31.7.05

Uma escola libertária e elitista para todos


Entrevista com o filósofo Michel Onfray


Demissionário do sistema de educação do Ministério da Educação Nacional francês, o filósofo Michel Onfray decidiu fundar, entretanto, a Universidade popular de Caen, como forma de criar um novo Jardim de Epicuro, mas fora das paredes, lançando as bases para uma autêntica «comunidade filosófica» contra o mercantilismo dos saberes.

Nesta entrevista Michel Onfray defende o poder emancipador da pedagogia libertária.

A miséria social e moral das nossas sociedades impõe a necessidade de ensinar a todos um saber alternativo e crítico, até porque muitos intelectuais deixaram de se preocupar em tornar popular, o saber filosófico.

Le Monde de L’Éducation – Na sua obra «La Communauté philosophique» (Galilée, 2004) você escreve que «o pedagogo libertário trabalha para o seu apagamento pessoal, e cultiva o poder interrogativo de toda a subjectividade». Porque é que este poder se encontra esgotado no aparelho escolar, quando ainda existem certos professores que conseguem despertar e responder ao desejo de saber dos alunos?

Michel Onfray – A instituição escolar é esquizofrénica: ela tem um discurso, mas leva a cabo uma prática nos antípodas daquele discurso. O discurso é este: a escola forma a inteligência, constrói indivíduos cultivados cujo saber lhes permitiria desenvolver juízos esclarecidos, ensina a ler, a escrever, a fazer contas, a pensar, ela formaria o cidadão ao educá-lo para a liberdade. Mas, a verdade, é que na prática ela negligencia a inteligência para privilegiar o exercício da memória e da repetição calibrado em função de um programa feito para isso. A educação nacional ensina sobretudo a submissão, a docilidade, a hipocrisia, o artificial. Só assim se pode explicar que num curso de 7 anos de inglês se consiga fazer tão poucos jovens bilingues. O que é que se aprende durante aquelas intermináveis horas de aprendizagem de línguas senão a arte de bem funcionar dentro da máquina que permita a passagem para o ensino superior, e a produção de diplomas úteis para o mundo da integração social.

Le Monde de L’Éducation – Qual é a genealogia dessa pedagogia libertária que você defende? Estaria no prosseguimento de uma linha que vai de Epicuro a Freinet?

Michel Onfray – Se o termo libertário significar «o que educa a liberdade», ou «o que faz da liberdade o bem supremo», sem dúvida, que poderíamos começar com Sócrates e a sua maiêutica, a sua arte de desenvolver as potencialidades de cada qual e torná-las em realidades tangíveis, podemos depois continuar com Diógenes e os filósofos cínicos que usam um bastão para mandar embora os que procuram um mestre e a submissão. Prosseguimos com Erasmo, o grande e imenso Erasmo, e, certamente, Montaigne, que tanto lhe deve, para falar de várias matérias, como a Educação e tantas outras. Passamos depois para Nietzsche que ensina que um bom mestre é aquele que aprende aquilo que se desprende de si. Seria preciso ainda de falar , com certeza, dos autores libertários, que a história conheceu, como Max Stirner e o seu «Falso Princípio da Nossa Educação», Sébastien Faure, que aplicou o seu método em La Ruche, mas ainda A.S. Neill e os seus « Jovens livres de Summerhill» que me fizeram desejar tornar-me professor antes de me desiludir na Escola Superior de Educação. Seria ainda preciso acrescentar o excelente livro «Advertência aos estudantes e liceais» de Raoul Vaneigem.


Le Monde de L’Éducation – Uma certa concepção da pedagogia libertária – nomeadamente a que defende a espontaneidade do aluno – não fará o jogo do «novo espírito do capitalismo» que pretende apoiar a participação dos «actores»? Não contribuirá ela para o idiota útil do «neoliberalismo»?

Michel Onfray – Tem razão…Eu sou um ardente defensor de Maio de 68 e do espírito de Maio, que se definia por uma revolução metafísica anti-autoritária. Os dominados punham em causa os dominantes. Os pares tradicionais – mulheres/homens, jovens/velhos, empregados/patrões, esposas/maridos – deixaram de ter um estatuto divino. E tudo isso foi uma coisa boa. Mas à negação dos velhos valores não se seguiu uma positividade. Destruir é bom se, e somente se, propusermos a seguir uma reconstrução. Os valores libertários, por exemplo, mereceriam mais que os simples elogios da indolência, da espontaneidade, do natural, do porreirismo generalizado por via da desvalorização do rigor que se mostrou tão pouco democrático quanto demagógico. Porque esta renúncia à memória, ao esforço, ao trabalho, à cronologia, e todas essas categorias consideradas reaccionárias fizeram efectivamente o jogo do poder, que prefere ter um rebanho de inculto embrutecidos que indivíduos apetrechados com o saber e a cultura. A pedagogia libertária não é a pedagogia liberal pós-anos 60 que deixa o jovem livre na turma, e que dá plenos poderes à competição entre classes sociais, e que é, ela própria, geradora de reprodução social…

Le Monde de l’éducation - «Passamos de um ensino autoritário a um ensino clientelar», escreve Raoul Vaneigem num texto recente sob o título «Modeste propositions aux grévistes» ( Verticales,2004). «O endoutrinamento suscitava, ao menos, a revolta, a propaganda estimulava o seu oposto, o desejo de pensar de outra forma.O feiticismo do dinheiro enfraqueceu o pensamento que ruge e incomoda.» Concorda com esta análise?

Michel Onfray – Vaneigem é um amigo que me estimula – ele acaba por me ultrapassar pela esquerda! – mas não partilho o seu optimismo que está, de resto, na génese do seu radicalismo político: no meu entender, a autoridade produz uma submissão massiva, pois o medo, o temor e o desejo de servidão voluntária são grandes. A revolta não é gerada pela ditadura – se assim fosse, seria preciso desejarmos a ditadura enquanto momento dialéctico das revoltas lógicas… - mas por temperamentos rebeldes, revoltados, insubmissos gerados por razões existenciais que só uma psicanálise à maneira sartriana – descobrir o projecto original – permitiria compreender. Conheci períodos da minha vida – nomeadamente os 7 anos de pensionato, 4 dos quais no orfanato dos salesianos – que fizeram de mim aquilo que sou hoje, mas que também fizeram uma multidão de indivíduos castrados da vida e orgulhosos de o ser. Uma mesma causa não produz felizmente os mesmos efeitos em todos nós. É preciso levar em consideração o prazer de estar submetido, tal como existe com tantas pessoas…

Le Monde de L’éducation – É procurando retomar o que há de melhor nos cafés-filosóficos e nas Universidades ( a liberdade dos primeiros e a seriedade da segunda), ao mesmo tempo que rejeita o que há de pior em cada qual (o extavasamento de um lado e a securra do outro), que você decidiu fundar a Universidade Popular de Caen. Mas também com o objectivo de retomar e prosseguir o ideal nascido no tempo da questão Dreyfus. Em que medida é ela um meio de lutar contra a situação de crise por que a França atravessa: miséria social, racismo, bloqueios nacionais-populistas, etc?


Michel Onfray – O saber é um poder. Posto isto, é preciso um saber específico susceptível de permitir a libertação e não a alienação.A filosofia não é de facto um instrumento de libertação: ensinar as ideias platónicas, falar da Cidade de Deus de S. Agostinho, das teses tomistas, da aposta de Pascal, do ocasionalismo de Malebranche, da angústia de Kierkegaard e de tantas outras matérias da história da filosofia ajudam mais a manter o poder instalado e permitir o domínio do cristianismo do que a emancipar o aprendiz em filosofia…Daí o interesse em ensinar quer um saber alternativo, quer um saber clássico, mas de maneira alternativa, isto é, crítica. A subversão cínica, o hedonismo cirenaico, a libertação epicurista, a alegria gnóstica, só para ficar na Antiguidade, são ilustrações de saberes alternativos; ou então, falar dos saberes clássicos mas de maneira alternativa: mostrar que o conceito erróneo de pré-socrático, desvalorizando o predecessores socráticos, pressupõe uma escrita platónica da história da filosofia, explicar as razões da evicção do materialismo de Demócrito( cuja obra completa Platão queria queimar em auto-da-fé…). Estes saberes permitem construir uma inteligência crítica, mas também realizar um trabalho sobre outras matérias, nomeadamente as que estão associadas a essa crise que referiu.


Le Monde de l’éducation – Você costuma recordar que intelectuais como Alain, Péguy, Bergson e tantos outros, frequentaram e animaram cursos de educação popular, lançados pelo tipógrafo anarquista Georges Deherme. Os intelectuais dos anos 2000 esqueceram o seu papel de educadores e a ideia de tornar popular, a filosofia?

Michel Onfray – A nossa época mediática produziu dois tipos de intelectuais: o primeiro especializou-se na miséria limpa, uma miséria longínqua que permita uma postura declamatória à maneira teatral, reproduzida logo de imediato pelos media. Tendente a ser mediatizada, e não precisando de nenhum outro compromisso que não seja o verbo, a carta postal ou a consulta de um livro, ela permite tocar o trompete dos grandes princípios maiúsculos: a Humanidade, a Liberdade, os Direitos do Homem, etc. O segundo ocupa-se antes da miséria suja, a que envolve os explorados, os operários, os miseráveis e os excluídos do sistema, as vítimas e outros dejectos do liberalismo, a ideologia defendida pela maior parte dos primeiros. Os intelectuais dos anos 2000 não cuidam da educação popular nem de tornar popular a filosofia: o seu saber é utilizado para fins financeiros, traduzíveis em moedas reais ou simbólicas, mas nunca com o objectivo de uma crítica social.

Le Monde de L’Éducation -Um curso magistral pode ser libertário?

Michel Onfray – Sim, se o magistério do curso magistral for aquele que indiquei ainda há pouco: um mestre libertário que cuida antes de tudo em cartografar e de identificar o conjunto das situações que estão em jogo, fornecendo depois um bússola e o seu modo de emprego, isto é, convidar cada qual a fazer a sua própria viagem.

Le Monde de l’éducation – A Universidade popular histórica acabou por desaparecer antes da Primeira Guerra Mundial em razão de causas e desinteligências internas. A Universidade popular tem tido um grande sucesso. Como evitar os perigos?

Michel Onfray – A Universidade popular é um organismo vivo e, como tal, mortal. Os três anos da sua existência já permitem identificar alguns vírus, erros e ataques. Tudo normal…A Universidade popular tem tido efectivamente um grande sucesso público e popular, gerou uma verdadeira energia alternativa, propõe um intelectual colectivo – para usar a fórmula de Bourdieu – eficaz, que logo perturba e incomoda. É normal que a nossa aventura atraia invejas e revele os medíocres, os invejosos, e outras figuras de ressentimento que não existem e não vivem senão por, e para a destruição. Mas nós somos uma comunidade de amigos, no sentido epicurista, que vamos experimentando o verdadeiro poder da amizade epicurista. E, depois, sejamos nietzscheanos, o que não mata fortalece-nos. Para o resto, só o Deus das Universidades populares poderá dizer se a experiência desaparecerá – sim, porque ela sempre desaparecerá -, seja como vítima do síndroma do recém-nascido ou do catarro dos velhos, seja por suicídio próprio na flor da idade ou por um esgotamento centenário…

Le Monde de L’Éducation – Uma educação «elitista para todos». Esta fórmula do dramaturgo Antoine Vitez adaptada à educação mantém-se actual?

Michel Onfray – Mais actual do que nunca. Gosto mesmo do oximoro, uma figura de estilo que, associando dois termos aparentemente contraditórios, gera um sentido novo: universidade popular é realmente um oximoro espantoso! O elitismo para todos, também. Percebe-se que, para além da pura e simples justaposição verbal, para além do simples jogo de palavras, uma nova significação emerge à luz do dia. A expressão elitismo para todos supõe uma outra definição de cada uma dos termos; trata-se de dar o melhor ao maior número, porque o melhor existe, sem dúvida, mas normalmente só é dado aos melhores, pelos menos, aqueles que assim são qualificados pela máquina social. Quando é destinado a todos, ao maior número – é essa a minha definição de popular, e também a de Michelet – o elitismo brilha com outra clareza, que muitos se têm esquecido, e que é a da luz do iluminismo.

(Tradução para português da entrevista com Michel Onfray publicada no nº 338, Juillet-Août 2005 do Le Monde de L’Education)

www.lemonde.fr/mde/

29.7.05

75º aniversário de A Selva, de Ferreira de Castro,



Por ocasião do 75º aniversário da publicação de A SELVA, está o Centro de Estudos Ferreira de Castro a promover um Congresso Internacional para assinalar esta efeméride, de 28 a 30 de Julho de 2005, em Ossela e Oliveira de Azeméis, terra natal e sede de concelho de Ferreira de Castro.
(Ver http://www.ceferreiradecastro.org/module.php?p=congresso)

Recorde-se que Ferreira de Castro (1898-1974) foi um escritor-operário que defendia o ideário anarco-sindicalista e um dos escritores portugueses mais lidos de todos os tempos. Para além disso, a sua escrita faz a ponte entre um naturalismo ecologista e o neo-realismo social.
Recusava-se também a ser mais um patrioteiro, Numa carta com data de 1953 escrevia:
"(..) a verdade é que, por cima da condição de europeu, de latino e de português, sinto na minha alma uma grande identidade com a alma de todos os outros povos."
Já noutro momento o escritor declarara:
"Eu não sou bairrista, não sou regionalista, não sou nacionalista; amo Portugal inteiro, a Europa inteira, o mundo inteiro; amo profundamente o povo do nosso país, mas amo também toda a Humanidade."
Esse amor pela Humanidade passava por compreender e amar o semelhante pelo que tem de positivo e negativo, de sucesso ou de insucesso, ou seja, pelo seu todo, e pelo que intrinsecamente é. Passava, finalmente, também, por "compreender e fraternizar com os homens (...) de todas as cidades e de todas as aldeias de todos os países da Terra, por cima de todas as fronteiras e de todas as pátrias."




Cronologia de Ferreira de Castro


1898 – Nasce em Salgueiros, Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis (24 de Maio), filho de José Eustáquio Ferreira de Castro e Maria Rosa de Castro, camponeses.

1903 – Nasce Roberto Nobre, ensaísta e crítico de cinema, artista gráfico, um dos maiores amigos do escritor.

1904 – Inicia os estudos na escola de Ossela.

1906 – Morte do pai.

1910 – Faz o exame da instrução primária (22 de Agosto). Tira o passaporte para o Brasil (6 de Dezembro).

1911 – Parte de Ossela (6 de Janeiro) com destino a Leixões, embarca (7 de Janeiro) no vapor inglês “Jerôme” rumo a Belém do Pará, cidade que vivia ainda do fausto proporcionado pela borracha. Durante 28 dias fica em casa dum conhecido da família que, não o protegendo como se esperava, despacha-o a bordo do “Justo Chermont” para o seringal «Paraíso», nas margens do rio Madeira, braço do Amazonas.

1912 / 1913 – Vive em plena selva, trabalhando como caixeiro. Escreve os primeiros contos e crónicas enviando-os para jornais do Brasil e de Portugal. Redige o romance O Amor de Simão, título que virá a modificar mais tarde para Criminoso por Ambição.

1914 – O dono do seringal perdoa-lhe a dívida, permitindo-lhe deixar o «Paraíso» (28 de Outubro) para regressar a Belém do Pará, levando consigo o manuscrito do seu primeiro romance.

1915 – Período de grandes dificuldades. Cola cartazes em Belém, trabalha como embarcadiço num navio de cabotagem que faz a carreira do Oiapoque, o “Cassiporé”, entre aquela cidade e a Guiana Francesa. Redige então umas Impressões de Viagens. Começa a colaborar no Jornal dos Novos. Tira o primeiro retrato.

1916 – Edita Criminoso por Ambição (“Sensacional romance expurgado de phantasia”), impresso em fascículos. Publica a peça em dois actos Alma Lusitana, tendo como pano de fundo o conflito luso-alemão de Naulila.

1917 – Funda e dirige com outro emigrante, João Pinto Monteiro, o semanário Portugal (Março), destinado à comunidade lusa de Belém do Pará.

1918 – Ganha notoriedade como jornalista. É homenageado pela comunidade portuguesa de Manaus. A peça O Rapto (inédita) é representada no «Teatro-Bar Paraense» (Agosto). O Portugal publica em folhetim o romance Rugas Sociais, que ficou inacabado.

1919 – Viagem a S. Paulo e Rio de Janeiro. Regressa a Portugal (9 de Setembro) a bordo do “Desna”, com quatrocentos escudos no bolso. Breve estada com a família em Ossela. Decide-se de novo a enveredar pelo jornalismo, em Lisboa, sem qualquer conhecimento no meio. Funda O Luso, com a intenção de promover a aproximação luso-brasileira, jornal que dura poucos meses. Novo período de penúria, em que chega a passar fome.

1921 – Publica o Mas…, ensaios e ficção. Colabora no jornal Imprensa Livre, do publicista libertário Campos Lima. Intervém no «Comício dos Novos», no Chiado Terrasse.

1922 – Funda A Hora, “revista panfleto de arte, actualidades e questões sociais”. Colabora, entre muitos outros periódicos, na revista A. B. C., dirigida por RochaMartins. É premiada num concurso promovido pelo Teatro Nacional a peça O Mais Forte (inédita). Publica a novela Carne Faminta (Outubro).

1923 – Publica O Êxito Fácil e Sangue Negro.

1924 – Publica A Boca da Esfinge, de parceria com Eduardo Frias, e A Metamorfose. Edição espanhola de O Êxito Fácil (trad. por J. Andrés Vázquez.).

1925 – É admitido como sócio do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa (30 de Abril). Publica A Morte Redimida e Sendas de Lirismo e de Amor (contos) e, sob o pseudónimo «Silvestre Valente», A Ditadura Feminista, texto satírico. Assegura grande parte da colaboração no «Suplemento Literário» do diário A Batalha e da revista Renovação, ambos da Confederação Geral do Trabalho (CGT), anarco-sindicalista.

1926 – É eleito presidente do Sindicato. Desinteligências com os seus camaradas sobre a forma de protesto contra a instauração da censura, que pretendia mais enérgica. Publica A Peregrina do Mundo Novo, A Epopeia do Trabalho (com ilustrações de Roberto Nobre) e O Drama da Sombra.

1927 – A jornalista e escritora Diana de Lis (Maria Eugénia Haas da Costa Ramos, n. 1892) torna-se sua companheira. Publica os volumes de contos A Casa dos Móveis Dourados e O Voo nas Trevas. Integra os quadros de O Século, coordenando a área internacional. Inicia Emigrantes.

1928 – Publica o romance Emigrantes (24ª ed., 1988), que marca um ponto de viragem na sua obra e no romance português. Funda e dirige a revista Civilização, com Campos Monteiro.

1929 – Primeira visita a Paris e viagem a Andorra com Diana de Lis. Começa a escrever A Selva. Co-dirige, com António Ferro, a «Página Portuguesa» da Gaceta Literaria, de Gimenez Caballero.

1930 – Publica A Selva (38ª ed., 1991). Morte de Diana de Lis (30 de Maio). Viagem pela Europa (Espanha, Inglaterra, Irlanda). Abandona a Civilização. Emigrantes editado em Espanha (trad. por Luis Diaz Amado Herrero e Antonio Rodríguez de Léon).

1931 – Organiza e prefacia o livro póstumo de Diana de Lis Pedras Falsas. Faz a reportagem para O Século das Constituintes da II República espanhola, da Revolta da Andaluzia e do plebiscito sobre a autonomia da Catalunha (Julho/Agosto). Gravemente doente com uma septicemia tenta o suicídio (3 de Novembro). É assistido por Reinaldo dos Santos. Publica-se um in memoriam gorado: Ferreira de Castro e a Sua Obra, volume colectivo organizado por Jaime Brasil incluindo páginas inéditas de memórias. Publica-se em Espanha a tradução de A Selva, por Amado Herrero e Rodríguez de Léon.

1932 – Convalesce na Madeira. Publica novo livro póstumo de Diana de Lis, Memórias duma Mulher da Época.

1933 – Publica Eternidade (14ª ed., 1989). Longas estadas no Barroso, onde colhe elementos para Terra Fria, cuja publicação se inicia em folhetim n’O Século. Tradução de A Selva na Alemanha por Richard A. Bermann, amigo de Stefan Zweig, que concita a atenção internacional para o romance e o seu autor. Prefacia a tradução portuguesa do livro da feminista e diplomata russa Alexandra Kolontai, A Mulher Moderna e a Moral Sexual.

1934 – Publica Terra Fria (13ª ed., 1990), “Prémio Ricardo Malheiros” da Academia das Ciências (júri: Eugénio de Castro, Queirós Veloso, Barbosa de Magalhães, Alfredo da Cunha e Joaquim Leitão). Viagem à Córsega a serviço do seu jornal. Começa a escrever O Intervalo, com base na experiência vivida na Andaluzia, em 1931. Abandona, no final do ano, o jornalismo em Portugal, desgastado pela acção da censura. Traduções de A Selva em Itália (G. de Medici e G. Beccari) e na Checoslováquia (em checo, por Milada Fliederová).

1935 – Viaja pelo Mediterrâneo, visitando o Egipto, Palestina, Rodes, Malta, Cartago e Tunis, Pompeia e Nápoles e Maiorca, périplo de que resultaria o seu primeiro livro de viagens. Assume as funções de director de O Diabo por dois escassos meses (8 de Setembro a 10 de Novembro). Edição de A Selva no Brasil, prefaciada por Afrânio Peixoto, e em Inglaterra e Estados Unidos (trad. por Charles Duff). Morte de Reinaldo Ferreira (n. 1897), o «Repórter X», grande camarada do jornalismo.

1936 – É editada a conferência Canções da Córsega (2ªed., 1994). Termina O Intervalo e a peça Sim, Uma Dúvida Basta, sobre o caso Hauptmann-Lindbergh, escrita para o Teatro Nacional a pedido de Robles Monteiro, censurada por despacho governamental (4 de Março). Conhece no Estoril a pintora espanhola Elena Muriel. Tradução sueca de A Selva por Aslög Davidson.

1937 – Inicia-se a publicação em fascículos de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações. Nova edição de A Selva no Brasil. Tradução italiana de Emigrantes por A. R. Ferrarin.

1938 – Casa-se com Elena Muriel, em Paris (9 de Agosto). A serviço do jornal carioca A Noite visita a Escandinávia e a Checoslováquia, assistindo à invasão da região dos Sudetas. Publicação de A Selva em França, (trad. por Blaise Cendrars, primeira de inúmeras edições que o romance conheceu neste país, onde continua a ser editado pela Grasset), e na Jugoslávia (em croata, por Dragutín Biscan). Edição ilustrada do romance amazónico por Alberto de Sousa, António Soares, Carlos Reis, Dórdio Gomes, Jorge Barradas, Manuel Lapa, Manuel Lima e Martins Barata. Dá a conhecer a sua intenção de escrever uma biografia do doutrinário anarquista russo Kropotkine.

1939 – Faz uma viagem à volta do mundo, na companhia de sua mulher.

1940 – Publica A Tempestade (10ª ed., 1980). Sai o primeiro estudo crítico, de largo fôlego, sobre o escritor, da autoria de Alexandre Cabral: Ferreira de Castro – O Seu Drama e a Sua Obra.

1941 – Escreve, até 1944, A Volta ao Mundo, cuja primeira edição atinge a tiragem de 25 mil exemplares. Publicação de Eternidade no Brasil e nova edição de A Selva na língua checa.

1944 – Traduções de A Selva na Roménia (Al. Popescu-Telega), e de Terra Fria (em checo, por Milada Fliederová).

1945 – Nasce a sua filha, Elsa Beatriz. Numa entrevista histórica ao Diário de Lisboa (17 de Novembro) denuncia os efeitos nefastos da censura sobre os escritores portugueses. Integra a Comissão Consultiva e a Comissão de Escritores Jornalistas e Artistas do Movimento da Unidade Democrática (MUD). Em Maio sai a 10ª edição de A Selva, atingindo o meio milhão de exemplares em todo o mundo, dos quais 42 mil em Portugal. É um dos fiadores literários do volume III do Guia de Portugal, com Afonso Lopes Vieira, Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Câmara Reis, Raul Lino e Samuel Maia. Prolongadas estadas na Serra da Estrela, preparando o próximo romance. Jaime Brasil publica opúsculo Os Novos Escritores e o Movimento Chamado «Neo-Realismo», reivindicando para Ferreira de Castro a condição de iniciador – e não apenas precursor – do realismo social na literatura.

1946 – É homenageado pelos conterrâneos (5 de Maio). Participa na sessão do MUD na Voz do Operário (30 de Novembro), onde se lê uma vibrante «Mensagem» pela Liberdade e contra o Estado Novo. Publicação de A Selva na Bélgica (em francês) e na Suíça (em alemão, por R. Caltofen); nova tradução castelhana de Emigrantes e primeira de Terra Fria, por Eugenia Serrano.

1947 – Publica A Lã e a Neve (15ª ed., 1990). Traduções de Terra Fria em França e na Bélgica, por Louise Delapierre, e de Eternidade na Checoslováquia, por Milada Fliederová. Em Pont-Aven (Bretanha) escreve grande parte de A Curva da Estrada.

1948 – É homenageado em Paris pela Societé des Gens de Lettres (Maio). Les Lettres Françaises, dirigido por Claude Morgan, publica Le Patron des Navigateurs (O Senhor dos Navegantes). Edição em França de Emigrantes (trad. por A. K. Valère). A Selva vertido para o eslovaco por Stefan Jamsky.

1949 – A editora Guimarães inicia a publicação das suas “Obras Completas”, que serão ilustradas por Manuel Ribeiro de Pavia, Carlos Botelho, Bernardo Marques, Júlio Pomar, Keil do Amaral, Sarah Affonso, Artur Bual e João Abel Manta, entre outros. Recusa a proposta – e a oferta de trezentos contos – do editor para incluir as obras da primeira fase, anteriores a Emigrantes. Apoia activamente a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. Tradução eslovaca de Emigrantes por Stefan Kiska.

1950 – Publica A Curva da Estrada (11ª ed., 1985). Escreve A Missão. Tradução francesa de A Lã e a Neve, por Louise Delapierre.

1951 – O académico dinamarquês Holger Sten propõe a candidatura do escritor ao Prémio Nobel (Fevereiro), sendo secundado em Portugal por João de Barros, Jaime Brasil e Roberto Nobre. Morte da mãe (25 de Dezembro). Escreve A Experiência. Tradução polaca de Emigrantes, por Aleksandry Oledzkiej.

1952 – Nova tradução alemã de A Selva (por Hans Plischke). Traduções de A Lã e a Neve na Argentina (por Raul Navarro), Checoslováquia (por Jakub Frey, em checo, com um posfácio de Jorge Amado) e Hungria (por Janós Csatlós, prefaciada também por Jorge Amado). Edição parcial de Pequenos Mundos no Brasil, intitulada Terras de Sonho.

1953 – Uma grave doença hepática põe a sua vida em risco. Mensagem nacional com milhares de assinaturas assinala o 25º aniversário da publicação de Emigrantes, entretanto editado na Áustria (trad. por Herbert e Waltraut Furreg) e na Checoslováquia (trad. por Jakub Frey), bem como A Selva na Noruega (por Leif Sletsjoe) e A Curva da Estrada em França (por Renée Gahisto).

1954 – Publica A Missão (8ª ed., 1980), que inclui «A Experiência» e «O Senhor dos Navegantes». Edições de A Lã e a Neve no Brasil (numa colecção dirigida por Jorge Amado, na Editorial Vitória), Alemanha (trad. por Elfried Kaut), Bélgica (em flamengo, por L. Roelandt), Checoslováquia (em eslovaco, por Vladimir Oleriny) e Roménia (Dan Botta).

1955 – 25º aniversário de A Selva assinalado com uma edição ilustrada por Cândido Portinari que inclui o texto memorialístico «Pequena história de “A Selva”». Inicia As Maravilhas Artísticas do Mundo, ocupando-o nos oito anos que se seguem. Tradução alemã de Terra Fria (por Elfried Kaut) e nova edição de A Lã e a Neve na Hungria.

1956 – Mensagem aos Democratas de Aveiro, opúsculo editado pela comissão das comemorações de 31 de Janeiro, por iniciativa de Mário Sacramento. Depõe a favor de 52 jovens num julgamento político no Porto. Tradução de A Experiência na Argentina (por Carmen Alfaya), enquanto que em Espanha a Aguilar publica as suas Novelas Escogidas em papel bíblia, traduzidas por José Ares e Eugenia Serrano.

1957 – Traduções de A Selva na Bélgica (em flamengo, por L. Roelandt) e de A Missão em França (L. Delapierre e R. Gahisto).

1958 – Armindo Rodrigues e Orlando Gonçalves dão voz a um grupo de oposicionistas, convidando-o a candidatar-se à presidência da República, convite que declina, tal como recusa integrar a comissão de honra da candidatura de Delgado, numa atitude crítica à divisão da Oposição. Arlindo Vicente, o outro candidato, era um dos seus grandes amigos. Tradução de Emigrantes na Hungria (por Ferenc Kordás) e 3ª edição de A Lã e a Neve. A versão francesa de A Missão é publicada na Suiça. Judith Navarro, Ferreira de Castro e o Amazonas, biografia romanceada destinada aos jovens.

1959 – Visita o Brasil (2-28 de Outubro), 40 anos após o regresso a Portugal, a convite da União Brasileira de Escritores. É apoteoticamente recebido, as sessões de homenagem multiplicam-se. É feito cidadão honorário do Rio de Janeiro, que lhe entrega a chave da cidade. Com Juscelino Kubitschek, Presidente da República, visita Brasília. Inicia a publicação de As Maravilhas Artísticas do Mundo ou a Prodigiosa Aventura do Homem Através da Arte. Tradução russa de A Lã e a Neve, por A. Torres e A. Ferreira (existe uma versão de Emigrantes feita por David Vigodsky, desconhecida entre nós). Grava para a discográfica Orfeu «O Senhor dos Navegantes». Alberto Moreira, Ferreira de Castro Antes da Glória, estudo biográfico sobre a juventude do escritor.

1960 – O Porto assiste à maior homenagem prestada a um escritor até então, com um colóquio, uma exposição bibliográfica e duas concorridas sessões de autógrafos nas livrarias Divulgação e Latina (4-6 de Fevereiro). Prefacia a primeira edição portuguesa de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado. Publicação de A Curva da Estrada no Brasil. Traduções húngara de Eternidade (por Sándor Szalay) e italiana de A Lã e a Neve (por António Fiorillo). Morre João de Barros (n. 1881), padrinho de Elsa Ferreira de Castro.

1961 – São editados no Brasil os três volumes das suas Obras Completas, em papel bíblia. Jaime Brasil, Ferreira de Castro, biografia e antologia.

1962 – É eleito por unanimidade presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual é o sócio nº2 e Aquilino o nº1. Toma posse a 5 de Fevereiro, presidindo até 1964 a uma direcção de que fazem parte João José Cochofel, Manuel Ferreira, Manuel da Fonseca e Matilde Rosa Araújo. Edições norte americanas de Emigrantes (trad. por Dorothy Ball), e A Missão (trad. por Ann Stevens).

1963 – Conclui As Maravilhas Artísticas do Mundo. Edição de A Missão no Reino Unido; primeira edição de bolso de A Selva em França.

1965 – A Academia de Belas Artes de Paris atribui o “Prémio Catenacci” às Maravilhas Artísticas. Apoia a atribuição do prémio de novelística da SPE a Luuanda, de Luandino Vieira.

1966 – Assinalam-se os 50 anos da sua vida literária. Na Sociedade Nacional de Belas Artes realiza-se uma grande exposição bibliográfica e iconográfica. Edições especiais, com posfácios do autor, de Emigrantes, ilustrada por Júlio Pomar, e Terra Fria, com desenhos de Bernardo Marques, além dum volume colectivo, o Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro. Numa praça de Oliveira de Azeméis é inaugurado um monumento à sua obra (30 de Dezembro).Morre Jaime Brasil (n. 1896).

1967 – Escreve O Instinto Supremo. Nova edição brasileira de A Selva, ilustrada por Poty. Doa a casa onde nasceu ao povo de Oliveira de Azeméis (30 Dez.).

1968 – A União Brasileira de Escritores apresenta a candidatura conjunta de Ferreira de Castro e Jorge Amado ao Prémio Nobel da Literatura. Publica O Instinto Supremo (6ª ed., 1988) simultaneamente em Portugal e no Brasil. Tradução húngara de A Missão por Sándor Szalay.

1969 – Escreve os textos evocativos Historial da Velha Mina e A Aldeia Nativa. “Homenagem a João de Barros” (opúsculo). Mensagem de adesão ao II Congresso Republicano de Aveiro. Morte de Roberto Nobre.

1970 – Recebe o grande prémio “Águia de Ouro Internacional” no Festival do Livro de Nice (28 de Maio), atribuído por unanimidade por um júri presidido por Isaac Bashevis Singer, de que fazem parte, entre outros, André Chamson, Gore Vidal, Hervé Bazin, Jacques Chastenet, Joaquim Paço d’Arcos e Miguel-Angel Asturias. Eram também candidatos Konstantin Simonov e Lawrence Durrrel. Faz o primeiro pedido às autoridades do seu país (25 de Fevereiro): «ficar sepultado à beira duma dessas poéticas veredas que dão acesso ao Castelo dos Mouros», na Serra de Sintra

1971 – Nova visita ao Brasil com inúmeras homenagens. O seu nome é dado a um troço da Transamazónica. Em Paris, a Academia do Mundo Latino atribui o “Prémio da Latinidade” a Ferreira de Castro, Jorge Amado e Eugenio Montale.

1972 – Revê e prepara para edição O Intervalo, antecedido do texto memorialístico «Origem de “O Intervalo”». Chamou-se João de Deus Ramos, Exactamente o Nome Paterno (opúsculo). Jorge Amado prefacia nova edição brasileira de A Selva. Tradução polaca de A Missão por Florian Smieja.

1973 – A UNESCO anuncia que A Selva está entre os dez romances mais lidos em todo o mundo. Doa ao povo de Sintra, vila onde passou largas temporadas, a maior parte do seu espólio (Abril). Comemora-se o seu 75º aniversário com uma nova edição ilustrada do grande romance, desta vez ilustrado por Júlio Pomar. Entrevista a Álvaro Salema gravada pela Sassetti. Tradução japonesa de A Selva por Kikuo Furano. Álvaro Salema, Ferreira de Castro – A Sua Vida, a Sua Personalidade, a Sua Obra (estudo e antologia).

1974 – Acolhe o 25 de Abril com grande emoção, participando euforicamente no primeiro 1º de Maio. Em 5 de Junho sofre um acidente vascular-cerebral em Macieira de Cambra. Morre no Hospital de Santo António, no Porto (29 de Junho). Publica-se Os Fragmentos – Um Romance e Algumas Evocações. Nova edição de A Lã e a Neve na Hungria.

1975 – Os restos mortais de Ferreira de Castro são inumados numa encosta da Serra de Sintra, a caminho do Castelo dos Mouros (31 de Maio), cumprindo-se a vontade do escritor. A Lello edita as Obras Completas de Ferreira de Castro em papel bíblia (quatro volumes). Morre Assis Esperança (n. 1892), um dos seus companheiros de sempre.

1994 – Publica-se a peça Sim, Uma Dúvida Basta, inédita durante sessenta anos, e a Correspondência com Roberto Nobre, assinalando-se o 20º aniversário da sua morte

Uma Declaração de Direitos para as Gerações Futuras

(A Bill of Rights For Future Generations)


Nós, o povo do futuro, tal como as 20 mil gerações que nos antecederam, temos o direito de respirar ar puro, com aromas naturais e cheiros agradáveis, beber água fresca e pura, nadar em águas boas para a saúde, e cultivar a nossa alimentação em terras favoráveis para o seu crescimento.

Nós temos o direito de herdar um mundo limpo de químicos tóxicos, de lixo nuclear, e de poluição genética. Nós temos o direito de caminhar pela natureza selvagem e sentir receio quando encaramos, de repente, com um animal feroz.

Pedimos pois ao povo do tempo presente: não deixeis os restos do vosso repasto para nós os limpar; não adopteis riscos tecnológicos, por muito pequenos que sejam, que possam ter consequências catastróficas no futuro. Tal como vos pedimos para não nos sobrecarregarem com as vossas dívidas a longo prazo, nem com os vossos depauperados planos de pensões, também exigimos o nosso direito de partilhar da saúde ecológica do planeta Terra em que todos vivemos. Não o consumam todo, por favor.

Nós, pela nossa parte, comprometemo-nos a fazer o mesmo. Transmitiremos estes mesmos direitos e privilégios às gerações que viverão depois de nós; confiantes que o espírito humano viverá para sempre.

Maldita seja a geração que ignore ( e desrespeite) esta declaração.


(tradução de um texto publicado na revista Adbuster # 60 Jul/Aug 2005)

Manifesto da Economia Autêntica ( ou de custos fiáveis)



Nós, abaixo-assinados, acusamos pública e solenemente os professores da economia neoclássica, assim como os estudantes que eles ensinaram, de terem produzido uma gigantesca fraude sobre todo o mundo.

Quiseram que todos acreditassem que vocês trabalhavam numa ciência exacta e com leis certas, mas a vossa ciência é, na verdade, uma ciência social com toda a fragilidade e incerteza que isso significa. Acusámo-vos pois de quererem ser aquilo que não o são.

Vocês escondem-se atrás dos vossos gabinetes, protegidos pelo vosso jargão, enquanto ao mesmo tempo, as florestas do mundo inteiro são dizimadas, espécies de animais desaparecem, e vidas humanas são arruinadas e perdidas para sempre. Nós acusamo-vos de negligência grosseira e de gestão danosa sobre todo o património planetário.

Desde o início, vocês sempre souberam que a medida do progresso económico que utilizais, o Produto Interno Bruto, é, na sua essência, um indicador defeituoso e incompleto e, mesmo assim, começaram a utilizá-lo por todo o lado, tornando-o uma medida-padrão universal, que é utilizado, dia após dia, pelos media. Nós acusámo-vos de manter de forma irreflectida e leviana a ilusão de progresso à custa da saúde da humanidade e do planeta.

Vocês tendes provocado enormes prejuízos, mas o vosso tempo está a chegar ao fim. A revolução da economia já começou, determinada e confiante como outra qualquer. Não demorará muito para se dar o choque entre ambos os paradigmas, e soará a hora da verdade, emergindo então uma nova economia – aberta, holística e à medida do ser humano.

De universidade em universidade os velhos objectivos e ditames económicos serão derrubados. E nos meses e anos que lhes seguirão poderemos então começar a re-programar a máquina do tempo da história.

Assinar o Manifesto em

.adbusters.org/metas/eco/truecosteconomics/manifesto/index.jhtml


www.truecosteconomics.org




(tradução de um texto publicado na revista Adbuster # 60 Jul/Aug 2005)

Obras de música clássica a ouvir…antes de ficar surdo com a cacofonia citadina


=Beethoven, Ludwig van :
Sinfonia nº 9, com coro
Sinfonia nº5
Sinfonia nº7
Sinfoniaº6, «Pastoral»
Sinfonia nº3, «A Heróica»
Concerto para piano nº 5
Concerto para violino
Quarteto de cordas nº 14 op 131
Quarteto de cordas nº15 op.132
Sonata para piano nº 32 op.111




=Stravinsky, Igor:
A sagração da Primavera



=Mozart, Wolfgang Amadeus:
Requiem
A Flauta encantada
As bodas de Fígaro
Concerto para piano nº21
Concerto para clarinete
Cosi Fan Tutte
Don Giovanni



=Dvorák, Antonín:
Sinfonia nº9
Concerto para violino

=Bach, Johann Sebastian:
Paixão segundo S. Mateus
Variações Goldberg
Paixão segundo S. João
Suite para violino
Concertos Brandeburgueses


=Strauss, Richard:
Os 4 últimos lieder


=Berlioz, Hector:
Sinfonia Fantástica


=Ravel, Maurice:
Concerto para piano e orquestra em sol maior
Daphnis et Chloé
Bolero



=Debussy, Claude:
O Mar
Prelúdio a tarde de um fauno


=Mendelssohn, Félix:
Concerto para violino nº 2




=Fauré, Gabriel:

Requiem
Quarteto de cordas



=Schubert, Franz:
Sinfonia nº 9, «A Grande»
Quinteto com dois violinos D 956
Sinfonia º 8, «Inacabada»
Viagem de Inverno
Quarteto de cordas nº 14 « A morte e a donzela»



=Tchaikovski, Piotr Ilitch:

Sinfonia nº 6, Patética
Concerto para violino e orquestra
Concerto para piano nº1



=Brahms, Johannes:
Concerto para violino e orquestra
Um Requiem alemão
Sinfonia nº1
Sinfonia nº4
Sinfonia nº 3
Variações sobre um tema de Haendel



=Debussy, Claude:
Pelléas e Mélisande


=Chopin, Frédéric:
Nocturnosnº1
Concerto para piano
Concerto para piano nº 2



=Wagner, Richard:

Tristão e Isolda
Parsifal

=Verdi:

La traviata
Requiem



=Saint-Saens:
Sinfonia nº 3 com órgão



=Puccini:
Tosca


=Bizet:
Carmen



=Gustav Mahler:
O Canto da Terra
Sinfonia nº2, «Ressurreição»
Sinfonia nº 6



=Orff:
Carmina Burana




=Vivaldi:
As 4 Estações




=Bruckner:
Sinfonia nº8
Sinfonia nº7



=Schumann:
Concerto para piano


=Pergolèse:
Stabat Mater


=Desprez, Josquin:
Missa «Pange Língua»



=Puccini:
Madame Butterfly




=Janácek:

La petit Renarde rusée



=Berg:
Wozzeck


=Scarlatti:
Sonata em fá menor K 466


=Haydn:
A Criação



=Sibelius:

Sinfonia nº 6

Alguns discos de música clássica: a escutar…



=Benjamin Britten – Peter Grimes – Jon Vickers, Heather Harper, Orquestra de Covent Garden de Londres, sob a direcção de Collin Davis. Philips-Universal


=Claude Debussy – Pelléas et Mélisande – Frederica von Stade, José van Dam, Orquestra Filarmónica de Berlim, sob a direcção de Herbert von Karajan. EMI

=Alban Berg – Lulu – Teresa Stratas, Franz Mazura. Orquestra da Ópera de Paris, sob a direcção de Pierre Boulez. DG-Universal

=Wolfgang Amadeus Mozart – Idoménée – Werner Hollweg, Felicity Palmer, Orquetsra da Ópera de Zurich, sob a direcção de Nikolaus Harnoncourt. Teldec-Warner

=Johann Sebastien Bach- Suites para violoncelo – Anner Bylsma. Sony

=Johann Sebastien Bach – Variações Goldberg – Glenn Gould. Sony

=Chopin – Sonata para piano nº 2 – Prelúdio op.42 – Scherzo op 39 – Nocturno op. 55 nº 2, etc – por Ivo Pogorelich ao piano. DG-Universal

=Richard Wagner – Tristão e Isolda –Margaret Price; René Kollo, Staataskapelle de Dresden, sob a direcção de Clarlos Kleiber.DG-Universal

=Giovanni Battista Pergolesi – Stabat Mater – Sebastien Hennig, René Jacobs, Concerto vocale. Harmonia Mundi

=Hildegard Von Bingen – Ordo Virtutum – Ensemble Sequentia. Deutsche Harmonia Mundi-BMG

=Gioacchino Rossini –A Viagem a Reims – K.Ricciarelli, R. Raimondi, Orquestra de Câmara da Europa, sob a direcção de Cláudio Abbado. DG-Universal

=Jean_Baptiste Lully – Atys – Guy DE Mey, Guillemette Laurens, pelo grupo Les Arts Florissants, sob a direcção de William Christie. Harmonia Mundi

=Steve Reich – Differents Trains – Quatuor Kronos. Nonesuch-Warner


=Domenico Scarlatti – 555 sonatas para cravo – Scott Ross. Erato-Warner ( são 34 cds)

=Hector Berlioz – Sinfonia Fantástica – pela London Classical Players, sob a direcção de Roger Norrington. Virgin Classics-EMI


=Ludwig van Beethoven – Sinfonia nº 9 – sob s direcção de Leonard Bernstein. DG-Universal


=Os 3 temores, Roma 1990. Luciano Pavarotti, José Carreras, Plácido Domingo. Orquestra do Maio musicalflorentino, Orquestra da Ópera de Roma, sob a direcção de Zubin Mehta. Decca-Universal.


=Wolfgang Amadeus Mozart – integral das sonatas para piano – por Paul Badura. Astrée-Naive

=Marin Maria – Peças de viola ( de gamba) - Jordi Savall. Astrée-Naive

=António Vivaldi – As 4 estações – pelo grupo Europa Galante, sob a direcção de Fábio Biondi Opus 111-Naive

=Henryk Gorecki – Sinfonia nº 3, « Sinfonia dos Cantos de Luto» - Dawn Upshaw, pela London Sinfonietta, sob a direcção de David Zinman. Nonesuch-Warner

=Ludwig van Beethoven – As nove sinfonias –pela Orquestra de Câmara da Europa, sob a direcção de Nikolaus Harnoncourt. Teldec-Warner

=Modeste Moussorgski – Boris Godounov – Anatoli Kotcherga, Sergei Larin, Orquestra Filarmónica de Berlim, sob a direcção de Cláudio Abbado. Sony

=Domenico Zipoli – Missa San Ignacio – pelo Ensemble Elyma, sob a direcção de Gabriel Garrido – K617-Harmonia Mundi

=Ligeti – edição integral, volume 1: quartetos e duos – Quarteto Arditti. Sony

=«The Vivaldo Álbum»:trechos de óperas –pela soprano Cecília Barolli. Il Giardino Armonico. Decca-Harmonico


=A Colecção « Referências» da EMI


=A Colecção »Grandes Pianistas do Século XX» (100 cds) da Philips-Universal


=A Colecção «Entartete Musik», da Decca-Universal ( as músicas declaradas pelos nazis)

28.7.05

Abolicionismo penal


A história passada e do presente tem-se encarregado de mostrar que o direito penal não consegue resolver as questões para as quais foi criado, envolvendo-se antes numa espiral que tem contribuído não só para alimentar o círculo vicioso da violência e da delinquência social, como se transformou num puro instrumento do poder arbitrário sem qualquer outra finalidade que não seja a materialização da política conjuntural do poder instituído.
Preocupando-se exclusivamente com o autor do delito, e sua punição, o direito e o actual sistema penal ignora todas as outras pessoas, incluindo a própria vítima, que deveria merecer antes toda a atenção. Apresentando-se como pacificador e preventivo, e um meio para garantir a segurança das pessoas, a verdade é que o direito e o sistema penal modernos não poucas vezes tornaram-se num agente da própria violência e incerteza.
Aliás, um dos argumentos dos defensores do abolicionismo penal é mostrar que nas nossas sociedades já se prescinde do sistema penal tal como está actualmente configurado. Com efeito, um número cada vez maior de pessoas procuram encontrar soluções pacíficas para litígios através de mecanismos de conciliação e de carácter compensatório, sem recorrerem à máquina punitiva do sistema penal do Estado.
Por outro lado, está provado que o direito penal não alcança muitíssimas situações sociais que, de outro modo, seriam penalmente tuteladas: falamos das chamadas «cifras negras» que traduzem numa infinidade de delitos que não entram sequer no sistema penal, ficando os seus intervenientes sem qualquer tutela penal. Este facto mostra, se necessário fosse, a crescente desadequação do tradicional direito penal - especialmente na sua vertente de direito criminal, com o uso e abuso das penas privativas de liberdade - às realidades sociais dos nossos dias.
Por mais reformas que sejam introduzidas, por mais descriminalizações que sejam decididas, o que realmente está em xeque é toda a filosofia que serve de base ao direito penal e ao sistema que ele materializa, tal como o conhecemos desde o século XVIII.
Só a abolição do direito penal, e não simplesmente a simples descriminalização, permitirá às ciências criminais uma abordagem multidisciplinar do fenómeno, assim como a substituição do primado da punição sobre o delinquente pela consequente valorização e intervenção das vítimas e de todo a comunidade no sentido de garantir a justiça compensatória que o delito praticado venha a determinar e exigir.
Pouco a pouco emerge um novo paradigma de justiça social diametralmente diverso daquele que tem existido, e que teve no aparelho repressivo do Estado o seu principal esteio e na pena privativa de liberdade a sua penalidade de eleição, com todo o cortejo de perversões e contra-sensos que tem acompanhado o sistema penitenciário e as prisões em geral.
À medida que o aparelho de Estado vai declinando, depois de ter preenchido as suas funções históricas que lhe foram atribuídas ao longo da modernidade capitalista dos últimos três séculos, assiste-se também ao naufrágio dos fundamentos que originaram o sistema penal estatal, com os seus códigos, as suas perseguições policiais, as suas prisões, e todas as instituições que lhe sobrevieram para o materializar naquilo que hoje todos nós conhecemos.
Não é, por acaso, que os próprios profissionais forenses (magistrados, juízes, advogados e juristas em geral) fogem instintivamente dele, tal é o descrédito em que, já há muito tempo, o sistema jus-criminalista e o seu direito penal caiu.
O paradigma emergente da justiça penal valoriza mais a vítima que o delinquente, a justiça compensatória mais que a ideia de punição em termos de privação da liberdade, a intervenção comunitária e social em vez do sistema punitivo estatal.

A lenta agonia do direito penal e da penologia



O direito penal ou, mais exactamente, aquilo que se convencionou chamar direito criminal está em franco descrédito. O facto não é surpreendente, pois do que se trata ainda é de um vestígio residual de épocas passadas, uma disciplina indelevelmente ligada ao tempo histórico pretérito. Os criminalistas insistem, no entanto, em manter os seus ilógicos conceitos, no meio de todos os estertores a que vimos assistindo que lhe vão retirando toda e qualquer credibilidade e, apesar da sua morte anunciada, teimam em travar o passo, e impedem, por todas as formas, as mais insidiosas, o avanço dos criminólogos, e o seu enorme e continuado labor, que pretendem demonstrar os seus assertos e investigar as causas da delinquência por via da criminogenia.

Para o desenvolvimento da criminologia não faltam, por conseguinte, resistências e obstáculos, tal como se passou, de resto, com Pasteur, Freud e muitos mais cientistas e investigadores. A Pasteur foi-se ao ponto de lhe ser recusado o título de médico, não obstante as suas descobertas - contra os santuários intocáveis erigidos a favor das verdades absolutas – terem sido determinantes para a evolução da Humanidade. Contra a ciência oficial também Freud se levantou ao demonstrar que «a histeria não era uma doença exclusiva da mulher, mas que também existe nos homens», conclusão que não foi sequer tolerada pelos seus opositores, firmes e convencidos como estavam, que a histeria era, única e exclusivamente, uma enfermidade do sexo feminino.

Face aos desenvolvimentos da genética, neurobiologia, neurofisiologia, sociologia, antropologia e tantas outras disciplinas que têm materializado importantes descobertas para entender o comportamento humano, o direito penal mostra-se cada vez mais anacrónico e passadista. Na realidade, ao passo que o direito criminal é uma disciplina normativa, fria, dogmática, já a criminologia, por sua vez, se mostra como uma área de saber relativamente sistematizada, explicativa e causal. A diferença que vai entre a ficção abstracta e a dogmática da penologia até ao território objectivo e experimental da criminologia é bem nítida e esclarecedora.

O direito penal para funcionar requer certos pressupostos como, por exemplo, a livre determinação do sujeito. A criminologia, pelo contrário, procura os factos e as circunstâncias concretas, tangíveis, que constituam a conexão entre o efeito – o delito – e as causas que o gerou. A criminologia não só se interroga sobre «o que é o delito», mas investiga ainda as próprias raízes da questão «porque é que, certo facto, é um delito» . A criminologia entranha-se nas razões mais profundas de natureza biológica, psicológica e social que levaram e se reflectiram na conduta delinquente.

O direito criminal começou há muito a perder qualquer credibilidade, pois deixou de ser o depositário de qualquer verdade incontroversa, passando a exibir a sua verdadeira natureza como simples instrumento vingativo de uma classe, cujos interesses protege, através de normas rígidas e das suas consequentes perseguições. Para o seu descrédito não foi alheio também o facto de se abster em conhecer o próprio ser humano, na sua complexidade individual e social, para o colocar antes num terreno etéreo do bem e do mal, isto é, no plano da pura moral, quando não está mesmo ao serviço dos próprios interesses conjunturais do Estado e dos governos e respectivas políticas criminais.

Tanto na substância como no plano procedimental as questões penais deveriam estar entregues a cientistas das ciências humanas ( psiquiatria, psicologia, sociologia, etc, etc) e não a simples juristas que pouco entendem para além dos preceitos frios e inertes, elaborados por legisladores, para valerem com regra geral.

Já se preconizou que a chamada justiça penal fosse substituída pela «clínica penal», e que a pena desse lugar a tratamentos adequados à conduta e às circunstâncias do delinquente. No dia em que o direito penal for substituído pelas várias ciências criminais que estudam o fenómeno criminal desde várias perspectivas, nesse dia começará o crepúsculo dos códigos penais, que deixarão de ser penais para se transformarem em terapêutica para condutas antisociais, antes mesmo que se produza o delito propriamente dito. Bem ao contrário do direito penal, fundado na arbitrariedade da política penal do Estado, a criminologia tende e assume-se cada vez mais como uma ciência que conhece as causas e o desencadear de todo o processo causal que leva à delinquência.

Mais a mais, a criminologia não vê o delinquente como alguém desprezível. Vê-o antes como um indivíduo afectado por diversos factores que urge conhecer e reparar, e que justifica a sua intervenção.

A enorme quantidade de falhanços e erros da máquina jurídico-penal, que provocaram a morte e a punição de tantos inocentes, justifica em absoluto toda uma nova abordagem com recurso à multidisciplinaridade das ciências criminais. Recordemos os casos dos fuzilados em Liège, Bélgica, de 1891 a 1892; do trabalhador mexicano Emiliano Benavides, electrocutado em Huntsville em Agosto de 1942; de Hauptmann a quem acusaram do assassinato do jovem Lindbergh; dos dirigentes operários da greve de Chicago em Maio de 1886 que pagaram com as suas vidas a provocação policial que lançou uma bomba sobre a multidão; a Joseph Majczek cuja inocência ficou provada quando o acusado estava em vias de ser passado pelas armas; os casos de Tom Mconey, Sacco e Vanzetti, de Stielow, dos negros de Scottsboro; em França, os casos de Figaud; na Inglaterra, os de Robert Drake, de Violeta van der Elst, e Tomthy Evan (em 955); na Itália, o caso de Pacuale Ferrini; etc, etc. Todos eles põem de manifesto a inoperância do direito penal, que mais parece um ordenamento fossilizado, para não dizer instrumentalizado, e que está longe de se mostrar apropriado para prevenir e punir a delinquência.
Diz o axioma jurídico romano que as leis desajustadas às necessidades da comunidade são ela próprias que motivam a delinquência («leges ineptas criminum causa») e todos os precedentes, tal como os acontecimentos mais recentes, só confirmam essa grande verdade vinda do fundo dos séculos.

( texto elaborado a partir de um artigo publicado no jornal Tierra y Libertad, de Diciembre de 1978)

Anarquia e Direito

Texto de Alfredo Gaspar sobre a teoria anarquista do direito, publicado na revista Ideia nº42/43 de Novembro de 1986

(Alfredo Gaspar foi um ilustre jurista e ex-candidato a Bastonário da Ordem dos Advogados; faleceu há cerca de cinco anos atrás)


1.A questão que se põe é a de saber se a anarquia e o direito são compatíveis, e, no caso afirmativo, em que termos.
Tais valores culturais excluir-se-iam, logicamente, pela aplicação do princípio da identidade ou da não-contradição: seria impossível, ao mesmo tempo, viver sem regras (anarquia) e com regras (direito). Mas não é assim; as relações entre a ideia anarquista e a realidade normativa – que, de resto, têm vindo a ser reabilitadas nos últimos anos - permitem esboçar uma concepção libertária do direito. É o que se vai tentar mostrar nas linhas que seguem.

2. No plano das prevenções metodológicas, a única que se mostra indispensável é a que obriga a delimitar previamente os conceitos em apreço, sabido como é que o anarquismo e o direito nem sempre são objecto do mesmo tratamento – e, em particular, quando se trata de apurar a extensão de cada um deles. Como categorias sociais que são, porém, correspondem-lhes pelo menos estas características:
a) a anarquia ( ou o anarquismo) é o tipo de sociedade que assenta na relacionação livre, espontânea e solidária entre os indivíduos que a compõem, os quais se associam entre si com independência e autonomia, prescindindo do recurso á autoridade e ao poder que resultam da distinção governantes/governados
b) o direito é o sistema ou conjunto organizado de normas, ou regras de conduta, que regulam as relações humanas em sociedade (sentido objectivo), compreendendo ainda as situações jurídicas particulares, ou concretas, de cada indivíduo ( sentido subjectivo).
Não são, evidentemente, noções exaustivas, nem é pacífica a aceitação delas; contudo, e sem prejuízo do seu ulterior esclarecimento, servem como hipóteses de trabalho – mais a mais neste apontamento, que não passa de uma modesta reflexão.

3. Duas realidades, de facto, são incontroversas: a de que os indivíduos vivem em sociedade e a de que as suas condutas se ordenam com um dado sentido – no caso da anarquia, para a satisfação das necessidades e das aspirações próprias de cada indivíduo.
Ora, a coordenação de tais condutas – sem a qual as liberdade individuais se sacrificariam umas às outras – vem a ser precisamente o ojecto do direito. Logo, a anarquia não é incompatível com o direito, e nem seuqer pode dispensá-lo, para não dizer até que fica reforçada com ele: com o direito libertário, como adiante se dirá melhor.

4. Mas qual é o direito que convém á anarquia?
Faz sentido a pergunta, se se atentar nos processos de formação e de revelação do direito, ou fontes do direito, como também se lhes chama.
A primeira dessas fontes - a mais comum na actualidade – é a lei escrita, quer dizer, as disposições genéricas e imperativas emanadas dos órgãos estaduais com competência para legislar. Tais leis, todavia, a anarquia não as admite, pela mesma razão que condena a existência do estado: são manifestações de autoridade e de poder, que repugnam absolutamente ao livre e harmonioso desenvolvimento das relações individuais. É, no fundo, a vontade de uma ficção jurídica – o Estado – a sobrepôr-se à vontade de cada indivíduo; e ainda que se faça apelo á soberania do povo – outra ficção -, para o anarquismo a soberania reside sempre no indivíduo. Em conclusão: é da natureza da anarquia o repúdio da lei escrita ( no sentido de lei definida autoritariamente) como fonte do direito; e trata-se mesmo de uma inferência necessária, porque tem como premissa uma organização política que não se ajusta ao antiestatismo que identifica a anarquia.

5. Os únicos princípios normativos que se impõem aos anarquistas sem o concurso da vontade destes são os que decorrem, por assim dizer, da ordem natural das coisas. Neste sentido, parece legítimo falar do direito natural, ou da lei natural, como fonte do direito libertário. Regras como a da legítima defesa ou a de que os contratos devem ser cumpridos, só é possível justificar a indiscutida validade delas pela obediência a uma ordem de necessidade: sem a observância de tais princípios, dissolver-se-iam os fundamentos da vida em sociedade.
Dir-se-á que tais regras de direito natural estão reduzidas a escrito, e que, ao menos em parte, o direito positivo não seria assim tão contestável. Simplesmente, a essência delas está na própria natureza das coisas, e não na circunstância de o legislador as ter transformado em direito positivo, o que significa que valeriam sempre, como valem ainda que não fossem reduzidas a escrito.

6. É certo que suscita algumas dificuldades o problema de saber quais as normas que, na anarquia, e pela natureza mesma dessas normas e da própria anarquia, a vontade individual não deve contrariar. Se se tratar, todavia, de princípios necessários – isto é, impostos pela natureza das coisas, razoáveis (quer dizer, conformes à razão) e, por fim, especificamente libertários, ou seja, inspirados na liberdade individual e animados do espírito de solidariedade anarquista -, eles afirmar-se-ão naturalmente, sem ofensa da liberdade dos indivíduos, cuja existência e salvaguarda se destinam justamente a garantir.

7. Fora desses princípios – os quais, como se disse, decorrem da própria natureza da vida em sociedade -, os anarquistas só aceitam as regras de conduta em cuja elaboração tenham participado, e que sejam, assim, imputáveis à vontade deles. Apenas satisfazem aos anarquistas, portanto, aquelas das normas de que sejam eles próprios os autores materiais –e em termos de participação directa, individual, sem recursos a mandatos de representação que não sejam imperativos. Compreende-se porquê: autorizar um indivíduo que outro indivíduo tome decisões e seu lugar ( a chamada delegação) é uma acto ou figura que se compatibiliza mal com o espírito da anarquia, para a qual a vontade e a liberdade individuais são inalienáveis. Ou, se se quiser, e por outras palavras: o único direito que pode ser cumprido na anarquia é aquele que é fixado pelos próprios indivíduos – quando muito, por representantes investidos em mandato imperativo ( aquele em que o mandatário se limita a transmitir a vontade do mandante, sem tomar quaisquer decisões por ele) -, relacionando-se entre si com liberdade, com autonomia e com independência.

8.Preenche esses requisitos a prática ou actividade dos anarquistas, tacitamente concertada, e que se traduz numa série de actos ou omissões repetidos e uniformes com que são reguladas certas situações e relações jurídicas - ou o chamado costume (extensivo aos usos e às praxes, porventura a eventuais ritos9, desde que a prática dele seja acompanhada da convicção da sua obrigatoriedade.
A importância do costume acha-se hoje muito diminuída, masm mesmo nos Estados de mais forte tradição legislativa (que o subordinam inteiramente à lei), ele nunca deixa de se manifestar, e muitas vezes contra a própria lei (por exemplo, a incapacidade de menores para contratar não impede a sua intervenção em muitos actos do comércio jurídico).
Na anarquia, porém, o costume é quase a fonte exclusiva do direito ( em sentido objectivo), porque resulta de um consenso generalizado – há-de corresponder, como se disse, a uma prática habitual e constante -, quer quanto à coerência da regra, quer quanto à consciência de que é obrigatória (por ser essa a motivação psicológica de cada um).

9. Chegados aqui, coloca-se o problema de discutir a eventual utilidade da codificação das normas consuetudinárias –isto é, saber se vale a pena reduzir o costume libertário a escrito, transformando-o em código. A resposta deve ser negativa, pela tendência com que as práticas costumeiras se cristalizariam – precisamente o que há de mais contrário ao espírito do direito anarquista, sempre vivo e em contínua evolução, por acção (ou omissão) dos comportamentos individuais que o vão modelando ao ritmo dos interesses e das necessidades de que se trata.
Em qualquer caso, e se se assentasse na oportunidade ou na conveniência da elaboração de um tal código, ele teria o mesmo valor que as gramáticas tem quanto às regras do discurso escrito e falado: também aqui, as transgressões às normas gramaticais não impedem a comunicação e o entendimento entre o emissor e o receptor, sendo certo que esses comportamentos desviantes é que vão sendo progressivamente consagrados pelos filólogos como novas regras gramaticais.
Na anarquia, e se houvesse um código de costumes, a solução seria a mesma.

10. Passando ao direito em sentido subjectivo, aquele que definiria, no plano das relações jurídicas (bilaterais ou multilaterais), a situação concreta de cada anarquista, o seu instrumento jurídico é, por excelência, o mútuo acordo entre os indivíduos ( ou as associações de indivíduos) que pretendem disciplinar entre si os respectivos interesses, ou seja, o contrato, como é mais conhecido.
Se as partes forem só os indivíduos, celebrar-se-ão contratos individuais; se as partes forem associações de indivíduos (uniões, federações ou confederações), celebrar-se-ão contratos colectivos – e, em qualquer doas casos, sempre com os mesmos objectivos: a prossecução de fins diversos, ou até mesmo opostos, através de um regulamentação unitária e harmónica. O contrato vem a ser, assim, o título jurídico privilegiado da relacionação dos anarquistas entre si: começarão por pôr em comum os meios que dispõem, concorrendo com os seus recursos para alcançarem um dado objectivo – e assim, celebrarão um contrato de sociedade ( ou de associação); depois, acordarão nos diversos contratos que as situações da vida exigirem(por exemplo, troca, prestação de serviços, empréstimos, doação, etc).

11. Importará ponderar, por fim, dada a sua especificidade, o tratamento jurídico dos litígios – tão ligados à condição humana que a anarquia, como se compreenderá, nunca conseguirá evitá-los por menor (ou menos retumbante) que seja a frequência deles.
Tratando-se de um ramo do direito em sentido objectivo (direito processual), será o costume libertário a definir as soluções de composição amigável ou contenciosa das situações de conflito. O processo que melhor se desenha, porém, a esse respeito – e que, aliás, já tem sido ensaiado -, é o da chamada arbitragem, que consiste em serem as partes a designarem os próprios árbitros, cuja decisão se comprometem a aceitar; em vez de magistrados ou juízes impostos, portanto, intervirão árbitros escolhidos pelas próprias partes, numa orientação que se harmonizará perfeitamente com o espírito de anarquia.


12. É altura de extrair algumas conclusões do quadro jurídico-libertário que antecede - esboçado, propositadamente, sem o primor estilístico da especulação política, nem a erudição doutrinária da investigação jurídica.
Não se tratou, pois, nem de obra de propaganda, nem de artigo de academia; a intenção foi outra: procuramos mostrar, com o rigor técnico-científico possível, estas duas coisas simples. Em primeiro lugar, que a anarquia é efectivamente, no elenco das modalidades de vida em sociedade, a única solução para o triunfo da Liberdade, e, portanto, para a realização integral das aspirações mais íntimas e mais generosas de cada indivíduo. Depois, que ela é tão completa, tão perfeita, que se mostra até apta ou idónea para chamar a si própria, sem recurso a elementos autoritários, a solução do problema delicado da elaboração e da aplicação do direito, tal como este decorre da vida em sociedade – e em termos tais que tem cabimento falar numa teoria anarquista do direito.

Alfredo Gaspar
In A Ideia nº 42/43, de Novembro de 1986

27.7.05

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Procuramos pessoas que ponham a ética por cima dos lucros, e interessadas em formas de vida alternativas à pura acumulação egoísta de capital.
Em vez de fazer dinheiro, de comprar e vender, queremos antes abrir lojas livres (free shops) e centros sociais onde se possam desenvolver livremente trabalhos sociais comunitários.
Tudo isto numa base de completo voluntarismo e apoio mútuo, de depreciação acentuada da competição ( e da sua sósia, a competitividade), desprezo pela aquisição e posse compulsiva de mercadorias e afins.
Absterem-se quem não estiver depurado da propaganda publi-mediática nem imunizado à ideologia insidiosa do produtivismo da teoria económica dominante. Ressabiados e agressivos, absterem-se também.

Transformar a sociedade passa por mudar os nossos modos de vida.

Esperamos por ti, estejas integrado ou marginalizado pelo sistema vigente.


Contacto:
PimentaNegra@hotmail.com

Vocabulário sobre estilos e movimentos musicais (alguns termos mais vulgares)

(Nota: a lista de vocábulos não é - como é lógico - exaustiva e não é difícil reconhecer lacunas e omissões, e bastantes insuficiências nas caracterizações. Carece ainda de alguns desenvolvimentos face à rápida evolução e multiplicidade dos diversos estilos e correntes de música que se praticam actualmente)

A Capella – canto sem acompanhamento musical

Acid – estilo techno e de house inventado no fim dos anos 60 que faz alusão aos efeitos do LSD. A sua particularidade são as frequências superagudas e sibilantes. Os pioneiros foram o DJ Pierre e os Hardfloor (em Jack in the box)

Acid-rock – estilo musical surgido nos anos 60 inspirado pelas drogas. O ambiente é planante e psicadélico. Os pais do movimento são os Grateful Dead e os Jefferson Airplane.

After – quando a maior parte vai dormir para casa, outros vão para outro local para continuar a dançar. A partir das 5 da manhã, a noite torna-se assim «after»

Ambient – toadas de sintetizadoras vaporosas e ambientes etéreos predominam sobre os ritmos. Escutar os albums The Orb’s Adventure’s Beyond the Ultraworld, dos The Orb.

Atmo (metal-atmo) – alguma doçura no mundo do metal, com a presença de teclados, coros femininos ou samplers, o que permite criar todo um outro ambiente. Trata-se pois de uma música metálica mais elaborada

Babilónia – para os rastas designa o Mal, o mundo corrompido e a sociedade de consumo.

Backstage – os bastidores de uma sala de concerto

Bastard Pop –música composta com temas musicais já existentes. O género foi popularizado por Danger Mouse que misturou o Black Album de Jay-Z com o White Album dos Beatles. O seu Grey Album acabou por ter milhões de exemplares distribuídos pela Internet.

Battle – são competições entre rappers. Ver o filme 8 Mile de Eminem

Beat – é o tempo marcado pela grande batida ( o kick). Por outras palavras, é a única coisa que se ouve no exterior de uma discoteca

Before – antes de sair para dançar pode-se começar por um «before», um encontro num outro local (bar, pub). Aqui a música é mais suave para permitir a conversa

Big beat – mistura explosiva de energia do punk-rock e de música electrónica, que surge nos meados dos anos 90 por intermédio de álbuns de grupos como os Prodigy, e dos Chemical Brothers ( ouvir Exit Panet Dust)

Big up – a saudação na versão reggae

Black Metal – riffs de guitarras ultra-vidradas, bateria acelerada ao máximo, vocalizações com a garganta aberta, o estilo Black Metal expõe uma imagética satânica que é apoiado por um visual agressivo e maquilhagens cadavéricas. Grupos como os Mayhem e os Emperor são os representantes do estilo.


Bootleg – álbum pirata, gravado de um concerto com a ajuda de um simples gravador. Normalmente muito procurados pelos fãs de uma banda ou músico.

BPM – batimentos por minuto. Número de pulsações num minuto num tema de música techno. Dá a impressão de ritmo.


Breakbeat – criado na Inglaterra no fim dos anos 80 é uma versão acelerada do hip hop

Breakdance – é o estilo de dança do hip hop. Nasceu nos Estados Unidos e é composta de figuras acrobáticas encadeadas umas nas outras. Os dançarinos evoluem muito ao nível do solo e ao ritmo dos temas musicais.


Brit Pop – em meados dos anos 90 as estrela pop eram de origem inglesa: Blur, Oásis, Pulp, Supergrass. Todos eles criaram um estilo. Com um acento irónico e com líderes algo arrogantes. Música audível e fresca baseados em acordes de guitarra de estilo clássico


Cena – diz-se de um conjunto de artista e músicos de determinada área ou corrente artístico-musical. Exemplo: a cena hip-hop.

Chill-Out – Local de distensão e relaxamento ao lado da festa propriamente dita., onde se pode escutar músicas techno mais calmas. Diz-se também do estilo de música que aí se ouve. De forma mais ampla usa-se este termo para designar as músicas electrónicas planantes.


Clash
– é uma espécie de partida entre vários DJ ou sound-systems, que se desenrola em várias sessões

Club – Nome dado às discotecas e danceterias

Concept-album – Um disco cujas músicas tratam todos do mesmo tema


Corte (coupure,etc) – partes da música sem canto, ideal para os DJs porque vão poder misturá-las com excertos de outras músicas a fim de criarem novas músicas.

Cover – retoma de uma canção ou música por outro grupo, geralmente com outro ambiente musical


Dance – Tendência comercial da techno e da música electrónica, em versão dulcificada para as rádios e discotecas

Dancefloor – pista de dança

Dancehall – é o local ( ao ar livre) onde se ouve os sound-systems para fazer dançar o auditório. Por extensão, designa também o estilo reggae nas festas

Dark Metal – Menos brutal que o Black Metak, o Dark Metal distingue-se por uma faceta mais heavy e ritmos menos caóticos.


Death Metal – Guitarras (rápidas) com acordes graves, baterista que toca como se trabalhasse com um picareta eléctrica, e cantores que se parecem como zombies caracterizam o estilo agressivo do Death Metal. Ouvir, por exemplo, Butchered at Birth, dos Cannibal Corpse

Deep
– estilo da música house que apareceu em Nova Iorque nos anos 90, e que se caracteriza pela presença de toadas de teclados, piano.Os mestres do género são Ron Trent, Kenny Dixon e Larry Heard

Disco – abreviatura de discoteca. Aparece nos anos 70 um estilo que se inspira no funk e no soul, com uma batida a servir de apoio. Os Bee Gees foram os seus representantes máximos. O filme «A febre de Sábado à noite» mostra o que houve de melhor e o que de mais kitsch teve este movimento.


DJ – Coloca e ordena os discos, põe-nos a tocar, podendo ainda misturá-los a fim de produzir novos sons.

Doom Metal – representa o lado depressivo do universo metal. Muito lento, pesado e, por vezes, condimentado, com teclas, o doom transpira tristeza. Os mestres do género são os Anátema (em Eternity) e os My Dying Bride ( em The Angel and the Dark River)


Dreadlocks – é o penteado típico dos adeptos da cultura jamaicana, feito de entrançados no cabelo.

Drum’n bass – feito de baterias sincopadas, linhas de baixo envolventes e ruidosos, o drum’n bass é uma música planante. Ouvir, por exemplo, os 4hero e os Goldie


Dub – é o reggae em versão hipnótica e planante. Em torno da bateria coabitam um baixo ultra-grave, melodias de guitarras e teclados com efeitos sonoros. Exemplo: High Tone

Dubplate – disco gravado com um único exemplar e destinado para uma só sound-system


East Coast – é um estilo de rap que surgiu na costa leste dos Estados Unidos, e que se opõe ao estilo da costa oeste. O «East Coast» caracteriza-se por sonoridades mais agressivas, líricas socialmente mais comprometidas, tornando-se menos dançante e com acesso mais difícil. Representa o rap maduro. Ouvir, por exemplo, os álbuns de Wu-Tang Clan.


Easy Listening – literalmente, «escuta fácil». Mambos, músicas voluptuosas, etc. Versão moderna para música de elevador. Tom Jones é o paladino do género.

EBM – iniciais de «electronic body music». Uma mistura de sons indus e ritmos techno. Nos anos 80 desenvolveu-se nos clubes e discotecas graças ao grupo Front 242

Electro – movimento precursor da techno nos anos 70. Mexendo em caixas de som ( sintetizadores e máquinas de ritmos) os alemães Kraftwerk marcaram toda uma época.

Electrónica – modalidade de música eléctrica de carácter vanguardista, em que as melodias primam sobre a rítmica. Espécie de electrónica intelectual, cujos espécimes são Autechre e Aphex Twin (para escutar em casa)

Electro pop – a Pop com sonoridades eléctricas. Segue um formato de canção com refrão, mas em que as máquinas de som substituem o trio guitarra-baixo-bateria.

Fast Style – é o efeito rápido do toaster. Trata-se de uma técnica que data dos fins dos anos 80 e foi inventado por DJs britânicos de origem jamaicana. A referência é Dodd e o seu Sir Coxsone

Featuring (Feat) – versão moderna dos duos. Termo usado para introduzir um músico convidado a meio de um tema musical, cuja intervenção pode ter durações mais ou menos diferenciada .

Flow – define o estilo de um rapper, a sua maneira de colocar a voz sobre a música, assim com as suas entoações de voz.

Flyer – folhetos ou cartazes com design próprio que anuncia uma festa

Folk – Guitarra acústica e palavras cuidadas, por vezes comprometidas socialmente. Nos anos 60 Bob Dylan foi o seu representante mais conhecido. Hoje, Ben Harper é a figura de proa.

Free-party – festa techno que se realiza fora das discotecas e locais habituais, normalmente em locais insólitos, como fábricas, castelos, terrenos rurais, etc. É normalmente gratuita e clandestina.

Free-style – é uma espécie de improvisação rapper sobreposta à instrumentação. Nas «battles» cada rapper improvisa um free-style.

French touch – por volta de 1997 a house e a música elctrónica marcam pontos em França com grupos como os Air, Draft Punk ( cd Homework), Superman Lovers, etc

Fusion – casamento entre os ritmos groove do funk ou do rap e a potência das guitarras metal. A mistura mais conhecida foi realizada pelos Rage Against The Machine e os Infectious Groove, que são os pioneiros do estilo

Ganja – é o nome jamaicano dado à cannabis.

Gangsta – belos carros, jóias tilintantes, dinheiro fácil e mulheres provocantes, o gangsta retrata a vida dos gangs mafiosos de Los Angeles. Ouvir, por exemplo, 2Pac.

Garage – é a house na versão gospel e soul. Mais cool que a sua variante puramente rítmica, ela valoriza as vozes das divas negras da soul. Exemplos: David Morales e Paul Johnson

Garage Rock – termo ligado ao punk. Anteriormente, nos anos 60, tinha por objectivo categorizar os grupos de jovens irrequietos: era o local onde os jovens se reuniam para ensaiarem as músicas dos Stones. Hoje, tornou-se um estilo à parte. Dele fazem parte grupos com tendências minimalistas como os White Stripes.

Gimmick – pequena melodia que se fixa na memória e que se arrisca por acabar de ser entediante.

Ghetto –para o reggae, o raggamuffin ou o ska, este termo designa os bairros pobres de Kingston, a capital da Jamaica. Foi no ghetto que nasceu a música jamaicana.

Glam Rock - sinónimo de «glitter rock»(rock brilhante). Mais que um som, traduz uma atitude. Nascido na Inglaterra dos anos 70, este movimento é conhecido fundamentalmente pelo seu glamour. Os seus líderes assumem uma faceta andrógina com roupas e maquilhagem extravagantes. David Bowie popularizou o estilo, que hoje é assumidos pelos The Darkness


Goa – sob a influência da corrente new age de Goa, cidade na costa sul da Índia, este termo designa um estilo de música techno ultra-psicadélico, rítmico e planante. Pode-se dizer que é a tendência hippie da música electrónica. Procurar, por exemplo, o álbum LSD dos Hallucinogen, a discografia dos Flying Rhino, e a dos Total Eclipse

Gore – Representa o uso e abuso pelos grupos de Death Metal da imagética de filmes de terror e dos respectivos efeitos sanguinolentos. Exemplo: os Mortician e o seu Darkest Day of Horror

Grindcore – está na fronteira do mais brutal Death Metak com o mais selvagem Punk. É barulho puro e duro. É o estilo mais extremo do metal. Quando é politizado, defende os valores do Punk (isto é, anticapitalista…). Está também associado a uma imagética Gore. Ouvir, por exemplo, o 38 Counts of Batery dos Pig Destroyer

Groove – tema envolvente e caloroso

Guitar hero – guitarrista prodígio como foi o caso de Jimi Hendrix

Grunge – género efémero com um extraordinário impacte nos inícios dos anos 90. Melodias simples, textos sombrios, algo a meio caminho entre o heavy metal e o punk. O ícone do movimento foi Kurt Cobain, líder dos Nirvana. Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains são outros grupos do mesmo estilo.

Indie – rock independente. Trata-se de grupos que não são editados pelas grandes editoras e normalmente com um discurso anticomercial. Guitarras e melodias pop minimalistas. Exemplo deste género são os Pixies


Hardcore (na techno) – caracteriza a artilharia pesada da techno com agressivos kicks, velocidade alucinante (150 bpms ou mais) e pouco ou nenhuma melodia.É o estilo preferido por frequentadores de raves. Escutar as produções francesas da editora Epileptik e do grupo Micropoint.

Hardcore (no rap)– estilo de rap duro com sonoridades abrasivas e textos provocantes e violentos. A música é muito simples e resume-se frequentemente ao beat, por vezes com melodias com sons glaucos e repetitivos. Exemplos são 36 Chambers, de Wu-Tang Clan, e Suprême, dos NTM


HardCore (HXC) – tal como o metal e o punk, o HardCore é um derivado do rock’n roll original e possui as suas próprias ramificações. Distinguem-se normalmente 3 tendências:
-Oldschool – musicalmente o HXC Oldschool está próximo do Punk, o que o leva a aumentar o tempo. Ouvir, por exemplo, Off the Beaten Tracks, dos Right for Life
-NYC (também designado por «hardcore novaiorquino») – tem origem em New York, e é um estilo que mistura ritmos pesados, dançantes e tempos rápidos do Punk. Tornou-se um género à parte. Exemplo: 25 Ta Life.
-Newschool – esta nova escola incorpora no hardcore elementos do metal, como ritmos mais sacados, mais rápidos e guitarras mais intensas, até atingir uma resultado brutal. Ouvir, por exemplo, Eyesore, dos Nostromo.

Hardhouse – compromisso ideal entre o groove da house e os beats percutantes da techno, que surgiu em Chicago. Pioneiros do estilo foram DJ Rush e DJ Sneak


Hard Rock – é o pai do heavy metal e avó do actual metal. Ao ouvi-lo abanamos a cabeça e mexemos os pés. Ouvir, por exemplo, Highway to Tell, dos AC-DC, ou, então, os Motorhead.

Harshnoise – algo entre a música electrónica e o barulho. As toadas de teclados são substituída por salvas de sons distorcidos e saturados ao extremo. Estrela incontestada do género é o japonês Merzbow.

Headbanging – é a gestualidade dos metálicos: abanar a cabeça ao ritmo da música, e deixar cair os cabelos e estender o braço sempre produz os seus efeitos.

Heavy Metal – é o primeiro derivado do Hard-rock que gerou as actuais tendências do Metal. Os gritos das vozes são acompanhados de guitarras, que alternam com líricas insinuosas e riffs de aço. Ouvir, por exemplo, os Iron Maiden, em A real live, ou então em Fear of the Dark.


Hip Hop – é o nome do movimento que abrange 3 facetas: a dança como o breakdance; a música com o rap; e o visual com os graffs.

House – nasceu em Chicago nos anos 80, e mistura os grooves do funk, do jazz e da soul aos beats da techno para produzir um efeito dançante. Exemplos. Trax, Guidance, Strictly Rythm

Indus ( no metal)– é o metal estilo marcial, misturado com samplers de sonoridades tecnoides. O resultado soa a muito gelado. Ouvir, por exemplo, os álbuns do Ministry, ou o robótico Sehnsucht, dos Rammstein.

Indus – literalmente música industrial, de onde resulta o seu nome para designar os sons produzidos por objectos do quotidiano, produzidos pela indústria. Fria, repetitiva, com sonoridades metálicas. Grupos como Throbbing Gristle e Einsturzende Neubauten são as suas referências.

Jam sessions ( Boeuf, em francês) – momento ou série de momentos de improvisação entre os músicos

J-Pop – Pop japonês, cuja estrela é Hamasaki Ayumi

Jungle – resultante do reggae, este estilo compõe-se de baterias com sons cruzados com baixos. Nas partes cantadas sente-se a inspiração do ragga. Exemplos: Roni Size, 4hero, Bad Company


Label – editora de discos. Os entendidos prestam mais atenção às saídas de discos de uma label do que a um grupo particular. É que as labels especializaram-se normalmente num determinados estilo de música.

Lyrics – as letras das músicas

Live act – diz-se para um grupo que ele se produz em directo.

Lo-Fi – abreviatura de «low-fidelity» em oposição a «high-fidelity». O rock «lo-fi» é caracterizado por ser gravado com material rudimentar. Exemplos são Beck, Pavement, ou Franz Ferdinand

Mainstream (grande público) – expressão com carácter pejorativo, uma vez que é sinónimo de algo que foi realizado para agradar ao maior número de pessoas

Major – grande editora que possui várias labels. A nível mundial existem 5 majors: Universal Music, Sony Music, EMI, Warner Music, BMG

MC – é a abreviatura para «mestre de cerimónias», isto é, aquele que pega no microfone e que dá o tom ao ambiente.

Metal – herdeiro do hard-rock dos anos 70 e princípios dos 80. Presença maciça de guitarras, riffs incisivos e potente bateria.

Metal gótico – pegai na banda sonora de Drácula, acrescentai uma dose maciça de guitarras, uma pincelada de vozes meladas e uma espreitadela de melancolia, e sirvam tudo isso num ambiente glauco. Consumir com moderação. Exemplo: os Theater of Tragedy, em Velvet Darkness They fear

Mic – é o microfone

Mix – Mistura de sons saídos de vários discos. O seu oposto é o live act.

Mixtape – é um demonstração de rap autoproduzida numa cassete. Hoje o suporte mais utilizado é o cd.

Natty Dread – é um rasta que anda com dreadlocks

NeoMetal ( ou Rap Metal) – é o último rebento da família metálica. Mistura teclados, samplers, ritmos hip-hop, gritos de vozes ou de rap e guitarras omnipresentes. Exemplos: os Linkin Park, os Korn.


New Wave – Literalmente significa «nova vaga». Trata-se de um movimento dos anos 80 que, com uma música pop, incorpora sintetizadores. Depeche Mode, Duran Duran, Talk talk, The Cure são os grupos de culto deste movimento.

Noisy pop – uma música pop algo ruidosa, com distorsões sonoras e guitarras abrasivas. Exemplos: Sonic Youth, Dinosaur Jr

Pop – termo anglo-saxónico que significa «variedades» ou «música para grande público». Prima pela melodia, com refrães envolventes.

Pop-rock – designa o rock comercial, mais ligeiro e frívolo que o rock duro..

Posse ( crew) – grupo de amigos que se reúnem para rappar, fazer graffs ou dançar hip hop.


Power pop – estilo de músico tocado intensamente com guitarras, a pop torna-se power. Trata-se de uma especialidade americana. Nada Surf é um seu representante.

Progressif – estilo com solos de guitarras, teclados em longas toadas. Exemplo: Dream Theater, ou Symphony X.

Punk – é a segunda grande corrente saída do rock’n roll. Nasceu nos anos 70 com os Sex Pistols. Guitarras a fundo, bateria intensa e textos contestatários. Perdura hoje com as suas próprias ramificações. Ouvir os Never Mind the Bollocks, dos Sex Pistols; os Beat the Bastards, dos The Exploited; e D.R.I.P. dos Mass Murderers.

Raggamuffin – estilo de reggae com sonoridades electrónicas, descendente directo do roots original. Beats eléctricos, teclados e toast são as suas principais características.


Rap – é a pedra angular da cultura rap. Nasce no início dos anos 80 nos bairros pobres dos Estados Unidos. O Rap e reconhecido pelos seus beats sincopados, os seus baixos muito groovy, assim como o seu fraseado entoado. Hoje em dia, este estilo musical é geralmente cruzado com arranjos mais ou menos sofisticados que vão buscar sons ao universo da música electrónica, da pop ou do rock.

Rasta
– adepto do rastafarianismo, movimento religioso surgido na Jamaica nos anos 30, cujo nome deriva de Ras Tafari, título dado ao imperador a Etiópia, Hailé Sélassié. O rastafarianismo defende, entre outras coisas, o regressos a Africa dos descendentes dos escravos


Rave – tal como as free-parties, são festas techno que se realizam normalmente em squats, fábricas abandonadas, terrenos. Mas estas são já a pagar.

Reggae – música que nasceu na Jamaica por volta de 1968, das cinzas do rocksteady, do qual diminui a velocidade. Par feito entre o baixo e a bateria não muito agitado, com guitarra a contratempo e toast mais cool são as suas principais características. A figura emblemática é Bob Marley.


Remix – diz-se de um excerto musical retrabalhado por outro músico que não o compositor original

Resident
– diz-se de uum DJ que regularmente anima as noites num determinado local (discoteca, danceteria,etc)

Riddim
– o mesmo que ritmo jamaicano. Base do reggae, do ragga e do ska. É o esqueleto-base do tema musical baseado no par baixo-bateria.

Riff
– elementos musical e rítmico repetido várias vezes num excerto musical. Fala-se frequentemente dos riffs de guitarra.

R & B – nasceu nos anos 40 sob a forma de uma mistura de músicas negras (blues, gospels,…) e brancas (country). Esteve na origem da editora (label) Motown que lhe deu outra direcção com grupos como The Supremes e Temptations, que representam a segunda vaga R & B. Hoje em dia, o género mistura rap, funk e soul. Exemplos: Erykah, Badu, Bilal, D’Angelo.

Rock
– Resultou do blues, mas com um ritmo mais acelerado. Diferentemente do pop, o rock é uma música identitária, com uma cultura marginal e de espírito selvagem. No início dos anos 50 começou por se chamar rock’n roll, e só mais tarde se veio a fixar no rock já nos meados dos anos 60.

Rocksteady – é o antepassado do reggae, que conheceu a sua glória nos anos 60. Sucedendo ao ska, ele diminui o tempo musical, prefigurando o reggae com as suas linhas de baixo melódicas. Escutar as produções da editora Treasure Isle de Duke Reid


Roots – Literalmente significa raízes. É um termo de sublinha o enraizamento das músicas e o seu valor de autenticidade, como o blues e o reggae. Caracteriza o músico cuja produção se destina aos habitantes do ghetto

Rude boy – é a figura do mau rapaz no universo da música jamaicana. Recordemo-nos do tema Rude boy dos Wailers, grupo legendários de reggae

Sampler – é uma amostra de música retirado de um tema e que é incorporado numa outra composição musical

Scratching – o DJ coloca um disco vinil sobre o gira-discos e começa a «riscar» de frente para trás o disco, criando ritmos e efeitos sonoros. Com o tempo sofisticou-se com a ajuda dos avanços da tecnologia.

Selector (selecta) – num sound-system é aquele que escolhe os temas que vão ser tocados

Set – equivalente a um concerto de um DJ. Designa o conjunto de temas musicais escolhidos.

Set-list
– aquando de um concerto, designa a lista de temas musivais que vão ser tocados.

Side-project – grupo paralelo formado por músicos que já fazem parte de outras formações.

Singjay – palavra que resulta da junção de sing (cantar) e DJ. Designa um DJ toaster reggae que canta e rap.

Ska – origem da música jamaicana. Trata-se de um cruzamento entre o rythm’n blues americano e os ritmos folclóricos jamaicanos, de onde resulta um reggae acelerado, sobre o qual o cantor «toaste» de forma rápida. Os Skatalites, grupo formado em 1964, são considerados a figura emblemática do Ska

Skank – é a marca característica da música jamaicana, um pequeno acordo de guitarra e piano que faz sacudir a cabeça em contratempo.

Slam ( ou Stage-Diving) – passatempo favorito dos espectadores mais nervosos: subir ao palco e lançar-se sobre a multidão.

Song-writer – aquele que escreve ou compõe canções


Sound-check (balance, em francês) – as últimas afinações de som antes de um concerto


Sound-system – Tem dois sentidos. De início significava o material técnico ( as mesas de mistura, …) que era utilizado para passar a música. Mais tarde vem a designar a equipa que organiza a festa.

Space rock – é um rock planante, incarnado por grupos como os Pink Floyd

Straight-Edge – Nome de um título de Minor Threat, cujos textos exortavam a não beber álcool, a não fumar nem consumir drogas. Trata-se de um movimento muito vulgar na cena do HardCore que segue geralmente o vegeteranismo.


Synth pop – é um pop realizado por sintetizadores. Depeche Mode e Alphaville incarnaram este estilo nos anos 80

Techno – termo genérico utilizado para designar todas as músicas electrónicas, baseadas no uso de máquinas, e com uma linha sonora repetitiva


Teen pop – pop destinados aos adolescentes, interpretado por artistas como Britney Spears

Teknival – versão longa, entre dois e dez dias, de uma free-party

Teuf –termo que substitui cada vez mais a palavra «rave» para designar as noites techno

Toaster – é o efeito de «tchatcher» no micro por cima de um tema tocado no sound-system, um pouco como o free-style.

Trance – versão hipnótica da techno. Mais rápida , ela desenvolve profundas toadas de sintetizadores e de sons em espiral. Para tripar. Exemplos: Sven Vath, Cosmic Baby


Trash Meat – foi o primeiro filho rebelde do Metal. Nos anos 80, os americanos aumentaram o tempo do heavy-metal e optaram por vozes menos empertigadas. Trata-se do estilo Metal em versão mais brutal que surgiu pelas mãos dos Slayer, e do seu Reign in Blood.

Trip Hop – corrente surgida no início dos anos 90. Designam-se de trip hop os grupos de música lancinante na base de beats electrónicos emprestados ao jazz ou à pop. Toadas de teclados, melodias de piano e baixos profundos. Figuras principais são os Portishead ( ouvir Dummy) e Massive Attack ( ouvir Mezzanine)


Unplugged – versão acústica de uma canção, isto é, sem guitarra eléctrica. A cadeia de televisão MTV fez deste género um autêntico must musical. Exemplo: o MTV Unplugged de New York dos Nirvana fez dele um dos discos mais ouvidos de sempre.

VJ (video-jockey) – O VJ é para as imagens o que o DJ é para as músicas electrónicas. Mistura imagens numéricas enquanto o DJ trabalha a sua música

Vocoder –sistema de filtros para transformar um som ou a voz

Zion – no universo rasta é a terra prometida

Yaourt – quando não se conhece ou não se compreende uma canção em inglês começa-se cantar sílabas sem sentido. Diz-se então que se canta em yaourt

Warm-up – mistura de músicas para dançar, antes da chegada dos Djs

West Coast – é o estilo rap da costa oeste americana, que se desenvolveu em torno da cidade de Los Angeles. Muito influenciado pelo gangsta, o estilo West Coast tem como os seus chefes de fila nomes como Ice Cube, Dr. Dre, Snoop Dog, Warren G… e como produtores de referência 2Pac, Suge Knight e a editora Death Raw. Pelo lado das letras, este estilo é muito menos maduro que o da costa este, e inspira-se sobretudo em temas relacionados com sexo, dinheiro e violência.

24.7.05

A altiva e rebelde Antígona insurge-se contra o tirano e senhor do poder e da guerra


Antígona, história do mito e seu significado

Deve-se obedecer às ordens se elas forem injustas?
O homem tem o direito e mesmo o dever de desobedecer às ordens que se traduzirem na negação da dignidade humana.
Antígona encarna historicamente a ideia da desobediência civil, a recusa de obedecer à lei em nome de valores superiores.
Antígona encarna o direito natural de se revoltar contra o direito vigente. Representa a força da natureza contra os interesses do poder.
Alguns vêem nisso um perigo, uma ameaça de anarquia extremamente perigosa.
Antígona é a ilustração da figura subversiva. A desordem que produz é um sopro de vida.


História do mito

Creonte, rei de Tebas, proíbe Antígona de enterrar o corpo do irmão, Polinices, acusado de traição. A jovem rapariga desafia os decretos arbitrários de Creonte e dá uma sepultura ao corpo. Contra a razão do Estado, e contra a lei do soberano, ela defende a ordem natural. Nela não há qualquer vestígio de medo ou de culpabilidade.
A resignação e a submissão não é com ela. Deixa isso para a sua irmã, Ismene que exclama temerosa: « Nós somos mulheres. Como podemos nós combater os homens. O poder é sempre mais forte. É preciso ceder ou então esperar o pior.» (cfr. Antígona, de Sófocles)
Perante Creonte, Antígona comparece orgulhosa e forte, assumindo os seus actos. Condenada a ser enterrada viva, ela não teme a punição. Em contraste, o filho de Creonte, que a ama, sofre. O povo, esse, desaprova o gesto de Creonte, mas só em murmúrios, porque não tem a coragem de se indignar nem ousar erguer-se contra os decretos do soberano.
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A peça que Sófocles – Antígona - escreveu há 2.500 anos atrás exalta a coragem e a rebeldia de uma princesa que ousa enfrentar o poder encarnado num rei tirano. A peça continua ainda hoje a arrancar uma extraordinária admiração e intensas indagações da crítica literária e filosófica sobre a motivação da devotada filha de Édipo em arriscar a própria vida em nome de valores e princípios contra o poder e a razão do soberano.

Se não for libertária, toda a pedagogia é autoritária




Não há educação libertária que não seja auto-educação
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Precisamos de aprender com os outros apenas o que não nos foi possível aprender sozinhos
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A necessidade de aprender é biológica, porque faz-se sempre de dentro para fora
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O impulso pela busca do conhecimento é mais importante do que a coisa conhecida
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Ensinar o que não foi perguntado, além de inútil, é uma espécie de estupro cultural
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A necessidade de conhecimento é compulsiva, como a da liberdade e a do oxigénio
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Somos todos diferentes uns dos outros, inclusivé pelo interesse em conhececer
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As teorias educativas consistem em tirar alguma coisa antes de dar, censurar antes de oferecer modelos válidos, proibir e impôr normas antes de socializar a experiência
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A criança aprende tudo sózinha. Basta não impedi-la. Só precisamos de ensinar-lhe certos detalhes tecnológicos

As Universidades Norte-Americanos já provaram: os universitários saem das faculdades com menor QI do que quando entraram nelas.
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A pedagogia libertária baseia-se no gosto espontâneo das crianças pelo conhecimento, e na sua capacidade natural de criticar o que lhe ensinam. A pedagogia autoritária visa, pelo contrário, destruir esse potencial crítico.
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Perguntar é o acto mais espontâneo e o único realmente indispensável na formação cultural. Não se é livre quando nos preparamos para fazer perguntas em ambiente autoritário
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É possível melhorar a organização autopoética (ou autopoiética) do homem: conhecer o seu próprio potencial, a sua fonte de energia para a explorar e desenvolver (o desbloqueio energético e criativo).
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O desenvolvimento da pedagogia libertária no quotidiano é fundamental para a estruturação de uma sociedade futura mais justa e próxima dos ideais anarquistas, seja na educação dos nossos filhos, seja na nossa própria forma de se relacionar com qualquer novo conhecimento.
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«Somos aquilo que fazemos, mas principalmente, somos aquilo que fazemos para mudar o que somos» (Eduardo Galeano)

«Seja você a mudança que quer no mundo» (Ghandi )

«Faça sendo, aprenda fazendo»( Buda)

«Não é do trabalho que nasce a civilização: ela nasce do tempo livre e do jogo.» (Alexandre Koyré)

«Devemos lutar pela igualdade sempre que a diferença nos inferioriza, mas devemos lutar pela diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza.» (Boaventura de Sousa Santos)

«Ter problemas na vida é inevitável, ser derrotado por eles é opcional» (Roger Crawford)

«Saber e não Fazer... Ainda não é Saber.» (ZEN)

«Não existe experiência objectiva, toda experiência é subjectiva.»(Gregory Bateson)

«Educar significa sobretudo aprender» (Lamberto Borghi - A educação permanente)

«Quem quiser nascer, tem que destruir um mundo» (Hermann Hesse)




23.7.05

2048, numa tarde de Outono


O vento uivava com fúria. Zorg precipitou-se para a primeira entrada de metro. Tal como acontecia em cada furacão, os transeuntes fugiam da rua e iam para debaixo da terra. Eram estes os conselhos do Human Safety Office (HSO). As pessoas tinham acabado por se habituar aos caprichos da meteorologia, completamente transtornada: tornados e ciclones faziam agora parte do dia-a-dia.
Zorg tirou a máscara, indispensável ao ar livre, porque o ar do metro era puro, rigorosamente controlado. Saltou para o primeiro comboio, com pressa de voltar para o seu pequeno T1. O conforto dos transportes subterrâneos, numerosos, rápidos e bem ventilados, fazia um contraste estranho com as vagas de automóveis que invadiam as ruas, e sobretudo com os tankers de ar puro que patrulhavam permanentemente as artérias da cidade.
Alguns minutos depois, Zorg chegou a casa. Lembrou-se de repente do e-mail que rinha enviado à empresa Extract-Air, esperando que esta tivesse executado a sua encomenda conforme as instruções que ele lhes tinha dado. Zorg consultou o seu correio electrónico, do qual seleccionou uma mensagem dos pais –que o tinham incubado havia trinta e sete anos – convidando-o para a festa do seu próprio aniversário com os seus seis clones. Depois serviu-se de uma Cola com um punhado de aperitivos salgados.
Como todos os dias regozijou-se por possuir uma varanda com as suas plantas tri-combinadas cultivadas com amor, onde apreciava os cantos pré-gravados dos pássaros e o ruído da cascata artificial que lhe recordava, não sem nostalgia, a sua terna infância.
Aquele momento era muito importante para Zorg. Depois do trabalho precisava de, para se «reencontrar» -como ele próprio dizia -, de se recolher, de meditar. Porém, naquele dia, sentia-se fatigado, nervoso, oprimidos: os olhos ardiam-lhe, o nariz pingava, a garganta estava irritada como por uma lixa…
Todavia, era impossível tratar-se de uma angina, pois estava definitivamente imunizado contra todas as formas de infecções microbiais e virais, tal como a maioria dos seus contemporâneos.
Zorg sentia vertigens e náuseas. Que se passava? Decidiu verificar o seu sistema Domotic, e depois contactar a empresa Extract-Air. Uma voz metálica respondeu à sua chamada.
- Um segundo, Zorg, estamos a controlar através do scanner o ar ambiente da sua habitação…Com efeito, o senhor está desde esta manhã directamente ligado ao ambiente exterior, pois não fez o seu pagamento, nem renovou o seu contrato de assinatura e manutenção…
-Impossível!...Paguei-vos tudo ontem de manhã. Devem ter recebido o meu e-mail a estipular uma encomenda de clean-air para seis meses.
- Não recebemos nada, Zorg. Espere enquanto verificamos.
-Peço-lhe que o faça depressa! Estou a sufocar…
- De facto…recebemos o seu ciberpagamento, mas não temos qualquer vestígio do mail que nos enviou, indicando o renovamento do seu contrato.
- Impossível, estou a dizer-lhe!
-Hoje em dia, os sistemas informáticos estão infestados de vírus de todos os tipos, e as interferências electromagnéticas não param de desarranjar os processadores, mas nós telecarregar-lhe-emos imediatamente dez unidades de clean-air. Enviar-lhe-emos também a equipa biónica de intervenção Rob-Air, o «robot que liberta», como diz o nosso anúncio…
Zorg suportou o seu mal-estar pacientemente. Os minutos pareciam-lhe horas. A conversa telefónica que acabava de ter tinha-o deixado muito inquieto. Engenheiro, investigador de informática, sabia que se o homem tinha conseguido combater quase todas as formas de doenças de origem infecciosa, era vital que conseguisse também dominar as múltiplas perturbações que infestavam o ciberespaço.
Zorg recordou então a sua infância, quando podia respirar ao ar livre apesar dos picos de poluição anunciados pelas administrações da época. Hoje em dia, os problemas da poluição já não poupavam ninguém. Nas grandes cidades, tornara-se impossível viver sem uma máscara. Os jardins? Estavam reduzidos a plantas transgénicas d quarta geração instaladas em varandas fechadas que eram alegradas por chilreios de pássaros e cascatas artificiais.
Sim, não havia dúvida, o mundo tinha mudado consideravelmente…para pior! Abatido, Zorg agarro a sua cabeça com as duas mãos. As lágrimas encheram-lhe os olhos….

(transcrição do início do livro «A Terra como Herança», de Jean-Marie Pelt, Frank Steffan, editado em 2001 pela editorial inquérito)


…tenho andado a escolher mal o sítio do metro onde me sento


«Se um tipo com o aspecto do Bob Geldof é uma pessoa decente, e alguém impecavelmente vestido, como o George Bush é um canalha, então, tenho andado a escolher mal o sítio do metro em que me sento»

Ricardo Araújo Pereira (um dos elementos do colectivo«Gato Fedorento»), em entrevista para a revista Visão

22.7.05

Revolution ( John Lennon, 1968)


Você diz que quer uma revolução
Bem, você sabe
Todos queremos transformar o mundo
Você diz-me que isso é evolução
Bem, você lá sabe.
Todos queremos transformar o mundo.
Mas quando você fala de destruição
Você não sabe que não pode contar comigo
Você não sabe se tudo isso vai dar certo
Dar certo, dar certo.

Você diz que descobriu a solução real
Bem, você lá sabe
Gostaríamos todos de ver os planos
Você pede-me uma contribuição.
Você lá sabe.
Estamos fazendo o que podemos
Mas se você quer dinheiro para pessoas com
Cérebros que odeiam
Tudo que eu posso dizer é, irmão
Você tem de esperar.
Você não sabe se tudo isso vai dar certo
Vai dar certo, vai dar certo

Você diz que vai mudar a constituição
Bem, você lá sabe
Nós todos queremos mudar a tua cabeça
Você diz-me que isso é instituição
Bem, você lá sabe.
É melhor você libertar o seu cérebro em vez disso
Mas se você vai continuar carregando retratos
Do camarada Mão
Não vai conseguir nada com ninguém, de qualquer jeito
Você não sabe se tudo isso vai dar certo
Vai dar certo

You say you want a revolution

Well you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know you can count me out
Don't you know it's gonna be alright
Alright Alrigh

tYou say you got a real solution
Well you know
We'd all love to see the plan
You ask me for a contribution
Well you know
We're doing what we can
But when you want money for people
with minds that hate
All I can tell you is brother
you have to wait
Don't you know it's gonna be alright
Alright Alrigh

tYou say you'll change the constitution
Well you know
We all want to change your head
You tell me it's the institution
Well you know
You better free your mind instead
But if you go carrying pictures
of Chairman Mao
You ain't going to make it with anyone anyhow
Don't you know know it's gonna be alright
Alright Alright

A felicidade é um revólver quente(Happiness is a warm gun), John Lennon, 1968


Até que que essa garota não erra muito
Oi,oi,oi,oi,oi,oi,oi,oi
Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo
Como lagartixa na vidraça.
O tipo na multidão, com espelhos multicolores
Sobre os seus sapatos ferrados,
Descansa os olhos enquanto as mãos de ocupam
No trabalho de horas extraordinárias
Com a saponácea impressão da sua mulher
Que ele papou e doou ao Depósito Público

Preciso de justa causa porque vou rolando para baixo
Para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta
Preciso de justa causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver

A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
Os meus dedos sentem o teu gatilho
Ninguém mais pode com a gente
Pois a felicidade é um revólver quente



She's not a girl who misses much

Do do do do do do
oh, yeah
She's well acquainted with
the touch of the velvet hand
Like a lizard on a window pain
The man in the crowd with the
multicolored mirror on his hobnail boots
Lying with his eyes while his
hands are busy working overtime
A soap impression of his wife which
he ate and donated to the National Trust

I need a fix cause I'm going down
Down to the bits that I left uptown
I need a fix cause I'm going down

Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun

Happiness is a warm gun
Happiness is a warm gun mama
When I hold you in my arms
and I feel my finger on you trigger
I know nobody can do no harm
Because Happiness is a warm gun mama
Happiness is a warm gun, yes it is
Happiness is a warm, yes it is, gun
Ah, don't you know that
Happiness is a warm gun mama

18.7.05

Cronologia (incompleta) da revolução portuguesa em 1975



10/1/1975 – Acordos do Alvor entre Portugal, MPLA, FNLA e UNITA para a independência de Angola

14/1/75 – Manifestação a favor da Unicidade Sindical ( estima-se em meio milhão de manifestantes)

16/1/75 – Manifestação promovida pelo PS e que reúne todas as forças direitistas contra a unicidade sindical

21/1/75 – Governo aprova a Unicidade sindical, com apoio do PCP e oposição do PS e PPD

26/1/75 – Realização do Congresso do CDS no Palácio de Cristal, no Porto, que foi sitiado por manifestantes anti-fascistas

28/1/75 – Manobras da NATO em Lisboa. O desembarque previsto para dia 31 não chega a realizar-se.

2/2/75 – Trabalhadores rurais ocupam as terras abandonadas da Herdade do Picote, em Montemor-o-Novo

15/2/75 – Protocolo adicional à Concordata reconhece o direito dos católicos ao divórcio

21/2/75 – Apresentação do Programa Económico de Transição, elaborado por uma equipa chefiada pelo Major Melo Antunes

11/3/75 – Tentativa abortada de golpe de Estado por parte de militares afectos ao general Spínola. Este e mais 18 oficiais fogem para Espanha. O RALIS sofre um ataque aéreo onde morre o soldado Luís

Na sequência do golpe, as sedes dos partidos direitistas são assaltadas.

14/3/75 – Nacionalização da banca e seguros, seguindo-se as principais empresas dos grupos económicos nacionais.
(Intervencão do Estado nas empresas (Dec.-Lei 222-B/75 de 12 de Março; e Confirmação do encerramento da bolsa (Despacho de 16 de Agosto de 1975)

15/3/75 – A Junta de Salvação Nacional que assumira o poder em 25 de Abril de !974 é substituída por um novo órgão, Conselho da Revolução, que se torna o órgão mais importante do poder político.

23/3/75 – São publicamente reveladas informações sobre os preparativos para acções de terrorismo de direita, tendo por protagonista uma organização contra-revolucionária clandestina que dá pelo nome de ELP.
O Conselho da Revolução institucionaliza as ADUs ( Assembleias de Delegados de Unidade) que gera um verdadeiro processo de democratização da vida nos quartéis.

26/3/75 – Tomada de posse do 4º Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves

27/3/75 Costa Gomes, presidente da República, recebe ao longo da semana os embaixadores dos países da NATO

31/3/75 - Realizam-se as primeiras ocupações de terras no Alentejo. Criação do Subsídio de desemprego

7/4/75 – O MFA ( O Movimento das Forças Armadas, que protagonizou o golpe militar em 25 de Abril de 1974 que levou ao derrube do regime fascista) confirma a «via socialista»

11/4/75 – Assinatura do Pacto constitucional MFA- Partidos

15/4/75 – Aprovadas as Bases da Reforma Agrária

25/4/75 – Realização das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte: PS é o mais votado (37,9%), PPD (26,4%), PCP (12,5%), CDS (7,6%), MDP (4,1%), UDP (0,8%).

1/5/75 – Incidente nas comemorações do 1º de Maio, alegadamente por Soares não conseguir entrar na tribuna.

5/5/75 – Formação do MDLP, organização contra-revolucionária clandestina chefiada por Spínola

19/5/75 – Início do conflito no jornal «República» entre os trabalhadores e a direcção ( ligada ao PS) . Os elementos do PS retiram-se do Governo como forma de protesto, acusando o PCP. Mas no dia 30 de Maio o PS regressa ao governo.

27/5/75 – A Rádio Renascença, propriedade do Episcopado, é ocupada pelos trabalhadores e começa a emitir programação a favor do avanço da revolução.
Aprovação da Lei do Divórcio

28/5/75 – O COPCON ( organismo militar com força operacional) ocupa as sedes do MRPP e prende 400 militantes.

30/5/75 –Instituído o serviço cívico estudantil

2/6/75 – Abertura solene da Assembleia Constituinte

25/6/75 – Independência de Moçambique

29/6/75 – Fuga de 89 pides da prisão de Alcoentre

30/6/75 – Início de combates na cidade de Luanda entre MPLA, FNLA e UNITA

2/7/75 – Como protesto contra a decisão do governo de entregar a Rádio Renascença ao Episcopado, trabalhadores e organizações partidárias e cívicas manifestam o seu apoio à luta dos trabalhadores da RR, formando piquetes para evitar a entrada nas instalações de gerência.

3/7/75 –Manifestação operária em Lisboa, convocada pelos trabalhadores da Siderurgia, exigindo o julgamento dos pides, e responsabilizando o governo pela fuga dos pides além de manifestarem solidariedade aos trabalhadores da Rádio Renascença

5/7/75 – Independência de Cabo Verde

8/7/75 – MFA aprova o chamado «Documento-Guia da Aliança Povo-MFA», consagrando o Poder Popular, e que merece críticas do PS, PPD e CDS

Em S.Pedro da Cova a população ocupou as instalações da Companhia de Minas, encerradas desde 1970, transformando-as em Centro Revolucionário Mineiro, deliberando também deixar pagar as rendas de casa e entregá-las ao referido Centro.

10/7/75 – Manifestação popular de apoio ao Documento aprovado na assembleia do MFA, promovida pelo PCP, MÊS, PRP, UDP, FSP, MPD,LCI e Intersindical.
Entretanto, o PS abandona o Governo, seguido uma semana depois pelo PPD

12/7/75 – Independência de S.Tomé e Príncipe

13/7/75 –São destruídas sedes do PCP ( em Rio Maior) e da FSP (Frente Socialista Popular, um partido formado a partir da ala esquerda do PS).
Têm aqui início uma série de acções violentas contra as sedes de partidos e organizações políticas de esquerda, registadas por todo o país mas com maior intensidade no Norte e Centro. Esta onda de violência conotada com as forças contra-revolucionárias ficou conhecida por Verão Quente.

18/7/75 – Grande manifestação das comissões de moradores e de trabalhadores na cidade do Porto de apoio às decisões da Assembleia do MFA que aprovou o Poder Popular.


19/7/75 – Comício do PS na Fonte Luminosa, na Alameda ( em Lisboa), com a presença de milhares de manifestantes contra-revolucionários, onde o dirigente do PS, Mário Soares, exige a demissão do primeiro-ministro Vasco Gonçalves
No Porto elementos desconhecidos destroem as sedes de partidos progressistas (ex.: MDP), enquanto militantes do PS cercam as instalações do Rádio Clube Português

25/7/5 – Assembleia do MFA

27/7/75 – Congresso da Intersindical

31/7/75 – MPLA controla Luanda. Intensifica-se a ponte aérea que traz de regresso muitos retornados portugueses que viviam em Angola, e noutras colónias.

7/8/75 – Um grupo de destacados oficiais entrega ao Presidente da República, general Costa Gomes, o chamado «Documento dos Nove», que é apoiado pelo PS e por todas as forças políticas da Direita.

8/8/75 – Tomada de posse do 5º Governo Provisório, com militares, independentes e militantes do PCP e MDP, chefiado pelo General Vasco Gonçalves.

11/8/75 – Destruição das sedes do PCP, do MDP e da União dos Sindicatos em Braga

13/8/75 – Apresentação do «Documento do COPCON» defendendo o «poder popular de base».

14/8/75 – São afastados 24 jornalistas do Diário de Notícias

18/8/75 – Vasco Gonçalves discursa em Almada

20/8/75 – Grande manifestação de apoio ao documento do COPCON

25/8/75 – Criação da Frente Unida Revolucionária ( que reúne várias organizações revolucionárias: FSP, LCI, LUAR, MÊS, PRP)

27/8/75 – Encerramento das instalações da 5ª Divisão, ordenada pelo COPCON e executada por unidades dos Comandos dirigidas pelo oficial contra-revolucionário Jaime Neves.
Manifestação de rua organizada pela FUR contra o capitalismo e a social-democracia.

29/8/75 – Costa Gomes, Presidente da República, demite Vasco Gonçalves, e nomeia-o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas que, no entanto, não assumirá por efeito da pressão exercida pelo chamado grupo dos nove»

5/9/75 – Curiosa Assembleia do MFA em Tancos onde os Chefes de Estado-Maior concentravam já em si próprios todos os votos que decide modificar a composição do Conselho da Revolução de forma a permitir a sua hegemonia por parte dos militares ligados ao «grupo dos nove»

10/9/75 – São desviadas 1000 espingardas automáticas G3 do quartel de Beirolas

10/9/75 – Criação de estruturas militares revolucionárias e manifestação dos SUV (soldados unidos vencerão) no Porto de apoio ao poder popular

12/9/75 Comício da FUR no Campo Pequeno a favor do Poder Popular
No Porto, a polícia a mando do Governador civil Socialista impede e dissolve a reunião do Conselho Municipal do Porto (que reúne as Comissões de Moradores, o SAAL, várias Comissões Sindicais, Cooperativas e Organizações Populares da cidade) .
O brigadeiro Eurico Corvacho é substituído à frente da Região Militar do Norte pelo coronel Pires Veloso, uma figura grada aos meios reaccionários.

17/9/75 – Grande Manifestação em Beja de apoio à Reforma Agrária, convocada pelo Sindicato dos trabalhadores Agrícolas e pela Liga dos Pequenos Agricultores, e apoiada pelo PCP

19/9/75 – Tomada de posse do 6º Governo Provisório, sob a chefia do Almirante Pinheiro de Azevedo, e composto por militares, independentes, elementos do PS, PPD e PCP, cujo programa político recebe o apoio da Confederação patronal.

20, 21 e 22/9/75 – Agudização da luta política nas ruas. Manifestação dos Deficientes das Forças Armadas. Prosseguem as nacionalizações.

25/9/75 – Nova manifestação dos SUV em Lisboa. Com o objectivo de retirar poderes ao COPCON, o 6º Governo Provisório cria o AMI (Agrupamento Militar de Intervenção)

27/9/75 Embaixada e Consulados espanhóis no Porto e Lisboa invadidos e destruídos por manifestantes que protestavam pela execução de 5 oposicionistas espanhóis pelo Estado fascista de Franco.


29/10/75 – Realização de uma manifestação no Porto convocada pela Comissão de luta dos quartéis CICAP/RASP com apoio dos SUV. Outra manifestação promovida pelo SU foi realizada no Entroncamento

2/10/75 Grande Manifestação em Beja convocada pelos Secretariados das Intercomissões de Trabalhadores e Moradores e pelos soldados da Base Aérea de Beja, a que aderiram os soldados do Regimento de Artilharia de Beja

1/10/75 – Pires Veloso, comandante da Região Militar do Norte ordena a desarticulação do CICAP, quartel situado no centro do Porto, e afecto às forças revolucionárias. Face à recusa por parte dos militares, Pires Veloso recorre ao Regimento de Comandos da Amadora para expulsar os militares revolucionários.

7/10/75 – Militares do CICAP, e de outras unidades,ocupam o RASP (Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em V.N.de Gaia)

8/10/75 - Ataque de elementos contra-revolucionários aos trabalhadores que apoiavam os soldados do RASP (Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia) contra as medida do coronel Pires Veloso.

9/10/75 _ Manifestação dos SUV ( calcula-se em 4.000 soldados) em Coimbra, com a presença de muitos apoiantes, e de muitas comissões de trabalhadores e de moradores

14/10/75 Fim da sublevação dos militares do RASP por intervenção persuasiva do Chefe de Estado-Maior do Exército, General Carlos Fabião.

15/10/75 – O 6º Governo manda selar as instalações da Rádio Renascença, ocupadas desde Maio pelos Trabalhadores, mas a ocupação mantém-se.


7/11/75 – Emissor da Rádio Renascença, na Buraca, é destruído à bomba por ordem do Governo - que para o efeito utiliza o AMI - como forma de eliminar as emissões e os programas de carácter revolucionário.

7,8 e 9/11/75 – Manobras militares a nível nacional com a participação dos 3 ramos das Forças Armadas cujo plano é a concentração de tropas no Norte, enquanto o «inimigo» é localizado no sul do país.

8/11/75 – Reunião plenária das Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de
Lisboa

9/11/ Manifestação de apoio das forças contra-revolucionárias ao 6º Governo


12/11/75 – Grande manifestação de operários à frente da Assembleia da República
Continuam a onda de atentados bombistas contra militantes revolucionários e de ataques e destruição às sedes de sindicatos e partidos revolucionários ( no dia 12 em Aveiro, poucos dias depois no Porto com a destruição da sede da União dos Sindicatos do Porto e da sede do MDP)

15/11/75 – Juramento de bandeira no RALIS (um quartel às portas de Lisboa) de soldados com o punho fechado na presença do chefe de estado-maior do exército e de representantes das comissões de trabalhadores e moradores das zonas de Marvila, Beato e Olivais

16/11/75 – Manifestação de trabalhadores da cintura industrial de Lisboa

19/11/ 75 –Governo auto-suspende-se

20/11/75 – O Conselho da Revolução decide substituir Otelo por Vasco Lourenço à frente da Região Militar de Lisboa

23/11/75 – Comício do PS e de toda a reacção direitista

25/11/75 – Golpe contra-revolucionário dirigido por Ramalho Eanes que neutraliza as unidades militares de esquerda, e prendem e matam militares revolucionários. Na acção contra-revolucionária destaca-se o Regimento de Comandos da Amadora que ataca o Regimento da Polícia Militar.
O pretexto foi a acção levada a efeito nesse dia pelos pára-quedistas que tinham ocupado o Comando da Região Aérea de Monsanto e 6 bases aéreas para protestar e pedir a demissão do Chefe do Estado Maior da Força Aérea que acabara de mandar passar à disponibilidade cerca de 1000 soldados de Tancos.
Declaração do Estado de sítio (Dec. 670-A/75 de 25 de Novembro)

27/11/75 – Otelo Saraiva de Carvalho demite-se, e o COPCON é integrado no Estado Maior General das Forças Armadas.

17/12/75 – Criação de tribunais especiais.
Criação do CLARP ( Comité para a libertação dos antifascistas e revolucionários presos)

O que é o poder popular?

(texto de Miguel Serras Pereira, publicado na revista Vida Mundial de 24 de Julho de 1975)


«…a tomada de poder aparece-nos como sendo a transformação das suas formas de exercício e distribuição de sentidos, muito mais do que a simples transferência de uns para outros detentores…»
( Miguel Serras Pereira, ver texto a seguir )



Na medida em que este poder se opõe a outras formas de organização política de uma formação política, ele não pode ser definido pelo conteúdo ( intenções, etc) ou ideologia dos órgãos de poder político. Já se vê que não há, de um modo geral, poder que se diga antipopular – poder que se não diga ao serviço do povo, e que pelo bem do povo, pela posse de uma interpretação privilegiada dos verdadeiros interesses populares, se não pretenda justificar. Não se podendo, pois, de uma decisiva, distinguir o poder popular, na sua diferença, pela orientação do poder – esse é o erro ou sofisma de uma crítica oportunista como a de Bettelheim ao capitalismo de Estado russo na sua feição pós-Estaline -, teremos de o definir pela forma de exercício, pelo seu funcionamento. Assim, para retomar a questão russa como exemplo, é absurdo ( absurdo de todos os reformismos que, como é norma, não dizem o seu nome, o que permite qualificá-los como oportunismo) dizer que o poder político, sob a direcção de Estaline, seguia uma linha proletária, sendo por isso socialista, ao passo que o mesmo poder foi preenchido com uma linha política – a do Partido Comunista da União Soviética – classista após a morte do velho ditador, mediante a transformação da composição da sua direcção. Correcto será dizer que, tanto antes como depois de Estaline, mau grado todas as importantes diferenças e alterações, o poder não era proletário nem popular, pois não era exercido nem pelo proletariado propriamente dito nem pelo conjunto das massas trabalhadoras, mas antes em seu nome por um bloco social, ele próprio diferenciado e co as suas contradições internas, sintetizado pelo Partido e pela cúpula do Estado, que entre si dividia as diversas funções sociais de direcção, monopolizando o poder de coacção e os meios de violência organizada e institucional.
Para o que aqui nos interessa, portanto, o poder popular definir-se-á pelo exercício e pelo funcionamento. Este tipo de definição é o único que não só permite conceber uma alternativa revolucionária para o Estado classista e para a superação da superação entre os produtores e os meios de produção como permite estabelecer a sua existência e julgar das suas condições materiais de possibilidade. O poder popular será assim o exercício directamente pelo povo trabalhador e pelos seus aliados, constituindo um bloco revolucionário: democracia directa, formas cooperativas e autogestionárias, visando a superação do político e do económico pela sua desparticularização radical.
Antes de retomarmos e concluirmos este breve artigo de definição do poder popular, tarefa que bom seria ver objecto de uma batalha de produção ideológica, temos, por força das circunstâncias que de certo modo o provocam, de deter-nos um instante ainda, como já na anterior semana fizemos (cf. Poder Popular: consagração e equívocos), sobre o documento-guia. Da sua rápida confrontação com o tecto de Vasco Gonçalves, da não menos rapidamente obtível constatação da ausência de referências ao exercício do poder popular sobre a direcção da economia e, indirectamente, da leitura das razões que João Martins Pereira apresentou para se demitir do seu cargo governamental, de outras coisas ainda, talvez as principais, que não se vão repetir aqui e que ainda não estão clarificadas no ambiente amalgamado das horas convulsas que vivemos a nível político, podemos concluir que, tomando à letra o documento, com ele o MFA ou se engana ou nos engana. Em qualquer caso, o que queremos dizer é que a adopção de resoluções sobre o poder popular, por razões de Estado e na subordinação à força pelo menos arracional dessas razões, priva de ser o poder de que se fala ao privá-lo da sua soberania. Um poder segundo é um poder subjugado (fisicamente apenas ou física e ideologicamente também) e/ou um poder na oposição, um contrapoder contra o poder primeiro.
Se o poder popular implica a transformação da forma estatal do poder político e a sua colectivização material (dos meios de violência, das instâncias executivas e deliberativas), então vemos que a permanência do velho aparelho de Estado e por maioria de razão o reforço que dele se pretende, a sua estabilização, como é a ideia-chave do texto de Vasco Gonçalves, não só significa e permite aferir o atraso do poder popular como contra o desenvolvimento das suas condições de conquista da soberania trabalha e age. Com efeito, para além de ser um poder constituído ou herdado (como é o caso) em virtude de uma expropriação generalizada ( é o poder que as massas não têm), o Estado é um poderoso agente de segregação de camadas privilegiadas que às antigas se substituem, um poderoso agente de cristalização de novos blocos dominantes, um poderoso agente da reconversão da crise agudizada da sociedade de classes. Deste poder de Estado tem o poder popular, enquanto não lograr a sua transformação total. que se ir emancipando desde o começo e radicalmente.
É certo que outras ideias-chave, que não a de Vasco Gonçalves, permitirão uma leitura (que é sempre de natureza produtiva) com consequências diversas do documento-guia. A discussão de que ele tem sido objecto demonstra bem até que ponto a sua interpretação é uma dimensão de afrontamento e luta política. Mas o texto, com a letra que é a casa do seu espírito, existe, e a menos que ela seja falsificada, levanta, para além de todas as interpretações, problemas que estas têm servido para silenciar e para obscurecer o apuramento do seu conteúdo político.

Democracia Directa e Autogestão

NO debate político entre partido, entre reformistas e revolucionários, gradualistas e golpistas, com ou sem princípios, tudo isto dependendo do ponto de onde são observados - nesse debate temos um recalcado comum, um impensado cuja existência se denega: o problema da autogestão ou da gestão colectiva e igualitária da actividade directamente produtiva ou geralmente laboral.
Deixando de parte os partidos que, de um ponto de vista direitista, como o PS, se opuseram ao documento-guia, temos que quase todos os outros se reclamam, por virtude de interpretações diversas do documento, considerado como um forte avanço para a democracia directa ,para o tal poder popular. E, todavia, não se compreende bem, não se compreende mesmo nem bem nem mal o que possa ser tal democracia directa, tal poder popular, sem a transformação das relações de poder nos locais de trabalho, trabalho forçado, locais que são núcleos hierarquizantes, dominantes e sistematizadores das relações sociais de produção. Com efeito, se o âmbito da produção, no sentido um pouco restrito de actividade económica em sentido amplo, for excluído, furtado pelo poder a esta democracia directa, a este poder conselhista de que fala e contra os discursos do parlamentarismo se justifica como eminentemente democrático – não teremos democracia directa nem democracia nenhuma. Se, porém, democracia directa tivermos, então não se vê que objectivos de contestação e governo autónomo mais prioritários aos trabalhadores se podem pôr do que aquelas condições de existência que como tais os definem, pela exploração do salariato, e que não podem deixar de ser transformados na primeira linha de uma batalha anticlassista da produção.
A luta contra a hierarquia salarial e disciplinar nas empresas, a rotatividade dos cargos directivos particulares que transitoriamente subsistirem, o ataque rápido contra a divisão do trabalho e a unicidade das funções individuais, pela redução dos técnicos enquanto tais a um papel consultivo, a extinção da diferenciação entre dirigentes, concebedores e executantes, tudo isto parece uma luta a travar, desde já, com palavras de ordem como:
Por um salário único nacional (ou regional); Pela igualdade absoluta das condições de assistência; Por uma produção de riqueza e não de lucro; pela dissolução do exército e pelas milícias populares; pela soberania dos conselhos populares locais e de trabalhadores de empresa, etc.

Contra Representação

Um propósito de democracia directa é o do fim da representação e do princípio da delegação permanente, fundamentos do poder político classista moderno, com alienação definitiva da autoridade das massas populares. Mas nem por um momento a representação parlamentar da democracia ou vanguardista do socialismo (desta os exemplos clássicos são as concepções dos PCs, da esquerda maoísta, e um exemplo recente, português, de via original, é o aludido texto de Vasco Gonçalves), se esses modos de significar a apreender a realidade social fossem exclusivos de uma classe dominante e dois ou três grupos minoritários obtidos por recrutamento policial ou clerical menor, mantendo-se a classe operária e o conjunto dos assalariados puros e alheios a tais representações. Daí o podermos falar, sacrificando ao sempre pouco ocultador jargão oficial, de revolução cultural.
Se a crise da «humanidade», como se dizia, não é, ao contrário do que pensava Trotsky e os estalinistas que o perseguiam, a crise da sua direcção revolucionária, mas se, pelo contrário, a questão da revolução reside na passagem de uma qualquer direcção particular à colectivização da direcção e à sua dessubjectivação, também, por conseguinte, então a tomada de poder aparece-nos como sendo a transformação das suas formas de exercício e distribuição de sentidos, muito mais do que a simples transferência de uns para outros detentores, ideologicamente representada esta transferência como alteração dos conteúdos ou do reino dos fins visado.

O Bloco Histórico e o Poder Popular

Parece ser útil abordar aqui a questão, sempre magna, da aliança de classes para a constituição daquilo a que Gramsci chamava «bloco histórico» e que podemos chamar, por mor de clareza, bloco revolucionário. A necessidade de constituição deste bloco surge como justificação para todos os oportunismos, reformismos, tendo-se revelado escolho insuperável dos partidos ditos revolucionários de tipo vanguardista. Estes partidos pensam, com efeito, que este bloco se construirá, deve ser construído, em torno de um enunciação de objectivos políticos conciliados, capazes de mobilizar em torno dos assalariados da indústria as demais camadas exploradas e oprimidas de uma população nacional.
Na perspectiva do poder popular, pelo contrário, a tónica será posta de outra maneira. O bloco revolucionário constitui-se no próprio exercício das assembleias e outros órgãos locais em que a solidariedade de interesses, a comunidade de poder (deliberação e execução) é um facto e em que a concertação é directamente possível e não objecto de uma interpretação expropriadora do poder central. O modo, citado recentemente na TV, pelo qual as comissões de moradores do Porto resolveram o caso da expropriação dos terrenos e casas de habitação com perfeita salvaguarda dos rendimentos dos senhorios pobres é exemplar e dispensa grandes desenvolvimentos especulativos e conceptuais. A própria integração, desde a base, dos elementos não operários ou mesmo não assalariados nas comissões de moradores, nas cooperativas locais, nos órgãos, em suma, do poder popular, é a sua integração no bloco revolucionário, determinando, melhor do que o fará qualquer programa, a correcta dinâmica que u processo revolucionário deve seguir para encontrar a sua via e se desenvolver. A prevalência, directa e de facto, que não delegada ou presumida pela existência de um partido (único, já se sabe) da classe operária e por cima dela depositário da sua verdade, dos assalariados na direcção e dinamização do processo será garantida pela existência paralela das comissões de trabalhadores de empresa e pela gestão colectiva da economia.

Um Pluralismo radical

O radical pluralismo do poder popular ressalta com evidência necessária e cremos que suficiente das definições anteriores. Também aqui este pluralismo se distingue pelo seu carácter real e resultante das próprias formas do poder popular, que superam largamente aquele pluralismo representado elos partidos de ordem distante e que mais não fazem, do que impor ao conjunto dos cidadãos uma escolha que é sempre a da mesma relação relativamente a um poder que não detêm. Os órgãos de poder popular são, num sentido, apartidários. Noutro, serão mesmo antipartidários na medida em que são órgãos supremos do poder e na medida em que os partidos a que estamos habituados é como órgãos supremos de um poder diferente e antagónica natureza que se definem. Não quer, porém, isto dizer que, noutro sentido outros partidos, outra qualidade de partidos não possa ressurgir no interior do poder popular: correntes de opinião organizadas, grupos de animação e proposta, alternativas para as questões que se deparam para deliberação e resposta das comissões e conselhos. Alguns destes grupos serão mesmo mais avançados do que outros e poderão ser ditos de vanguarda. A diferença essencial está em que o poder lhes não pertence e em que eles não representam de modo privilegiado qualquer classe ou bloco revolucionário, menos ainda são o seu estado-maior ou órgãos de um poder exercido em seu nome mediante a liquidação do poder real daqueles cujo nome é evocado e representado. O poder colectivo e os colectivos são o poder. Outro não há que seja popular.

Miguel Serras Pereira, texto publicado na revista Vida Mundial nº 1871, de 24/7/1975

Relator da ONU denuncia novas formas de tortura


O relato especial da ONU sobre tortura, Manfred Nowak, afirmou que a incomunicabilidade prolongada, a existência de lugares secretos de detenção, e os desaparecimentos forçados podem ser considerados em si mesmos como actos de tortura.

Alojamento em Madrid


O Cats’ hostel é um albergue de Madrid com preços a 16 euros em habitação múltipla e 19 euros em quarto para duas pessoas.

Mais info:
www.catshostel.com
www.hostelworld.com
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Greve da Função Publica


Diversos sectores da Função Pública ( como na saúde, recolha de lixo, transportes e serviços, finanças e tribunais, segurança social9 realizaram no dia 15 uma greve para protestar contra asmedidas lesivas para os seus direitos tomadas pelo governo.

Documentário sobre Luiz Pacheco


«Chamo-me Luiz Pacheco. Fui escritor, escrevi em jornais. Agora sou um fantasma». É assim que Luiz Pacheco se apresenta num documentário acabado de ser produzido sobre a sua vida e obra, realizado por António José de Almeida, e que vais passar no canal 2 da RTP no próximo 22 de Julho.
Recorde-se que Luiz Pacheco, actualmente acamado num lar, foi autor de vários livros de carácter surrealizante ( exemplo: «O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor» de 1970, além de ter fundado uma editora ( Contraponto) e ter sido o responsável pela edição de figuras importantes da literatura portuguesa e estrangeira
.

Despedimentos na Coksribas


A coksribas, empresa granuladora de cortiça,situada em S.Paio de Oleiros despediu 13 dos seus 82 trabalhadores, comunicou a Comissão de Trabalhadores que acusa administração de uma gestão danosa

15.7.05

Os pobres não são culpados pela degradação do ambiente


Os pobres são muitas vezes acusados de serem os principais responsáveis pela degradação ambiental, quando a verdade é que eles só interferem no seu meio mais próximo. O impacte ecológico dos ricos, cujo estilo de vida depende do conjunto dos recursos do planeta, é muito mais importante e com efeitos catastróficos.

Inverno após Inverno abrem as casas e os restaurantes de caridade com uma clientela cada vez maior. Os burgueses – dizia-se no inicio do século – lamentam os pobres que se arrastam pelas ruas. Hoje, graças ao progresso técnico, eles lamentam a sorte dos pobres pela TV. Tanto mais que a pobreza perdura, estende-se e até viaja: deixou de ser uma especificidade dos países pobres. Tem, no entanto, características comuns, a começar por aquela a que se refere Georg Simmel no seu trabalho pioneiro (Sociologia, 1908): a pobreza não pode ser definida de forma substantiva, dado tratar-se de uma construção social baseada na relação de assistência («Não é a falta de meios que torna alguém pobre. Sociologicamente falando, a pessoa pobre é o indivíduo que recebe assistência por ter falta de meios»)

A tragédia dos bens comuns

A questão da pobreza é imensa e não será abordada neste artigo senão a partir de uma particular abordagem, a das relações entre pobreza, desenvolvimento e ambiente. Não se falará pois de toda a importante literatura que se debruça sobre a pobreza e as suas relações com as desigualdades. De qualquer modo, quem queira aprofundar os seus conhecimentos sobre a matéria poderá consultar os trabalhos fundamentais de Robert Castell e de Serge Paugam. Se Castel trata a pobreza em termos de «insegurança social» e Paugam através da «desqualificação social», nenhum deles valorizou por agora a ligação entre a pobreza e o ambiente. Trata-se de uma abordagem particular, ainda muita distante dos discursos científicos sobre a pobreza. Desde a Conferência de Estocolmo de 1972, várias vozes se levantaram para fazer dos pobres os principais responsáveis pela degradação dos ecossistemas. O libelo acusatório foi formalizado pelo Banco Mundial em 1993 sob o título «environmental connexion». A demografia seria «galopante», a dos pobres ainda maior que a dos ricos; por força da sua precariedade, os pobres estariam directamente dependentes dos recursos naturais renováveis que seriam assim sobre-explorados segundo dinâmicas ditas de «tragédia dos bens comuns», título de um artigo do biologista Garett Hardin publicado em 1968. Resultaria daí uma degradação acelerada dos ecossistemas. A sobrevivência do planeta, segundo os defensores de um malthusianismo básico, reconduzir-se-ia à população manter um nível demográfico compatível com «a capacidade de carga do planeta», e estimada por eles em 500 a 600 milhões de habitantes, contra os 6 mil milhões actuais. A solução consistia, segundo G.Hardin, a bloquear as migrações internacionais, assim como à esterilização das mulheres pobres após o seu segundo filho.
Ainda que tais concepções tenham sido objecto de críticas radicais, entre outras por Hervé Le Brás, a verdade é que continuaram a ser difundidas e a legitimar o fecho à circulação e deslocamento das populações pobres sob o pretexto da defesa da natureza. A tese da «demografia galopante» e da bomba demográfica» faz pois o seu curso. Em 1995 Amartya Sen contradiz essa argumentação num texto publicado na revista Esprit. Demografia e ambiente encontravam correlacionados numa curva em U: fracas densidades de população, com baixo nível de capital, traduziam-se pela degradação ambiental. Uma vez atingido certo nível de degradação, e sob a condição da população não ter emigrado nem desaparecido, a curva invertia-se e todo o crescimento da população traduzia-se num ordenamento do ambiente.
O que se passa hoje? O Relatório Bruntland que define oficialmente o desenvolvimento sustentável sublinha claramente que um mundo desigual não pode ser sustentável. Todavia, o número dos mais pobres aumentou e a sua miséria não pára de se acentuar desde os anos 60. Para o Banco Mundial a pobreza define-se por um rendimento diário igual ou inferior a 1 dólar: assim definida, a pobreza atingiria cerca de 1,3 mil milhões de indivíduos. Por seu lado, o PNUD ( Programa das nações Unidas para o desenvolvimento) recordava em 1999 que os 20% mais ricos possuíam 86% da riqueza mundial, e constituíam 93% dos utilizadores da Internet contra 0,2% para os 20% mais pobres. No decurso dos últimos 35 anos o fosso dos rendimentos entre os cinco países mais ricos e os cinco países mais pobres mais que duplicou.
Para melhor se entender a reflexão sobre o desenvolvimento, a pobreza e o ambiente, impõe-se um regresso à história do pensamento nas ciência sociais.

As Ciências Sociais e a pobreza

Gunnar Myrdal, analista da pobreza na índia, elaborou em 1968 uma teoria dos «círculos viciosos da pobreza» numa célebre obra, Asian Drama. Uma fraca dotação de recursos, um fraco nível de formação e de capital disponível geram pobreza que, por sua vez, se traduz numa fraca capacidade de poupança que levaria a um fraco nível de investimento e falta de formação. A pobreza aparece aqui como uma consequência mecânica de uma má distribuição de cartas. A solução estaria em transformar os círculos viciosos em círculos virtuosos, por injecção de capital e através da formação. O economista John Kenneth Galbraith, impressionado também pela Índia onde fora embaixador, ensaia uma «teoria da pobreza em massa». Próximo de G. Myrdal no diagnóstico das causas da pobreza, afasta-se dele, no entanto, com uma original análise das causas da sua persistência. Para ele existiria uma cultura de «acomodação» à pobreza, como se os pobres não encarassem qualquer possibilidade de escapar à sua condição. Reforçada pelas normas sociais, esta acomodação está na base da existência do que se chama um «um equilíbrio de pobreza». A saída da pobreza não é possível só pelo crescimento económico; ela implica atacar a cultura da acomodação, pela formação e favorecimento da evolução das normas sociais.
Os trabalhos do economista J.K.Galbraith, ligam-se aos do sociólogo Arthur Lewis, inventor da «cultura da pobreza». S. Paugam resumiu magistralmente este conceito: «A cultura da pobreza é toda uma adaptação e uma reacção dos pobres à sua posição marginal numa sociedade de classes estratificada, altamente individualizada e capitalista. Ela representa uma esforço para fazer face aos sentimentos de desespero que nascem quando os pobres compreendem até que ponto é improvável que consigam ter sucesso tal como se entende segundo os valores e os objectivos da sociedade no seio da qual eles vivem.» E acrescenta: «(…) A cultura da pobreza não é só uma adaptação a um conjunto de condições objectivas da sociedade no seu conjunto. Uma vez existente, ela tem tendência a perpetuar-se de geração em geração em razão do efeito que tem sobre as crianças. Quando as crianças afectadas atingem a idade dos 6 ou 7 anos elas já assimilaram em geral os valores e os hábitos da sua subcultura e não estão psicologicamente equipados para aproveitar plenamente a evolução ou os progressos susceptíveis de se produzirem ao longo a sua vida.»
Depois de A. Lewis, Pierre Bourdieu publicou a sua conhecida obra «La Misère du Monde», uma recolha de entrevistas que constitui um verdadeiro diagnóstico, ainda actual, sobre a matéria incluindo o papel do Estado, das elites, dos media, das ideologias, tudo isso analisado com grande minúcia tal como os factos económicos e sociais que constituem o seu contexto.

Pobreza, economia, ambiente

Partha Dasgupta e A. Sem vão operar uma ruptura profunda na maneira de conceber a pobreza e as sua origem. Ambos definem a pobreza como uma privação de direitos. P.Dasgupta fala de destituição, da colocação de alguém em estado de não poder decidir. O progresso no entendimento da pobreza e as modalidades para a sua redução resultaram, para muitos, dos contributos de A.Sen, prémio Nobel da economia e do PNUD que retomaram conceitos como capacity, que é mal traduzida pelo termo capacidade. Trata-se das potencialidades realizáveis de um indivíduo, que se reduzem a pouca coisa em situação de pobreza. Para A. Sem como para o PNUD a pobreza é desde logo a tradução de uma ausência de direitos ou ainda de insegurança, ou mais precisamente, de inseguranças. Insegurança económica num contexto de globalização e de ajustamento estruturais que reduzem as despesas na saúde e educação e condenam um grande número de assalariados ao desemprego, tal como a crise asiática e argentina se encarregaram de mostrar. A globalização gera uma instabilidade local no sistema que os pobres são as primeiras vítimas. A competição mundial leva os Estado a reduzir a segurança do emprego e aumentar a flexibilidade. Insegurança no acesso aos bens públicos como a saúde, educação, justiça, administração agrava ainda mais a pobreza. Os pobres são susceptíveis de beneficiar das acções públicas e privadas de natureza caritativa, mas continuam a ter um acesso incerto aos serviços de base que andam normalmente associados à cidadania. Nos países que beneficiaram de ajustamentos estruturais, a «verdade dos preços» na saúde, educação ou justiça tornou estes bens públicos de difícil ou mesmo de acesso impossível aos mais pobres. Para medira a pobreza e a riqueza sobre a mesma escala que não seja monetária, A. Sem e o PNUD criaram um indicador de desenvolvimento humano (IDH) que toma em conta o rendimento, a saúde, a educação e a esperança de vida. Um tal indicador mostra bem que a pobreza não se reduz a uma falta de dinheiro. O Kerala, um Estado indiano muito pobre, tem um IDH muito próximo do da França ( cerca de 0,8 no 11º lugar na lista, numa Índia que se situa no 132º lugar).
P.Dasgupta desenvolveu, por seu turno, a análise económica das ligações entre pobreza, economia e ambiente. Pondo a nú a inanidade dos discursos que fazem do crescimento a panaceia milagrosa para a pobreza, ele refere que, para além do capital produzido, dos saberes e competências, a «riqueza» inclui também os ecossistemas. O lugar do ambiente na análise da pobreza é aqui bem definido: « Os activos naturais localmente disponíveis são da maior importância para os pobres(…) Não há para eles nenhuma outra fonte de bens que não os seus recursos naturais locais. Pelo contrário, para os ricos ecoturistas, há sempre qualquer outra coisa, algures. A distância entre necessidade e luxo é enorme e é determinada pelo contexto.». Ao invés de muitos economistas, e de G. Hardin, P. Dasgupta coloca o acento sobre as ligações entre a natureza, os modos de apropriação e a pobreza. Ele sublinha os efeitos devastadores da destruição das formas de apropriação colectiva sobre a situação dos mais pobres e constata que esta destruição é frequentemente devida aos Estados e às organizações internacionais.
A análise de Marx sobre as consequências dos «enclosures» no norte da Inglaterra a partir do fim do século XVI têm ainda validade para os nossos dias: o fechamento de espaços, a evicção das terras, até agora comuns, produzem a miséria de sempre, o êxodo e conflitualidades.

Recursos renováveis e globalização

Os pobres estão dependentes dos recursos renováveis ao seu alcance, ao passo que os ricos estão dependentes dos recursos renováveis de todo o planeta. O impate dos pobres sobre o ambiente é directamente observável, enquanto o dos ricos é mediado pelo comércio internacional: e é significativo que cálculos recentes mostram que o impacte ecológico ( «a pegada ecológica») cresce de forma exponencial em conexão com a subida de rendimentos.
Por todo o lado observam-se conflitos sobre o acesso e uso de recursos naturais, renováveis ou não, que até podem conduzir a guerras, como nos mostra a guerra do Iraque. A observação pormenorizada deixa pensar que o peso da demografia, ainda que real, é ligeiro se compararmos com um mau governo, a ausência de definições dos regimes de apropriação e os controles de acesso. Os conflitos são-nos apresentados com várias razões: os de carácter étnico, religioso e político. Mas quem olhar mais de perto para um atlas dos conflitos no mundo pode concluir que esta tipologia se liga mais ao modo de expressão do conflito do que à sua natureza. Dois em cada três conflitos são de natureza ambiental. Os problemas relativos ao acesso e partilha das vantagens no caso dos recursos genéticos situam-se neste quadro. O continente africano é bem uma ilustração disso mesmo. Conflitos sobre os recursos arrastam êxodos, miséria, desenraizamento, sofrimentos, tumultos civis e golpes militares. Muitos dos emigrantes que atravessam o Mediterrâneo, pondo em perigo a sua vida, são já refugiados ecológicos.
A fragilização, ou seja, a destruição dos direitos de acesso e uso abate-se sobre os meios rurais. Segundo a ONU a pobreza está geralmente concentrada nas zonas rurais. «Ainda que seja difícil estabelecer uma comparação do meio rural e a pobreza do meio urbano, estima-se que cerca de 75% dos pobres do mundo vivam nos campos dos países em desenvolvimento. Num bom número de países o crescimento económico e a redução da pobreza observados recentemente dizem respeito essencialmente às cidades, aumentando ainda mais o fosso entre meio rural e meio urbano. O fenómeno da urbanização não faz senão aumentar a proporção dos pobres em meio urbano, mas prevê-se que em 2025, 60% da população mundial desfavorecida ainda viva em meio rural.»
A secularização dos direitos de acesso aos recursos constitui o elementos essencial de uma tomada de controle do presente por parte dos mais pobres. E sem dominar o seu presente, não há discussão possível sobre o longo prazo.
Podemos tentar uma definição da pobreza em ligação com a do desenvolvimento sustentável. A pobreza é a ausência do controle sobre o seu presente, isto é, a impossibilidade de decidir sobre o seu próprio futuro; em estado de miséria, as pessoas confessam «que não mais pertencem».
Isto é uma outra faceta do conjunto de inseguranças. Inseguranças económica, social, e até física.; insegurança no acesso aos bens públicos da saúde, justiça e educação. E para os rurais a insegurança dos direitos ao acesso e uso dos recursos renováveis, desde logo, a terra. Estas insegurança múltipla são a carga pesada dos mais pobres: geram ansiedade permanente que fragiliza ainda os mais frágeis, e que as teorias geralmente ignoram.

O Vínculo social e dívida mútua

Para fazer face a estas inseguranças e a esta angústia, os mais pobres tendem a criar vínculos socais, a inserirem-se em redes de solidariedade fundadas sobre dívidas mútuas. Trabalhos do Centre Léon-Walras da universidade de Lyon mostraram que as pessoas a receber o rendimento mínimo endem a assumir as despesas cujo resultado previsível é a sua inserção num grupo. Já Rabelais, em Tiers Livre ( do ano 1546) considerava a dívida como o fundamento do vínculo social. A dívida mútua, que é mais do simples reciprocidade, tem por resultado uma espécie de seguro mútuo: vou em ajuda daquele que me ajudou. Somos incapazes, a maior parte de nós, conceber um mundo sem seguros, tal é a forma como estamos protegidos, quando nos levantamos pela manhã. Às classes sociais sobrepõem-se diferentes classes de seguros.
Esta noção de dívida mútua, cara a Rabelais, merece igualmente ser tomada para qualificar as relações entre os homens a propósito do ambiente e especialmente do mundo vivo. Os seres humanos não podem estar separados do resto do mundo: nós fazemos parte integrante dele, evoluímos quotidianamente, sem darmos conta, em estreita interacção com outros organismo vivos, para a nossa alimentação, roupa, ferramentas, medicamentos. Criamos condições de vida ( ou de morte) para as outras espécies vivas, num grande jogo de interacções entre organismo como é o sistema vivo do planeta. Lutar contra a pobreza consiste em restituir aos mais pobres os elementos de controle do seu presente, para que seja de novo possível a construção de futuros. Isto implica sair da lógica dos seguros, que reproduzem o estatuto de pobre tal como define G.Simmel, para construir lógicas de cidadania .No mundo desenvolvido, Philippe Van Parijs propôs, há já duas décadas, instituir um «rendimento universal de cidadania» que substituiria todas as prestações sociais existentes e seria distribuído a todo o país, aos cidadãos sem recursos. As mais fortes críticas são de carácter moralizante argumentando que um tal rendimento seria uma incitação a não trabalhar, e não por acaso os críticos falam insidiosamente de «alocação» e não de «rendimento», a primeira ligada à assistência e a segunda traduzindo-se num direito.
Durante a primeira metade do século XIX um vivo debate teve lugar a propósito do salário de subsistência. Confrontavam-se duas posições. A primeira sustentava que os operários gastavam os seus rendimentos em álcool e o seu tempo com os filhos, aumentando a corte de miseráveis, pelo que havia que baixar ao máximo possível porque – dizia-se – a «fome era o aguilhão do trabalho». Ao que os opositores respondiam que só alimentados e pagos decentemente, e tendo a possibilidade de sustentar os seus filhos, podiam os operários ser produtivos. Este ponto de vista prevaleceu, mas os argumentos são recorrentes com actual discussão sobre o rendimento universal de cidadania. Um delegado de um grande país da OCDE apresentou como argumentou contra o apoio financeiros às colectividades locais subsaharianas a ideia que «a fome era mãe do rigor», ao que um delegado africano respondeu com um provérbio dos povos do Sahara: « Só quem conheceu a fome conhece o gosto dos alimentos».
Na espécie humana a persistência e o aumento da miséria levam-nos a perguntar em que medida os ricos têm ainda necessidade dos pobres, em que medida os percepcionamos como interdependentes.
No recente filme «Le Cauchemar de Darwin» (de Hubert Sauper) é-nos mostrado como as relações entre miséria social e modo de exploração dos ecossistemas, assim como a interdependência entre, por uma lado, os ecossistemas e os grupos sociais locais, e por outro, o mercado mundial e as guerras regionais. Uma espécie introduzida num grande lago africano destrói a diversidade dos pequenos peixes que, até então, viviam ali, e gera uma actividade industrial que não traz nenhuns benefícios à população. Os aviões que transportam o produto para a Europa, voltam cheios de armas para alimentar os conflitos.
Hoje, mais do nunca, a pobreza como a sobrexploração dos ecossistemas são filhas da riqueza, e a penúria, a doença e a violência, filhas da opulência. Ora se assim for, então as soluções são possíveis. Nos países pobres, como aconteceu em Madagáscar, a lei de Novembro de 1996 sobre «gestão local securizada» dos recursos organizou o transfert do controle dos direitos de acesso e uso para as comunidades rurais, no quadro dos contratos entre estas e o Estado, sobre uma base voluntária. Mais ou menos bem aplicada, suscitando apoios e críticas, esta lei tinha ( e tem sempre) por objectivo a secularização dos direitos da natureza para as populações locais, e um controle das suas condições ecológicas de existência. A União internacional para a conservação da natureza, que esteve na origem da «estratégia mundial para a conservação da natureza», insistia desde 1982 sobre a interdependência entre conservação e condições de vida das populações locais. A UICN esteve na origem de numerosos projectos que, na sua evolução tenderam a reconhecer a necessária restituição de direitos, cara a A.Sen. Todavia, sem ilusões, há que reconhecer que a pobreza e a miséria parecem ter hoje um futuro à sua frente, enquanto os programas que pretendem erradicá-las não surtem efeito. Enquanto a interdependência entre a opulência e a miséria não seja claramente percepcionada nos países ricos, não é possível ser optimista.



Bibliografia:

R. Castel, Les Mètamorphoses de la question sociale. Une chronique du salariat, Fayard, 1995
R. Castel, L’Insécurité sociale. Qu’est-ce qu’être protégé ?, Seuil, 2003
Serge Paugam, La Disqualification, Puf, 2000
Serge Paugam, Les Formes élementaires de la pauvreté, Puf,2005

A.Sen, «Il n’y a pas de bombe démographique», Esprit, Novembre 1995
A. Sen Inequality Reexamined, Harvard University Press, 1992

O. Lewis, Culture of poverty, Scientific American, 1966

Partha Dasgupta, An Inquiry into Well_Being and Destitution, Oxford University Press, 1993
Partha Dasgupta, Valuation and Evaluation, Measuring the quality of life and evaluating policy, University of Cambridge, 1999


(texto de Jacques Weber, economista e antropólogo, director do Instituto francês da biodiversidade, IFBI, e publicado no hors-série nº 49, Juillet-Août 2005 da revista Sciences Humaines)

Liberdade para Leonard Peltier, índio norte-americano preso há 24 anos

Um dos dirigentes da insurreição dos índios americanos de Wounded Knee em 1973, e que participou em inúmeras lutas contra o genocídio praticado contra o seu povo e contra a espoliação das terras tribais promovida pelo governo federal dos Estados Unidos, encontra-se há décadas na prisão a cumprir pena perpétua de prisão.
No início dos anos 70 o governo norte-americano fixou como objectivo desestabilizar e neutralizar o Movimento dos Índios Americanos (American Indian Movement, AIM) tal como tinha feito já com os Panteras Negras ( Black Panthers). De Fevereiro a Maio de 1973 os índios mais tradicionalistas e o AIM ocuparam o sítio de Wounded Knee localizado na reserva índia de Pine Ridge ( no Dakota do Sul) com a finalidade de protestar contra o regime de terror instaurado pelo corrupto presidente tribal Dick Wilson e pelos seus acólitos da milícia paramilitar privada que recebiam secretamente sofisticadas armas e munições do FBI. No final da ocupação, e ao contrário dos compromissos que tinha assumido com os ocuantes, o governo norte-americano procede a prisões massivas e arbitrárias tentando ceifar a liderança da AIM recorrendo a expedientes fabricados. Aumenta a tensão e as violências entram num espiral imparável. No dia 26 de Junho de 1975 um tiroteio desencadeia-se depois de dois agentes do FBI terem entrado ilegalmente numa propriedade de Pine Ridge onde se encontrava um acamapamento da AIM. Os dois agentes do FBI, juntamente com um jovem índio, acabam por morrer. Leonard Peltier, militante da AIM, é então inculpado pelas mortes dos agentes e acaba por ser condenado a duas penas perpétuas, apesar de não se ter encontrado prova nenhuma sobre a sua culpabilidade.
Há 24 anos que Leonard Peltier clama a sua inocência, e não pára de receber apoios, por todo o mundo, das mais diversas personalidades que exigem a sua libertação. Escreve um livro, «Escritos da prisão. O combate de índio», traduzido já em várias línguas, e no qual Peltier, apesar de privado de liberdade, continua o combate em nome dos povos índios norte-americanos em prol da justiça.
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As Pedagogias Novas (ou pedagogias activas)


Contrariamente aos modelos pedagógicos baseados em concepções transmissivas do saber, onde a tarefa do aluno consiste na aplicação de um saber transmitido pelo professor, as pedagogias activas (pedagogia Freinet, pedagogia institucional, e GFEN) pretendem não tanto a apropriação de saberes do outro mas antes a construção dos seus próprios conhecimentos.
Como e sob que forma a reflexão sobre as diferentes práticas e teorias em matéria de educação poderá desembocar numa diferentes orientação do grupo educativo (turma, por exemplo)?

Um pouco de história

No fim do século XIX, Jules Ferry consagrou a escola obrigatória, laica e gratuita. Em 1899 é criado em Genebra a Secção Internacional das Escolas Novas com o objectivo de estabelecer relações de apoio científico entre as diferentes escolas novas.
Já na época quer os pedagogos quer o movimento operário nascentes se revoltavam contra a acção da Igreja e do Estado ( recordemos Ferrer, Paul Robin e Sébastien Faure). Os sindicatos organizavam, por seu turno, aulas à noite, universidades populares, tertúlias…Aparece depois a 1 Grande Guerra que acabou por ser um verdadeiro balde de água fria sobre todo o movimento operário e o internacionalismo. Foi necessário esperar pelo pós-guerra para o ressurgir do movimento pedagógico da Educação Nova.


Em 1921 é criada a Liga Internacional para a Educação Nova que passa a constituir um ponto de encontro das várias secções dos diferentes países e cujo objectivo era:
-preparar e ajudar a criança a realizar na sua vida a supremacia do espírito
- respeitar a individualidade da criança
- dar livre curso aos interesses inatos da criança
-reforçar o sentimento da responsabilidade individual e social
- fazer desaparecer a competição egoísta e substitui-la pela cooperação
-praticar a coeducação dos sexos
-preparar o futuro cidadão (…) como ainda tornar o ser humano consciente da sua dignidade de homem.

Em 1929 a secção francesa adopta a designação de GFEN e passa a ter como finalidades a difusão das ideias da Educação Nova e preparar os congressos internacionais.
No seio da GFEN desenvolvem-se cooperativas escolares graças à acção de Roger Cousinet e Célestin Freinet. A GFEN participa em numerosas comissões de trabalho e interpela a Frente Popular. As suas actividades cessam durante a guerra.

Os combates políticos

Os anos 30 são anos de fortes tensões sociais devido, por um lado, ao avanço do fascismo, e por outro, às expectativas criadas com o governo da Frente Popular assim como com a Revolução Espanhola. A derrota das democracia e o início da guerra vão interromper a acção dos movimentos emancipatórios. Será preciso esperar por 1945 para ver a retomada destas iniciativas e encontrarmos aplicações concretas nascidas no seio dos comités de resistência. Mas a situação está longe de ser a ideal apesar de nunca terem deixado de surgir grupos cujo objectivo era melhorar a sociedade por via da melhoria do indivíduo, através da construção de novas relações.

A Pedagogia Freinet

Célestin Freinet (1896-1966) é um dos pioneiros. Em 1920 é professor em Bas-sur-Loup onde começa a experimentar novas técnicas para os seus alunos ( trabalho de grupos, passeios de descoberta, etc).
A verdadeira revolução aparece com a tipografia na escola. Toda a pedagogia Freinet se baseia neste suporte. O trabalho cooperativo é necessário no momento da utilização da máquina. Assim como na escolha dos textos a imprimir. A distribuição das tarefas faz-se durante as reuniões da cooperativa. A escrita dos textos é feita em atelier de escrita livre. A leitura e a escolha dos textos são feitos colectivamente. A difusão e envio dos jornais impressos exigem a criação de outros ateliers, com a consequente estruturação escolar.
Para Freinet trata-se de realizar uma pedagogia do trabalho. O seu empenho político mostra a determinação em estar com os filhos das classes populares.
Em 1948 é fundado em Dijon o Instituto cooperativo da Escola Moderna que passa a ter como objectivo divulgar as técnicas Freinet. Tais técnicas assentam fundamentalmente dos seguintes princípios:
- A expressão, a comunicação e a criação em todos os níveis, sejam eles o dos textos livres, da correspondência escolar, das conferências organizadas pelos jovens, seja no uso de técnicas radiofónicas e cinematográficas…
- A autonomia, a responsabilização e a cooperação tanto ao nível da vida do grupo educativo como na distribuição das tarefas, no emprego do tempo e nas realizações.
- Aprendizagens personalizadas através de fichas autocorrectivas, e outros documentos que o grupo possa criar para a sua biblioteca de trabalho.
- A actividade experimental em matéria científica e tecnológica. O jovem constrói os seus saberes, através do seu exercício.
- O método natural e as saídas para actividades na natureza que partem sempre das vivências dos próprios jovens a fim que estes as possam trabalhar e adquirir novos conhecimentos.

A Pedagogia Institucional

Nos anos 60 e 70, e face aos bloqueios da escola-caserna nas cidades, surge uma cisão no movimento Freinet, visto como demasiadamente apegado às escolas de bairro. Surge então a Pedagogia Institucional graças ao encontro de Fernand Oury e Aida Vasquez. A Pedagogia Institucional reclama-se da pedagogia Freinet (correspondências, jornal escolar, cooperativa, conselho) acrescentado todo um trabalho em matéria de psicologia dos pequenos grupos, recorrendo à sociologia, psicanálise e desenvolvimento da personalidade.
Os responsáveis da Pedagogia Institucional recorrem à análise da práticas e de comportamentos (as monografias) e apoiam-se numa grelha triconceptual:
- as técnicas inspiradas em Freinet
- a dinâmica de grupos e os contributos da psicologia social
- a psicanálise e os trabalhos de Lacan, Dolto, Freud, etc


Porém, a Pedagogia Institucional diferencia-se claramente da pedagogia Freinet nos vários modos organizacionais:
- a utilização de meios que permitam a passagem a níveis de conhecimento e comportamento social
- o papel dos conselhos de jovens que gerem todos os problemas da vida colectiva, incluindo os conflitos.
-o papel do professor que chama a si o direito de veto quanto às decisões do conselho
- os tempos de uso da palavra que garantem um retorno do grupo sobre si mesmo ( diálogos pela manhã ou balanços do dia)
- a institucionalização de actividades ( ou serviços) geridos pelos jovens.


Ao fim e ao cabo o institucional é uma estrutura elaborada pela colectividade, tendendo à manutenção da sua existência, e assegurando o funcionamento de trocas de natureza muita diversa.

Na própria Pedagogia Institucional sobrevêm posteriormente uma cisão entre os que ficam ligados à psicologia e à psicanálise, virados essencialmente para o ensino especializado; e aqueles que defendem uma prática autogestionária.

O GFEN na actualidade

Foi nos anos 60-70 que se assiste a uma redefinição do seu campo de acção. Partindo da experiência de um conjunto de escolas do 20º bairro (arrondissement) de Paris, e graças ao trabalho desenvolvido pelo casal Bassis, o GFEN acaba por se definir como sócio-construtivista.
O jovens constrói o seu saber em confronto com o outro. Ele desenvolve acções que lhe permite apreender o sentido daquilo que ele próprio aprende. A realização de sessões de aprendizagem é feita mediante uma fase de questionamento colectivo, e uma outra de pesquisa individual, que convergem depois em colocar em comum as respectivas experiências através da confrontação de ideias. O importante não é tanto o resultado, quanto a tentativa.

A actual GFEN resume o seu programa e o seu desafio com um lema: todos capazes, todos investigadores, e todos criadores. Quem se reclama do GFEN apoia-se numa metodologia baseada em:
- tentativas de auto-socio-construção em todos os domínios
- projectos de alunos que mobilizam os esforços e dão sentido às aprendizagens
- os conselhos de alunos que gerem a vida colectiva, e estabelecem as regras de vida.


As 3 correntes apoiam-se em instituições, no sentido dado ao termo pela Pedagogia Institucional - caderno de acções, conselho, projectos, lugar à palavra, afixação das tarefas e seu tempo, regras de vida, tomada de decisões, organização cooperativa, trabalho de grupo e individual, debates, investigação e ensaio, direito ao erro, respeito por todos – e inspiram-se em trabalhos da pedagogia, da sociologia e da psicologia. Mas não deixam de ter importantes diferenças quer no seu historial, nas suas respectivas definições ( escola activa, moderna ou nova; centro de interesses, projectos) quer nas suas prioridades.

Importante é não esquecer o contexto histórico em que se enquadram estes movimentos a fim de não se perder de vista as implicações destas pedagogias no ambiente social e político envolvente. Não é certamente por acaso que todos os grupos da Educação Nova se referem à cidadania e às implicações sociais que estão subjacentes às suas propostas. A isso também não é estranho todos os movimentos que apostam na cooperação tais como o OCCE, os CEMEA, as associações e redes de cidadãos, as universidades populares, escolas experimentais e alternativas.

Os pressupostos

A educação nova desenvolve as suas práticas com base em pressupostos, assim como em determinadas representações sobre a educação, o seu papel e o seu funcionamento.

Um pessoa em construção

A criança não chega à escola sem nada consigo. Ele já vêm impregnado por tudo o que viveu antes da escola e por tudo o que vive fora do tempo escolar, o que implica que o professor o considere como um ser em transformação, que se constrói todo os dias de maneira diferente.

As metodologias que o professor escolhe para ajudar a criança a construir-se são importantes, para que mais tarde ela possa ter confiança em si mesma, e seja capaz de investir toda a sua individualidade nas tarefas solicitadas sem receio de fracasso.
«A escola deve ser um meio protegido em que as crianças constroem relações de qualidade com as outras crianças e adultos. Quando se sentem reconhecidos, tomam consciência que se vão tornando cada vez mais adultos, e vão aprendendo, as crianças vão ganhando confiança neles próprios e logo experimentam o prazer de virem à escola»
Tudo isso implica que no grupo educativo e na escola existam adultos responsáveis que aspiram a formar «indivíduos capazes de inovar em lugar de travar o passo às novas gerações, e com espírito inventivo e criador, verdadeiros descobridores».

Princípios de base são comuns a todas as Pedagogias Novas: reconhecer cada crianças como um pessoa; dar a cada criança espaço e o reconhecimento que ela tem necessidade para se desenvolver; permitir à criança ser responsável e actor da sua vida em torno da comunidade educativa.

No grupo educativo ( na turma, por exemplo) deve haver um espírito que permita às crianças de se construir a si mesmas, através de um percurso pessoal, na medida em que cada qual evolui de modo diferentes segundo o estádio em que se encontra (conferir Piaget). A crianças deve ter a possibilidade de aprender a aprender de forma a que a construção da criança e do saber se façam ao mesmo tempo. Isto significa que o professor deve adaptar regularmente os saberes que pretende que a criança construa, permitindo que a criança se situe na sua construção e no seu desenvolvimento individual.

Todas as crianças são capazes

Trata-se antes de mais de fazer uma aposta no futuro e na capacidade das crianças. Todos sabem, desde as investigações de Bourdieu, que as desigualdades sociais constituem outros tantos factores de desigualdades escolares: as classes populares falham quando as classes favorecidas possuem os instrumentos conceptuais e culturais próprios da escola. A escola assenta numa violência simbólica e cultural sobre as crianças provenientes destas categorias sociais. Ao invés desta tendência, a Educação Nova defende uma lógica de sucesso para todos.

O que significa ter sucesso

Não significa avaliar as crianças segundo uma norma única mas levar em conta o seu trajecto e a sua evolução
. Se o critério do sucesso é o domínio da cultura burguesa, certamente que muitas crianças encontrarão à partida um handicap. Mas se o sucesso é saber posicionar-se enquanto individuo na colectividade, sabendo defender as suas ideias, com base na sua própria cultura, então está tudo por definir. Sublinhe-se ainda que a dimensão temporal, evolutiva, é importante. É preciso levar em conta a evolução da criança. Algumas delas adquirem certas noções menos rapidamente que outros, mas isso não tem grande relevância.

Os interesses das crianças

É preciso, em segundo lugar, partir das vivências das crianças, da sua cultura de origem, qualquer que ela seja ( estrangeira ou operária). Partir dos centros de interesse das crianças, valorizar os elementos que se considera interessantes
na cultura dos pais, associando estes à vida da turma (do grupo educativo) convidando-os regularmente, eis uma prática que permite a integração da criança e não a coloca em conflito com a instituição escolar. É completamente falso pensar que as crianças não tenha, nenhum interesse especial. Ora trata-se de as deixar emergir.

Uma aposta pascaliana

A aposta é sobre a capacidade de todos nós em melhorarmo-nos e disponibilizar os meios para que tal seja possível. Daí a necessidade de lançarmos sempre um olhar sobre a criança como alguém capaz.
Não o rejeitar ou o categorizar como alguém a quem não há mais nada a fazer. O uso de contratos de trabalho individuais, de projectos individuais ou colectivos, permitirão dar à criança a sensação de progressão e de sucesso. Para um será não incomodar os seus colegas; para outro, compreender a multiplicação; para um terceiro será conseguir exprimir-se melhor. Cada qual tem objectivos em função da situação em que se encontra. Claro que existem aulas colectivas para todos avançarem, mas nada de uniformizações. Além disso, actividades de remediação serão realizadas assim como se organizarão grupos de entre ajuda.

A criança constrói-se com os outros

A criança como o adulto tem necessidade do outro para existir, pois é graças à imagem que o outro me envia que eu posso construir-me a mim próprio, identificar-me como um indivíduo, e como um ser social.

Há vários modos para aprender a utilizar o outro para se construir. Na escola isso acontece no meio de grupo educativo. É vivendo com o outro que a criança compreende a necessidade de regras colectivas para reger o grupo. A criança aprende pouco a pouco, pela cooperação, a confrontar-se com o outro, depois a afirmar a sua pessoa ao mesmo tempo que aprende a trabalhar em comum para se enriquecer. O grupo permite aprender a falar, exprimir ideias, a dar opiniões, argumentar e mostrar o seu desacordo. É graças ao outro que a criança aprende a situar-se e a exercer a cidadania.

O papel do professor

O professor é o que institui a sua turma ( grupo educativo), as regras, o funcionamento geral cujas regras são definidas pelos alunos no seio das instituições: conselhos, ateliers, balanços, etc. Ele é o garante de um espaço privilegiado de encontro, de confrontação, de troca. A nível legal, ele é o responsável de tudo o que tem a ver com a segurança, a aquisição de conhecimentos definidos pelos programas. Ele não se desresponsabiliza, mas coloca o seu poder na colectividade de indivíduos. E, como indivíduo, tem uma palavra a dizer, a fazer valer. O que prescinde é de ser o dono da palavra relativamente às crianças.

As tentativas

O professor realiza tentativas para a construção do saber. Tem toda uma preparação atrás de si para poder mobilizar. Mas uma boa ficha de preparação não basta: a maneira como se comporta é fundamental. Deve criar as condições para cada um possa confrontar-se com a problemática em causa, as suas realidades e as suas contradições.
O ambiente de trabalho, a organização do espaço e dos tempos são o seu domínio, e todos sabem quanto o domínio do espaço e do tempo são um verdadeiro poder naquilo que induzem como relações sociais.

Dar sentido

O professor desempenha pois um papel no ambiente da turma. Quebrando relações de competição, instaurando relações cooperativas, fazendo emergir problemas, os não-ditos, e lançando-os para o debate, o professor coloca os seus alunos numa dinâmica de cidadania e de respeito para com os outros. As crianças não são colocadas no índex. Fazem parte integrante dos projectos da turma
. Aprendem de outra maneira, ao ver a utilidade daquilo que aprendem, e aplicando as aprendizagens na sua vida real, compreendem o sentido dos saberes adquiridos. O professor tem uma função a desempenhar ao nível da concepção do saber. Deve colocar a criança numa dinâmica de construção activa ( aprender por si, verdadeiramente, e não para agradar aos outros, ou por obrigação)
O professor avalia, com o aluno, o trabalho realizado, assim como as dificuldades encontradas. Encaram ambos as sequências a dar a partir daí. Também aqui o professor tem um importante papel ao encarregar-se de abrir as pistas desconhecidas da criança.

Transmitir valores

O professor é portador de valores e, mesmo quando ele deixa a escolha aos alunos, ele deve fazer valer o seu ponto de vista quando as discussões se virarem para soluções injustas de exclusão ou punições humilhantes. Se o professor segue práticas diferentes, é porque há outras concepções sobre o indivíduo e do seu lugar na sociedade. Ele não entende que as crianças reproduzam aquilo que ele condena. Se quiser fazer evoluir as coisas, ele procura durante as reuniões pedagógicas, de leitura, e nos grupos de opinião, elementos de reflexão e práticas que possa partilhar com os seus alunos.
Ele deve estar sempre em busca de novos elementos, ousar testá-los. Com certeza, que pouparia trabalho se refugiasse atrás de práticas com garantia de «sucesso». Toda a experimentação é desestabilizante e é ela que é portadora de ensinamentos. Ele questiona os apriorismos. Claro que é necessário tempo para que as inovações se institucionalizem e encontrem as suas regras de funcionamento. O ensino tem de aguentar-se, apesar das dificuldades e eventuais fracassos. Não se pode estar sempre a inovar.
O professor deve perturbar as crenças estabelecidas, mas nunca criar insecurizar os seus alunos.
Deve, no momento oportuno, fornecer as ferramentas que os alunos podem ou não aproveitar.

Construir saberes

Na construção do saber, o professor tem um lugar central, não porque tudo gira à sua volta, mas por causa da sua disponibilidade e apoio que pode dar.

Não se aprende o que lhes foi dito e repetido. É preciso testar, colocar questões, lançar-se numa pesquisa individual ou colectiva para que elementos novos possam ser integrados na nossa concepção do mundo.
O professor não tem solução a dar mas ajuda à problematização e fornece os instrumentos conceptuais e materiais para a sua resolução.

Aprender é inventar

Não se trata de transmitir directamente a boa resposta, mas favorecer as pesquisas, as trocas verbais e procedimentais, ajudar os alunos a colocar hipóteses, a testá-las, fazer observações, argumentar e explicar.

Ou seja, «eu procuro, logo aprendo



( texto publicado no Le Monde Libertaire de 17 de Junho de 2004)


Bernard Werber, escritor de ciência e da anarquia (A Revolução das Formigas)


Define a sua concepção de vida com base nos quatro ás :

-autodidacta, já que prefere aprender sozinho um saber que sente falta

-agnóstico, pois não tem nenhuma certeza sobre a existência de Deus, o que o leva a prosseguir a investigação

-autónomo, na medida em que não se sujeita a nenhuma doutrina ou filosofia, defendendo que cada qual deve ter a sua própria opinião a partir da sua experiência quotidiana

-anarquista, porque o homem deve ser livre e sentir-se responsável sem ter necessidade de governo, de polícia, de superstições ou de recompensas.

Bernard Werber faz parte de uma associação, Arbre des Possibles ( Árvore dos Possíveis) onde desenvolve os seus projectos de investigação e de divulgação científica. Nalgumas das suas obras de ficção encontramos um personagem, Isidore Katzenberg, que é considerado por muitos o seu duplo.

Consultar:

www.arbredespossibles.free.fr
http://www.bernardwerber.com/


Mais Info:

J'arrive à trouver une définition de ma démarche. Ce sont les 4 A. AUTODIDACTE: J'apprends tout seul, par la lecture des ouvrages de mon choix et en discutant avec des amis qui détiennent un savoir qui me manque. AGNOSTIQUE: je n'ai aucune certitude. Je pense que ce qui disent je sais qu'il y a un dieu, se trompent car il n'y a pas de preuve de son existence. Je pense que ceux qui sont athés et qui disent je sais qu'il n'y a pas de dieu se trompent aussi. Car il n'y a pas de preuve de son absence. En fait on n'en sait rien et c'est justement cette ignorance qui nous pousse à nous renseigner et à explorer. AUTONOME: je ne depend d'aucune philosophie, maitre à penser, groupe intellectuels ou dogme. Je crois que chacun doit se faire sa propre opinion a partir de son expérience personnelle qui n'est comparable à aucune autre. ANARCHISTE: l'idéal de l'homme est d'être libre, responsable de lui même. Sans qu'il ait besoin de gouvernement, de police, de superstitions, de récompenses ou punitions. Sans qu'il ait besoin qu'on lui indique ce qu'il doit faire. Mais cela demande un civisme et une éducation parfaite. Pour l'instant ce n'est pas possible. Mais il faut préparer le terrain pour qu'un jour (même si c'est dans mille ans), on y arrive

1996: Publication de "La révolution des fourmis". Je cherche une méthode pour réussir une révolution douce non violente, sans spectaculaire, pour changer les mentalités et sortir du système des castes. Internet me semble l'outil pour y parvenir. Je mets au point le concept de VMV (recherche de la voie de moindre violence) et d'Arbre des futurs. Plus le concept de "Infraworld", le jeu où les pièces sont douées du libre arbitre

Nos EUA são vendidos 16,6 milhões de carros por mês


Os carros tornaram-se um monstro de culto nos Estados Unidos da América.Por isso é que os Estados Unidos consomem tanta gasolina como o resto do mundo ( 550 mil milhões de litros de gasolina foram consumidos nos EUA em 2003), calculando-se que em cada ano que passa são consumidas mais 10 mil milhões de litros de gasolina.
A gasolina é barata: 10 cêntimos por litro (0,48 dólares o galão), nada comparável com o os 0,98 dólares de uma garrafa de água de meio litro..
Praticamente não existem carros utilitários. São todos carros imponentes que precisam de muito combustível e têm uma tonelagem absurda.
São os Chevrolets k1500 Suburban que consomem 18 litros aos 100.
São os Ford D-354, chamados King Ranch Virshon, com 425 cavalos de potência
São as pick-up Ford F-359, artilhadas …
E muitos deles são apenas para fazerem o trajecto de casa ao local de trabalho…

Biblioteca no centro social do Barredo ( Porto)

No centro social do Barredo, na Travessa do Barredp, freguesia de S. Nicolau, Porto, existe uma biblioteca pública ao serviço da comunidade, com livros para todos os gostos e computadores.
www.esbarredo.pt

Casa sacerdotal luxuosa prestes a abrir no Porto


O faustoso edifício que está em acabamentos e prestes a ser inaugurado numa zona central da cidade do Porto, na Rua D. Manuel II, em frente ao Palácio de Cristal, albergará a chamada Casa Sacerdotal do Porto.
O espaço é grandioso, de luxo e um verdadeiro exemplo de um hotel de luxo com 5 ( ou mais) estrelas pejada de suites. Pelo nome que lhe deram ( Casa Sacerdotal) conclui-se que se destina a sacerdotes reformados.

Quem veja o edifício não se contém de espanto tal é a grandiosidade do edifício, com todas as mordomias de um hotel para pessoas abastadas. Custa a acreditar que se trata de um edifício da Igreja Católica para os seus sacerdotes, mas é verdade.

Pudessem todos os reformados viver naquelas condições e não haveria a miséria e pobreza que se conhece e aflige tantos idosos.

Mas o pior é que um edifício igualzinho, com o máximo luxo e fausto, e para os mesmos fins, acabou de ser inaugurado em Braga !!!

E ainda pregam eles as virtudes da modéstia com a bíblia na mão («passa mais depressa um camelo pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino dos Céus»)

Vá-se lá fiar nos bispos e cardeais…

14.7.05

Bruno Latour: é preciso repensar a ecologia política

Entrevista a Bruno Latour

Para você tem sentido distinguir a ecologia científica e ecologia política?

Bruno Latour – Se por ecologia política se entender as associações de defesa da natureza e os partidos chamados «verdes», a resposta é evidentemente sim. Há uma enorme diferença entre os especialistas das terras amazónicas, os modelizadores californianos do clima e os amadores da pesca como as militantes da associação francesa Eaux et rivières. Agora se considerarmos que os temas estudados – terras, climas, poluição, recursos de peixes – são comuns, a diferença já não é tão necessária, uma vez que é evidente que todos debates e problemáticas carecem de todas as formas de ecologia que acabam por se ligar. No meu entender, o que é necessário é redefinir os termos «ecologia», «política» e «científico».

No seu livro «Políticas da Natureza» propõe reconsiderar a questão da ecologia política porque julga que ela tem sido mal colocada. De forma algo provocadora, você parece que defende que ela não tem propriamente como objectivo a defesa da natureza. Porquê? O que é que então ela pretende?

Bruno Latour – Não, não é uma provocação, mas uma evidência : a natureza não é um ser que se encontraria no mundo – ou antes, na qual nós, os humanos, teríamos de nos inserir. A natureza ( toda a história das ciências, das mentalidades e todas a antropologia nos mostra isso) é um modo histórico de pensarmos as nossas relações com os objectos e relações políticas entre nós. Como Philippe Descola mostra num livro que será ditado no próximo Outono, «La Nature des cultures», a maior parte das civilizações não conhecem ou não têm necessidade da noção de natureza. Esta noção só emerge no século XVII como um meio de definir a matéria, as leis do universo e um certo vazamento das actividades políticas. Tal corresponde esquematicamente ao empirismo dos filósofos como John Locke. Esta definição da natureza supõe que existiria, para além da vida política, uma espécie de tribunal de apelo para o qual se poderia apelar para arbitrar os conflitos intermináveis entre os humanos. Isso é muito perigoso pois confere-se aos factos estabelecidos pelas ciências exactas o poder de curto-circuitar a vedação necessária à vida pública. A natureza Seia um meio de curto-circuitar a política. Quando a ecologia política se começa a formar durante o século passado da natureza , ela reutiliza esta definição ( que é preciso «salvar», em vez de a «dominar») sem repensar ou sem se aperceber que ela foi feita, desde o início, para tornar mais difícil a abordagem das controvérsias que os humanos mantêm entre si a propósito das coisas que lhes dizem respeito. É este reemprego, este erro de casting se se pode dizer, que eu chamo, citando Karl Marx, a «doença infantil da ecologia». Nenhuma provocação, portanto. O que é surpreendente, pelo contrário, é ver como os partidos verdes se definem relativamente a certo tipo de objectos – os antigos seres que pertencem à natureza modernizadora: os campos, as vacas, os pássaros, etc – quando eles têm o meio mais poderoso para modificar todas as relações entre humanos e não-humanos, mas com uma outra definição das ciências ( sociais, em especial a economia, mas também as ciências «naturais») e da política. Ecologizar as práticas, como diz Isabelle Stengers, nada tem a ver com o «ocupar-se das coisas da natureza» ou o de «salvar a terra mãe». É toda uma renovação tão profunda da vida pública, tal como foi o marxismo no seu tempo.

Porque é que a ecologia política nos conduz a repensar a elação da democracia com as ciências?

Bruno Latour – É preciso distinguir a prática das ciências – instrumentos, laboratórios, experiências, colecções – e o uso político de uma certa teoria de conhecimento produzida pelos empiristas e seus seguidores. Enquanto prática, as ciências têm uma «ecologia» muito complexa que se começa a conhecer melhor. Nada disso tem a ver com o uso que lhe foi dado quando se começou a dizer: «A democracia é para os humanos, mas os factos, os objectos, as coisas são para as ciências».Esta distribuição de poderes –porque se trata de poderes de repartição de tarefas – torna muito difícil o exercício da democracia. Torna-se pois difícil cortar o cordão entre a prática das ciências e a filosofia do conhecimento que, de algum modo, as raptou para suspender o trabalho do que designo por «composição» política.

Rejeitando a clivagem entre a esfera política e a esfera científica, voc~e opõe-se ao cientismo e à polícia dos experts. Qual deve ser então o papel dos cientistas nas decisões políticas?

Bruno Latour - Os experts ( especialistas) não são investigadores. O expert é um ser híbrido, monstruoso, encarregado de fazer simultaneamente a pesquisa, mas sem a dura escola da controvérsia sábia, assim de explorar consensos, sem no entanto passar ela dura escola da composição política. Tornamo-los muito infelizes ao mergulhá-los numa espécie de injunção paradoxal. Creio que seria preferível retirar-lhes a função de expert e modificar completamente a repartição de poderes ( é preciso não esquecer que se trata de poderes). A minha solução consiste em fazer colaborar para 4 tarefas diferentes quer os sábios e os políticos, quer os militantes e eleitos ( a que acrescentaria os artistas e os juristas): essas 4 tarefas são as da perplexidade, consulta, hierarquia e instituição. Não há aí nada de extravagante. Se repararmos nós somos no nosso apartamento simultaneamente bombeiros, electricistas e pintores trabalhando tudo dentro da mesma casa. Ora é exactamente isso que se passa com a ecologia. Seria errado dizer aos bombeiros para tratare, de uma casa, e aos pintores de outra. Não teria sentido. Não há investigadores sobre factos, e políticos sobre valores. Se repararmos nas terras, nos peixes, nos climas, nos rios, todos eles são objectos comuns que se nos atravessam, e devemos aplicar as diversas competências destes colectivos ( os militantes não têm as mesmas competências que os especialistas de ecotoxicologia, nem as dos eleitos têm as dos pescadores) às mesmas tarefas.

Para você será necessário repensar os colectivos de forma a incluir os não-humanos nas discussões ecológicas e nas tomadas de decisões?

Bruno Latour – Mas Há mil maneiras para se fazer isso. Acabo de abrir na Alemanha uma grande exposição sobre «A coisa pública» («Making Things Public», ver
http://makingthingspublic.zkm.de/ ). Christelle Gramaglia e Jean-Pierre Le Bourhuis fizeram lá uma instalação muito significativa: de um lado temos as discussões nas comissões locais de água acerca da poluição nos rios; aí só encontramos os humanos «clássicos» se assim posse dizer, mas o que fazer para saber se o que é dito do rio é exagerado, urgente, superficial ou alarmista? Ora é preciso que para além dos humano, se faça «falar» o rio. Existem pequenos crustáceos que servem aos cientistas de sentinelas para avaliarem sobre o estado do rio na condição de os mantermos e torná-los capazes de se exprimirem. Ora se estes crustáceos se encontram em condições de entrar nas comissões em que se discute o futuro do rio, então porque havemos de separar os humanos políticos de um lado, e os não-humanos apolíticos do outro. Uma tal separação é absurda.
Outro exemplo da mesma exposição é realizada por Mauz e Didier Demorcy sobre a política de reintrodução do lobo nos Alpes: se olharmos para a paisagem bucólica, ela corresponde à antiga natureza, se assim se pode dizer, isto é, à que parece estar «fora» da política. Mas se olharmos mais de perto apercebemo-nos que cada elementos da paisagem ( o parque para os carneiros, a distribuição dos chalets, etc) encontra-se inteiramente dependente das controvérsias sobre a coabitação entre espécies.
Ora se há um problema de coabitação generalizado no planeta, talvez seja tempo dos politólogos, os sociólogos… se aperceberem que as ligações entre humanos e não-humanos significam estarmos na mesma sociedade, ou no mesmo colectivo, como eu costumo chamar. A política gira à volta das «coisas», e isso é a ecologia, pouco importa que seja científica ou política, uma vez que as competências de uns e ouros se devem aplicar sobre os mesmos objectos, ou antes, sobre as mesmas temáticas. Lembremo-nos que conservamos na palavra «república» esta sabedoria que não é nova: na «república» existe a partícula «res» que quer dizer coisa. Ora a ecologia não faz mais que nos recordar esta simples realidade, que os politólogos se tinham esquecido: que as coisas são estudadas pelos sábios, modificadas pelos tecnólogos, assumidas pelos militantes e apreciadas pelos amadores, e todo esse bazar deve tornar-se público. Mas para compor o público à volta destas coisas, é preciso mudar a nossa filosofia e as nossas ciências sociais


Bruno Latour é filósofo e sociólogo. É dos mais importantes nomes da sociologia das ciências.
Bibliografia:
La Science en action.Introduction à la sociologia des sciences, 1989
Politiques de la nature. Comment faire entrer les sciences en démocratie, 1999
Un monde pluriel mais commun, 2003


( entrevista retirada do hors-série nº 49, Luillet-Août 2005 da revista Sciences Humaines)

Cronologia da tomada de consciência ecológica (algumas datas)

1972 – pela primeira vez é posto em causa o princípio do crescimento ilimitado enquanto modelo de crescimento. O relatório «The limits of growth» (os limites do crescimento) é o resultado da reflexão de um grupo conhecido sob o nome de «Clube de Roma»
Neste mesmo ano é criado o partido verde na Nova Zelândia, o Values Party

1973 – Primeira crise do petróleo, na sequência do embargo da OPEP. É criado nesse ano o PNUE ( Programa das Nações Unidas para o Ambiente), fixando a sua sede em Nairobi (Quénia)

1974 – O francês René Dumond é o primeiro candidato ecologista a apresentar-se a umas eleições presidenciais, tendo recebido 337.800 votos.
Dois investigadores descobrem que os CFC são responsáveis pela diminuição do ozono na estratosfera.

1976 – Explosão numa fábrica química em Seveso.A libertação de cloro e dioxinas envenenam cerca de 700 pessoas mas sem fazer vítimas mortais.
A Unesco cria uma rede de reservas da biosfera

1977 – Grande manifestação antinuclear em França contra a central nuclear Superphénix. Dos enfrentamentos com a polícia resulta a morte de Vital Michalon.
Aprova-se uma moratória antinuclear no Quebeque.

1978 – É criado no Canadá o primeiro Ministério do Ambiente
A Áustria decide abandonar a energia nuclear.
O barco Amoco Cadiz larga 200.000 toneladas de petróleo nas costas da Bretanha

1979 – Convenção de Bona sobre a preservação das espécies migratórias.
Realização da conferência mundial sobre o clima em Genebra
Acidente nuclear em Three Mile Island ( nos Estados Unidos) leva à suspensão da construção das centrais nucleares naquele país.
S. Francisco de Assis é indicado pela Igreja Católica como patrono dos ecologistas

1980 – Criação do Partido verde alemão.
A ONU proclama a década da água potável
A UINC e a WWF referem-se pela primeira vez à noção de «desenvolvimento sustentável»
Resolução da Comissão baleeira internacional no sentido de reduzir as cotas na pesca à baleia

1981 – A plataforma petrolífera Itoc One despeja durante longos 5 meses mais de 700.000 toneladas de petróleo no Golfo do México.
Realização pela ONU de uma Conferência sobre as fontes de energias renováveis

1982 – A Assembleia Geral das Nações Unidas adopta a Carta Mundial da Natureza

1984 – Uma fábrica de produtos químicos em Bhopal ( Índia) provocam a morte de milhares de pessoas
Resolução da Comissão económica da ONU: reduzir 30% das emissões de dióxido de enxofre

1985 – Realização pela ONU de uma Conferência sobre a protecção da camada de ozono.
Conferências da OCDE sobre resíduos perigosos em Basileia, e sobre chuvas ácidas em Paris.

1986 – Incêndio e explosão na central nuclear de Tchernobyl
Em Basileia 30 toneladas de produtos químicos são lançados no Reno
Interrupção total da caça comercial às baleia

1987 – A Comissão mundial sobre o ambiente e o desenvolvimento publica o Relatório Brundtland « O nosso futuro pertence-nos»
Assinatura por 24 países do Protocolo de Montreal sobre a protecção da camada de ozono. O seu objectivo é reduzir 50% das emissões de CFC até 1999

1988 – Conferência da ONU sobre o ambiente em Oslo.
Inundações no Bangladesh com 25 milhões de deslocados. A desarborização dos Himalaias é apontada como causa responsável.
Realiza-se em Hamburgo um Congresso Internacional sobre o clima e sobre as consequências das catástrofes climáticas nos países desenvolvidos.

1989 – O petroleiro Exxon Valdez verte 40.000 toneladas de petróleo nas costas do Alaska.
Os Verdes recolhem 10.000.000 votos nas eleições europeias e são eleitos 30 deputados ecologistas para o Parlamento de Strasbourg.
Realização de uma conferência sobre poluição atmosférica em Noordwijk (Holanda) com o objectivo de estabilizar as emissões de CO2 até ao ano 2000.
Declaração de Vancouver acerca da sobrevivência no século XXI

1991 – Protocolo de Madrid. 26 países decidem que durante 50 anos não haverá desenvolvimento no Antárctico.

1992 – Cimeira da Terra no Rio de Janeiro. Assinatura da Convenção sobre a Diversidade biológica.

1994 – A Convenção sobre as mudanças climáticas do Rio é ratificada por 50 países.
Convenção em Paris sobre a desertificação.

1997 – Conferência do Conselho da Terra para analisar as decisões tomadas na Cimeira do Rio.
Realização do Rio+5, uma sessão especial da ONU sobre o ambiente.
Cimeira de Quioto sobre as mudanças climáticas

1998- Conferência de Paris sobre água e o desenvolvimento durável
Conferência de Buenos Aires sobre as mudanças climáticas.

2000 – Directiva comunitária da EU tendente a uma harmonização da gestão da água na Europa

2002 – Terceira Cimeira da Terra e Joanesburgo, na África do Sul

2004 – A Rússia ratifica o protocolo de Quioto, permitindo assim a sua entrada em vigor.
Adopção de um plano de acção europeu em matéria de agricultura biológica: 21 pontos são adoptados a favor de uma política mais favorável à agricultura biológica

2005 – A UNESCO organiza em Paris uma Conferência Internacional sobre a biodiversidade.
Em 16 de Fevereiro entre em vigor e tem força de lei o Protocolo de Quioto para os 128 países que o ratificaram.

(esta cronologia está longe de ser completa, mas serve para acompanharmos o processo de sensibilização e tomada de consciência das questões ligadas ao ambiente)

Indicadores do desenvolvimento sustentável


Como construir os indicadores do desenvolvimento sustentável

(Nota: um indicador é uma variável que serve para dar conta de uma realidade.
Já um índice faz a síntese de vários indicadores
)

Uma política de desenvolvimento sustentável não pode fazer-se sem indicadores.
Ora para os autores da Agenda 21 – o programa que resultou da Conferência do Rio de 1992 – os indicadores existentes ( Produto Nacional Bruto, Produto Interno Bruto, etc) são incapazes de avaliar a sustentabilidade de uma política de desenvolvimento. Na continuação dos indicadores sociais que irromperam no domínio das políticas públicas em meados dos anos 60, a procura de indicadores de desenvolvimento regressou em força nos últimos tempos.
Entre as tentativas visando superar ou, pelo menos, completar o PIB, existe uma com certo sucesso. É o índice de desenvolvimento humano (IDH) proposto pelo Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento (PNUD). As outras ficaram entre os iniciados e ainda não encontraram legitimidade para um eventual uso.

Quais são esses indicadores?

IDH (índice do Desenvolvimento Humano) combina 3 indicadores de base: a esperança de vida à nascença, o rendimento e o nível de educação

Índice de bem-estar económico sustentável (índex of sustainable economic welfare, Isew) é um índice monetário que corrige o PIB tendo em conta as contribuições negativas ( custos sociais e ambientais ligados às desigualdades de rendimentos, à poluição, aos ruídos sonoros, às perdas nos ecossistemas naturais; à diminuição dos recursos não-renováveis; à erosão da camada de ozono, etc) e positivas ( trabalho doméstico e despesas públicas de educação e de saúde)

Indicador do progresso real (genuine progress indicator, GPI) derivado do Isew, mas ao qual junta as contribuições positivas dos beneméritos, dos bens de consumo sustentáveis e das infraestruturas de transportes, e que subtrai os custos suplementares como os das fracturas familiares, do desemprego, e perda dos tempos livres, etc

Indicador do bem-estar económico e social de Lars Osberg e Andrew Sharpe que consiste numa média ponderada de 4 indicadores sintéticos sobre os fluxos de consumo, as riquezas (económico, humano e ambiental), as desigualdades e a insegurança económica

Índice de bem-estar humano (human weel-being índex, HWI), proposto pelo economista Robert Prescott_Allen, composto de indicadores relativos à saúde e à vida familiar (estabilidade da família), ao rendimento e grau de satisfação das necessidades de base, à economia, ao nível de educação e meios de comunicação, direitos políticos e cívicos, paz ou conflito armado, criminalidade e equidade

Cada um destes indicadores combina 4 tipos de abordagem: o primeiro consiste em dar uma parte variável aos 3 pilares do desenvolvimento sustentável ( o económico, o social e o ambiental), o segundo diz respeito aos recurso e a sua duração; o terceiro é centrado sobre o humano, e reflecte o bem estar; o quarto define as normas e os procedimentos que permitem avaliar toda acção social a respeito do desenvolvimento sustentável.

Histórias de uma trabalhadora na Era de Informação


Quando da implantação em massa de robots e de computadores nas actividades produtivas em geral, os optimistas consideraram que os efeitos seriam positivos para os trabalhadores. A realidade, no entanto é muito diferente.

O surgimento das máquinas ferramenta de controle numérico computorizadas, robots e redes de computadores nas industrias, gerou muitas expectativas. As pessoas mais optimistas, desvalorizando a função objectiva de uma empresa capitalista, logo viram apenas sinais positivos.
Seguiu-se uma onda de especulações sobre como o futuro dos trabalhadores seria radioso doravante. As máquinas iriam substituir o trabalho humano penoso e enfadonho. Os trabalhadores passariam a exercer funções muito mais criativas, em ambientes mais agradáveis, com horários de trabalho menores e mais flexíveis e, sobretudo, melhor remunerados.
Isso tudo seria possível pelo vertiginoso aumento da produtividade que, como todos “sabem” sempre reverte em benefício de… toda a sociedade! O elementar facto de que os ganhos em função desses aumentos de produtividade são apropriados pelas empresas, e não pelos empregados parecia ser um mero detalhe de pouca importância.
Para os economistas, administradores de empresas e profissionais de informática, a realidade logo ficou clara. Os objectivos da automação eram respectivamente: cortar o maior número possível de empregados e extrair o máximo de trabalho da mão-de-obra restante nas unidades industriais.
Mas, para se alcançar esses objectivos era necessário um novo sistema de gestão, capaz de compatibilizar os novos equipamentos com os recursos humanos. A isso se prestavam perfeitamente os conceitos desenvolvidos no Japão, mais especificamente, o sistema concebido pelo engenheiro Eiji Toyoda e o seu especialista em produção Taichi Ohno nas instalações da Toyota.
Dessas técnicas, hoje bastante conhecidas, nasceram os processos de reestruturação e reengenharia da produção, largamente utilizados em todo o mundo. Dele também deriva o conceito de produção “enxuta”, das vantagens da terciarização e da flexibilização das relações de trabalho. A este novo paradigma, seguindo Manuel Castells, chamamos de capitalismo informacional.
As consequências da utilização combinada das novas tecnologias de informação e telecomunicações e dessas técnicas de gestão de pessoal podem ser brevemente sintetizadas:
1) A automação elimina empregos, em quantidade assustadora, nos níveis intermediários da hierarquia. Os empregados “sobreviventes” aos processos de reengenharia, tanto os operários quanto os executivos, passam a serem pressionados a aceitar aumentos progressivos de sua carga de trabalho.
2) Embora o desemprego possa não se manifestar nos níveis mais baixos, as condições de trabalho em geral deterioram-se. Os trabalhadores são obrigados a um ajustamento às velocidades de produção dos robots, muito mais exigentes do que a linha de produção “taylorista/fordista” tradicional.
3) O nível de instrução dos trabalhadores decresce continuamente com o aumento da “inteligência” das máquinas e das interfaces “amigáveis”.
Para mostrar como isso ocorre na prática, citaremos o depoimento de uma trabalhadora que passou dois anos a trabalhar no Japão, o berço dessas novas ideias e de longe o país que mais as utiliza.

Escolhemos a narrativa dessa pessoa por duas razões:
Em primeiro lugar porque sua experiência de trabalho foi junto a linhas de produção automatizadas e executando as mesmas tarefas que seus colegas japoneses, e não como acontece com muitos imigrantes que se aventuram nos EUA e Europa, que acabam executando tarefas específicas, justamente onde a nova automação está quase ausente (restaurantes, hotéis, serviços de manutenção, limpeza, etc).
A segunda razão é que se trata de pessoa com um alto nível intelectual, tanto mais que as suas narrativas são extraídas de um trabalho académico da sua autoria, cujo objectivo é exactamente uma análise do “toyotismo”.(1)
Segundo reconhece a autora: “A automatização é considerada o primeiro elemento desse modelo. Trata-se da utilização de máquinas capazes de parar automaticamente quando surgem problemas. Assim o trabalhador que até então era treinado para desenvolver o seu trabalho numa única máquina pode ser responsabilizado por várias, o que diminuiria a quantidade de trabalhadores necessários numa linha de montagem, onde a autora teve experiência de trabalho, como relata a seguir”.
A narração da autora inicia-se, como era de se esperar, pelas dificuldades do próprio processo de deixar o seu país e enfrentar uma realidade totalmente desconhecida, o Japão. Note-se que o novo capitalismo informacional não reduz significativamente a procura de empregos de baixa qualificação.
A autora relata que a certa altura, “a ala feminina do grupo é submetida a um teste com trinta cálculos matemáticos, com a informação de que quem resolvesse todos os trinta cálculos em cinco minutos seria indicada para a vaga daquele dia. A autora conseguiu resolver vinte e oito dos cálculos no tempo que foi estipulado e por isso foi levada a uma fábrica da Suzuki na cidade de Kosai para uma entrevista”.
Isso levar-nos-ia a concluir que se valoriza bastante o nível de ensino, principalmente a preparação básica em ciências exactas, já que o trabalho é junto a equipamentos altamente sofisticados. Mas, após repetir o teste na fábrica da Suzuki, a autora acaba por ser recusada, e o motivo foi que:
“a fábrica não aceitava secretárias, enfermeiras e professoras, pois, a função (trabalhar no sector de reposição de peças) exigia que se desse 15 mil passos por dia, e para a empresa se certificar que o funcionário estava dentro das normas era colocado um marcador na perna – na altura do tornozelo – e segundo eles, pelo porte físico, ela não conseguiria desenvolver a função”.
Perguntar-se-á então: e o teste de matemática não serviu para nada? É simples. Uma pessoa capaz de realizar cálculos sob pressão (trinta cálculos em cinco minutos), está apta a tomar decisões simples, como escolher e contar peças codificadas, por exemplo, na velocidade exigida pelas linhas de montagem dirigidas pelos robots.
Prossegue a autora: “No dia seguinte, candidatei-me a outra vaga, desta vez uma fábrica que produzia fechaduras para carros da Mitsubishi. Ao chegar recebo o uniforme e fui levada à linha de montagem. Não houve nenhum treino, apenas orientações de como realizar a tarefa”.
Devemos notar que isso seria impensável numa fábrica tradicional. Além disso, a autora “durante os primeiros dias trabalhou muito preocupada em dar conta da produção exigida (950 peças por dia), as dificuldades eram grandes, pois, jamais havia visto ou executado tal função”. Como é possível que uma indústria espere que um funcionário atinja metas ambiciosas de produção sem nenhum treino e sem “jamais ter visto ou executado tal função?”
A resposta está em que, como dissemos, as novas tecnologias estão longe de necessitar de empregados com melhor nível cultural e mesmo qualquer experiência anterior. As “interfaces amigáveis” permitem que tarefas complexas sejam executadas por pessoas sem nenhuma qualificação.
Prossegue a autora: “Ao terceiro dia de trabalho, a tentativa para tentar conseguir acompanhar o ritmo das máquinas, criou-me problemas de saúde o que obrigou a ecarregada a levá-la para a enfermaria, sob o olhar reprovador do chefe e dos colegas de linha. Neste dia ficou a saber que uma colega havia tentado suicidar-se, tão grande era o sofrimento pelo qual passava, pois além da adaptação ser difícil, havia a agravante de estar no emprego já por vários dias sem confirmação de trabalho”.
Isso comprova o que também afirmamos: O segredo da espectacular “produtividade” do capitalismo informacional não está somente na tecnologia mas sim na sua combinação com técnicas, às vezes brutais, de exploração da mão-de-obra.
Depois disso, a autora conseguiu transferir-se para outra fábrica e ao cabo de um mês estava a trabalhar num departamento de controle de qualidade. Devemos lembrar que nas fábricas tradicionais, esse era um cargo altamente qualificado, mas a autora relata uma realidade bem diferente:
“As peças eram dispostas num aparelho que através de um computador verificava a sua perfeição ou seu o defeito. A actividade era tão mecânica que apesar do entendimento da língua japonesa ser pouco e de informática ainda menos, a autora foi capaz de realizá-la sem maiores problemas”.
Ou seja, o “controle de qualidade” na realidade era feito pelo computador e a trabalhadora limitava-se a observar os resultados num monitor de vídeo. Resumindo, ela não passava de um auxiliar humano da máquina. Nas suas conclusões a autora nota que:
“A experiência como operária subcontratada tornou possível ver bem de perto que a única diferença entre os trabalhadores, ainda que isso seja despercebido para muitos deles, são as mercadorias que produzem. Não fosse assim, não haveria diferença de uma fábrica para outra. Em todas que a autora teve oportunidade de trabalhar ou apenas conhecer, como era de se esperar, as actividades sempre seguiam a mesma linha, extremamente repetitivas e exaustivas, onde o trabalho se encontra totalmente alienado”.
Isso ocorre porque as novas tecnologias são flexíveis. Ao contrário das máquinas mais antigas, os robots e computadores podem ser programados para executar tarefas diferentes sem alterar praticamente nada as suas características. O mesmo acaba por acontecer para as pessoas que trabalham com eles.
Com esse relato, podemos passar a ter uma visão prática do que até então abordávamos apenas em teoria. Longe do paraíso das jornadas de trabalho flexíveis e do trabalho criativo e de alto nível intelectual, a nova realidade da classe trabalhadora pode ser sintetizada na visão da fabrica do futuro como descrita por Fabio Kazuo Ocada, citado pela autora: “[...] por todos os lados sirenes piscam e os ruídos ensurdecedores da estrutura de metal em funcionamento misturam-se com a música sintética [...] A primeira impressão chega a lembrar um sofisticado parque de diversões, a segunda impressão sugere a imagem do inferno”. (2)
Notas:
(1) FUTATA, Marli Delmônico de Araújo. Breve análise sobre o toyotismo: modelo japonês de produção – Revista Espaço Acadêmico – Nº 47 – Abril de 2005.
Disponível em:
http://www.espacoacademico.com.br/047/47cfutata.htm

(2) OCADA, Fabio Kazuo. Trabalho, sofrimento e migração internacional: o caso dos brasileiros no Japão. In: ANTUNES, Ricardo e SILVA, Maria Aparecida Moraes. O avesso do trabalho. 1ª. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
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(texto retirado da net)

A maior empresa do mundo é a Wal-Mart


A revista Fortune publicou a sua lista anual das maiores empresas mundiais.A tabela ordenada com base nas rceitas do ano anterior conta com 176 empresas norte-americanas. Nas 10 maiores há 4 petrolíferas, 4 fabricantes de automóveis, um retalhista e um conglomerado, a General Motor.
A Wal-Mart fechou o ano de 2004 com receitas de 287,9 mil milhões de dólares, e um lucro de 10,26 mil milhões de dólares.

71% dos alunos do 9ºano chumbaram a Matemática


Saíram os resultados do novos exames do 9º anos e os dados não podiam ser mais reveladores: 71% dos alunos do 9ºanos (num total de 84.980 alunos) reprovaram à disciplina no exame de Matemática, mas como a nota de exame tem um peso de 25% a maior parte os alunos passou para o ano seguinte( ou seja, 74% recebeu a aprovação)
Na disciplina de Português 77% dos que fizeram exame obtiveram classificação positiva.

11.7.05

A personalidade autoritária ( segundo Adorno)

Adorno defendia que a formação de uma personalidade autoritária se liga fundamentalmente às frustrações a que os indivíduos estão sujeitos ao longo do seu processo de socialização, mormente na sua face inicial ( infância e adolescência).
Na continuação do que tinha sido exposto por Freud, certos autores como Adorno pensam que o desenvolvimento da personalidade envolve necessariamente alguma repressão e o redireccionamento das «pulsões agressivas».
A repressão e os padrões severos de disciplina estariam na origem da emergência, nas crianças, de fortes impulsos de agressão que, não podendo ser dirigidos directamente sobre os próprios pais, incidem sobre outros alvos, preferencialmente percepcionados como os mais fracos e/ou inferiores, tal como por exemplo, os indivíduos socialmente desviantes e as minorias étnicas.
A expressão desta agressão seria pois socialmente influenciada uma vez que as pessoas seriam levadas a deslocarem as suas pulsões agressivas para alvos atingíveis e socialmente admissíveis, como sejam os grupos desviantes ou minoritários convertidos em «bodes expiatórios» preferenciais, e que se estenderiam rapidamente sobre os grupos sociais com dificuldades de atingir os objectivos socialmente partilhados.
A resultante seria a tendência para perceber o mundo de um modo totalitário e um comportamento caracterizado por elevada submissão às figuras autoritárias, simultaneamente com uma afincada hostilidade para com outros grupos.
Este padrão de valores e atitudes constituiria aquilo que Adorno designa por personalidade autoritária.
Adorno e outros autores construíram a escala F que consistia num questionário com uma série de 48 afirmações a fim de avaliarem a dimensão fascista da personalidade autoritária. De acordo com as suas respostas, as pessoas poderiam ser caracterizadas num continuum cujos pólos são as tendências fascistas e racistas e as tendências democráticas. A aplicação deste questionário, combinado com metodologias clínicas, permitiriam descobrir que os indivíduos com uma pontuação elevada na escala F tinham tido uma socialização familiar dogmática e altamente repressiva comparativamente com aqueles que tinham obtido uma baixa pontuação na escala, em que a educação e a socialização se teria desenvolvido em ambientes mais permissivos e tolerantes.
A proposta teórica de Adorno mereceu a atenção e o interesse subsequente de muitos investigadores. Uma pesquisa posterior pretendeu confirmar a teoria de Adorno sobre a personalidade autoritária a concluir que os indivíduos autoritários tendem a simplificar, a dicotomizar a forma de ver e encarar a vida quotidiana.
Outros autores criticaram a teoria de Adorno por negligenciar os factores situacionais e socioculturais
E um outro investigador formula a hipótese de que a hiper-simplificação e a rigidez de estilo de pensamento que Adorno associa à «Personalidade autoritária» não eram apenas apanágio dos fascistas, dos indivíduos racistas ou de extrema-direita, mas encontravam-se em indivíduos e grupos que partilhavam e se caracterizavam por um «espírito fechado».
Segundo o mesmo investigador o «espírito fechado» é uma forma de raciocínio que se define por uma separação mental de dois ou mais sistemas de crenças diferentes, de modo a permitir (a) a conciliação de opiniões de outro modo contraditórias, (b) a resistência dessas crenças à mudança, face a nova informação, (c) a utilização do recurso ao argumento de autoridade para justificar a correcção das crenças ameaçadas.

A loucura é a terra onde floresce a lucidez do homem (a propósito de Flaubert)


Excertos do livro «Diário de um louco» de Flaubert

...fui agredido em todos os meus gostos: na aula, pelas minhas ideias; nos recreios, pelo meu pendor para a selvajaria solitária. Desde então, sou um louco!
Vivi lá portanto sozinho e aborrecido, atormentado pelos meus mestres e escarnecido pelos meus colegas......

(…)

....vejo-me ainda, sentado nos bancos da minha sala de aula, absorto nos meus sonhos de futuro, pensando no que a imaginação de uma criança pode sonhar de sublime, enquanto o pedagogo troçava dos meus versos latinos, os meus colegas me olhavam zombeteiros. Que imbecis! Eles, rirem-se de mim! Eles tão fracos, tão vulgares, com um cérebro tão exíguo; eu cujo espírito se afundava nos limites da criatividade, que andava perdido em todos os mundos da poesia, que me sentia maior do que eles, que recebia alegrias infinitas e que tinha êxtases celestes perante todas as revelações íntimas da minha alma!

(…)

Nunca apreciei uma vida regrada, horas certas, uma existência de relógio em que é preciso que o pensamento pare com o sino, em que tudo já foi percorrido de antemão por séculos e gerações. Esta regularidade sem dúvida pode convir á maioria, mas para a pobre criança que se alimenta de poesia, de sonhos e de quimeras, que pensa no amor e em todas as tolices, é o despertar incessante deste sonho sublime, é não lhe deixar um momento de repouso, é asfixiá-la transportando-a para a nossa esfera do materialismo e do bom senso a que ela tem horror e nojo!

(…)

... tinha deturpado o gosto e o coração, como diziam os meus professores e, entre tantos seres de tendências tão ignóbeis, a minha independência de espírito levava a que fosse tomado pelo mais depravado de todos; era rechaçado para o nível mais baixo da própria superioridade, Mesmo reconhecendo-me imaginação, o que é, segundo eles, uma exaltação do cérebro vizinha da loucura!

(…)

.....abandonemos o manto real, o ceptro, os diamantes, o palácio em derrocada, a cidade em queda , para irmos ter com a égua e a loba!....

(…)

.....a natureza será livre sem o homem ...

(…)

Há mulheres em quem detectei o pretensiosismo a um quarto de légua de distância, só pela maneira como elas olhavam as ondas.....






10.7.05

83% de portugueses inquiridos admitem bater em crianças!

e...

3500 crianças morrem por maus tratos nos países da OCDE

Morrem anualmente 3.500 crianças de idades inferiores a 15 anos, vítimas de maus tratos no meio familiar, nos 30 países membros da OCDE, segundo umrelatório da Unicef.
De acordo com o mesmo documento morrem semanalmente duas crianças na Alemanha, três em França e 27 nos Estados Unidos.
A dado passo do relatório menciona-se uma sondagem realizada em Portugal em 2004 na qual 83% dos inquiridos (todos adultos) aceitam que é admissível bater nas crianças.

Info:
www.violencestudy.org

A juventude está ilegal


Segundo um conhecido semanário deste fim de semana mais de 50% dos jovens que atingem a maioridade nos últimos 4 anos não estão recenseados. Coisa que não seria de espantar conhecido como é o pouco valor das eleições para o futuro, e como os políticos estão desacreditados.
Acontece que segundo a legislação em vigor o recenseamento é obrigatório para os cidadãos portugueses, encontrando-se pois milhares de jovens em situação de ilegalidade.

Greve de zelo selvagem dos juízes e magistrados


A greve de zelo selvagem decretada no passado dia 18 já estão a produzir atrasos consecutivos. Recorde-se que nesse dia as associações sindicais dos magistrados e dos juízes decidiram não trabalhar para lá das 17 horas nem fazer nada para além do seu horário de trabalho como resposta à decisão governamental de redução das férias judiciais e de suspensão das carreiras.
Note-se que os tribunais são órgãos de soberania pelo que não estão propriamente sujeitos à legislação geral para os trabalhadores assalariados.

Custo da mão de obra na China

Na China um operário ganha entre 100 a 300 euros por mês e trabalha 60 horas por semana.

Desemprego para uns e lucro para outros


A Lear de Valongo reduziu o número dos seus trabalhadores de três mil para 800. A Yasaki Saltano, em Gaia, passou de quatro mil para 1200 trabalhadores. A Sinviauto e a Cottesi, de Gaia, transferiram parte da sua produção. A Quintas e Quintas na Póvoa de Varzim ameaça deslocalizar-se.. A Molex Automotive, em Santo Tirso, desperta preocupação. O mesmo se passa com as Confecções Vissuto, em Paredes, com a iminência do desemprego para 200 trabalhadores.
No total, contam-se presentemente com 115 mil desempregados no distrito do Porto.

Enquanto isso os lucros dos principais bancos privados durante o primeiro trimestre deste anos, comparados com os do ano passado, registou um aumento de 42,5%

Empresa com 49% de capital público vai deslocalizar-se!!!


A Diatrada, uma empresa de lapidação de diamantes, onde o Estado português detêm 49% do capital social (os restantes 51% pertencem aos sul-africanos da Debeers, o maior grupo do sector de todo o mundo), vai fechar a sua filial em Viseu, até ao fim do mês, e transferir a produção para a China. Mais de 70 trabalhadores, altamente especializados, e que já foram considerados os melhores lapidadores do mundo, vão ficar no desemprego

4.000 operários vão diariamente para as obras na Galiza


Cerca de 4.000 operários portugueses da construção civil a viver no distrito de Braga estão actualmente a trabalhar em obras na Galiza, informaram os sindicatos do sector. Os mesmo sindicatos alertaram para o facto de alguns deles estarem a receber salários inferiores aos praticados em Espanha ( cuja média é de 1100 euros, o que um operário ganha em Espanha, em contraponto com os 800 euros de salário pago pelas empresas portuguesas).
Em 2004 no distrito de Braga trabalhavam 24.000 operários de construção civil.

Pinochet depositou dinheiro no Banco Espírito Santo


Segundo informações tornadas agora públicas o ditador chileno Augusto Pinochet transferiu, entre 1991 e 2000, 3,9 milhões de dólares para a sua conta pessoal no Espírito Santo Bank em Miami.
Como se isso não fosse suficiente surgem agora rumores que o mesmo grupo bancário se encontra envolvido na corrupção que atinge actualmente o governo brasileiro.


Fonte: Expresso

Pouca água pode provocar paragem das centrais eléctricas e morticínio de peixes

A pouca água dos rios, por força da seca, poderá não ser suficiente para resfriar os reactores da Central da Tapada do Outeiro, nas margens do rio Douro.
A REN ( Rede Eléctrica Nacional) já pediu autorização para, em caso de emergência, utilizar as águas do rio Douro em quantidade suficiente para satisfazer as suas necessidades e garantir o funcionamento da central. Mas se tal acontecer é quase certo o aumento da temperatura das águas do rio, que provocaria automaticamente um desastre ecológico com a morte de todos os peixes do rio Douro.

Fonte: Expresso

Efectivos do exército português


Segundo o jornal Público de 7/7/2005 as forças armadas portuguesas contam actualmente com os seguintes efectivos:

Tenente-General (general de 3 estrelas) – 16 efectivos
Major-General (general de 2 estrelas) – 45 efectivos
Brigadeiro – 2 efectivos
Coronel – 220 efectivos
Tenente-Coronel – 537 efectivos
Major – 581 efectivos
Capitães – 674 efectivos
Tenentes – 289 efectivos
Total de oficiais – 2.355 efectivos

Sargento-Mor – 210 efectivos
Sargento-Chefe – 371 efectivos
Sargento-ajudante – 1339 efectivos
1º Sargento – 1605
2º Sargento – 182
Total de sargentos – 3703 efectivos

Rumores sobre empresa norueguesa de confecções


Na empresa norueguesa de confecções Synfiber, de Albergaria-a-Velha os trabalhadores temem pelos seus postos de trabalho depois das férias de Verão.

Despedimento de 13 trabalhadores em Ovar no grupo Philips


A Sociedade de Componentes Bobinados de Ovar (SCBO), do grupo Philips; despediu 13 trabalhadores. A intenção é encerrar a fábrica, apesar dos atingidos denunciarem o facto da empresa estar a contratar pessoal através de uma empresa de trabalho temporário

9.7.05

Reprovação geral dos serventuários do poder face a pergunta de exame do 12º ano


No enunciado da prova de exame de Psicologia do 12º Ano realizado na passada 3ª feira encontra-se uma questão interessante que implicaria a reprovação mais que certa a todos os serventuários do poder.
Dizia ela assim:

«Comente a seguinte afirmação:
O pensamento divergente é um dos processos cognitivos indispensáveis ao avanço do conhecimento»
.
Calcula-se a dificuldade que sentiriam quem tão zelosamente se dedica a bajular os manda-chuvas cá da paróquia.

Contra-ataque iraquiano a Londres


O inevitável aconteceu. Depois dos ataques, invasão, ocupação e toda a destruição semeada pelas tropas britânicas junto da população iraquiana, registaram-se no dia 7 de Julho vários contra-ataques bombistas à cidade de Londres causando mais de 50 mortos e mais de um milhar de feridos.
Os efeitos das guerras são devastadores. Mais uma vez se vêm os seus efeitos nas populações civis...

97% do país em seca extrema


A situação de seca em Portugal continental na 2º quinzena de Junho piorou, com quase a totalidade d território (97%) em situação de seca severa, segundo o relatório divulgado pelo Instituto da Água.
A 30 de Junho encontrava-se em situação de seca extrema 64% do território. Além disso, a percentagem de água no solo em relação à capacidade de água utilizável pelas plantas era inferior a 40% em todo o território, valores muito inferiores aos médios para esta época do ano.
Já estão a recorrer a autotanques para abastecimento de água 39 municípios que envolvem 22.385 habitantes. Mas muitos outros municípios estão a braços com a falta de água para abastecimento ás populações.
Para piorar ainda mais as coisas soube-se ainda que o consumo de electricidade em Portugal subiu 6,6% em Junho deste ano, face ao mesmo mês do ano passado, passando para 3894 gigawatts, segundo estatísticas fornecidas pela Rede Eléctrica Nacional (REN).
A actual seca continua a reduzir a produção hídrica, cuja descida foi de 37% relativamente a Junho de 2004, para 327 gigawatts, e que foi compensada com a subida da produção térmica em 16% o que veio a traduzir-se em 2.685 gigawatts.

Aldeia do Catarredor (Lousã)


Na aldeia do Catarredor, juntamente com mais duas outras aldeias ( Vaquerinho e Talasnal), conhecidas por serem, há muito tempo, as «aldeias do hippies», pelo facto de terem recebido nas décadas anteriores muitos jovens urbanos à procura de modos alternativos de vida, estão a ser palco neste fim de semana (8,9 e 10 de Julho) de vários concertos de borla com grupos de música de vários estilos, desde o punk até ao reggae passando por sonoridades mais electrónicas.

Jordi Savall vai estar na Póvoa no próximo dia 19


O músico catalão Jordi Savall, acompanhado como o seu grupo Hesperion XXI/La Capela Reial de Catalunya vai apresentar-se no próximo dia 19 na Igreja Matriz da Póvoa de Varzim, num concerto integrado no 27º Festival Internacional de Música.
Recorde-se que Jordi savall é um exímio instrumentista de música antiga, além de utilizar instrumento da época, como é o caso da viola da gamba, com uma espantosa sonoridade.

TV prejudica aprendizagem


As crianças e os jovens que estiverem expostos e criarem habituação à Tv ficam prejudicados nas suas capacidades de aprendizagem. De acordo com investigadores norte-americanos da Universidade de Washington, ver televisão antes dos 3 anos tem um impacte negativo no desempenho da Matemática, na leitura e na compreensão nas crianças por volta dos 6 anos. O estudo foi publicado no «archives of Pediatrics and Adolescent Medicine».

Só 5% da população vai à missa de Domingo


Segundo documentos do Vaticano os católicos divorciado encontram-se em situação de pecado, e se voltarem a casar, cometem uma falta grave que os impede de comungar.
As mesmas fontes do Vaticano informam, com grande pesar, que só 5% da população dos países desenvolvidos frequentam a missa de Domingo.

Pudera… com tanto shoppings por aí.

3 milhões de portugueses sofrem alergias


Responsáveis da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica alertaaram para o facto de haver já 3 milhões de portugueses que sofrem de doenças alérgicas., o que significa um nítido acréscimo relativamente a anos aneriores.
Este aumento deve-se, segundo os especialistas, ao facto de existir uma menor exposição do organismo a doenças infecciosas, o que leva o sistema imunitário ficar mais estimulado para outros agentes que se encontram no meio ambiente.Assim toda a poluição química, biológica e física pode afectar o organismo.
Pense-se sobretudo nas situações do quotidiano em que a maior parte das pessoas vivem dentro de edifícios, cuja qualidade do ar não é a melhor, já para não falar da parafernália de produtos de limpeza, materiais de construção, decoração e equipamentos electrónicos que geram campos magnéticos que acabam por produzir efeitos nocivos para a saúde

Videovigilância nas estradas para efeitos probatórios é ilegal


A Comissão de Protecção de Dados deu um parecer negativo quanto à decisão do Governo de permitir que os agentes policiais tenham acesso às imagens da videovigilância captadas ao longo das estradas para efeitos de prova, considerando um tal procedimento como ilegal e inconstitucional.
Acresce-se ainda que todo o sistema de videovigilância nas auto-estradas está todo ele inquinado de ilegalidade, apesar da Lei 1/2005 pretender remendar a situação ao autorizar a polícia de utilizar as imagens recolhidas por esses dispositivos, o que não é conseguido segundo aquela Comissão.
Lamentavelmente a Associação de Cidadãos Automobilizados parece que desconhece o que está aqui em causa ao manifestar-se a favor da videovigilância para aqueles efeitos.
Bem poderia, se assim estivesse realmente interessada no combate à sinistralidade por alta velocidade, em propor a proibição de venda pública das viaturas com velocidades maiores às legalmente permitidas. O problema ficaria resolvido pela raiz.

Extinção do Ballet Gulbenkian, e consequentes despedimentos


Acabou de ser anunciada a extinção da Companhia do Ballet Gulbenkian que nas últimas décadas se tornou conhecida pelas sua coreografias vanguardistas, lançando para o despedimento dezenas de dançarinos de mais alto valor. A Comissão de Trabalhadores já manifestou a sua solidariedade, estranhando a forma precipitada como tudo aconteceu.
A extinção do Ballet Gulbenkian afecta gravemente não só os artistas como todo o panorama da dança em Portugal.

Luta dos trabalhadores dos Correios


Realizou-se um plenário dos trabalhadores dos Correios de Portugal (CTT) na cidade do Porto que decidiu recusar os serviços extraordinários se os trabalhadores não receberem o pagamento por esse serviço.
A reunião abrangia apenas os trabalhadores que desenvolvem a sua actividade no centro da cidade. A reunião obrigou à suspensão da laboração normal.

Forte Apache retorna aos índios


Os índios apaches, liderados hoje pelo chefe Dallas Massey Sénior, vão retornar ao Forte Apache, o território do Arizona de onde foram expulsos em 1881 pelas tropas federais. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos só agora veio a reconhecer os nativos como donos legítimos daquele lugar, atribuindo-lhes ainda um subsídio de 12 milhões de dólares.
Esta vitória dos apaches dá outro ânimo às centenas de pretensões de muitas outras tribos indígenas espalhadas pelo território norte-americano nas suas pretensões contra os esbulhos, as espoliações e os danos de toda a espécie que sofreram pela colonização dos europeus brancos.

Os privilegiados da agricultura portuguesa


De acordo com os dados publicados no último livro do ex-ministro da Agricultura, António Campos, «Agricultura, alimentação e saúde» um terço de todos os subsídios para a agricultura resultantes dos fundos comunitários foi entregue a apenas 1.650 agricultores portugueses num total de 412 mil agricultores existentes no país.

8.7.05

Senado americano deu luz verde para a produção das minibombas nucleares (mininukes)


O Senado dos Estados Unidos da América acabou por votar favoravelmente uma resolução que permite a retoma do polémico programa das minibombas necleares (mininukes), que são capazes, segundos os entendidos, de atacar os bunkers ou instalações subterrâneas.
Esta votação agradou particularmente aos grandes Laboratórios de pesquisa nuclear que irão assim beneficiar de financiamentos e que se calculam que sejam qualquer coisa como 4 milhões de dólares só para 2006 a fim de prosseguirem as suas investigações.

O narco-imperialismo no seu melhor: Afeganistão forneceu 87% da produção mundial do ópio


O Afeganistão forneceu 87% da produção mundial do ópio em 2004, concluiu a ONU através o relatório acabado de ser tornado e da autoria da Agência das Nações Unidas contra a droga e o crime (ONVDC).
Pode-se também ficar a saber que a área cultivada onde é possível a produção de ópio (com o qual se fabrica a heroína) aumentou 62% em 2004, alcançado o valor, até aqui desconhecido, de 130.000 hectares de superfície de cultivo.
Recorde-se que o governo dos Talibans tinha acabado com a cultura do ópio em 2001, que foi retomada e se encontra em franca expansão com a invasão e a ocupação do território pelo exército norte-americano.

Mortos por armas no Brasil são mais que os mortos provocados por guerras


O número de mortos por causa de armas de fogo, registado no Brasil nos últimos 10 anos, ultrapassa o total de vítimas de 16 conflitos armadas, entre os quais se conta a guerra do Golfo e o conflito do Próximo Oriente, segundo o relatório da Unesco acabado de apresentar em Brasília: 325.551 pessoas morreram por ferimentos causados com armas de fogo entre os anos de 1993 e 2003.
Ficou-se também a saber que, entre 1973 e 2003, os casos de homicídios por armas de fogo atingiram o total de 550.000, uma progressão de 542%, quando a percentagem de aumento da população foi tão-só de 51%
Note-se ainda que em 2004 foram cometidos 50.800 homicídios em todo o Brasil.

Advogado de Saddam demite-se e denúncia pressões dos seus colegas norte-americanos


O chefe da equipa de advogados de Saddam Hussein, Zaiad Al Jasawneh, anunciou a sua demissão do cargo que desempenhava, acusando os seus colegas norte-americanos, que também fazem parte da equipa de defensores, de tentarem controlar a defesa para que esta não critique nem se refira à presença militar dos Estados Unidos no Iraque.
Recorde-se que na numerosa equipe de advogados-defensores de Saddam Husseim encontram-se vários juristas norte-americanos, entre os quais se conta o antigo Procurador Geral dos Estados Unidos, Ramsey Clark.

Com defensores destes, bem pode Saddam prescindir de saber quem são os seus acusadores….

Homenagem a Fernando Pereira, eco-pacifista, assassinado pelos agentes secretos franceses


Militantes da Greenpeace organizaram no passado dia 2 de Julho de 2005 em cerca de 15 cidades francesas acções para recordar o militante eco-pacifista de origem portuguesa, Fernando Pereira, vítima de um atentado organizado e perpetrado pelos serviços secretos franceses contra o barco Rainbow Warrior no porto de Auckland, em 10 de Julho de 1985.
Com esse atentado terrorista o Estado francês pretendia pôr um ponto final na campanha levada a cabo pela Greenpeace contra os ensaios nucleares do exército francês em Mururoa, na Polinésia francesa.
Em Avignon, Bordéus, Cherbourg, Grenoble, Lille, Lyon, Marseille, Montpellier, Nantes, Paris, Poitiers, Rennes et Strasbourg, os militantes franceses da Greenpeace rebaptizaram várias ruas com o nome de Fernando Pereira, acrescentado o seguinte:
"rue, place ou site Fernando Pereira Militant pacifiste tué par l'Etat français lors de l'attentat du Rainbow Warrior »
(rua, praça ou lugar Fernado Pereira Militante pacifista morto pelo Estado francês no atentado do Rainbow Warrior)
Recorde-se que 20 anos depois o Estado francês ainda nem seuqer apresentou desculpas á família de Fernando Pereira. « Muitos dos agentes secretos que estiveram envolvidos na operação saíram indemnes», declara Marelle Pereira, filha de Fernando Pereira. Apenas Dominique Prieur e Alain Mafart ( os famosos falsos esposos Turenge), foram presos na Nova Zelândia, e condenados a 10 anos de reclusão, mas regressaram a França ao fim de 3 anos!!!



Fazem agora 20 anos que os serviços de informação franceses ( vulgarmente conhecidos por serviços secretos, ou pela secreta) afundaram o Rainbow Warrior num porto neozelandês num dos actos de terrorismo que ficou nos anais da recente história do terrorismo de estado. A principal vítima foi um português, fotógrafo de profissão, que se encontrava a bordo no momento do atentado que levou ao afundamento do barco ecologista.

No dia 7 de Julho de 1985 o barco da organização Greenpeace, o Raibow Warrior aporta no porto de Auckland, Nova Zelândia, para acompanhar de perto os ensaios nucleares que o Estado francês se preparava para realizar na região do Pacífico. Foi então que na noite de 10 de Julho explodiram duas potentes bombas que provocaram o afundamento e a morte do fotógrafo português que não conseguiu sair a tempo do barco.


Numa época em que tanto se fala de terrorismo, de ecologia, de escutas, de videovigilância, de infiltrações, e da fragilização e desrespeito pelos direitos humanos, é bom que ninguém - absolutamente ninguém - se esqueça destes factos

Mais info:
http://www.RW20.org

6.7.05

10 regras para um conformista submisso


1 – Pense sempre em si, nada mais que isso.

2 – Pense também que a realidade em que vive é assim, e não se pode mudá-la por mais voltas que se lhe dê

3 – Aceite a miséria, as injustiças e as desigualdades como fatalidades, ou então como vontade de deus e da natureza

4 – Pense que o Estado, os tribunais, os parlamentos, os partidos políticos e tantas outras instituições foram todas elas criadas porque pessoas como você não sabem ou não podem governar-se a si próprias.

5 – Pense que é natural que haja pessoas que mandam, e outras que obedeçam, que é naturalíssimo que haja ricos e pobres, e que nada mais natural que sejam os ricos a mandar e os pobres a obedecer.

6 – Acredite em tudo o que ouça e veja na rádio e na TV, e em tudo o que leia nos jornais, não questionando qualquer notícia ou reportagem

7 – Acredite piamente que o seu patrão só está a ajudá-lo ao permitir que trabalhe para ele em troca de um salário.

8 – Acredita religiosamente que a polícia só tem como tarefa a segurança dos cidadãos, que os militares existem para proteger a pátria, e que a Igreja mais não faz que velar pelos pobrezinhos.

9 – Pense que só tem direitos a ter aquilo que pode comprar, ainda que não precise de muitos desses bens para viver.

10 – Aceite sem qualquer reticência que há pessoas que pensam por si, e que só isso é conveniente para si próprio.

O que é que mais nos espanta?

«O que espanta não é o facto de haver gente que rouba, de haver quem faça greve; mas sim o facto de haver esfomeados que não roubam, de haver explorados que não fazem greve.»

Wilhelm Reich

A vida de quem anda, às ordens de quem manda...


A vida de quem anda
às ordens de quem manda
já cheira que tresanda
não anda nem desanda

a vida de quem chora
À espera de uma aurora
Que leve a morte embora
Bem perde pela demora

A vida de quem cata
Pulgas numa barata
É tão longa e tão chata
Nem ata nem desata

Autor e cantor: Sérgio Godinho
(letra da canção a-e-i-o-u, do álbum Os Sobreviventes, de 1971)

Aviso a tempo por causa do tempo

Declara-se para que se saiba:

1º que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas vezes achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.

2º que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las no entano fruto e elemento exacto e necessário da sociedade – com quem não simpatizamos igualmente.

3º que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo há vontade. Seremos nós os melhores cofres-fortes dos segredos do estado: ignoramo-los.

4 º que sendo individualidades e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais, temos o máximo regizijo em ver essas mesmas normas nos componentes da sociedade. Assim delas daremos por vezes testemunho e mesmo ensino.

5º que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes

6º que a crítica é a forma da nossa permanência.

Acreditamos que nestes seis pontos fundamentais vão os elementos necessários para que o Estado, os Governos, a Polícia e a Sociedade nos respeitem; nós há muito que nos limitamos neles e neles temos conhecido a maior liberdade. Não se têm do mesmo modo limitado o Estado, a Polícia e a Sociedade e muito menos o seu último reduto: a família. A eles permaneceremos fiéis pois todo o nosso próprio destino e não só parte dele a estes seis pontos andam ligados como homens, como artistas, como poetas e por paradoxo como membros da sociedade.

(texto datado de Julho de 1953)
António Maria Lisboa

Na sociedade capitalista tudo pode ser dito, excepto o que for importante


Ao que parece, nunca terá existido um sociedade com mais informação, e ao mesmo tempo com menos conhecimento, do que a sociedade capitalista actual. E deveras notável, apesar de todas as comunicações por satélite e das fibras ópticas que podem transmitir milhares de milhões de fragmentos de informação por segundo, que os trabalhadores russos e norte-americanos saiba, hoje em dia menos acerca uns dos outros do que um século atrás.

Todos os regimes da história tiveram de produzir e difundir a informação de que precisavam para sobreviver, numa tensão permanente entre manterem os povos ignorantes e dar-lhes a informação necessária à realização de tarefas. É sempre difícil, no entanto, garantir que uma tal informação não venha a ser utilizada contra si mesma; os gladiadores podem ser levados a matar-se um ao outro na arena, mas muitas vezes acontece que um tal exercício constitui o caminho para a revolta.

A censura foi a arma usada pela burguesia no século XIX; na «sociedade da informação» dos nossos dias, porém, a censura já assumiu outras formas. Inundando-nos com vagas de vagas informações, espera-se assim que os factos reais se desgastem ao baterem nos rochedos da insignificância, e fiquem esquecidos. A informação, tal como acontece com as vias de comunicação (estradas, vias aéreas e marítimas), só se torna disponível quando e onde o comércio precisar dela para realizar lucros, ou onde as pessoas, devido a condições locais, tenham posto em perigo esses lucros. Os canais de informação ( telefone, televisão, bancos de dados) funcionam do mesmo modo.

«A política da informação, escrevia Goebbels nos seus diários, é uma arma de guerra; o seu objectivo é levar a cabo a guerra, e não transmitir notícias». Referia-se isto aos sujos tempos de Belsen e Dachau, quando se tentou censurar algo tão enorme como o holocausto, conseguindo-se de resto até certo ponto e durante algum tempo. Nestes nossos dias mais limpos, se a informação de tal modo se tornou uma arma espectacular, é muito simplesmente porque ela é uma arma do espectáculo.

A «sociedade da informação» proclama pois haver hoje uma maior aceso à informação. Mas esta corriqueira ficção científica de jornalista omite, nisto, o ponto essencial, que é o seguinte: toda essa deformada informação é cuidadosamente produzida, sendo a sua produção cuidadosamente controlada. Uma tal ficção omite, ainda, o facto de a informação real ser hierarquicamente controlada.

Aquilo que é apresentado nos milhares de bancos de dados ( estações de TV, revistas e jornais, bibliotecas, sistemas de transmissões por cabos, sistemas de computarização de dados) é preparado segundo parâmetros cuidadosamente estudados. A informação fornecida através de sistemas públicos ( tanto na qualidade de serviços como na de mercadorias) é definida segundo determinados parâmetros de informação, ao passo que a informação de que precisam as grandes empresas ou os governos funciona em moldes muito diferentes. Os indivíduos que controlam os bancos de dados são a elite real – não tanto à maneira do Grande Irmão de 1984 que nos espia, mas mais à duma Esponja Gigantesca gotejando informação deformada.

A democracia do espectáculo insiste em que há hoje uma quantidade maior de informação disponível; mas a verdadeira natureza do poder hierárquico encerra a informação nos seus parâmetros próprios. O espectáculo da democracia significa que tudo isso é semelhantemente inútil – o resumo dum texto de Goethe, enviado para um computador doméstico por um outro computador, reduz Goethe e o seu tempo a uma banalidade.

O poder de quem decide que informação deve ser dada e qual convém omitir é igual ao poder dos detentores monopolistas de jornais ou de estações de televisão. Apesar de algumas destas coisas poderem ser corrigidas no interior do capitalismo, na medida em que se aperfeiçoar a tecnologia nesse sentido, o que subsiste e importa é a natureza hierárquica da informação.

Quando a informação deformada não é suficiente, invoca-se o sigilo, geralmente com uma justificação militar.

(texto publicado na revista Pravda nº 4 , Verão de 1986, das edições Fenda, e que foi extraído do livro «And Yet It Moves. The realization and suppression of science and technology» de Boy Igor)

O Espectaculotariado


O proletariado que apareceu com a Revolução Industrial já pouco tem de comum com o espectaculotariado dos nossos tempos. O reino da Mercadoria penetrou até ao fundo de todas as áreas do nosso modo de vida quotidiano: na informação, no ócio, na cultura, no sexo, na linguagem… Hoje, qualquer actividade humana gera uma enorme quantidade de Mais-Valia. Mas com a emergência do Espectáculo Global, isto é, do Estado Espectaculista, surge o espectaculotariado.


O proletariado bateu-se e envolveu-se historicamente na luta de classes

O espectaculotariado envolve-se por sua vez em muitas classes de luta

Face à histórica luta de classes, irrompem hoje muitas classes de luta
(extraído do nº 1 de «los plegos de La Infiltracion)

3.7.05

A hipocrisia do G8: o abismo entre o negócio das armas e as ajudas

Os Estados ricos gastam mais de 1 bilião de dólares em armamento, ao passo que gastam tão somente 79.000 milhões em ajudas às populações mais pobres e carenciadas.
Isto significa que por cada 100 dólares entregues à poderosa indústria de armamento, os mais pobres do planeta recebem 7,90 dólares.

«A despesa militar mundial está a ultrapassar o nível de despesas atingido durante o período da chamada guerra fria», pode-se ler no relatório sobre as despesas em armamento publicado periodicamente pelo Instituto Internacional de Investigações para a Paz em Estocolmo (SIPRI)

Os Estados Unidos é o país com a maior despesa militar do mundo, já que o seu orçamento militar ultrapassa o total das despesas militares dos 35 países mais ricos do mundo.

Façamos algumas comparações:

Os Estados Unidos gastam 455.300 milhões de dólares em armas, mas só 19.000 para ajudas às populações e países mais pobres

O Reino Unidos gasta 47.400 milhões de dólares em armas mas só 7.800 milhões em ajudas

A França gasta 46.200 milhões de dólares em armas, mas só 8.500 milhões em ajudas aos países subdesenvolvidos

O Japão gasta 42.400 milhões dólares em armamento, mas só 8.900 milhões de dólares em ajudas

A educação popular

Para nós a EDUCAÇÃO POPULAR significa:

- O desenvolvimento de uma consciência crítica sobre o mundo em que vivemos
- A promoção da justiça social e ambiental, independente de lucro económico
- A valorização do conhecimento criativo, emocional mais do simples factos

Na PRÁTICA isto envolve:
- Conhecer o grupo e o seu contexto antes de mais nada, e tentando que as sessões sejam capazes de satisfazer as necessidades deles/delas.
- Trabalhar com base nas práticas existentes e no conhecimento dentro dos grupos de uma forma não-hierárquica.
- Estimular o debate e o livre pensamento em vez de factos consumados
- Apoiar acções futuras, identificando as oportunidades locais para a organização, a construção de redes e o reforço de contactos.

Estão abertas as nomeações para os prémios de 2005 para a estupidez mundial

Se alguém conhecer quem mereça o Óscar da idiotice, não hesite em nomeá-lo para os prémios 2005 da estupidez mundial.

2.7.05

Banca despediu, paga menos salários e lucra mais

O número de trabalhadores da banca caiu 2,5% em 2004, o que representa menos 1334 trabalhadores.
No final do ano de 2004 o sector empregava 51.523 empregados. Registou-se ainda no ano passado uma descida das despesas em salários. Com efeito, as despesas com pessoal baixaram 5%, para 2.117 milhões de euros, tendo o peso dos salários diminuído 1,8%, isto é, para 1.609 milhões. Os encargos sociais caíram 6,5% e as despesas com pensões 8,3%.
As informações foram recolhidas junto do boletim Informativo da própria AssociaçãoPortuguesa de Bancos, noticiou o Jornal de Notícias.

Os impostos sobre os lucros dos bancos diminuíram

Segundo o Boletim Informativo da Associação Portuguesa dos Bancos, a que se reporta a notícia publicada no Jornal de Notícias do passado 29 de Junho, os impostos pagos sobre os lucros pelo sector bancário diminuíram 39,9% face ao ano anterior, para qualquer coisa como 172 milhões de euros.

Afinal, há países cujas despesas públicas são ainda maiores que em Portugal

A despesa total do Estado será em 2005 o equivalente a 49,3% do PIB, ou seja, a 62,072 mil milhões de euros. A isto não é estranho o facto do peso do Estado na riqueza produzida ter aumentado.
Acontece que, ao contrário do que vem sendo noticiado pelos gurus do costume, as despesas do Estado português até nem são das maiores.
Na União Europeia, por exemplo, na França, na Áustria ( ambos da zona euro) e na Suécia , as despesas públicas dos respectivos Estado ultrapassam mesmo a barreira dos 50% na França e a Áustria, sendo até muito superiores na Suécia.
O Estados espanhol contabiliza despesas de 40% do seu PIB.

Catecismo católico não condena a pena de morte

Foi apresentado o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica pelo Papa bento XVI, que segue fielmente e doutrina do Catecismo da Igreja católica, assinado por João Paulo II em Junho de 1992. O presente Compêndio com 205 páginas é uma súmula com perguntas e respostas do Catecismo de 1992 que contava com 450 páginas indigestas mesmo a qualquer católico.
Este compêndio continua a considerar imoral a fecundação artificial, a proibir a comunhão aos católicos divorciados que voltarem a casar-se, reconhece a desobediência civil quando as leis se opõem à moral, assim como a legítima defesa, e quanto à pena de morte, ainda que a considere que não tem sentido nas actuais sociedades, não é objecto de nenhuma condenação contundente.

Fonte: JN de 29 de Junho de 2005-07-02

Chumbo está a envenenar as aves

As aves aquáticas que vivem em Portugal ou aqui demandam as zonas húmidas estão a sofrer envenenamento pelo chumbo, que se vai acumulando no seu habitat, em consequência da actividade venatória dos caçadores que utilizam munições ,de chumbo em zonas como arrozais, pequenas lagoas e açudes e que assim estão a matar prematuramente as suas próprias presas ( patos reais ou marrecos e galinhas de água). Curiosamente os próprios caçadores poderão ser também vítimas desse mesmo envenenamento se consumirem a carne desse animais.
Espanha já aprovou legislação a vedar o uso do chumbo.

Transvaze de água do Tejo

O governo espanhol acabou de autorizar o transvaze de 82 hectómetros de água entre as baxias do Tejo e do Seguro, pondo fim a um conflito entre as comunidades de Castilla e de Múrcia, mas diminuindo o caudal do rio que chega a território português. Desse montante total, 39hm3 será para abastecimento humano e 43hm3 para regadio.
O porta-voz do governo da comunidade de Castilla já disse que a decisão contentou alguns regantes mas colocou em risco o abastecimento de água a 3 milhões de pessoas.
As autoridades portuguesas estão atentas ao problemas e já declararam que a decião não viola a Convenção sobre a Cooperação para a Protecção e o Aproveitamento Sustentável das Águas das Bacias Hidrográficas luso-espanholas que foi assinado em Albufeira a 30 de Novembro de 1998.

Alguns sectores económicos

O sector dos moldes em Portugal emprega cerca de 7500 trabalhadores, cada vez mais qualificados dada a natureza do trabalho, e mais de 90% da sua produção vai para exportação, que representa 349 milhões de euros de volume de negócios.
Por sua vez a indústria automóvel abrange dois tipos de produções: a montagem e a de componentes. Ambos valem 1,7 % da riqueza produzida em Portugal, e representam mais de 20% das nossas exportações. Na montagem destacam-se as empresas da Autoeuropa e da Opel. Quanto à dos componentes, é constituída essencialmente por empresas nacionais que produzem baterias, travões, consolas e couro para estofos.Aliás a grande maioria dos assentos dos carros de todo o mundo são feitos em Portugal.
A indústria têxtil representa 17 % das exportações portuguesas.
O sector da indústria de calçado representa 8% do total das exportações nacionais.
Quanto ao sector turístico, este já contribui 11% para o PIB. Além disso Portugal ocupa o 16º lugar no ranking dos destinos turísticos mais procurados

Dinheiro plástico

Em 2004 o número de cartões bancários no sistema Multibanco chegou aos 16,19 milhões de unidades.
A rede Caixa Automática Multibanco tinha em funcionamento, no final de 2004, 10.085 terminais, mais 8,2% do que em 2003, e tinham-se realizado um total de 1.405 milhões de operações em 2004, num montante de 53.438 milhões de euros.

Eu me confesso refractário e desertor desse mundo.

Perigosa concentração de óxido de azoto na VCI

O tráfego rodoviário na VCI na cidade do Porto provoca uma concentração de óxido de azoto (NO2), que é quase o dobro do valor aceitável para a saúde pública ( esse valor é de 50 microgramas por metro cúbico de NO2). Na zona da Boavista os valores chegam aos 98,3 microgramas por metro cúbico.
O óxido azótico provoca irritação ocular e respiratória e, em condições extremas, pode levar à asfixia.

Fonte: JN 29/6

Já há peixes mortos no rio Sabor!

Apareceram milhares de peixes mortos a boiar no rio Sabor, em Gimonde, no concelho de Bragança. As causas, apesar de desconhecidas, apontam para uma descarga criminosa de um ETAR ( estação de tratamento de águas residuais) instalada há sete anos no local.

Os eleitores são condicionados pela propaganda

Politólogos estiveram reunidos em Vila Real a estudar e discutir os comportamentos políticos e eleitorais. Uma das intervenções pretendeu demonstrar que o ambiente informativo a que uma pessoa está exposta condiciona a sua opção eleitoral. Ou seja, a repetição constante de determinada opção nos mass media prevalece sobre a identificação partidária e mesmo ideológica.

Fonte: JN 23/6

Câmaras de videovigilância ameaçam a privacidade

As 5 câmaras que vigiam os 18 Km de extensão da área de paisagem protegida do litoral de Esposende são tão potentes que conseguem não só identificar o rosto de alguém, ler detalhadamente a matrícula dos carros como ainda ver tudo o que se passa nos terraços, nas varandas e nos interior das habitações circunvizinhas.

Vídeo desmonta a invenção do «arrastão de Carcavelos»

A conhecida jornalista Diana Andringa realizou um vídeo que desmonta o pseudo-acontecimento que constituiu o chamado «arrastão» na praia de Carcavelos. Os factos revelam bem como as notícias são produzidas pelos jornalistas e reporters, sobretudo da dos canais de TV, e em que medida a invenção de acontecimento pode alimentar os preconceitos mais enraizados nas mentalidades mais racistas e nas atitudes de cáracter xenófobo, para além dos aproveitamentos que a extrema-direita não deixou de fazer dos factos assim «inventados»

Porsche vende 48 carros em Junho

Apesar de todo o ambiente económico que se vive em Portugal, soube-se hoje que a Marca de automóveis Porsche vendeu no mês de Junho 48 automóveis topo de gama, um número record nos anais da história do representante da marca no nosso país.

Portugal é o país europeu onde se faz menos exercício físico.

A uma pergunta sobre se faz exercício físico ou se pratica desporto, os portugueses levaram a palma da inércia comparativamenta a todos os outros países. Com efeito, 665 dos inquiridos em Portugal disseram que nunca faziam exercício físico ou praticavam desporto. Seguiram-se a Hungria ( 60%), a Itália (58%), a Grécia (57%), a Espanha (47%), a Alemanha (36%), a França (35%), o Reino Unido (31%), a Dinamarca ( 17%), a Suécia (7%), a Finlândia (4%).
A média da EU é de 40% de europeus que não fazem exercício físico algum.

Estados Unidos acusados de esconder presos em navios

O relator especial da ONU contra a tortura, Manfred Nowak, acabou de denunciar, em Viena, que existem muitos indícios de que os Estados Unidos utilizam navios de guerra como campos secretos de prisioneiros.
Nowak, que também chefia o Instituto Ludwig Boltzmann de Viena para os Direitos Humanos, denunciou mais esta tentativa de Washington de escapar à legislação nacional e internacional sobre o regime de tratamento a prisioneiros, e o respeito pelos direitos destes, assim como à proibição de tortura.

Fonte: JN 29/6

Prisões ilegais nos USA

A polícia norte-americana prendeu, sem quaisquer provas, dezenas de muçulmanos residentes nos Estados Unidos, após os atentados de 11 de SETEMBRO DE 2001, indica o relatório de duas organizações de defesa dos direitos humanos ( a Human Rights Watch e a American Civil Liberties Union-ACLU).
Foram detidos muçulmanos só por terem frequentado a mesma mesquita que um dos piratas doar do 11 de Setembro, ou ainda só por terem um abra-latas, exemplicaram um dos relatores da Human Watch.

Aldeia da Paradinha

A aldeia da Paradinha, situada num pequeno vale, a escassos metros da margem do rio Paiva, na freguesia de Alvarenga, Arouca, está a ser recuperada com os materiais tradicionais das aldeias como o xisto e a lousa. A população da aldeia era constituída por camponeses dedicados ao amanho da terra e por trabalhadores das minas de volfrâmio, antes de começar a desertificar-se por efeito da emigração.

Consumo de carne vermelha está associada ao cancro

Parece existir uma associação entre o consumo de carne vermelha e o risco de desenvolver cancro no intestino, revelou um estudo da European Prospective Investigation into Câncer and Nutrition, que analisou os hábitos alimentares de mais de 500 mil europeus durante 10 anos. O estudo, publicado no Journal of the National Câncer Institute, mostrou que aqueles que ingeriam mais de duas porções de 80 gramas de carne vermelha por dia tinham 30% mais probabilidades de desenvolver a patologia em relação àqueles que consomem carne apenas uma vez por semana.

Greve nos STCP teve grande adesão

A greve convocada pelo 3 sindicatos do sector representativos dos trabalhadores da Sociedade dos Transportes Colectivos do Porto (STCP) para o dia 1 de Julho paralisou a empresa: segundo os sindicatos 80% dos autocarros não circularam até às 12 horas. Os trabalhadores lutam por aumentos salariais e manutenção de direitos adquiridos

Greve dos Enfermeiros

Teve uma adesão de 85% a greve dos enfermeiros levada a cabo no dia 29 de Julho. A greve é contra o congelamento das carreiras, o adiamento da idade da reforma, e outras medidas lesivas dos direitos adquiridos.

Manif de praças da Armada contra cortes nos seus direitos

Centenas de praças da Armada manifestaram-se no passado dia 30 de Julho numa marcha entre o Estado Maior da Armada e a Assembleia da Republica, descontentes com as medidas que os prejudicam na progressão das carreiras e na assistência à saúde.

Lear anuncia encerramento da empresa

A multinacional Lear Corporation anunciou o encerramento da sua unidade fabril têxtil situada na Póvoa de Lanhoso, o que vai atirar para o desemprego mais 800 trabalhadores. O motivo é a deslocalização para os países de leste onde o custo da mão de obra é muito mais baixo.
Recorde-se que aquela empresa tinha sido inaugirada compompa e circunstancia prlo ex-ministro Pina e Moura em 13/3/1998.
Acresce que outras 14 empresas têxteis, com cerca de 400 trabalhadores, do concelho de Cabeceiras de Basto, e que forneciam para a Benetton e Zara, estão em vias de encerarrar uma vez que foi anunciado o fim das encomendas a aprtir do próximo 15 de Agosto.

Trabalhadores da Grundig fizeram greve

Os trabalhadores do complexo Grundig sediado em Braga fizeram uma greve no passado dia 28 de Junho em defesa da contratação colectiva, e pela perda de direitos adquiridos. Dados recolhidos permitem constatar que toda a linha de produção parou. Recorde-se que no complexo Grundig em Braga trabalham cerca de 2800 trabalhadores.

A Woco em Viseu vai deslocalizar-se

A empresa alemã Woco que produz componentes de borracha para a indústria automóvel em Viseu vai fechar até ao final do ano lançando mais 100 trabalhadores para o desemprego, foi anunciado pela administração da empresa.

1.7.05

Habitam-me...

«Habitam-me um animal, uma flor e um deus, mergulhados em água e fogo. Ou, por outras palavras, comungo de uma multiplicidade de elementos, que o aspecto social não consegue esgotar, apesar da sua tentação tenaz de os anular. A sociedade exige que eu negue a minha natureza animal, vegetal, mineral e divina. Tal como pretende impedir que eu seja criança só porque já sou adulta, que eu também seja homem, uma vez que sou mulher. Aos meus mil rostos procura apôr uma máscara definitiva. A isso chama ela realização.
Confesso que uma sociedade destas não me interessa.»

Regina Louro, escritora e tradutora

O general obsceno

Esta sociedade é obscena em produzir e exibir indecorosamente uma abundância sufocante de mercadorias, ao mesmo tempo que priva muitos, da satisfação das necessidades vitais; obscena em atolhar-se a si própria de bens, enquanto as latas dos seus desperdícios envenenam o mundo dos explorados (…) Obscena não é a gravura de uma mulher nua que expõe os pêlos do púbis, mas sim o general completamente vestido que exibe as suas medalhas de uma guerra de agressão.

Herbert Marcuse, in «Ensaio para a Libertação»

O vagabundo

Hoje em dia o vagabundo vê-se aflito para vagabundear devido ao aumento da vigilância policial nas auto-estradas, entrepostos ferroviárias, cais marítimos, margens de rios, aterros e mil e um esconderijos da noite industrial.
Na Califórnia, o rato de mochila, o velho tipo que vai a butes de cidade a cidade com as provisões e a cama às costas, o «irmão sem lar», desapareceu praticamente, juntamente com o antigo rato do deserto, peneirador de ouro que costumava percorrer com a esperança no coração as labutadoras cidades do Oeste que são hoje tão prósperas que já não querem velhos vagabundos.
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Grandes e sinistros carros de Polícia, pagos pelos contribuintes ( modelos de 1960 com holofotes tristes) são muito bem capazes de se abater sobre o vagabundo no seu trote idealista para a liberdade e para os montes do santo silêncio e santa intimidade. Não há nada mais nobre do que suportar algumas inconveniências como cobras e poeira por amor da liberdade absoluta.
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Considera-se que acampar um desporto saudável para escuteiros, mas um crime quando é praticado os homens adultos que disso fizeram a sua vocação. A pobreza é considerada uma virtude entre os monges das nações civilizadas, mas passa-se uma noite nos calabouços quando se é apanhado sem o mínimo admissível para vagabundear ( da última vez que tive conhecimento disso, eram cinquenta cêntimos, mas quanto será agora?)
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No tempo de Brueghel as crianças dançavam à roda do vagabundo, que vestia roupas enormes e esfarrapadas e olhava sempre em frente, e as famílias não se importavam de as suas crianças brincarem com o vagabundo, que era uma coisa natural. Mas hoje as mães agarram bem os filhos quando o vagabundo passa pela cidade por causa daquilo em que os jornais o transformaram – violentador, estrangulador, comedor de crianças. Afastam-se de desconhecidos, que lhes dão rebuçados envenenados. Embora o vagabundo de Brueghel e o vagabundo de hoje sejam o mesmo, as crianças mudaram. Onde está sequer o vagabundo chaplinesco? Hoje o vagabundo anda furtivamente – toda a gente passou a ver filmes de polícias, os actuais heróis na TV.

Jack Kerouac, in Viajante Solitário