientemente assumiu a defesa deste território, dos cidadãos e das empresas relativamente à decisão do Governo, de aplicar portagens na scut A28,(IC1),via que foi construída há aproximadamente 16 anos , com apoios comunitários e integralmente paga.

Entendendo, por isso que seria importante alertar os cidadãos e empresas para as gravíssimas consequências desta posição do Governo, isto é , desta obsessão em portajar as Scut’s, e em especial na A28, isto porque a lei que prevê a aplicação das portagens, considera três critérios, que de facto na prática não são verificáveis nesta via, A28.

6.10.10

É urgente salvar e recuperar a escola de Castelo Branco, Mogadouro

Aspecto da escola antes do abandono e da actual degradação


O edifício da escola do ensino básico em Castelo Branco, Mogadouro, está ao abandono e a degradar-se, o que constitui um prejuízo irreparável para a história e o património da aldeia.
É preciso salvar, manter e recuperar o local onde muitos jovens da aldeia de Castelo Branco, Mogadouro, viveram as aventuras da sua infância e adolescência, onde aprenderam a ler, a escrever e a crescer, onde passaram a maior parte do tempo enquanto estudantes.

Depois de recuperado fisicamente o local podia ser aproveitado para varios fins culturais como uma biblioteca\arquivo do espólio cultural da aldeia por exemplo e\ou servir de espaço para serem leccionados cursos na aldeia, numa das salas do edifício da escola, sendo que a outra sala poderia funcionar como uma biblioteca, ludoteca e arquivo local!!!


Saber mais e dar apoio: AQUI e AQUI

Pobreza Urbana e Solidariedade Intergeracional ( a experiência da AGIRXXI em Vila d'Este) é o tema da tertúlia hoje à noite no bar-livraria Gato Vadio


Tertúlia sobre

"Pobreza Urbana e Solidariedade Intergeracional - discussão em torno da experiência do AGIR XXI em Vila d'Este"
Quarta-feira, dia 6, 21h15
Entrada Livre


Local:
Gato Vadio, bar-livraria

Rua do Rosário, 281 – Porto
telefone: 22 2026016
email:
gatovadio.livraria@gmail.com

Apresentação do projecto “O Poder do Povo” no espaço Musas ( 7 de Outubro, às 22h.)



O Espaço Musas tem a honra de o/a convidar para a apresentação do projecto “O Poder do Povo”,

de Elizabeth Ida, José Simões e Koert Jobse,
a realizar esta quinta-feira, dia 07 de Outubro de 2010, pelas 22h.

what the heck are we getting now?
o que diabo nos estão a dar agora?
¿que demonios nos estan dando ahora?

it’s for free and without taxes, just take it one solution, revolution


quinta-feira 7 de Outubro 22h
Espaço Musas - Rua do Bonjardim 998 Porto


“La diferencia entre el sistema comunista y el capitalista es que, aunque los dos dan una patada en el culo, en el comunista te la dan y tienes que aplaudir, y en el capitalista te la dan y uno puede gritar; yo vine aquí a gritar”
Reinaldo Arenas


1st social public presentation in all world and conversation around capitalism vs activism
1ª apresentação pública social em todo o mundo e conversa em torno do capitalismo vs activismo.


People Power Pill, was born in Artist Residency, Artis Den Bosch, in s’Hertogenbosch,
Netherlands. Born from an artistic and political thought against the capitalist societies, against the big companies and above all from the thought about the crisis that we live nowadays.

project by Elisabeth Ida (IND), José Simões (Por) and Koert Jobse (NL). 2009, developed in Den Bosch.

Elisabeth Ida (Ind) /
www.elisabethida.com

José Simões (Por) /
www.cargocollective.com/josesimoes
Koert Jobse (NL) /
www.nowshow.it

Projecto PowerPill /
www.usethepill.tumblr.com

Assembleia preparatória da Contra Cimeira NATO e acções de rua contra a guerra do Afeganistão




ASSEMBLEIA PREPARATÓRIA DA CONTRA-CIMEIRA NATO
Data: 16 de Outubro, 14h

Local: Associação Caboverdeana, Rua Duque de Palmela, nº2, 8º andar


Programa:
14:00 – 15:30
Boas vindas e explicações iniciais
Palestra resumida de abertura: A NATO e a UE, Willy Meyer
Onde estamos – Onde queremos ir: Acções durante a Contra Cimeira
Informações e discussões


16:00 – 20:00 – Grupos de trabalho
Mobilização para a Contra Cimeira
Desobediência Civil
Trabalho com os Média
Praça da Paz


Nos dias 19 e 20 de Novembro, Lisboa receberá a Cimeira da NATO para discutir o novo conceito estratégico da aliança militar.

O Estado português prepara-se a rigor para esteve evento e já investiu 5 milhões de euros só em equipamento anti-motim para as forças policiais. Lisboa estará em alerta de segurança máxima para receber os senhores da guerra.
...
Porque não aceitamos esta política belicista e defendemos a extinção da NATO, porque exigimos a retirada imediata das tropas portuguesas do Afeganistão e a respectiva saída de Portugal desta aliança militar, porque consideramos a estratégia da NATO o braço armado do imperialismo dos E.U.A., porque recusamos os gastos militares milionários, porque defendemos de forma intransigente a paz, organizamo-nos e preparamos o protesto contra os senhores da guerra.

A PAGAN (Plataforma Anti-Guerra e Anti-Nato) convida todas as organizações, movimentos e cidadãos a participar na Assembleia Preparatória da Contra-Cimeira a realizar no dia 16 de Outubro pelas 14h, na Associação Caboverdeana, na Rua Duque de Palmela nº2, 8ºandar.

PORTUGAL FORA DA GUERRA E FORA DA NATO

Plataforma Anti-guerra, Anti-NATO
http://antinatoportugal.wordpress.com/
antinatoportugal@gmail.com


ACÇÕES DE RUA contra a Guerra do Afeganistão ( 9 de Outubro)

No âmbito dos 9 anos da Guerra do Afeganistão, entre 7 e 10 de Outubro, a Plataforma Anti-guerra Anti-NATO participará num Dia Internacional de Acção por um cessar fogo no Afeganistão e está a programar acções de rua em Lisboa e no Porto.

ler também:
http://www.endafghanistanwar.com/

Solidariedade no Porto com os squatters holandeses


Em solidariedade com os squatters da Holanda, que estão a ser criminalizados com a entrada em vigor da nova lei anti-okupação a 1 de outubro passado, e em resposta a um apelo de okupas holandeses, foi hoje colocada, no Porto, uma faixa, dizendo "Estamos aqui para dizer que a ocupação e libertação de espaços deverá ser uma das principais estratégias da luta por um mundo mais justo".

Edifícios abandonados, deixados a apodrecer apenas por interesse económico, tornam as cidades em lugares fantasma, okupar é uma forma de acção directa que resiste e inverte a lógica do capital. Quando a vontade e a acção se juntam, pessoas podem usar essas casas para habitar e criar espaços livres onde se podem encontrar, trocar ideias, organizar eventos e começar projectos em comum em oposição à privatização dos espaços e contra a gentrificação e especulação imobiliária.

A nova lei holandesa não apresenta soluções para o problemas das casas abandonadas, dando ainda mais protecção aos proprietários que podem especular com a propriedade mais à vontade.

Quando viver é um luxo, okupar é um direito!

Kraken gaat door!


Fonte da notícia: Indymedia-Portugal

Práticas Anarco-sindicalistas ( próxima sessão: 9 de Out. no CCL, em Almada)

Clicar por coma da imagem par ler em detalhe


http://ait-sp.blogspot.com/

Práticas Anarco-Sindicalistas

Sábado, 2 de Outubro

16h30 Experiências de luta no Porto
– apresentado pelo Sindicato de Ofícios Vários do Porto da AIT-Secção Portuguesa

18h00 Experiências de luta em Madrid
- apresentado pelo Sindicato de Ofícios Vários de Madrid da CNT-AIT (Confederación Nacional del Trabajo, secção da AIT em Espanha)

20h00 Jantar vegetariano

na BOESG
- Rua das Janelas Verdes, 13, 1º Esq. - Santos – Lisboa


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Sábado, 9 de Outubro

17h00 Cem anos depois: Situação actual do anarco-sindicalismo em Espanha
apresentado por um companheiro da CNT-AIT de Almeria

20h00 Jantar vegetariano

no Centro de Cultura Libertária
- Rua Cândido dos Reis, 121, 1º Dto. - Cacilhas – Almada

Associação Internacional dos Trabalhadores – Secção Portuguesa Núcleo de Lisboa

Programação para Outubro do espaço do Regueirão dos Anjos, em Lisboa

Clicar por cima da imagem para ler em detalhe


Espaço Regueirão dos Anjos
Regueirão dos Anjos, 69
Lisboa

Ciclo de debates sobre o tema «Privado, Público e Comum» ( de 8 de Out. a 10 de Nov. no teatro Maria Matos, Lisboa)

Ciclo de debates PRIVADO, PÚBLICO e COMUM
http://u-ni-pop.blogspot.com/

LOCAL: TEATRO MARIA MATOS, Lisboa

# entrada livre #

Há mais vida além do Estado e do mercado? Ao longo dos últimos anos, a oposição entre público e privado tem ocupado um lugar fundamental em grande parte dos debates políticos e com a crise económico-financeira esta tendência acentuou-se de modo ainda mais nítido. Neste ciclo de debates, a UNIPOP propõe partir das contraposições entre público e privado e entre Estado e mercado, discutindo-as em diferentes dimensões do quotidiano, da organização do trabalho à construção das cidades, passando pelos processos educativos, pelo espaço mediático e pelas políticas de saúde. Procuraremos analisar as transformações das últimas décadas, tanto à escala nacional como à escala global, e apontar novos caminhos, num debate que vai além da simples contraposição entre público e privado ou Estado e mercado, contraposição cuja rigidez tende muitas vezes a confinar o combate aos processos de privatização à defesa do controlo estatal. Se por um lado queremos mapear claramente o que separa privado e público, por outro trata-
se de questionar a possibilidade de questionar formas de poder transversais ao espaço público e à esfera privada.

*
8 de Outubro das 18h às 21h
O que é o Comum?
Debate com Michael Hardt e a UNIPOP

Com a publicação de Império, em 2000, Michael Hardt e Toni Negri renovaram de modo significativo os termos do debate político à esquerda. O livro, entre muitos utros pontos de debate, procurou repensar a política além da alternativa entre o capitalismo e o socialismo, assumindo como tarefa a renovação de um imaginário radical igualmente crítico do Estado e do mercado, retomando as tradições autónomas do movimento operário, assumindo-se como herdeiro de Maio de 68 e acompanhando os novos movimentos alterglobais. Em Multidão, primeiro, e, mais recentemente, em Commonwealth, Hardt e Negri continuaram a reflexão iniciada em 2000, nomeadamente em torno dos temas da propriedade, da produção e do rendimento, articulando alguns dos principais debates marxistas em torno da economia com os estudos foucauldianos acerca da biopolítica e da governamentalidade. Sublinharam, em particular, a necessidade de construir uma política assente no comum, entendido como condição essencial do comunismo, tal como o privado será condição do capitalismo e o público do socialismo. Dez anos depois de Império, Michael Hardt discute em Lisboa, com a UNIPOP, alguns dos aspectos mais importantes do trabalho político da dupla Hardt e Negri.

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13 de Outubro 18h30
Economia, Comunismo e Pirataria
Conversa com José Maria Castro Caldas e Miguel Serras Pereira

Nos últimos anos tem sido frequentemente debatido o maior peso do Estado ou do mercado na vida económica. Ao culto da livre iniciativa empresarial contrapõe-se a necessidade de maior regulação estatal, num debate a que não são de todo indiferentes as transformações ideológicas do liberalismo e do socialismo no século XX e as dinâmicas de globalização nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, a partir de experiências como as que caracterizaram a crise argentina do início deste século, retomaram a sua actualidade debates acerca do próprio modo de organização do poder no seio da empresa, reavivando-se tradições conselhistas ou de autogestão, assim como colocando na ordem do dia novas práticas comunais, de que se encontra exemplo na questão dos direitos de autor e de propriedade intelectual.

José Maria Castro Caldas é economista do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Miguel Serras Pereira é tradutor.

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20 de Outubro 18h30
Cidades, Centros Comerciais e Praças Públicas
Conversa com João Pedro Nunes, Manuel Graça Dias e Miguel Silva Graça

A cidade tem sido palco de conflito entre interesses privados e públicos, conflito em que a questão imobiliária e os debates em torno do planeamento, colocando em causa a sacralidade do direito à propriedade privada, têm assumido particular destaque. Entretanto, a fronteira entre público e privado nem sempre resulta clara, seja porque a questão da privacidade tem sido colocada no âmbito do próprio espaço público (veja-se os debates em torno da videovigilância) seja porque existem determinados espaços privados, como os centros comerciais, que parecem assumir funções de encontro e reunião que antes eram apanágio da rua ou da praça. Ao mesmo tempo, os problemas específicos da habitação, dos chamados bairros de lata aos novos bairros sociais, mas também passando pelos condomínios fechados, pelos processos de gentrificação ou pelos movimentos de ocupação de casas, têm colocado as fronteiras entre público e privado em transformação, nuns casos, consolidando-as, noutros, atenuando-as.

João Pedro Nunes é sociólogo e investigador do CIES-ISCTE, Manuel Graça Dias é arquitecto e professor de arquitectura na Universidade do Porto e Miguel Graça é arquitecto e doutorando na Universidade de Valladolid.

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27 de Outubro 18h30
Media, Propriedade e Liberdade
Conversa com Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira

De que falamos quando falamos de liberdade de expressão? Nos últimos anos, os grandes meios de comunicação social fazem alarde da liberdade de expressão contra alegadas interferências do Estado, mas poderemos falar de liberdade de expressão no quadro de uma economia dos media em que a concentração impera? Neste contexto, importa atender a novas formas de comunicação que, à margem do controlo directo do Estado e dos grandes grupos privados, têm vindo a tecer redes muito vastas em que a fronteira entre emissor e receptor parece fragilizar-se. É o caso de uma série de meios suportados pela Internet, que, aliados aos novos desenvolvimentos tecnológicos, permitem igualmente colocar em cima da mesa novas possibilidades de estender o direito de emissão televisiva ou radiofónica além das empresas públicas e das empresas privadas de comunicação.

Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira são jornalistas.

*
3 de Novembro 18h30
Medicina, Ciência e Saberes
Conversa com António Fernando Cascais e Isabel do Carmo

Em tempo de guerra ou em tempo de paz, o sistema estatal de saúde constitui um dos elos mais importantes da relação entre os Estados e as populações e durante a segunda metade do século XX os sistemas estatais de saúde têm sido considerados, na Europa mas não só, como uma das áreas primordiais de intervenção estatal, entre outras coisas visando impedir que as desigualdades económicas entre pessoas e classes se reflictam de modo ainda mais marcante no direito universal à saúde. Durante o mesmo período, contudo, as relações entre médico e doente têm vindo a ser cada vez mais objecto de debate, no quadro do questionamento das lógicas de poder subjacentes ao conhecimento científico, daqui resultando importantes discussões acerca da importância do «atendimento» em meio hospitalar (questão particularmente valorizada por gentes privados do sector da saúde), por um lado, e, por outro, da necessidade dos sistemas úblicos integrarem saberes e conhecimentos heterodoxos face às correntes dominantes na medicina (questão com implicações a nível nacional mas também no quadro dos debates em torno das valências de diferentes práticas culturais).

António Fernando Cascais é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Isabel do Carmo é médica no Hospital de Santa Maria.


*
10 de Novembro 18h30
Escola, Ordem e Emancipação
Conversa com António Avelãs e Jorge Ramos do Ó

A disputa pelo método de educar atravessa a história e é motivo de concórdia e discórdia entre professores, ministros, pais, psicólogos, alunos. Entre o ensino público e o ensino privado, o primeiro financiado pelo Estado e o segundo suportado pelas famílias, têm-se travado muitos destes debates, que se cruzam com outros tantos, à volta do ideal iluminista da educação como emancipação, e do seu potencial para corrigir as desigualdades ou, pelo contrário, para as eproduzir. Entretanto, a disputa pelo método de educar coloca igualmente em campo professores e alunos. As relações de poder que entre eles se estabelecem, das reiteradas críticas à falta de utoridade dos docentes à tentativa de levar a cabo experiências pedagógicas emancipatórias da condição estudantil, têm suscitado um debate pouco informado, mas nem por isso menos cirrado, e que constitui o ponto de partida para esta conversa.

António Avelãs é professor e presidente do Sindicato de Professores da Grande Lisboa e Jorge Ramos do Ó é historiador e professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

Anarquistas no dealbar de Novecentos: O despertar dos famintos

Texto retirado de:

Autor: João Madeira


O “despertar dos famintos”, que os anarquistas se encarregaram de ampliar e enquadrar no dealbar do século, está indissociavelmente ligado ao processo de desagregação e queda da Monarquia. Por João Madeira. Lead: O “despertar dos famintos”, que os anarquistas se encarregaram de ampliar e enquadrar no dealbar do século, está indissociavelmente ligado ao processo de desagregação e queda da Monarquia.


“A anarquia progride por todo o lado. O ano passado havia um só anarquista em Lisboa. Hoje, são já suficientemente numerosos para difundir milhares de brochuras e editar um jornal”1


Creio que a citação é relativamente conhecida. Trata-se de uma carta do militante anarquista Elisée Reclus, escrita de França, depois de uma segunda viagem a Portugal, em Abril de 1886.

Nessa altura, os anarquistas portugueses podiam ser suficientemente numerosos para aquelas tarefas de propaganda; a sua presença podia ter a expressão mínima que permitisse doravante falar em movimento libertário no país, mas estavam ainda efectivamente muito longe de serem hegemónicos no movimento social.

Terão, aliás, nesses anos até ao final do século, particularmente na última década de Oitocentos, grandes dificuldades de afirmação, emparedados que estavam entre um movimento sindical completamente hegemonizado pelo velho Partido Socialista Português e acossados por fortes bátegas repressivas com que o Governo reagia a um conjunto de acções violentas e atentados.

Na prática era a proibição das organizações e da imprensa anarquista. Era a chamada lei celerada, que João Franco, na altura ministro, tratara de fazer aprovar. O seu impacto seria tão forte que não se conseguiria mais livrar do seu espectro, mesmo quando quis revê-la, oito anos mais tarde, já como Presidente do Conselho de Ministros.

Dezenas, porventura centenas mesmo, de militantes anarquistas, ou suspeitos de o serem, foram assim deportados para Timor, Moçambique, para a Guiné… Muitos morreram por lá, outros só regressaram passados muitos anos, alguns tentaram fugas espantosas.

Em reacção, constituir-se-ia uma Liga contra a Lei de 13 de Fevereiro, funcionando na Confederação Metalúrgica, envolvendo associações de classe, mas também centros republicanos.

Do ponto de vista das condições de vida dos trabalhadores, a situação não era também a melhor. Entre 1888 e 1901, a ração alimentar teria aumentado 25%, tanto quanto o preço do trigo de 1892 a 1900. Na última década de Oitocentos ter-se-ia registado estagnação e quebra nos consumos populares.

Nos salários, nalguns sectores, a tendência tinha sido mesmo de depreciação. Nos metalúrgicos, por exemplo, entre 1890 e 1905, consideradas cinco das principais categorias profissionais, em todas elas o valor nominal do salário baixou. Um caldeireiro que em 1890 auferia 700 reis/dia, em 1905 auferia 670. Do mesmo modo os ferreiros ou os torneiros que de 980 e 950 reis diários passavam nesse período de 15 anos para 750 e 780, respectivamente.

A oscilação do défice nas contas públicas, com contracções fortíssimas em 1900-1901 ou em 1903-1904, bem como o superavit registado no ano económico seguinte, apontam para reduções enormes na despesa pública o que equivalia à fortes constrangimentos sobre o emprego nas obras públicas e ao aumento da pressão fiscal, com consequências pesadas nos trabalhadores.

Porém, na viragem do século, assiste-se a um crescimento industrial, que sendo incipiente, se traduz no aumento das unidades fabris, designadamente de média dimensão, e na incorporação crescente do maquinismo, processo que teve implicações significativas na reconfiguração do proletariado, se bem que, em 1907, mais de metade do que se considerava como população industrial fossem artesãos.

É neste contexto que, entre a resistência à repressão política e o envolvimento no movimento social, se vão desenvolver em relativa pluralidade as ideias anarquistas, nem sempre coincidentes, nem sempre suficientemente diferenciadas, mas evidenciando grande vigor e efervescência.

Entre 1900 e 1910 são criados 166 novos grupos anarquistas e apenas extintos 12. São grupos pequenos, de composição restrita, fundados em relações de proximidade muito fortes, cuja capacidade de consolidação depende fundamentalmente desse carácter, que os torna fechados, assentes numa organização simples, funcionando em assembleia, reunindo em regra semanalmente na casa de um dos seus membros ou em salas cedidas pelas associações de classe.

São fundamentalmente grupos de propaganda, culturais em menor número e menos ainda os ligados a temas ou objectivos específicos. Só em poucos casos evoluem para formas de organização mais complexa, promovendo por exemplo a edição de um jornal ou uma revista.

É o caso dos grupos Conquista do Pão e Juventude Consciente que se fundem em 1906, constituindo o grupo Acção Directa para, dois anos depois, darem origem ao Grupo Editor da revista anarquista A Sementeira, uma revista notável, dirigida pelo operário arsenalista Hilário Marques, com 36 números publicados na sua primeira série, entre Setembro de 1908 e Agosto de 1911, onde colabora a elite da intelectualidade anarquista da época – Campos Lima, Emílio Costa, Neno Vasco, José Carlos de Sousa, Severino de Carvalho, Adolfo Lima, Sobral de Campos e que publica dezenas de textos de Malatesta, Réclus ou Kropotkine.

As suas páginas são repositórios extraordinários da divulgação doutrinária empreendida, dos temas internacionais, das polémicas, dos ritmos de aparecimento de novos grupos anarquistas e associações de classe, das reclamações operárias e do movimento de greves, que adquirem novo fôlego na viragem do século, nos primeiros anos de Novecentos.

O movimento sindical cresce. Em 1905 há 161 associações de classe, em 1910 são 223, concentrando-se esmagadoramente no sector industrial, residuais e de crescimento muito lento no sector agrícola.

Está-se a passar de um padrão de greve dispersa, isolada, circunscrita a uma fábrica quase artesanal, com escasso número de trabalhadores, para movimentações mais vastas. A greve dos têxteis da Covilhã, no verão de 1902, pontua o arranque dessa evolução. Oitocentos operários reclamam pelas suas antigas tabelas salariais, pela reposição de fatias elevadas que chegavam aos 75% no caso das mulheres e aos 70% nos homens.

As reivindicações salariais serão aceites, mas 22 dos operários que mais se haviam destacado na greve serão despedidos. Ficava no entanto inscrito o exemplo da combatividade e da radicalização.

As negociações, intermediadas pelo governador civil e pelo próprio presidente da Associação Industrial Portuense, são completamente improcedentes e suspensas. As tentativas de reabrir as fábricas com gente estranha a substituir os grevistas sob a protecção da tropa descambam em violência – são presos 220 operários, colocados num navio fundeado no rio.

Cresce a solidariedade, imensa, do Porto operário e popular – entram em greve chapeleiros, sapateiros, metalúrgicos, tabaqueiros, tanoeiros… A greve torna-se praticamente geral no Porto e o número dos envolvidos galga para os 40 mil. Recolhem-se fundos e donativos pelas ruas da cidade.

Mas era um novo ciclo que se abria. Iam longe os tempos em que nas páginas da imprensa operária se reconheciam as virtudes da acção parlamentar e se aconselhavam os trabalhadores ao voto. O discurso sindical, de classe, tornara-se radical, anti-político.

As divergências entre anarquistas e socialistas no movimento sindical tornavam-se irredutíveis, num processo que fragmentaria o Partido Socialista e que geraria um veio com expressão suficiente para reconfigurar o próprio campo do anarquismo, ainda que caminhando numa nebulosa de sensibilidades e tendências.

Se todas essas sensibilidades se reconheciam como antimilitaristas, se todos aceitavam o papel de uma educação nova, moderna, “racionalista”, se havia um acordo consideravelmente largo sobre o papel dos sindicatos, dividia-os no entanto duas questões fundamentais – a atitude face ao regime, por um lado e a violência, por outro.

Puristas e intervencionistas, pacifistas tolstoianos e partidários do direito à revolta, partidários da greve geral ou adeptos da acção directa ao tiro e à bomba, debatiam-se, em tensão, mas num universo que além de restrito era suficientemente sincrético, para que nenhuma dessas correntes despontasse ainda, hegemónica.

No entanto, o que essa reconfiguração do campo anarquista traz de fundamental é justamente a constituição de uma corrente intervencionista, presente nas associações de classe, engrossando através da aliança entre correntes possibilistas dissidentes do Partido Socialista e militantes anarquistas num percurso que os leva ao campo de um socialismo revolucionário, evoluindo daí para o campo do anarquismo.

Entendiam a República como um regime mais avançado que a Monarquia, espécie de etapa necessária no caminho da libertação.

A Federação Socialista Livre, constituída em 1901 e refundada em 1905 é a expressão dessa aliança e desse intervencionismo libertário que se vai desenhando no espectro do movimento anarquista. O jornal O Germinal de Setúbal, ao aderir em 1906 à Federação, tornar-se-á no principal arauto desta corrente, que tanta crítica e polémica levantará nos meios anarquistas.

Neste sentido, é esta corrente que alimenta como útil a ideia dos operários votarem nos republicanos e só desta forma se poderá perceber como o Partido Republicano quintuplicou os seus resultados eleitorais entre 1901 e 1910, atingindo níveis de votação substancialmente acima da sua base social e política de apoio. Já não eram só lojistas ou farmacêuticos a votar no PRP, mas também operários cuja capacidade eleitoral resultava do saber ler e escrever.

Anarquistas intervencionistas e republicanos haviam-se aliás encontrado desde finais do século XIX também nos ambientes carbonários. Reprimidos violentamente na viragem do século por virtude da lei celerada de Fevereiro de 1896 reagem também pela acção clandestina, escudando-se em sociedades secretas, como a Carbonária dos anarquistas, que Heliodoro Salgado funda por esses anos de final do século.

De início, estes carbonários são operários, caixeiros e alguns intelectuais sublimados. Criam a Liga Progresso e Liberdade, o Grémio da Liberdade, cujo carácter para-legal permitia a polarização e o crescimento. A avaliar pela evolução das quotizações individuais é possível perceber o seu extraordinário crescimento, aumentando essas quotizações em 1905 mais de dez vezes em relação a 1896, ano da fundação.

Nos últimos anos do século, é recomendada a abertura da organização a todas as tendências políticas, com excepção de monárquicos e é nesse contexto que se dá a adesão dos republicanos radicais.

A Loja e a Carbonária dos anarquistas, entretanto reorganizada sob o nome de Carbonária Lusitana, acabarão hegemonizados pelos republicanos radicais, com os anarquistas remetidos a uma posição secundária. A repressão policial sobre esta organização vai ocorrer no rescaldo dos rebentamentos de bombas da Rua do Carrião e na escada de um prédio na zona da Estrela, em Lisboa, em 1907, o que levará igualmente ao desmantelamento da Loja Obreiros do Futuro.

O que restou desta organizações transferir-se-á para a Carbonária Portuguesa, criada paralelamente, também no final do século, na herança da Carbonária Académica, com Luz de Almeida, entre outros e cujo papel destacado nas jornadas de Outubro de 1910 é conhecido.

Alfredo da Costa, o regicida de Casével, empregado de comércio teria, como Aquilino Ribeiro, ligações a esta rede orgânica e, por extensão aos anarquistas intervencionistas. Como dizia:

“Sou pelas greves como sou por todos os métodos de resistência utilizados pelos fracos, pelos oprimidos, em defesa dos seus interesses”, esclarecendo que “o meu ódio maior, a minha mais viva repulsa, dirige-se aos patrões burgueses que nos exploram e que sem altivez servimos”2

Esta porosidade entre republicanos e anarquistas, entre diferentes sensibilidades intervencionistas, entre organizações semi-legais e ilegais, no seio de múltiplos jornais anarquistas e sindicalistas criou um caldo denso que nunca deixou de ter no movimento social expressão privilegiada.

As 173 greves ocorridas em 1909, ano em que é registado maior número antes da República, assim como a crescente radicalização que agravava o processo de diferenciação entre socialistas e anarquistas no movimento sindical, aliás bem patente no Congresso operário de 1909, mostram bem como a instabilidade social, o desejo de melhorar a vida, constituiu um factor favorável à própria revolução republicana.

Este “despertar dos famintos”, que os anarquistas se encarregaram de ampliar e enquadrar no dealbar do século está, por isso, indissociavelmente ligado, por múltiplos poros e canais de comunicação, ao processo de desagregação e queda da Monarquia, mesmo que distintamente encarados.



1 Cit. por Edgar Rodrigues, O despertar operário em Portugal 1834-1911, Lisboa, Sementeira, 1980, p. 197

2 Cit.por Carlos da Fonseca, Para uma análise do movimento libertário e da sua história, Lisboa, Antígona, 1988, p. 24

2.10.10

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O sistema bancário, o governo e o povo


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30.9.10

O click-activismo está a matar o activismo social



A fixação e a obsessão pelo ciberespaço e pelo click informático tem potenciado o chamado activismo digital que se torna cada vez mais num click-activismo.

A atracção pelo universo digital, pelo ciberespaço e pela Internet leva as pessoas a empenharem-se cada vez menos nas causas sociais, na poesia das acções com objectivos de transformação social.

O activismo digital, sobretudo na forma de click-activimo, se é uma oportunidade para a circulação de ideias e informação, é também um real perigo para a transformação social, uma vez que leva as pessoas a sedentarizarem-se e adoptarem formas mais cómodas e ineficazes de intervenção social.

Contudo, contra a tecnocracia do click-activismo larvar emerge pouco a pouco uma nova geração de activistas que buscam a raiz das coisas, a paixão pela acção e o interesse pelo debate de ideias e o convívio presencial.


Ler a propósito o texto do jornal britânico Guardian
www.guardian.co.uk/commentisfree/2010/aug/12/clicktivism-ruining-leftist-activism




Clicktivism is ruining leftist activism

Reducing activism to online petitions, this breed of marketeering technocrats damage every political movement they touch . Digital activists have gone online and adopted the logic of the marketplace.

A battle is raging for the soul of activism. It is a struggle between digital activists, who have adopted the logic of the marketplace, and those organisers who vehemently oppose the marketisation of social change. At stake is the possibility of an emancipatory revolution in our lifetimes.

The conflict can be traced back to 1997 when a quirky Berkeley, California-based software company known for its iconic flying toaster screensaver was purchased for $13.8m (£8.8m). The sale financially liberated the founders, a left-leaning husband-and-wife team. He was a computer programmer, she a vice-president of marketing. And a year later they founded an online political organisation known as MoveOn. Novel for its combination of the ideology of marketing with the skills of computer programming, MoveOn is a major centre-leftist pro-Democrat force in the US. It has since been heralded as the model for 21st-century activism.

The trouble is that this model of activism uncritically embraces the ideology of marketing. It accepts that the tactics of advertising and market research used to sell toilet paper can also build social movements. This manifests itself in an inordinate faith in the power of metrics to quantify success. Thus, everything digital activists do is meticulously monitored and analysed. The obsession with tracking clicks turns digital activism into clicktivism.

Clicktivists utilise sophisticated email marketing software that brags of its "extensive tracking" including "opens, clicks, actions, sign-ups, unsubscribes, bounces and referrals, in total and by source". And clicktivists equate political power with raising these "open-rate" and "click-rate" percentages, which are so dismally low that they are kept secret. The exclusive emphasis on metrics results in a race to the bottom of political engagement.

Gone is faith in the power of ideas, or the poetry of deeds, to enact social change. Instead, subject lines are A/B tested and messages vetted for widest appeal. Most tragically of all, to inflate participation rates, these organisations increasingly ask less and less of their members. The end result is the degradation of activism into a series of petition drives that capitalise on current events. Political engagement becomes a matter of clicking a few links. In promoting the illusion that surfing the web can change the world, clicktivism is to activism as McDonalds is to a slow-cooked meal. It may look like food, but the life-giving nutrients are long gone.

Exchanging the substance of activism for reformist platitudes that do well in market tests, clicktivists damage every genuine political movement they touch. In expanding their tactics into formerly untrammelled political scenes and niche identities, they unfairly compete with legitimate local organisations who represent an authentic voice of their communities. They are the Wal-Mart of activism: leveraging economies of scale, they colonise emergent political identities and silence underfunded radical voices.

Digital activists hide behind gloried stories of viral campaigns and inflated figures of how many millions signed their petition in 24 hours. Masters of branding, their beautiful websites paint a dazzling self-portrait. But, it is largely a marketing deception. While these organisations are staffed by well-meaning individuals who sincerely believe they are doing good, a bit of self-criticism is sorely needed from their leaders.

The truth is that as the novelty of online activism wears off, millions of formerly socially engaged individuals who trusted digital organisations are coming away believing in the impotence of all forms of activism. Even leading Bay Area clicktivist organisations are finding it increasingly difficult to motivate their members to any action whatsoever. The insider truth is that the vast majority, between 80% to 90%, of so-called members rarely even open campaign emails. Clicktivists are to blame for alienating a generation of would-be activists with their ineffectual campaigns that resemble marketing.

The collapsing distinction between marketing and activism is revealed in the cautionary tale of TckTckTck, a purported climate change organisation with 17 million members. Widely hailed as an innovator of digital activism, TckTckTck is a project of Havas Worldwide, the world's sixth-largest advertising company. A corporation that uses advertising to foment ecologically unsustainable overconsumption, Havas bears significant responsibility for the climate change TckTckTck decries.

As the folly of digital activism becomes widely acknowledged, innovators will attempt to recast the same mix of marketing and technology in new forms. They will offer phone-based, alternate reality and augmented reality alternatives. However, any activism that uncritically accepts the marketisation of social change must be rejected. Digital activism is a danger to the left. Its ineffectual marketing campaigns spread political cynicism and draw attention away from genuinely radical movements. Political passivity is the end result of replacing salient political critique with the logic of advertising.

Against the progressive technocracy of clicktivism, a new breed of activists will arise. In place of measurements and focus groups will be a return to the very thing that marketers most fear: the passionate, ideological and total critique of consumer society. Resuscitating the emancipatory project the left was once known for, these activists will attack the deadening commercialisation of life. And, uniting a global population against the megacorporations who unduly influence our democracies, they will jettison the consumerist ideology of marketing that has for too long constrained the possibility of social revolution.